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		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Sylvio de Lyra Rabello (Aliança, Pernambuco, 29 de novembro de 1899 - Recife, 1972) foi um psicólogo, educador e intelectual brasileiro, pioneiro nos estudos de psicologia infantil e psicologia social no Nordeste do Brasil. Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Recife em 1922, Rabello dedicou sua carreira prioritariamente à educação e à psicologia.  Foi professor catedrático de Psicologia na Escola Normal de Pernambuco (1926–1960) e na Faculdade de Filosofia da Universidade do Recife (1950–1969).  Entre seus cargos públicos, destacam-se o de Secretário de Educação e Cultura de Pernambuco (1949–1950) e Diretor Geral do SENAC-PE (1947–1962). Na década de 1930, publicou obras fundamentais sobre psicologia do desenvolvimento infantil, como Os Testes Decrolianos de desenho (1931), Características do desenho infantil (1933), Psicologia do desenho infantil (1935) e Psicologia da infância (1937).  Seus trabalhos foram pioneiros na investigação empírica da percepção de cores, formas e noção de tempo entre crianças brasileiras de 3 a 11 anos. Na maturidade, atuou como psicólogo social no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (atual Fundação Joaquim Nabuco), onde dirigiu o Departamento de Psicologia Social (1966–1972) e foi membro do Seminário de Tropicologia.  Cientista, professor, literato e provocador intelectual, Rabello é reconhecido como uma figura central na institucionalização da psicologia e da educação científica em Pernambuco. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Obras ==&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Os testes decrolianos de desenho. Recife: Imprensa Universitária, 1931. ([https://drive.google.com/file/d/1KjIjY7u5bjdENtM-EVdegIEvc47RYdh6/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Características do desenho infantil. Recife: Imprensa Universitária, 1933.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Psicologia do desenho infantil. Recife: Imprensa Universitária, 1935. ([https://drive.google.com/file/d/1ZcNCY4CPXvgP3C7jkytD6p2jOKRJ8Sd3/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Psicologia da infância. Recife: Imprensa Universitária, 1937. ([https://drive.google.com/file/d/1hjnCeYbQCm-YP0Amdh3wBuOXgUv3yapc/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. A representação do tempo na criança. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1938. ([https://drive.google.com/file/d/1YIeFRk-PNjZgIh303LDrBW9tiVnAtnus/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Clássicos Brasileiros da Psicologia ===&lt;br /&gt;
Alguns dos links dispostos neste verbete remetem ao projeto [https://memoria.historiadapsicologia.com.br/classicos-brasileiros-da-psicologia/ Clássicos Brasileiros da Psicologia], do [https://memoria.historiadapsicologia.com.br Centro de Memória e História da Psicologia (CHiP)]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Personagens]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Clássicos Brasileiros da Psicologia]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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		<updated>2026-07-31T17:55:34Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: Adicionei categoria&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Sylvio Rabello (Aliança, Pernambuco, 29 de novembro de 1899 - Recife, 1972) foi um psicólogo, educador e intelectual brasileiro, pioneiro nos estudos de psicologia infantil e psicologia social no Nordeste do Brasil. Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Recife em 1922, Rabello dedicou sua carreira prioritariamente à educação e à psicologia.  Foi professor catedrático de Psicologia na Escola Normal de Pernambuco (1926–1960) e na Faculdade de Filosofia da Universidade do Recife (1950–1969).  Entre seus cargos públicos, destacam-se o de Secretário de Educação e Cultura de Pernambuco (1949–1950) e Diretor Geral do SENAC-PE (1947–1962). Na década de 1930, publicou obras fundamentais sobre psicologia do desenvolvimento infantil, como Os Testes Decrolianos de desenho (1931), Características do desenho infantil (1933), Psicologia do desenho infantil (1935) e Psicologia da infância (1937).  Seus trabalhos foram pioneiros na investigação empírica da percepção de cores, formas e noção de tempo entre crianças brasileiras de 3 a 11 anos. Na maturidade, atuou como psicólogo social no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (atual Fundação Joaquim Nabuco), onde dirigiu o Departamento de Psicologia Social (1966–1972) e foi membro do Seminário de Tropicologia.  Cientista, professor, literato e provocador intelectual, Rabello é reconhecido como uma figura central na institucionalização da psicologia e da educação científica em Pernambuco. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Obras ==&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Os testes decrolianos de desenho. Recife: Imprensa Universitária, 1931. ([https://drive.google.com/file/d/1KjIjY7u5bjdENtM-EVdegIEvc47RYdh6/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Características do desenho infantil. Recife: Imprensa Universitária, 1933.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Psicologia do desenho infantil. Recife: Imprensa Universitária, 1935. ([https://drive.google.com/file/d/1ZcNCY4CPXvgP3C7jkytD6p2jOKRJ8Sd3/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Psicologia da infância. Recife: Imprensa Universitária, 1937. ([https://drive.google.com/file/d/1hjnCeYbQCm-YP0Amdh3wBuOXgUv3yapc/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. A representação do tempo na criança. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1938. ([https://drive.google.com/file/d/1YIeFRk-PNjZgIh303LDrBW9tiVnAtnus/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Clássicos Brasileiros da Psicologia ===&lt;br /&gt;
Alguns dos links dispostos neste verbete remetem ao projeto [https://memoria.historiadapsicologia.com.br/classicos-brasileiros-da-psicologia/ Clássicos Brasileiros da Psicologia], do [https://memoria.historiadapsicologia.com.br Centro de Memória e História da Psicologia (CHiP)]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Personagens]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Clássicos Brasileiros da Psicologia]]&lt;/div&gt;</summary>
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		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Sylvio Rabello (Aliança, Pernambuco, 29 de novembro de 1899 - Recife, 1972) foi um psicólogo, educador e intelectual brasileiro, pioneiro nos estudos de psicologia infantil e psicologia social no Nordeste do Brasil. Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Recife em 1922, Rabello dedicou sua carreira prioritariamente à educação e à psicologia.  Foi professor catedrático de Psicologia na Escola Normal de Pernambuco (1926–1960) e na Faculdade de Filosofia da Universidade do Recife (1950–1969).  Entre seus cargos públicos, destacam-se o de Secretário de Educação e Cultura de Pernambuco (1949–1950) e Diretor Geral do SENAC-PE (1947–1962). Na década de 1930, publicou obras fundamentais sobre psicologia do desenvolvimento infantil, como Os Testes Decrolianos de desenho (1931), Características do desenho infantil (1933), Psicologia do desenho infantil (1935) e Psicologia da infância (1937).  Seus trabalhos foram pioneiros na investigação empírica da percepção de cores, formas e noção de tempo entre crianças brasileiras de 3 a 11 anos. Na maturidade, atuou como psicólogo social no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (atual Fundação Joaquim Nabuco), onde dirigiu o Departamento de Psicologia Social (1966–1972) e foi membro do Seminário de Tropicologia.  Cientista, professor, literato e provocador intelectual, Rabello é reconhecido como uma figura central na institucionalização da psicologia e da educação científica em Pernambuco. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Obras ==&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Os testes decrolianos de desenho. Recife: Imprensa Universitária, 1931. ([https://drive.google.com/file/d/1KjIjY7u5bjdENtM-EVdegIEvc47RYdh6/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Características do desenho infantil. Recife: Imprensa Universitária, 1933.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Psicologia do desenho infantil. Recife: Imprensa Universitária, 1935. ([https://drive.google.com/file/d/1ZcNCY4CPXvgP3C7jkytD6p2jOKRJ8Sd3/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Psicologia da infância. Recife: Imprensa Universitária, 1937. ([https://drive.google.com/file/d/1hjnCeYbQCm-YP0Amdh3wBuOXgUv3yapc/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. A representação do tempo na criança. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1938. ([https://drive.google.com/file/d/1YIeFRk-PNjZgIh303LDrBW9tiVnAtnus/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Clássicos Brasileiros da Psicologia ===&lt;br /&gt;
Alguns dos links dispostos neste verbete remetem ao projeto [https://memoria.historiadapsicologia.com.br/classicos-brasileiros-da-psicologia/ Clássicos Brasileiros da Psicologia], do [https://memoria.historiadapsicologia.com.br Centro de Memória e História da Psicologia (CHiP)]&lt;/div&gt;</summary>
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		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: Criação do verbete&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Sylvio Rabello (Aliança, Pernambuco, 29 de novembro de 1899 - Recife, 1972) foi um psicólogo, educador e intelectual brasileiro, pioneiro nos estudos de psicologia infantil e psicologia social no Nordeste do Brasil. Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Recife em 1922, Rabello dedicou sua carreira prioritariamente à educação e à psicologia.  Foi professor catedrático de Psicologia na Escola Normal de Pernambuco (1926–1960) e na Faculdade de Filosofia da Universidade do Recife (1950–1969).  Entre seus cargos públicos, destacam-se o de Secretário de Educação e Cultura de Pernambuco (1949–1950) e Diretor Geral do SENAC-PE (1947–1962). Na década de 1930, publicou obras fundamentais sobre psicologia do desenvolvimento infantil, como Os Testes Decrolianos de desenho (1931), Características do desenho infantil (1933), Psicologia do desenho infantil (1935) e Psicologia da infância (1937).  Seus trabalhos foram pioneiros na investigação empírica da percepção de cores, formas e noção de tempo entre crianças brasileiras de 3 a 11 anos. Na maturidade, atuou como psicólogo social no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (atual Fundação Joaquim Nabuco), onde dirigiu o Departamento de Psicologia Social (1966–1972) e foi membro do Seminário de Tropicologia.  Cientista, professor, literato e provocador intelectual, Rabello é reconhecido como uma figura central na institucionalização da psicologia e da educação científica em Pernambuco. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Obras ==&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Os testes decrolianos de desenho. Recife: Imprensa Universitária, 1931. ([https://drive.google.com/file/d/1KjIjY7u5bjdENtM-EVdegIEvc47RYdh6/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Características do desenho infantil. Recife: Imprensa Universitária, 1933.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Psicologia do desenho infantil. Recife: Imprensa Universitária, 1935. ([https://drive.google.com/file/d/1ZcNCY4CPXvgP3C7jkytD6p2jOKRJ8Sd3/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Psicologia da infância. Recife: Imprensa Universitária, 1937. ([https://drive.google.com/file/d/1hjnCeYbQCm-YP0Amdh3wBuOXgUv3yapc/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. A representação do tempo na criança. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1938. ([https://drive.google.com/file/d/1YIeFRk-PNjZgIh303LDrBW9tiVnAtnus/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Links especiais&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Alguns dos links dispostos neste verbete remetem ao projeto [https://memoria.historiadapsicologia.com.br/classicos-brasileiros-da-psicologia/ Clássicos Brasileiros da Psicologia], do [https://memoria.historiadapsicologia.com.br Centro de Memória e História da Psicologia (CHiP)]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_surgimento_da_psicologia_cient%C3%ADfica&amp;diff=1725</id>
		<title>O surgimento da psicologia científica</title>
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		<updated>2026-07-31T17:31:37Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: Correção de links&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto [[Portal História da Psicologia]]) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um longo passado, uma curta história ==&lt;br /&gt;
A psicologia tem um longo passado, mas uma curta história. Esta é uma frase muito famosa no campo da história da psicologia, tendo sido consagrada por Hermann Ebbinghaus, um psicólogo alemão pioneiro no estudo da memória, ainda no século XIX. A frase é exemplar sobre como é difícil dizer quando a psicologia teve início. Retomemos ela em mais detalhes. A psicologia tem um longo passado, porque os temas que consideramos hoje como parte da psicologia aparecem muitas vezes na filosofia, na religião, em saberes tradicionais, entre muitos outros lugares. É difícil estabelecer qual o objeto de estudo da história da psicologia, assim como é difícil, ao longo da história, separar o que é  psicologia daquilo que não é psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse longo passado pode remontar, por exemplo, à Antiguidade, com o tratado De Anima de Aristóteles, que escreveu muito antes de se imaginar o próprio conceito de ciência moderna e, menos ainda, de uma psicologia moderna. Outros podem colocar o lugar de início da psicologia em Descartes, que elaborou a máxima, também famosa, “penso, logo existo”. Isso mostra que os objetos de estudo da psicologia são historicamente construídos, ou seja, emergem a partir dos locais ou pessoas que atuaram na psicologia, como na medida das diferenças individuais, as dinâmicas de controle num laboratório, nas práticas de psicoterapia, entre muitas outras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se cada historiador localiza o passado da psicologia em lugares diferentes no tempo e no espaço, a história da psicologia, por seu lado, tem uma definição bem mais estável e curta. Nos anos 1980, os historiadores, reunidos num congresso nos EUA, definiram que a psicologia científica teria começado em 1879, quando Wilhelm Wundt fundou o primeiro laboratório de psicologia experimental na Universidade de Leipzig, na Alemanha. Essa definição está consagrada e é quase um consenso, porém, não foi tão simples estabelecê-la. Alguns advogavam pelo pioneirismo de outro alemão, Theodore Fechner, criador da chamada psicofísica, de onde vieram muitos dos experimentos e ideias de Wundt. Outros ainda queriam que William James, um filósofo e psicólogo americano, fosse reconhecido como fundador, pois seu laboratório de psicologia era ainda mais antigo que o de Wundt que, no final, venceu essa disputa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Resumindo, a psicologia possui um “longo passado”, com raízes filosóficas e religiosas milenares e altamente diversas, e uma “curta história” como disciplina científica, cujo marco está situado em 1879, com a fundação do primeiro laboratório experimental por Wilhelm Wundt, na Alemanha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Presentismo ===&lt;br /&gt;
Mas o que seriam essas psicologias anteriores a essa psicologia científica? Para entender melhor essa história, é preciso refletir para superar, da melhor forma, um problema chamado “presentismo”, ou seja, julgar, entender, interpretar e analisar o passado com a visão do presente. Não é apenas uma questão de olhar para as pessoas do passado e superar o pensamento de que elas eram “ignorantes”, pois “não tinham o conhecimento que temos hoje”. É entender também que, no passado, haviam formas de conhecimentos diferentes, bem como visões de mundo diferentes da atual. Pensando em termos da psicologia, como elas seriam diferentes?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo interessante é o conceito de atenção. Hoje, ela é um tema tão discutido e consensual que pouco se reflete sobre seu significado. Atualmente, seria algo como centralizar as faculdades mentais em um lugar específico. Pode-se ouvir as pessoas reclamando que “não conseguem prestar atenção”, ou que nunca “mantém a atenção”, e até mesmo existem medicamentos para resolver esse problema. Contudo, a palavra “atenção” nem sempre significou o que entendemos hoje. Para Santo Agostinho, atenção era apenas o ato de passar de um pensamento para outro. Descartes tinha um conceito mais parecido com o contemporâneo, onde a atenção era mobilizada de forma voluntária para fixar e reter na memória coisas raras e extraordinárias que o entendimento considerava úteis. Na obra de Locke, a atenção é mencionada apenas de passagem, como um mero mecanismo auxiliar da retenção de memórias. A partir do momento em que a ciência demonstrou que a percepção depende da estrutura física e biológica do corpo (com a psicofísica e a fisiologia sensorial), já no século XIX, a visão passou a ser encarada como intrinsecamente incompleta, instável e condicionada pelo tempo. Nesse contexto, a atenção foi utilizada como um substituto pragmático para garantir a coerência do mundo percebido. Autores do final do século XIX, como Théodule Ribot e Max Nordau, associaram os desvios ou a fraqueza da atenção a patologias psíquicas, comportamentos sociopáticos e teorias da “degeneração”. Para eles, uma atenção defeituosa deixava a mente à mercê de “associações caóticas”, gerando uma visão borrada e distorcida da realidade. Foi apenas na década de 1950 que a nossa compreensão contemporânea de atenção começou a se delinear, paralelamente aos estudos sobre os medicamentos desenvolvidos para tratar as suas disfunções.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma pessoa desavisada, que não está atenta às grandes diferenças entre as ideias e conceitos ao longo do tempo, poderia ler um trecho de Ribot e achar que a atenção do qual ele fala é a mesma coisa que entendemos hoje. O leitor estaria totalmente enganado, a ponto de não conseguir nem mesmo compreender o que Ribot queria dizer. Em outras palavras, o esforço para entender as psicologia do passado passa também pelo esforço de entender como se pensava no passado, qual a visão que se tinha nesse passado. Parte do esforço do historiador é trazer esses aspectos de volta ao presente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O sujeito transcedental de Kant ==&lt;br /&gt;
A concepção de uma psicologia ocupada especificamente com a “mente” humana e suas operações começou a ganhar contornos modernos no século XVIII com o filósofo Christian Wolff. Ele dividiu a psicologia em Psicologia Empírica, num livro publicado em  1732 e baseada na introspecção; e em Psicologia Racional, numa obra de 1734, dedicada a deduzir a natureza e a essência da alma, como sua imortalidade e imaterialidade, de forma puramente lógica e racional, independentemente da experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, o projeto de Wolff enfrentava um sério problema metodológico, a chamada observação interna ou introspecção. Quando se estuda um fenômeno natural, como a chuva, é necessário observar o que acontece, incluindo como as nuvens se formam, qual a umidade do ar, a intensidade dos raios solares, a direção dos ventos, entre muitos outros fatores, todos objetos externos do sujeito. Toda a ciência é feita dessa forma, observando, testando e analisando o mundo que está fora dos indivíduos. O problema está em estudar algo que é interno aos sujeitos. Não se pode observar diretamente o que se passa na cabeça de alguém, contudo, é possível analisar o que se passa nas nossas próprias cabeças. Isso seria a introspecção, ou seja, o processo pelo qual adquirimos conhecimento sobre nossos próprios estados ou processos mentais Apesar de ser uma ideia interessante, fazer introspecção não era considerado algo muito científico. Entendia-se que “observar a si mesmo” distorcia os eventos mentais, pois o sujeito que observa e o objeto observado são o mesmo, o que impediria a neutralidade exigida pelo modelo científico então vigente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até a segunda metade do século XVIII, as teorias do conhecimento, que incluíam o empirismo e o racionalismo, compartilhavam a premissa de que o conhecimento era determinado pelo objeto a ser conhecido. O objeto estava lá, esperando a melhor forma de ser conhecido. Kant, em sua obra Crítica da Razão Pura (1781), inverteu essa lógica de forma radical. Ele propôs que não é o conhecimento que se adequa aos objetos, mas são os objetos que são determinados pelo sujeito. O conhecimento passou a ser compreendido não como uma recepção passiva, mas como uma produção ativa do chamado sujeito transcendental, moldada por suas formas a priori.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O sujeito transcendental em Kant não se refere propriamente a um indivíduo empírico ou psicológico, ou seja, alguém com personalidade e história pessoal. Pense no sujeito transcendental não como “você” (André ou Maria), mas como o “sistema operacional” universal da mente humana. Assim como um software organiza os dados que chegam do teclado, o sujeito transcendental organiza os dados que chegam dos sentidos, como o tempo e o espaço, antes mesmo de termos consciência deles.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o sujeito transcedental, é preciso fazer um importante exercício de abstração, visando conseguir entender algo que está além da experiência existencial individual e entender aquilo que molda essa própria experiência. O sujeito transcedental de Kant é uma condição universal de possibilidade para qualquer conhecimento. Em outras palavras, é algo que todas as pessoas possuem e é a forma que o ser humano tem para saber as coisas. É a estrutura ativa da mente que organiza a experiência antes mesmo que possamos refletir sobre ela. Esse sujeito é o princípio unificador que garante a coerência dos dados sensoriais, transformando o caos de impressões oriundas dos órgãos dos sentidos em uma experiência significativa e estruturada. Através das formas a priori da sensibilidade (espaço e tempo) e das categorias do entendimento, o sujeito transcendental “constrói” o objeto conhecido. Ele é o “Eu penso” que deve poder acompanhar todas as nossas representações, conferindo unidade à consciência. Em suma, não conhecemos o mundo como ele é em si, mas como o sujeito transcendental o molda e o organiza para que se torne inteligível para nós.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Immanuel Kant revolucionou a teoria do conhecimento ao postular que a mente humana não funciona como um receptáculo passivo de impressões sensoriais, mas sim como um agente ativo dotado de estruturas constitutivas a priori que organizam, unificam e interpretam a matéria-prima da experiência. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo de constituição do conhecimento dos fenômenos que chegam para nossa mente a partir dos órgãos dos sentidos articula-se em três instâncias fundamentais. A primeira são as formas puras da sensibilidade, depois vem os conceitos puros do entendimento, ou seja, as categorias e, por fim, a unidade sintética da apercepção. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas formas puras da sensibilidade, antes mesmo que o intelecto possa aplicar qualquer conceito, o caos das sensações brutas é necessariamente ordenado no espaço e no tempo, que não são propriedades das coisas em si, mas intuições puras da sensibilidade que funcionam como os eixos coordenados onde os fenômenos são dados. Ou seja, as informações dos sentidos já chegam num espaço e num tempo para o resto do processo de constituição do conhecimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma vez colocados no espaço e estruturados numa sucessão e simultaneidade temporal, esses dados passam pelas doze categorias do entendimento puro. Essas categorias se dividem em quatro classes de tríades: quantidade, qualidade, relação e modalidade. As categorias representam as regras lógicas puras, fundamentais e necessárias para tornar qualquer objeto da experiência inteligível. Elas podem ser observadas de forma simplificada na tabela a seguir:&lt;br /&gt;
{| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot;&lt;br /&gt;
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|Categoria 3 (Síntese)&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|1. Quantidade&lt;br /&gt;
|Unidade&lt;br /&gt;
|Pluralidade&lt;br /&gt;
|Totalidade&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|2. Qualidade&lt;br /&gt;
|Realidade&lt;br /&gt;
|Negação&lt;br /&gt;
|Limitação&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|3. Relação&lt;br /&gt;
|Substância e Acidente&lt;br /&gt;
|Causa e Efeito&lt;br /&gt;
|Ação Recíproca&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|4. Modalidade&lt;br /&gt;
|Possibilidade (Impossibilidade)&lt;br /&gt;
|Existência (Não-existência)&lt;br /&gt;
|Necessidade (Contingência)&lt;br /&gt;
|}&lt;br /&gt;
As categorias de quantidade dizem respeito à extensão em que aplicamos um conceito aos objetos, ou seja, “quantos” elementos estamos considerando no juízo. Na unidade, temos um único objeto. Na pluralidade, trazemos vários objetos do mesmo tipo para um conjunto. Já a totalidade surge quando pensamos a pluralidade como uma unidade completa.Vejamos um exemplo. Quando um observador vê uma maçã, aplica a categoria da unidade, ou seja, ele viu uma maçã. Ao ver várias maçãs espalhadas na mesa, apreende uma pluralidade, ou seja, ele tem um conceito de “maçãs” e as vê como um conjunto. Porém, ao formular uma lei universal, aplica-se a totalidade, que engloba toda a pluralidade possível sob uma única regra conceitual, ou seja, todas as maçãs são frutas e existem vários tipos de maçãs.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade trata da atribuição de um predicado, ou seja, se a experiência afirma algo, nega algo ou se situa num limite conceitual. Em outras palavras, é a forma da mente definir “como algo é”. A realidade é afirmação de que um predicado pertence a um ser, ou seja, ele é alguma coisa. A negação é a afirmação de que o predicado não pertence a algo, ou seja, um “não-ser”. A limitação é a síntese das duas anteriores. Atribui-se uma negação como se fosse uma realidade, excluindo aquilo de uma esfera, mas deixando infinita a esfera onde ele pode estar. Vamos a um exemplo. Dizer “O homem é mortal” aplica a categoria de realidade (afirma-se um atributo). Dizer “O homem não é mortal” aplica a negação. No entanto, dizer “A alma é não-mortal (imortal)” é um juízo infinito clássico de Kant que evoca a limitação. Não sabemos o que a alma é de fato, mas a limitamos removendo ela da esfera das coisas mortais, o que a situa num campo aberto e indeterminado de possibilidades.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Consideradas por muitos comentadores como o coração da epistemologia kantiana, as categorias de relação definem como os objetos se relacionam entre si e como permanecem ou mudam no tempo. Substância e Acidente referem-se àquilo que permanece através da mudança (substância) e as propriedades que são transitórias, ou seja, que mudam (acidentes). Um exemplo disso é a água de um lago que congela no inverno. Seu estado físico muda do líquido para o sólido, que é o acidente, mas a matéria da água em si, a substância, permanece inalterada. Sem a categoria de substância, nossa mente registraria apenas uma sucessão caótica de imagens, sem reconhecer que se trata da mesma “coisa” sofrendo alteração. A Causa e Efeito é a relação estritamente necessária onde um evento segue outro no tempo. O exemplo de Kant, em resposta ao filósofo David Hume, é sobre o sol que ilumina uma pedra, e a pedra esquenta. Hume diria que inferimos causalidade por mero hábito psicológico, ou seja, não há conexão necessária, apenas uma observação e uma intuição. Kant argumenta que o próprio fato de distinguirmos uma sucessão objetiva de eventos exige que a mente aplique a categoria a priori de Causalidade. A mente “dita” a regra estrutural de que o aquecimento necessariamente sucede a irradiação solar, colocando uma como causa da outra. Já na Ação Recíproca (Comunidade), tem-se a relação simultânea de mútua influência entre múltiplas substâncias no espaço como, por exemplo, a interação gravitacional entre a Terra e a Lua. Elas não são eventos sucessivos no tempo, mas existem simultaneamente e influenciam-se de modo contínuo e bidirecional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, temos as categorias modais. Eles são os Postulados do Pensamento Empírico e não acrescentam nenhum atributo novo ao objeto em si, mas definem exclusivamente como esse objeto ou evento se relaciona com o sujeito cognitivo e suas faculdades. No caso da Possibilidade-Impossibilidade, é algo que concorda com as condições formais, que são as condições lógicas e puras da experiência. No binômio Existência-Não-existência, é algo que está dado materialmente na intuição empírica, ou seja, nos sentidos. Já na Necessidade-Contingência, é algo cuja conexão com a experiência empírica está determinada por condições universais. Vamos a um exemplo. Um dragão voador de escamas verdes ou um triângulo cujos ângulos somam 180 graus são conceitos logicamente possíveis, ou seja, não envolvem contradição formal. No entanto, apenas um objeto sensorialmente verificável, como a caneta sobre a sua mesa, tem a marca da existência. Já o fato de que um objeto massivo abandonado no ar cairá em direção ao solo é uma necessidade ditada pelas leis empíricas que o entendimento prescreve à natureza, ou seja, atribui a ele.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Acima dessas estruturas, Kant postulou a apercepção ou apercepção transcendental, que é o processo pelo qual a mente unifica de forma ativa diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Sem a apercepção, a mente seria apenas um amontoado de estímulos desconectados. Assim, a aperceção a base da própria consciência humana. Devido a essa complexa mediação ativa da mente, Kant estabeleceu uma distinção insuperável entre o mundo externo e a mente. Isso significa dizer que nós não temos acesso à “coisa em si”, ou noumenon, mas apenas a como as coisas nos aparecem, ou seja, na forma de fenômeno, já devidamente processadas pelo nosso aparato cognitivo. Neste sentido, É importante distinguir o “Eu empírico”, ou seja, aquilo que observamos em nós mesmos, como nossa personalidade ou o nosso humor, do “Eu transcendental”, a pura unidade lógica do “Eu penso”. Ademais, a apercepção transcendental não é uma faculdade psicológica de “prestar atenção”, mas uma exigência lógica. Para que uma experiência seja minha, o “Eu penso” deve poder acompanhar todas as minhas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Os Vetos Kantianos à Psicologia Científica ===&lt;br /&gt;
Apesar de ter colocado o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que conhece, no centro do universo epistemológico, Kant foi muito crítico sobre a possibilidade de a psicologia se tornar uma ciência. Em sua obra Princípios metafísicos da ciência da natureza, de 1786, ele negou a possibilidade de uma psicologia científica, pois afirmou que uma disciplina só poderia Sê-lo se possuísse uma elaboração racional capaz de fornecer leis formuladas matematicamente, o que poderia ser chamado de veto matemático. A psicologia falhava nesse critério porque os eventos mentais possuem apenas a dimensão do tempo, sem nenhuma extensão espacial, o que impossibilitaria a sua matematização. Para Kant, assim como o espaço é a forma do sentido externo, o tempo é a forma pura do sentido interno. Como os estados mentais só se dão na sucessão do tempo (sem extensão espacial), eles não formam figuras nem podem ser medidos geometricamente, inviabilizando a matemática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Kant apontou a impossibilidade de isolar diferentes pensamentos para a realização de experimentos controlados. Assim, como não podemos acessar o que seria o conteúdo da mente, cercá-la e analisá-la como ela é em seu estado bruto ou natural, qualquer experimentação seria impossível, o que poderia ser chamado de veto do objeto. Por fim, ele reforçou a crítica que já era direcionada a Wolff, aquele do começo dessa seção. A introspecção como método, segundo Kant, seria inviável porque a própria tentativa de observar um fenômeno interno altera o fenômeno, o veto metodológico. Se tento observar minha própria tristeza, por exemplo, o fenômeno original desaparece e se transforma em “tristeza-sendo-observada-por-mim”, misturando sujeito e objeto de tal maneira que corrompe a objetividade. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A impossibilidade de uma psicologia científica não significava, contudo, a impossibilidade de estudar a mente e o comportamento. Kant trabalhou e lecionou com o que chamou de Antropologia Pragmática. Enquanto a psicologia empírica tentava, em vão, segundo ele, ser uma ciência exata, a antropologia pragmática estudava “o que o homem, como ser livre, faz, ou pode e deve fazer de si mesmo”. Era um estudo prático do comportamento, das paixões, da memória e da cognição, focado na vida em sociedade. De certo modo, pode-se dizer que Kant fechou a porta para a psicologia mecanicista, ou ainda, uma psicologia como ciência exata, mas ajudou a abrir uma janela imensa para as ciências humanas e sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Emergência do Neokantismo Fisiológico e as Primeiras Aproximações para a Psicologia Científica ==&lt;br /&gt;
A primeira metade do século XIX na Alemanha foi inicialmente dominada pelo Idealismo Pós-Kantiano (Hegel, Fichte, Schelling), que propunha sistemas metafísicos grandiosos onde a realidade era essencialmente racional e espiritual. Contudo, a partir da década de 1850, o forte avanço das ciências naturais, como a fisiologia e a química, gerou uma importante reação materialista, consolidados nas figuras de Feuerbach, Vogt, Büchner e outros, que passaram a ridicularizar a filosofia idealista como mera especulação vazia. A metafísica, vista como uma das glórias da filosofia e do pensamento humano, passou a ser vista cada vez mais como um discurso com pouco ou nenhum lastro na realidade. Essa mudança foi muito importante para a história da psicologia científica, pois foi devido a esse contexto que foram formulados os primeiros experimentos voltados para o que seria, no futuro, a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Johannes Müller e a Teoria das Energias Nervosas Específicas ===&lt;br /&gt;
Neste período, a fisiologia se estabeleceu como uma ciência rigorosa e extremamente respeita, liderada por figuras como Johannes Müller. Müller, professor na Universidade de Berlim, publicou seu Manual de Fisiologia Humana (1833-1840), que sistematizou o conhecimento fisiológico da época e transformou a compreensão da percepção. Até o final do século XVIII, ela era explicada pela Teoria da impressão da sensação, derivada da física newtoniana e do empirismo britânico. Esse modelo assumia que o sistema nervoso era um meio homogêneo e passivo que simplesmente “transportava” as qualidades dos objetos externos para a mente, como se a sensação fosse uma cópia exata do estímulo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Johannes Müller revolucionou esse entendimento ao formular a Teoria das energias nervosas específicas (1826). Ele provou, através de experimentos, que a estimulação de um determinado nervo sensorial sempre provoca uma sensação característica e exclusiva daquele nervo, independentemente da natureza do estímulo físico externo. Em outras palavras, a qualidade da sensação não pertence ao objeto físico, mas sim à estrutura do próprio aparato sensorial humano. O mesmo estímulo pode produzir sensações completamente diferentes dependendo de qual via nervosa é ativada. Por exemplo, ao aplicar sal na pele, na língua e nos olhos, as sensações serão totalmente distintas, todas diretamente relacionadas às especificidades do aparelho sensorial que foi ativado. É importante entender que isso não acontece por conta da especificidade das características do estímulo, como o sal ser “salgado”. A pele produz apenas sensações táteis, ainda que o estímulo não seja tátil. Isso cria um problema de confiança naquilo que percebemos sensorialmente, pois mostra que os órgãos não enviam apenas propriedades dos objetos, mas antes operam apenas de modo específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Müller, por meio de experimentos, mostrou que os objetos físicos projetam imagens invertidas na retina, mas nós os percebemos na posição correta. Ele mostrou também que, embora as imagens projetadas nas duas retinas sejam levemente diferentes, o cérebro as unifica em uma única imagem tridimensional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas descobertas trouxeram Kant para o terreno da biologia, inclusive pelo próprio Müller que, apesar de não ser neokantiano, viu suas descobertas científicas influenciarem profundamente a primeira geração deles. O sistema nervoso não é um receptor passivo, antes, ele medeia, molda e traduz ativamente a realidade externa. A sensação deixou de ser vista como uma cópia do mundo e passou a ser um enigma, que pode ser analisado a partir da seguinte pergunta: “o que existe entre o estímulo físico e a sensação subjetiva?”. Este é o mundo do primeiro projeto de psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Hermann von Helmholtz e o Neokantismo Psicofisiológico ===&lt;br /&gt;
A ponte definitiva entre a epistemologia kantiana e a prática laboratorial foi construída por um antigo aluno de Johannes Müller, Hermann von Helmholtz (1821-1894). Ele colaborou no desenvolvimento do neokantismo psicofisiológico ou neokantismo fisiológico. Ele entendeu que as descobertas de seu professor forneciam a base material exata para a teoria do conhecimento de Kant. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1855, Helmholtz argumentou que as estruturas a priori propostas por Kant como condições de possibilidade da experiência eram, na verdade, características da anatomia e da fisiologia do aparato perceptivo humano. Ao “naturalizar” a filosofia de Kant, Helmholtz formulou a sua teoria dos signos, que postula que nossas sensações e percepções não são cópias diretas da realidade, mas sim símbolos ou signos gerados pelo nosso sistema nervoso em resposta aos estímulos. Para explicar como construímos uma imagem coerente e espacial do mundo a partir desses signos neurológicos isolados, Helmholtz introduziu o conceito de inferências inconscientes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo essa teoria, a mente realiza uma série de ajustes e cálculos automáticos, baseados na experiência e na aprendizagem contínua, para interpretar os dados sensoriais. A percepção de profundidade, a posição espacial e a resolução de duas imagens retinianas em uma única visão estereoscópica não são inatas, como defendia o nativismo de Ewald Hering ou o próprio Müller, mas são aprendidas empiricamente através do movimento do corpo e da repetição das sensações. O espaço perceptivo atua como uma linguagem que a mente usa para interpretar os dados fisiológicos brutos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com isso, Helmholtz fundou o projeto de uma psicologia fisiológica autônoma, diferente da psicologia filosófica discutida na época. Ele concordou com Kant que a introspecção tradicional era um método falho, que podia conduzir a ilusões porque o observador só capta a superfície consciente do pensamento. A solução de Helmholtz foi submeter o sujeito da experiência a condições de laboratório rigorosamente controladas. Se as condições da percepção dependem de mecanismos fisiológicos, então a única forma de fazer epistemologia científica é através da experimentação fisiológica e da ótica. O sujeito do conhecimento tornou-se, assim, um objeto, que poderia ser manipulado e analisado em laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Suas contribuições não acabam por aí. Antes das pesquisas de Helmholtz, a comunidade científica acreditava que o impulso nervoso era instantâneo ou rápido demais para ser mensurado. Em 1850, estimulando um nervo motor na perna de uma rã e medindo o tempo da contração muscular, ele obteve o registro da velocidade de condução neural, que é de aproximadamente 27 metros por segundo, provando que havia “algo” entre o estímulo e a percepção que poderia ser analisado cientificamente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também mediu o tempo de reação de nervos sensoriais em humanos. Essa descoberta provou que o pensamento e o movimento corporal não ocorrem simultaneamente, mas são separados por um intervalo de tempo mensurável. Essa foi a base que abriu caminho para os experimentos de tempo de reação e cronometria mental que dominariam o laboratório de Wundt décadas depois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== F. A. Lange e o Projeto de uma “Psicologia Sem Alma” ===&lt;br /&gt;
O segundo pilar desse “retorno a Kant”, também de matriz fisiológica, foi erguido pelo filósofo e sociólogo Friedrich Albert Lange (1828-1875). Lange foi uma figura central na “controvérsia materialista” que agitava a Alemanha. Ele rejeitava tanto os “delírios” dos sistemas idealistas metafísicos quanto o reducionismo ingênuo do materialismo científico de Vogt e Büchner. Em sua influente obra História do Materialismo, de 1866, Lange defendeu que a limitação proposta por Kant é absoluta, ou seja, não temos e nem nunca teremos acesso à essência última da realidade, às coisas em si. Nosso conhecimento se restringe aos efeitos das coisas, ou seja, os fenômenos, que nos aparecem totalmente moldados pela nossa organização mental e neurológica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Lange argumentou que a impossibilidade de conhecer a essência não impede o estudo científico rigoroso das “aparências”, ou seja, sobre como as coisas nos aparecem. Para viabilizar esse estudo, Lange atacou as psicologias filosóficas do passado, que versavam debates que ele ele entendia estéreis sobre a natureza, a imortalidade e a substancialidade da “alma”. Para Lange, a alma era um conceito vazio, um “mito antigo” que forçava a psicologia a operar sobre pressupostos metafísicos inverificáveis. Em resposta, ele propôs a criação de uma psicologia sem alma, ou, em outras palavras, uma psicologia sem metafísica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste novo paradigma, o objeto de estudo da psicologia deveria ser reduzido aos dados empíricos observáveis, incluindo a sensação, a percepção, a ação e a linguagem, sempre buscando o seu correlato fisiológico. Lange rejeitou a introspecção puramente filosófica, pois a auto-observação isolada é privada, não pode ser repetida, não permite a presença de observadores externos e leva invariavelmente a ilusões verbais. Segundo ele, essa introspecção conduzia o pesquisador a substancializar conceitos como “vontade” ou “pensamento”, sem nenhum lastro empírico ou experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A única saída para a psicologia tornar-se verdadeiramente científica era abraçar a metodologia das ciências naturais. Apoiando-se no trabalho de Helmholtz e nas medições pioneiras de psicofísicos como Ernst Weber e Gustav Fechner, Lange prescreveu que a psicologia deveria investigar as leis fisiológicas da percepção e medir a correlação exata entre estímulos físicos e respostas sensoriais, como nos tempos de reação e nos limiares diferenciais. A psicologia passava a ser entendida não como a ciência do espírito transcendente, mas como a ciência psicofisiológica que estuda experimentalmente as condições de possibilidade da experiência, trazendo o sujeito transcendente de Kant para uma fisiologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fechner e a Fundação da Psicofísica ===&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner (1801–1887) foi um físico e metafísico alemão e antigo aluno de Weber. Apesar de não ser um neokantiano, ele tem uma importância fundamental para este momento da fundação da psicologia experimental, tendo sido citado e adotado por neokantianos. Ele assumiu a prestigiada e importante cadeira de física da Universidade de Leipzig em 1834, enquanto produzia sátiras sobre temas metafísicos e artísticos sob um pseudônimo. Após uma série de experimentos em que observava diretamente o Sol, feriu gravemente suas retinas, evento que o conduziu a um colapso físico e mental. Teve uma recuperação milagrosa em 1843, quando tentou observar flores em seu jardim e, por meio de uma experiência mística, observou que a natureza brilhava de dentro para fora, de onde concluiu que o universo era dotado de alma e consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esssa experiência decisiva levou-o a dedicar sua vida ao combate do materialismo científico, que ele denominava visão noturna, que via o mundo como uma matéria inerte e sem vida. Já a sua visão diurna entendia que a matéria era a manifestação da consciência universal divina, uma cosmovisão espiritualista que pode ser entendida como panpsiquista, ou seja, todos os corpos físicos possuem uma forma de alma. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi buscando provar sua visão que Fechner entendeu que poderia provar empiricamente a relação entre a mente (ou o espírito) e o corpo (ou a matéria) se encontrasse uma relação matemática constante entre a intensidade do estímulo físico e a magnitude da sensação psíquica correspondente. Isso porque Fechner percebeu que um aumento na intensidade do estímulo físico não gerava um aumento equivalente e proporcional na sensação subjetiva. A relação não era linear, mas sim proporcional, pois o estímulo físico aumentava em uma progressão geométrica, enquanto a sensação psíquica crescia em uma progressão aritmética. Por exemplo, acrescentar o som de um sino a outro que já está tocando gera um forte impacto perceptivo, pois é possível distinguir claramente que passou-se de um para dois sinos. Já acrescentar um sino a uma dezena deles produz uma alteração quase imperceptível. A sensação dependia, portanto, do nível de estimulação já existente no sistema.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para dar sustentação empírica à sua teoria, Fechner apropriou-se dos trabalhos experimentais realizados por Weber, que havia formulado a teoria da diferença mínima perceptível, demonstrando que a sensibilidade humana não avaliava diferenças absolutas entre estímulos, mas sim relações relativas ou proporcionais. Weber observou que, ao levantar pesos, os sujeitos conseguiam detectar uma variação mínima correspondente a uma fração constante de aproximadamente 1:40 em relação ao peso padrão. Essa constância proporcional é descrita pela chamada Lei de Weber:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
II=K&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde I representa a intensidade do estímulo padrão (que aparecerá como R posteriormente), ΔI é o acréscimo mínimo necessário para produzir uma mudança perceptível na sensação e k é uma constante matemática específica para cada modalidade sensorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Fechner percebeu que essa fração constante (ΔI/I) correspondia à unidade de medida da sensação subjetiva (dS). Utilizando o cálculo infinitesimal, Fechner integrou matematicamente a equação de Weber, assumindo que todas as diferenças mínimas perceptíveis eram subjetivamente iguais entre si. Essa operação matemática resultou na célebre Lei de Fechner ou Lei de Weber-Fechner:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
S = k Log R&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde S representa a magnitude da sensação subjetiva (qualidade mental), R representa a intensidade física do estímulo (qualidade material) e K é uma constante experimental ajustada a cada sentido. Essa fórmula logarítmica foi construída para mostrar que, para a sensação aumentar linearmente, o estímulo físico precisava crescer exponencialmente, estabelecendo uma relação exata e mensurável entre o psíquico e o físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para aplicar sua fórmula, Fechner sistematizou dois conceitos fundamentais que estruturam as medições psicofísicas. A primeira é o limiar absoluto, ou seja, o ponto de intensidade física mínima abaixo do qual o estímulo não é detectado pelo sujeito e acima do qual a sensação passa a ser percebida. Outro conceito é o de limiar diferencial, que é a quantidade mínima de alteração ou variação que deve ser aplicada a um estímulo para que o sujeito seja capaz de discriminar uma mudança na sensação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um desdobramento fascinante da Lei de Fechner ocorreu quando o estímulo físico apresentava valores abaixo do limiar absoluto (R&amp;lt;1), resultando em valores negativos para a sensação (S). Fechner definiu esses valores como sensações negativas ou subliminares, postulando a existência de processos mentais ativos abaixo do limiar da consciência desperta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para determinar com precisão científica os limiares absolutos e diferenciais, Fechner desenvolveu e padronizou três metodologias experimentais rigorosas, que se tornaram os pilares metodológicos de toda a psicologia experimental posterior. No Método do Erro Médio ou do Ajuste, o próprio sujeito experimental manipula ativamente um instrumento para ajustar um estímulo variável até que sinta que este se iguala a um estímulo padrão constante. A média dos desvios entre os ajustes do sujeito e o padrão real define o erro de observação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já no Método do Estímulo Constante ou dos Casos Corretos e Incorretos, o pesquisador apresenta de forma aleatória uma série de estímulos pré-determinados e constantes em comparação com um estímulo padrão. O sujeito deve julgar se o estímulo de comparação é maior, menor ou igual ao padrão, medindo-se a proporção estatística de acertos. Por fim, no Método dos Limites ou das Diferenças Mínimas Perceptíveis, dois estímulos são apresentados ao sujeito. Um deles é aumentado ou reduzido sistematicamente em passos discretos e graduais, e o sujeito relata o momento exato em que deixa de perceber ou passa a perceber a diferença entre ambos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1860, Fechner publicou seu livro monumental, Elementos de Psicofísica, que alguns entendem ser o primeiro sobre a psicologia científica experimental. Ao fornecer à psicologia técnicas de medição coerentes e precisas, Fechner provou de forma contundente que a mente humana era passível de investigação científica e experimental, sepultando em definitivo o antigo veto imposto por Immanuel Kant, em pleno momento de desenvolvimento do Neokantismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Incomodados com as inclinações metafísicas e espiritualistas de Fechner, os psicólogos experimentais subsequentes, sob a liderança de Wilhelm Wundt, rejeitaram completamente o panpsiquismo entre outras ideias, apropriando-se exclusivamente de seus métodos quantitativos de laboratório para estabelecer a psicologia como uma ciência empírica e natural. Como bem observou o historiador Edwin G. Boring, Fechner agiu como um “Colombo que descobriu um Novo Mundo (a psicologia científica) enquanto procurava pelas antigas Índias (a prova de sua metafísica)”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Resumindo ===&lt;br /&gt;
A intersecção entre a epistemologia kantiana, a fisiologia de Müller e a reformulação promovida por Helmholtz e Lange constituiu o início daquilo que tornou possível a psicologia científica. Kant havia mostrado que o sujeito constrói ativamente a realidade, mas negou que esse sujeito pudesse ser estudado matematicamente ou experimentalmente. Müller transferiu a estrutura ativa da mente para os nervos sensoriais específicos. Helmholtz e Lange reinterpretaram as pesadas categorias transcendentais de Kant como mecanismos biológicos e perceptivos operando através de inferências inconscientes e leis fisiológicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao “naturalizar” a Crítica da Razão Pura, o Neokantismo Psicofisiológico resolveu o veto de Kant a uma psicologia científica. Se os limites e as formas do nosso conhecimento são determinados pelo nosso sistema nervoso e sensorial, então o estudo epistemológico da mente deve ser feito no laboratório de fisiologia, estudando principalmente a percepção. A exigência de matematização foi superada pelas leis da psicofísica de Fechner e Weber, e o problema da introspecção descontrolada foi resolvido pelo uso de instrumentos de precisão, como cronoscópios, além de métodos de medidas de limiar, controle de estímulos, erros médios, entre outros, que transformavam as respostas subjetivas em dados objetivos, replicáveis e mensuráveis. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse foi o cenário epistemológico e institucional que Wilhelm Wundt encontrou e ajudou a consolidar. Wundt não fundou a psicologia a partir do nada em 1879. Seu Instituto em Leipzig foi organização metodológica e teórica de décadas de esforços em que a filosofia foi obrigada a dialogar com os nervos, os músculos e os tempos de reação, transformando para sempre a especulação sobre a alma em uma rigorosa ciência da experiência imediata. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ironicamente, escolas neokantianas posteriores, como a Escola de Marburgo, foram focos de resistência à psicologia experimental, alegando que o sujeito do conhecimento de Kant era de ordem puramente transcendental e lógica, e não empírica ou mensurável, ou seja, rejeitando a “biologização” do pensamento kantiano e a consequente criação da psicologia experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, conforme mostra Gundlach, a criação de uma posição acadêmica e o laboratório de psicologia por Wundt não se deu por conta de um amplo reconhecimento da superioridade do pensamento wundtano, mas sim por conta de disputas políticas e institucionais nas universidades alemãs. De qualquer forma, Wundt conseguiu desenvolver bem sua teoria ao longo de sua vida e conseguiu estabelecer-se na proeminência da psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia de Wundt ==&lt;br /&gt;
Wilhelm Maximilian Wundt é, na historiografia da psicologia, uma figura ao mesmo tempo onipresente e bastante malcompreendida. Freqüentemente reduzido ao título de “fundador do laboratório de Leipzig”, essa simplificação negligencia sua estatura como um dos últimos grandes arquitetos de sistemas do século XIX, cujo Systemgedanke (pensamento sistêmico) buscava integrar a psicologia como uma propedêutica fundamental para a filosofia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Recuperar o Wundt original exige preencher uma vasta lacuna historiográfica vasta, a começar pela superação das distorções da tradução de E.B. Titchener para o contexto anglo-americano, que foi formulada para aproximar suas ideias e perspectivas daquelas de Wundt, visando uma “confirmação” de suas ideias. Em primeiro lugar, é necessário reejeitar a classificação de Wundt como um estruturalista ou associacionista clássico. O sistema wundtiano é essencialmente dinâmico e centrado no voluntarismo. Para Wundt, a vontade e os processos afetivos não são meros epifenômenos, ou seja, um fenômenos secundários ou acessórios que acompanhma um fenômeno principal, mas o eixo organizador da consciência ativa. Esta reconstrução crítica visa resgatar a autonomia epistemológica de uma ciência que define seu objeto não como uma substância, mas como a experiência em sua totalidade imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Experiência Imediata, o Objeto de Estudo da Psicologia ===&lt;br /&gt;
Ao definir seu objeto, Wundt deu um passo decisivo para dar à psicologia autonomia perante as outras ciências naturais. Ele propõe que a experiência é uma unidade indivisível. Mas o que ele quer dizer por “experiência”? Uma definição poderia ser a totalidade dos processos conscientes, englobando sensações, sentimentos, representações e volições (vontades), apreendida da exata forma como se apresenta diretamente ao sujeito, sem qualquer abstração conceitual ou mediação de instrumentos externos. Ou seja, a experiência de Wundt seria como tudo o que se passa na mente, exatamente como ela aparece para uma pessoa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para ele, a experiência pode ser analisada a partir de duas perspectivas: a mediata e a imediata. A experiência ediata pertence ao domínio das Naturwissenschaften, ou ciências naturais, como a física e a química. Ela seria a a experiência objetiva, focada totalmente nos objetos do mundo externo que, se pensados de maneira isolada, são independentes do sujeito. Ela é chamada de mediata porque o acesso a essa realidade é indireto, ou seja, ela precisa de uma mediação. Essa mediação são conceitos teóricos e construções auxiliares e as características cognitivas e biológicas do próprio sujeito que interpreta os dados sensoriais brutos utilizando suas crenças, conhecimentos e expectativas. Isso não significa que a ciência natural esteja errada, mas sim que ela possui um recorte de interesse diferente do recorte da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O domínio da psicologia seria a experiência imediata, subjetiva, que é a experiência em sua realidade concreta, direta e intuitiva, apreendida antes de qualquer conceituação, teorização ou abstração. Ou seja, é a experiência antes de ela adquirir qualquer camada de compreensão, que seriam mediadores, por isso é imediata, sem mediação. Ela envolve o processamento de elementos sensoriais simples, como cor, som, temperatura, e de sentimentos simples, como prazer e desprazer. Ela diz respeito ao modo puro de funcionamento mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vamos a um exemplo, desta vez no campo do som. Na perspectiva mediata, o cientista natural abstrai o sujeito e estuda o som de forma indireta e conceitual. Ele utiliza aparelhos para medir as ondas sonoras e a sua propagação física pelo ar. O objeto físico “som” é, portanto, mediado e traduzido por conceitos de frequência, amplitude e decibéis. Já sob a perspectiva imediata, que é a da psicologia, o psicólogo estuda a sensação direta e em si mesma do tom no momento exato em que ele aparece na consciência. A análise está na vivência concreta do sujeito, que inclui a qualidade do tom, a sua intensidade subjetiva, a tonalidade afetiva de prazer ou desprazer que o acompanha e o processo ativo da atenção (apercepção, que será tratada mais adiante) que coloca aquele som no foco da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se olharmos desta vez para as cores, na visão mediata, ciência natural estuda o azul abstraindo a experiência do sujeito. A física o descreverá de forma conceitual como uma radiação eletromagnética com determinado comprimento de onda atingindo a retina. Para a psicologia de Wundt, o azul é investigado como um dado imediato e real na consciência do sujeito no momento da percepção interna. O foco não está nas propriedades físicas do estímulo, mas sim na reação subjetiva e ativa do cérebro vivo a esse estímulo, que gera a qualidade imediata da cor na experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conduzindo seus estudos, Wundt também identificou aquilo que denominou causalidade psíquica. Ao nos lembrarmos de um fato triste, a fisiologia explicaria a tristeza de forma conceitual e indireta, por meio de correntes elétricas no córtex cerebral, liberação de hormônios ou atividade de sinapses nervosas. Já o psicólogo observa a conexão de processos internos como elas ocorrem diretamente na consciência do sujeito, como a ligação da lembrança triste a um sentimento de angústia. A causalidade psíquica é uma causalidade própria da mente e irredutível às leis físicas da natureza, ou seja, não pode ser comparada à causalidade científica como a conhecemos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao adotar a experiência como seu objeto, Wundt rompe com a psicologia da alma, filosófica e metafísica. Ele substitui a psicologia de substâncias, que postula uma entidade mental oculta, pela teoria da atualidade (Aktualitätstheorie), na qual o psiquismo é definido como um fluxo de processos em constante devir. Seu sistema está fundamentado em um monismo perspectivista. Em outras palavras, para ele, mente e corpo não são substâncias que interagem mecanicamente, mas perspectivas distintas sobre a mesma unidade da experiência (Erfahrung). A psicologia, portanto, não estuda um “mundo interno”, que está isolado do externo, ainda que em contato com ele, mas a totalidade da experiência humana sob o prisma da imediatidade. Essa transição do estatuto de substância “mente” ou algo semelhante para o de processo traz uma nova perspectiva, criando um objeto que pode ser alvo de experimentação científica, partindo de experimentos já criados pela psicofísica e ainda outros que seriam desenvolvidos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Psicologia Individual e Völkerpsychologie: dois métodos para manifestações da experiência ===&lt;br /&gt;
A arquitetura metodológica de Wundt responde ao desafio de investigar processos mentais que variam em complexidade. Ele estabelece que a psicologia deve ser compreendida como o fundamento das Geisteswissenschaften (ciências do espírito ou humanas). A Psicologia Individual foca nos processos elementares, que incluem sensação e percepção, que são passíveis de controle rigoroso em laboratório através da manipulação de estímulos externos e introspecção experimental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entretanto, Wundt reconhece a insuficiência do experimento para os processos mentais superiores, como o pensamento e a linguagem, que são historicamente condicionados. Para estes, ele propõe a Völkerpsychologie , ou Psicologia dos Povos, dedicada ao estudo dos produtos das geistige Gemeinschaften (comunidades espirituais ou coletividades). Wundt vai apontar a linguagem, o mito e os costumes (Sitten) não são apenas dados culturais, mas objetivações de leis psíquicas superiores inacessíveis à introspecção de laboratório. Eles seriam produtos da experiência humana nas suas formas mais avançadas e superiores e, por não serem passíveis de experimentação, exigem uma outra abordagem. Essas duas vertentes, experimental e histórico-cultural, não são divergentes, mas sim o projeto integrador que permite apreender a mente tanto em sua base sensório-motora quanto em suas manifestações espirituais complexas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As investigações da psicologia dos povos focavam na alma do povo (Volksseele), definida como a realidade factual dos processos psíquicos que surgem em uma comunidade por meio da interação das energias mentais dos indivíduos. Essa “mente coletiva” se tornava um objeto tangível e investigável ao longo da história em três grandes produtos culturais. O primeiro é a linguagem (Die Sprache), ferramenta pela qual o pensamento é estruturado e externalizado. Já o mito e a religião são as formas como a imaginação e os sentimentos humanos coletivos projetam suas explicações sobre o cosmos e a existência. Os costumes (Sitten) e o direito, por sua vez, são  as regras de conduta coletiva que nascem de atos voluntários e impulsos compartilhados, padronizando as interações sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não podia realizar experimentos com culturas inteiras, Wundt operava por meio da pura observação retrospectiva e comparativa dos produtos mentais, ou seja, analisando os objetos já criados e usados ou em uso por diferentes povos e culturas, anotando suas diferenças e semelhanças. Wundt juntava, lia e analisava de forma exaustiva relatos históricos, estudos filológicos, dicionários, mitologias comparadas, códigos de leis e descrições etnológicas e antropológicas de povos ao redor do globo, ou seja, utilizava dos estudos de diferentes ciências humanas e sociais para extrair as leis psicológicas gerais do desenvolvimento mental humano por trás dessas manifestações. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seu objetivo era mapear como a mente coletiva evoluía do simples para o complexo ao longo das eras, numa abordagem genética e desenvolvimentista e reconstruir, de forma retrospectiva, as forças dinâmicas, os afetos, os impulsos (Triebe) e os processos de síntese criadora (melhor discutida mais adiante) que estiveram ativos na mente das pessoas no momento de sua formação. Wundt dedicou os últimos 20 anos de sua vida (de 1900 a 1920) quase exclusivamente a esse empreendimento monumental, escrevendo dez volumes da sua obra Völkerpsychologie.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Apercepção ===&lt;br /&gt;
No contexto filosófico, como já visto, o conceito de apercepção remonta a Kant, que a definiu como o processo autônomo, ativo e prévio pelo qual a mente unifica diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Wundt adotou essa noção kantiana para fundamentar sua teoria da consciência, definindo apercepção como o processo psicológico ativo pelo qual um conteúdo psíquico (ou representação) é trazido à clareza máxima e ao foco da consciência, vindo necessariamente acompanhado pelo estado de atenção voluntária.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para explicar a dinâmica da consciência, Wundt utilizou uma famosa analogia com a visão para diferenciar apercepção e percepção. O campo visual da consciência (Blickfeld) corresponde à percepção, que é a simples entrada de uma representação na consciência de forma difusa, ampla e sem a presença focalizada da atenção. Já o ponto focal da consciência (Blickpunkt) corresponde à apercepção, que é a entrada de uma representação no ponto central de máxima clareza e foco estreito da atenção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A apercepção, então, é uma manifestação primordial da vontade, funcionando como o princípio dinâmico que dá direção e estrutura tanto à experiência quanto ao movimento. Além disso, a apercepção pode ser ativa, que é quando o sujeito deliberadamente seleciona onde focará sua atenção, ou passiva, quando é o estímulo que se impõe no foco no sujeito. Por fim, a apercepção é o mecanismo central da operação da causalidade psíquica. É ela que unifica a mente em um sistema ativo, permitindo que a fusão de elementos resulte em sínteses criadoras com propriedades qualitativamente novas e imprevisíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Percepção Interna (innere Wahrnehmung) vs. Auto-observação (Selbstbeobachtung) ===&lt;br /&gt;
Para garantir o rigor procedimental e responder ao “desafio kantiano”, Wundt rejeitou a Selbstbeobachtung, que pode ser entendida como a auto-observação tradicional ou introspecção casual. Trata-se do método introspectivo puramente filosófico e especulativo que, segundo Wundt e outros, seria fonte de auto-ilusões e onde o ato de observar altera o fenômeno observado. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A solução científica é a innere Wahrnehmung, ou percepção interna, que permite a criação de um método científico baseado na repetição de estímulos externos controlados. No laboratório, o psicólogo replica condições experimentais que permitem a observação do aparecimento imediato do processo psíquico sob condições estáveis e previsíveis. O laboratório funciona, portanto, como o estabilizador do objeto psicológico, permitindo que a percepção interna atinja a precisão necessária para decompor a consciência em seus elementos fundamentais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experimentos do Laboratório de Wundt ====&lt;br /&gt;
Vamos a alguns exemplos do que acontecia no laboratório de Wundt, para integrar melhor os conceitos já apresentados. O primeiro experimento foi concebido originalmente para descrever a “equação pessoal” que aparecia nas medições dos astrônomos. No caso, observava-se que astrônomos treinados, utilizando os mesmos equipamentos, discordavam de suas medições que, à época, eram feitas manualmente com ajuda de instrumentos. De alguma forma, estas diferenças nas medições pareciam ter um tipo de padrão. Neste experimento, Wundt utilizava um aparelho chamado medidor de pensamento (Gedankenmesser) e, posteriormente, o pêndulo de complicação (Complicationspendel). O dispositivo consistia em um grande relógio de pêndulo que possuía uma agulha cruzada, como uma agulha de tricô, capaz de golpear fisicamente um pequeno sino em um ponto exato do seu arco de oscilação. O sujeito do experimento deveria olhar para a escala do pêndulo e tentar determinar a posição exata do ponteiro no momento em que ouvia o sino tocar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste experimento, Wundt descobriu que o sujeito sempre cometia um erro sistemático de registro, de aproximadamente um oitavo de segundo. Segundo ele, era impossível perceber visualmente a agulha e o som do sino ao mesmo tempo. Esse experimento seria uma prova laboratorial de que a consciência possui uma capacidade limitada e só consegue focar em uma única percepção por vez, como a diferença no marco da medição podia mostrar. A ilusão de simultaneidade devia-se apenas à rápida sucessão dos processos de atenção (apercepção).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os experimentos de tempo de reação, nosso segundo exemplo, constituíam o verdadeiro coração do trabalho em Leipzig na década de 1880. Wundt adaptou o método de subtração (Subtractiemethode), do fisiologista holandês F. C. Donders, para medir a velocidade de processos mentais complexos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o experimento de Wundt, é necessário compreender que, para ele, uma reação consciente envolvia: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- transmissão da sensação ao cérebro; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2- entrada do estímulo no campo amplo da consciência (percepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
3- entrada no foco ativo da atenção (apercepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
4- ato de vontade para liberar a resposta; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
5- execução motora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada um dessas partes exigem um certo tempo, pois são processos não imediatos. A depender de como as etapas do experimento são organizadas, diferentes tempos indicariam o acionamento maior ou menor de cada um deles. No experimento, o sujeito era treinado para responder pressionando uma tecla telegráfica ao ver um estímulo luminoso simples, como um flash de luz. Em seguida, a tarefa mais difícil. Duas imagens eram apresentadas, um círculo branco sobre fundo preto ou vice-versa, e o sujeito só deveria reagir após identificar com clareza qual imagem havia aparecido. Ao subtrair o tempo da reação simples do tempo da reação complexa, Wundt calculava o “tempo de apercepção” ou discriminação. Na primeira tese de doutorado em psicologia experimental da história, Max Friedrich, que atuou no experimento, mostrou que o tempo de discriminação aumentava de acordo com a complexidade do estímulo visual. Por exemplo, o sujeito levava mais tempo para aperceber e discriminar uma sequência de seis dígitos do que de apenas um ou dois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O assistente de Wundt, Ludwig Lange, também colaborou no estudo ao desenvolver um experimento crucial. Ele demonstrou que os tempos de reação variavam drasticamente dependendo da preparação atencional do sujeito. Se a atenção estivesse focada no movimento de resposta que o dedo faria (reação muscular), o tempo era curto (cerca de 125 ms), pois funcionava como um “reflexo cerebral” que pulava a apercepção. Se o foco estivesse direcionado ao estímulo sensorial que iria surgir (reação sensorial), o tempo era cerca de 100 ms mais longo, pois envolvia o circuito completo da mente consciente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O terceiro experimento foi desenvolvido por Martin Trautscholdt, um dos estudantes de doutorado de Wundt. Ele estudava a associação de ideias. No seu estudo, o sujeito era instruído a pressionar uma tecla no momento exato em que uma ideia associada surgisse em sua consciência a partir de um estímulo visual ou auditivo. Ao subtrair o tempo que o sujeito levava para simplesmente reconhecer a palavra estimulante, Trautscholdt conseguiu quantificar o tempo gasto pela mente para realizar a conexão associativa propriamente dita que, segundo Trautscholdt, variava entre 706 e 874 ms. Wundt também adaptou a técnica de associação de palavras de Francis Galton, limitando a resposta do sujeito a apenas uma única palavra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O quarto e último experimento que será apresentado é relacionado a acordes musicais. Nele, sujeitos ouviam tons isolados no piano, que seriam as sensações puras, e depois os mesmos tons tocados simultaneamente. Os participantes descreviam em detalhes a transição afetiva de como a fusão física das frequências dava origem a um produto inteiramente novo na consciência, que seria o sentimento estético de harmonia e prazer decorrente de uma síntese criadora. Wundt conduzia vários experimentos em estética experimental, tal qual seu colega Fechner.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Arquitetura da Mente: Elementos, Fusão e Síntese Criadora ===&lt;br /&gt;
Segundo Wundt, a experiência pode ser decomposta em elementos simples, que incluem as sensações e os sentimentos simples. Os sentimentos, por sua vez, são entendidos a partir da teoria tridimensional dos sentimentos, onde eles se distribuem em um espaço qualitativo entre os polos prazer/desprazer (Lust-Unlust), tensão/relaxamento (Spannung-Lösung) e excitação/depressão (Erregung-Beruhigung). A primeira é a mais evidente, se refere à avaliação afetiva primária da experiência. A segunda se relaciona ao esforço da atenção ou à preparação interna da mente. Já a terceira está relacionada ao nível de ativação biológica e psicológica do organismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esses aspectos todos são organizados através do mecanismo de fusão (Verschmelzung), onde as qualidades elementares se fundem em complexos psíquicos. O conceito central aqui é o princípio da síntese criadora (schöpferische Synthese). Ao contrário do associacionismo britânico, Wundt afirma que o todo resultante possui propriedades que não estão contidas na mera soma das partes. Essa síntese não é um processo mecânico passivo, mas um ato aperceptivo ativo, vinculado à vontade. Na mente humana, a combinação de elementos gera um valor novo e qualitativamente superior, marcando a distinção fundamental entre a causalidade psíquica e a mecânica física.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em termos simples, a síntese criadora estabelece que os complexos psíquicos, como representações, sentimentos compostos e afetos, embora formados pela união de elementos simples (sensações e sentimentos simples), possuem características qualitativas inteiramente novas que não pertencem a nenhum de seus elementos constituintes isolados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fusão é o processo ativo e primário de integração psíquica. É através dela que os elementos sensoriais e afetivos brutos são ativamente sintetizados pela mente para dar origem a uma nova unidade psicologicamente complexa. A fusão é a geradora da síntese criadora. Para Wundt, a síntese criadora é a prova cabal da causalidade psíquica. Ela monstra que os fenômenos mentais obedecem a leis de conexão e geração próprias que não se ajustam às leis da física ou da fisiologia mecânica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Observemos isso com um exemplo já apresentado. Se você tocar no piano as notas Dó, Mi e Sol isoladamente, você terá apenas a experiência de três sensações auditivas distintas. No entanto, quando essas notas são tocadas simultaneamente, a fusão de seus elementos gera na consciência uma experiência qualitativamente nova, que seria um acorde musical. O sentimento de harmonia e a qualidade estética do acorde são um produto da síntese criadora, pois não existiam em nenhuma das notas isoladas e surgem puramente da atividade unificadora da mente sobre o estímulo físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Paralelismo Psicofísico e Causalidade Psíquica ===&lt;br /&gt;
O paralelismo psicofísico foi um dos conceitos mais importantes e debatidos no século XIX durante o processo de fundação da psicologia científica. Ele surgiu como uma alternativa teórica para solucionar o clássico problema mente-corpo. O conceito foi formulado de forma a tanto o dualismo substancial, que dividia o ser humano em duas substâncias isoladas cuja forma de interação era desconhecida, quanto o materialismo reducionista, que reduzia a mente a uma mera secreção cerebral ou processo físico ou fisiológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para Fechner, o paralelismo era a manifestação de um monismo neutro, ou teoria de duplo aspecto. Ele defendia que a matéria (corpo) e o espírito (mente) não são substâncias diferentes, mas sim dois modos de aparência ou perspectivas distintas de uma única e mesma realidade subjacente, teoria sobre o qual fundamental grande parte de seu projeto científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt também adotou o termo paralelismo psicofísico, mas realizou uma redefinição epistemológica radical do conceito, visando se afastar da metafísica. Ele rejeitava categoricamente qualquer tentativa de transformar o paralelismo em uma doutrina ontológica sobre a natureza última da realidade, transformando-o estritamente um postulado metodológico e heurístico indispensável para a investigação científica. Os processos mentais não sejam reduzidos a processos fisiológicos ou neurais, pois a consciência obedece a leis de conexão próprias, como a causalidade psíquica, que não podem ser explicadas pelas leis da mecânica cerebral.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O que Aconteceu Depois? ===&lt;br /&gt;
No final de sua vida, Wilhelm Wundt era visto de forma ambivalente. Enquanto mantinha o prestígio de fundador da psicologia científica, uma nova geração de psicólogos que buscava se firmar, via como um “pai tribal”, cujo longo domínio de mais de quatro décadas estava desgastado. Ele se tornou o alvo de críticas severas e passou a ser tratado por muitos como o ícone de um passado superado e falido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante a Primeira Guerra Mundial e nos anos que a sucederam, a reputação internacional de Wundt sofreu graves danos. Influenciado por seu filho Max, Wundt adotou posturas políticas ultranacionalistas, chegando a usar a Völkerpsychologie de maneira tendenciosa para criticar os inimigos da Alemanha. Essa postura inflamou um forte preconceito anti-alemão, especialmente nos Estados Unidos, onde ex-alunos e intelectuais americanos passaram a ver ele como uma mente maligna e autoritária, acelerando a rejeição de suas obras em solo estrangeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A maior frustração de Wundt no fim da vida ocorreu no âmbito acadêmico alemão. Ele sempre defendeu que a psicologia era uma ciência propedêutica e uma aliada indispensável da filosofia, devendo permanecer integrada a esta. No entanto, os filósofos acadêmicos de sua época, especialmente os neokantianos e fenomenologistas, rejeitaram veementemente o  que chamavam de “psicologismo de Wundt”, ou seja, a redução da lógica e da validade do conhecimento a fatos psicológicos. Em 1913, após a contratação de um psicólogo experimental para a cadeira de filosofia em Marburg, mais de cem professores de filosofia assinaram um protesto público exigindo que psicólogos fossem banidos dos departamentos de filosofia. Esse movimento resultou no progressivo divórcio institucional entre a psicologia e a filosofia, uma separação que Wundt lamentou e combateu até a sua morte em 1920.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir da década de 1890, uma forte onda de positivismo, inspirada pela filosofia de Ernst Mach e Richard Avenarius, varreu a psicologia experimental. Jovens psicólogos, incluindo os assistentes do próprio Wundt, rejeitaram conceitos fundamentais do sistema de Leipzig, como a apercepção, a causalidade psíquica e a síntese criadora, tomando eles como metafísica, exatamente o oposto do que desejava seu formulador. Eles preferiam um modelo elementarista e reducionista, focado na descrição de relações funcionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos EUA, a influência da teoria da evolução de Darwin deslocou o interesse da estrutura da consciência para as suas funções de adaptação ao meio, o chamado funcionalismo. Com o surgimento e o fortalecimento do behaviorismo e a eliminação da mente como objeto de estudo, o voluntarismo de Wundt perdeu qualquer espaço. Na Europa, a própria psicologia da Gestalt ergueu-se combatendo o elementarismo que havia sido falsamente associado a Wundt. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O golpe final veio após a Primeira Guerra Mundial, quando a Alemanha mergulhou em colapso econômico. Diante da “crise da psicologia”, os pesquisadores precisaram provar a utilidade prática da ciência que praticavam para sobreviver, o que já acontecia nos EUA, voltando-se para a psicologia militar, industrial, educacional e clínica. Wundt, que sempre desprezou a psicologia aplicada, teria visto seu sistema dinâmico de laboratório perder todo o fôlego diante das pressões pragmáticas da época, ainda que mantivesse sua fama e sua alcunha maior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia Científica na Inglaterra ==&lt;br /&gt;
O surgimento da psicologia na Inglaterra seguiu um caminho bastante distinto do modelo laboratorial alemão, focado na introspecção e na busca de leis universais. A psicologia britânica formou-se na intersecção de duas grandes forças intelectuais, que são as filosofias empirista e associacionista, e a biologia evolutiva. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No empirismo, pensadores como John Locke postularam que a mente humana nasce como uma tabula rasa ou uma folha em branco, e que absolutamente todo o conhecimento deriva da experiência sensorial. No associacionismo, filósofos como David Hume, James Mill e John Stuart Mill afirmavam processos mentais complexos são formados pela associação contínua de ideias simples e sensações, governadas por leis lógicas. tais como similaridade, contiguidade e causa e efeito. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A despeito de sua rica tradição filosófica, o maior divisor de águas para a ciência britânica foi a publicação de A Origem das Espécies, em 1859. A teoria da evolução natural de Darwin, trouxe novas e profundas questões para o estudo da mente britânica. Se humanos e animais compartilham ancestrais comuns, argumentava-se que deveria haver uma continuidade não apenas física, mas também mental entre as espécies, conectando a psicologia ao estudo da zoologia, dando origem à Psicologia Comparada. Além disso, a mente e a consciência deixaram de ser vistas apenas como objetos metafísicos e passaram a ser estudadas como ferramentas biológicas de adaptação, que evoluíram porque ajudavam o organismo a sobreviver em seu ambiente, sendo fundamental para a criação do funcionalismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a validação da biologia evolutiva, o estudo da inteligência animal explodiu no Reino Unido, George Romanes foi um dos primeiros a tentar sistematizar o comportamento animal. Contudo, seu método anedótico foi duramente criticado por ser antropomórfico, ou seja, por atribuir pensamentos e emoções humanas complexas a animais. Seu colega Conwy Lloyd Morgan introduziu mais rigor científico à área através do que ficou mundialmente conhecido como o Cânone de Morgan, ou princípio da parcimônia. A regra dizia que um comportamento animal não deve ser interpretado como resultado de uma faculdade mental superior se puder ser explicado por um processo psicológico mais básico, como o instinto ou o aprendizado por tentativa e erro. Apesar de a perspectiva de ambos ter sido abandonada, a Psicologia Comparada se tornou um dos principais ramos da psicologia moderna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Francis Galton e a Psicologia Diferencial ===&lt;br /&gt;
Francis Galton (1822-1911) foi um cientista e polímata britânico de inteligência extraordinária, com um QI estimado por volta de 200, algo extremamente raro, além de ser primo de Charles Darwin. Galton é amplamente reconhecido como pioneiro ao incorporar o estudo sistemático das diferenças individuais e da herança mental na nova psicologia, uma área que era ignorada ou rejeitada por pioneiros experimentalistas como Wilhelm Wundt.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Galton interessou-se pela medição das variações da inteligência e das capacidades humanas. Ele fundou um laboratório antropométrico onde testou a acuidade sensorial, a força e os tempos de reação de milhares de pessoas. Além disso, baseando-se na premissa empirista de John Locke de que todo o conhecimento vem da percepção, Galton assumiu que os indivíduos mais inteligentes seriam aqueles com as capacidades sensoriais e motoras mais aguçadas. Ele foi o inventor do conceito de testes mentais, termo posteriormente cunhado por seu aluno dos EUA, James McKeen Cattell. Galton também desenvolveu o método experimental de associação de palavras, medindo o tempo de reação mental e demonstrando a enorme influência das experiências da infância e do inconsciente no pensamento adulto, um trabalho que impressionou profundamente Sigmund Freud. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também foi um dos primeiros a fazer uso amplo do questionário psicológico para investigar imagens mentais, constatando para sua própria surpresa que a maioria dos cientistas relatava ausência de imagens mentais nítidas, em contraste com relatos muito mais detalhados fornecidos por mulheres e crianças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para conduzir medições em larga escala, ele inventou vários instrumentos clássicos e, para analisar suas enormes bases de dados, Galton desenvolveu conceitos estatísticos fundamentais, como a correlação. Essa tradição quantitativa foi depois aperfeiçoada por outros britânicos, como Charles Spearman, criador da análise fatorial e do conceito de fator g de inteligência geral, fundando a base da psicometria moderna. e influenciando de forma decisiva a psicologia dos testes nos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Conclusão ==&lt;br /&gt;
A história da psicologia é definida pelo paradoxo de ter um “longo passado” e uma “curta história”, podendo ir do De Anima de Aristóteles até a a fundação do laboratório de Wilhelm Wundt na Universidade de Leipzig, em 1879. A psicologia, assim, mostra que tem uma rica história, com muitos personagens, conceitos e acontecimentos importantes, de modo que qualquer narrativa sobre sua composição elegerá heróis e vilões, dará mais relevância para alguns, menos para outros e o esquecimento para a maioria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O texto propõe que Immanuel Kant foi uma figura central na composição da psicologia científica. Ele propôs que a mente humana é um agente ativo que organiza o conhecimento através de estruturas a priori, tais como o tempo, o espaço e as categorias do entendimento. Assim, ele introduziu o conceito de “sujeito transcendental” como a estrutura universal que garante a unidade da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Kant impôs um “veto” ao status científico da psicologia, defendendo a base na matematização. A superação desse veto ocorreu através da “naturalização” de Kant pela fisiologia. Johannes Müller, com a Teoria das Energias Nervosas Específicas, mostrou que a sensação é mediada pelo sistema nervoso, não sendo uma cópia fiel do mundo externo. Hermann von Helmholtz avançou essa ideia ao postular que as estruturas a priori de Kant seriam, na verdade, características da anatomia e fisiologia humanas. Ele propôs o conceito de “inferências inconscientes” para explicar como interpretamos dados sensoriais. Nesse contexto, Friedrich Albert Lange defendeu uma “psicologia sem alma”, rejeitando a metafísica e argumentando que o estudo científico deve focar apenas nas aparências e fenômenos observáveis, reduzindo o objeto da psicologia a dados empíricos e correlações fisiológicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner foi crucial ao oferecer a base matemática e experimental que faltavam, por meio da Lei de Weber-Fechner. Ele também padronizou e melhorou métodos para o estudo dos limites e constantes sensoriais, que se tornaram a base metodológica da psicologia experimental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt não apenas fundou um laboratório, como também arquitetou um sistema complexo. Para Wundt, o objeto da psicologia é a experiência imediata, criando conceitos como voluntarismo, causalidade psíquica, apercepção, entre outros. Além disso, ele também criou a psicologia dos povos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente do foco laboratorial alemão, a psicologia britânica foi moldada pela filosofia empirista e, crucialmente, pela teoria da evolução de Charles Darwin. Neste contexto, Galton ganha destaque, por ter fundado o laboratório antropométrico, inventado o conceitos de “testes mentais”, pelo uso de estatísticas no estudo da psicologia e ter influenciado o desenvolvimento da psicometria e a análise fatorial (com Charles Spearman), consolidando uma tradição que focava mais na variabilidade genética e na inteligência do que na estrutura da consciência em si.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
ABIB, José Antônio Damásio. Prólogo à História da Psicologia. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Brasília, v. 21, n. 1, p. 53-60, jan./abr. 2005. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://www.scielo.br/j/ptp/a/dXKZvy3jf6V9ZjcPykVF8kn/abstract/?lang=pt&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ALVES, Gabriel Siqueira. O Neokantismo e o Surgimento da Psicologia Experimental: uma introdução didática. In: RIBEIRO, André Elias Morelli; CARNEIRO, Júlia Lombardi; FERREIRA, Arthur Arruda Leal; SANTOS, Marcus Vinícius do Amaral Gama (Org.). Boletim do Portal História da Psicologia 4. Rio das Ostras, RJ: Editora do Portal História da Psicologia, 2025. p. 242-279. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://doi.org/10.5281/zenodo.18130096&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_surgimento_da_psicologia_cient%C3%ADfica&amp;diff=1724</id>
		<title>O surgimento da psicologia científica</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_surgimento_da_psicologia_cient%C3%ADfica&amp;diff=1724"/>
		<updated>2026-07-29T04:33:47Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: Criação do verbete&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto didático de autoria de André Elias Morelli Ribeiro (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um longo passado, uma curta história ==&lt;br /&gt;
A psicologia tem um longo passado, mas uma curta história. Esta é uma frase muito famosa no campo da história da psicologia, tendo sido consagrada por Hermann Ebbinghaus, um psicólogo alemão pioneiro no estudo da memória, ainda no século XIX. A frase é exemplar sobre como é difícil dizer quando a psicologia teve início. Retomemos ela em mais detalhes. A psicologia tem um longo passado, porque os temas que consideramos hoje como parte da psicologia aparecem muitas vezes na filosofia, na religião, em saberes tradicionais, entre muitos outros lugares. É difícil estabelecer qual o objeto de estudo da história da psicologia, assim como é difícil, ao longo da história, separar o que é  psicologia daquilo que não é psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse longo passado pode remontar, por exemplo, à Antiguidade, com o tratado De Anima de Aristóteles, que escreveu muito antes de se imaginar o próprio conceito de ciência moderna e, menos ainda, de uma psicologia moderna. Outros podem colocar o lugar de início da psicologia em Descartes, que elaborou a máxima, também famosa, “penso, logo existo”. Isso mostra que os objetos de estudo da psicologia são historicamente construídos, ou seja, emergem a partir dos locais ou pessoas que atuaram na psicologia, como na medida das diferenças individuais, as dinâmicas de controle num laboratório, nas práticas de psicoterapia, entre muitas outras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se cada historiador localiza o passado da psicologia em lugares diferentes no tempo e no espaço, a história da psicologia, por seu lado, tem uma definição bem mais estável e curta. Nos anos 1980, os historiadores, reunidos num congresso nos EUA, definiram que a psicologia científica teria começado em 1879, quando Wilhelm Wundt fundou o primeiro laboratório de psicologia experimental na Universidade de Leipzig, na Alemanha. Essa definição está consagrada e é quase um consenso, porém, não foi tão simples estabelecê-la. Alguns advogavam pelo pioneirismo de outro alemão, Theodore Fechner, criador da chamada psicofísica, de onde vieram muitos dos experimentos e ideias de Wundt. Outros ainda queriam que William James, um filósofo e psicólogo americano, fosse reconhecido como fundador, pois seu laboratório de psicologia era ainda mais antigo que o de Wundt que, no final, venceu essa disputa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Resumindo, a psicologia possui um “longo passado”, com raízes filosóficas e religiosas milenares e altamente diversas, e uma “curta história” como disciplina científica, cujo marco está situado em 1879, com a fundação do primeiro laboratório experimental por Wilhelm Wundt, na Alemanha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Presentismo ===&lt;br /&gt;
Mas o que seriam essas psicologias anteriores a essa psicologia científica? Para entender melhor essa história, é preciso refletir para superar, da melhor forma, um problema chamado “presentismo”, ou seja, julgar, entender, interpretar e analisar o passado com a visão do presente. Não é apenas uma questão de olhar para as pessoas do passado e superar o pensamento de que elas eram “ignorantes”, pois “não tinham o conhecimento que temos hoje”. É entender também que, no passado, haviam formas de conhecimentos diferentes, bem como visões de mundo diferentes da atual. Pensando em termos da psicologia, como elas seriam diferentes?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo interessante é o conceito de atenção. Hoje, ela é um tema tão discutido e consensual que pouco se reflete sobre seu significado. Atualmente, seria algo como centralizar as faculdades mentais em um lugar específico. Pode-se ouvir as pessoas reclamando que “não conseguem prestar atenção”, ou que nunca “mantém a atenção”, e até mesmo existem medicamentos para resolver esse problema. Contudo, a palavra “atenção” nem sempre significou o que entendemos hoje. Para Santo Agostinho, atenção era apenas o ato de passar de um pensamento para outro. Descartes tinha um conceito mais parecido com o contemporâneo, onde a atenção era mobilizada de forma voluntária para fixar e reter na memória coisas raras e extraordinárias que o entendimento considerava úteis. Na obra de Locke, a atenção é mencionada apenas de passagem, como um mero mecanismo auxiliar da retenção de memórias. A partir do momento em que a ciência demonstrou que a percepção depende da estrutura física e biológica do corpo (com a psicofísica e a fisiologia sensorial), já no século XIX, a visão passou a ser encarada como intrinsecamente incompleta, instável e condicionada pelo tempo. Nesse contexto, a atenção foi utilizada como um substituto pragmático para garantir a coerência do mundo percebido. Autores do final do século XIX, como Théodule Ribot e Max Nordau, associaram os desvios ou a fraqueza da atenção a patologias psíquicas, comportamentos sociopáticos e teorias da “degeneração”. Para eles, uma atenção defeituosa deixava a mente à mercê de “associações caóticas”, gerando uma visão borrada e distorcida da realidade. Foi apenas na década de 1950 que a nossa compreensão contemporânea de atenção começou a se delinear, paralelamente aos estudos sobre os medicamentos desenvolvidos para tratar as suas disfunções.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma pessoa desavisada, que não está atenta às grandes diferenças entre as ideias e conceitos ao longo do tempo, poderia ler um trecho de Ribot e achar que a atenção do qual ele fala é a mesma coisa que entendemos hoje. O leitor estaria totalmente enganado, a ponto de não conseguir nem mesmo compreender o que Ribot queria dizer. Em outras palavras, o esforço para entender as psicologia do passado passa também pelo esforço de entender como se pensava no passado, qual a visão que se tinha nesse passado. Parte do esforço do historiador é trazer esses aspectos de volta ao presente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O sujeito transcedental de Kant ==&lt;br /&gt;
A concepção de uma psicologia ocupada especificamente com a “mente” humana e suas operações começou a ganhar contornos modernos no século XVIII com o filósofo Christian Wolff. Ele dividiu a psicologia em Psicologia Empírica, num livro publicado em  1732 e baseada na introspecção; e em Psicologia Racional, numa obra de 1734, dedicada a deduzir a natureza e a essência da alma, como sua imortalidade e imaterialidade, de forma puramente lógica e racional, independentemente da experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, o projeto de Wolff enfrentava um sério problema metodológico, a chamada observação interna ou introspecção. Quando se estuda um fenômeno natural, como a chuva, é necessário observar o que acontece, incluindo como as nuvens se formam, qual a umidade do ar, a intensidade dos raios solares, a direção dos ventos, entre muitos outros fatores, todos objetos externos do sujeito. Toda a ciência é feita dessa forma, observando, testando e analisando o mundo que está fora dos indivíduos. O problema está em estudar algo que é interno aos sujeitos. Não se pode observar diretamente o que se passa na cabeça de alguém, contudo, é possível analisar o que se passa nas nossas próprias cabeças. Isso seria a introspecção, ou seja, o processo pelo qual adquirimos conhecimento sobre nossos próprios estados ou processos mentais Apesar de ser uma ideia interessante, fazer introspecção não era considerado algo muito científico. Entendia-se que “observar a si mesmo” distorcia os eventos mentais, pois o sujeito que observa e o objeto observado são o mesmo, o que impediria a neutralidade exigida pelo modelo científico então vigente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até a segunda metade do século XVIII, as teorias do conhecimento, que incluíam o empirismo e o racionalismo, compartilhavam a premissa de que o conhecimento era determinado pelo objeto a ser conhecido. O objeto estava lá, esperando a melhor forma de ser conhecido. Kant, em sua obra Crítica da Razão Pura (1781), inverteu essa lógica de forma radical. Ele propôs que não é o conhecimento que se adequa aos objetos, mas são os objetos que são determinados pelo sujeito. O conhecimento passou a ser compreendido não como uma recepção passiva, mas como uma produção ativa do chamado sujeito transcendental, moldada por suas formas a priori.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O sujeito transcendental em Kant não se refere propriamente a um indivíduo empírico ou psicológico, ou seja, alguém com personalidade e história pessoal. Pense no sujeito transcendental não como “você” (André ou Maria), mas como o “sistema operacional” universal da mente humana. Assim como um software organiza os dados que chegam do teclado, o sujeito transcendental organiza os dados que chegam dos sentidos, como o tempo e o espaço, antes mesmo de termos consciência deles.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o sujeito transcedental, é preciso fazer um importante exercício de abstração, visando conseguir entender algo que está além da experiência existencial individual e entender aquilo que molda essa própria experiência. O sujeito transcedental de Kant é uma condição universal de possibilidade para qualquer conhecimento. Em outras palavras, é algo que todas as pessoas possuem e é a forma que o ser humano tem para saber as coisas. É a estrutura ativa da mente que organiza a experiência antes mesmo que possamos refletir sobre ela. Esse sujeito é o princípio unificador que garante a coerência dos dados sensoriais, transformando o caos de impressões oriundas dos órgãos dos sentidos em uma experiência significativa e estruturada. Através das formas a priori da sensibilidade (espaço e tempo) e das categorias do entendimento, o sujeito transcendental “constrói” o objeto conhecido. Ele é o “Eu penso” que deve poder acompanhar todas as nossas representações, conferindo unidade à consciência. Em suma, não conhecemos o mundo como ele é em si, mas como o sujeito transcendental o molda e o organiza para que se torne inteligível para nós.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Immanuel Kant revolucionou a teoria do conhecimento ao postular que a mente humana não funciona como um receptáculo passivo de impressões sensoriais, mas sim como um agente ativo dotado de estruturas constitutivas a priori que organizam, unificam e interpretam a matéria-prima da experiência. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo de constituição do conhecimento dos fenômenos que chegam para nossa mente a partir dos órgãos dos sentidos articula-se em três instâncias fundamentais. A primeira são as formas puras da sensibilidade, depois vem os conceitos puros do entendimento, ou seja, as categorias e, por fim, a unidade sintética da apercepção. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas formas puras da sensibilidade, antes mesmo que o intelecto possa aplicar qualquer conceito, o caos das sensações brutas é necessariamente ordenado no espaço e no tempo, que não são propriedades das coisas em si, mas intuições puras da sensibilidade que funcionam como os eixos coordenados onde os fenômenos são dados. Ou seja, as informações dos sentidos já chegam num espaço e num tempo para o resto do processo de constituição do conhecimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma vez colocados no espaço e estruturados numa sucessão e simultaneidade temporal, esses dados passam pelas doze categorias do entendimento puro. Essas categorias se dividem em quatro classes de tríades: quantidade, qualidade, relação e modalidade. As categorias representam as regras lógicas puras, fundamentais e necessárias para tornar qualquer objeto da experiência inteligível. Elas podem ser observadas de forma simplificada na tabela a seguir:&lt;br /&gt;
{| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot;&lt;br /&gt;
|Classe de Categorias&lt;br /&gt;
|Categoria 1 (Tese)&lt;br /&gt;
|Categoria 2 (Antítese)&lt;br /&gt;
|Categoria 3 (Síntese)&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|1. Quantidade&lt;br /&gt;
|Unidade&lt;br /&gt;
|Pluralidade&lt;br /&gt;
|Totalidade&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|2. Qualidade&lt;br /&gt;
|Realidade&lt;br /&gt;
|Negação&lt;br /&gt;
|Limitação&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|3. Relação&lt;br /&gt;
|Substância e Acidente&lt;br /&gt;
|Causa e Efeito&lt;br /&gt;
|Ação Recíproca&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|4. Modalidade&lt;br /&gt;
|Possibilidade (Impossibilidade)&lt;br /&gt;
|Existência (Não-existência)&lt;br /&gt;
|Necessidade (Contingência)&lt;br /&gt;
|}&lt;br /&gt;
As categorias de quantidade dizem respeito à extensão em que aplicamos um conceito aos objetos, ou seja, “quantos” elementos estamos considerando no juízo. Na unidade, temos um único objeto. Na pluralidade, trazemos vários objetos do mesmo tipo para um conjunto. Já a totalidade surge quando pensamos a pluralidade como uma unidade completa.Vejamos um exemplo. Quando um observador vê uma maçã, aplica a categoria da unidade, ou seja, ele viu uma maçã. Ao ver várias maçãs espalhadas na mesa, apreende uma pluralidade, ou seja, ele tem um conceito de “maçãs” e as vê como um conjunto. Porém, ao formular uma lei universal, aplica-se a totalidade, que engloba toda a pluralidade possível sob uma única regra conceitual, ou seja, todas as maçãs são frutas e existem vários tipos de maçãs.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade trata da atribuição de um predicado, ou seja, se a experiência afirma algo, nega algo ou se situa num limite conceitual. Em outras palavras, é a forma da mente definir “como algo é”. A realidade é afirmação de que um predicado pertence a um ser, ou seja, ele é alguma coisa. A negação é a afirmação de que o predicado não pertence a algo, ou seja, um “não-ser”. A limitação é a síntese das duas anteriores. Atribui-se uma negação como se fosse uma realidade, excluindo aquilo de uma esfera, mas deixando infinita a esfera onde ele pode estar. Vamos a um exemplo. Dizer “O homem é mortal” aplica a categoria de realidade (afirma-se um atributo). Dizer “O homem não é mortal” aplica a negação. No entanto, dizer “A alma é não-mortal (imortal)” é um juízo infinito clássico de Kant que evoca a limitação. Não sabemos o que a alma é de fato, mas a limitamos removendo ela da esfera das coisas mortais, o que a situa num campo aberto e indeterminado de possibilidades.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Consideradas por muitos comentadores como o coração da epistemologia kantiana, as categorias de relação definem como os objetos se relacionam entre si e como permanecem ou mudam no tempo. Substância e Acidente referem-se àquilo que permanece através da mudança (substância) e as propriedades que são transitórias, ou seja, que mudam (acidentes). Um exemplo disso é a água de um lago que congela no inverno. Seu estado físico muda do líquido para o sólido, que é o acidente, mas a matéria da água em si, a substância, permanece inalterada. Sem a categoria de substância, nossa mente registraria apenas uma sucessão caótica de imagens, sem reconhecer que se trata da mesma “coisa” sofrendo alteração. A Causa e Efeito é a relação estritamente necessária onde um evento segue outro no tempo. O exemplo de Kant, em resposta ao filósofo David Hume, é sobre o sol que ilumina uma pedra, e a pedra esquenta. Hume diria que inferimos causalidade por mero hábito psicológico, ou seja, não há conexão necessária, apenas uma observação e uma intuição. Kant argumenta que o próprio fato de distinguirmos uma sucessão objetiva de eventos exige que a mente aplique a categoria a priori de Causalidade. A mente “dita” a regra estrutural de que o aquecimento necessariamente sucede a irradiação solar, colocando uma como causa da outra. Já na Ação Recíproca (Comunidade), tem-se a relação simultânea de mútua influência entre múltiplas substâncias no espaço como, por exemplo, a interação gravitacional entre a Terra e a Lua. Elas não são eventos sucessivos no tempo, mas existem simultaneamente e influenciam-se de modo contínuo e bidirecional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, temos as categorias modais. Eles são os Postulados do Pensamento Empírico e não acrescentam nenhum atributo novo ao objeto em si, mas definem exclusivamente como esse objeto ou evento se relaciona com o sujeito cognitivo e suas faculdades. No caso da Possibilidade-Impossibilidade, é algo que concorda com as condições formais, que são as condições lógicas e puras da experiência. No binômio Existência-Não-existência, é algo que está dado materialmente na intuição empírica, ou seja, nos sentidos. Já na Necessidade-Contingência, é algo cuja conexão com a experiência empírica está determinada por condições universais. Vamos a um exemplo. Um dragão voador de escamas verdes ou um triângulo cujos ângulos somam 180 graus são conceitos logicamente possíveis, ou seja, não envolvem contradição formal. No entanto, apenas um objeto sensorialmente verificável, como a caneta sobre a sua mesa, tem a marca da existência. Já o fato de que um objeto massivo abandonado no ar cairá em direção ao solo é uma necessidade ditada pelas leis empíricas que o entendimento prescreve à natureza, ou seja, atribui a ele.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Acima dessas estruturas, Kant postulou a apercepção ou apercepção transcendental, que é o processo pelo qual a mente unifica de forma ativa diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Sem a apercepção, a mente seria apenas um amontoado de estímulos desconectados. Assim, a aperceção a base da própria consciência humana. Devido a essa complexa mediação ativa da mente, Kant estabeleceu uma distinção insuperável entre o mundo externo e a mente. Isso significa dizer que nós não temos acesso à “coisa em si”, ou noumenon, mas apenas a como as coisas nos aparecem, ou seja, na forma de fenômeno, já devidamente processadas pelo nosso aparato cognitivo. Neste sentido, É importante distinguir o “Eu empírico”, ou seja, aquilo que observamos em nós mesmos, como nossa personalidade ou o nosso humor, do “Eu transcendental”, a pura unidade lógica do “Eu penso”. Ademais, a apercepção transcendental não é uma faculdade psicológica de “prestar atenção”, mas uma exigência lógica. Para que uma experiência seja minha, o “Eu penso” deve poder acompanhar todas as minhas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Os Vetos Kantianos à Psicologia Científica ===&lt;br /&gt;
Apesar de ter colocado o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que conhece, no centro do universo epistemológico, Kant foi muito crítico sobre a possibilidade de a psicologia se tornar uma ciência. Em sua obra Princípios metafísicos da ciência da natureza, de 1786, ele negou a possibilidade de uma psicologia científica, pois afirmou que uma disciplina só poderia Sê-lo se possuísse uma elaboração racional capaz de fornecer leis formuladas matematicamente, o que poderia ser chamado de veto matemático. A psicologia falhava nesse critério porque os eventos mentais possuem apenas a dimensão do tempo, sem nenhuma extensão espacial, o que impossibilitaria a sua matematização. Para Kant, assim como o espaço é a forma do sentido externo, o tempo é a forma pura do sentido interno. Como os estados mentais só se dão na sucessão do tempo (sem extensão espacial), eles não formam figuras nem podem ser medidos geometricamente, inviabilizando a matemática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Kant apontou a impossibilidade de isolar diferentes pensamentos para a realização de experimentos controlados. Assim, como não podemos acessar o que seria o conteúdo da mente, cercá-la e analisá-la como ela é em seu estado bruto ou natural, qualquer experimentação seria impossível, o que poderia ser chamado de veto do objeto. Por fim, ele reforçou a crítica que já era direcionada a Wolff, aquele do começo dessa seção. A introspecção como método, segundo Kant, seria inviável porque a própria tentativa de observar um fenômeno interno altera o fenômeno, o veto metodológico. Se tento observar minha própria tristeza, por exemplo, o fenômeno original desaparece e se transforma em “tristeza-sendo-observada-por-mim”, misturando sujeito e objeto de tal maneira que corrompe a objetividade. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A impossibilidade de uma psicologia científica não significava, contudo, a impossibilidade de estudar a mente e o comportamento. Kant trabalhou e lecionou com o que chamou de Antropologia Pragmática. Enquanto a psicologia empírica tentava, em vão, segundo ele, ser uma ciência exata, a antropologia pragmática estudava “o que o homem, como ser livre, faz, ou pode e deve fazer de si mesmo”. Era um estudo prático do comportamento, das paixões, da memória e da cognição, focado na vida em sociedade. De certo modo, pode-se dizer que Kant fechou a porta para a psicologia mecanicista, ou ainda, uma psicologia como ciência exata, mas ajudou a abrir uma janela imensa para as ciências humanas e sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Emergência do Neokantismo Fisiológico e as Primeiras Aproximações para a Psicologia Científica ==&lt;br /&gt;
A primeira metade do século XIX na Alemanha foi inicialmente dominada pelo Idealismo Pós-Kantiano (Hegel, Fichte, Schelling), que propunha sistemas metafísicos grandiosos onde a realidade era essencialmente racional e espiritual. Contudo, a partir da década de 1850, o forte avanço das ciências naturais, como a fisiologia e a química, gerou uma importante reação materialista, consolidados nas figuras de Feuerbach, Vogt, Büchner e outros, que passaram a ridicularizar a filosofia idealista como mera especulação vazia. A metafísica, vista como uma das glórias da filosofia e do pensamento humano, passou a ser vista cada vez mais como um discurso com pouco ou nenhum lastro na realidade. Essa mudança foi muito importante para a história da psicologia científica, pois foi devido a esse contexto que foram formulados os primeiros experimentos voltados para o que seria, no futuro, a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Johannes Müller e a Teoria das Energias Nervosas Específicas ===&lt;br /&gt;
Neste período, a fisiologia se estabeleceu como uma ciência rigorosa e extremamente respeita, liderada por figuras como Johannes Müller. Müller, professor na Universidade de Berlim, publicou seu Manual de Fisiologia Humana (1833-1840), que sistematizou o conhecimento fisiológico da época e transformou a compreensão da percepção. Até o final do século XVIII, ela era explicada pela Teoria da impressão da sensação, derivada da física newtoniana e do empirismo britânico. Esse modelo assumia que o sistema nervoso era um meio homogêneo e passivo que simplesmente “transportava” as qualidades dos objetos externos para a mente, como se a sensação fosse uma cópia exata do estímulo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Johannes Müller revolucionou esse entendimento ao formular a Teoria das energias nervosas específicas (1826). Ele provou, através de experimentos, que a estimulação de um determinado nervo sensorial sempre provoca uma sensação característica e exclusiva daquele nervo, independentemente da natureza do estímulo físico externo. Em outras palavras, a qualidade da sensação não pertence ao objeto físico, mas sim à estrutura do próprio aparato sensorial humano. O mesmo estímulo pode produzir sensações completamente diferentes dependendo de qual via nervosa é ativada. Por exemplo, ao aplicar sal na pele, na língua e nos olhos, as sensações serão totalmente distintas, todas diretamente relacionadas às especificidades do aparelho sensorial que foi ativado. É importante entender que isso não acontece por conta da especificidade das características do estímulo, como o sal ser “salgado”. A pele produz apenas sensações táteis, ainda que o estímulo não seja tátil. Isso cria um problema de confiança naquilo que percebemos sensorialmente, pois mostra que os órgãos não enviam apenas propriedades dos objetos, mas antes operam apenas de modo específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Müller, por meio de experimentos, mostrou que os objetos físicos projetam imagens invertidas na retina, mas nós os percebemos na posição correta. Ele mostrou também que, embora as imagens projetadas nas duas retinas sejam levemente diferentes, o cérebro as unifica em uma única imagem tridimensional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas descobertas trouxeram Kant para o terreno da biologia, inclusive pelo próprio Müller que, apesar de não ser neokantiano, viu suas descobertas científicas influenciarem profundamente a primeira geração deles. O sistema nervoso não é um receptor passivo, antes, ele medeia, molda e traduz ativamente a realidade externa. A sensação deixou de ser vista como uma cópia do mundo e passou a ser um enigma, que pode ser analisado a partir da seguinte pergunta: “o que existe entre o estímulo físico e a sensação subjetiva?”. Este é o mundo do primeiro projeto de psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Hermann von Helmholtz e o Neokantismo Psicofisiológico ===&lt;br /&gt;
A ponte definitiva entre a epistemologia kantiana e a prática laboratorial foi construída por um antigo aluno de Johannes Müller, Hermann von Helmholtz (1821-1894). Ele colaborou no desenvolvimento do neokantismo psicofisiológico ou neokantismo fisiológico. Ele entendeu que as descobertas de seu professor forneciam a base material exata para a teoria do conhecimento de Kant. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1855, Helmholtz argumentou que as estruturas a priori propostas por Kant como condições de possibilidade da experiência eram, na verdade, características da anatomia e da fisiologia do aparato perceptivo humano. Ao “naturalizar” a filosofia de Kant, Helmholtz formulou a sua teoria dos signos, que postula que nossas sensações e percepções não são cópias diretas da realidade, mas sim símbolos ou signos gerados pelo nosso sistema nervoso em resposta aos estímulos. Para explicar como construímos uma imagem coerente e espacial do mundo a partir desses signos neurológicos isolados, Helmholtz introduziu o conceito de inferências inconscientes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo essa teoria, a mente realiza uma série de ajustes e cálculos automáticos, baseados na experiência e na aprendizagem contínua, para interpretar os dados sensoriais. A percepção de profundidade, a posição espacial e a resolução de duas imagens retinianas em uma única visão estereoscópica não são inatas, como defendia o nativismo de Ewald Hering ou o próprio Müller, mas são aprendidas empiricamente através do movimento do corpo e da repetição das sensações. O espaço perceptivo atua como uma linguagem que a mente usa para interpretar os dados fisiológicos brutos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com isso, Helmholtz fundou o projeto de uma psicologia fisiológica autônoma, diferente da psicologia filosófica discutida na época. Ele concordou com Kant que a introspecção tradicional era um método falho, que podia conduzir a ilusões porque o observador só capta a superfície consciente do pensamento. A solução de Helmholtz foi submeter o sujeito da experiência a condições de laboratório rigorosamente controladas. Se as condições da percepção dependem de mecanismos fisiológicos, então a única forma de fazer epistemologia científica é através da experimentação fisiológica e da ótica. O sujeito do conhecimento tornou-se, assim, um objeto, que poderia ser manipulado e analisado em laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Suas contribuições não acabam por aí. Antes das pesquisas de Helmholtz, a comunidade científica acreditava que o impulso nervoso era instantâneo ou rápido demais para ser mensurado. Em 1850, estimulando um nervo motor na perna de uma rã e medindo o tempo da contração muscular, ele obteve o registro da velocidade de condução neural, que é de aproximadamente 27 metros por segundo, provando que havia “algo” entre o estímulo e a percepção que poderia ser analisado cientificamente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também mediu o tempo de reação de nervos sensoriais em humanos. Essa descoberta provou que o pensamento e o movimento corporal não ocorrem simultaneamente, mas são separados por um intervalo de tempo mensurável. Essa foi a base que abriu caminho para os experimentos de tempo de reação e cronometria mental que dominariam o laboratório de Wundt décadas depois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== F. A. Lange e o Projeto de uma “Psicologia Sem Alma” ===&lt;br /&gt;
O segundo pilar desse “retorno a Kant”, também de matriz fisiológica, foi erguido pelo filósofo e sociólogo Friedrich Albert Lange (1828-1875). Lange foi uma figura central na “controvérsia materialista” que agitava a Alemanha. Ele rejeitava tanto os “delírios” dos sistemas idealistas metafísicos quanto o reducionismo ingênuo do materialismo científico de Vogt e Büchner. Em sua influente obra História do Materialismo, de 1866, Lange defendeu que a limitação proposta por Kant é absoluta, ou seja, não temos e nem nunca teremos acesso à essência última da realidade, às coisas em si. Nosso conhecimento se restringe aos efeitos das coisas, ou seja, os fenômenos, que nos aparecem totalmente moldados pela nossa organização mental e neurológica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Lange argumentou que a impossibilidade de conhecer a essência não impede o estudo científico rigoroso das “aparências”, ou seja, sobre como as coisas nos aparecem. Para viabilizar esse estudo, Lange atacou as psicologias filosóficas do passado, que versavam debates que ele ele entendia estéreis sobre a natureza, a imortalidade e a substancialidade da “alma”. Para Lange, a alma era um conceito vazio, um “mito antigo” que forçava a psicologia a operar sobre pressupostos metafísicos inverificáveis. Em resposta, ele propôs a criação de uma psicologia sem alma, ou, em outras palavras, uma psicologia sem metafísica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste novo paradigma, o objeto de estudo da psicologia deveria ser reduzido aos dados empíricos observáveis, incluindo a sensação, a percepção, a ação e a linguagem, sempre buscando o seu correlato fisiológico. Lange rejeitou a introspecção puramente filosófica, pois a auto-observação isolada é privada, não pode ser repetida, não permite a presença de observadores externos e leva invariavelmente a ilusões verbais. Segundo ele, essa introspecção conduzia o pesquisador a substancializar conceitos como “vontade” ou “pensamento”, sem nenhum lastro empírico ou experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A única saída para a psicologia tornar-se verdadeiramente científica era abraçar a metodologia das ciências naturais. Apoiando-se no trabalho de Helmholtz e nas medições pioneiras de psicofísicos como Ernst Weber e Gustav Fechner, Lange prescreveu que a psicologia deveria investigar as leis fisiológicas da percepção e medir a correlação exata entre estímulos físicos e respostas sensoriais, como nos tempos de reação e nos limiares diferenciais. A psicologia passava a ser entendida não como a ciência do espírito transcendente, mas como a ciência psicofisiológica que estuda experimentalmente as condições de possibilidade da experiência, trazendo o sujeito transcendente de Kant para uma fisiologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fechner e a Fundação da Psicofísica ===&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner (1801–1887) foi um físico e metafísico alemão e antigo aluno de Weber. Apesar de não ser um neokantiano, ele tem uma importância fundamental para este momento da fundação da psicologia experimental, tendo sido citado e adotado por neokantianos. Ele assumiu a prestigiada e importante cadeira de física da Universidade de Leipzig em 1834, enquanto produzia sátiras sobre temas metafísicos e artísticos sob um pseudônimo. Após uma série de experimentos em que observava diretamente o Sol, feriu gravemente suas retinas, evento que o conduziu a um colapso físico e mental. Teve uma recuperação milagrosa em 1843, quando tentou observar flores em seu jardim e, por meio de uma experiência mística, observou que a natureza brilhava de dentro para fora, de onde concluiu que o universo era dotado de alma e consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esssa experiência decisiva levou-o a dedicar sua vida ao combate do materialismo científico, que ele denominava visão noturna, que via o mundo como uma matéria inerte e sem vida. Já a sua visão diurna entendia que a matéria era a manifestação da consciência universal divina, uma cosmovisão espiritualista que pode ser entendida como panpsiquista, ou seja, todos os corpos físicos possuem uma forma de alma. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi buscando provar sua visão que Fechner entendeu que poderia provar empiricamente a relação entre a mente (ou o espírito) e o corpo (ou a matéria) se encontrasse uma relação matemática constante entre a intensidade do estímulo físico e a magnitude da sensação psíquica correspondente. Isso porque Fechner percebeu que um aumento na intensidade do estímulo físico não gerava um aumento equivalente e proporcional na sensação subjetiva. A relação não era linear, mas sim proporcional, pois o estímulo físico aumentava em uma progressão geométrica, enquanto a sensação psíquica crescia em uma progressão aritmética. Por exemplo, acrescentar o som de um sino a outro que já está tocando gera um forte impacto perceptivo, pois é possível distinguir claramente que passou-se de um para dois sinos. Já acrescentar um sino a uma dezena deles produz uma alteração quase imperceptível. A sensação dependia, portanto, do nível de estimulação já existente no sistema.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para dar sustentação empírica à sua teoria, Fechner apropriou-se dos trabalhos experimentais realizados por Weber, que havia formulado a teoria da diferença mínima perceptível, demonstrando que a sensibilidade humana não avaliava diferenças absolutas entre estímulos, mas sim relações relativas ou proporcionais. Weber observou que, ao levantar pesos, os sujeitos conseguiam detectar uma variação mínima correspondente a uma fração constante de aproximadamente 1:40 em relação ao peso padrão. Essa constância proporcional é descrita pela chamada Lei de Weber:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
II=K&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde I representa a intensidade do estímulo padrão (que aparecerá como R posteriormente), ΔI é o acréscimo mínimo necessário para produzir uma mudança perceptível na sensação e k é uma constante matemática específica para cada modalidade sensorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Fechner percebeu que essa fração constante (ΔI/I) correspondia à unidade de medida da sensação subjetiva (dS). Utilizando o cálculo infinitesimal, Fechner integrou matematicamente a equação de Weber, assumindo que todas as diferenças mínimas perceptíveis eram subjetivamente iguais entre si. Essa operação matemática resultou na célebre Lei de Fechner ou Lei de Weber-Fechner:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
S = k Log R&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde S representa a magnitude da sensação subjetiva (qualidade mental), R representa a intensidade física do estímulo (qualidade material) e K é uma constante experimental ajustada a cada sentido. Essa fórmula logarítmica foi construída para mostrar que, para a sensação aumentar linearmente, o estímulo físico precisava crescer exponencialmente, estabelecendo uma relação exata e mensurável entre o psíquico e o físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para aplicar sua fórmula, Fechner sistematizou dois conceitos fundamentais que estruturam as medições psicofísicas. A primeira é o limiar absoluto, ou seja, o ponto de intensidade física mínima abaixo do qual o estímulo não é detectado pelo sujeito e acima do qual a sensação passa a ser percebida. Outro conceito é o de limiar diferencial, que é a quantidade mínima de alteração ou variação que deve ser aplicada a um estímulo para que o sujeito seja capaz de discriminar uma mudança na sensação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um desdobramento fascinante da Lei de Fechner ocorreu quando o estímulo físico apresentava valores abaixo do limiar absoluto (R&amp;lt;1), resultando em valores negativos para a sensação (S). Fechner definiu esses valores como sensações negativas ou subliminares, postulando a existência de processos mentais ativos abaixo do limiar da consciência desperta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para determinar com precisão científica os limiares absolutos e diferenciais, Fechner desenvolveu e padronizou três metodologias experimentais rigorosas, que se tornaram os pilares metodológicos de toda a psicologia experimental posterior. No Método do Erro Médio ou do Ajuste, o próprio sujeito experimental manipula ativamente um instrumento para ajustar um estímulo variável até que sinta que este se iguala a um estímulo padrão constante. A média dos desvios entre os ajustes do sujeito e o padrão real define o erro de observação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já no Método do Estímulo Constante ou dos Casos Corretos e Incorretos, o pesquisador apresenta de forma aleatória uma série de estímulos pré-determinados e constantes em comparação com um estímulo padrão. O sujeito deve julgar se o estímulo de comparação é maior, menor ou igual ao padrão, medindo-se a proporção estatística de acertos. Por fim, no Método dos Limites ou das Diferenças Mínimas Perceptíveis, dois estímulos são apresentados ao sujeito. Um deles é aumentado ou reduzido sistematicamente em passos discretos e graduais, e o sujeito relata o momento exato em que deixa de perceber ou passa a perceber a diferença entre ambos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1860, Fechner publicou seu livro monumental, Elementos de Psicofísica, que alguns entendem ser o primeiro sobre a psicologia científica experimental. Ao fornecer à psicologia técnicas de medição coerentes e precisas, Fechner provou de forma contundente que a mente humana era passível de investigação científica e experimental, sepultando em definitivo o antigo veto imposto por Immanuel Kant, em pleno momento de desenvolvimento do Neokantismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Incomodados com as inclinações metafísicas e espiritualistas de Fechner, os psicólogos experimentais subsequentes, sob a liderança de Wilhelm Wundt, rejeitaram completamente o panpsiquismo entre outras ideias, apropriando-se exclusivamente de seus métodos quantitativos de laboratório para estabelecer a psicologia como uma ciência empírica e natural. Como bem observou o historiador Edwin G. Boring, Fechner agiu como um “Colombo que descobriu um Novo Mundo (a psicologia científica) enquanto procurava pelas antigas Índias (a prova de sua metafísica)”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Resumindo ===&lt;br /&gt;
A intersecção entre a epistemologia kantiana, a fisiologia de Müller e a reformulação promovida por Helmholtz e Lange constituiu o início daquilo que tornou possível a psicologia científica. Kant havia mostrado que o sujeito constrói ativamente a realidade, mas negou que esse sujeito pudesse ser estudado matematicamente ou experimentalmente. Müller transferiu a estrutura ativa da mente para os nervos sensoriais específicos. Helmholtz e Lange reinterpretaram as pesadas categorias transcendentais de Kant como mecanismos biológicos e perceptivos operando através de inferências inconscientes e leis fisiológicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao “naturalizar” a Crítica da Razão Pura, o Neokantismo Psicofisiológico resolveu o veto de Kant a uma psicologia científica. Se os limites e as formas do nosso conhecimento são determinados pelo nosso sistema nervoso e sensorial, então o estudo epistemológico da mente deve ser feito no laboratório de fisiologia, estudando principalmente a percepção. A exigência de matematização foi superada pelas leis da psicofísica de Fechner e Weber, e o problema da introspecção descontrolada foi resolvido pelo uso de instrumentos de precisão, como cronoscópios, além de métodos de medidas de limiar, controle de estímulos, erros médios, entre outros, que transformavam as respostas subjetivas em dados objetivos, replicáveis e mensuráveis. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse foi o cenário epistemológico e institucional que Wilhelm Wundt encontrou e ajudou a consolidar. Wundt não fundou a psicologia a partir do nada em 1879. Seu Instituto em Leipzig foi organização metodológica e teórica de décadas de esforços em que a filosofia foi obrigada a dialogar com os nervos, os músculos e os tempos de reação, transformando para sempre a especulação sobre a alma em uma rigorosa ciência da experiência imediata. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ironicamente, escolas neokantianas posteriores, como a Escola de Marburgo, foram focos de resistência à psicologia experimental, alegando que o sujeito do conhecimento de Kant era de ordem puramente transcendental e lógica, e não empírica ou mensurável, ou seja, rejeitando a “biologização” do pensamento kantiano e a consequente criação da psicologia experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, conforme mostra Gundlach, a criação de uma posição acadêmica e o laboratório de psicologia por Wundt não se deu por conta de um amplo reconhecimento da superioridade do pensamento wundtano, mas sim por conta de disputas políticas e institucionais nas universidades alemãs. De qualquer forma, Wundt conseguiu desenvolver bem sua teoria ao longo de sua vida e conseguiu estabelecer-se na proeminência da psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia de Wundt ==&lt;br /&gt;
Wilhelm Maximilian Wundt é, na historiografia da psicologia, uma figura ao mesmo tempo onipresente e bastante malcompreendida. Freqüentemente reduzido ao título de “fundador do laboratório de Leipzig”, essa simplificação negligencia sua estatura como um dos últimos grandes arquitetos de sistemas do século XIX, cujo Systemgedanke (pensamento sistêmico) buscava integrar a psicologia como uma propedêutica fundamental para a filosofia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Recuperar o Wundt original exige preencher uma vasta lacuna historiográfica vasta, a começar pela superação das distorções da tradução de E.B. Titchener para o contexto anglo-americano, que foi formulada para aproximar suas ideias e perspectivas daquelas de Wundt, visando uma “confirmação” de suas ideias. Em primeiro lugar, é necessário reejeitar a classificação de Wundt como um estruturalista ou associacionista clássico. O sistema wundtiano é essencialmente dinâmico e centrado no voluntarismo. Para Wundt, a vontade e os processos afetivos não são meros epifenômenos, ou seja, um fenômenos secundários ou acessórios que acompanhma um fenômeno principal, mas o eixo organizador da consciência ativa. Esta reconstrução crítica visa resgatar a autonomia epistemológica de uma ciência que define seu objeto não como uma substância, mas como a experiência em sua totalidade imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Experiência Imediata, o Objeto de Estudo da Psicologia ===&lt;br /&gt;
Ao definir seu objeto, Wundt deu um passo decisivo para dar à psicologia autonomia perante as outras ciências naturais. Ele propõe que a experiência é uma unidade indivisível. Mas o que ele quer dizer por “experiência”? Uma definição poderia ser a totalidade dos processos conscientes, englobando sensações, sentimentos, representações e volições (vontades), apreendida da exata forma como se apresenta diretamente ao sujeito, sem qualquer abstração conceitual ou mediação de instrumentos externos. Ou seja, a experiência de Wundt seria como tudo o que se passa na mente, exatamente como ela aparece para uma pessoa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para ele, a experiência pode ser analisada a partir de duas perspectivas: a mediata e a imediata. A experiência ediata pertence ao domínio das Naturwissenschaften, ou ciências naturais, como a física e a química. Ela seria a a experiência objetiva, focada totalmente nos objetos do mundo externo que, se pensados de maneira isolada, são independentes do sujeito. Ela é chamada de mediata porque o acesso a essa realidade é indireto, ou seja, ela precisa de uma mediação. Essa mediação são conceitos teóricos e construções auxiliares e as características cognitivas e biológicas do próprio sujeito que interpreta os dados sensoriais brutos utilizando suas crenças, conhecimentos e expectativas. Isso não significa que a ciência natural esteja errada, mas sim que ela possui um recorte de interesse diferente do recorte da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O domínio da psicologia seria a experiência imediata, subjetiva, que é a experiência em sua realidade concreta, direta e intuitiva, apreendida antes de qualquer conceituação, teorização ou abstração. Ou seja, é a experiência antes de ela adquirir qualquer camada de compreensão, que seriam mediadores, por isso é imediata, sem mediação. Ela envolve o processamento de elementos sensoriais simples, como cor, som, temperatura, e de sentimentos simples, como prazer e desprazer. Ela diz respeito ao modo puro de funcionamento mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vamos a um exemplo, desta vez no campo do som. Na perspectiva mediata, o cientista natural abstrai o sujeito e estuda o som de forma indireta e conceitual. Ele utiliza aparelhos para medir as ondas sonoras e a sua propagação física pelo ar. O objeto físico “som” é, portanto, mediado e traduzido por conceitos de frequência, amplitude e decibéis. Já sob a perspectiva imediata, que é a da psicologia, o psicólogo estuda a sensação direta e em si mesma do tom no momento exato em que ele aparece na consciência. A análise está na vivência concreta do sujeito, que inclui a qualidade do tom, a sua intensidade subjetiva, a tonalidade afetiva de prazer ou desprazer que o acompanha e o processo ativo da atenção (apercepção, que será tratada mais adiante) que coloca aquele som no foco da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se olharmos desta vez para as cores, na visão mediata, ciência natural estuda o azul abstraindo a experiência do sujeito. A física o descreverá de forma conceitual como uma radiação eletromagnética com determinado comprimento de onda atingindo a retina. Para a psicologia de Wundt, o azul é investigado como um dado imediato e real na consciência do sujeito no momento da percepção interna. O foco não está nas propriedades físicas do estímulo, mas sim na reação subjetiva e ativa do cérebro vivo a esse estímulo, que gera a qualidade imediata da cor na experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conduzindo seus estudos, Wundt também identificou aquilo que denominou causalidade psíquica. Ao nos lembrarmos de um fato triste, a fisiologia explicaria a tristeza de forma conceitual e indireta, por meio de correntes elétricas no córtex cerebral, liberação de hormônios ou atividade de sinapses nervosas. Já o psicólogo observa a conexão de processos internos como elas ocorrem diretamente na consciência do sujeito, como a ligação da lembrança triste a um sentimento de angústia. A causalidade psíquica é uma causalidade própria da mente e irredutível às leis físicas da natureza, ou seja, não pode ser comparada à causalidade científica como a conhecemos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao adotar a experiência como seu objeto, Wundt rompe com a psicologia da alma, filosófica e metafísica. Ele substitui a psicologia de substâncias, que postula uma entidade mental oculta, pela teoria da atualidade (Aktualitätstheorie), na qual o psiquismo é definido como um fluxo de processos em constante devir. Seu sistema está fundamentado em um monismo perspectivista. Em outras palavras, para ele, mente e corpo não são substâncias que interagem mecanicamente, mas perspectivas distintas sobre a mesma unidade da experiência (Erfahrung). A psicologia, portanto, não estuda um “mundo interno”, que está isolado do externo, ainda que em contato com ele, mas a totalidade da experiência humana sob o prisma da imediatidade. Essa transição do estatuto de substância “mente” ou algo semelhante para o de processo traz uma nova perspectiva, criando um objeto que pode ser alvo de experimentação científica, partindo de experimentos já criados pela psicofísica e ainda outros que seriam desenvolvidos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Psicologia Individual e Völkerpsychologie: dois métodos para manifestações da experiência ===&lt;br /&gt;
A arquitetura metodológica de Wundt responde ao desafio de investigar processos mentais que variam em complexidade. Ele estabelece que a psicologia deve ser compreendida como o fundamento das Geisteswissenschaften (ciências do espírito ou humanas). A Psicologia Individual foca nos processos elementares, que incluem sensação e percepção, que são passíveis de controle rigoroso em laboratório através da manipulação de estímulos externos e introspecção experimental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entretanto, Wundt reconhece a insuficiência do experimento para os processos mentais superiores, como o pensamento e a linguagem, que são historicamente condicionados. Para estes, ele propõe a Völkerpsychologie , ou Psicologia dos Povos, dedicada ao estudo dos produtos das geistige Gemeinschaften (comunidades espirituais ou coletividades). Wundt vai apontar a linguagem, o mito e os costumes (Sitten) não são apenas dados culturais, mas objetivações de leis psíquicas superiores inacessíveis à introspecção de laboratório. Eles seriam produtos da experiência humana nas suas formas mais avançadas e superiores e, por não serem passíveis de experimentação, exigem uma outra abordagem. Essas duas vertentes, experimental e histórico-cultural, não são divergentes, mas sim o projeto integrador que permite apreender a mente tanto em sua base sensório-motora quanto em suas manifestações espirituais complexas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As investigações da psicologia dos povos focavam na alma do povo (Volksseele), definida como a realidade factual dos processos psíquicos que surgem em uma comunidade por meio da interação das energias mentais dos indivíduos. Essa “mente coletiva” se tornava um objeto tangível e investigável ao longo da história em três grandes produtos culturais. O primeiro é a linguagem (Die Sprache), ferramenta pela qual o pensamento é estruturado e externalizado. Já o mito e a religião são as formas como a imaginação e os sentimentos humanos coletivos projetam suas explicações sobre o cosmos e a existência. Os costumes (Sitten) e o direito, por sua vez, são  as regras de conduta coletiva que nascem de atos voluntários e impulsos compartilhados, padronizando as interações sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não podia realizar experimentos com culturas inteiras, Wundt operava por meio da pura observação retrospectiva e comparativa dos produtos mentais, ou seja, analisando os objetos já criados e usados ou em uso por diferentes povos e culturas, anotando suas diferenças e semelhanças. Wundt juntava, lia e analisava de forma exaustiva relatos históricos, estudos filológicos, dicionários, mitologias comparadas, códigos de leis e descrições etnológicas e antropológicas de povos ao redor do globo, ou seja, utilizava dos estudos de diferentes ciências humanas e sociais para extrair as leis psicológicas gerais do desenvolvimento mental humano por trás dessas manifestações. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seu objetivo era mapear como a mente coletiva evoluía do simples para o complexo ao longo das eras, numa abordagem genética e desenvolvimentista e reconstruir, de forma retrospectiva, as forças dinâmicas, os afetos, os impulsos (Triebe) e os processos de síntese criadora (melhor discutida mais adiante) que estiveram ativos na mente das pessoas no momento de sua formação. Wundt dedicou os últimos 20 anos de sua vida (de 1900 a 1920) quase exclusivamente a esse empreendimento monumental, escrevendo dez volumes da sua obra Völkerpsychologie.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Apercepção ===&lt;br /&gt;
No contexto filosófico, como já visto, o conceito de apercepção remonta a Kant, que a definiu como o processo autônomo, ativo e prévio pelo qual a mente unifica diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Wundt adotou essa noção kantiana para fundamentar sua teoria da consciência, definindo apercepção como o processo psicológico ativo pelo qual um conteúdo psíquico (ou representação) é trazido à clareza máxima e ao foco da consciência, vindo necessariamente acompanhado pelo estado de atenção voluntária.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para explicar a dinâmica da consciência, Wundt utilizou uma famosa analogia com a visão para diferenciar apercepção e percepção. O campo visual da consciência (Blickfeld) corresponde à percepção, que é a simples entrada de uma representação na consciência de forma difusa, ampla e sem a presença focalizada da atenção. Já o ponto focal da consciência (Blickpunkt) corresponde à apercepção, que é a entrada de uma representação no ponto central de máxima clareza e foco estreito da atenção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A apercepção, então, é uma manifestação primordial da vontade, funcionando como o princípio dinâmico que dá direção e estrutura tanto à experiência quanto ao movimento. Além disso, a apercepção pode ser ativa, que é quando o sujeito deliberadamente seleciona onde focará sua atenção, ou passiva, quando é o estímulo que se impõe no foco no sujeito. Por fim, a apercepção é o mecanismo central da operação da causalidade psíquica. É ela que unifica a mente em um sistema ativo, permitindo que a fusão de elementos resulte em sínteses criadoras com propriedades qualitativamente novas e imprevisíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Percepção Interna (innere Wahrnehmung) vs. Auto-observação (Selbstbeobachtung) ===&lt;br /&gt;
Para garantir o rigor procedimental e responder ao “desafio kantiano”, Wundt rejeitou a Selbstbeobachtung, que pode ser entendida como a auto-observação tradicional ou introspecção casual. Trata-se do método introspectivo puramente filosófico e especulativo que, segundo Wundt e outros, seria fonte de auto-ilusões e onde o ato de observar altera o fenômeno observado. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A solução científica é a innere Wahrnehmung, ou percepção interna, que permite a criação de um método científico baseado na repetição de estímulos externos controlados. No laboratório, o psicólogo replica condições experimentais que permitem a observação do aparecimento imediato do processo psíquico sob condições estáveis e previsíveis. O laboratório funciona, portanto, como o estabilizador do objeto psicológico, permitindo que a percepção interna atinja a precisão necessária para decompor a consciência em seus elementos fundamentais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experimentos do Laboratório de Wundt ====&lt;br /&gt;
Vamos a alguns exemplos do que acontecia no laboratório de Wundt, para integrar melhor os conceitos já apresentados. O primeiro experimento foi concebido originalmente para descrever a “equação pessoal” que aparecia nas medições dos astrônomos. No caso, observava-se que astrônomos treinados, utilizando os mesmos equipamentos, discordavam de suas medições que, à época, eram feitas manualmente com ajuda de instrumentos. De alguma forma, estas diferenças nas medições pareciam ter um tipo de padrão. Neste experimento, Wundt utilizava um aparelho chamado medidor de pensamento (Gedankenmesser) e, posteriormente, o pêndulo de complicação (Complicationspendel). O dispositivo consistia em um grande relógio de pêndulo que possuía uma agulha cruzada, como uma agulha de tricô, capaz de golpear fisicamente um pequeno sino em um ponto exato do seu arco de oscilação. O sujeito do experimento deveria olhar para a escala do pêndulo e tentar determinar a posição exata do ponteiro no momento em que ouvia o sino tocar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste experimento, Wundt descobriu que o sujeito sempre cometia um erro sistemático de registro, de aproximadamente um oitavo de segundo. Segundo ele, era impossível perceber visualmente a agulha e o som do sino ao mesmo tempo. Esse experimento seria uma prova laboratorial de que a consciência possui uma capacidade limitada e só consegue focar em uma única percepção por vez, como a diferença no marco da medição podia mostrar. A ilusão de simultaneidade devia-se apenas à rápida sucessão dos processos de atenção (apercepção).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os experimentos de tempo de reação, nosso segundo exemplo, constituíam o verdadeiro coração do trabalho em Leipzig na década de 1880. Wundt adaptou o método de subtração (Subtractiemethode), do fisiologista holandês F. C. Donders, para medir a velocidade de processos mentais complexos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o experimento de Wundt, é necessário compreender que, para ele, uma reação consciente envolvia: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- transmissão da sensação ao cérebro; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2- entrada do estímulo no campo amplo da consciência (percepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
3- entrada no foco ativo da atenção (apercepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
4- ato de vontade para liberar a resposta; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
5- execução motora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada um dessas partes exigem um certo tempo, pois são processos não imediatos. A depender de como as etapas do experimento são organizadas, diferentes tempos indicariam o acionamento maior ou menor de cada um deles. No experimento, o sujeito era treinado para responder pressionando uma tecla telegráfica ao ver um estímulo luminoso simples, como um flash de luz. Em seguida, a tarefa mais difícil. Duas imagens eram apresentadas, um círculo branco sobre fundo preto ou vice-versa, e o sujeito só deveria reagir após identificar com clareza qual imagem havia aparecido. Ao subtrair o tempo da reação simples do tempo da reação complexa, Wundt calculava o “tempo de apercepção” ou discriminação. Na primeira tese de doutorado em psicologia experimental da história, Max Friedrich, que atuou no experimento, mostrou que o tempo de discriminação aumentava de acordo com a complexidade do estímulo visual. Por exemplo, o sujeito levava mais tempo para aperceber e discriminar uma sequência de seis dígitos do que de apenas um ou dois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O assistente de Wundt, Ludwig Lange, também colaborou no estudo ao desenvolver um experimento crucial. Ele demonstrou que os tempos de reação variavam drasticamente dependendo da preparação atencional do sujeito. Se a atenção estivesse focada no movimento de resposta que o dedo faria (reação muscular), o tempo era curto (cerca de 125 ms), pois funcionava como um “reflexo cerebral” que pulava a apercepção. Se o foco estivesse direcionado ao estímulo sensorial que iria surgir (reação sensorial), o tempo era cerca de 100 ms mais longo, pois envolvia o circuito completo da mente consciente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O terceiro experimento foi desenvolvido por Martin Trautscholdt, um dos estudantes de doutorado de Wundt. Ele estudava a associação de ideias. No seu estudo, o sujeito era instruído a pressionar uma tecla no momento exato em que uma ideia associada surgisse em sua consciência a partir de um estímulo visual ou auditivo. Ao subtrair o tempo que o sujeito levava para simplesmente reconhecer a palavra estimulante, Trautscholdt conseguiu quantificar o tempo gasto pela mente para realizar a conexão associativa propriamente dita que, segundo Trautscholdt, variava entre 706 e 874 ms. Wundt também adaptou a técnica de associação de palavras de Francis Galton, limitando a resposta do sujeito a apenas uma única palavra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O quarto e último experimento que será apresentado é relacionado a acordes musicais. Nele, sujeitos ouviam tons isolados no piano, que seriam as sensações puras, e depois os mesmos tons tocados simultaneamente. Os participantes descreviam em detalhes a transição afetiva de como a fusão física das frequências dava origem a um produto inteiramente novo na consciência, que seria o sentimento estético de harmonia e prazer decorrente de uma síntese criadora. Wundt conduzia vários experimentos em estética experimental, tal qual seu colega Fechner.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Arquitetura da Mente: Elementos, Fusão e Síntese Criadora ===&lt;br /&gt;
Segundo Wundt, a experiência pode ser decomposta em elementos simples, que incluem as sensações e os sentimentos simples. Os sentimentos, por sua vez, são entendidos a partir da teoria tridimensional dos sentimentos, onde eles se distribuem em um espaço qualitativo entre os polos prazer/desprazer (Lust-Unlust), tensão/relaxamento (Spannung-Lösung) e excitação/depressão (Erregung-Beruhigung). A primeira é a mais evidente, se refere à avaliação afetiva primária da experiência. A segunda se relaciona ao esforço da atenção ou à preparação interna da mente. Já a terceira está relacionada ao nível de ativação biológica e psicológica do organismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esses aspectos todos são organizados através do mecanismo de fusão (Verschmelzung), onde as qualidades elementares se fundem em complexos psíquicos. O conceito central aqui é o princípio da síntese criadora (schöpferische Synthese). Ao contrário do associacionismo britânico, Wundt afirma que o todo resultante possui propriedades que não estão contidas na mera soma das partes. Essa síntese não é um processo mecânico passivo, mas um ato aperceptivo ativo, vinculado à vontade. Na mente humana, a combinação de elementos gera um valor novo e qualitativamente superior, marcando a distinção fundamental entre a causalidade psíquica e a mecânica física.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em termos simples, a síntese criadora estabelece que os complexos psíquicos, como representações, sentimentos compostos e afetos, embora formados pela união de elementos simples (sensações e sentimentos simples), possuem características qualitativas inteiramente novas que não pertencem a nenhum de seus elementos constituintes isolados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fusão é o processo ativo e primário de integração psíquica. É através dela que os elementos sensoriais e afetivos brutos são ativamente sintetizados pela mente para dar origem a uma nova unidade psicologicamente complexa. A fusão é a geradora da síntese criadora. Para Wundt, a síntese criadora é a prova cabal da causalidade psíquica. Ela monstra que os fenômenos mentais obedecem a leis de conexão e geração próprias que não se ajustam às leis da física ou da fisiologia mecânica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Observemos isso com um exemplo já apresentado. Se você tocar no piano as notas Dó, Mi e Sol isoladamente, você terá apenas a experiência de três sensações auditivas distintas. No entanto, quando essas notas são tocadas simultaneamente, a fusão de seus elementos gera na consciência uma experiência qualitativamente nova, que seria um acorde musical. O sentimento de harmonia e a qualidade estética do acorde são um produto da síntese criadora, pois não existiam em nenhuma das notas isoladas e surgem puramente da atividade unificadora da mente sobre o estímulo físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Paralelismo Psicofísico e Causalidade Psíquica ===&lt;br /&gt;
O paralelismo psicofísico foi um dos conceitos mais importantes e debatidos no século XIX durante o processo de fundação da psicologia científica. Ele surgiu como uma alternativa teórica para solucionar o clássico problema mente-corpo. O conceito foi formulado de forma a tanto o dualismo substancial, que dividia o ser humano em duas substâncias isoladas cuja forma de interação era desconhecida, quanto o materialismo reducionista, que reduzia a mente a uma mera secreção cerebral ou processo físico ou fisiológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para Fechner, o paralelismo era a manifestação de um monismo neutro, ou teoria de duplo aspecto. Ele defendia que a matéria (corpo) e o espírito (mente) não são substâncias diferentes, mas sim dois modos de aparência ou perspectivas distintas de uma única e mesma realidade subjacente, teoria sobre o qual fundamental grande parte de seu projeto científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt também adotou o termo paralelismo psicofísico, mas realizou uma redefinição epistemológica radical do conceito, visando se afastar da metafísica. Ele rejeitava categoricamente qualquer tentativa de transformar o paralelismo em uma doutrina ontológica sobre a natureza última da realidade, transformando-o estritamente um postulado metodológico e heurístico indispensável para a investigação científica. Os processos mentais não sejam reduzidos a processos fisiológicos ou neurais, pois a consciência obedece a leis de conexão próprias, como a causalidade psíquica, que não podem ser explicadas pelas leis da mecânica cerebral.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O que Aconteceu Depois? ===&lt;br /&gt;
No final de sua vida, Wilhelm Wundt era visto de forma ambivalente. Enquanto mantinha o prestígio de fundador da psicologia científica, uma nova geração de psicólogos que buscava se firmar, via como um “pai tribal”, cujo longo domínio de mais de quatro décadas estava desgastado. Ele se tornou o alvo de críticas severas e passou a ser tratado por muitos como o ícone de um passado superado e falido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante a Primeira Guerra Mundial e nos anos que a sucederam, a reputação internacional de Wundt sofreu graves danos. Influenciado por seu filho Max, Wundt adotou posturas políticas ultranacionalistas, chegando a usar a Völkerpsychologie de maneira tendenciosa para criticar os inimigos da Alemanha. Essa postura inflamou um forte preconceito anti-alemão, especialmente nos Estados Unidos, onde ex-alunos e intelectuais americanos passaram a ver ele como uma mente maligna e autoritária, acelerando a rejeição de suas obras em solo estrangeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A maior frustração de Wundt no fim da vida ocorreu no âmbito acadêmico alemão. Ele sempre defendeu que a psicologia era uma ciência propedêutica e uma aliada indispensável da filosofia, devendo permanecer integrada a esta. No entanto, os filósofos acadêmicos de sua época, especialmente os neokantianos e fenomenologistas, rejeitaram veementemente o  que chamavam de “psicologismo de Wundt”, ou seja, a redução da lógica e da validade do conhecimento a fatos psicológicos. Em 1913, após a contratação de um psicólogo experimental para a cadeira de filosofia em Marburg, mais de cem professores de filosofia assinaram um protesto público exigindo que psicólogos fossem banidos dos departamentos de filosofia. Esse movimento resultou no progressivo divórcio institucional entre a psicologia e a filosofia, uma separação que Wundt lamentou e combateu até a sua morte em 1920.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir da década de 1890, uma forte onda de positivismo, inspirada pela filosofia de Ernst Mach e Richard Avenarius, varreu a psicologia experimental. Jovens psicólogos, incluindo os assistentes do próprio Wundt, rejeitaram conceitos fundamentais do sistema de Leipzig, como a apercepção, a causalidade psíquica e a síntese criadora, tomando eles como metafísica, exatamente o oposto do que desejava seu formulador. Eles preferiam um modelo elementarista e reducionista, focado na descrição de relações funcionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos EUA, a influência da teoria da evolução de Darwin deslocou o interesse da estrutura da consciência para as suas funções de adaptação ao meio, o chamado funcionalismo. Com o surgimento e o fortalecimento do behaviorismo e a eliminação da mente como objeto de estudo, o voluntarismo de Wundt perdeu qualquer espaço. Na Europa, a própria psicologia da Gestalt ergueu-se combatendo o elementarismo que havia sido falsamente associado a Wundt. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O golpe final veio após a Primeira Guerra Mundial, quando a Alemanha mergulhou em colapso econômico. Diante da “crise da psicologia”, os pesquisadores precisaram provar a utilidade prática da ciência que praticavam para sobreviver, o que já acontecia nos EUA, voltando-se para a psicologia militar, industrial, educacional e clínica. Wundt, que sempre desprezou a psicologia aplicada, teria visto seu sistema dinâmico de laboratório perder todo o fôlego diante das pressões pragmáticas da época, ainda que mantivesse sua fama e sua alcunha maior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia Científica na Inglaterra ==&lt;br /&gt;
O surgimento da psicologia na Inglaterra seguiu um caminho bastante distinto do modelo laboratorial alemão, focado na introspecção e na busca de leis universais. A psicologia britânica formou-se na intersecção de duas grandes forças intelectuais, que são as filosofias empirista e associacionista, e a biologia evolutiva. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No empirismo, pensadores como John Locke postularam que a mente humana nasce como uma tabula rasa ou uma folha em branco, e que absolutamente todo o conhecimento deriva da experiência sensorial. No associacionismo, filósofos como David Hume, James Mill e John Stuart Mill afirmavam processos mentais complexos são formados pela associação contínua de ideias simples e sensações, governadas por leis lógicas. tais como similaridade, contiguidade e causa e efeito. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A despeito de sua rica tradição filosófica, o maior divisor de águas para a ciência britânica foi a publicação de A Origem das Espécies, em 1859. A teoria da evolução natural de Darwin, trouxe novas e profundas questões para o estudo da mente britânica. Se humanos e animais compartilham ancestrais comuns, argumentava-se que deveria haver uma continuidade não apenas física, mas também mental entre as espécies, conectando a psicologia ao estudo da zoologia, dando origem à Psicologia Comparada. Além disso, a mente e a consciência deixaram de ser vistas apenas como objetos metafísicos e passaram a ser estudadas como ferramentas biológicas de adaptação, que evoluíram porque ajudavam o organismo a sobreviver em seu ambiente, sendo fundamental para a criação do funcionalismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a validação da biologia evolutiva, o estudo da inteligência animal explodiu no Reino Unido, George Romanes foi um dos primeiros a tentar sistematizar o comportamento animal. Contudo, seu método anedótico foi duramente criticado por ser antropomórfico, ou seja, por atribuir pensamentos e emoções humanas complexas a animais. Seu colega Conwy Lloyd Morgan introduziu mais rigor científico à área através do que ficou mundialmente conhecido como o Cânone de Morgan, ou princípio da parcimônia. A regra dizia que um comportamento animal não deve ser interpretado como resultado de uma faculdade mental superior se puder ser explicado por um processo psicológico mais básico, como o instinto ou o aprendizado por tentativa e erro. Apesar de a perspectiva de ambos ter sido abandonada, a Psicologia Comparada se tornou um dos principais ramos da psicologia moderna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Francis Galton e a Psicologia Diferencial ===&lt;br /&gt;
Francis Galton (1822-1911) foi um cientista e polímata britânico de inteligência extraordinária, com um QI estimado por volta de 200, algo extremamente raro, além de ser primo de Charles Darwin. Galton é amplamente reconhecido como pioneiro ao incorporar o estudo sistemático das diferenças individuais e da herança mental na nova psicologia, uma área que era ignorada ou rejeitada por pioneiros experimentalistas como Wilhelm Wundt.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Galton interessou-se pela medição das variações da inteligência e das capacidades humanas. Ele fundou um laboratório antropométrico onde testou a acuidade sensorial, a força e os tempos de reação de milhares de pessoas. Além disso, baseando-se na premissa empirista de John Locke de que todo o conhecimento vem da percepção, Galton assumiu que os indivíduos mais inteligentes seriam aqueles com as capacidades sensoriais e motoras mais aguçadas. Ele foi o inventor do conceito de testes mentais, termo posteriormente cunhado por seu aluno dos EUA, James McKeen Cattell. Galton também desenvolveu o método experimental de associação de palavras, medindo o tempo de reação mental e demonstrando a enorme influência das experiências da infância e do inconsciente no pensamento adulto, um trabalho que impressionou profundamente Sigmund Freud. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também foi um dos primeiros a fazer uso amplo do questionário psicológico para investigar imagens mentais, constatando para sua própria surpresa que a maioria dos cientistas relatava ausência de imagens mentais nítidas, em contraste com relatos muito mais detalhados fornecidos por mulheres e crianças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para conduzir medições em larga escala, ele inventou vários instrumentos clássicos e, para analisar suas enormes bases de dados, Galton desenvolveu conceitos estatísticos fundamentais, como a correlação. Essa tradição quantitativa foi depois aperfeiçoada por outros britânicos, como Charles Spearman, criador da análise fatorial e do conceito de fator g de inteligência geral, fundando a base da psicometria moderna. e influenciando de forma decisiva a psicologia dos testes nos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Conclusão ==&lt;br /&gt;
A história da psicologia é definida pelo paradoxo de ter um “longo passado” e uma “curta história”, podendo ir do De Anima de Aristóteles até a a fundação do laboratório de Wilhelm Wundt na Universidade de Leipzig, em 1879. A psicologia, assim, mostra que tem uma rica história, com muitos personagens, conceitos e acontecimentos importantes, de modo que qualquer narrativa sobre sua composição elegerá heróis e vilões, dará mais relevância para alguns, menos para outros e o esquecimento para a maioria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O texto propõe que Immanuel Kant foi uma figura central na composição da psicologia científica. Ele propôs que a mente humana é um agente ativo que organiza o conhecimento através de estruturas a priori, tais como o tempo, o espaço e as categorias do entendimento. Assim, ele introduziu o conceito de “sujeito transcendental” como a estrutura universal que garante a unidade da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Kant impôs um “veto” ao status científico da psicologia, defendendo a base na matematização. A superação desse veto ocorreu através da “naturalização” de Kant pela fisiologia. Johannes Müller, com a Teoria das Energias Nervosas Específicas, mostrou que a sensação é mediada pelo sistema nervoso, não sendo uma cópia fiel do mundo externo. Hermann von Helmholtz avançou essa ideia ao postular que as estruturas a priori de Kant seriam, na verdade, características da anatomia e fisiologia humanas. Ele propôs o conceito de “inferências inconscientes” para explicar como interpretamos dados sensoriais. Nesse contexto, Friedrich Albert Lange defendeu uma “psicologia sem alma”, rejeitando a metafísica e argumentando que o estudo científico deve focar apenas nas aparências e fenômenos observáveis, reduzindo o objeto da psicologia a dados empíricos e correlações fisiológicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner foi crucial ao oferecer a base matemática e experimental que faltavam, por meio da Lei de Weber-Fechner. Ele também padronizou e melhorou métodos para o estudo dos limites e constantes sensoriais, que se tornaram a base metodológica da psicologia experimental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt não apenas fundou um laboratório, como também arquitetou um sistema complexo. Para Wundt, o objeto da psicologia é a experiência imediata, criando conceitos como voluntarismo, causalidade psíquica, apercepção, entre outros. Além disso, ele também criou a psicologia dos povos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente do foco laboratorial alemão, a psicologia britânica foi moldada pela filosofia empirista e, crucialmente, pela teoria da evolução de Charles Darwin. Neste contexto, Galton ganha destaque, por ter fundado o laboratório antropométrico, inventado o conceitos de “testes mentais”, pelo uso de estatísticas no estudo da psicologia e ter influenciado o desenvolvimento da psicometria e a análise fatorial (com Charles Spearman), consolidando uma tradição que focava mais na variabilidade genética e na inteligência do que na estrutura da consciência em si.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1723</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
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		<updated>2026-07-17T23:21:54Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* Autoria */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base científica do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada uma das diferentes escolas funcionalistas. No funcionalismo, as teorias evolutivas têm relevância central, e consideram mente como o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No [[Funcionalismo americano|&#039;&#039;&#039;funcionalismo americano&#039;&#039;&#039;]], o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos e comportamentais&#039;&#039;&#039;. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma &amp;quot;coisa em si&amp;quot; para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039; na verdade são &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039;. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou &amp;quot;mistura&amp;quot; desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico só se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias com conexões funcionalistas mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções breves em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;[[Salpetrière]]&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação era considerada suficiente, além de os tratamentos serem bastante limitados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após a expansão do [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Nessas sessões, ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. Estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot nomes importantes para o século XX, como [[Freud]], [[Pierre Janet]], [[William James]], [[Joseph Babinski]], [[Alfred Binet]], entre outros. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]], [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] e outros trabalharam fortemente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que a paralisou, mas fomentou o desenvolvimento de uma psicologia filosófica, de grande importância para os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e, por conta disso, sofria sabotagem de seus colegas. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da [[Escola Prática de Altos Estudos]]. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como [[Claude Bernard]] (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, oriundo da Escola de Nancy e um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões muitas vezes indiretas, mas significativas para o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. As instituições centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de &#039;&#039;&#039;Jean-Martin Charcot&#039;&#039;&#039; e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, &#039;&#039;&#039;Alfred Binet&#039;&#039;&#039;, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;[[Pierre Janet]]&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud e a questões históricas da França, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceram na Alemanha, com &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. Os alemães tradicionalmente se interessam por psicologia, que era discutida amplamente em publicações de circulação acadêmica e popular, bem como em debates públicos. Essa &amp;quot;cultura psicológica&amp;quot; favoreceu o desenvolvimento da criação da psicologia, que ocorreu com a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica. Este momento ficou conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, a exemplo da linha alemã mais famosa do período, a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que colaborou com o surgimento de um corpo de psicólogos profissionais. Ao mesmo tempo, perspectivas desenvolvimentistas ou funcionalistas continuaram suas investigações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. Os &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também eram numerosos e respeitados, ganham progressiva relevância. A &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039; havia imigrado para os EUA durante a guerra e assim conseguiu uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã e enfraqueceu a própria Escola da Gestalt. Ainda no pós-guerra, ganham força &#039;&#039;&#039;perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; junto de abordagens mais holísticas, o que mostra a multiplicidade do pensamento psicológico naquele país que, apesar de sua relevância história, perdeu muito espaço para a psicologia dos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês e que circulavam no Brasil, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise.&#039;&#039;&#039; Ironicamente, a linhagem psicanalítica [[Lacan|lacaniana]], de origem francesa, foi a que mais se desenvolveu no país. As dificuldades do idioma e a distância cultural foram importantes obstáculos à circulação das ideias psicológicas da Alemanha no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente Alemanha, e associou-se fortemente à fisiologia na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra [[Vladimir Bechterev]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofundou os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um alguém que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias foram aplicadas em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecidas internacionalmente como importantes contribuições da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky progressivamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve menos circulação no Brasil, porém, Pavlov é um nome quase unanimemente citado em cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Seu nome é amplamente conhecido por estudantes de psicologia e de licenciaturas. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas criadas na cidade de Genebra, na Suíça. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre porque este país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente distintas. Essa multiplicidade impede uma classificação nacional ampla, demandando um estudo por região. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar da &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas e, por bastante tempo, foi um dos epicentros dos saberes psi.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça na fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. Esse breve apanhado mostra a multiplicidade deste país pequeno e diverso. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, puderam obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar, desenvolvimento social e econômico. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma destas cidades. Por séculos, foi uma cidade-estado autônoma próxima dos Alpes, cercada por quase todos os lados pela França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão suíço. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Valais, Friburgo e Berna (estas últimas bilíngues francês e alemão). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes políticos e religiosos foram convertidos em 1536 por um dos expoentes da Reforma, João Calvino. Na ocasião, os genebrinos expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto científica e filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculados à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu &amp;quot;sentimento de destino&amp;quot;, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos e fundos de investimento fortes e muito importantes globalmente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram uma filosofia humanista e social que convocava os cidadãos a direcionar seus esforços aos pobres, doentes, desvalidos, entre outros grupos e comunidades. Por conta dessa cultura, a cidade recebeu, em diferentes momentos, minorias perseguidas, doentes, vítimas de guerras, entre muitos imigrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação de iniciativas de promoção da paz e do desenvolvimento mundial, como a Cruz Vermelha e o Direito Internacional Humanitário. Em Genebra também se incentivou a criação de ações políticas multilaterais de fomento de diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, desarmamento, educação, proteção aos trabalhadores, entre outras . Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um de seus intelectuais, &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido treinamento em alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento com experimentos da psicofísica e da fisiologia que, posteriormente, viriam a ser utilizados ou incorporados na vindoura psicologia científica. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, sua ação inicial pode ser entendida como uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos com seus alunos da Universidade de Genebra. Fazia o mesmo no salão de sua casa, com seus convidados, antes ou depois das refeições que organizava, visando discussões privadas e sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039;. Essa experiência o leva a querer trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da psicologia. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por certas discordâncias, decidiu criar o próprio laboratório, colocando-se como um dissidente de seu mestre. Münsterberg fez várias sugestões e indicações a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes para ser num laboratório de psicologia e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viajou para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, com quem teve orientações práticas que utilizou para montar o seu próprio laboratório laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo comprou os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois foram adquiridos pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta e a partir de uma dissidência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra. O que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publicou [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio. Para Claparède, era esse meio que precisava ser transformado e adaptado, visando o desenvolvimento infantil. Defende então que a educação precisa ser baseada num conhecimento científico sobre a criança, o que passava necessariamente pela compreensão de sua psicologia. A escola, em sua visão, seria como um laboratório, onde poderiam ser testadas práticas pedagógicas, fundamentadas também na psicologia, com eficácia comprovada cientificamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se aliou a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento tanto público quanto privado, o espaço foi inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança), representando o espírito da Escola de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, incluindo o Brasil, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo e se coloca do lado do funcionalismo. Para ele, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria compreender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. De forma geral, a questão pode ser analisada se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas as necessidades, os interesses e os objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as mesmas necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos saudáveis de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é maior, como acontece, por exemplo, quando estamos com fome e precisamos providenciar alimentos no ambiente, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet, um dos fundadores do Instituto, também visitou o Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que, como consequência desta visita, o Brasil foi colocado pelos administradores do Instituto, como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Campos empresta hoje seu nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país, também esteve em contato intenso com colaboradores do IJJR.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Instituto também formou e enviou pessoas de outras nacionalidades para o Brasil, que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras da Colônia. Além disso, Radecki tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema psicológico próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga judia formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento do antisionismo na Europa. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget: uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
Nos anos 1920, a Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède. Este expande o laboratório e, pouco depois, funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa da psicologia, principalmente das suas relações com a criança e com a educação. Dentre estes, o grande nome de Genebra, aquele que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de adaptação do sujeito ao meio e que a &#039;&#039;&#039;cognição&#039;&#039;&#039; é uma extensão do real. É nessa obra que ele amadurece as noções de de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento de imenso prestígio e influência de Piaget, que dá à Instituição sua orientação e atua diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo, tempo, causalidade ou contradição, e convidava alguns dos maiores nomes do mundo para o debate. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre as discussões conduzidas, sintetizando avançadas discussões interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com externas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua Epistemologia Genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. É difícil elaborar uma lista completa, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser seu amigo pessoal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto [[Materiais didáticos (projeto)|Materiais didáticos]] do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1722</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
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		<updated>2026-07-17T23:17:57Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base científica do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada uma das diferentes escolas funcionalistas. No funcionalismo, as teorias evolutivas têm relevância central, e consideram mente como o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No [[Funcionalismo americano|&#039;&#039;&#039;funcionalismo americano&#039;&#039;&#039;]], o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos e comportamentais&#039;&#039;&#039;. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma &amp;quot;coisa em si&amp;quot; para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039; na verdade são &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039;. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou &amp;quot;mistura&amp;quot; desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico só se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias com conexões funcionalistas mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções breves em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;[[Salpetrière]]&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação era considerada suficiente, além de os tratamentos serem bastante limitados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após a expansão do [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Nessas sessões, ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. Estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot nomes importantes para o século XX, como [[Freud]], [[Pierre Janet]], [[William James]], [[Joseph Babinski]], [[Alfred Binet]], entre outros. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]], [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] e outros trabalharam fortemente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que a paralisou, mas fomentou o desenvolvimento de uma psicologia filosófica, de grande importância para os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e, por conta disso, sofria sabotagem de seus colegas. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da [[Escola Prática de Altos Estudos]]. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como [[Claude Bernard]] (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, oriundo da Escola de Nancy e um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões muitas vezes indiretas, mas significativas para o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. As instituições centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de &#039;&#039;&#039;Jean-Martin Charcot&#039;&#039;&#039; e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, &#039;&#039;&#039;Alfred Binet&#039;&#039;&#039;, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;[[Pierre Janet]]&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud e a questões históricas da França, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceram na Alemanha, com &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. Os alemães tradicionalmente se interessam por psicologia, que era discutida amplamente em publicações de circulação acadêmica e popular, bem como em debates públicos. Essa &amp;quot;cultura psicológica&amp;quot; favoreceu o desenvolvimento da criação da psicologia, que ocorreu com a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica. Este momento ficou conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, a exemplo da linha alemã mais famosa do período, a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que colaborou com o surgimento de um corpo de psicólogos profissionais. Ao mesmo tempo, perspectivas desenvolvimentistas ou funcionalistas continuaram suas investigações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. Os &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também eram numerosos e respeitados, ganham progressiva relevância. A &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039; havia imigrado para os EUA durante a guerra e assim conseguiu uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã e enfraqueceu a própria Escola da Gestalt. Ainda no pós-guerra, ganham força &#039;&#039;&#039;perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; junto de abordagens mais holísticas, o que mostra a multiplicidade do pensamento psicológico naquele país que, apesar de sua relevância história, perdeu muito espaço para a psicologia dos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês e que circulavam no Brasil, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise.&#039;&#039;&#039; Ironicamente, a linhagem psicanalítica [[Lacan|lacaniana]], de origem francesa, foi a que mais se desenvolveu no país. As dificuldades do idioma e a distância cultural foram importantes obstáculos à circulação das ideias psicológicas da Alemanha no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente Alemanha, e associou-se fortemente à fisiologia na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra [[Vladimir Bechterev]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofundou os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um alguém que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias foram aplicadas em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecidas internacionalmente como importantes contribuições da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky progressivamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve menos circulação no Brasil, porém, Pavlov é um nome quase unanimemente citado em cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Seu nome é amplamente conhecido por estudantes de psicologia e de licenciaturas. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas criadas na cidade de Genebra, na Suíça. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre porque este país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente distintas. Essa multiplicidade impede uma classificação nacional ampla, demandando um estudo por região. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar da &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas e, por bastante tempo, foi um dos epicentros dos saberes psi.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça na fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. Esse breve apanhado mostra a multiplicidade deste país pequeno e diverso. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, puderam obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar, desenvolvimento social e econômico. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma destas cidades. Por séculos, foi uma cidade-estado autônoma próxima dos Alpes, cercada por quase todos os lados pela França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão suíço. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Valais, Friburgo e Berna (estas últimas bilíngues francês e alemão). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes políticos e religiosos foram convertidos em 1536 por um dos expoentes da Reforma, João Calvino. Na ocasião, os genebrinos expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto científica e filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculados à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu &amp;quot;sentimento de destino&amp;quot;, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos e fundos de investimento fortes e muito importantes globalmente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram uma filosofia humanista e social que convocava os cidadãos a direcionar seus esforços aos pobres, doentes, desvalidos, entre outros grupos e comunidades. Por conta dessa cultura, a cidade recebeu, em diferentes momentos, minorias perseguidas, doentes, vítimas de guerras, entre muitos imigrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação de iniciativas de promoção da paz e do desenvolvimento mundial, como a Cruz Vermelha e o Direito Internacional Humanitário. Em Genebra também se incentivou a criação de ações políticas multilaterais de fomento de diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, desarmamento, educação, proteção aos trabalhadores, entre outras . Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um de seus intelectuais, &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido treinamento em alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento com experimentos da psicofísica e da fisiologia que, posteriormente, viriam a ser utilizados ou incorporados na vindoura psicologia científica. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, sua ação inicial pode ser entendida como uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos com seus alunos da Universidade de Genebra. Fazia o mesmo no salão de sua casa, com seus convidados, antes ou depois das refeições que organizava, visando discussões privadas e sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039;. Essa experiência o leva a querer trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da psicologia. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por certas discordâncias, decidiu criar o próprio laboratório, colocando-se como um dissidente de seu mestre. Münsterberg fez várias sugestões e indicações a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes para ser num laboratório de psicologia e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viajou para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, com quem teve orientações práticas que utilizou para montar o seu próprio laboratório laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo comprou os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois foram adquiridos pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta e a partir de uma dissidência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra. O que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publicou [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio. Para Claparède, era esse meio que precisava ser transformado e adaptado, visando o desenvolvimento infantil. Defende então que a educação precisa ser baseada num conhecimento científico sobre a criança, o que passava necessariamente pela compreensão de sua psicologia. A escola, em sua visão, seria como um laboratório, onde poderiam ser testadas práticas pedagógicas, fundamentadas também na psicologia, com eficácia comprovada cientificamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se aliou a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento tanto público quanto privado, o espaço foi inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança), representando o espírito da Escola de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, incluindo o Brasil, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo e se coloca do lado do funcionalismo. Para ele, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria compreender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. De forma geral, a questão pode ser analisada se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas as necessidades, os interesses e os objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as mesmas necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos saudáveis de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é maior, como acontece, por exemplo, quando estamos com fome e precisamos providenciar alimentos no ambiente, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet, um dos fundadores do Instituto, também visitou o Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que, como consequência desta visita, o Brasil foi colocado pelos administradores do Instituto, como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Campos empresta hoje seu nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país, também esteve em contato intenso com colaboradores do IJJR.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Instituto também formou e enviou pessoas de outras nacionalidades para o Brasil, que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras da Colônia. Além disso, Radecki tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema psicológico próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga judia formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento do antisionismo na Europa. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget: uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
Nos anos 1920, a Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède. Este expande o laboratório e, pouco depois, funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa da psicologia, principalmente das suas relações com a criança e com a educação. Dentre estes, o grande nome de Genebra, aquele que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de adaptação do sujeito ao meio e que a &#039;&#039;&#039;cognição&#039;&#039;&#039; é uma extensão do real. É nessa obra que ele amadurece as noções de de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento de imenso prestígio e influência de Piaget, que dá à Instituição sua orientação e atua diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo, tempo, causalidade ou contradição, e convidava alguns dos maiores nomes do mundo para o debate. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre as discussões conduzidas, sintetizando avançadas discussões interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com externas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua Epistemologia Genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. É difícil elaborar uma lista completa, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser seu amigo pessoal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1721</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
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		<updated>2026-07-17T23:09:33Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* O IJJR e o Brasil */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base científica do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada uma das diferentes escolas funcionalistas. No funcionalismo, as teorias evolutivas têm relevância central, e consideram mente como o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No [[Funcionalismo americano|&#039;&#039;&#039;funcionalismo americano&#039;&#039;&#039;]], o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos e comportamentais&#039;&#039;&#039;. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma &amp;quot;coisa em si&amp;quot; para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039; na verdade são &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039;. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou &amp;quot;mistura&amp;quot; desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico só se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias com conexões funcionalistas mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções breves em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;[[Salpetrière]]&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação era considerada suficiente, além de os tratamentos serem bastante limitados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após a expansão do [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Nessas sessões, ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. Estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot nomes importantes para o século XX, como [[Freud]], [[Pierre Janet]], [[William James]], [[Joseph Babinski]], [[Alfred Binet]], entre outros. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]], [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] e outros trabalharam fortemente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que a paralisou, mas fomentou o desenvolvimento de uma psicologia filosófica, de grande importância para os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e, por conta disso, sofria sabotagem de seus colegas. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da [[Escola Prática de Altos Estudos]]. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como [[Claude Bernard]] (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, oriundo da Escola de Nancy e um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões muitas vezes indiretas, mas significativas para o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. As instituições centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de &#039;&#039;&#039;Jean-Martin Charcot&#039;&#039;&#039; e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, &#039;&#039;&#039;Alfred Binet&#039;&#039;&#039;, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;[[Pierre Janet]]&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud e a questões históricas da França, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceram na Alemanha, com &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. Os alemães tradicionalmente se interessam por psicologia, que era discutida amplamente em publicações de circulação acadêmica e popular, bem como em debates públicos. Essa &amp;quot;cultura psicológica&amp;quot; favoreceu o desenvolvimento da criação da psicologia, que ocorreu com a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica. Este momento ficou conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, a exemplo da linha alemã mais famosa do período, a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que colaborou com o surgimento de um corpo de psicólogos profissionais. Ao mesmo tempo, perspectivas desenvolvimentistas ou funcionalistas continuaram suas investigações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. Os &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também eram numerosos e respeitados, ganham progressiva relevância. A &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039; havia imigrado para os EUA durante a guerra e assim conseguiu uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã e enfraqueceu a própria Escola da Gestalt. Ainda no pós-guerra, ganham força &#039;&#039;&#039;perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; junto de abordagens mais holísticas, o que mostra a multiplicidade do pensamento psicológico naquele país que, apesar de sua relevância história, perdeu muito espaço para a psicologia dos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês e que circulavam no Brasil, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise.&#039;&#039;&#039; Ironicamente, a linhagem psicanalítica [[Lacan|lacaniana]], de origem francesa, foi a que mais se desenvolveu no país. As dificuldades do idioma e a distância cultural foram importantes obstáculos à circulação das ideias psicológicas da Alemanha no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente Alemanha, e associou-se fortemente à fisiologia na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra [[Vladimir Bechterev]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofundou os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um alguém que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias foram aplicadas em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecidas internacionalmente como importantes contribuições da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky progressivamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve menos circulação no Brasil, porém, Pavlov é um nome quase unanimemente citado em cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Seu nome é amplamente conhecido por estudantes de psicologia e de licenciaturas. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas criadas na cidade de Genebra, na Suíça. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre porque este país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente distintas. Essa multiplicidade impede uma classificação nacional ampla, demandando um estudo por região. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar da &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas e, por bastante tempo, foi um dos epicentros dos saberes psi.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça na fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. Esse breve apanhado mostra a multiplicidade deste país pequeno e diverso. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, puderam obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar, desenvolvimento social e econômico. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma destas cidades. Por séculos, foi uma cidade-estado autônoma próxima dos Alpes, cercada por quase todos os lados pela França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão suíço. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Valais, Friburgo e Berna (estas últimas bilíngues francês e alemão). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes políticos e religiosos foram convertidos em 1536 por um dos expoentes da Reforma, João Calvino. Na ocasião, os genebrinos expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto científica e filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculados à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu &amp;quot;sentimento de destino&amp;quot;, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos e fundos de investimento fortes e muito importantes globalmente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram uma filosofia humanista e social que convocava os cidadãos a direcionar seus esforços aos pobres, doentes, desvalidos, entre outros grupos e comunidades. Por conta dessa cultura, a cidade recebeu, em diferentes momentos, minorias perseguidas, doentes, vítimas de guerras, entre muitos imigrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação de iniciativas de promoção da paz e do desenvolvimento mundial, como a Cruz Vermelha e o Direito Internacional Humanitário. Em Genebra também se incentivou a criação de ações políticas multilaterais de fomento de diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, desarmamento, educação, proteção aos trabalhadores, entre outras . Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um de seus intelectuais, &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido treinamento em alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento com experimentos da psicofísica e da fisiologia que, posteriormente, viriam a ser utilizados ou incorporados na vindoura psicologia científica. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, sua ação inicial pode ser entendida como uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos com seus alunos da Universidade de Genebra. Fazia o mesmo no salão de sua casa, com seus convidados, antes ou depois das refeições que organizava, visando discussões privadas e sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039;. Essa experiência o leva a querer trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da psicologia. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por certas discordâncias, decidiu criar o próprio laboratório, colocando-se como um dissidente de seu mestre. Münsterberg fez várias sugestões e indicações a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes para ser num laboratório de psicologia e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viajou para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, com quem teve orientações práticas que utilizou para montar o seu próprio laboratório laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo comprou os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois foram adquiridos pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta e a partir de uma dissidência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra. O que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publicou [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio. Para Claparède, era esse meio que precisava ser transformado e adaptado, visando o desenvolvimento infantil. Defende então que a educação precisa ser baseada num conhecimento científico sobre a criança, o que passava necessariamente pela compreensão de sua psicologia. A escola, em sua visão, seria como um laboratório, onde poderiam ser testadas práticas pedagógicas, fundamentadas também na psicologia, com eficácia comprovada cientificamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se aliou a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento tanto público quanto privado, o espaço foi inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança), representando o espírito da Escola de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, incluindo o Brasil, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo e se coloca do lado do funcionalismo. Para ele, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria compreender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. De forma geral, a questão pode ser analisada se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas as necessidades, os interesses e os objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as mesmas necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos saudáveis de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é maior, como acontece, por exemplo, quando estamos com fome e precisamos providenciar alimentos no ambiente, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet, um dos fundadores do Instituto, também visitou o Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que, como consequência desta visita, o Brasil foi colocado pelos administradores do Instituto, como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Campos empresta hoje seu nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país, também esteve em contato intenso com colaboradores do IJJR.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Instituto também formou e enviou pessoas de outras nacionalidades para o Brasil, que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras da Colônia. Além disso, Radecki tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema psicológico próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga judia formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento do antisionismo na Europa. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
A Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède, que o expande e funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa com uma perspectiva de aliança entre educação e psicologia. Contudo, o grande nome de Genebra, que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de &#039;&#039;&#039;adaptação do sujeito ao meio&#039;&#039;&#039; e que a &#039;&#039;&#039;cognição é uma extensão do real&#039;&#039;&#039;. É nessa obra que ele amadurece a noção de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria até o final de sua vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento em que Piaget exerce imensa influência sobre a instituição, dando sua orientação e atuando diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo: &amp;quot;o tempo&amp;quot;, &amp;quot;a causalidade&amp;quot; ou &amp;quot;a contradição&amp;quot;, e convidava os maiores nomes do mundo para debatê-lo. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre os debates conduzidos naquele período, sintetizando avançadas discussçoes interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com extrnas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua epistemologia genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. Uma lista completa é praticamente impossível de elaborar, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser amigo pessoal de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1720</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
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		<updated>2026-07-17T23:03:54Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base científica do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada uma das diferentes escolas funcionalistas. No funcionalismo, as teorias evolutivas têm relevância central, e consideram mente como o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No [[Funcionalismo americano|&#039;&#039;&#039;funcionalismo americano&#039;&#039;&#039;]], o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos e comportamentais&#039;&#039;&#039;. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma &amp;quot;coisa em si&amp;quot; para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039; na verdade são &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039;. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou &amp;quot;mistura&amp;quot; desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico só se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias com conexões funcionalistas mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções breves em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;[[Salpetrière]]&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação era considerada suficiente, além de os tratamentos serem bastante limitados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após a expansão do [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Nessas sessões, ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. Estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot nomes importantes para o século XX, como [[Freud]], [[Pierre Janet]], [[William James]], [[Joseph Babinski]], [[Alfred Binet]], entre outros. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]], [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] e outros trabalharam fortemente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que a paralisou, mas fomentou o desenvolvimento de uma psicologia filosófica, de grande importância para os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e, por conta disso, sofria sabotagem de seus colegas. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da [[Escola Prática de Altos Estudos]]. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como [[Claude Bernard]] (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, oriundo da Escola de Nancy e um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões muitas vezes indiretas, mas significativas para o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. As instituições centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de &#039;&#039;&#039;Jean-Martin Charcot&#039;&#039;&#039; e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, &#039;&#039;&#039;Alfred Binet&#039;&#039;&#039;, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;[[Pierre Janet]]&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud e a questões históricas da França, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceram na Alemanha, com &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. Os alemães tradicionalmente se interessam por psicologia, que era discutida amplamente em publicações de circulação acadêmica e popular, bem como em debates públicos. Essa &amp;quot;cultura psicológica&amp;quot; favoreceu o desenvolvimento da criação da psicologia, que ocorreu com a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica. Este momento ficou conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, a exemplo da linha alemã mais famosa do período, a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que colaborou com o surgimento de um corpo de psicólogos profissionais. Ao mesmo tempo, perspectivas desenvolvimentistas ou funcionalistas continuaram suas investigações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. Os &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também eram numerosos e respeitados, ganham progressiva relevância. A &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039; havia imigrado para os EUA durante a guerra e assim conseguiu uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã e enfraqueceu a própria Escola da Gestalt. Ainda no pós-guerra, ganham força &#039;&#039;&#039;perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; junto de abordagens mais holísticas, o que mostra a multiplicidade do pensamento psicológico naquele país que, apesar de sua relevância história, perdeu muito espaço para a psicologia dos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês e que circulavam no Brasil, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise.&#039;&#039;&#039; Ironicamente, a linhagem psicanalítica [[Lacan|lacaniana]], de origem francesa, foi a que mais se desenvolveu no país. As dificuldades do idioma e a distância cultural foram importantes obstáculos à circulação das ideias psicológicas da Alemanha no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente Alemanha, e associou-se fortemente à fisiologia na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra [[Vladimir Bechterev]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofundou os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um alguém que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias foram aplicadas em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecidas internacionalmente como importantes contribuições da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky progressivamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve menos circulação no Brasil, porém, Pavlov é um nome quase unanimemente citado em cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Seu nome é amplamente conhecido por estudantes de psicologia e de licenciaturas. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas criadas na cidade de Genebra, na Suíça. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre porque este país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente distintas. Essa multiplicidade impede uma classificação nacional ampla, demandando um estudo por região. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar da &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas e, por bastante tempo, foi um dos epicentros dos saberes psi.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça na fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. Esse breve apanhado mostra a multiplicidade deste país pequeno e diverso. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, puderam obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar, desenvolvimento social e econômico. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma destas cidades. Por séculos, foi uma cidade-estado autônoma próxima dos Alpes, cercada por quase todos os lados pela França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão suíço. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Valais, Friburgo e Berna (estas últimas bilíngues francês e alemão). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes políticos e religiosos foram convertidos em 1536 por um dos expoentes da Reforma, João Calvino. Na ocasião, os genebrinos expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto científica e filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculados à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu &amp;quot;sentimento de destino&amp;quot;, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos e fundos de investimento fortes e muito importantes globalmente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram uma filosofia humanista e social que convocava os cidadãos a direcionar seus esforços aos pobres, doentes, desvalidos, entre outros grupos e comunidades. Por conta dessa cultura, a cidade recebeu, em diferentes momentos, minorias perseguidas, doentes, vítimas de guerras, entre muitos imigrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação de iniciativas de promoção da paz e do desenvolvimento mundial, como a Cruz Vermelha e o Direito Internacional Humanitário. Em Genebra também se incentivou a criação de ações políticas multilaterais de fomento de diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, desarmamento, educação, proteção aos trabalhadores, entre outras . Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um de seus intelectuais, &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido treinamento em alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento com experimentos da psicofísica e da fisiologia que, posteriormente, viriam a ser utilizados ou incorporados na vindoura psicologia científica. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, sua ação inicial pode ser entendida como uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos com seus alunos da Universidade de Genebra. Fazia o mesmo no salão de sua casa, com seus convidados, antes ou depois das refeições que organizava, visando discussões privadas e sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039;. Essa experiência o leva a querer trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da psicologia. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por certas discordâncias, decidiu criar o próprio laboratório, colocando-se como um dissidente de seu mestre. Münsterberg fez várias sugestões e indicações a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes para ser num laboratório de psicologia e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viajou para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, com quem teve orientações práticas que utilizou para montar o seu próprio laboratório laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo comprou os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois foram adquiridos pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta e a partir de uma dissidência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra. O que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publicou [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio. Para Claparède, era esse meio que precisava ser transformado e adaptado, visando o desenvolvimento infantil. Defende então que a educação precisa ser baseada num conhecimento científico sobre a criança, o que passava necessariamente pela compreensão de sua psicologia. A escola, em sua visão, seria como um laboratório, onde poderiam ser testadas práticas pedagógicas, fundamentadas também na psicologia, com eficácia comprovada cientificamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se aliou a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento tanto público quanto privado, o espaço foi inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança), representando o espírito da Escola de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, incluindo o Brasil, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo e se coloca do lado do funcionalismo. Para ele, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria compreender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. De forma geral, a questão pode ser analisada se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas as necessidades, os interesses e os objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as mesmas necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos saudáveis de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é maior, como acontece, por exemplo, quando estamos com fome e precisamos providenciar alimentos no ambiente, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet também visitou o país, o que reforça o intercâmbio entre os dois lugares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que nesta visita o Brasil foi colocado como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Empresta hoje nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é o de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país. Além disso, Lourenço Filho também trabalhou para o desenvolvimento da psicologia no Brasil, escrevendo livros, dando cursos, publicando nos jornais e ocupando cargos importantes na administração pública, tanto federal como na época das então províncias, facilitando a conexão entre a psicologia e a educação e o desenvolvimento da própria psicologia brasileira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O IJJR também enviou pessoas de outras nacionalidades que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras do local. Além disso, Radecki também tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento da perseguição aos judeus. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
A Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède, que o expande e funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa com uma perspectiva de aliança entre educação e psicologia. Contudo, o grande nome de Genebra, que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de &#039;&#039;&#039;adaptação do sujeito ao meio&#039;&#039;&#039; e que a &#039;&#039;&#039;cognição é uma extensão do real&#039;&#039;&#039;. É nessa obra que ele amadurece a noção de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria até o final de sua vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento em que Piaget exerce imensa influência sobre a instituição, dando sua orientação e atuando diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo: &amp;quot;o tempo&amp;quot;, &amp;quot;a causalidade&amp;quot; ou &amp;quot;a contradição&amp;quot;, e convidava os maiores nomes do mundo para debatê-lo. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre os debates conduzidos naquele período, sintetizando avançadas discussçoes interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com extrnas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua epistemologia genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. Uma lista completa é praticamente impossível de elaborar, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser amigo pessoal de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
BANKS-LEITE, Luci (Org.). &#039;&#039;&#039;Piaget e a escola de Genebra&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Cortez, 1987.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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DUCRET, Jean-Jacques. &#039;&#039;&#039;Jean Piaget&#039;&#039;&#039;: biographie et parcours intellectuel. Delachaux &amp;amp; Niestle, 1990.&lt;br /&gt;
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ROSA, Hugo Leonardo Rocha Silva da; RIBEIRO, André Elias Morelli. A viagem de Claparède ao Brasil. Em: RIBEIRO, André Elias Morelli; SANTOS, Marcus Vinícius do Amaral Gama; VIEIRA, Yuri Pereira Antunes; GUIMARÃES, Gunther Mafra; FERREIRA, Arthur Arruda Leal; FONSECA, Luiz Eduardo Prado da (Orgs.). &#039;&#039;&#039;Boletim do Portal História da Psicologia&#039;&#039;&#039;. Rio das Ostras, RJ: Editora do Portal História da Psicologia, 2022, p.286-330. Disponível em: &amp;lt;&amp;lt;nowiki&amp;gt;https://editora.historiadapsicologia.com.br/wp-content/uploads/2026/03/13-A-Viagem-de-Claparede-ao-Brasil-1.pdf&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&amp;gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1719</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
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		<updated>2026-07-17T22:59:29Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* O Instituto Jean-Jacques Rousseau */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base científica do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada uma das diferentes escolas funcionalistas. No funcionalismo, as teorias evolutivas têm relevância central, e consideram mente como o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No [[Funcionalismo americano|&#039;&#039;&#039;funcionalismo americano&#039;&#039;&#039;]], o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos e comportamentais&#039;&#039;&#039;. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma &amp;quot;coisa em si&amp;quot; para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039; na verdade são &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039;. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou &amp;quot;mistura&amp;quot; desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico só se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias com conexões funcionalistas mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções breves em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;[[Salpetrière]]&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação era considerada suficiente, além de os tratamentos serem bastante limitados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após a expansão do [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Nessas sessões, ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. Estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot nomes importantes para o século XX, como [[Freud]], [[Pierre Janet]], [[William James]], [[Joseph Babinski]], [[Alfred Binet]], entre outros. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]], [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] e outros trabalharam fortemente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que a paralisou, mas fomentou o desenvolvimento de uma psicologia filosófica, de grande importância para os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e, por conta disso, sofria sabotagem de seus colegas. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da [[Escola Prática de Altos Estudos]]. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como [[Claude Bernard]] (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, oriundo da Escola de Nancy e um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões muitas vezes indiretas, mas significativas para o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. As instituições centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de &#039;&#039;&#039;Jean-Martin Charcot&#039;&#039;&#039; e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, &#039;&#039;&#039;Alfred Binet&#039;&#039;&#039;, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;[[Pierre Janet]]&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud e a questões históricas da França, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceram na Alemanha, com &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. Os alemães tradicionalmente se interessam por psicologia, que era discutida amplamente em publicações de circulação acadêmica e popular, bem como em debates públicos. Essa &amp;quot;cultura psicológica&amp;quot; favoreceu o desenvolvimento da criação da psicologia, que ocorreu com a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica. Este momento ficou conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, a exemplo da linha alemã mais famosa do período, a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que colaborou com o surgimento de um corpo de psicólogos profissionais. Ao mesmo tempo, perspectivas desenvolvimentistas ou funcionalistas continuaram suas investigações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. Os &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também eram numerosos e respeitados, ganham progressiva relevância. A &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039; havia imigrado para os EUA durante a guerra e assim conseguiu uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã e enfraqueceu a própria Escola da Gestalt. Ainda no pós-guerra, ganham força &#039;&#039;&#039;perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; junto de abordagens mais holísticas, o que mostra a multiplicidade do pensamento psicológico naquele país que, apesar de sua relevância história, perdeu muito espaço para a psicologia dos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês e que circulavam no Brasil, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise.&#039;&#039;&#039; Ironicamente, a linhagem psicanalítica [[Lacan|lacaniana]], de origem francesa, foi a que mais se desenvolveu no país. As dificuldades do idioma e a distância cultural foram importantes obstáculos à circulação das ideias psicológicas da Alemanha no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente Alemanha, e associou-se fortemente à fisiologia na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra [[Vladimir Bechterev]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofundou os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um alguém que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias foram aplicadas em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecidas internacionalmente como importantes contribuições da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky progressivamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve menos circulação no Brasil, porém, Pavlov é um nome quase unanimemente citado em cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Seu nome é amplamente conhecido por estudantes de psicologia e de licenciaturas. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas criadas na cidade de Genebra, na Suíça. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre porque este país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente distintas. Essa multiplicidade impede uma classificação nacional ampla, demandando um estudo por região. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar da &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas e, por bastante tempo, foi um dos epicentros dos saberes psi.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça na fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. Esse breve apanhado mostra a multiplicidade deste país pequeno e diverso. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, puderam obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar, desenvolvimento social e econômico. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma destas cidades. Por séculos, foi uma cidade-estado autônoma próxima dos Alpes, cercada por quase todos os lados pela França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão suíço. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Valais, Friburgo e Berna (estas últimas bilíngues francês e alemão). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes políticos e religiosos foram convertidos em 1536 por um dos expoentes da Reforma, João Calvino. Na ocasião, os genebrinos expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto científica e filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculados à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu &amp;quot;sentimento de destino&amp;quot;, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos e fundos de investimento fortes e muito importantes globalmente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram uma filosofia humanista e social que convocava os cidadãos a direcionar seus esforços aos pobres, doentes, desvalidos, entre outros grupos e comunidades. Por conta dessa cultura, a cidade recebeu, em diferentes momentos, minorias perseguidas, doentes, vítimas de guerras, entre muitos imigrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação de iniciativas de promoção da paz e do desenvolvimento mundial, como a Cruz Vermelha e o Direito Internacional Humanitário. Em Genebra também se incentivou a criação de ações políticas multilaterais de fomento de diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, desarmamento, educação, proteção aos trabalhadores, entre outras . Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um de seus intelectuais, &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido treinamento em alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento com experimentos da psicofísica e da fisiologia que, posteriormente, viriam a ser utilizados ou incorporados na vindoura psicologia científica. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, sua ação inicial pode ser entendida como uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos com seus alunos da Universidade de Genebra. Fazia o mesmo no salão de sua casa, com seus convidados, antes ou depois das refeições que organizava, visando discussões privadas e sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039;. Essa experiência o leva a querer trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da psicologia. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por certas discordâncias, decidiu criar o próprio laboratório, colocando-se como um dissidente de seu mestre. Münsterberg fez várias sugestões e indicações a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes para ser num laboratório de psicologia e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viajou para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, com quem teve orientações práticas que utilizou para montar o seu próprio laboratório laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo comprou os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois foram adquiridos pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta e a partir de uma dissidência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra. O que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publicou [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio. Para Claparède, era esse meio que precisava ser transformado e adaptado, visando o desenvolvimento infantil. Defende então que a educação precisa ser baseada num conhecimento científico sobre a criança, o que passava necessariamente pela compreensão de sua psicologia. A escola, em sua visão, seria como um laboratório, onde poderiam ser testadas práticas pedagógicas, fundamentadas também na psicologia, com eficácia comprovada cientificamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se aliou a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento tanto público quanto privado, o espaço foi inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança), representando o espírito da Escola de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, incluindo o Brasil, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo. Assim, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria entender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. A questão pode ser compreendida, de forma geral, se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas necessidades, interesses e objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é grande, como acontece quando estamos com fome, por exemplo, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e até a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet também visitou o país, o que reforça o intercâmbio entre os dois lugares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que nesta visita o Brasil foi colocado como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Empresta hoje nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é o de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país. Além disso, Lourenço Filho também trabalhou para o desenvolvimento da psicologia no Brasil, escrevendo livros, dando cursos, publicando nos jornais e ocupando cargos importantes na administração pública, tanto federal como na época das então províncias, facilitando a conexão entre a psicologia e a educação e o desenvolvimento da própria psicologia brasileira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O IJJR também enviou pessoas de outras nacionalidades que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras do local. Além disso, Radecki também tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento da perseguição aos judeus. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
A Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède, que o expande e funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa com uma perspectiva de aliança entre educação e psicologia. Contudo, o grande nome de Genebra, que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de &#039;&#039;&#039;adaptação do sujeito ao meio&#039;&#039;&#039; e que a &#039;&#039;&#039;cognição é uma extensão do real&#039;&#039;&#039;. É nessa obra que ele amadurece a noção de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria até o final de sua vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento em que Piaget exerce imensa influência sobre a instituição, dando sua orientação e atuando diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo: &amp;quot;o tempo&amp;quot;, &amp;quot;a causalidade&amp;quot; ou &amp;quot;a contradição&amp;quot;, e convidava os maiores nomes do mundo para debatê-lo. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre os debates conduzidos naquele período, sintetizando avançadas discussçoes interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com extrnas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua epistemologia genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. Uma lista completa é praticamente impossível de elaborar, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser amigo pessoal de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
BANKS-LEITE, Luci (Org.). &#039;&#039;&#039;Piaget e a escola de Genebra&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Cortez, 1987.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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ROSA, Hugo Leonardo Rocha Silva da; RIBEIRO, André Elias Morelli. A viagem de Claparède ao Brasil. Em: RIBEIRO, André Elias Morelli; SANTOS, Marcus Vinícius do Amaral Gama; VIEIRA, Yuri Pereira Antunes; GUIMARÃES, Gunther Mafra; FERREIRA, Arthur Arruda Leal; FONSECA, Luiz Eduardo Prado da (Orgs.). &#039;&#039;&#039;Boletim do Portal História da Psicologia&#039;&#039;&#039;. Rio das Ostras, RJ: Editora do Portal História da Psicologia, 2022, p.286-330. Disponível em: &amp;lt;&amp;lt;nowiki&amp;gt;https://editora.historiadapsicologia.com.br/wp-content/uploads/2026/03/13-A-Viagem-de-Claparede-ao-Brasil-1.pdf&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&amp;gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1718</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
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		<updated>2026-07-17T22:53:58Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* A Escola de Genebra */ Várias modificações substanciais&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base científica do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada uma das diferentes escolas funcionalistas. No funcionalismo, as teorias evolutivas têm relevância central, e consideram mente como o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No [[Funcionalismo americano|&#039;&#039;&#039;funcionalismo americano&#039;&#039;&#039;]], o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos e comportamentais&#039;&#039;&#039;. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma &amp;quot;coisa em si&amp;quot; para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039; na verdade são &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039;. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou &amp;quot;mistura&amp;quot; desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico só se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias com conexões funcionalistas mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções breves em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;[[Salpetrière]]&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação era considerada suficiente, além de os tratamentos serem bastante limitados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após a expansão do [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Nessas sessões, ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. Estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot nomes importantes para o século XX, como [[Freud]], [[Pierre Janet]], [[William James]], [[Joseph Babinski]], [[Alfred Binet]], entre outros. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]], [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] e outros trabalharam fortemente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que a paralisou, mas fomentou o desenvolvimento de uma psicologia filosófica, de grande importância para os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e, por conta disso, sofria sabotagem de seus colegas. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da [[Escola Prática de Altos Estudos]]. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como [[Claude Bernard]] (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, oriundo da Escola de Nancy e um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões muitas vezes indiretas, mas significativas para o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. As instituições centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de &#039;&#039;&#039;Jean-Martin Charcot&#039;&#039;&#039; e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, &#039;&#039;&#039;Alfred Binet&#039;&#039;&#039;, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;[[Pierre Janet]]&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud e a questões históricas da França, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceram na Alemanha, com &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. Os alemães tradicionalmente se interessam por psicologia, que era discutida amplamente em publicações de circulação acadêmica e popular, bem como em debates públicos. Essa &amp;quot;cultura psicológica&amp;quot; favoreceu o desenvolvimento da criação da psicologia, que ocorreu com a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica. Este momento ficou conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, a exemplo da linha alemã mais famosa do período, a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que colaborou com o surgimento de um corpo de psicólogos profissionais. Ao mesmo tempo, perspectivas desenvolvimentistas ou funcionalistas continuaram suas investigações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. Os &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também eram numerosos e respeitados, ganham progressiva relevância. A &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039; havia imigrado para os EUA durante a guerra e assim conseguiu uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã e enfraqueceu a própria Escola da Gestalt. Ainda no pós-guerra, ganham força &#039;&#039;&#039;perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; junto de abordagens mais holísticas, o que mostra a multiplicidade do pensamento psicológico naquele país que, apesar de sua relevância história, perdeu muito espaço para a psicologia dos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês e que circulavam no Brasil, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise.&#039;&#039;&#039; Ironicamente, a linhagem psicanalítica [[Lacan|lacaniana]], de origem francesa, foi a que mais se desenvolveu no país. As dificuldades do idioma e a distância cultural foram importantes obstáculos à circulação das ideias psicológicas da Alemanha no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente Alemanha, e associou-se fortemente à fisiologia na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra [[Vladimir Bechterev]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofundou os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um alguém que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias foram aplicadas em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecidas internacionalmente como importantes contribuições da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky progressivamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve menos circulação no Brasil, porém, Pavlov é um nome quase unanimemente citado em cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Seu nome é amplamente conhecido por estudantes de psicologia e de licenciaturas. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas criadas na cidade de Genebra, na Suíça. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre porque este país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente distintas. Essa multiplicidade impede uma classificação nacional ampla, demandando um estudo por região. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar da &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas e, por bastante tempo, foi um dos epicentros dos saberes psi.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça na fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. Esse breve apanhado mostra a multiplicidade deste país pequeno e diverso. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, puderam obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar, desenvolvimento social e econômico. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma destas cidades. Por séculos, foi uma cidade-estado autônoma próxima dos Alpes, cercada por quase todos os lados pela França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão suíço. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Valais, Friburgo e Berna (estas últimas bilíngues francês e alemão). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes políticos e religiosos foram convertidos em 1536 por um dos expoentes da Reforma, João Calvino. Na ocasião, os genebrinos expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto científica e filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculados à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu &amp;quot;sentimento de destino&amp;quot;, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos e fundos de investimento fortes e muito importantes globalmente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram uma filosofia humanista e social que convocava os cidadãos a direcionar seus esforços aos pobres, doentes, desvalidos, entre outros grupos e comunidades. Por conta dessa cultura, a cidade recebeu, em diferentes momentos, minorias perseguidas, doentes, vítimas de guerras, entre muitos imigrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação de iniciativas de promoção da paz e do desenvolvimento mundial, como a Cruz Vermelha e o Direito Internacional Humanitário. Em Genebra também se incentivou a criação de ações políticas multilaterais de fomento de diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, desarmamento, educação, proteção aos trabalhadores, entre outras . Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um de seus intelectuais, &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido treinamento em alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento com experimentos da psicofísica e da fisiologia que, posteriormente, viriam a ser utilizados ou incorporados na vindoura psicologia científica. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, sua ação inicial pode ser entendida como uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos com seus alunos da Universidade de Genebra. Fazia o mesmo no salão de sua casa, com seus convidados, antes ou depois das refeições que organizava, visando discussões privadas e sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039;. Essa experiência o leva a querer trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da psicologia. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por certas discordâncias, decidiu criar o próprio laboratório, colocando-se como um dissidente de seu mestre. Münsterberg fez várias sugestões e indicações a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes para ser num laboratório de psicologia e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viajou para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, com quem teve orientações práticas que utilizou para montar o seu próprio laboratório laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo comprou os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois foram adquiridos pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta e a partir de uma dissidência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra. O que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publicou [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio. Para Claparède, era esse meio que precisava ser transformado e adaptado, visando o desenvolvimento infantil. Defende então que a educação precisa ser baseada num conhecimento científico sobre a criança, o que passava necessariamente pela compreensão de sua psicologia. A escola, em sua visão, seria como um laboratório, onde poderiam ser testadas práticas pedagógicas, fundamentadas também na psicologia, com eficácia comprovada cientificamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se aliou a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento tanto público quanto privado, o espaço foi inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança), representando o espírito da Escola de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo. Assim, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria entender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. A questão pode ser compreendida, de forma geral, se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas necessidades, interesses e objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é grande, como acontece quando estamos com fome, por exemplo, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e até a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet também visitou o país, o que reforça o intercâmbio entre os dois lugares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que nesta visita o Brasil foi colocado como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Empresta hoje nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é o de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país. Além disso, Lourenço Filho também trabalhou para o desenvolvimento da psicologia no Brasil, escrevendo livros, dando cursos, publicando nos jornais e ocupando cargos importantes na administração pública, tanto federal como na época das então províncias, facilitando a conexão entre a psicologia e a educação e o desenvolvimento da própria psicologia brasileira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O IJJR também enviou pessoas de outras nacionalidades que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras do local. Além disso, Radecki também tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento da perseguição aos judeus. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
A Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède, que o expande e funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa com uma perspectiva de aliança entre educação e psicologia. Contudo, o grande nome de Genebra, que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de &#039;&#039;&#039;adaptação do sujeito ao meio&#039;&#039;&#039; e que a &#039;&#039;&#039;cognição é uma extensão do real&#039;&#039;&#039;. É nessa obra que ele amadurece a noção de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria até o final de sua vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento em que Piaget exerce imensa influência sobre a instituição, dando sua orientação e atuando diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo: &amp;quot;o tempo&amp;quot;, &amp;quot;a causalidade&amp;quot; ou &amp;quot;a contradição&amp;quot;, e convidava os maiores nomes do mundo para debatê-lo. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre os debates conduzidos naquele período, sintetizando avançadas discussçoes interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com extrnas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua epistemologia genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. Uma lista completa é praticamente impossível de elaborar, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser amigo pessoal de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1717</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
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		<updated>2026-07-08T19:52:09Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* O Instituto Jean-Jacques Rousseau */ Correções de texto&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base científica do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada uma das diferentes escolas funcionalistas. No funcionalismo, as teorias evolutivas têm relevância central, e consideram mente como o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No [[Funcionalismo americano|&#039;&#039;&#039;funcionalismo americano&#039;&#039;&#039;]], o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos e comportamentais&#039;&#039;&#039;. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma &amp;quot;coisa em si&amp;quot; para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039; na verdade são &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039;. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou &amp;quot;mistura&amp;quot; desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico só se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias com conexões funcionalistas mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções breves em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;[[Salpetrière]]&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação era considerada suficiente, além de os tratamentos serem bastante limitados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após a expansão do [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Nessas sessões, ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. Estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot nomes importantes para o século XX, como [[Freud]], [[Pierre Janet]], [[William James]], [[Joseph Babinski]], [[Alfred Binet]], entre outros. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]], [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] e outros trabalharam fortemente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que a paralisou, mas fomentou o desenvolvimento de uma psicologia filosófica, de grande importância para os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e, por conta disso, sofria sabotagem de seus colegas. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da [[Escola Prática de Altos Estudos]]. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como [[Claude Bernard]] (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, oriundo da Escola de Nancy e um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões muitas vezes indiretas, mas significativas para o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. As instituições centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de &#039;&#039;&#039;Jean-Martin Charcot&#039;&#039;&#039; e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, &#039;&#039;&#039;Alfred Binet&#039;&#039;&#039;, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;[[Pierre Janet]]&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud e a questões históricas da França, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceram na Alemanha, com &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. Os alemães tradicionalmente se interessam por psicologia, que era discutida amplamente em publicações de circulação acadêmica e popular, bem como em debates públicos. Essa &amp;quot;cultura psicológica&amp;quot; favoreceu o desenvolvimento da criação da psicologia, que ocorreu com a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica. Este momento ficou conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, a exemplo da linha alemã mais famosa do período, a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que colaborou com o surgimento de um corpo de psicólogos profissionais. Ao mesmo tempo, perspectivas desenvolvimentistas ou funcionalistas continuaram suas investigações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. Os &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também eram numerosos e respeitados, ganham progressiva relevância. A &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039; havia imigrado para os EUA durante a guerra e assim conseguiu uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã e enfraqueceu a própria Escola da Gestalt. Ainda no pós-guerra, ganham força &#039;&#039;&#039;perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; junto de abordagens mais holísticas, o que mostra a multiplicidade do pensamento psicológico naquele país que, apesar de sua relevância história, perdeu muito espaço para a psicologia dos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês e que circulavam no Brasil, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise.&#039;&#039;&#039; Ironicamente, a linhagem psicanalítica [[Lacan|lacaniana]], de origem francesa, foi a que mais se desenvolveu no país. As dificuldades do idioma e a distância cultural foram importantes obstáculos à circulação das ideias psicológicas da Alemanha no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente Alemanha, e associou-se fortemente à fisiologia na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra [[Vladimir Bechterev]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofundou os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um alguém que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias foram aplicadas em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecidas internacionalmente como importantes contribuições da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky progressivamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve menos circulação no Brasil, porém, Pavlov é um nome quase unanimemente citado em cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Seu nome é amplamente conhecido por estudantes de psicologia e de licenciaturas. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas criadas na cidade de Genebra, na Suíça. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre porque este país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente diferentes. Essa multiplicidade impede uma classificação nacional ampla, demandando um estudo por região. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar de &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt mas com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça na fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, puderam obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar, desenvolvimento social e econômico. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma destas cidades. Por séculos, foi uma cidade-estado autônoma próxima dos Alpes, cercada por quase todos os lados pela França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Friburgo (bilíngue), Valais e Berna (bilíngue). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes foram convertidos pelo próprio reformador João Calvino em 1536, quando expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto científica e filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculado à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu &amp;quot;sentimento de destino&amp;quot;, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos e fundos de investimento fortes e globalmente importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram uma filosofia humanista e social que convocava os cidadãos a direcionar seus esforços aos pobres, doentes, desvalidos, entre outros grupos e comunidades. Por conta dessa cultura, a cidade recebeu, em diferentes momentos, minorias perseguidas, pessoas doentes, vítimas de guerras, entre muitos migrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação de iniciativas de promoção da paz e do desenvolvimento mundial, como a Cruz Vermelha e o Direito Internacional Humanitário. Em Genebra também se incentivou a criação de ações políticas multilaterais de fomento de diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, desarmamento, educação, proteção aos trabalhadores, entre outras . Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um de seus intelectuais, de nome &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido treinamento em alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento experimentos na psicofísica e na fisiologia que, posteriormente, viriam a ser incorporados na psicologia científica. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, sua ação inicial pode ser entendida como uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos relacionados à psicofísica e à psicologia na Universidade de Genebra com seus alunos. Fazia o mesmo no salão de sua casa, com seus convidados para as refeições que organizava, visando discussões privadas e sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039;. Essa experiência o leva a querer trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da psicologia. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por certas discordâncias, decidiu criar o próprio laboratório como um dissidente do mestre. Münsterberg fez várias sugestões e indicações a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes para ser num laboratório de psicologia e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viajou para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, com quem teve orientações práticas que utilizou para montar o seu próprio laboratório laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo comprou os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois foram adquiridos pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra, mas o que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publica [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio. Para Claparède, era esse meio que precisava ser transformado e adaptado, visando o desenvolvimento infantil. Defende então que a educação precisa ser baseada num conhecimento científico sobre a criança, o que passava necessariamente pela compreensão da psicologia do infante. A escola, em sua visão, seria como um laboratório, onde poderiam ser testadas práticas pedagógicas fundamentadas na psicologia com eficácia comprovada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se aliou a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento tanto público quanto privado, o espaço foi inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança), representando o espírito da Escola de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo. Assim, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria entender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. A questão pode ser compreendida, de forma geral, se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas necessidades, interesses e objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é grande, como acontece quando estamos com fome, por exemplo, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e até a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet também visitou o país, o que reforça o intercâmbio entre os dois lugares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que nesta visita o Brasil foi colocado como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Empresta hoje nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é o de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país. Além disso, Lourenço Filho também trabalhou para o desenvolvimento da psicologia no Brasil, escrevendo livros, dando cursos, publicando nos jornais e ocupando cargos importantes na administração pública, tanto federal como na época das então províncias, facilitando a conexão entre a psicologia e a educação e o desenvolvimento da própria psicologia brasileira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O IJJR também enviou pessoas de outras nacionalidades que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras do local. Além disso, Radecki também tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento da perseguição aos judeus. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
A Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède, que o expande e funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa com uma perspectiva de aliança entre educação e psicologia. Contudo, o grande nome de Genebra, que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de &#039;&#039;&#039;adaptação do sujeito ao meio&#039;&#039;&#039; e que a &#039;&#039;&#039;cognição é uma extensão do real&#039;&#039;&#039;. É nessa obra que ele amadurece a noção de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria até o final de sua vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento em que Piaget exerce imensa influência sobre a instituição, dando sua orientação e atuando diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo: &amp;quot;o tempo&amp;quot;, &amp;quot;a causalidade&amp;quot; ou &amp;quot;a contradição&amp;quot;, e convidava os maiores nomes do mundo para debatê-lo. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre os debates conduzidos naquele período, sintetizando avançadas discussçoes interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com extrnas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua epistemologia genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. Uma lista completa é praticamente impossível de elaborar, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser amigo pessoal de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1716</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
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		<updated>2026-07-08T19:44:36Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* História da psicologia em Genebra */ Correções de texto&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base científica do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada uma das diferentes escolas funcionalistas. No funcionalismo, as teorias evolutivas têm relevância central, e consideram mente como o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No [[Funcionalismo americano|&#039;&#039;&#039;funcionalismo americano&#039;&#039;&#039;]], o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos e comportamentais&#039;&#039;&#039;. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma &amp;quot;coisa em si&amp;quot; para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039; na verdade são &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039;. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou &amp;quot;mistura&amp;quot; desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico só se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias com conexões funcionalistas mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções breves em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;[[Salpetrière]]&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação era considerada suficiente, além de os tratamentos serem bastante limitados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após a expansão do [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Nessas sessões, ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. Estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot nomes importantes para o século XX, como [[Freud]], [[Pierre Janet]], [[William James]], [[Joseph Babinski]], [[Alfred Binet]], entre outros. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]], [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] e outros trabalharam fortemente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que a paralisou, mas fomentou o desenvolvimento de uma psicologia filosófica, de grande importância para os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e, por conta disso, sofria sabotagem de seus colegas. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da [[Escola Prática de Altos Estudos]]. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como [[Claude Bernard]] (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, oriundo da Escola de Nancy e um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões muitas vezes indiretas, mas significativas para o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. As instituições centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de &#039;&#039;&#039;Jean-Martin Charcot&#039;&#039;&#039; e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, &#039;&#039;&#039;Alfred Binet&#039;&#039;&#039;, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;[[Pierre Janet]]&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud e a questões históricas da França, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceram na Alemanha, com &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. Os alemães tradicionalmente se interessam por psicologia, que era discutida amplamente em publicações de circulação acadêmica e popular, bem como em debates públicos. Essa &amp;quot;cultura psicológica&amp;quot; favoreceu o desenvolvimento da criação da psicologia, que ocorreu com a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica. Este momento ficou conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, a exemplo da linha alemã mais famosa do período, a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que colaborou com o surgimento de um corpo de psicólogos profissionais. Ao mesmo tempo, perspectivas desenvolvimentistas ou funcionalistas continuaram suas investigações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. Os &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também eram numerosos e respeitados, ganham progressiva relevância. A &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039; havia imigrado para os EUA durante a guerra e assim conseguiu uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã e enfraqueceu a própria Escola da Gestalt. Ainda no pós-guerra, ganham força &#039;&#039;&#039;perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; junto de abordagens mais holísticas, o que mostra a multiplicidade do pensamento psicológico naquele país que, apesar de sua relevância história, perdeu muito espaço para a psicologia dos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês e que circulavam no Brasil, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise.&#039;&#039;&#039; Ironicamente, a linhagem psicanalítica [[Lacan|lacaniana]], de origem francesa, foi a que mais se desenvolveu no país. As dificuldades do idioma e a distância cultural foram importantes obstáculos à circulação das ideias psicológicas da Alemanha no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente Alemanha, e associou-se fortemente à fisiologia na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra [[Vladimir Bechterev]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofundou os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um alguém que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias foram aplicadas em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecidas internacionalmente como importantes contribuições da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky progressivamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve menos circulação no Brasil, porém, Pavlov é um nome quase unanimemente citado em cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Seu nome é amplamente conhecido por estudantes de psicologia e de licenciaturas. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas criadas na cidade de Genebra, na Suíça. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre porque este país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente diferentes. Essa multiplicidade impede uma classificação nacional ampla, demandando um estudo por região. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar de &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt mas com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça na fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, puderam obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar, desenvolvimento social e econômico. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma destas cidades. Por séculos, foi uma cidade-estado autônoma próxima dos Alpes, cercada por quase todos os lados pela França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Friburgo (bilíngue), Valais e Berna (bilíngue). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes foram convertidos pelo próprio reformador João Calvino em 1536, quando expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto científica e filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculado à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu &amp;quot;sentimento de destino&amp;quot;, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos e fundos de investimento fortes e globalmente importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram uma filosofia humanista e social que convocava os cidadãos a direcionar seus esforços aos pobres, doentes, desvalidos, entre outros grupos e comunidades. Por conta dessa cultura, a cidade recebeu, em diferentes momentos, minorias perseguidas, pessoas doentes, vítimas de guerras, entre muitos migrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação de iniciativas de promoção da paz e do desenvolvimento mundial, como a Cruz Vermelha e o Direito Internacional Humanitário. Em Genebra também se incentivou a criação de ações políticas multilaterais de fomento de diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, desarmamento, educação, proteção aos trabalhadores, entre outras . Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um de seus intelectuais, de nome &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido treinamento em alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento experimentos na psicofísica e na fisiologia que, posteriormente, viriam a ser incorporados na psicologia científica. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, sua ação inicial pode ser entendida como uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos relacionados à psicofísica e à psicologia na Universidade de Genebra com seus alunos. Fazia o mesmo no salão de sua casa, com seus convidados para as refeições que organizava, visando discussões privadas e sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039;. Essa experiência o leva a querer trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da psicologia. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por certas discordâncias, decidiu criar o próprio laboratório como um dissidente do mestre. Münsterberg fez várias sugestões e indicações a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes para ser num laboratório de psicologia e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viajou para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, com quem teve orientações práticas que utilizou para montar o seu próprio laboratório laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo comprou os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois foram adquiridos pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra, mas o que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publica [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio, que precisava ser transformado e adaptado visando o seu desenvolvimento. Defende então que a educação precisa ser baseada no conhecimento sobre a criança que a psicologia poderia ajudar a proporcionar. A escola seria um laboratório de experiências, onde são testadas práticas pedagógicas fundamentadas na psicologia com eficácia comprovada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se alia a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento público e privado, o espaço é inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo. Assim, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria entender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. A questão pode ser compreendida, de forma geral, se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas necessidades, interesses e objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é grande, como acontece quando estamos com fome, por exemplo, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e até a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet também visitou o país, o que reforça o intercâmbio entre os dois lugares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que nesta visita o Brasil foi colocado como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Empresta hoje nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é o de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país. Além disso, Lourenço Filho também trabalhou para o desenvolvimento da psicologia no Brasil, escrevendo livros, dando cursos, publicando nos jornais e ocupando cargos importantes na administração pública, tanto federal como na época das então províncias, facilitando a conexão entre a psicologia e a educação e o desenvolvimento da própria psicologia brasileira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O IJJR também enviou pessoas de outras nacionalidades que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras do local. Além disso, Radecki também tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento da perseguição aos judeus. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
A Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède, que o expande e funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa com uma perspectiva de aliança entre educação e psicologia. Contudo, o grande nome de Genebra, que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de &#039;&#039;&#039;adaptação do sujeito ao meio&#039;&#039;&#039; e que a &#039;&#039;&#039;cognição é uma extensão do real&#039;&#039;&#039;. É nessa obra que ele amadurece a noção de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria até o final de sua vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento em que Piaget exerce imensa influência sobre a instituição, dando sua orientação e atuando diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo: &amp;quot;o tempo&amp;quot;, &amp;quot;a causalidade&amp;quot; ou &amp;quot;a contradição&amp;quot;, e convidava os maiores nomes do mundo para debatê-lo. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre os debates conduzidos naquele período, sintetizando avançadas discussçoes interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com extrnas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua epistemologia genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. Uma lista completa é praticamente impossível de elaborar, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser amigo pessoal de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1715</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
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		<updated>2026-07-08T19:40:03Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra */ Várias modificações substanciais&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base científica do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada uma das diferentes escolas funcionalistas. No funcionalismo, as teorias evolutivas têm relevância central, e consideram mente como o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No [[Funcionalismo americano|&#039;&#039;&#039;funcionalismo americano&#039;&#039;&#039;]], o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos e comportamentais&#039;&#039;&#039;. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma &amp;quot;coisa em si&amp;quot; para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039; na verdade são &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039;. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou &amp;quot;mistura&amp;quot; desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico só se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias com conexões funcionalistas mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções breves em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;[[Salpetrière]]&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação era considerada suficiente, além de os tratamentos serem bastante limitados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após a expansão do [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Nessas sessões, ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. Estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot nomes importantes para o século XX, como [[Freud]], [[Pierre Janet]], [[William James]], [[Joseph Babinski]], [[Alfred Binet]], entre outros. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]], [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] e outros trabalharam fortemente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que a paralisou, mas fomentou o desenvolvimento de uma psicologia filosófica, de grande importância para os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e, por conta disso, sofria sabotagem de seus colegas. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da [[Escola Prática de Altos Estudos]]. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como [[Claude Bernard]] (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, oriundo da Escola de Nancy e um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões muitas vezes indiretas, mas significativas para o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. As instituições centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de &#039;&#039;&#039;Jean-Martin Charcot&#039;&#039;&#039; e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, &#039;&#039;&#039;Alfred Binet&#039;&#039;&#039;, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;[[Pierre Janet]]&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud e a questões históricas da França, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceram na Alemanha, com &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. Os alemães tradicionalmente se interessam por psicologia, que era discutida amplamente em publicações de circulação acadêmica e popular, bem como em debates públicos. Essa &amp;quot;cultura psicológica&amp;quot; favoreceu o desenvolvimento da criação da psicologia, que ocorreu com a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica. Este momento ficou conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, a exemplo da linha alemã mais famosa do período, a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que colaborou com o surgimento de um corpo de psicólogos profissionais. Ao mesmo tempo, perspectivas desenvolvimentistas ou funcionalistas continuaram suas investigações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. Os &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também eram numerosos e respeitados, ganham progressiva relevância. A &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039; havia imigrado para os EUA durante a guerra e assim conseguiu uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã e enfraqueceu a própria Escola da Gestalt. Ainda no pós-guerra, ganham força &#039;&#039;&#039;perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; junto de abordagens mais holísticas, o que mostra a multiplicidade do pensamento psicológico naquele país que, apesar de sua relevância história, perdeu muito espaço para a psicologia dos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês e que circulavam no Brasil, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise.&#039;&#039;&#039; Ironicamente, a linhagem psicanalítica [[Lacan|lacaniana]], de origem francesa, foi a que mais se desenvolveu no país. As dificuldades do idioma e a distância cultural foram importantes obstáculos à circulação das ideias psicológicas da Alemanha no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente Alemanha, e associou-se fortemente à fisiologia na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra [[Vladimir Bechterev]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofundou os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um alguém que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias foram aplicadas em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecidas internacionalmente como importantes contribuições da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky progressivamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve menos circulação no Brasil, porém, Pavlov é um nome quase unanimemente citado em cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Seu nome é amplamente conhecido por estudantes de psicologia e de licenciaturas. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas criadas na cidade de Genebra, na Suíça. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre porque este país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente diferentes. Essa multiplicidade impede uma classificação nacional ampla, demandando um estudo por região. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar de &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt mas com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça na fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, puderam obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar, desenvolvimento social e econômico. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma destas cidades. Por séculos, foi uma cidade-estado autônoma próxima dos Alpes, cercada por quase todos os lados pela França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Friburgo (bilíngue), Valais e Berna (bilíngue). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes foram convertidos pelo próprio reformador João Calvino em 1536, quando expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto científica e filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculado à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu &amp;quot;sentimento de destino&amp;quot;, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos e fundos de investimento fortes e globalmente importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram uma filosofia humanista e social que convocava os cidadãos a direcionar seus esforços aos pobres, doentes, desvalidos, entre outros grupos e comunidades. Por conta dessa cultura, a cidade recebeu, em diferentes momentos, minorias perseguidas, pessoas doentes, vítimas de guerras, entre muitos migrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação de iniciativas de promoção da paz e do desenvolvimento mundial, como a Cruz Vermelha e o Direito Internacional Humanitário. Em Genebra também se incentivou a criação de ações políticas multilaterais de fomento de diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, desarmamento, educação, proteção aos trabalhadores, entre outras . Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um de seus intelectuais, de nome &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido treinamento em alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento experimentos na psicofísica e na fisiologia que, posteriormente, viriam a ser incorporados na psicologia científica. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, sua ação inicial pode ser entendida como uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos relacionados à psicofísica e à psicologia na Universidade de Genebra com seus alunos. Fazia o mesmo no salão de sua casa, com seus convidados para as refeições que organizava, visando discussões privadas e sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039; e, com a experiência com o que viu na cidade, decide trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da nova ciência. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por discordâncias, criou o próprio laboratório como um dissidente do mestre. Münsterberg fez todo tipo de indicação a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viaja para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, onde pega orientações prática e começa a desenhar o que seria o seu laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo compra os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois são adquirido pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra, mas o que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publica [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio, que precisava ser transformado e adaptado visando o seu desenvolvimento. Defende então que a educação precisa ser baseada no conhecimento sobre a criança que a psicologia poderia ajudar a proporcionar. A escola seria um laboratório de experiências, onde são testadas práticas pedagógicas fundamentadas na psicologia com eficácia comprovada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se alia a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento público e privado, o espaço é inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo. Assim, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria entender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. A questão pode ser compreendida, de forma geral, se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas necessidades, interesses e objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é grande, como acontece quando estamos com fome, por exemplo, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e até a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet também visitou o país, o que reforça o intercâmbio entre os dois lugares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que nesta visita o Brasil foi colocado como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Empresta hoje nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é o de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país. Além disso, Lourenço Filho também trabalhou para o desenvolvimento da psicologia no Brasil, escrevendo livros, dando cursos, publicando nos jornais e ocupando cargos importantes na administração pública, tanto federal como na época das então províncias, facilitando a conexão entre a psicologia e a educação e o desenvolvimento da própria psicologia brasileira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O IJJR também enviou pessoas de outras nacionalidades que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras do local. Além disso, Radecki também tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento da perseguição aos judeus. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
A Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède, que o expande e funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa com uma perspectiva de aliança entre educação e psicologia. Contudo, o grande nome de Genebra, que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de &#039;&#039;&#039;adaptação do sujeito ao meio&#039;&#039;&#039; e que a &#039;&#039;&#039;cognição é uma extensão do real&#039;&#039;&#039;. É nessa obra que ele amadurece a noção de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria até o final de sua vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento em que Piaget exerce imensa influência sobre a instituição, dando sua orientação e atuando diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo: &amp;quot;o tempo&amp;quot;, &amp;quot;a causalidade&amp;quot; ou &amp;quot;a contradição&amp;quot;, e convidava os maiores nomes do mundo para debatê-lo. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre os debates conduzidos naquele período, sintetizando avançadas discussçoes interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com extrnas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua epistemologia genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. Uma lista completa é praticamente impossível de elaborar, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser amigo pessoal de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1714</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
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		<updated>2026-07-06T20:47:09Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* A Escola de Genebra */ Várias modificações substanciais&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base científica do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada uma das diferentes escolas funcionalistas. No funcionalismo, as teorias evolutivas têm relevância central, e consideram mente como o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No [[Funcionalismo americano|&#039;&#039;&#039;funcionalismo americano&#039;&#039;&#039;]], o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos e comportamentais&#039;&#039;&#039;. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma &amp;quot;coisa em si&amp;quot; para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039; na verdade são &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039;. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou &amp;quot;mistura&amp;quot; desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico só se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias com conexões funcionalistas mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções breves em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;[[Salpetrière]]&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação era considerada suficiente, além de os tratamentos serem bastante limitados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após a expansão do [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Nessas sessões, ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. Estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot nomes importantes para o século XX, como [[Freud]], [[Pierre Janet]], [[William James]], [[Joseph Babinski]], [[Alfred Binet]], entre outros. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]], [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] e outros trabalharam fortemente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que a paralisou, mas fomentou o desenvolvimento de uma psicologia filosófica, de grande importância para os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e, por conta disso, sofria sabotagem de seus colegas. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da [[Escola Prática de Altos Estudos]]. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como [[Claude Bernard]] (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, oriundo da Escola de Nancy e um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões muitas vezes indiretas, mas significativas para o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. As instituições centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de &#039;&#039;&#039;Jean-Martin Charcot&#039;&#039;&#039; e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, &#039;&#039;&#039;Alfred Binet&#039;&#039;&#039;, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;[[Pierre Janet]]&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud e a questões históricas da França, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceram na Alemanha, com &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. Os alemães tradicionalmente se interessam por psicologia, que era discutida amplamente em publicações de circulação acadêmica e popular, bem como em debates públicos. Essa &amp;quot;cultura psicológica&amp;quot; favoreceu o desenvolvimento da criação da psicologia, que ocorreu com a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica. Este momento ficou conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, a exemplo da linha alemã mais famosa do período, a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que colaborou com o surgimento de um corpo de psicólogos profissionais. Ao mesmo tempo, perspectivas desenvolvimentistas ou funcionalistas continuaram suas investigações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. Os &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também eram numerosos e respeitados, ganham progressiva relevância. A &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039; havia imigrado para os EUA durante a guerra e assim conseguiu uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã e enfraqueceu a própria Escola da Gestalt. Ainda no pós-guerra, ganham força &#039;&#039;&#039;perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; junto de abordagens mais holísticas, o que mostra a multiplicidade do pensamento psicológico naquele país que, apesar de sua relevância história, perdeu muito espaço para a psicologia dos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês e que circulavam no Brasil, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise.&#039;&#039;&#039; Ironicamente, a linhagem psicanalítica [[Lacan|lacaniana]], de origem francesa, foi a que mais se desenvolveu no país. As dificuldades do idioma e a distância cultural foram importantes obstáculos à circulação das ideias psicológicas da Alemanha no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente Alemanha, e associou-se fortemente à fisiologia na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra [[Vladimir Bechterev]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofundou os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um alguém que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias foram aplicadas em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecidas internacionalmente como importantes contribuições da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky progressivamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve menos circulação no Brasil, porém, Pavlov é um nome quase unanimemente citado em cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Seu nome é amplamente conhecido por estudantes de psicologia e de licenciaturas. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas criadas na cidade de Genebra, na Suíça. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre porque este país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente diferentes. Essa multiplicidade impede uma classificação nacional ampla, demandando um estudo por região. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar de &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt mas com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça na fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, puderam obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar, desenvolvimento social e econômico. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma destas cidades. Por séculos, foi uma cidade-estado autônoma próxima dos Alpes, cercada por quase todos os lados pela França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Friburgo (bilíngue), Valais e Berna (bilíngue). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes foram convertidos pelo próprio reformador João Calvino em 1536, quando expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto científica e filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculado à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu &amp;quot;sentimento de destino&amp;quot;, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos e fundos de investimento fortes e globalmente importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram um humanismo social em que os cidadãos deveriam direcionar suas ações para os pobres, doentes, desvalidos, entre outros. A cidade recebeu, em diferentes momentos, grupos minoritários perseguidos, doentes e vítimas de guerras, entre muitos migrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação da Cruz Vermelha, bem como do Direito Internacional Humanitário, que inspirou diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, entre outras atitudes humanitárias internacionais que tiveram origem ou forte desenvolvimento na região. Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um dos chamados sábios da cidade, &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido um treinamento para aprender alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento do que viria a ser inserido como parte da psicologia, como experimentos na psicofísica e na fisiologia. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, trata-se de uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos relacionados à psicofísica e à psicologia na Universidade de Genebra com seus alunos, ou mesmo no salão de sua casa, com convidados, sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039; e, com a experiência com o que viu na cidade, decide trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da nova ciência. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por discordâncias, criou o próprio laboratório como um dissidente do mestre. Münsterberg fez todo tipo de indicação a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viaja para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, onde pega orientações prática e começa a desenhar o que seria o seu laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo compra os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois são adquirido pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra, mas o que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publica [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio, que precisava ser transformado e adaptado visando o seu desenvolvimento. Defende então que a educação precisa ser baseada no conhecimento sobre a criança que a psicologia poderia ajudar a proporcionar. A escola seria um laboratório de experiências, onde são testadas práticas pedagógicas fundamentadas na psicologia com eficácia comprovada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se alia a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento público e privado, o espaço é inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo. Assim, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria entender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. A questão pode ser compreendida, de forma geral, se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas necessidades, interesses e objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é grande, como acontece quando estamos com fome, por exemplo, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e até a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet também visitou o país, o que reforça o intercâmbio entre os dois lugares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que nesta visita o Brasil foi colocado como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Empresta hoje nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é o de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país. Além disso, Lourenço Filho também trabalhou para o desenvolvimento da psicologia no Brasil, escrevendo livros, dando cursos, publicando nos jornais e ocupando cargos importantes na administração pública, tanto federal como na época das então províncias, facilitando a conexão entre a psicologia e a educação e o desenvolvimento da própria psicologia brasileira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O IJJR também enviou pessoas de outras nacionalidades que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras do local. Além disso, Radecki também tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento da perseguição aos judeus. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
A Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède, que o expande e funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa com uma perspectiva de aliança entre educação e psicologia. Contudo, o grande nome de Genebra, que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de &#039;&#039;&#039;adaptação do sujeito ao meio&#039;&#039;&#039; e que a &#039;&#039;&#039;cognição é uma extensão do real&#039;&#039;&#039;. É nessa obra que ele amadurece a noção de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria até o final de sua vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento em que Piaget exerce imensa influência sobre a instituição, dando sua orientação e atuando diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo: &amp;quot;o tempo&amp;quot;, &amp;quot;a causalidade&amp;quot; ou &amp;quot;a contradição&amp;quot;, e convidava os maiores nomes do mundo para debatê-lo. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre os debates conduzidos naquele período, sintetizando avançadas discussçoes interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com extrnas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua epistemologia genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. Uma lista completa é praticamente impossível de elaborar, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser amigo pessoal de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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DUCRET, Jean-Jacques. &#039;&#039;&#039;Jean Piaget&#039;&#039;&#039;: biographie et parcours intellectuel. Delachaux &amp;amp; Niestle, 1990.&lt;br /&gt;
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ROSA, Hugo Leonardo Rocha Silva da; RIBEIRO, André Elias Morelli. A viagem de Claparède ao Brasil. Em: RIBEIRO, André Elias Morelli; SANTOS, Marcus Vinícius do Amaral Gama; VIEIRA, Yuri Pereira Antunes; GUIMARÃES, Gunther Mafra; FERREIRA, Arthur Arruda Leal; FONSECA, Luiz Eduardo Prado da (Orgs.). &#039;&#039;&#039;Boletim do Portal História da Psicologia&#039;&#039;&#039;. Rio das Ostras, RJ: Editora do Portal História da Psicologia, 2022, p.286-330. Disponível em: &amp;lt;&amp;lt;nowiki&amp;gt;https://editora.historiadapsicologia.com.br/wp-content/uploads/2026/03/13-A-Viagem-de-Claparede-ao-Brasil-1.pdf&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&amp;gt;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
SOUZA JUNIOR, Eustáquio José de; LOPES, Manoela Gomes; CIRINO, Sérgio Dias. A reflexologia soviética: Séchenov, Pavlov e Bechterew. Em: JACÓ-VILELA, Ana Maria; FERREIRA, Arthur Arruda Leal; PORTUGAL, Francisco. &#039;&#039;&#039;História da psicologia&#039;&#039;&#039;: rumos e percursos. Rio de Janeiro: Nau Editora, 2005, p. 169-178.&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1713</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1713"/>
		<updated>2026-07-06T20:04:33Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* A psicologia na Rússia */ Várias modificações substanciais&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base científica do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada uma das diferentes escolas funcionalistas. No funcionalismo, as teorias evolutivas têm relevância central, e consideram mente como o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No [[Funcionalismo americano|&#039;&#039;&#039;funcionalismo americano&#039;&#039;&#039;]], o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos e comportamentais&#039;&#039;&#039;. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma &amp;quot;coisa em si&amp;quot; para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039; na verdade são &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039;. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou &amp;quot;mistura&amp;quot; desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico só se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias com conexões funcionalistas mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções breves em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;[[Salpetrière]]&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação era considerada suficiente, além de os tratamentos serem bastante limitados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após a expansão do [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Nessas sessões, ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. Estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot nomes importantes para o século XX, como [[Freud]], [[Pierre Janet]], [[William James]], [[Joseph Babinski]], [[Alfred Binet]], entre outros. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]], [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] e outros trabalharam fortemente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que a paralisou, mas fomentou o desenvolvimento de uma psicologia filosófica, de grande importância para os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e, por conta disso, sofria sabotagem de seus colegas. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da [[Escola Prática de Altos Estudos]]. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como [[Claude Bernard]] (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, oriundo da Escola de Nancy e um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões muitas vezes indiretas, mas significativas para o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. As instituições centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de &#039;&#039;&#039;Jean-Martin Charcot&#039;&#039;&#039; e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, &#039;&#039;&#039;Alfred Binet&#039;&#039;&#039;, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;[[Pierre Janet]]&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud e a questões históricas da França, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceram na Alemanha, com &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. Os alemães tradicionalmente se interessam por psicologia, que era discutida amplamente em publicações de circulação acadêmica e popular, bem como em debates públicos. Essa &amp;quot;cultura psicológica&amp;quot; favoreceu o desenvolvimento da criação da psicologia, que ocorreu com a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica. Este momento ficou conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, a exemplo da linha alemã mais famosa do período, a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que colaborou com o surgimento de um corpo de psicólogos profissionais. Ao mesmo tempo, perspectivas desenvolvimentistas ou funcionalistas continuaram suas investigações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. Os &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também eram numerosos e respeitados, ganham progressiva relevância. A &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039; havia imigrado para os EUA durante a guerra e assim conseguiu uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã e enfraqueceu a própria Escola da Gestalt. Ainda no pós-guerra, ganham força &#039;&#039;&#039;perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; junto de abordagens mais holísticas, o que mostra a multiplicidade do pensamento psicológico naquele país que, apesar de sua relevância história, perdeu muito espaço para a psicologia dos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês e que circulavam no Brasil, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise.&#039;&#039;&#039; Ironicamente, a linhagem psicanalítica [[Lacan|lacaniana]], de origem francesa, foi a que mais se desenvolveu no país. As dificuldades do idioma e a distância cultural foram importantes obstáculos à circulação das ideias psicológicas da Alemanha no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente Alemanha, e associou-se fortemente à fisiologia na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra [[Vladimir Bechterev]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofundou os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um alguém que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias foram aplicadas em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecidas internacionalmente como importantes contribuições da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky progressivamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve menos circulação no Brasil, porém, Pavlov é um nome quase unanimemente citado em cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Seu nome é amplamente conhecido por estudantes de psicologia e de licenciaturas. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas que ocorreram na cidade de Genebra. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre por que o país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente diferentes, o que demanda um estudo por região, e não olhando o país como um todo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar de &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt mas com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça entre a fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. Há poucas informações sobre a psicologia em outros cantões e cidades da Suíça. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, podem obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar e desenvolvimento social e econômico com benefícios mútuos. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado, agora cantões, tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma cidade na Suíça, um pequeno país na Europa Central. Por séculos, foi uma cidade-estado próxima dos Alpes Suíços, cercada por quase todos os lados pela poderosa França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Friburgo (bilíngue), Valais e Berna (bilíngue). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes foram convertidos pelo próprio reformador João Calvino em 1536, quando expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculado à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu sentimento de destino, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos fortes e importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram um humanismo social, onde a ação direta de seus cidadãos deveria ser direcionada para os pobres, doentes, desvalidos, entre outros. A cidade recebeu, em diferentes momentos, grupos minoritários perseguidos, doentes e vítimas de guerras, entre muitos migrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação da Cruz Vermelha, bem como do Direito Internacional Humanitário, que levou a diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, entre outras atitudes humanitárias internacionais que tiveram origem ou forte desenvolvimento na região. Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um dos chamados sábios da cidade, &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido um treinamento para aprender alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento do que viria a ser inserido como parte da psicologia, como experimentos na psicofísica e na fisiologia. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, trata-se de uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos relacionados à psicofísica e à psicologia na Universidade de Genebra com seus alunos, ou mesmo no salão de sua casa, com convidados, sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039; e, com a experiência com o que viu na cidade, decide trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da nova ciência. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por discordâncias, criou o próprio laboratório como um dissidente do mestre. Münsterberg fez todo tipo de indicação a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viaja para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, onde pega orientações prática e começa a desenhar o que seria o seu laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo compra os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois são adquirido pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra, mas o que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publica [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio, que precisava ser transformado e adaptado visando o seu desenvolvimento. Defende então que a educação precisa ser baseada no conhecimento sobre a criança que a psicologia poderia ajudar a proporcionar. A escola seria um laboratório de experiências, onde são testadas práticas pedagógicas fundamentadas na psicologia com eficácia comprovada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se alia a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento público e privado, o espaço é inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo. Assim, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria entender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. A questão pode ser compreendida, de forma geral, se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas necessidades, interesses e objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é grande, como acontece quando estamos com fome, por exemplo, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e até a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet também visitou o país, o que reforça o intercâmbio entre os dois lugares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que nesta visita o Brasil foi colocado como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Empresta hoje nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é o de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país. Além disso, Lourenço Filho também trabalhou para o desenvolvimento da psicologia no Brasil, escrevendo livros, dando cursos, publicando nos jornais e ocupando cargos importantes na administração pública, tanto federal como na época das então províncias, facilitando a conexão entre a psicologia e a educação e o desenvolvimento da própria psicologia brasileira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O IJJR também enviou pessoas de outras nacionalidades que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras do local. Além disso, Radecki também tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento da perseguição aos judeus. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
A Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède, que o expande e funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa com uma perspectiva de aliança entre educação e psicologia. Contudo, o grande nome de Genebra, que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de &#039;&#039;&#039;adaptação do sujeito ao meio&#039;&#039;&#039; e que a &#039;&#039;&#039;cognição é uma extensão do real&#039;&#039;&#039;. É nessa obra que ele amadurece a noção de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria até o final de sua vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento em que Piaget exerce imensa influência sobre a instituição, dando sua orientação e atuando diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo: &amp;quot;o tempo&amp;quot;, &amp;quot;a causalidade&amp;quot; ou &amp;quot;a contradição&amp;quot;, e convidava os maiores nomes do mundo para debatê-lo. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre os debates conduzidos naquele período, sintetizando avançadas discussçoes interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com extrnas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua epistemologia genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. Uma lista completa é praticamente impossível de elaborar, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser amigo pessoal de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1712</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
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		<updated>2026-07-06T19:54:56Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* A psicologia na Alemanha */ Várias modificações substanciais&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base científica do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada uma das diferentes escolas funcionalistas. No funcionalismo, as teorias evolutivas têm relevância central, e consideram mente como o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No [[Funcionalismo americano|&#039;&#039;&#039;funcionalismo americano&#039;&#039;&#039;]], o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos e comportamentais&#039;&#039;&#039;. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma &amp;quot;coisa em si&amp;quot; para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039; na verdade são &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039;. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou &amp;quot;mistura&amp;quot; desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico só se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias com conexões funcionalistas mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções breves em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;[[Salpetrière]]&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação era considerada suficiente, além de os tratamentos serem bastante limitados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após a expansão do [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Nessas sessões, ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. Estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot nomes importantes para o século XX, como [[Freud]], [[Pierre Janet]], [[William James]], [[Joseph Babinski]], [[Alfred Binet]], entre outros. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]], [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] e outros trabalharam fortemente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que a paralisou, mas fomentou o desenvolvimento de uma psicologia filosófica, de grande importância para os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e, por conta disso, sofria sabotagem de seus colegas. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da [[Escola Prática de Altos Estudos]]. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como [[Claude Bernard]] (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, oriundo da Escola de Nancy e um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões muitas vezes indiretas, mas significativas para o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. As instituições centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de &#039;&#039;&#039;Jean-Martin Charcot&#039;&#039;&#039; e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, &#039;&#039;&#039;Alfred Binet&#039;&#039;&#039;, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;[[Pierre Janet]]&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud e a questões históricas da França, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceram na Alemanha, com &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. Os alemães tradicionalmente se interessam por psicologia, que era discutida amplamente em publicações de circulação acadêmica e popular, bem como em debates públicos. Essa &amp;quot;cultura psicológica&amp;quot; favoreceu o desenvolvimento da criação da psicologia, que ocorreu com a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica. Este momento ficou conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, a exemplo da linha alemã mais famosa do período, a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que colaborou com o surgimento de um corpo de psicólogos profissionais. Ao mesmo tempo, perspectivas desenvolvimentistas ou funcionalistas continuaram suas investigações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. Os &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também eram numerosos e respeitados, ganham progressiva relevância. A &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039; havia imigrado para os EUA durante a guerra e assim conseguiu uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã e enfraqueceu a própria Escola da Gestalt. Ainda no pós-guerra, ganham força &#039;&#039;&#039;perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; junto de abordagens mais holísticas, o que mostra a multiplicidade do pensamento psicológico naquele país que, apesar de sua relevância história, perdeu muito espaço para a psicologia dos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês e que circulavam no Brasil, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise.&#039;&#039;&#039; Ironicamente, a linhagem psicanalítica [[Lacan|lacaniana]], de origem francesa, foi a que mais se desenvolveu no país. As dificuldades do idioma e a distância cultural foram importantes obstáculos à circulação das ideias psicológicas da Alemanha no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente alemã, e associou-se fortemente à fisiologia, na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra Vladimir Bechterev.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofunda os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado de Pavlov, mas com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares, como fizera seu par russo. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. Pode-se dizer que esta é, atualmente, a linhagem dominante neste campo específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um sujeito que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias a ser desenvolvida e aplicada em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecida internacionalmente como uma importante contribuição da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky praticamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve pouca circulação no Brasil, porém Pavlov é um nome quase unanimemente citado em todos os cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Praticamente não existem estudantes de psicologia que jamais ouviram falar de seu nome, e a maioria dos estudantes das licenciaturas também conhecem ao menos fragmentos de sua história. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas que ocorreram na cidade de Genebra. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre por que o país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente diferentes, o que demanda um estudo por região, e não olhando o país como um todo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar de &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt mas com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça entre a fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. Há poucas informações sobre a psicologia em outros cantões e cidades da Suíça. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, podem obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar e desenvolvimento social e econômico com benefícios mútuos. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado, agora cantões, tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma cidade na Suíça, um pequeno país na Europa Central. Por séculos, foi uma cidade-estado próxima dos Alpes Suíços, cercada por quase todos os lados pela poderosa França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Friburgo (bilíngue), Valais e Berna (bilíngue). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes foram convertidos pelo próprio reformador João Calvino em 1536, quando expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculado à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu sentimento de destino, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos fortes e importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram um humanismo social, onde a ação direta de seus cidadãos deveria ser direcionada para os pobres, doentes, desvalidos, entre outros. A cidade recebeu, em diferentes momentos, grupos minoritários perseguidos, doentes e vítimas de guerras, entre muitos migrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação da Cruz Vermelha, bem como do Direito Internacional Humanitário, que levou a diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, entre outras atitudes humanitárias internacionais que tiveram origem ou forte desenvolvimento na região. Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um dos chamados sábios da cidade, &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido um treinamento para aprender alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento do que viria a ser inserido como parte da psicologia, como experimentos na psicofísica e na fisiologia. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, trata-se de uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos relacionados à psicofísica e à psicologia na Universidade de Genebra com seus alunos, ou mesmo no salão de sua casa, com convidados, sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039; e, com a experiência com o que viu na cidade, decide trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da nova ciência. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por discordâncias, criou o próprio laboratório como um dissidente do mestre. Münsterberg fez todo tipo de indicação a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viaja para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, onde pega orientações prática e começa a desenhar o que seria o seu laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo compra os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois são adquirido pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra, mas o que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publica [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio, que precisava ser transformado e adaptado visando o seu desenvolvimento. Defende então que a educação precisa ser baseada no conhecimento sobre a criança que a psicologia poderia ajudar a proporcionar. A escola seria um laboratório de experiências, onde são testadas práticas pedagógicas fundamentadas na psicologia com eficácia comprovada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se alia a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento público e privado, o espaço é inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo. Assim, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria entender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. A questão pode ser compreendida, de forma geral, se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas necessidades, interesses e objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é grande, como acontece quando estamos com fome, por exemplo, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e até a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet também visitou o país, o que reforça o intercâmbio entre os dois lugares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que nesta visita o Brasil foi colocado como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Empresta hoje nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é o de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país. Além disso, Lourenço Filho também trabalhou para o desenvolvimento da psicologia no Brasil, escrevendo livros, dando cursos, publicando nos jornais e ocupando cargos importantes na administração pública, tanto federal como na época das então províncias, facilitando a conexão entre a psicologia e a educação e o desenvolvimento da própria psicologia brasileira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O IJJR também enviou pessoas de outras nacionalidades que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras do local. Além disso, Radecki também tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento da perseguição aos judeus. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
A Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède, que o expande e funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa com uma perspectiva de aliança entre educação e psicologia. Contudo, o grande nome de Genebra, que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de &#039;&#039;&#039;adaptação do sujeito ao meio&#039;&#039;&#039; e que a &#039;&#039;&#039;cognição é uma extensão do real&#039;&#039;&#039;. É nessa obra que ele amadurece a noção de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria até o final de sua vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento em que Piaget exerce imensa influência sobre a instituição, dando sua orientação e atuando diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo: &amp;quot;o tempo&amp;quot;, &amp;quot;a causalidade&amp;quot; ou &amp;quot;a contradição&amp;quot;, e convidava os maiores nomes do mundo para debatê-lo. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre os debates conduzidos naquele período, sintetizando avançadas discussçoes interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com extrnas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua epistemologia genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. Uma lista completa é praticamente impossível de elaborar, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser amigo pessoal de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1711</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1711"/>
		<updated>2026-07-04T20:51:04Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* A psicologia na Alemanha */ Várias modificações substanciais&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base científica do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada uma das diferentes escolas funcionalistas. No funcionalismo, as teorias evolutivas têm relevância central, e consideram mente como o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No [[Funcionalismo americano|&#039;&#039;&#039;funcionalismo americano&#039;&#039;&#039;]], o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos e comportamentais&#039;&#039;&#039;. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma &amp;quot;coisa em si&amp;quot; para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039; na verdade são &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039;. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou &amp;quot;mistura&amp;quot; desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico só se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias com conexões funcionalistas mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções breves em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;[[Salpetrière]]&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação era considerada suficiente, além de os tratamentos serem bastante limitados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após a expansão do [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Nessas sessões, ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. Estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot nomes importantes para o século XX, como [[Freud]], [[Pierre Janet]], [[William James]], [[Joseph Babinski]], [[Alfred Binet]], entre outros. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]], [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] e outros trabalharam fortemente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que a paralisou, mas fomentou o desenvolvimento de uma psicologia filosófica, de grande importância para os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e, por conta disso, sofria sabotagem de seus colegas. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da [[Escola Prática de Altos Estudos]]. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como [[Claude Bernard]] (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, oriundo da Escola de Nancy e um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões muitas vezes indiretas, mas significativas para o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. As instituições centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de &#039;&#039;&#039;Jean-Martin Charcot&#039;&#039;&#039; e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, &#039;&#039;&#039;Alfred Binet&#039;&#039;&#039;, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;[[Pierre Janet]]&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud e a questões históricas da França, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceu na Alemanha, com as ideias de &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. Os alemães tradicionalmente se interessam por psicologia, que era discutida amplamente em publicações e debates públicos. Essa cultura psicológica acabou facilitando para que o marco simbólico da criação da psicologia fosse lá, com a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879, o que gerou avanços e debates pelo país. A primeira linha de psicologia aplicada alemã foi criada no exército. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica, conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, como a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que favoreceu o surgimento de um corpo profissional, sem falar das perspectivas desenvolvimentistas ou funcionalistas, que permanecem se aperfeiçoando.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. Os &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também são numerosos e respeitados, ganham progressiva relevância. A psicologia tipicamente alemã, a da &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039;, havia imigrado para os EUA. Lá essa escola conseguiu uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã. &#039;&#039;&#039;Perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; ganham força junto de abordagens mais holísticas e, apesar de sua relevância, a psicologia alemã ainda busca um retorno à glória de seu passado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise&#039;&#039;&#039;, ironicamente com destaque para a linhagem [[Lacan|lacaniana]], que tem origem francesa. A distância entre Alemanha e o Brasil se devem às dificuldades do idioma e à distância cultural, que atrapalharam a circulação das ideias daquele país no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente alemã, e associou-se fortemente à fisiologia, na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra Vladimir Bechterev.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofunda os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado de Pavlov, mas com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares, como fizera seu par russo. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. Pode-se dizer que esta é, atualmente, a linhagem dominante neste campo específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um sujeito que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias a ser desenvolvida e aplicada em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecida internacionalmente como uma importante contribuição da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky praticamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve pouca circulação no Brasil, porém Pavlov é um nome quase unanimemente citado em todos os cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Praticamente não existem estudantes de psicologia que jamais ouviram falar de seu nome, e a maioria dos estudantes das licenciaturas também conhecem ao menos fragmentos de sua história. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas que ocorreram na cidade de Genebra. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre por que o país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente diferentes, o que demanda um estudo por região, e não olhando o país como um todo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar de &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt mas com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça entre a fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. Há poucas informações sobre a psicologia em outros cantões e cidades da Suíça. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, podem obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar e desenvolvimento social e econômico com benefícios mútuos. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado, agora cantões, tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma cidade na Suíça, um pequeno país na Europa Central. Por séculos, foi uma cidade-estado próxima dos Alpes Suíços, cercada por quase todos os lados pela poderosa França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Friburgo (bilíngue), Valais e Berna (bilíngue). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes foram convertidos pelo próprio reformador João Calvino em 1536, quando expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculado à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu sentimento de destino, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos fortes e importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram um humanismo social, onde a ação direta de seus cidadãos deveria ser direcionada para os pobres, doentes, desvalidos, entre outros. A cidade recebeu, em diferentes momentos, grupos minoritários perseguidos, doentes e vítimas de guerras, entre muitos migrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação da Cruz Vermelha, bem como do Direito Internacional Humanitário, que levou a diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, entre outras atitudes humanitárias internacionais que tiveram origem ou forte desenvolvimento na região. Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um dos chamados sábios da cidade, &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido um treinamento para aprender alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento do que viria a ser inserido como parte da psicologia, como experimentos na psicofísica e na fisiologia. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, trata-se de uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos relacionados à psicofísica e à psicologia na Universidade de Genebra com seus alunos, ou mesmo no salão de sua casa, com convidados, sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039; e, com a experiência com o que viu na cidade, decide trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da nova ciência. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por discordâncias, criou o próprio laboratório como um dissidente do mestre. Münsterberg fez todo tipo de indicação a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viaja para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, onde pega orientações prática e começa a desenhar o que seria o seu laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo compra os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois são adquirido pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra, mas o que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publica [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio, que precisava ser transformado e adaptado visando o seu desenvolvimento. Defende então que a educação precisa ser baseada no conhecimento sobre a criança que a psicologia poderia ajudar a proporcionar. A escola seria um laboratório de experiências, onde são testadas práticas pedagógicas fundamentadas na psicologia com eficácia comprovada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se alia a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento público e privado, o espaço é inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo. Assim, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria entender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. A questão pode ser compreendida, de forma geral, se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas necessidades, interesses e objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é grande, como acontece quando estamos com fome, por exemplo, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e até a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet também visitou o país, o que reforça o intercâmbio entre os dois lugares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que nesta visita o Brasil foi colocado como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Empresta hoje nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é o de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país. Além disso, Lourenço Filho também trabalhou para o desenvolvimento da psicologia no Brasil, escrevendo livros, dando cursos, publicando nos jornais e ocupando cargos importantes na administração pública, tanto federal como na época das então províncias, facilitando a conexão entre a psicologia e a educação e o desenvolvimento da própria psicologia brasileira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O IJJR também enviou pessoas de outras nacionalidades que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras do local. Além disso, Radecki também tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento da perseguição aos judeus. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
A Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède, que o expande e funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa com uma perspectiva de aliança entre educação e psicologia. Contudo, o grande nome de Genebra, que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de &#039;&#039;&#039;adaptação do sujeito ao meio&#039;&#039;&#039; e que a &#039;&#039;&#039;cognição é uma extensão do real&#039;&#039;&#039;. É nessa obra que ele amadurece a noção de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria até o final de sua vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento em que Piaget exerce imensa influência sobre a instituição, dando sua orientação e atuando diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo: &amp;quot;o tempo&amp;quot;, &amp;quot;a causalidade&amp;quot; ou &amp;quot;a contradição&amp;quot;, e convidava os maiores nomes do mundo para debatê-lo. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre os debates conduzidos naquele período, sintetizando avançadas discussçoes interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com extrnas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua epistemologia genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. Uma lista completa é praticamente impossível de elaborar, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser amigo pessoal de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1710</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1710"/>
		<updated>2026-07-04T20:38:48Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* Um passeio por psicologias europeias */ Várias modificações substanciais&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base científica do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada uma das diferentes escolas funcionalistas. No funcionalismo, as teorias evolutivas têm relevância central, e consideram mente como o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No [[Funcionalismo americano|&#039;&#039;&#039;funcionalismo americano&#039;&#039;&#039;]], o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos e comportamentais&#039;&#039;&#039;. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma &amp;quot;coisa em si&amp;quot; para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039; na verdade são &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039;. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou &amp;quot;mistura&amp;quot; desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico só se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias com conexões funcionalistas mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções breves em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;[[Salpetrière]]&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação era considerada suficiente, além de os tratamentos serem bastante limitados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após a expansão do [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Nessas sessões, ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. Estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot nomes importantes para o século XX, como [[Freud]], [[Pierre Janet]], [[William James]], [[Joseph Babinski]], [[Alfred Binet]], entre outros. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]], [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] e outros trabalharam fortemente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que a paralisou, mas fomentou o desenvolvimento de uma psicologia filosófica, de grande importância para os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e, por conta disso, sofria sabotagem de seus colegas. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da [[Escola Prática de Altos Estudos]]. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como [[Claude Bernard]] (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, oriundo da Escola de Nancy e um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões muitas vezes indiretas, mas significativas para o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. As instituições centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de &#039;&#039;&#039;Jean-Martin Charcot&#039;&#039;&#039; e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, &#039;&#039;&#039;Alfred Binet&#039;&#039;&#039;, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;[[Pierre Janet]]&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud e a questões históricas da França, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceu na Alemanha, com as ideias de &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. A tradição de interesse em psicologia alemã foi coroada por lá florescer o marco simbólico da criação da psicologia não só na Alemanha, mas no mundo, foi a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879, o que gerou avanços e debates pelo país. A primeira linha de psicologia aplicada do país é criada no exército. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica, conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, como a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que favoreceu o surgimento de um corpo profissional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. OS &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também são numerosos e respeitados, também ganham relevância progressivamente. A psicologia tipicamente alemã, a da &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039;, havia imigrado para os EUA, onde teve uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã. &#039;&#039;&#039;Perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; ganham força junto de abordagens mais holísticas e, apesar de sua relevância, a psicologia alemã ainda busca um retorno à glória de seu passado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise&#039;&#039;&#039;, ironicamente com destaque para a linhagem [[Lacan|lacaniana]], que tem origem francesa. A distância entre Alemanha e o Brasil se devem às dificuldades do idioma e à distância cultural, que atrapalharam a circulação das ideias daquele país no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente alemã, e associou-se fortemente à fisiologia, na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra Vladimir Bechterev.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofunda os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado de Pavlov, mas com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares, como fizera seu par russo. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. Pode-se dizer que esta é, atualmente, a linhagem dominante neste campo específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um sujeito que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias a ser desenvolvida e aplicada em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecida internacionalmente como uma importante contribuição da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky praticamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve pouca circulação no Brasil, porém Pavlov é um nome quase unanimemente citado em todos os cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Praticamente não existem estudantes de psicologia que jamais ouviram falar de seu nome, e a maioria dos estudantes das licenciaturas também conhecem ao menos fragmentos de sua história. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas que ocorreram na cidade de Genebra. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre por que o país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente diferentes, o que demanda um estudo por região, e não olhando o país como um todo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar de &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt mas com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça entre a fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. Há poucas informações sobre a psicologia em outros cantões e cidades da Suíça. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, podem obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar e desenvolvimento social e econômico com benefícios mútuos. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado, agora cantões, tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma cidade na Suíça, um pequeno país na Europa Central. Por séculos, foi uma cidade-estado próxima dos Alpes Suíços, cercada por quase todos os lados pela poderosa França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Friburgo (bilíngue), Valais e Berna (bilíngue). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes foram convertidos pelo próprio reformador João Calvino em 1536, quando expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculado à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu sentimento de destino, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos fortes e importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram um humanismo social, onde a ação direta de seus cidadãos deveria ser direcionada para os pobres, doentes, desvalidos, entre outros. A cidade recebeu, em diferentes momentos, grupos minoritários perseguidos, doentes e vítimas de guerras, entre muitos migrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação da Cruz Vermelha, bem como do Direito Internacional Humanitário, que levou a diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, entre outras atitudes humanitárias internacionais que tiveram origem ou forte desenvolvimento na região. Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um dos chamados sábios da cidade, &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido um treinamento para aprender alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento do que viria a ser inserido como parte da psicologia, como experimentos na psicofísica e na fisiologia. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, trata-se de uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos relacionados à psicofísica e à psicologia na Universidade de Genebra com seus alunos, ou mesmo no salão de sua casa, com convidados, sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039; e, com a experiência com o que viu na cidade, decide trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da nova ciência. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por discordâncias, criou o próprio laboratório como um dissidente do mestre. Münsterberg fez todo tipo de indicação a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viaja para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, onde pega orientações prática e começa a desenhar o que seria o seu laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo compra os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois são adquirido pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra, mas o que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publica [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio, que precisava ser transformado e adaptado visando o seu desenvolvimento. Defende então que a educação precisa ser baseada no conhecimento sobre a criança que a psicologia poderia ajudar a proporcionar. A escola seria um laboratório de experiências, onde são testadas práticas pedagógicas fundamentadas na psicologia com eficácia comprovada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se alia a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento público e privado, o espaço é inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo. Assim, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria entender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. A questão pode ser compreendida, de forma geral, se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas necessidades, interesses e objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é grande, como acontece quando estamos com fome, por exemplo, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e até a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet também visitou o país, o que reforça o intercâmbio entre os dois lugares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que nesta visita o Brasil foi colocado como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Empresta hoje nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é o de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país. Além disso, Lourenço Filho também trabalhou para o desenvolvimento da psicologia no Brasil, escrevendo livros, dando cursos, publicando nos jornais e ocupando cargos importantes na administração pública, tanto federal como na época das então províncias, facilitando a conexão entre a psicologia e a educação e o desenvolvimento da própria psicologia brasileira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O IJJR também enviou pessoas de outras nacionalidades que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras do local. Além disso, Radecki também tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento da perseguição aos judeus. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
A Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède, que o expande e funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa com uma perspectiva de aliança entre educação e psicologia. Contudo, o grande nome de Genebra, que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de &#039;&#039;&#039;adaptação do sujeito ao meio&#039;&#039;&#039; e que a &#039;&#039;&#039;cognição é uma extensão do real&#039;&#039;&#039;. É nessa obra que ele amadurece a noção de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria até o final de sua vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento em que Piaget exerce imensa influência sobre a instituição, dando sua orientação e atuando diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo: &amp;quot;o tempo&amp;quot;, &amp;quot;a causalidade&amp;quot; ou &amp;quot;a contradição&amp;quot;, e convidava os maiores nomes do mundo para debatê-lo. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre os debates conduzidos naquele período, sintetizando avançadas discussçoes interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com extrnas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua epistemologia genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. Uma lista completa é praticamente impossível de elaborar, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser amigo pessoal de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1709</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1709"/>
		<updated>2026-07-04T20:24:22Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu */ Várias modificações substanciais&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base científica do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada uma das diferentes escolas funcionalistas. No funcionalismo, as teorias evolutivas têm relevância central, e consideram mente como o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No [[Funcionalismo americano|&#039;&#039;&#039;funcionalismo americano&#039;&#039;&#039;]], o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos e comportamentais&#039;&#039;&#039;. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma &amp;quot;coisa em si&amp;quot; para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039; na verdade são &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039;. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou &amp;quot;mistura&amp;quot; desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico só se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, nestes três casos, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções passageiras em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Salpetrière&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação parecia fazer sentido, principalmente devido à concepção dominante à época da total separação entre mente e corpo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após o [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. [[Sigmund Freud|Freud]] estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot, entre muitos outros nomes importantes para o século XX. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]] e [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] trabalharam intensamente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que paralisou a psicologia experimental mas trouxe muitos ganhos numa psicologia filosófica, que influenciou os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e fora sabotado por isso. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da Escola Prática de Altos Estudos. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como Claude Bernard (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot não apenas assumiu o posto, ele também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões, muitas vezes indiretas, mas significativas, com o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. Os personagens centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de Jean-Martin Charcot e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, Alfred Binet, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;Pierre Janet&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceu na Alemanha, com as ideias de &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. A tradição de interesse em psicologia alemã foi coroada por lá florescer o marco simbólico da criação da psicologia não só na Alemanha, mas no mundo, foi a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879, o que gerou avanços e debates pelo país. A primeira linha de psicologia aplicada do país é criada no exército. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica, conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, como a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que favoreceu o surgimento de um corpo profissional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. OS &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também são numerosos e respeitados, também ganham relevância progressivamente. A psicologia tipicamente alemã, a da &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039;, havia imigrado para os EUA, onde teve uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã. &#039;&#039;&#039;Perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; ganham força junto de abordagens mais holísticas e, apesar de sua relevância, a psicologia alemã ainda busca um retorno à glória de seu passado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise&#039;&#039;&#039;, ironicamente com destaque para a linhagem [[Lacan|lacaniana]], que tem origem francesa. A distância entre Alemanha e o Brasil se devem às dificuldades do idioma e à distância cultural, que atrapalharam a circulação das ideias daquele país no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente alemã, e associou-se fortemente à fisiologia, na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra Vladimir Bechterev.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofunda os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado de Pavlov, mas com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares, como fizera seu par russo. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. Pode-se dizer que esta é, atualmente, a linhagem dominante neste campo específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um sujeito que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias a ser desenvolvida e aplicada em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecida internacionalmente como uma importante contribuição da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky praticamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve pouca circulação no Brasil, porém Pavlov é um nome quase unanimemente citado em todos os cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Praticamente não existem estudantes de psicologia que jamais ouviram falar de seu nome, e a maioria dos estudantes das licenciaturas também conhecem ao menos fragmentos de sua história. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas que ocorreram na cidade de Genebra. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre por que o país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente diferentes, o que demanda um estudo por região, e não olhando o país como um todo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar de &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt mas com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça entre a fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. Há poucas informações sobre a psicologia em outros cantões e cidades da Suíça. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, podem obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar e desenvolvimento social e econômico com benefícios mútuos. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado, agora cantões, tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma cidade na Suíça, um pequeno país na Europa Central. Por séculos, foi uma cidade-estado próxima dos Alpes Suíços, cercada por quase todos os lados pela poderosa França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Friburgo (bilíngue), Valais e Berna (bilíngue). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes foram convertidos pelo próprio reformador João Calvino em 1536, quando expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculado à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu sentimento de destino, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos fortes e importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram um humanismo social, onde a ação direta de seus cidadãos deveria ser direcionada para os pobres, doentes, desvalidos, entre outros. A cidade recebeu, em diferentes momentos, grupos minoritários perseguidos, doentes e vítimas de guerras, entre muitos migrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação da Cruz Vermelha, bem como do Direito Internacional Humanitário, que levou a diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, entre outras atitudes humanitárias internacionais que tiveram origem ou forte desenvolvimento na região. Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um dos chamados sábios da cidade, &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido um treinamento para aprender alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento do que viria a ser inserido como parte da psicologia, como experimentos na psicofísica e na fisiologia. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, trata-se de uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos relacionados à psicofísica e à psicologia na Universidade de Genebra com seus alunos, ou mesmo no salão de sua casa, com convidados, sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039; e, com a experiência com o que viu na cidade, decide trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da nova ciência. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por discordâncias, criou o próprio laboratório como um dissidente do mestre. Münsterberg fez todo tipo de indicação a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viaja para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, onde pega orientações prática e começa a desenhar o que seria o seu laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo compra os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois são adquirido pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra, mas o que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publica [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio, que precisava ser transformado e adaptado visando o seu desenvolvimento. Defende então que a educação precisa ser baseada no conhecimento sobre a criança que a psicologia poderia ajudar a proporcionar. A escola seria um laboratório de experiências, onde são testadas práticas pedagógicas fundamentadas na psicologia com eficácia comprovada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se alia a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento público e privado, o espaço é inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo. Assim, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria entender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. A questão pode ser compreendida, de forma geral, se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas necessidades, interesses e objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é grande, como acontece quando estamos com fome, por exemplo, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e até a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet também visitou o país, o que reforça o intercâmbio entre os dois lugares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que nesta visita o Brasil foi colocado como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Empresta hoje nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é o de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país. Além disso, Lourenço Filho também trabalhou para o desenvolvimento da psicologia no Brasil, escrevendo livros, dando cursos, publicando nos jornais e ocupando cargos importantes na administração pública, tanto federal como na época das então províncias, facilitando a conexão entre a psicologia e a educação e o desenvolvimento da própria psicologia brasileira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O IJJR também enviou pessoas de outras nacionalidades que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras do local. Além disso, Radecki também tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento da perseguição aos judeus. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
A Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède, que o expande e funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa com uma perspectiva de aliança entre educação e psicologia. Contudo, o grande nome de Genebra, que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de &#039;&#039;&#039;adaptação do sujeito ao meio&#039;&#039;&#039; e que a &#039;&#039;&#039;cognição é uma extensão do real&#039;&#039;&#039;. É nessa obra que ele amadurece a noção de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria até o final de sua vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento em que Piaget exerce imensa influência sobre a instituição, dando sua orientação e atuando diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo: &amp;quot;o tempo&amp;quot;, &amp;quot;a causalidade&amp;quot; ou &amp;quot;a contradição&amp;quot;, e convidava os maiores nomes do mundo para debatê-lo. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre os debates conduzidos naquele período, sintetizando avançadas discussçoes interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com extrnas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua epistemologia genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. Uma lista completa é praticamente impossível de elaborar, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser amigo pessoal de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1708</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
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		<updated>2026-07-04T20:11:42Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* Funcionalismo */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base científica do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada uma das diferentes escolas funcionalistas. No funcionalismo, as teorias evolutivas têm relevância central, e consideram mente como o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Como vimos na seção anterior, o funcionalismo como um movimento transatlântico se inicia nos EUA mas chega à Europa, onde se transforma e adquire características próprias, mas ambos compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No &#039;&#039;&#039;[[funcionalismo americano]]&#039;&#039;&#039;, o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos comportamentais&#039;&#039;&#039;. Os fenômenos mentais e comportamentais são vistos como operações destinadas à sobrevivência. A consciência não é uma coisa por si, mas um órgão seletivo que ajuda o organismo a se adaptar ao meio. Comportamentos, tal qual fenômenos mentais como a consciência, não são meros movimentos, eles são operações. A consciência, por exemplo, é concebida como uma operação que atua na seleção e autorregulação das táticas comportamentais visando à adaptação. Para entender essas operações, é preciso identificar o interesse subjacente a elas. Essa identificação dos interesses constitui a análise funcional dos processos psicológicos e comportamentais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, apesar de compartilhar vários aspectos do seu colega americano, apresenta importantes diferenças. Em primeiro lugar, existem &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039; do funcionalismo europeu. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, com foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;matriz psicanalítica&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (excluindo a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. O pensamento europeu, nesse sentido, compreende que, assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo análogo. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os europeus do continente também decidiram não seguir com a proposta dualista de [[Francis Galton|Galton]], conhecida como [[Debate natureza vs. cultura|natureza vs. cultura]]. É um debate que busca entender de onde vem a psicologia humana, ou seja, se nascemos com nossa psicologia ou se a adquirimos conforme envelhecemos. A proposição do funcionalismo europeu é o chamada &#039;&#039;&#039;[[interacionismo]]&#039;&#039;&#039;, que entende que, na verdade, trata-se da mistura dos dois. Por um lado, nascemos com uma certa capacidade de desenvolvimento e de aprendizagem, definida pela espécie, mas que só ocorre conforme interagimos com o meio. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, nestes três casos, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções passageiras em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Salpetrière&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação parecia fazer sentido, principalmente devido à concepção dominante à época da total separação entre mente e corpo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após o [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. [[Sigmund Freud|Freud]] estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot, entre muitos outros nomes importantes para o século XX. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]] e [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] trabalharam intensamente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que paralisou a psicologia experimental mas trouxe muitos ganhos numa psicologia filosófica, que influenciou os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e fora sabotado por isso. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da Escola Prática de Altos Estudos. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como Claude Bernard (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot não apenas assumiu o posto, ele também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões, muitas vezes indiretas, mas significativas, com o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. Os personagens centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de Jean-Martin Charcot e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, Alfred Binet, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;Pierre Janet&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceu na Alemanha, com as ideias de &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. A tradição de interesse em psicologia alemã foi coroada por lá florescer o marco simbólico da criação da psicologia não só na Alemanha, mas no mundo, foi a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879, o que gerou avanços e debates pelo país. A primeira linha de psicologia aplicada do país é criada no exército. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica, conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, como a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que favoreceu o surgimento de um corpo profissional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. OS &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também são numerosos e respeitados, também ganham relevância progressivamente. A psicologia tipicamente alemã, a da &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039;, havia imigrado para os EUA, onde teve uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã. &#039;&#039;&#039;Perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; ganham força junto de abordagens mais holísticas e, apesar de sua relevância, a psicologia alemã ainda busca um retorno à glória de seu passado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise&#039;&#039;&#039;, ironicamente com destaque para a linhagem [[Lacan|lacaniana]], que tem origem francesa. A distância entre Alemanha e o Brasil se devem às dificuldades do idioma e à distância cultural, que atrapalharam a circulação das ideias daquele país no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente alemã, e associou-se fortemente à fisiologia, na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra Vladimir Bechterev.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofunda os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado de Pavlov, mas com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares, como fizera seu par russo. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. Pode-se dizer que esta é, atualmente, a linhagem dominante neste campo específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um sujeito que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias a ser desenvolvida e aplicada em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecida internacionalmente como uma importante contribuição da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky praticamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve pouca circulação no Brasil, porém Pavlov é um nome quase unanimemente citado em todos os cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Praticamente não existem estudantes de psicologia que jamais ouviram falar de seu nome, e a maioria dos estudantes das licenciaturas também conhecem ao menos fragmentos de sua história. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas que ocorreram na cidade de Genebra. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre por que o país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente diferentes, o que demanda um estudo por região, e não olhando o país como um todo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar de &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt mas com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça entre a fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. Há poucas informações sobre a psicologia em outros cantões e cidades da Suíça. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, podem obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar e desenvolvimento social e econômico com benefícios mútuos. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado, agora cantões, tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma cidade na Suíça, um pequeno país na Europa Central. Por séculos, foi uma cidade-estado próxima dos Alpes Suíços, cercada por quase todos os lados pela poderosa França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Friburgo (bilíngue), Valais e Berna (bilíngue). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes foram convertidos pelo próprio reformador João Calvino em 1536, quando expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculado à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu sentimento de destino, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos fortes e importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram um humanismo social, onde a ação direta de seus cidadãos deveria ser direcionada para os pobres, doentes, desvalidos, entre outros. A cidade recebeu, em diferentes momentos, grupos minoritários perseguidos, doentes e vítimas de guerras, entre muitos migrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação da Cruz Vermelha, bem como do Direito Internacional Humanitário, que levou a diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, entre outras atitudes humanitárias internacionais que tiveram origem ou forte desenvolvimento na região. Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um dos chamados sábios da cidade, &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido um treinamento para aprender alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento do que viria a ser inserido como parte da psicologia, como experimentos na psicofísica e na fisiologia. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, trata-se de uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos relacionados à psicofísica e à psicologia na Universidade de Genebra com seus alunos, ou mesmo no salão de sua casa, com convidados, sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039; e, com a experiência com o que viu na cidade, decide trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da nova ciência. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por discordâncias, criou o próprio laboratório como um dissidente do mestre. Münsterberg fez todo tipo de indicação a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viaja para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, onde pega orientações prática e começa a desenhar o que seria o seu laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo compra os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois são adquirido pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra, mas o que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publica [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio, que precisava ser transformado e adaptado visando o seu desenvolvimento. Defende então que a educação precisa ser baseada no conhecimento sobre a criança que a psicologia poderia ajudar a proporcionar. A escola seria um laboratório de experiências, onde são testadas práticas pedagógicas fundamentadas na psicologia com eficácia comprovada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se alia a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento público e privado, o espaço é inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo. Assim, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria entender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. A questão pode ser compreendida, de forma geral, se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas necessidades, interesses e objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é grande, como acontece quando estamos com fome, por exemplo, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e até a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet também visitou o país, o que reforça o intercâmbio entre os dois lugares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que nesta visita o Brasil foi colocado como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Empresta hoje nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é o de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país. Além disso, Lourenço Filho também trabalhou para o desenvolvimento da psicologia no Brasil, escrevendo livros, dando cursos, publicando nos jornais e ocupando cargos importantes na administração pública, tanto federal como na época das então províncias, facilitando a conexão entre a psicologia e a educação e o desenvolvimento da própria psicologia brasileira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O IJJR também enviou pessoas de outras nacionalidades que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras do local. Além disso, Radecki também tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento da perseguição aos judeus. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
A Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède, que o expande e funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa com uma perspectiva de aliança entre educação e psicologia. Contudo, o grande nome de Genebra, que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de &#039;&#039;&#039;adaptação do sujeito ao meio&#039;&#039;&#039; e que a &#039;&#039;&#039;cognição é uma extensão do real&#039;&#039;&#039;. É nessa obra que ele amadurece a noção de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria até o final de sua vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento em que Piaget exerce imensa influência sobre a instituição, dando sua orientação e atuando diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo: &amp;quot;o tempo&amp;quot;, &amp;quot;a causalidade&amp;quot; ou &amp;quot;a contradição&amp;quot;, e convidava os maiores nomes do mundo para debatê-lo. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre os debates conduzidos naquele período, sintetizando avançadas discussçoes interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com extrnas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua epistemologia genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. Uma lista completa é praticamente impossível de elaborar, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser amigo pessoal de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1707</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1707"/>
		<updated>2026-07-04T18:10:16Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* Funcionalismo */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o objetivo de conferir um embasamento científico ao seu construto teórico, a base do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada escola funcionalista. As teorias evolutivas têm relevância central, visto que a mente é o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Como vimos na seção anterior, o funcionalismo como um movimento transatlântico se inicia nos EUA mas chega à Europa, onde se transforma e adquire características próprias, mas ambos compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No &#039;&#039;&#039;[[funcionalismo americano]]&#039;&#039;&#039;, o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos comportamentais&#039;&#039;&#039;. Os fenômenos mentais e comportamentais são vistos como operações destinadas à sobrevivência. A consciência não é uma coisa por si, mas um órgão seletivo que ajuda o organismo a se adaptar ao meio. Comportamentos, tal qual fenômenos mentais como a consciência, não são meros movimentos, eles são operações. A consciência, por exemplo, é concebida como uma operação que atua na seleção e autorregulação das táticas comportamentais visando à adaptação. Para entender essas operações, é preciso identificar o interesse subjacente a elas. Essa identificação dos interesses constitui a análise funcional dos processos psicológicos e comportamentais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, apesar de compartilhar vários aspectos do seu colega americano, apresenta importantes diferenças. Em primeiro lugar, existem &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039; do funcionalismo europeu. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, com foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;matriz psicanalítica&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (excluindo a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. O pensamento europeu, nesse sentido, compreende que, assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo análogo. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os europeus do continente também decidiram não seguir com a proposta dualista de [[Francis Galton|Galton]], conhecida como [[Debate natureza vs. cultura|natureza vs. cultura]]. É um debate que busca entender de onde vem a psicologia humana, ou seja, se nascemos com nossa psicologia ou se a adquirimos conforme envelhecemos. A proposição do funcionalismo europeu é o chamada &#039;&#039;&#039;[[interacionismo]]&#039;&#039;&#039;, que entende que, na verdade, trata-se da mistura dos dois. Por um lado, nascemos com uma certa capacidade de desenvolvimento e de aprendizagem, definida pela espécie, mas que só ocorre conforme interagimos com o meio. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, nestes três casos, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções passageiras em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Salpetrière&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação parecia fazer sentido, principalmente devido à concepção dominante à época da total separação entre mente e corpo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após o [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. [[Sigmund Freud|Freud]] estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot, entre muitos outros nomes importantes para o século XX. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]] e [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] trabalharam intensamente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que paralisou a psicologia experimental mas trouxe muitos ganhos numa psicologia filosófica, que influenciou os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e fora sabotado por isso. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da Escola Prática de Altos Estudos. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como Claude Bernard (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot não apenas assumiu o posto, ele também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões, muitas vezes indiretas, mas significativas, com o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. Os personagens centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de Jean-Martin Charcot e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, Alfred Binet, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;Pierre Janet&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceu na Alemanha, com as ideias de &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. A tradição de interesse em psicologia alemã foi coroada por lá florescer o marco simbólico da criação da psicologia não só na Alemanha, mas no mundo, foi a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879, o que gerou avanços e debates pelo país. A primeira linha de psicologia aplicada do país é criada no exército. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica, conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, como a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que favoreceu o surgimento de um corpo profissional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. OS &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também são numerosos e respeitados, também ganham relevância progressivamente. A psicologia tipicamente alemã, a da &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039;, havia imigrado para os EUA, onde teve uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã. &#039;&#039;&#039;Perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; ganham força junto de abordagens mais holísticas e, apesar de sua relevância, a psicologia alemã ainda busca um retorno à glória de seu passado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise&#039;&#039;&#039;, ironicamente com destaque para a linhagem [[Lacan|lacaniana]], que tem origem francesa. A distância entre Alemanha e o Brasil se devem às dificuldades do idioma e à distância cultural, que atrapalharam a circulação das ideias daquele país no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente alemã, e associou-se fortemente à fisiologia, na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra Vladimir Bechterev.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofunda os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado de Pavlov, mas com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares, como fizera seu par russo. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. Pode-se dizer que esta é, atualmente, a linhagem dominante neste campo específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um sujeito que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias a ser desenvolvida e aplicada em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecida internacionalmente como uma importante contribuição da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky praticamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve pouca circulação no Brasil, porém Pavlov é um nome quase unanimemente citado em todos os cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Praticamente não existem estudantes de psicologia que jamais ouviram falar de seu nome, e a maioria dos estudantes das licenciaturas também conhecem ao menos fragmentos de sua história. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas que ocorreram na cidade de Genebra. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre por que o país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente diferentes, o que demanda um estudo por região, e não olhando o país como um todo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar de &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt mas com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça entre a fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. Há poucas informações sobre a psicologia em outros cantões e cidades da Suíça. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, podem obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar e desenvolvimento social e econômico com benefícios mútuos. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado, agora cantões, tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma cidade na Suíça, um pequeno país na Europa Central. Por séculos, foi uma cidade-estado próxima dos Alpes Suíços, cercada por quase todos os lados pela poderosa França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Friburgo (bilíngue), Valais e Berna (bilíngue). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes foram convertidos pelo próprio reformador João Calvino em 1536, quando expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculado à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu sentimento de destino, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos fortes e importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram um humanismo social, onde a ação direta de seus cidadãos deveria ser direcionada para os pobres, doentes, desvalidos, entre outros. A cidade recebeu, em diferentes momentos, grupos minoritários perseguidos, doentes e vítimas de guerras, entre muitos migrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação da Cruz Vermelha, bem como do Direito Internacional Humanitário, que levou a diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, entre outras atitudes humanitárias internacionais que tiveram origem ou forte desenvolvimento na região. Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um dos chamados sábios da cidade, &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido um treinamento para aprender alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento do que viria a ser inserido como parte da psicologia, como experimentos na psicofísica e na fisiologia. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, trata-se de uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos relacionados à psicofísica e à psicologia na Universidade de Genebra com seus alunos, ou mesmo no salão de sua casa, com convidados, sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039; e, com a experiência com o que viu na cidade, decide trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da nova ciência. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por discordâncias, criou o próprio laboratório como um dissidente do mestre. Münsterberg fez todo tipo de indicação a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viaja para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, onde pega orientações prática e começa a desenhar o que seria o seu laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo compra os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois são adquirido pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra, mas o que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publica [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio, que precisava ser transformado e adaptado visando o seu desenvolvimento. Defende então que a educação precisa ser baseada no conhecimento sobre a criança que a psicologia poderia ajudar a proporcionar. A escola seria um laboratório de experiências, onde são testadas práticas pedagógicas fundamentadas na psicologia com eficácia comprovada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se alia a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento público e privado, o espaço é inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo. Assim, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria entender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. A questão pode ser compreendida, de forma geral, se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas necessidades, interesses e objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é grande, como acontece quando estamos com fome, por exemplo, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e até a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet também visitou o país, o que reforça o intercâmbio entre os dois lugares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que nesta visita o Brasil foi colocado como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Empresta hoje nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é o de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país. Além disso, Lourenço Filho também trabalhou para o desenvolvimento da psicologia no Brasil, escrevendo livros, dando cursos, publicando nos jornais e ocupando cargos importantes na administração pública, tanto federal como na época das então províncias, facilitando a conexão entre a psicologia e a educação e o desenvolvimento da própria psicologia brasileira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O IJJR também enviou pessoas de outras nacionalidades que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras do local. Além disso, Radecki também tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento da perseguição aos judeus. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
A Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède, que o expande e funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa com uma perspectiva de aliança entre educação e psicologia. Contudo, o grande nome de Genebra, que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de &#039;&#039;&#039;adaptação do sujeito ao meio&#039;&#039;&#039; e que a &#039;&#039;&#039;cognição é uma extensão do real&#039;&#039;&#039;. É nessa obra que ele amadurece a noção de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria até o final de sua vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento em que Piaget exerce imensa influência sobre a instituição, dando sua orientação e atuando diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo: &amp;quot;o tempo&amp;quot;, &amp;quot;a causalidade&amp;quot; ou &amp;quot;a contradição&amp;quot;, e convidava os maiores nomes do mundo para debatê-lo. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre os debates conduzidos naquele período, sintetizando avançadas discussçoes interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com extrnas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua epistemologia genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. Uma lista completa é praticamente impossível de elaborar, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser amigo pessoal de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1706</id>
		<title>História da loucura: da Grécia antiga à luta anti-manicomial</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1706"/>
		<updated>2026-07-04T17:59:29Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* Tratamentos Brutais e os Modos de Resistência */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto com finalidade didática, escrito por André Elias Morelli Ribeiro para o curso de Psicologia do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras. Seu uso é aberto, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Introdução ==&lt;br /&gt;
A história da loucura é, ao mesmo tempo, uma narrativa sobre o modo como diferentes sociedades compreenderam a mente humana e uma reflexão sobre os mecanismos de poder que moldaram práticas de exclusão, cuidado e resistência vinculados às diferentes formas que diferentes grupos humanos entenderam como loucura ou algo similar, conforme uma visão ampliada contemporânea. Este material inicia na Grécia antiga e chega até o movimento antimanicomial no Brasil e, ao longo deste trajeto, pode-se observar como a loucura foi interpretada ora como intervenção divina, ora como desvio moral, ora como doença fisiológica, ora como ameaça social. Cada época construiu suas próprias respostas àquilo que considerou loucura que variaram entre a integração comunitária, o confinamento, o tratamento brutal e a busca por tratamentos médicos ou espirituais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, a trajetória seguiu de perto os modelos europeus. Do Hospício de Pedro II às colônias agrícolas, passando pela gestão de Juliano Moreira, a psiquiatria nacional oscilou entre avanços humanitários e práticas de exclusão. O período Vargas e o Estado Novo intensificaram o encarceramento, transformando hospitais em verdadeiros campos de concentração administrativos. As décadas seguintes viram a adoção de terapias brutais, como eletrochoques e lobotomias, mas também o surgimento de movimentos de resistência, como o trabalho de Nise da Silveira, que introduziu a arte e o afeto como caminhos de cura, ou a emergência de questionamentos ao modelo psiquátrico manicomial. A partir dos anos 1960, a privatização da assistência psiquiátrica gerou a chamada “Indústria da Loucura”, marcada por internações lucrativas e violações sistemáticas de direitos humanos que marcaram profundamente a forma como se entende a loucura contemporaneamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em síntese, o percurso histórico apresentado aqui mostra que a loucura nunca foi apenas um fenômeno clínico mas, antes, um espelho das sociedades, revelando seus medos, suas crenças e suas formas de organizar o convívio humano. De sagrada a temida, de medicalizada a mercantilizada, apresenta-se e se discute como surgiram vozes e práticas que reivindicaram humanidade e liberdade para os considerados loucos.&lt;br /&gt;
== As Loucuras no Mundo Antigo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Grécia antiga ===&lt;br /&gt;
Na Grécia antiga, em certo momento a loucura era considerada uma intervenção dos deuses e, como os gregos era politeístas, a varidade de formas de loucura e os modos de intervenção também era bem grande. A loucura poderia ser vista, por exemplo, como uma punição. É o caso do herói Ajax, filho de Telamão. Após a morte de Aquiles, a armadura do herói foi dada a Odisseu, e a afronta levou Ajax a um estado de fúria e ressentimento. A deusa Atena, intervindo em favor de Odisseu para proteger os Aqueus da vingança de Ajax, lançou sobre ele uma cegueira mental. Tomado pela loucura, Ajax massacrou o gado de guerra que havia sido capturado, acreditando que estava matando os líderes aqueus, incluindo Odisseu e Agamenon. Ao recobrar a sanidade e perceber seu ato vergonhoso, cometeu suicídio devido à humilhação. Essa cena ilustra a loucura como uma intervenção divina direta na forma de loucura poderia ser vista como destrutiva e extremamente negativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em outros episódios da mitologia grega, a loucura surge como uma consequência direta de traumas e da perseguição implacável por vingança. Um exemplo é o de Orestes que, após assassinar sua mãe, Clitemnestra para vingar a morte de seu pai, Agamenon, passa a ser atormentado pelas Erínias. Essas divindades da vingança, também conhecidas como Fúrias, levaram o herói a um estado de delírio e desespero profundo, personificando a tortura psicológica e a perda da razão como uma forma de acerto de contas espiritual e moral pelo matricídio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura não era unicamente um flagelo ou uma punição. Os gregos  viam a mania, um termo que hoje engloba a loucura, em uma perspectiva dual. Na sua manifestação mais elevada, era considerada uma benção ou inspiração divina. Essa visão positiva estava profundamente ligada ao culto de Dionísio, o deus do vinho, do teatro e do êxtase. Nos rituais dionisíacos, as bacantes e outros seguidores buscavam o êxtase, que é, literalmente, &amp;quot;sair de si&amp;quot;, por meio da dança frenética, música e consumo de vinho, o que era percebido como um estado de comunhão direta e inspirada com a divindade. Longe de ser destrutiva, essa forma de loucura era vista como uma fonte de criatividade, revelação e poder, sendo um caminho para a verdade profética e como expressão artística ligada a Dionísio. Este conceito de mania inspirada também se estendia a outros domínios, como a profecia dos oráculos, que eram vinculados à adoração ao deus Apolo, e mesmo a poesia, onde a perda temporária da razão humana era interpretada como a mente sendo tomada por uma força divina que trazia algum tipo de inspiração superior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em certo momento, ainda na Grécia antiga, as ideias sobre a loucura - ou algo que pareça loucura aos olhos contemporâneos - foi modificada graças a Hipócrates, o pai da medicina. A visão de [[Hipócrates]] marcou uma transição crucial para o entendimento da loucura na Grécia Antiga, pois afastou a loucura das concepções divinas e sobrenaturais para uma explicação puramente fisiológica e natural. Ele desenvolveu a [[Teoria dos Quatro Humores]], que se tornou o pilar da medicina ocidental por séculos. Segundo essa teoria, o corpo humano era composto por quatro fluidos essenciais (ou humores), que são sangue, fleuma, bile amarela e bile negra. A saúde mental e física dependia do equilíbrio harmonioso desses humores. A loucura, ou qualquer doença mental, era, portanto, interpretada como o resultado de um desequilíbrio, como o excesso de bile negra causando a melancolia (depressão), ou o desarranjo da fleuma e da bile amarela, que poderiam levar a estados de mania e frenesi. Com isso, Hipócrates postulou que a loucura não era uma maldição dos deuses, mas sim uma doença com origem no corpo. Essa abordagem naturalista permitiu que a loucura passasse a ser tratada com métodos como dietas, exercícios e remédios, no lugar de rituais religiosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tradição bíblica ===&lt;br /&gt;
Na tradição bíblica, escrita em contextos e culturas não europeias, a loucura também é frequentemente retratada como uma forma de intervenção ou punição divina. Um dos episódios mais emblemáticos é a história do rei Nabucodonosor II, relatada no Livro de Daniel. De acordo com o texto, devido ao seu orgulho excessivo e sua recusa em reconhecer a soberania de Deus, o rei foi acometido por uma forma de loucura que o levou a viver como um animal, alimentando-se de ervas e deixando seus cabelos e unhas crescerem sem controle. Na psicologia moderna, esse estado em que um indivíduo acredita ter se transformado em um animal é conhecido como licantropia clínica, uma condição rara. A loucura, conforme emerge na descrição bíblica, emerge ligada à perda da razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, a tradição bíblica também apresenta um paradoxo. No Novo Testamento, cujos livros foram escritos no contexto do mundo greco-romano, o que é considerado &#039;loucura&#039; pelos homens revela-se a suprema sabedoria divina. Essa ideia é desenvolvida pelo apóstolo Paulo em sua Primeira Carta aos Coríntios. Na passagem, ele afirma: &#039;Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens&#039; (1 Coríntios 1:25). Paulo usa o termo &#039;&#039;moria&#039;&#039; (loucura, tolice) para contrastar a sabedoria humana que, na época do texto, era representada pela filosofia e retórica grega. A mensagem da cruz parecia ilógica e insensata aos olhos dos não cristãos, que debochavam do fato do messias ter sido capturado e morto pelos romanos. Assim, a loucura deixa de ser apenas uma punição para se tornar uma lente através da qual a verdadeira sabedoria, ou seja, a salvação, é revelada, invertendo a hierarquia de valores do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Pérsia ===&lt;br /&gt;
Na Pérsia, a visão da loucura e do comportamento irracional foi moldada por seu profundo dualismo religioso e, posteriormente, pelas tradições islâmicas que se seguiram à conquista árabe. O zoroastrismo, a antiga religião persa fundada por Zoroastro (Zaratustra), transformou o politeísmo em um dualismo cósmico centralizado no conflito eterno entre Ahura Mazda (Ormazd), o criador da vida, luz e verdade, e Angra Mainyu (Ahriman), a escuridão e a mentira. Neste cenário, o mundo material é o campo de batalha entre os dois. Ahriman buscava corromper tudo o que Ormazd havia criado. Embora o texto não defina a loucura diretamente, o comportamento irracional e a desrazão poderiam ser facilmente associados ao domínio de Ahriman e à mentira (&#039;&#039;druj&#039;&#039;), enquanto a sanidade e a pureza eram atributos de Ormazd. A batalha contra essa corrupção exigia que os adoradores de Ormazd permanecessem verdadeiros e evitassem poluir o fogo e a terra sagrada, indicando que a pureza mental e ritual era uma defesa contra as forças do mal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Islã ===&lt;br /&gt;
Na cultura islãmica, de forma geral e bastante resumida, o comportamento considerado irracional era frequentemente explicado pela crença nos &#039;&#039;djinn&#039;&#039;, espíritos errantes que habitavam o deserto e certos lugares considerados místicos e que podiam invadir a mente humana, causando o que a sociedade ocidental moderna chamaria de insanidade ou, talvez, distúrbio emocional. Nesses casos, o tratamento era o exorcismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na era clássica da medicina islãmica, ganhou força a tradição galênica, que atribuía as perturbações mentais a desequilíbrios nos quatro humores corporais (sangue, fleuma, bile amarela e bile negra). Médicos proeminentes rejeitaram a ideia de que a loucura fosse exclusivamente uma possessão demoníaca, tratando-a como uma patologia de base orgânica ligada ao cérebro. Avicena dedicou seções extensas a transtornos como a melancolia, o delírio e a mania. Ele descreveu detalhadamente como o excesso de bile negra afetava as faculdades cognitivas e imaginativas do cérebro, propondo tratamentos que incluíam dieta, banhos térmicos, massagens, sangrias reguladas e o uso de fitoterápicos, semelhante à tradição grega mais tardia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período medieval, o mundo islâmico desenvolveu os bimaristans (hospitais), que funcionavam como centros de tratamento médico gratuito, financiados por dotações religiosas (&#039;&#039;waqf&#039;&#039;). O objetivo era restaurar o equilíbrio do espírito e dos humores através de estímulos ambientais positivos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura também apareceu em narrativas culturais associadas aos povos, de forma a sugerir causas e curas mais mundanas. O famoso conto persa de As Mil e Uma Noites, cuja origem é indo-persa mas que foi sedimentada na cultura islãmica, relata a história do rei Shahriyar, que, convencido da inevitável traição feminina, cai em uma loucura paranóica que o leva a se casar com uma virgem todas as noites e, pela manhã, assassiná-la. Sua &amp;quot;cura&amp;quot; é alcançada através da engenhosidade e paciência humana por meio de uma dessas esposas, Scheherazade, que usa a arte de contar histórias para retardar sua execução por &amp;quot;mil e uma noites&amp;quot;, período em que sua paranoia é gradualmente desfeita. A história sugere que a narrativa e o tempo podem curar a loucura causada por trauma psicológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As Loucuras na Idade Média ==&lt;br /&gt;
A transição para a Idade Média é marcada pelo colapso do Império Romano do Ocidente (476 d.C.), que trouxe profundas transformações políticas e sociais. O fim do governo centralizado romano levou à fragmentação do poder e ao surgimento do sistema feudal, onde a administração das terras e a autoridade passaram para as mãos de senhores locais, muitos deles antigos oficiais romanos. Este período também é caracterizado por um notável declínio na vida urbana e nos grandes centros intelectuais. O colpaso das instituições romanas deu lugar à ascensão e consolidação da única instituição internacional grande e organizada que havia sobrado, a Igreja Católica, que se tornou a principal forma de organização política, social e cultural. Houve ainda uma perda gradual da tradição cultural greco-romana por diferentes razões e, consequentemente, um afastamento das explicações naturalistas de Hipócrates, com exceção do pequeno renascimento do século XII e retomadas pontuais da sabedoria grega. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a hegemonia da Igreja Católica, a loucura tendeu a ser novamente interpretada sob uma lente teológica, sendo vista como uma manifestação de forças sobrenaturais ou desvios morais. Nesse contexto, certas vezes a loucura era interpretada como a intervenção de Satanás ou como possessão demoníaca, exigindo rituais de exorcismo para a cura. Em outros momentos, era vista como uma prova espiritual enviada por Deus ou como um efeito direto do pecado na alma do indivíduo. Havia também explicações que a tratavam como uma fragilidade da vontade humana, como no caso do que chamaríamos hoje de compulsões, misturando elementos da antiga tradição grega com aspectos da teologia cristã. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Socialmente, a gestão da loucura na Idade Média também passou por diferentes fases e transformações, dependendo do local e da época. Havia casos em que os considerados loucos eram apenas torturados e trancafiados, métodos considerados eficazes para expulsão de espíritos malignos, por exemplo. Contudo, em muitos outros casos, os considerados loucos conviviam de forma mais ou menos harmoniosa com o resto da comunidade, a depender de suas capacidades e possibilidades, e certos “desvios” eram perdoados devido à sua condição peculiar, sem a necessidade imediata de uma exclusão radical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Nau dos Loucos ===&lt;br /&gt;
Um caso notável e emblemático da gestão da loucura nesse período é a [[Nau dos Loucos]] (&#039;&#039;Stultifera Navis&#039;&#039;), conforme trabalhado por [[Michel Foucault]]. Anteriormente ao modelo de exclusão-repressão que viria a se consolidar na Idade Clássica, a loucura viveu o que se pode chamar de seus &amp;quot;dias de glória&amp;quot; na transição para a Renascença. Nesse contexto, o louco poderia ser visto como um sábio, um místico, um tolo ou simplesmente um excêntrico que estava, de certa forma, integrado ao tecido social.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Nau dos Loucos, que circulavam no Vale do Rio Reno (partes da Alemanha, França Suíça e Países Baixos) simbolizava uma existência errante, onde o louco era confiado à água e ao navio para ser levado de uma cidade a outra, mantendo-o em um estado de exclusão simbólica, mas ainda assim em movimento e circulação. Para Foucault, essa experiência trágica da loucura permitia que o insano portasse uma forma de lucidez em sua insensatez, revelando verdades que a razão comum não ousava enunciar. O louco via através das ilusões mundanas, aproximando-se de uma verdade profética ou ética que seria progressivamente silenciada nos séculos seguintes pela ascensão do saber médico e da racionalidade científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Santa Dimpna e Geel ===&lt;br /&gt;
Outro acontecimento relevante da Idade Média para a compreensão da loucura é o episódio de [[Santa Dimpna]]. Nascida no século VII na Irlanda, ela era filha de um rei pagão e de uma mãe cristã devota, de quem herdou sua fé e pela qual decidiu fazer votos de castidade. Após a morte prematura da mãe, seu pai, mergulhado em um profundo luto, decidiu que Dimpna era a única mulher com beleza comparável à da falecida rainha e insistiu em se casar com a própria filha, o que seria considerado escandaloso também para aquela cultura. Horrorizada e e alvo de uma perseguição incestuosa, Dimpna fugiu da Irlanda acompanhada de seu confessor, o padre Gereberno, e de dois servos fiéis. O grupo cruzou o mar e estabeleceu-se em [[Geel]], um minúsculo vilarejo na atual Bélgica, onde Dimpna se dedicou ao cuidado dos pobres e doentes mentais. No entanto, o rei conseguiu encontrá-los e, após a recusa de Dimpna tanto em retornar para a Irlanda quanto se casar com o pai, ordenou a execução de Gereberno, enquanto ele mesmo decapitou a filha, tornando a menina de 15 anos de idade numa mártir cristã. Após sua morte, relatos de curas milagrosas de pessoas com distúrbios mentais e epilepsia começaram a ocorrer junto ao seu túmulo, o que a tornou a padroeira dos doentes mentais. Já o local converteu-se num espaço de peregrinação ligado à questão da saúde mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O legado de Santa Dimpna em Geel deu origem a um modelo para a psiquiatria moderna pois, devido à devoção e adoração à Santa Dimpna, a cidade transformou-se em um santuário onde os pacientes não eram trancafiados, mas acolhidos em lares de famílias locais como &amp;quot;hóspedes&amp;quot;. Esse sistema de cuidado comunitário e desinstitucionalização, que persiste há séculos, é considerado um dos precursores do tratamento humanizado e da reabilitação psicossocial na saúde mental contemporânea.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Idade Clássica: a nova era da loucura encarcerada ==&lt;br /&gt;
A partir do século XVII, um período em que o filósofo Michel Foucault denominou como &amp;quot;A Época Clássica&amp;quot;, a forma de entender e lidar com a loucura passa por uma nova mudança devido ao ingresso da razão como centro e alma do pensamento europeu, em substituição ao dogmatismo religioso e ao conhecimento da igreja. Esta mudança não é brusca, mas lenta e gradual, porém suas marcas serão duradouras e serão sentidas por quase toda a Europa. Para essa nova e nascente razão, a loucura seria seu oposto direto. Se o homem era definido pela sua capacidade racional e sua utilidade produtiva, o louco era, portanto, como um &amp;quot;não-homem&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a solução para a não-razão era a internação, que não buscava a cura, mas a neutralização do irracional. O silenciamento da loucura era necessário para que a ordem social pudesse florescer. Os campos e cidades deveriam ser espaços de circulação de mercadorias pelas mãos de cidadãos produtivos, e qualquer elemento que atrapalhasse essa dinâmica deveria ser guardado em instituições que funcionavam como uma guarda contra o risco social que tais pessoas ofereciam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Relatos da época descrevem cenários terríveis sobre as condições de internação dos loucos. Os internos eram frequentemente mantidos em celas úmidas e insalubres, muitas vezes acorrentados às paredes. O uso de chicotes e outras punições corporais era justificado pela crença de que o louco, por ter perdido a razão, teria a resistência física de um animal, não sentindo frio ou dor da mesma forma que uma pessoa &amp;quot;normal&amp;quot;. Além disso, as instituições funcionavam sob uma lógica de vigilância constante. Não se tratava de observar para entender a mente, mas para garantir que o corpo anormal permanecesse contido e, no máximo possível, docilizado. Foi dentro desse ambiente de absoluta degradação e mistura indiscriminada de diferentes &amp;quot;tipos&amp;quot; de desviantes que a consciência médica começou a germinar, ainda que de forma incipiente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== França ===&lt;br /&gt;
O ano de 1656 marca um divisor de águas simbólico para o modelo de confinamento asilar no mundo todo, com a criação do Hôpital Général (Hospital Geral) em Paris, por um edito real do rei Luís XIV. É importante entender que um hospital geral deste período não é como um hospital moderno, ou seja, uma instituição de saúde voltada para a compreensão da doença e a prática do tratamento e cura. Ele estava mais próximo de uma estrutura administrativa e, de certo modo, semi-judiciária. Isso ocorria porque o interesse não estava em “curar” ou “tratar” ninguém mas, antes disso, executar o interesse do Estado de &amp;quot;limpar&amp;quot; as ruas de Paris de tudo o que era considerado improdutivo ou escandaloso. Era um período de abundância material, grandes gastos estatais e de uma imensa riqueza do império colonial francês, e desvios nessa ordem eram vistos como perigosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes tais hospitais gerais eram confinados, todos juntos, grupos totalmente diferentes, tais como pobres, mendigos, desempregados, libertinos, prostitutas, alquimistas, opositores políticos e, claro, também os considerados loucos. Em suma, tratava-se de um depósito de indesejados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que começou em Paris se tornou um modelo para outros lugares sobre como fazer a gestão da miséria e da “desrazão”, num forte deslocamento do que se via na Idade Média, com muitas experiências de integração social. O louco, antes tendo algo de profético, místico ou talvez apenas uma excentricidade da vida medieval campesina, se torna uma questão político-administrativa. Essa mudança importante marca uma migração para a possibilidade de institucionalização daquilo que era considerado errante ou, de alguma forma, desagradável e, assim passível de ser alvo de uma forma de gestão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em Paris, as duas principais unidades do Hospital Geral se tornaram emblemáticas e simbólicas. A [[Salpêtrière]], que era destinada às mulheres, e o hospital [[Bicêtre]], destinado aos homens. Ambas as instituições não ofereciam qualquer forma de tratamento. Eram basicamente depósitos humanos, onde o louco poderia acabar acorrentado ao lado de criminosos, por exemplo. O critério de internação não era o diagnóstico clínico, mesmo porque simplesmente ele nem existia, mas a incapacidade de se ajustar às normas de trabalho e à moralidade da época.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Alemanha ===&lt;br /&gt;
Na Alemanha, com a ideia de que o ócio era inaceitável, as leis determinavam o trancafiamento de qualquer pessoas considerada louca, perigosa e incapacitada para o trabalho. Nesse contexto, surgiram as &#039;&#039;Zuchthäusern&#039;&#039;, que seriam as [[Casas de Correção (Zuchthäusern)|Casas de Correção]]. Cidades como Hamburgo e Bremen estabeleceram esses locais onde a loucura era tratada através do trabalho forçado. Eles acreditavam que o ócio era a raiz do mal e que o confinamento e o trabalho forçado eram úteis para reintegrar o indivíduo à lógica da produtividade. Para os loucos, acreditava-se que o trabalho mecânico, repetitivo e exaustivo tinha o poder de &amp;quot;disciplinar a mente animalizada&amp;quot;, submetendo a vontade rebelde ou caótica do insano à razão e à ordem. Não era um trabalho, contudo, inútil, pois esta mão de obra foi utilizada até mesmo na produção de uniformes militares. Os loucos considerados totalmente impossíveis de docilizar eram simplesmente trancafiados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Inglaterra ===&lt;br /&gt;
Na Inglaterra, o sistema das Workhouses (Casas de Trabalho) cumpria um papel semelhante ao modelo alemão. No entanto, Londres já possuía o [[Bethlem Royal Hospital (Bedlam)|Bethlem Royal Hospital]], conhecido popularmente como Bedlam. No século XVII e XVIII, Bedlam se tornou um espetáculo de horror, onde o público podia pagar para observar os internos como se fossem animais em um zoológico. A loucura agora um objeto de uma forma de exibição degradante e mantida atrás de grades e ferros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Portugal ===&lt;br /&gt;
Em Portugal a gestão dos &amp;quot;desviantes&amp;quot; recaiu fortemente sobre as Santas Casas da Misericórdia. O [[Hospital Real de Todos-os-Santos]], fundado em Lisboa em 1492 e inaugurado em 1501, se tornou o epicentro do tratamento (ou confinamento) dos loucos no país. Dentro deste hospital, existiam as chamadas &amp;quot;[[Casas de Doidos]]&amp;quot;, destinados àqueles que haviam “perdido a luz da razão”. Seguindo o padrão europeu, o hospital não separava rigidamente o louco por diagnóstico. Eles dividiam espaço com indigentes e enfermos de diversas naturezas, embora as &amp;quot;casas de doidos&amp;quot; fossem áreas de maior isolamento devido à agitação dos internos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XVIII português, a internação era, acima de tudo, uma solução para a mendicância e, por vezes, para o alcoolismo. O louco oriundo de uma família com posses era mantido nas próprias casas, muitas vezes escondido em sótãos ou anexos e até mesmo acorrentados. Já o &amp;quot;louco pobre&amp;quot;, que não poderiam ser cuidados por seus familiares, acabava nos hospitais reais ou mesmo nas cadeias, a depender de uma série de fatores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Nascimento da Psiquiatria ==&lt;br /&gt;
=== Pinel e a criação da psiquiatria nosográfica ===&lt;br /&gt;
É na virada do século XVIII para o XIX que nasce a psiquiatria como um campo autônomo do saber e da prática médica. Esta mudança fundamental é protagonizada por duas figuras centrais da medicina francesa: [[Philippe Pinel]] e seu discípulo, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]]. Juntos, eles transformaram o hospital de depósito de insanos e indesejáveis em um verdadeiro hospital, em que o louco e o alienado poderiam receber um tratamento racional e científico, em substituição às correntes, à disciplina e ao silenciamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A emergência da psiquiatria como campo autônomo teve como fundamento científico inicial a observação clínica sistemática dentro do asilo. Este era concebido como um laboratório, onde o alienista poderia estudar a loucura em seu estado puro, separada das influências do mundo exterior. A principal questão científica e prática que justificava essa nova ciência era desenvolvida e aplicada de forma sistemática, e denominava-se nosografia ou diagnóstico. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pinel, em seu [[Index.php?title=Traité médique-philosophique sur l&#039;aliénation mentale, ou la manie|Traité médique-philosophique sur l&#039;aliénation mentale, ou la manie]], de 1801, classificou a loucura com base em critérios sintomatológicos, seguindo um procedimento comparativo semelhante ao das ciências naturais. O desafio central, que persistiria ao longo do século XIX, era a ambiguidade constante entre a busca por uma sede orgânica, ou seja, um “local físico-biológico” da loucura, junto da necessidade de uma regulação de caráter moral. O tratamento apoiava-se na moralidade para combater as causas que eram, elas próprias, consideradas morais, mas algo estava também no corpo do doente. Isso mostra que a nova psiquiatria de Pinel era a mistura de medicina com moralidade. Este enfoque resultou na valorização do exame clínico pelos psiquiatras francófonos, permitindo a união da observação clínica com a formulação de hipóteses.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1793, em meio ao fervor da Revolução Francesa, Philippe Pinel foi nomeado médico-chefe do Hospital de Bicêtre e, posteriormente, da Salpêtrière. O cenário que encontrou era o ápice do &amp;quot;Grande Enclausuramento&amp;quot;, ou seja, homens e mulheres amontoados nas condições já descritas, com destaque para as correntes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A intervenção de Pinel, simbolizada pelo gesto de “libertar os loucos de suas correntes”, não foi apenas um ato humanitário, mas também uma decisão de natureza epistemológica. Pinel acreditava que a loucura não era uma possessão demoníaca nem uma degeneração animal irreversível, mas uma alienação mental ou, em outras palavras, uma perturbação das faculdades intelectuais e afetivas que mantinha o indivíduo como se fosse &amp;quot;estrangeiro&amp;quot;, ou alienado, de si mesmo e da sociedade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O centro da reforma psiquiátrica proposta por Pinel era o tratamento moral, e se baseava em três pilares fundamentais. O primeiro, o isolamento terapêutico. Era necessário que o paciente ficasse separado de seu ambiente que, segundo o médico, era a fonte de sua excitação e desequilíbrio. O segundo pilar era a autoridade médica, onde este deveria atuar como um pai ao mesmo tempo severo e justo, usando a persuasão, a benevolência e, se fosse necessário, a firmeza para restaurar a razão do paciente. Por fim, a disciplina e o trabalho, com a aplicação rigorosa de horários e valorização de atividades produtivas, o que ocuparia a mente alienada e, assim, combateria a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em seus estudos, Pinel identificou quatro tipos de loucura, quais sejam, a [[melancolia]], a [[mania]], a [[demência]] e a [[idiotia]], cada uma com suas questões próprias específicas e metodologias de tratamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Esquirol e a consolidação do modelo ===&lt;br /&gt;
Se Pinel era considerado o visionário e o libertador, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]] foi o grande organizador e o clínico meticuloso. Discípulo de Pinel, Esquirol sucedeu seu mestre na Salpêtrière e deu à psiquiatria a robustez científica e administrativa de que ela necessitava. Esquirol compreendeu que a eficácia do tratamento moral dependia da arquitetura hospitalar. Para ele, o hospital não era apenas um prédio onde ocorria o tratamento, mas também um instrumento de cura. Ele desenvolveu o modelo de pavilhões, permitindo a separação dos pacientes por tipo de patologia, o que reforçou a própria ideia de diagnóstico e de avaliação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Esquirol refinou as definições clínicas de Pinel. Foi ele quem estabeleceu a distinção clássica entre alucinação (uma percepção sem objeto) e ilusão (uma percepção deformada de um objeto real), entre outros pontos que, na sua época, foram considerados avanços exemplares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Legalização da Alienação ===&lt;br /&gt;
O esforço médico, político e administrativo de Esquirol na continuação do trabalho de Pinel culminou na promulgação da lei francesa de 30 de Junho de 1838, a primeira grande legislação psiquiátrica do mundo moderno. Esta lei estabeleceu a obrigatoriedade de cada departamento francês possuir um asilo e regulamentou as condições de internação e interdição. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A princípio, embora também protegesse o alienado do arbítrio e de outras violências que poderiam ser cometidos contra os loucos nas províncias e mesmo nas periferias de Paris, a lei também deu total poder ao médico psiquiatra. Era ele quem poderia decidir quem deveria ou não ser privado de sua liberdade. Com isso, a psiquiatria tornava-se, assim, um braço do Estado na gestão da ordem social mas, ao contrário do polícia e do inquérito polícial, que exigia provas independentes e a atuação do sistema judiciário, o psiquiatra estava coberto sob o manto da ciência médica, o que dava a ele poderes gigantescos de decidir entre a alienação e a razão. Isso marcou profundamente a forma como a loucura e a saúde mental passaram a ser compreendidas e tratadas nas décadas seguintes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Desenvolvimento da Psiquiatria Contemporânea ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Emil Kraepelin e uma Nova Racionalização ===&lt;br /&gt;
Apesar da forte valorização da psiquiatria francesa na constituição da psiquiatria contemporânea, uma das principais contribuições para o ramo em sua forma atual foi empreendida por um alemão, [[Emil Kraepelin]]. No final do século XIX, a psiquiatria alemã estava dividida entre os &amp;quot;psiquistas&amp;quot;, que viam a loucura como uma doença da alma ou um mal moral, a exemplo dos franceses; e os &amp;quot;somatistas&amp;quot;, que buscavam no cérebro a origem dos sintomas das doenças mentais. Kraepelin superou esse impasse ao focar não na anatomia, mas na evolução temporal das doenças. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin passou a entender que sintomas isolados, como ouvir vozes ou a crença de um paciente em ser alguma personalidade histórica, não eram suficientes para definir uma doença. Ele propôs olhar também para seu desenvolvimento ao longo do tempo. Com essa premissa em mãos, Kraepelin introduziu as &amp;quot;cartas diagnósticas&amp;quot; (&#039;&#039;Zählkarten&#039;&#039;), um sistema de fichamento padronizado onde se registrava a história de vida do paciente, seus antecedentes familiares, os sintomas detalhados e, por fim, o desfecho da doença. Isso transformou a clínica psiquiátrica, pois articulava neuroanatomia e psicologia experimental, já que ele fora aluno de [[Wilhelm Wundt|Wundt]]. A loucura não seria apenas uma manifestação, mas teria uma história relevante para a compreensão de sua origem e desenvolvimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin também é considerado o pioneiro da [[Psiquiatria Transcultural]]. Visando provar que as categorias diagnósticas psiquiátricas seriam universais, ele viajou para lugares como a ilha de Java (Indonésia) em 1904 para estudar a manifestação da loucura em populações não europeias. Ele concluiu que, ainda que os conteúdos dos delírios mudassem conforme a cultura, a estrutura fundamental da loucura permanecia a mesma, o que reforçou sua tese de que eram doenças biológicas da espécie humana. Apesar de suas várias contribuições, no final de sua vida ele se transformou um higienista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tratamentos brutais ===&lt;br /&gt;
O período entreguerras foi marcado pelo desespero dos psiquiatras em encontrar tratamentos ativos e curativos para esvaziar os superlotados manicômios herdados do século XIX. Foi também um período de grande entusiasmo com a ciência, que passou a ser vista como o empreendimento que salvaria a humanidade de seus tormentos. Para a loucura, isso trouxe a a era das terapêuticas heróicas e invasivas, que transformaram a prática asilar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi nesse período que alguns dos tratamentos mais violentos foram desenvolvidos (eles serão tratados com detalhes mais adiante). Um primeiro exemplo é o da Malarioterapia, criada em 1917 por Julius Wagner-Jauregg e que consistia em infectar pacientes de neurossífilis com malária, ideia que rendeu-lhe a ele o único Nobel da psiquiatria clássica. Outro tratamento conhecido, criado em 1933, é o Coma Insulínico, onde se induzia comas por hipoglicemia em esquizofrênicos, na expectativa que, quando retornassem deste estado, estariam &amp;quot;melhores&amp;quot;. Entre 1934 e 1938, Ladislas von Meduna e, posteriormente, Ugo Cerletti introduziram as convulsões artificiais (químicas e elétricas) como tratamento, que consistiam em induzir choques químicos ou elétricos no paciente. O médico português Egas Moniz, por sua vez, ganhou o Nobel de Medicina de 1949 ao criar a Lobotomia Pré-Frontal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A loucura no nazismo ===&lt;br /&gt;
Durante a Segunda Guerra Mundial, o determinismo biológico e as teorias de degeneração racial foram levadas ao extremo e resultaram na Ação T4 (&#039;&#039;Aktion T4&#039;&#039;). Este foi um programa nazista de, simplesmente, eutanásia sistemática, que assassinou mais de 200 mil doentes mentais e pessoas com deficiência na Alemanha e territórios ocupados. A cumplicidade da psiquiatria institucional com essa matança, bem como com o Holocausto, gerou uma crise ética profunda no pós-guerra, exigindo uma refundação humanista e internacional da disciplina, um dos grandes motores políticos subjacentes para a convocação do Congresso de 1950 em Paris.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O I Congresso Internacional de Psiquiatria ===&lt;br /&gt;
Realizado em Paris em agosto de 1950, o [[I Congresso Internacional de Psiquiatria]] foi projetado especificamente para unificar, debater e institucionalizar a psiquiatria como uma disciplina médica global e autônoma. Durante o Congresso foram colocados, frente a frente, as grandes correntes que disputavam a hegemonia do entendimento da mente humana na época, a saber, as correntes psicodinâmica e a biológica. De forma menor, uma corrente social e anti-manicomial também se fez presente. O resultado do embate foi uma conciliação entre as duas maiores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um dos principais resultados do Congresso de 1950 foi a pressão para que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Associação Psiquiátrica Americana (APA) criassem manuais estatísticos e classificatórios unificados, o que resultou na inserção de uma seção robusta de transtornos mentais na CID-6 (Classificação Internacional de Doenças) e na publicação do primeiro [[DSM]], em 1952. A classificação da APA baseou-se fortemente no [[Medical 203]], um manual militar de 1945 desenvolvido pelas Forças Armadas dos EUA para lidar com as neuroses de guerra e traumas de combatentes. O DSM-I herdou dessa origem uma forte influência da psicanálise e da psicodinâmica de [[Adolf Meyer]] com a ideia de que os transtornos eram respostas a fatores ambientais e biológicos, e não entidades fixas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psiquiatria francesa rejeitou de imediato o domínio anglo-americano na classificação e interpretação das doenças mentais criando, anos depois, a [[Classification Française des Troubles Mentaux]]. Os psiquiatras alemães e da Europa Central também rejeitaram o DSM e continuaram se guiando pelos manuais de Emil Kraepelin e pelas revisões de Kurt Schneider, também muito usadas na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro resultado importante deste Congresso foi a fundação da Associação Mundial de Psiquiatria ([[World Psychiatric Association (WPA)|World Psychiatric Association - WPA]]). Com isso, a psiquiatria deixou de ser um conjunto de escolas nacionais isoladas, como as escolas francesa, alemã, anglo-saxã, entre outras, para se tornar uma corporação científica internacional, com congressos periódicos, periódicos indexados e diretrizes globais, apesar das muitas disputas e diferenças regionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As terapias mais violentas, como a insulinoterapia e o eletrochoque, foram aclamadas durante esse Congresso, e seus criadores foram celebrados. Ao mesmo tempo, pesquisadores de terapêuticas baseadas em medicamentos também estiveram presentes e começaram a ganhr cada vez mais destaque com o passar do tempo. O congresso de 1950 representou o apogeu e, ao mesmo tempo, o canto do cisne da hegemonia absoluta das terapias de choque puras, e a continuidade de seu uso nos anos seguintes sugerem fortemente menos interesse científico e mais interesse punitivo e de controle dos doentes mentais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Loucura no Brasil ==&lt;br /&gt;
Até o início do século XIX, o Brasil colonial lidava com seus insanos de forma semelhante ao que ocorria na Europa. As famílias ricas mantinham seus parentes loucos em &amp;quot;quartos fortes&amp;quot;, privando-os mais ou menos da vida comunitária e familiar, a depender das circunstâncias, de forma semelhante ao que acontecia em Portugal. Já os pobres eram entregues à caridade das [[Santas Casas de Misericórdia]] ou vagavam pelas ruas, sendo ocasionalmente recolhidos a cadeias públicas quando perturbavam a ordem, indo e vindo das frágeis instituições brasileiras, sofrendo abusos e violências de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A transferência da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 gerou a necessidade de transformar a capital colonial em uma moderna metrópole europeia. Sob a influência do Iluminismo tardio e das notícias que chegavam sobre as reformas de Pinel na França, a elite médica brasileira, que havia estudado sobretudo na França e em Portugal, começou a pressionar o poder público pela criação de espaços específicos para o tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1830, a criação da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (que viria a ser a [[Academia Nacional de Medicina]]) foi o marco institucional dessa pressão. Esse movimento político funcionou. O momento decisivo ocorreu em 18 de julho de 1841, quando o Imperador D. Pedro II, em comemoração à sua coroação, assinou o decreto de fundação do primeiro hospital psiquiátrico do Brasil e da América Latina. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Hospício de Pedro II, ou o Palácio dos Loucos (1852–1889) ===&lt;br /&gt;
Inaugurado apenas em 8 de dezembro de 1852, o [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)|Hospício de Pedro II]] era gerido pela Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, que por anos geriu grande parte da loucura brasileira. Seu provedor era o médico [[José Clemente Pereira]], que era responsável por todos os aspectos da instituição, desde os médicos até os administrativos. Embora a gestão administrativa fosse religiosa, o saber médico tinha muito espaço, com nomes como [[Manoel Feliciano Pereira de Carvalho]], que tentaram implementar o &amp;quot;tratamento moral&amp;quot; inspirado em Esquirol. Apesar dos esforços, muitos relatos de abusos e de condições precárias mostravam a dificuldade em implementar um modelo brasileiro de tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a Proclamação da República em 1889, o Hospício de Pedro II foi desvinculado da Santa Casa e renomeado como [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)]]. Este foi um período de maior laicização e pela busca por um maior rigor científico, o que não aconteceu por completo, em grande parte devido à falta de profissionais adequadamente treinados, apesar de o Brasil já possuir, à época, uma cátedra de psiquiatria, fundada em 1883 e ocupada por [[Teixeira Brandão|João Carlos Teixeira Brandão]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diante dos altíssimos custos em manter o Hospital, surgem as colônias agrícolas como alternativa ao confinamento urbano. Em 1884 foi inaugurada a [[Colônia de São Bento]] e, em 1890, a [[Colônia de Conde de Mesquita]], na Ilha do Governador. A ideia era que o trabalho na terra poderia colaborar na cura, além de os produtos deste trabalho poderiam ser consumidos no local, ajudando na manutenção dos espaços. Apesar dessas transformações e de evidentes melhorias, os relatos de época mostram que não acontecia nenhuma das duas coisas, nem produção agrícola suficiente para manter as coloônias minimamente autônomas, nem um processo terapêutico efetivo oriundo do trabalho organizado. De qualquer forma, entendia-se que a colônia agrícola era melhor do que o confinamento do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Era Juliano Moreira ===&lt;br /&gt;
Em 1903, o médico baiano [[Juliano Moreira]] assume a direção do Hospital Nacional de Alienados. Negro, de origem humilde e dotado de uma erudição impressionante, ele revolucionou a assistência brasileira aos alienados, sendo reconhecido internacionalmente como um dos grandes psiquiatras de seu tempo. Ele se tornaria o principal médico alienista do Brasil, tornando-se referência para todo o país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Moreira aboliu definitivamente o uso de camisas de força e as grades nas janelas, num gesto que se assemelhava àquele de Pinel, enfatizando que o hospital era um local de tratamento e cura, e não uma prisão ou um depósito de indesejados. Além disso, ele trouxe para o Brasil a nosologia de Emil Kraepelin, um psiquiatra alemão considerado o pai da psiquiatria moderna, da psicofarmacologia e da genética psiquiátrica, o que seria uma modernização do modelo francês adotado até então no país. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a gestão Moreira ocorreram várias mudanças. Foi criado o [[Pavilhão Bourneville]] para crianças com deficiência intelectual. Além disso, fundou-se em 1921 o [[Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro]], o primeiro do país, sob a liderança de [[Heitor Carrilho]]. Dentro dos hospitais incentivou-se a pesquisa laboratorial e anátomo-patológica, o que abriu espaço para a criação de laboratórios de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A influência e o prestígio de Juliano Moreira se espalhou pelo Brasil. Em São Paulo, destacou-se a figura de [[Franco da Rocha|Francisco Franco da Rocha]], que fundou em 1898 o [[Hospital do Juquery]]. O Juquery, como ficou conhecido, tornou-se uma &amp;quot;cidade-asilo&amp;quot;, chegando a abrigar dezenas de milhares de pacientes em um modelo que mesclava pavilhôes médicos com imensas colônias agrícolas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste período, a psiquiatria brasileira flertou intensamente com as teorias da degenerescência (de Morel e Magnan) e com a eugenia. Médicos como [[Renato Kehl]], bem como a criação da [[Liga Brasileira de Higiene Mental]] (1923), uma organização higienista fundada por [[Gustavo Riedel]], começaram a ver a loucura não apenas como um problema individual, mas como um risco biológico à &amp;quot;raça brasileira&amp;quot;. A higiene mental passou a atuar preventivamente em escolas e fábricas, buscando identificar &amp;quot;pré-delinquentes&amp;quot; e &amp;quot;personalidades anormais&amp;quot;. Apesar de não ter conseguido desenvolver muitas políticas efetivas, os eugenistas brasileiros eram ativos e influentes em muitos círculos decisórios importantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A criação de hospitais não se limitou a São Paulo e Rio de Janeiro. Em  1903, o governo de Minas Gerais fundou o [[Hospital Psiquiátrico de Barbacena]], que mais tarde seria palco de uma das maiores tragédias humanitárias do país. Em Pernambuco, o [[Hospital Ulysses Pernambucano]] foi fundado pelo médico de mesmo nome, que começou a desenvolver uma psiquiatria mais voltada para o social e para a prevenção no final dos anos 1920. Hospitais na Bahia, Rio Grande do Sul, entre outros, também foram criados, seguindo o pioneirismo do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Era Vargas e além: o início do encarceramento ===&lt;br /&gt;
Com a Revolução de 1930, o projeto de nação de Vargas exigia um povo saudável e produtivo, devido à visão desenvolvimentista suportada pela Aliança Liberal, que o elegeu. A loucura deixou de ser apenas uma questão de ordem pública ou um aspecto da caridade para se tornar um problema de segurança nacional e de saúde pública. Em 1941, no âmbito do Estado Novo, foi criado o [[Serviço Nacional de Doenças Mentais (SNDM)]], substituindo o antigo modelo de assistência a alienados, que era fragmentado nas diferentes províncias. Dessa maneira, Vargas criou uma diretriz federal centralizada para a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a Liga Brasileira de Higiene Mental ganhou fôlego. O foco deslocou-se do hospital para a prevenção na sociedade. A psiquiatria não deveria se limitar aos hospitais, mas também atuar na escola, na fábrica e na família, buscando limpar a nação e extirpar o que chamavam de &amp;quot;elementos degenerados&amp;quot;. O médico Gustavo Riedel e seus sucessores defendiam que o Estado deveria intervir precocemente para evitar que o &amp;quot;anormal&amp;quot; se tornasse um fardo para a máquina pública.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi durante as décadas de 1930 e 1940 que o modelo de colônia agrícola, antes visto como terapêutico e de assistência à manutenção hospitalar, atingiu proporções industriais. O que se viu em Barbacena e em instituições como o Juquery em São Paulo, foi a transformação do hospital em, praticamente, um campo de concentração administrativo. A internação não dependia mais de um diagnóstico médico rigoroso, que na prática ainda era frágil e baseado em elementos pouco científicos. Bastava ser considerado &amp;quot;socialmente inconveniente&amp;quot; para correr-se o risco de ir parar numa instituições dessas. Assim, pobres, prostitutas, homossexuais, militantes políticos e mães solteiras eram enviados para essas instituições, onde a sobrevivência era a exceção. Estima-se que, no auge do descaso, o Hospital de Barbacena registrava um número alarmante de óbitos por frio, fome e doenças evitáveis, cujos corpos eram, por vezes, vendidos para faculdades de medicina. Situações similares aconteciam em outras instituições do tipo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tratamentos Brutais e os Modos de Resistência ===&lt;br /&gt;
Para além do horror asilar, o período entre 1930 e 1950 também foi marcado pela introdução de terapias biológicas drásticas, importadas da Europa, conhecidas como [[somatoterapias]]. Com uma psicofarmacologia ainda pouco eficaz, os médicos buscavam &amp;quot;chacoalhar&amp;quot; o organismo, produzindo nele como um choque que pudesse restaurar a razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma dessas técnicas era a [[insulinoterapia]]. Introduzida na Europa pelo médico austríaco Manfred Sakel (1900–1957) em Viena, no início dos anos 1930, representou uma das primeiras e mais invasivas formas de somatoterapia. Originalmente destinada ao tratamento da [[esquizofrenia]], a técnica consistia na administração de doses maciças de insulina no paciente, provocando um estado de hipoglicemia profunda que levava o paciente ao coma. Na volta desse estado, se esperava que o indivíduo “restaurasse” a razão por conta do choque orgânico violento que havia vivenciado. O procedimento era extremamente perigoso e estava associado a uma alta taxa de mortalidade e morbidade devido às convulsões e aos possíveis danos cerebrais. Apesar dos riscos, o método foi amplamente adotado no mundo todo, incluindo o Brasil, onde foi usado em grandes instituições de confinamento, como o Hospital Nacional de Alienados (HNA), no Hospital Juquery, entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que passou a ser muito utilizada foi a [[Eletroconvulsoterapia]], ou simplesmente o eletrochoque. Introduzido no Brasil logo após sua invenção na Itália (1938), consiste em colocar eletrodos carregados com correntes elétricas em lados opostos, na lateral da cabeça, de modo que uma forte corrente elétrica atravessasse o cérebro. A duração e a intensidade podiam variar, mas relatos de mais de trinta minutos de choques violentos não eram incomuns. Sua brutalidade era tamanha que exigia que sua vítima fosse fortemente amarrada. Tornou-se uma ferramenta onipresente nos hospitais, muitas vezes aplicada sem anestesia e como método de punição, desvirtuando sua finalidade clínica já questionável e usada, basicamente, como ferramenta de tortura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que ingressou no Brasil nesse período foi a [[lobotomia]], um procedimento cirúrgico que consistia em apenas retirar um pedaço do cérebro do paciente. Eles foram realizados em larga escala em hospitais como o Juquery e no Hospital Pedro II, buscando a docilização de pacientes crônicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em oposição à violência do isolamento oferecido por essas instituições, surge a figura de [[Nise da Silveira]]. Em 1946, após ter sido presa pelo regime de Vargas por suas inclinações políticas, Nise assumiu o Setor de Terapêutica Ocupacional do [[Centro Psiquiátrico Nacional]] (Engenho de Dentro), no Rio de Janeiro. Ela se recusou a usar eletrochoques e lobotomias, introduzindo a arte e o afeto como mediadores da cura. Ela fundou o [[Museu de Imagens do Inconsciente (MIS)|Museu de Imagens do Inconsciente]] em 1952, onde demonstrou, através das pinturas e esculturas de pacientes como [[Arthur Bispo do Rosario]], que o louco preservava uma riqueza simbólica e uma humanidade que a psiquiatria tradicional tentava apagar. Sua colaboração com [[Carl Jung]] colocou a experiência brasileira no mapa da psicologia analítica mundial, provando que o tratamento em liberdade e através da expressão criativa era viável.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Criação da Indústria da Loucura ===&lt;br /&gt;
No final da década de 1950 e início da de 1960, durante o governo de Juscelino Kubitschek e o breve período democrático posterior, o Brasil viu o surgimento de uma nova e ainda mais perversa dinâmica: a Indústria da Loucura. A assistência psiquiátrica, antes quase totalmente pública ou baseada no assistencialismo das Santas Casas, começou a ser privatizada. Com o crescimento dos institutos de previdência (IAPs), o Estado passou a pagar hospitais privados por dia de internação. Isso criou um incentivo perverso: quanto mais tempo o paciente ficasse internado e quanto menos recursos fossem gastos com ele, maior o lucro das clínicas privadas. Esse modelo, conhecido como &amp;quot;hospitalocêntrico&amp;quot;, inchou o sistema e preparou o terreno para a política de contenção social que seria radicalizada após o golpe de 1964. Foi um momento de multiplicação da brutalidade, da violência e da desumanização. Pouco importava se havia doença ou tratamento. O que importava era lucar com o dinheiro estatal por meio de um encarceramento fácil de impor e praticamente impossível de escapar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A coisa se aprofundou ainda mais com o golpe militar, que unificou em 1966 os Institutos de Aposentadoria e Pensões no INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), produzindo uma centralização gigantesca de recursos, com um modelo de privatização quase total. A psiquiatria, por ser uma especialidade cuja formação exigia baixo investimento tecnológico quando comparada a outras como a cirurgia, cardiologia ou oncologia, permitia grandes lucros com as internações de longa permanência. Assim, trancafiar e atormentar os loucos tornou-se o setor mais atraente para o empresariado da saúde.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de pessoas possivelmente diagnosticadas, o sistema era alimentado pelo encarceramento de militantes políticos, estudantes rebeldes, pessoas em situação de rua,  mendigos, homossexuais, indivíduos com comportamentos &amp;quot;desviantes&amp;quot; da moral tradicional, dependentes químicos, alcoólatras ou mesmo pessoas “problemáticas” da família, que se recusavam, por exemplo, a participar de casamentos arranjados, que denunciavam violência sexual ou eram apenas mulheres que haviam engravidado antes do casamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As instituições privadas multiplicaram-se pelo interior do país, longe dos olhos da fiscalização e dos centros urbanos. Instaladas em locais de difícil acesso, facilitava o ocultamento de violações de direitos humanos e ainda utilizava da conivência dos governos locais. As populações dessas localidades, crentes no saber médico, dificilmente desconfiavam do que poderia acontecer dentro dessas instituições e, quando vazavam denúncias, elas rapidamente podiam ser facilmente manejadas em conluio com os poderes locais. A loucura tornou-se um negócio de massa, com o abrigo precário de centenas de pessoas em galpões, onde a única &amp;quot;terapia&amp;quot; era a contenção química por sedativos baratos ou o uso indiscriminado do eletrochoque para manter a ordem além, é claro, da violência e brutalidade de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Luta Antimanicomial ==&lt;br /&gt;
No final da década de 1970, o modelo de saúde mental começou a dar sinais de exaustão, tanto financeira quanto ética. O Estado já não conseguia arcar com os custos crescentes de um sistema que só expandia o número de crônicos, e as denúncias de maus-tratos começaram a furar o bloqueio da censura, aparecendo em jornais mais prestigiados e em espaços mais amplos do debate social. O estopim para a o início do movimento da reforma psiquiátrica no Brasil começa com uma crise na [[Divisão Nacional de Saúde Mental (DINSAM)]], que havia recebido denúncias de irregularidades no Centro Psiquiátrico Pedro II, no [[Hospital Pinel]], na [[Colônia Juliano Moreira]] e no [[Manicômio Judiciário Heitor Carrilho]]. A denúncia foi acompanhada de uma greve por parte dos funcionários, que exigiam melhorias institucionais e questionavam irregularidades trabalhistas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É dessa crise que surge o [[Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM)]] que, nesse primeiro momento, estão mais preocupados com questões trabalhistas do que com o problema da própria prática psiquiátrica, que vai caracterizar parte dos movimentos antimanicomiais posteriormente. O MTSM se fortalece e consegue espaço no extremamente conservador [[V Congresso Brasileiro de Psiquiatria]], que ocorre em 1978, no que fica conhecido como “congresso da abertura”, num período também de abertura política com o iminente fim do regime militar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda em 1978, um grupo importante de intelectuais vinculados às bases teóricas do [[Movimento Antimanicomial]] participa do [[I Congresso Brasileiro de Psicanálise de Grupos e Instituições]], incluindo [[Franco Basaglia]], [[Felix Guattari]], [[Robert Castel]] e [[Erwin Goffman]], todos eles de grande inspiração e influência para o movimento antimanicomial brasileiro. No ano seguinte, o [[I Congresso Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental]] fortalece a contextação não apenas de problemas trabalhistas, mas do próprio modelo asilar e da forma como a psiquiatria intervinha e oprimia a população marginalizada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação público-privada que alimentava o modelo até então começa a ruir em 1980, com a chamada política da co-gestão interministerial. Nela, um convênio celebrado entre o Ministério da Previdência e Assistência Social com o Ministério da Saúde liquida a &amp;quot;Unidade de Serviço&amp;quot;, a política que permitia a contratação privada de serviços psiquiátricos e que representou o triunfo do público sobre o privado. Membros do MTSM passam a integrar a gestão do atendimento em saúde mental que, por dentro do aparato estatal, começam a implementar uma política de saúde pública baseada em prestação de serviços, cooperação, descentralização e regionalização, propostas que já eram defendidas pelos reformadores. Apesar desses avanços, críticos afirmam que a política de co-gestão apenas visava reformar os serviços, não atingindo o âmago da questão, que seria desconstruir o próprio paradigma psiquiátrico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo de desinstitucionalização de fato começa em 1985, ano marcado pelo fim da Ditadura Militar e pela realização de vários eventos que aprofundam o debate sobre a situação do atendimento. A [[I Conferência Nacional de Saúde Mental]] marca o início da desinstitucionalização devido aos conflitos entre o MTSM, a ABP e grupos não-organicistas que passaram a dirigir o DINSAM. Na conferência, consagrou-se uma reviravolta na perspectiva com a consolidação do lema &amp;quot;por uma sociedade sem manicômios&amp;quot;, rompendo com a lógica tanto privatista quanto estatista e questionando o próprio modelo psiquiátrico tradicional. Este passou a ser amplamente entendido como fenômeno cultural que promove o tratamento moral e o controle dos corpos, uma visão abertamente basagliana e antimanicomial. Alguns entendem que, nesse momento, a tradição anti-institucional que originou os primeiros questionamentos na década de 1970 foi restaurada e fortalecida. Após a Conferência, o próprio MTSM se renovou, se desatrelando do Estado, retomando sua independência e seu papel de transformação social.  A mudança do movimento se consolidou no [[II Congresso Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental]], quando a noção de racionalização e modernização dos serviços que havia caracterizado o período da co-gestão foi recusado em nome de uma pauta anti-institucional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em meados dos anos 1980 começam a surgir novos modelos de atenção à saúde que poderia substituir o modelo psiquiátrico. Em São Paulo é criado o primeiro [[Centro de Atenção Psicossocial (CAPS)]], em 1987. Em Santos, surge o [[Núcleo de Atenção Psicossocial (NAPS)]], em 1989. Estes serviços passaram a ser vistos como os modelos para uma contestação profunda dos manicômios, justificando seu encerramento. Já na década de 1990, o SUS introduziu mecanismos de fiscalização e auditoria que começaram a sufocar financeiramente os asilos privados que não cumpriam níveis mínimos de dignidade. Portarias históricas do Ministério da Saúde, inspiradas na [[Declaração de Caracas (1990)]], passaram a proibir a criação de novos leitos psiquiátricos asilares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após mais de uma década de tramitação e intensos debates no Congresso Nacional, como fruto dos embates históricos iniciados na crise do DINSAM e que atravessaram debates públicos extremamente imporantes, foi promulgada a Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001, que ficou conhecida como [[Lei da Reforma Psiquiátrica]] ou Lei Paulo Delgado, seu autor. Esta legislação se tornou o marco jurídico definitivo da virada assistencial no Brasil. A lei instituiu o direito do paciente de ser tratado em ambiente terapêutico o menos restritivo possível e colocou a internação psiquiátrica como último recurso possível. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para preencher o vazio deixado pelo fechamento dos grandes hospitais, o SUS estruturou a [[Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)]], formalizada na década seguinte pela Portaria nº 3.088 de 2011. A RAPS organizou o cuidado em diferentes níveis de complexidade, com os CAPS divididos nas modalidades CAPS I, II, III, CAPSi  e CAPS AD e, por fim, os [[Serviços de Residência Terapêutica (SRT)]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, a luta continua devido a retrocessos observados na segunda metade da década de 2010 e início dos anos 2020. Mudanças nas diretrizes da Política Nacional de Saúde Mental tentaram reintroduzir a centralidade do hospital psiquiátrico e incentivaram o uso de práticas baseadas no isolamento. Além disso, o governo federal passou a financiar massivamente as chamadas [[Comunidades Terapêuticas]], instituições de caráter predominantemente privado e religioso voltadas ao acolhimento de usuários de drogas, de onde emanam graves denúncias de todos os tipos de violação dos direitos humanos e que representam um evidente retrocesso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje, o campo da saúde mental no Brasil vive um embate profundo entre duas visões. De um lado, aqueles que lutam pela consolidação da RAPS, em defesa da clínica da subjetividade, da defesa dos direitos humanos, pela redução de danos e pela inserção social pelo trabalho e pela cultura. Do outro lado observa-se a persistência do &#039;&#039;lobby&#039;&#039; asilar e de setores que buscam a mercantilização do cuidado, por meio do encarceramento, da medicalização extrema do sofrimento psíquico, da higienização dos centros urbanos e do recolhimento dos indesejáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
ARBEX, Daniela. &#039;&#039;&#039;Holocausto brasileiro&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Geração Editorial, 2013.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BASAGLIA, Franco. &#039;&#039;&#039;A instituição negada&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Graal, 1985.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BIRMAN, Joel. &#039;&#039;&#039;A physis da arte&#039;&#039;&#039;: Deleuze e a clínica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CAMPOS, Gastão Wagner de Sousa. &#039;&#039;&#039;Tratado de saúde coletiva&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Hucitec, 2006. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CASTEL, Robert. &#039;&#039;&#039;A ordem psiquiátrica&#039;&#039;&#039;: a idade de ouro do alienismo. Rio de Janeiro: Graal, 1978.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
COSTA, Jurandir Freire. &#039;&#039;&#039;Violência e psicanálise&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Graal, 1986.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
COSTA, Jurandir Freire. &#039;&#039;&#039;História da assistência psiquiátrica no Brasil&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Garamond, 2007. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
DALGALARRONDO, Paulo. &#039;&#039;&#039;Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais&#039;&#039;&#039;. Porto Alegre: Artmed, 2018. &lt;br /&gt;
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[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1705</id>
		<title>História da loucura: da Grécia antiga à luta anti-manicomial</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1705"/>
		<updated>2026-07-04T17:53:03Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* A Loucura no Brasil */ Várias modificações substanciais&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto com finalidade didática, escrito por André Elias Morelli Ribeiro para o curso de Psicologia do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras. Seu uso é aberto, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Introdução ==&lt;br /&gt;
A história da loucura é, ao mesmo tempo, uma narrativa sobre o modo como diferentes sociedades compreenderam a mente humana e uma reflexão sobre os mecanismos de poder que moldaram práticas de exclusão, cuidado e resistência vinculados às diferentes formas que diferentes grupos humanos entenderam como loucura ou algo similar, conforme uma visão ampliada contemporânea. Este material inicia na Grécia antiga e chega até o movimento antimanicomial no Brasil e, ao longo deste trajeto, pode-se observar como a loucura foi interpretada ora como intervenção divina, ora como desvio moral, ora como doença fisiológica, ora como ameaça social. Cada época construiu suas próprias respostas àquilo que considerou loucura que variaram entre a integração comunitária, o confinamento, o tratamento brutal e a busca por tratamentos médicos ou espirituais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, a trajetória seguiu de perto os modelos europeus. Do Hospício de Pedro II às colônias agrícolas, passando pela gestão de Juliano Moreira, a psiquiatria nacional oscilou entre avanços humanitários e práticas de exclusão. O período Vargas e o Estado Novo intensificaram o encarceramento, transformando hospitais em verdadeiros campos de concentração administrativos. As décadas seguintes viram a adoção de terapias brutais, como eletrochoques e lobotomias, mas também o surgimento de movimentos de resistência, como o trabalho de Nise da Silveira, que introduziu a arte e o afeto como caminhos de cura, ou a emergência de questionamentos ao modelo psiquátrico manicomial. A partir dos anos 1960, a privatização da assistência psiquiátrica gerou a chamada “Indústria da Loucura”, marcada por internações lucrativas e violações sistemáticas de direitos humanos que marcaram profundamente a forma como se entende a loucura contemporaneamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em síntese, o percurso histórico apresentado aqui mostra que a loucura nunca foi apenas um fenômeno clínico mas, antes, um espelho das sociedades, revelando seus medos, suas crenças e suas formas de organizar o convívio humano. De sagrada a temida, de medicalizada a mercantilizada, apresenta-se e se discute como surgiram vozes e práticas que reivindicaram humanidade e liberdade para os considerados loucos.&lt;br /&gt;
== As Loucuras no Mundo Antigo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Grécia antiga ===&lt;br /&gt;
Na Grécia antiga, em certo momento a loucura era considerada uma intervenção dos deuses e, como os gregos era politeístas, a varidade de formas de loucura e os modos de intervenção também era bem grande. A loucura poderia ser vista, por exemplo, como uma punição. É o caso do herói Ajax, filho de Telamão. Após a morte de Aquiles, a armadura do herói foi dada a Odisseu, e a afronta levou Ajax a um estado de fúria e ressentimento. A deusa Atena, intervindo em favor de Odisseu para proteger os Aqueus da vingança de Ajax, lançou sobre ele uma cegueira mental. Tomado pela loucura, Ajax massacrou o gado de guerra que havia sido capturado, acreditando que estava matando os líderes aqueus, incluindo Odisseu e Agamenon. Ao recobrar a sanidade e perceber seu ato vergonhoso, cometeu suicídio devido à humilhação. Essa cena ilustra a loucura como uma intervenção divina direta na forma de loucura poderia ser vista como destrutiva e extremamente negativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em outros episódios da mitologia grega, a loucura surge como uma consequência direta de traumas e da perseguição implacável por vingança. Um exemplo é o de Orestes que, após assassinar sua mãe, Clitemnestra para vingar a morte de seu pai, Agamenon, passa a ser atormentado pelas Erínias. Essas divindades da vingança, também conhecidas como Fúrias, levaram o herói a um estado de delírio e desespero profundo, personificando a tortura psicológica e a perda da razão como uma forma de acerto de contas espiritual e moral pelo matricídio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura não era unicamente um flagelo ou uma punição. Os gregos  viam a mania, um termo que hoje engloba a loucura, em uma perspectiva dual. Na sua manifestação mais elevada, era considerada uma benção ou inspiração divina. Essa visão positiva estava profundamente ligada ao culto de Dionísio, o deus do vinho, do teatro e do êxtase. Nos rituais dionisíacos, as bacantes e outros seguidores buscavam o êxtase, que é, literalmente, &amp;quot;sair de si&amp;quot;, por meio da dança frenética, música e consumo de vinho, o que era percebido como um estado de comunhão direta e inspirada com a divindade. Longe de ser destrutiva, essa forma de loucura era vista como uma fonte de criatividade, revelação e poder, sendo um caminho para a verdade profética e como expressão artística ligada a Dionísio. Este conceito de mania inspirada também se estendia a outros domínios, como a profecia dos oráculos, que eram vinculados à adoração ao deus Apolo, e mesmo a poesia, onde a perda temporária da razão humana era interpretada como a mente sendo tomada por uma força divina que trazia algum tipo de inspiração superior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em certo momento, ainda na Grécia antiga, as ideias sobre a loucura - ou algo que pareça loucura aos olhos contemporâneos - foi modificada graças a Hipócrates, o pai da medicina. A visão de [[Hipócrates]] marcou uma transição crucial para o entendimento da loucura na Grécia Antiga, pois afastou a loucura das concepções divinas e sobrenaturais para uma explicação puramente fisiológica e natural. Ele desenvolveu a [[Teoria dos Quatro Humores]], que se tornou o pilar da medicina ocidental por séculos. Segundo essa teoria, o corpo humano era composto por quatro fluidos essenciais (ou humores), que são sangue, fleuma, bile amarela e bile negra. A saúde mental e física dependia do equilíbrio harmonioso desses humores. A loucura, ou qualquer doença mental, era, portanto, interpretada como o resultado de um desequilíbrio, como o excesso de bile negra causando a melancolia (depressão), ou o desarranjo da fleuma e da bile amarela, que poderiam levar a estados de mania e frenesi. Com isso, Hipócrates postulou que a loucura não era uma maldição dos deuses, mas sim uma doença com origem no corpo. Essa abordagem naturalista permitiu que a loucura passasse a ser tratada com métodos como dietas, exercícios e remédios, no lugar de rituais religiosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tradição bíblica ===&lt;br /&gt;
Na tradição bíblica, escrita em contextos e culturas não europeias, a loucura também é frequentemente retratada como uma forma de intervenção ou punição divina. Um dos episódios mais emblemáticos é a história do rei Nabucodonosor II, relatada no Livro de Daniel. De acordo com o texto, devido ao seu orgulho excessivo e sua recusa em reconhecer a soberania de Deus, o rei foi acometido por uma forma de loucura que o levou a viver como um animal, alimentando-se de ervas e deixando seus cabelos e unhas crescerem sem controle. Na psicologia moderna, esse estado em que um indivíduo acredita ter se transformado em um animal é conhecido como licantropia clínica, uma condição rara. A loucura, conforme emerge na descrição bíblica, emerge ligada à perda da razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, a tradição bíblica também apresenta um paradoxo. No Novo Testamento, cujos livros foram escritos no contexto do mundo greco-romano, o que é considerado &#039;loucura&#039; pelos homens revela-se a suprema sabedoria divina. Essa ideia é desenvolvida pelo apóstolo Paulo em sua Primeira Carta aos Coríntios. Na passagem, ele afirma: &#039;Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens&#039; (1 Coríntios 1:25). Paulo usa o termo &#039;&#039;moria&#039;&#039; (loucura, tolice) para contrastar a sabedoria humana que, na época do texto, era representada pela filosofia e retórica grega. A mensagem da cruz parecia ilógica e insensata aos olhos dos não cristãos, que debochavam do fato do messias ter sido capturado e morto pelos romanos. Assim, a loucura deixa de ser apenas uma punição para se tornar uma lente através da qual a verdadeira sabedoria, ou seja, a salvação, é revelada, invertendo a hierarquia de valores do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Pérsia ===&lt;br /&gt;
Na Pérsia, a visão da loucura e do comportamento irracional foi moldada por seu profundo dualismo religioso e, posteriormente, pelas tradições islâmicas que se seguiram à conquista árabe. O zoroastrismo, a antiga religião persa fundada por Zoroastro (Zaratustra), transformou o politeísmo em um dualismo cósmico centralizado no conflito eterno entre Ahura Mazda (Ormazd), o criador da vida, luz e verdade, e Angra Mainyu (Ahriman), a escuridão e a mentira. Neste cenário, o mundo material é o campo de batalha entre os dois. Ahriman buscava corromper tudo o que Ormazd havia criado. Embora o texto não defina a loucura diretamente, o comportamento irracional e a desrazão poderiam ser facilmente associados ao domínio de Ahriman e à mentira (&#039;&#039;druj&#039;&#039;), enquanto a sanidade e a pureza eram atributos de Ormazd. A batalha contra essa corrupção exigia que os adoradores de Ormazd permanecessem verdadeiros e evitassem poluir o fogo e a terra sagrada, indicando que a pureza mental e ritual era uma defesa contra as forças do mal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Islã ===&lt;br /&gt;
Na cultura islãmica, de forma geral e bastante resumida, o comportamento considerado irracional era frequentemente explicado pela crença nos &#039;&#039;djinn&#039;&#039;, espíritos errantes que habitavam o deserto e certos lugares considerados místicos e que podiam invadir a mente humana, causando o que a sociedade ocidental moderna chamaria de insanidade ou, talvez, distúrbio emocional. Nesses casos, o tratamento era o exorcismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na era clássica da medicina islãmica, ganhou força a tradição galênica, que atribuía as perturbações mentais a desequilíbrios nos quatro humores corporais (sangue, fleuma, bile amarela e bile negra). Médicos proeminentes rejeitaram a ideia de que a loucura fosse exclusivamente uma possessão demoníaca, tratando-a como uma patologia de base orgânica ligada ao cérebro. Avicena dedicou seções extensas a transtornos como a melancolia, o delírio e a mania. Ele descreveu detalhadamente como o excesso de bile negra afetava as faculdades cognitivas e imaginativas do cérebro, propondo tratamentos que incluíam dieta, banhos térmicos, massagens, sangrias reguladas e o uso de fitoterápicos, semelhante à tradição grega mais tardia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período medieval, o mundo islâmico desenvolveu os bimaristans (hospitais), que funcionavam como centros de tratamento médico gratuito, financiados por dotações religiosas (&#039;&#039;waqf&#039;&#039;). O objetivo era restaurar o equilíbrio do espírito e dos humores através de estímulos ambientais positivos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura também apareceu em narrativas culturais associadas aos povos, de forma a sugerir causas e curas mais mundanas. O famoso conto persa de As Mil e Uma Noites, cuja origem é indo-persa mas que foi sedimentada na cultura islãmica, relata a história do rei Shahriyar, que, convencido da inevitável traição feminina, cai em uma loucura paranóica que o leva a se casar com uma virgem todas as noites e, pela manhã, assassiná-la. Sua &amp;quot;cura&amp;quot; é alcançada através da engenhosidade e paciência humana por meio de uma dessas esposas, Scheherazade, que usa a arte de contar histórias para retardar sua execução por &amp;quot;mil e uma noites&amp;quot;, período em que sua paranoia é gradualmente desfeita. A história sugere que a narrativa e o tempo podem curar a loucura causada por trauma psicológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As Loucuras na Idade Média ==&lt;br /&gt;
A transição para a Idade Média é marcada pelo colapso do Império Romano do Ocidente (476 d.C.), que trouxe profundas transformações políticas e sociais. O fim do governo centralizado romano levou à fragmentação do poder e ao surgimento do sistema feudal, onde a administração das terras e a autoridade passaram para as mãos de senhores locais, muitos deles antigos oficiais romanos. Este período também é caracterizado por um notável declínio na vida urbana e nos grandes centros intelectuais. O colpaso das instituições romanas deu lugar à ascensão e consolidação da única instituição internacional grande e organizada que havia sobrado, a Igreja Católica, que se tornou a principal forma de organização política, social e cultural. Houve ainda uma perda gradual da tradição cultural greco-romana por diferentes razões e, consequentemente, um afastamento das explicações naturalistas de Hipócrates, com exceção do pequeno renascimento do século XII e retomadas pontuais da sabedoria grega. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a hegemonia da Igreja Católica, a loucura tendeu a ser novamente interpretada sob uma lente teológica, sendo vista como uma manifestação de forças sobrenaturais ou desvios morais. Nesse contexto, certas vezes a loucura era interpretada como a intervenção de Satanás ou como possessão demoníaca, exigindo rituais de exorcismo para a cura. Em outros momentos, era vista como uma prova espiritual enviada por Deus ou como um efeito direto do pecado na alma do indivíduo. Havia também explicações que a tratavam como uma fragilidade da vontade humana, como no caso do que chamaríamos hoje de compulsões, misturando elementos da antiga tradição grega com aspectos da teologia cristã. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Socialmente, a gestão da loucura na Idade Média também passou por diferentes fases e transformações, dependendo do local e da época. Havia casos em que os considerados loucos eram apenas torturados e trancafiados, métodos considerados eficazes para expulsão de espíritos malignos, por exemplo. Contudo, em muitos outros casos, os considerados loucos conviviam de forma mais ou menos harmoniosa com o resto da comunidade, a depender de suas capacidades e possibilidades, e certos “desvios” eram perdoados devido à sua condição peculiar, sem a necessidade imediata de uma exclusão radical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Nau dos Loucos ===&lt;br /&gt;
Um caso notável e emblemático da gestão da loucura nesse período é a [[Nau dos Loucos]] (&#039;&#039;Stultifera Navis&#039;&#039;), conforme trabalhado por [[Michel Foucault]]. Anteriormente ao modelo de exclusão-repressão que viria a se consolidar na Idade Clássica, a loucura viveu o que se pode chamar de seus &amp;quot;dias de glória&amp;quot; na transição para a Renascença. Nesse contexto, o louco poderia ser visto como um sábio, um místico, um tolo ou simplesmente um excêntrico que estava, de certa forma, integrado ao tecido social.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Nau dos Loucos, que circulavam no Vale do Rio Reno (partes da Alemanha, França Suíça e Países Baixos) simbolizava uma existência errante, onde o louco era confiado à água e ao navio para ser levado de uma cidade a outra, mantendo-o em um estado de exclusão simbólica, mas ainda assim em movimento e circulação. Para Foucault, essa experiência trágica da loucura permitia que o insano portasse uma forma de lucidez em sua insensatez, revelando verdades que a razão comum não ousava enunciar. O louco via através das ilusões mundanas, aproximando-se de uma verdade profética ou ética que seria progressivamente silenciada nos séculos seguintes pela ascensão do saber médico e da racionalidade científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Santa Dimpna e Geel ===&lt;br /&gt;
Outro acontecimento relevante da Idade Média para a compreensão da loucura é o episódio de [[Santa Dimpna]]. Nascida no século VII na Irlanda, ela era filha de um rei pagão e de uma mãe cristã devota, de quem herdou sua fé e pela qual decidiu fazer votos de castidade. Após a morte prematura da mãe, seu pai, mergulhado em um profundo luto, decidiu que Dimpna era a única mulher com beleza comparável à da falecida rainha e insistiu em se casar com a própria filha, o que seria considerado escandaloso também para aquela cultura. Horrorizada e e alvo de uma perseguição incestuosa, Dimpna fugiu da Irlanda acompanhada de seu confessor, o padre Gereberno, e de dois servos fiéis. O grupo cruzou o mar e estabeleceu-se em [[Geel]], um minúsculo vilarejo na atual Bélgica, onde Dimpna se dedicou ao cuidado dos pobres e doentes mentais. No entanto, o rei conseguiu encontrá-los e, após a recusa de Dimpna tanto em retornar para a Irlanda quanto se casar com o pai, ordenou a execução de Gereberno, enquanto ele mesmo decapitou a filha, tornando a menina de 15 anos de idade numa mártir cristã. Após sua morte, relatos de curas milagrosas de pessoas com distúrbios mentais e epilepsia começaram a ocorrer junto ao seu túmulo, o que a tornou a padroeira dos doentes mentais. Já o local converteu-se num espaço de peregrinação ligado à questão da saúde mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O legado de Santa Dimpna em Geel deu origem a um modelo para a psiquiatria moderna pois, devido à devoção e adoração à Santa Dimpna, a cidade transformou-se em um santuário onde os pacientes não eram trancafiados, mas acolhidos em lares de famílias locais como &amp;quot;hóspedes&amp;quot;. Esse sistema de cuidado comunitário e desinstitucionalização, que persiste há séculos, é considerado um dos precursores do tratamento humanizado e da reabilitação psicossocial na saúde mental contemporânea.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Idade Clássica: a nova era da loucura encarcerada ==&lt;br /&gt;
A partir do século XVII, um período em que o filósofo Michel Foucault denominou como &amp;quot;A Época Clássica&amp;quot;, a forma de entender e lidar com a loucura passa por uma nova mudança devido ao ingresso da razão como centro e alma do pensamento europeu, em substituição ao dogmatismo religioso e ao conhecimento da igreja. Esta mudança não é brusca, mas lenta e gradual, porém suas marcas serão duradouras e serão sentidas por quase toda a Europa. Para essa nova e nascente razão, a loucura seria seu oposto direto. Se o homem era definido pela sua capacidade racional e sua utilidade produtiva, o louco era, portanto, como um &amp;quot;não-homem&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a solução para a não-razão era a internação, que não buscava a cura, mas a neutralização do irracional. O silenciamento da loucura era necessário para que a ordem social pudesse florescer. Os campos e cidades deveriam ser espaços de circulação de mercadorias pelas mãos de cidadãos produtivos, e qualquer elemento que atrapalhasse essa dinâmica deveria ser guardado em instituições que funcionavam como uma guarda contra o risco social que tais pessoas ofereciam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Relatos da época descrevem cenários terríveis sobre as condições de internação dos loucos. Os internos eram frequentemente mantidos em celas úmidas e insalubres, muitas vezes acorrentados às paredes. O uso de chicotes e outras punições corporais era justificado pela crença de que o louco, por ter perdido a razão, teria a resistência física de um animal, não sentindo frio ou dor da mesma forma que uma pessoa &amp;quot;normal&amp;quot;. Além disso, as instituições funcionavam sob uma lógica de vigilância constante. Não se tratava de observar para entender a mente, mas para garantir que o corpo anormal permanecesse contido e, no máximo possível, docilizado. Foi dentro desse ambiente de absoluta degradação e mistura indiscriminada de diferentes &amp;quot;tipos&amp;quot; de desviantes que a consciência médica começou a germinar, ainda que de forma incipiente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== França ===&lt;br /&gt;
O ano de 1656 marca um divisor de águas simbólico para o modelo de confinamento asilar no mundo todo, com a criação do Hôpital Général (Hospital Geral) em Paris, por um edito real do rei Luís XIV. É importante entender que um hospital geral deste período não é como um hospital moderno, ou seja, uma instituição de saúde voltada para a compreensão da doença e a prática do tratamento e cura. Ele estava mais próximo de uma estrutura administrativa e, de certo modo, semi-judiciária. Isso ocorria porque o interesse não estava em “curar” ou “tratar” ninguém mas, antes disso, executar o interesse do Estado de &amp;quot;limpar&amp;quot; as ruas de Paris de tudo o que era considerado improdutivo ou escandaloso. Era um período de abundância material, grandes gastos estatais e de uma imensa riqueza do império colonial francês, e desvios nessa ordem eram vistos como perigosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes tais hospitais gerais eram confinados, todos juntos, grupos totalmente diferentes, tais como pobres, mendigos, desempregados, libertinos, prostitutas, alquimistas, opositores políticos e, claro, também os considerados loucos. Em suma, tratava-se de um depósito de indesejados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que começou em Paris se tornou um modelo para outros lugares sobre como fazer a gestão da miséria e da “desrazão”, num forte deslocamento do que se via na Idade Média, com muitas experiências de integração social. O louco, antes tendo algo de profético, místico ou talvez apenas uma excentricidade da vida medieval campesina, se torna uma questão político-administrativa. Essa mudança importante marca uma migração para a possibilidade de institucionalização daquilo que era considerado errante ou, de alguma forma, desagradável e, assim passível de ser alvo de uma forma de gestão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em Paris, as duas principais unidades do Hospital Geral se tornaram emblemáticas e simbólicas. A [[Salpêtrière]], que era destinada às mulheres, e o hospital [[Bicêtre]], destinado aos homens. Ambas as instituições não ofereciam qualquer forma de tratamento. Eram basicamente depósitos humanos, onde o louco poderia acabar acorrentado ao lado de criminosos, por exemplo. O critério de internação não era o diagnóstico clínico, mesmo porque simplesmente ele nem existia, mas a incapacidade de se ajustar às normas de trabalho e à moralidade da época.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Alemanha ===&lt;br /&gt;
Na Alemanha, com a ideia de que o ócio era inaceitável, as leis determinavam o trancafiamento de qualquer pessoas considerada louca, perigosa e incapacitada para o trabalho. Nesse contexto, surgiram as &#039;&#039;Zuchthäusern&#039;&#039;, que seriam as [[Casas de Correção (Zuchthäusern)|Casas de Correção]]. Cidades como Hamburgo e Bremen estabeleceram esses locais onde a loucura era tratada através do trabalho forçado. Eles acreditavam que o ócio era a raiz do mal e que o confinamento e o trabalho forçado eram úteis para reintegrar o indivíduo à lógica da produtividade. Para os loucos, acreditava-se que o trabalho mecânico, repetitivo e exaustivo tinha o poder de &amp;quot;disciplinar a mente animalizada&amp;quot;, submetendo a vontade rebelde ou caótica do insano à razão e à ordem. Não era um trabalho, contudo, inútil, pois esta mão de obra foi utilizada até mesmo na produção de uniformes militares. Os loucos considerados totalmente impossíveis de docilizar eram simplesmente trancafiados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Inglaterra ===&lt;br /&gt;
Na Inglaterra, o sistema das Workhouses (Casas de Trabalho) cumpria um papel semelhante ao modelo alemão. No entanto, Londres já possuía o [[Bethlem Royal Hospital (Bedlam)|Bethlem Royal Hospital]], conhecido popularmente como Bedlam. No século XVII e XVIII, Bedlam se tornou um espetáculo de horror, onde o público podia pagar para observar os internos como se fossem animais em um zoológico. A loucura agora um objeto de uma forma de exibição degradante e mantida atrás de grades e ferros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Portugal ===&lt;br /&gt;
Em Portugal a gestão dos &amp;quot;desviantes&amp;quot; recaiu fortemente sobre as Santas Casas da Misericórdia. O [[Hospital Real de Todos-os-Santos]], fundado em Lisboa em 1492 e inaugurado em 1501, se tornou o epicentro do tratamento (ou confinamento) dos loucos no país. Dentro deste hospital, existiam as chamadas &amp;quot;[[Casas de Doidos]]&amp;quot;, destinados àqueles que haviam “perdido a luz da razão”. Seguindo o padrão europeu, o hospital não separava rigidamente o louco por diagnóstico. Eles dividiam espaço com indigentes e enfermos de diversas naturezas, embora as &amp;quot;casas de doidos&amp;quot; fossem áreas de maior isolamento devido à agitação dos internos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XVIII português, a internação era, acima de tudo, uma solução para a mendicância e, por vezes, para o alcoolismo. O louco oriundo de uma família com posses era mantido nas próprias casas, muitas vezes escondido em sótãos ou anexos e até mesmo acorrentados. Já o &amp;quot;louco pobre&amp;quot;, que não poderiam ser cuidados por seus familiares, acabava nos hospitais reais ou mesmo nas cadeias, a depender de uma série de fatores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Nascimento da Psiquiatria ==&lt;br /&gt;
=== Pinel e a criação da psiquiatria nosográfica ===&lt;br /&gt;
É na virada do século XVIII para o XIX que nasce a psiquiatria como um campo autônomo do saber e da prática médica. Esta mudança fundamental é protagonizada por duas figuras centrais da medicina francesa: [[Philippe Pinel]] e seu discípulo, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]]. Juntos, eles transformaram o hospital de depósito de insanos e indesejáveis em um verdadeiro hospital, em que o louco e o alienado poderiam receber um tratamento racional e científico, em substituição às correntes, à disciplina e ao silenciamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A emergência da psiquiatria como campo autônomo teve como fundamento científico inicial a observação clínica sistemática dentro do asilo. Este era concebido como um laboratório, onde o alienista poderia estudar a loucura em seu estado puro, separada das influências do mundo exterior. A principal questão científica e prática que justificava essa nova ciência era desenvolvida e aplicada de forma sistemática, e denominava-se nosografia ou diagnóstico. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pinel, em seu [[Index.php?title=Traité médique-philosophique sur l&#039;aliénation mentale, ou la manie|Traité médique-philosophique sur l&#039;aliénation mentale, ou la manie]], de 1801, classificou a loucura com base em critérios sintomatológicos, seguindo um procedimento comparativo semelhante ao das ciências naturais. O desafio central, que persistiria ao longo do século XIX, era a ambiguidade constante entre a busca por uma sede orgânica, ou seja, um “local físico-biológico” da loucura, junto da necessidade de uma regulação de caráter moral. O tratamento apoiava-se na moralidade para combater as causas que eram, elas próprias, consideradas morais, mas algo estava também no corpo do doente. Isso mostra que a nova psiquiatria de Pinel era a mistura de medicina com moralidade. Este enfoque resultou na valorização do exame clínico pelos psiquiatras francófonos, permitindo a união da observação clínica com a formulação de hipóteses.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1793, em meio ao fervor da Revolução Francesa, Philippe Pinel foi nomeado médico-chefe do Hospital de Bicêtre e, posteriormente, da Salpêtrière. O cenário que encontrou era o ápice do &amp;quot;Grande Enclausuramento&amp;quot;, ou seja, homens e mulheres amontoados nas condições já descritas, com destaque para as correntes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A intervenção de Pinel, simbolizada pelo gesto de “libertar os loucos de suas correntes”, não foi apenas um ato humanitário, mas também uma decisão de natureza epistemológica. Pinel acreditava que a loucura não era uma possessão demoníaca nem uma degeneração animal irreversível, mas uma alienação mental ou, em outras palavras, uma perturbação das faculdades intelectuais e afetivas que mantinha o indivíduo como se fosse &amp;quot;estrangeiro&amp;quot;, ou alienado, de si mesmo e da sociedade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O centro da reforma psiquiátrica proposta por Pinel era o tratamento moral, e se baseava em três pilares fundamentais. O primeiro, o isolamento terapêutico. Era necessário que o paciente ficasse separado de seu ambiente que, segundo o médico, era a fonte de sua excitação e desequilíbrio. O segundo pilar era a autoridade médica, onde este deveria atuar como um pai ao mesmo tempo severo e justo, usando a persuasão, a benevolência e, se fosse necessário, a firmeza para restaurar a razão do paciente. Por fim, a disciplina e o trabalho, com a aplicação rigorosa de horários e valorização de atividades produtivas, o que ocuparia a mente alienada e, assim, combateria a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em seus estudos, Pinel identificou quatro tipos de loucura, quais sejam, a [[melancolia]], a [[mania]], a [[demência]] e a [[idiotia]], cada uma com suas questões próprias específicas e metodologias de tratamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Esquirol e a consolidação do modelo ===&lt;br /&gt;
Se Pinel era considerado o visionário e o libertador, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]] foi o grande organizador e o clínico meticuloso. Discípulo de Pinel, Esquirol sucedeu seu mestre na Salpêtrière e deu à psiquiatria a robustez científica e administrativa de que ela necessitava. Esquirol compreendeu que a eficácia do tratamento moral dependia da arquitetura hospitalar. Para ele, o hospital não era apenas um prédio onde ocorria o tratamento, mas também um instrumento de cura. Ele desenvolveu o modelo de pavilhões, permitindo a separação dos pacientes por tipo de patologia, o que reforçou a própria ideia de diagnóstico e de avaliação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Esquirol refinou as definições clínicas de Pinel. Foi ele quem estabeleceu a distinção clássica entre alucinação (uma percepção sem objeto) e ilusão (uma percepção deformada de um objeto real), entre outros pontos que, na sua época, foram considerados avanços exemplares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Legalização da Alienação ===&lt;br /&gt;
O esforço médico, político e administrativo de Esquirol na continuação do trabalho de Pinel culminou na promulgação da lei francesa de 30 de Junho de 1838, a primeira grande legislação psiquiátrica do mundo moderno. Esta lei estabeleceu a obrigatoriedade de cada departamento francês possuir um asilo e regulamentou as condições de internação e interdição. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A princípio, embora também protegesse o alienado do arbítrio e de outras violências que poderiam ser cometidos contra os loucos nas províncias e mesmo nas periferias de Paris, a lei também deu total poder ao médico psiquiatra. Era ele quem poderia decidir quem deveria ou não ser privado de sua liberdade. Com isso, a psiquiatria tornava-se, assim, um braço do Estado na gestão da ordem social mas, ao contrário do polícia e do inquérito polícial, que exigia provas independentes e a atuação do sistema judiciário, o psiquiatra estava coberto sob o manto da ciência médica, o que dava a ele poderes gigantescos de decidir entre a alienação e a razão. Isso marcou profundamente a forma como a loucura e a saúde mental passaram a ser compreendidas e tratadas nas décadas seguintes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Desenvolvimento da Psiquiatria Contemporânea ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Emil Kraepelin e uma Nova Racionalização ===&lt;br /&gt;
Apesar da forte valorização da psiquiatria francesa na constituição da psiquiatria contemporânea, uma das principais contribuições para o ramo em sua forma atual foi empreendida por um alemão, [[Emil Kraepelin]]. No final do século XIX, a psiquiatria alemã estava dividida entre os &amp;quot;psiquistas&amp;quot;, que viam a loucura como uma doença da alma ou um mal moral, a exemplo dos franceses; e os &amp;quot;somatistas&amp;quot;, que buscavam no cérebro a origem dos sintomas das doenças mentais. Kraepelin superou esse impasse ao focar não na anatomia, mas na evolução temporal das doenças. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin passou a entender que sintomas isolados, como ouvir vozes ou a crença de um paciente em ser alguma personalidade histórica, não eram suficientes para definir uma doença. Ele propôs olhar também para seu desenvolvimento ao longo do tempo. Com essa premissa em mãos, Kraepelin introduziu as &amp;quot;cartas diagnósticas&amp;quot; (&#039;&#039;Zählkarten&#039;&#039;), um sistema de fichamento padronizado onde se registrava a história de vida do paciente, seus antecedentes familiares, os sintomas detalhados e, por fim, o desfecho da doença. Isso transformou a clínica psiquiátrica, pois articulava neuroanatomia e psicologia experimental, já que ele fora aluno de [[Wilhelm Wundt|Wundt]]. A loucura não seria apenas uma manifestação, mas teria uma história relevante para a compreensão de sua origem e desenvolvimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin também é considerado o pioneiro da [[Psiquiatria Transcultural]]. Visando provar que as categorias diagnósticas psiquiátricas seriam universais, ele viajou para lugares como a ilha de Java (Indonésia) em 1904 para estudar a manifestação da loucura em populações não europeias. Ele concluiu que, ainda que os conteúdos dos delírios mudassem conforme a cultura, a estrutura fundamental da loucura permanecia a mesma, o que reforçou sua tese de que eram doenças biológicas da espécie humana. Apesar de suas várias contribuições, no final de sua vida ele se transformou um higienista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tratamentos brutais ===&lt;br /&gt;
O período entreguerras foi marcado pelo desespero dos psiquiatras em encontrar tratamentos ativos e curativos para esvaziar os superlotados manicômios herdados do século XIX. Foi também um período de grande entusiasmo com a ciência, que passou a ser vista como o empreendimento que salvaria a humanidade de seus tormentos. Para a loucura, isso trouxe a a era das terapêuticas heróicas e invasivas, que transformaram a prática asilar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi nesse período que alguns dos tratamentos mais violentos foram desenvolvidos (eles serão tratados com detalhes mais adiante). Um primeiro exemplo é o da Malarioterapia, criada em 1917 por Julius Wagner-Jauregg e que consistia em infectar pacientes de neurossífilis com malária, ideia que rendeu-lhe a ele o único Nobel da psiquiatria clássica. Outro tratamento conhecido, criado em 1933, é o Coma Insulínico, onde se induzia comas por hipoglicemia em esquizofrênicos, na expectativa que, quando retornassem deste estado, estariam &amp;quot;melhores&amp;quot;. Entre 1934 e 1938, Ladislas von Meduna e, posteriormente, Ugo Cerletti introduziram as convulsões artificiais (químicas e elétricas) como tratamento, que consistiam em induzir choques químicos ou elétricos no paciente. O médico português Egas Moniz, por sua vez, ganhou o Nobel de Medicina de 1949 ao criar a Lobotomia Pré-Frontal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A loucura no nazismo ===&lt;br /&gt;
Durante a Segunda Guerra Mundial, o determinismo biológico e as teorias de degeneração racial foram levadas ao extremo e resultaram na Ação T4 (&#039;&#039;Aktion T4&#039;&#039;). Este foi um programa nazista de, simplesmente, eutanásia sistemática, que assassinou mais de 200 mil doentes mentais e pessoas com deficiência na Alemanha e territórios ocupados. A cumplicidade da psiquiatria institucional com essa matança, bem como com o Holocausto, gerou uma crise ética profunda no pós-guerra, exigindo uma refundação humanista e internacional da disciplina, um dos grandes motores políticos subjacentes para a convocação do Congresso de 1950 em Paris.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O I Congresso Internacional de Psiquiatria ===&lt;br /&gt;
Realizado em Paris em agosto de 1950, o [[I Congresso Internacional de Psiquiatria]] foi projetado especificamente para unificar, debater e institucionalizar a psiquiatria como uma disciplina médica global e autônoma. Durante o Congresso foram colocados, frente a frente, as grandes correntes que disputavam a hegemonia do entendimento da mente humana na época, a saber, as correntes psicodinâmica e a biológica. De forma menor, uma corrente social e anti-manicomial também se fez presente. O resultado do embate foi uma conciliação entre as duas maiores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um dos principais resultados do Congresso de 1950 foi a pressão para que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Associação Psiquiátrica Americana (APA) criassem manuais estatísticos e classificatórios unificados, o que resultou na inserção de uma seção robusta de transtornos mentais na CID-6 (Classificação Internacional de Doenças) e na publicação do primeiro [[DSM]], em 1952. A classificação da APA baseou-se fortemente no [[Medical 203]], um manual militar de 1945 desenvolvido pelas Forças Armadas dos EUA para lidar com as neuroses de guerra e traumas de combatentes. O DSM-I herdou dessa origem uma forte influência da psicanálise e da psicodinâmica de [[Adolf Meyer]] com a ideia de que os transtornos eram respostas a fatores ambientais e biológicos, e não entidades fixas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psiquiatria francesa rejeitou de imediato o domínio anglo-americano na classificação e interpretação das doenças mentais criando, anos depois, a [[Classification Française des Troubles Mentaux]]. Os psiquiatras alemães e da Europa Central também rejeitaram o DSM e continuaram se guiando pelos manuais de Emil Kraepelin e pelas revisões de Kurt Schneider, também muito usadas na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro resultado importante deste Congresso foi a fundação da Associação Mundial de Psiquiatria ([[World Psychiatric Association (WPA)|World Psychiatric Association - WPA]]). Com isso, a psiquiatria deixou de ser um conjunto de escolas nacionais isoladas, como as escolas francesa, alemã, anglo-saxã, entre outras, para se tornar uma corporação científica internacional, com congressos periódicos, periódicos indexados e diretrizes globais, apesar das muitas disputas e diferenças regionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As terapias mais violentas, como a insulinoterapia e o eletrochoque, foram aclamadas durante esse Congresso, e seus criadores foram celebrados. Ao mesmo tempo, pesquisadores de terapêuticas baseadas em medicamentos também estiveram presentes e começaram a ganhr cada vez mais destaque com o passar do tempo. O congresso de 1950 representou o apogeu e, ao mesmo tempo, o canto do cisne da hegemonia absoluta das terapias de choque puras, e a continuidade de seu uso nos anos seguintes sugerem fortemente menos interesse científico e mais interesse punitivo e de controle dos doentes mentais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Loucura no Brasil ==&lt;br /&gt;
Até o início do século XIX, o Brasil colonial lidava com seus insanos de forma semelhante ao que ocorria na Europa. As famílias ricas mantinham seus parentes loucos em &amp;quot;quartos fortes&amp;quot;, privando-os mais ou menos da vida comunitária e familiar, a depender das circunstâncias, de forma semelhante ao que acontecia em Portugal. Já os pobres eram entregues à caridade das [[Santas Casas de Misericórdia]] ou vagavam pelas ruas, sendo ocasionalmente recolhidos a cadeias públicas quando perturbavam a ordem, indo e vindo das frágeis instituições brasileiras, sofrendo abusos e violências de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A transferência da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 gerou a necessidade de transformar a capital colonial em uma moderna metrópole europeia. Sob a influência do Iluminismo tardio e das notícias que chegavam sobre as reformas de Pinel na França, a elite médica brasileira, que havia estudado sobretudo na França e em Portugal, começou a pressionar o poder público pela criação de espaços específicos para o tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1830, a criação da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (que viria a ser a [[Academia Nacional de Medicina]]) foi o marco institucional dessa pressão. Esse movimento político funcionou. O momento decisivo ocorreu em 18 de julho de 1841, quando o Imperador D. Pedro II, em comemoração à sua coroação, assinou o decreto de fundação do primeiro hospital psiquiátrico do Brasil e da América Latina. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Hospício de Pedro II, ou o Palácio dos Loucos (1852–1889) ===&lt;br /&gt;
Inaugurado apenas em 8 de dezembro de 1852, o [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)|Hospício de Pedro II]] era gerido pela Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, que por anos geriu grande parte da loucura brasileira. Seu provedor era o médico [[José Clemente Pereira]], que era responsável por todos os aspectos da instituição, desde os médicos até os administrativos. Embora a gestão administrativa fosse religiosa, o saber médico tinha muito espaço, com nomes como [[Manoel Feliciano Pereira de Carvalho]], que tentaram implementar o &amp;quot;tratamento moral&amp;quot; inspirado em Esquirol. Apesar dos esforços, muitos relatos de abusos e de condições precárias mostravam a dificuldade em implementar um modelo brasileiro de tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a Proclamação da República em 1889, o Hospício de Pedro II foi desvinculado da Santa Casa e renomeado como [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)]]. Este foi um período de maior laicização e pela busca por um maior rigor científico, o que não aconteceu por completo, em grande parte devido à falta de profissionais adequadamente treinados, apesar de o Brasil já possuir, à época, uma cátedra de psiquiatria, fundada em 1883 e ocupada por [[Teixeira Brandão|João Carlos Teixeira Brandão]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diante dos altíssimos custos em manter o Hospital, surgem as colônias agrícolas como alternativa ao confinamento urbano. Em 1884 foi inaugurada a [[Colônia de São Bento]] e, em 1890, a [[Colônia de Conde de Mesquita]], na Ilha do Governador. A ideia era que o trabalho na terra poderia colaborar na cura, além de os produtos deste trabalho poderiam ser consumidos no local, ajudando na manutenção dos espaços. Apesar dessas transformações e de evidentes melhorias, os relatos de época mostram que não acontecia nenhuma das duas coisas, nem produção agrícola suficiente para manter as coloônias minimamente autônomas, nem um processo terapêutico efetivo oriundo do trabalho organizado. De qualquer forma, entendia-se que a colônia agrícola era melhor do que o confinamento do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Era Juliano Moreira ===&lt;br /&gt;
Em 1903, o médico baiano [[Juliano Moreira]] assume a direção do Hospital Nacional de Alienados. Negro, de origem humilde e dotado de uma erudição impressionante, ele revolucionou a assistência brasileira aos alienados, sendo reconhecido internacionalmente como um dos grandes psiquiatras de seu tempo. Ele se tornaria o principal médico alienista do Brasil, tornando-se referência para todo o país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Moreira aboliu definitivamente o uso de camisas de força e as grades nas janelas, num gesto que se assemelhava àquele de Pinel, enfatizando que o hospital era um local de tratamento e cura, e não uma prisão ou um depósito de indesejados. Além disso, ele trouxe para o Brasil a nosologia de Emil Kraepelin, um psiquiatra alemão considerado o pai da psiquiatria moderna, da psicofarmacologia e da genética psiquiátrica, o que seria uma modernização do modelo francês adotado até então no país. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a gestão Moreira ocorreram várias mudanças. Foi criado o [[Pavilhão Bourneville]] para crianças com deficiência intelectual. Além disso, fundou-se em 1921 o [[Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro]], o primeiro do país, sob a liderança de [[Heitor Carrilho]]. Dentro dos hospitais incentivou-se a pesquisa laboratorial e anátomo-patológica, o que abriu espaço para a criação de laboratórios de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A influência e o prestígio de Juliano Moreira se espalhou pelo Brasil. Em São Paulo, destacou-se a figura de [[Franco da Rocha|Francisco Franco da Rocha]], que fundou em 1898 o [[Hospital do Juquery]]. O Juquery, como ficou conhecido, tornou-se uma &amp;quot;cidade-asilo&amp;quot;, chegando a abrigar dezenas de milhares de pacientes em um modelo que mesclava pavilhôes médicos com imensas colônias agrícolas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste período, a psiquiatria brasileira flertou intensamente com as teorias da degenerescência (de Morel e Magnan) e com a eugenia. Médicos como [[Renato Kehl]], bem como a criação da [[Liga Brasileira de Higiene Mental]] (1923), uma organização higienista fundada por [[Gustavo Riedel]], começaram a ver a loucura não apenas como um problema individual, mas como um risco biológico à &amp;quot;raça brasileira&amp;quot;. A higiene mental passou a atuar preventivamente em escolas e fábricas, buscando identificar &amp;quot;pré-delinquentes&amp;quot; e &amp;quot;personalidades anormais&amp;quot;. Apesar de não ter conseguido desenvolver muitas políticas efetivas, os eugenistas brasileiros eram ativos e influentes em muitos círculos decisórios importantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A criação de hospitais não se limitou a São Paulo e Rio de Janeiro. Em  1903, o governo de Minas Gerais fundou o [[Hospital Psiquiátrico de Barbacena]], que mais tarde seria palco de uma das maiores tragédias humanitárias do país. Em Pernambuco, o [[Hospital Ulysses Pernambucano]] foi fundado pelo médico de mesmo nome, que começou a desenvolver uma psiquiatria mais voltada para o social e para a prevenção no final dos anos 1920. Hospitais na Bahia, Rio Grande do Sul, entre outros, também foram criados, seguindo o pioneirismo do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Era Vargas e além: o início do encarceramento ===&lt;br /&gt;
Com a Revolução de 1930, o projeto de nação de Vargas exigia um povo saudável e produtivo, devido à visão desenvolvimentista suportada pela Aliança Liberal, que o elegeu. A loucura deixou de ser apenas uma questão de ordem pública ou um aspecto da caridade para se tornar um problema de segurança nacional e de saúde pública. Em 1941, no âmbito do Estado Novo, foi criado o [[Serviço Nacional de Doenças Mentais (SNDM)]], substituindo o antigo modelo de assistência a alienados, que era fragmentado nas diferentes províncias. Dessa maneira, Vargas criou uma diretriz federal centralizada para a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a Liga Brasileira de Higiene Mental ganhou fôlego. O foco deslocou-se do hospital para a prevenção na sociedade. A psiquiatria não deveria se limitar aos hospitais, mas também atuar na escola, na fábrica e na família, buscando limpar a nação e extirpar o que chamavam de &amp;quot;elementos degenerados&amp;quot;. O médico Gustavo Riedel e seus sucessores defendiam que o Estado deveria intervir precocemente para evitar que o &amp;quot;anormal&amp;quot; se tornasse um fardo para a máquina pública.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi durante as décadas de 1930 e 1940 que o modelo de colônia agrícola, antes visto como terapêutico e de assistência à manutenção hospitalar, atingiu proporções industriais. O que se viu em Barbacena e em instituições como o Juquery em São Paulo, foi a transformação do hospital em, praticamente, um campo de concentração administrativo. A internação não dependia mais de um diagnóstico médico rigoroso, que na prática ainda era frágil e baseado em elementos pouco científicos. Bastava ser considerado &amp;quot;socialmente inconveniente&amp;quot; para correr-se o risco de ir parar numa instituições dessas. Assim, pobres, prostitutas, homossexuais, militantes políticos e mães solteiras eram enviados para essas instituições, onde a sobrevivência era a exceção. Estima-se que, no auge do descaso, o Hospital de Barbacena registrava um número alarmante de óbitos por frio, fome e doenças evitáveis, cujos corpos eram, por vezes, vendidos para faculdades de medicina. Situações similares aconteciam em outras instituições do tipo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tratamentos Brutais e os Modos de Resistência ===&lt;br /&gt;
Para além do horror asilar, o período entre 1930 e 1950 também foi marcado pela introdução de terapias biológicas drásticas, importadas da Europa, conhecidas como [[somatoterapias]]. Com uma psicofarmacologia pouco eficaz, os médicos buscavam &amp;quot;chacoalhar&amp;quot; o organismo, produzindo nele como um choque que pudesse restaurar a razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma dessas técnicas era a [[insulinoterapia]]. Introduzida na Europa pelo médico austríaco Manfred Sakel (1900–1957) em Viena, no início dos anos 1930, representou uma das primeiras e mais invasivas formas de somatoterapia. Originalmente destinada ao tratamento da [[esquizofrenia]], a técnica consistia na administração de doses maciças de insulina no paciente, provocando um estado de hipoglicemia profunda que levava o paciente ao coma. Na volta desse estado, se esperava que o indivíduo “restaurasse” a razão por conta do choque orgânico violento que havia vivenciado. O procedimento era extremamente perigoso e estava associado a uma alta taxa de mortalidade e morbidade devido às convulsões e aos possíveis danos cerebrais. Apesar dos riscos, o método foi amplamente adotado no mundo todo, incluindo o Brasil, onde foi usado em grandes instituições de confinamento, como o Hospital Nacional de Alienados (HNA), no Hospital Juquery, entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que passou a ser muito utilizada foi a [[Eletroconvulsoterapia]], ou simplesmente o eletrochoque. Introduzido no Brasil logo após sua invenção na Itália (1938), consiste em colocar eletrodos carregados com correntes elétricas em lados opostos, na lateral da cabeça, de modo que uma forte corrente elétrica atravessasse o cérebro. A duração e a intensidade podiam variar, mas relatos de mais de trinta minutos de choques violentos não eram incomuns. Sua brutalidade era tamanha que exigia que sua vítima fosse fortemente amarrada. Tornou-se uma ferramenta onipresente nos hospitais, muitas vezes aplicada sem anestesia e como método de punição, desvirtuando sua finalidade clínica já questionável e usada, basicamente, como ferramenta de tortura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que ingressou no Brasil nesse período foi a [[lobotomia]], um procedimento cirúrgico que consistia em apenas retirar um pedaço do cérebro do paciente. Eles foram realizados em larga escala em hospitais como o Juquery e no Hospital Pedro II, buscando a docilização de pacientes crônicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em oposição à violência do isolamento oferecido por essas instituições, surge a figura de [[Nise da Silveira]]. Em 1946, após ter sido presa pelo regime de Vargas por suas inclinações políticas, Nise assumiu o Setor de Terapêutica Ocupacional do [[Centro Psiquiátrico Nacional]] (Engenho de Dentro), no Rio de Janeiro. Ela se recusou a usar eletrochoques e lobotomias, introduzindo a arte e o afeto como mediadores da cura. Ela fundou o [[Museu de Imagens do Inconsciente (MIS)|Museu de Imagens do Inconsciente]] em 1952, onde demonstrou, através das pinturas e esculturas de pacientes como [[Arthur Bispo do Rosario]], que o louco preservava uma riqueza simbólica e uma humanidade que a psiquiatria tradicional tentava apagar. Sua colaboração com [[Carl Jung]] colocou a experiência brasileira no mapa da psicologia analítica mundial, provando que o tratamento em liberdade e através da expressão criativa era viável.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Criação da Indústria da Loucura ===&lt;br /&gt;
No final da década de 1950 e início da de 1960, durante o governo de Juscelino Kubitschek e o breve período democrático posterior, o Brasil viu o surgimento de uma nova e ainda mais perversa dinâmica: a Indústria da Loucura. A assistência psiquiátrica, antes quase totalmente pública ou baseada no assistencialismo das Santas Casas, começou a ser privatizada. Com o crescimento dos institutos de previdência (IAPs), o Estado passou a pagar hospitais privados por dia de internação. Isso criou um incentivo perverso: quanto mais tempo o paciente ficasse internado e quanto menos recursos fossem gastos com ele, maior o lucro das clínicas privadas. Esse modelo, conhecido como &amp;quot;hospitalocêntrico&amp;quot;, inchou o sistema e preparou o terreno para a política de contenção social que seria radicalizada após o golpe de 1964. Foi um momento de multiplicação da brutalidade. Pouco importava a loucura ou não, o tratamento ou não, a eficácia ou não. O que importava era lucar com o dinheiro estatal por meio de um encarceramento fácil de impor e praticamente impossível de escapar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A coisa se aprofundou ainda mais com o golpe militar, que unificou em 1966 os Institutos de Aposentadoria e Pensões no INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), produzindo uma centralização gigantesca de recursos, com um modelo de privatização quase total. A psiquiatria, por ser uma especialidade cuja formação exigia baixo investimento tecnológico quando comparada a outras como a cirurgia, cardiologia ou oncologia, permitia grandes lucros com as internações de longa permanência. Assim, trancafiar e atormentar os loucos tornou-se o setor mais atraente para o empresariado da saúde.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de pessoas possivelmente diagnosticadas, o sistema era alimentado pelo encarceramento de militantes políticos, estudantes rebeldes, pessoas em situação de rua,  mendigos, homossexuais, indivíduos com comportamentos &amp;quot;desviantes&amp;quot; da moral tradicional, dependentes químicos, alcoólatras ou mesmo pessoas “problemáticas” da família, que se recusavam, por exemplo, a participar de casamentos arranjados, que denunciavam violência sexual sofrida ou eram apenas mulheres que haviam engravidado antes do casamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As instituições privadas multiplicaram-se pelo interior do país, longe dos olhos da fiscalização e dos centros urbanos. Instaladas em locais de difícil acesso, facilitava o ocultamento de violações de direitos humanos e ainda utilizava da conivência dos governos locais. As populações dessas localidades, crentes no saber médico, dificilmente desconfiavam do que poderia acontecer dentro dessas instituições e, quando vazavam denúncias, elas rapidamente podiam ser facilmente manejadas em conluio com os poderes locais. A loucura tornou-se um negócio de massa, com o abrigo precário de centenas de pessoas em galpões, onde a única &amp;quot;terapia&amp;quot; era a contenção química por sedativos baratos ou o uso indiscriminado do eletrochoque para manter a ordem além, é claro, da violência e brutalidade de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Luta Antimanicomial ==&lt;br /&gt;
No final da década de 1970, o modelo de saúde mental começou a dar sinais de exaustão, tanto financeira quanto ética. O Estado já não conseguia arcar com os custos crescentes de um sistema que só expandia o número de crônicos, e as denúncias de maus-tratos começaram a furar o bloqueio da censura, aparecendo em jornais mais prestigiados e em espaços mais amplos do debate social. O estopim para a o início do movimento da reforma psiquiátrica no Brasil começa com uma crise na [[Divisão Nacional de Saúde Mental (DINSAM)]], que havia recebido denúncias de irregularidades no Centro Psiquiátrico Pedro II, no [[Hospital Pinel]], na [[Colônia Juliano Moreira]] e no [[Manicômio Judiciário Heitor Carrilho]]. A denúncia foi acompanhada de uma greve por parte dos funcionários, que exigiam melhorias institucionais e questionavam irregularidades trabalhistas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É dessa crise que surge o [[Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM)]] que, nesse primeiro momento, estão mais preocupados com questões trabalhistas do que com o problema da própria prática psiquiátrica, que vai caracterizar parte dos movimentos antimanicomiais posteriormente. O MTSM se fortalece e consegue espaço no extremamente conservador [[V Congresso Brasileiro de Psiquiatria]], que ocorre em 1978, no que fica conhecido como “congresso da abertura”, num período também de abertura política com o iminente fim do regime militar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda em 1978, um grupo importante de intelectuais vinculados às bases teóricas do [[Movimento Antimanicomial]] participa do [[I Congresso Brasileiro de Psicanálise de Grupos e Instituições]], incluindo [[Franco Basaglia]], [[Felix Guattari]], [[Robert Castel]] e [[Erwin Goffman]], todos eles de grande inspiração e influência para o movimento antimanicomial brasileiro. No ano seguinte, o [[I Congresso Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental]] fortalece a contextação não apenas de problemas trabalhistas, mas do próprio modelo asilar e da forma como a psiquiatria intervinha e oprimia a população marginalizada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação público-privada que alimentava o modelo até então começa a ruir em 1980, com a chamada política da co-gestão interministerial. Nela, um convênio celebrado entre o Ministério da Previdência e Assistência Social com o Ministério da Saúde liquida a &amp;quot;Unidade de Serviço&amp;quot;, a política que permitia a contratação privada de serviços psiquiátricos e que representou o triunfo do público sobre o privado. Membros do MTSM passam a integrar a gestão do atendimento em saúde mental que, por dentro do aparato estatal, começam a implementar uma política de saúde pública baseada em prestação de serviços, cooperação, descentralização e regionalização, propostas que já eram defendidas pelos reformadores. Apesar desses avanços, críticos afirmam que a política de co-gestão apenas visava reformar os serviços, não atingindo o âmago da questão, que seria desconstruir o próprio paradigma psiquiátrico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo de desinstitucionalização de fato começa em 1985, ano marcado pelo fim da Ditadura Militar e pela realização de vários eventos que aprofundam o debate sobre a situação do atendimento. A [[I Conferência Nacional de Saúde Mental]] marca o início da desinstitucionalização devido aos conflitos entre o MTSM, a ABP e grupos não-organicistas que passaram a dirigir o DINSAM. Na conferência, consagrou-se uma reviravolta na perspectiva com a consolidação do lema &amp;quot;por uma sociedade sem manicômios&amp;quot;, rompendo com a lógica tanto privatista quanto estatista e questionando o próprio modelo psiquiátrico tradicional. Este passou a ser amplamente entendido como fenômeno cultural que promove o tratamento moral e o controle dos corpos, uma visão abertamente basagliana e antimanicomial. Alguns entendem que, nesse momento, a tradição anti-institucional que originou os primeiros questionamentos na década de 1970 foi restaurada e fortalecida. Após a Conferência, o próprio MTSM se renovou, se desatrelando do Estado, retomando sua independência e seu papel de transformação social.  A mudança do movimento se consolidou no [[II Congresso Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental]], quando a noção de racionalização e modernização dos serviços que havia caracterizado o período da co-gestão foi recusado em nome de uma pauta anti-institucional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em meados dos anos 1980 começam a surgir novos modelos de atenção à saúde que poderia substituir o modelo psiquiátrico. Em São Paulo é criado o primeiro [[Centro de Atenção Psicossocial (CAPS)]], em 1987. Em Santos, surge o [[Núcleo de Atenção Psicossocial (NAPS)]], em 1989. Estes serviços passaram a ser vistos como os modelos para uma contestação profunda dos manicômios, justificando seu encerramento. Já na década de 1990, o SUS introduziu mecanismos de fiscalização e auditoria que começaram a sufocar financeiramente os asilos privados que não cumpriam níveis mínimos de dignidade. Portarias históricas do Ministério da Saúde, inspiradas na [[Declaração de Caracas (1990)]], passaram a proibir a criação de novos leitos psiquiátricos asilares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após mais de uma década de tramitação e intensos debates no Congresso Nacional, como fruto dos embates históricos iniciados na crise do DINSAM e que atravessaram debates públicos extremamente imporantes, foi promulgada a Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001, que ficou conhecida como [[Lei da Reforma Psiquiátrica]] ou Lei Paulo Delgado, seu autor. Esta legislação se tornou o marco jurídico definitivo da virada assistencial no Brasil. A lei instituiu o direito do paciente de ser tratado em ambiente terapêutico o menos restritivo possível e colocou a internação psiquiátrica como último recurso possível. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para preencher o vazio deixado pelo fechamento dos grandes hospitais, o SUS estruturou a [[Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)]], formalizada na década seguinte pela Portaria nº 3.088 de 2011. A RAPS organizou o cuidado em diferentes níveis de complexidade, com os CAPS divididos nas modalidades CAPS I, II, III, CAPSi  e CAPS AD e, por fim, os [[Serviços de Residência Terapêutica (SRT)]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, a luta continua devido a retrocessos observados na segunda metade da década de 2010 e início dos anos 2020. Mudanças nas diretrizes da Política Nacional de Saúde Mental tentaram reintroduzir a centralidade do hospital psiquiátrico e incentivaram o uso de práticas baseadas no isolamento. Além disso, o governo federal passou a financiar massivamente as chamadas [[Comunidades Terapêuticas]], instituições de caráter predominantemente privado e religioso voltadas ao acolhimento de usuários de drogas, de onde emanam graves denúncias de todos os tipos de violação dos direitos humanos e que representam um evidente retrocesso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje, o campo da saúde mental no Brasil vive um embate profundo entre duas visões. De um lado, aqueles que lutam pela consolidação da RAPS, em defesa da clínica da subjetividade, da defesa dos direitos humanos, pela redução de danos e pela inserção social pelo trabalho e pela cultura. Do outro lado observa-se a persistência do &#039;&#039;lobby&#039;&#039; asilar e de setores que buscam a mercantilização do cuidado, por meio do encarceramento, da medicalização extrema do sofrimento psíquico, da higienização dos centros urbanos e do recolhimento dos indesejáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
AMARANTE, Paulo. &#039;&#039;&#039;Loucos pela vida&#039;&#039;&#039;: a trajetória da reforma psiquiátrica no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 1995.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ARBEX, Daniela. &#039;&#039;&#039;Holocausto brasileiro&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Geração Editorial, 2013.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
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		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1704</id>
		<title>História da loucura: da Grécia antiga à luta anti-manicomial</title>
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		<updated>2026-07-04T17:44:55Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* Referências */ Inserção de referências&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto com finalidade didática, escrito por André Elias Morelli Ribeiro para o curso de Psicologia do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras. Seu uso é aberto, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Introdução ==&lt;br /&gt;
A história da loucura é, ao mesmo tempo, uma narrativa sobre o modo como diferentes sociedades compreenderam a mente humana e uma reflexão sobre os mecanismos de poder que moldaram práticas de exclusão, cuidado e resistência vinculados às diferentes formas que diferentes grupos humanos entenderam como loucura ou algo similar, conforme uma visão ampliada contemporânea. Este material inicia na Grécia antiga e chega até o movimento antimanicomial no Brasil e, ao longo deste trajeto, pode-se observar como a loucura foi interpretada ora como intervenção divina, ora como desvio moral, ora como doença fisiológica, ora como ameaça social. Cada época construiu suas próprias respostas àquilo que considerou loucura que variaram entre a integração comunitária, o confinamento, o tratamento brutal e a busca por tratamentos médicos ou espirituais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, a trajetória seguiu de perto os modelos europeus. Do Hospício de Pedro II às colônias agrícolas, passando pela gestão de Juliano Moreira, a psiquiatria nacional oscilou entre avanços humanitários e práticas de exclusão. O período Vargas e o Estado Novo intensificaram o encarceramento, transformando hospitais em verdadeiros campos de concentração administrativos. As décadas seguintes viram a adoção de terapias brutais, como eletrochoques e lobotomias, mas também o surgimento de movimentos de resistência, como o trabalho de Nise da Silveira, que introduziu a arte e o afeto como caminhos de cura, ou a emergência de questionamentos ao modelo psiquátrico manicomial. A partir dos anos 1960, a privatização da assistência psiquiátrica gerou a chamada “Indústria da Loucura”, marcada por internações lucrativas e violações sistemáticas de direitos humanos que marcaram profundamente a forma como se entende a loucura contemporaneamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em síntese, o percurso histórico apresentado aqui mostra que a loucura nunca foi apenas um fenômeno clínico mas, antes, um espelho das sociedades, revelando seus medos, suas crenças e suas formas de organizar o convívio humano. De sagrada a temida, de medicalizada a mercantilizada, apresenta-se e se discute como surgiram vozes e práticas que reivindicaram humanidade e liberdade para os considerados loucos.&lt;br /&gt;
== As Loucuras no Mundo Antigo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Grécia antiga ===&lt;br /&gt;
Na Grécia antiga, em certo momento a loucura era considerada uma intervenção dos deuses e, como os gregos era politeístas, a varidade de formas de loucura e os modos de intervenção também era bem grande. A loucura poderia ser vista, por exemplo, como uma punição. É o caso do herói Ajax, filho de Telamão. Após a morte de Aquiles, a armadura do herói foi dada a Odisseu, e a afronta levou Ajax a um estado de fúria e ressentimento. A deusa Atena, intervindo em favor de Odisseu para proteger os Aqueus da vingança de Ajax, lançou sobre ele uma cegueira mental. Tomado pela loucura, Ajax massacrou o gado de guerra que havia sido capturado, acreditando que estava matando os líderes aqueus, incluindo Odisseu e Agamenon. Ao recobrar a sanidade e perceber seu ato vergonhoso, cometeu suicídio devido à humilhação. Essa cena ilustra a loucura como uma intervenção divina direta na forma de loucura poderia ser vista como destrutiva e extremamente negativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em outros episódios da mitologia grega, a loucura surge como uma consequência direta de traumas e da perseguição implacável por vingança. Um exemplo é o de Orestes que, após assassinar sua mãe, Clitemnestra para vingar a morte de seu pai, Agamenon, passa a ser atormentado pelas Erínias. Essas divindades da vingança, também conhecidas como Fúrias, levaram o herói a um estado de delírio e desespero profundo, personificando a tortura psicológica e a perda da razão como uma forma de acerto de contas espiritual e moral pelo matricídio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura não era unicamente um flagelo ou uma punição. Os gregos  viam a mania, um termo que hoje engloba a loucura, em uma perspectiva dual. Na sua manifestação mais elevada, era considerada uma benção ou inspiração divina. Essa visão positiva estava profundamente ligada ao culto de Dionísio, o deus do vinho, do teatro e do êxtase. Nos rituais dionisíacos, as bacantes e outros seguidores buscavam o êxtase, que é, literalmente, &amp;quot;sair de si&amp;quot;, por meio da dança frenética, música e consumo de vinho, o que era percebido como um estado de comunhão direta e inspirada com a divindade. Longe de ser destrutiva, essa forma de loucura era vista como uma fonte de criatividade, revelação e poder, sendo um caminho para a verdade profética e como expressão artística ligada a Dionísio. Este conceito de mania inspirada também se estendia a outros domínios, como a profecia dos oráculos, que eram vinculados à adoração ao deus Apolo, e mesmo a poesia, onde a perda temporária da razão humana era interpretada como a mente sendo tomada por uma força divina que trazia algum tipo de inspiração superior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em certo momento, ainda na Grécia antiga, as ideias sobre a loucura - ou algo que pareça loucura aos olhos contemporâneos - foi modificada graças a Hipócrates, o pai da medicina. A visão de [[Hipócrates]] marcou uma transição crucial para o entendimento da loucura na Grécia Antiga, pois afastou a loucura das concepções divinas e sobrenaturais para uma explicação puramente fisiológica e natural. Ele desenvolveu a [[Teoria dos Quatro Humores]], que se tornou o pilar da medicina ocidental por séculos. Segundo essa teoria, o corpo humano era composto por quatro fluidos essenciais (ou humores), que são sangue, fleuma, bile amarela e bile negra. A saúde mental e física dependia do equilíbrio harmonioso desses humores. A loucura, ou qualquer doença mental, era, portanto, interpretada como o resultado de um desequilíbrio, como o excesso de bile negra causando a melancolia (depressão), ou o desarranjo da fleuma e da bile amarela, que poderiam levar a estados de mania e frenesi. Com isso, Hipócrates postulou que a loucura não era uma maldição dos deuses, mas sim uma doença com origem no corpo. Essa abordagem naturalista permitiu que a loucura passasse a ser tratada com métodos como dietas, exercícios e remédios, no lugar de rituais religiosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tradição bíblica ===&lt;br /&gt;
Na tradição bíblica, escrita em contextos e culturas não europeias, a loucura também é frequentemente retratada como uma forma de intervenção ou punição divina. Um dos episódios mais emblemáticos é a história do rei Nabucodonosor II, relatada no Livro de Daniel. De acordo com o texto, devido ao seu orgulho excessivo e sua recusa em reconhecer a soberania de Deus, o rei foi acometido por uma forma de loucura que o levou a viver como um animal, alimentando-se de ervas e deixando seus cabelos e unhas crescerem sem controle. Na psicologia moderna, esse estado em que um indivíduo acredita ter se transformado em um animal é conhecido como licantropia clínica, uma condição rara. A loucura, conforme emerge na descrição bíblica, emerge ligada à perda da razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, a tradição bíblica também apresenta um paradoxo. No Novo Testamento, cujos livros foram escritos no contexto do mundo greco-romano, o que é considerado &#039;loucura&#039; pelos homens revela-se a suprema sabedoria divina. Essa ideia é desenvolvida pelo apóstolo Paulo em sua Primeira Carta aos Coríntios. Na passagem, ele afirma: &#039;Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens&#039; (1 Coríntios 1:25). Paulo usa o termo &#039;&#039;moria&#039;&#039; (loucura, tolice) para contrastar a sabedoria humana que, na época do texto, era representada pela filosofia e retórica grega. A mensagem da cruz parecia ilógica e insensata aos olhos dos não cristãos, que debochavam do fato do messias ter sido capturado e morto pelos romanos. Assim, a loucura deixa de ser apenas uma punição para se tornar uma lente através da qual a verdadeira sabedoria, ou seja, a salvação, é revelada, invertendo a hierarquia de valores do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Pérsia ===&lt;br /&gt;
Na Pérsia, a visão da loucura e do comportamento irracional foi moldada por seu profundo dualismo religioso e, posteriormente, pelas tradições islâmicas que se seguiram à conquista árabe. O zoroastrismo, a antiga religião persa fundada por Zoroastro (Zaratustra), transformou o politeísmo em um dualismo cósmico centralizado no conflito eterno entre Ahura Mazda (Ormazd), o criador da vida, luz e verdade, e Angra Mainyu (Ahriman), a escuridão e a mentira. Neste cenário, o mundo material é o campo de batalha entre os dois. Ahriman buscava corromper tudo o que Ormazd havia criado. Embora o texto não defina a loucura diretamente, o comportamento irracional e a desrazão poderiam ser facilmente associados ao domínio de Ahriman e à mentira (&#039;&#039;druj&#039;&#039;), enquanto a sanidade e a pureza eram atributos de Ormazd. A batalha contra essa corrupção exigia que os adoradores de Ormazd permanecessem verdadeiros e evitassem poluir o fogo e a terra sagrada, indicando que a pureza mental e ritual era uma defesa contra as forças do mal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Islã ===&lt;br /&gt;
Na cultura islãmica, de forma geral e bastante resumida, o comportamento considerado irracional era frequentemente explicado pela crença nos &#039;&#039;djinn&#039;&#039;, espíritos errantes que habitavam o deserto e certos lugares considerados místicos e que podiam invadir a mente humana, causando o que a sociedade ocidental moderna chamaria de insanidade ou, talvez, distúrbio emocional. Nesses casos, o tratamento era o exorcismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na era clássica da medicina islãmica, ganhou força a tradição galênica, que atribuía as perturbações mentais a desequilíbrios nos quatro humores corporais (sangue, fleuma, bile amarela e bile negra). Médicos proeminentes rejeitaram a ideia de que a loucura fosse exclusivamente uma possessão demoníaca, tratando-a como uma patologia de base orgânica ligada ao cérebro. Avicena dedicou seções extensas a transtornos como a melancolia, o delírio e a mania. Ele descreveu detalhadamente como o excesso de bile negra afetava as faculdades cognitivas e imaginativas do cérebro, propondo tratamentos que incluíam dieta, banhos térmicos, massagens, sangrias reguladas e o uso de fitoterápicos, semelhante à tradição grega mais tardia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período medieval, o mundo islâmico desenvolveu os bimaristans (hospitais), que funcionavam como centros de tratamento médico gratuito, financiados por dotações religiosas (&#039;&#039;waqf&#039;&#039;). O objetivo era restaurar o equilíbrio do espírito e dos humores através de estímulos ambientais positivos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura também apareceu em narrativas culturais associadas aos povos, de forma a sugerir causas e curas mais mundanas. O famoso conto persa de As Mil e Uma Noites, cuja origem é indo-persa mas que foi sedimentada na cultura islãmica, relata a história do rei Shahriyar, que, convencido da inevitável traição feminina, cai em uma loucura paranóica que o leva a se casar com uma virgem todas as noites e, pela manhã, assassiná-la. Sua &amp;quot;cura&amp;quot; é alcançada através da engenhosidade e paciência humana por meio de uma dessas esposas, Scheherazade, que usa a arte de contar histórias para retardar sua execução por &amp;quot;mil e uma noites&amp;quot;, período em que sua paranoia é gradualmente desfeita. A história sugere que a narrativa e o tempo podem curar a loucura causada por trauma psicológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As Loucuras na Idade Média ==&lt;br /&gt;
A transição para a Idade Média é marcada pelo colapso do Império Romano do Ocidente (476 d.C.), que trouxe profundas transformações políticas e sociais. O fim do governo centralizado romano levou à fragmentação do poder e ao surgimento do sistema feudal, onde a administração das terras e a autoridade passaram para as mãos de senhores locais, muitos deles antigos oficiais romanos. Este período também é caracterizado por um notável declínio na vida urbana e nos grandes centros intelectuais. O colpaso das instituições romanas deu lugar à ascensão e consolidação da única instituição internacional grande e organizada que havia sobrado, a Igreja Católica, que se tornou a principal forma de organização política, social e cultural. Houve ainda uma perda gradual da tradição cultural greco-romana por diferentes razões e, consequentemente, um afastamento das explicações naturalistas de Hipócrates, com exceção do pequeno renascimento do século XII e retomadas pontuais da sabedoria grega. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a hegemonia da Igreja Católica, a loucura tendeu a ser novamente interpretada sob uma lente teológica, sendo vista como uma manifestação de forças sobrenaturais ou desvios morais. Nesse contexto, certas vezes a loucura era interpretada como a intervenção de Satanás ou como possessão demoníaca, exigindo rituais de exorcismo para a cura. Em outros momentos, era vista como uma prova espiritual enviada por Deus ou como um efeito direto do pecado na alma do indivíduo. Havia também explicações que a tratavam como uma fragilidade da vontade humana, como no caso do que chamaríamos hoje de compulsões, misturando elementos da antiga tradição grega com aspectos da teologia cristã. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Socialmente, a gestão da loucura na Idade Média também passou por diferentes fases e transformações, dependendo do local e da época. Havia casos em que os considerados loucos eram apenas torturados e trancafiados, métodos considerados eficazes para expulsão de espíritos malignos, por exemplo. Contudo, em muitos outros casos, os considerados loucos conviviam de forma mais ou menos harmoniosa com o resto da comunidade, a depender de suas capacidades e possibilidades, e certos “desvios” eram perdoados devido à sua condição peculiar, sem a necessidade imediata de uma exclusão radical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Nau dos Loucos ===&lt;br /&gt;
Um caso notável e emblemático da gestão da loucura nesse período é a [[Nau dos Loucos]] (&#039;&#039;Stultifera Navis&#039;&#039;), conforme trabalhado por [[Michel Foucault]]. Anteriormente ao modelo de exclusão-repressão que viria a se consolidar na Idade Clássica, a loucura viveu o que se pode chamar de seus &amp;quot;dias de glória&amp;quot; na transição para a Renascença. Nesse contexto, o louco poderia ser visto como um sábio, um místico, um tolo ou simplesmente um excêntrico que estava, de certa forma, integrado ao tecido social.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Nau dos Loucos, que circulavam no Vale do Rio Reno (partes da Alemanha, França Suíça e Países Baixos) simbolizava uma existência errante, onde o louco era confiado à água e ao navio para ser levado de uma cidade a outra, mantendo-o em um estado de exclusão simbólica, mas ainda assim em movimento e circulação. Para Foucault, essa experiência trágica da loucura permitia que o insano portasse uma forma de lucidez em sua insensatez, revelando verdades que a razão comum não ousava enunciar. O louco via através das ilusões mundanas, aproximando-se de uma verdade profética ou ética que seria progressivamente silenciada nos séculos seguintes pela ascensão do saber médico e da racionalidade científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Santa Dimpna e Geel ===&lt;br /&gt;
Outro acontecimento relevante da Idade Média para a compreensão da loucura é o episódio de [[Santa Dimpna]]. Nascida no século VII na Irlanda, ela era filha de um rei pagão e de uma mãe cristã devota, de quem herdou sua fé e pela qual decidiu fazer votos de castidade. Após a morte prematura da mãe, seu pai, mergulhado em um profundo luto, decidiu que Dimpna era a única mulher com beleza comparável à da falecida rainha e insistiu em se casar com a própria filha, o que seria considerado escandaloso também para aquela cultura. Horrorizada e e alvo de uma perseguição incestuosa, Dimpna fugiu da Irlanda acompanhada de seu confessor, o padre Gereberno, e de dois servos fiéis. O grupo cruzou o mar e estabeleceu-se em [[Geel]], um minúsculo vilarejo na atual Bélgica, onde Dimpna se dedicou ao cuidado dos pobres e doentes mentais. No entanto, o rei conseguiu encontrá-los e, após a recusa de Dimpna tanto em retornar para a Irlanda quanto se casar com o pai, ordenou a execução de Gereberno, enquanto ele mesmo decapitou a filha, tornando a menina de 15 anos de idade numa mártir cristã. Após sua morte, relatos de curas milagrosas de pessoas com distúrbios mentais e epilepsia começaram a ocorrer junto ao seu túmulo, o que a tornou a padroeira dos doentes mentais. Já o local converteu-se num espaço de peregrinação ligado à questão da saúde mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O legado de Santa Dimpna em Geel deu origem a um modelo para a psiquiatria moderna pois, devido à devoção e adoração à Santa Dimpna, a cidade transformou-se em um santuário onde os pacientes não eram trancafiados, mas acolhidos em lares de famílias locais como &amp;quot;hóspedes&amp;quot;. Esse sistema de cuidado comunitário e desinstitucionalização, que persiste há séculos, é considerado um dos precursores do tratamento humanizado e da reabilitação psicossocial na saúde mental contemporânea.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Idade Clássica: a nova era da loucura encarcerada ==&lt;br /&gt;
A partir do século XVII, um período em que o filósofo Michel Foucault denominou como &amp;quot;A Época Clássica&amp;quot;, a forma de entender e lidar com a loucura passa por uma nova mudança devido ao ingresso da razão como centro e alma do pensamento europeu, em substituição ao dogmatismo religioso e ao conhecimento da igreja. Esta mudança não é brusca, mas lenta e gradual, porém suas marcas serão duradouras e serão sentidas por quase toda a Europa. Para essa nova e nascente razão, a loucura seria seu oposto direto. Se o homem era definido pela sua capacidade racional e sua utilidade produtiva, o louco era, portanto, como um &amp;quot;não-homem&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a solução para a não-razão era a internação, que não buscava a cura, mas a neutralização do irracional. O silenciamento da loucura era necessário para que a ordem social pudesse florescer. Os campos e cidades deveriam ser espaços de circulação de mercadorias pelas mãos de cidadãos produtivos, e qualquer elemento que atrapalhasse essa dinâmica deveria ser guardado em instituições que funcionavam como uma guarda contra o risco social que tais pessoas ofereciam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Relatos da época descrevem cenários terríveis sobre as condições de internação dos loucos. Os internos eram frequentemente mantidos em celas úmidas e insalubres, muitas vezes acorrentados às paredes. O uso de chicotes e outras punições corporais era justificado pela crença de que o louco, por ter perdido a razão, teria a resistência física de um animal, não sentindo frio ou dor da mesma forma que uma pessoa &amp;quot;normal&amp;quot;. Além disso, as instituições funcionavam sob uma lógica de vigilância constante. Não se tratava de observar para entender a mente, mas para garantir que o corpo anormal permanecesse contido e, no máximo possível, docilizado. Foi dentro desse ambiente de absoluta degradação e mistura indiscriminada de diferentes &amp;quot;tipos&amp;quot; de desviantes que a consciência médica começou a germinar, ainda que de forma incipiente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== França ===&lt;br /&gt;
O ano de 1656 marca um divisor de águas simbólico para o modelo de confinamento asilar no mundo todo, com a criação do Hôpital Général (Hospital Geral) em Paris, por um edito real do rei Luís XIV. É importante entender que um hospital geral deste período não é como um hospital moderno, ou seja, uma instituição de saúde voltada para a compreensão da doença e a prática do tratamento e cura. Ele estava mais próximo de uma estrutura administrativa e, de certo modo, semi-judiciária. Isso ocorria porque o interesse não estava em “curar” ou “tratar” ninguém mas, antes disso, executar o interesse do Estado de &amp;quot;limpar&amp;quot; as ruas de Paris de tudo o que era considerado improdutivo ou escandaloso. Era um período de abundância material, grandes gastos estatais e de uma imensa riqueza do império colonial francês, e desvios nessa ordem eram vistos como perigosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes tais hospitais gerais eram confinados, todos juntos, grupos totalmente diferentes, tais como pobres, mendigos, desempregados, libertinos, prostitutas, alquimistas, opositores políticos e, claro, também os considerados loucos. Em suma, tratava-se de um depósito de indesejados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que começou em Paris se tornou um modelo para outros lugares sobre como fazer a gestão da miséria e da “desrazão”, num forte deslocamento do que se via na Idade Média, com muitas experiências de integração social. O louco, antes tendo algo de profético, místico ou talvez apenas uma excentricidade da vida medieval campesina, se torna uma questão político-administrativa. Essa mudança importante marca uma migração para a possibilidade de institucionalização daquilo que era considerado errante ou, de alguma forma, desagradável e, assim passível de ser alvo de uma forma de gestão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em Paris, as duas principais unidades do Hospital Geral se tornaram emblemáticas e simbólicas. A [[Salpêtrière]], que era destinada às mulheres, e o hospital [[Bicêtre]], destinado aos homens. Ambas as instituições não ofereciam qualquer forma de tratamento. Eram basicamente depósitos humanos, onde o louco poderia acabar acorrentado ao lado de criminosos, por exemplo. O critério de internação não era o diagnóstico clínico, mesmo porque simplesmente ele nem existia, mas a incapacidade de se ajustar às normas de trabalho e à moralidade da época.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Alemanha ===&lt;br /&gt;
Na Alemanha, com a ideia de que o ócio era inaceitável, as leis determinavam o trancafiamento de qualquer pessoas considerada louca, perigosa e incapacitada para o trabalho. Nesse contexto, surgiram as &#039;&#039;Zuchthäusern&#039;&#039;, que seriam as [[Casas de Correção (Zuchthäusern)|Casas de Correção]]. Cidades como Hamburgo e Bremen estabeleceram esses locais onde a loucura era tratada através do trabalho forçado. Eles acreditavam que o ócio era a raiz do mal e que o confinamento e o trabalho forçado eram úteis para reintegrar o indivíduo à lógica da produtividade. Para os loucos, acreditava-se que o trabalho mecânico, repetitivo e exaustivo tinha o poder de &amp;quot;disciplinar a mente animalizada&amp;quot;, submetendo a vontade rebelde ou caótica do insano à razão e à ordem. Não era um trabalho, contudo, inútil, pois esta mão de obra foi utilizada até mesmo na produção de uniformes militares. Os loucos considerados totalmente impossíveis de docilizar eram simplesmente trancafiados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Inglaterra ===&lt;br /&gt;
Na Inglaterra, o sistema das Workhouses (Casas de Trabalho) cumpria um papel semelhante ao modelo alemão. No entanto, Londres já possuía o [[Bethlem Royal Hospital (Bedlam)|Bethlem Royal Hospital]], conhecido popularmente como Bedlam. No século XVII e XVIII, Bedlam se tornou um espetáculo de horror, onde o público podia pagar para observar os internos como se fossem animais em um zoológico. A loucura agora um objeto de uma forma de exibição degradante e mantida atrás de grades e ferros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Portugal ===&lt;br /&gt;
Em Portugal a gestão dos &amp;quot;desviantes&amp;quot; recaiu fortemente sobre as Santas Casas da Misericórdia. O [[Hospital Real de Todos-os-Santos]], fundado em Lisboa em 1492 e inaugurado em 1501, se tornou o epicentro do tratamento (ou confinamento) dos loucos no país. Dentro deste hospital, existiam as chamadas &amp;quot;[[Casas de Doidos]]&amp;quot;, destinados àqueles que haviam “perdido a luz da razão”. Seguindo o padrão europeu, o hospital não separava rigidamente o louco por diagnóstico. Eles dividiam espaço com indigentes e enfermos de diversas naturezas, embora as &amp;quot;casas de doidos&amp;quot; fossem áreas de maior isolamento devido à agitação dos internos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XVIII português, a internação era, acima de tudo, uma solução para a mendicância e, por vezes, para o alcoolismo. O louco oriundo de uma família com posses era mantido nas próprias casas, muitas vezes escondido em sótãos ou anexos e até mesmo acorrentados. Já o &amp;quot;louco pobre&amp;quot;, que não poderiam ser cuidados por seus familiares, acabava nos hospitais reais ou mesmo nas cadeias, a depender de uma série de fatores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Nascimento da Psiquiatria ==&lt;br /&gt;
=== Pinel e a criação da psiquiatria nosográfica ===&lt;br /&gt;
É na virada do século XVIII para o XIX que nasce a psiquiatria como um campo autônomo do saber e da prática médica. Esta mudança fundamental é protagonizada por duas figuras centrais da medicina francesa: [[Philippe Pinel]] e seu discípulo, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]]. Juntos, eles transformaram o hospital de depósito de insanos e indesejáveis em um verdadeiro hospital, em que o louco e o alienado poderiam receber um tratamento racional e científico, em substituição às correntes, à disciplina e ao silenciamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A emergência da psiquiatria como campo autônomo teve como fundamento científico inicial a observação clínica sistemática dentro do asilo. Este era concebido como um laboratório, onde o alienista poderia estudar a loucura em seu estado puro, separada das influências do mundo exterior. A principal questão científica e prática que justificava essa nova ciência era desenvolvida e aplicada de forma sistemática, e denominava-se nosografia ou diagnóstico. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pinel, em seu [[Index.php?title=Traité médique-philosophique sur l&#039;aliénation mentale, ou la manie|Traité médique-philosophique sur l&#039;aliénation mentale, ou la manie]], de 1801, classificou a loucura com base em critérios sintomatológicos, seguindo um procedimento comparativo semelhante ao das ciências naturais. O desafio central, que persistiria ao longo do século XIX, era a ambiguidade constante entre a busca por uma sede orgânica, ou seja, um “local físico-biológico” da loucura, junto da necessidade de uma regulação de caráter moral. O tratamento apoiava-se na moralidade para combater as causas que eram, elas próprias, consideradas morais, mas algo estava também no corpo do doente. Isso mostra que a nova psiquiatria de Pinel era a mistura de medicina com moralidade. Este enfoque resultou na valorização do exame clínico pelos psiquiatras francófonos, permitindo a união da observação clínica com a formulação de hipóteses.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1793, em meio ao fervor da Revolução Francesa, Philippe Pinel foi nomeado médico-chefe do Hospital de Bicêtre e, posteriormente, da Salpêtrière. O cenário que encontrou era o ápice do &amp;quot;Grande Enclausuramento&amp;quot;, ou seja, homens e mulheres amontoados nas condições já descritas, com destaque para as correntes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A intervenção de Pinel, simbolizada pelo gesto de “libertar os loucos de suas correntes”, não foi apenas um ato humanitário, mas também uma decisão de natureza epistemológica. Pinel acreditava que a loucura não era uma possessão demoníaca nem uma degeneração animal irreversível, mas uma alienação mental ou, em outras palavras, uma perturbação das faculdades intelectuais e afetivas que mantinha o indivíduo como se fosse &amp;quot;estrangeiro&amp;quot;, ou alienado, de si mesmo e da sociedade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O centro da reforma psiquiátrica proposta por Pinel era o tratamento moral, e se baseava em três pilares fundamentais. O primeiro, o isolamento terapêutico. Era necessário que o paciente ficasse separado de seu ambiente que, segundo o médico, era a fonte de sua excitação e desequilíbrio. O segundo pilar era a autoridade médica, onde este deveria atuar como um pai ao mesmo tempo severo e justo, usando a persuasão, a benevolência e, se fosse necessário, a firmeza para restaurar a razão do paciente. Por fim, a disciplina e o trabalho, com a aplicação rigorosa de horários e valorização de atividades produtivas, o que ocuparia a mente alienada e, assim, combateria a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em seus estudos, Pinel identificou quatro tipos de loucura, quais sejam, a [[melancolia]], a [[mania]], a [[demência]] e a [[idiotia]], cada uma com suas questões próprias específicas e metodologias de tratamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Esquirol e a consolidação do modelo ===&lt;br /&gt;
Se Pinel era considerado o visionário e o libertador, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]] foi o grande organizador e o clínico meticuloso. Discípulo de Pinel, Esquirol sucedeu seu mestre na Salpêtrière e deu à psiquiatria a robustez científica e administrativa de que ela necessitava. Esquirol compreendeu que a eficácia do tratamento moral dependia da arquitetura hospitalar. Para ele, o hospital não era apenas um prédio onde ocorria o tratamento, mas também um instrumento de cura. Ele desenvolveu o modelo de pavilhões, permitindo a separação dos pacientes por tipo de patologia, o que reforçou a própria ideia de diagnóstico e de avaliação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Esquirol refinou as definições clínicas de Pinel. Foi ele quem estabeleceu a distinção clássica entre alucinação (uma percepção sem objeto) e ilusão (uma percepção deformada de um objeto real), entre outros pontos que, na sua época, foram considerados avanços exemplares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Legalização da Alienação ===&lt;br /&gt;
O esforço médico, político e administrativo de Esquirol na continuação do trabalho de Pinel culminou na promulgação da lei francesa de 30 de Junho de 1838, a primeira grande legislação psiquiátrica do mundo moderno. Esta lei estabeleceu a obrigatoriedade de cada departamento francês possuir um asilo e regulamentou as condições de internação e interdição. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A princípio, embora também protegesse o alienado do arbítrio e de outras violências que poderiam ser cometidos contra os loucos nas províncias e mesmo nas periferias de Paris, a lei também deu total poder ao médico psiquiatra. Era ele quem poderia decidir quem deveria ou não ser privado de sua liberdade. Com isso, a psiquiatria tornava-se, assim, um braço do Estado na gestão da ordem social mas, ao contrário do polícia e do inquérito polícial, que exigia provas independentes e a atuação do sistema judiciário, o psiquiatra estava coberto sob o manto da ciência médica, o que dava a ele poderes gigantescos de decidir entre a alienação e a razão. Isso marcou profundamente a forma como a loucura e a saúde mental passaram a ser compreendidas e tratadas nas décadas seguintes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Desenvolvimento da Psiquiatria Contemporânea ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Emil Kraepelin e uma Nova Racionalização ===&lt;br /&gt;
Apesar da forte valorização da psiquiatria francesa na constituição da psiquiatria contemporânea, uma das principais contribuições para o ramo em sua forma atual foi empreendida por um alemão, [[Emil Kraepelin]]. No final do século XIX, a psiquiatria alemã estava dividida entre os &amp;quot;psiquistas&amp;quot;, que viam a loucura como uma doença da alma ou um mal moral, a exemplo dos franceses; e os &amp;quot;somatistas&amp;quot;, que buscavam no cérebro a origem dos sintomas das doenças mentais. Kraepelin superou esse impasse ao focar não na anatomia, mas na evolução temporal das doenças. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin passou a entender que sintomas isolados, como ouvir vozes ou a crença de um paciente em ser alguma personalidade histórica, não eram suficientes para definir uma doença. Ele propôs olhar também para seu desenvolvimento ao longo do tempo. Com essa premissa em mãos, Kraepelin introduziu as &amp;quot;cartas diagnósticas&amp;quot; (&#039;&#039;Zählkarten&#039;&#039;), um sistema de fichamento padronizado onde se registrava a história de vida do paciente, seus antecedentes familiares, os sintomas detalhados e, por fim, o desfecho da doença. Isso transformou a clínica psiquiátrica, pois articulava neuroanatomia e psicologia experimental, já que ele fora aluno de [[Wilhelm Wundt|Wundt]]. A loucura não seria apenas uma manifestação, mas teria uma história relevante para a compreensão de sua origem e desenvolvimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin também é considerado o pioneiro da [[Psiquiatria Transcultural]]. Visando provar que as categorias diagnósticas psiquiátricas seriam universais, ele viajou para lugares como a ilha de Java (Indonésia) em 1904 para estudar a manifestação da loucura em populações não europeias. Ele concluiu que, ainda que os conteúdos dos delírios mudassem conforme a cultura, a estrutura fundamental da loucura permanecia a mesma, o que reforçou sua tese de que eram doenças biológicas da espécie humana. Apesar de suas várias contribuições, no final de sua vida ele se transformou um higienista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tratamentos brutais ===&lt;br /&gt;
O período entreguerras foi marcado pelo desespero dos psiquiatras em encontrar tratamentos ativos e curativos para esvaziar os superlotados manicômios herdados do século XIX. Foi também um período de grande entusiasmo com a ciência, que passou a ser vista como o empreendimento que salvaria a humanidade de seus tormentos. Para a loucura, isso trouxe a a era das terapêuticas heróicas e invasivas, que transformaram a prática asilar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi nesse período que alguns dos tratamentos mais violentos foram desenvolvidos (eles serão tratados com detalhes mais adiante). Um primeiro exemplo é o da Malarioterapia, criada em 1917 por Julius Wagner-Jauregg e que consistia em infectar pacientes de neurossífilis com malária, ideia que rendeu-lhe a ele o único Nobel da psiquiatria clássica. Outro tratamento conhecido, criado em 1933, é o Coma Insulínico, onde se induzia comas por hipoglicemia em esquizofrênicos, na expectativa que, quando retornassem deste estado, estariam &amp;quot;melhores&amp;quot;. Entre 1934 e 1938, Ladislas von Meduna e, posteriormente, Ugo Cerletti introduziram as convulsões artificiais (químicas e elétricas) como tratamento, que consistiam em induzir choques químicos ou elétricos no paciente. O médico português Egas Moniz, por sua vez, ganhou o Nobel de Medicina de 1949 ao criar a Lobotomia Pré-Frontal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A loucura no nazismo ===&lt;br /&gt;
Durante a Segunda Guerra Mundial, o determinismo biológico e as teorias de degeneração racial foram levadas ao extremo e resultaram na Ação T4 (&#039;&#039;Aktion T4&#039;&#039;). Este foi um programa nazista de, simplesmente, eutanásia sistemática, que assassinou mais de 200 mil doentes mentais e pessoas com deficiência na Alemanha e territórios ocupados. A cumplicidade da psiquiatria institucional com essa matança, bem como com o Holocausto, gerou uma crise ética profunda no pós-guerra, exigindo uma refundação humanista e internacional da disciplina, um dos grandes motores políticos subjacentes para a convocação do Congresso de 1950 em Paris.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O I Congresso Internacional de Psiquiatria ===&lt;br /&gt;
Realizado em Paris em agosto de 1950, o [[I Congresso Internacional de Psiquiatria]] foi projetado especificamente para unificar, debater e institucionalizar a psiquiatria como uma disciplina médica global e autônoma. Durante o Congresso foram colocados, frente a frente, as grandes correntes que disputavam a hegemonia do entendimento da mente humana na época, a saber, as correntes psicodinâmica e a biológica. De forma menor, uma corrente social e anti-manicomial também se fez presente. O resultado do embate foi uma conciliação entre as duas maiores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um dos principais resultados do Congresso de 1950 foi a pressão para que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Associação Psiquiátrica Americana (APA) criassem manuais estatísticos e classificatórios unificados, o que resultou na inserção de uma seção robusta de transtornos mentais na CID-6 (Classificação Internacional de Doenças) e na publicação do primeiro [[DSM]], em 1952. A classificação da APA baseou-se fortemente no [[Medical 203]], um manual militar de 1945 desenvolvido pelas Forças Armadas dos EUA para lidar com as neuroses de guerra e traumas de combatentes. O DSM-I herdou dessa origem uma forte influência da psicanálise e da psicodinâmica de [[Adolf Meyer]] com a ideia de que os transtornos eram respostas a fatores ambientais e biológicos, e não entidades fixas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psiquiatria francesa rejeitou de imediato o domínio anglo-americano na classificação e interpretação das doenças mentais criando, anos depois, a [[Classification Française des Troubles Mentaux]]. Os psiquiatras alemães e da Europa Central também rejeitaram o DSM e continuaram se guiando pelos manuais de Emil Kraepelin e pelas revisões de Kurt Schneider, também muito usadas na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro resultado importante deste Congresso foi a fundação da Associação Mundial de Psiquiatria ([[World Psychiatric Association (WPA)|World Psychiatric Association - WPA]]). Com isso, a psiquiatria deixou de ser um conjunto de escolas nacionais isoladas, como as escolas francesa, alemã, anglo-saxã, entre outras, para se tornar uma corporação científica internacional, com congressos periódicos, periódicos indexados e diretrizes globais, apesar das muitas disputas e diferenças regionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As terapias mais violentas, como a insulinoterapia e o eletrochoque, foram aclamadas durante esse Congresso, e seus criadores foram celebrados. Ao mesmo tempo, pesquisadores de terapêuticas baseadas em medicamentos também estiveram presentes e começaram a ganhr cada vez mais destaque com o passar do tempo. O congresso de 1950 representou o apogeu e, ao mesmo tempo, o canto do cisne da hegemonia absoluta das terapias de choque puras, e a continuidade de seu uso nos anos seguintes sugerem fortemente menos interesse científico e mais interesse punitivo e de controle dos doentes mentais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Loucura no Brasil ==&lt;br /&gt;
Até o início do século XIX, o Brasil colonial lidava com seus insanos de forma semelhante ao que ocorria na Europa. As famílias ricas mantinham seus parentes loucos em &amp;quot;quartos fortes&amp;quot;, privando-os mais ou menos da vida comunitária e familiar, a depender das circunstâncias, de forma semelhante ao que acontecia em Portugal. Já os pobres eram entregues à caridade das [[Santas Casas de Misericórdia]] ou vagavam pelas ruas, sendo ocasionalmente recolhidos a cadeias públicas quando perturbavam a ordem, indo e vindo das frágeis instituições brasileiras, sofrendo abusos e violências de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A transferência da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 gerou a necessidade de transformar a capital colonial em uma moderna metrópole europeia. Sob a influência do Iluminismo tardio e das notícias que chegavam sobre as reformas de Pinel na França, a elite médica brasileira, que havia estudado sobretudo na França e em Portugal, começou a pressionar o poder público pela criação de espaços específicos para o tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1830, a criação da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (que viria a ser a [[Academia Nacional de Medicina]]) foi o marco institucional dessa pressão. Esse movimento político funcionou. O momento decisivo ocorreu em 18 de julho de 1841, quando o Imperador D. Pedro II, em comemoração à sua coroação, assinou o decreto de fundação do primeiro hospital psiquiátrico do Brasil e da América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Hospício de Pedro II, ou o Palácio dos Loucos (1852–1889) ===&lt;br /&gt;
Inaugurado apenas em 8 de dezembro de 1852, o [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)|Hospício de Pedro II]] era gerido pela Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, que por anos geriu grande parte da loucura brasileira. Seu provedor era o médico [[José Clemente Pereira]], que era responsável por todos os aspectos da instituição, desde os médicos até os administrativos. Embora a gestão administrativa fosse religiosa, o saber médico tinha muito espaço, com nomes como [[Manoel Feliciano Pereira de Carvalho]], que tentaram implementar o &amp;quot;tratamento moral&amp;quot; inspirado em Esquirol. Apesar dos esforços, muitos relatos de abusos e de condições precárias mostravam a dificuldade em implementar um modelo brasileiro de tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a Proclamação da República em 1889, o Hospício de Pedro II foi desvinculado da Santa Casa e renomeado como [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)]]. Este foi um período de maior laicização e pela busca por um maior rigor científico, o que não aconteceu por completo, em grande parte devido à falta de profissionais adequadamente treinados para a questão. Apesar disso, o Brasil já possuía uma cátedra de psiquiatria desde 1883, ocupada por João Carlos Teixeira Brandão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diante dos altíssimos custos em manter o Hospital, surgem as colônias agrícolas como alternativa ao confinamento urbano. Em 1884, já havia sido inaugurada a [[Colônia de São Bento]] e, em 1890, a [[Colônia de Conde de Mesquita]], na Ilha do Governador. A ideia era que o trabalho na terra poderia colaborar na cura, além de os produtos deste trabalho poderiam ser consumidos no local, ajudando na manutenção dos espaços. Apesar dessas transformações e de evidentes melhorias, os relatos de época mostram que não acontecia nenhuma das duas coisas, nem produção agrícola suficiente, nem um processo terapêutico efetivo, mas entendia-se que a colônia agrícola era melhor do que o confinamento do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Era Juliano Moreira ===&lt;br /&gt;
Em 1903, o médico baiano [[Juliano Moreira]] assume a direção do Hospital Nacional de Alienados. Negro, de origem humilde e dotado de uma erudição impressionante, ele revolucionou a assistência brasileira aos alienados, sendo reconhecido internacionalmente como um dos grandes psiquiatras de seu tempo. Ele se tornaria o principal médico alienista do Brasil, tornando-se referência para todo o país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Moreira aboliu definitivamente o uso de camisas de força e as grades nas janelas, num gesto que se assemelhava àquele de Pinel, enfatizando que o hospital era um local de tratamento e cura, e não uma prisão ou um depósito de indesejados. Além disso, ele trouxe para o Brasil a nosologia de Emil Kraepelin, um psiquiatra alemão considerado o pai da psiquiatria moderna, da psicofarmacologia e da genética psiquiátrica, o que seria uma modernização do modelo francês adotado até então. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a gestão Moreira ocorreram várias mudanças. Foi criado o [[Pavilhão Bourneville]] para crianças com deficiência intelectual. Além disso, fundou-se em 1921 o [[Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro]], o primeiro do país, sob a liderança de [[Heitor Carrilho]]. Dentro dos hospitais incentivou-se a pesquisa laboratorial e anátomo-patológica, o que também abriu espaço para a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A influência e o prestígio de Juliano Moreira se espalhou pelo Brasil. Em São Paulo, destacou-se a figura de [[Franco da Rocha|Francisco Franco da Rocha]], que fundou em 1898 o [[Hospital do Juquery]]. O Juquery, como ficou conhecido, tornou-se uma &amp;quot;cidade-asilo&amp;quot;, chegando a abrigar dezenas de milhares de pacientes em um modelo que mesclava pavilhôes médicos com imensas colônias agrícolas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste período, a psiquiatria brasileira flertou intensamente com as teorias da degenerescência (de Morel e Magnan) e com a eugenia. Médicos como [[Renato Kehl]], bem como a criação da [[Liga Brasileira de Higiene Mental]] (1923), uma organização higienista fundada por [[Gustavo Riedel]], começaram a ver a loucura não apenas como um problema individual, mas como um risco biológico à raça brasileira. A higiene mental passou a atuar preventivamente em escolas e fábricas, buscando identificar &amp;quot;pré-delinquentes&amp;quot; e &amp;quot;personalidades anormais&amp;quot;. Apesar de não ter conseguido desenvolver muitas políticas efetivas, os eugenistas brasileiros eram ativos e influentes em muitos círculos decisórios importantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A criação de hospitais não se limitou a São Paulo e Rio de Janeiro. Em  1903, o governo de Minas Gerais fundou o [[Hospital Psiquiátrico de Barbacena]], que mais tarde seria palco de uma das maiores tragédias humanitárias do país. Em Pernambuco, o [[Hospital Ulysses Pernambucano]] foi fundado pelo médico de mesmo nome, que começou a desenvolver uma psiquiatria mais voltada para o social e para a prevenção no final dos anos 1920. Hospitais na Bahia, Rio Grande do Sul, entre outros, também foram criados, seguindo o pioneirismo do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Era Vargas e além: o início do encarceramento ===&lt;br /&gt;
Com a Revolução de 1930, o projeto de nação de Vargas exigia um povo saudável e produtivo, devido à visão desenvolvimentista suportada pela Aliança Liberal, que o elegeu. A loucura deixou de ser apenas uma questão de ordem pública ou um aspecto da caridade para se tornar um problema de segurança nacional e de saúde pública. Em 1941, no âmbito do Estado Novo, foi criado o [[Serviço Nacional de Doenças Mentais (SNDM)]], substituindo o antigo modelo de assistência a alienados, que era fragmentado nas diferentes províncias. Dessa maneira, Vargas criou uma diretriz federal centralizada para a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a Liga Brasileira de Higiene Mental ganhou fôlego. O foco deslocou-se do hospital para a prevenção na sociedade. A psiquiatria não deveria se limitar aos hospitais, mas também atuar na escola, na fábrica e na família, buscando limpar a nação e extirpar o que chamavam de &amp;quot;elementos degenerados&amp;quot;. O médico Gustavo Riedel e seus sucessores defendiam que o Estado deveria intervir precocemente para evitar que o &amp;quot;anormal&amp;quot; se tornasse um fardo para a máquina pública.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi durante as décadas de 1930 e 1940 que o modelo de colônia agrícola, antes visto como terapêutico e de assistência à manutenção hospitalar, atingiu proporções industriais. O que se viu em Barbacena e em instituições como o Juquery em São Paulo, foi a transformação do hospital em, praticamente, um campo de concentração administrativo. A internação não dependia mais de um diagnóstico médico rigoroso, que na prática ainda era frágil e baseado em elementos pouco científicos. Bastava ser considerado &amp;quot;socialmente inconveniente&amp;quot; para correr-se o risco de ir parar numa instituições dessas. Assim, pobres, prostitutas, homossexuais, militantes políticos e mães solteiras eram enviados para essas instituições, onde a sobrevivência era a exceção. Estima-se que, no auge do descaso, o Hospital de Barbacena registrava um número alarmante de óbitos por frio, fome e doenças evitáveis, cujos corpos eram, por vezes, vendidos para faculdades de medicina. Situações similares aconteciam em outras instituições do tipo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tratamentos Brutais e os Modos de Resistência ===&lt;br /&gt;
Para além do horror asilar, o período entre 1930 e 1950 também foi marcado pela introdução de terapias biológicas drásticas, importadas da Europa, conhecidas como [[somatoterapias]]. Com uma psicofarmacologia pouco eficaz, os médicos buscavam &amp;quot;chacoalhar&amp;quot; o organismo, produzindo nele como um choque que pudesse restaurar a razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma dessas técnicas era a [[insulinoterapia]]. Introduzida na Europa pelo médico austríaco Manfred Sakel (1900–1957) em Viena, no início dos anos 1930, representou uma das primeiras e mais invasivas formas de somatoterapia. Originalmente destinada ao tratamento da [[esquizofrenia]], a técnica consistia na administração de doses maciças de insulina no paciente, provocando um estado de hipoglicemia profunda que levava o paciente ao coma. Na volta desse estado, se esperava que o indivíduo “restaurasse” a razão por conta do choque orgânico violento que havia vivenciado. O procedimento era extremamente perigoso e estava associado a uma alta taxa de mortalidade e morbidade devido às convulsões e aos possíveis danos cerebrais. Apesar dos riscos, o método foi amplamente adotado no mundo todo, incluindo o Brasil, onde foi usado em grandes instituições de confinamento, como o Hospital Nacional de Alienados (HNA), no Hospital Juquery, entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que passou a ser muito utilizada foi a [[Eletroconvulsoterapia]], ou simplesmente o eletrochoque. Introduzido no Brasil logo após sua invenção na Itália (1938), consiste em colocar eletrodos carregados com correntes elétricas em lados opostos, na lateral da cabeça, de modo que uma forte corrente elétrica atravessasse o cérebro. A duração e a intensidade podiam variar, mas relatos de mais de trinta minutos de choques violentos não eram incomuns. Sua brutalidade era tamanha que exigia que sua vítima fosse fortemente amarrada. Tornou-se uma ferramenta onipresente nos hospitais, muitas vezes aplicada sem anestesia e como método de punição, desvirtuando sua finalidade clínica já questionável e usada, basicamente, como ferramenta de tortura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que ingressou no Brasil nesse período foi a [[lobotomia]], um procedimento cirúrgico que consistia em apenas retirar um pedaço do cérebro do paciente. Eles foram realizados em larga escala em hospitais como o Juquery e no Hospital Pedro II, buscando a docilização de pacientes crônicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em oposição à violência do isolamento oferecido por essas instituições, surge a figura de [[Nise da Silveira]]. Em 1946, após ter sido presa pelo regime de Vargas por suas inclinações políticas, Nise assumiu o Setor de Terapêutica Ocupacional do [[Centro Psiquiátrico Nacional]] (Engenho de Dentro), no Rio de Janeiro. Ela se recusou a usar eletrochoques e lobotomias, introduzindo a arte e o afeto como mediadores da cura. Ela fundou o [[Museu de Imagens do Inconsciente (MIS)|Museu de Imagens do Inconsciente]] em 1952, onde demonstrou, através das pinturas e esculturas de pacientes como [[Arthur Bispo do Rosario]], que o louco preservava uma riqueza simbólica e uma humanidade que a psiquiatria tradicional tentava apagar. Sua colaboração com [[Carl Jung]] colocou a experiência brasileira no mapa da psicologia analítica mundial, provando que o tratamento em liberdade e através da expressão criativa era viável.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Criação da Indústria da Loucura ===&lt;br /&gt;
No final da década de 1950 e início da de 1960, durante o governo de Juscelino Kubitschek e o breve período democrático posterior, o Brasil viu o surgimento de uma nova e ainda mais perversa dinâmica: a Indústria da Loucura. A assistência psiquiátrica, antes quase totalmente pública ou baseada no assistencialismo das Santas Casas, começou a ser privatizada. Com o crescimento dos institutos de previdência (IAPs), o Estado passou a pagar hospitais privados por dia de internação. Isso criou um incentivo perverso: quanto mais tempo o paciente ficasse internado e quanto menos recursos fossem gastos com ele, maior o lucro das clínicas privadas. Esse modelo, conhecido como &amp;quot;hospitalocêntrico&amp;quot;, inchou o sistema e preparou o terreno para a política de contenção social que seria radicalizada após o golpe de 1964. Foi um momento de multiplicação da brutalidade. Pouco importava a loucura ou não, o tratamento ou não, a eficácia ou não. O que importava era lucar com o dinheiro estatal por meio de um encarceramento fácil de impor e praticamente impossível de escapar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A coisa se aprofundou ainda mais com o golpe militar, que unificou em 1966 os Institutos de Aposentadoria e Pensões no INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), produzindo uma centralização gigantesca de recursos, com um modelo de privatização quase total. A psiquiatria, por ser uma especialidade cuja formação exigia baixo investimento tecnológico quando comparada a outras como a cirurgia, cardiologia ou oncologia, permitia grandes lucros com as internações de longa permanência. Assim, trancafiar e atormentar os loucos tornou-se o setor mais atraente para o empresariado da saúde.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de pessoas possivelmente diagnosticadas, o sistema era alimentado pelo encarceramento de militantes políticos, estudantes rebeldes, pessoas em situação de rua,  mendigos, homossexuais, indivíduos com comportamentos &amp;quot;desviantes&amp;quot; da moral tradicional, dependentes químicos, alcoólatras ou mesmo pessoas “problemáticas” da família, que se recusavam, por exemplo, a participar de casamentos arranjados, que denunciavam violência sexual sofrida ou eram apenas mulheres que haviam engravidado antes do casamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As instituições privadas multiplicaram-se pelo interior do país, longe dos olhos da fiscalização e dos centros urbanos. Instaladas em locais de difícil acesso, facilitava o ocultamento de violações de direitos humanos e ainda utilizava da conivência dos governos locais. As populações dessas localidades, crentes no saber médico, dificilmente desconfiavam do que poderia acontecer dentro dessas instituições e, quando vazavam denúncias, elas rapidamente podiam ser facilmente manejadas em conluio com os poderes locais. A loucura tornou-se um negócio de massa, com o abrigo precário de centenas de pessoas em galpões, onde a única &amp;quot;terapia&amp;quot; era a contenção química por sedativos baratos ou o uso indiscriminado do eletrochoque para manter a ordem além, é claro, da violência e brutalidade de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Luta Antimanicomial ==&lt;br /&gt;
No final da década de 1970, o modelo de saúde mental começou a dar sinais de exaustão, tanto financeira quanto ética. O Estado já não conseguia arcar com os custos crescentes de um sistema que só expandia o número de crônicos, e as denúncias de maus-tratos começaram a furar o bloqueio da censura, aparecendo em jornais mais prestigiados e em espaços mais amplos do debate social. O estopim para a o início do movimento da reforma psiquiátrica no Brasil começa com uma crise na [[Divisão Nacional de Saúde Mental (DINSAM)]], que havia recebido denúncias de irregularidades no Centro Psiquiátrico Pedro II, no [[Hospital Pinel]], na [[Colônia Juliano Moreira]] e no [[Manicômio Judiciário Heitor Carrilho]]. A denúncia foi acompanhada de uma greve por parte dos funcionários, que exigiam melhorias institucionais e questionavam irregularidades trabalhistas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É dessa crise que surge o [[Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM)]] que, nesse primeiro momento, estão mais preocupados com questões trabalhistas do que com o problema da própria prática psiquiátrica, que vai caracterizar parte dos movimentos antimanicomiais posteriormente. O MTSM se fortalece e consegue espaço no extremamente conservador [[V Congresso Brasileiro de Psiquiatria]], que ocorre em 1978, no que fica conhecido como “congresso da abertura”, num período também de abertura política com o iminente fim do regime militar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda em 1978, um grupo importante de intelectuais vinculados às bases teóricas do [[Movimento Antimanicomial]] participa do [[I Congresso Brasileiro de Psicanálise de Grupos e Instituições]], incluindo [[Franco Basaglia]], [[Felix Guattari]], [[Robert Castel]] e [[Erwin Goffman]], todos eles de grande inspiração e influência para o movimento antimanicomial brasileiro. No ano seguinte, o [[I Congresso Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental]] fortalece a contextação não apenas de problemas trabalhistas, mas do próprio modelo asilar e da forma como a psiquiatria intervinha e oprimia a população marginalizada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação público-privada que alimentava o modelo até então começa a ruir em 1980, com a chamada política da co-gestão interministerial. Nela, um convênio celebrado entre o Ministério da Previdência e Assistência Social com o Ministério da Saúde liquida a &amp;quot;Unidade de Serviço&amp;quot;, a política que permitia a contratação privada de serviços psiquiátricos e que representou o triunfo do público sobre o privado. Membros do MTSM passam a integrar a gestão do atendimento em saúde mental que, por dentro do aparato estatal, começam a implementar uma política de saúde pública baseada em prestação de serviços, cooperação, descentralização e regionalização, propostas que já eram defendidas pelos reformadores. Apesar desses avanços, críticos afirmam que a política de co-gestão apenas visava reformar os serviços, não atingindo o âmago da questão, que seria desconstruir o próprio paradigma psiquiátrico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo de desinstitucionalização de fato começa em 1985, ano marcado pelo fim da Ditadura Militar e pela realização de vários eventos que aprofundam o debate sobre a situação do atendimento. A [[I Conferência Nacional de Saúde Mental]] marca o início da desinstitucionalização devido aos conflitos entre o MTSM, a ABP e grupos não-organicistas que passaram a dirigir o DINSAM. Na conferência, consagrou-se uma reviravolta na perspectiva com a consolidação do lema &amp;quot;por uma sociedade sem manicômios&amp;quot;, rompendo com a lógica tanto privatista quanto estatista e questionando o próprio modelo psiquiátrico tradicional. Este passou a ser amplamente entendido como fenômeno cultural que promove o tratamento moral e o controle dos corpos, uma visão abertamente basagliana e antimanicomial. Alguns entendem que, nesse momento, a tradição anti-institucional que originou os primeiros questionamentos na década de 1970 foi restaurada e fortalecida. Após a Conferência, o próprio MTSM se renovou, se desatrelando do Estado, retomando sua independência e seu papel de transformação social.  A mudança do movimento se consolidou no [[II Congresso Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental]], quando a noção de racionalização e modernização dos serviços que havia caracterizado o período da co-gestão foi recusado em nome de uma pauta anti-institucional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em meados dos anos 1980 começam a surgir novos modelos de atenção à saúde que poderia substituir o modelo psiquiátrico. Em São Paulo é criado o primeiro [[Centro de Atenção Psicossocial (CAPS)]], em 1987. Em Santos, surge o [[Núcleo de Atenção Psicossocial (NAPS)]], em 1989. Estes serviços passaram a ser vistos como os modelos para uma contestação profunda dos manicômios, justificando seu encerramento. Já na década de 1990, o SUS introduziu mecanismos de fiscalização e auditoria que começaram a sufocar financeiramente os asilos privados que não cumpriam níveis mínimos de dignidade. Portarias históricas do Ministério da Saúde, inspiradas na [[Declaração de Caracas (1990)]], passaram a proibir a criação de novos leitos psiquiátricos asilares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após mais de uma década de tramitação e intensos debates no Congresso Nacional, como fruto dos embates históricos iniciados na crise do DINSAM e que atravessaram debates públicos extremamente imporantes, foi promulgada a Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001, que ficou conhecida como [[Lei da Reforma Psiquiátrica]] ou Lei Paulo Delgado, seu autor. Esta legislação se tornou o marco jurídico definitivo da virada assistencial no Brasil. A lei instituiu o direito do paciente de ser tratado em ambiente terapêutico o menos restritivo possível e colocou a internação psiquiátrica como último recurso possível. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para preencher o vazio deixado pelo fechamento dos grandes hospitais, o SUS estruturou a [[Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)]], formalizada na década seguinte pela Portaria nº 3.088 de 2011. A RAPS organizou o cuidado em diferentes níveis de complexidade, com os CAPS divididos nas modalidades CAPS I, II, III, CAPSi  e CAPS AD e, por fim, os [[Serviços de Residência Terapêutica (SRT)]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, a luta continua devido a retrocessos observados na segunda metade da década de 2010 e início dos anos 2020. Mudanças nas diretrizes da Política Nacional de Saúde Mental tentaram reintroduzir a centralidade do hospital psiquiátrico e incentivaram o uso de práticas baseadas no isolamento. Além disso, o governo federal passou a financiar massivamente as chamadas [[Comunidades Terapêuticas]], instituições de caráter predominantemente privado e religioso voltadas ao acolhimento de usuários de drogas, de onde emanam graves denúncias de todos os tipos de violação dos direitos humanos e que representam um evidente retrocesso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje, o campo da saúde mental no Brasil vive um embate profundo entre duas visões. De um lado, aqueles que lutam pela consolidação da RAPS, em defesa da clínica da subjetividade, da defesa dos direitos humanos, pela redução de danos e pela inserção social pelo trabalho e pela cultura. Do outro lado observa-se a persistência do &#039;&#039;lobby&#039;&#039; asilar e de setores que buscam a mercantilização do cuidado, por meio do encarceramento, da medicalização extrema do sofrimento psíquico, da higienização dos centros urbanos e do recolhimento dos indesejáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
ARBEX, Daniela. &#039;&#039;&#039;Holocausto brasileiro&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Geração Editorial, 2013.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BASAGLIA, Franco. &#039;&#039;&#039;A instituição negada&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Graal, 1985.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BIRMAN, Joel. &#039;&#039;&#039;A physis da arte&#039;&#039;&#039;: Deleuze e a clínica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CAMPOS, Gastão Wagner de Sousa. &#039;&#039;&#039;Tratado de saúde coletiva&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Hucitec, 2006. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CASTEL, Robert. &#039;&#039;&#039;A ordem psiquiátrica&#039;&#039;&#039;: a idade de ouro do alienismo. Rio de Janeiro: Graal, 1978.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
COSTA, Jurandir Freire. &#039;&#039;&#039;Violência e psicanálise&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Graal, 1986.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
COSTA, Jurandir Freire. &#039;&#039;&#039;História da assistência psiquiátrica no Brasil&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Garamond, 2007. &lt;br /&gt;
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DALGALARRONDO, Paulo. &#039;&#039;&#039;Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais&#039;&#039;&#039;. Porto Alegre: Artmed, 2018. &lt;br /&gt;
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ENGEL, Magali. &#039;&#039;&#039;Os delírios da razão&#039;&#039;&#039;: médicos, loucos e hospícios (Rio de Janeiro, 1830-1930). Rio de Janeiro: Fiocruz, 2001&lt;br /&gt;
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OLIVEIRA, William Vaz de. A fabricação da loucura: contracultura e antipsiquiatria. História, Ciências, Saúde-Manguinhos, v. 18, p. 141-154, 2011.&lt;br /&gt;
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[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1703</id>
		<title>História da loucura: da Grécia antiga à luta anti-manicomial</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1703"/>
		<updated>2026-07-04T17:40:38Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* O I Congresso Internacional de Psiquiatria */ Várias modificações substanciais&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto com finalidade didática, escrito por André Elias Morelli Ribeiro para o curso de Psicologia do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras. Seu uso é aberto, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Introdução ==&lt;br /&gt;
A história da loucura é, ao mesmo tempo, uma narrativa sobre o modo como diferentes sociedades compreenderam a mente humana e uma reflexão sobre os mecanismos de poder que moldaram práticas de exclusão, cuidado e resistência vinculados às diferentes formas que diferentes grupos humanos entenderam como loucura ou algo similar, conforme uma visão ampliada contemporânea. Este material inicia na Grécia antiga e chega até o movimento antimanicomial no Brasil e, ao longo deste trajeto, pode-se observar como a loucura foi interpretada ora como intervenção divina, ora como desvio moral, ora como doença fisiológica, ora como ameaça social. Cada época construiu suas próprias respostas àquilo que considerou loucura que variaram entre a integração comunitária, o confinamento, o tratamento brutal e a busca por tratamentos médicos ou espirituais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, a trajetória seguiu de perto os modelos europeus. Do Hospício de Pedro II às colônias agrícolas, passando pela gestão de Juliano Moreira, a psiquiatria nacional oscilou entre avanços humanitários e práticas de exclusão. O período Vargas e o Estado Novo intensificaram o encarceramento, transformando hospitais em verdadeiros campos de concentração administrativos. As décadas seguintes viram a adoção de terapias brutais, como eletrochoques e lobotomias, mas também o surgimento de movimentos de resistência, como o trabalho de Nise da Silveira, que introduziu a arte e o afeto como caminhos de cura, ou a emergência de questionamentos ao modelo psiquátrico manicomial. A partir dos anos 1960, a privatização da assistência psiquiátrica gerou a chamada “Indústria da Loucura”, marcada por internações lucrativas e violações sistemáticas de direitos humanos que marcaram profundamente a forma como se entende a loucura contemporaneamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em síntese, o percurso histórico apresentado aqui mostra que a loucura nunca foi apenas um fenômeno clínico mas, antes, um espelho das sociedades, revelando seus medos, suas crenças e suas formas de organizar o convívio humano. De sagrada a temida, de medicalizada a mercantilizada, apresenta-se e se discute como surgiram vozes e práticas que reivindicaram humanidade e liberdade para os considerados loucos.&lt;br /&gt;
== As Loucuras no Mundo Antigo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Grécia antiga ===&lt;br /&gt;
Na Grécia antiga, em certo momento a loucura era considerada uma intervenção dos deuses e, como os gregos era politeístas, a varidade de formas de loucura e os modos de intervenção também era bem grande. A loucura poderia ser vista, por exemplo, como uma punição. É o caso do herói Ajax, filho de Telamão. Após a morte de Aquiles, a armadura do herói foi dada a Odisseu, e a afronta levou Ajax a um estado de fúria e ressentimento. A deusa Atena, intervindo em favor de Odisseu para proteger os Aqueus da vingança de Ajax, lançou sobre ele uma cegueira mental. Tomado pela loucura, Ajax massacrou o gado de guerra que havia sido capturado, acreditando que estava matando os líderes aqueus, incluindo Odisseu e Agamenon. Ao recobrar a sanidade e perceber seu ato vergonhoso, cometeu suicídio devido à humilhação. Essa cena ilustra a loucura como uma intervenção divina direta na forma de loucura poderia ser vista como destrutiva e extremamente negativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em outros episódios da mitologia grega, a loucura surge como uma consequência direta de traumas e da perseguição implacável por vingança. Um exemplo é o de Orestes que, após assassinar sua mãe, Clitemnestra para vingar a morte de seu pai, Agamenon, passa a ser atormentado pelas Erínias. Essas divindades da vingança, também conhecidas como Fúrias, levaram o herói a um estado de delírio e desespero profundo, personificando a tortura psicológica e a perda da razão como uma forma de acerto de contas espiritual e moral pelo matricídio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura não era unicamente um flagelo ou uma punição. Os gregos  viam a mania, um termo que hoje engloba a loucura, em uma perspectiva dual. Na sua manifestação mais elevada, era considerada uma benção ou inspiração divina. Essa visão positiva estava profundamente ligada ao culto de Dionísio, o deus do vinho, do teatro e do êxtase. Nos rituais dionisíacos, as bacantes e outros seguidores buscavam o êxtase, que é, literalmente, &amp;quot;sair de si&amp;quot;, por meio da dança frenética, música e consumo de vinho, o que era percebido como um estado de comunhão direta e inspirada com a divindade. Longe de ser destrutiva, essa forma de loucura era vista como uma fonte de criatividade, revelação e poder, sendo um caminho para a verdade profética e como expressão artística ligada a Dionísio. Este conceito de mania inspirada também se estendia a outros domínios, como a profecia dos oráculos, que eram vinculados à adoração ao deus Apolo, e mesmo a poesia, onde a perda temporária da razão humana era interpretada como a mente sendo tomada por uma força divina que trazia algum tipo de inspiração superior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em certo momento, ainda na Grécia antiga, as ideias sobre a loucura - ou algo que pareça loucura aos olhos contemporâneos - foi modificada graças a Hipócrates, o pai da medicina. A visão de [[Hipócrates]] marcou uma transição crucial para o entendimento da loucura na Grécia Antiga, pois afastou a loucura das concepções divinas e sobrenaturais para uma explicação puramente fisiológica e natural. Ele desenvolveu a [[Teoria dos Quatro Humores]], que se tornou o pilar da medicina ocidental por séculos. Segundo essa teoria, o corpo humano era composto por quatro fluidos essenciais (ou humores), que são sangue, fleuma, bile amarela e bile negra. A saúde mental e física dependia do equilíbrio harmonioso desses humores. A loucura, ou qualquer doença mental, era, portanto, interpretada como o resultado de um desequilíbrio, como o excesso de bile negra causando a melancolia (depressão), ou o desarranjo da fleuma e da bile amarela, que poderiam levar a estados de mania e frenesi. Com isso, Hipócrates postulou que a loucura não era uma maldição dos deuses, mas sim uma doença com origem no corpo. Essa abordagem naturalista permitiu que a loucura passasse a ser tratada com métodos como dietas, exercícios e remédios, no lugar de rituais religiosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tradição bíblica ===&lt;br /&gt;
Na tradição bíblica, escrita em contextos e culturas não europeias, a loucura também é frequentemente retratada como uma forma de intervenção ou punição divina. Um dos episódios mais emblemáticos é a história do rei Nabucodonosor II, relatada no Livro de Daniel. De acordo com o texto, devido ao seu orgulho excessivo e sua recusa em reconhecer a soberania de Deus, o rei foi acometido por uma forma de loucura que o levou a viver como um animal, alimentando-se de ervas e deixando seus cabelos e unhas crescerem sem controle. Na psicologia moderna, esse estado em que um indivíduo acredita ter se transformado em um animal é conhecido como licantropia clínica, uma condição rara. A loucura, conforme emerge na descrição bíblica, emerge ligada à perda da razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, a tradição bíblica também apresenta um paradoxo. No Novo Testamento, cujos livros foram escritos no contexto do mundo greco-romano, o que é considerado &#039;loucura&#039; pelos homens revela-se a suprema sabedoria divina. Essa ideia é desenvolvida pelo apóstolo Paulo em sua Primeira Carta aos Coríntios. Na passagem, ele afirma: &#039;Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens&#039; (1 Coríntios 1:25). Paulo usa o termo &#039;&#039;moria&#039;&#039; (loucura, tolice) para contrastar a sabedoria humana que, na época do texto, era representada pela filosofia e retórica grega. A mensagem da cruz parecia ilógica e insensata aos olhos dos não cristãos, que debochavam do fato do messias ter sido capturado e morto pelos romanos. Assim, a loucura deixa de ser apenas uma punição para se tornar uma lente através da qual a verdadeira sabedoria, ou seja, a salvação, é revelada, invertendo a hierarquia de valores do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Pérsia ===&lt;br /&gt;
Na Pérsia, a visão da loucura e do comportamento irracional foi moldada por seu profundo dualismo religioso e, posteriormente, pelas tradições islâmicas que se seguiram à conquista árabe. O zoroastrismo, a antiga religião persa fundada por Zoroastro (Zaratustra), transformou o politeísmo em um dualismo cósmico centralizado no conflito eterno entre Ahura Mazda (Ormazd), o criador da vida, luz e verdade, e Angra Mainyu (Ahriman), a escuridão e a mentira. Neste cenário, o mundo material é o campo de batalha entre os dois. Ahriman buscava corromper tudo o que Ormazd havia criado. Embora o texto não defina a loucura diretamente, o comportamento irracional e a desrazão poderiam ser facilmente associados ao domínio de Ahriman e à mentira (&#039;&#039;druj&#039;&#039;), enquanto a sanidade e a pureza eram atributos de Ormazd. A batalha contra essa corrupção exigia que os adoradores de Ormazd permanecessem verdadeiros e evitassem poluir o fogo e a terra sagrada, indicando que a pureza mental e ritual era uma defesa contra as forças do mal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Islã ===&lt;br /&gt;
Na cultura islãmica, de forma geral e bastante resumida, o comportamento considerado irracional era frequentemente explicado pela crença nos &#039;&#039;djinn&#039;&#039;, espíritos errantes que habitavam o deserto e certos lugares considerados místicos e que podiam invadir a mente humana, causando o que a sociedade ocidental moderna chamaria de insanidade ou, talvez, distúrbio emocional. Nesses casos, o tratamento era o exorcismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na era clássica da medicina islãmica, ganhou força a tradição galênica, que atribuía as perturbações mentais a desequilíbrios nos quatro humores corporais (sangue, fleuma, bile amarela e bile negra). Médicos proeminentes rejeitaram a ideia de que a loucura fosse exclusivamente uma possessão demoníaca, tratando-a como uma patologia de base orgânica ligada ao cérebro. Avicena dedicou seções extensas a transtornos como a melancolia, o delírio e a mania. Ele descreveu detalhadamente como o excesso de bile negra afetava as faculdades cognitivas e imaginativas do cérebro, propondo tratamentos que incluíam dieta, banhos térmicos, massagens, sangrias reguladas e o uso de fitoterápicos, semelhante à tradição grega mais tardia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período medieval, o mundo islâmico desenvolveu os bimaristans (hospitais), que funcionavam como centros de tratamento médico gratuito, financiados por dotações religiosas (&#039;&#039;waqf&#039;&#039;). O objetivo era restaurar o equilíbrio do espírito e dos humores através de estímulos ambientais positivos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura também apareceu em narrativas culturais associadas aos povos, de forma a sugerir causas e curas mais mundanas. O famoso conto persa de As Mil e Uma Noites, cuja origem é indo-persa mas que foi sedimentada na cultura islãmica, relata a história do rei Shahriyar, que, convencido da inevitável traição feminina, cai em uma loucura paranóica que o leva a se casar com uma virgem todas as noites e, pela manhã, assassiná-la. Sua &amp;quot;cura&amp;quot; é alcançada através da engenhosidade e paciência humana por meio de uma dessas esposas, Scheherazade, que usa a arte de contar histórias para retardar sua execução por &amp;quot;mil e uma noites&amp;quot;, período em que sua paranoia é gradualmente desfeita. A história sugere que a narrativa e o tempo podem curar a loucura causada por trauma psicológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As Loucuras na Idade Média ==&lt;br /&gt;
A transição para a Idade Média é marcada pelo colapso do Império Romano do Ocidente (476 d.C.), que trouxe profundas transformações políticas e sociais. O fim do governo centralizado romano levou à fragmentação do poder e ao surgimento do sistema feudal, onde a administração das terras e a autoridade passaram para as mãos de senhores locais, muitos deles antigos oficiais romanos. Este período também é caracterizado por um notável declínio na vida urbana e nos grandes centros intelectuais. O colpaso das instituições romanas deu lugar à ascensão e consolidação da única instituição internacional grande e organizada que havia sobrado, a Igreja Católica, que se tornou a principal forma de organização política, social e cultural. Houve ainda uma perda gradual da tradição cultural greco-romana por diferentes razões e, consequentemente, um afastamento das explicações naturalistas de Hipócrates, com exceção do pequeno renascimento do século XII e retomadas pontuais da sabedoria grega. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a hegemonia da Igreja Católica, a loucura tendeu a ser novamente interpretada sob uma lente teológica, sendo vista como uma manifestação de forças sobrenaturais ou desvios morais. Nesse contexto, certas vezes a loucura era interpretada como a intervenção de Satanás ou como possessão demoníaca, exigindo rituais de exorcismo para a cura. Em outros momentos, era vista como uma prova espiritual enviada por Deus ou como um efeito direto do pecado na alma do indivíduo. Havia também explicações que a tratavam como uma fragilidade da vontade humana, como no caso do que chamaríamos hoje de compulsões, misturando elementos da antiga tradição grega com aspectos da teologia cristã. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Socialmente, a gestão da loucura na Idade Média também passou por diferentes fases e transformações, dependendo do local e da época. Havia casos em que os considerados loucos eram apenas torturados e trancafiados, métodos considerados eficazes para expulsão de espíritos malignos, por exemplo. Contudo, em muitos outros casos, os considerados loucos conviviam de forma mais ou menos harmoniosa com o resto da comunidade, a depender de suas capacidades e possibilidades, e certos “desvios” eram perdoados devido à sua condição peculiar, sem a necessidade imediata de uma exclusão radical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Nau dos Loucos ===&lt;br /&gt;
Um caso notável e emblemático da gestão da loucura nesse período é a [[Nau dos Loucos]] (&#039;&#039;Stultifera Navis&#039;&#039;), conforme trabalhado por [[Michel Foucault]]. Anteriormente ao modelo de exclusão-repressão que viria a se consolidar na Idade Clássica, a loucura viveu o que se pode chamar de seus &amp;quot;dias de glória&amp;quot; na transição para a Renascença. Nesse contexto, o louco poderia ser visto como um sábio, um místico, um tolo ou simplesmente um excêntrico que estava, de certa forma, integrado ao tecido social.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Nau dos Loucos, que circulavam no Vale do Rio Reno (partes da Alemanha, França Suíça e Países Baixos) simbolizava uma existência errante, onde o louco era confiado à água e ao navio para ser levado de uma cidade a outra, mantendo-o em um estado de exclusão simbólica, mas ainda assim em movimento e circulação. Para Foucault, essa experiência trágica da loucura permitia que o insano portasse uma forma de lucidez em sua insensatez, revelando verdades que a razão comum não ousava enunciar. O louco via através das ilusões mundanas, aproximando-se de uma verdade profética ou ética que seria progressivamente silenciada nos séculos seguintes pela ascensão do saber médico e da racionalidade científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Santa Dimpna e Geel ===&lt;br /&gt;
Outro acontecimento relevante da Idade Média para a compreensão da loucura é o episódio de [[Santa Dimpna]]. Nascida no século VII na Irlanda, ela era filha de um rei pagão e de uma mãe cristã devota, de quem herdou sua fé e pela qual decidiu fazer votos de castidade. Após a morte prematura da mãe, seu pai, mergulhado em um profundo luto, decidiu que Dimpna era a única mulher com beleza comparável à da falecida rainha e insistiu em se casar com a própria filha, o que seria considerado escandaloso também para aquela cultura. Horrorizada e e alvo de uma perseguição incestuosa, Dimpna fugiu da Irlanda acompanhada de seu confessor, o padre Gereberno, e de dois servos fiéis. O grupo cruzou o mar e estabeleceu-se em [[Geel]], um minúsculo vilarejo na atual Bélgica, onde Dimpna se dedicou ao cuidado dos pobres e doentes mentais. No entanto, o rei conseguiu encontrá-los e, após a recusa de Dimpna tanto em retornar para a Irlanda quanto se casar com o pai, ordenou a execução de Gereberno, enquanto ele mesmo decapitou a filha, tornando a menina de 15 anos de idade numa mártir cristã. Após sua morte, relatos de curas milagrosas de pessoas com distúrbios mentais e epilepsia começaram a ocorrer junto ao seu túmulo, o que a tornou a padroeira dos doentes mentais. Já o local converteu-se num espaço de peregrinação ligado à questão da saúde mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O legado de Santa Dimpna em Geel deu origem a um modelo para a psiquiatria moderna pois, devido à devoção e adoração à Santa Dimpna, a cidade transformou-se em um santuário onde os pacientes não eram trancafiados, mas acolhidos em lares de famílias locais como &amp;quot;hóspedes&amp;quot;. Esse sistema de cuidado comunitário e desinstitucionalização, que persiste há séculos, é considerado um dos precursores do tratamento humanizado e da reabilitação psicossocial na saúde mental contemporânea.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Idade Clássica: a nova era da loucura encarcerada ==&lt;br /&gt;
A partir do século XVII, um período em que o filósofo Michel Foucault denominou como &amp;quot;A Época Clássica&amp;quot;, a forma de entender e lidar com a loucura passa por uma nova mudança devido ao ingresso da razão como centro e alma do pensamento europeu, em substituição ao dogmatismo religioso e ao conhecimento da igreja. Esta mudança não é brusca, mas lenta e gradual, porém suas marcas serão duradouras e serão sentidas por quase toda a Europa. Para essa nova e nascente razão, a loucura seria seu oposto direto. Se o homem era definido pela sua capacidade racional e sua utilidade produtiva, o louco era, portanto, como um &amp;quot;não-homem&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a solução para a não-razão era a internação, que não buscava a cura, mas a neutralização do irracional. O silenciamento da loucura era necessário para que a ordem social pudesse florescer. Os campos e cidades deveriam ser espaços de circulação de mercadorias pelas mãos de cidadãos produtivos, e qualquer elemento que atrapalhasse essa dinâmica deveria ser guardado em instituições que funcionavam como uma guarda contra o risco social que tais pessoas ofereciam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Relatos da época descrevem cenários terríveis sobre as condições de internação dos loucos. Os internos eram frequentemente mantidos em celas úmidas e insalubres, muitas vezes acorrentados às paredes. O uso de chicotes e outras punições corporais era justificado pela crença de que o louco, por ter perdido a razão, teria a resistência física de um animal, não sentindo frio ou dor da mesma forma que uma pessoa &amp;quot;normal&amp;quot;. Além disso, as instituições funcionavam sob uma lógica de vigilância constante. Não se tratava de observar para entender a mente, mas para garantir que o corpo anormal permanecesse contido e, no máximo possível, docilizado. Foi dentro desse ambiente de absoluta degradação e mistura indiscriminada de diferentes &amp;quot;tipos&amp;quot; de desviantes que a consciência médica começou a germinar, ainda que de forma incipiente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== França ===&lt;br /&gt;
O ano de 1656 marca um divisor de águas simbólico para o modelo de confinamento asilar no mundo todo, com a criação do Hôpital Général (Hospital Geral) em Paris, por um edito real do rei Luís XIV. É importante entender que um hospital geral deste período não é como um hospital moderno, ou seja, uma instituição de saúde voltada para a compreensão da doença e a prática do tratamento e cura. Ele estava mais próximo de uma estrutura administrativa e, de certo modo, semi-judiciária. Isso ocorria porque o interesse não estava em “curar” ou “tratar” ninguém mas, antes disso, executar o interesse do Estado de &amp;quot;limpar&amp;quot; as ruas de Paris de tudo o que era considerado improdutivo ou escandaloso. Era um período de abundância material, grandes gastos estatais e de uma imensa riqueza do império colonial francês, e desvios nessa ordem eram vistos como perigosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes tais hospitais gerais eram confinados, todos juntos, grupos totalmente diferentes, tais como pobres, mendigos, desempregados, libertinos, prostitutas, alquimistas, opositores políticos e, claro, também os considerados loucos. Em suma, tratava-se de um depósito de indesejados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que começou em Paris se tornou um modelo para outros lugares sobre como fazer a gestão da miséria e da “desrazão”, num forte deslocamento do que se via na Idade Média, com muitas experiências de integração social. O louco, antes tendo algo de profético, místico ou talvez apenas uma excentricidade da vida medieval campesina, se torna uma questão político-administrativa. Essa mudança importante marca uma migração para a possibilidade de institucionalização daquilo que era considerado errante ou, de alguma forma, desagradável e, assim passível de ser alvo de uma forma de gestão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em Paris, as duas principais unidades do Hospital Geral se tornaram emblemáticas e simbólicas. A [[Salpêtrière]], que era destinada às mulheres, e o hospital [[Bicêtre]], destinado aos homens. Ambas as instituições não ofereciam qualquer forma de tratamento. Eram basicamente depósitos humanos, onde o louco poderia acabar acorrentado ao lado de criminosos, por exemplo. O critério de internação não era o diagnóstico clínico, mesmo porque simplesmente ele nem existia, mas a incapacidade de se ajustar às normas de trabalho e à moralidade da época.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Alemanha ===&lt;br /&gt;
Na Alemanha, com a ideia de que o ócio era inaceitável, as leis determinavam o trancafiamento de qualquer pessoas considerada louca, perigosa e incapacitada para o trabalho. Nesse contexto, surgiram as &#039;&#039;Zuchthäusern&#039;&#039;, que seriam as [[Casas de Correção (Zuchthäusern)|Casas de Correção]]. Cidades como Hamburgo e Bremen estabeleceram esses locais onde a loucura era tratada através do trabalho forçado. Eles acreditavam que o ócio era a raiz do mal e que o confinamento e o trabalho forçado eram úteis para reintegrar o indivíduo à lógica da produtividade. Para os loucos, acreditava-se que o trabalho mecânico, repetitivo e exaustivo tinha o poder de &amp;quot;disciplinar a mente animalizada&amp;quot;, submetendo a vontade rebelde ou caótica do insano à razão e à ordem. Não era um trabalho, contudo, inútil, pois esta mão de obra foi utilizada até mesmo na produção de uniformes militares. Os loucos considerados totalmente impossíveis de docilizar eram simplesmente trancafiados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Inglaterra ===&lt;br /&gt;
Na Inglaterra, o sistema das Workhouses (Casas de Trabalho) cumpria um papel semelhante ao modelo alemão. No entanto, Londres já possuía o [[Bethlem Royal Hospital (Bedlam)|Bethlem Royal Hospital]], conhecido popularmente como Bedlam. No século XVII e XVIII, Bedlam se tornou um espetáculo de horror, onde o público podia pagar para observar os internos como se fossem animais em um zoológico. A loucura agora um objeto de uma forma de exibição degradante e mantida atrás de grades e ferros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Portugal ===&lt;br /&gt;
Em Portugal a gestão dos &amp;quot;desviantes&amp;quot; recaiu fortemente sobre as Santas Casas da Misericórdia. O [[Hospital Real de Todos-os-Santos]], fundado em Lisboa em 1492 e inaugurado em 1501, se tornou o epicentro do tratamento (ou confinamento) dos loucos no país. Dentro deste hospital, existiam as chamadas &amp;quot;[[Casas de Doidos]]&amp;quot;, destinados àqueles que haviam “perdido a luz da razão”. Seguindo o padrão europeu, o hospital não separava rigidamente o louco por diagnóstico. Eles dividiam espaço com indigentes e enfermos de diversas naturezas, embora as &amp;quot;casas de doidos&amp;quot; fossem áreas de maior isolamento devido à agitação dos internos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XVIII português, a internação era, acima de tudo, uma solução para a mendicância e, por vezes, para o alcoolismo. O louco oriundo de uma família com posses era mantido nas próprias casas, muitas vezes escondido em sótãos ou anexos e até mesmo acorrentados. Já o &amp;quot;louco pobre&amp;quot;, que não poderiam ser cuidados por seus familiares, acabava nos hospitais reais ou mesmo nas cadeias, a depender de uma série de fatores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Nascimento da Psiquiatria ==&lt;br /&gt;
=== Pinel e a criação da psiquiatria nosográfica ===&lt;br /&gt;
É na virada do século XVIII para o XIX que nasce a psiquiatria como um campo autônomo do saber e da prática médica. Esta mudança fundamental é protagonizada por duas figuras centrais da medicina francesa: [[Philippe Pinel]] e seu discípulo, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]]. Juntos, eles transformaram o hospital de depósito de insanos e indesejáveis em um verdadeiro hospital, em que o louco e o alienado poderiam receber um tratamento racional e científico, em substituição às correntes, à disciplina e ao silenciamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A emergência da psiquiatria como campo autônomo teve como fundamento científico inicial a observação clínica sistemática dentro do asilo. Este era concebido como um laboratório, onde o alienista poderia estudar a loucura em seu estado puro, separada das influências do mundo exterior. A principal questão científica e prática que justificava essa nova ciência era desenvolvida e aplicada de forma sistemática, e denominava-se nosografia ou diagnóstico. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pinel, em seu [[Index.php?title=Traité médique-philosophique sur l&#039;aliénation mentale, ou la manie|Traité médique-philosophique sur l&#039;aliénation mentale, ou la manie]], de 1801, classificou a loucura com base em critérios sintomatológicos, seguindo um procedimento comparativo semelhante ao das ciências naturais. O desafio central, que persistiria ao longo do século XIX, era a ambiguidade constante entre a busca por uma sede orgânica, ou seja, um “local físico-biológico” da loucura, junto da necessidade de uma regulação de caráter moral. O tratamento apoiava-se na moralidade para combater as causas que eram, elas próprias, consideradas morais, mas algo estava também no corpo do doente. Isso mostra que a nova psiquiatria de Pinel era a mistura de medicina com moralidade. Este enfoque resultou na valorização do exame clínico pelos psiquiatras francófonos, permitindo a união da observação clínica com a formulação de hipóteses.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1793, em meio ao fervor da Revolução Francesa, Philippe Pinel foi nomeado médico-chefe do Hospital de Bicêtre e, posteriormente, da Salpêtrière. O cenário que encontrou era o ápice do &amp;quot;Grande Enclausuramento&amp;quot;, ou seja, homens e mulheres amontoados nas condições já descritas, com destaque para as correntes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A intervenção de Pinel, simbolizada pelo gesto de “libertar os loucos de suas correntes”, não foi apenas um ato humanitário, mas também uma decisão de natureza epistemológica. Pinel acreditava que a loucura não era uma possessão demoníaca nem uma degeneração animal irreversível, mas uma alienação mental ou, em outras palavras, uma perturbação das faculdades intelectuais e afetivas que mantinha o indivíduo como se fosse &amp;quot;estrangeiro&amp;quot;, ou alienado, de si mesmo e da sociedade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O centro da reforma psiquiátrica proposta por Pinel era o tratamento moral, e se baseava em três pilares fundamentais. O primeiro, o isolamento terapêutico. Era necessário que o paciente ficasse separado de seu ambiente que, segundo o médico, era a fonte de sua excitação e desequilíbrio. O segundo pilar era a autoridade médica, onde este deveria atuar como um pai ao mesmo tempo severo e justo, usando a persuasão, a benevolência e, se fosse necessário, a firmeza para restaurar a razão do paciente. Por fim, a disciplina e o trabalho, com a aplicação rigorosa de horários e valorização de atividades produtivas, o que ocuparia a mente alienada e, assim, combateria a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em seus estudos, Pinel identificou quatro tipos de loucura, quais sejam, a [[melancolia]], a [[mania]], a [[demência]] e a [[idiotia]], cada uma com suas questões próprias específicas e metodologias de tratamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Esquirol e a consolidação do modelo ===&lt;br /&gt;
Se Pinel era considerado o visionário e o libertador, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]] foi o grande organizador e o clínico meticuloso. Discípulo de Pinel, Esquirol sucedeu seu mestre na Salpêtrière e deu à psiquiatria a robustez científica e administrativa de que ela necessitava. Esquirol compreendeu que a eficácia do tratamento moral dependia da arquitetura hospitalar. Para ele, o hospital não era apenas um prédio onde ocorria o tratamento, mas também um instrumento de cura. Ele desenvolveu o modelo de pavilhões, permitindo a separação dos pacientes por tipo de patologia, o que reforçou a própria ideia de diagnóstico e de avaliação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Esquirol refinou as definições clínicas de Pinel. Foi ele quem estabeleceu a distinção clássica entre alucinação (uma percepção sem objeto) e ilusão (uma percepção deformada de um objeto real), entre outros pontos que, na sua época, foram considerados avanços exemplares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Legalização da Alienação ===&lt;br /&gt;
O esforço médico, político e administrativo de Esquirol na continuação do trabalho de Pinel culminou na promulgação da lei francesa de 30 de Junho de 1838, a primeira grande legislação psiquiátrica do mundo moderno. Esta lei estabeleceu a obrigatoriedade de cada departamento francês possuir um asilo e regulamentou as condições de internação e interdição. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A princípio, embora também protegesse o alienado do arbítrio e de outras violências que poderiam ser cometidos contra os loucos nas províncias e mesmo nas periferias de Paris, a lei também deu total poder ao médico psiquiatra. Era ele quem poderia decidir quem deveria ou não ser privado de sua liberdade. Com isso, a psiquiatria tornava-se, assim, um braço do Estado na gestão da ordem social mas, ao contrário do polícia e do inquérito polícial, que exigia provas independentes e a atuação do sistema judiciário, o psiquiatra estava coberto sob o manto da ciência médica, o que dava a ele poderes gigantescos de decidir entre a alienação e a razão. Isso marcou profundamente a forma como a loucura e a saúde mental passaram a ser compreendidas e tratadas nas décadas seguintes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Desenvolvimento da Psiquiatria Contemporânea ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Emil Kraepelin e uma Nova Racionalização ===&lt;br /&gt;
Apesar da forte valorização da psiquiatria francesa na constituição da psiquiatria contemporânea, uma das principais contribuições para o ramo em sua forma atual foi empreendida por um alemão, [[Emil Kraepelin]]. No final do século XIX, a psiquiatria alemã estava dividida entre os &amp;quot;psiquistas&amp;quot;, que viam a loucura como uma doença da alma ou um mal moral, a exemplo dos franceses; e os &amp;quot;somatistas&amp;quot;, que buscavam no cérebro a origem dos sintomas das doenças mentais. Kraepelin superou esse impasse ao focar não na anatomia, mas na evolução temporal das doenças. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin passou a entender que sintomas isolados, como ouvir vozes ou a crença de um paciente em ser alguma personalidade histórica, não eram suficientes para definir uma doença. Ele propôs olhar também para seu desenvolvimento ao longo do tempo. Com essa premissa em mãos, Kraepelin introduziu as &amp;quot;cartas diagnósticas&amp;quot; (&#039;&#039;Zählkarten&#039;&#039;), um sistema de fichamento padronizado onde se registrava a história de vida do paciente, seus antecedentes familiares, os sintomas detalhados e, por fim, o desfecho da doença. Isso transformou a clínica psiquiátrica, pois articulava neuroanatomia e psicologia experimental, já que ele fora aluno de [[Wilhelm Wundt|Wundt]]. A loucura não seria apenas uma manifestação, mas teria uma história relevante para a compreensão de sua origem e desenvolvimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin também é considerado o pioneiro da [[Psiquiatria Transcultural]]. Visando provar que as categorias diagnósticas psiquiátricas seriam universais, ele viajou para lugares como a ilha de Java (Indonésia) em 1904 para estudar a manifestação da loucura em populações não europeias. Ele concluiu que, ainda que os conteúdos dos delírios mudassem conforme a cultura, a estrutura fundamental da loucura permanecia a mesma, o que reforçou sua tese de que eram doenças biológicas da espécie humana. Apesar de suas várias contribuições, no final de sua vida ele se transformou um higienista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tratamentos brutais ===&lt;br /&gt;
O período entreguerras foi marcado pelo desespero dos psiquiatras em encontrar tratamentos ativos e curativos para esvaziar os superlotados manicômios herdados do século XIX. Foi também um período de grande entusiasmo com a ciência, que passou a ser vista como o empreendimento que salvaria a humanidade de seus tormentos. Para a loucura, isso trouxe a a era das terapêuticas heróicas e invasivas, que transformaram a prática asilar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi nesse período que alguns dos tratamentos mais violentos foram desenvolvidos (eles serão tratados com detalhes mais adiante). Um primeiro exemplo é o da Malarioterapia, criada em 1917 por Julius Wagner-Jauregg e que consistia em infectar pacientes de neurossífilis com malária, ideia que rendeu-lhe a ele o único Nobel da psiquiatria clássica. Outro tratamento conhecido, criado em 1933, é o Coma Insulínico, onde se induzia comas por hipoglicemia em esquizofrênicos, na expectativa que, quando retornassem deste estado, estariam &amp;quot;melhores&amp;quot;. Entre 1934 e 1938, Ladislas von Meduna e, posteriormente, Ugo Cerletti introduziram as convulsões artificiais (químicas e elétricas) como tratamento, que consistiam em induzir choques químicos ou elétricos no paciente. O médico português Egas Moniz, por sua vez, ganhou o Nobel de Medicina de 1949 ao criar a Lobotomia Pré-Frontal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A loucura no nazismo ===&lt;br /&gt;
Durante a Segunda Guerra Mundial, o determinismo biológico e as teorias de degeneração racial foram levadas ao extremo e resultaram na Ação T4 (&#039;&#039;Aktion T4&#039;&#039;). Este foi um programa nazista de, simplesmente, eutanásia sistemática, que assassinou mais de 200 mil doentes mentais e pessoas com deficiência na Alemanha e territórios ocupados. A cumplicidade da psiquiatria institucional com essa matança, bem como com o Holocausto, gerou uma crise ética profunda no pós-guerra, exigindo uma refundação humanista e internacional da disciplina, um dos grandes motores políticos subjacentes para a convocação do Congresso de 1950 em Paris.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O I Congresso Internacional de Psiquiatria ===&lt;br /&gt;
Realizado em Paris em agosto de 1950, o [[I Congresso Internacional de Psiquiatria]] foi projetado especificamente para unificar, debater e institucionalizar a psiquiatria como uma disciplina médica global e autônoma. Durante o Congresso foram colocados, frente a frente, as grandes correntes que disputavam a hegemonia do entendimento da mente humana na época, a saber, as correntes psicodinâmica e a biológica. De forma menor, uma corrente social e anti-manicomial também se fez presente. O resultado do embate foi uma conciliação entre as duas maiores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um dos principais resultados do Congresso de 1950 foi a pressão para que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Associação Psiquiátrica Americana (APA) criassem manuais estatísticos e classificatórios unificados, o que resultou na inserção de uma seção robusta de transtornos mentais na CID-6 (Classificação Internacional de Doenças) e na publicação do primeiro [[DSM]], em 1952. A classificação da APA baseou-se fortemente no [[Medical 203]], um manual militar de 1945 desenvolvido pelas Forças Armadas dos EUA para lidar com as neuroses de guerra e traumas de combatentes. O DSM-I herdou dessa origem uma forte influência da psicanálise e da psicodinâmica de [[Adolf Meyer]] com a ideia de que os transtornos eram respostas a fatores ambientais e biológicos, e não entidades fixas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psiquiatria francesa rejeitou de imediato o domínio anglo-americano na classificação e interpretação das doenças mentais criando, anos depois, a [[Classification Française des Troubles Mentaux]]. Os psiquiatras alemães e da Europa Central também rejeitaram o DSM e continuaram se guiando pelos manuais de Emil Kraepelin e pelas revisões de Kurt Schneider, também muito usadas na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro resultado importante deste Congresso foi a fundação da Associação Mundial de Psiquiatria ([[World Psychiatric Association (WPA)|World Psychiatric Association - WPA]]). Com isso, a psiquiatria deixou de ser um conjunto de escolas nacionais isoladas, como as escolas francesa, alemã, anglo-saxã, entre outras, para se tornar uma corporação científica internacional, com congressos periódicos, periódicos indexados e diretrizes globais, apesar das muitas disputas e diferenças regionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As terapias mais violentas, como a insulinoterapia e o eletrochoque, foram aclamadas durante esse Congresso, e seus criadores foram celebrados. Ao mesmo tempo, pesquisadores de terapêuticas baseadas em medicamentos também estiveram presentes e começaram a ganhr cada vez mais destaque com o passar do tempo. O congresso de 1950 representou o apogeu e, ao mesmo tempo, o canto do cisne da hegemonia absoluta das terapias de choque puras, e a continuidade de seu uso nos anos seguintes sugerem fortemente menos interesse científico e mais interesse punitivo e de controle dos doentes mentais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Loucura no Brasil ==&lt;br /&gt;
Até o início do século XIX, o Brasil colonial lidava com seus insanos de forma semelhante ao que ocorria na Europa. As famílias ricas mantinham seus parentes loucos em &amp;quot;quartos fortes&amp;quot;, privando-os mais ou menos da vida comunitária e familiar, a depender das circunstâncias, de forma semelhante ao que acontecia em Portugal. Já os pobres eram entregues à caridade das [[Santas Casas de Misericórdia]] ou vagavam pelas ruas, sendo ocasionalmente recolhidos a cadeias públicas quando perturbavam a ordem, indo e vindo das frágeis instituições brasileiras, sofrendo abusos e violências de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A transferência da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 gerou a necessidade de transformar a capital colonial em uma moderna metrópole europeia. Sob a influência do Iluminismo tardio e das notícias que chegavam sobre as reformas de Pinel na França, a elite médica brasileira, que havia estudado sobretudo na França e em Portugal, começou a pressionar o poder público pela criação de espaços específicos para o tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1830, a criação da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (que viria a ser a [[Academia Nacional de Medicina]]) foi o marco institucional dessa pressão. Esse movimento político funcionou. O momento decisivo ocorreu em 18 de julho de 1841, quando o Imperador D. Pedro II, em comemoração à sua coroação, assinou o decreto de fundação do primeiro hospital psiquiátrico do Brasil e da América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Hospício de Pedro II, ou o Palácio dos Loucos (1852–1889) ===&lt;br /&gt;
Inaugurado apenas em 8 de dezembro de 1852, o [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)|Hospício de Pedro II]] era gerido pela Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, que por anos geriu grande parte da loucura brasileira. Seu provedor era o médico [[José Clemente Pereira]], que era responsável por todos os aspectos da instituição, desde os médicos até os administrativos. Embora a gestão administrativa fosse religiosa, o saber médico tinha muito espaço, com nomes como [[Manoel Feliciano Pereira de Carvalho]], que tentaram implementar o &amp;quot;tratamento moral&amp;quot; inspirado em Esquirol. Apesar dos esforços, muitos relatos de abusos e de condições precárias mostravam a dificuldade em implementar um modelo brasileiro de tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a Proclamação da República em 1889, o Hospício de Pedro II foi desvinculado da Santa Casa e renomeado como [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)]]. Este foi um período de maior laicização e pela busca por um maior rigor científico, o que não aconteceu por completo, em grande parte devido à falta de profissionais adequadamente treinados para a questão. Apesar disso, o Brasil já possuía uma cátedra de psiquiatria desde 1883, ocupada por João Carlos Teixeira Brandão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diante dos altíssimos custos em manter o Hospital, surgem as colônias agrícolas como alternativa ao confinamento urbano. Em 1884, já havia sido inaugurada a [[Colônia de São Bento]] e, em 1890, a [[Colônia de Conde de Mesquita]], na Ilha do Governador. A ideia era que o trabalho na terra poderia colaborar na cura, além de os produtos deste trabalho poderiam ser consumidos no local, ajudando na manutenção dos espaços. Apesar dessas transformações e de evidentes melhorias, os relatos de época mostram que não acontecia nenhuma das duas coisas, nem produção agrícola suficiente, nem um processo terapêutico efetivo, mas entendia-se que a colônia agrícola era melhor do que o confinamento do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Era Juliano Moreira ===&lt;br /&gt;
Em 1903, o médico baiano [[Juliano Moreira]] assume a direção do Hospital Nacional de Alienados. Negro, de origem humilde e dotado de uma erudição impressionante, ele revolucionou a assistência brasileira aos alienados, sendo reconhecido internacionalmente como um dos grandes psiquiatras de seu tempo. Ele se tornaria o principal médico alienista do Brasil, tornando-se referência para todo o país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Moreira aboliu definitivamente o uso de camisas de força e as grades nas janelas, num gesto que se assemelhava àquele de Pinel, enfatizando que o hospital era um local de tratamento e cura, e não uma prisão ou um depósito de indesejados. Além disso, ele trouxe para o Brasil a nosologia de Emil Kraepelin, um psiquiatra alemão considerado o pai da psiquiatria moderna, da psicofarmacologia e da genética psiquiátrica, o que seria uma modernização do modelo francês adotado até então. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a gestão Moreira ocorreram várias mudanças. Foi criado o [[Pavilhão Bourneville]] para crianças com deficiência intelectual. Além disso, fundou-se em 1921 o [[Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro]], o primeiro do país, sob a liderança de [[Heitor Carrilho]]. Dentro dos hospitais incentivou-se a pesquisa laboratorial e anátomo-patológica, o que também abriu espaço para a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A influência e o prestígio de Juliano Moreira se espalhou pelo Brasil. Em São Paulo, destacou-se a figura de [[Franco da Rocha|Francisco Franco da Rocha]], que fundou em 1898 o [[Hospital do Juquery]]. O Juquery, como ficou conhecido, tornou-se uma &amp;quot;cidade-asilo&amp;quot;, chegando a abrigar dezenas de milhares de pacientes em um modelo que mesclava pavilhôes médicos com imensas colônias agrícolas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste período, a psiquiatria brasileira flertou intensamente com as teorias da degenerescência (de Morel e Magnan) e com a eugenia. Médicos como [[Renato Kehl]], bem como a criação da [[Liga Brasileira de Higiene Mental]] (1923), uma organização higienista fundada por [[Gustavo Riedel]], começaram a ver a loucura não apenas como um problema individual, mas como um risco biológico à raça brasileira. A higiene mental passou a atuar preventivamente em escolas e fábricas, buscando identificar &amp;quot;pré-delinquentes&amp;quot; e &amp;quot;personalidades anormais&amp;quot;. Apesar de não ter conseguido desenvolver muitas políticas efetivas, os eugenistas brasileiros eram ativos e influentes em muitos círculos decisórios importantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A criação de hospitais não se limitou a São Paulo e Rio de Janeiro. Em  1903, o governo de Minas Gerais fundou o [[Hospital Psiquiátrico de Barbacena]], que mais tarde seria palco de uma das maiores tragédias humanitárias do país. Em Pernambuco, o [[Hospital Ulysses Pernambucano]] foi fundado pelo médico de mesmo nome, que começou a desenvolver uma psiquiatria mais voltada para o social e para a prevenção no final dos anos 1920. Hospitais na Bahia, Rio Grande do Sul, entre outros, também foram criados, seguindo o pioneirismo do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Era Vargas e além: o início do encarceramento ===&lt;br /&gt;
Com a Revolução de 1930, o projeto de nação de Vargas exigia um povo saudável e produtivo, devido à visão desenvolvimentista suportada pela Aliança Liberal, que o elegeu. A loucura deixou de ser apenas uma questão de ordem pública ou um aspecto da caridade para se tornar um problema de segurança nacional e de saúde pública. Em 1941, no âmbito do Estado Novo, foi criado o [[Serviço Nacional de Doenças Mentais (SNDM)]], substituindo o antigo modelo de assistência a alienados, que era fragmentado nas diferentes províncias. Dessa maneira, Vargas criou uma diretriz federal centralizada para a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a Liga Brasileira de Higiene Mental ganhou fôlego. O foco deslocou-se do hospital para a prevenção na sociedade. A psiquiatria não deveria se limitar aos hospitais, mas também atuar na escola, na fábrica e na família, buscando limpar a nação e extirpar o que chamavam de &amp;quot;elementos degenerados&amp;quot;. O médico Gustavo Riedel e seus sucessores defendiam que o Estado deveria intervir precocemente para evitar que o &amp;quot;anormal&amp;quot; se tornasse um fardo para a máquina pública.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi durante as décadas de 1930 e 1940 que o modelo de colônia agrícola, antes visto como terapêutico e de assistência à manutenção hospitalar, atingiu proporções industriais. O que se viu em Barbacena e em instituições como o Juquery em São Paulo, foi a transformação do hospital em, praticamente, um campo de concentração administrativo. A internação não dependia mais de um diagnóstico médico rigoroso, que na prática ainda era frágil e baseado em elementos pouco científicos. Bastava ser considerado &amp;quot;socialmente inconveniente&amp;quot; para correr-se o risco de ir parar numa instituições dessas. Assim, pobres, prostitutas, homossexuais, militantes políticos e mães solteiras eram enviados para essas instituições, onde a sobrevivência era a exceção. Estima-se que, no auge do descaso, o Hospital de Barbacena registrava um número alarmante de óbitos por frio, fome e doenças evitáveis, cujos corpos eram, por vezes, vendidos para faculdades de medicina. Situações similares aconteciam em outras instituições do tipo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tratamentos Brutais e os Modos de Resistência ===&lt;br /&gt;
Para além do horror asilar, o período entre 1930 e 1950 também foi marcado pela introdução de terapias biológicas drásticas, importadas da Europa, conhecidas como [[somatoterapias]]. Com uma psicofarmacologia pouco eficaz, os médicos buscavam &amp;quot;chacoalhar&amp;quot; o organismo, produzindo nele como um choque que pudesse restaurar a razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma dessas técnicas era a [[insulinoterapia]]. Introduzida na Europa pelo médico austríaco Manfred Sakel (1900–1957) em Viena, no início dos anos 1930, representou uma das primeiras e mais invasivas formas de somatoterapia. Originalmente destinada ao tratamento da [[esquizofrenia]], a técnica consistia na administração de doses maciças de insulina no paciente, provocando um estado de hipoglicemia profunda que levava o paciente ao coma. Na volta desse estado, se esperava que o indivíduo “restaurasse” a razão por conta do choque orgânico violento que havia vivenciado. O procedimento era extremamente perigoso e estava associado a uma alta taxa de mortalidade e morbidade devido às convulsões e aos possíveis danos cerebrais. Apesar dos riscos, o método foi amplamente adotado no mundo todo, incluindo o Brasil, onde foi usado em grandes instituições de confinamento, como o Hospital Nacional de Alienados (HNA), no Hospital Juquery, entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que passou a ser muito utilizada foi a [[Eletroconvulsoterapia]], ou simplesmente o eletrochoque. Introduzido no Brasil logo após sua invenção na Itália (1938), consiste em colocar eletrodos carregados com correntes elétricas em lados opostos, na lateral da cabeça, de modo que uma forte corrente elétrica atravessasse o cérebro. A duração e a intensidade podiam variar, mas relatos de mais de trinta minutos de choques violentos não eram incomuns. Sua brutalidade era tamanha que exigia que sua vítima fosse fortemente amarrada. Tornou-se uma ferramenta onipresente nos hospitais, muitas vezes aplicada sem anestesia e como método de punição, desvirtuando sua finalidade clínica já questionável e usada, basicamente, como ferramenta de tortura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que ingressou no Brasil nesse período foi a [[lobotomia]], um procedimento cirúrgico que consistia em apenas retirar um pedaço do cérebro do paciente. Eles foram realizados em larga escala em hospitais como o Juquery e no Hospital Pedro II, buscando a docilização de pacientes crônicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em oposição à violência do isolamento oferecido por essas instituições, surge a figura de [[Nise da Silveira]]. Em 1946, após ter sido presa pelo regime de Vargas por suas inclinações políticas, Nise assumiu o Setor de Terapêutica Ocupacional do [[Centro Psiquiátrico Nacional]] (Engenho de Dentro), no Rio de Janeiro. Ela se recusou a usar eletrochoques e lobotomias, introduzindo a arte e o afeto como mediadores da cura. Ela fundou o [[Museu de Imagens do Inconsciente (MIS)|Museu de Imagens do Inconsciente]] em 1952, onde demonstrou, através das pinturas e esculturas de pacientes como [[Arthur Bispo do Rosario]], que o louco preservava uma riqueza simbólica e uma humanidade que a psiquiatria tradicional tentava apagar. Sua colaboração com [[Carl Jung]] colocou a experiência brasileira no mapa da psicologia analítica mundial, provando que o tratamento em liberdade e através da expressão criativa era viável.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Criação da Indústria da Loucura ===&lt;br /&gt;
No final da década de 1950 e início da de 1960, durante o governo de Juscelino Kubitschek e o breve período democrático posterior, o Brasil viu o surgimento de uma nova e ainda mais perversa dinâmica: a Indústria da Loucura. A assistência psiquiátrica, antes quase totalmente pública ou baseada no assistencialismo das Santas Casas, começou a ser privatizada. Com o crescimento dos institutos de previdência (IAPs), o Estado passou a pagar hospitais privados por dia de internação. Isso criou um incentivo perverso: quanto mais tempo o paciente ficasse internado e quanto menos recursos fossem gastos com ele, maior o lucro das clínicas privadas. Esse modelo, conhecido como &amp;quot;hospitalocêntrico&amp;quot;, inchou o sistema e preparou o terreno para a política de contenção social que seria radicalizada após o golpe de 1964. Foi um momento de multiplicação da brutalidade. Pouco importava a loucura ou não, o tratamento ou não, a eficácia ou não. O que importava era lucar com o dinheiro estatal por meio de um encarceramento fácil de impor e praticamente impossível de escapar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A coisa se aprofundou ainda mais com o golpe militar, que unificou em 1966 os Institutos de Aposentadoria e Pensões no INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), produzindo uma centralização gigantesca de recursos, com um modelo de privatização quase total. A psiquiatria, por ser uma especialidade cuja formação exigia baixo investimento tecnológico quando comparada a outras como a cirurgia, cardiologia ou oncologia, permitia grandes lucros com as internações de longa permanência. Assim, trancafiar e atormentar os loucos tornou-se o setor mais atraente para o empresariado da saúde.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de pessoas possivelmente diagnosticadas, o sistema era alimentado pelo encarceramento de militantes políticos, estudantes rebeldes, pessoas em situação de rua,  mendigos, homossexuais, indivíduos com comportamentos &amp;quot;desviantes&amp;quot; da moral tradicional, dependentes químicos, alcoólatras ou mesmo pessoas “problemáticas” da família, que se recusavam, por exemplo, a participar de casamentos arranjados, que denunciavam violência sexual sofrida ou eram apenas mulheres que haviam engravidado antes do casamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As instituições privadas multiplicaram-se pelo interior do país, longe dos olhos da fiscalização e dos centros urbanos. Instaladas em locais de difícil acesso, facilitava o ocultamento de violações de direitos humanos e ainda utilizava da conivência dos governos locais. As populações dessas localidades, crentes no saber médico, dificilmente desconfiavam do que poderia acontecer dentro dessas instituições e, quando vazavam denúncias, elas rapidamente podiam ser facilmente manejadas em conluio com os poderes locais. A loucura tornou-se um negócio de massa, com o abrigo precário de centenas de pessoas em galpões, onde a única &amp;quot;terapia&amp;quot; era a contenção química por sedativos baratos ou o uso indiscriminado do eletrochoque para manter a ordem além, é claro, da violência e brutalidade de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Luta Antimanicomial ==&lt;br /&gt;
No final da década de 1970, o modelo de saúde mental começou a dar sinais de exaustão, tanto financeira quanto ética. O Estado já não conseguia arcar com os custos crescentes de um sistema que só expandia o número de crônicos, e as denúncias de maus-tratos começaram a furar o bloqueio da censura, aparecendo em jornais mais prestigiados e em espaços mais amplos do debate social. O estopim para a o início do movimento da reforma psiquiátrica no Brasil começa com uma crise na [[Divisão Nacional de Saúde Mental (DINSAM)]], que havia recebido denúncias de irregularidades no Centro Psiquiátrico Pedro II, no [[Hospital Pinel]], na [[Colônia Juliano Moreira]] e no [[Manicômio Judiciário Heitor Carrilho]]. A denúncia foi acompanhada de uma greve por parte dos funcionários, que exigiam melhorias institucionais e questionavam irregularidades trabalhistas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É dessa crise que surge o [[Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM)]] que, nesse primeiro momento, estão mais preocupados com questões trabalhistas do que com o problema da própria prática psiquiátrica, que vai caracterizar parte dos movimentos antimanicomiais posteriormente. O MTSM se fortalece e consegue espaço no extremamente conservador [[V Congresso Brasileiro de Psiquiatria]], que ocorre em 1978, no que fica conhecido como “congresso da abertura”, num período também de abertura política com o iminente fim do regime militar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda em 1978, um grupo importante de intelectuais vinculados às bases teóricas do [[Movimento Antimanicomial]] participa do [[I Congresso Brasileiro de Psicanálise de Grupos e Instituições]], incluindo [[Franco Basaglia]], [[Felix Guattari]], [[Robert Castel]] e [[Erwin Goffman]], todos eles de grande inspiração e influência para o movimento antimanicomial brasileiro. No ano seguinte, o [[I Congresso Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental]] fortalece a contextação não apenas de problemas trabalhistas, mas do próprio modelo asilar e da forma como a psiquiatria intervinha e oprimia a população marginalizada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação público-privada que alimentava o modelo até então começa a ruir em 1980, com a chamada política da co-gestão interministerial. Nela, um convênio celebrado entre o Ministério da Previdência e Assistência Social com o Ministério da Saúde liquida a &amp;quot;Unidade de Serviço&amp;quot;, a política que permitia a contratação privada de serviços psiquiátricos e que representou o triunfo do público sobre o privado. Membros do MTSM passam a integrar a gestão do atendimento em saúde mental que, por dentro do aparato estatal, começam a implementar uma política de saúde pública baseada em prestação de serviços, cooperação, descentralização e regionalização, propostas que já eram defendidas pelos reformadores. Apesar desses avanços, críticos afirmam que a política de co-gestão apenas visava reformar os serviços, não atingindo o âmago da questão, que seria desconstruir o próprio paradigma psiquiátrico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo de desinstitucionalização de fato começa em 1985, ano marcado pelo fim da Ditadura Militar e pela realização de vários eventos que aprofundam o debate sobre a situação do atendimento. A [[I Conferência Nacional de Saúde Mental]] marca o início da desinstitucionalização devido aos conflitos entre o MTSM, a ABP e grupos não-organicistas que passaram a dirigir o DINSAM. Na conferência, consagrou-se uma reviravolta na perspectiva com a consolidação do lema &amp;quot;por uma sociedade sem manicômios&amp;quot;, rompendo com a lógica tanto privatista quanto estatista e questionando o próprio modelo psiquiátrico tradicional. Este passou a ser amplamente entendido como fenômeno cultural que promove o tratamento moral e o controle dos corpos, uma visão abertamente basagliana e antimanicomial. Alguns entendem que, nesse momento, a tradição anti-institucional que originou os primeiros questionamentos na década de 1970 foi restaurada e fortalecida. Após a Conferência, o próprio MTSM se renovou, se desatrelando do Estado, retomando sua independência e seu papel de transformação social.  A mudança do movimento se consolidou no [[II Congresso Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental]], quando a noção de racionalização e modernização dos serviços que havia caracterizado o período da co-gestão foi recusado em nome de uma pauta anti-institucional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em meados dos anos 1980 começam a surgir novos modelos de atenção à saúde que poderia substituir o modelo psiquiátrico. Em São Paulo é criado o primeiro [[Centro de Atenção Psicossocial (CAPS)]], em 1987. Em Santos, surge o [[Núcleo de Atenção Psicossocial (NAPS)]], em 1989. Estes serviços passaram a ser vistos como os modelos para uma contestação profunda dos manicômios, justificando seu encerramento. Já na década de 1990, o SUS introduziu mecanismos de fiscalização e auditoria que começaram a sufocar financeiramente os asilos privados que não cumpriam níveis mínimos de dignidade. Portarias históricas do Ministério da Saúde, inspiradas na [[Declaração de Caracas (1990)]], passaram a proibir a criação de novos leitos psiquiátricos asilares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após mais de uma década de tramitação e intensos debates no Congresso Nacional, como fruto dos embates históricos iniciados na crise do DINSAM e que atravessaram debates públicos extremamente imporantes, foi promulgada a Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001, que ficou conhecida como [[Lei da Reforma Psiquiátrica]] ou Lei Paulo Delgado, seu autor. Esta legislação se tornou o marco jurídico definitivo da virada assistencial no Brasil. A lei instituiu o direito do paciente de ser tratado em ambiente terapêutico o menos restritivo possível e colocou a internação psiquiátrica como último recurso possível. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para preencher o vazio deixado pelo fechamento dos grandes hospitais, o SUS estruturou a [[Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)]], formalizada na década seguinte pela Portaria nº 3.088 de 2011. A RAPS organizou o cuidado em diferentes níveis de complexidade, com os CAPS divididos nas modalidades CAPS I, II, III, CAPSi  e CAPS AD e, por fim, os [[Serviços de Residência Terapêutica (SRT)]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, a luta continua devido a retrocessos observados na segunda metade da década de 2010 e início dos anos 2020. Mudanças nas diretrizes da Política Nacional de Saúde Mental tentaram reintroduzir a centralidade do hospital psiquiátrico e incentivaram o uso de práticas baseadas no isolamento. Além disso, o governo federal passou a financiar massivamente as chamadas [[Comunidades Terapêuticas]], instituições de caráter predominantemente privado e religioso voltadas ao acolhimento de usuários de drogas, de onde emanam graves denúncias de todos os tipos de violação dos direitos humanos e que representam um evidente retrocesso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje, o campo da saúde mental no Brasil vive um embate profundo entre duas visões. De um lado, aqueles que lutam pela consolidação da RAPS, em defesa da clínica da subjetividade, da defesa dos direitos humanos, pela redução de danos e pela inserção social pelo trabalho e pela cultura. Do outro lado observa-se a persistência do &#039;&#039;lobby&#039;&#039; asilar e de setores que buscam a mercantilização do cuidado, por meio do encarceramento, da medicalização extrema do sofrimento psíquico, da higienização dos centros urbanos e do recolhimento dos indesejáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
ARBEX, Daniela. &#039;&#039;&#039;Holocausto brasileiro&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Geração Editorial, 2013.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BASAGLIA, Franco. &#039;&#039;&#039;A instituição negada&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Graal, 1985.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BIRMAN, Joel. &#039;&#039;&#039;A physis da arte&#039;&#039;&#039;: Deleuze e a clínica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CAMPOS, Gastão Wagner de Sousa. &#039;&#039;&#039;Tratado de saúde coletiva&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Hucitec, 2006. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CASTEL, Robert. &#039;&#039;&#039;A ordem psiquiátrica&#039;&#039;&#039;: a idade de ouro do alienismo. Rio de Janeiro: Graal, 1978.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
COSTA, Jurandir Freire. &#039;&#039;&#039;Violência e psicanálise&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Graal, 1986.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
COSTA, Jurandir Freire. &#039;&#039;&#039;História da assistência psiquiátrica no Brasil&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Garamond, 2007. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
DALGALARRONDO, Paulo. &#039;&#039;&#039;Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais&#039;&#039;&#039;. Porto Alegre: Artmed, 2018. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ENGEL, Magali. &#039;&#039;&#039;Os delírios da razão&#039;&#039;&#039;: médicos, loucos e hospícios (Rio de Janeiro, 1830-1930). Rio de Janeiro: Fiocruz, 2001&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
FOUCAULT, Michel. &#039;&#039;&#039;História da loucura na Idade Clássica&#039;&#039;&#039; (Trad, de José Teixeira Coelho Netto). São Paulo: Perspectiva, 2014.&lt;br /&gt;
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MELLO, Luiz Carlos. &#039;&#039;&#039;Nise da Silveira&#039;&#039;&#039;: caminhos de uma psiquiatra rebelde. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2014.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
PEREIRA, Ana Leonor; PITA, João Rui. &#039;&#039;&#039;A institucionalização da loucura em portugal&#039;&#039;&#039;. Coimbra: Estudo Geral, 1994.&lt;br /&gt;
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PESSOTTI, Isaias. &#039;&#039;&#039;A loucura e as épocas&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994.&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
SANTOS, Marcus Vinícius do Amaral Gama. História whig e história da psicologia. Em: ____. &#039;&#039;&#039;História whig, história da psicologia e história da psiquiatria&#039;&#039;&#039;: investigando a revolução behaviorista e a reforma psiquiátrica brasileira. Rio de Janeiro, 2023. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2023, p.94-133.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
SILVA, Priscila Aquino. O Hospital Real de Todos-os-Santos e seus agentes da cura. &#039;&#039;&#039;História, Ciências, Saúde-Manguinhos&#039;&#039;&#039;, Rio de Janeiro, v. 22, n. 4, 2015.&lt;br /&gt;
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TENÓRIO, Fernando. A Reforma Psiquiátrica Brasileira da década de 1980 aos dias Atuais: história e conceitos. &#039;&#039;&#039;História, Ciências, Saúde-Manguinhos&#039;&#039;&#039;, v. 9, n. 1, 2002.&lt;br /&gt;
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VENANCIO, Ana Teresa A.; CARVALHAL, Lázaro. Juliano Moreira: a ciência da assistência e a assistência da ciência. &#039;&#039;&#039;Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental&#039;&#039;&#039;, 2001.&lt;br /&gt;
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YASUI, Silvio. &#039;&#039;&#039;Rupturas e encontros&#039;&#039;&#039;: desafios da Reforma Psiquiátrica Brasileira. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2010.&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1702</id>
		<title>História da loucura: da Grécia antiga à luta anti-manicomial</title>
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		<updated>2026-07-04T17:35:02Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* O I Congresso Internacional de Psiquiatria */ Várias modificações substanciais&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto com finalidade didática, escrito por André Elias Morelli Ribeiro para o curso de Psicologia do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras. Seu uso é aberto, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Introdução ==&lt;br /&gt;
A história da loucura é, ao mesmo tempo, uma narrativa sobre o modo como diferentes sociedades compreenderam a mente humana e uma reflexão sobre os mecanismos de poder que moldaram práticas de exclusão, cuidado e resistência vinculados às diferentes formas que diferentes grupos humanos entenderam como loucura ou algo similar, conforme uma visão ampliada contemporânea. Este material inicia na Grécia antiga e chega até o movimento antimanicomial no Brasil e, ao longo deste trajeto, pode-se observar como a loucura foi interpretada ora como intervenção divina, ora como desvio moral, ora como doença fisiológica, ora como ameaça social. Cada época construiu suas próprias respostas àquilo que considerou loucura que variaram entre a integração comunitária, o confinamento, o tratamento brutal e a busca por tratamentos médicos ou espirituais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, a trajetória seguiu de perto os modelos europeus. Do Hospício de Pedro II às colônias agrícolas, passando pela gestão de Juliano Moreira, a psiquiatria nacional oscilou entre avanços humanitários e práticas de exclusão. O período Vargas e o Estado Novo intensificaram o encarceramento, transformando hospitais em verdadeiros campos de concentração administrativos. As décadas seguintes viram a adoção de terapias brutais, como eletrochoques e lobotomias, mas também o surgimento de movimentos de resistência, como o trabalho de Nise da Silveira, que introduziu a arte e o afeto como caminhos de cura, ou a emergência de questionamentos ao modelo psiquátrico manicomial. A partir dos anos 1960, a privatização da assistência psiquiátrica gerou a chamada “Indústria da Loucura”, marcada por internações lucrativas e violações sistemáticas de direitos humanos que marcaram profundamente a forma como se entende a loucura contemporaneamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em síntese, o percurso histórico apresentado aqui mostra que a loucura nunca foi apenas um fenômeno clínico mas, antes, um espelho das sociedades, revelando seus medos, suas crenças e suas formas de organizar o convívio humano. De sagrada a temida, de medicalizada a mercantilizada, apresenta-se e se discute como surgiram vozes e práticas que reivindicaram humanidade e liberdade para os considerados loucos.&lt;br /&gt;
== As Loucuras no Mundo Antigo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Grécia antiga ===&lt;br /&gt;
Na Grécia antiga, em certo momento a loucura era considerada uma intervenção dos deuses e, como os gregos era politeístas, a varidade de formas de loucura e os modos de intervenção também era bem grande. A loucura poderia ser vista, por exemplo, como uma punição. É o caso do herói Ajax, filho de Telamão. Após a morte de Aquiles, a armadura do herói foi dada a Odisseu, e a afronta levou Ajax a um estado de fúria e ressentimento. A deusa Atena, intervindo em favor de Odisseu para proteger os Aqueus da vingança de Ajax, lançou sobre ele uma cegueira mental. Tomado pela loucura, Ajax massacrou o gado de guerra que havia sido capturado, acreditando que estava matando os líderes aqueus, incluindo Odisseu e Agamenon. Ao recobrar a sanidade e perceber seu ato vergonhoso, cometeu suicídio devido à humilhação. Essa cena ilustra a loucura como uma intervenção divina direta na forma de loucura poderia ser vista como destrutiva e extremamente negativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em outros episódios da mitologia grega, a loucura surge como uma consequência direta de traumas e da perseguição implacável por vingança. Um exemplo é o de Orestes que, após assassinar sua mãe, Clitemnestra para vingar a morte de seu pai, Agamenon, passa a ser atormentado pelas Erínias. Essas divindades da vingança, também conhecidas como Fúrias, levaram o herói a um estado de delírio e desespero profundo, personificando a tortura psicológica e a perda da razão como uma forma de acerto de contas espiritual e moral pelo matricídio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura não era unicamente um flagelo ou uma punição. Os gregos  viam a mania, um termo que hoje engloba a loucura, em uma perspectiva dual. Na sua manifestação mais elevada, era considerada uma benção ou inspiração divina. Essa visão positiva estava profundamente ligada ao culto de Dionísio, o deus do vinho, do teatro e do êxtase. Nos rituais dionisíacos, as bacantes e outros seguidores buscavam o êxtase, que é, literalmente, &amp;quot;sair de si&amp;quot;, por meio da dança frenética, música e consumo de vinho, o que era percebido como um estado de comunhão direta e inspirada com a divindade. Longe de ser destrutiva, essa forma de loucura era vista como uma fonte de criatividade, revelação e poder, sendo um caminho para a verdade profética e como expressão artística ligada a Dionísio. Este conceito de mania inspirada também se estendia a outros domínios, como a profecia dos oráculos, que eram vinculados à adoração ao deus Apolo, e mesmo a poesia, onde a perda temporária da razão humana era interpretada como a mente sendo tomada por uma força divina que trazia algum tipo de inspiração superior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em certo momento, ainda na Grécia antiga, as ideias sobre a loucura - ou algo que pareça loucura aos olhos contemporâneos - foi modificada graças a Hipócrates, o pai da medicina. A visão de [[Hipócrates]] marcou uma transição crucial para o entendimento da loucura na Grécia Antiga, pois afastou a loucura das concepções divinas e sobrenaturais para uma explicação puramente fisiológica e natural. Ele desenvolveu a [[Teoria dos Quatro Humores]], que se tornou o pilar da medicina ocidental por séculos. Segundo essa teoria, o corpo humano era composto por quatro fluidos essenciais (ou humores), que são sangue, fleuma, bile amarela e bile negra. A saúde mental e física dependia do equilíbrio harmonioso desses humores. A loucura, ou qualquer doença mental, era, portanto, interpretada como o resultado de um desequilíbrio, como o excesso de bile negra causando a melancolia (depressão), ou o desarranjo da fleuma e da bile amarela, que poderiam levar a estados de mania e frenesi. Com isso, Hipócrates postulou que a loucura não era uma maldição dos deuses, mas sim uma doença com origem no corpo. Essa abordagem naturalista permitiu que a loucura passasse a ser tratada com métodos como dietas, exercícios e remédios, no lugar de rituais religiosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tradição bíblica ===&lt;br /&gt;
Na tradição bíblica, escrita em contextos e culturas não europeias, a loucura também é frequentemente retratada como uma forma de intervenção ou punição divina. Um dos episódios mais emblemáticos é a história do rei Nabucodonosor II, relatada no Livro de Daniel. De acordo com o texto, devido ao seu orgulho excessivo e sua recusa em reconhecer a soberania de Deus, o rei foi acometido por uma forma de loucura que o levou a viver como um animal, alimentando-se de ervas e deixando seus cabelos e unhas crescerem sem controle. Na psicologia moderna, esse estado em que um indivíduo acredita ter se transformado em um animal é conhecido como licantropia clínica, uma condição rara. A loucura, conforme emerge na descrição bíblica, emerge ligada à perda da razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, a tradição bíblica também apresenta um paradoxo. No Novo Testamento, cujos livros foram escritos no contexto do mundo greco-romano, o que é considerado &#039;loucura&#039; pelos homens revela-se a suprema sabedoria divina. Essa ideia é desenvolvida pelo apóstolo Paulo em sua Primeira Carta aos Coríntios. Na passagem, ele afirma: &#039;Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens&#039; (1 Coríntios 1:25). Paulo usa o termo &#039;&#039;moria&#039;&#039; (loucura, tolice) para contrastar a sabedoria humana que, na época do texto, era representada pela filosofia e retórica grega. A mensagem da cruz parecia ilógica e insensata aos olhos dos não cristãos, que debochavam do fato do messias ter sido capturado e morto pelos romanos. Assim, a loucura deixa de ser apenas uma punição para se tornar uma lente através da qual a verdadeira sabedoria, ou seja, a salvação, é revelada, invertendo a hierarquia de valores do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Pérsia ===&lt;br /&gt;
Na Pérsia, a visão da loucura e do comportamento irracional foi moldada por seu profundo dualismo religioso e, posteriormente, pelas tradições islâmicas que se seguiram à conquista árabe. O zoroastrismo, a antiga religião persa fundada por Zoroastro (Zaratustra), transformou o politeísmo em um dualismo cósmico centralizado no conflito eterno entre Ahura Mazda (Ormazd), o criador da vida, luz e verdade, e Angra Mainyu (Ahriman), a escuridão e a mentira. Neste cenário, o mundo material é o campo de batalha entre os dois. Ahriman buscava corromper tudo o que Ormazd havia criado. Embora o texto não defina a loucura diretamente, o comportamento irracional e a desrazão poderiam ser facilmente associados ao domínio de Ahriman e à mentira (&#039;&#039;druj&#039;&#039;), enquanto a sanidade e a pureza eram atributos de Ormazd. A batalha contra essa corrupção exigia que os adoradores de Ormazd permanecessem verdadeiros e evitassem poluir o fogo e a terra sagrada, indicando que a pureza mental e ritual era uma defesa contra as forças do mal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Islã ===&lt;br /&gt;
Na cultura islãmica, de forma geral e bastante resumida, o comportamento considerado irracional era frequentemente explicado pela crença nos &#039;&#039;djinn&#039;&#039;, espíritos errantes que habitavam o deserto e certos lugares considerados místicos e que podiam invadir a mente humana, causando o que a sociedade ocidental moderna chamaria de insanidade ou, talvez, distúrbio emocional. Nesses casos, o tratamento era o exorcismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na era clássica da medicina islãmica, ganhou força a tradição galênica, que atribuía as perturbações mentais a desequilíbrios nos quatro humores corporais (sangue, fleuma, bile amarela e bile negra). Médicos proeminentes rejeitaram a ideia de que a loucura fosse exclusivamente uma possessão demoníaca, tratando-a como uma patologia de base orgânica ligada ao cérebro. Avicena dedicou seções extensas a transtornos como a melancolia, o delírio e a mania. Ele descreveu detalhadamente como o excesso de bile negra afetava as faculdades cognitivas e imaginativas do cérebro, propondo tratamentos que incluíam dieta, banhos térmicos, massagens, sangrias reguladas e o uso de fitoterápicos, semelhante à tradição grega mais tardia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período medieval, o mundo islâmico desenvolveu os bimaristans (hospitais), que funcionavam como centros de tratamento médico gratuito, financiados por dotações religiosas (&#039;&#039;waqf&#039;&#039;). O objetivo era restaurar o equilíbrio do espírito e dos humores através de estímulos ambientais positivos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura também apareceu em narrativas culturais associadas aos povos, de forma a sugerir causas e curas mais mundanas. O famoso conto persa de As Mil e Uma Noites, cuja origem é indo-persa mas que foi sedimentada na cultura islãmica, relata a história do rei Shahriyar, que, convencido da inevitável traição feminina, cai em uma loucura paranóica que o leva a se casar com uma virgem todas as noites e, pela manhã, assassiná-la. Sua &amp;quot;cura&amp;quot; é alcançada através da engenhosidade e paciência humana por meio de uma dessas esposas, Scheherazade, que usa a arte de contar histórias para retardar sua execução por &amp;quot;mil e uma noites&amp;quot;, período em que sua paranoia é gradualmente desfeita. A história sugere que a narrativa e o tempo podem curar a loucura causada por trauma psicológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As Loucuras na Idade Média ==&lt;br /&gt;
A transição para a Idade Média é marcada pelo colapso do Império Romano do Ocidente (476 d.C.), que trouxe profundas transformações políticas e sociais. O fim do governo centralizado romano levou à fragmentação do poder e ao surgimento do sistema feudal, onde a administração das terras e a autoridade passaram para as mãos de senhores locais, muitos deles antigos oficiais romanos. Este período também é caracterizado por um notável declínio na vida urbana e nos grandes centros intelectuais. O colpaso das instituições romanas deu lugar à ascensão e consolidação da única instituição internacional grande e organizada que havia sobrado, a Igreja Católica, que se tornou a principal forma de organização política, social e cultural. Houve ainda uma perda gradual da tradição cultural greco-romana por diferentes razões e, consequentemente, um afastamento das explicações naturalistas de Hipócrates, com exceção do pequeno renascimento do século XII e retomadas pontuais da sabedoria grega. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a hegemonia da Igreja Católica, a loucura tendeu a ser novamente interpretada sob uma lente teológica, sendo vista como uma manifestação de forças sobrenaturais ou desvios morais. Nesse contexto, certas vezes a loucura era interpretada como a intervenção de Satanás ou como possessão demoníaca, exigindo rituais de exorcismo para a cura. Em outros momentos, era vista como uma prova espiritual enviada por Deus ou como um efeito direto do pecado na alma do indivíduo. Havia também explicações que a tratavam como uma fragilidade da vontade humana, como no caso do que chamaríamos hoje de compulsões, misturando elementos da antiga tradição grega com aspectos da teologia cristã. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Socialmente, a gestão da loucura na Idade Média também passou por diferentes fases e transformações, dependendo do local e da época. Havia casos em que os considerados loucos eram apenas torturados e trancafiados, métodos considerados eficazes para expulsão de espíritos malignos, por exemplo. Contudo, em muitos outros casos, os considerados loucos conviviam de forma mais ou menos harmoniosa com o resto da comunidade, a depender de suas capacidades e possibilidades, e certos “desvios” eram perdoados devido à sua condição peculiar, sem a necessidade imediata de uma exclusão radical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Nau dos Loucos ===&lt;br /&gt;
Um caso notável e emblemático da gestão da loucura nesse período é a [[Nau dos Loucos]] (&#039;&#039;Stultifera Navis&#039;&#039;), conforme trabalhado por [[Michel Foucault]]. Anteriormente ao modelo de exclusão-repressão que viria a se consolidar na Idade Clássica, a loucura viveu o que se pode chamar de seus &amp;quot;dias de glória&amp;quot; na transição para a Renascença. Nesse contexto, o louco poderia ser visto como um sábio, um místico, um tolo ou simplesmente um excêntrico que estava, de certa forma, integrado ao tecido social.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Nau dos Loucos, que circulavam no Vale do Rio Reno (partes da Alemanha, França Suíça e Países Baixos) simbolizava uma existência errante, onde o louco era confiado à água e ao navio para ser levado de uma cidade a outra, mantendo-o em um estado de exclusão simbólica, mas ainda assim em movimento e circulação. Para Foucault, essa experiência trágica da loucura permitia que o insano portasse uma forma de lucidez em sua insensatez, revelando verdades que a razão comum não ousava enunciar. O louco via através das ilusões mundanas, aproximando-se de uma verdade profética ou ética que seria progressivamente silenciada nos séculos seguintes pela ascensão do saber médico e da racionalidade científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Santa Dimpna e Geel ===&lt;br /&gt;
Outro acontecimento relevante da Idade Média para a compreensão da loucura é o episódio de [[Santa Dimpna]]. Nascida no século VII na Irlanda, ela era filha de um rei pagão e de uma mãe cristã devota, de quem herdou sua fé e pela qual decidiu fazer votos de castidade. Após a morte prematura da mãe, seu pai, mergulhado em um profundo luto, decidiu que Dimpna era a única mulher com beleza comparável à da falecida rainha e insistiu em se casar com a própria filha, o que seria considerado escandaloso também para aquela cultura. Horrorizada e e alvo de uma perseguição incestuosa, Dimpna fugiu da Irlanda acompanhada de seu confessor, o padre Gereberno, e de dois servos fiéis. O grupo cruzou o mar e estabeleceu-se em [[Geel]], um minúsculo vilarejo na atual Bélgica, onde Dimpna se dedicou ao cuidado dos pobres e doentes mentais. No entanto, o rei conseguiu encontrá-los e, após a recusa de Dimpna tanto em retornar para a Irlanda quanto se casar com o pai, ordenou a execução de Gereberno, enquanto ele mesmo decapitou a filha, tornando a menina de 15 anos de idade numa mártir cristã. Após sua morte, relatos de curas milagrosas de pessoas com distúrbios mentais e epilepsia começaram a ocorrer junto ao seu túmulo, o que a tornou a padroeira dos doentes mentais. Já o local converteu-se num espaço de peregrinação ligado à questão da saúde mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O legado de Santa Dimpna em Geel deu origem a um modelo para a psiquiatria moderna pois, devido à devoção e adoração à Santa Dimpna, a cidade transformou-se em um santuário onde os pacientes não eram trancafiados, mas acolhidos em lares de famílias locais como &amp;quot;hóspedes&amp;quot;. Esse sistema de cuidado comunitário e desinstitucionalização, que persiste há séculos, é considerado um dos precursores do tratamento humanizado e da reabilitação psicossocial na saúde mental contemporânea.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Idade Clássica: a nova era da loucura encarcerada ==&lt;br /&gt;
A partir do século XVII, um período em que o filósofo Michel Foucault denominou como &amp;quot;A Época Clássica&amp;quot;, a forma de entender e lidar com a loucura passa por uma nova mudança devido ao ingresso da razão como centro e alma do pensamento europeu, em substituição ao dogmatismo religioso e ao conhecimento da igreja. Esta mudança não é brusca, mas lenta e gradual, porém suas marcas serão duradouras e serão sentidas por quase toda a Europa. Para essa nova e nascente razão, a loucura seria seu oposto direto. Se o homem era definido pela sua capacidade racional e sua utilidade produtiva, o louco era, portanto, como um &amp;quot;não-homem&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a solução para a não-razão era a internação, que não buscava a cura, mas a neutralização do irracional. O silenciamento da loucura era necessário para que a ordem social pudesse florescer. Os campos e cidades deveriam ser espaços de circulação de mercadorias pelas mãos de cidadãos produtivos, e qualquer elemento que atrapalhasse essa dinâmica deveria ser guardado em instituições que funcionavam como uma guarda contra o risco social que tais pessoas ofereciam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Relatos da época descrevem cenários terríveis sobre as condições de internação dos loucos. Os internos eram frequentemente mantidos em celas úmidas e insalubres, muitas vezes acorrentados às paredes. O uso de chicotes e outras punições corporais era justificado pela crença de que o louco, por ter perdido a razão, teria a resistência física de um animal, não sentindo frio ou dor da mesma forma que uma pessoa &amp;quot;normal&amp;quot;. Além disso, as instituições funcionavam sob uma lógica de vigilância constante. Não se tratava de observar para entender a mente, mas para garantir que o corpo anormal permanecesse contido e, no máximo possível, docilizado. Foi dentro desse ambiente de absoluta degradação e mistura indiscriminada de diferentes &amp;quot;tipos&amp;quot; de desviantes que a consciência médica começou a germinar, ainda que de forma incipiente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== França ===&lt;br /&gt;
O ano de 1656 marca um divisor de águas simbólico para o modelo de confinamento asilar no mundo todo, com a criação do Hôpital Général (Hospital Geral) em Paris, por um edito real do rei Luís XIV. É importante entender que um hospital geral deste período não é como um hospital moderno, ou seja, uma instituição de saúde voltada para a compreensão da doença e a prática do tratamento e cura. Ele estava mais próximo de uma estrutura administrativa e, de certo modo, semi-judiciária. Isso ocorria porque o interesse não estava em “curar” ou “tratar” ninguém mas, antes disso, executar o interesse do Estado de &amp;quot;limpar&amp;quot; as ruas de Paris de tudo o que era considerado improdutivo ou escandaloso. Era um período de abundância material, grandes gastos estatais e de uma imensa riqueza do império colonial francês, e desvios nessa ordem eram vistos como perigosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes tais hospitais gerais eram confinados, todos juntos, grupos totalmente diferentes, tais como pobres, mendigos, desempregados, libertinos, prostitutas, alquimistas, opositores políticos e, claro, também os considerados loucos. Em suma, tratava-se de um depósito de indesejados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que começou em Paris se tornou um modelo para outros lugares sobre como fazer a gestão da miséria e da “desrazão”, num forte deslocamento do que se via na Idade Média, com muitas experiências de integração social. O louco, antes tendo algo de profético, místico ou talvez apenas uma excentricidade da vida medieval campesina, se torna uma questão político-administrativa. Essa mudança importante marca uma migração para a possibilidade de institucionalização daquilo que era considerado errante ou, de alguma forma, desagradável e, assim passível de ser alvo de uma forma de gestão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em Paris, as duas principais unidades do Hospital Geral se tornaram emblemáticas e simbólicas. A [[Salpêtrière]], que era destinada às mulheres, e o hospital [[Bicêtre]], destinado aos homens. Ambas as instituições não ofereciam qualquer forma de tratamento. Eram basicamente depósitos humanos, onde o louco poderia acabar acorrentado ao lado de criminosos, por exemplo. O critério de internação não era o diagnóstico clínico, mesmo porque simplesmente ele nem existia, mas a incapacidade de se ajustar às normas de trabalho e à moralidade da época.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Alemanha ===&lt;br /&gt;
Na Alemanha, com a ideia de que o ócio era inaceitável, as leis determinavam o trancafiamento de qualquer pessoas considerada louca, perigosa e incapacitada para o trabalho. Nesse contexto, surgiram as &#039;&#039;Zuchthäusern&#039;&#039;, que seriam as [[Casas de Correção (Zuchthäusern)|Casas de Correção]]. Cidades como Hamburgo e Bremen estabeleceram esses locais onde a loucura era tratada através do trabalho forçado. Eles acreditavam que o ócio era a raiz do mal e que o confinamento e o trabalho forçado eram úteis para reintegrar o indivíduo à lógica da produtividade. Para os loucos, acreditava-se que o trabalho mecânico, repetitivo e exaustivo tinha o poder de &amp;quot;disciplinar a mente animalizada&amp;quot;, submetendo a vontade rebelde ou caótica do insano à razão e à ordem. Não era um trabalho, contudo, inútil, pois esta mão de obra foi utilizada até mesmo na produção de uniformes militares. Os loucos considerados totalmente impossíveis de docilizar eram simplesmente trancafiados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Inglaterra ===&lt;br /&gt;
Na Inglaterra, o sistema das Workhouses (Casas de Trabalho) cumpria um papel semelhante ao modelo alemão. No entanto, Londres já possuía o [[Bethlem Royal Hospital (Bedlam)|Bethlem Royal Hospital]], conhecido popularmente como Bedlam. No século XVII e XVIII, Bedlam se tornou um espetáculo de horror, onde o público podia pagar para observar os internos como se fossem animais em um zoológico. A loucura agora um objeto de uma forma de exibição degradante e mantida atrás de grades e ferros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Portugal ===&lt;br /&gt;
Em Portugal a gestão dos &amp;quot;desviantes&amp;quot; recaiu fortemente sobre as Santas Casas da Misericórdia. O [[Hospital Real de Todos-os-Santos]], fundado em Lisboa em 1492 e inaugurado em 1501, se tornou o epicentro do tratamento (ou confinamento) dos loucos no país. Dentro deste hospital, existiam as chamadas &amp;quot;[[Casas de Doidos]]&amp;quot;, destinados àqueles que haviam “perdido a luz da razão”. Seguindo o padrão europeu, o hospital não separava rigidamente o louco por diagnóstico. Eles dividiam espaço com indigentes e enfermos de diversas naturezas, embora as &amp;quot;casas de doidos&amp;quot; fossem áreas de maior isolamento devido à agitação dos internos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XVIII português, a internação era, acima de tudo, uma solução para a mendicância e, por vezes, para o alcoolismo. O louco oriundo de uma família com posses era mantido nas próprias casas, muitas vezes escondido em sótãos ou anexos e até mesmo acorrentados. Já o &amp;quot;louco pobre&amp;quot;, que não poderiam ser cuidados por seus familiares, acabava nos hospitais reais ou mesmo nas cadeias, a depender de uma série de fatores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Nascimento da Psiquiatria ==&lt;br /&gt;
=== Pinel e a criação da psiquiatria nosográfica ===&lt;br /&gt;
É na virada do século XVIII para o XIX que nasce a psiquiatria como um campo autônomo do saber e da prática médica. Esta mudança fundamental é protagonizada por duas figuras centrais da medicina francesa: [[Philippe Pinel]] e seu discípulo, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]]. Juntos, eles transformaram o hospital de depósito de insanos e indesejáveis em um verdadeiro hospital, em que o louco e o alienado poderiam receber um tratamento racional e científico, em substituição às correntes, à disciplina e ao silenciamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A emergência da psiquiatria como campo autônomo teve como fundamento científico inicial a observação clínica sistemática dentro do asilo. Este era concebido como um laboratório, onde o alienista poderia estudar a loucura em seu estado puro, separada das influências do mundo exterior. A principal questão científica e prática que justificava essa nova ciência era desenvolvida e aplicada de forma sistemática, e denominava-se nosografia ou diagnóstico. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pinel, em seu [[Index.php?title=Traité médique-philosophique sur l&#039;aliénation mentale, ou la manie|Traité médique-philosophique sur l&#039;aliénation mentale, ou la manie]], de 1801, classificou a loucura com base em critérios sintomatológicos, seguindo um procedimento comparativo semelhante ao das ciências naturais. O desafio central, que persistiria ao longo do século XIX, era a ambiguidade constante entre a busca por uma sede orgânica, ou seja, um “local físico-biológico” da loucura, junto da necessidade de uma regulação de caráter moral. O tratamento apoiava-se na moralidade para combater as causas que eram, elas próprias, consideradas morais, mas algo estava também no corpo do doente. Isso mostra que a nova psiquiatria de Pinel era a mistura de medicina com moralidade. Este enfoque resultou na valorização do exame clínico pelos psiquiatras francófonos, permitindo a união da observação clínica com a formulação de hipóteses.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1793, em meio ao fervor da Revolução Francesa, Philippe Pinel foi nomeado médico-chefe do Hospital de Bicêtre e, posteriormente, da Salpêtrière. O cenário que encontrou era o ápice do &amp;quot;Grande Enclausuramento&amp;quot;, ou seja, homens e mulheres amontoados nas condições já descritas, com destaque para as correntes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A intervenção de Pinel, simbolizada pelo gesto de “libertar os loucos de suas correntes”, não foi apenas um ato humanitário, mas também uma decisão de natureza epistemológica. Pinel acreditava que a loucura não era uma possessão demoníaca nem uma degeneração animal irreversível, mas uma alienação mental ou, em outras palavras, uma perturbação das faculdades intelectuais e afetivas que mantinha o indivíduo como se fosse &amp;quot;estrangeiro&amp;quot;, ou alienado, de si mesmo e da sociedade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O centro da reforma psiquiátrica proposta por Pinel era o tratamento moral, e se baseava em três pilares fundamentais. O primeiro, o isolamento terapêutico. Era necessário que o paciente ficasse separado de seu ambiente que, segundo o médico, era a fonte de sua excitação e desequilíbrio. O segundo pilar era a autoridade médica, onde este deveria atuar como um pai ao mesmo tempo severo e justo, usando a persuasão, a benevolência e, se fosse necessário, a firmeza para restaurar a razão do paciente. Por fim, a disciplina e o trabalho, com a aplicação rigorosa de horários e valorização de atividades produtivas, o que ocuparia a mente alienada e, assim, combateria a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em seus estudos, Pinel identificou quatro tipos de loucura, quais sejam, a [[melancolia]], a [[mania]], a [[demência]] e a [[idiotia]], cada uma com suas questões próprias específicas e metodologias de tratamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Esquirol e a consolidação do modelo ===&lt;br /&gt;
Se Pinel era considerado o visionário e o libertador, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]] foi o grande organizador e o clínico meticuloso. Discípulo de Pinel, Esquirol sucedeu seu mestre na Salpêtrière e deu à psiquiatria a robustez científica e administrativa de que ela necessitava. Esquirol compreendeu que a eficácia do tratamento moral dependia da arquitetura hospitalar. Para ele, o hospital não era apenas um prédio onde ocorria o tratamento, mas também um instrumento de cura. Ele desenvolveu o modelo de pavilhões, permitindo a separação dos pacientes por tipo de patologia, o que reforçou a própria ideia de diagnóstico e de avaliação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Esquirol refinou as definições clínicas de Pinel. Foi ele quem estabeleceu a distinção clássica entre alucinação (uma percepção sem objeto) e ilusão (uma percepção deformada de um objeto real), entre outros pontos que, na sua época, foram considerados avanços exemplares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Legalização da Alienação ===&lt;br /&gt;
O esforço médico, político e administrativo de Esquirol na continuação do trabalho de Pinel culminou na promulgação da lei francesa de 30 de Junho de 1838, a primeira grande legislação psiquiátrica do mundo moderno. Esta lei estabeleceu a obrigatoriedade de cada departamento francês possuir um asilo e regulamentou as condições de internação e interdição. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A princípio, embora também protegesse o alienado do arbítrio e de outras violências que poderiam ser cometidos contra os loucos nas províncias e mesmo nas periferias de Paris, a lei também deu total poder ao médico psiquiatra. Era ele quem poderia decidir quem deveria ou não ser privado de sua liberdade. Com isso, a psiquiatria tornava-se, assim, um braço do Estado na gestão da ordem social mas, ao contrário do polícia e do inquérito polícial, que exigia provas independentes e a atuação do sistema judiciário, o psiquiatra estava coberto sob o manto da ciência médica, o que dava a ele poderes gigantescos de decidir entre a alienação e a razão. Isso marcou profundamente a forma como a loucura e a saúde mental passaram a ser compreendidas e tratadas nas décadas seguintes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Desenvolvimento da Psiquiatria Contemporânea ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Emil Kraepelin e uma Nova Racionalização ===&lt;br /&gt;
Apesar da forte valorização da psiquiatria francesa na constituição da psiquiatria contemporânea, uma das principais contribuições para o ramo em sua forma atual foi empreendida por um alemão, [[Emil Kraepelin]]. No final do século XIX, a psiquiatria alemã estava dividida entre os &amp;quot;psiquistas&amp;quot;, que viam a loucura como uma doença da alma ou um mal moral, a exemplo dos franceses; e os &amp;quot;somatistas&amp;quot;, que buscavam no cérebro a origem dos sintomas das doenças mentais. Kraepelin superou esse impasse ao focar não na anatomia, mas na evolução temporal das doenças. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin passou a entender que sintomas isolados, como ouvir vozes ou a crença de um paciente em ser alguma personalidade histórica, não eram suficientes para definir uma doença. Ele propôs olhar também para seu desenvolvimento ao longo do tempo. Com essa premissa em mãos, Kraepelin introduziu as &amp;quot;cartas diagnósticas&amp;quot; (&#039;&#039;Zählkarten&#039;&#039;), um sistema de fichamento padronizado onde se registrava a história de vida do paciente, seus antecedentes familiares, os sintomas detalhados e, por fim, o desfecho da doença. Isso transformou a clínica psiquiátrica, pois articulava neuroanatomia e psicologia experimental, já que ele fora aluno de [[Wilhelm Wundt|Wundt]]. A loucura não seria apenas uma manifestação, mas teria uma história relevante para a compreensão de sua origem e desenvolvimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin também é considerado o pioneiro da [[Psiquiatria Transcultural]]. Visando provar que as categorias diagnósticas psiquiátricas seriam universais, ele viajou para lugares como a ilha de Java (Indonésia) em 1904 para estudar a manifestação da loucura em populações não europeias. Ele concluiu que, ainda que os conteúdos dos delírios mudassem conforme a cultura, a estrutura fundamental da loucura permanecia a mesma, o que reforçou sua tese de que eram doenças biológicas da espécie humana. Apesar de suas várias contribuições, no final de sua vida ele se transformou um higienista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tratamentos brutais ===&lt;br /&gt;
O período entreguerras foi marcado pelo desespero dos psiquiatras em encontrar tratamentos ativos e curativos para esvaziar os superlotados manicômios herdados do século XIX. Foi também um período de grande entusiasmo com a ciência, que passou a ser vista como o empreendimento que salvaria a humanidade de seus tormentos. Para a loucura, isso trouxe a a era das terapêuticas heróicas e invasivas, que transformaram a prática asilar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi nesse período que alguns dos tratamentos mais violentos foram desenvolvidos (eles serão tratados com detalhes mais adiante). Um primeiro exemplo é o da Malarioterapia, criada em 1917 por Julius Wagner-Jauregg e que consistia em infectar pacientes de neurossífilis com malária, ideia que rendeu-lhe a ele o único Nobel da psiquiatria clássica. Outro tratamento conhecido, criado em 1933, é o Coma Insulínico, onde se induzia comas por hipoglicemia em esquizofrênicos, na expectativa que, quando retornassem deste estado, estariam &amp;quot;melhores&amp;quot;. Entre 1934 e 1938, Ladislas von Meduna e, posteriormente, Ugo Cerletti introduziram as convulsões artificiais (químicas e elétricas) como tratamento, que consistiam em induzir choques químicos ou elétricos no paciente. O médico português Egas Moniz, por sua vez, ganhou o Nobel de Medicina de 1949 ao criar a Lobotomia Pré-Frontal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A loucura no nazismo ===&lt;br /&gt;
Durante a Segunda Guerra Mundial, o determinismo biológico e as teorias de degeneração racial foram levadas ao extremo e resultaram na Ação T4 (&#039;&#039;Aktion T4&#039;&#039;). Este foi um programa nazista de, simplesmente, eutanásia sistemática, que assassinou mais de 200 mil doentes mentais e pessoas com deficiência na Alemanha e territórios ocupados. A cumplicidade da psiquiatria institucional com essa matança, bem como com o Holocausto, gerou uma crise ética profunda no pós-guerra, exigindo uma refundação humanista e internacional da disciplina, um dos grandes motores políticos subjacentes para a convocação do Congresso de 1950 em Paris.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O I Congresso Internacional de Psiquiatria ===&lt;br /&gt;
Realizado em Paris em agosto de 1950, o [[I Congresso Internacional de Psiquiatria]] foi projetado especificamente para unificar, debater e institucionalizar a psiquiatria como uma disciplina médica global e autônoma. Durante o Congresso foram colocados, frente a frente, as grandes correntes que disputavam a hegemonia do entendimento da mente humana na época, a saber, as correntes psicodinâmica e a biológica. De forma menor, uma corrente social e anti-manicomial também se fez presente. O resultado do embate foi uma conciliação entre as duas maiores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um dos principais resultados do Congresso de 1950 foi a pressão para que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Associação Psiquiátrica Americana (APA) criassem manuais estatísticos e classificatórios unificados, o que resultou na inserção de uma seção robusta de transtornos mentais na CID-6 (Classificação Internacional de Doenças) e na publicação do primeiro [[DSM]], em 1952. A classificação da APA baseou-se fortemente no [[Medical 203]], um manual militar de 1945 desenvolvido pelas Forças Armadas dos EUA para lidar com as neuroses de guerra e traumas de combatentes. O DSM-I herdou dessa origem uma forte influência da psicanálise e da psicodinâmica de [[Adolf Meyer]] com a ideia de que os transtornos eram respostas a fatores ambientais e biológicos, e não entidades fixas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psiquiatria francesa rejeitou de imediato o domínio anglo-americano na classificação e interpretação das doenças mentais criando, anos depois, a [[Classification Française des Troubles Mentaux]]. Os psiquiatras alemães e da Europa Central também rejeitaram o DSM e continuaram se guiando pelos manuais de Emil Kraepelin e pelas revisões de Kurt Schneider, também muito usadas na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro resultado importante deste Congresso foi a fundação da Associação Mundial de Psiquiatria ([[World Psychiatric Association (WPA)|World Psychiatric Association - WPA]]). Com isso, a psiquiatria deixou de ser um conjunto de escolas nacionais isoladas, como as escolas francesa, alemã, anglo-saxã, entre outras, para se tornar uma corporação científica internacional, com congressos periódicos, periódicos indexados e diretrizes globais, apesar das muitas disputas e diferenças regionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Loucura no Brasil ==&lt;br /&gt;
Até o início do século XIX, o Brasil colonial lidava com seus insanos de forma semelhante ao que ocorria na Europa. As famílias ricas mantinham seus parentes loucos em &amp;quot;quartos fortes&amp;quot;, privando-os mais ou menos da vida comunitária e familiar, a depender das circunstâncias, de forma semelhante ao que acontecia em Portugal. Já os pobres eram entregues à caridade das [[Santas Casas de Misericórdia]] ou vagavam pelas ruas, sendo ocasionalmente recolhidos a cadeias públicas quando perturbavam a ordem, indo e vindo das frágeis instituições brasileiras, sofrendo abusos e violências de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A transferência da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 gerou a necessidade de transformar a capital colonial em uma moderna metrópole europeia. Sob a influência do Iluminismo tardio e das notícias que chegavam sobre as reformas de Pinel na França, a elite médica brasileira, que havia estudado sobretudo na França e em Portugal, começou a pressionar o poder público pela criação de espaços específicos para o tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1830, a criação da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (que viria a ser a [[Academia Nacional de Medicina]]) foi o marco institucional dessa pressão. Esse movimento político funcionou. O momento decisivo ocorreu em 18 de julho de 1841, quando o Imperador D. Pedro II, em comemoração à sua coroação, assinou o decreto de fundação do primeiro hospital psiquiátrico do Brasil e da América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Hospício de Pedro II, ou o Palácio dos Loucos (1852–1889) ===&lt;br /&gt;
Inaugurado apenas em 8 de dezembro de 1852, o [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)|Hospício de Pedro II]] era gerido pela Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, que por anos geriu grande parte da loucura brasileira. Seu provedor era o médico [[José Clemente Pereira]], que era responsável por todos os aspectos da instituição, desde os médicos até os administrativos. Embora a gestão administrativa fosse religiosa, o saber médico tinha muito espaço, com nomes como [[Manoel Feliciano Pereira de Carvalho]], que tentaram implementar o &amp;quot;tratamento moral&amp;quot; inspirado em Esquirol. Apesar dos esforços, muitos relatos de abusos e de condições precárias mostravam a dificuldade em implementar um modelo brasileiro de tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a Proclamação da República em 1889, o Hospício de Pedro II foi desvinculado da Santa Casa e renomeado como [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)]]. Este foi um período de maior laicização e pela busca por um maior rigor científico, o que não aconteceu por completo, em grande parte devido à falta de profissionais adequadamente treinados para a questão. Apesar disso, o Brasil já possuía uma cátedra de psiquiatria desde 1883, ocupada por João Carlos Teixeira Brandão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diante dos altíssimos custos em manter o Hospital, surgem as colônias agrícolas como alternativa ao confinamento urbano. Em 1884, já havia sido inaugurada a [[Colônia de São Bento]] e, em 1890, a [[Colônia de Conde de Mesquita]], na Ilha do Governador. A ideia era que o trabalho na terra poderia colaborar na cura, além de os produtos deste trabalho poderiam ser consumidos no local, ajudando na manutenção dos espaços. Apesar dessas transformações e de evidentes melhorias, os relatos de época mostram que não acontecia nenhuma das duas coisas, nem produção agrícola suficiente, nem um processo terapêutico efetivo, mas entendia-se que a colônia agrícola era melhor do que o confinamento do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Era Juliano Moreira ===&lt;br /&gt;
Em 1903, o médico baiano [[Juliano Moreira]] assume a direção do Hospital Nacional de Alienados. Negro, de origem humilde e dotado de uma erudição impressionante, ele revolucionou a assistência brasileira aos alienados, sendo reconhecido internacionalmente como um dos grandes psiquiatras de seu tempo. Ele se tornaria o principal médico alienista do Brasil, tornando-se referência para todo o país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Moreira aboliu definitivamente o uso de camisas de força e as grades nas janelas, num gesto que se assemelhava àquele de Pinel, enfatizando que o hospital era um local de tratamento e cura, e não uma prisão ou um depósito de indesejados. Além disso, ele trouxe para o Brasil a nosologia de Emil Kraepelin, um psiquiatra alemão considerado o pai da psiquiatria moderna, da psicofarmacologia e da genética psiquiátrica, o que seria uma modernização do modelo francês adotado até então. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a gestão Moreira ocorreram várias mudanças. Foi criado o [[Pavilhão Bourneville]] para crianças com deficiência intelectual. Além disso, fundou-se em 1921 o [[Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro]], o primeiro do país, sob a liderança de [[Heitor Carrilho]]. Dentro dos hospitais incentivou-se a pesquisa laboratorial e anátomo-patológica, o que também abriu espaço para a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A influência e o prestígio de Juliano Moreira se espalhou pelo Brasil. Em São Paulo, destacou-se a figura de [[Franco da Rocha|Francisco Franco da Rocha]], que fundou em 1898 o [[Hospital do Juquery]]. O Juquery, como ficou conhecido, tornou-se uma &amp;quot;cidade-asilo&amp;quot;, chegando a abrigar dezenas de milhares de pacientes em um modelo que mesclava pavilhôes médicos com imensas colônias agrícolas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste período, a psiquiatria brasileira flertou intensamente com as teorias da degenerescência (de Morel e Magnan) e com a eugenia. Médicos como [[Renato Kehl]], bem como a criação da [[Liga Brasileira de Higiene Mental]] (1923), uma organização higienista fundada por [[Gustavo Riedel]], começaram a ver a loucura não apenas como um problema individual, mas como um risco biológico à raça brasileira. A higiene mental passou a atuar preventivamente em escolas e fábricas, buscando identificar &amp;quot;pré-delinquentes&amp;quot; e &amp;quot;personalidades anormais&amp;quot;. Apesar de não ter conseguido desenvolver muitas políticas efetivas, os eugenistas brasileiros eram ativos e influentes em muitos círculos decisórios importantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A criação de hospitais não se limitou a São Paulo e Rio de Janeiro. Em  1903, o governo de Minas Gerais fundou o [[Hospital Psiquiátrico de Barbacena]], que mais tarde seria palco de uma das maiores tragédias humanitárias do país. Em Pernambuco, o [[Hospital Ulysses Pernambucano]] foi fundado pelo médico de mesmo nome, que começou a desenvolver uma psiquiatria mais voltada para o social e para a prevenção no final dos anos 1920. Hospitais na Bahia, Rio Grande do Sul, entre outros, também foram criados, seguindo o pioneirismo do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Era Vargas e além: o início do encarceramento ===&lt;br /&gt;
Com a Revolução de 1930, o projeto de nação de Vargas exigia um povo saudável e produtivo, devido à visão desenvolvimentista suportada pela Aliança Liberal, que o elegeu. A loucura deixou de ser apenas uma questão de ordem pública ou um aspecto da caridade para se tornar um problema de segurança nacional e de saúde pública. Em 1941, no âmbito do Estado Novo, foi criado o [[Serviço Nacional de Doenças Mentais (SNDM)]], substituindo o antigo modelo de assistência a alienados, que era fragmentado nas diferentes províncias. Dessa maneira, Vargas criou uma diretriz federal centralizada para a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a Liga Brasileira de Higiene Mental ganhou fôlego. O foco deslocou-se do hospital para a prevenção na sociedade. A psiquiatria não deveria se limitar aos hospitais, mas também atuar na escola, na fábrica e na família, buscando limpar a nação e extirpar o que chamavam de &amp;quot;elementos degenerados&amp;quot;. O médico Gustavo Riedel e seus sucessores defendiam que o Estado deveria intervir precocemente para evitar que o &amp;quot;anormal&amp;quot; se tornasse um fardo para a máquina pública.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi durante as décadas de 1930 e 1940 que o modelo de colônia agrícola, antes visto como terapêutico e de assistência à manutenção hospitalar, atingiu proporções industriais. O que se viu em Barbacena e em instituições como o Juquery em São Paulo, foi a transformação do hospital em, praticamente, um campo de concentração administrativo. A internação não dependia mais de um diagnóstico médico rigoroso, que na prática ainda era frágil e baseado em elementos pouco científicos. Bastava ser considerado &amp;quot;socialmente inconveniente&amp;quot; para correr-se o risco de ir parar numa instituições dessas. Assim, pobres, prostitutas, homossexuais, militantes políticos e mães solteiras eram enviados para essas instituições, onde a sobrevivência era a exceção. Estima-se que, no auge do descaso, o Hospital de Barbacena registrava um número alarmante de óbitos por frio, fome e doenças evitáveis, cujos corpos eram, por vezes, vendidos para faculdades de medicina. Situações similares aconteciam em outras instituições do tipo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tratamentos Brutais e os Modos de Resistência ===&lt;br /&gt;
Para além do horror asilar, o período entre 1930 e 1950 também foi marcado pela introdução de terapias biológicas drásticas, importadas da Europa, conhecidas como [[somatoterapias]]. Com uma psicofarmacologia pouco eficaz, os médicos buscavam &amp;quot;chacoalhar&amp;quot; o organismo, produzindo nele como um choque que pudesse restaurar a razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma dessas técnicas era a [[insulinoterapia]]. Introduzida na Europa pelo médico austríaco Manfred Sakel (1900–1957) em Viena, no início dos anos 1930, representou uma das primeiras e mais invasivas formas de somatoterapia. Originalmente destinada ao tratamento da [[esquizofrenia]], a técnica consistia na administração de doses maciças de insulina no paciente, provocando um estado de hipoglicemia profunda que levava o paciente ao coma. Na volta desse estado, se esperava que o indivíduo “restaurasse” a razão por conta do choque orgânico violento que havia vivenciado. O procedimento era extremamente perigoso e estava associado a uma alta taxa de mortalidade e morbidade devido às convulsões e aos possíveis danos cerebrais. Apesar dos riscos, o método foi amplamente adotado no mundo todo, incluindo o Brasil, onde foi usado em grandes instituições de confinamento, como o Hospital Nacional de Alienados (HNA), no Hospital Juquery, entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que passou a ser muito utilizada foi a [[Eletroconvulsoterapia]], ou simplesmente o eletrochoque. Introduzido no Brasil logo após sua invenção na Itália (1938), consiste em colocar eletrodos carregados com correntes elétricas em lados opostos, na lateral da cabeça, de modo que uma forte corrente elétrica atravessasse o cérebro. A duração e a intensidade podiam variar, mas relatos de mais de trinta minutos de choques violentos não eram incomuns. Sua brutalidade era tamanha que exigia que sua vítima fosse fortemente amarrada. Tornou-se uma ferramenta onipresente nos hospitais, muitas vezes aplicada sem anestesia e como método de punição, desvirtuando sua finalidade clínica já questionável e usada, basicamente, como ferramenta de tortura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que ingressou no Brasil nesse período foi a [[lobotomia]], um procedimento cirúrgico que consistia em apenas retirar um pedaço do cérebro do paciente. Eles foram realizados em larga escala em hospitais como o Juquery e no Hospital Pedro II, buscando a docilização de pacientes crônicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em oposição à violência do isolamento oferecido por essas instituições, surge a figura de [[Nise da Silveira]]. Em 1946, após ter sido presa pelo regime de Vargas por suas inclinações políticas, Nise assumiu o Setor de Terapêutica Ocupacional do [[Centro Psiquiátrico Nacional]] (Engenho de Dentro), no Rio de Janeiro. Ela se recusou a usar eletrochoques e lobotomias, introduzindo a arte e o afeto como mediadores da cura. Ela fundou o [[Museu de Imagens do Inconsciente (MIS)|Museu de Imagens do Inconsciente]] em 1952, onde demonstrou, através das pinturas e esculturas de pacientes como [[Arthur Bispo do Rosario]], que o louco preservava uma riqueza simbólica e uma humanidade que a psiquiatria tradicional tentava apagar. Sua colaboração com [[Carl Jung]] colocou a experiência brasileira no mapa da psicologia analítica mundial, provando que o tratamento em liberdade e através da expressão criativa era viável.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Criação da Indústria da Loucura ===&lt;br /&gt;
No final da década de 1950 e início da de 1960, durante o governo de Juscelino Kubitschek e o breve período democrático posterior, o Brasil viu o surgimento de uma nova e ainda mais perversa dinâmica: a Indústria da Loucura. A assistência psiquiátrica, antes quase totalmente pública ou baseada no assistencialismo das Santas Casas, começou a ser privatizada. Com o crescimento dos institutos de previdência (IAPs), o Estado passou a pagar hospitais privados por dia de internação. Isso criou um incentivo perverso: quanto mais tempo o paciente ficasse internado e quanto menos recursos fossem gastos com ele, maior o lucro das clínicas privadas. Esse modelo, conhecido como &amp;quot;hospitalocêntrico&amp;quot;, inchou o sistema e preparou o terreno para a política de contenção social que seria radicalizada após o golpe de 1964. Foi um momento de multiplicação da brutalidade. Pouco importava a loucura ou não, o tratamento ou não, a eficácia ou não. O que importava era lucar com o dinheiro estatal por meio de um encarceramento fácil de impor e praticamente impossível de escapar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A coisa se aprofundou ainda mais com o golpe militar, que unificou em 1966 os Institutos de Aposentadoria e Pensões no INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), produzindo uma centralização gigantesca de recursos, com um modelo de privatização quase total. A psiquiatria, por ser uma especialidade cuja formação exigia baixo investimento tecnológico quando comparada a outras como a cirurgia, cardiologia ou oncologia, permitia grandes lucros com as internações de longa permanência. Assim, trancafiar e atormentar os loucos tornou-se o setor mais atraente para o empresariado da saúde.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de pessoas possivelmente diagnosticadas, o sistema era alimentado pelo encarceramento de militantes políticos, estudantes rebeldes, pessoas em situação de rua,  mendigos, homossexuais, indivíduos com comportamentos &amp;quot;desviantes&amp;quot; da moral tradicional, dependentes químicos, alcoólatras ou mesmo pessoas “problemáticas” da família, que se recusavam, por exemplo, a participar de casamentos arranjados, que denunciavam violência sexual sofrida ou eram apenas mulheres que haviam engravidado antes do casamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As instituições privadas multiplicaram-se pelo interior do país, longe dos olhos da fiscalização e dos centros urbanos. Instaladas em locais de difícil acesso, facilitava o ocultamento de violações de direitos humanos e ainda utilizava da conivência dos governos locais. As populações dessas localidades, crentes no saber médico, dificilmente desconfiavam do que poderia acontecer dentro dessas instituições e, quando vazavam denúncias, elas rapidamente podiam ser facilmente manejadas em conluio com os poderes locais. A loucura tornou-se um negócio de massa, com o abrigo precário de centenas de pessoas em galpões, onde a única &amp;quot;terapia&amp;quot; era a contenção química por sedativos baratos ou o uso indiscriminado do eletrochoque para manter a ordem além, é claro, da violência e brutalidade de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Luta Antimanicomial ==&lt;br /&gt;
No final da década de 1970, o modelo de saúde mental começou a dar sinais de exaustão, tanto financeira quanto ética. O Estado já não conseguia arcar com os custos crescentes de um sistema que só expandia o número de crônicos, e as denúncias de maus-tratos começaram a furar o bloqueio da censura, aparecendo em jornais mais prestigiados e em espaços mais amplos do debate social. O estopim para a o início do movimento da reforma psiquiátrica no Brasil começa com uma crise na [[Divisão Nacional de Saúde Mental (DINSAM)]], que havia recebido denúncias de irregularidades no Centro Psiquiátrico Pedro II, no [[Hospital Pinel]], na [[Colônia Juliano Moreira]] e no [[Manicômio Judiciário Heitor Carrilho]]. A denúncia foi acompanhada de uma greve por parte dos funcionários, que exigiam melhorias institucionais e questionavam irregularidades trabalhistas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É dessa crise que surge o [[Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM)]] que, nesse primeiro momento, estão mais preocupados com questões trabalhistas do que com o problema da própria prática psiquiátrica, que vai caracterizar parte dos movimentos antimanicomiais posteriormente. O MTSM se fortalece e consegue espaço no extremamente conservador [[V Congresso Brasileiro de Psiquiatria]], que ocorre em 1978, no que fica conhecido como “congresso da abertura”, num período também de abertura política com o iminente fim do regime militar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda em 1978, um grupo importante de intelectuais vinculados às bases teóricas do [[Movimento Antimanicomial]] participa do [[I Congresso Brasileiro de Psicanálise de Grupos e Instituições]], incluindo [[Franco Basaglia]], [[Felix Guattari]], [[Robert Castel]] e [[Erwin Goffman]], todos eles de grande inspiração e influência para o movimento antimanicomial brasileiro. No ano seguinte, o [[I Congresso Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental]] fortalece a contextação não apenas de problemas trabalhistas, mas do próprio modelo asilar e da forma como a psiquiatria intervinha e oprimia a população marginalizada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação público-privada que alimentava o modelo até então começa a ruir em 1980, com a chamada política da co-gestão interministerial. Nela, um convênio celebrado entre o Ministério da Previdência e Assistência Social com o Ministério da Saúde liquida a &amp;quot;Unidade de Serviço&amp;quot;, a política que permitia a contratação privada de serviços psiquiátricos e que representou o triunfo do público sobre o privado. Membros do MTSM passam a integrar a gestão do atendimento em saúde mental que, por dentro do aparato estatal, começam a implementar uma política de saúde pública baseada em prestação de serviços, cooperação, descentralização e regionalização, propostas que já eram defendidas pelos reformadores. Apesar desses avanços, críticos afirmam que a política de co-gestão apenas visava reformar os serviços, não atingindo o âmago da questão, que seria desconstruir o próprio paradigma psiquiátrico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo de desinstitucionalização de fato começa em 1985, ano marcado pelo fim da Ditadura Militar e pela realização de vários eventos que aprofundam o debate sobre a situação do atendimento. A [[I Conferência Nacional de Saúde Mental]] marca o início da desinstitucionalização devido aos conflitos entre o MTSM, a ABP e grupos não-organicistas que passaram a dirigir o DINSAM. Na conferência, consagrou-se uma reviravolta na perspectiva com a consolidação do lema &amp;quot;por uma sociedade sem manicômios&amp;quot;, rompendo com a lógica tanto privatista quanto estatista e questionando o próprio modelo psiquiátrico tradicional. Este passou a ser amplamente entendido como fenômeno cultural que promove o tratamento moral e o controle dos corpos, uma visão abertamente basagliana e antimanicomial. Alguns entendem que, nesse momento, a tradição anti-institucional que originou os primeiros questionamentos na década de 1970 foi restaurada e fortalecida. Após a Conferência, o próprio MTSM se renovou, se desatrelando do Estado, retomando sua independência e seu papel de transformação social.  A mudança do movimento se consolidou no [[II Congresso Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental]], quando a noção de racionalização e modernização dos serviços que havia caracterizado o período da co-gestão foi recusado em nome de uma pauta anti-institucional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em meados dos anos 1980 começam a surgir novos modelos de atenção à saúde que poderia substituir o modelo psiquiátrico. Em São Paulo é criado o primeiro [[Centro de Atenção Psicossocial (CAPS)]], em 1987. Em Santos, surge o [[Núcleo de Atenção Psicossocial (NAPS)]], em 1989. Estes serviços passaram a ser vistos como os modelos para uma contestação profunda dos manicômios, justificando seu encerramento. Já na década de 1990, o SUS introduziu mecanismos de fiscalização e auditoria que começaram a sufocar financeiramente os asilos privados que não cumpriam níveis mínimos de dignidade. Portarias históricas do Ministério da Saúde, inspiradas na [[Declaração de Caracas (1990)]], passaram a proibir a criação de novos leitos psiquiátricos asilares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após mais de uma década de tramitação e intensos debates no Congresso Nacional, como fruto dos embates históricos iniciados na crise do DINSAM e que atravessaram debates públicos extremamente imporantes, foi promulgada a Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001, que ficou conhecida como [[Lei da Reforma Psiquiátrica]] ou Lei Paulo Delgado, seu autor. Esta legislação se tornou o marco jurídico definitivo da virada assistencial no Brasil. A lei instituiu o direito do paciente de ser tratado em ambiente terapêutico o menos restritivo possível e colocou a internação psiquiátrica como último recurso possível. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para preencher o vazio deixado pelo fechamento dos grandes hospitais, o SUS estruturou a [[Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)]], formalizada na década seguinte pela Portaria nº 3.088 de 2011. A RAPS organizou o cuidado em diferentes níveis de complexidade, com os CAPS divididos nas modalidades CAPS I, II, III, CAPSi  e CAPS AD e, por fim, os [[Serviços de Residência Terapêutica (SRT)]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, a luta continua devido a retrocessos observados na segunda metade da década de 2010 e início dos anos 2020. Mudanças nas diretrizes da Política Nacional de Saúde Mental tentaram reintroduzir a centralidade do hospital psiquiátrico e incentivaram o uso de práticas baseadas no isolamento. Além disso, o governo federal passou a financiar massivamente as chamadas [[Comunidades Terapêuticas]], instituições de caráter predominantemente privado e religioso voltadas ao acolhimento de usuários de drogas, de onde emanam graves denúncias de todos os tipos de violação dos direitos humanos e que representam um evidente retrocesso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje, o campo da saúde mental no Brasil vive um embate profundo entre duas visões. De um lado, aqueles que lutam pela consolidação da RAPS, em defesa da clínica da subjetividade, da defesa dos direitos humanos, pela redução de danos e pela inserção social pelo trabalho e pela cultura. Do outro lado observa-se a persistência do &#039;&#039;lobby&#039;&#039; asilar e de setores que buscam a mercantilização do cuidado, por meio do encarceramento, da medicalização extrema do sofrimento psíquico, da higienização dos centros urbanos e do recolhimento dos indesejáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
AMARANTE, Paulo. &#039;&#039;&#039;Loucos pela vida&#039;&#039;&#039;: a trajetória da reforma psiquiátrica no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 1995.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ARBEX, Daniela. &#039;&#039;&#039;Holocausto brasileiro&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Geração Editorial, 2013.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BASAGLIA, Franco. &#039;&#039;&#039;A instituição negada&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Graal, 1985.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BIRMAN, Joel. &#039;&#039;&#039;A physis da arte&#039;&#039;&#039;: Deleuze e a clínica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CAMPOS, Gastão Wagner de Sousa. &#039;&#039;&#039;Tratado de saúde coletiva&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Hucitec, 2006. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CASTEL, Robert. &#039;&#039;&#039;A ordem psiquiátrica&#039;&#039;&#039;: a idade de ouro do alienismo. Rio de Janeiro: Graal, 1978.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
COSTA, Jurandir Freire. &#039;&#039;&#039;Violência e psicanálise&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Graal, 1986.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
COSTA, Jurandir Freire. &#039;&#039;&#039;História da assistência psiquiátrica no Brasil&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Garamond, 2007. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
DALGALARRONDO, Paulo. &#039;&#039;&#039;Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais&#039;&#039;&#039;. Porto Alegre: Artmed, 2018. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ENGEL, Magali. &#039;&#039;&#039;Os delírios da razão&#039;&#039;&#039;: médicos, loucos e hospícios (Rio de Janeiro, 1830-1930). Rio de Janeiro: Fiocruz, 2001&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
FOUCAULT, Michel. &#039;&#039;&#039;História da loucura na Idade Clássica&#039;&#039;&#039; (Trad, de José Teixeira Coelho Netto). São Paulo: Perspectiva, 2014.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
MELLO, Luiz Carlos. &#039;&#039;&#039;Nise da Silveira&#039;&#039;&#039;: caminhos de uma psiquiatra rebelde. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2014.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
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		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1701</id>
		<title>História da loucura: da Grécia antiga à luta anti-manicomial</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1701"/>
		<updated>2026-07-03T23:11:13Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* Tratamentos brutais */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto com finalidade didática, escrito por André Elias Morelli Ribeiro para o curso de Psicologia do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras. Seu uso é aberto, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Introdução ==&lt;br /&gt;
A história da loucura é, ao mesmo tempo, uma narrativa sobre o modo como diferentes sociedades compreenderam a mente humana e uma reflexão sobre os mecanismos de poder que moldaram práticas de exclusão, cuidado e resistência vinculados às diferentes formas que diferentes grupos humanos entenderam como loucura ou algo similar, conforme uma visão ampliada contemporânea. Este material inicia na Grécia antiga e chega até o movimento antimanicomial no Brasil e, ao longo deste trajeto, pode-se observar como a loucura foi interpretada ora como intervenção divina, ora como desvio moral, ora como doença fisiológica, ora como ameaça social. Cada época construiu suas próprias respostas àquilo que considerou loucura que variaram entre a integração comunitária, o confinamento, o tratamento brutal e a busca por tratamentos médicos ou espirituais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, a trajetória seguiu de perto os modelos europeus. Do Hospício de Pedro II às colônias agrícolas, passando pela gestão de Juliano Moreira, a psiquiatria nacional oscilou entre avanços humanitários e práticas de exclusão. O período Vargas e o Estado Novo intensificaram o encarceramento, transformando hospitais em verdadeiros campos de concentração administrativos. As décadas seguintes viram a adoção de terapias brutais, como eletrochoques e lobotomias, mas também o surgimento de movimentos de resistência, como o trabalho de Nise da Silveira, que introduziu a arte e o afeto como caminhos de cura, ou a emergência de questionamentos ao modelo psiquátrico manicomial. A partir dos anos 1960, a privatização da assistência psiquiátrica gerou a chamada “Indústria da Loucura”, marcada por internações lucrativas e violações sistemáticas de direitos humanos que marcaram profundamente a forma como se entende a loucura contemporaneamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em síntese, o percurso histórico apresentado aqui mostra que a loucura nunca foi apenas um fenômeno clínico mas, antes, um espelho das sociedades, revelando seus medos, suas crenças e suas formas de organizar o convívio humano. De sagrada a temida, de medicalizada a mercantilizada, apresenta-se e se discute como surgiram vozes e práticas que reivindicaram humanidade e liberdade para os considerados loucos.&lt;br /&gt;
== As Loucuras no Mundo Antigo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Grécia antiga ===&lt;br /&gt;
Na Grécia antiga, em certo momento a loucura era considerada uma intervenção dos deuses e, como os gregos era politeístas, a varidade de formas de loucura e os modos de intervenção também era bem grande. A loucura poderia ser vista, por exemplo, como uma punição. É o caso do herói Ajax, filho de Telamão. Após a morte de Aquiles, a armadura do herói foi dada a Odisseu, e a afronta levou Ajax a um estado de fúria e ressentimento. A deusa Atena, intervindo em favor de Odisseu para proteger os Aqueus da vingança de Ajax, lançou sobre ele uma cegueira mental. Tomado pela loucura, Ajax massacrou o gado de guerra que havia sido capturado, acreditando que estava matando os líderes aqueus, incluindo Odisseu e Agamenon. Ao recobrar a sanidade e perceber seu ato vergonhoso, cometeu suicídio devido à humilhação. Essa cena ilustra a loucura como uma intervenção divina direta na forma de loucura poderia ser vista como destrutiva e extremamente negativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em outros episódios da mitologia grega, a loucura surge como uma consequência direta de traumas e da perseguição implacável por vingança. Um exemplo é o de Orestes que, após assassinar sua mãe, Clitemnestra para vingar a morte de seu pai, Agamenon, passa a ser atormentado pelas Erínias. Essas divindades da vingança, também conhecidas como Fúrias, levaram o herói a um estado de delírio e desespero profundo, personificando a tortura psicológica e a perda da razão como uma forma de acerto de contas espiritual e moral pelo matricídio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura não era unicamente um flagelo ou uma punição. Os gregos  viam a mania, um termo que hoje engloba a loucura, em uma perspectiva dual. Na sua manifestação mais elevada, era considerada uma benção ou inspiração divina. Essa visão positiva estava profundamente ligada ao culto de Dionísio, o deus do vinho, do teatro e do êxtase. Nos rituais dionisíacos, as bacantes e outros seguidores buscavam o êxtase, que é, literalmente, &amp;quot;sair de si&amp;quot;, por meio da dança frenética, música e consumo de vinho, o que era percebido como um estado de comunhão direta e inspirada com a divindade. Longe de ser destrutiva, essa forma de loucura era vista como uma fonte de criatividade, revelação e poder, sendo um caminho para a verdade profética e como expressão artística ligada a Dionísio. Este conceito de mania inspirada também se estendia a outros domínios, como a profecia dos oráculos, que eram vinculados à adoração ao deus Apolo, e mesmo a poesia, onde a perda temporária da razão humana era interpretada como a mente sendo tomada por uma força divina que trazia algum tipo de inspiração superior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em certo momento, ainda na Grécia antiga, as ideias sobre a loucura - ou algo que pareça loucura aos olhos contemporâneos - foi modificada graças a Hipócrates, o pai da medicina. A visão de [[Hipócrates]] marcou uma transição crucial para o entendimento da loucura na Grécia Antiga, pois afastou a loucura das concepções divinas e sobrenaturais para uma explicação puramente fisiológica e natural. Ele desenvolveu a [[Teoria dos Quatro Humores]], que se tornou o pilar da medicina ocidental por séculos. Segundo essa teoria, o corpo humano era composto por quatro fluidos essenciais (ou humores), que são sangue, fleuma, bile amarela e bile negra. A saúde mental e física dependia do equilíbrio harmonioso desses humores. A loucura, ou qualquer doença mental, era, portanto, interpretada como o resultado de um desequilíbrio, como o excesso de bile negra causando a melancolia (depressão), ou o desarranjo da fleuma e da bile amarela, que poderiam levar a estados de mania e frenesi. Com isso, Hipócrates postulou que a loucura não era uma maldição dos deuses, mas sim uma doença com origem no corpo. Essa abordagem naturalista permitiu que a loucura passasse a ser tratada com métodos como dietas, exercícios e remédios, no lugar de rituais religiosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tradição bíblica ===&lt;br /&gt;
Na tradição bíblica, escrita em contextos e culturas não europeias, a loucura também é frequentemente retratada como uma forma de intervenção ou punição divina. Um dos episódios mais emblemáticos é a história do rei Nabucodonosor II, relatada no Livro de Daniel. De acordo com o texto, devido ao seu orgulho excessivo e sua recusa em reconhecer a soberania de Deus, o rei foi acometido por uma forma de loucura que o levou a viver como um animal, alimentando-se de ervas e deixando seus cabelos e unhas crescerem sem controle. Na psicologia moderna, esse estado em que um indivíduo acredita ter se transformado em um animal é conhecido como licantropia clínica, uma condição rara. A loucura, conforme emerge na descrição bíblica, emerge ligada à perda da razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, a tradição bíblica também apresenta um paradoxo. No Novo Testamento, cujos livros foram escritos no contexto do mundo greco-romano, o que é considerado &#039;loucura&#039; pelos homens revela-se a suprema sabedoria divina. Essa ideia é desenvolvida pelo apóstolo Paulo em sua Primeira Carta aos Coríntios. Na passagem, ele afirma: &#039;Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens&#039; (1 Coríntios 1:25). Paulo usa o termo &#039;&#039;moria&#039;&#039; (loucura, tolice) para contrastar a sabedoria humana que, na época do texto, era representada pela filosofia e retórica grega. A mensagem da cruz parecia ilógica e insensata aos olhos dos não cristãos, que debochavam do fato do messias ter sido capturado e morto pelos romanos. Assim, a loucura deixa de ser apenas uma punição para se tornar uma lente através da qual a verdadeira sabedoria, ou seja, a salvação, é revelada, invertendo a hierarquia de valores do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Pérsia ===&lt;br /&gt;
Na Pérsia, a visão da loucura e do comportamento irracional foi moldada por seu profundo dualismo religioso e, posteriormente, pelas tradições islâmicas que se seguiram à conquista árabe. O zoroastrismo, a antiga religião persa fundada por Zoroastro (Zaratustra), transformou o politeísmo em um dualismo cósmico centralizado no conflito eterno entre Ahura Mazda (Ormazd), o criador da vida, luz e verdade, e Angra Mainyu (Ahriman), a escuridão e a mentira. Neste cenário, o mundo material é o campo de batalha entre os dois. Ahriman buscava corromper tudo o que Ormazd havia criado. Embora o texto não defina a loucura diretamente, o comportamento irracional e a desrazão poderiam ser facilmente associados ao domínio de Ahriman e à mentira (&#039;&#039;druj&#039;&#039;), enquanto a sanidade e a pureza eram atributos de Ormazd. A batalha contra essa corrupção exigia que os adoradores de Ormazd permanecessem verdadeiros e evitassem poluir o fogo e a terra sagrada, indicando que a pureza mental e ritual era uma defesa contra as forças do mal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Islã ===&lt;br /&gt;
Na cultura islãmica, de forma geral e bastante resumida, o comportamento considerado irracional era frequentemente explicado pela crença nos &#039;&#039;djinn&#039;&#039;, espíritos errantes que habitavam o deserto e certos lugares considerados místicos e que podiam invadir a mente humana, causando o que a sociedade ocidental moderna chamaria de insanidade ou, talvez, distúrbio emocional. Nesses casos, o tratamento era o exorcismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na era clássica da medicina islãmica, ganhou força a tradição galênica, que atribuía as perturbações mentais a desequilíbrios nos quatro humores corporais (sangue, fleuma, bile amarela e bile negra). Médicos proeminentes rejeitaram a ideia de que a loucura fosse exclusivamente uma possessão demoníaca, tratando-a como uma patologia de base orgânica ligada ao cérebro. Avicena dedicou seções extensas a transtornos como a melancolia, o delírio e a mania. Ele descreveu detalhadamente como o excesso de bile negra afetava as faculdades cognitivas e imaginativas do cérebro, propondo tratamentos que incluíam dieta, banhos térmicos, massagens, sangrias reguladas e o uso de fitoterápicos, semelhante à tradição grega mais tardia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período medieval, o mundo islâmico desenvolveu os bimaristans (hospitais), que funcionavam como centros de tratamento médico gratuito, financiados por dotações religiosas (&#039;&#039;waqf&#039;&#039;). O objetivo era restaurar o equilíbrio do espírito e dos humores através de estímulos ambientais positivos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura também apareceu em narrativas culturais associadas aos povos, de forma a sugerir causas e curas mais mundanas. O famoso conto persa de As Mil e Uma Noites, cuja origem é indo-persa mas que foi sedimentada na cultura islãmica, relata a história do rei Shahriyar, que, convencido da inevitável traição feminina, cai em uma loucura paranóica que o leva a se casar com uma virgem todas as noites e, pela manhã, assassiná-la. Sua &amp;quot;cura&amp;quot; é alcançada através da engenhosidade e paciência humana por meio de uma dessas esposas, Scheherazade, que usa a arte de contar histórias para retardar sua execução por &amp;quot;mil e uma noites&amp;quot;, período em que sua paranoia é gradualmente desfeita. A história sugere que a narrativa e o tempo podem curar a loucura causada por trauma psicológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As Loucuras na Idade Média ==&lt;br /&gt;
A transição para a Idade Média é marcada pelo colapso do Império Romano do Ocidente (476 d.C.), que trouxe profundas transformações políticas e sociais. O fim do governo centralizado romano levou à fragmentação do poder e ao surgimento do sistema feudal, onde a administração das terras e a autoridade passaram para as mãos de senhores locais, muitos deles antigos oficiais romanos. Este período também é caracterizado por um notável declínio na vida urbana e nos grandes centros intelectuais. O colpaso das instituições romanas deu lugar à ascensão e consolidação da única instituição internacional grande e organizada que havia sobrado, a Igreja Católica, que se tornou a principal forma de organização política, social e cultural. Houve ainda uma perda gradual da tradição cultural greco-romana por diferentes razões e, consequentemente, um afastamento das explicações naturalistas de Hipócrates, com exceção do pequeno renascimento do século XII e retomadas pontuais da sabedoria grega. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a hegemonia da Igreja Católica, a loucura tendeu a ser novamente interpretada sob uma lente teológica, sendo vista como uma manifestação de forças sobrenaturais ou desvios morais. Nesse contexto, certas vezes a loucura era interpretada como a intervenção de Satanás ou como possessão demoníaca, exigindo rituais de exorcismo para a cura. Em outros momentos, era vista como uma prova espiritual enviada por Deus ou como um efeito direto do pecado na alma do indivíduo. Havia também explicações que a tratavam como uma fragilidade da vontade humana, como no caso do que chamaríamos hoje de compulsões, misturando elementos da antiga tradição grega com aspectos da teologia cristã. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Socialmente, a gestão da loucura na Idade Média também passou por diferentes fases e transformações, dependendo do local e da época. Havia casos em que os considerados loucos eram apenas torturados e trancafiados, métodos considerados eficazes para expulsão de espíritos malignos, por exemplo. Contudo, em muitos outros casos, os considerados loucos conviviam de forma mais ou menos harmoniosa com o resto da comunidade, a depender de suas capacidades e possibilidades, e certos “desvios” eram perdoados devido à sua condição peculiar, sem a necessidade imediata de uma exclusão radical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Nau dos Loucos ===&lt;br /&gt;
Um caso notável e emblemático da gestão da loucura nesse período é a [[Nau dos Loucos]] (&#039;&#039;Stultifera Navis&#039;&#039;), conforme trabalhado por [[Michel Foucault]]. Anteriormente ao modelo de exclusão-repressão que viria a se consolidar na Idade Clássica, a loucura viveu o que se pode chamar de seus &amp;quot;dias de glória&amp;quot; na transição para a Renascença. Nesse contexto, o louco poderia ser visto como um sábio, um místico, um tolo ou simplesmente um excêntrico que estava, de certa forma, integrado ao tecido social.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Nau dos Loucos, que circulavam no Vale do Rio Reno (partes da Alemanha, França Suíça e Países Baixos) simbolizava uma existência errante, onde o louco era confiado à água e ao navio para ser levado de uma cidade a outra, mantendo-o em um estado de exclusão simbólica, mas ainda assim em movimento e circulação. Para Foucault, essa experiência trágica da loucura permitia que o insano portasse uma forma de lucidez em sua insensatez, revelando verdades que a razão comum não ousava enunciar. O louco via através das ilusões mundanas, aproximando-se de uma verdade profética ou ética que seria progressivamente silenciada nos séculos seguintes pela ascensão do saber médico e da racionalidade científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Santa Dimpna e Geel ===&lt;br /&gt;
Outro acontecimento relevante da Idade Média para a compreensão da loucura é o episódio de [[Santa Dimpna]]. Nascida no século VII na Irlanda, ela era filha de um rei pagão e de uma mãe cristã devota, de quem herdou sua fé e pela qual decidiu fazer votos de castidade. Após a morte prematura da mãe, seu pai, mergulhado em um profundo luto, decidiu que Dimpna era a única mulher com beleza comparável à da falecida rainha e insistiu em se casar com a própria filha, o que seria considerado escandaloso também para aquela cultura. Horrorizada e e alvo de uma perseguição incestuosa, Dimpna fugiu da Irlanda acompanhada de seu confessor, o padre Gereberno, e de dois servos fiéis. O grupo cruzou o mar e estabeleceu-se em [[Geel]], um minúsculo vilarejo na atual Bélgica, onde Dimpna se dedicou ao cuidado dos pobres e doentes mentais. No entanto, o rei conseguiu encontrá-los e, após a recusa de Dimpna tanto em retornar para a Irlanda quanto se casar com o pai, ordenou a execução de Gereberno, enquanto ele mesmo decapitou a filha, tornando a menina de 15 anos de idade numa mártir cristã. Após sua morte, relatos de curas milagrosas de pessoas com distúrbios mentais e epilepsia começaram a ocorrer junto ao seu túmulo, o que a tornou a padroeira dos doentes mentais. Já o local converteu-se num espaço de peregrinação ligado à questão da saúde mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O legado de Santa Dimpna em Geel deu origem a um modelo para a psiquiatria moderna pois, devido à devoção e adoração à Santa Dimpna, a cidade transformou-se em um santuário onde os pacientes não eram trancafiados, mas acolhidos em lares de famílias locais como &amp;quot;hóspedes&amp;quot;. Esse sistema de cuidado comunitário e desinstitucionalização, que persiste há séculos, é considerado um dos precursores do tratamento humanizado e da reabilitação psicossocial na saúde mental contemporânea.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Idade Clássica: a nova era da loucura encarcerada ==&lt;br /&gt;
A partir do século XVII, um período em que o filósofo Michel Foucault denominou como &amp;quot;A Época Clássica&amp;quot;, a forma de entender e lidar com a loucura passa por uma nova mudança devido ao ingresso da razão como centro e alma do pensamento europeu, em substituição ao dogmatismo religioso e ao conhecimento da igreja. Esta mudança não é brusca, mas lenta e gradual, porém suas marcas serão duradouras e serão sentidas por quase toda a Europa. Para essa nova e nascente razão, a loucura seria seu oposto direto. Se o homem era definido pela sua capacidade racional e sua utilidade produtiva, o louco era, portanto, como um &amp;quot;não-homem&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a solução para a não-razão era a internação, que não buscava a cura, mas a neutralização do irracional. O silenciamento da loucura era necessário para que a ordem social pudesse florescer. Os campos e cidades deveriam ser espaços de circulação de mercadorias pelas mãos de cidadãos produtivos, e qualquer elemento que atrapalhasse essa dinâmica deveria ser guardado em instituições que funcionavam como uma guarda contra o risco social que tais pessoas ofereciam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Relatos da época descrevem cenários terríveis sobre as condições de internação dos loucos. Os internos eram frequentemente mantidos em celas úmidas e insalubres, muitas vezes acorrentados às paredes. O uso de chicotes e outras punições corporais era justificado pela crença de que o louco, por ter perdido a razão, teria a resistência física de um animal, não sentindo frio ou dor da mesma forma que uma pessoa &amp;quot;normal&amp;quot;. Além disso, as instituições funcionavam sob uma lógica de vigilância constante. Não se tratava de observar para entender a mente, mas para garantir que o corpo anormal permanecesse contido e, no máximo possível, docilizado. Foi dentro desse ambiente de absoluta degradação e mistura indiscriminada de diferentes &amp;quot;tipos&amp;quot; de desviantes que a consciência médica começou a germinar, ainda que de forma incipiente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== França ===&lt;br /&gt;
O ano de 1656 marca um divisor de águas simbólico para o modelo de confinamento asilar no mundo todo, com a criação do Hôpital Général (Hospital Geral) em Paris, por um edito real do rei Luís XIV. É importante entender que um hospital geral deste período não é como um hospital moderno, ou seja, uma instituição de saúde voltada para a compreensão da doença e a prática do tratamento e cura. Ele estava mais próximo de uma estrutura administrativa e, de certo modo, semi-judiciária. Isso ocorria porque o interesse não estava em “curar” ou “tratar” ninguém mas, antes disso, executar o interesse do Estado de &amp;quot;limpar&amp;quot; as ruas de Paris de tudo o que era considerado improdutivo ou escandaloso. Era um período de abundância material, grandes gastos estatais e de uma imensa riqueza do império colonial francês, e desvios nessa ordem eram vistos como perigosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes tais hospitais gerais eram confinados, todos juntos, grupos totalmente diferentes, tais como pobres, mendigos, desempregados, libertinos, prostitutas, alquimistas, opositores políticos e, claro, também os considerados loucos. Em suma, tratava-se de um depósito de indesejados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que começou em Paris se tornou um modelo para outros lugares sobre como fazer a gestão da miséria e da “desrazão”, num forte deslocamento do que se via na Idade Média, com muitas experiências de integração social. O louco, antes tendo algo de profético, místico ou talvez apenas uma excentricidade da vida medieval campesina, se torna uma questão político-administrativa. Essa mudança importante marca uma migração para a possibilidade de institucionalização daquilo que era considerado errante ou, de alguma forma, desagradável e, assim passível de ser alvo de uma forma de gestão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em Paris, as duas principais unidades do Hospital Geral se tornaram emblemáticas e simbólicas. A [[Salpêtrière]], que era destinada às mulheres, e o hospital [[Bicêtre]], destinado aos homens. Ambas as instituições não ofereciam qualquer forma de tratamento. Eram basicamente depósitos humanos, onde o louco poderia acabar acorrentado ao lado de criminosos, por exemplo. O critério de internação não era o diagnóstico clínico, mesmo porque simplesmente ele nem existia, mas a incapacidade de se ajustar às normas de trabalho e à moralidade da época.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Alemanha ===&lt;br /&gt;
Na Alemanha, com a ideia de que o ócio era inaceitável, as leis determinavam o trancafiamento de qualquer pessoas considerada louca, perigosa e incapacitada para o trabalho. Nesse contexto, surgiram as &#039;&#039;Zuchthäusern&#039;&#039;, que seriam as [[Casas de Correção (Zuchthäusern)|Casas de Correção]]. Cidades como Hamburgo e Bremen estabeleceram esses locais onde a loucura era tratada através do trabalho forçado. Eles acreditavam que o ócio era a raiz do mal e que o confinamento e o trabalho forçado eram úteis para reintegrar o indivíduo à lógica da produtividade. Para os loucos, acreditava-se que o trabalho mecânico, repetitivo e exaustivo tinha o poder de &amp;quot;disciplinar a mente animalizada&amp;quot;, submetendo a vontade rebelde ou caótica do insano à razão e à ordem. Não era um trabalho, contudo, inútil, pois esta mão de obra foi utilizada até mesmo na produção de uniformes militares. Os loucos considerados totalmente impossíveis de docilizar eram simplesmente trancafiados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Inglaterra ===&lt;br /&gt;
Na Inglaterra, o sistema das Workhouses (Casas de Trabalho) cumpria um papel semelhante ao modelo alemão. No entanto, Londres já possuía o [[Bethlem Royal Hospital (Bedlam)|Bethlem Royal Hospital]], conhecido popularmente como Bedlam. No século XVII e XVIII, Bedlam se tornou um espetáculo de horror, onde o público podia pagar para observar os internos como se fossem animais em um zoológico. A loucura agora um objeto de uma forma de exibição degradante e mantida atrás de grades e ferros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Portugal ===&lt;br /&gt;
Em Portugal a gestão dos &amp;quot;desviantes&amp;quot; recaiu fortemente sobre as Santas Casas da Misericórdia. O [[Hospital Real de Todos-os-Santos]], fundado em Lisboa em 1492 e inaugurado em 1501, se tornou o epicentro do tratamento (ou confinamento) dos loucos no país. Dentro deste hospital, existiam as chamadas &amp;quot;[[Casas de Doidos]]&amp;quot;, destinados àqueles que haviam “perdido a luz da razão”. Seguindo o padrão europeu, o hospital não separava rigidamente o louco por diagnóstico. Eles dividiam espaço com indigentes e enfermos de diversas naturezas, embora as &amp;quot;casas de doidos&amp;quot; fossem áreas de maior isolamento devido à agitação dos internos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XVIII português, a internação era, acima de tudo, uma solução para a mendicância e, por vezes, para o alcoolismo. O louco oriundo de uma família com posses era mantido nas próprias casas, muitas vezes escondido em sótãos ou anexos e até mesmo acorrentados. Já o &amp;quot;louco pobre&amp;quot;, que não poderiam ser cuidados por seus familiares, acabava nos hospitais reais ou mesmo nas cadeias, a depender de uma série de fatores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Nascimento da Psiquiatria ==&lt;br /&gt;
=== Pinel e a criação da psiquiatria nosográfica ===&lt;br /&gt;
É na virada do século XVIII para o XIX que nasce a psiquiatria como um campo autônomo do saber e da prática médica. Esta mudança fundamental é protagonizada por duas figuras centrais da medicina francesa: [[Philippe Pinel]] e seu discípulo, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]]. Juntos, eles transformaram o hospital de depósito de insanos e indesejáveis em um verdadeiro hospital, em que o louco e o alienado poderiam receber um tratamento racional e científico, em substituição às correntes, à disciplina e ao silenciamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A emergência da psiquiatria como campo autônomo teve como fundamento científico inicial a observação clínica sistemática dentro do asilo. Este era concebido como um laboratório, onde o alienista poderia estudar a loucura em seu estado puro, separada das influências do mundo exterior. A principal questão científica e prática que justificava essa nova ciência era desenvolvida e aplicada de forma sistemática, e denominava-se nosografia ou diagnóstico. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pinel, em seu [[Index.php?title=Traité médique-philosophique sur l&#039;aliénation mentale, ou la manie|Traité médique-philosophique sur l&#039;aliénation mentale, ou la manie]], de 1801, classificou a loucura com base em critérios sintomatológicos, seguindo um procedimento comparativo semelhante ao das ciências naturais. O desafio central, que persistiria ao longo do século XIX, era a ambiguidade constante entre a busca por uma sede orgânica, ou seja, um “local físico-biológico” da loucura, junto da necessidade de uma regulação de caráter moral. O tratamento apoiava-se na moralidade para combater as causas que eram, elas próprias, consideradas morais, mas algo estava também no corpo do doente. Isso mostra que a nova psiquiatria de Pinel era a mistura de medicina com moralidade. Este enfoque resultou na valorização do exame clínico pelos psiquiatras francófonos, permitindo a união da observação clínica com a formulação de hipóteses.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1793, em meio ao fervor da Revolução Francesa, Philippe Pinel foi nomeado médico-chefe do Hospital de Bicêtre e, posteriormente, da Salpêtrière. O cenário que encontrou era o ápice do &amp;quot;Grande Enclausuramento&amp;quot;, ou seja, homens e mulheres amontoados nas condições já descritas, com destaque para as correntes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A intervenção de Pinel, simbolizada pelo gesto de “libertar os loucos de suas correntes”, não foi apenas um ato humanitário, mas também uma decisão de natureza epistemológica. Pinel acreditava que a loucura não era uma possessão demoníaca nem uma degeneração animal irreversível, mas uma alienação mental ou, em outras palavras, uma perturbação das faculdades intelectuais e afetivas que mantinha o indivíduo como se fosse &amp;quot;estrangeiro&amp;quot;, ou alienado, de si mesmo e da sociedade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O centro da reforma psiquiátrica proposta por Pinel era o tratamento moral, e se baseava em três pilares fundamentais. O primeiro, o isolamento terapêutico. Era necessário que o paciente ficasse separado de seu ambiente que, segundo o médico, era a fonte de sua excitação e desequilíbrio. O segundo pilar era a autoridade médica, onde este deveria atuar como um pai ao mesmo tempo severo e justo, usando a persuasão, a benevolência e, se fosse necessário, a firmeza para restaurar a razão do paciente. Por fim, a disciplina e o trabalho, com a aplicação rigorosa de horários e valorização de atividades produtivas, o que ocuparia a mente alienada e, assim, combateria a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em seus estudos, Pinel identificou quatro tipos de loucura, quais sejam, a [[melancolia]], a [[mania]], a [[demência]] e a [[idiotia]], cada uma com suas questões próprias específicas e metodologias de tratamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Esquirol e a consolidação do modelo ===&lt;br /&gt;
Se Pinel era considerado o visionário e o libertador, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]] foi o grande organizador e o clínico meticuloso. Discípulo de Pinel, Esquirol sucedeu seu mestre na Salpêtrière e deu à psiquiatria a robustez científica e administrativa de que ela necessitava. Esquirol compreendeu que a eficácia do tratamento moral dependia da arquitetura hospitalar. Para ele, o hospital não era apenas um prédio onde ocorria o tratamento, mas também um instrumento de cura. Ele desenvolveu o modelo de pavilhões, permitindo a separação dos pacientes por tipo de patologia, o que reforçou a própria ideia de diagnóstico e de avaliação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Esquirol refinou as definições clínicas de Pinel. Foi ele quem estabeleceu a distinção clássica entre alucinação (uma percepção sem objeto) e ilusão (uma percepção deformada de um objeto real), entre outros pontos que, na sua época, foram considerados avanços exemplares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Legalização da Alienação ===&lt;br /&gt;
O esforço médico, político e administrativo de Esquirol na continuação do trabalho de Pinel culminou na promulgação da lei francesa de 30 de Junho de 1838, a primeira grande legislação psiquiátrica do mundo moderno. Esta lei estabeleceu a obrigatoriedade de cada departamento francês possuir um asilo e regulamentou as condições de internação e interdição. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A princípio, embora também protegesse o alienado do arbítrio e de outras violências que poderiam ser cometidos contra os loucos nas províncias e mesmo nas periferias de Paris, a lei também deu total poder ao médico psiquiatra. Era ele quem poderia decidir quem deveria ou não ser privado de sua liberdade. Com isso, a psiquiatria tornava-se, assim, um braço do Estado na gestão da ordem social mas, ao contrário do polícia e do inquérito polícial, que exigia provas independentes e a atuação do sistema judiciário, o psiquiatra estava coberto sob o manto da ciência médica, o que dava a ele poderes gigantescos de decidir entre a alienação e a razão. Isso marcou profundamente a forma como a loucura e a saúde mental passaram a ser compreendidas e tratadas nas décadas seguintes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Desenvolvimento da Psiquiatria Contemporânea ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Emil Kraepelin e uma Nova Racionalização ===&lt;br /&gt;
Apesar da forte valorização da psiquiatria francesa na constituição da psiquiatria contemporânea, uma das principais contribuições para o ramo em sua forma atual foi empreendida por um alemão, [[Emil Kraepelin]]. No final do século XIX, a psiquiatria alemã estava dividida entre os &amp;quot;psiquistas&amp;quot;, que viam a loucura como uma doença da alma ou um mal moral, a exemplo dos franceses; e os &amp;quot;somatistas&amp;quot;, que buscavam no cérebro a origem dos sintomas das doenças mentais. Kraepelin superou esse impasse ao focar não na anatomia, mas na evolução temporal das doenças. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin passou a entender que sintomas isolados, como ouvir vozes ou a crença de um paciente em ser alguma personalidade histórica, não eram suficientes para definir uma doença. Ele propôs olhar também para seu desenvolvimento ao longo do tempo. Com essa premissa em mãos, Kraepelin introduziu as &amp;quot;cartas diagnósticas&amp;quot; (&#039;&#039;Zählkarten&#039;&#039;), um sistema de fichamento padronizado onde se registrava a história de vida do paciente, seus antecedentes familiares, os sintomas detalhados e, por fim, o desfecho da doença. Isso transformou a clínica psiquiátrica, pois articulava neuroanatomia e psicologia experimental, já que ele fora aluno de [[Wilhelm Wundt|Wundt]]. A loucura não seria apenas uma manifestação, mas teria uma história relevante para a compreensão de sua origem e desenvolvimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin também é considerado o pioneiro da [[Psiquiatria Transcultural]]. Visando provar que as categorias diagnósticas psiquiátricas seriam universais, ele viajou para lugares como a ilha de Java (Indonésia) em 1904 para estudar a manifestação da loucura em populações não europeias. Ele concluiu que, ainda que os conteúdos dos delírios mudassem conforme a cultura, a estrutura fundamental da loucura permanecia a mesma, o que reforçou sua tese de que eram doenças biológicas da espécie humana. Apesar de suas várias contribuições, no final de sua vida ele se transformou um higienista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tratamentos brutais ===&lt;br /&gt;
O período entreguerras foi marcado pelo desespero dos psiquiatras em encontrar tratamentos ativos e curativos para esvaziar os superlotados manicômios herdados do século XIX. Foi também um período de grande entusiasmo com a ciência, que passou a ser vista como o empreendimento que salvaria a humanidade de seus tormentos. Para a loucura, isso trouxe a a era das terapêuticas heróicas e invasivas, que transformaram a prática asilar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi nesse período que alguns dos tratamentos mais violentos foram desenvolvidos (eles serão tratados com detalhes mais adiante). Um primeiro exemplo é o da Malarioterapia, criada em 1917 por Julius Wagner-Jauregg e que consistia em infectar pacientes de neurossífilis com malária, ideia que rendeu-lhe a ele o único Nobel da psiquiatria clássica. Outro tratamento conhecido, criado em 1933, é o Coma Insulínico, onde se induzia comas por hipoglicemia em esquizofrênicos, na expectativa que, quando retornassem deste estado, estariam &amp;quot;melhores&amp;quot;. Entre 1934 e 1938, Ladislas von Meduna e, posteriormente, Ugo Cerletti introduziram as convulsões artificiais (químicas e elétricas) como tratamento, que consistiam em induzir choques químicos ou elétricos no paciente. O médico português Egas Moniz, por sua vez, ganhou o Nobel de Medicina de 1949 ao criar a Lobotomia Pré-Frontal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A loucura no nazismo ===&lt;br /&gt;
Durante a Segunda Guerra Mundial, o determinismo biológico e as teorias de degeneração racial foram levadas ao extremo e resultaram na Ação T4 (&#039;&#039;Aktion T4&#039;&#039;). Este foi um programa nazista de, simplesmente, eutanásia sistemática, que assassinou mais de 200 mil doentes mentais e pessoas com deficiência na Alemanha e territórios ocupados. A cumplicidade da psiquiatria institucional com essa matança, bem como com o Holocausto, gerou uma crise ética profunda no pós-guerra, exigindo uma refundação humanista e internacional da disciplina, um dos grandes motores políticos subjacentes para a convocação do Congresso de 1950 em Paris.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O I Congresso Internacional de Psiquiatria ===&lt;br /&gt;
Realizado em Paris em agosto de 1950, o [[I Congresso Internacional de Psiquiatria]] foi projetado especificamente para unificar, debater e institucionalizar a psiquiatria como uma disciplina médica global e autônoma. Durante o Congresso foram colocados, frente a frente, as grandes correntes que disputavam a hegemonia do entendimento da mente humana na época, a saber, as correntes psicodinâmica e a biológica. De forma menor, uma corrente social e anti-manicomial também se fez presente. O resultado do embate foi uma conciliação entre as duas maiores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um dos resultados do Congresso de 1950 foi a pressão para que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Associação Psiquiátrica Americana (APA) criassem manuais estatísticos e classificatórios unificados, o que resultou na inserção de uma seção robusta de transtornos mentais na CID-6 (Classificação Internacional de Doenças) e na publicação do primeiro [[DSM]], em 1952.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro resultado importante do evento foi a fundação da Associação Mundial de Psiquiatria ([[World Psychiatric Association (WPA)|World Psychiatric Association - WPA]]). Com isso, a psiquiatria deixou de ser um conjunto de escolas nacionais isoladas, como as escolas francesa, alemã, anglo-saxã, entre outras, para se tornar uma corporação científica internacional, com congressos periódicos, periódicos indexados e diretrizes globais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Loucura no Brasil ==&lt;br /&gt;
Até o início do século XIX, o Brasil colonial lidava com seus insanos de forma semelhante ao que ocorria na Europa. As famílias ricas mantinham seus parentes loucos em &amp;quot;quartos fortes&amp;quot;, privando-os mais ou menos da vida comunitária e familiar, a depender das circunstâncias, de forma semelhante ao que acontecia em Portugal. Já os pobres eram entregues à caridade das [[Santas Casas de Misericórdia]] ou vagavam pelas ruas, sendo ocasionalmente recolhidos a cadeias públicas quando perturbavam a ordem, indo e vindo das frágeis instituições brasileiras, sofrendo abusos e violências de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A transferência da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 gerou a necessidade de transformar a capital colonial em uma moderna metrópole europeia. Sob a influência do Iluminismo tardio e das notícias que chegavam sobre as reformas de Pinel na França, a elite médica brasileira, que havia estudado sobretudo na França e em Portugal, começou a pressionar o poder público pela criação de espaços específicos para o tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1830, a criação da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (que viria a ser a [[Academia Nacional de Medicina]]) foi o marco institucional dessa pressão. Esse movimento político funcionou. O momento decisivo ocorreu em 18 de julho de 1841, quando o Imperador D. Pedro II, em comemoração à sua coroação, assinou o decreto de fundação do primeiro hospital psiquiátrico do Brasil e da América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Hospício de Pedro II, ou o Palácio dos Loucos (1852–1889) ===&lt;br /&gt;
Inaugurado apenas em 8 de dezembro de 1852, o [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)|Hospício de Pedro II]] era gerido pela Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, que por anos geriu grande parte da loucura brasileira. Seu provedor era o médico [[José Clemente Pereira]], que era responsável por todos os aspectos da instituição, desde os médicos até os administrativos. Embora a gestão administrativa fosse religiosa, o saber médico tinha muito espaço, com nomes como [[Manoel Feliciano Pereira de Carvalho]], que tentaram implementar o &amp;quot;tratamento moral&amp;quot; inspirado em Esquirol. Apesar dos esforços, muitos relatos de abusos e de condições precárias mostravam a dificuldade em implementar um modelo brasileiro de tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a Proclamação da República em 1889, o Hospício de Pedro II foi desvinculado da Santa Casa e renomeado como [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)]]. Este foi um período de maior laicização e pela busca por um maior rigor científico, o que não aconteceu por completo, em grande parte devido à falta de profissionais adequadamente treinados para a questão. Apesar disso, o Brasil já possuía uma cátedra de psiquiatria desde 1883, ocupada por João Carlos Teixeira Brandão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diante dos altíssimos custos em manter o Hospital, surgem as colônias agrícolas como alternativa ao confinamento urbano. Em 1884, já havia sido inaugurada a [[Colônia de São Bento]] e, em 1890, a [[Colônia de Conde de Mesquita]], na Ilha do Governador. A ideia era que o trabalho na terra poderia colaborar na cura, além de os produtos deste trabalho poderiam ser consumidos no local, ajudando na manutenção dos espaços. Apesar dessas transformações e de evidentes melhorias, os relatos de época mostram que não acontecia nenhuma das duas coisas, nem produção agrícola suficiente, nem um processo terapêutico efetivo, mas entendia-se que a colônia agrícola era melhor do que o confinamento do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Era Juliano Moreira ===&lt;br /&gt;
Em 1903, o médico baiano [[Juliano Moreira]] assume a direção do Hospital Nacional de Alienados. Negro, de origem humilde e dotado de uma erudição impressionante, ele revolucionou a assistência brasileira aos alienados, sendo reconhecido internacionalmente como um dos grandes psiquiatras de seu tempo. Ele se tornaria o principal médico alienista do Brasil, tornando-se referência para todo o país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Moreira aboliu definitivamente o uso de camisas de força e as grades nas janelas, num gesto que se assemelhava àquele de Pinel, enfatizando que o hospital era um local de tratamento e cura, e não uma prisão ou um depósito de indesejados. Além disso, ele trouxe para o Brasil a nosologia de Emil Kraepelin, um psiquiatra alemão considerado o pai da psiquiatria moderna, da psicofarmacologia e da genética psiquiátrica, o que seria uma modernização do modelo francês adotado até então. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a gestão Moreira ocorreram várias mudanças. Foi criado o [[Pavilhão Bourneville]] para crianças com deficiência intelectual. Além disso, fundou-se em 1921 o [[Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro]], o primeiro do país, sob a liderança de [[Heitor Carrilho]]. Dentro dos hospitais incentivou-se a pesquisa laboratorial e anátomo-patológica, o que também abriu espaço para a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A influência e o prestígio de Juliano Moreira se espalhou pelo Brasil. Em São Paulo, destacou-se a figura de [[Franco da Rocha|Francisco Franco da Rocha]], que fundou em 1898 o [[Hospital do Juquery]]. O Juquery, como ficou conhecido, tornou-se uma &amp;quot;cidade-asilo&amp;quot;, chegando a abrigar dezenas de milhares de pacientes em um modelo que mesclava pavilhôes médicos com imensas colônias agrícolas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste período, a psiquiatria brasileira flertou intensamente com as teorias da degenerescência (de Morel e Magnan) e com a eugenia. Médicos como [[Renato Kehl]], bem como a criação da [[Liga Brasileira de Higiene Mental]] (1923), uma organização higienista fundada por [[Gustavo Riedel]], começaram a ver a loucura não apenas como um problema individual, mas como um risco biológico à raça brasileira. A higiene mental passou a atuar preventivamente em escolas e fábricas, buscando identificar &amp;quot;pré-delinquentes&amp;quot; e &amp;quot;personalidades anormais&amp;quot;. Apesar de não ter conseguido desenvolver muitas políticas efetivas, os eugenistas brasileiros eram ativos e influentes em muitos círculos decisórios importantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A criação de hospitais não se limitou a São Paulo e Rio de Janeiro. Em  1903, o governo de Minas Gerais fundou o [[Hospital Psiquiátrico de Barbacena]], que mais tarde seria palco de uma das maiores tragédias humanitárias do país. Em Pernambuco, o [[Hospital Ulysses Pernambucano]] foi fundado pelo médico de mesmo nome, que começou a desenvolver uma psiquiatria mais voltada para o social e para a prevenção no final dos anos 1920. Hospitais na Bahia, Rio Grande do Sul, entre outros, também foram criados, seguindo o pioneirismo do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Era Vargas e além: o início do encarceramento ===&lt;br /&gt;
Com a Revolução de 1930, o projeto de nação de Vargas exigia um povo saudável e produtivo, devido à visão desenvolvimentista suportada pela Aliança Liberal, que o elegeu. A loucura deixou de ser apenas uma questão de ordem pública ou um aspecto da caridade para se tornar um problema de segurança nacional e de saúde pública. Em 1941, no âmbito do Estado Novo, foi criado o [[Serviço Nacional de Doenças Mentais (SNDM)]], substituindo o antigo modelo de assistência a alienados, que era fragmentado nas diferentes províncias. Dessa maneira, Vargas criou uma diretriz federal centralizada para a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a Liga Brasileira de Higiene Mental ganhou fôlego. O foco deslocou-se do hospital para a prevenção na sociedade. A psiquiatria não deveria se limitar aos hospitais, mas também atuar na escola, na fábrica e na família, buscando limpar a nação e extirpar o que chamavam de &amp;quot;elementos degenerados&amp;quot;. O médico Gustavo Riedel e seus sucessores defendiam que o Estado deveria intervir precocemente para evitar que o &amp;quot;anormal&amp;quot; se tornasse um fardo para a máquina pública.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi durante as décadas de 1930 e 1940 que o modelo de colônia agrícola, antes visto como terapêutico e de assistência à manutenção hospitalar, atingiu proporções industriais. O que se viu em Barbacena e em instituições como o Juquery em São Paulo, foi a transformação do hospital em, praticamente, um campo de concentração administrativo. A internação não dependia mais de um diagnóstico médico rigoroso, que na prática ainda era frágil e baseado em elementos pouco científicos. Bastava ser considerado &amp;quot;socialmente inconveniente&amp;quot; para correr-se o risco de ir parar numa instituições dessas. Assim, pobres, prostitutas, homossexuais, militantes políticos e mães solteiras eram enviados para essas instituições, onde a sobrevivência era a exceção. Estima-se que, no auge do descaso, o Hospital de Barbacena registrava um número alarmante de óbitos por frio, fome e doenças evitáveis, cujos corpos eram, por vezes, vendidos para faculdades de medicina. Situações similares aconteciam em outras instituições do tipo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tratamentos Brutais e os Modos de Resistência ===&lt;br /&gt;
Para além do horror asilar, o período entre 1930 e 1950 também foi marcado pela introdução de terapias biológicas drásticas, importadas da Europa, conhecidas como [[somatoterapias]]. Com uma psicofarmacologia pouco eficaz, os médicos buscavam &amp;quot;chacoalhar&amp;quot; o organismo, produzindo nele como um choque que pudesse restaurar a razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma dessas técnicas era a [[insulinoterapia]]. Introduzida na Europa pelo médico austríaco Manfred Sakel (1900–1957) em Viena, no início dos anos 1930, representou uma das primeiras e mais invasivas formas de somatoterapia. Originalmente destinada ao tratamento da [[esquizofrenia]], a técnica consistia na administração de doses maciças de insulina no paciente, provocando um estado de hipoglicemia profunda que levava o paciente ao coma. Na volta desse estado, se esperava que o indivíduo “restaurasse” a razão por conta do choque orgânico violento que havia vivenciado. O procedimento era extremamente perigoso e estava associado a uma alta taxa de mortalidade e morbidade devido às convulsões e aos possíveis danos cerebrais. Apesar dos riscos, o método foi amplamente adotado no mundo todo, incluindo o Brasil, onde foi usado em grandes instituições de confinamento, como o Hospital Nacional de Alienados (HNA), no Hospital Juquery, entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que passou a ser muito utilizada foi a [[Eletroconvulsoterapia]], ou simplesmente o eletrochoque. Introduzido no Brasil logo após sua invenção na Itália (1938), consiste em colocar eletrodos carregados com correntes elétricas em lados opostos, na lateral da cabeça, de modo que uma forte corrente elétrica atravessasse o cérebro. A duração e a intensidade podiam variar, mas relatos de mais de trinta minutos de choques violentos não eram incomuns. Sua brutalidade era tamanha que exigia que sua vítima fosse fortemente amarrada. Tornou-se uma ferramenta onipresente nos hospitais, muitas vezes aplicada sem anestesia e como método de punição, desvirtuando sua finalidade clínica já questionável e usada, basicamente, como ferramenta de tortura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que ingressou no Brasil nesse período foi a [[lobotomia]], um procedimento cirúrgico que consistia em apenas retirar um pedaço do cérebro do paciente. Eles foram realizados em larga escala em hospitais como o Juquery e no Hospital Pedro II, buscando a docilização de pacientes crônicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em oposição à violência do isolamento oferecido por essas instituições, surge a figura de [[Nise da Silveira]]. Em 1946, após ter sido presa pelo regime de Vargas por suas inclinações políticas, Nise assumiu o Setor de Terapêutica Ocupacional do [[Centro Psiquiátrico Nacional]] (Engenho de Dentro), no Rio de Janeiro. Ela se recusou a usar eletrochoques e lobotomias, introduzindo a arte e o afeto como mediadores da cura. Ela fundou o [[Museu de Imagens do Inconsciente (MIS)|Museu de Imagens do Inconsciente]] em 1952, onde demonstrou, através das pinturas e esculturas de pacientes como [[Arthur Bispo do Rosario]], que o louco preservava uma riqueza simbólica e uma humanidade que a psiquiatria tradicional tentava apagar. Sua colaboração com [[Carl Jung]] colocou a experiência brasileira no mapa da psicologia analítica mundial, provando que o tratamento em liberdade e através da expressão criativa era viável.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Criação da Indústria da Loucura ===&lt;br /&gt;
No final da década de 1950 e início da de 1960, durante o governo de Juscelino Kubitschek e o breve período democrático posterior, o Brasil viu o surgimento de uma nova e ainda mais perversa dinâmica: a Indústria da Loucura. A assistência psiquiátrica, antes quase totalmente pública ou baseada no assistencialismo das Santas Casas, começou a ser privatizada. Com o crescimento dos institutos de previdência (IAPs), o Estado passou a pagar hospitais privados por dia de internação. Isso criou um incentivo perverso: quanto mais tempo o paciente ficasse internado e quanto menos recursos fossem gastos com ele, maior o lucro das clínicas privadas. Esse modelo, conhecido como &amp;quot;hospitalocêntrico&amp;quot;, inchou o sistema e preparou o terreno para a política de contenção social que seria radicalizada após o golpe de 1964. Foi um momento de multiplicação da brutalidade. Pouco importava a loucura ou não, o tratamento ou não, a eficácia ou não. O que importava era lucar com o dinheiro estatal por meio de um encarceramento fácil de impor e praticamente impossível de escapar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A coisa se aprofundou ainda mais com o golpe militar, que unificou em 1966 os Institutos de Aposentadoria e Pensões no INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), produzindo uma centralização gigantesca de recursos, com um modelo de privatização quase total. A psiquiatria, por ser uma especialidade cuja formação exigia baixo investimento tecnológico quando comparada a outras como a cirurgia, cardiologia ou oncologia, permitia grandes lucros com as internações de longa permanência. Assim, trancafiar e atormentar os loucos tornou-se o setor mais atraente para o empresariado da saúde.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de pessoas possivelmente diagnosticadas, o sistema era alimentado pelo encarceramento de militantes políticos, estudantes rebeldes, pessoas em situação de rua,  mendigos, homossexuais, indivíduos com comportamentos &amp;quot;desviantes&amp;quot; da moral tradicional, dependentes químicos, alcoólatras ou mesmo pessoas “problemáticas” da família, que se recusavam, por exemplo, a participar de casamentos arranjados, que denunciavam violência sexual sofrida ou eram apenas mulheres que haviam engravidado antes do casamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As instituições privadas multiplicaram-se pelo interior do país, longe dos olhos da fiscalização e dos centros urbanos. Instaladas em locais de difícil acesso, facilitava o ocultamento de violações de direitos humanos e ainda utilizava da conivência dos governos locais. As populações dessas localidades, crentes no saber médico, dificilmente desconfiavam do que poderia acontecer dentro dessas instituições e, quando vazavam denúncias, elas rapidamente podiam ser facilmente manejadas em conluio com os poderes locais. A loucura tornou-se um negócio de massa, com o abrigo precário de centenas de pessoas em galpões, onde a única &amp;quot;terapia&amp;quot; era a contenção química por sedativos baratos ou o uso indiscriminado do eletrochoque para manter a ordem além, é claro, da violência e brutalidade de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Luta Antimanicomial ==&lt;br /&gt;
No final da década de 1970, o modelo de saúde mental começou a dar sinais de exaustão, tanto financeira quanto ética. O Estado já não conseguia arcar com os custos crescentes de um sistema que só expandia o número de crônicos, e as denúncias de maus-tratos começaram a furar o bloqueio da censura, aparecendo em jornais mais prestigiados e em espaços mais amplos do debate social. O estopim para a o início do movimento da reforma psiquiátrica no Brasil começa com uma crise na [[Divisão Nacional de Saúde Mental (DINSAM)]], que havia recebido denúncias de irregularidades no Centro Psiquiátrico Pedro II, no [[Hospital Pinel]], na [[Colônia Juliano Moreira]] e no [[Manicômio Judiciário Heitor Carrilho]]. A denúncia foi acompanhada de uma greve por parte dos funcionários, que exigiam melhorias institucionais e questionavam irregularidades trabalhistas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É dessa crise que surge o [[Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM)]] que, nesse primeiro momento, estão mais preocupados com questões trabalhistas do que com o problema da própria prática psiquiátrica, que vai caracterizar parte dos movimentos antimanicomiais posteriormente. O MTSM se fortalece e consegue espaço no extremamente conservador [[V Congresso Brasileiro de Psiquiatria]], que ocorre em 1978, no que fica conhecido como “congresso da abertura”, num período também de abertura política com o iminente fim do regime militar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda em 1978, um grupo importante de intelectuais vinculados às bases teóricas do [[Movimento Antimanicomial]] participa do [[I Congresso Brasileiro de Psicanálise de Grupos e Instituições]], incluindo [[Franco Basaglia]], [[Felix Guattari]], [[Robert Castel]] e [[Erwin Goffman]], todos eles de grande inspiração e influência para o movimento antimanicomial brasileiro. No ano seguinte, o [[I Congresso Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental]] fortalece a contextação não apenas de problemas trabalhistas, mas do próprio modelo asilar e da forma como a psiquiatria intervinha e oprimia a população marginalizada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação público-privada que alimentava o modelo até então começa a ruir em 1980, com a chamada política da co-gestão interministerial. Nela, um convênio celebrado entre o Ministério da Previdência e Assistência Social com o Ministério da Saúde liquida a &amp;quot;Unidade de Serviço&amp;quot;, a política que permitia a contratação privada de serviços psiquiátricos e que representou o triunfo do público sobre o privado. Membros do MTSM passam a integrar a gestão do atendimento em saúde mental que, por dentro do aparato estatal, começam a implementar uma política de saúde pública baseada em prestação de serviços, cooperação, descentralização e regionalização, propostas que já eram defendidas pelos reformadores. Apesar desses avanços, críticos afirmam que a política de co-gestão apenas visava reformar os serviços, não atingindo o âmago da questão, que seria desconstruir o próprio paradigma psiquiátrico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo de desinstitucionalização de fato começa em 1985, ano marcado pelo fim da Ditadura Militar e pela realização de vários eventos que aprofundam o debate sobre a situação do atendimento. A [[I Conferência Nacional de Saúde Mental]] marca o início da desinstitucionalização devido aos conflitos entre o MTSM, a ABP e grupos não-organicistas que passaram a dirigir o DINSAM. Na conferência, consagrou-se uma reviravolta na perspectiva com a consolidação do lema &amp;quot;por uma sociedade sem manicômios&amp;quot;, rompendo com a lógica tanto privatista quanto estatista e questionando o próprio modelo psiquiátrico tradicional. Este passou a ser amplamente entendido como fenômeno cultural que promove o tratamento moral e o controle dos corpos, uma visão abertamente basagliana e antimanicomial. Alguns entendem que, nesse momento, a tradição anti-institucional que originou os primeiros questionamentos na década de 1970 foi restaurada e fortalecida. Após a Conferência, o próprio MTSM se renovou, se desatrelando do Estado, retomando sua independência e seu papel de transformação social.  A mudança do movimento se consolidou no [[II Congresso Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental]], quando a noção de racionalização e modernização dos serviços que havia caracterizado o período da co-gestão foi recusado em nome de uma pauta anti-institucional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em meados dos anos 1980 começam a surgir novos modelos de atenção à saúde que poderia substituir o modelo psiquiátrico. Em São Paulo é criado o primeiro [[Centro de Atenção Psicossocial (CAPS)]], em 1987. Em Santos, surge o [[Núcleo de Atenção Psicossocial (NAPS)]], em 1989. Estes serviços passaram a ser vistos como os modelos para uma contestação profunda dos manicômios, justificando seu encerramento. Já na década de 1990, o SUS introduziu mecanismos de fiscalização e auditoria que começaram a sufocar financeiramente os asilos privados que não cumpriam níveis mínimos de dignidade. Portarias históricas do Ministério da Saúde, inspiradas na [[Declaração de Caracas (1990)]], passaram a proibir a criação de novos leitos psiquiátricos asilares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após mais de uma década de tramitação e intensos debates no Congresso Nacional, como fruto dos embates históricos iniciados na crise do DINSAM e que atravessaram debates públicos extremamente imporantes, foi promulgada a Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001, que ficou conhecida como [[Lei da Reforma Psiquiátrica]] ou Lei Paulo Delgado, seu autor. Esta legislação se tornou o marco jurídico definitivo da virada assistencial no Brasil. A lei instituiu o direito do paciente de ser tratado em ambiente terapêutico o menos restritivo possível e colocou a internação psiquiátrica como último recurso possível. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para preencher o vazio deixado pelo fechamento dos grandes hospitais, o SUS estruturou a [[Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)]], formalizada na década seguinte pela Portaria nº 3.088 de 2011. A RAPS organizou o cuidado em diferentes níveis de complexidade, com os CAPS divididos nas modalidades CAPS I, II, III, CAPSi  e CAPS AD e, por fim, os [[Serviços de Residência Terapêutica (SRT)]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, a luta continua devido a retrocessos observados na segunda metade da década de 2010 e início dos anos 2020. Mudanças nas diretrizes da Política Nacional de Saúde Mental tentaram reintroduzir a centralidade do hospital psiquiátrico e incentivaram o uso de práticas baseadas no isolamento. Além disso, o governo federal passou a financiar massivamente as chamadas [[Comunidades Terapêuticas]], instituições de caráter predominantemente privado e religioso voltadas ao acolhimento de usuários de drogas, de onde emanam graves denúncias de todos os tipos de violação dos direitos humanos e que representam um evidente retrocesso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje, o campo da saúde mental no Brasil vive um embate profundo entre duas visões. De um lado, aqueles que lutam pela consolidação da RAPS, em defesa da clínica da subjetividade, da defesa dos direitos humanos, pela redução de danos e pela inserção social pelo trabalho e pela cultura. Do outro lado observa-se a persistência do &#039;&#039;lobby&#039;&#039; asilar e de setores que buscam a mercantilização do cuidado, por meio do encarceramento, da medicalização extrema do sofrimento psíquico, da higienização dos centros urbanos e do recolhimento dos indesejáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
BIRMAN, Joel. &#039;&#039;&#039;A physis da arte&#039;&#039;&#039;: Deleuze e a clínica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017. &lt;br /&gt;
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CASTEL, Robert. &#039;&#039;&#039;A ordem psiquiátrica&#039;&#039;&#039;: a idade de ouro do alienismo. Rio de Janeiro: Graal, 1978.&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1700</id>
		<title>História da loucura: da Grécia antiga à luta anti-manicomial</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1700"/>
		<updated>2026-07-03T23:08:50Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* O Nascimento da Psiquiatria */ Inclusão de seção&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto com finalidade didática, escrito por André Elias Morelli Ribeiro para o curso de Psicologia do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras. Seu uso é aberto, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Introdução ==&lt;br /&gt;
A história da loucura é, ao mesmo tempo, uma narrativa sobre o modo como diferentes sociedades compreenderam a mente humana e uma reflexão sobre os mecanismos de poder que moldaram práticas de exclusão, cuidado e resistência vinculados às diferentes formas que diferentes grupos humanos entenderam como loucura ou algo similar, conforme uma visão ampliada contemporânea. Este material inicia na Grécia antiga e chega até o movimento antimanicomial no Brasil e, ao longo deste trajeto, pode-se observar como a loucura foi interpretada ora como intervenção divina, ora como desvio moral, ora como doença fisiológica, ora como ameaça social. Cada época construiu suas próprias respostas àquilo que considerou loucura que variaram entre a integração comunitária, o confinamento, o tratamento brutal e a busca por tratamentos médicos ou espirituais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, a trajetória seguiu de perto os modelos europeus. Do Hospício de Pedro II às colônias agrícolas, passando pela gestão de Juliano Moreira, a psiquiatria nacional oscilou entre avanços humanitários e práticas de exclusão. O período Vargas e o Estado Novo intensificaram o encarceramento, transformando hospitais em verdadeiros campos de concentração administrativos. As décadas seguintes viram a adoção de terapias brutais, como eletrochoques e lobotomias, mas também o surgimento de movimentos de resistência, como o trabalho de Nise da Silveira, que introduziu a arte e o afeto como caminhos de cura, ou a emergência de questionamentos ao modelo psiquátrico manicomial. A partir dos anos 1960, a privatização da assistência psiquiátrica gerou a chamada “Indústria da Loucura”, marcada por internações lucrativas e violações sistemáticas de direitos humanos que marcaram profundamente a forma como se entende a loucura contemporaneamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em síntese, o percurso histórico apresentado aqui mostra que a loucura nunca foi apenas um fenômeno clínico mas, antes, um espelho das sociedades, revelando seus medos, suas crenças e suas formas de organizar o convívio humano. De sagrada a temida, de medicalizada a mercantilizada, apresenta-se e se discute como surgiram vozes e práticas que reivindicaram humanidade e liberdade para os considerados loucos.&lt;br /&gt;
== As Loucuras no Mundo Antigo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Grécia antiga ===&lt;br /&gt;
Na Grécia antiga, em certo momento a loucura era considerada uma intervenção dos deuses e, como os gregos era politeístas, a varidade de formas de loucura e os modos de intervenção também era bem grande. A loucura poderia ser vista, por exemplo, como uma punição. É o caso do herói Ajax, filho de Telamão. Após a morte de Aquiles, a armadura do herói foi dada a Odisseu, e a afronta levou Ajax a um estado de fúria e ressentimento. A deusa Atena, intervindo em favor de Odisseu para proteger os Aqueus da vingança de Ajax, lançou sobre ele uma cegueira mental. Tomado pela loucura, Ajax massacrou o gado de guerra que havia sido capturado, acreditando que estava matando os líderes aqueus, incluindo Odisseu e Agamenon. Ao recobrar a sanidade e perceber seu ato vergonhoso, cometeu suicídio devido à humilhação. Essa cena ilustra a loucura como uma intervenção divina direta na forma de loucura poderia ser vista como destrutiva e extremamente negativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em outros episódios da mitologia grega, a loucura surge como uma consequência direta de traumas e da perseguição implacável por vingança. Um exemplo é o de Orestes que, após assassinar sua mãe, Clitemnestra para vingar a morte de seu pai, Agamenon, passa a ser atormentado pelas Erínias. Essas divindades da vingança, também conhecidas como Fúrias, levaram o herói a um estado de delírio e desespero profundo, personificando a tortura psicológica e a perda da razão como uma forma de acerto de contas espiritual e moral pelo matricídio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura não era unicamente um flagelo ou uma punição. Os gregos  viam a mania, um termo que hoje engloba a loucura, em uma perspectiva dual. Na sua manifestação mais elevada, era considerada uma benção ou inspiração divina. Essa visão positiva estava profundamente ligada ao culto de Dionísio, o deus do vinho, do teatro e do êxtase. Nos rituais dionisíacos, as bacantes e outros seguidores buscavam o êxtase, que é, literalmente, &amp;quot;sair de si&amp;quot;, por meio da dança frenética, música e consumo de vinho, o que era percebido como um estado de comunhão direta e inspirada com a divindade. Longe de ser destrutiva, essa forma de loucura era vista como uma fonte de criatividade, revelação e poder, sendo um caminho para a verdade profética e como expressão artística ligada a Dionísio. Este conceito de mania inspirada também se estendia a outros domínios, como a profecia dos oráculos, que eram vinculados à adoração ao deus Apolo, e mesmo a poesia, onde a perda temporária da razão humana era interpretada como a mente sendo tomada por uma força divina que trazia algum tipo de inspiração superior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em certo momento, ainda na Grécia antiga, as ideias sobre a loucura - ou algo que pareça loucura aos olhos contemporâneos - foi modificada graças a Hipócrates, o pai da medicina. A visão de [[Hipócrates]] marcou uma transição crucial para o entendimento da loucura na Grécia Antiga, pois afastou a loucura das concepções divinas e sobrenaturais para uma explicação puramente fisiológica e natural. Ele desenvolveu a [[Teoria dos Quatro Humores]], que se tornou o pilar da medicina ocidental por séculos. Segundo essa teoria, o corpo humano era composto por quatro fluidos essenciais (ou humores), que são sangue, fleuma, bile amarela e bile negra. A saúde mental e física dependia do equilíbrio harmonioso desses humores. A loucura, ou qualquer doença mental, era, portanto, interpretada como o resultado de um desequilíbrio, como o excesso de bile negra causando a melancolia (depressão), ou o desarranjo da fleuma e da bile amarela, que poderiam levar a estados de mania e frenesi. Com isso, Hipócrates postulou que a loucura não era uma maldição dos deuses, mas sim uma doença com origem no corpo. Essa abordagem naturalista permitiu que a loucura passasse a ser tratada com métodos como dietas, exercícios e remédios, no lugar de rituais religiosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tradição bíblica ===&lt;br /&gt;
Na tradição bíblica, escrita em contextos e culturas não europeias, a loucura também é frequentemente retratada como uma forma de intervenção ou punição divina. Um dos episódios mais emblemáticos é a história do rei Nabucodonosor II, relatada no Livro de Daniel. De acordo com o texto, devido ao seu orgulho excessivo e sua recusa em reconhecer a soberania de Deus, o rei foi acometido por uma forma de loucura que o levou a viver como um animal, alimentando-se de ervas e deixando seus cabelos e unhas crescerem sem controle. Na psicologia moderna, esse estado em que um indivíduo acredita ter se transformado em um animal é conhecido como licantropia clínica, uma condição rara. A loucura, conforme emerge na descrição bíblica, emerge ligada à perda da razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, a tradição bíblica também apresenta um paradoxo. No Novo Testamento, cujos livros foram escritos no contexto do mundo greco-romano, o que é considerado &#039;loucura&#039; pelos homens revela-se a suprema sabedoria divina. Essa ideia é desenvolvida pelo apóstolo Paulo em sua Primeira Carta aos Coríntios. Na passagem, ele afirma: &#039;Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens&#039; (1 Coríntios 1:25). Paulo usa o termo &#039;&#039;moria&#039;&#039; (loucura, tolice) para contrastar a sabedoria humana que, na época do texto, era representada pela filosofia e retórica grega. A mensagem da cruz parecia ilógica e insensata aos olhos dos não cristãos, que debochavam do fato do messias ter sido capturado e morto pelos romanos. Assim, a loucura deixa de ser apenas uma punição para se tornar uma lente através da qual a verdadeira sabedoria, ou seja, a salvação, é revelada, invertendo a hierarquia de valores do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Pérsia ===&lt;br /&gt;
Na Pérsia, a visão da loucura e do comportamento irracional foi moldada por seu profundo dualismo religioso e, posteriormente, pelas tradições islâmicas que se seguiram à conquista árabe. O zoroastrismo, a antiga religião persa fundada por Zoroastro (Zaratustra), transformou o politeísmo em um dualismo cósmico centralizado no conflito eterno entre Ahura Mazda (Ormazd), o criador da vida, luz e verdade, e Angra Mainyu (Ahriman), a escuridão e a mentira. Neste cenário, o mundo material é o campo de batalha entre os dois. Ahriman buscava corromper tudo o que Ormazd havia criado. Embora o texto não defina a loucura diretamente, o comportamento irracional e a desrazão poderiam ser facilmente associados ao domínio de Ahriman e à mentira (&#039;&#039;druj&#039;&#039;), enquanto a sanidade e a pureza eram atributos de Ormazd. A batalha contra essa corrupção exigia que os adoradores de Ormazd permanecessem verdadeiros e evitassem poluir o fogo e a terra sagrada, indicando que a pureza mental e ritual era uma defesa contra as forças do mal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Islã ===&lt;br /&gt;
Na cultura islãmica, de forma geral e bastante resumida, o comportamento considerado irracional era frequentemente explicado pela crença nos &#039;&#039;djinn&#039;&#039;, espíritos errantes que habitavam o deserto e certos lugares considerados místicos e que podiam invadir a mente humana, causando o que a sociedade ocidental moderna chamaria de insanidade ou, talvez, distúrbio emocional. Nesses casos, o tratamento era o exorcismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na era clássica da medicina islãmica, ganhou força a tradição galênica, que atribuía as perturbações mentais a desequilíbrios nos quatro humores corporais (sangue, fleuma, bile amarela e bile negra). Médicos proeminentes rejeitaram a ideia de que a loucura fosse exclusivamente uma possessão demoníaca, tratando-a como uma patologia de base orgânica ligada ao cérebro. Avicena dedicou seções extensas a transtornos como a melancolia, o delírio e a mania. Ele descreveu detalhadamente como o excesso de bile negra afetava as faculdades cognitivas e imaginativas do cérebro, propondo tratamentos que incluíam dieta, banhos térmicos, massagens, sangrias reguladas e o uso de fitoterápicos, semelhante à tradição grega mais tardia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período medieval, o mundo islâmico desenvolveu os bimaristans (hospitais), que funcionavam como centros de tratamento médico gratuito, financiados por dotações religiosas (&#039;&#039;waqf&#039;&#039;). O objetivo era restaurar o equilíbrio do espírito e dos humores através de estímulos ambientais positivos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura também apareceu em narrativas culturais associadas aos povos, de forma a sugerir causas e curas mais mundanas. O famoso conto persa de As Mil e Uma Noites, cuja origem é indo-persa mas que foi sedimentada na cultura islãmica, relata a história do rei Shahriyar, que, convencido da inevitável traição feminina, cai em uma loucura paranóica que o leva a se casar com uma virgem todas as noites e, pela manhã, assassiná-la. Sua &amp;quot;cura&amp;quot; é alcançada através da engenhosidade e paciência humana por meio de uma dessas esposas, Scheherazade, que usa a arte de contar histórias para retardar sua execução por &amp;quot;mil e uma noites&amp;quot;, período em que sua paranoia é gradualmente desfeita. A história sugere que a narrativa e o tempo podem curar a loucura causada por trauma psicológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As Loucuras na Idade Média ==&lt;br /&gt;
A transição para a Idade Média é marcada pelo colapso do Império Romano do Ocidente (476 d.C.), que trouxe profundas transformações políticas e sociais. O fim do governo centralizado romano levou à fragmentação do poder e ao surgimento do sistema feudal, onde a administração das terras e a autoridade passaram para as mãos de senhores locais, muitos deles antigos oficiais romanos. Este período também é caracterizado por um notável declínio na vida urbana e nos grandes centros intelectuais. O colpaso das instituições romanas deu lugar à ascensão e consolidação da única instituição internacional grande e organizada que havia sobrado, a Igreja Católica, que se tornou a principal forma de organização política, social e cultural. Houve ainda uma perda gradual da tradição cultural greco-romana por diferentes razões e, consequentemente, um afastamento das explicações naturalistas de Hipócrates, com exceção do pequeno renascimento do século XII e retomadas pontuais da sabedoria grega. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a hegemonia da Igreja Católica, a loucura tendeu a ser novamente interpretada sob uma lente teológica, sendo vista como uma manifestação de forças sobrenaturais ou desvios morais. Nesse contexto, certas vezes a loucura era interpretada como a intervenção de Satanás ou como possessão demoníaca, exigindo rituais de exorcismo para a cura. Em outros momentos, era vista como uma prova espiritual enviada por Deus ou como um efeito direto do pecado na alma do indivíduo. Havia também explicações que a tratavam como uma fragilidade da vontade humana, como no caso do que chamaríamos hoje de compulsões, misturando elementos da antiga tradição grega com aspectos da teologia cristã. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Socialmente, a gestão da loucura na Idade Média também passou por diferentes fases e transformações, dependendo do local e da época. Havia casos em que os considerados loucos eram apenas torturados e trancafiados, métodos considerados eficazes para expulsão de espíritos malignos, por exemplo. Contudo, em muitos outros casos, os considerados loucos conviviam de forma mais ou menos harmoniosa com o resto da comunidade, a depender de suas capacidades e possibilidades, e certos “desvios” eram perdoados devido à sua condição peculiar, sem a necessidade imediata de uma exclusão radical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Nau dos Loucos ===&lt;br /&gt;
Um caso notável e emblemático da gestão da loucura nesse período é a [[Nau dos Loucos]] (&#039;&#039;Stultifera Navis&#039;&#039;), conforme trabalhado por [[Michel Foucault]]. Anteriormente ao modelo de exclusão-repressão que viria a se consolidar na Idade Clássica, a loucura viveu o que se pode chamar de seus &amp;quot;dias de glória&amp;quot; na transição para a Renascença. Nesse contexto, o louco poderia ser visto como um sábio, um místico, um tolo ou simplesmente um excêntrico que estava, de certa forma, integrado ao tecido social.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Nau dos Loucos, que circulavam no Vale do Rio Reno (partes da Alemanha, França Suíça e Países Baixos) simbolizava uma existência errante, onde o louco era confiado à água e ao navio para ser levado de uma cidade a outra, mantendo-o em um estado de exclusão simbólica, mas ainda assim em movimento e circulação. Para Foucault, essa experiência trágica da loucura permitia que o insano portasse uma forma de lucidez em sua insensatez, revelando verdades que a razão comum não ousava enunciar. O louco via através das ilusões mundanas, aproximando-se de uma verdade profética ou ética que seria progressivamente silenciada nos séculos seguintes pela ascensão do saber médico e da racionalidade científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Santa Dimpna e Geel ===&lt;br /&gt;
Outro acontecimento relevante da Idade Média para a compreensão da loucura é o episódio de [[Santa Dimpna]]. Nascida no século VII na Irlanda, ela era filha de um rei pagão e de uma mãe cristã devota, de quem herdou sua fé e pela qual decidiu fazer votos de castidade. Após a morte prematura da mãe, seu pai, mergulhado em um profundo luto, decidiu que Dimpna era a única mulher com beleza comparável à da falecida rainha e insistiu em se casar com a própria filha, o que seria considerado escandaloso também para aquela cultura. Horrorizada e e alvo de uma perseguição incestuosa, Dimpna fugiu da Irlanda acompanhada de seu confessor, o padre Gereberno, e de dois servos fiéis. O grupo cruzou o mar e estabeleceu-se em [[Geel]], um minúsculo vilarejo na atual Bélgica, onde Dimpna se dedicou ao cuidado dos pobres e doentes mentais. No entanto, o rei conseguiu encontrá-los e, após a recusa de Dimpna tanto em retornar para a Irlanda quanto se casar com o pai, ordenou a execução de Gereberno, enquanto ele mesmo decapitou a filha, tornando a menina de 15 anos de idade numa mártir cristã. Após sua morte, relatos de curas milagrosas de pessoas com distúrbios mentais e epilepsia começaram a ocorrer junto ao seu túmulo, o que a tornou a padroeira dos doentes mentais. Já o local converteu-se num espaço de peregrinação ligado à questão da saúde mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O legado de Santa Dimpna em Geel deu origem a um modelo para a psiquiatria moderna pois, devido à devoção e adoração à Santa Dimpna, a cidade transformou-se em um santuário onde os pacientes não eram trancafiados, mas acolhidos em lares de famílias locais como &amp;quot;hóspedes&amp;quot;. Esse sistema de cuidado comunitário e desinstitucionalização, que persiste há séculos, é considerado um dos precursores do tratamento humanizado e da reabilitação psicossocial na saúde mental contemporânea.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Idade Clássica: a nova era da loucura encarcerada ==&lt;br /&gt;
A partir do século XVII, um período em que o filósofo Michel Foucault denominou como &amp;quot;A Época Clássica&amp;quot;, a forma de entender e lidar com a loucura passa por uma nova mudança devido ao ingresso da razão como centro e alma do pensamento europeu, em substituição ao dogmatismo religioso e ao conhecimento da igreja. Esta mudança não é brusca, mas lenta e gradual, porém suas marcas serão duradouras e serão sentidas por quase toda a Europa. Para essa nova e nascente razão, a loucura seria seu oposto direto. Se o homem era definido pela sua capacidade racional e sua utilidade produtiva, o louco era, portanto, como um &amp;quot;não-homem&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a solução para a não-razão era a internação, que não buscava a cura, mas a neutralização do irracional. O silenciamento da loucura era necessário para que a ordem social pudesse florescer. Os campos e cidades deveriam ser espaços de circulação de mercadorias pelas mãos de cidadãos produtivos, e qualquer elemento que atrapalhasse essa dinâmica deveria ser guardado em instituições que funcionavam como uma guarda contra o risco social que tais pessoas ofereciam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Relatos da época descrevem cenários terríveis sobre as condições de internação dos loucos. Os internos eram frequentemente mantidos em celas úmidas e insalubres, muitas vezes acorrentados às paredes. O uso de chicotes e outras punições corporais era justificado pela crença de que o louco, por ter perdido a razão, teria a resistência física de um animal, não sentindo frio ou dor da mesma forma que uma pessoa &amp;quot;normal&amp;quot;. Além disso, as instituições funcionavam sob uma lógica de vigilância constante. Não se tratava de observar para entender a mente, mas para garantir que o corpo anormal permanecesse contido e, no máximo possível, docilizado. Foi dentro desse ambiente de absoluta degradação e mistura indiscriminada de diferentes &amp;quot;tipos&amp;quot; de desviantes que a consciência médica começou a germinar, ainda que de forma incipiente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== França ===&lt;br /&gt;
O ano de 1656 marca um divisor de águas simbólico para o modelo de confinamento asilar no mundo todo, com a criação do Hôpital Général (Hospital Geral) em Paris, por um edito real do rei Luís XIV. É importante entender que um hospital geral deste período não é como um hospital moderno, ou seja, uma instituição de saúde voltada para a compreensão da doença e a prática do tratamento e cura. Ele estava mais próximo de uma estrutura administrativa e, de certo modo, semi-judiciária. Isso ocorria porque o interesse não estava em “curar” ou “tratar” ninguém mas, antes disso, executar o interesse do Estado de &amp;quot;limpar&amp;quot; as ruas de Paris de tudo o que era considerado improdutivo ou escandaloso. Era um período de abundância material, grandes gastos estatais e de uma imensa riqueza do império colonial francês, e desvios nessa ordem eram vistos como perigosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes tais hospitais gerais eram confinados, todos juntos, grupos totalmente diferentes, tais como pobres, mendigos, desempregados, libertinos, prostitutas, alquimistas, opositores políticos e, claro, também os considerados loucos. Em suma, tratava-se de um depósito de indesejados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que começou em Paris se tornou um modelo para outros lugares sobre como fazer a gestão da miséria e da “desrazão”, num forte deslocamento do que se via na Idade Média, com muitas experiências de integração social. O louco, antes tendo algo de profético, místico ou talvez apenas uma excentricidade da vida medieval campesina, se torna uma questão político-administrativa. Essa mudança importante marca uma migração para a possibilidade de institucionalização daquilo que era considerado errante ou, de alguma forma, desagradável e, assim passível de ser alvo de uma forma de gestão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em Paris, as duas principais unidades do Hospital Geral se tornaram emblemáticas e simbólicas. A [[Salpêtrière]], que era destinada às mulheres, e o hospital [[Bicêtre]], destinado aos homens. Ambas as instituições não ofereciam qualquer forma de tratamento. Eram basicamente depósitos humanos, onde o louco poderia acabar acorrentado ao lado de criminosos, por exemplo. O critério de internação não era o diagnóstico clínico, mesmo porque simplesmente ele nem existia, mas a incapacidade de se ajustar às normas de trabalho e à moralidade da época.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Alemanha ===&lt;br /&gt;
Na Alemanha, com a ideia de que o ócio era inaceitável, as leis determinavam o trancafiamento de qualquer pessoas considerada louca, perigosa e incapacitada para o trabalho. Nesse contexto, surgiram as &#039;&#039;Zuchthäusern&#039;&#039;, que seriam as [[Casas de Correção (Zuchthäusern)|Casas de Correção]]. Cidades como Hamburgo e Bremen estabeleceram esses locais onde a loucura era tratada através do trabalho forçado. Eles acreditavam que o ócio era a raiz do mal e que o confinamento e o trabalho forçado eram úteis para reintegrar o indivíduo à lógica da produtividade. Para os loucos, acreditava-se que o trabalho mecânico, repetitivo e exaustivo tinha o poder de &amp;quot;disciplinar a mente animalizada&amp;quot;, submetendo a vontade rebelde ou caótica do insano à razão e à ordem. Não era um trabalho, contudo, inútil, pois esta mão de obra foi utilizada até mesmo na produção de uniformes militares. Os loucos considerados totalmente impossíveis de docilizar eram simplesmente trancafiados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Inglaterra ===&lt;br /&gt;
Na Inglaterra, o sistema das Workhouses (Casas de Trabalho) cumpria um papel semelhante ao modelo alemão. No entanto, Londres já possuía o [[Bethlem Royal Hospital (Bedlam)|Bethlem Royal Hospital]], conhecido popularmente como Bedlam. No século XVII e XVIII, Bedlam se tornou um espetáculo de horror, onde o público podia pagar para observar os internos como se fossem animais em um zoológico. A loucura agora um objeto de uma forma de exibição degradante e mantida atrás de grades e ferros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Portugal ===&lt;br /&gt;
Em Portugal a gestão dos &amp;quot;desviantes&amp;quot; recaiu fortemente sobre as Santas Casas da Misericórdia. O [[Hospital Real de Todos-os-Santos]], fundado em Lisboa em 1492 e inaugurado em 1501, se tornou o epicentro do tratamento (ou confinamento) dos loucos no país. Dentro deste hospital, existiam as chamadas &amp;quot;[[Casas de Doidos]]&amp;quot;, destinados àqueles que haviam “perdido a luz da razão”. Seguindo o padrão europeu, o hospital não separava rigidamente o louco por diagnóstico. Eles dividiam espaço com indigentes e enfermos de diversas naturezas, embora as &amp;quot;casas de doidos&amp;quot; fossem áreas de maior isolamento devido à agitação dos internos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XVIII português, a internação era, acima de tudo, uma solução para a mendicância e, por vezes, para o alcoolismo. O louco oriundo de uma família com posses era mantido nas próprias casas, muitas vezes escondido em sótãos ou anexos e até mesmo acorrentados. Já o &amp;quot;louco pobre&amp;quot;, que não poderiam ser cuidados por seus familiares, acabava nos hospitais reais ou mesmo nas cadeias, a depender de uma série de fatores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Nascimento da Psiquiatria ==&lt;br /&gt;
=== Pinel e a criação da psiquiatria nosográfica ===&lt;br /&gt;
É na virada do século XVIII para o XIX que nasce a psiquiatria como um campo autônomo do saber e da prática médica. Esta mudança fundamental é protagonizada por duas figuras centrais da medicina francesa: [[Philippe Pinel]] e seu discípulo, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]]. Juntos, eles transformaram o hospital de depósito de insanos e indesejáveis em um verdadeiro hospital, em que o louco e o alienado poderiam receber um tratamento racional e científico, em substituição às correntes, à disciplina e ao silenciamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A emergência da psiquiatria como campo autônomo teve como fundamento científico inicial a observação clínica sistemática dentro do asilo. Este era concebido como um laboratório, onde o alienista poderia estudar a loucura em seu estado puro, separada das influências do mundo exterior. A principal questão científica e prática que justificava essa nova ciência era desenvolvida e aplicada de forma sistemática, e denominava-se nosografia ou diagnóstico. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pinel, em seu [[Index.php?title=Traité médique-philosophique sur l&#039;aliénation mentale, ou la manie|Traité médique-philosophique sur l&#039;aliénation mentale, ou la manie]], de 1801, classificou a loucura com base em critérios sintomatológicos, seguindo um procedimento comparativo semelhante ao das ciências naturais. O desafio central, que persistiria ao longo do século XIX, era a ambiguidade constante entre a busca por uma sede orgânica, ou seja, um “local físico-biológico” da loucura, junto da necessidade de uma regulação de caráter moral. O tratamento apoiava-se na moralidade para combater as causas que eram, elas próprias, consideradas morais, mas algo estava também no corpo do doente. Isso mostra que a nova psiquiatria de Pinel era a mistura de medicina com moralidade. Este enfoque resultou na valorização do exame clínico pelos psiquiatras francófonos, permitindo a união da observação clínica com a formulação de hipóteses.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1793, em meio ao fervor da Revolução Francesa, Philippe Pinel foi nomeado médico-chefe do Hospital de Bicêtre e, posteriormente, da Salpêtrière. O cenário que encontrou era o ápice do &amp;quot;Grande Enclausuramento&amp;quot;, ou seja, homens e mulheres amontoados nas condições já descritas, com destaque para as correntes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A intervenção de Pinel, simbolizada pelo gesto de “libertar os loucos de suas correntes”, não foi apenas um ato humanitário, mas também uma decisão de natureza epistemológica. Pinel acreditava que a loucura não era uma possessão demoníaca nem uma degeneração animal irreversível, mas uma alienação mental ou, em outras palavras, uma perturbação das faculdades intelectuais e afetivas que mantinha o indivíduo como se fosse &amp;quot;estrangeiro&amp;quot;, ou alienado, de si mesmo e da sociedade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O centro da reforma psiquiátrica proposta por Pinel era o tratamento moral, e se baseava em três pilares fundamentais. O primeiro, o isolamento terapêutico. Era necessário que o paciente ficasse separado de seu ambiente que, segundo o médico, era a fonte de sua excitação e desequilíbrio. O segundo pilar era a autoridade médica, onde este deveria atuar como um pai ao mesmo tempo severo e justo, usando a persuasão, a benevolência e, se fosse necessário, a firmeza para restaurar a razão do paciente. Por fim, a disciplina e o trabalho, com a aplicação rigorosa de horários e valorização de atividades produtivas, o que ocuparia a mente alienada e, assim, combateria a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em seus estudos, Pinel identificou quatro tipos de loucura, quais sejam, a [[melancolia]], a [[mania]], a [[demência]] e a [[idiotia]], cada uma com suas questões próprias específicas e metodologias de tratamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Esquirol e a consolidação do modelo ===&lt;br /&gt;
Se Pinel era considerado o visionário e o libertador, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]] foi o grande organizador e o clínico meticuloso. Discípulo de Pinel, Esquirol sucedeu seu mestre na Salpêtrière e deu à psiquiatria a robustez científica e administrativa de que ela necessitava. Esquirol compreendeu que a eficácia do tratamento moral dependia da arquitetura hospitalar. Para ele, o hospital não era apenas um prédio onde ocorria o tratamento, mas também um instrumento de cura. Ele desenvolveu o modelo de pavilhões, permitindo a separação dos pacientes por tipo de patologia, o que reforçou a própria ideia de diagnóstico e de avaliação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Esquirol refinou as definições clínicas de Pinel. Foi ele quem estabeleceu a distinção clássica entre alucinação (uma percepção sem objeto) e ilusão (uma percepção deformada de um objeto real), entre outros pontos que, na sua época, foram considerados avanços exemplares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Legalização da Alienação ===&lt;br /&gt;
O esforço médico, político e administrativo de Esquirol na continuação do trabalho de Pinel culminou na promulgação da lei francesa de 30 de Junho de 1838, a primeira grande legislação psiquiátrica do mundo moderno. Esta lei estabeleceu a obrigatoriedade de cada departamento francês possuir um asilo e regulamentou as condições de internação e interdição. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A princípio, embora também protegesse o alienado do arbítrio e de outras violências que poderiam ser cometidos contra os loucos nas províncias e mesmo nas periferias de Paris, a lei também deu total poder ao médico psiquiatra. Era ele quem poderia decidir quem deveria ou não ser privado de sua liberdade. Com isso, a psiquiatria tornava-se, assim, um braço do Estado na gestão da ordem social mas, ao contrário do polícia e do inquérito polícial, que exigia provas independentes e a atuação do sistema judiciário, o psiquiatra estava coberto sob o manto da ciência médica, o que dava a ele poderes gigantescos de decidir entre a alienação e a razão. Isso marcou profundamente a forma como a loucura e a saúde mental passaram a ser compreendidas e tratadas nas décadas seguintes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Desenvolvimento da Psiquiatria Contemporânea ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Emil Kraepelin e uma Nova Racionalização ===&lt;br /&gt;
Apesar da forte valorização da psiquiatria francesa na constituição da psiquiatria contemporânea, uma das principais contribuições para o ramo em sua forma atual foi empreendida por um alemão, [[Emil Kraepelin]]. No final do século XIX, a psiquiatria alemã estava dividida entre os &amp;quot;psiquistas&amp;quot;, que viam a loucura como uma doença da alma ou um mal moral, a exemplo dos franceses; e os &amp;quot;somatistas&amp;quot;, que buscavam no cérebro a origem dos sintomas das doenças mentais. Kraepelin superou esse impasse ao focar não na anatomia, mas na evolução temporal das doenças. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin passou a entender que sintomas isolados, como ouvir vozes ou a crença de um paciente em ser alguma personalidade histórica, não eram suficientes para definir uma doença. Ele propôs olhar também para seu desenvolvimento ao longo do tempo. Com essa premissa em mãos, Kraepelin introduziu as &amp;quot;cartas diagnósticas&amp;quot; (&#039;&#039;Zählkarten&#039;&#039;), um sistema de fichamento padronizado onde se registrava a história de vida do paciente, seus antecedentes familiares, os sintomas detalhados e, por fim, o desfecho da doença. Isso transformou a clínica psiquiátrica, pois articulava neuroanatomia e psicologia experimental, já que ele fora aluno de [[Wilhelm Wundt|Wundt]]. A loucura não seria apenas uma manifestação, mas teria uma história relevante para a compreensão de sua origem e desenvolvimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin também é considerado o pioneiro da [[Psiquiatria Transcultural]]. Visando provar que as categorias diagnósticas psiquiátricas seriam universais, ele viajou para lugares como a ilha de Java (Indonésia) em 1904 para estudar a manifestação da loucura em populações não europeias. Ele concluiu que, ainda que os conteúdos dos delírios mudassem conforme a cultura, a estrutura fundamental da loucura permanecia a mesma, o que reforçou sua tese de que eram doenças biológicas da espécie humana. Apesar de suas várias contribuições, no final de sua vida ele se transformou um higienista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tratamentos brutais ===&lt;br /&gt;
O período entreguerras foi marcado pelo desespero dos psiquiatras em encontrar tratamentos ativos e curativos para esvaziar os superlotados manicômios herdados do século XIX. Foi também um período de grande entusiasmo com a ciência, que passou a ser vista como o empreendimento que salvaria a humanidade de seus tormentos. Para a loucura, isso trouxe a a era das terapêuticas heróicas e invasivas, que transformaram a prática asilar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi nesse período que alguns dos tratamentos mais violentos foram desenvolvidos. Um primeiro exemplo é o da Malarioterapia, criada em 1917 por Julius Wagner-Jauregg e que consistia em infectar pacientes de neurossífilis com malária, ideia que rendeu-lhe a ele o único Nobel da psiquiatria clássica. Outro tratamento conhecido, criado em 1933, é o Coma Insulínico, onde se induzia comas por hipoglicemia em esquizofrênicos, na expectativa que, quando retornassem deste estado, estariam &amp;quot;melhores&amp;quot;. Entre 1934 e 1938, Ladislas von Meduna e, posteriormente, Ugo Cerletti introduziram as convulsões artificiais (químicas e elétricas) como tratamento, que consistiam em induzir choques químicos ou elétricos no paciente. O médico português Egas Moniz, por sua vez, ganhou o Nobel de Medicina de 1949 ao criar a Lobotomia Pré-Frontal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A loucura no nazismo ===&lt;br /&gt;
Durante a Segunda Guerra Mundial, o determinismo biológico e as teorias de degeneração racial foram levadas ao extremo e resultaram na Ação T4 (&#039;&#039;Aktion T4&#039;&#039;). Este foi um programa nazista de, simplesmente, eutanásia sistemática, que assassinou mais de 200 mil doentes mentais e pessoas com deficiência na Alemanha e territórios ocupados. A cumplicidade da psiquiatria institucional com essa matança, bem como com o Holocausto, gerou uma crise ética profunda no pós-guerra, exigindo uma refundação humanista e internacional da disciplina, um dos grandes motores políticos subjacentes para a convocação do Congresso de 1950 em Paris.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O I Congresso Internacional de Psiquiatria ===&lt;br /&gt;
Realizado em Paris em agosto de 1950, o [[I Congresso Internacional de Psiquiatria]] foi projetado especificamente para unificar, debater e institucionalizar a psiquiatria como uma disciplina médica global e autônoma. Durante o Congresso foram colocados, frente a frente, as grandes correntes que disputavam a hegemonia do entendimento da mente humana na época, a saber, as correntes psicodinâmica e a biológica. De forma menor, uma corrente social e anti-manicomial também se fez presente. O resultado do embate foi uma conciliação entre as duas maiores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um dos resultados do Congresso de 1950 foi a pressão para que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Associação Psiquiátrica Americana (APA) criassem manuais estatísticos e classificatórios unificados, o que resultou na inserção de uma seção robusta de transtornos mentais na CID-6 (Classificação Internacional de Doenças) e na publicação do primeiro [[DSM]], em 1952.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro resultado importante do evento foi a fundação da Associação Mundial de Psiquiatria ([[World Psychiatric Association (WPA)|World Psychiatric Association - WPA]]). Com isso, a psiquiatria deixou de ser um conjunto de escolas nacionais isoladas, como as escolas francesa, alemã, anglo-saxã, entre outras, para se tornar uma corporação científica internacional, com congressos periódicos, periódicos indexados e diretrizes globais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Loucura no Brasil ==&lt;br /&gt;
Até o início do século XIX, o Brasil colonial lidava com seus insanos de forma semelhante ao que ocorria na Europa. As famílias ricas mantinham seus parentes loucos em &amp;quot;quartos fortes&amp;quot;, privando-os mais ou menos da vida comunitária e familiar, a depender das circunstâncias, de forma semelhante ao que acontecia em Portugal. Já os pobres eram entregues à caridade das [[Santas Casas de Misericórdia]] ou vagavam pelas ruas, sendo ocasionalmente recolhidos a cadeias públicas quando perturbavam a ordem, indo e vindo das frágeis instituições brasileiras, sofrendo abusos e violências de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A transferência da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 gerou a necessidade de transformar a capital colonial em uma moderna metrópole europeia. Sob a influência do Iluminismo tardio e das notícias que chegavam sobre as reformas de Pinel na França, a elite médica brasileira, que havia estudado sobretudo na França e em Portugal, começou a pressionar o poder público pela criação de espaços específicos para o tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1830, a criação da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (que viria a ser a [[Academia Nacional de Medicina]]) foi o marco institucional dessa pressão. Esse movimento político funcionou. O momento decisivo ocorreu em 18 de julho de 1841, quando o Imperador D. Pedro II, em comemoração à sua coroação, assinou o decreto de fundação do primeiro hospital psiquiátrico do Brasil e da América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Hospício de Pedro II, ou o Palácio dos Loucos (1852–1889) ===&lt;br /&gt;
Inaugurado apenas em 8 de dezembro de 1852, o [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)|Hospício de Pedro II]] era gerido pela Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, que por anos geriu grande parte da loucura brasileira. Seu provedor era o médico [[José Clemente Pereira]], que era responsável por todos os aspectos da instituição, desde os médicos até os administrativos. Embora a gestão administrativa fosse religiosa, o saber médico tinha muito espaço, com nomes como [[Manoel Feliciano Pereira de Carvalho]], que tentaram implementar o &amp;quot;tratamento moral&amp;quot; inspirado em Esquirol. Apesar dos esforços, muitos relatos de abusos e de condições precárias mostravam a dificuldade em implementar um modelo brasileiro de tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a Proclamação da República em 1889, o Hospício de Pedro II foi desvinculado da Santa Casa e renomeado como [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)]]. Este foi um período de maior laicização e pela busca por um maior rigor científico, o que não aconteceu por completo, em grande parte devido à falta de profissionais adequadamente treinados para a questão. Apesar disso, o Brasil já possuía uma cátedra de psiquiatria desde 1883, ocupada por João Carlos Teixeira Brandão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diante dos altíssimos custos em manter o Hospital, surgem as colônias agrícolas como alternativa ao confinamento urbano. Em 1884, já havia sido inaugurada a [[Colônia de São Bento]] e, em 1890, a [[Colônia de Conde de Mesquita]], na Ilha do Governador. A ideia era que o trabalho na terra poderia colaborar na cura, além de os produtos deste trabalho poderiam ser consumidos no local, ajudando na manutenção dos espaços. Apesar dessas transformações e de evidentes melhorias, os relatos de época mostram que não acontecia nenhuma das duas coisas, nem produção agrícola suficiente, nem um processo terapêutico efetivo, mas entendia-se que a colônia agrícola era melhor do que o confinamento do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Era Juliano Moreira ===&lt;br /&gt;
Em 1903, o médico baiano [[Juliano Moreira]] assume a direção do Hospital Nacional de Alienados. Negro, de origem humilde e dotado de uma erudição impressionante, ele revolucionou a assistência brasileira aos alienados, sendo reconhecido internacionalmente como um dos grandes psiquiatras de seu tempo. Ele se tornaria o principal médico alienista do Brasil, tornando-se referência para todo o país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Moreira aboliu definitivamente o uso de camisas de força e as grades nas janelas, num gesto que se assemelhava àquele de Pinel, enfatizando que o hospital era um local de tratamento e cura, e não uma prisão ou um depósito de indesejados. Além disso, ele trouxe para o Brasil a nosologia de Emil Kraepelin, um psiquiatra alemão considerado o pai da psiquiatria moderna, da psicofarmacologia e da genética psiquiátrica, o que seria uma modernização do modelo francês adotado até então. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a gestão Moreira ocorreram várias mudanças. Foi criado o [[Pavilhão Bourneville]] para crianças com deficiência intelectual. Além disso, fundou-se em 1921 o [[Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro]], o primeiro do país, sob a liderança de [[Heitor Carrilho]]. Dentro dos hospitais incentivou-se a pesquisa laboratorial e anátomo-patológica, o que também abriu espaço para a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A influência e o prestígio de Juliano Moreira se espalhou pelo Brasil. Em São Paulo, destacou-se a figura de [[Franco da Rocha|Francisco Franco da Rocha]], que fundou em 1898 o [[Hospital do Juquery]]. O Juquery, como ficou conhecido, tornou-se uma &amp;quot;cidade-asilo&amp;quot;, chegando a abrigar dezenas de milhares de pacientes em um modelo que mesclava pavilhôes médicos com imensas colônias agrícolas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste período, a psiquiatria brasileira flertou intensamente com as teorias da degenerescência (de Morel e Magnan) e com a eugenia. Médicos como [[Renato Kehl]], bem como a criação da [[Liga Brasileira de Higiene Mental]] (1923), uma organização higienista fundada por [[Gustavo Riedel]], começaram a ver a loucura não apenas como um problema individual, mas como um risco biológico à raça brasileira. A higiene mental passou a atuar preventivamente em escolas e fábricas, buscando identificar &amp;quot;pré-delinquentes&amp;quot; e &amp;quot;personalidades anormais&amp;quot;. Apesar de não ter conseguido desenvolver muitas políticas efetivas, os eugenistas brasileiros eram ativos e influentes em muitos círculos decisórios importantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A criação de hospitais não se limitou a São Paulo e Rio de Janeiro. Em  1903, o governo de Minas Gerais fundou o [[Hospital Psiquiátrico de Barbacena]], que mais tarde seria palco de uma das maiores tragédias humanitárias do país. Em Pernambuco, o [[Hospital Ulysses Pernambucano]] foi fundado pelo médico de mesmo nome, que começou a desenvolver uma psiquiatria mais voltada para o social e para a prevenção no final dos anos 1920. Hospitais na Bahia, Rio Grande do Sul, entre outros, também foram criados, seguindo o pioneirismo do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Era Vargas e além: o início do encarceramento ===&lt;br /&gt;
Com a Revolução de 1930, o projeto de nação de Vargas exigia um povo saudável e produtivo, devido à visão desenvolvimentista suportada pela Aliança Liberal, que o elegeu. A loucura deixou de ser apenas uma questão de ordem pública ou um aspecto da caridade para se tornar um problema de segurança nacional e de saúde pública. Em 1941, no âmbito do Estado Novo, foi criado o [[Serviço Nacional de Doenças Mentais (SNDM)]], substituindo o antigo modelo de assistência a alienados, que era fragmentado nas diferentes províncias. Dessa maneira, Vargas criou uma diretriz federal centralizada para a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a Liga Brasileira de Higiene Mental ganhou fôlego. O foco deslocou-se do hospital para a prevenção na sociedade. A psiquiatria não deveria se limitar aos hospitais, mas também atuar na escola, na fábrica e na família, buscando limpar a nação e extirpar o que chamavam de &amp;quot;elementos degenerados&amp;quot;. O médico Gustavo Riedel e seus sucessores defendiam que o Estado deveria intervir precocemente para evitar que o &amp;quot;anormal&amp;quot; se tornasse um fardo para a máquina pública.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi durante as décadas de 1930 e 1940 que o modelo de colônia agrícola, antes visto como terapêutico e de assistência à manutenção hospitalar, atingiu proporções industriais. O que se viu em Barbacena e em instituições como o Juquery em São Paulo, foi a transformação do hospital em, praticamente, um campo de concentração administrativo. A internação não dependia mais de um diagnóstico médico rigoroso, que na prática ainda era frágil e baseado em elementos pouco científicos. Bastava ser considerado &amp;quot;socialmente inconveniente&amp;quot; para correr-se o risco de ir parar numa instituições dessas. Assim, pobres, prostitutas, homossexuais, militantes políticos e mães solteiras eram enviados para essas instituições, onde a sobrevivência era a exceção. Estima-se que, no auge do descaso, o Hospital de Barbacena registrava um número alarmante de óbitos por frio, fome e doenças evitáveis, cujos corpos eram, por vezes, vendidos para faculdades de medicina. Situações similares aconteciam em outras instituições do tipo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tratamentos Brutais e os Modos de Resistência ===&lt;br /&gt;
Para além do horror asilar, o período entre 1930 e 1950 também foi marcado pela introdução de terapias biológicas drásticas, importadas da Europa, conhecidas como [[somatoterapias]]. Com uma psicofarmacologia pouco eficaz, os médicos buscavam &amp;quot;chacoalhar&amp;quot; o organismo, produzindo nele como um choque que pudesse restaurar a razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma dessas técnicas era a [[insulinoterapia]]. Introduzida na Europa pelo médico austríaco Manfred Sakel (1900–1957) em Viena, no início dos anos 1930, representou uma das primeiras e mais invasivas formas de somatoterapia. Originalmente destinada ao tratamento da [[esquizofrenia]], a técnica consistia na administração de doses maciças de insulina no paciente, provocando um estado de hipoglicemia profunda que levava o paciente ao coma. Na volta desse estado, se esperava que o indivíduo “restaurasse” a razão por conta do choque orgânico violento que havia vivenciado. O procedimento era extremamente perigoso e estava associado a uma alta taxa de mortalidade e morbidade devido às convulsões e aos possíveis danos cerebrais. Apesar dos riscos, o método foi amplamente adotado no mundo todo, incluindo o Brasil, onde foi usado em grandes instituições de confinamento, como o Hospital Nacional de Alienados (HNA), no Hospital Juquery, entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que passou a ser muito utilizada foi a [[Eletroconvulsoterapia]], ou simplesmente o eletrochoque. Introduzido no Brasil logo após sua invenção na Itália (1938), consiste em colocar eletrodos carregados com correntes elétricas em lados opostos, na lateral da cabeça, de modo que uma forte corrente elétrica atravessasse o cérebro. A duração e a intensidade podiam variar, mas relatos de mais de trinta minutos de choques violentos não eram incomuns. Sua brutalidade era tamanha que exigia que sua vítima fosse fortemente amarrada. Tornou-se uma ferramenta onipresente nos hospitais, muitas vezes aplicada sem anestesia e como método de punição, desvirtuando sua finalidade clínica já questionável e usada, basicamente, como ferramenta de tortura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que ingressou no Brasil nesse período foi a [[lobotomia]], um procedimento cirúrgico que consistia em apenas retirar um pedaço do cérebro do paciente. Eles foram realizados em larga escala em hospitais como o Juquery e no Hospital Pedro II, buscando a docilização de pacientes crônicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em oposição à violência do isolamento oferecido por essas instituições, surge a figura de [[Nise da Silveira]]. Em 1946, após ter sido presa pelo regime de Vargas por suas inclinações políticas, Nise assumiu o Setor de Terapêutica Ocupacional do [[Centro Psiquiátrico Nacional]] (Engenho de Dentro), no Rio de Janeiro. Ela se recusou a usar eletrochoques e lobotomias, introduzindo a arte e o afeto como mediadores da cura. Ela fundou o [[Museu de Imagens do Inconsciente (MIS)|Museu de Imagens do Inconsciente]] em 1952, onde demonstrou, através das pinturas e esculturas de pacientes como [[Arthur Bispo do Rosario]], que o louco preservava uma riqueza simbólica e uma humanidade que a psiquiatria tradicional tentava apagar. Sua colaboração com [[Carl Jung]] colocou a experiência brasileira no mapa da psicologia analítica mundial, provando que o tratamento em liberdade e através da expressão criativa era viável.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Criação da Indústria da Loucura ===&lt;br /&gt;
No final da década de 1950 e início da de 1960, durante o governo de Juscelino Kubitschek e o breve período democrático posterior, o Brasil viu o surgimento de uma nova e ainda mais perversa dinâmica: a Indústria da Loucura. A assistência psiquiátrica, antes quase totalmente pública ou baseada no assistencialismo das Santas Casas, começou a ser privatizada. Com o crescimento dos institutos de previdência (IAPs), o Estado passou a pagar hospitais privados por dia de internação. Isso criou um incentivo perverso: quanto mais tempo o paciente ficasse internado e quanto menos recursos fossem gastos com ele, maior o lucro das clínicas privadas. Esse modelo, conhecido como &amp;quot;hospitalocêntrico&amp;quot;, inchou o sistema e preparou o terreno para a política de contenção social que seria radicalizada após o golpe de 1964. Foi um momento de multiplicação da brutalidade. Pouco importava a loucura ou não, o tratamento ou não, a eficácia ou não. O que importava era lucar com o dinheiro estatal por meio de um encarceramento fácil de impor e praticamente impossível de escapar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A coisa se aprofundou ainda mais com o golpe militar, que unificou em 1966 os Institutos de Aposentadoria e Pensões no INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), produzindo uma centralização gigantesca de recursos, com um modelo de privatização quase total. A psiquiatria, por ser uma especialidade cuja formação exigia baixo investimento tecnológico quando comparada a outras como a cirurgia, cardiologia ou oncologia, permitia grandes lucros com as internações de longa permanência. Assim, trancafiar e atormentar os loucos tornou-se o setor mais atraente para o empresariado da saúde.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de pessoas possivelmente diagnosticadas, o sistema era alimentado pelo encarceramento de militantes políticos, estudantes rebeldes, pessoas em situação de rua,  mendigos, homossexuais, indivíduos com comportamentos &amp;quot;desviantes&amp;quot; da moral tradicional, dependentes químicos, alcoólatras ou mesmo pessoas “problemáticas” da família, que se recusavam, por exemplo, a participar de casamentos arranjados, que denunciavam violência sexual sofrida ou eram apenas mulheres que haviam engravidado antes do casamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As instituições privadas multiplicaram-se pelo interior do país, longe dos olhos da fiscalização e dos centros urbanos. Instaladas em locais de difícil acesso, facilitava o ocultamento de violações de direitos humanos e ainda utilizava da conivência dos governos locais. As populações dessas localidades, crentes no saber médico, dificilmente desconfiavam do que poderia acontecer dentro dessas instituições e, quando vazavam denúncias, elas rapidamente podiam ser facilmente manejadas em conluio com os poderes locais. A loucura tornou-se um negócio de massa, com o abrigo precário de centenas de pessoas em galpões, onde a única &amp;quot;terapia&amp;quot; era a contenção química por sedativos baratos ou o uso indiscriminado do eletrochoque para manter a ordem além, é claro, da violência e brutalidade de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Luta Antimanicomial ==&lt;br /&gt;
No final da década de 1970, o modelo de saúde mental começou a dar sinais de exaustão, tanto financeira quanto ética. O Estado já não conseguia arcar com os custos crescentes de um sistema que só expandia o número de crônicos, e as denúncias de maus-tratos começaram a furar o bloqueio da censura, aparecendo em jornais mais prestigiados e em espaços mais amplos do debate social. O estopim para a o início do movimento da reforma psiquiátrica no Brasil começa com uma crise na [[Divisão Nacional de Saúde Mental (DINSAM)]], que havia recebido denúncias de irregularidades no Centro Psiquiátrico Pedro II, no [[Hospital Pinel]], na [[Colônia Juliano Moreira]] e no [[Manicômio Judiciário Heitor Carrilho]]. A denúncia foi acompanhada de uma greve por parte dos funcionários, que exigiam melhorias institucionais e questionavam irregularidades trabalhistas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É dessa crise que surge o [[Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM)]] que, nesse primeiro momento, estão mais preocupados com questões trabalhistas do que com o problema da própria prática psiquiátrica, que vai caracterizar parte dos movimentos antimanicomiais posteriormente. O MTSM se fortalece e consegue espaço no extremamente conservador [[V Congresso Brasileiro de Psiquiatria]], que ocorre em 1978, no que fica conhecido como “congresso da abertura”, num período também de abertura política com o iminente fim do regime militar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda em 1978, um grupo importante de intelectuais vinculados às bases teóricas do [[Movimento Antimanicomial]] participa do [[I Congresso Brasileiro de Psicanálise de Grupos e Instituições]], incluindo [[Franco Basaglia]], [[Felix Guattari]], [[Robert Castel]] e [[Erwin Goffman]], todos eles de grande inspiração e influência para o movimento antimanicomial brasileiro. No ano seguinte, o [[I Congresso Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental]] fortalece a contextação não apenas de problemas trabalhistas, mas do próprio modelo asilar e da forma como a psiquiatria intervinha e oprimia a população marginalizada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação público-privada que alimentava o modelo até então começa a ruir em 1980, com a chamada política da co-gestão interministerial. Nela, um convênio celebrado entre o Ministério da Previdência e Assistência Social com o Ministério da Saúde liquida a &amp;quot;Unidade de Serviço&amp;quot;, a política que permitia a contratação privada de serviços psiquiátricos e que representou o triunfo do público sobre o privado. Membros do MTSM passam a integrar a gestão do atendimento em saúde mental que, por dentro do aparato estatal, começam a implementar uma política de saúde pública baseada em prestação de serviços, cooperação, descentralização e regionalização, propostas que já eram defendidas pelos reformadores. Apesar desses avanços, críticos afirmam que a política de co-gestão apenas visava reformar os serviços, não atingindo o âmago da questão, que seria desconstruir o próprio paradigma psiquiátrico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo de desinstitucionalização de fato começa em 1985, ano marcado pelo fim da Ditadura Militar e pela realização de vários eventos que aprofundam o debate sobre a situação do atendimento. A [[I Conferência Nacional de Saúde Mental]] marca o início da desinstitucionalização devido aos conflitos entre o MTSM, a ABP e grupos não-organicistas que passaram a dirigir o DINSAM. Na conferência, consagrou-se uma reviravolta na perspectiva com a consolidação do lema &amp;quot;por uma sociedade sem manicômios&amp;quot;, rompendo com a lógica tanto privatista quanto estatista e questionando o próprio modelo psiquiátrico tradicional. Este passou a ser amplamente entendido como fenômeno cultural que promove o tratamento moral e o controle dos corpos, uma visão abertamente basagliana e antimanicomial. Alguns entendem que, nesse momento, a tradição anti-institucional que originou os primeiros questionamentos na década de 1970 foi restaurada e fortalecida. Após a Conferência, o próprio MTSM se renovou, se desatrelando do Estado, retomando sua independência e seu papel de transformação social.  A mudança do movimento se consolidou no [[II Congresso Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental]], quando a noção de racionalização e modernização dos serviços que havia caracterizado o período da co-gestão foi recusado em nome de uma pauta anti-institucional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em meados dos anos 1980 começam a surgir novos modelos de atenção à saúde que poderia substituir o modelo psiquiátrico. Em São Paulo é criado o primeiro [[Centro de Atenção Psicossocial (CAPS)]], em 1987. Em Santos, surge o [[Núcleo de Atenção Psicossocial (NAPS)]], em 1989. Estes serviços passaram a ser vistos como os modelos para uma contestação profunda dos manicômios, justificando seu encerramento. Já na década de 1990, o SUS introduziu mecanismos de fiscalização e auditoria que começaram a sufocar financeiramente os asilos privados que não cumpriam níveis mínimos de dignidade. Portarias históricas do Ministério da Saúde, inspiradas na [[Declaração de Caracas (1990)]], passaram a proibir a criação de novos leitos psiquiátricos asilares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após mais de uma década de tramitação e intensos debates no Congresso Nacional, como fruto dos embates históricos iniciados na crise do DINSAM e que atravessaram debates públicos extremamente imporantes, foi promulgada a Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001, que ficou conhecida como [[Lei da Reforma Psiquiátrica]] ou Lei Paulo Delgado, seu autor. Esta legislação se tornou o marco jurídico definitivo da virada assistencial no Brasil. A lei instituiu o direito do paciente de ser tratado em ambiente terapêutico o menos restritivo possível e colocou a internação psiquiátrica como último recurso possível. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para preencher o vazio deixado pelo fechamento dos grandes hospitais, o SUS estruturou a [[Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)]], formalizada na década seguinte pela Portaria nº 3.088 de 2011. A RAPS organizou o cuidado em diferentes níveis de complexidade, com os CAPS divididos nas modalidades CAPS I, II, III, CAPSi  e CAPS AD e, por fim, os [[Serviços de Residência Terapêutica (SRT)]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, a luta continua devido a retrocessos observados na segunda metade da década de 2010 e início dos anos 2020. Mudanças nas diretrizes da Política Nacional de Saúde Mental tentaram reintroduzir a centralidade do hospital psiquiátrico e incentivaram o uso de práticas baseadas no isolamento. Além disso, o governo federal passou a financiar massivamente as chamadas [[Comunidades Terapêuticas]], instituições de caráter predominantemente privado e religioso voltadas ao acolhimento de usuários de drogas, de onde emanam graves denúncias de todos os tipos de violação dos direitos humanos e que representam um evidente retrocesso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje, o campo da saúde mental no Brasil vive um embate profundo entre duas visões. De um lado, aqueles que lutam pela consolidação da RAPS, em defesa da clínica da subjetividade, da defesa dos direitos humanos, pela redução de danos e pela inserção social pelo trabalho e pela cultura. Do outro lado observa-se a persistência do &#039;&#039;lobby&#039;&#039; asilar e de setores que buscam a mercantilização do cuidado, por meio do encarceramento, da medicalização extrema do sofrimento psíquico, da higienização dos centros urbanos e do recolhimento dos indesejáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
AMARANTE, Paulo. &#039;&#039;&#039;Loucos pela vida&#039;&#039;&#039;: a trajetória da reforma psiquiátrica no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 1995.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ARBEX, Daniela. &#039;&#039;&#039;Holocausto brasileiro&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Geração Editorial, 2013.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BASAGLIA, Franco. &#039;&#039;&#039;A instituição negada&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Graal, 1985.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BIRMAN, Joel. &#039;&#039;&#039;A physis da arte&#039;&#039;&#039;: Deleuze e a clínica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CAMPOS, Gastão Wagner de Sousa. &#039;&#039;&#039;Tratado de saúde coletiva&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Hucitec, 2006. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CASTEL, Robert. &#039;&#039;&#039;A ordem psiquiátrica&#039;&#039;&#039;: a idade de ouro do alienismo. Rio de Janeiro: Graal, 1978.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
COSTA, Jurandir Freire. &#039;&#039;&#039;Violência e psicanálise&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Graal, 1986.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
COSTA, Jurandir Freire. &#039;&#039;&#039;História da assistência psiquiátrica no Brasil&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Garamond, 2007. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
DALGALARRONDO, Paulo. &#039;&#039;&#039;Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais&#039;&#039;&#039;. Porto Alegre: Artmed, 2018. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ENGEL, Magali. &#039;&#039;&#039;Os delírios da razão&#039;&#039;&#039;: médicos, loucos e hospícios (Rio de Janeiro, 1830-1930). Rio de Janeiro: Fiocruz, 2001&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
FOUCAULT, Michel. &#039;&#039;&#039;História da loucura na Idade Clássica&#039;&#039;&#039; (Trad, de José Teixeira Coelho Netto). São Paulo: Perspectiva, 2014.&lt;br /&gt;
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MELLO, Luiz Carlos. &#039;&#039;&#039;Nise da Silveira&#039;&#039;&#039;: caminhos de uma psiquiatra rebelde. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2014.&lt;br /&gt;
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PEREIRA, Ana Leonor; PITA, João Rui. &#039;&#039;&#039;A institucionalização da loucura em portugal&#039;&#039;&#039;. Coimbra: Estudo Geral, 1994.&lt;br /&gt;
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PESSOTTI, Isaias. &#039;&#039;&#039;A loucura e as épocas&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994.&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
SANTOS, Marcus Vinícius do Amaral Gama. História whig e história da psicologia. Em: ____. &#039;&#039;&#039;História whig, história da psicologia e história da psiquiatria&#039;&#039;&#039;: investigando a revolução behaviorista e a reforma psiquiátrica brasileira. Rio de Janeiro, 2023. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2023, p.94-133.&lt;br /&gt;
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TENÓRIO, Fernando. A Reforma Psiquiátrica Brasileira da década de 1980 aos dias Atuais: história e conceitos. &#039;&#039;&#039;História, Ciências, Saúde-Manguinhos&#039;&#039;&#039;, v. 9, n. 1, 2002.&lt;br /&gt;
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VENANCIO, Ana Teresa A.; CARVALHAL, Lázaro. Juliano Moreira: a ciência da assistência e a assistência da ciência. &#039;&#039;&#039;Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental&#039;&#039;&#039;, 2001.&lt;br /&gt;
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YASUI, Silvio. &#039;&#039;&#039;Rupturas e encontros&#039;&#039;&#039;: desafios da Reforma Psiquiátrica Brasileira. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2010.&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1699</id>
		<title>História da loucura: da Grécia antiga à luta anti-manicomial</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1699"/>
		<updated>2026-07-03T22:59:36Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* Emil Kraepelin e uma Nova Racionalização */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto com finalidade didática, escrito por André Elias Morelli Ribeiro para o curso de Psicologia do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras. Seu uso é aberto, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Introdução ==&lt;br /&gt;
A história da loucura é, ao mesmo tempo, uma narrativa sobre o modo como diferentes sociedades compreenderam a mente humana e uma reflexão sobre os mecanismos de poder que moldaram práticas de exclusão, cuidado e resistência vinculados às diferentes formas que diferentes grupos humanos entenderam como loucura ou algo similar, conforme uma visão ampliada contemporânea. Este material inicia na Grécia antiga e chega até o movimento antimanicomial no Brasil e, ao longo deste trajeto, pode-se observar como a loucura foi interpretada ora como intervenção divina, ora como desvio moral, ora como doença fisiológica, ora como ameaça social. Cada época construiu suas próprias respostas àquilo que considerou loucura que variaram entre a integração comunitária, o confinamento, o tratamento brutal e a busca por tratamentos médicos ou espirituais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, a trajetória seguiu de perto os modelos europeus. Do Hospício de Pedro II às colônias agrícolas, passando pela gestão de Juliano Moreira, a psiquiatria nacional oscilou entre avanços humanitários e práticas de exclusão. O período Vargas e o Estado Novo intensificaram o encarceramento, transformando hospitais em verdadeiros campos de concentração administrativos. As décadas seguintes viram a adoção de terapias brutais, como eletrochoques e lobotomias, mas também o surgimento de movimentos de resistência, como o trabalho de Nise da Silveira, que introduziu a arte e o afeto como caminhos de cura, ou a emergência de questionamentos ao modelo psiquátrico manicomial. A partir dos anos 1960, a privatização da assistência psiquiátrica gerou a chamada “Indústria da Loucura”, marcada por internações lucrativas e violações sistemáticas de direitos humanos que marcaram profundamente a forma como se entende a loucura contemporaneamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em síntese, o percurso histórico apresentado aqui mostra que a loucura nunca foi apenas um fenômeno clínico mas, antes, um espelho das sociedades, revelando seus medos, suas crenças e suas formas de organizar o convívio humano. De sagrada a temida, de medicalizada a mercantilizada, apresenta-se e se discute como surgiram vozes e práticas que reivindicaram humanidade e liberdade para os considerados loucos.&lt;br /&gt;
== As Loucuras no Mundo Antigo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Grécia antiga ===&lt;br /&gt;
Na Grécia antiga, em certo momento a loucura era considerada uma intervenção dos deuses e, como os gregos era politeístas, a varidade de formas de loucura e os modos de intervenção também era bem grande. A loucura poderia ser vista, por exemplo, como uma punição. É o caso do herói Ajax, filho de Telamão. Após a morte de Aquiles, a armadura do herói foi dada a Odisseu, e a afronta levou Ajax a um estado de fúria e ressentimento. A deusa Atena, intervindo em favor de Odisseu para proteger os Aqueus da vingança de Ajax, lançou sobre ele uma cegueira mental. Tomado pela loucura, Ajax massacrou o gado de guerra que havia sido capturado, acreditando que estava matando os líderes aqueus, incluindo Odisseu e Agamenon. Ao recobrar a sanidade e perceber seu ato vergonhoso, cometeu suicídio devido à humilhação. Essa cena ilustra a loucura como uma intervenção divina direta na forma de loucura poderia ser vista como destrutiva e extremamente negativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em outros episódios da mitologia grega, a loucura surge como uma consequência direta de traumas e da perseguição implacável por vingança. Um exemplo é o de Orestes que, após assassinar sua mãe, Clitemnestra para vingar a morte de seu pai, Agamenon, passa a ser atormentado pelas Erínias. Essas divindades da vingança, também conhecidas como Fúrias, levaram o herói a um estado de delírio e desespero profundo, personificando a tortura psicológica e a perda da razão como uma forma de acerto de contas espiritual e moral pelo matricídio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura não era unicamente um flagelo ou uma punição. Os gregos  viam a mania, um termo que hoje engloba a loucura, em uma perspectiva dual. Na sua manifestação mais elevada, era considerada uma benção ou inspiração divina. Essa visão positiva estava profundamente ligada ao culto de Dionísio, o deus do vinho, do teatro e do êxtase. Nos rituais dionisíacos, as bacantes e outros seguidores buscavam o êxtase, que é, literalmente, &amp;quot;sair de si&amp;quot;, por meio da dança frenética, música e consumo de vinho, o que era percebido como um estado de comunhão direta e inspirada com a divindade. Longe de ser destrutiva, essa forma de loucura era vista como uma fonte de criatividade, revelação e poder, sendo um caminho para a verdade profética e como expressão artística ligada a Dionísio. Este conceito de mania inspirada também se estendia a outros domínios, como a profecia dos oráculos, que eram vinculados à adoração ao deus Apolo, e mesmo a poesia, onde a perda temporária da razão humana era interpretada como a mente sendo tomada por uma força divina que trazia algum tipo de inspiração superior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em certo momento, ainda na Grécia antiga, as ideias sobre a loucura - ou algo que pareça loucura aos olhos contemporâneos - foi modificada graças a Hipócrates, o pai da medicina. A visão de [[Hipócrates]] marcou uma transição crucial para o entendimento da loucura na Grécia Antiga, pois afastou a loucura das concepções divinas e sobrenaturais para uma explicação puramente fisiológica e natural. Ele desenvolveu a [[Teoria dos Quatro Humores]], que se tornou o pilar da medicina ocidental por séculos. Segundo essa teoria, o corpo humano era composto por quatro fluidos essenciais (ou humores), que são sangue, fleuma, bile amarela e bile negra. A saúde mental e física dependia do equilíbrio harmonioso desses humores. A loucura, ou qualquer doença mental, era, portanto, interpretada como o resultado de um desequilíbrio, como o excesso de bile negra causando a melancolia (depressão), ou o desarranjo da fleuma e da bile amarela, que poderiam levar a estados de mania e frenesi. Com isso, Hipócrates postulou que a loucura não era uma maldição dos deuses, mas sim uma doença com origem no corpo. Essa abordagem naturalista permitiu que a loucura passasse a ser tratada com métodos como dietas, exercícios e remédios, no lugar de rituais religiosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tradição bíblica ===&lt;br /&gt;
Na tradição bíblica, escrita em contextos e culturas não europeias, a loucura também é frequentemente retratada como uma forma de intervenção ou punição divina. Um dos episódios mais emblemáticos é a história do rei Nabucodonosor II, relatada no Livro de Daniel. De acordo com o texto, devido ao seu orgulho excessivo e sua recusa em reconhecer a soberania de Deus, o rei foi acometido por uma forma de loucura que o levou a viver como um animal, alimentando-se de ervas e deixando seus cabelos e unhas crescerem sem controle. Na psicologia moderna, esse estado em que um indivíduo acredita ter se transformado em um animal é conhecido como licantropia clínica, uma condição rara. A loucura, conforme emerge na descrição bíblica, emerge ligada à perda da razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, a tradição bíblica também apresenta um paradoxo. No Novo Testamento, cujos livros foram escritos no contexto do mundo greco-romano, o que é considerado &#039;loucura&#039; pelos homens revela-se a suprema sabedoria divina. Essa ideia é desenvolvida pelo apóstolo Paulo em sua Primeira Carta aos Coríntios. Na passagem, ele afirma: &#039;Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens&#039; (1 Coríntios 1:25). Paulo usa o termo &#039;&#039;moria&#039;&#039; (loucura, tolice) para contrastar a sabedoria humana que, na época do texto, era representada pela filosofia e retórica grega. A mensagem da cruz parecia ilógica e insensata aos olhos dos não cristãos, que debochavam do fato do messias ter sido capturado e morto pelos romanos. Assim, a loucura deixa de ser apenas uma punição para se tornar uma lente através da qual a verdadeira sabedoria, ou seja, a salvação, é revelada, invertendo a hierarquia de valores do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Pérsia ===&lt;br /&gt;
Na Pérsia, a visão da loucura e do comportamento irracional foi moldada por seu profundo dualismo religioso e, posteriormente, pelas tradições islâmicas que se seguiram à conquista árabe. O zoroastrismo, a antiga religião persa fundada por Zoroastro (Zaratustra), transformou o politeísmo em um dualismo cósmico centralizado no conflito eterno entre Ahura Mazda (Ormazd), o criador da vida, luz e verdade, e Angra Mainyu (Ahriman), a escuridão e a mentira. Neste cenário, o mundo material é o campo de batalha entre os dois. Ahriman buscava corromper tudo o que Ormazd havia criado. Embora o texto não defina a loucura diretamente, o comportamento irracional e a desrazão poderiam ser facilmente associados ao domínio de Ahriman e à mentira (&#039;&#039;druj&#039;&#039;), enquanto a sanidade e a pureza eram atributos de Ormazd. A batalha contra essa corrupção exigia que os adoradores de Ormazd permanecessem verdadeiros e evitassem poluir o fogo e a terra sagrada, indicando que a pureza mental e ritual era uma defesa contra as forças do mal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Islã ===&lt;br /&gt;
Na cultura islãmica, de forma geral e bastante resumida, o comportamento considerado irracional era frequentemente explicado pela crença nos &#039;&#039;djinn&#039;&#039;, espíritos errantes que habitavam o deserto e certos lugares considerados místicos e que podiam invadir a mente humana, causando o que a sociedade ocidental moderna chamaria de insanidade ou, talvez, distúrbio emocional. Nesses casos, o tratamento era o exorcismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na era clássica da medicina islãmica, ganhou força a tradição galênica, que atribuía as perturbações mentais a desequilíbrios nos quatro humores corporais (sangue, fleuma, bile amarela e bile negra). Médicos proeminentes rejeitaram a ideia de que a loucura fosse exclusivamente uma possessão demoníaca, tratando-a como uma patologia de base orgânica ligada ao cérebro. Avicena dedicou seções extensas a transtornos como a melancolia, o delírio e a mania. Ele descreveu detalhadamente como o excesso de bile negra afetava as faculdades cognitivas e imaginativas do cérebro, propondo tratamentos que incluíam dieta, banhos térmicos, massagens, sangrias reguladas e o uso de fitoterápicos, semelhante à tradição grega mais tardia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período medieval, o mundo islâmico desenvolveu os bimaristans (hospitais), que funcionavam como centros de tratamento médico gratuito, financiados por dotações religiosas (&#039;&#039;waqf&#039;&#039;). O objetivo era restaurar o equilíbrio do espírito e dos humores através de estímulos ambientais positivos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura também apareceu em narrativas culturais associadas aos povos, de forma a sugerir causas e curas mais mundanas. O famoso conto persa de As Mil e Uma Noites, cuja origem é indo-persa mas que foi sedimentada na cultura islãmica, relata a história do rei Shahriyar, que, convencido da inevitável traição feminina, cai em uma loucura paranóica que o leva a se casar com uma virgem todas as noites e, pela manhã, assassiná-la. Sua &amp;quot;cura&amp;quot; é alcançada através da engenhosidade e paciência humana por meio de uma dessas esposas, Scheherazade, que usa a arte de contar histórias para retardar sua execução por &amp;quot;mil e uma noites&amp;quot;, período em que sua paranoia é gradualmente desfeita. A história sugere que a narrativa e o tempo podem curar a loucura causada por trauma psicológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As Loucuras na Idade Média ==&lt;br /&gt;
A transição para a Idade Média é marcada pelo colapso do Império Romano do Ocidente (476 d.C.), que trouxe profundas transformações políticas e sociais. O fim do governo centralizado romano levou à fragmentação do poder e ao surgimento do sistema feudal, onde a administração das terras e a autoridade passaram para as mãos de senhores locais, muitos deles antigos oficiais romanos. Este período também é caracterizado por um notável declínio na vida urbana e nos grandes centros intelectuais. O colpaso das instituições romanas deu lugar à ascensão e consolidação da única instituição internacional grande e organizada que havia sobrado, a Igreja Católica, que se tornou a principal forma de organização política, social e cultural. Houve ainda uma perda gradual da tradição cultural greco-romana por diferentes razões e, consequentemente, um afastamento das explicações naturalistas de Hipócrates, com exceção do pequeno renascimento do século XII e retomadas pontuais da sabedoria grega. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a hegemonia da Igreja Católica, a loucura tendeu a ser novamente interpretada sob uma lente teológica, sendo vista como uma manifestação de forças sobrenaturais ou desvios morais. Nesse contexto, certas vezes a loucura era interpretada como a intervenção de Satanás ou como possessão demoníaca, exigindo rituais de exorcismo para a cura. Em outros momentos, era vista como uma prova espiritual enviada por Deus ou como um efeito direto do pecado na alma do indivíduo. Havia também explicações que a tratavam como uma fragilidade da vontade humana, como no caso do que chamaríamos hoje de compulsões, misturando elementos da antiga tradição grega com aspectos da teologia cristã. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Socialmente, a gestão da loucura na Idade Média também passou por diferentes fases e transformações, dependendo do local e da época. Havia casos em que os considerados loucos eram apenas torturados e trancafiados, métodos considerados eficazes para expulsão de espíritos malignos, por exemplo. Contudo, em muitos outros casos, os considerados loucos conviviam de forma mais ou menos harmoniosa com o resto da comunidade, a depender de suas capacidades e possibilidades, e certos “desvios” eram perdoados devido à sua condição peculiar, sem a necessidade imediata de uma exclusão radical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Nau dos Loucos ===&lt;br /&gt;
Um caso notável e emblemático da gestão da loucura nesse período é a [[Nau dos Loucos]] (&#039;&#039;Stultifera Navis&#039;&#039;), conforme trabalhado por [[Michel Foucault]]. Anteriormente ao modelo de exclusão-repressão que viria a se consolidar na Idade Clássica, a loucura viveu o que se pode chamar de seus &amp;quot;dias de glória&amp;quot; na transição para a Renascença. Nesse contexto, o louco poderia ser visto como um sábio, um místico, um tolo ou simplesmente um excêntrico que estava, de certa forma, integrado ao tecido social.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Nau dos Loucos, que circulavam no Vale do Rio Reno (partes da Alemanha, França Suíça e Países Baixos) simbolizava uma existência errante, onde o louco era confiado à água e ao navio para ser levado de uma cidade a outra, mantendo-o em um estado de exclusão simbólica, mas ainda assim em movimento e circulação. Para Foucault, essa experiência trágica da loucura permitia que o insano portasse uma forma de lucidez em sua insensatez, revelando verdades que a razão comum não ousava enunciar. O louco via através das ilusões mundanas, aproximando-se de uma verdade profética ou ética que seria progressivamente silenciada nos séculos seguintes pela ascensão do saber médico e da racionalidade científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Santa Dimpna e Geel ===&lt;br /&gt;
Outro acontecimento relevante da Idade Média para a compreensão da loucura é o episódio de [[Santa Dimpna]]. Nascida no século VII na Irlanda, ela era filha de um rei pagão e de uma mãe cristã devota, de quem herdou sua fé e pela qual decidiu fazer votos de castidade. Após a morte prematura da mãe, seu pai, mergulhado em um profundo luto, decidiu que Dimpna era a única mulher com beleza comparável à da falecida rainha e insistiu em se casar com a própria filha, o que seria considerado escandaloso também para aquela cultura. Horrorizada e e alvo de uma perseguição incestuosa, Dimpna fugiu da Irlanda acompanhada de seu confessor, o padre Gereberno, e de dois servos fiéis. O grupo cruzou o mar e estabeleceu-se em [[Geel]], um minúsculo vilarejo na atual Bélgica, onde Dimpna se dedicou ao cuidado dos pobres e doentes mentais. No entanto, o rei conseguiu encontrá-los e, após a recusa de Dimpna tanto em retornar para a Irlanda quanto se casar com o pai, ordenou a execução de Gereberno, enquanto ele mesmo decapitou a filha, tornando a menina de 15 anos de idade numa mártir cristã. Após sua morte, relatos de curas milagrosas de pessoas com distúrbios mentais e epilepsia começaram a ocorrer junto ao seu túmulo, o que a tornou a padroeira dos doentes mentais. Já o local converteu-se num espaço de peregrinação ligado à questão da saúde mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O legado de Santa Dimpna em Geel deu origem a um modelo para a psiquiatria moderna pois, devido à devoção e adoração à Santa Dimpna, a cidade transformou-se em um santuário onde os pacientes não eram trancafiados, mas acolhidos em lares de famílias locais como &amp;quot;hóspedes&amp;quot;. Esse sistema de cuidado comunitário e desinstitucionalização, que persiste há séculos, é considerado um dos precursores do tratamento humanizado e da reabilitação psicossocial na saúde mental contemporânea.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Idade Clássica: a nova era da loucura encarcerada ==&lt;br /&gt;
A partir do século XVII, um período em que o filósofo Michel Foucault denominou como &amp;quot;A Época Clássica&amp;quot;, a forma de entender e lidar com a loucura passa por uma nova mudança devido ao ingresso da razão como centro e alma do pensamento europeu, em substituição ao dogmatismo religioso e ao conhecimento da igreja. Esta mudança não é brusca, mas lenta e gradual, porém suas marcas serão duradouras e serão sentidas por quase toda a Europa. Para essa nova e nascente razão, a loucura seria seu oposto direto. Se o homem era definido pela sua capacidade racional e sua utilidade produtiva, o louco era, portanto, como um &amp;quot;não-homem&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a solução para a não-razão era a internação, que não buscava a cura, mas a neutralização do irracional. O silenciamento da loucura era necessário para que a ordem social pudesse florescer. Os campos e cidades deveriam ser espaços de circulação de mercadorias pelas mãos de cidadãos produtivos, e qualquer elemento que atrapalhasse essa dinâmica deveria ser guardado em instituições que funcionavam como uma guarda contra o risco social que tais pessoas ofereciam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Relatos da época descrevem cenários terríveis sobre as condições de internação dos loucos. Os internos eram frequentemente mantidos em celas úmidas e insalubres, muitas vezes acorrentados às paredes. O uso de chicotes e outras punições corporais era justificado pela crença de que o louco, por ter perdido a razão, teria a resistência física de um animal, não sentindo frio ou dor da mesma forma que uma pessoa &amp;quot;normal&amp;quot;. Além disso, as instituições funcionavam sob uma lógica de vigilância constante. Não se tratava de observar para entender a mente, mas para garantir que o corpo anormal permanecesse contido e, no máximo possível, docilizado. Foi dentro desse ambiente de absoluta degradação e mistura indiscriminada de diferentes &amp;quot;tipos&amp;quot; de desviantes que a consciência médica começou a germinar, ainda que de forma incipiente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== França ===&lt;br /&gt;
O ano de 1656 marca um divisor de águas simbólico para o modelo de confinamento asilar no mundo todo, com a criação do Hôpital Général (Hospital Geral) em Paris, por um edito real do rei Luís XIV. É importante entender que um hospital geral deste período não é como um hospital moderno, ou seja, uma instituição de saúde voltada para a compreensão da doença e a prática do tratamento e cura. Ele estava mais próximo de uma estrutura administrativa e, de certo modo, semi-judiciária. Isso ocorria porque o interesse não estava em “curar” ou “tratar” ninguém mas, antes disso, executar o interesse do Estado de &amp;quot;limpar&amp;quot; as ruas de Paris de tudo o que era considerado improdutivo ou escandaloso. Era um período de abundância material, grandes gastos estatais e de uma imensa riqueza do império colonial francês, e desvios nessa ordem eram vistos como perigosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes tais hospitais gerais eram confinados, todos juntos, grupos totalmente diferentes, tais como pobres, mendigos, desempregados, libertinos, prostitutas, alquimistas, opositores políticos e, claro, também os considerados loucos. Em suma, tratava-se de um depósito de indesejados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que começou em Paris se tornou um modelo para outros lugares sobre como fazer a gestão da miséria e da “desrazão”, num forte deslocamento do que se via na Idade Média, com muitas experiências de integração social. O louco, antes tendo algo de profético, místico ou talvez apenas uma excentricidade da vida medieval campesina, se torna uma questão político-administrativa. Essa mudança importante marca uma migração para a possibilidade de institucionalização daquilo que era considerado errante ou, de alguma forma, desagradável e, assim passível de ser alvo de uma forma de gestão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em Paris, as duas principais unidades do Hospital Geral se tornaram emblemáticas e simbólicas. A [[Salpêtrière]], que era destinada às mulheres, e o hospital [[Bicêtre]], destinado aos homens. Ambas as instituições não ofereciam qualquer forma de tratamento. Eram basicamente depósitos humanos, onde o louco poderia acabar acorrentado ao lado de criminosos, por exemplo. O critério de internação não era o diagnóstico clínico, mesmo porque simplesmente ele nem existia, mas a incapacidade de se ajustar às normas de trabalho e à moralidade da época.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Alemanha ===&lt;br /&gt;
Na Alemanha, com a ideia de que o ócio era inaceitável, as leis determinavam o trancafiamento de qualquer pessoas considerada louca, perigosa e incapacitada para o trabalho. Nesse contexto, surgiram as &#039;&#039;Zuchthäusern&#039;&#039;, que seriam as [[Casas de Correção (Zuchthäusern)|Casas de Correção]]. Cidades como Hamburgo e Bremen estabeleceram esses locais onde a loucura era tratada através do trabalho forçado. Eles acreditavam que o ócio era a raiz do mal e que o confinamento e o trabalho forçado eram úteis para reintegrar o indivíduo à lógica da produtividade. Para os loucos, acreditava-se que o trabalho mecânico, repetitivo e exaustivo tinha o poder de &amp;quot;disciplinar a mente animalizada&amp;quot;, submetendo a vontade rebelde ou caótica do insano à razão e à ordem. Não era um trabalho, contudo, inútil, pois esta mão de obra foi utilizada até mesmo na produção de uniformes militares. Os loucos considerados totalmente impossíveis de docilizar eram simplesmente trancafiados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Inglaterra ===&lt;br /&gt;
Na Inglaterra, o sistema das Workhouses (Casas de Trabalho) cumpria um papel semelhante ao modelo alemão. No entanto, Londres já possuía o [[Bethlem Royal Hospital (Bedlam)|Bethlem Royal Hospital]], conhecido popularmente como Bedlam. No século XVII e XVIII, Bedlam se tornou um espetáculo de horror, onde o público podia pagar para observar os internos como se fossem animais em um zoológico. A loucura agora um objeto de uma forma de exibição degradante e mantida atrás de grades e ferros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Portugal ===&lt;br /&gt;
Em Portugal a gestão dos &amp;quot;desviantes&amp;quot; recaiu fortemente sobre as Santas Casas da Misericórdia. O [[Hospital Real de Todos-os-Santos]], fundado em Lisboa em 1492 e inaugurado em 1501, se tornou o epicentro do tratamento (ou confinamento) dos loucos no país. Dentro deste hospital, existiam as chamadas &amp;quot;[[Casas de Doidos]]&amp;quot;, destinados àqueles que haviam “perdido a luz da razão”. Seguindo o padrão europeu, o hospital não separava rigidamente o louco por diagnóstico. Eles dividiam espaço com indigentes e enfermos de diversas naturezas, embora as &amp;quot;casas de doidos&amp;quot; fossem áreas de maior isolamento devido à agitação dos internos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XVIII português, a internação era, acima de tudo, uma solução para a mendicância e, por vezes, para o alcoolismo. O louco oriundo de uma família com posses era mantido nas próprias casas, muitas vezes escondido em sótãos ou anexos e até mesmo acorrentados. Já o &amp;quot;louco pobre&amp;quot;, que não poderiam ser cuidados por seus familiares, acabava nos hospitais reais ou mesmo nas cadeias, a depender de uma série de fatores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Nascimento da Psiquiatria ==&lt;br /&gt;
=== Pinel e a criação da psiquiatria nosográfica ===&lt;br /&gt;
É na virada do século XVIII para o XIX que nasce a psiquiatria como um campo autônomo do saber e da prática médica. Esta mudança fundamental é protagonizada por duas figuras centrais da medicina francesa: [[Philippe Pinel]] e seu discípulo, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]]. Juntos, eles transformaram o hospital de depósito de insanos e indesejáveis em um verdadeiro hospital, em que o louco e o alienado poderiam receber um tratamento racional e científico, em substituição às correntes, à disciplina e ao silenciamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A emergência da psiquiatria como campo autônomo teve como fundamento científico inicial a observação clínica sistemática dentro do asilo. Este era concebido como um laboratório, onde o alienista poderia estudar a loucura em seu estado puro, separada das influências do mundo exterior. A principal questão científica e prática que justificava essa nova ciência era desenvolvida e aplicada de forma sistemática, e denominava-se nosografia ou diagnóstico. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pinel, em seu [[Index.php?title=Traité médique-philosophique sur l&#039;aliénation mentale, ou la manie|Traité médique-philosophique sur l&#039;aliénation mentale, ou la manie]], de 1801, classificou a loucura com base em critérios sintomatológicos, seguindo um procedimento comparativo semelhante ao das ciências naturais. O desafio central, que persistiria ao longo do século XIX, era a ambiguidade constante entre a busca por uma sede orgânica, ou seja, um “local físico-biológico” da loucura, junto da necessidade de uma regulação de caráter moral. O tratamento apoiava-se na moralidade para combater as causas que eram, elas próprias, consideradas morais, mas algo estava também no corpo do doente. Isso mostra que a nova psiquiatria de Pinel era a mistura de medicina com moralidade. Este enfoque resultou na valorização do exame clínico pelos psiquiatras francófonos, permitindo a união da observação clínica com a formulação de hipóteses.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1793, em meio ao fervor da Revolução Francesa, Philippe Pinel foi nomeado médico-chefe do Hospital de Bicêtre e, posteriormente, da Salpêtrière. O cenário que encontrou era o ápice do &amp;quot;Grande Enclausuramento&amp;quot;, ou seja, homens e mulheres amontoados nas condições já descritas, com destaque para as correntes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A intervenção de Pinel, simbolizada pelo gesto de “libertar os loucos de suas correntes”, não foi apenas um ato humanitário, mas também uma decisão de natureza epistemológica. Pinel acreditava que a loucura não era uma possessão demoníaca nem uma degeneração animal irreversível, mas uma alienação mental ou, em outras palavras, uma perturbação das faculdades intelectuais e afetivas que mantinha o indivíduo como se fosse &amp;quot;estrangeiro&amp;quot;, ou alienado, de si mesmo e da sociedade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O centro da reforma psiquiátrica proposta por Pinel era o tratamento moral, e se baseava em três pilares fundamentais. O primeiro, o isolamento terapêutico. Era necessário que o paciente ficasse separado de seu ambiente que, segundo o médico, era a fonte de sua excitação e desequilíbrio. O segundo pilar era a autoridade médica, onde este deveria atuar como um pai ao mesmo tempo severo e justo, usando a persuasão, a benevolência e, se fosse necessário, a firmeza para restaurar a razão do paciente. Por fim, a disciplina e o trabalho, com a aplicação rigorosa de horários e valorização de atividades produtivas, o que ocuparia a mente alienada e, assim, combateria a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em seus estudos, Pinel identificou quatro tipos de loucura, quais sejam, a [[melancolia]], a [[mania]], a [[demência]] e a [[idiotia]], cada uma com suas questões próprias específicas e metodologias de tratamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Esquirol e a consolidação do modelo ===&lt;br /&gt;
Se Pinel era considerado o visionário e o libertador, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]] foi o grande organizador e o clínico meticuloso. Discípulo de Pinel, Esquirol sucedeu seu mestre na Salpêtrière e deu à psiquiatria a robustez científica e administrativa de que ela necessitava. Esquirol compreendeu que a eficácia do tratamento moral dependia da arquitetura hospitalar. Para ele, o hospital não era apenas um prédio onde ocorria o tratamento, mas também um instrumento de cura. Ele desenvolveu o modelo de pavilhões, permitindo a separação dos pacientes por tipo de patologia, o que reforçou a própria ideia de diagnóstico e de avaliação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Esquirol refinou as definições clínicas de Pinel. Foi ele quem estabeleceu a distinção clássica entre alucinação (uma percepção sem objeto) e ilusão (uma percepção deformada de um objeto real), entre outros pontos que, na sua época, foram considerados avanços exemplares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Legalização da Alienação ===&lt;br /&gt;
O esforço médico, político e administrativo de Esquirol na continuação do trabalho de Pinel culminou na promulgação da lei francesa de 30 de Junho de 1838, a primeira grande legislação psiquiátrica do mundo moderno. Esta lei estabeleceu a obrigatoriedade de cada departamento francês possuir um asilo e regulamentou as condições de internação e interdição. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A princípio, embora também protegesse o alienado do arbítrio e de outras violências que poderiam ser cometidos contra os loucos nas províncias e mesmo nas periferias de Paris, a lei também deu total poder ao médico psiquiatra. Era ele quem poderia decidir quem deveria ou não ser privado de sua liberdade. Com isso, a psiquiatria tornava-se, assim, um braço do Estado na gestão da ordem social mas, ao contrário do polícia e do inquérito polícial, que exigia provas independentes e a atuação do sistema judiciário, o psiquiatra estava coberto sob o manto da ciência médica, o que dava a ele poderes gigantescos de decidir entre a alienação e a razão. Isso marcou profundamente a forma como a loucura e a saúde mental passaram a ser compreendidas e tratadas nas décadas seguintes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Emil Kraepelin e uma Nova Racionalização ===&lt;br /&gt;
Apesar da forte valorização da psiquiatria francesa na constituição da psiquiatria contemporânea, uma das principais contribuições para o ramo em sua forma atual foi empreendida por um alemão, [[Emil Kraepelin]]. No final do século XIX, a psiquiatria alemã estava dividida entre os &amp;quot;psiquistas&amp;quot;, que viam a loucura como uma doença da alma ou um mal moral, a exemplo dos franceses; e os &amp;quot;somatistas&amp;quot;, que buscavam no cérebro a origem dos sintomas das doenças mentais. Kraepelin superou esse impasse ao focar não na anatomia, mas na evolução temporal das doenças. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin passou a entender que sintomas isolados, como ouvir vozes ou a crença de um paciente em ser alguma personalidade histórica, não eram suficientes para definir uma doença. Ele propôs olhar também para seu desenvolvimento ao longo do tempo. Com essa premissa em mãos, Kraepelin introduziu as &amp;quot;cartas diagnósticas&amp;quot; (&#039;&#039;Zählkarten&#039;&#039;), um sistema de fichamento padronizado onde se registrava a história de vida do paciente, seus antecedentes familiares, os sintomas detalhados e, por fim, o desfecho da doença. Isso transformou a clínica psiquiátrica, pois articulava neuroanatomia e psicologia experimental, já que ele fora aluno de [[Wilhelm Wundt|Wundt]]. A loucura não seria apenas uma manifestação, mas teria uma história relevante para a compreensão de sua origem e desenvolvimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin também é considerado o pioneiro da [[Psiquiatria Transcultural]]. Visando provar que as categorias diagnósticas psiquiátricas seriam universais, ele viajou para lugares como a ilha de Java (Indonésia) em 1904 para estudar a manifestação da loucura em populações não europeias. Ele concluiu que, ainda que os conteúdos dos delírios mudassem conforme a cultura, a estrutura fundamental da loucura permanecia a mesma, o que reforçou sua tese de que eram doenças biológicas da espécie humana. Apesar de suas várias contribuições, no final de sua vida ele se transformou um higienista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O I Congresso Internacional de Psiquiatria ===&lt;br /&gt;
Realizado em Paris em agosto de 1950, o [[I Congresso Internacional de Psiquiatria]] foi projetado especificamente para unificar, debater e institucionalizar a psiquiatria como uma disciplina médica global e autônoma. Durante o Congresso foram colocados, frente a frente, as grandes correntes que disputavam a hegemonia do entendimento da mente humana na época, a saber, as correntes psicodinâmica e a biológica. De forma menor, uma corrente social e anti-manicomial também se fez presente. O resultado do embate foi uma conciliação entre as duas maiores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um dos resultados do Congresso de 1950 foi a pressão para que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Associação Psiquiátrica Americana (APA) criassem manuais estatísticos e classificatórios unificados, o que resultou na inserção de uma seção robusta de transtornos mentais na CID-6 (Classificação Internacional de Doenças) e na publicação do primeiro [[DSM]], em 1952.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro resultado importante do evento foi a fundação da Associação Mundial de Psiquiatria ([[World Psychiatric Association (WPA)|World Psychiatric Association - WPA]]). Com isso, a psiquiatria deixou de ser um conjunto de escolas nacionais isoladas, como as escolas francesa, alemã, anglo-saxã, entre outras, para se tornar uma corporação científica internacional, com congressos periódicos, periódicos indexados e diretrizes globais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Loucura no Brasil ==&lt;br /&gt;
Até o início do século XIX, o Brasil colonial lidava com seus insanos de forma semelhante ao que ocorria na Europa. As famílias ricas mantinham seus parentes loucos em &amp;quot;quartos fortes&amp;quot;, privando-os mais ou menos da vida comunitária e familiar, a depender das circunstâncias, de forma semelhante ao que acontecia em Portugal. Já os pobres eram entregues à caridade das [[Santas Casas de Misericórdia]] ou vagavam pelas ruas, sendo ocasionalmente recolhidos a cadeias públicas quando perturbavam a ordem, indo e vindo das frágeis instituições brasileiras, sofrendo abusos e violências de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A transferência da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 gerou a necessidade de transformar a capital colonial em uma moderna metrópole europeia. Sob a influência do Iluminismo tardio e das notícias que chegavam sobre as reformas de Pinel na França, a elite médica brasileira, que havia estudado sobretudo na França e em Portugal, começou a pressionar o poder público pela criação de espaços específicos para o tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1830, a criação da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (que viria a ser a [[Academia Nacional de Medicina]]) foi o marco institucional dessa pressão. Esse movimento político funcionou. O momento decisivo ocorreu em 18 de julho de 1841, quando o Imperador D. Pedro II, em comemoração à sua coroação, assinou o decreto de fundação do primeiro hospital psiquiátrico do Brasil e da América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Hospício de Pedro II, ou o Palácio dos Loucos (1852–1889) ===&lt;br /&gt;
Inaugurado apenas em 8 de dezembro de 1852, o [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)|Hospício de Pedro II]] era gerido pela Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, que por anos geriu grande parte da loucura brasileira. Seu provedor era o médico [[José Clemente Pereira]], que era responsável por todos os aspectos da instituição, desde os médicos até os administrativos. Embora a gestão administrativa fosse religiosa, o saber médico tinha muito espaço, com nomes como [[Manoel Feliciano Pereira de Carvalho]], que tentaram implementar o &amp;quot;tratamento moral&amp;quot; inspirado em Esquirol. Apesar dos esforços, muitos relatos de abusos e de condições precárias mostravam a dificuldade em implementar um modelo brasileiro de tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a Proclamação da República em 1889, o Hospício de Pedro II foi desvinculado da Santa Casa e renomeado como [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)]]. Este foi um período de maior laicização e pela busca por um maior rigor científico, o que não aconteceu por completo, em grande parte devido à falta de profissionais adequadamente treinados para a questão. Apesar disso, o Brasil já possuía uma cátedra de psiquiatria desde 1883, ocupada por João Carlos Teixeira Brandão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diante dos altíssimos custos em manter o Hospital, surgem as colônias agrícolas como alternativa ao confinamento urbano. Em 1884, já havia sido inaugurada a [[Colônia de São Bento]] e, em 1890, a [[Colônia de Conde de Mesquita]], na Ilha do Governador. A ideia era que o trabalho na terra poderia colaborar na cura, além de os produtos deste trabalho poderiam ser consumidos no local, ajudando na manutenção dos espaços. Apesar dessas transformações e de evidentes melhorias, os relatos de época mostram que não acontecia nenhuma das duas coisas, nem produção agrícola suficiente, nem um processo terapêutico efetivo, mas entendia-se que a colônia agrícola era melhor do que o confinamento do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Era Juliano Moreira ===&lt;br /&gt;
Em 1903, o médico baiano [[Juliano Moreira]] assume a direção do Hospital Nacional de Alienados. Negro, de origem humilde e dotado de uma erudição impressionante, ele revolucionou a assistência brasileira aos alienados, sendo reconhecido internacionalmente como um dos grandes psiquiatras de seu tempo. Ele se tornaria o principal médico alienista do Brasil, tornando-se referência para todo o país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Moreira aboliu definitivamente o uso de camisas de força e as grades nas janelas, num gesto que se assemelhava àquele de Pinel, enfatizando que o hospital era um local de tratamento e cura, e não uma prisão ou um depósito de indesejados. Além disso, ele trouxe para o Brasil a nosologia de Emil Kraepelin, um psiquiatra alemão considerado o pai da psiquiatria moderna, da psicofarmacologia e da genética psiquiátrica, o que seria uma modernização do modelo francês adotado até então. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a gestão Moreira ocorreram várias mudanças. Foi criado o [[Pavilhão Bourneville]] para crianças com deficiência intelectual. Além disso, fundou-se em 1921 o [[Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro]], o primeiro do país, sob a liderança de [[Heitor Carrilho]]. Dentro dos hospitais incentivou-se a pesquisa laboratorial e anátomo-patológica, o que também abriu espaço para a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A influência e o prestígio de Juliano Moreira se espalhou pelo Brasil. Em São Paulo, destacou-se a figura de [[Franco da Rocha|Francisco Franco da Rocha]], que fundou em 1898 o [[Hospital do Juquery]]. O Juquery, como ficou conhecido, tornou-se uma &amp;quot;cidade-asilo&amp;quot;, chegando a abrigar dezenas de milhares de pacientes em um modelo que mesclava pavilhôes médicos com imensas colônias agrícolas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste período, a psiquiatria brasileira flertou intensamente com as teorias da degenerescência (de Morel e Magnan) e com a eugenia. Médicos como [[Renato Kehl]], bem como a criação da [[Liga Brasileira de Higiene Mental]] (1923), uma organização higienista fundada por [[Gustavo Riedel]], começaram a ver a loucura não apenas como um problema individual, mas como um risco biológico à raça brasileira. A higiene mental passou a atuar preventivamente em escolas e fábricas, buscando identificar &amp;quot;pré-delinquentes&amp;quot; e &amp;quot;personalidades anormais&amp;quot;. Apesar de não ter conseguido desenvolver muitas políticas efetivas, os eugenistas brasileiros eram ativos e influentes em muitos círculos decisórios importantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A criação de hospitais não se limitou a São Paulo e Rio de Janeiro. Em  1903, o governo de Minas Gerais fundou o [[Hospital Psiquiátrico de Barbacena]], que mais tarde seria palco de uma das maiores tragédias humanitárias do país. Em Pernambuco, o [[Hospital Ulysses Pernambucano]] foi fundado pelo médico de mesmo nome, que começou a desenvolver uma psiquiatria mais voltada para o social e para a prevenção no final dos anos 1920. Hospitais na Bahia, Rio Grande do Sul, entre outros, também foram criados, seguindo o pioneirismo do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Era Vargas e além: o início do encarceramento ===&lt;br /&gt;
Com a Revolução de 1930, o projeto de nação de Vargas exigia um povo saudável e produtivo, devido à visão desenvolvimentista suportada pela Aliança Liberal, que o elegeu. A loucura deixou de ser apenas uma questão de ordem pública ou um aspecto da caridade para se tornar um problema de segurança nacional e de saúde pública. Em 1941, no âmbito do Estado Novo, foi criado o [[Serviço Nacional de Doenças Mentais (SNDM)]], substituindo o antigo modelo de assistência a alienados, que era fragmentado nas diferentes províncias. Dessa maneira, Vargas criou uma diretriz federal centralizada para a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a Liga Brasileira de Higiene Mental ganhou fôlego. O foco deslocou-se do hospital para a prevenção na sociedade. A psiquiatria não deveria se limitar aos hospitais, mas também atuar na escola, na fábrica e na família, buscando limpar a nação e extirpar o que chamavam de &amp;quot;elementos degenerados&amp;quot;. O médico Gustavo Riedel e seus sucessores defendiam que o Estado deveria intervir precocemente para evitar que o &amp;quot;anormal&amp;quot; se tornasse um fardo para a máquina pública.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi durante as décadas de 1930 e 1940 que o modelo de colônia agrícola, antes visto como terapêutico e de assistência à manutenção hospitalar, atingiu proporções industriais. O que se viu em Barbacena e em instituições como o Juquery em São Paulo, foi a transformação do hospital em, praticamente, um campo de concentração administrativo. A internação não dependia mais de um diagnóstico médico rigoroso, que na prática ainda era frágil e baseado em elementos pouco científicos. Bastava ser considerado &amp;quot;socialmente inconveniente&amp;quot; para correr-se o risco de ir parar numa instituições dessas. Assim, pobres, prostitutas, homossexuais, militantes políticos e mães solteiras eram enviados para essas instituições, onde a sobrevivência era a exceção. Estima-se que, no auge do descaso, o Hospital de Barbacena registrava um número alarmante de óbitos por frio, fome e doenças evitáveis, cujos corpos eram, por vezes, vendidos para faculdades de medicina. Situações similares aconteciam em outras instituições do tipo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tratamentos Brutais e os Modos de Resistência ===&lt;br /&gt;
Para além do horror asilar, o período entre 1930 e 1950 também foi marcado pela introdução de terapias biológicas drásticas, importadas da Europa, conhecidas como [[somatoterapias]]. Com uma psicofarmacologia pouco eficaz, os médicos buscavam &amp;quot;chacoalhar&amp;quot; o organismo, produzindo nele como um choque que pudesse restaurar a razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma dessas técnicas era a [[insulinoterapia]]. Introduzida na Europa pelo médico austríaco Manfred Sakel (1900–1957) em Viena, no início dos anos 1930, representou uma das primeiras e mais invasivas formas de somatoterapia. Originalmente destinada ao tratamento da [[esquizofrenia]], a técnica consistia na administração de doses maciças de insulina no paciente, provocando um estado de hipoglicemia profunda que levava o paciente ao coma. Na volta desse estado, se esperava que o indivíduo “restaurasse” a razão por conta do choque orgânico violento que havia vivenciado. O procedimento era extremamente perigoso e estava associado a uma alta taxa de mortalidade e morbidade devido às convulsões e aos possíveis danos cerebrais. Apesar dos riscos, o método foi amplamente adotado no mundo todo, incluindo o Brasil, onde foi usado em grandes instituições de confinamento, como o Hospital Nacional de Alienados (HNA), no Hospital Juquery, entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que passou a ser muito utilizada foi a [[Eletroconvulsoterapia]], ou simplesmente o eletrochoque. Introduzido no Brasil logo após sua invenção na Itália (1938), consiste em colocar eletrodos carregados com correntes elétricas em lados opostos, na lateral da cabeça, de modo que uma forte corrente elétrica atravessasse o cérebro. A duração e a intensidade podiam variar, mas relatos de mais de trinta minutos de choques violentos não eram incomuns. Sua brutalidade era tamanha que exigia que sua vítima fosse fortemente amarrada. Tornou-se uma ferramenta onipresente nos hospitais, muitas vezes aplicada sem anestesia e como método de punição, desvirtuando sua finalidade clínica já questionável e usada, basicamente, como ferramenta de tortura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que ingressou no Brasil nesse período foi a [[lobotomia]], um procedimento cirúrgico que consistia em apenas retirar um pedaço do cérebro do paciente. Eles foram realizados em larga escala em hospitais como o Juquery e no Hospital Pedro II, buscando a docilização de pacientes crônicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em oposição à violência do isolamento oferecido por essas instituições, surge a figura de [[Nise da Silveira]]. Em 1946, após ter sido presa pelo regime de Vargas por suas inclinações políticas, Nise assumiu o Setor de Terapêutica Ocupacional do [[Centro Psiquiátrico Nacional]] (Engenho de Dentro), no Rio de Janeiro. Ela se recusou a usar eletrochoques e lobotomias, introduzindo a arte e o afeto como mediadores da cura. Ela fundou o [[Museu de Imagens do Inconsciente (MIS)|Museu de Imagens do Inconsciente]] em 1952, onde demonstrou, através das pinturas e esculturas de pacientes como [[Arthur Bispo do Rosario]], que o louco preservava uma riqueza simbólica e uma humanidade que a psiquiatria tradicional tentava apagar. Sua colaboração com [[Carl Jung]] colocou a experiência brasileira no mapa da psicologia analítica mundial, provando que o tratamento em liberdade e através da expressão criativa era viável.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Criação da Indústria da Loucura ===&lt;br /&gt;
No final da década de 1950 e início da de 1960, durante o governo de Juscelino Kubitschek e o breve período democrático posterior, o Brasil viu o surgimento de uma nova e ainda mais perversa dinâmica: a Indústria da Loucura. A assistência psiquiátrica, antes quase totalmente pública ou baseada no assistencialismo das Santas Casas, começou a ser privatizada. Com o crescimento dos institutos de previdência (IAPs), o Estado passou a pagar hospitais privados por dia de internação. Isso criou um incentivo perverso: quanto mais tempo o paciente ficasse internado e quanto menos recursos fossem gastos com ele, maior o lucro das clínicas privadas. Esse modelo, conhecido como &amp;quot;hospitalocêntrico&amp;quot;, inchou o sistema e preparou o terreno para a política de contenção social que seria radicalizada após o golpe de 1964. Foi um momento de multiplicação da brutalidade. Pouco importava a loucura ou não, o tratamento ou não, a eficácia ou não. O que importava era lucar com o dinheiro estatal por meio de um encarceramento fácil de impor e praticamente impossível de escapar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A coisa se aprofundou ainda mais com o golpe militar, que unificou em 1966 os Institutos de Aposentadoria e Pensões no INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), produzindo uma centralização gigantesca de recursos, com um modelo de privatização quase total. A psiquiatria, por ser uma especialidade cuja formação exigia baixo investimento tecnológico quando comparada a outras como a cirurgia, cardiologia ou oncologia, permitia grandes lucros com as internações de longa permanência. Assim, trancafiar e atormentar os loucos tornou-se o setor mais atraente para o empresariado da saúde.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de pessoas possivelmente diagnosticadas, o sistema era alimentado pelo encarceramento de militantes políticos, estudantes rebeldes, pessoas em situação de rua,  mendigos, homossexuais, indivíduos com comportamentos &amp;quot;desviantes&amp;quot; da moral tradicional, dependentes químicos, alcoólatras ou mesmo pessoas “problemáticas” da família, que se recusavam, por exemplo, a participar de casamentos arranjados, que denunciavam violência sexual sofrida ou eram apenas mulheres que haviam engravidado antes do casamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As instituições privadas multiplicaram-se pelo interior do país, longe dos olhos da fiscalização e dos centros urbanos. Instaladas em locais de difícil acesso, facilitava o ocultamento de violações de direitos humanos e ainda utilizava da conivência dos governos locais. As populações dessas localidades, crentes no saber médico, dificilmente desconfiavam do que poderia acontecer dentro dessas instituições e, quando vazavam denúncias, elas rapidamente podiam ser facilmente manejadas em conluio com os poderes locais. A loucura tornou-se um negócio de massa, com o abrigo precário de centenas de pessoas em galpões, onde a única &amp;quot;terapia&amp;quot; era a contenção química por sedativos baratos ou o uso indiscriminado do eletrochoque para manter a ordem além, é claro, da violência e brutalidade de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Luta Antimanicomial ==&lt;br /&gt;
No final da década de 1970, o modelo de saúde mental começou a dar sinais de exaustão, tanto financeira quanto ética. O Estado já não conseguia arcar com os custos crescentes de um sistema que só expandia o número de crônicos, e as denúncias de maus-tratos começaram a furar o bloqueio da censura, aparecendo em jornais mais prestigiados e em espaços mais amplos do debate social. O estopim para a o início do movimento da reforma psiquiátrica no Brasil começa com uma crise na [[Divisão Nacional de Saúde Mental (DINSAM)]], que havia recebido denúncias de irregularidades no Centro Psiquiátrico Pedro II, no [[Hospital Pinel]], na [[Colônia Juliano Moreira]] e no [[Manicômio Judiciário Heitor Carrilho]]. A denúncia foi acompanhada de uma greve por parte dos funcionários, que exigiam melhorias institucionais e questionavam irregularidades trabalhistas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É dessa crise que surge o [[Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM)]] que, nesse primeiro momento, estão mais preocupados com questões trabalhistas do que com o problema da própria prática psiquiátrica, que vai caracterizar parte dos movimentos antimanicomiais posteriormente. O MTSM se fortalece e consegue espaço no extremamente conservador [[V Congresso Brasileiro de Psiquiatria]], que ocorre em 1978, no que fica conhecido como “congresso da abertura”, num período também de abertura política com o iminente fim do regime militar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda em 1978, um grupo importante de intelectuais vinculados às bases teóricas do [[Movimento Antimanicomial]] participa do [[I Congresso Brasileiro de Psicanálise de Grupos e Instituições]], incluindo [[Franco Basaglia]], [[Felix Guattari]], [[Robert Castel]] e [[Erwin Goffman]], todos eles de grande inspiração e influência para o movimento antimanicomial brasileiro. No ano seguinte, o [[I Congresso Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental]] fortalece a contextação não apenas de problemas trabalhistas, mas do próprio modelo asilar e da forma como a psiquiatria intervinha e oprimia a população marginalizada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação público-privada que alimentava o modelo até então começa a ruir em 1980, com a chamada política da co-gestão interministerial. Nela, um convênio celebrado entre o Ministério da Previdência e Assistência Social com o Ministério da Saúde liquida a &amp;quot;Unidade de Serviço&amp;quot;, a política que permitia a contratação privada de serviços psiquiátricos e que representou o triunfo do público sobre o privado. Membros do MTSM passam a integrar a gestão do atendimento em saúde mental que, por dentro do aparato estatal, começam a implementar uma política de saúde pública baseada em prestação de serviços, cooperação, descentralização e regionalização, propostas que já eram defendidas pelos reformadores. Apesar desses avanços, críticos afirmam que a política de co-gestão apenas visava reformar os serviços, não atingindo o âmago da questão, que seria desconstruir o próprio paradigma psiquiátrico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo de desinstitucionalização de fato começa em 1985, ano marcado pelo fim da Ditadura Militar e pela realização de vários eventos que aprofundam o debate sobre a situação do atendimento. A [[I Conferência Nacional de Saúde Mental]] marca o início da desinstitucionalização devido aos conflitos entre o MTSM, a ABP e grupos não-organicistas que passaram a dirigir o DINSAM. Na conferência, consagrou-se uma reviravolta na perspectiva com a consolidação do lema &amp;quot;por uma sociedade sem manicômios&amp;quot;, rompendo com a lógica tanto privatista quanto estatista e questionando o próprio modelo psiquiátrico tradicional. Este passou a ser amplamente entendido como fenômeno cultural que promove o tratamento moral e o controle dos corpos, uma visão abertamente basagliana e antimanicomial. Alguns entendem que, nesse momento, a tradição anti-institucional que originou os primeiros questionamentos na década de 1970 foi restaurada e fortalecida. Após a Conferência, o próprio MTSM se renovou, se desatrelando do Estado, retomando sua independência e seu papel de transformação social.  A mudança do movimento se consolidou no [[II Congresso Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental]], quando a noção de racionalização e modernização dos serviços que havia caracterizado o período da co-gestão foi recusado em nome de uma pauta anti-institucional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em meados dos anos 1980 começam a surgir novos modelos de atenção à saúde que poderia substituir o modelo psiquiátrico. Em São Paulo é criado o primeiro [[Centro de Atenção Psicossocial (CAPS)]], em 1987. Em Santos, surge o [[Núcleo de Atenção Psicossocial (NAPS)]], em 1989. Estes serviços passaram a ser vistos como os modelos para uma contestação profunda dos manicômios, justificando seu encerramento. Já na década de 1990, o SUS introduziu mecanismos de fiscalização e auditoria que começaram a sufocar financeiramente os asilos privados que não cumpriam níveis mínimos de dignidade. Portarias históricas do Ministério da Saúde, inspiradas na [[Declaração de Caracas (1990)]], passaram a proibir a criação de novos leitos psiquiátricos asilares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após mais de uma década de tramitação e intensos debates no Congresso Nacional, como fruto dos embates históricos iniciados na crise do DINSAM e que atravessaram debates públicos extremamente imporantes, foi promulgada a Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001, que ficou conhecida como [[Lei da Reforma Psiquiátrica]] ou Lei Paulo Delgado, seu autor. Esta legislação se tornou o marco jurídico definitivo da virada assistencial no Brasil. A lei instituiu o direito do paciente de ser tratado em ambiente terapêutico o menos restritivo possível e colocou a internação psiquiátrica como último recurso possível. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para preencher o vazio deixado pelo fechamento dos grandes hospitais, o SUS estruturou a [[Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)]], formalizada na década seguinte pela Portaria nº 3.088 de 2011. A RAPS organizou o cuidado em diferentes níveis de complexidade, com os CAPS divididos nas modalidades CAPS I, II, III, CAPSi  e CAPS AD e, por fim, os [[Serviços de Residência Terapêutica (SRT)]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, a luta continua devido a retrocessos observados na segunda metade da década de 2010 e início dos anos 2020. Mudanças nas diretrizes da Política Nacional de Saúde Mental tentaram reintroduzir a centralidade do hospital psiquiátrico e incentivaram o uso de práticas baseadas no isolamento. Além disso, o governo federal passou a financiar massivamente as chamadas [[Comunidades Terapêuticas]], instituições de caráter predominantemente privado e religioso voltadas ao acolhimento de usuários de drogas, de onde emanam graves denúncias de todos os tipos de violação dos direitos humanos e que representam um evidente retrocesso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje, o campo da saúde mental no Brasil vive um embate profundo entre duas visões. De um lado, aqueles que lutam pela consolidação da RAPS, em defesa da clínica da subjetividade, da defesa dos direitos humanos, pela redução de danos e pela inserção social pelo trabalho e pela cultura. Do outro lado observa-se a persistência do &#039;&#039;lobby&#039;&#039; asilar e de setores que buscam a mercantilização do cuidado, por meio do encarceramento, da medicalização extrema do sofrimento psíquico, da higienização dos centros urbanos e do recolhimento dos indesejáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
ARBEX, Daniela. &#039;&#039;&#039;Holocausto brasileiro&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Geração Editorial, 2013.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BASAGLIA, Franco. &#039;&#039;&#039;A instituição negada&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Graal, 1985.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BIRMAN, Joel. &#039;&#039;&#039;A physis da arte&#039;&#039;&#039;: Deleuze e a clínica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CAMPOS, Gastão Wagner de Sousa. &#039;&#039;&#039;Tratado de saúde coletiva&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Hucitec, 2006. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CASTEL, Robert. &#039;&#039;&#039;A ordem psiquiátrica&#039;&#039;&#039;: a idade de ouro do alienismo. Rio de Janeiro: Graal, 1978.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
COSTA, Jurandir Freire. &#039;&#039;&#039;Violência e psicanálise&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Graal, 1986.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
COSTA, Jurandir Freire. &#039;&#039;&#039;História da assistência psiquiátrica no Brasil&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Garamond, 2007. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
DALGALARRONDO, Paulo. &#039;&#039;&#039;Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais&#039;&#039;&#039;. Porto Alegre: Artmed, 2018. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ENGEL, Magali. &#039;&#039;&#039;Os delírios da razão&#039;&#039;&#039;: médicos, loucos e hospícios (Rio de Janeiro, 1830-1930). Rio de Janeiro: Fiocruz, 2001&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
FOUCAULT, Michel. &#039;&#039;&#039;História da loucura na Idade Clássica&#039;&#039;&#039; (Trad, de José Teixeira Coelho Netto). São Paulo: Perspectiva, 2014.&lt;br /&gt;
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MELLO, Luiz Carlos. &#039;&#039;&#039;Nise da Silveira&#039;&#039;&#039;: caminhos de uma psiquiatra rebelde. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2014.&lt;br /&gt;
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PEREIRA, Ana Leonor; PITA, João Rui. &#039;&#039;&#039;A institucionalização da loucura em portugal&#039;&#039;&#039;. Coimbra: Estudo Geral, 1994.&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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SILVA, Priscila Aquino. O Hospital Real de Todos-os-Santos e seus agentes da cura. &#039;&#039;&#039;História, Ciências, Saúde-Manguinhos&#039;&#039;&#039;, Rio de Janeiro, v. 22, n. 4, 2015.&lt;br /&gt;
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TENÓRIO, Fernando. A Reforma Psiquiátrica Brasileira da década de 1980 aos dias Atuais: história e conceitos. &#039;&#039;&#039;História, Ciências, Saúde-Manguinhos&#039;&#039;&#039;, v. 9, n. 1, 2002.&lt;br /&gt;
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VENANCIO, Ana Teresa A.; CARVALHAL, Lázaro. Juliano Moreira: a ciência da assistência e a assistência da ciência. &#039;&#039;&#039;Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental&#039;&#039;&#039;, 2001.&lt;br /&gt;
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YASUI, Silvio. &#039;&#039;&#039;Rupturas e encontros&#039;&#039;&#039;: desafios da Reforma Psiquiátrica Brasileira. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2010.&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1698</id>
		<title>História da loucura: da Grécia antiga à luta anti-manicomial</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1698"/>
		<updated>2026-07-03T22:52:56Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* Pinel e a criação da psiquiatria nosográfica */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto com finalidade didática, escrito por André Elias Morelli Ribeiro para o curso de Psicologia do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras. Seu uso é aberto, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Introdução ==&lt;br /&gt;
A história da loucura é, ao mesmo tempo, uma narrativa sobre o modo como diferentes sociedades compreenderam a mente humana e uma reflexão sobre os mecanismos de poder que moldaram práticas de exclusão, cuidado e resistência vinculados às diferentes formas que diferentes grupos humanos entenderam como loucura ou algo similar, conforme uma visão ampliada contemporânea. Este material inicia na Grécia antiga e chega até o movimento antimanicomial no Brasil e, ao longo deste trajeto, pode-se observar como a loucura foi interpretada ora como intervenção divina, ora como desvio moral, ora como doença fisiológica, ora como ameaça social. Cada época construiu suas próprias respostas àquilo que considerou loucura que variaram entre a integração comunitária, o confinamento, o tratamento brutal e a busca por tratamentos médicos ou espirituais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, a trajetória seguiu de perto os modelos europeus. Do Hospício de Pedro II às colônias agrícolas, passando pela gestão de Juliano Moreira, a psiquiatria nacional oscilou entre avanços humanitários e práticas de exclusão. O período Vargas e o Estado Novo intensificaram o encarceramento, transformando hospitais em verdadeiros campos de concentração administrativos. As décadas seguintes viram a adoção de terapias brutais, como eletrochoques e lobotomias, mas também o surgimento de movimentos de resistência, como o trabalho de Nise da Silveira, que introduziu a arte e o afeto como caminhos de cura, ou a emergência de questionamentos ao modelo psiquátrico manicomial. A partir dos anos 1960, a privatização da assistência psiquiátrica gerou a chamada “Indústria da Loucura”, marcada por internações lucrativas e violações sistemáticas de direitos humanos que marcaram profundamente a forma como se entende a loucura contemporaneamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em síntese, o percurso histórico apresentado aqui mostra que a loucura nunca foi apenas um fenômeno clínico mas, antes, um espelho das sociedades, revelando seus medos, suas crenças e suas formas de organizar o convívio humano. De sagrada a temida, de medicalizada a mercantilizada, apresenta-se e se discute como surgiram vozes e práticas que reivindicaram humanidade e liberdade para os considerados loucos.&lt;br /&gt;
== As Loucuras no Mundo Antigo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Grécia antiga ===&lt;br /&gt;
Na Grécia antiga, em certo momento a loucura era considerada uma intervenção dos deuses e, como os gregos era politeístas, a varidade de formas de loucura e os modos de intervenção também era bem grande. A loucura poderia ser vista, por exemplo, como uma punição. É o caso do herói Ajax, filho de Telamão. Após a morte de Aquiles, a armadura do herói foi dada a Odisseu, e a afronta levou Ajax a um estado de fúria e ressentimento. A deusa Atena, intervindo em favor de Odisseu para proteger os Aqueus da vingança de Ajax, lançou sobre ele uma cegueira mental. Tomado pela loucura, Ajax massacrou o gado de guerra que havia sido capturado, acreditando que estava matando os líderes aqueus, incluindo Odisseu e Agamenon. Ao recobrar a sanidade e perceber seu ato vergonhoso, cometeu suicídio devido à humilhação. Essa cena ilustra a loucura como uma intervenção divina direta na forma de loucura poderia ser vista como destrutiva e extremamente negativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em outros episódios da mitologia grega, a loucura surge como uma consequência direta de traumas e da perseguição implacável por vingança. Um exemplo é o de Orestes que, após assassinar sua mãe, Clitemnestra para vingar a morte de seu pai, Agamenon, passa a ser atormentado pelas Erínias. Essas divindades da vingança, também conhecidas como Fúrias, levaram o herói a um estado de delírio e desespero profundo, personificando a tortura psicológica e a perda da razão como uma forma de acerto de contas espiritual e moral pelo matricídio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura não era unicamente um flagelo ou uma punição. Os gregos  viam a mania, um termo que hoje engloba a loucura, em uma perspectiva dual. Na sua manifestação mais elevada, era considerada uma benção ou inspiração divina. Essa visão positiva estava profundamente ligada ao culto de Dionísio, o deus do vinho, do teatro e do êxtase. Nos rituais dionisíacos, as bacantes e outros seguidores buscavam o êxtase, que é, literalmente, &amp;quot;sair de si&amp;quot;, por meio da dança frenética, música e consumo de vinho, o que era percebido como um estado de comunhão direta e inspirada com a divindade. Longe de ser destrutiva, essa forma de loucura era vista como uma fonte de criatividade, revelação e poder, sendo um caminho para a verdade profética e como expressão artística ligada a Dionísio. Este conceito de mania inspirada também se estendia a outros domínios, como a profecia dos oráculos, que eram vinculados à adoração ao deus Apolo, e mesmo a poesia, onde a perda temporária da razão humana era interpretada como a mente sendo tomada por uma força divina que trazia algum tipo de inspiração superior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em certo momento, ainda na Grécia antiga, as ideias sobre a loucura - ou algo que pareça loucura aos olhos contemporâneos - foi modificada graças a Hipócrates, o pai da medicina. A visão de [[Hipócrates]] marcou uma transição crucial para o entendimento da loucura na Grécia Antiga, pois afastou a loucura das concepções divinas e sobrenaturais para uma explicação puramente fisiológica e natural. Ele desenvolveu a [[Teoria dos Quatro Humores]], que se tornou o pilar da medicina ocidental por séculos. Segundo essa teoria, o corpo humano era composto por quatro fluidos essenciais (ou humores), que são sangue, fleuma, bile amarela e bile negra. A saúde mental e física dependia do equilíbrio harmonioso desses humores. A loucura, ou qualquer doença mental, era, portanto, interpretada como o resultado de um desequilíbrio, como o excesso de bile negra causando a melancolia (depressão), ou o desarranjo da fleuma e da bile amarela, que poderiam levar a estados de mania e frenesi. Com isso, Hipócrates postulou que a loucura não era uma maldição dos deuses, mas sim uma doença com origem no corpo. Essa abordagem naturalista permitiu que a loucura passasse a ser tratada com métodos como dietas, exercícios e remédios, no lugar de rituais religiosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tradição bíblica ===&lt;br /&gt;
Na tradição bíblica, escrita em contextos e culturas não europeias, a loucura também é frequentemente retratada como uma forma de intervenção ou punição divina. Um dos episódios mais emblemáticos é a história do rei Nabucodonosor II, relatada no Livro de Daniel. De acordo com o texto, devido ao seu orgulho excessivo e sua recusa em reconhecer a soberania de Deus, o rei foi acometido por uma forma de loucura que o levou a viver como um animal, alimentando-se de ervas e deixando seus cabelos e unhas crescerem sem controle. Na psicologia moderna, esse estado em que um indivíduo acredita ter se transformado em um animal é conhecido como licantropia clínica, uma condição rara. A loucura, conforme emerge na descrição bíblica, emerge ligada à perda da razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, a tradição bíblica também apresenta um paradoxo. No Novo Testamento, cujos livros foram escritos no contexto do mundo greco-romano, o que é considerado &#039;loucura&#039; pelos homens revela-se a suprema sabedoria divina. Essa ideia é desenvolvida pelo apóstolo Paulo em sua Primeira Carta aos Coríntios. Na passagem, ele afirma: &#039;Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens&#039; (1 Coríntios 1:25). Paulo usa o termo &#039;&#039;moria&#039;&#039; (loucura, tolice) para contrastar a sabedoria humana que, na época do texto, era representada pela filosofia e retórica grega. A mensagem da cruz parecia ilógica e insensata aos olhos dos não cristãos, que debochavam do fato do messias ter sido capturado e morto pelos romanos. Assim, a loucura deixa de ser apenas uma punição para se tornar uma lente através da qual a verdadeira sabedoria, ou seja, a salvação, é revelada, invertendo a hierarquia de valores do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Pérsia ===&lt;br /&gt;
Na Pérsia, a visão da loucura e do comportamento irracional foi moldada por seu profundo dualismo religioso e, posteriormente, pelas tradições islâmicas que se seguiram à conquista árabe. O zoroastrismo, a antiga religião persa fundada por Zoroastro (Zaratustra), transformou o politeísmo em um dualismo cósmico centralizado no conflito eterno entre Ahura Mazda (Ormazd), o criador da vida, luz e verdade, e Angra Mainyu (Ahriman), a escuridão e a mentira. Neste cenário, o mundo material é o campo de batalha entre os dois. Ahriman buscava corromper tudo o que Ormazd havia criado. Embora o texto não defina a loucura diretamente, o comportamento irracional e a desrazão poderiam ser facilmente associados ao domínio de Ahriman e à mentira (&#039;&#039;druj&#039;&#039;), enquanto a sanidade e a pureza eram atributos de Ormazd. A batalha contra essa corrupção exigia que os adoradores de Ormazd permanecessem verdadeiros e evitassem poluir o fogo e a terra sagrada, indicando que a pureza mental e ritual era uma defesa contra as forças do mal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Islã ===&lt;br /&gt;
Na cultura islãmica, de forma geral e bastante resumida, o comportamento considerado irracional era frequentemente explicado pela crença nos &#039;&#039;djinn&#039;&#039;, espíritos errantes que habitavam o deserto e certos lugares considerados místicos e que podiam invadir a mente humana, causando o que a sociedade ocidental moderna chamaria de insanidade ou, talvez, distúrbio emocional. Nesses casos, o tratamento era o exorcismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na era clássica da medicina islãmica, ganhou força a tradição galênica, que atribuía as perturbações mentais a desequilíbrios nos quatro humores corporais (sangue, fleuma, bile amarela e bile negra). Médicos proeminentes rejeitaram a ideia de que a loucura fosse exclusivamente uma possessão demoníaca, tratando-a como uma patologia de base orgânica ligada ao cérebro. Avicena dedicou seções extensas a transtornos como a melancolia, o delírio e a mania. Ele descreveu detalhadamente como o excesso de bile negra afetava as faculdades cognitivas e imaginativas do cérebro, propondo tratamentos que incluíam dieta, banhos térmicos, massagens, sangrias reguladas e o uso de fitoterápicos, semelhante à tradição grega mais tardia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período medieval, o mundo islâmico desenvolveu os bimaristans (hospitais), que funcionavam como centros de tratamento médico gratuito, financiados por dotações religiosas (&#039;&#039;waqf&#039;&#039;). O objetivo era restaurar o equilíbrio do espírito e dos humores através de estímulos ambientais positivos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura também apareceu em narrativas culturais associadas aos povos, de forma a sugerir causas e curas mais mundanas. O famoso conto persa de As Mil e Uma Noites, cuja origem é indo-persa mas que foi sedimentada na cultura islãmica, relata a história do rei Shahriyar, que, convencido da inevitável traição feminina, cai em uma loucura paranóica que o leva a se casar com uma virgem todas as noites e, pela manhã, assassiná-la. Sua &amp;quot;cura&amp;quot; é alcançada através da engenhosidade e paciência humana por meio de uma dessas esposas, Scheherazade, que usa a arte de contar histórias para retardar sua execução por &amp;quot;mil e uma noites&amp;quot;, período em que sua paranoia é gradualmente desfeita. A história sugere que a narrativa e o tempo podem curar a loucura causada por trauma psicológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As Loucuras na Idade Média ==&lt;br /&gt;
A transição para a Idade Média é marcada pelo colapso do Império Romano do Ocidente (476 d.C.), que trouxe profundas transformações políticas e sociais. O fim do governo centralizado romano levou à fragmentação do poder e ao surgimento do sistema feudal, onde a administração das terras e a autoridade passaram para as mãos de senhores locais, muitos deles antigos oficiais romanos. Este período também é caracterizado por um notável declínio na vida urbana e nos grandes centros intelectuais. O colpaso das instituições romanas deu lugar à ascensão e consolidação da única instituição internacional grande e organizada que havia sobrado, a Igreja Católica, que se tornou a principal forma de organização política, social e cultural. Houve ainda uma perda gradual da tradição cultural greco-romana por diferentes razões e, consequentemente, um afastamento das explicações naturalistas de Hipócrates, com exceção do pequeno renascimento do século XII e retomadas pontuais da sabedoria grega. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a hegemonia da Igreja Católica, a loucura tendeu a ser novamente interpretada sob uma lente teológica, sendo vista como uma manifestação de forças sobrenaturais ou desvios morais. Nesse contexto, certas vezes a loucura era interpretada como a intervenção de Satanás ou como possessão demoníaca, exigindo rituais de exorcismo para a cura. Em outros momentos, era vista como uma prova espiritual enviada por Deus ou como um efeito direto do pecado na alma do indivíduo. Havia também explicações que a tratavam como uma fragilidade da vontade humana, como no caso do que chamaríamos hoje de compulsões, misturando elementos da antiga tradição grega com aspectos da teologia cristã. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Socialmente, a gestão da loucura na Idade Média também passou por diferentes fases e transformações, dependendo do local e da época. Havia casos em que os considerados loucos eram apenas torturados e trancafiados, métodos considerados eficazes para expulsão de espíritos malignos, por exemplo. Contudo, em muitos outros casos, os considerados loucos conviviam de forma mais ou menos harmoniosa com o resto da comunidade, a depender de suas capacidades e possibilidades, e certos “desvios” eram perdoados devido à sua condição peculiar, sem a necessidade imediata de uma exclusão radical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Nau dos Loucos ===&lt;br /&gt;
Um caso notável e emblemático da gestão da loucura nesse período é a [[Nau dos Loucos]] (&#039;&#039;Stultifera Navis&#039;&#039;), conforme trabalhado por [[Michel Foucault]]. Anteriormente ao modelo de exclusão-repressão que viria a se consolidar na Idade Clássica, a loucura viveu o que se pode chamar de seus &amp;quot;dias de glória&amp;quot; na transição para a Renascença. Nesse contexto, o louco poderia ser visto como um sábio, um místico, um tolo ou simplesmente um excêntrico que estava, de certa forma, integrado ao tecido social.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Nau dos Loucos, que circulavam no Vale do Rio Reno (partes da Alemanha, França Suíça e Países Baixos) simbolizava uma existência errante, onde o louco era confiado à água e ao navio para ser levado de uma cidade a outra, mantendo-o em um estado de exclusão simbólica, mas ainda assim em movimento e circulação. Para Foucault, essa experiência trágica da loucura permitia que o insano portasse uma forma de lucidez em sua insensatez, revelando verdades que a razão comum não ousava enunciar. O louco via através das ilusões mundanas, aproximando-se de uma verdade profética ou ética que seria progressivamente silenciada nos séculos seguintes pela ascensão do saber médico e da racionalidade científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Santa Dimpna e Geel ===&lt;br /&gt;
Outro acontecimento relevante da Idade Média para a compreensão da loucura é o episódio de [[Santa Dimpna]]. Nascida no século VII na Irlanda, ela era filha de um rei pagão e de uma mãe cristã devota, de quem herdou sua fé e pela qual decidiu fazer votos de castidade. Após a morte prematura da mãe, seu pai, mergulhado em um profundo luto, decidiu que Dimpna era a única mulher com beleza comparável à da falecida rainha e insistiu em se casar com a própria filha, o que seria considerado escandaloso também para aquela cultura. Horrorizada e e alvo de uma perseguição incestuosa, Dimpna fugiu da Irlanda acompanhada de seu confessor, o padre Gereberno, e de dois servos fiéis. O grupo cruzou o mar e estabeleceu-se em [[Geel]], um minúsculo vilarejo na atual Bélgica, onde Dimpna se dedicou ao cuidado dos pobres e doentes mentais. No entanto, o rei conseguiu encontrá-los e, após a recusa de Dimpna tanto em retornar para a Irlanda quanto se casar com o pai, ordenou a execução de Gereberno, enquanto ele mesmo decapitou a filha, tornando a menina de 15 anos de idade numa mártir cristã. Após sua morte, relatos de curas milagrosas de pessoas com distúrbios mentais e epilepsia começaram a ocorrer junto ao seu túmulo, o que a tornou a padroeira dos doentes mentais. Já o local converteu-se num espaço de peregrinação ligado à questão da saúde mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O legado de Santa Dimpna em Geel deu origem a um modelo para a psiquiatria moderna pois, devido à devoção e adoração à Santa Dimpna, a cidade transformou-se em um santuário onde os pacientes não eram trancafiados, mas acolhidos em lares de famílias locais como &amp;quot;hóspedes&amp;quot;. Esse sistema de cuidado comunitário e desinstitucionalização, que persiste há séculos, é considerado um dos precursores do tratamento humanizado e da reabilitação psicossocial na saúde mental contemporânea.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Idade Clássica: a nova era da loucura encarcerada ==&lt;br /&gt;
A partir do século XVII, um período em que o filósofo Michel Foucault denominou como &amp;quot;A Época Clássica&amp;quot;, a forma de entender e lidar com a loucura passa por uma nova mudança devido ao ingresso da razão como centro e alma do pensamento europeu, em substituição ao dogmatismo religioso e ao conhecimento da igreja. Esta mudança não é brusca, mas lenta e gradual, porém suas marcas serão duradouras e serão sentidas por quase toda a Europa. Para essa nova e nascente razão, a loucura seria seu oposto direto. Se o homem era definido pela sua capacidade racional e sua utilidade produtiva, o louco era, portanto, como um &amp;quot;não-homem&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a solução para a não-razão era a internação, que não buscava a cura, mas a neutralização do irracional. O silenciamento da loucura era necessário para que a ordem social pudesse florescer. Os campos e cidades deveriam ser espaços de circulação de mercadorias pelas mãos de cidadãos produtivos, e qualquer elemento que atrapalhasse essa dinâmica deveria ser guardado em instituições que funcionavam como uma guarda contra o risco social que tais pessoas ofereciam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Relatos da época descrevem cenários terríveis sobre as condições de internação dos loucos. Os internos eram frequentemente mantidos em celas úmidas e insalubres, muitas vezes acorrentados às paredes. O uso de chicotes e outras punições corporais era justificado pela crença de que o louco, por ter perdido a razão, teria a resistência física de um animal, não sentindo frio ou dor da mesma forma que uma pessoa &amp;quot;normal&amp;quot;. Além disso, as instituições funcionavam sob uma lógica de vigilância constante. Não se tratava de observar para entender a mente, mas para garantir que o corpo anormal permanecesse contido e, no máximo possível, docilizado. Foi dentro desse ambiente de absoluta degradação e mistura indiscriminada de diferentes &amp;quot;tipos&amp;quot; de desviantes que a consciência médica começou a germinar, ainda que de forma incipiente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== França ===&lt;br /&gt;
O ano de 1656 marca um divisor de águas simbólico para o modelo de confinamento asilar no mundo todo, com a criação do Hôpital Général (Hospital Geral) em Paris, por um edito real do rei Luís XIV. É importante entender que um hospital geral deste período não é como um hospital moderno, ou seja, uma instituição de saúde voltada para a compreensão da doença e a prática do tratamento e cura. Ele estava mais próximo de uma estrutura administrativa e, de certo modo, semi-judiciária. Isso ocorria porque o interesse não estava em “curar” ou “tratar” ninguém mas, antes disso, executar o interesse do Estado de &amp;quot;limpar&amp;quot; as ruas de Paris de tudo o que era considerado improdutivo ou escandaloso. Era um período de abundância material, grandes gastos estatais e de uma imensa riqueza do império colonial francês, e desvios nessa ordem eram vistos como perigosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes tais hospitais gerais eram confinados, todos juntos, grupos totalmente diferentes, tais como pobres, mendigos, desempregados, libertinos, prostitutas, alquimistas, opositores políticos e, claro, também os considerados loucos. Em suma, tratava-se de um depósito de indesejados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que começou em Paris se tornou um modelo para outros lugares sobre como fazer a gestão da miséria e da “desrazão”, num forte deslocamento do que se via na Idade Média, com muitas experiências de integração social. O louco, antes tendo algo de profético, místico ou talvez apenas uma excentricidade da vida medieval campesina, se torna uma questão político-administrativa. Essa mudança importante marca uma migração para a possibilidade de institucionalização daquilo que era considerado errante ou, de alguma forma, desagradável e, assim passível de ser alvo de uma forma de gestão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em Paris, as duas principais unidades do Hospital Geral se tornaram emblemáticas e simbólicas. A [[Salpêtrière]], que era destinada às mulheres, e o hospital [[Bicêtre]], destinado aos homens. Ambas as instituições não ofereciam qualquer forma de tratamento. Eram basicamente depósitos humanos, onde o louco poderia acabar acorrentado ao lado de criminosos, por exemplo. O critério de internação não era o diagnóstico clínico, mesmo porque simplesmente ele nem existia, mas a incapacidade de se ajustar às normas de trabalho e à moralidade da época.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Alemanha ===&lt;br /&gt;
Na Alemanha, com a ideia de que o ócio era inaceitável, as leis determinavam o trancafiamento de qualquer pessoas considerada louca, perigosa e incapacitada para o trabalho. Nesse contexto, surgiram as &#039;&#039;Zuchthäusern&#039;&#039;, que seriam as [[Casas de Correção (Zuchthäusern)|Casas de Correção]]. Cidades como Hamburgo e Bremen estabeleceram esses locais onde a loucura era tratada através do trabalho forçado. Eles acreditavam que o ócio era a raiz do mal e que o confinamento e o trabalho forçado eram úteis para reintegrar o indivíduo à lógica da produtividade. Para os loucos, acreditava-se que o trabalho mecânico, repetitivo e exaustivo tinha o poder de &amp;quot;disciplinar a mente animalizada&amp;quot;, submetendo a vontade rebelde ou caótica do insano à razão e à ordem. Não era um trabalho, contudo, inútil, pois esta mão de obra foi utilizada até mesmo na produção de uniformes militares. Os loucos considerados totalmente impossíveis de docilizar eram simplesmente trancafiados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Inglaterra ===&lt;br /&gt;
Na Inglaterra, o sistema das Workhouses (Casas de Trabalho) cumpria um papel semelhante ao modelo alemão. No entanto, Londres já possuía o [[Bethlem Royal Hospital (Bedlam)|Bethlem Royal Hospital]], conhecido popularmente como Bedlam. No século XVII e XVIII, Bedlam se tornou um espetáculo de horror, onde o público podia pagar para observar os internos como se fossem animais em um zoológico. A loucura agora um objeto de uma forma de exibição degradante e mantida atrás de grades e ferros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Portugal ===&lt;br /&gt;
Em Portugal a gestão dos &amp;quot;desviantes&amp;quot; recaiu fortemente sobre as Santas Casas da Misericórdia. O [[Hospital Real de Todos-os-Santos]], fundado em Lisboa em 1492 e inaugurado em 1501, se tornou o epicentro do tratamento (ou confinamento) dos loucos no país. Dentro deste hospital, existiam as chamadas &amp;quot;[[Casas de Doidos]]&amp;quot;, destinados àqueles que haviam “perdido a luz da razão”. Seguindo o padrão europeu, o hospital não separava rigidamente o louco por diagnóstico. Eles dividiam espaço com indigentes e enfermos de diversas naturezas, embora as &amp;quot;casas de doidos&amp;quot; fossem áreas de maior isolamento devido à agitação dos internos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XVIII português, a internação era, acima de tudo, uma solução para a mendicância e, por vezes, para o alcoolismo. O louco oriundo de uma família com posses era mantido nas próprias casas, muitas vezes escondido em sótãos ou anexos e até mesmo acorrentados. Já o &amp;quot;louco pobre&amp;quot;, que não poderiam ser cuidados por seus familiares, acabava nos hospitais reais ou mesmo nas cadeias, a depender de uma série de fatores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Nascimento da Psiquiatria ==&lt;br /&gt;
=== Pinel e a criação da psiquiatria nosográfica ===&lt;br /&gt;
É na virada do século XVIII para o XIX que nasce a psiquiatria como um campo autônomo do saber e da prática médica. Esta mudança fundamental é protagonizada por duas figuras centrais da medicina francesa: [[Philippe Pinel]] e seu discípulo, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]]. Juntos, eles transformaram o hospital de depósito de insanos e indesejáveis em um verdadeiro hospital, em que o louco e o alienado poderiam receber um tratamento racional e científico, em substituição às correntes, à disciplina e ao silenciamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A emergência da psiquiatria como campo autônomo teve como fundamento científico inicial a observação clínica sistemática dentro do asilo. Este era concebido como um laboratório, onde o alienista poderia estudar a loucura em seu estado puro, separada das influências do mundo exterior. A principal questão científica e prática que justificava essa nova ciência era desenvolvida e aplicada de forma sistemática, e denominava-se nosografia ou diagnóstico. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pinel, em seu [[Index.php?title=Traité médique-philosophique sur l&#039;aliénation mentale, ou la manie|Traité médique-philosophique sur l&#039;aliénation mentale, ou la manie]], de 1801, classificou a loucura com base em critérios sintomatológicos, seguindo um procedimento comparativo semelhante ao das ciências naturais. O desafio central, que persistiria ao longo do século XIX, era a ambiguidade constante entre a busca por uma sede orgânica, ou seja, um “local físico-biológico” da loucura, junto da necessidade de uma regulação de caráter moral. O tratamento apoiava-se na moralidade para combater as causas que eram, elas próprias, consideradas morais, mas algo estava também no corpo do doente. Isso mostra que a nova psiquiatria de Pinel era a mistura de medicina com moralidade. Este enfoque resultou na valorização do exame clínico pelos psiquiatras francófonos, permitindo a união da observação clínica com a formulação de hipóteses.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1793, em meio ao fervor da Revolução Francesa, Philippe Pinel foi nomeado médico-chefe do Hospital de Bicêtre e, posteriormente, da Salpêtrière. O cenário que encontrou era o ápice do &amp;quot;Grande Enclausuramento&amp;quot;, ou seja, homens e mulheres amontoados nas condições já descritas, com destaque para as correntes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A intervenção de Pinel, simbolizada pelo gesto de “libertar os loucos de suas correntes”, não foi apenas um ato humanitário, mas também uma decisão de natureza epistemológica. Pinel acreditava que a loucura não era uma possessão demoníaca nem uma degeneração animal irreversível, mas uma alienação mental ou, em outras palavras, uma perturbação das faculdades intelectuais e afetivas que mantinha o indivíduo como se fosse &amp;quot;estrangeiro&amp;quot;, ou alienado, de si mesmo e da sociedade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O centro da reforma psiquiátrica proposta por Pinel era o tratamento moral, e se baseava em três pilares fundamentais. O primeiro, o isolamento terapêutico. Era necessário que o paciente ficasse separado de seu ambiente que, segundo o médico, era a fonte de sua excitação e desequilíbrio. O segundo pilar era a autoridade médica, onde este deveria atuar como um pai ao mesmo tempo severo e justo, usando a persuasão, a benevolência e, se fosse necessário, a firmeza para restaurar a razão do paciente. Por fim, a disciplina e o trabalho, com a aplicação rigorosa de horários e valorização de atividades produtivas, o que ocuparia a mente alienada e, assim, combateria a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em seus estudos, Pinel identificou quatro tipos de loucura, quais sejam, a [[melancolia]], a [[mania]], a [[demência]] e a [[idiotia]], cada uma com suas questões próprias específicas e metodologias de tratamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Esquirol e a consolidação do modelo ===&lt;br /&gt;
Se Pinel era considerado o visionário e o libertador, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]] foi o grande organizador e o clínico meticuloso. Discípulo de Pinel, Esquirol sucedeu seu mestre na Salpêtrière e deu à psiquiatria a robustez científica e administrativa de que ela necessitava. Esquirol compreendeu que a eficácia do tratamento moral dependia da arquitetura hospitalar. Para ele, o hospital não era apenas um prédio onde ocorria o tratamento, mas também um instrumento de cura. Ele desenvolveu o modelo de pavilhões, permitindo a separação dos pacientes por tipo de patologia, o que reforçou a própria ideia de diagnóstico e de avaliação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Esquirol refinou as definições clínicas de Pinel. Foi ele quem estabeleceu a distinção clássica entre alucinação (uma percepção sem objeto) e ilusão (uma percepção deformada de um objeto real), entre outros pontos que, na sua época, foram considerados avanços exemplares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Legalização da Alienação ===&lt;br /&gt;
O esforço médico, político e administrativo de Esquirol na continuação do trabalho de Pinel culminou na promulgação da lei francesa de 30 de Junho de 1838, a primeira grande legislação psiquiátrica do mundo moderno. Esta lei estabeleceu a obrigatoriedade de cada departamento francês possuir um asilo e regulamentou as condições de internação e interdição. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A princípio, embora também protegesse o alienado do arbítrio e de outras violências que poderiam ser cometidos contra os loucos nas províncias e mesmo nas periferias de Paris, a lei também deu total poder ao médico psiquiatra. Era ele quem poderia decidir quem deveria ou não ser privado de sua liberdade. Com isso, a psiquiatria tornava-se, assim, um braço do Estado na gestão da ordem social mas, ao contrário do polícia e do inquérito polícial, que exigia provas independentes e a atuação do sistema judiciário, o psiquiatra estava coberto sob o manto da ciência médica, o que dava a ele poderes gigantescos de decidir entre a alienação e a razão. Isso marcou profundamente a forma como a loucura e a saúde mental passaram a ser compreendidas e tratadas nas décadas seguintes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Emil Kraepelin e uma Nova Racionalização ===&lt;br /&gt;
Apesar da forte valorização da psiquiatria francesa na constituição da psiquiatria contemporânea, uma das principais contribuições para o ramo em sua forma atual foi empreendida por um alemão, [[Emil Kraepelin]]. No final do século XIX, a psiquiatria alemã estava dividida entre os &amp;quot;psiquistas&amp;quot;, que viam a loucura como uma doença da alma ou um mal moral, a exemplo dos franceses; e os &amp;quot;somatistas&amp;quot;, que buscavam no cérebro a origem dos sintomas das doenças mentais. Kraepelin superou esse impasse ao focar não na anatomia, mas na evolução temporal das doenças. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin passou a entender que sintomas isolados, como ouvir vozes ou acreditar ser uma personalidade histórica, não eram suficientes para definir uma doença, mas seu desenvolvimento ao longo do tempo. Com essa premissa em mãos, Kraepelin introduziu as &amp;quot;cartas diagnósticas&amp;quot; (&#039;&#039;Zählkarten&#039;&#039;), um sistema de fichamento padronizado onde se registrava a história de vida do paciente, seus antecedentes familiares, os sintomas detalhados e, por fim, o desfecho da doença. Isso transformou a clínica psiquiátrica, pois articulava neuroanatomia e psicologia experimental, já que ele fora aluno de [[Wilhelm Wundt|Wundt]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin também é considerado o pioneiro da [[Psiquiatria Transcultural]]. Visando provar que as categorias diagnósticas psiquiátricas seriam universais, ele viajou para lugares como a ilha de Java (Indonésia) em 1904 para estudar a manifestação da loucura em populações não europeias. Ele concluiu que, ainda que os conteúdos dos delírios mudassem conforme a cultura, a estrutura fundamental da loucura permanecia a mesma, o que reforçou sua tese de que eram doenças biológicas da espécie humana. Apesar disso, no final de sua vida ele se transformou um higienista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O I Congresso Internacional de Psiquiatria ===&lt;br /&gt;
Realizado em Paris em agosto de 1950, o [[I Congresso Internacional de Psiquiatria]] foi projetado especificamente para unificar, debater e institucionalizar a psiquiatria como uma disciplina médica global e autônoma. Durante o Congresso foram colocados, frente a frente, as grandes correntes que disputavam a hegemonia do entendimento da mente humana na época, a saber, as correntes psicodinâmica e a biológica. De forma menor, uma corrente social e anti-manicomial também se fez presente. O resultado do embate foi uma conciliação entre as duas maiores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um dos resultados do Congresso de 1950 foi a pressão para que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Associação Psiquiátrica Americana (APA) criassem manuais estatísticos e classificatórios unificados, o que resultou na inserção de uma seção robusta de transtornos mentais na CID-6 (Classificação Internacional de Doenças) e na publicação do primeiro [[DSM]], em 1952.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro resultado importante do evento foi a fundação da Associação Mundial de Psiquiatria ([[World Psychiatric Association (WPA)|World Psychiatric Association - WPA]]). Com isso, a psiquiatria deixou de ser um conjunto de escolas nacionais isoladas, como as escolas francesa, alemã, anglo-saxã, entre outras, para se tornar uma corporação científica internacional, com congressos periódicos, periódicos indexados e diretrizes globais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Loucura no Brasil ==&lt;br /&gt;
Até o início do século XIX, o Brasil colonial lidava com seus insanos de forma semelhante ao que ocorria na Europa. As famílias ricas mantinham seus parentes loucos em &amp;quot;quartos fortes&amp;quot;, privando-os mais ou menos da vida comunitária e familiar, a depender das circunstâncias, de forma semelhante ao que acontecia em Portugal. Já os pobres eram entregues à caridade das [[Santas Casas de Misericórdia]] ou vagavam pelas ruas, sendo ocasionalmente recolhidos a cadeias públicas quando perturbavam a ordem, indo e vindo das frágeis instituições brasileiras, sofrendo abusos e violências de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A transferência da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 gerou a necessidade de transformar a capital colonial em uma moderna metrópole europeia. Sob a influência do Iluminismo tardio e das notícias que chegavam sobre as reformas de Pinel na França, a elite médica brasileira, que havia estudado sobretudo na França e em Portugal, começou a pressionar o poder público pela criação de espaços específicos para o tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1830, a criação da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (que viria a ser a [[Academia Nacional de Medicina]]) foi o marco institucional dessa pressão. Esse movimento político funcionou. O momento decisivo ocorreu em 18 de julho de 1841, quando o Imperador D. Pedro II, em comemoração à sua coroação, assinou o decreto de fundação do primeiro hospital psiquiátrico do Brasil e da América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Hospício de Pedro II, ou o Palácio dos Loucos (1852–1889) ===&lt;br /&gt;
Inaugurado apenas em 8 de dezembro de 1852, o [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)|Hospício de Pedro II]] era gerido pela Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, que por anos geriu grande parte da loucura brasileira. Seu provedor era o médico [[José Clemente Pereira]], que era responsável por todos os aspectos da instituição, desde os médicos até os administrativos. Embora a gestão administrativa fosse religiosa, o saber médico tinha muito espaço, com nomes como [[Manoel Feliciano Pereira de Carvalho]], que tentaram implementar o &amp;quot;tratamento moral&amp;quot; inspirado em Esquirol. Apesar dos esforços, muitos relatos de abusos e de condições precárias mostravam a dificuldade em implementar um modelo brasileiro de tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a Proclamação da República em 1889, o Hospício de Pedro II foi desvinculado da Santa Casa e renomeado como [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)]]. Este foi um período de maior laicização e pela busca por um maior rigor científico, o que não aconteceu por completo, em grande parte devido à falta de profissionais adequadamente treinados para a questão. Apesar disso, o Brasil já possuía uma cátedra de psiquiatria desde 1883, ocupada por João Carlos Teixeira Brandão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diante dos altíssimos custos em manter o Hospital, surgem as colônias agrícolas como alternativa ao confinamento urbano. Em 1884, já havia sido inaugurada a [[Colônia de São Bento]] e, em 1890, a [[Colônia de Conde de Mesquita]], na Ilha do Governador. A ideia era que o trabalho na terra poderia colaborar na cura, além de os produtos deste trabalho poderiam ser consumidos no local, ajudando na manutenção dos espaços. Apesar dessas transformações e de evidentes melhorias, os relatos de época mostram que não acontecia nenhuma das duas coisas, nem produção agrícola suficiente, nem um processo terapêutico efetivo, mas entendia-se que a colônia agrícola era melhor do que o confinamento do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Era Juliano Moreira ===&lt;br /&gt;
Em 1903, o médico baiano [[Juliano Moreira]] assume a direção do Hospital Nacional de Alienados. Negro, de origem humilde e dotado de uma erudição impressionante, ele revolucionou a assistência brasileira aos alienados, sendo reconhecido internacionalmente como um dos grandes psiquiatras de seu tempo. Ele se tornaria o principal médico alienista do Brasil, tornando-se referência para todo o país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Moreira aboliu definitivamente o uso de camisas de força e as grades nas janelas, num gesto que se assemelhava àquele de Pinel, enfatizando que o hospital era um local de tratamento e cura, e não uma prisão ou um depósito de indesejados. Além disso, ele trouxe para o Brasil a nosologia de Emil Kraepelin, um psiquiatra alemão considerado o pai da psiquiatria moderna, da psicofarmacologia e da genética psiquiátrica, o que seria uma modernização do modelo francês adotado até então. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a gestão Moreira ocorreram várias mudanças. Foi criado o [[Pavilhão Bourneville]] para crianças com deficiência intelectual. Além disso, fundou-se em 1921 o [[Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro]], o primeiro do país, sob a liderança de [[Heitor Carrilho]]. Dentro dos hospitais incentivou-se a pesquisa laboratorial e anátomo-patológica, o que também abriu espaço para a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A influência e o prestígio de Juliano Moreira se espalhou pelo Brasil. Em São Paulo, destacou-se a figura de [[Franco da Rocha|Francisco Franco da Rocha]], que fundou em 1898 o [[Hospital do Juquery]]. O Juquery, como ficou conhecido, tornou-se uma &amp;quot;cidade-asilo&amp;quot;, chegando a abrigar dezenas de milhares de pacientes em um modelo que mesclava pavilhôes médicos com imensas colônias agrícolas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste período, a psiquiatria brasileira flertou intensamente com as teorias da degenerescência (de Morel e Magnan) e com a eugenia. Médicos como [[Renato Kehl]], bem como a criação da [[Liga Brasileira de Higiene Mental]] (1923), uma organização higienista fundada por [[Gustavo Riedel]], começaram a ver a loucura não apenas como um problema individual, mas como um risco biológico à raça brasileira. A higiene mental passou a atuar preventivamente em escolas e fábricas, buscando identificar &amp;quot;pré-delinquentes&amp;quot; e &amp;quot;personalidades anormais&amp;quot;. Apesar de não ter conseguido desenvolver muitas políticas efetivas, os eugenistas brasileiros eram ativos e influentes em muitos círculos decisórios importantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A criação de hospitais não se limitou a São Paulo e Rio de Janeiro. Em  1903, o governo de Minas Gerais fundou o [[Hospital Psiquiátrico de Barbacena]], que mais tarde seria palco de uma das maiores tragédias humanitárias do país. Em Pernambuco, o [[Hospital Ulysses Pernambucano]] foi fundado pelo médico de mesmo nome, que começou a desenvolver uma psiquiatria mais voltada para o social e para a prevenção no final dos anos 1920. Hospitais na Bahia, Rio Grande do Sul, entre outros, também foram criados, seguindo o pioneirismo do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Era Vargas e além: o início do encarceramento ===&lt;br /&gt;
Com a Revolução de 1930, o projeto de nação de Vargas exigia um povo saudável e produtivo, devido à visão desenvolvimentista suportada pela Aliança Liberal, que o elegeu. A loucura deixou de ser apenas uma questão de ordem pública ou um aspecto da caridade para se tornar um problema de segurança nacional e de saúde pública. Em 1941, no âmbito do Estado Novo, foi criado o [[Serviço Nacional de Doenças Mentais (SNDM)]], substituindo o antigo modelo de assistência a alienados, que era fragmentado nas diferentes províncias. Dessa maneira, Vargas criou uma diretriz federal centralizada para a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a Liga Brasileira de Higiene Mental ganhou fôlego. O foco deslocou-se do hospital para a prevenção na sociedade. A psiquiatria não deveria se limitar aos hospitais, mas também atuar na escola, na fábrica e na família, buscando limpar a nação e extirpar o que chamavam de &amp;quot;elementos degenerados&amp;quot;. O médico Gustavo Riedel e seus sucessores defendiam que o Estado deveria intervir precocemente para evitar que o &amp;quot;anormal&amp;quot; se tornasse um fardo para a máquina pública.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi durante as décadas de 1930 e 1940 que o modelo de colônia agrícola, antes visto como terapêutico e de assistência à manutenção hospitalar, atingiu proporções industriais. O que se viu em Barbacena e em instituições como o Juquery em São Paulo, foi a transformação do hospital em, praticamente, um campo de concentração administrativo. A internação não dependia mais de um diagnóstico médico rigoroso, que na prática ainda era frágil e baseado em elementos pouco científicos. Bastava ser considerado &amp;quot;socialmente inconveniente&amp;quot; para correr-se o risco de ir parar numa instituições dessas. Assim, pobres, prostitutas, homossexuais, militantes políticos e mães solteiras eram enviados para essas instituições, onde a sobrevivência era a exceção. Estima-se que, no auge do descaso, o Hospital de Barbacena registrava um número alarmante de óbitos por frio, fome e doenças evitáveis, cujos corpos eram, por vezes, vendidos para faculdades de medicina. Situações similares aconteciam em outras instituições do tipo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tratamentos Brutais e os Modos de Resistência ===&lt;br /&gt;
Para além do horror asilar, o período entre 1930 e 1950 também foi marcado pela introdução de terapias biológicas drásticas, importadas da Europa, conhecidas como [[somatoterapias]]. Com uma psicofarmacologia pouco eficaz, os médicos buscavam &amp;quot;chacoalhar&amp;quot; o organismo, produzindo nele como um choque que pudesse restaurar a razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma dessas técnicas era a [[insulinoterapia]]. Introduzida na Europa pelo médico austríaco Manfred Sakel (1900–1957) em Viena, no início dos anos 1930, representou uma das primeiras e mais invasivas formas de somatoterapia. Originalmente destinada ao tratamento da [[esquizofrenia]], a técnica consistia na administração de doses maciças de insulina no paciente, provocando um estado de hipoglicemia profunda que levava o paciente ao coma. Na volta desse estado, se esperava que o indivíduo “restaurasse” a razão por conta do choque orgânico violento que havia vivenciado. O procedimento era extremamente perigoso e estava associado a uma alta taxa de mortalidade e morbidade devido às convulsões e aos possíveis danos cerebrais. Apesar dos riscos, o método foi amplamente adotado no mundo todo, incluindo o Brasil, onde foi usado em grandes instituições de confinamento, como o Hospital Nacional de Alienados (HNA), no Hospital Juquery, entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que passou a ser muito utilizada foi a [[Eletroconvulsoterapia]], ou simplesmente o eletrochoque. Introduzido no Brasil logo após sua invenção na Itália (1938), consiste em colocar eletrodos carregados com correntes elétricas em lados opostos, na lateral da cabeça, de modo que uma forte corrente elétrica atravessasse o cérebro. A duração e a intensidade podiam variar, mas relatos de mais de trinta minutos de choques violentos não eram incomuns. Sua brutalidade era tamanha que exigia que sua vítima fosse fortemente amarrada. Tornou-se uma ferramenta onipresente nos hospitais, muitas vezes aplicada sem anestesia e como método de punição, desvirtuando sua finalidade clínica já questionável e usada, basicamente, como ferramenta de tortura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que ingressou no Brasil nesse período foi a [[lobotomia]], um procedimento cirúrgico que consistia em apenas retirar um pedaço do cérebro do paciente. Eles foram realizados em larga escala em hospitais como o Juquery e no Hospital Pedro II, buscando a docilização de pacientes crônicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em oposição à violência do isolamento oferecido por essas instituições, surge a figura de [[Nise da Silveira]]. Em 1946, após ter sido presa pelo regime de Vargas por suas inclinações políticas, Nise assumiu o Setor de Terapêutica Ocupacional do [[Centro Psiquiátrico Nacional]] (Engenho de Dentro), no Rio de Janeiro. Ela se recusou a usar eletrochoques e lobotomias, introduzindo a arte e o afeto como mediadores da cura. Ela fundou o [[Museu de Imagens do Inconsciente (MIS)|Museu de Imagens do Inconsciente]] em 1952, onde demonstrou, através das pinturas e esculturas de pacientes como [[Arthur Bispo do Rosario]], que o louco preservava uma riqueza simbólica e uma humanidade que a psiquiatria tradicional tentava apagar. Sua colaboração com [[Carl Jung]] colocou a experiência brasileira no mapa da psicologia analítica mundial, provando que o tratamento em liberdade e através da expressão criativa era viável.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Criação da Indústria da Loucura ===&lt;br /&gt;
No final da década de 1950 e início da de 1960, durante o governo de Juscelino Kubitschek e o breve período democrático posterior, o Brasil viu o surgimento de uma nova e ainda mais perversa dinâmica: a Indústria da Loucura. A assistência psiquiátrica, antes quase totalmente pública ou baseada no assistencialismo das Santas Casas, começou a ser privatizada. Com o crescimento dos institutos de previdência (IAPs), o Estado passou a pagar hospitais privados por dia de internação. Isso criou um incentivo perverso: quanto mais tempo o paciente ficasse internado e quanto menos recursos fossem gastos com ele, maior o lucro das clínicas privadas. Esse modelo, conhecido como &amp;quot;hospitalocêntrico&amp;quot;, inchou o sistema e preparou o terreno para a política de contenção social que seria radicalizada após o golpe de 1964. Foi um momento de multiplicação da brutalidade. Pouco importava a loucura ou não, o tratamento ou não, a eficácia ou não. O que importava era lucar com o dinheiro estatal por meio de um encarceramento fácil de impor e praticamente impossível de escapar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A coisa se aprofundou ainda mais com o golpe militar, que unificou em 1966 os Institutos de Aposentadoria e Pensões no INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), produzindo uma centralização gigantesca de recursos, com um modelo de privatização quase total. A psiquiatria, por ser uma especialidade cuja formação exigia baixo investimento tecnológico quando comparada a outras como a cirurgia, cardiologia ou oncologia, permitia grandes lucros com as internações de longa permanência. Assim, trancafiar e atormentar os loucos tornou-se o setor mais atraente para o empresariado da saúde.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de pessoas possivelmente diagnosticadas, o sistema era alimentado pelo encarceramento de militantes políticos, estudantes rebeldes, pessoas em situação de rua,  mendigos, homossexuais, indivíduos com comportamentos &amp;quot;desviantes&amp;quot; da moral tradicional, dependentes químicos, alcoólatras ou mesmo pessoas “problemáticas” da família, que se recusavam, por exemplo, a participar de casamentos arranjados, que denunciavam violência sexual sofrida ou eram apenas mulheres que haviam engravidado antes do casamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As instituições privadas multiplicaram-se pelo interior do país, longe dos olhos da fiscalização e dos centros urbanos. Instaladas em locais de difícil acesso, facilitava o ocultamento de violações de direitos humanos e ainda utilizava da conivência dos governos locais. As populações dessas localidades, crentes no saber médico, dificilmente desconfiavam do que poderia acontecer dentro dessas instituições e, quando vazavam denúncias, elas rapidamente podiam ser facilmente manejadas em conluio com os poderes locais. A loucura tornou-se um negócio de massa, com o abrigo precário de centenas de pessoas em galpões, onde a única &amp;quot;terapia&amp;quot; era a contenção química por sedativos baratos ou o uso indiscriminado do eletrochoque para manter a ordem além, é claro, da violência e brutalidade de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Luta Antimanicomial ==&lt;br /&gt;
No final da década de 1970, o modelo de saúde mental começou a dar sinais de exaustão, tanto financeira quanto ética. O Estado já não conseguia arcar com os custos crescentes de um sistema que só expandia o número de crônicos, e as denúncias de maus-tratos começaram a furar o bloqueio da censura, aparecendo em jornais mais prestigiados e em espaços mais amplos do debate social. O estopim para a o início do movimento da reforma psiquiátrica no Brasil começa com uma crise na [[Divisão Nacional de Saúde Mental (DINSAM)]], que havia recebido denúncias de irregularidades no Centro Psiquiátrico Pedro II, no [[Hospital Pinel]], na [[Colônia Juliano Moreira]] e no [[Manicômio Judiciário Heitor Carrilho]]. A denúncia foi acompanhada de uma greve por parte dos funcionários, que exigiam melhorias institucionais e questionavam irregularidades trabalhistas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É dessa crise que surge o [[Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM)]] que, nesse primeiro momento, estão mais preocupados com questões trabalhistas do que com o problema da própria prática psiquiátrica, que vai caracterizar parte dos movimentos antimanicomiais posteriormente. O MTSM se fortalece e consegue espaço no extremamente conservador [[V Congresso Brasileiro de Psiquiatria]], que ocorre em 1978, no que fica conhecido como “congresso da abertura”, num período também de abertura política com o iminente fim do regime militar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda em 1978, um grupo importante de intelectuais vinculados às bases teóricas do [[Movimento Antimanicomial]] participa do [[I Congresso Brasileiro de Psicanálise de Grupos e Instituições]], incluindo [[Franco Basaglia]], [[Felix Guattari]], [[Robert Castel]] e [[Erwin Goffman]], todos eles de grande inspiração e influência para o movimento antimanicomial brasileiro. No ano seguinte, o [[I Congresso Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental]] fortalece a contextação não apenas de problemas trabalhistas, mas do próprio modelo asilar e da forma como a psiquiatria intervinha e oprimia a população marginalizada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação público-privada que alimentava o modelo até então começa a ruir em 1980, com a chamada política da co-gestão interministerial. Nela, um convênio celebrado entre o Ministério da Previdência e Assistência Social com o Ministério da Saúde liquida a &amp;quot;Unidade de Serviço&amp;quot;, a política que permitia a contratação privada de serviços psiquiátricos e que representou o triunfo do público sobre o privado. Membros do MTSM passam a integrar a gestão do atendimento em saúde mental que, por dentro do aparato estatal, começam a implementar uma política de saúde pública baseada em prestação de serviços, cooperação, descentralização e regionalização, propostas que já eram defendidas pelos reformadores. Apesar desses avanços, críticos afirmam que a política de co-gestão apenas visava reformar os serviços, não atingindo o âmago da questão, que seria desconstruir o próprio paradigma psiquiátrico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo de desinstitucionalização de fato começa em 1985, ano marcado pelo fim da Ditadura Militar e pela realização de vários eventos que aprofundam o debate sobre a situação do atendimento. A [[I Conferência Nacional de Saúde Mental]] marca o início da desinstitucionalização devido aos conflitos entre o MTSM, a ABP e grupos não-organicistas que passaram a dirigir o DINSAM. Na conferência, consagrou-se uma reviravolta na perspectiva com a consolidação do lema &amp;quot;por uma sociedade sem manicômios&amp;quot;, rompendo com a lógica tanto privatista quanto estatista e questionando o próprio modelo psiquiátrico tradicional. Este passou a ser amplamente entendido como fenômeno cultural que promove o tratamento moral e o controle dos corpos, uma visão abertamente basagliana e antimanicomial. Alguns entendem que, nesse momento, a tradição anti-institucional que originou os primeiros questionamentos na década de 1970 foi restaurada e fortalecida. Após a Conferência, o próprio MTSM se renovou, se desatrelando do Estado, retomando sua independência e seu papel de transformação social.  A mudança do movimento se consolidou no [[II Congresso Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental]], quando a noção de racionalização e modernização dos serviços que havia caracterizado o período da co-gestão foi recusado em nome de uma pauta anti-institucional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em meados dos anos 1980 começam a surgir novos modelos de atenção à saúde que poderia substituir o modelo psiquiátrico. Em São Paulo é criado o primeiro [[Centro de Atenção Psicossocial (CAPS)]], em 1987. Em Santos, surge o [[Núcleo de Atenção Psicossocial (NAPS)]], em 1989. Estes serviços passaram a ser vistos como os modelos para uma contestação profunda dos manicômios, justificando seu encerramento. Já na década de 1990, o SUS introduziu mecanismos de fiscalização e auditoria que começaram a sufocar financeiramente os asilos privados que não cumpriam níveis mínimos de dignidade. Portarias históricas do Ministério da Saúde, inspiradas na [[Declaração de Caracas (1990)]], passaram a proibir a criação de novos leitos psiquiátricos asilares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após mais de uma década de tramitação e intensos debates no Congresso Nacional, como fruto dos embates históricos iniciados na crise do DINSAM e que atravessaram debates públicos extremamente imporantes, foi promulgada a Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001, que ficou conhecida como [[Lei da Reforma Psiquiátrica]] ou Lei Paulo Delgado, seu autor. Esta legislação se tornou o marco jurídico definitivo da virada assistencial no Brasil. A lei instituiu o direito do paciente de ser tratado em ambiente terapêutico o menos restritivo possível e colocou a internação psiquiátrica como último recurso possível. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para preencher o vazio deixado pelo fechamento dos grandes hospitais, o SUS estruturou a [[Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)]], formalizada na década seguinte pela Portaria nº 3.088 de 2011. A RAPS organizou o cuidado em diferentes níveis de complexidade, com os CAPS divididos nas modalidades CAPS I, II, III, CAPSi  e CAPS AD e, por fim, os [[Serviços de Residência Terapêutica (SRT)]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, a luta continua devido a retrocessos observados na segunda metade da década de 2010 e início dos anos 2020. Mudanças nas diretrizes da Política Nacional de Saúde Mental tentaram reintroduzir a centralidade do hospital psiquiátrico e incentivaram o uso de práticas baseadas no isolamento. Além disso, o governo federal passou a financiar massivamente as chamadas [[Comunidades Terapêuticas]], instituições de caráter predominantemente privado e religioso voltadas ao acolhimento de usuários de drogas, de onde emanam graves denúncias de todos os tipos de violação dos direitos humanos e que representam um evidente retrocesso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje, o campo da saúde mental no Brasil vive um embate profundo entre duas visões. De um lado, aqueles que lutam pela consolidação da RAPS, em defesa da clínica da subjetividade, da defesa dos direitos humanos, pela redução de danos e pela inserção social pelo trabalho e pela cultura. Do outro lado observa-se a persistência do &#039;&#039;lobby&#039;&#039; asilar e de setores que buscam a mercantilização do cuidado, por meio do encarceramento, da medicalização extrema do sofrimento psíquico, da higienização dos centros urbanos e do recolhimento dos indesejáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
ARBEX, Daniela. &#039;&#039;&#039;Holocausto brasileiro&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Geração Editorial, 2013.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BASAGLIA, Franco. &#039;&#039;&#039;A instituição negada&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Graal, 1985.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BIRMAN, Joel. &#039;&#039;&#039;A physis da arte&#039;&#039;&#039;: Deleuze e a clínica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CAMPOS, Gastão Wagner de Sousa. &#039;&#039;&#039;Tratado de saúde coletiva&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Hucitec, 2006. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CASTEL, Robert. &#039;&#039;&#039;A ordem psiquiátrica&#039;&#039;&#039;: a idade de ouro do alienismo. Rio de Janeiro: Graal, 1978.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
COSTA, Jurandir Freire. &#039;&#039;&#039;Violência e psicanálise&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Graal, 1986.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
COSTA, Jurandir Freire. &#039;&#039;&#039;História da assistência psiquiátrica no Brasil&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Garamond, 2007. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
DALGALARRONDO, Paulo. &#039;&#039;&#039;Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais&#039;&#039;&#039;. Porto Alegre: Artmed, 2018. &lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1697</id>
		<title>História da loucura: da Grécia antiga à luta anti-manicomial</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1697"/>
		<updated>2026-07-03T22:47:33Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* Alemanha */ Várias modificações substanciais&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto com finalidade didática, escrito por André Elias Morelli Ribeiro para o curso de Psicologia do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras. Seu uso é aberto, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Introdução ==&lt;br /&gt;
A história da loucura é, ao mesmo tempo, uma narrativa sobre o modo como diferentes sociedades compreenderam a mente humana e uma reflexão sobre os mecanismos de poder que moldaram práticas de exclusão, cuidado e resistência vinculados às diferentes formas que diferentes grupos humanos entenderam como loucura ou algo similar, conforme uma visão ampliada contemporânea. Este material inicia na Grécia antiga e chega até o movimento antimanicomial no Brasil e, ao longo deste trajeto, pode-se observar como a loucura foi interpretada ora como intervenção divina, ora como desvio moral, ora como doença fisiológica, ora como ameaça social. Cada época construiu suas próprias respostas àquilo que considerou loucura que variaram entre a integração comunitária, o confinamento, o tratamento brutal e a busca por tratamentos médicos ou espirituais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, a trajetória seguiu de perto os modelos europeus. Do Hospício de Pedro II às colônias agrícolas, passando pela gestão de Juliano Moreira, a psiquiatria nacional oscilou entre avanços humanitários e práticas de exclusão. O período Vargas e o Estado Novo intensificaram o encarceramento, transformando hospitais em verdadeiros campos de concentração administrativos. As décadas seguintes viram a adoção de terapias brutais, como eletrochoques e lobotomias, mas também o surgimento de movimentos de resistência, como o trabalho de Nise da Silveira, que introduziu a arte e o afeto como caminhos de cura, ou a emergência de questionamentos ao modelo psiquátrico manicomial. A partir dos anos 1960, a privatização da assistência psiquiátrica gerou a chamada “Indústria da Loucura”, marcada por internações lucrativas e violações sistemáticas de direitos humanos que marcaram profundamente a forma como se entende a loucura contemporaneamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em síntese, o percurso histórico apresentado aqui mostra que a loucura nunca foi apenas um fenômeno clínico mas, antes, um espelho das sociedades, revelando seus medos, suas crenças e suas formas de organizar o convívio humano. De sagrada a temida, de medicalizada a mercantilizada, apresenta-se e se discute como surgiram vozes e práticas que reivindicaram humanidade e liberdade para os considerados loucos.&lt;br /&gt;
== As Loucuras no Mundo Antigo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Grécia antiga ===&lt;br /&gt;
Na Grécia antiga, em certo momento a loucura era considerada uma intervenção dos deuses e, como os gregos era politeístas, a varidade de formas de loucura e os modos de intervenção também era bem grande. A loucura poderia ser vista, por exemplo, como uma punição. É o caso do herói Ajax, filho de Telamão. Após a morte de Aquiles, a armadura do herói foi dada a Odisseu, e a afronta levou Ajax a um estado de fúria e ressentimento. A deusa Atena, intervindo em favor de Odisseu para proteger os Aqueus da vingança de Ajax, lançou sobre ele uma cegueira mental. Tomado pela loucura, Ajax massacrou o gado de guerra que havia sido capturado, acreditando que estava matando os líderes aqueus, incluindo Odisseu e Agamenon. Ao recobrar a sanidade e perceber seu ato vergonhoso, cometeu suicídio devido à humilhação. Essa cena ilustra a loucura como uma intervenção divina direta na forma de loucura poderia ser vista como destrutiva e extremamente negativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em outros episódios da mitologia grega, a loucura surge como uma consequência direta de traumas e da perseguição implacável por vingança. Um exemplo é o de Orestes que, após assassinar sua mãe, Clitemnestra para vingar a morte de seu pai, Agamenon, passa a ser atormentado pelas Erínias. Essas divindades da vingança, também conhecidas como Fúrias, levaram o herói a um estado de delírio e desespero profundo, personificando a tortura psicológica e a perda da razão como uma forma de acerto de contas espiritual e moral pelo matricídio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura não era unicamente um flagelo ou uma punição. Os gregos  viam a mania, um termo que hoje engloba a loucura, em uma perspectiva dual. Na sua manifestação mais elevada, era considerada uma benção ou inspiração divina. Essa visão positiva estava profundamente ligada ao culto de Dionísio, o deus do vinho, do teatro e do êxtase. Nos rituais dionisíacos, as bacantes e outros seguidores buscavam o êxtase, que é, literalmente, &amp;quot;sair de si&amp;quot;, por meio da dança frenética, música e consumo de vinho, o que era percebido como um estado de comunhão direta e inspirada com a divindade. Longe de ser destrutiva, essa forma de loucura era vista como uma fonte de criatividade, revelação e poder, sendo um caminho para a verdade profética e como expressão artística ligada a Dionísio. Este conceito de mania inspirada também se estendia a outros domínios, como a profecia dos oráculos, que eram vinculados à adoração ao deus Apolo, e mesmo a poesia, onde a perda temporária da razão humana era interpretada como a mente sendo tomada por uma força divina que trazia algum tipo de inspiração superior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em certo momento, ainda na Grécia antiga, as ideias sobre a loucura - ou algo que pareça loucura aos olhos contemporâneos - foi modificada graças a Hipócrates, o pai da medicina. A visão de [[Hipócrates]] marcou uma transição crucial para o entendimento da loucura na Grécia Antiga, pois afastou a loucura das concepções divinas e sobrenaturais para uma explicação puramente fisiológica e natural. Ele desenvolveu a [[Teoria dos Quatro Humores]], que se tornou o pilar da medicina ocidental por séculos. Segundo essa teoria, o corpo humano era composto por quatro fluidos essenciais (ou humores), que são sangue, fleuma, bile amarela e bile negra. A saúde mental e física dependia do equilíbrio harmonioso desses humores. A loucura, ou qualquer doença mental, era, portanto, interpretada como o resultado de um desequilíbrio, como o excesso de bile negra causando a melancolia (depressão), ou o desarranjo da fleuma e da bile amarela, que poderiam levar a estados de mania e frenesi. Com isso, Hipócrates postulou que a loucura não era uma maldição dos deuses, mas sim uma doença com origem no corpo. Essa abordagem naturalista permitiu que a loucura passasse a ser tratada com métodos como dietas, exercícios e remédios, no lugar de rituais religiosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tradição bíblica ===&lt;br /&gt;
Na tradição bíblica, escrita em contextos e culturas não europeias, a loucura também é frequentemente retratada como uma forma de intervenção ou punição divina. Um dos episódios mais emblemáticos é a história do rei Nabucodonosor II, relatada no Livro de Daniel. De acordo com o texto, devido ao seu orgulho excessivo e sua recusa em reconhecer a soberania de Deus, o rei foi acometido por uma forma de loucura que o levou a viver como um animal, alimentando-se de ervas e deixando seus cabelos e unhas crescerem sem controle. Na psicologia moderna, esse estado em que um indivíduo acredita ter se transformado em um animal é conhecido como licantropia clínica, uma condição rara. A loucura, conforme emerge na descrição bíblica, emerge ligada à perda da razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, a tradição bíblica também apresenta um paradoxo. No Novo Testamento, cujos livros foram escritos no contexto do mundo greco-romano, o que é considerado &#039;loucura&#039; pelos homens revela-se a suprema sabedoria divina. Essa ideia é desenvolvida pelo apóstolo Paulo em sua Primeira Carta aos Coríntios. Na passagem, ele afirma: &#039;Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens&#039; (1 Coríntios 1:25). Paulo usa o termo &#039;&#039;moria&#039;&#039; (loucura, tolice) para contrastar a sabedoria humana que, na época do texto, era representada pela filosofia e retórica grega. A mensagem da cruz parecia ilógica e insensata aos olhos dos não cristãos, que debochavam do fato do messias ter sido capturado e morto pelos romanos. Assim, a loucura deixa de ser apenas uma punição para se tornar uma lente através da qual a verdadeira sabedoria, ou seja, a salvação, é revelada, invertendo a hierarquia de valores do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Pérsia ===&lt;br /&gt;
Na Pérsia, a visão da loucura e do comportamento irracional foi moldada por seu profundo dualismo religioso e, posteriormente, pelas tradições islâmicas que se seguiram à conquista árabe. O zoroastrismo, a antiga religião persa fundada por Zoroastro (Zaratustra), transformou o politeísmo em um dualismo cósmico centralizado no conflito eterno entre Ahura Mazda (Ormazd), o criador da vida, luz e verdade, e Angra Mainyu (Ahriman), a escuridão e a mentira. Neste cenário, o mundo material é o campo de batalha entre os dois. Ahriman buscava corromper tudo o que Ormazd havia criado. Embora o texto não defina a loucura diretamente, o comportamento irracional e a desrazão poderiam ser facilmente associados ao domínio de Ahriman e à mentira (&#039;&#039;druj&#039;&#039;), enquanto a sanidade e a pureza eram atributos de Ormazd. A batalha contra essa corrupção exigia que os adoradores de Ormazd permanecessem verdadeiros e evitassem poluir o fogo e a terra sagrada, indicando que a pureza mental e ritual era uma defesa contra as forças do mal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Islã ===&lt;br /&gt;
Na cultura islãmica, de forma geral e bastante resumida, o comportamento considerado irracional era frequentemente explicado pela crença nos &#039;&#039;djinn&#039;&#039;, espíritos errantes que habitavam o deserto e certos lugares considerados místicos e que podiam invadir a mente humana, causando o que a sociedade ocidental moderna chamaria de insanidade ou, talvez, distúrbio emocional. Nesses casos, o tratamento era o exorcismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na era clássica da medicina islãmica, ganhou força a tradição galênica, que atribuía as perturbações mentais a desequilíbrios nos quatro humores corporais (sangue, fleuma, bile amarela e bile negra). Médicos proeminentes rejeitaram a ideia de que a loucura fosse exclusivamente uma possessão demoníaca, tratando-a como uma patologia de base orgânica ligada ao cérebro. Avicena dedicou seções extensas a transtornos como a melancolia, o delírio e a mania. Ele descreveu detalhadamente como o excesso de bile negra afetava as faculdades cognitivas e imaginativas do cérebro, propondo tratamentos que incluíam dieta, banhos térmicos, massagens, sangrias reguladas e o uso de fitoterápicos, semelhante à tradição grega mais tardia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período medieval, o mundo islâmico desenvolveu os bimaristans (hospitais), que funcionavam como centros de tratamento médico gratuito, financiados por dotações religiosas (&#039;&#039;waqf&#039;&#039;). O objetivo era restaurar o equilíbrio do espírito e dos humores através de estímulos ambientais positivos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura também apareceu em narrativas culturais associadas aos povos, de forma a sugerir causas e curas mais mundanas. O famoso conto persa de As Mil e Uma Noites, cuja origem é indo-persa mas que foi sedimentada na cultura islãmica, relata a história do rei Shahriyar, que, convencido da inevitável traição feminina, cai em uma loucura paranóica que o leva a se casar com uma virgem todas as noites e, pela manhã, assassiná-la. Sua &amp;quot;cura&amp;quot; é alcançada através da engenhosidade e paciência humana por meio de uma dessas esposas, Scheherazade, que usa a arte de contar histórias para retardar sua execução por &amp;quot;mil e uma noites&amp;quot;, período em que sua paranoia é gradualmente desfeita. A história sugere que a narrativa e o tempo podem curar a loucura causada por trauma psicológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As Loucuras na Idade Média ==&lt;br /&gt;
A transição para a Idade Média é marcada pelo colapso do Império Romano do Ocidente (476 d.C.), que trouxe profundas transformações políticas e sociais. O fim do governo centralizado romano levou à fragmentação do poder e ao surgimento do sistema feudal, onde a administração das terras e a autoridade passaram para as mãos de senhores locais, muitos deles antigos oficiais romanos. Este período também é caracterizado por um notável declínio na vida urbana e nos grandes centros intelectuais. O colpaso das instituições romanas deu lugar à ascensão e consolidação da única instituição internacional grande e organizada que havia sobrado, a Igreja Católica, que se tornou a principal forma de organização política, social e cultural. Houve ainda uma perda gradual da tradição cultural greco-romana por diferentes razões e, consequentemente, um afastamento das explicações naturalistas de Hipócrates, com exceção do pequeno renascimento do século XII e retomadas pontuais da sabedoria grega. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a hegemonia da Igreja Católica, a loucura tendeu a ser novamente interpretada sob uma lente teológica, sendo vista como uma manifestação de forças sobrenaturais ou desvios morais. Nesse contexto, certas vezes a loucura era interpretada como a intervenção de Satanás ou como possessão demoníaca, exigindo rituais de exorcismo para a cura. Em outros momentos, era vista como uma prova espiritual enviada por Deus ou como um efeito direto do pecado na alma do indivíduo. Havia também explicações que a tratavam como uma fragilidade da vontade humana, como no caso do que chamaríamos hoje de compulsões, misturando elementos da antiga tradição grega com aspectos da teologia cristã. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Socialmente, a gestão da loucura na Idade Média também passou por diferentes fases e transformações, dependendo do local e da época. Havia casos em que os considerados loucos eram apenas torturados e trancafiados, métodos considerados eficazes para expulsão de espíritos malignos, por exemplo. Contudo, em muitos outros casos, os considerados loucos conviviam de forma mais ou menos harmoniosa com o resto da comunidade, a depender de suas capacidades e possibilidades, e certos “desvios” eram perdoados devido à sua condição peculiar, sem a necessidade imediata de uma exclusão radical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Nau dos Loucos ===&lt;br /&gt;
Um caso notável e emblemático da gestão da loucura nesse período é a [[Nau dos Loucos]] (&#039;&#039;Stultifera Navis&#039;&#039;), conforme trabalhado por [[Michel Foucault]]. Anteriormente ao modelo de exclusão-repressão que viria a se consolidar na Idade Clássica, a loucura viveu o que se pode chamar de seus &amp;quot;dias de glória&amp;quot; na transição para a Renascença. Nesse contexto, o louco poderia ser visto como um sábio, um místico, um tolo ou simplesmente um excêntrico que estava, de certa forma, integrado ao tecido social.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Nau dos Loucos, que circulavam no Vale do Rio Reno (partes da Alemanha, França Suíça e Países Baixos) simbolizava uma existência errante, onde o louco era confiado à água e ao navio para ser levado de uma cidade a outra, mantendo-o em um estado de exclusão simbólica, mas ainda assim em movimento e circulação. Para Foucault, essa experiência trágica da loucura permitia que o insano portasse uma forma de lucidez em sua insensatez, revelando verdades que a razão comum não ousava enunciar. O louco via através das ilusões mundanas, aproximando-se de uma verdade profética ou ética que seria progressivamente silenciada nos séculos seguintes pela ascensão do saber médico e da racionalidade científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Santa Dimpna e Geel ===&lt;br /&gt;
Outro acontecimento relevante da Idade Média para a compreensão da loucura é o episódio de [[Santa Dimpna]]. Nascida no século VII na Irlanda, ela era filha de um rei pagão e de uma mãe cristã devota, de quem herdou sua fé e pela qual decidiu fazer votos de castidade. Após a morte prematura da mãe, seu pai, mergulhado em um profundo luto, decidiu que Dimpna era a única mulher com beleza comparável à da falecida rainha e insistiu em se casar com a própria filha, o que seria considerado escandaloso também para aquela cultura. Horrorizada e e alvo de uma perseguição incestuosa, Dimpna fugiu da Irlanda acompanhada de seu confessor, o padre Gereberno, e de dois servos fiéis. O grupo cruzou o mar e estabeleceu-se em [[Geel]], um minúsculo vilarejo na atual Bélgica, onde Dimpna se dedicou ao cuidado dos pobres e doentes mentais. No entanto, o rei conseguiu encontrá-los e, após a recusa de Dimpna tanto em retornar para a Irlanda quanto se casar com o pai, ordenou a execução de Gereberno, enquanto ele mesmo decapitou a filha, tornando a menina de 15 anos de idade numa mártir cristã. Após sua morte, relatos de curas milagrosas de pessoas com distúrbios mentais e epilepsia começaram a ocorrer junto ao seu túmulo, o que a tornou a padroeira dos doentes mentais. Já o local converteu-se num espaço de peregrinação ligado à questão da saúde mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O legado de Santa Dimpna em Geel deu origem a um modelo para a psiquiatria moderna pois, devido à devoção e adoração à Santa Dimpna, a cidade transformou-se em um santuário onde os pacientes não eram trancafiados, mas acolhidos em lares de famílias locais como &amp;quot;hóspedes&amp;quot;. Esse sistema de cuidado comunitário e desinstitucionalização, que persiste há séculos, é considerado um dos precursores do tratamento humanizado e da reabilitação psicossocial na saúde mental contemporânea.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Idade Clássica: a nova era da loucura encarcerada ==&lt;br /&gt;
A partir do século XVII, um período em que o filósofo Michel Foucault denominou como &amp;quot;A Época Clássica&amp;quot;, a forma de entender e lidar com a loucura passa por uma nova mudança devido ao ingresso da razão como centro e alma do pensamento europeu, em substituição ao dogmatismo religioso e ao conhecimento da igreja. Esta mudança não é brusca, mas lenta e gradual, porém suas marcas serão duradouras e serão sentidas por quase toda a Europa. Para essa nova e nascente razão, a loucura seria seu oposto direto. Se o homem era definido pela sua capacidade racional e sua utilidade produtiva, o louco era, portanto, como um &amp;quot;não-homem&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a solução para a não-razão era a internação, que não buscava a cura, mas a neutralização do irracional. O silenciamento da loucura era necessário para que a ordem social pudesse florescer. Os campos e cidades deveriam ser espaços de circulação de mercadorias pelas mãos de cidadãos produtivos, e qualquer elemento que atrapalhasse essa dinâmica deveria ser guardado em instituições que funcionavam como uma guarda contra o risco social que tais pessoas ofereciam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Relatos da época descrevem cenários terríveis sobre as condições de internação dos loucos. Os internos eram frequentemente mantidos em celas úmidas e insalubres, muitas vezes acorrentados às paredes. O uso de chicotes e outras punições corporais era justificado pela crença de que o louco, por ter perdido a razão, teria a resistência física de um animal, não sentindo frio ou dor da mesma forma que uma pessoa &amp;quot;normal&amp;quot;. Além disso, as instituições funcionavam sob uma lógica de vigilância constante. Não se tratava de observar para entender a mente, mas para garantir que o corpo anormal permanecesse contido e, no máximo possível, docilizado. Foi dentro desse ambiente de absoluta degradação e mistura indiscriminada de diferentes &amp;quot;tipos&amp;quot; de desviantes que a consciência médica começou a germinar, ainda que de forma incipiente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== França ===&lt;br /&gt;
O ano de 1656 marca um divisor de águas simbólico para o modelo de confinamento asilar no mundo todo, com a criação do Hôpital Général (Hospital Geral) em Paris, por um edito real do rei Luís XIV. É importante entender que um hospital geral deste período não é como um hospital moderno, ou seja, uma instituição de saúde voltada para a compreensão da doença e a prática do tratamento e cura. Ele estava mais próximo de uma estrutura administrativa e, de certo modo, semi-judiciária. Isso ocorria porque o interesse não estava em “curar” ou “tratar” ninguém mas, antes disso, executar o interesse do Estado de &amp;quot;limpar&amp;quot; as ruas de Paris de tudo o que era considerado improdutivo ou escandaloso. Era um período de abundância material, grandes gastos estatais e de uma imensa riqueza do império colonial francês, e desvios nessa ordem eram vistos como perigosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes tais hospitais gerais eram confinados, todos juntos, grupos totalmente diferentes, tais como pobres, mendigos, desempregados, libertinos, prostitutas, alquimistas, opositores políticos e, claro, também os considerados loucos. Em suma, tratava-se de um depósito de indesejados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que começou em Paris se tornou um modelo para outros lugares sobre como fazer a gestão da miséria e da “desrazão”, num forte deslocamento do que se via na Idade Média, com muitas experiências de integração social. O louco, antes tendo algo de profético, místico ou talvez apenas uma excentricidade da vida medieval campesina, se torna uma questão político-administrativa. Essa mudança importante marca uma migração para a possibilidade de institucionalização daquilo que era considerado errante ou, de alguma forma, desagradável e, assim passível de ser alvo de uma forma de gestão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em Paris, as duas principais unidades do Hospital Geral se tornaram emblemáticas e simbólicas. A [[Salpêtrière]], que era destinada às mulheres, e o hospital [[Bicêtre]], destinado aos homens. Ambas as instituições não ofereciam qualquer forma de tratamento. Eram basicamente depósitos humanos, onde o louco poderia acabar acorrentado ao lado de criminosos, por exemplo. O critério de internação não era o diagnóstico clínico, mesmo porque simplesmente ele nem existia, mas a incapacidade de se ajustar às normas de trabalho e à moralidade da época.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Alemanha ===&lt;br /&gt;
Na Alemanha, com a ideia de que o ócio era inaceitável, as leis determinavam o trancafiamento de qualquer pessoas considerada louca, perigosa e incapacitada para o trabalho. Nesse contexto, surgiram as &#039;&#039;Zuchthäusern&#039;&#039;, que seriam as [[Casas de Correção (Zuchthäusern)|Casas de Correção]]. Cidades como Hamburgo e Bremen estabeleceram esses locais onde a loucura era tratada através do trabalho forçado. Eles acreditavam que o ócio era a raiz do mal e que o confinamento e o trabalho forçado eram úteis para reintegrar o indivíduo à lógica da produtividade. Para os loucos, acreditava-se que o trabalho mecânico, repetitivo e exaustivo tinha o poder de &amp;quot;disciplinar a mente animalizada&amp;quot;, submetendo a vontade rebelde ou caótica do insano à razão e à ordem. Não era um trabalho, contudo, inútil, pois esta mão de obra foi utilizada até mesmo na produção de uniformes militares. Os loucos considerados totalmente impossíveis de docilizar eram simplesmente trancafiados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Inglaterra ===&lt;br /&gt;
Na Inglaterra, o sistema das Workhouses (Casas de Trabalho) cumpria um papel semelhante ao modelo alemão. No entanto, Londres já possuía o [[Bethlem Royal Hospital (Bedlam)|Bethlem Royal Hospital]], conhecido popularmente como Bedlam. No século XVII e XVIII, Bedlam se tornou um espetáculo de horror, onde o público podia pagar para observar os internos como se fossem animais em um zoológico. A loucura agora um objeto de uma forma de exibição degradante e mantida atrás de grades e ferros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Portugal ===&lt;br /&gt;
Em Portugal a gestão dos &amp;quot;desviantes&amp;quot; recaiu fortemente sobre as Santas Casas da Misericórdia. O [[Hospital Real de Todos-os-Santos]], fundado em Lisboa em 1492 e inaugurado em 1501, se tornou o epicentro do tratamento (ou confinamento) dos loucos no país. Dentro deste hospital, existiam as chamadas &amp;quot;[[Casas de Doidos]]&amp;quot;, destinados àqueles que haviam “perdido a luz da razão”. Seguindo o padrão europeu, o hospital não separava rigidamente o louco por diagnóstico. Eles dividiam espaço com indigentes e enfermos de diversas naturezas, embora as &amp;quot;casas de doidos&amp;quot; fossem áreas de maior isolamento devido à agitação dos internos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XVIII português, a internação era, acima de tudo, uma solução para a mendicância e, por vezes, para o alcoolismo. O louco oriundo de uma família com posses era mantido nas próprias casas, muitas vezes escondido em sótãos ou anexos e até mesmo acorrentados. Já o &amp;quot;louco pobre&amp;quot;, que não poderiam ser cuidados por seus familiares, acabava nos hospitais reais ou mesmo nas cadeias, a depender de uma série de fatores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Nascimento da Psiquiatria ==&lt;br /&gt;
=== Pinel e a criação da psiquiatria nosográfica ===&lt;br /&gt;
É na virada do século XVIII para o XIX que nasce a psiquiatria como um campo autônomo do saber e da prática médica. Esta mudança fundamental é protagonizada por duas figuras centrais da medicina francesa: [[Philippe Pinel]] e seu discípulo, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]]. Juntos, eles transformaram o hospital de depósito de insanos e indesejáveis em um verdadeiro hospital, em que o louco e o alienado poderiam receber um tratamento racional e científico, em substituição às correntes, à disciplina e ao silenciamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A emergência da psiquiatria como campo autônomo teve como fundamento científico inicial a observação clínica sistemática dentro do asilo. Este era concebido como um laboratório, onde o alienista poderia estudar a loucura em seu estado puro, separada das influências do mundo exterior. A principal questão científica e prática que justificava essa nova ciência era desenvolvida e aplicada de forma sistemática era a chamada nosografia ou diagnóstico. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pinel, em seu [[Traité médico-philosophique sur l&#039;aliénation mentale, ou la manie]], de 1801, classificou a loucura com base em critérios sintomatológicos, seguindo um procedimento comparativo semelhante ao das ciências naturais. O desafio central, que persistiria ao longo do século XIX, era a ambiguidade constante entre a busca por uma sede orgânica, ou seja, um “local físico-biológico” da loucura, junto da necessidade de uma regulação de caráter moral. O tratamento apoiava-se na moralidade para combater as causas que eram, elas próprias, consideradas morais, mas algo estava também no corpo do doente. Isso mostra que a nova psiquiatria de Pinel era a mistura de medicina com moralidade. Este enfoque resultou na valorização do exame clínico pelos psiquiatras francófonos, permitindo a união da observação clínica com a formulação de hipóteses.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1793, em meio ao fervor da Revolução Francesa, Philippe Pinel foi nomeado médico-chefe do Hospital de Bicêtre e, posteriormente, da Salpêtrière. O cenário que encontrou era o ápice do &amp;quot;Grande Enclausuramento&amp;quot;, ou seja, homens e mulheres amontoados nas condições já descritas, com destaque para as correntes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A intervenção de Pinel, simbolizada pelo gesto de “libertar os loucos de suas correntes”, não foi apenas um ato humanitário, mas também uma decisão de natureza epistemológica. Pinel acreditava que a loucura não era uma possessão demoníaca nem uma degeneração animal irreversível, mas uma alienação mental, em outras palavras, uma perturbação das faculdades intelectuais e afetivas que mantinha o indivíduo como se fosse &amp;quot;estrangeiro&amp;quot;, ou alienado, de si mesmo e da sociedade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O pilar para a reforma psiquiátrica proposta por Pinel era o tratamento moral, e se baseava em três pilares fundamentais. O primeiro, o isolamento terapêutico. Era necessário que o paciente ficasse separado de seu ambiente que, segundo o médico, era a fonte de sua excitação e desequilíbrio. O segundo pilar era a autoridade médica, onde este deveria atuar como um pai ao mesmo tempo severo e justo, usando a persuasão, a benevolência e, se fosse necessário, a firmeza para restaurar a razão do paciente. Por fim, a disciplina e o trabalho, com a aplicação rigorosa de horários e valorização de atividades produtivas, o que ocuparia a mente alienada e, assim, combateria a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em seus estudos, Pinel identificou quatro tipos de loucura, quais sejam, a [[melancolia]], a [[mania]], a [[demência]] e a [[idiotia]], cada uma com suas questões próprias específicas e metodologias de tratamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Esquirol e a consolidação do modelo ===&lt;br /&gt;
Se Pinel era considerado o visionário e o libertador, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]] foi o grande organizador e o clínico meticuloso. Discípulo de Pinel, Esquirol sucedeu seu mestre na Salpêtrière e deu à psiquiatria a robustez científica e administrativa de que ela necessitava. Esquirol compreendeu que a eficácia do tratamento moral dependia da arquitetura hospitalar. Para ele, o hospital não era apenas um prédio onde ocorria o tratamento, mas também um instrumento de cura. Ele desenvolveu o modelo de pavilhões, permitindo a separação dos pacientes por tipo de patologia, o que reforçou a própria ideia de diagnóstico e de avaliação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Esquirol refinou as definições clínicas de Pinel. Foi ele quem estabeleceu a distinção clássica entre alucinação (uma percepção sem objeto) e ilusão (uma percepção deformada de um objeto real), entre outros pontos que, na sua época, foram considerados avanços exemplares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Legalização da Alienação ===&lt;br /&gt;
O esforço médico, político e administrativo de Esquirol na continuação do trabalho de Pinel culminou na promulgação da lei francesa de 30 de Junho de 1838, a primeira grande legislação psiquiátrica do mundo moderno. Esta lei estabeleceu a obrigatoriedade de cada departamento francês possuir um asilo e regulamentou as condições de internação e interdição. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A princípio, embora também protegesse o alienado do arbítrio e de outras violências que poderiam ser cometidos contra os loucos nas províncias e mesmo nas periferias de Paris, a lei também deu total poder ao médico psiquiatra. Era ele quem poderia decidir quem deveria ou não ser privado de sua liberdade. Com isso, a psiquiatria tornava-se, assim, um braço do Estado na gestão da ordem social mas, ao contrário do polícia e do inquérito polícial, que exigia provas independentes e a atuação do sistema judiciário, o psiquiatra estava coberto sob o manto da ciência médica, o que dava a ele poderes gigantescos de decidir entre a alienação e a razão. Isso marcou profundamente a forma como a loucura e a saúde mental passaram a ser compreendidas e tratadas nas décadas seguintes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Emil Kraepelin e uma Nova Racionalização ===&lt;br /&gt;
Apesar da forte valorização da psiquiatria francesa na constituição da psiquiatria contemporânea, uma das principais contribuições para o ramo em sua forma atual foi empreendida por um alemão, [[Emil Kraepelin]]. No final do século XIX, a psiquiatria alemã estava dividida entre os &amp;quot;psiquistas&amp;quot;, que viam a loucura como uma doença da alma ou um mal moral, a exemplo dos franceses; e os &amp;quot;somatistas&amp;quot;, que buscavam no cérebro a origem dos sintomas das doenças mentais. Kraepelin superou esse impasse ao focar não na anatomia, mas na evolução temporal das doenças. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin passou a entender que sintomas isolados, como ouvir vozes ou acreditar ser uma personalidade histórica, não eram suficientes para definir uma doença, mas seu desenvolvimento ao longo do tempo. Com essa premissa em mãos, Kraepelin introduziu as &amp;quot;cartas diagnósticas&amp;quot; (&#039;&#039;Zählkarten&#039;&#039;), um sistema de fichamento padronizado onde se registrava a história de vida do paciente, seus antecedentes familiares, os sintomas detalhados e, por fim, o desfecho da doença. Isso transformou a clínica psiquiátrica, pois articulava neuroanatomia e psicologia experimental, já que ele fora aluno de [[Wilhelm Wundt|Wundt]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin também é considerado o pioneiro da [[Psiquiatria Transcultural]]. Visando provar que as categorias diagnósticas psiquiátricas seriam universais, ele viajou para lugares como a ilha de Java (Indonésia) em 1904 para estudar a manifestação da loucura em populações não europeias. Ele concluiu que, ainda que os conteúdos dos delírios mudassem conforme a cultura, a estrutura fundamental da loucura permanecia a mesma, o que reforçou sua tese de que eram doenças biológicas da espécie humana. Apesar disso, no final de sua vida ele se transformou um higienista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O I Congresso Internacional de Psiquiatria ===&lt;br /&gt;
Realizado em Paris em agosto de 1950, o [[I Congresso Internacional de Psiquiatria]] foi projetado especificamente para unificar, debater e institucionalizar a psiquiatria como uma disciplina médica global e autônoma. Durante o Congresso foram colocados, frente a frente, as grandes correntes que disputavam a hegemonia do entendimento da mente humana na época, a saber, as correntes psicodinâmica e a biológica. De forma menor, uma corrente social e anti-manicomial também se fez presente. O resultado do embate foi uma conciliação entre as duas maiores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um dos resultados do Congresso de 1950 foi a pressão para que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Associação Psiquiátrica Americana (APA) criassem manuais estatísticos e classificatórios unificados, o que resultou na inserção de uma seção robusta de transtornos mentais na CID-6 (Classificação Internacional de Doenças) e na publicação do primeiro [[DSM]], em 1952.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro resultado importante do evento foi a fundação da Associação Mundial de Psiquiatria ([[World Psychiatric Association (WPA)|World Psychiatric Association - WPA]]). Com isso, a psiquiatria deixou de ser um conjunto de escolas nacionais isoladas, como as escolas francesa, alemã, anglo-saxã, entre outras, para se tornar uma corporação científica internacional, com congressos periódicos, periódicos indexados e diretrizes globais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Loucura no Brasil ==&lt;br /&gt;
Até o início do século XIX, o Brasil colonial lidava com seus insanos de forma semelhante ao que ocorria na Europa. As famílias ricas mantinham seus parentes loucos em &amp;quot;quartos fortes&amp;quot;, privando-os mais ou menos da vida comunitária e familiar, a depender das circunstâncias, de forma semelhante ao que acontecia em Portugal. Já os pobres eram entregues à caridade das [[Santas Casas de Misericórdia]] ou vagavam pelas ruas, sendo ocasionalmente recolhidos a cadeias públicas quando perturbavam a ordem, indo e vindo das frágeis instituições brasileiras, sofrendo abusos e violências de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A transferência da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 gerou a necessidade de transformar a capital colonial em uma moderna metrópole europeia. Sob a influência do Iluminismo tardio e das notícias que chegavam sobre as reformas de Pinel na França, a elite médica brasileira, que havia estudado sobretudo na França e em Portugal, começou a pressionar o poder público pela criação de espaços específicos para o tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1830, a criação da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (que viria a ser a [[Academia Nacional de Medicina]]) foi o marco institucional dessa pressão. Esse movimento político funcionou. O momento decisivo ocorreu em 18 de julho de 1841, quando o Imperador D. Pedro II, em comemoração à sua coroação, assinou o decreto de fundação do primeiro hospital psiquiátrico do Brasil e da América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Hospício de Pedro II, ou o Palácio dos Loucos (1852–1889) ===&lt;br /&gt;
Inaugurado apenas em 8 de dezembro de 1852, o [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)|Hospício de Pedro II]] era gerido pela Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, que por anos geriu grande parte da loucura brasileira. Seu provedor era o médico [[José Clemente Pereira]], que era responsável por todos os aspectos da instituição, desde os médicos até os administrativos. Embora a gestão administrativa fosse religiosa, o saber médico tinha muito espaço, com nomes como [[Manoel Feliciano Pereira de Carvalho]], que tentaram implementar o &amp;quot;tratamento moral&amp;quot; inspirado em Esquirol. Apesar dos esforços, muitos relatos de abusos e de condições precárias mostravam a dificuldade em implementar um modelo brasileiro de tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a Proclamação da República em 1889, o Hospício de Pedro II foi desvinculado da Santa Casa e renomeado como [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)]]. Este foi um período de maior laicização e pela busca por um maior rigor científico, o que não aconteceu por completo, em grande parte devido à falta de profissionais adequadamente treinados para a questão. Apesar disso, o Brasil já possuía uma cátedra de psiquiatria desde 1883, ocupada por João Carlos Teixeira Brandão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diante dos altíssimos custos em manter o Hospital, surgem as colônias agrícolas como alternativa ao confinamento urbano. Em 1884, já havia sido inaugurada a [[Colônia de São Bento]] e, em 1890, a [[Colônia de Conde de Mesquita]], na Ilha do Governador. A ideia era que o trabalho na terra poderia colaborar na cura, além de os produtos deste trabalho poderiam ser consumidos no local, ajudando na manutenção dos espaços. Apesar dessas transformações e de evidentes melhorias, os relatos de época mostram que não acontecia nenhuma das duas coisas, nem produção agrícola suficiente, nem um processo terapêutico efetivo, mas entendia-se que a colônia agrícola era melhor do que o confinamento do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Era Juliano Moreira ===&lt;br /&gt;
Em 1903, o médico baiano [[Juliano Moreira]] assume a direção do Hospital Nacional de Alienados. Negro, de origem humilde e dotado de uma erudição impressionante, ele revolucionou a assistência brasileira aos alienados, sendo reconhecido internacionalmente como um dos grandes psiquiatras de seu tempo. Ele se tornaria o principal médico alienista do Brasil, tornando-se referência para todo o país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Moreira aboliu definitivamente o uso de camisas de força e as grades nas janelas, num gesto que se assemelhava àquele de Pinel, enfatizando que o hospital era um local de tratamento e cura, e não uma prisão ou um depósito de indesejados. Além disso, ele trouxe para o Brasil a nosologia de Emil Kraepelin, um psiquiatra alemão considerado o pai da psiquiatria moderna, da psicofarmacologia e da genética psiquiátrica, o que seria uma modernização do modelo francês adotado até então. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a gestão Moreira ocorreram várias mudanças. Foi criado o [[Pavilhão Bourneville]] para crianças com deficiência intelectual. Além disso, fundou-se em 1921 o [[Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro]], o primeiro do país, sob a liderança de [[Heitor Carrilho]]. Dentro dos hospitais incentivou-se a pesquisa laboratorial e anátomo-patológica, o que também abriu espaço para a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A influência e o prestígio de Juliano Moreira se espalhou pelo Brasil. Em São Paulo, destacou-se a figura de [[Franco da Rocha|Francisco Franco da Rocha]], que fundou em 1898 o [[Hospital do Juquery]]. O Juquery, como ficou conhecido, tornou-se uma &amp;quot;cidade-asilo&amp;quot;, chegando a abrigar dezenas de milhares de pacientes em um modelo que mesclava pavilhôes médicos com imensas colônias agrícolas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste período, a psiquiatria brasileira flertou intensamente com as teorias da degenerescência (de Morel e Magnan) e com a eugenia. Médicos como [[Renato Kehl]], bem como a criação da [[Liga Brasileira de Higiene Mental]] (1923), uma organização higienista fundada por [[Gustavo Riedel]], começaram a ver a loucura não apenas como um problema individual, mas como um risco biológico à raça brasileira. A higiene mental passou a atuar preventivamente em escolas e fábricas, buscando identificar &amp;quot;pré-delinquentes&amp;quot; e &amp;quot;personalidades anormais&amp;quot;. Apesar de não ter conseguido desenvolver muitas políticas efetivas, os eugenistas brasileiros eram ativos e influentes em muitos círculos decisórios importantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A criação de hospitais não se limitou a São Paulo e Rio de Janeiro. Em  1903, o governo de Minas Gerais fundou o [[Hospital Psiquiátrico de Barbacena]], que mais tarde seria palco de uma das maiores tragédias humanitárias do país. Em Pernambuco, o [[Hospital Ulysses Pernambucano]] foi fundado pelo médico de mesmo nome, que começou a desenvolver uma psiquiatria mais voltada para o social e para a prevenção no final dos anos 1920. Hospitais na Bahia, Rio Grande do Sul, entre outros, também foram criados, seguindo o pioneirismo do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Era Vargas e além: o início do encarceramento ===&lt;br /&gt;
Com a Revolução de 1930, o projeto de nação de Vargas exigia um povo saudável e produtivo, devido à visão desenvolvimentista suportada pela Aliança Liberal, que o elegeu. A loucura deixou de ser apenas uma questão de ordem pública ou um aspecto da caridade para se tornar um problema de segurança nacional e de saúde pública. Em 1941, no âmbito do Estado Novo, foi criado o [[Serviço Nacional de Doenças Mentais (SNDM)]], substituindo o antigo modelo de assistência a alienados, que era fragmentado nas diferentes províncias. Dessa maneira, Vargas criou uma diretriz federal centralizada para a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a Liga Brasileira de Higiene Mental ganhou fôlego. O foco deslocou-se do hospital para a prevenção na sociedade. A psiquiatria não deveria se limitar aos hospitais, mas também atuar na escola, na fábrica e na família, buscando limpar a nação e extirpar o que chamavam de &amp;quot;elementos degenerados&amp;quot;. O médico Gustavo Riedel e seus sucessores defendiam que o Estado deveria intervir precocemente para evitar que o &amp;quot;anormal&amp;quot; se tornasse um fardo para a máquina pública.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi durante as décadas de 1930 e 1940 que o modelo de colônia agrícola, antes visto como terapêutico e de assistência à manutenção hospitalar, atingiu proporções industriais. O que se viu em Barbacena e em instituições como o Juquery em São Paulo, foi a transformação do hospital em, praticamente, um campo de concentração administrativo. A internação não dependia mais de um diagnóstico médico rigoroso, que na prática ainda era frágil e baseado em elementos pouco científicos. Bastava ser considerado &amp;quot;socialmente inconveniente&amp;quot; para correr-se o risco de ir parar numa instituições dessas. Assim, pobres, prostitutas, homossexuais, militantes políticos e mães solteiras eram enviados para essas instituições, onde a sobrevivência era a exceção. Estima-se que, no auge do descaso, o Hospital de Barbacena registrava um número alarmante de óbitos por frio, fome e doenças evitáveis, cujos corpos eram, por vezes, vendidos para faculdades de medicina. Situações similares aconteciam em outras instituições do tipo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tratamentos Brutais e os Modos de Resistência ===&lt;br /&gt;
Para além do horror asilar, o período entre 1930 e 1950 também foi marcado pela introdução de terapias biológicas drásticas, importadas da Europa, conhecidas como [[somatoterapias]]. Com uma psicofarmacologia pouco eficaz, os médicos buscavam &amp;quot;chacoalhar&amp;quot; o organismo, produzindo nele como um choque que pudesse restaurar a razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma dessas técnicas era a [[insulinoterapia]]. Introduzida na Europa pelo médico austríaco Manfred Sakel (1900–1957) em Viena, no início dos anos 1930, representou uma das primeiras e mais invasivas formas de somatoterapia. Originalmente destinada ao tratamento da [[esquizofrenia]], a técnica consistia na administração de doses maciças de insulina no paciente, provocando um estado de hipoglicemia profunda que levava o paciente ao coma. Na volta desse estado, se esperava que o indivíduo “restaurasse” a razão por conta do choque orgânico violento que havia vivenciado. O procedimento era extremamente perigoso e estava associado a uma alta taxa de mortalidade e morbidade devido às convulsões e aos possíveis danos cerebrais. Apesar dos riscos, o método foi amplamente adotado no mundo todo, incluindo o Brasil, onde foi usado em grandes instituições de confinamento, como o Hospital Nacional de Alienados (HNA), no Hospital Juquery, entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que passou a ser muito utilizada foi a [[Eletroconvulsoterapia]], ou simplesmente o eletrochoque. Introduzido no Brasil logo após sua invenção na Itália (1938), consiste em colocar eletrodos carregados com correntes elétricas em lados opostos, na lateral da cabeça, de modo que uma forte corrente elétrica atravessasse o cérebro. A duração e a intensidade podiam variar, mas relatos de mais de trinta minutos de choques violentos não eram incomuns. Sua brutalidade era tamanha que exigia que sua vítima fosse fortemente amarrada. Tornou-se uma ferramenta onipresente nos hospitais, muitas vezes aplicada sem anestesia e como método de punição, desvirtuando sua finalidade clínica já questionável e usada, basicamente, como ferramenta de tortura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que ingressou no Brasil nesse período foi a [[lobotomia]], um procedimento cirúrgico que consistia em apenas retirar um pedaço do cérebro do paciente. Eles foram realizados em larga escala em hospitais como o Juquery e no Hospital Pedro II, buscando a docilização de pacientes crônicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em oposição à violência do isolamento oferecido por essas instituições, surge a figura de [[Nise da Silveira]]. Em 1946, após ter sido presa pelo regime de Vargas por suas inclinações políticas, Nise assumiu o Setor de Terapêutica Ocupacional do [[Centro Psiquiátrico Nacional]] (Engenho de Dentro), no Rio de Janeiro. Ela se recusou a usar eletrochoques e lobotomias, introduzindo a arte e o afeto como mediadores da cura. Ela fundou o [[Museu de Imagens do Inconsciente (MIS)|Museu de Imagens do Inconsciente]] em 1952, onde demonstrou, através das pinturas e esculturas de pacientes como [[Arthur Bispo do Rosario]], que o louco preservava uma riqueza simbólica e uma humanidade que a psiquiatria tradicional tentava apagar. Sua colaboração com [[Carl Jung]] colocou a experiência brasileira no mapa da psicologia analítica mundial, provando que o tratamento em liberdade e através da expressão criativa era viável.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Criação da Indústria da Loucura ===&lt;br /&gt;
No final da década de 1950 e início da de 1960, durante o governo de Juscelino Kubitschek e o breve período democrático posterior, o Brasil viu o surgimento de uma nova e ainda mais perversa dinâmica: a Indústria da Loucura. A assistência psiquiátrica, antes quase totalmente pública ou baseada no assistencialismo das Santas Casas, começou a ser privatizada. Com o crescimento dos institutos de previdência (IAPs), o Estado passou a pagar hospitais privados por dia de internação. Isso criou um incentivo perverso: quanto mais tempo o paciente ficasse internado e quanto menos recursos fossem gastos com ele, maior o lucro das clínicas privadas. Esse modelo, conhecido como &amp;quot;hospitalocêntrico&amp;quot;, inchou o sistema e preparou o terreno para a política de contenção social que seria radicalizada após o golpe de 1964. Foi um momento de multiplicação da brutalidade. Pouco importava a loucura ou não, o tratamento ou não, a eficácia ou não. O que importava era lucar com o dinheiro estatal por meio de um encarceramento fácil de impor e praticamente impossível de escapar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A coisa se aprofundou ainda mais com o golpe militar, que unificou em 1966 os Institutos de Aposentadoria e Pensões no INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), produzindo uma centralização gigantesca de recursos, com um modelo de privatização quase total. A psiquiatria, por ser uma especialidade cuja formação exigia baixo investimento tecnológico quando comparada a outras como a cirurgia, cardiologia ou oncologia, permitia grandes lucros com as internações de longa permanência. Assim, trancafiar e atormentar os loucos tornou-se o setor mais atraente para o empresariado da saúde.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de pessoas possivelmente diagnosticadas, o sistema era alimentado pelo encarceramento de militantes políticos, estudantes rebeldes, pessoas em situação de rua,  mendigos, homossexuais, indivíduos com comportamentos &amp;quot;desviantes&amp;quot; da moral tradicional, dependentes químicos, alcoólatras ou mesmo pessoas “problemáticas” da família, que se recusavam, por exemplo, a participar de casamentos arranjados, que denunciavam violência sexual sofrida ou eram apenas mulheres que haviam engravidado antes do casamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As instituições privadas multiplicaram-se pelo interior do país, longe dos olhos da fiscalização e dos centros urbanos. Instaladas em locais de difícil acesso, facilitava o ocultamento de violações de direitos humanos e ainda utilizava da conivência dos governos locais. As populações dessas localidades, crentes no saber médico, dificilmente desconfiavam do que poderia acontecer dentro dessas instituições e, quando vazavam denúncias, elas rapidamente podiam ser facilmente manejadas em conluio com os poderes locais. A loucura tornou-se um negócio de massa, com o abrigo precário de centenas de pessoas em galpões, onde a única &amp;quot;terapia&amp;quot; era a contenção química por sedativos baratos ou o uso indiscriminado do eletrochoque para manter a ordem além, é claro, da violência e brutalidade de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Luta Antimanicomial ==&lt;br /&gt;
No final da década de 1970, o modelo de saúde mental começou a dar sinais de exaustão, tanto financeira quanto ética. O Estado já não conseguia arcar com os custos crescentes de um sistema que só expandia o número de crônicos, e as denúncias de maus-tratos começaram a furar o bloqueio da censura, aparecendo em jornais mais prestigiados e em espaços mais amplos do debate social. O estopim para a o início do movimento da reforma psiquiátrica no Brasil começa com uma crise na [[Divisão Nacional de Saúde Mental (DINSAM)]], que havia recebido denúncias de irregularidades no Centro Psiquiátrico Pedro II, no [[Hospital Pinel]], na [[Colônia Juliano Moreira]] e no [[Manicômio Judiciário Heitor Carrilho]]. A denúncia foi acompanhada de uma greve por parte dos funcionários, que exigiam melhorias institucionais e questionavam irregularidades trabalhistas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É dessa crise que surge o [[Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM)]] que, nesse primeiro momento, estão mais preocupados com questões trabalhistas do que com o problema da própria prática psiquiátrica, que vai caracterizar parte dos movimentos antimanicomiais posteriormente. O MTSM se fortalece e consegue espaço no extremamente conservador [[V Congresso Brasileiro de Psiquiatria]], que ocorre em 1978, no que fica conhecido como “congresso da abertura”, num período também de abertura política com o iminente fim do regime militar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda em 1978, um grupo importante de intelectuais vinculados às bases teóricas do [[Movimento Antimanicomial]] participa do [[I Congresso Brasileiro de Psicanálise de Grupos e Instituições]], incluindo [[Franco Basaglia]], [[Felix Guattari]], [[Robert Castel]] e [[Erwin Goffman]], todos eles de grande inspiração e influência para o movimento antimanicomial brasileiro. No ano seguinte, o [[I Congresso Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental]] fortalece a contextação não apenas de problemas trabalhistas, mas do próprio modelo asilar e da forma como a psiquiatria intervinha e oprimia a população marginalizada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação público-privada que alimentava o modelo até então começa a ruir em 1980, com a chamada política da co-gestão interministerial. Nela, um convênio celebrado entre o Ministério da Previdência e Assistência Social com o Ministério da Saúde liquida a &amp;quot;Unidade de Serviço&amp;quot;, a política que permitia a contratação privada de serviços psiquiátricos e que representou o triunfo do público sobre o privado. Membros do MTSM passam a integrar a gestão do atendimento em saúde mental que, por dentro do aparato estatal, começam a implementar uma política de saúde pública baseada em prestação de serviços, cooperação, descentralização e regionalização, propostas que já eram defendidas pelos reformadores. Apesar desses avanços, críticos afirmam que a política de co-gestão apenas visava reformar os serviços, não atingindo o âmago da questão, que seria desconstruir o próprio paradigma psiquiátrico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo de desinstitucionalização de fato começa em 1985, ano marcado pelo fim da Ditadura Militar e pela realização de vários eventos que aprofundam o debate sobre a situação do atendimento. A [[I Conferência Nacional de Saúde Mental]] marca o início da desinstitucionalização devido aos conflitos entre o MTSM, a ABP e grupos não-organicistas que passaram a dirigir o DINSAM. Na conferência, consagrou-se uma reviravolta na perspectiva com a consolidação do lema &amp;quot;por uma sociedade sem manicômios&amp;quot;, rompendo com a lógica tanto privatista quanto estatista e questionando o próprio modelo psiquiátrico tradicional. Este passou a ser amplamente entendido como fenômeno cultural que promove o tratamento moral e o controle dos corpos, uma visão abertamente basagliana e antimanicomial. Alguns entendem que, nesse momento, a tradição anti-institucional que originou os primeiros questionamentos na década de 1970 foi restaurada e fortalecida. Após a Conferência, o próprio MTSM se renovou, se desatrelando do Estado, retomando sua independência e seu papel de transformação social.  A mudança do movimento se consolidou no [[II Congresso Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental]], quando a noção de racionalização e modernização dos serviços que havia caracterizado o período da co-gestão foi recusado em nome de uma pauta anti-institucional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em meados dos anos 1980 começam a surgir novos modelos de atenção à saúde que poderia substituir o modelo psiquiátrico. Em São Paulo é criado o primeiro [[Centro de Atenção Psicossocial (CAPS)]], em 1987. Em Santos, surge o [[Núcleo de Atenção Psicossocial (NAPS)]], em 1989. Estes serviços passaram a ser vistos como os modelos para uma contestação profunda dos manicômios, justificando seu encerramento. Já na década de 1990, o SUS introduziu mecanismos de fiscalização e auditoria que começaram a sufocar financeiramente os asilos privados que não cumpriam níveis mínimos de dignidade. Portarias históricas do Ministério da Saúde, inspiradas na [[Declaração de Caracas (1990)]], passaram a proibir a criação de novos leitos psiquiátricos asilares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após mais de uma década de tramitação e intensos debates no Congresso Nacional, como fruto dos embates históricos iniciados na crise do DINSAM e que atravessaram debates públicos extremamente imporantes, foi promulgada a Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001, que ficou conhecida como [[Lei da Reforma Psiquiátrica]] ou Lei Paulo Delgado, seu autor. Esta legislação se tornou o marco jurídico definitivo da virada assistencial no Brasil. A lei instituiu o direito do paciente de ser tratado em ambiente terapêutico o menos restritivo possível e colocou a internação psiquiátrica como último recurso possível. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para preencher o vazio deixado pelo fechamento dos grandes hospitais, o SUS estruturou a [[Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)]], formalizada na década seguinte pela Portaria nº 3.088 de 2011. A RAPS organizou o cuidado em diferentes níveis de complexidade, com os CAPS divididos nas modalidades CAPS I, II, III, CAPSi  e CAPS AD e, por fim, os [[Serviços de Residência Terapêutica (SRT)]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, a luta continua devido a retrocessos observados na segunda metade da década de 2010 e início dos anos 2020. Mudanças nas diretrizes da Política Nacional de Saúde Mental tentaram reintroduzir a centralidade do hospital psiquiátrico e incentivaram o uso de práticas baseadas no isolamento. Além disso, o governo federal passou a financiar massivamente as chamadas [[Comunidades Terapêuticas]], instituições de caráter predominantemente privado e religioso voltadas ao acolhimento de usuários de drogas, de onde emanam graves denúncias de todos os tipos de violação dos direitos humanos e que representam um evidente retrocesso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje, o campo da saúde mental no Brasil vive um embate profundo entre duas visões. De um lado, aqueles que lutam pela consolidação da RAPS, em defesa da clínica da subjetividade, da defesa dos direitos humanos, pela redução de danos e pela inserção social pelo trabalho e pela cultura. Do outro lado observa-se a persistência do &#039;&#039;lobby&#039;&#039; asilar e de setores que buscam a mercantilização do cuidado, por meio do encarceramento, da medicalização extrema do sofrimento psíquico, da higienização dos centros urbanos e do recolhimento dos indesejáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
AMARANTE, Paulo. &#039;&#039;&#039;Loucos pela vida&#039;&#039;&#039;: a trajetória da reforma psiquiátrica no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 1995.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ARBEX, Daniela. &#039;&#039;&#039;Holocausto brasileiro&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Geração Editorial, 2013.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BASAGLIA, Franco. &#039;&#039;&#039;A instituição negada&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Graal, 1985.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BIRMAN, Joel. &#039;&#039;&#039;A physis da arte&#039;&#039;&#039;: Deleuze e a clínica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CAMPOS, Gastão Wagner de Sousa. &#039;&#039;&#039;Tratado de saúde coletiva&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Hucitec, 2006. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CASTEL, Robert. &#039;&#039;&#039;A ordem psiquiátrica&#039;&#039;&#039;: a idade de ouro do alienismo. Rio de Janeiro: Graal, 1978.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
COSTA, Jurandir Freire. &#039;&#039;&#039;Violência e psicanálise&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Graal, 1986.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
COSTA, Jurandir Freire. &#039;&#039;&#039;História da assistência psiquiátrica no Brasil&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Garamond, 2007. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
DALGALARRONDO, Paulo. &#039;&#039;&#039;Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais&#039;&#039;&#039;. Porto Alegre: Artmed, 2018. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ENGEL, Magali. &#039;&#039;&#039;Os delírios da razão&#039;&#039;&#039;: médicos, loucos e hospícios (Rio de Janeiro, 1830-1930). Rio de Janeiro: Fiocruz, 2001&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
FOUCAULT, Michel. &#039;&#039;&#039;História da loucura na Idade Clássica&#039;&#039;&#039; (Trad, de José Teixeira Coelho Netto). São Paulo: Perspectiva, 2014.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
MELLO, Luiz Carlos. &#039;&#039;&#039;Nise da Silveira&#039;&#039;&#039;: caminhos de uma psiquiatra rebelde. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2014.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
PEREIRA, Ana Leonor; PITA, João Rui. &#039;&#039;&#039;A institucionalização da loucura em portugal&#039;&#039;&#039;. Coimbra: Estudo Geral, 1994.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
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		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1696</id>
		<title>História da loucura: da Grécia antiga à luta anti-manicomial</title>
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		<updated>2026-07-03T22:41:45Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* França */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto com finalidade didática, escrito por André Elias Morelli Ribeiro para o curso de Psicologia do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras. Seu uso é aberto, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Introdução ==&lt;br /&gt;
A história da loucura é, ao mesmo tempo, uma narrativa sobre o modo como diferentes sociedades compreenderam a mente humana e uma reflexão sobre os mecanismos de poder que moldaram práticas de exclusão, cuidado e resistência vinculados às diferentes formas que diferentes grupos humanos entenderam como loucura ou algo similar, conforme uma visão ampliada contemporânea. Este material inicia na Grécia antiga e chega até o movimento antimanicomial no Brasil e, ao longo deste trajeto, pode-se observar como a loucura foi interpretada ora como intervenção divina, ora como desvio moral, ora como doença fisiológica, ora como ameaça social. Cada época construiu suas próprias respostas àquilo que considerou loucura que variaram entre a integração comunitária, o confinamento, o tratamento brutal e a busca por tratamentos médicos ou espirituais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, a trajetória seguiu de perto os modelos europeus. Do Hospício de Pedro II às colônias agrícolas, passando pela gestão de Juliano Moreira, a psiquiatria nacional oscilou entre avanços humanitários e práticas de exclusão. O período Vargas e o Estado Novo intensificaram o encarceramento, transformando hospitais em verdadeiros campos de concentração administrativos. As décadas seguintes viram a adoção de terapias brutais, como eletrochoques e lobotomias, mas também o surgimento de movimentos de resistência, como o trabalho de Nise da Silveira, que introduziu a arte e o afeto como caminhos de cura, ou a emergência de questionamentos ao modelo psiquátrico manicomial. A partir dos anos 1960, a privatização da assistência psiquiátrica gerou a chamada “Indústria da Loucura”, marcada por internações lucrativas e violações sistemáticas de direitos humanos que marcaram profundamente a forma como se entende a loucura contemporaneamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em síntese, o percurso histórico apresentado aqui mostra que a loucura nunca foi apenas um fenômeno clínico mas, antes, um espelho das sociedades, revelando seus medos, suas crenças e suas formas de organizar o convívio humano. De sagrada a temida, de medicalizada a mercantilizada, apresenta-se e se discute como surgiram vozes e práticas que reivindicaram humanidade e liberdade para os considerados loucos.&lt;br /&gt;
== As Loucuras no Mundo Antigo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Grécia antiga ===&lt;br /&gt;
Na Grécia antiga, em certo momento a loucura era considerada uma intervenção dos deuses e, como os gregos era politeístas, a varidade de formas de loucura e os modos de intervenção também era bem grande. A loucura poderia ser vista, por exemplo, como uma punição. É o caso do herói Ajax, filho de Telamão. Após a morte de Aquiles, a armadura do herói foi dada a Odisseu, e a afronta levou Ajax a um estado de fúria e ressentimento. A deusa Atena, intervindo em favor de Odisseu para proteger os Aqueus da vingança de Ajax, lançou sobre ele uma cegueira mental. Tomado pela loucura, Ajax massacrou o gado de guerra que havia sido capturado, acreditando que estava matando os líderes aqueus, incluindo Odisseu e Agamenon. Ao recobrar a sanidade e perceber seu ato vergonhoso, cometeu suicídio devido à humilhação. Essa cena ilustra a loucura como uma intervenção divina direta na forma de loucura poderia ser vista como destrutiva e extremamente negativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em outros episódios da mitologia grega, a loucura surge como uma consequência direta de traumas e da perseguição implacável por vingança. Um exemplo é o de Orestes que, após assassinar sua mãe, Clitemnestra para vingar a morte de seu pai, Agamenon, passa a ser atormentado pelas Erínias. Essas divindades da vingança, também conhecidas como Fúrias, levaram o herói a um estado de delírio e desespero profundo, personificando a tortura psicológica e a perda da razão como uma forma de acerto de contas espiritual e moral pelo matricídio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura não era unicamente um flagelo ou uma punição. Os gregos  viam a mania, um termo que hoje engloba a loucura, em uma perspectiva dual. Na sua manifestação mais elevada, era considerada uma benção ou inspiração divina. Essa visão positiva estava profundamente ligada ao culto de Dionísio, o deus do vinho, do teatro e do êxtase. Nos rituais dionisíacos, as bacantes e outros seguidores buscavam o êxtase, que é, literalmente, &amp;quot;sair de si&amp;quot;, por meio da dança frenética, música e consumo de vinho, o que era percebido como um estado de comunhão direta e inspirada com a divindade. Longe de ser destrutiva, essa forma de loucura era vista como uma fonte de criatividade, revelação e poder, sendo um caminho para a verdade profética e como expressão artística ligada a Dionísio. Este conceito de mania inspirada também se estendia a outros domínios, como a profecia dos oráculos, que eram vinculados à adoração ao deus Apolo, e mesmo a poesia, onde a perda temporária da razão humana era interpretada como a mente sendo tomada por uma força divina que trazia algum tipo de inspiração superior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em certo momento, ainda na Grécia antiga, as ideias sobre a loucura - ou algo que pareça loucura aos olhos contemporâneos - foi modificada graças a Hipócrates, o pai da medicina. A visão de [[Hipócrates]] marcou uma transição crucial para o entendimento da loucura na Grécia Antiga, pois afastou a loucura das concepções divinas e sobrenaturais para uma explicação puramente fisiológica e natural. Ele desenvolveu a [[Teoria dos Quatro Humores]], que se tornou o pilar da medicina ocidental por séculos. Segundo essa teoria, o corpo humano era composto por quatro fluidos essenciais (ou humores), que são sangue, fleuma, bile amarela e bile negra. A saúde mental e física dependia do equilíbrio harmonioso desses humores. A loucura, ou qualquer doença mental, era, portanto, interpretada como o resultado de um desequilíbrio, como o excesso de bile negra causando a melancolia (depressão), ou o desarranjo da fleuma e da bile amarela, que poderiam levar a estados de mania e frenesi. Com isso, Hipócrates postulou que a loucura não era uma maldição dos deuses, mas sim uma doença com origem no corpo. Essa abordagem naturalista permitiu que a loucura passasse a ser tratada com métodos como dietas, exercícios e remédios, no lugar de rituais religiosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tradição bíblica ===&lt;br /&gt;
Na tradição bíblica, escrita em contextos e culturas não europeias, a loucura também é frequentemente retratada como uma forma de intervenção ou punição divina. Um dos episódios mais emblemáticos é a história do rei Nabucodonosor II, relatada no Livro de Daniel. De acordo com o texto, devido ao seu orgulho excessivo e sua recusa em reconhecer a soberania de Deus, o rei foi acometido por uma forma de loucura que o levou a viver como um animal, alimentando-se de ervas e deixando seus cabelos e unhas crescerem sem controle. Na psicologia moderna, esse estado em que um indivíduo acredita ter se transformado em um animal é conhecido como licantropia clínica, uma condição rara. A loucura, conforme emerge na descrição bíblica, emerge ligada à perda da razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, a tradição bíblica também apresenta um paradoxo. No Novo Testamento, cujos livros foram escritos no contexto do mundo greco-romano, o que é considerado &#039;loucura&#039; pelos homens revela-se a suprema sabedoria divina. Essa ideia é desenvolvida pelo apóstolo Paulo em sua Primeira Carta aos Coríntios. Na passagem, ele afirma: &#039;Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens&#039; (1 Coríntios 1:25). Paulo usa o termo &#039;&#039;moria&#039;&#039; (loucura, tolice) para contrastar a sabedoria humana que, na época do texto, era representada pela filosofia e retórica grega. A mensagem da cruz parecia ilógica e insensata aos olhos dos não cristãos, que debochavam do fato do messias ter sido capturado e morto pelos romanos. Assim, a loucura deixa de ser apenas uma punição para se tornar uma lente através da qual a verdadeira sabedoria, ou seja, a salvação, é revelada, invertendo a hierarquia de valores do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Pérsia ===&lt;br /&gt;
Na Pérsia, a visão da loucura e do comportamento irracional foi moldada por seu profundo dualismo religioso e, posteriormente, pelas tradições islâmicas que se seguiram à conquista árabe. O zoroastrismo, a antiga religião persa fundada por Zoroastro (Zaratustra), transformou o politeísmo em um dualismo cósmico centralizado no conflito eterno entre Ahura Mazda (Ormazd), o criador da vida, luz e verdade, e Angra Mainyu (Ahriman), a escuridão e a mentira. Neste cenário, o mundo material é o campo de batalha entre os dois. Ahriman buscava corromper tudo o que Ormazd havia criado. Embora o texto não defina a loucura diretamente, o comportamento irracional e a desrazão poderiam ser facilmente associados ao domínio de Ahriman e à mentira (&#039;&#039;druj&#039;&#039;), enquanto a sanidade e a pureza eram atributos de Ormazd. A batalha contra essa corrupção exigia que os adoradores de Ormazd permanecessem verdadeiros e evitassem poluir o fogo e a terra sagrada, indicando que a pureza mental e ritual era uma defesa contra as forças do mal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Islã ===&lt;br /&gt;
Na cultura islãmica, de forma geral e bastante resumida, o comportamento considerado irracional era frequentemente explicado pela crença nos &#039;&#039;djinn&#039;&#039;, espíritos errantes que habitavam o deserto e certos lugares considerados místicos e que podiam invadir a mente humana, causando o que a sociedade ocidental moderna chamaria de insanidade ou, talvez, distúrbio emocional. Nesses casos, o tratamento era o exorcismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na era clássica da medicina islãmica, ganhou força a tradição galênica, que atribuía as perturbações mentais a desequilíbrios nos quatro humores corporais (sangue, fleuma, bile amarela e bile negra). Médicos proeminentes rejeitaram a ideia de que a loucura fosse exclusivamente uma possessão demoníaca, tratando-a como uma patologia de base orgânica ligada ao cérebro. Avicena dedicou seções extensas a transtornos como a melancolia, o delírio e a mania. Ele descreveu detalhadamente como o excesso de bile negra afetava as faculdades cognitivas e imaginativas do cérebro, propondo tratamentos que incluíam dieta, banhos térmicos, massagens, sangrias reguladas e o uso de fitoterápicos, semelhante à tradição grega mais tardia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período medieval, o mundo islâmico desenvolveu os bimaristans (hospitais), que funcionavam como centros de tratamento médico gratuito, financiados por dotações religiosas (&#039;&#039;waqf&#039;&#039;). O objetivo era restaurar o equilíbrio do espírito e dos humores através de estímulos ambientais positivos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura também apareceu em narrativas culturais associadas aos povos, de forma a sugerir causas e curas mais mundanas. O famoso conto persa de As Mil e Uma Noites, cuja origem é indo-persa mas que foi sedimentada na cultura islãmica, relata a história do rei Shahriyar, que, convencido da inevitável traição feminina, cai em uma loucura paranóica que o leva a se casar com uma virgem todas as noites e, pela manhã, assassiná-la. Sua &amp;quot;cura&amp;quot; é alcançada através da engenhosidade e paciência humana por meio de uma dessas esposas, Scheherazade, que usa a arte de contar histórias para retardar sua execução por &amp;quot;mil e uma noites&amp;quot;, período em que sua paranoia é gradualmente desfeita. A história sugere que a narrativa e o tempo podem curar a loucura causada por trauma psicológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As Loucuras na Idade Média ==&lt;br /&gt;
A transição para a Idade Média é marcada pelo colapso do Império Romano do Ocidente (476 d.C.), que trouxe profundas transformações políticas e sociais. O fim do governo centralizado romano levou à fragmentação do poder e ao surgimento do sistema feudal, onde a administração das terras e a autoridade passaram para as mãos de senhores locais, muitos deles antigos oficiais romanos. Este período também é caracterizado por um notável declínio na vida urbana e nos grandes centros intelectuais. O colpaso das instituições romanas deu lugar à ascensão e consolidação da única instituição internacional grande e organizada que havia sobrado, a Igreja Católica, que se tornou a principal forma de organização política, social e cultural. Houve ainda uma perda gradual da tradição cultural greco-romana por diferentes razões e, consequentemente, um afastamento das explicações naturalistas de Hipócrates, com exceção do pequeno renascimento do século XII e retomadas pontuais da sabedoria grega. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a hegemonia da Igreja Católica, a loucura tendeu a ser novamente interpretada sob uma lente teológica, sendo vista como uma manifestação de forças sobrenaturais ou desvios morais. Nesse contexto, certas vezes a loucura era interpretada como a intervenção de Satanás ou como possessão demoníaca, exigindo rituais de exorcismo para a cura. Em outros momentos, era vista como uma prova espiritual enviada por Deus ou como um efeito direto do pecado na alma do indivíduo. Havia também explicações que a tratavam como uma fragilidade da vontade humana, como no caso do que chamaríamos hoje de compulsões, misturando elementos da antiga tradição grega com aspectos da teologia cristã. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Socialmente, a gestão da loucura na Idade Média também passou por diferentes fases e transformações, dependendo do local e da época. Havia casos em que os considerados loucos eram apenas torturados e trancafiados, métodos considerados eficazes para expulsão de espíritos malignos, por exemplo. Contudo, em muitos outros casos, os considerados loucos conviviam de forma mais ou menos harmoniosa com o resto da comunidade, a depender de suas capacidades e possibilidades, e certos “desvios” eram perdoados devido à sua condição peculiar, sem a necessidade imediata de uma exclusão radical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Nau dos Loucos ===&lt;br /&gt;
Um caso notável e emblemático da gestão da loucura nesse período é a [[Nau dos Loucos]] (&#039;&#039;Stultifera Navis&#039;&#039;), conforme trabalhado por [[Michel Foucault]]. Anteriormente ao modelo de exclusão-repressão que viria a se consolidar na Idade Clássica, a loucura viveu o que se pode chamar de seus &amp;quot;dias de glória&amp;quot; na transição para a Renascença. Nesse contexto, o louco poderia ser visto como um sábio, um místico, um tolo ou simplesmente um excêntrico que estava, de certa forma, integrado ao tecido social.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Nau dos Loucos, que circulavam no Vale do Rio Reno (partes da Alemanha, França Suíça e Países Baixos) simbolizava uma existência errante, onde o louco era confiado à água e ao navio para ser levado de uma cidade a outra, mantendo-o em um estado de exclusão simbólica, mas ainda assim em movimento e circulação. Para Foucault, essa experiência trágica da loucura permitia que o insano portasse uma forma de lucidez em sua insensatez, revelando verdades que a razão comum não ousava enunciar. O louco via através das ilusões mundanas, aproximando-se de uma verdade profética ou ética que seria progressivamente silenciada nos séculos seguintes pela ascensão do saber médico e da racionalidade científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Santa Dimpna e Geel ===&lt;br /&gt;
Outro acontecimento relevante da Idade Média para a compreensão da loucura é o episódio de [[Santa Dimpna]]. Nascida no século VII na Irlanda, ela era filha de um rei pagão e de uma mãe cristã devota, de quem herdou sua fé e pela qual decidiu fazer votos de castidade. Após a morte prematura da mãe, seu pai, mergulhado em um profundo luto, decidiu que Dimpna era a única mulher com beleza comparável à da falecida rainha e insistiu em se casar com a própria filha, o que seria considerado escandaloso também para aquela cultura. Horrorizada e e alvo de uma perseguição incestuosa, Dimpna fugiu da Irlanda acompanhada de seu confessor, o padre Gereberno, e de dois servos fiéis. O grupo cruzou o mar e estabeleceu-se em [[Geel]], um minúsculo vilarejo na atual Bélgica, onde Dimpna se dedicou ao cuidado dos pobres e doentes mentais. No entanto, o rei conseguiu encontrá-los e, após a recusa de Dimpna tanto em retornar para a Irlanda quanto se casar com o pai, ordenou a execução de Gereberno, enquanto ele mesmo decapitou a filha, tornando a menina de 15 anos de idade numa mártir cristã. Após sua morte, relatos de curas milagrosas de pessoas com distúrbios mentais e epilepsia começaram a ocorrer junto ao seu túmulo, o que a tornou a padroeira dos doentes mentais. Já o local converteu-se num espaço de peregrinação ligado à questão da saúde mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O legado de Santa Dimpna em Geel deu origem a um modelo para a psiquiatria moderna pois, devido à devoção e adoração à Santa Dimpna, a cidade transformou-se em um santuário onde os pacientes não eram trancafiados, mas acolhidos em lares de famílias locais como &amp;quot;hóspedes&amp;quot;. Esse sistema de cuidado comunitário e desinstitucionalização, que persiste há séculos, é considerado um dos precursores do tratamento humanizado e da reabilitação psicossocial na saúde mental contemporânea.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Idade Clássica: a nova era da loucura encarcerada ==&lt;br /&gt;
A partir do século XVII, um período em que o filósofo Michel Foucault denominou como &amp;quot;A Época Clássica&amp;quot;, a forma de entender e lidar com a loucura passa por uma nova mudança devido ao ingresso da razão como centro e alma do pensamento europeu, em substituição ao dogmatismo religioso e ao conhecimento da igreja. Esta mudança não é brusca, mas lenta e gradual, porém suas marcas serão duradouras e serão sentidas por quase toda a Europa. Para essa nova e nascente razão, a loucura seria seu oposto direto. Se o homem era definido pela sua capacidade racional e sua utilidade produtiva, o louco era, portanto, como um &amp;quot;não-homem&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a solução para a não-razão era a internação, que não buscava a cura, mas a neutralização do irracional. O silenciamento da loucura era necessário para que a ordem social pudesse florescer. Os campos e cidades deveriam ser espaços de circulação de mercadorias pelas mãos de cidadãos produtivos, e qualquer elemento que atrapalhasse essa dinâmica deveria ser guardado em instituições que funcionavam como uma guarda contra o risco social que tais pessoas ofereciam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Relatos da época descrevem cenários terríveis sobre as condições de internação dos loucos. Os internos eram frequentemente mantidos em celas úmidas e insalubres, muitas vezes acorrentados às paredes. O uso de chicotes e outras punições corporais era justificado pela crença de que o louco, por ter perdido a razão, teria a resistência física de um animal, não sentindo frio ou dor da mesma forma que uma pessoa &amp;quot;normal&amp;quot;. Além disso, as instituições funcionavam sob uma lógica de vigilância constante. Não se tratava de observar para entender a mente, mas para garantir que o corpo anormal permanecesse contido e, no máximo possível, docilizado. Foi dentro desse ambiente de absoluta degradação e mistura indiscriminada de diferentes &amp;quot;tipos&amp;quot; de desviantes que a consciência médica começou a germinar, ainda que de forma incipiente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== França ===&lt;br /&gt;
O ano de 1656 marca um divisor de águas simbólico para o modelo de confinamento asilar no mundo todo, com a criação do Hôpital Général (Hospital Geral) em Paris, por um edito real do rei Luís XIV. É importante entender que um hospital geral deste período não é como um hospital moderno, ou seja, uma instituição de saúde voltada para a compreensão da doença e a prática do tratamento e cura. Ele estava mais próximo de uma estrutura administrativa e, de certo modo, semi-judiciária. Isso ocorria porque o interesse não estava em “curar” ou “tratar” ninguém mas, antes disso, executar o interesse do Estado de &amp;quot;limpar&amp;quot; as ruas de Paris de tudo o que era considerado improdutivo ou escandaloso. Era um período de abundância material, grandes gastos estatais e de uma imensa riqueza do império colonial francês, e desvios nessa ordem eram vistos como perigosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes tais hospitais gerais eram confinados, todos juntos, grupos totalmente diferentes, tais como pobres, mendigos, desempregados, libertinos, prostitutas, alquimistas, opositores políticos e, claro, também os considerados loucos. Em suma, tratava-se de um depósito de indesejados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que começou em Paris se tornou um modelo para outros lugares sobre como fazer a gestão da miséria e da “desrazão”, num forte deslocamento do que se via na Idade Média, com muitas experiências de integração social. O louco, antes tendo algo de profético, místico ou talvez apenas uma excentricidade da vida medieval campesina, se torna uma questão político-administrativa. Essa mudança importante marca uma migração para a possibilidade de institucionalização daquilo que era considerado errante ou, de alguma forma, desagradável e, assim passível de ser alvo de uma forma de gestão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em Paris, as duas principais unidades do Hospital Geral se tornaram emblemáticas e simbólicas. A [[Salpêtrière]], que era destinada às mulheres, e o hospital [[Bicêtre]], destinado aos homens. Ambas as instituições não ofereciam qualquer forma de tratamento. Eram basicamente depósitos humanos, onde o louco poderia acabar acorrentado ao lado de criminosos, por exemplo. O critério de internação não era o diagnóstico clínico, mesmo porque simplesmente ele nem existia, mas a incapacidade de se ajustar às normas de trabalho e à moralidade da época.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Alemanha ===&lt;br /&gt;
Na Alemanha, surgiram as Zuchthäusern, que seriam as [[Casas de Correção (Zuchthäusern)|Casas de Correção]]. Cidades como Hamburgo e Bremen estabeleceram esses locais onde a loucura era tratada através do trabalho forçado. Eles acreditavam que o ócio era a raiz do mal e que o confinamento servia para reintegrar o indivíduo à lógica da produtividade. De qualquer forma, uma vez enclausurado, ele permanecia escondido da visão da população.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Inglaterra ===&lt;br /&gt;
Na Inglaterra, o sistema das Workhouses (Casas de Trabalho) cumpria um papel semelhante ao modelo alemão. No entanto, Londres já possuía o [[Bethlem Royal Hospital (Bedlam)|Bethlem Royal Hospital]], conhecido popularmente como Bedlam. No século XVII e XVIII, Bedlam se tornou um espetáculo de horror, onde o público podia pagar para observar os internos como se fossem animais em um zoológico. A loucura agora um objeto de uma forma de exibição degradante e mantida atrás de grades e ferros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Portugal ===&lt;br /&gt;
Em Portugal a gestão dos &amp;quot;desviantes&amp;quot; recaiu fortemente sobre as Santas Casas da Misericórdia. O [[Hospital Real de Todos-os-Santos]], fundado em Lisboa em 1492 e inaugurado em 1501, se tornou o epicentro do tratamento (ou confinamento) dos loucos no país. Dentro deste hospital, existiam as chamadas &amp;quot;[[Casas de Doidos]]&amp;quot;, destinados àqueles que haviam “perdido a luz da razão”. Seguindo o padrão europeu, o hospital não separava rigidamente o louco por diagnóstico. Eles dividiam espaço com indigentes e enfermos de diversas naturezas, embora as &amp;quot;casas de doidos&amp;quot; fossem áreas de maior isolamento devido à agitação dos internos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XVIII português, a internação era, acima de tudo, uma solução para a mendicância e, por vezes, para o alcoolismo. O louco oriundo de uma família com posses era mantido nas próprias casas, muitas vezes escondido em sótãos ou anexos e até mesmo acorrentados. Já o &amp;quot;louco pobre&amp;quot;, que não poderiam ser cuidados por seus familiares, acabava nos hospitais reais ou mesmo nas cadeias, a depender de uma série de fatores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Nascimento da Psiquiatria ==&lt;br /&gt;
=== Pinel e a criação da psiquiatria nosográfica ===&lt;br /&gt;
É na virada do século XVIII para o XIX que nasce a psiquiatria como um campo autônomo do saber e da prática médica. Esta mudança fundamental é protagonizada por duas figuras centrais da medicina francesa: [[Philippe Pinel]] e seu discípulo, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]]. Juntos, eles transformaram o hospital de depósito de insanos e indesejáveis em um verdadeiro hospital, em que o louco e o alienado poderiam receber um tratamento racional e científico, em substituição às correntes, à disciplina e ao silenciamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A emergência da psiquiatria como campo autônomo teve como fundamento científico inicial a observação clínica sistemática dentro do asilo. Este era concebido como um laboratório, onde o alienista poderia estudar a loucura em seu estado puro, separada das influências do mundo exterior. A principal questão científica e prática que justificava essa nova ciência era desenvolvida e aplicada de forma sistemática era a chamada nosografia ou diagnóstico. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pinel, em seu [[Traité médico-philosophique sur l&#039;aliénation mentale, ou la manie]], de 1801, classificou a loucura com base em critérios sintomatológicos, seguindo um procedimento comparativo semelhante ao das ciências naturais. O desafio central, que persistiria ao longo do século XIX, era a ambiguidade constante entre a busca por uma sede orgânica, ou seja, um “local físico-biológico” da loucura, junto da necessidade de uma regulação de caráter moral. O tratamento apoiava-se na moralidade para combater as causas que eram, elas próprias, consideradas morais, mas algo estava também no corpo do doente. Isso mostra que a nova psiquiatria de Pinel era a mistura de medicina com moralidade. Este enfoque resultou na valorização do exame clínico pelos psiquiatras francófonos, permitindo a união da observação clínica com a formulação de hipóteses.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1793, em meio ao fervor da Revolução Francesa, Philippe Pinel foi nomeado médico-chefe do Hospital de Bicêtre e, posteriormente, da Salpêtrière. O cenário que encontrou era o ápice do &amp;quot;Grande Enclausuramento&amp;quot;, ou seja, homens e mulheres amontoados nas condições já descritas, com destaque para as correntes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A intervenção de Pinel, simbolizada pelo gesto de “libertar os loucos de suas correntes”, não foi apenas um ato humanitário, mas também uma decisão de natureza epistemológica. Pinel acreditava que a loucura não era uma possessão demoníaca nem uma degeneração animal irreversível, mas uma alienação mental, em outras palavras, uma perturbação das faculdades intelectuais e afetivas que mantinha o indivíduo como se fosse &amp;quot;estrangeiro&amp;quot;, ou alienado, de si mesmo e da sociedade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O pilar para a reforma psiquiátrica proposta por Pinel era o tratamento moral, e se baseava em três pilares fundamentais. O primeiro, o isolamento terapêutico. Era necessário que o paciente ficasse separado de seu ambiente que, segundo o médico, era a fonte de sua excitação e desequilíbrio. O segundo pilar era a autoridade médica, onde este deveria atuar como um pai ao mesmo tempo severo e justo, usando a persuasão, a benevolência e, se fosse necessário, a firmeza para restaurar a razão do paciente. Por fim, a disciplina e o trabalho, com a aplicação rigorosa de horários e valorização de atividades produtivas, o que ocuparia a mente alienada e, assim, combateria a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em seus estudos, Pinel identificou quatro tipos de loucura, quais sejam, a [[melancolia]], a [[mania]], a [[demência]] e a [[idiotia]], cada uma com suas questões próprias específicas e metodologias de tratamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Esquirol e a consolidação do modelo ===&lt;br /&gt;
Se Pinel era considerado o visionário e o libertador, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]] foi o grande organizador e o clínico meticuloso. Discípulo de Pinel, Esquirol sucedeu seu mestre na Salpêtrière e deu à psiquiatria a robustez científica e administrativa de que ela necessitava. Esquirol compreendeu que a eficácia do tratamento moral dependia da arquitetura hospitalar. Para ele, o hospital não era apenas um prédio onde ocorria o tratamento, mas também um instrumento de cura. Ele desenvolveu o modelo de pavilhões, permitindo a separação dos pacientes por tipo de patologia, o que reforçou a própria ideia de diagnóstico e de avaliação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Esquirol refinou as definições clínicas de Pinel. Foi ele quem estabeleceu a distinção clássica entre alucinação (uma percepção sem objeto) e ilusão (uma percepção deformada de um objeto real), entre outros pontos que, na sua época, foram considerados avanços exemplares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Legalização da Alienação ===&lt;br /&gt;
O esforço médico, político e administrativo de Esquirol na continuação do trabalho de Pinel culminou na promulgação da lei francesa de 30 de Junho de 1838, a primeira grande legislação psiquiátrica do mundo moderno. Esta lei estabeleceu a obrigatoriedade de cada departamento francês possuir um asilo e regulamentou as condições de internação e interdição. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A princípio, embora também protegesse o alienado do arbítrio e de outras violências que poderiam ser cometidos contra os loucos nas províncias e mesmo nas periferias de Paris, a lei também deu total poder ao médico psiquiatra. Era ele quem poderia decidir quem deveria ou não ser privado de sua liberdade. Com isso, a psiquiatria tornava-se, assim, um braço do Estado na gestão da ordem social mas, ao contrário do polícia e do inquérito polícial, que exigia provas independentes e a atuação do sistema judiciário, o psiquiatra estava coberto sob o manto da ciência médica, o que dava a ele poderes gigantescos de decidir entre a alienação e a razão. Isso marcou profundamente a forma como a loucura e a saúde mental passaram a ser compreendidas e tratadas nas décadas seguintes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Emil Kraepelin e uma Nova Racionalização ===&lt;br /&gt;
Apesar da forte valorização da psiquiatria francesa na constituição da psiquiatria contemporânea, uma das principais contribuições para o ramo em sua forma atual foi empreendida por um alemão, [[Emil Kraepelin]]. No final do século XIX, a psiquiatria alemã estava dividida entre os &amp;quot;psiquistas&amp;quot;, que viam a loucura como uma doença da alma ou um mal moral, a exemplo dos franceses; e os &amp;quot;somatistas&amp;quot;, que buscavam no cérebro a origem dos sintomas das doenças mentais. Kraepelin superou esse impasse ao focar não na anatomia, mas na evolução temporal das doenças. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin passou a entender que sintomas isolados, como ouvir vozes ou acreditar ser uma personalidade histórica, não eram suficientes para definir uma doença, mas seu desenvolvimento ao longo do tempo. Com essa premissa em mãos, Kraepelin introduziu as &amp;quot;cartas diagnósticas&amp;quot; (&#039;&#039;Zählkarten&#039;&#039;), um sistema de fichamento padronizado onde se registrava a história de vida do paciente, seus antecedentes familiares, os sintomas detalhados e, por fim, o desfecho da doença. Isso transformou a clínica psiquiátrica, pois articulava neuroanatomia e psicologia experimental, já que ele fora aluno de [[Wilhelm Wundt|Wundt]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin também é considerado o pioneiro da [[Psiquiatria Transcultural]]. Visando provar que as categorias diagnósticas psiquiátricas seriam universais, ele viajou para lugares como a ilha de Java (Indonésia) em 1904 para estudar a manifestação da loucura em populações não europeias. Ele concluiu que, ainda que os conteúdos dos delírios mudassem conforme a cultura, a estrutura fundamental da loucura permanecia a mesma, o que reforçou sua tese de que eram doenças biológicas da espécie humana. Apesar disso, no final de sua vida ele se transformou um higienista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O I Congresso Internacional de Psiquiatria ===&lt;br /&gt;
Realizado em Paris em agosto de 1950, o [[I Congresso Internacional de Psiquiatria]] foi projetado especificamente para unificar, debater e institucionalizar a psiquiatria como uma disciplina médica global e autônoma. Durante o Congresso foram colocados, frente a frente, as grandes correntes que disputavam a hegemonia do entendimento da mente humana na época, a saber, as correntes psicodinâmica e a biológica. De forma menor, uma corrente social e anti-manicomial também se fez presente. O resultado do embate foi uma conciliação entre as duas maiores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um dos resultados do Congresso de 1950 foi a pressão para que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Associação Psiquiátrica Americana (APA) criassem manuais estatísticos e classificatórios unificados, o que resultou na inserção de uma seção robusta de transtornos mentais na CID-6 (Classificação Internacional de Doenças) e na publicação do primeiro [[DSM]], em 1952.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro resultado importante do evento foi a fundação da Associação Mundial de Psiquiatria ([[World Psychiatric Association (WPA)|World Psychiatric Association - WPA]]). Com isso, a psiquiatria deixou de ser um conjunto de escolas nacionais isoladas, como as escolas francesa, alemã, anglo-saxã, entre outras, para se tornar uma corporação científica internacional, com congressos periódicos, periódicos indexados e diretrizes globais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Loucura no Brasil ==&lt;br /&gt;
Até o início do século XIX, o Brasil colonial lidava com seus insanos de forma semelhante ao que ocorria na Europa. As famílias ricas mantinham seus parentes loucos em &amp;quot;quartos fortes&amp;quot;, privando-os mais ou menos da vida comunitária e familiar, a depender das circunstâncias, de forma semelhante ao que acontecia em Portugal. Já os pobres eram entregues à caridade das [[Santas Casas de Misericórdia]] ou vagavam pelas ruas, sendo ocasionalmente recolhidos a cadeias públicas quando perturbavam a ordem, indo e vindo das frágeis instituições brasileiras, sofrendo abusos e violências de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A transferência da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 gerou a necessidade de transformar a capital colonial em uma moderna metrópole europeia. Sob a influência do Iluminismo tardio e das notícias que chegavam sobre as reformas de Pinel na França, a elite médica brasileira, que havia estudado sobretudo na França e em Portugal, começou a pressionar o poder público pela criação de espaços específicos para o tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1830, a criação da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (que viria a ser a [[Academia Nacional de Medicina]]) foi o marco institucional dessa pressão. Esse movimento político funcionou. O momento decisivo ocorreu em 18 de julho de 1841, quando o Imperador D. Pedro II, em comemoração à sua coroação, assinou o decreto de fundação do primeiro hospital psiquiátrico do Brasil e da América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Hospício de Pedro II, ou o Palácio dos Loucos (1852–1889) ===&lt;br /&gt;
Inaugurado apenas em 8 de dezembro de 1852, o [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)|Hospício de Pedro II]] era gerido pela Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, que por anos geriu grande parte da loucura brasileira. Seu provedor era o médico [[José Clemente Pereira]], que era responsável por todos os aspectos da instituição, desde os médicos até os administrativos. Embora a gestão administrativa fosse religiosa, o saber médico tinha muito espaço, com nomes como [[Manoel Feliciano Pereira de Carvalho]], que tentaram implementar o &amp;quot;tratamento moral&amp;quot; inspirado em Esquirol. Apesar dos esforços, muitos relatos de abusos e de condições precárias mostravam a dificuldade em implementar um modelo brasileiro de tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a Proclamação da República em 1889, o Hospício de Pedro II foi desvinculado da Santa Casa e renomeado como [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)]]. Este foi um período de maior laicização e pela busca por um maior rigor científico, o que não aconteceu por completo, em grande parte devido à falta de profissionais adequadamente treinados para a questão. Apesar disso, o Brasil já possuía uma cátedra de psiquiatria desde 1883, ocupada por João Carlos Teixeira Brandão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diante dos altíssimos custos em manter o Hospital, surgem as colônias agrícolas como alternativa ao confinamento urbano. Em 1884, já havia sido inaugurada a [[Colônia de São Bento]] e, em 1890, a [[Colônia de Conde de Mesquita]], na Ilha do Governador. A ideia era que o trabalho na terra poderia colaborar na cura, além de os produtos deste trabalho poderiam ser consumidos no local, ajudando na manutenção dos espaços. Apesar dessas transformações e de evidentes melhorias, os relatos de época mostram que não acontecia nenhuma das duas coisas, nem produção agrícola suficiente, nem um processo terapêutico efetivo, mas entendia-se que a colônia agrícola era melhor do que o confinamento do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Era Juliano Moreira ===&lt;br /&gt;
Em 1903, o médico baiano [[Juliano Moreira]] assume a direção do Hospital Nacional de Alienados. Negro, de origem humilde e dotado de uma erudição impressionante, ele revolucionou a assistência brasileira aos alienados, sendo reconhecido internacionalmente como um dos grandes psiquiatras de seu tempo. Ele se tornaria o principal médico alienista do Brasil, tornando-se referência para todo o país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Moreira aboliu definitivamente o uso de camisas de força e as grades nas janelas, num gesto que se assemelhava àquele de Pinel, enfatizando que o hospital era um local de tratamento e cura, e não uma prisão ou um depósito de indesejados. Além disso, ele trouxe para o Brasil a nosologia de Emil Kraepelin, um psiquiatra alemão considerado o pai da psiquiatria moderna, da psicofarmacologia e da genética psiquiátrica, o que seria uma modernização do modelo francês adotado até então. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a gestão Moreira ocorreram várias mudanças. Foi criado o [[Pavilhão Bourneville]] para crianças com deficiência intelectual. Além disso, fundou-se em 1921 o [[Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro]], o primeiro do país, sob a liderança de [[Heitor Carrilho]]. Dentro dos hospitais incentivou-se a pesquisa laboratorial e anátomo-patológica, o que também abriu espaço para a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A influência e o prestígio de Juliano Moreira se espalhou pelo Brasil. Em São Paulo, destacou-se a figura de [[Franco da Rocha|Francisco Franco da Rocha]], que fundou em 1898 o [[Hospital do Juquery]]. O Juquery, como ficou conhecido, tornou-se uma &amp;quot;cidade-asilo&amp;quot;, chegando a abrigar dezenas de milhares de pacientes em um modelo que mesclava pavilhôes médicos com imensas colônias agrícolas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste período, a psiquiatria brasileira flertou intensamente com as teorias da degenerescência (de Morel e Magnan) e com a eugenia. Médicos como [[Renato Kehl]], bem como a criação da [[Liga Brasileira de Higiene Mental]] (1923), uma organização higienista fundada por [[Gustavo Riedel]], começaram a ver a loucura não apenas como um problema individual, mas como um risco biológico à raça brasileira. A higiene mental passou a atuar preventivamente em escolas e fábricas, buscando identificar &amp;quot;pré-delinquentes&amp;quot; e &amp;quot;personalidades anormais&amp;quot;. Apesar de não ter conseguido desenvolver muitas políticas efetivas, os eugenistas brasileiros eram ativos e influentes em muitos círculos decisórios importantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A criação de hospitais não se limitou a São Paulo e Rio de Janeiro. Em  1903, o governo de Minas Gerais fundou o [[Hospital Psiquiátrico de Barbacena]], que mais tarde seria palco de uma das maiores tragédias humanitárias do país. Em Pernambuco, o [[Hospital Ulysses Pernambucano]] foi fundado pelo médico de mesmo nome, que começou a desenvolver uma psiquiatria mais voltada para o social e para a prevenção no final dos anos 1920. Hospitais na Bahia, Rio Grande do Sul, entre outros, também foram criados, seguindo o pioneirismo do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Era Vargas e além: o início do encarceramento ===&lt;br /&gt;
Com a Revolução de 1930, o projeto de nação de Vargas exigia um povo saudável e produtivo, devido à visão desenvolvimentista suportada pela Aliança Liberal, que o elegeu. A loucura deixou de ser apenas uma questão de ordem pública ou um aspecto da caridade para se tornar um problema de segurança nacional e de saúde pública. Em 1941, no âmbito do Estado Novo, foi criado o [[Serviço Nacional de Doenças Mentais (SNDM)]], substituindo o antigo modelo de assistência a alienados, que era fragmentado nas diferentes províncias. Dessa maneira, Vargas criou uma diretriz federal centralizada para a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a Liga Brasileira de Higiene Mental ganhou fôlego. O foco deslocou-se do hospital para a prevenção na sociedade. A psiquiatria não deveria se limitar aos hospitais, mas também atuar na escola, na fábrica e na família, buscando limpar a nação e extirpar o que chamavam de &amp;quot;elementos degenerados&amp;quot;. O médico Gustavo Riedel e seus sucessores defendiam que o Estado deveria intervir precocemente para evitar que o &amp;quot;anormal&amp;quot; se tornasse um fardo para a máquina pública.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi durante as décadas de 1930 e 1940 que o modelo de colônia agrícola, antes visto como terapêutico e de assistência à manutenção hospitalar, atingiu proporções industriais. O que se viu em Barbacena e em instituições como o Juquery em São Paulo, foi a transformação do hospital em, praticamente, um campo de concentração administrativo. A internação não dependia mais de um diagnóstico médico rigoroso, que na prática ainda era frágil e baseado em elementos pouco científicos. Bastava ser considerado &amp;quot;socialmente inconveniente&amp;quot; para correr-se o risco de ir parar numa instituições dessas. Assim, pobres, prostitutas, homossexuais, militantes políticos e mães solteiras eram enviados para essas instituições, onde a sobrevivência era a exceção. Estima-se que, no auge do descaso, o Hospital de Barbacena registrava um número alarmante de óbitos por frio, fome e doenças evitáveis, cujos corpos eram, por vezes, vendidos para faculdades de medicina. Situações similares aconteciam em outras instituições do tipo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tratamentos Brutais e os Modos de Resistência ===&lt;br /&gt;
Para além do horror asilar, o período entre 1930 e 1950 também foi marcado pela introdução de terapias biológicas drásticas, importadas da Europa, conhecidas como [[somatoterapias]]. Com uma psicofarmacologia pouco eficaz, os médicos buscavam &amp;quot;chacoalhar&amp;quot; o organismo, produzindo nele como um choque que pudesse restaurar a razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma dessas técnicas era a [[insulinoterapia]]. Introduzida na Europa pelo médico austríaco Manfred Sakel (1900–1957) em Viena, no início dos anos 1930, representou uma das primeiras e mais invasivas formas de somatoterapia. Originalmente destinada ao tratamento da [[esquizofrenia]], a técnica consistia na administração de doses maciças de insulina no paciente, provocando um estado de hipoglicemia profunda que levava o paciente ao coma. Na volta desse estado, se esperava que o indivíduo “restaurasse” a razão por conta do choque orgânico violento que havia vivenciado. O procedimento era extremamente perigoso e estava associado a uma alta taxa de mortalidade e morbidade devido às convulsões e aos possíveis danos cerebrais. Apesar dos riscos, o método foi amplamente adotado no mundo todo, incluindo o Brasil, onde foi usado em grandes instituições de confinamento, como o Hospital Nacional de Alienados (HNA), no Hospital Juquery, entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que passou a ser muito utilizada foi a [[Eletroconvulsoterapia]], ou simplesmente o eletrochoque. Introduzido no Brasil logo após sua invenção na Itália (1938), consiste em colocar eletrodos carregados com correntes elétricas em lados opostos, na lateral da cabeça, de modo que uma forte corrente elétrica atravessasse o cérebro. A duração e a intensidade podiam variar, mas relatos de mais de trinta minutos de choques violentos não eram incomuns. Sua brutalidade era tamanha que exigia que sua vítima fosse fortemente amarrada. Tornou-se uma ferramenta onipresente nos hospitais, muitas vezes aplicada sem anestesia e como método de punição, desvirtuando sua finalidade clínica já questionável e usada, basicamente, como ferramenta de tortura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que ingressou no Brasil nesse período foi a [[lobotomia]], um procedimento cirúrgico que consistia em apenas retirar um pedaço do cérebro do paciente. Eles foram realizados em larga escala em hospitais como o Juquery e no Hospital Pedro II, buscando a docilização de pacientes crônicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em oposição à violência do isolamento oferecido por essas instituições, surge a figura de [[Nise da Silveira]]. Em 1946, após ter sido presa pelo regime de Vargas por suas inclinações políticas, Nise assumiu o Setor de Terapêutica Ocupacional do [[Centro Psiquiátrico Nacional]] (Engenho de Dentro), no Rio de Janeiro. Ela se recusou a usar eletrochoques e lobotomias, introduzindo a arte e o afeto como mediadores da cura. Ela fundou o [[Museu de Imagens do Inconsciente (MIS)|Museu de Imagens do Inconsciente]] em 1952, onde demonstrou, através das pinturas e esculturas de pacientes como [[Arthur Bispo do Rosario]], que o louco preservava uma riqueza simbólica e uma humanidade que a psiquiatria tradicional tentava apagar. Sua colaboração com [[Carl Jung]] colocou a experiência brasileira no mapa da psicologia analítica mundial, provando que o tratamento em liberdade e através da expressão criativa era viável.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Criação da Indústria da Loucura ===&lt;br /&gt;
No final da década de 1950 e início da de 1960, durante o governo de Juscelino Kubitschek e o breve período democrático posterior, o Brasil viu o surgimento de uma nova e ainda mais perversa dinâmica: a Indústria da Loucura. A assistência psiquiátrica, antes quase totalmente pública ou baseada no assistencialismo das Santas Casas, começou a ser privatizada. Com o crescimento dos institutos de previdência (IAPs), o Estado passou a pagar hospitais privados por dia de internação. Isso criou um incentivo perverso: quanto mais tempo o paciente ficasse internado e quanto menos recursos fossem gastos com ele, maior o lucro das clínicas privadas. Esse modelo, conhecido como &amp;quot;hospitalocêntrico&amp;quot;, inchou o sistema e preparou o terreno para a política de contenção social que seria radicalizada após o golpe de 1964. Foi um momento de multiplicação da brutalidade. Pouco importava a loucura ou não, o tratamento ou não, a eficácia ou não. O que importava era lucar com o dinheiro estatal por meio de um encarceramento fácil de impor e praticamente impossível de escapar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A coisa se aprofundou ainda mais com o golpe militar, que unificou em 1966 os Institutos de Aposentadoria e Pensões no INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), produzindo uma centralização gigantesca de recursos, com um modelo de privatização quase total. A psiquiatria, por ser uma especialidade cuja formação exigia baixo investimento tecnológico quando comparada a outras como a cirurgia, cardiologia ou oncologia, permitia grandes lucros com as internações de longa permanência. Assim, trancafiar e atormentar os loucos tornou-se o setor mais atraente para o empresariado da saúde.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de pessoas possivelmente diagnosticadas, o sistema era alimentado pelo encarceramento de militantes políticos, estudantes rebeldes, pessoas em situação de rua,  mendigos, homossexuais, indivíduos com comportamentos &amp;quot;desviantes&amp;quot; da moral tradicional, dependentes químicos, alcoólatras ou mesmo pessoas “problemáticas” da família, que se recusavam, por exemplo, a participar de casamentos arranjados, que denunciavam violência sexual sofrida ou eram apenas mulheres que haviam engravidado antes do casamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As instituições privadas multiplicaram-se pelo interior do país, longe dos olhos da fiscalização e dos centros urbanos. Instaladas em locais de difícil acesso, facilitava o ocultamento de violações de direitos humanos e ainda utilizava da conivência dos governos locais. As populações dessas localidades, crentes no saber médico, dificilmente desconfiavam do que poderia acontecer dentro dessas instituições e, quando vazavam denúncias, elas rapidamente podiam ser facilmente manejadas em conluio com os poderes locais. A loucura tornou-se um negócio de massa, com o abrigo precário de centenas de pessoas em galpões, onde a única &amp;quot;terapia&amp;quot; era a contenção química por sedativos baratos ou o uso indiscriminado do eletrochoque para manter a ordem além, é claro, da violência e brutalidade de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Luta Antimanicomial ==&lt;br /&gt;
No final da década de 1970, o modelo de saúde mental começou a dar sinais de exaustão, tanto financeira quanto ética. O Estado já não conseguia arcar com os custos crescentes de um sistema que só expandia o número de crônicos, e as denúncias de maus-tratos começaram a furar o bloqueio da censura, aparecendo em jornais mais prestigiados e em espaços mais amplos do debate social. O estopim para a o início do movimento da reforma psiquiátrica no Brasil começa com uma crise na [[Divisão Nacional de Saúde Mental (DINSAM)]], que havia recebido denúncias de irregularidades no Centro Psiquiátrico Pedro II, no [[Hospital Pinel]], na [[Colônia Juliano Moreira]] e no [[Manicômio Judiciário Heitor Carrilho]]. A denúncia foi acompanhada de uma greve por parte dos funcionários, que exigiam melhorias institucionais e questionavam irregularidades trabalhistas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É dessa crise que surge o [[Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM)]] que, nesse primeiro momento, estão mais preocupados com questões trabalhistas do que com o problema da própria prática psiquiátrica, que vai caracterizar parte dos movimentos antimanicomiais posteriormente. O MTSM se fortalece e consegue espaço no extremamente conservador [[V Congresso Brasileiro de Psiquiatria]], que ocorre em 1978, no que fica conhecido como “congresso da abertura”, num período também de abertura política com o iminente fim do regime militar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda em 1978, um grupo importante de intelectuais vinculados às bases teóricas do [[Movimento Antimanicomial]] participa do [[I Congresso Brasileiro de Psicanálise de Grupos e Instituições]], incluindo [[Franco Basaglia]], [[Felix Guattari]], [[Robert Castel]] e [[Erwin Goffman]], todos eles de grande inspiração e influência para o movimento antimanicomial brasileiro. No ano seguinte, o [[I Congresso Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental]] fortalece a contextação não apenas de problemas trabalhistas, mas do próprio modelo asilar e da forma como a psiquiatria intervinha e oprimia a população marginalizada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação público-privada que alimentava o modelo até então começa a ruir em 1980, com a chamada política da co-gestão interministerial. Nela, um convênio celebrado entre o Ministério da Previdência e Assistência Social com o Ministério da Saúde liquida a &amp;quot;Unidade de Serviço&amp;quot;, a política que permitia a contratação privada de serviços psiquiátricos e que representou o triunfo do público sobre o privado. Membros do MTSM passam a integrar a gestão do atendimento em saúde mental que, por dentro do aparato estatal, começam a implementar uma política de saúde pública baseada em prestação de serviços, cooperação, descentralização e regionalização, propostas que já eram defendidas pelos reformadores. Apesar desses avanços, críticos afirmam que a política de co-gestão apenas visava reformar os serviços, não atingindo o âmago da questão, que seria desconstruir o próprio paradigma psiquiátrico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo de desinstitucionalização de fato começa em 1985, ano marcado pelo fim da Ditadura Militar e pela realização de vários eventos que aprofundam o debate sobre a situação do atendimento. A [[I Conferência Nacional de Saúde Mental]] marca o início da desinstitucionalização devido aos conflitos entre o MTSM, a ABP e grupos não-organicistas que passaram a dirigir o DINSAM. Na conferência, consagrou-se uma reviravolta na perspectiva com a consolidação do lema &amp;quot;por uma sociedade sem manicômios&amp;quot;, rompendo com a lógica tanto privatista quanto estatista e questionando o próprio modelo psiquiátrico tradicional. Este passou a ser amplamente entendido como fenômeno cultural que promove o tratamento moral e o controle dos corpos, uma visão abertamente basagliana e antimanicomial. Alguns entendem que, nesse momento, a tradição anti-institucional que originou os primeiros questionamentos na década de 1970 foi restaurada e fortalecida. Após a Conferência, o próprio MTSM se renovou, se desatrelando do Estado, retomando sua independência e seu papel de transformação social.  A mudança do movimento se consolidou no [[II Congresso Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental]], quando a noção de racionalização e modernização dos serviços que havia caracterizado o período da co-gestão foi recusado em nome de uma pauta anti-institucional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em meados dos anos 1980 começam a surgir novos modelos de atenção à saúde que poderia substituir o modelo psiquiátrico. Em São Paulo é criado o primeiro [[Centro de Atenção Psicossocial (CAPS)]], em 1987. Em Santos, surge o [[Núcleo de Atenção Psicossocial (NAPS)]], em 1989. Estes serviços passaram a ser vistos como os modelos para uma contestação profunda dos manicômios, justificando seu encerramento. Já na década de 1990, o SUS introduziu mecanismos de fiscalização e auditoria que começaram a sufocar financeiramente os asilos privados que não cumpriam níveis mínimos de dignidade. Portarias históricas do Ministério da Saúde, inspiradas na [[Declaração de Caracas (1990)]], passaram a proibir a criação de novos leitos psiquiátricos asilares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após mais de uma década de tramitação e intensos debates no Congresso Nacional, como fruto dos embates históricos iniciados na crise do DINSAM e que atravessaram debates públicos extremamente imporantes, foi promulgada a Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001, que ficou conhecida como [[Lei da Reforma Psiquiátrica]] ou Lei Paulo Delgado, seu autor. Esta legislação se tornou o marco jurídico definitivo da virada assistencial no Brasil. A lei instituiu o direito do paciente de ser tratado em ambiente terapêutico o menos restritivo possível e colocou a internação psiquiátrica como último recurso possível. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para preencher o vazio deixado pelo fechamento dos grandes hospitais, o SUS estruturou a [[Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)]], formalizada na década seguinte pela Portaria nº 3.088 de 2011. A RAPS organizou o cuidado em diferentes níveis de complexidade, com os CAPS divididos nas modalidades CAPS I, II, III, CAPSi  e CAPS AD e, por fim, os [[Serviços de Residência Terapêutica (SRT)]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, a luta continua devido a retrocessos observados na segunda metade da década de 2010 e início dos anos 2020. Mudanças nas diretrizes da Política Nacional de Saúde Mental tentaram reintroduzir a centralidade do hospital psiquiátrico e incentivaram o uso de práticas baseadas no isolamento. Além disso, o governo federal passou a financiar massivamente as chamadas [[Comunidades Terapêuticas]], instituições de caráter predominantemente privado e religioso voltadas ao acolhimento de usuários de drogas, de onde emanam graves denúncias de todos os tipos de violação dos direitos humanos e que representam um evidente retrocesso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje, o campo da saúde mental no Brasil vive um embate profundo entre duas visões. De um lado, aqueles que lutam pela consolidação da RAPS, em defesa da clínica da subjetividade, da defesa dos direitos humanos, pela redução de danos e pela inserção social pelo trabalho e pela cultura. Do outro lado observa-se a persistência do &#039;&#039;lobby&#039;&#039; asilar e de setores que buscam a mercantilização do cuidado, por meio do encarceramento, da medicalização extrema do sofrimento psíquico, da higienização dos centros urbanos e do recolhimento dos indesejáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
AMARANTE, Paulo. &#039;&#039;&#039;Loucos pela vida&#039;&#039;&#039;: a trajetória da reforma psiquiátrica no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 1995.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ARBEX, Daniela. &#039;&#039;&#039;Holocausto brasileiro&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Geração Editorial, 2013.&lt;br /&gt;
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[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1695</id>
		<title>História da loucura: da Grécia antiga à luta anti-manicomial</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1695"/>
		<updated>2026-07-03T22:35:39Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* Santa Dimpna e Geel */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto com finalidade didática, escrito por André Elias Morelli Ribeiro para o curso de Psicologia do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras. Seu uso é aberto, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Introdução ==&lt;br /&gt;
A história da loucura é, ao mesmo tempo, uma narrativa sobre o modo como diferentes sociedades compreenderam a mente humana e uma reflexão sobre os mecanismos de poder que moldaram práticas de exclusão, cuidado e resistência vinculados às diferentes formas que diferentes grupos humanos entenderam como loucura ou algo similar, conforme uma visão ampliada contemporânea. Este material inicia na Grécia antiga e chega até o movimento antimanicomial no Brasil e, ao longo deste trajeto, pode-se observar como a loucura foi interpretada ora como intervenção divina, ora como desvio moral, ora como doença fisiológica, ora como ameaça social. Cada época construiu suas próprias respostas àquilo que considerou loucura que variaram entre a integração comunitária, o confinamento, o tratamento brutal e a busca por tratamentos médicos ou espirituais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, a trajetória seguiu de perto os modelos europeus. Do Hospício de Pedro II às colônias agrícolas, passando pela gestão de Juliano Moreira, a psiquiatria nacional oscilou entre avanços humanitários e práticas de exclusão. O período Vargas e o Estado Novo intensificaram o encarceramento, transformando hospitais em verdadeiros campos de concentração administrativos. As décadas seguintes viram a adoção de terapias brutais, como eletrochoques e lobotomias, mas também o surgimento de movimentos de resistência, como o trabalho de Nise da Silveira, que introduziu a arte e o afeto como caminhos de cura, ou a emergência de questionamentos ao modelo psiquátrico manicomial. A partir dos anos 1960, a privatização da assistência psiquiátrica gerou a chamada “Indústria da Loucura”, marcada por internações lucrativas e violações sistemáticas de direitos humanos que marcaram profundamente a forma como se entende a loucura contemporaneamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em síntese, o percurso histórico apresentado aqui mostra que a loucura nunca foi apenas um fenômeno clínico mas, antes, um espelho das sociedades, revelando seus medos, suas crenças e suas formas de organizar o convívio humano. De sagrada a temida, de medicalizada a mercantilizada, apresenta-se e se discute como surgiram vozes e práticas que reivindicaram humanidade e liberdade para os considerados loucos.&lt;br /&gt;
== As Loucuras no Mundo Antigo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Grécia antiga ===&lt;br /&gt;
Na Grécia antiga, em certo momento a loucura era considerada uma intervenção dos deuses e, como os gregos era politeístas, a varidade de formas de loucura e os modos de intervenção também era bem grande. A loucura poderia ser vista, por exemplo, como uma punição. É o caso do herói Ajax, filho de Telamão. Após a morte de Aquiles, a armadura do herói foi dada a Odisseu, e a afronta levou Ajax a um estado de fúria e ressentimento. A deusa Atena, intervindo em favor de Odisseu para proteger os Aqueus da vingança de Ajax, lançou sobre ele uma cegueira mental. Tomado pela loucura, Ajax massacrou o gado de guerra que havia sido capturado, acreditando que estava matando os líderes aqueus, incluindo Odisseu e Agamenon. Ao recobrar a sanidade e perceber seu ato vergonhoso, cometeu suicídio devido à humilhação. Essa cena ilustra a loucura como uma intervenção divina direta na forma de loucura poderia ser vista como destrutiva e extremamente negativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em outros episódios da mitologia grega, a loucura surge como uma consequência direta de traumas e da perseguição implacável por vingança. Um exemplo é o de Orestes que, após assassinar sua mãe, Clitemnestra para vingar a morte de seu pai, Agamenon, passa a ser atormentado pelas Erínias. Essas divindades da vingança, também conhecidas como Fúrias, levaram o herói a um estado de delírio e desespero profundo, personificando a tortura psicológica e a perda da razão como uma forma de acerto de contas espiritual e moral pelo matricídio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura não era unicamente um flagelo ou uma punição. Os gregos  viam a mania, um termo que hoje engloba a loucura, em uma perspectiva dual. Na sua manifestação mais elevada, era considerada uma benção ou inspiração divina. Essa visão positiva estava profundamente ligada ao culto de Dionísio, o deus do vinho, do teatro e do êxtase. Nos rituais dionisíacos, as bacantes e outros seguidores buscavam o êxtase, que é, literalmente, &amp;quot;sair de si&amp;quot;, por meio da dança frenética, música e consumo de vinho, o que era percebido como um estado de comunhão direta e inspirada com a divindade. Longe de ser destrutiva, essa forma de loucura era vista como uma fonte de criatividade, revelação e poder, sendo um caminho para a verdade profética e como expressão artística ligada a Dionísio. Este conceito de mania inspirada também se estendia a outros domínios, como a profecia dos oráculos, que eram vinculados à adoração ao deus Apolo, e mesmo a poesia, onde a perda temporária da razão humana era interpretada como a mente sendo tomada por uma força divina que trazia algum tipo de inspiração superior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em certo momento, ainda na Grécia antiga, as ideias sobre a loucura - ou algo que pareça loucura aos olhos contemporâneos - foi modificada graças a Hipócrates, o pai da medicina. A visão de [[Hipócrates]] marcou uma transição crucial para o entendimento da loucura na Grécia Antiga, pois afastou a loucura das concepções divinas e sobrenaturais para uma explicação puramente fisiológica e natural. Ele desenvolveu a [[Teoria dos Quatro Humores]], que se tornou o pilar da medicina ocidental por séculos. Segundo essa teoria, o corpo humano era composto por quatro fluidos essenciais (ou humores), que são sangue, fleuma, bile amarela e bile negra. A saúde mental e física dependia do equilíbrio harmonioso desses humores. A loucura, ou qualquer doença mental, era, portanto, interpretada como o resultado de um desequilíbrio, como o excesso de bile negra causando a melancolia (depressão), ou o desarranjo da fleuma e da bile amarela, que poderiam levar a estados de mania e frenesi. Com isso, Hipócrates postulou que a loucura não era uma maldição dos deuses, mas sim uma doença com origem no corpo. Essa abordagem naturalista permitiu que a loucura passasse a ser tratada com métodos como dietas, exercícios e remédios, no lugar de rituais religiosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tradição bíblica ===&lt;br /&gt;
Na tradição bíblica, escrita em contextos e culturas não europeias, a loucura também é frequentemente retratada como uma forma de intervenção ou punição divina. Um dos episódios mais emblemáticos é a história do rei Nabucodonosor II, relatada no Livro de Daniel. De acordo com o texto, devido ao seu orgulho excessivo e sua recusa em reconhecer a soberania de Deus, o rei foi acometido por uma forma de loucura que o levou a viver como um animal, alimentando-se de ervas e deixando seus cabelos e unhas crescerem sem controle. Na psicologia moderna, esse estado em que um indivíduo acredita ter se transformado em um animal é conhecido como licantropia clínica, uma condição rara. A loucura, conforme emerge na descrição bíblica, emerge ligada à perda da razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, a tradição bíblica também apresenta um paradoxo. No Novo Testamento, cujos livros foram escritos no contexto do mundo greco-romano, o que é considerado &#039;loucura&#039; pelos homens revela-se a suprema sabedoria divina. Essa ideia é desenvolvida pelo apóstolo Paulo em sua Primeira Carta aos Coríntios. Na passagem, ele afirma: &#039;Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens&#039; (1 Coríntios 1:25). Paulo usa o termo &#039;&#039;moria&#039;&#039; (loucura, tolice) para contrastar a sabedoria humana que, na época do texto, era representada pela filosofia e retórica grega. A mensagem da cruz parecia ilógica e insensata aos olhos dos não cristãos, que debochavam do fato do messias ter sido capturado e morto pelos romanos. Assim, a loucura deixa de ser apenas uma punição para se tornar uma lente através da qual a verdadeira sabedoria, ou seja, a salvação, é revelada, invertendo a hierarquia de valores do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Pérsia ===&lt;br /&gt;
Na Pérsia, a visão da loucura e do comportamento irracional foi moldada por seu profundo dualismo religioso e, posteriormente, pelas tradições islâmicas que se seguiram à conquista árabe. O zoroastrismo, a antiga religião persa fundada por Zoroastro (Zaratustra), transformou o politeísmo em um dualismo cósmico centralizado no conflito eterno entre Ahura Mazda (Ormazd), o criador da vida, luz e verdade, e Angra Mainyu (Ahriman), a escuridão e a mentira. Neste cenário, o mundo material é o campo de batalha entre os dois. Ahriman buscava corromper tudo o que Ormazd havia criado. Embora o texto não defina a loucura diretamente, o comportamento irracional e a desrazão poderiam ser facilmente associados ao domínio de Ahriman e à mentira (&#039;&#039;druj&#039;&#039;), enquanto a sanidade e a pureza eram atributos de Ormazd. A batalha contra essa corrupção exigia que os adoradores de Ormazd permanecessem verdadeiros e evitassem poluir o fogo e a terra sagrada, indicando que a pureza mental e ritual era uma defesa contra as forças do mal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Islã ===&lt;br /&gt;
Na cultura islãmica, de forma geral e bastante resumida, o comportamento considerado irracional era frequentemente explicado pela crença nos &#039;&#039;djinn&#039;&#039;, espíritos errantes que habitavam o deserto e certos lugares considerados místicos e que podiam invadir a mente humana, causando o que a sociedade ocidental moderna chamaria de insanidade ou, talvez, distúrbio emocional. Nesses casos, o tratamento era o exorcismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na era clássica da medicina islãmica, ganhou força a tradição galênica, que atribuía as perturbações mentais a desequilíbrios nos quatro humores corporais (sangue, fleuma, bile amarela e bile negra). Médicos proeminentes rejeitaram a ideia de que a loucura fosse exclusivamente uma possessão demoníaca, tratando-a como uma patologia de base orgânica ligada ao cérebro. Avicena dedicou seções extensas a transtornos como a melancolia, o delírio e a mania. Ele descreveu detalhadamente como o excesso de bile negra afetava as faculdades cognitivas e imaginativas do cérebro, propondo tratamentos que incluíam dieta, banhos térmicos, massagens, sangrias reguladas e o uso de fitoterápicos, semelhante à tradição grega mais tardia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período medieval, o mundo islâmico desenvolveu os bimaristans (hospitais), que funcionavam como centros de tratamento médico gratuito, financiados por dotações religiosas (&#039;&#039;waqf&#039;&#039;). O objetivo era restaurar o equilíbrio do espírito e dos humores através de estímulos ambientais positivos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura também apareceu em narrativas culturais associadas aos povos, de forma a sugerir causas e curas mais mundanas. O famoso conto persa de As Mil e Uma Noites, cuja origem é indo-persa mas que foi sedimentada na cultura islãmica, relata a história do rei Shahriyar, que, convencido da inevitável traição feminina, cai em uma loucura paranóica que o leva a se casar com uma virgem todas as noites e, pela manhã, assassiná-la. Sua &amp;quot;cura&amp;quot; é alcançada através da engenhosidade e paciência humana por meio de uma dessas esposas, Scheherazade, que usa a arte de contar histórias para retardar sua execução por &amp;quot;mil e uma noites&amp;quot;, período em que sua paranoia é gradualmente desfeita. A história sugere que a narrativa e o tempo podem curar a loucura causada por trauma psicológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As Loucuras na Idade Média ==&lt;br /&gt;
A transição para a Idade Média é marcada pelo colapso do Império Romano do Ocidente (476 d.C.), que trouxe profundas transformações políticas e sociais. O fim do governo centralizado romano levou à fragmentação do poder e ao surgimento do sistema feudal, onde a administração das terras e a autoridade passaram para as mãos de senhores locais, muitos deles antigos oficiais romanos. Este período também é caracterizado por um notável declínio na vida urbana e nos grandes centros intelectuais. O colpaso das instituições romanas deu lugar à ascensão e consolidação da única instituição internacional grande e organizada que havia sobrado, a Igreja Católica, que se tornou a principal forma de organização política, social e cultural. Houve ainda uma perda gradual da tradição cultural greco-romana por diferentes razões e, consequentemente, um afastamento das explicações naturalistas de Hipócrates, com exceção do pequeno renascimento do século XII e retomadas pontuais da sabedoria grega. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a hegemonia da Igreja Católica, a loucura tendeu a ser novamente interpretada sob uma lente teológica, sendo vista como uma manifestação de forças sobrenaturais ou desvios morais. Nesse contexto, certas vezes a loucura era interpretada como a intervenção de Satanás ou como possessão demoníaca, exigindo rituais de exorcismo para a cura. Em outros momentos, era vista como uma prova espiritual enviada por Deus ou como um efeito direto do pecado na alma do indivíduo. Havia também explicações que a tratavam como uma fragilidade da vontade humana, como no caso do que chamaríamos hoje de compulsões, misturando elementos da antiga tradição grega com aspectos da teologia cristã. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Socialmente, a gestão da loucura na Idade Média também passou por diferentes fases e transformações, dependendo do local e da época. Havia casos em que os considerados loucos eram apenas torturados e trancafiados, métodos considerados eficazes para expulsão de espíritos malignos, por exemplo. Contudo, em muitos outros casos, os considerados loucos conviviam de forma mais ou menos harmoniosa com o resto da comunidade, a depender de suas capacidades e possibilidades, e certos “desvios” eram perdoados devido à sua condição peculiar, sem a necessidade imediata de uma exclusão radical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Nau dos Loucos ===&lt;br /&gt;
Um caso notável e emblemático da gestão da loucura nesse período é a [[Nau dos Loucos]] (&#039;&#039;Stultifera Navis&#039;&#039;), conforme trabalhado por [[Michel Foucault]]. Anteriormente ao modelo de exclusão-repressão que viria a se consolidar na Idade Clássica, a loucura viveu o que se pode chamar de seus &amp;quot;dias de glória&amp;quot; na transição para a Renascença. Nesse contexto, o louco poderia ser visto como um sábio, um místico, um tolo ou simplesmente um excêntrico que estava, de certa forma, integrado ao tecido social.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Nau dos Loucos, que circulavam no Vale do Rio Reno (partes da Alemanha, França Suíça e Países Baixos) simbolizava uma existência errante, onde o louco era confiado à água e ao navio para ser levado de uma cidade a outra, mantendo-o em um estado de exclusão simbólica, mas ainda assim em movimento e circulação. Para Foucault, essa experiência trágica da loucura permitia que o insano portasse uma forma de lucidez em sua insensatez, revelando verdades que a razão comum não ousava enunciar. O louco via através das ilusões mundanas, aproximando-se de uma verdade profética ou ética que seria progressivamente silenciada nos séculos seguintes pela ascensão do saber médico e da racionalidade científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Santa Dimpna e Geel ===&lt;br /&gt;
Outro acontecimento relevante da Idade Média para a compreensão da loucura é o episódio de [[Santa Dimpna]]. Nascida no século VII na Irlanda, ela era filha de um rei pagão e de uma mãe cristã devota, de quem herdou sua fé e pela qual decidiu fazer votos de castidade. Após a morte prematura da mãe, seu pai, mergulhado em um profundo luto, decidiu que Dimpna era a única mulher com beleza comparável à da falecida rainha e insistiu em se casar com a própria filha, o que seria considerado escandaloso também para aquela cultura. Horrorizada e e alvo de uma perseguição incestuosa, Dimpna fugiu da Irlanda acompanhada de seu confessor, o padre Gereberno, e de dois servos fiéis. O grupo cruzou o mar e estabeleceu-se em [[Geel]], um minúsculo vilarejo na atual Bélgica, onde Dimpna se dedicou ao cuidado dos pobres e doentes mentais. No entanto, o rei conseguiu encontrá-los e, após a recusa de Dimpna tanto em retornar para a Irlanda quanto se casar com o pai, ordenou a execução de Gereberno, enquanto ele mesmo decapitou a filha, tornando a menina de 15 anos de idade numa mártir cristã. Após sua morte, relatos de curas milagrosas de pessoas com distúrbios mentais e epilepsia começaram a ocorrer junto ao seu túmulo, o que a tornou a padroeira dos doentes mentais. Já o local converteu-se num espaço de peregrinação ligado à questão da saúde mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O legado de Santa Dimpna em Geel deu origem a um modelo para a psiquiatria moderna pois, devido à devoção e adoração à Santa Dimpna, a cidade transformou-se em um santuário onde os pacientes não eram trancafiados, mas acolhidos em lares de famílias locais como &amp;quot;hóspedes&amp;quot;. Esse sistema de cuidado comunitário e desinstitucionalização, que persiste há séculos, é considerado um dos precursores do tratamento humanizado e da reabilitação psicossocial na saúde mental contemporânea.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Idade Clássica: a nova era da loucura encarcerada ==&lt;br /&gt;
A partir do século XVII, um período em que o filósofo Michel Foucault denominou como &amp;quot;A Época Clássica&amp;quot;, a forma de entender e lidar com a loucura passa por uma nova mudança devido ao ingresso da razão como centro e alma do pensamento europeu, em substituição ao dogmatismo religioso e ao conhecimento da igreja. Esta mudança não é brusca, mas lenta e gradual, porém suas marcas serão duradouras e serão sentidas por quase toda a Europa. Para essa nova e nascente razão, a loucura seria seu oposto direto. Se o homem era definido pela sua capacidade racional e sua utilidade produtiva, o louco era, portanto, como um &amp;quot;não-homem&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a solução para a não-razão era a internação, que não buscava a cura, mas a neutralização do irracional. O silenciamento da loucura era necessário para que a ordem social pudesse florescer. Os campos e cidades deveriam ser espaços de circulação de mercadorias pelas mãos de cidadãos produtivos, e qualquer elemento que atrapalhasse essa dinâmica deveria ser guardado em instituições que funcionavam como uma guarda contra o risco social que tais pessoas ofereciam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Relatos da época descrevem cenários terríveis sobre as condições de internação dos loucos. Os internos eram frequentemente mantidos em celas úmidas e insalubres, muitas vezes acorrentados às paredes. O uso de chicotes e outras punições corporais era justificado pela crença de que o louco, por ter perdido a razão, teria a resistência física de um animal, não sentindo frio ou dor da mesma forma que uma pessoa &amp;quot;normal&amp;quot;. Além disso, as instituições funcionavam sob uma lógica de vigilância constante. Não se tratava de observar para entender a mente, mas para garantir que o corpo anormal permanecesse contido e, no máximo possível, docilizado. Foi dentro desse ambiente de absoluta degradação e mistura indiscriminada de diferentes &amp;quot;tipos&amp;quot; de desviantes que a consciência médica começou a germinar, ainda que de forma incipiente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== França ===&lt;br /&gt;
O ano de 1656 marca um divisor de águas simbólico para o modelo de confinamento asilar no mundo todo, com a criação do Hôpital Général (Hospital Geral) em Paris, por um edito real do rei Luís XIV. É importante entender que um hospital geral deste período não é como um hospital moderno, ou seja, uma instituição médica e voltada para a compreensão da doença e a prática do tratamento e cura. Ele estava mais próximo de uma estrutura administrativa e, de certo modo, semi-judiciária. Isso ocorria porque o interesse não estava em “curar” ou “tratar” ninguém mas, antes disso, perseguir o interesse do Estado de &amp;quot;limpar&amp;quot; as ruas de Paris de tudo o que era considerado improdutivo ou escandaloso. Era um período de abundância material, grandes gastos estatais e de uma imensa riqueza do império colonial francês, e desvios nessa ordem eram vistos como perigosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes tais hospitais gerais eram confinados, todos juntos, grupos totalmente diferentes, tais como pobres, mendigos, desempregados, libertinos, prostitutas, alquimistas, opositores políticos e, claro, também os considerados loucos. Em suma, um depósito de indesejados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que começou em Paris se tornou um modelo para outros lugares sobre como fazer a gestão da miséria e da “desrazão”, num forte deslocamento do que se via na Idade Média. O louco, antes tendo algo de profético, místico ou talvez apenas uma excentricidade da vida medieval campesina, se torna uma questão político-administrativa. Essa mudança importante marca uma migração para a possibilidade de institucionalização daquilo que era considerado errante ou, de alguma forma, desagradável e, assim passível de ser alvo de uma forma de gestão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em Paris, as duas principais unidades do Hospital Geral se tornaram emblemáticas e simbólicas. A [[Salpêtrière]], que era destinada às mulheres, e o hospital [[Bicêtre]], destinado aos homens. Ambas as instituições não ofereciam qualquer forma de tratamento. Eram basicamente depósitos humanos, onde o louco poderia acabar acorrentado ao lado de criminosos, por exemplo. O critério de internação não era o diagnóstico clínico, mesmo porque simplesmente ele nem existia, mas a incapacidade de se ajustar às normas de trabalho e à moralidade da época.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Alemanha ===&lt;br /&gt;
Na Alemanha, surgiram as Zuchthäusern, que seriam as [[Casas de Correção (Zuchthäusern)|Casas de Correção]]. Cidades como Hamburgo e Bremen estabeleceram esses locais onde a loucura era tratada através do trabalho forçado. Eles acreditavam que o ócio era a raiz do mal e que o confinamento servia para reintegrar o indivíduo à lógica da produtividade. De qualquer forma, uma vez enclausurado, ele permanecia escondido da visão da população.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Inglaterra ===&lt;br /&gt;
Na Inglaterra, o sistema das Workhouses (Casas de Trabalho) cumpria um papel semelhante ao modelo alemão. No entanto, Londres já possuía o [[Bethlem Royal Hospital (Bedlam)|Bethlem Royal Hospital]], conhecido popularmente como Bedlam. No século XVII e XVIII, Bedlam se tornou um espetáculo de horror, onde o público podia pagar para observar os internos como se fossem animais em um zoológico. A loucura agora um objeto de uma forma de exibição degradante e mantida atrás de grades e ferros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Portugal ===&lt;br /&gt;
Em Portugal a gestão dos &amp;quot;desviantes&amp;quot; recaiu fortemente sobre as Santas Casas da Misericórdia. O [[Hospital Real de Todos-os-Santos]], fundado em Lisboa em 1492 e inaugurado em 1501, se tornou o epicentro do tratamento (ou confinamento) dos loucos no país. Dentro deste hospital, existiam as chamadas &amp;quot;[[Casas de Doidos]]&amp;quot;, destinados àqueles que haviam “perdido a luz da razão”. Seguindo o padrão europeu, o hospital não separava rigidamente o louco por diagnóstico. Eles dividiam espaço com indigentes e enfermos de diversas naturezas, embora as &amp;quot;casas de doidos&amp;quot; fossem áreas de maior isolamento devido à agitação dos internos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XVIII português, a internação era, acima de tudo, uma solução para a mendicância e, por vezes, para o alcoolismo. O louco oriundo de uma família com posses era mantido nas próprias casas, muitas vezes escondido em sótãos ou anexos e até mesmo acorrentados. Já o &amp;quot;louco pobre&amp;quot;, que não poderiam ser cuidados por seus familiares, acabava nos hospitais reais ou mesmo nas cadeias, a depender de uma série de fatores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Nascimento da Psiquiatria ==&lt;br /&gt;
=== Pinel e a criação da psiquiatria nosográfica ===&lt;br /&gt;
É na virada do século XVIII para o XIX que nasce a psiquiatria como um campo autônomo do saber e da prática médica. Esta mudança fundamental é protagonizada por duas figuras centrais da medicina francesa: [[Philippe Pinel]] e seu discípulo, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]]. Juntos, eles transformaram o hospital de depósito de insanos e indesejáveis em um verdadeiro hospital, em que o louco e o alienado poderiam receber um tratamento racional e científico, em substituição às correntes, à disciplina e ao silenciamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A emergência da psiquiatria como campo autônomo teve como fundamento científico inicial a observação clínica sistemática dentro do asilo. Este era concebido como um laboratório, onde o alienista poderia estudar a loucura em seu estado puro, separada das influências do mundo exterior. A principal questão científica e prática que justificava essa nova ciência era desenvolvida e aplicada de forma sistemática era a chamada nosografia ou diagnóstico. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pinel, em seu [[Traité médico-philosophique sur l&#039;aliénation mentale, ou la manie]], de 1801, classificou a loucura com base em critérios sintomatológicos, seguindo um procedimento comparativo semelhante ao das ciências naturais. O desafio central, que persistiria ao longo do século XIX, era a ambiguidade constante entre a busca por uma sede orgânica, ou seja, um “local físico-biológico” da loucura, junto da necessidade de uma regulação de caráter moral. O tratamento apoiava-se na moralidade para combater as causas que eram, elas próprias, consideradas morais, mas algo estava também no corpo do doente. Isso mostra que a nova psiquiatria de Pinel era a mistura de medicina com moralidade. Este enfoque resultou na valorização do exame clínico pelos psiquiatras francófonos, permitindo a união da observação clínica com a formulação de hipóteses.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1793, em meio ao fervor da Revolução Francesa, Philippe Pinel foi nomeado médico-chefe do Hospital de Bicêtre e, posteriormente, da Salpêtrière. O cenário que encontrou era o ápice do &amp;quot;Grande Enclausuramento&amp;quot;, ou seja, homens e mulheres amontoados nas condições já descritas, com destaque para as correntes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A intervenção de Pinel, simbolizada pelo gesto de “libertar os loucos de suas correntes”, não foi apenas um ato humanitário, mas também uma decisão de natureza epistemológica. Pinel acreditava que a loucura não era uma possessão demoníaca nem uma degeneração animal irreversível, mas uma alienação mental, em outras palavras, uma perturbação das faculdades intelectuais e afetivas que mantinha o indivíduo como se fosse &amp;quot;estrangeiro&amp;quot;, ou alienado, de si mesmo e da sociedade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O pilar para a reforma psiquiátrica proposta por Pinel era o tratamento moral, e se baseava em três pilares fundamentais. O primeiro, o isolamento terapêutico. Era necessário que o paciente ficasse separado de seu ambiente que, segundo o médico, era a fonte de sua excitação e desequilíbrio. O segundo pilar era a autoridade médica, onde este deveria atuar como um pai ao mesmo tempo severo e justo, usando a persuasão, a benevolência e, se fosse necessário, a firmeza para restaurar a razão do paciente. Por fim, a disciplina e o trabalho, com a aplicação rigorosa de horários e valorização de atividades produtivas, o que ocuparia a mente alienada e, assim, combateria a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em seus estudos, Pinel identificou quatro tipos de loucura, quais sejam, a [[melancolia]], a [[mania]], a [[demência]] e a [[idiotia]], cada uma com suas questões próprias específicas e metodologias de tratamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Esquirol e a consolidação do modelo ===&lt;br /&gt;
Se Pinel era considerado o visionário e o libertador, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]] foi o grande organizador e o clínico meticuloso. Discípulo de Pinel, Esquirol sucedeu seu mestre na Salpêtrière e deu à psiquiatria a robustez científica e administrativa de que ela necessitava. Esquirol compreendeu que a eficácia do tratamento moral dependia da arquitetura hospitalar. Para ele, o hospital não era apenas um prédio onde ocorria o tratamento, mas também um instrumento de cura. Ele desenvolveu o modelo de pavilhões, permitindo a separação dos pacientes por tipo de patologia, o que reforçou a própria ideia de diagnóstico e de avaliação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Esquirol refinou as definições clínicas de Pinel. Foi ele quem estabeleceu a distinção clássica entre alucinação (uma percepção sem objeto) e ilusão (uma percepção deformada de um objeto real), entre outros pontos que, na sua época, foram considerados avanços exemplares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Legalização da Alienação ===&lt;br /&gt;
O esforço médico, político e administrativo de Esquirol na continuação do trabalho de Pinel culminou na promulgação da lei francesa de 30 de Junho de 1838, a primeira grande legislação psiquiátrica do mundo moderno. Esta lei estabeleceu a obrigatoriedade de cada departamento francês possuir um asilo e regulamentou as condições de internação e interdição. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A princípio, embora também protegesse o alienado do arbítrio e de outras violências que poderiam ser cometidos contra os loucos nas províncias e mesmo nas periferias de Paris, a lei também deu total poder ao médico psiquiatra. Era ele quem poderia decidir quem deveria ou não ser privado de sua liberdade. Com isso, a psiquiatria tornava-se, assim, um braço do Estado na gestão da ordem social mas, ao contrário do polícia e do inquérito polícial, que exigia provas independentes e a atuação do sistema judiciário, o psiquiatra estava coberto sob o manto da ciência médica, o que dava a ele poderes gigantescos de decidir entre a alienação e a razão. Isso marcou profundamente a forma como a loucura e a saúde mental passaram a ser compreendidas e tratadas nas décadas seguintes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Emil Kraepelin e uma Nova Racionalização ===&lt;br /&gt;
Apesar da forte valorização da psiquiatria francesa na constituição da psiquiatria contemporânea, uma das principais contribuições para o ramo em sua forma atual foi empreendida por um alemão, [[Emil Kraepelin]]. No final do século XIX, a psiquiatria alemã estava dividida entre os &amp;quot;psiquistas&amp;quot;, que viam a loucura como uma doença da alma ou um mal moral, a exemplo dos franceses; e os &amp;quot;somatistas&amp;quot;, que buscavam no cérebro a origem dos sintomas das doenças mentais. Kraepelin superou esse impasse ao focar não na anatomia, mas na evolução temporal das doenças. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin passou a entender que sintomas isolados, como ouvir vozes ou acreditar ser uma personalidade histórica, não eram suficientes para definir uma doença, mas seu desenvolvimento ao longo do tempo. Com essa premissa em mãos, Kraepelin introduziu as &amp;quot;cartas diagnósticas&amp;quot; (&#039;&#039;Zählkarten&#039;&#039;), um sistema de fichamento padronizado onde se registrava a história de vida do paciente, seus antecedentes familiares, os sintomas detalhados e, por fim, o desfecho da doença. Isso transformou a clínica psiquiátrica, pois articulava neuroanatomia e psicologia experimental, já que ele fora aluno de [[Wilhelm Wundt|Wundt]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin também é considerado o pioneiro da [[Psiquiatria Transcultural]]. Visando provar que as categorias diagnósticas psiquiátricas seriam universais, ele viajou para lugares como a ilha de Java (Indonésia) em 1904 para estudar a manifestação da loucura em populações não europeias. Ele concluiu que, ainda que os conteúdos dos delírios mudassem conforme a cultura, a estrutura fundamental da loucura permanecia a mesma, o que reforçou sua tese de que eram doenças biológicas da espécie humana. Apesar disso, no final de sua vida ele se transformou um higienista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O I Congresso Internacional de Psiquiatria ===&lt;br /&gt;
Realizado em Paris em agosto de 1950, o [[I Congresso Internacional de Psiquiatria]] foi projetado especificamente para unificar, debater e institucionalizar a psiquiatria como uma disciplina médica global e autônoma. Durante o Congresso foram colocados, frente a frente, as grandes correntes que disputavam a hegemonia do entendimento da mente humana na época, a saber, as correntes psicodinâmica e a biológica. De forma menor, uma corrente social e anti-manicomial também se fez presente. O resultado do embate foi uma conciliação entre as duas maiores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um dos resultados do Congresso de 1950 foi a pressão para que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Associação Psiquiátrica Americana (APA) criassem manuais estatísticos e classificatórios unificados, o que resultou na inserção de uma seção robusta de transtornos mentais na CID-6 (Classificação Internacional de Doenças) e na publicação do primeiro [[DSM]], em 1952.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro resultado importante do evento foi a fundação da Associação Mundial de Psiquiatria ([[World Psychiatric Association (WPA)|World Psychiatric Association - WPA]]). Com isso, a psiquiatria deixou de ser um conjunto de escolas nacionais isoladas, como as escolas francesa, alemã, anglo-saxã, entre outras, para se tornar uma corporação científica internacional, com congressos periódicos, periódicos indexados e diretrizes globais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Loucura no Brasil ==&lt;br /&gt;
Até o início do século XIX, o Brasil colonial lidava com seus insanos de forma semelhante ao que ocorria na Europa. As famílias ricas mantinham seus parentes loucos em &amp;quot;quartos fortes&amp;quot;, privando-os mais ou menos da vida comunitária e familiar, a depender das circunstâncias, de forma semelhante ao que acontecia em Portugal. Já os pobres eram entregues à caridade das [[Santas Casas de Misericórdia]] ou vagavam pelas ruas, sendo ocasionalmente recolhidos a cadeias públicas quando perturbavam a ordem, indo e vindo das frágeis instituições brasileiras, sofrendo abusos e violências de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A transferência da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 gerou a necessidade de transformar a capital colonial em uma moderna metrópole europeia. Sob a influência do Iluminismo tardio e das notícias que chegavam sobre as reformas de Pinel na França, a elite médica brasileira, que havia estudado sobretudo na França e em Portugal, começou a pressionar o poder público pela criação de espaços específicos para o tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1830, a criação da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (que viria a ser a [[Academia Nacional de Medicina]]) foi o marco institucional dessa pressão. Esse movimento político funcionou. O momento decisivo ocorreu em 18 de julho de 1841, quando o Imperador D. Pedro II, em comemoração à sua coroação, assinou o decreto de fundação do primeiro hospital psiquiátrico do Brasil e da América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Hospício de Pedro II, ou o Palácio dos Loucos (1852–1889) ===&lt;br /&gt;
Inaugurado apenas em 8 de dezembro de 1852, o [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)|Hospício de Pedro II]] era gerido pela Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, que por anos geriu grande parte da loucura brasileira. Seu provedor era o médico [[José Clemente Pereira]], que era responsável por todos os aspectos da instituição, desde os médicos até os administrativos. Embora a gestão administrativa fosse religiosa, o saber médico tinha muito espaço, com nomes como [[Manoel Feliciano Pereira de Carvalho]], que tentaram implementar o &amp;quot;tratamento moral&amp;quot; inspirado em Esquirol. Apesar dos esforços, muitos relatos de abusos e de condições precárias mostravam a dificuldade em implementar um modelo brasileiro de tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a Proclamação da República em 1889, o Hospício de Pedro II foi desvinculado da Santa Casa e renomeado como [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)]]. Este foi um período de maior laicização e pela busca por um maior rigor científico, o que não aconteceu por completo, em grande parte devido à falta de profissionais adequadamente treinados para a questão. Apesar disso, o Brasil já possuía uma cátedra de psiquiatria desde 1883, ocupada por João Carlos Teixeira Brandão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diante dos altíssimos custos em manter o Hospital, surgem as colônias agrícolas como alternativa ao confinamento urbano. Em 1884, já havia sido inaugurada a [[Colônia de São Bento]] e, em 1890, a [[Colônia de Conde de Mesquita]], na Ilha do Governador. A ideia era que o trabalho na terra poderia colaborar na cura, além de os produtos deste trabalho poderiam ser consumidos no local, ajudando na manutenção dos espaços. Apesar dessas transformações e de evidentes melhorias, os relatos de época mostram que não acontecia nenhuma das duas coisas, nem produção agrícola suficiente, nem um processo terapêutico efetivo, mas entendia-se que a colônia agrícola era melhor do que o confinamento do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Era Juliano Moreira ===&lt;br /&gt;
Em 1903, o médico baiano [[Juliano Moreira]] assume a direção do Hospital Nacional de Alienados. Negro, de origem humilde e dotado de uma erudição impressionante, ele revolucionou a assistência brasileira aos alienados, sendo reconhecido internacionalmente como um dos grandes psiquiatras de seu tempo. Ele se tornaria o principal médico alienista do Brasil, tornando-se referência para todo o país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Moreira aboliu definitivamente o uso de camisas de força e as grades nas janelas, num gesto que se assemelhava àquele de Pinel, enfatizando que o hospital era um local de tratamento e cura, e não uma prisão ou um depósito de indesejados. Além disso, ele trouxe para o Brasil a nosologia de Emil Kraepelin, um psiquiatra alemão considerado o pai da psiquiatria moderna, da psicofarmacologia e da genética psiquiátrica, o que seria uma modernização do modelo francês adotado até então. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a gestão Moreira ocorreram várias mudanças. Foi criado o [[Pavilhão Bourneville]] para crianças com deficiência intelectual. Além disso, fundou-se em 1921 o [[Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro]], o primeiro do país, sob a liderança de [[Heitor Carrilho]]. Dentro dos hospitais incentivou-se a pesquisa laboratorial e anátomo-patológica, o que também abriu espaço para a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A influência e o prestígio de Juliano Moreira se espalhou pelo Brasil. Em São Paulo, destacou-se a figura de [[Franco da Rocha|Francisco Franco da Rocha]], que fundou em 1898 o [[Hospital do Juquery]]. O Juquery, como ficou conhecido, tornou-se uma &amp;quot;cidade-asilo&amp;quot;, chegando a abrigar dezenas de milhares de pacientes em um modelo que mesclava pavilhôes médicos com imensas colônias agrícolas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste período, a psiquiatria brasileira flertou intensamente com as teorias da degenerescência (de Morel e Magnan) e com a eugenia. Médicos como [[Renato Kehl]], bem como a criação da [[Liga Brasileira de Higiene Mental]] (1923), uma organização higienista fundada por [[Gustavo Riedel]], começaram a ver a loucura não apenas como um problema individual, mas como um risco biológico à raça brasileira. A higiene mental passou a atuar preventivamente em escolas e fábricas, buscando identificar &amp;quot;pré-delinquentes&amp;quot; e &amp;quot;personalidades anormais&amp;quot;. Apesar de não ter conseguido desenvolver muitas políticas efetivas, os eugenistas brasileiros eram ativos e influentes em muitos círculos decisórios importantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A criação de hospitais não se limitou a São Paulo e Rio de Janeiro. Em  1903, o governo de Minas Gerais fundou o [[Hospital Psiquiátrico de Barbacena]], que mais tarde seria palco de uma das maiores tragédias humanitárias do país. Em Pernambuco, o [[Hospital Ulysses Pernambucano]] foi fundado pelo médico de mesmo nome, que começou a desenvolver uma psiquiatria mais voltada para o social e para a prevenção no final dos anos 1920. Hospitais na Bahia, Rio Grande do Sul, entre outros, também foram criados, seguindo o pioneirismo do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Era Vargas e além: o início do encarceramento ===&lt;br /&gt;
Com a Revolução de 1930, o projeto de nação de Vargas exigia um povo saudável e produtivo, devido à visão desenvolvimentista suportada pela Aliança Liberal, que o elegeu. A loucura deixou de ser apenas uma questão de ordem pública ou um aspecto da caridade para se tornar um problema de segurança nacional e de saúde pública. Em 1941, no âmbito do Estado Novo, foi criado o [[Serviço Nacional de Doenças Mentais (SNDM)]], substituindo o antigo modelo de assistência a alienados, que era fragmentado nas diferentes províncias. Dessa maneira, Vargas criou uma diretriz federal centralizada para a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a Liga Brasileira de Higiene Mental ganhou fôlego. O foco deslocou-se do hospital para a prevenção na sociedade. A psiquiatria não deveria se limitar aos hospitais, mas também atuar na escola, na fábrica e na família, buscando limpar a nação e extirpar o que chamavam de &amp;quot;elementos degenerados&amp;quot;. O médico Gustavo Riedel e seus sucessores defendiam que o Estado deveria intervir precocemente para evitar que o &amp;quot;anormal&amp;quot; se tornasse um fardo para a máquina pública.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi durante as décadas de 1930 e 1940 que o modelo de colônia agrícola, antes visto como terapêutico e de assistência à manutenção hospitalar, atingiu proporções industriais. O que se viu em Barbacena e em instituições como o Juquery em São Paulo, foi a transformação do hospital em, praticamente, um campo de concentração administrativo. A internação não dependia mais de um diagnóstico médico rigoroso, que na prática ainda era frágil e baseado em elementos pouco científicos. Bastava ser considerado &amp;quot;socialmente inconveniente&amp;quot; para correr-se o risco de ir parar numa instituições dessas. Assim, pobres, prostitutas, homossexuais, militantes políticos e mães solteiras eram enviados para essas instituições, onde a sobrevivência era a exceção. Estima-se que, no auge do descaso, o Hospital de Barbacena registrava um número alarmante de óbitos por frio, fome e doenças evitáveis, cujos corpos eram, por vezes, vendidos para faculdades de medicina. Situações similares aconteciam em outras instituições do tipo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tratamentos Brutais e os Modos de Resistência ===&lt;br /&gt;
Para além do horror asilar, o período entre 1930 e 1950 também foi marcado pela introdução de terapias biológicas drásticas, importadas da Europa, conhecidas como [[somatoterapias]]. Com uma psicofarmacologia pouco eficaz, os médicos buscavam &amp;quot;chacoalhar&amp;quot; o organismo, produzindo nele como um choque que pudesse restaurar a razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma dessas técnicas era a [[insulinoterapia]]. Introduzida na Europa pelo médico austríaco Manfred Sakel (1900–1957) em Viena, no início dos anos 1930, representou uma das primeiras e mais invasivas formas de somatoterapia. Originalmente destinada ao tratamento da [[esquizofrenia]], a técnica consistia na administração de doses maciças de insulina no paciente, provocando um estado de hipoglicemia profunda que levava o paciente ao coma. Na volta desse estado, se esperava que o indivíduo “restaurasse” a razão por conta do choque orgânico violento que havia vivenciado. O procedimento era extremamente perigoso e estava associado a uma alta taxa de mortalidade e morbidade devido às convulsões e aos possíveis danos cerebrais. Apesar dos riscos, o método foi amplamente adotado no mundo todo, incluindo o Brasil, onde foi usado em grandes instituições de confinamento, como o Hospital Nacional de Alienados (HNA), no Hospital Juquery, entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que passou a ser muito utilizada foi a [[Eletroconvulsoterapia]], ou simplesmente o eletrochoque. Introduzido no Brasil logo após sua invenção na Itália (1938), consiste em colocar eletrodos carregados com correntes elétricas em lados opostos, na lateral da cabeça, de modo que uma forte corrente elétrica atravessasse o cérebro. A duração e a intensidade podiam variar, mas relatos de mais de trinta minutos de choques violentos não eram incomuns. Sua brutalidade era tamanha que exigia que sua vítima fosse fortemente amarrada. Tornou-se uma ferramenta onipresente nos hospitais, muitas vezes aplicada sem anestesia e como método de punição, desvirtuando sua finalidade clínica já questionável e usada, basicamente, como ferramenta de tortura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que ingressou no Brasil nesse período foi a [[lobotomia]], um procedimento cirúrgico que consistia em apenas retirar um pedaço do cérebro do paciente. Eles foram realizados em larga escala em hospitais como o Juquery e no Hospital Pedro II, buscando a docilização de pacientes crônicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em oposição à violência do isolamento oferecido por essas instituições, surge a figura de [[Nise da Silveira]]. Em 1946, após ter sido presa pelo regime de Vargas por suas inclinações políticas, Nise assumiu o Setor de Terapêutica Ocupacional do [[Centro Psiquiátrico Nacional]] (Engenho de Dentro), no Rio de Janeiro. Ela se recusou a usar eletrochoques e lobotomias, introduzindo a arte e o afeto como mediadores da cura. Ela fundou o [[Museu de Imagens do Inconsciente (MIS)|Museu de Imagens do Inconsciente]] em 1952, onde demonstrou, através das pinturas e esculturas de pacientes como [[Arthur Bispo do Rosario]], que o louco preservava uma riqueza simbólica e uma humanidade que a psiquiatria tradicional tentava apagar. Sua colaboração com [[Carl Jung]] colocou a experiência brasileira no mapa da psicologia analítica mundial, provando que o tratamento em liberdade e através da expressão criativa era viável.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Criação da Indústria da Loucura ===&lt;br /&gt;
No final da década de 1950 e início da de 1960, durante o governo de Juscelino Kubitschek e o breve período democrático posterior, o Brasil viu o surgimento de uma nova e ainda mais perversa dinâmica: a Indústria da Loucura. A assistência psiquiátrica, antes quase totalmente pública ou baseada no assistencialismo das Santas Casas, começou a ser privatizada. Com o crescimento dos institutos de previdência (IAPs), o Estado passou a pagar hospitais privados por dia de internação. Isso criou um incentivo perverso: quanto mais tempo o paciente ficasse internado e quanto menos recursos fossem gastos com ele, maior o lucro das clínicas privadas. Esse modelo, conhecido como &amp;quot;hospitalocêntrico&amp;quot;, inchou o sistema e preparou o terreno para a política de contenção social que seria radicalizada após o golpe de 1964. Foi um momento de multiplicação da brutalidade. Pouco importava a loucura ou não, o tratamento ou não, a eficácia ou não. O que importava era lucar com o dinheiro estatal por meio de um encarceramento fácil de impor e praticamente impossível de escapar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A coisa se aprofundou ainda mais com o golpe militar, que unificou em 1966 os Institutos de Aposentadoria e Pensões no INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), produzindo uma centralização gigantesca de recursos, com um modelo de privatização quase total. A psiquiatria, por ser uma especialidade cuja formação exigia baixo investimento tecnológico quando comparada a outras como a cirurgia, cardiologia ou oncologia, permitia grandes lucros com as internações de longa permanência. Assim, trancafiar e atormentar os loucos tornou-se o setor mais atraente para o empresariado da saúde.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de pessoas possivelmente diagnosticadas, o sistema era alimentado pelo encarceramento de militantes políticos, estudantes rebeldes, pessoas em situação de rua,  mendigos, homossexuais, indivíduos com comportamentos &amp;quot;desviantes&amp;quot; da moral tradicional, dependentes químicos, alcoólatras ou mesmo pessoas “problemáticas” da família, que se recusavam, por exemplo, a participar de casamentos arranjados, que denunciavam violência sexual sofrida ou eram apenas mulheres que haviam engravidado antes do casamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As instituições privadas multiplicaram-se pelo interior do país, longe dos olhos da fiscalização e dos centros urbanos. Instaladas em locais de difícil acesso, facilitava o ocultamento de violações de direitos humanos e ainda utilizava da conivência dos governos locais. As populações dessas localidades, crentes no saber médico, dificilmente desconfiavam do que poderia acontecer dentro dessas instituições e, quando vazavam denúncias, elas rapidamente podiam ser facilmente manejadas em conluio com os poderes locais. A loucura tornou-se um negócio de massa, com o abrigo precário de centenas de pessoas em galpões, onde a única &amp;quot;terapia&amp;quot; era a contenção química por sedativos baratos ou o uso indiscriminado do eletrochoque para manter a ordem além, é claro, da violência e brutalidade de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Luta Antimanicomial ==&lt;br /&gt;
No final da década de 1970, o modelo de saúde mental começou a dar sinais de exaustão, tanto financeira quanto ética. O Estado já não conseguia arcar com os custos crescentes de um sistema que só expandia o número de crônicos, e as denúncias de maus-tratos começaram a furar o bloqueio da censura, aparecendo em jornais mais prestigiados e em espaços mais amplos do debate social. O estopim para a o início do movimento da reforma psiquiátrica no Brasil começa com uma crise na [[Divisão Nacional de Saúde Mental (DINSAM)]], que havia recebido denúncias de irregularidades no Centro Psiquiátrico Pedro II, no [[Hospital Pinel]], na [[Colônia Juliano Moreira]] e no [[Manicômio Judiciário Heitor Carrilho]]. A denúncia foi acompanhada de uma greve por parte dos funcionários, que exigiam melhorias institucionais e questionavam irregularidades trabalhistas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É dessa crise que surge o [[Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM)]] que, nesse primeiro momento, estão mais preocupados com questões trabalhistas do que com o problema da própria prática psiquiátrica, que vai caracterizar parte dos movimentos antimanicomiais posteriormente. O MTSM se fortalece e consegue espaço no extremamente conservador [[V Congresso Brasileiro de Psiquiatria]], que ocorre em 1978, no que fica conhecido como “congresso da abertura”, num período também de abertura política com o iminente fim do regime militar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda em 1978, um grupo importante de intelectuais vinculados às bases teóricas do [[Movimento Antimanicomial]] participa do [[I Congresso Brasileiro de Psicanálise de Grupos e Instituições]], incluindo [[Franco Basaglia]], [[Felix Guattari]], [[Robert Castel]] e [[Erwin Goffman]], todos eles de grande inspiração e influência para o movimento antimanicomial brasileiro. No ano seguinte, o [[I Congresso Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental]] fortalece a contextação não apenas de problemas trabalhistas, mas do próprio modelo asilar e da forma como a psiquiatria intervinha e oprimia a população marginalizada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação público-privada que alimentava o modelo até então começa a ruir em 1980, com a chamada política da co-gestão interministerial. Nela, um convênio celebrado entre o Ministério da Previdência e Assistência Social com o Ministério da Saúde liquida a &amp;quot;Unidade de Serviço&amp;quot;, a política que permitia a contratação privada de serviços psiquiátricos e que representou o triunfo do público sobre o privado. Membros do MTSM passam a integrar a gestão do atendimento em saúde mental que, por dentro do aparato estatal, começam a implementar uma política de saúde pública baseada em prestação de serviços, cooperação, descentralização e regionalização, propostas que já eram defendidas pelos reformadores. Apesar desses avanços, críticos afirmam que a política de co-gestão apenas visava reformar os serviços, não atingindo o âmago da questão, que seria desconstruir o próprio paradigma psiquiátrico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo de desinstitucionalização de fato começa em 1985, ano marcado pelo fim da Ditadura Militar e pela realização de vários eventos que aprofundam o debate sobre a situação do atendimento. A [[I Conferência Nacional de Saúde Mental]] marca o início da desinstitucionalização devido aos conflitos entre o MTSM, a ABP e grupos não-organicistas que passaram a dirigir o DINSAM. Na conferência, consagrou-se uma reviravolta na perspectiva com a consolidação do lema &amp;quot;por uma sociedade sem manicômios&amp;quot;, rompendo com a lógica tanto privatista quanto estatista e questionando o próprio modelo psiquiátrico tradicional. Este passou a ser amplamente entendido como fenômeno cultural que promove o tratamento moral e o controle dos corpos, uma visão abertamente basagliana e antimanicomial. Alguns entendem que, nesse momento, a tradição anti-institucional que originou os primeiros questionamentos na década de 1970 foi restaurada e fortalecida. Após a Conferência, o próprio MTSM se renovou, se desatrelando do Estado, retomando sua independência e seu papel de transformação social.  A mudança do movimento se consolidou no [[II Congresso Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental]], quando a noção de racionalização e modernização dos serviços que havia caracterizado o período da co-gestão foi recusado em nome de uma pauta anti-institucional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em meados dos anos 1980 começam a surgir novos modelos de atenção à saúde que poderia substituir o modelo psiquiátrico. Em São Paulo é criado o primeiro [[Centro de Atenção Psicossocial (CAPS)]], em 1987. Em Santos, surge o [[Núcleo de Atenção Psicossocial (NAPS)]], em 1989. Estes serviços passaram a ser vistos como os modelos para uma contestação profunda dos manicômios, justificando seu encerramento. Já na década de 1990, o SUS introduziu mecanismos de fiscalização e auditoria que começaram a sufocar financeiramente os asilos privados que não cumpriam níveis mínimos de dignidade. Portarias históricas do Ministério da Saúde, inspiradas na [[Declaração de Caracas (1990)]], passaram a proibir a criação de novos leitos psiquiátricos asilares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após mais de uma década de tramitação e intensos debates no Congresso Nacional, como fruto dos embates históricos iniciados na crise do DINSAM e que atravessaram debates públicos extremamente imporantes, foi promulgada a Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001, que ficou conhecida como [[Lei da Reforma Psiquiátrica]] ou Lei Paulo Delgado, seu autor. Esta legislação se tornou o marco jurídico definitivo da virada assistencial no Brasil. A lei instituiu o direito do paciente de ser tratado em ambiente terapêutico o menos restritivo possível e colocou a internação psiquiátrica como último recurso possível. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para preencher o vazio deixado pelo fechamento dos grandes hospitais, o SUS estruturou a [[Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)]], formalizada na década seguinte pela Portaria nº 3.088 de 2011. A RAPS organizou o cuidado em diferentes níveis de complexidade, com os CAPS divididos nas modalidades CAPS I, II, III, CAPSi  e CAPS AD e, por fim, os [[Serviços de Residência Terapêutica (SRT)]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, a luta continua devido a retrocessos observados na segunda metade da década de 2010 e início dos anos 2020. Mudanças nas diretrizes da Política Nacional de Saúde Mental tentaram reintroduzir a centralidade do hospital psiquiátrico e incentivaram o uso de práticas baseadas no isolamento. Além disso, o governo federal passou a financiar massivamente as chamadas [[Comunidades Terapêuticas]], instituições de caráter predominantemente privado e religioso voltadas ao acolhimento de usuários de drogas, de onde emanam graves denúncias de todos os tipos de violação dos direitos humanos e que representam um evidente retrocesso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje, o campo da saúde mental no Brasil vive um embate profundo entre duas visões. De um lado, aqueles que lutam pela consolidação da RAPS, em defesa da clínica da subjetividade, da defesa dos direitos humanos, pela redução de danos e pela inserção social pelo trabalho e pela cultura. Do outro lado observa-se a persistência do &#039;&#039;lobby&#039;&#039; asilar e de setores que buscam a mercantilização do cuidado, por meio do encarceramento, da medicalização extrema do sofrimento psíquico, da higienização dos centros urbanos e do recolhimento dos indesejáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1694</id>
		<title>História da loucura: da Grécia antiga à luta anti-manicomial</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1694"/>
		<updated>2026-07-03T22:23:06Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* As Loucuras na Idade Média */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto com finalidade didática, escrito por André Elias Morelli Ribeiro para o curso de Psicologia do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras. Seu uso é aberto, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Introdução ==&lt;br /&gt;
A história da loucura é, ao mesmo tempo, uma narrativa sobre o modo como diferentes sociedades compreenderam a mente humana e uma reflexão sobre os mecanismos de poder que moldaram práticas de exclusão, cuidado e resistência vinculados às diferentes formas que diferentes grupos humanos entenderam como loucura ou algo similar, conforme uma visão ampliada contemporânea. Este material inicia na Grécia antiga e chega até o movimento antimanicomial no Brasil e, ao longo deste trajeto, pode-se observar como a loucura foi interpretada ora como intervenção divina, ora como desvio moral, ora como doença fisiológica, ora como ameaça social. Cada época construiu suas próprias respostas àquilo que considerou loucura que variaram entre a integração comunitária, o confinamento, o tratamento brutal e a busca por tratamentos médicos ou espirituais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, a trajetória seguiu de perto os modelos europeus. Do Hospício de Pedro II às colônias agrícolas, passando pela gestão de Juliano Moreira, a psiquiatria nacional oscilou entre avanços humanitários e práticas de exclusão. O período Vargas e o Estado Novo intensificaram o encarceramento, transformando hospitais em verdadeiros campos de concentração administrativos. As décadas seguintes viram a adoção de terapias brutais, como eletrochoques e lobotomias, mas também o surgimento de movimentos de resistência, como o trabalho de Nise da Silveira, que introduziu a arte e o afeto como caminhos de cura, ou a emergência de questionamentos ao modelo psiquátrico manicomial. A partir dos anos 1960, a privatização da assistência psiquiátrica gerou a chamada “Indústria da Loucura”, marcada por internações lucrativas e violações sistemáticas de direitos humanos que marcaram profundamente a forma como se entende a loucura contemporaneamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em síntese, o percurso histórico apresentado aqui mostra que a loucura nunca foi apenas um fenômeno clínico mas, antes, um espelho das sociedades, revelando seus medos, suas crenças e suas formas de organizar o convívio humano. De sagrada a temida, de medicalizada a mercantilizada, apresenta-se e se discute como surgiram vozes e práticas que reivindicaram humanidade e liberdade para os considerados loucos.&lt;br /&gt;
== As Loucuras no Mundo Antigo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Grécia antiga ===&lt;br /&gt;
Na Grécia antiga, em certo momento a loucura era considerada uma intervenção dos deuses e, como os gregos era politeístas, a varidade de formas de loucura e os modos de intervenção também era bem grande. A loucura poderia ser vista, por exemplo, como uma punição. É o caso do herói Ajax, filho de Telamão. Após a morte de Aquiles, a armadura do herói foi dada a Odisseu, e a afronta levou Ajax a um estado de fúria e ressentimento. A deusa Atena, intervindo em favor de Odisseu para proteger os Aqueus da vingança de Ajax, lançou sobre ele uma cegueira mental. Tomado pela loucura, Ajax massacrou o gado de guerra que havia sido capturado, acreditando que estava matando os líderes aqueus, incluindo Odisseu e Agamenon. Ao recobrar a sanidade e perceber seu ato vergonhoso, cometeu suicídio devido à humilhação. Essa cena ilustra a loucura como uma intervenção divina direta na forma de loucura poderia ser vista como destrutiva e extremamente negativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em outros episódios da mitologia grega, a loucura surge como uma consequência direta de traumas e da perseguição implacável por vingança. Um exemplo é o de Orestes que, após assassinar sua mãe, Clitemnestra para vingar a morte de seu pai, Agamenon, passa a ser atormentado pelas Erínias. Essas divindades da vingança, também conhecidas como Fúrias, levaram o herói a um estado de delírio e desespero profundo, personificando a tortura psicológica e a perda da razão como uma forma de acerto de contas espiritual e moral pelo matricídio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura não era unicamente um flagelo ou uma punição. Os gregos  viam a mania, um termo que hoje engloba a loucura, em uma perspectiva dual. Na sua manifestação mais elevada, era considerada uma benção ou inspiração divina. Essa visão positiva estava profundamente ligada ao culto de Dionísio, o deus do vinho, do teatro e do êxtase. Nos rituais dionisíacos, as bacantes e outros seguidores buscavam o êxtase, que é, literalmente, &amp;quot;sair de si&amp;quot;, por meio da dança frenética, música e consumo de vinho, o que era percebido como um estado de comunhão direta e inspirada com a divindade. Longe de ser destrutiva, essa forma de loucura era vista como uma fonte de criatividade, revelação e poder, sendo um caminho para a verdade profética e como expressão artística ligada a Dionísio. Este conceito de mania inspirada também se estendia a outros domínios, como a profecia dos oráculos, que eram vinculados à adoração ao deus Apolo, e mesmo a poesia, onde a perda temporária da razão humana era interpretada como a mente sendo tomada por uma força divina que trazia algum tipo de inspiração superior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em certo momento, ainda na Grécia antiga, as ideias sobre a loucura - ou algo que pareça loucura aos olhos contemporâneos - foi modificada graças a Hipócrates, o pai da medicina. A visão de [[Hipócrates]] marcou uma transição crucial para o entendimento da loucura na Grécia Antiga, pois afastou a loucura das concepções divinas e sobrenaturais para uma explicação puramente fisiológica e natural. Ele desenvolveu a [[Teoria dos Quatro Humores]], que se tornou o pilar da medicina ocidental por séculos. Segundo essa teoria, o corpo humano era composto por quatro fluidos essenciais (ou humores), que são sangue, fleuma, bile amarela e bile negra. A saúde mental e física dependia do equilíbrio harmonioso desses humores. A loucura, ou qualquer doença mental, era, portanto, interpretada como o resultado de um desequilíbrio, como o excesso de bile negra causando a melancolia (depressão), ou o desarranjo da fleuma e da bile amarela, que poderiam levar a estados de mania e frenesi. Com isso, Hipócrates postulou que a loucura não era uma maldição dos deuses, mas sim uma doença com origem no corpo. Essa abordagem naturalista permitiu que a loucura passasse a ser tratada com métodos como dietas, exercícios e remédios, no lugar de rituais religiosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tradição bíblica ===&lt;br /&gt;
Na tradição bíblica, escrita em contextos e culturas não europeias, a loucura também é frequentemente retratada como uma forma de intervenção ou punição divina. Um dos episódios mais emblemáticos é a história do rei Nabucodonosor II, relatada no Livro de Daniel. De acordo com o texto, devido ao seu orgulho excessivo e sua recusa em reconhecer a soberania de Deus, o rei foi acometido por uma forma de loucura que o levou a viver como um animal, alimentando-se de ervas e deixando seus cabelos e unhas crescerem sem controle. Na psicologia moderna, esse estado em que um indivíduo acredita ter se transformado em um animal é conhecido como licantropia clínica, uma condição rara. A loucura, conforme emerge na descrição bíblica, emerge ligada à perda da razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, a tradição bíblica também apresenta um paradoxo. No Novo Testamento, cujos livros foram escritos no contexto do mundo greco-romano, o que é considerado &#039;loucura&#039; pelos homens revela-se a suprema sabedoria divina. Essa ideia é desenvolvida pelo apóstolo Paulo em sua Primeira Carta aos Coríntios. Na passagem, ele afirma: &#039;Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens&#039; (1 Coríntios 1:25). Paulo usa o termo &#039;&#039;moria&#039;&#039; (loucura, tolice) para contrastar a sabedoria humana que, na época do texto, era representada pela filosofia e retórica grega. A mensagem da cruz parecia ilógica e insensata aos olhos dos não cristãos, que debochavam do fato do messias ter sido capturado e morto pelos romanos. Assim, a loucura deixa de ser apenas uma punição para se tornar uma lente através da qual a verdadeira sabedoria, ou seja, a salvação, é revelada, invertendo a hierarquia de valores do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Pérsia ===&lt;br /&gt;
Na Pérsia, a visão da loucura e do comportamento irracional foi moldada por seu profundo dualismo religioso e, posteriormente, pelas tradições islâmicas que se seguiram à conquista árabe. O zoroastrismo, a antiga religião persa fundada por Zoroastro (Zaratustra), transformou o politeísmo em um dualismo cósmico centralizado no conflito eterno entre Ahura Mazda (Ormazd), o criador da vida, luz e verdade, e Angra Mainyu (Ahriman), a escuridão e a mentira. Neste cenário, o mundo material é o campo de batalha entre os dois. Ahriman buscava corromper tudo o que Ormazd havia criado. Embora o texto não defina a loucura diretamente, o comportamento irracional e a desrazão poderiam ser facilmente associados ao domínio de Ahriman e à mentira (&#039;&#039;druj&#039;&#039;), enquanto a sanidade e a pureza eram atributos de Ormazd. A batalha contra essa corrupção exigia que os adoradores de Ormazd permanecessem verdadeiros e evitassem poluir o fogo e a terra sagrada, indicando que a pureza mental e ritual era uma defesa contra as forças do mal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Islã ===&lt;br /&gt;
Na cultura islãmica, de forma geral e bastante resumida, o comportamento considerado irracional era frequentemente explicado pela crença nos &#039;&#039;djinn&#039;&#039;, espíritos errantes que habitavam o deserto e certos lugares considerados místicos e que podiam invadir a mente humana, causando o que a sociedade ocidental moderna chamaria de insanidade ou, talvez, distúrbio emocional. Nesses casos, o tratamento era o exorcismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na era clássica da medicina islãmica, ganhou força a tradição galênica, que atribuía as perturbações mentais a desequilíbrios nos quatro humores corporais (sangue, fleuma, bile amarela e bile negra). Médicos proeminentes rejeitaram a ideia de que a loucura fosse exclusivamente uma possessão demoníaca, tratando-a como uma patologia de base orgânica ligada ao cérebro. Avicena dedicou seções extensas a transtornos como a melancolia, o delírio e a mania. Ele descreveu detalhadamente como o excesso de bile negra afetava as faculdades cognitivas e imaginativas do cérebro, propondo tratamentos que incluíam dieta, banhos térmicos, massagens, sangrias reguladas e o uso de fitoterápicos, semelhante à tradição grega mais tardia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período medieval, o mundo islâmico desenvolveu os bimaristans (hospitais), que funcionavam como centros de tratamento médico gratuito, financiados por dotações religiosas (&#039;&#039;waqf&#039;&#039;). O objetivo era restaurar o equilíbrio do espírito e dos humores através de estímulos ambientais positivos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura também apareceu em narrativas culturais associadas aos povos, de forma a sugerir causas e curas mais mundanas. O famoso conto persa de As Mil e Uma Noites, cuja origem é indo-persa mas que foi sedimentada na cultura islãmica, relata a história do rei Shahriyar, que, convencido da inevitável traição feminina, cai em uma loucura paranóica que o leva a se casar com uma virgem todas as noites e, pela manhã, assassiná-la. Sua &amp;quot;cura&amp;quot; é alcançada através da engenhosidade e paciência humana por meio de uma dessas esposas, Scheherazade, que usa a arte de contar histórias para retardar sua execução por &amp;quot;mil e uma noites&amp;quot;, período em que sua paranoia é gradualmente desfeita. A história sugere que a narrativa e o tempo podem curar a loucura causada por trauma psicológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As Loucuras na Idade Média ==&lt;br /&gt;
A transição para a Idade Média é marcada pelo colapso do Império Romano do Ocidente (476 d.C.), que trouxe profundas transformações políticas e sociais. O fim do governo centralizado romano levou à fragmentação do poder e ao surgimento do sistema feudal, onde a administração das terras e a autoridade passaram para as mãos de senhores locais, muitos deles antigos oficiais romanos. Este período também é caracterizado por um notável declínio na vida urbana e nos grandes centros intelectuais. O colpaso das instituições romanas deu lugar à ascensão e consolidação da única instituição internacional grande e organizada que havia sobrado, a Igreja Católica, que se tornou a principal forma de organização política, social e cultural. Houve ainda uma perda gradual da tradição cultural greco-romana por diferentes razões e, consequentemente, um afastamento das explicações naturalistas de Hipócrates, com exceção do pequeno renascimento do século XII e retomadas pontuais da sabedoria grega. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a hegemonia da Igreja Católica, a loucura tendeu a ser novamente interpretada sob uma lente teológica, sendo vista como uma manifestação de forças sobrenaturais ou desvios morais. Nesse contexto, certas vezes a loucura era interpretada como a intervenção de Satanás ou como possessão demoníaca, exigindo rituais de exorcismo para a cura. Em outros momentos, era vista como uma prova espiritual enviada por Deus ou como um efeito direto do pecado na alma do indivíduo. Havia também explicações que a tratavam como uma fragilidade da vontade humana, como no caso do que chamaríamos hoje de compulsões, misturando elementos da antiga tradição grega com aspectos da teologia cristã. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Socialmente, a gestão da loucura na Idade Média também passou por diferentes fases e transformações, dependendo do local e da época. Havia casos em que os considerados loucos eram apenas torturados e trancafiados, métodos considerados eficazes para expulsão de espíritos malignos, por exemplo. Contudo, em muitos outros casos, os considerados loucos conviviam de forma mais ou menos harmoniosa com o resto da comunidade, a depender de suas capacidades e possibilidades, e certos “desvios” eram perdoados devido à sua condição peculiar, sem a necessidade imediata de uma exclusão radical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Nau dos Loucos ===&lt;br /&gt;
Um caso notável e emblemático da gestão da loucura nesse período é a [[Nau dos Loucos]] (&#039;&#039;Stultifera Navis&#039;&#039;), conforme trabalhado por [[Michel Foucault]]. Anteriormente ao modelo de exclusão-repressão que viria a se consolidar na Idade Clássica, a loucura viveu o que se pode chamar de seus &amp;quot;dias de glória&amp;quot; na transição para a Renascença. Nesse contexto, o louco poderia ser visto como um sábio, um místico, um tolo ou simplesmente um excêntrico que estava, de certa forma, integrado ao tecido social.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Nau dos Loucos, que circulavam no Vale do Rio Reno (partes da Alemanha, França Suíça e Países Baixos) simbolizava uma existência errante, onde o louco era confiado à água e ao navio para ser levado de uma cidade a outra, mantendo-o em um estado de exclusão simbólica, mas ainda assim em movimento e circulação. Para Foucault, essa experiência trágica da loucura permitia que o insano portasse uma forma de lucidez em sua insensatez, revelando verdades que a razão comum não ousava enunciar. O louco via através das ilusões mundanas, aproximando-se de uma verdade profética ou ética que seria progressivamente silenciada nos séculos seguintes pela ascensão do saber médico e da racionalidade científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Santa Dimpna e Geel ===&lt;br /&gt;
Outro acontecimento relevante da Idade Média para a compreensão da loucura é o episódio de [[Santa Dimpna]]. Nascida no século VII na Irlanda, ela era filha de um rei pagão e de uma mãe cristã devota, de quem herdou sua fé e pela qual decidiu fazer votos de castidade. Após a morte prematura da mãe, seu pai, mergulhado em um profundo luto, decidiu que Dimpna era a única mulher com beleza comparável à da falecida rainha e insistiu em se casar com a própria filha, o que seria considerado escandaloso também para aquela cultura. Diante dessa perseguição incestuosa, Dimpna fugiu da Irlanda acompanhada de seu confessor, o padre Gereberno, e de dois servos fiéis. O grupo cruzou o mar e estabeleceu-se em [[Geel]], um minúsculo vilarejo na atual Bélgica, onde Dimpna se dedicou ao cuidado dos pobres e doentes mentais. No entanto, o rei conseguiu encontrá-los e, após a recusa de Dimpna tanto em retornar para a Irlanda quanto se casar com o pai, ordenou a execução de Gereberno, enquanto ele mesmo decapitou a filha, tornando a menina de 15 anos de idade numa mártir cristã. Após sua morte, relatos de curas milagrosas de pessoas com distúrbios mentais e epilepsia começaram a ocorrer junto ao seu túmulo, o que a tornou a padroeira dos doentes mentais e o local um espaço de peregrinação ligado à questão da saúde mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O legado de Santa Dimpna em Geel deu origem a um modelo para a psiquiatria moderna pois, devido à devoção e adoração à Santa Dimpna, a cidade transformou-se em um santuário onde os pacientes não eram trancafiados, mas acolhidos em lares de famílias locais como &amp;quot;hóspedes&amp;quot;. Esse sistema de cuidado comunitário e desinstitucionalização, que persiste há séculos, é considerado um dos precursores do tratamento humanizado e da reabilitação psicossocial na saúde mental contemporânea.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Idade Clássica: a nova era da loucura encarcerada ==&lt;br /&gt;
A partir do século XVII, um período em que o filósofo Michel Foucault denominou como &amp;quot;A Época Clássica&amp;quot;, a forma de entender e lidar com a loucura passa por uma nova mudança devido ao ingresso da razão como centro e alma do pensamento europeu, em substituição ao dogmatismo religioso e ao conhecimento da igreja. Esta mudança não é brusca, mas lenta e gradual, porém suas marcas serão duradouras e serão sentidas por quase toda a Europa. Para essa nova e nascente razão, a loucura seria seu oposto direto. Se o homem era definido pela sua capacidade racional e sua utilidade produtiva, o louco era, portanto, como um &amp;quot;não-homem&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a solução para a não-razão era a internação, que não buscava a cura, mas a neutralização do irracional. O silenciamento da loucura era necessário para que a ordem social pudesse florescer. Os campos e cidades deveriam ser espaços de circulação de mercadorias pelas mãos de cidadãos produtivos, e qualquer elemento que atrapalhasse essa dinâmica deveria ser guardado em instituições que funcionavam como uma guarda contra o risco social que tais pessoas ofereciam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Relatos da época descrevem cenários terríveis sobre as condições de internação dos loucos. Os internos eram frequentemente mantidos em celas úmidas e insalubres, muitas vezes acorrentados às paredes. O uso de chicotes e outras punições corporais era justificado pela crença de que o louco, por ter perdido a razão, teria a resistência física de um animal, não sentindo frio ou dor da mesma forma que uma pessoa &amp;quot;normal&amp;quot;. Além disso, as instituições funcionavam sob uma lógica de vigilância constante. Não se tratava de observar para entender a mente, mas para garantir que o corpo anormal permanecesse contido e, no máximo possível, docilizado. Foi dentro desse ambiente de absoluta degradação e mistura indiscriminada de diferentes &amp;quot;tipos&amp;quot; de desviantes que a consciência médica começou a germinar, ainda que de forma incipiente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== França ===&lt;br /&gt;
O ano de 1656 marca um divisor de águas simbólico para o modelo de confinamento asilar no mundo todo, com a criação do Hôpital Général (Hospital Geral) em Paris, por um edito real do rei Luís XIV. É importante entender que um hospital geral deste período não é como um hospital moderno, ou seja, uma instituição médica e voltada para a compreensão da doença e a prática do tratamento e cura. Ele estava mais próximo de uma estrutura administrativa e, de certo modo, semi-judiciária. Isso ocorria porque o interesse não estava em “curar” ou “tratar” ninguém mas, antes disso, perseguir o interesse do Estado de &amp;quot;limpar&amp;quot; as ruas de Paris de tudo o que era considerado improdutivo ou escandaloso. Era um período de abundância material, grandes gastos estatais e de uma imensa riqueza do império colonial francês, e desvios nessa ordem eram vistos como perigosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes tais hospitais gerais eram confinados, todos juntos, grupos totalmente diferentes, tais como pobres, mendigos, desempregados, libertinos, prostitutas, alquimistas, opositores políticos e, claro, também os considerados loucos. Em suma, um depósito de indesejados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que começou em Paris se tornou um modelo para outros lugares sobre como fazer a gestão da miséria e da “desrazão”, num forte deslocamento do que se via na Idade Média. O louco, antes tendo algo de profético, místico ou talvez apenas uma excentricidade da vida medieval campesina, se torna uma questão político-administrativa. Essa mudança importante marca uma migração para a possibilidade de institucionalização daquilo que era considerado errante ou, de alguma forma, desagradável e, assim passível de ser alvo de uma forma de gestão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em Paris, as duas principais unidades do Hospital Geral se tornaram emblemáticas e simbólicas. A [[Salpêtrière]], que era destinada às mulheres, e o hospital [[Bicêtre]], destinado aos homens. Ambas as instituições não ofereciam qualquer forma de tratamento. Eram basicamente depósitos humanos, onde o louco poderia acabar acorrentado ao lado de criminosos, por exemplo. O critério de internação não era o diagnóstico clínico, mesmo porque simplesmente ele nem existia, mas a incapacidade de se ajustar às normas de trabalho e à moralidade da época.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Alemanha ===&lt;br /&gt;
Na Alemanha, surgiram as Zuchthäusern, que seriam as [[Casas de Correção (Zuchthäusern)|Casas de Correção]]. Cidades como Hamburgo e Bremen estabeleceram esses locais onde a loucura era tratada através do trabalho forçado. Eles acreditavam que o ócio era a raiz do mal e que o confinamento servia para reintegrar o indivíduo à lógica da produtividade. De qualquer forma, uma vez enclausurado, ele permanecia escondido da visão da população.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Inglaterra ===&lt;br /&gt;
Na Inglaterra, o sistema das Workhouses (Casas de Trabalho) cumpria um papel semelhante ao modelo alemão. No entanto, Londres já possuía o [[Bethlem Royal Hospital (Bedlam)|Bethlem Royal Hospital]], conhecido popularmente como Bedlam. No século XVII e XVIII, Bedlam se tornou um espetáculo de horror, onde o público podia pagar para observar os internos como se fossem animais em um zoológico. A loucura agora um objeto de uma forma de exibição degradante e mantida atrás de grades e ferros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Portugal ===&lt;br /&gt;
Em Portugal a gestão dos &amp;quot;desviantes&amp;quot; recaiu fortemente sobre as Santas Casas da Misericórdia. O [[Hospital Real de Todos-os-Santos]], fundado em Lisboa em 1492 e inaugurado em 1501, se tornou o epicentro do tratamento (ou confinamento) dos loucos no país. Dentro deste hospital, existiam as chamadas &amp;quot;[[Casas de Doidos]]&amp;quot;, destinados àqueles que haviam “perdido a luz da razão”. Seguindo o padrão europeu, o hospital não separava rigidamente o louco por diagnóstico. Eles dividiam espaço com indigentes e enfermos de diversas naturezas, embora as &amp;quot;casas de doidos&amp;quot; fossem áreas de maior isolamento devido à agitação dos internos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XVIII português, a internação era, acima de tudo, uma solução para a mendicância e, por vezes, para o alcoolismo. O louco oriundo de uma família com posses era mantido nas próprias casas, muitas vezes escondido em sótãos ou anexos e até mesmo acorrentados. Já o &amp;quot;louco pobre&amp;quot;, que não poderiam ser cuidados por seus familiares, acabava nos hospitais reais ou mesmo nas cadeias, a depender de uma série de fatores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Nascimento da Psiquiatria ==&lt;br /&gt;
=== Pinel e a criação da psiquiatria nosográfica ===&lt;br /&gt;
É na virada do século XVIII para o XIX que nasce a psiquiatria como um campo autônomo do saber e da prática médica. Esta mudança fundamental é protagonizada por duas figuras centrais da medicina francesa: [[Philippe Pinel]] e seu discípulo, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]]. Juntos, eles transformaram o hospital de depósito de insanos e indesejáveis em um verdadeiro hospital, em que o louco e o alienado poderiam receber um tratamento racional e científico, em substituição às correntes, à disciplina e ao silenciamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A emergência da psiquiatria como campo autônomo teve como fundamento científico inicial a observação clínica sistemática dentro do asilo. Este era concebido como um laboratório, onde o alienista poderia estudar a loucura em seu estado puro, separada das influências do mundo exterior. A principal questão científica e prática que justificava essa nova ciência era desenvolvida e aplicada de forma sistemática era a chamada nosografia ou diagnóstico. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pinel, em seu [[Traité médico-philosophique sur l&#039;aliénation mentale, ou la manie]], de 1801, classificou a loucura com base em critérios sintomatológicos, seguindo um procedimento comparativo semelhante ao das ciências naturais. O desafio central, que persistiria ao longo do século XIX, era a ambiguidade constante entre a busca por uma sede orgânica, ou seja, um “local físico-biológico” da loucura, junto da necessidade de uma regulação de caráter moral. O tratamento apoiava-se na moralidade para combater as causas que eram, elas próprias, consideradas morais, mas algo estava também no corpo do doente. Isso mostra que a nova psiquiatria de Pinel era a mistura de medicina com moralidade. Este enfoque resultou na valorização do exame clínico pelos psiquiatras francófonos, permitindo a união da observação clínica com a formulação de hipóteses.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1793, em meio ao fervor da Revolução Francesa, Philippe Pinel foi nomeado médico-chefe do Hospital de Bicêtre e, posteriormente, da Salpêtrière. O cenário que encontrou era o ápice do &amp;quot;Grande Enclausuramento&amp;quot;, ou seja, homens e mulheres amontoados nas condições já descritas, com destaque para as correntes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A intervenção de Pinel, simbolizada pelo gesto de “libertar os loucos de suas correntes”, não foi apenas um ato humanitário, mas também uma decisão de natureza epistemológica. Pinel acreditava que a loucura não era uma possessão demoníaca nem uma degeneração animal irreversível, mas uma alienação mental, em outras palavras, uma perturbação das faculdades intelectuais e afetivas que mantinha o indivíduo como se fosse &amp;quot;estrangeiro&amp;quot;, ou alienado, de si mesmo e da sociedade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O pilar para a reforma psiquiátrica proposta por Pinel era o tratamento moral, e se baseava em três pilares fundamentais. O primeiro, o isolamento terapêutico. Era necessário que o paciente ficasse separado de seu ambiente que, segundo o médico, era a fonte de sua excitação e desequilíbrio. O segundo pilar era a autoridade médica, onde este deveria atuar como um pai ao mesmo tempo severo e justo, usando a persuasão, a benevolência e, se fosse necessário, a firmeza para restaurar a razão do paciente. Por fim, a disciplina e o trabalho, com a aplicação rigorosa de horários e valorização de atividades produtivas, o que ocuparia a mente alienada e, assim, combateria a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em seus estudos, Pinel identificou quatro tipos de loucura, quais sejam, a [[melancolia]], a [[mania]], a [[demência]] e a [[idiotia]], cada uma com suas questões próprias específicas e metodologias de tratamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Esquirol e a consolidação do modelo ===&lt;br /&gt;
Se Pinel era considerado o visionário e o libertador, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]] foi o grande organizador e o clínico meticuloso. Discípulo de Pinel, Esquirol sucedeu seu mestre na Salpêtrière e deu à psiquiatria a robustez científica e administrativa de que ela necessitava. Esquirol compreendeu que a eficácia do tratamento moral dependia da arquitetura hospitalar. Para ele, o hospital não era apenas um prédio onde ocorria o tratamento, mas também um instrumento de cura. Ele desenvolveu o modelo de pavilhões, permitindo a separação dos pacientes por tipo de patologia, o que reforçou a própria ideia de diagnóstico e de avaliação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Esquirol refinou as definições clínicas de Pinel. Foi ele quem estabeleceu a distinção clássica entre alucinação (uma percepção sem objeto) e ilusão (uma percepção deformada de um objeto real), entre outros pontos que, na sua época, foram considerados avanços exemplares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Legalização da Alienação ===&lt;br /&gt;
O esforço médico, político e administrativo de Esquirol na continuação do trabalho de Pinel culminou na promulgação da lei francesa de 30 de Junho de 1838, a primeira grande legislação psiquiátrica do mundo moderno. Esta lei estabeleceu a obrigatoriedade de cada departamento francês possuir um asilo e regulamentou as condições de internação e interdição. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A princípio, embora também protegesse o alienado do arbítrio e de outras violências que poderiam ser cometidos contra os loucos nas províncias e mesmo nas periferias de Paris, a lei também deu total poder ao médico psiquiatra. Era ele quem poderia decidir quem deveria ou não ser privado de sua liberdade. Com isso, a psiquiatria tornava-se, assim, um braço do Estado na gestão da ordem social mas, ao contrário do polícia e do inquérito polícial, que exigia provas independentes e a atuação do sistema judiciário, o psiquiatra estava coberto sob o manto da ciência médica, o que dava a ele poderes gigantescos de decidir entre a alienação e a razão. Isso marcou profundamente a forma como a loucura e a saúde mental passaram a ser compreendidas e tratadas nas décadas seguintes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Emil Kraepelin e uma Nova Racionalização ===&lt;br /&gt;
Apesar da forte valorização da psiquiatria francesa na constituição da psiquiatria contemporânea, uma das principais contribuições para o ramo em sua forma atual foi empreendida por um alemão, [[Emil Kraepelin]]. No final do século XIX, a psiquiatria alemã estava dividida entre os &amp;quot;psiquistas&amp;quot;, que viam a loucura como uma doença da alma ou um mal moral, a exemplo dos franceses; e os &amp;quot;somatistas&amp;quot;, que buscavam no cérebro a origem dos sintomas das doenças mentais. Kraepelin superou esse impasse ao focar não na anatomia, mas na evolução temporal das doenças. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin passou a entender que sintomas isolados, como ouvir vozes ou acreditar ser uma personalidade histórica, não eram suficientes para definir uma doença, mas seu desenvolvimento ao longo do tempo. Com essa premissa em mãos, Kraepelin introduziu as &amp;quot;cartas diagnósticas&amp;quot; (&#039;&#039;Zählkarten&#039;&#039;), um sistema de fichamento padronizado onde se registrava a história de vida do paciente, seus antecedentes familiares, os sintomas detalhados e, por fim, o desfecho da doença. Isso transformou a clínica psiquiátrica, pois articulava neuroanatomia e psicologia experimental, já que ele fora aluno de [[Wilhelm Wundt|Wundt]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin também é considerado o pioneiro da [[Psiquiatria Transcultural]]. Visando provar que as categorias diagnósticas psiquiátricas seriam universais, ele viajou para lugares como a ilha de Java (Indonésia) em 1904 para estudar a manifestação da loucura em populações não europeias. Ele concluiu que, ainda que os conteúdos dos delírios mudassem conforme a cultura, a estrutura fundamental da loucura permanecia a mesma, o que reforçou sua tese de que eram doenças biológicas da espécie humana. Apesar disso, no final de sua vida ele se transformou um higienista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O I Congresso Internacional de Psiquiatria ===&lt;br /&gt;
Realizado em Paris em agosto de 1950, o [[I Congresso Internacional de Psiquiatria]] foi projetado especificamente para unificar, debater e institucionalizar a psiquiatria como uma disciplina médica global e autônoma. Durante o Congresso foram colocados, frente a frente, as grandes correntes que disputavam a hegemonia do entendimento da mente humana na época, a saber, as correntes psicodinâmica e a biológica. De forma menor, uma corrente social e anti-manicomial também se fez presente. O resultado do embate foi uma conciliação entre as duas maiores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um dos resultados do Congresso de 1950 foi a pressão para que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Associação Psiquiátrica Americana (APA) criassem manuais estatísticos e classificatórios unificados, o que resultou na inserção de uma seção robusta de transtornos mentais na CID-6 (Classificação Internacional de Doenças) e na publicação do primeiro [[DSM]], em 1952.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro resultado importante do evento foi a fundação da Associação Mundial de Psiquiatria ([[World Psychiatric Association (WPA)|World Psychiatric Association - WPA]]). Com isso, a psiquiatria deixou de ser um conjunto de escolas nacionais isoladas, como as escolas francesa, alemã, anglo-saxã, entre outras, para se tornar uma corporação científica internacional, com congressos periódicos, periódicos indexados e diretrizes globais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Loucura no Brasil ==&lt;br /&gt;
Até o início do século XIX, o Brasil colonial lidava com seus insanos de forma semelhante ao que ocorria na Europa. As famílias ricas mantinham seus parentes loucos em &amp;quot;quartos fortes&amp;quot;, privando-os mais ou menos da vida comunitária e familiar, a depender das circunstâncias, de forma semelhante ao que acontecia em Portugal. Já os pobres eram entregues à caridade das [[Santas Casas de Misericórdia]] ou vagavam pelas ruas, sendo ocasionalmente recolhidos a cadeias públicas quando perturbavam a ordem, indo e vindo das frágeis instituições brasileiras, sofrendo abusos e violências de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A transferência da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 gerou a necessidade de transformar a capital colonial em uma moderna metrópole europeia. Sob a influência do Iluminismo tardio e das notícias que chegavam sobre as reformas de Pinel na França, a elite médica brasileira, que havia estudado sobretudo na França e em Portugal, começou a pressionar o poder público pela criação de espaços específicos para o tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1830, a criação da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (que viria a ser a [[Academia Nacional de Medicina]]) foi o marco institucional dessa pressão. Esse movimento político funcionou. O momento decisivo ocorreu em 18 de julho de 1841, quando o Imperador D. Pedro II, em comemoração à sua coroação, assinou o decreto de fundação do primeiro hospital psiquiátrico do Brasil e da América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Hospício de Pedro II, ou o Palácio dos Loucos (1852–1889) ===&lt;br /&gt;
Inaugurado apenas em 8 de dezembro de 1852, o [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)|Hospício de Pedro II]] era gerido pela Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, que por anos geriu grande parte da loucura brasileira. Seu provedor era o médico [[José Clemente Pereira]], que era responsável por todos os aspectos da instituição, desde os médicos até os administrativos. Embora a gestão administrativa fosse religiosa, o saber médico tinha muito espaço, com nomes como [[Manoel Feliciano Pereira de Carvalho]], que tentaram implementar o &amp;quot;tratamento moral&amp;quot; inspirado em Esquirol. Apesar dos esforços, muitos relatos de abusos e de condições precárias mostravam a dificuldade em implementar um modelo brasileiro de tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a Proclamação da República em 1889, o Hospício de Pedro II foi desvinculado da Santa Casa e renomeado como [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)]]. Este foi um período de maior laicização e pela busca por um maior rigor científico, o que não aconteceu por completo, em grande parte devido à falta de profissionais adequadamente treinados para a questão. Apesar disso, o Brasil já possuía uma cátedra de psiquiatria desde 1883, ocupada por João Carlos Teixeira Brandão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diante dos altíssimos custos em manter o Hospital, surgem as colônias agrícolas como alternativa ao confinamento urbano. Em 1884, já havia sido inaugurada a [[Colônia de São Bento]] e, em 1890, a [[Colônia de Conde de Mesquita]], na Ilha do Governador. A ideia era que o trabalho na terra poderia colaborar na cura, além de os produtos deste trabalho poderiam ser consumidos no local, ajudando na manutenção dos espaços. Apesar dessas transformações e de evidentes melhorias, os relatos de época mostram que não acontecia nenhuma das duas coisas, nem produção agrícola suficiente, nem um processo terapêutico efetivo, mas entendia-se que a colônia agrícola era melhor do que o confinamento do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Era Juliano Moreira ===&lt;br /&gt;
Em 1903, o médico baiano [[Juliano Moreira]] assume a direção do Hospital Nacional de Alienados. Negro, de origem humilde e dotado de uma erudição impressionante, ele revolucionou a assistência brasileira aos alienados, sendo reconhecido internacionalmente como um dos grandes psiquiatras de seu tempo. Ele se tornaria o principal médico alienista do Brasil, tornando-se referência para todo o país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Moreira aboliu definitivamente o uso de camisas de força e as grades nas janelas, num gesto que se assemelhava àquele de Pinel, enfatizando que o hospital era um local de tratamento e cura, e não uma prisão ou um depósito de indesejados. Além disso, ele trouxe para o Brasil a nosologia de Emil Kraepelin, um psiquiatra alemão considerado o pai da psiquiatria moderna, da psicofarmacologia e da genética psiquiátrica, o que seria uma modernização do modelo francês adotado até então. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a gestão Moreira ocorreram várias mudanças. Foi criado o [[Pavilhão Bourneville]] para crianças com deficiência intelectual. Além disso, fundou-se em 1921 o [[Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro]], o primeiro do país, sob a liderança de [[Heitor Carrilho]]. Dentro dos hospitais incentivou-se a pesquisa laboratorial e anátomo-patológica, o que também abriu espaço para a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A influência e o prestígio de Juliano Moreira se espalhou pelo Brasil. Em São Paulo, destacou-se a figura de [[Franco da Rocha|Francisco Franco da Rocha]], que fundou em 1898 o [[Hospital do Juquery]]. O Juquery, como ficou conhecido, tornou-se uma &amp;quot;cidade-asilo&amp;quot;, chegando a abrigar dezenas de milhares de pacientes em um modelo que mesclava pavilhôes médicos com imensas colônias agrícolas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste período, a psiquiatria brasileira flertou intensamente com as teorias da degenerescência (de Morel e Magnan) e com a eugenia. Médicos como [[Renato Kehl]], bem como a criação da [[Liga Brasileira de Higiene Mental]] (1923), uma organização higienista fundada por [[Gustavo Riedel]], começaram a ver a loucura não apenas como um problema individual, mas como um risco biológico à raça brasileira. A higiene mental passou a atuar preventivamente em escolas e fábricas, buscando identificar &amp;quot;pré-delinquentes&amp;quot; e &amp;quot;personalidades anormais&amp;quot;. Apesar de não ter conseguido desenvolver muitas políticas efetivas, os eugenistas brasileiros eram ativos e influentes em muitos círculos decisórios importantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A criação de hospitais não se limitou a São Paulo e Rio de Janeiro. Em  1903, o governo de Minas Gerais fundou o [[Hospital Psiquiátrico de Barbacena]], que mais tarde seria palco de uma das maiores tragédias humanitárias do país. Em Pernambuco, o [[Hospital Ulysses Pernambucano]] foi fundado pelo médico de mesmo nome, que começou a desenvolver uma psiquiatria mais voltada para o social e para a prevenção no final dos anos 1920. Hospitais na Bahia, Rio Grande do Sul, entre outros, também foram criados, seguindo o pioneirismo do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Era Vargas e além: o início do encarceramento ===&lt;br /&gt;
Com a Revolução de 1930, o projeto de nação de Vargas exigia um povo saudável e produtivo, devido à visão desenvolvimentista suportada pela Aliança Liberal, que o elegeu. A loucura deixou de ser apenas uma questão de ordem pública ou um aspecto da caridade para se tornar um problema de segurança nacional e de saúde pública. Em 1941, no âmbito do Estado Novo, foi criado o [[Serviço Nacional de Doenças Mentais (SNDM)]], substituindo o antigo modelo de assistência a alienados, que era fragmentado nas diferentes províncias. Dessa maneira, Vargas criou uma diretriz federal centralizada para a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a Liga Brasileira de Higiene Mental ganhou fôlego. O foco deslocou-se do hospital para a prevenção na sociedade. A psiquiatria não deveria se limitar aos hospitais, mas também atuar na escola, na fábrica e na família, buscando limpar a nação e extirpar o que chamavam de &amp;quot;elementos degenerados&amp;quot;. O médico Gustavo Riedel e seus sucessores defendiam que o Estado deveria intervir precocemente para evitar que o &amp;quot;anormal&amp;quot; se tornasse um fardo para a máquina pública.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi durante as décadas de 1930 e 1940 que o modelo de colônia agrícola, antes visto como terapêutico e de assistência à manutenção hospitalar, atingiu proporções industriais. O que se viu em Barbacena e em instituições como o Juquery em São Paulo, foi a transformação do hospital em, praticamente, um campo de concentração administrativo. A internação não dependia mais de um diagnóstico médico rigoroso, que na prática ainda era frágil e baseado em elementos pouco científicos. Bastava ser considerado &amp;quot;socialmente inconveniente&amp;quot; para correr-se o risco de ir parar numa instituições dessas. Assim, pobres, prostitutas, homossexuais, militantes políticos e mães solteiras eram enviados para essas instituições, onde a sobrevivência era a exceção. Estima-se que, no auge do descaso, o Hospital de Barbacena registrava um número alarmante de óbitos por frio, fome e doenças evitáveis, cujos corpos eram, por vezes, vendidos para faculdades de medicina. Situações similares aconteciam em outras instituições do tipo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tratamentos Brutais e os Modos de Resistência ===&lt;br /&gt;
Para além do horror asilar, o período entre 1930 e 1950 também foi marcado pela introdução de terapias biológicas drásticas, importadas da Europa, conhecidas como [[somatoterapias]]. Com uma psicofarmacologia pouco eficaz, os médicos buscavam &amp;quot;chacoalhar&amp;quot; o organismo, produzindo nele como um choque que pudesse restaurar a razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma dessas técnicas era a [[insulinoterapia]]. Introduzida na Europa pelo médico austríaco Manfred Sakel (1900–1957) em Viena, no início dos anos 1930, representou uma das primeiras e mais invasivas formas de somatoterapia. Originalmente destinada ao tratamento da [[esquizofrenia]], a técnica consistia na administração de doses maciças de insulina no paciente, provocando um estado de hipoglicemia profunda que levava o paciente ao coma. Na volta desse estado, se esperava que o indivíduo “restaurasse” a razão por conta do choque orgânico violento que havia vivenciado. O procedimento era extremamente perigoso e estava associado a uma alta taxa de mortalidade e morbidade devido às convulsões e aos possíveis danos cerebrais. Apesar dos riscos, o método foi amplamente adotado no mundo todo, incluindo o Brasil, onde foi usado em grandes instituições de confinamento, como o Hospital Nacional de Alienados (HNA), no Hospital Juquery, entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que passou a ser muito utilizada foi a [[Eletroconvulsoterapia]], ou simplesmente o eletrochoque. Introduzido no Brasil logo após sua invenção na Itália (1938), consiste em colocar eletrodos carregados com correntes elétricas em lados opostos, na lateral da cabeça, de modo que uma forte corrente elétrica atravessasse o cérebro. A duração e a intensidade podiam variar, mas relatos de mais de trinta minutos de choques violentos não eram incomuns. Sua brutalidade era tamanha que exigia que sua vítima fosse fortemente amarrada. Tornou-se uma ferramenta onipresente nos hospitais, muitas vezes aplicada sem anestesia e como método de punição, desvirtuando sua finalidade clínica já questionável e usada, basicamente, como ferramenta de tortura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que ingressou no Brasil nesse período foi a [[lobotomia]], um procedimento cirúrgico que consistia em apenas retirar um pedaço do cérebro do paciente. Eles foram realizados em larga escala em hospitais como o Juquery e no Hospital Pedro II, buscando a docilização de pacientes crônicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em oposição à violência do isolamento oferecido por essas instituições, surge a figura de [[Nise da Silveira]]. Em 1946, após ter sido presa pelo regime de Vargas por suas inclinações políticas, Nise assumiu o Setor de Terapêutica Ocupacional do [[Centro Psiquiátrico Nacional]] (Engenho de Dentro), no Rio de Janeiro. Ela se recusou a usar eletrochoques e lobotomias, introduzindo a arte e o afeto como mediadores da cura. Ela fundou o [[Museu de Imagens do Inconsciente (MIS)|Museu de Imagens do Inconsciente]] em 1952, onde demonstrou, através das pinturas e esculturas de pacientes como [[Arthur Bispo do Rosario]], que o louco preservava uma riqueza simbólica e uma humanidade que a psiquiatria tradicional tentava apagar. Sua colaboração com [[Carl Jung]] colocou a experiência brasileira no mapa da psicologia analítica mundial, provando que o tratamento em liberdade e através da expressão criativa era viável.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Criação da Indústria da Loucura ===&lt;br /&gt;
No final da década de 1950 e início da de 1960, durante o governo de Juscelino Kubitschek e o breve período democrático posterior, o Brasil viu o surgimento de uma nova e ainda mais perversa dinâmica: a Indústria da Loucura. A assistência psiquiátrica, antes quase totalmente pública ou baseada no assistencialismo das Santas Casas, começou a ser privatizada. Com o crescimento dos institutos de previdência (IAPs), o Estado passou a pagar hospitais privados por dia de internação. Isso criou um incentivo perverso: quanto mais tempo o paciente ficasse internado e quanto menos recursos fossem gastos com ele, maior o lucro das clínicas privadas. Esse modelo, conhecido como &amp;quot;hospitalocêntrico&amp;quot;, inchou o sistema e preparou o terreno para a política de contenção social que seria radicalizada após o golpe de 1964. Foi um momento de multiplicação da brutalidade. Pouco importava a loucura ou não, o tratamento ou não, a eficácia ou não. O que importava era lucar com o dinheiro estatal por meio de um encarceramento fácil de impor e praticamente impossível de escapar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A coisa se aprofundou ainda mais com o golpe militar, que unificou em 1966 os Institutos de Aposentadoria e Pensões no INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), produzindo uma centralização gigantesca de recursos, com um modelo de privatização quase total. A psiquiatria, por ser uma especialidade cuja formação exigia baixo investimento tecnológico quando comparada a outras como a cirurgia, cardiologia ou oncologia, permitia grandes lucros com as internações de longa permanência. Assim, trancafiar e atormentar os loucos tornou-se o setor mais atraente para o empresariado da saúde.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de pessoas possivelmente diagnosticadas, o sistema era alimentado pelo encarceramento de militantes políticos, estudantes rebeldes, pessoas em situação de rua,  mendigos, homossexuais, indivíduos com comportamentos &amp;quot;desviantes&amp;quot; da moral tradicional, dependentes químicos, alcoólatras ou mesmo pessoas “problemáticas” da família, que se recusavam, por exemplo, a participar de casamentos arranjados, que denunciavam violência sexual sofrida ou eram apenas mulheres que haviam engravidado antes do casamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As instituições privadas multiplicaram-se pelo interior do país, longe dos olhos da fiscalização e dos centros urbanos. Instaladas em locais de difícil acesso, facilitava o ocultamento de violações de direitos humanos e ainda utilizava da conivência dos governos locais. As populações dessas localidades, crentes no saber médico, dificilmente desconfiavam do que poderia acontecer dentro dessas instituições e, quando vazavam denúncias, elas rapidamente podiam ser facilmente manejadas em conluio com os poderes locais. A loucura tornou-se um negócio de massa, com o abrigo precário de centenas de pessoas em galpões, onde a única &amp;quot;terapia&amp;quot; era a contenção química por sedativos baratos ou o uso indiscriminado do eletrochoque para manter a ordem além, é claro, da violência e brutalidade de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Luta Antimanicomial ==&lt;br /&gt;
No final da década de 1970, o modelo de saúde mental começou a dar sinais de exaustão, tanto financeira quanto ética. O Estado já não conseguia arcar com os custos crescentes de um sistema que só expandia o número de crônicos, e as denúncias de maus-tratos começaram a furar o bloqueio da censura, aparecendo em jornais mais prestigiados e em espaços mais amplos do debate social. O estopim para a o início do movimento da reforma psiquiátrica no Brasil começa com uma crise na [[Divisão Nacional de Saúde Mental (DINSAM)]], que havia recebido denúncias de irregularidades no Centro Psiquiátrico Pedro II, no [[Hospital Pinel]], na [[Colônia Juliano Moreira]] e no [[Manicômio Judiciário Heitor Carrilho]]. A denúncia foi acompanhada de uma greve por parte dos funcionários, que exigiam melhorias institucionais e questionavam irregularidades trabalhistas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É dessa crise que surge o [[Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM)]] que, nesse primeiro momento, estão mais preocupados com questões trabalhistas do que com o problema da própria prática psiquiátrica, que vai caracterizar parte dos movimentos antimanicomiais posteriormente. O MTSM se fortalece e consegue espaço no extremamente conservador [[V Congresso Brasileiro de Psiquiatria]], que ocorre em 1978, no que fica conhecido como “congresso da abertura”, num período também de abertura política com o iminente fim do regime militar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda em 1978, um grupo importante de intelectuais vinculados às bases teóricas do [[Movimento Antimanicomial]] participa do [[I Congresso Brasileiro de Psicanálise de Grupos e Instituições]], incluindo [[Franco Basaglia]], [[Felix Guattari]], [[Robert Castel]] e [[Erwin Goffman]], todos eles de grande inspiração e influência para o movimento antimanicomial brasileiro. No ano seguinte, o [[I Congresso Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental]] fortalece a contextação não apenas de problemas trabalhistas, mas do próprio modelo asilar e da forma como a psiquiatria intervinha e oprimia a população marginalizada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação público-privada que alimentava o modelo até então começa a ruir em 1980, com a chamada política da co-gestão interministerial. Nela, um convênio celebrado entre o Ministério da Previdência e Assistência Social com o Ministério da Saúde liquida a &amp;quot;Unidade de Serviço&amp;quot;, a política que permitia a contratação privada de serviços psiquiátricos e que representou o triunfo do público sobre o privado. Membros do MTSM passam a integrar a gestão do atendimento em saúde mental que, por dentro do aparato estatal, começam a implementar uma política de saúde pública baseada em prestação de serviços, cooperação, descentralização e regionalização, propostas que já eram defendidas pelos reformadores. Apesar desses avanços, críticos afirmam que a política de co-gestão apenas visava reformar os serviços, não atingindo o âmago da questão, que seria desconstruir o próprio paradigma psiquiátrico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo de desinstitucionalização de fato começa em 1985, ano marcado pelo fim da Ditadura Militar e pela realização de vários eventos que aprofundam o debate sobre a situação do atendimento. A [[I Conferência Nacional de Saúde Mental]] marca o início da desinstitucionalização devido aos conflitos entre o MTSM, a ABP e grupos não-organicistas que passaram a dirigir o DINSAM. Na conferência, consagrou-se uma reviravolta na perspectiva com a consolidação do lema &amp;quot;por uma sociedade sem manicômios&amp;quot;, rompendo com a lógica tanto privatista quanto estatista e questionando o próprio modelo psiquiátrico tradicional. Este passou a ser amplamente entendido como fenômeno cultural que promove o tratamento moral e o controle dos corpos, uma visão abertamente basagliana e antimanicomial. Alguns entendem que, nesse momento, a tradição anti-institucional que originou os primeiros questionamentos na década de 1970 foi restaurada e fortalecida. Após a Conferência, o próprio MTSM se renovou, se desatrelando do Estado, retomando sua independência e seu papel de transformação social.  A mudança do movimento se consolidou no [[II Congresso Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental]], quando a noção de racionalização e modernização dos serviços que havia caracterizado o período da co-gestão foi recusado em nome de uma pauta anti-institucional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em meados dos anos 1980 começam a surgir novos modelos de atenção à saúde que poderia substituir o modelo psiquiátrico. Em São Paulo é criado o primeiro [[Centro de Atenção Psicossocial (CAPS)]], em 1987. Em Santos, surge o [[Núcleo de Atenção Psicossocial (NAPS)]], em 1989. Estes serviços passaram a ser vistos como os modelos para uma contestação profunda dos manicômios, justificando seu encerramento. Já na década de 1990, o SUS introduziu mecanismos de fiscalização e auditoria que começaram a sufocar financeiramente os asilos privados que não cumpriam níveis mínimos de dignidade. Portarias históricas do Ministério da Saúde, inspiradas na [[Declaração de Caracas (1990)]], passaram a proibir a criação de novos leitos psiquiátricos asilares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após mais de uma década de tramitação e intensos debates no Congresso Nacional, como fruto dos embates históricos iniciados na crise do DINSAM e que atravessaram debates públicos extremamente imporantes, foi promulgada a Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001, que ficou conhecida como [[Lei da Reforma Psiquiátrica]] ou Lei Paulo Delgado, seu autor. Esta legislação se tornou o marco jurídico definitivo da virada assistencial no Brasil. A lei instituiu o direito do paciente de ser tratado em ambiente terapêutico o menos restritivo possível e colocou a internação psiquiátrica como último recurso possível. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para preencher o vazio deixado pelo fechamento dos grandes hospitais, o SUS estruturou a [[Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)]], formalizada na década seguinte pela Portaria nº 3.088 de 2011. A RAPS organizou o cuidado em diferentes níveis de complexidade, com os CAPS divididos nas modalidades CAPS I, II, III, CAPSi  e CAPS AD e, por fim, os [[Serviços de Residência Terapêutica (SRT)]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, a luta continua devido a retrocessos observados na segunda metade da década de 2010 e início dos anos 2020. Mudanças nas diretrizes da Política Nacional de Saúde Mental tentaram reintroduzir a centralidade do hospital psiquiátrico e incentivaram o uso de práticas baseadas no isolamento. Além disso, o governo federal passou a financiar massivamente as chamadas [[Comunidades Terapêuticas]], instituições de caráter predominantemente privado e religioso voltadas ao acolhimento de usuários de drogas, de onde emanam graves denúncias de todos os tipos de violação dos direitos humanos e que representam um evidente retrocesso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje, o campo da saúde mental no Brasil vive um embate profundo entre duas visões. De um lado, aqueles que lutam pela consolidação da RAPS, em defesa da clínica da subjetividade, da defesa dos direitos humanos, pela redução de danos e pela inserção social pelo trabalho e pela cultura. Do outro lado observa-se a persistência do &#039;&#039;lobby&#039;&#039; asilar e de setores que buscam a mercantilização do cuidado, por meio do encarceramento, da medicalização extrema do sofrimento psíquico, da higienização dos centros urbanos e do recolhimento dos indesejáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
ARBEX, Daniela. &#039;&#039;&#039;Holocausto brasileiro&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Geração Editorial, 2013.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BASAGLIA, Franco. &#039;&#039;&#039;A instituição negada&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Graal, 1985.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BIRMAN, Joel. &#039;&#039;&#039;A physis da arte&#039;&#039;&#039;: Deleuze e a clínica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CAMPOS, Gastão Wagner de Sousa. &#039;&#039;&#039;Tratado de saúde coletiva&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Hucitec, 2006. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CASTEL, Robert. &#039;&#039;&#039;A ordem psiquiátrica&#039;&#039;&#039;: a idade de ouro do alienismo. Rio de Janeiro: Graal, 1978.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
COSTA, Jurandir Freire. &#039;&#039;&#039;Violência e psicanálise&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Graal, 1986.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
COSTA, Jurandir Freire. &#039;&#039;&#039;História da assistência psiquiátrica no Brasil&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Garamond, 2007. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
DALGALARRONDO, Paulo. &#039;&#039;&#039;Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais&#039;&#039;&#039;. Porto Alegre: Artmed, 2018. &lt;br /&gt;
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ENGEL, Magali. &#039;&#039;&#039;Os delírios da razão&#039;&#039;&#039;: médicos, loucos e hospícios (Rio de Janeiro, 1830-1930). Rio de Janeiro: Fiocruz, 2001&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
FOUCAULT, Michel. &#039;&#039;&#039;História da loucura na Idade Clássica&#039;&#039;&#039; (Trad, de José Teixeira Coelho Netto). São Paulo: Perspectiva, 2014.&lt;br /&gt;
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PESSOTTI, Isaias. &#039;&#039;&#039;A loucura e as épocas&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994.&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
SANTOS, Marcus Vinícius do Amaral Gama. História whig e história da psicologia. Em: ____. &#039;&#039;&#039;História whig, história da psicologia e história da psiquiatria&#039;&#039;&#039;: investigando a revolução behaviorista e a reforma psiquiátrica brasileira. Rio de Janeiro, 2023. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2023, p.94-133.&lt;br /&gt;
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SILVA, Priscila Aquino. O Hospital Real de Todos-os-Santos e seus agentes da cura. &#039;&#039;&#039;História, Ciências, Saúde-Manguinhos&#039;&#039;&#039;, Rio de Janeiro, v. 22, n. 4, 2015.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
TENÓRIO, Fernando. A Reforma Psiquiátrica Brasileira da década de 1980 aos dias Atuais: história e conceitos. &#039;&#039;&#039;História, Ciências, Saúde-Manguinhos&#039;&#039;&#039;, v. 9, n. 1, 2002.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
VENANCIO, Ana Teresa A.; CARVALHAL, Lázaro. Juliano Moreira: a ciência da assistência e a assistência da ciência. &#039;&#039;&#039;Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental&#039;&#039;&#039;, 2001.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
YASUI, Silvio. &#039;&#039;&#039;Rupturas e encontros&#039;&#039;&#039;: desafios da Reforma Psiquiátrica Brasileira. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2010.&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
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		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1693</id>
		<title>História da loucura: da Grécia antiga à luta anti-manicomial</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1693"/>
		<updated>2026-07-03T22:11:38Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* Islã */ Várias modificações substanciais&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto com finalidade didática, escrito por André Elias Morelli Ribeiro para o curso de Psicologia do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras. Seu uso é aberto, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Introdução ==&lt;br /&gt;
A história da loucura é, ao mesmo tempo, uma narrativa sobre o modo como diferentes sociedades compreenderam a mente humana e uma reflexão sobre os mecanismos de poder que moldaram práticas de exclusão, cuidado e resistência vinculados às diferentes formas que diferentes grupos humanos entenderam como loucura ou algo similar, conforme uma visão ampliada contemporânea. Este material inicia na Grécia antiga e chega até o movimento antimanicomial no Brasil e, ao longo deste trajeto, pode-se observar como a loucura foi interpretada ora como intervenção divina, ora como desvio moral, ora como doença fisiológica, ora como ameaça social. Cada época construiu suas próprias respostas àquilo que considerou loucura que variaram entre a integração comunitária, o confinamento, o tratamento brutal e a busca por tratamentos médicos ou espirituais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, a trajetória seguiu de perto os modelos europeus. Do Hospício de Pedro II às colônias agrícolas, passando pela gestão de Juliano Moreira, a psiquiatria nacional oscilou entre avanços humanitários e práticas de exclusão. O período Vargas e o Estado Novo intensificaram o encarceramento, transformando hospitais em verdadeiros campos de concentração administrativos. As décadas seguintes viram a adoção de terapias brutais, como eletrochoques e lobotomias, mas também o surgimento de movimentos de resistência, como o trabalho de Nise da Silveira, que introduziu a arte e o afeto como caminhos de cura, ou a emergência de questionamentos ao modelo psiquátrico manicomial. A partir dos anos 1960, a privatização da assistência psiquiátrica gerou a chamada “Indústria da Loucura”, marcada por internações lucrativas e violações sistemáticas de direitos humanos que marcaram profundamente a forma como se entende a loucura contemporaneamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em síntese, o percurso histórico apresentado aqui mostra que a loucura nunca foi apenas um fenômeno clínico mas, antes, um espelho das sociedades, revelando seus medos, suas crenças e suas formas de organizar o convívio humano. De sagrada a temida, de medicalizada a mercantilizada, apresenta-se e se discute como surgiram vozes e práticas que reivindicaram humanidade e liberdade para os considerados loucos.&lt;br /&gt;
== As Loucuras no Mundo Antigo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Grécia antiga ===&lt;br /&gt;
Na Grécia antiga, em certo momento a loucura era considerada uma intervenção dos deuses e, como os gregos era politeístas, a varidade de formas de loucura e os modos de intervenção também era bem grande. A loucura poderia ser vista, por exemplo, como uma punição. É o caso do herói Ajax, filho de Telamão. Após a morte de Aquiles, a armadura do herói foi dada a Odisseu, e a afronta levou Ajax a um estado de fúria e ressentimento. A deusa Atena, intervindo em favor de Odisseu para proteger os Aqueus da vingança de Ajax, lançou sobre ele uma cegueira mental. Tomado pela loucura, Ajax massacrou o gado de guerra que havia sido capturado, acreditando que estava matando os líderes aqueus, incluindo Odisseu e Agamenon. Ao recobrar a sanidade e perceber seu ato vergonhoso, cometeu suicídio devido à humilhação. Essa cena ilustra a loucura como uma intervenção divina direta na forma de loucura poderia ser vista como destrutiva e extremamente negativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em outros episódios da mitologia grega, a loucura surge como uma consequência direta de traumas e da perseguição implacável por vingança. Um exemplo é o de Orestes que, após assassinar sua mãe, Clitemnestra para vingar a morte de seu pai, Agamenon, passa a ser atormentado pelas Erínias. Essas divindades da vingança, também conhecidas como Fúrias, levaram o herói a um estado de delírio e desespero profundo, personificando a tortura psicológica e a perda da razão como uma forma de acerto de contas espiritual e moral pelo matricídio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura não era unicamente um flagelo ou uma punição. Os gregos  viam a mania, um termo que hoje engloba a loucura, em uma perspectiva dual. Na sua manifestação mais elevada, era considerada uma benção ou inspiração divina. Essa visão positiva estava profundamente ligada ao culto de Dionísio, o deus do vinho, do teatro e do êxtase. Nos rituais dionisíacos, as bacantes e outros seguidores buscavam o êxtase, que é, literalmente, &amp;quot;sair de si&amp;quot;, por meio da dança frenética, música e consumo de vinho, o que era percebido como um estado de comunhão direta e inspirada com a divindade. Longe de ser destrutiva, essa forma de loucura era vista como uma fonte de criatividade, revelação e poder, sendo um caminho para a verdade profética e como expressão artística ligada a Dionísio. Este conceito de mania inspirada também se estendia a outros domínios, como a profecia dos oráculos, que eram vinculados à adoração ao deus Apolo, e mesmo a poesia, onde a perda temporária da razão humana era interpretada como a mente sendo tomada por uma força divina que trazia algum tipo de inspiração superior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em certo momento, ainda na Grécia antiga, as ideias sobre a loucura - ou algo que pareça loucura aos olhos contemporâneos - foi modificada graças a Hipócrates, o pai da medicina. A visão de [[Hipócrates]] marcou uma transição crucial para o entendimento da loucura na Grécia Antiga, pois afastou a loucura das concepções divinas e sobrenaturais para uma explicação puramente fisiológica e natural. Ele desenvolveu a [[Teoria dos Quatro Humores]], que se tornou o pilar da medicina ocidental por séculos. Segundo essa teoria, o corpo humano era composto por quatro fluidos essenciais (ou humores), que são sangue, fleuma, bile amarela e bile negra. A saúde mental e física dependia do equilíbrio harmonioso desses humores. A loucura, ou qualquer doença mental, era, portanto, interpretada como o resultado de um desequilíbrio, como o excesso de bile negra causando a melancolia (depressão), ou o desarranjo da fleuma e da bile amarela, que poderiam levar a estados de mania e frenesi. Com isso, Hipócrates postulou que a loucura não era uma maldição dos deuses, mas sim uma doença com origem no corpo. Essa abordagem naturalista permitiu que a loucura passasse a ser tratada com métodos como dietas, exercícios e remédios, no lugar de rituais religiosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tradição bíblica ===&lt;br /&gt;
Na tradição bíblica, escrita em contextos e culturas não europeias, a loucura também é frequentemente retratada como uma forma de intervenção ou punição divina. Um dos episódios mais emblemáticos é a história do rei Nabucodonosor II, relatada no Livro de Daniel. De acordo com o texto, devido ao seu orgulho excessivo e sua recusa em reconhecer a soberania de Deus, o rei foi acometido por uma forma de loucura que o levou a viver como um animal, alimentando-se de ervas e deixando seus cabelos e unhas crescerem sem controle. Na psicologia moderna, esse estado em que um indivíduo acredita ter se transformado em um animal é conhecido como licantropia clínica, uma condição rara. A loucura, conforme emerge na descrição bíblica, emerge ligada à perda da razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, a tradição bíblica também apresenta um paradoxo. No Novo Testamento, cujos livros foram escritos no contexto do mundo greco-romano, o que é considerado &#039;loucura&#039; pelos homens revela-se a suprema sabedoria divina. Essa ideia é desenvolvida pelo apóstolo Paulo em sua Primeira Carta aos Coríntios. Na passagem, ele afirma: &#039;Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens&#039; (1 Coríntios 1:25). Paulo usa o termo &#039;&#039;moria&#039;&#039; (loucura, tolice) para contrastar a sabedoria humana que, na época do texto, era representada pela filosofia e retórica grega. A mensagem da cruz parecia ilógica e insensata aos olhos dos não cristãos, que debochavam do fato do messias ter sido capturado e morto pelos romanos. Assim, a loucura deixa de ser apenas uma punição para se tornar uma lente através da qual a verdadeira sabedoria, ou seja, a salvação, é revelada, invertendo a hierarquia de valores do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Pérsia ===&lt;br /&gt;
Na Pérsia, a visão da loucura e do comportamento irracional foi moldada por seu profundo dualismo religioso e, posteriormente, pelas tradições islâmicas que se seguiram à conquista árabe. O zoroastrismo, a antiga religião persa fundada por Zoroastro (Zaratustra), transformou o politeísmo em um dualismo cósmico centralizado no conflito eterno entre Ahura Mazda (Ormazd), o criador da vida, luz e verdade, e Angra Mainyu (Ahriman), a escuridão e a mentira. Neste cenário, o mundo material é o campo de batalha entre os dois. Ahriman buscava corromper tudo o que Ormazd havia criado. Embora o texto não defina a loucura diretamente, o comportamento irracional e a desrazão poderiam ser facilmente associados ao domínio de Ahriman e à mentira (&#039;&#039;druj&#039;&#039;), enquanto a sanidade e a pureza eram atributos de Ormazd. A batalha contra essa corrupção exigia que os adoradores de Ormazd permanecessem verdadeiros e evitassem poluir o fogo e a terra sagrada, indicando que a pureza mental e ritual era uma defesa contra as forças do mal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Islã ===&lt;br /&gt;
Na cultura islãmica, de forma geral e bastante resumida, o comportamento considerado irracional era frequentemente explicado pela crença nos &#039;&#039;djinn&#039;&#039;, espíritos errantes que habitavam o deserto e certos lugares considerados místicos e que podiam invadir a mente humana, causando o que a sociedade ocidental moderna chamaria de insanidade ou, talvez, distúrbio emocional. Nesses casos, o tratamento era o exorcismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na era clássica da medicina islãmica, ganhou força a tradição galênica, que atribuía as perturbações mentais a desequilíbrios nos quatro humores corporais (sangue, fleuma, bile amarela e bile negra). Médicos proeminentes rejeitaram a ideia de que a loucura fosse exclusivamente uma possessão demoníaca, tratando-a como uma patologia de base orgânica ligada ao cérebro. Avicena dedicou seções extensas a transtornos como a melancolia, o delírio e a mania. Ele descreveu detalhadamente como o excesso de bile negra afetava as faculdades cognitivas e imaginativas do cérebro, propondo tratamentos que incluíam dieta, banhos térmicos, massagens, sangrias reguladas e o uso de fitoterápicos, semelhante à tradição grega mais tardia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período medieval, o mundo islâmico desenvolveu os bimaristans (hospitais), que funcionavam como centros de tratamento médico gratuito, financiados por dotações religiosas (&#039;&#039;waqf&#039;&#039;). O objetivo era restaurar o equilíbrio do espírito e dos humores através de estímulos ambientais positivos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura também apareceu em narrativas culturais associadas aos povos, de forma a sugerir causas e curas mais mundanas. O famoso conto persa de As Mil e Uma Noites, cuja origem é indo-persa mas que foi sedimentada na cultura islãmica, relata a história do rei Shahriyar, que, convencido da inevitável traição feminina, cai em uma loucura paranóica que o leva a se casar com uma virgem todas as noites e, pela manhã, assassiná-la. Sua &amp;quot;cura&amp;quot; é alcançada através da engenhosidade e paciência humana por meio de uma dessas esposas, Scheherazade, que usa a arte de contar histórias para retardar sua execução por &amp;quot;mil e uma noites&amp;quot;, período em que sua paranoia é gradualmente desfeita. A história sugere que a narrativa e o tempo podem curar a loucura causada por trauma psicológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As Loucuras na Idade Média ==&lt;br /&gt;
A transição para a Idade Média é marcada pelo colapso do Império Romano do Ocidente (476 d.C.), que trouxe profundas transformações políticas e sociais. O fim do governo centralizado romano levou à fragmentação do poder e ao surgimento do sistema feudal, onde a administração das terras e a autoridade passaram para as mãos de senhores locais, muitos deles antigos oficiais romanos. Este período também é caracterizado por um notável declínio na vida urbana e nos grandes centros intelectuais. O colpaso das instituições romanas deu lugar à ascensão e consolidação da única instituição internacional grande e organizada que havia sobrado, a Igreja Católica, que se tornou a principal instituição, com poder tanto político quanto cultural e simbólico. Houve ainda uma perda gradual da tradição cultural greco-romana e, consequentemente, um afastamento das explicações naturalistas de Hipócrates, com exceção do pequeno renascimento do século XII e retomadas pontuais da sabedoria grega. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a hegemonia da Igreja Católica, a loucura tendeu a ser novamente interpretada sob uma lente teológica, sendo vista como uma manifestação de forças sobrenaturais ou desvios morais. Nesse contexto, certas vezes a loucura era interpretada como a intervenção de Satanás ou como possessão demoníaca, exigindo rituais de exorcismo para a cura. Em outros momentos, era vista como uma prova espiritual enviada por Deus ou como um efeito direto do pecado na alma do indivíduo. Havia também explicações que a tratavam como uma fragilidade da vontade humana, como no caso do que chamaríamos hoje de compulsões, misturando elementos da antiga tradição grega com aspectos da teologia cristã. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Socialmente, a gestão da loucura na Idade Média também passou por diferentes fases e transformações, dependendo do local e da época. Havia casos em que os considerados loucos eram apenas torturados e trancafiados, métodos considerados eficazes para expulsão de espíritos malignos, por exemplo. Contudo, em muitos outros casos, os considerados loucos conviviam de forma mais ou menos harmoniosa com o resto da comunidade, a depender de suas capacidades e possibilidades, e certos “desvios” eram perdoados devido à sua condição peculiar, sem a necessidade imediata de uma exclusão radical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Nau dos Loucos ===&lt;br /&gt;
Um caso notável e emblemático da gestão da loucura nesse período é a [[Nau dos Loucos]] (&#039;&#039;Stultifera Navis&#039;&#039;), conforme trabalhado por [[Michel Foucault]]. Anteriormente ao modelo de exclusão-repressão que viria a se consolidar na Idade Clássica, a loucura viveu o que se pode chamar de seus &amp;quot;dias de glória&amp;quot; na transição para a Renascença. Nesse contexto, o louco poderia ser visto como um sábio, um místico, um bobo da corte ou simplesmente um excêntrico que estava, de certa forma, integrado ao tecido social.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Nau dos Loucos simbolizava uma existência errante, onde o louco era confiado à água e ao navio para ser levado de uma cidade a outra, mantendo-o em um estado de exclusão simbólica, mas ainda assim em movimento e circulação. Para Foucault, essa experiência trágica da loucura permitia que o insano portasse uma forma de lucidez em sua insensatez, revelando verdades que a razão comum não ousava enunciar. O louco via através das ilusões mundanas, aproximando-se de uma verdade profética ou ética que seria progressivamente silenciada nos séculos seguintes pela ascensão do saber médico e da racionalidade científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Santa Dimpna e Geel ===&lt;br /&gt;
Outro acontecimento relevante da Idade Média para a compreensão da loucura é o episódio de [[Santa Dimpna]]. Nascida no século VII na Irlanda, ela era filha de um rei pagão e de uma mãe cristã devota, de quem herdou sua fé e pela qual decidiu fazer votos de castidade. Após a morte prematura da mãe, seu pai, mergulhado em um profundo luto, decidiu que Dimpna era a única mulher com beleza comparável à da falecida rainha e insistiu em se casar com a própria filha, o que seria considerado escandaloso também para aquela cultura. Diante dessa perseguição incestuosa, Dimpna fugiu da Irlanda acompanhada de seu confessor, o padre Gereberno, e de dois servos fiéis. O grupo cruzou o mar e estabeleceu-se em [[Geel]], um minúsculo vilarejo na atual Bélgica, onde Dimpna se dedicou ao cuidado dos pobres e doentes mentais. No entanto, o rei conseguiu encontrá-los e, após a recusa de Dimpna tanto em retornar para a Irlanda quanto se casar com o pai, ordenou a execução de Gereberno, enquanto ele mesmo decapitou a filha, tornando a menina de 15 anos de idade numa mártir cristã. Após sua morte, relatos de curas milagrosas de pessoas com distúrbios mentais e epilepsia começaram a ocorrer junto ao seu túmulo, o que a tornou a padroeira dos doentes mentais e o local um espaço de peregrinação ligado à questão da saúde mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O legado de Santa Dimpna em Geel deu origem a um modelo para a psiquiatria moderna pois, devido à devoção e adoração à Santa Dimpna, a cidade transformou-se em um santuário onde os pacientes não eram trancafiados, mas acolhidos em lares de famílias locais como &amp;quot;hóspedes&amp;quot;. Esse sistema de cuidado comunitário e desinstitucionalização, que persiste há séculos, é considerado um dos precursores do tratamento humanizado e da reabilitação psicossocial na saúde mental contemporânea.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Idade Clássica: a nova era da loucura encarcerada ==&lt;br /&gt;
A partir do século XVII, um período em que o filósofo Michel Foucault denominou como &amp;quot;A Época Clássica&amp;quot;, a forma de entender e lidar com a loucura passa por uma nova mudança devido ao ingresso da razão como centro e alma do pensamento europeu, em substituição ao dogmatismo religioso e ao conhecimento da igreja. Esta mudança não é brusca, mas lenta e gradual, porém suas marcas serão duradouras e serão sentidas por quase toda a Europa. Para essa nova e nascente razão, a loucura seria seu oposto direto. Se o homem era definido pela sua capacidade racional e sua utilidade produtiva, o louco era, portanto, como um &amp;quot;não-homem&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a solução para a não-razão era a internação, que não buscava a cura, mas a neutralização do irracional. O silenciamento da loucura era necessário para que a ordem social pudesse florescer. Os campos e cidades deveriam ser espaços de circulação de mercadorias pelas mãos de cidadãos produtivos, e qualquer elemento que atrapalhasse essa dinâmica deveria ser guardado em instituições que funcionavam como uma guarda contra o risco social que tais pessoas ofereciam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Relatos da época descrevem cenários terríveis sobre as condições de internação dos loucos. Os internos eram frequentemente mantidos em celas úmidas e insalubres, muitas vezes acorrentados às paredes. O uso de chicotes e outras punições corporais era justificado pela crença de que o louco, por ter perdido a razão, teria a resistência física de um animal, não sentindo frio ou dor da mesma forma que uma pessoa &amp;quot;normal&amp;quot;. Além disso, as instituições funcionavam sob uma lógica de vigilância constante. Não se tratava de observar para entender a mente, mas para garantir que o corpo anormal permanecesse contido e, no máximo possível, docilizado. Foi dentro desse ambiente de absoluta degradação e mistura indiscriminada de diferentes &amp;quot;tipos&amp;quot; de desviantes que a consciência médica começou a germinar, ainda que de forma incipiente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== França ===&lt;br /&gt;
O ano de 1656 marca um divisor de águas simbólico para o modelo de confinamento asilar no mundo todo, com a criação do Hôpital Général (Hospital Geral) em Paris, por um edito real do rei Luís XIV. É importante entender que um hospital geral deste período não é como um hospital moderno, ou seja, uma instituição médica e voltada para a compreensão da doença e a prática do tratamento e cura. Ele estava mais próximo de uma estrutura administrativa e, de certo modo, semi-judiciária. Isso ocorria porque o interesse não estava em “curar” ou “tratar” ninguém mas, antes disso, perseguir o interesse do Estado de &amp;quot;limpar&amp;quot; as ruas de Paris de tudo o que era considerado improdutivo ou escandaloso. Era um período de abundância material, grandes gastos estatais e de uma imensa riqueza do império colonial francês, e desvios nessa ordem eram vistos como perigosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes tais hospitais gerais eram confinados, todos juntos, grupos totalmente diferentes, tais como pobres, mendigos, desempregados, libertinos, prostitutas, alquimistas, opositores políticos e, claro, também os considerados loucos. Em suma, um depósito de indesejados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que começou em Paris se tornou um modelo para outros lugares sobre como fazer a gestão da miséria e da “desrazão”, num forte deslocamento do que se via na Idade Média. O louco, antes tendo algo de profético, místico ou talvez apenas uma excentricidade da vida medieval campesina, se torna uma questão político-administrativa. Essa mudança importante marca uma migração para a possibilidade de institucionalização daquilo que era considerado errante ou, de alguma forma, desagradável e, assim passível de ser alvo de uma forma de gestão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em Paris, as duas principais unidades do Hospital Geral se tornaram emblemáticas e simbólicas. A [[Salpêtrière]], que era destinada às mulheres, e o hospital [[Bicêtre]], destinado aos homens. Ambas as instituições não ofereciam qualquer forma de tratamento. Eram basicamente depósitos humanos, onde o louco poderia acabar acorrentado ao lado de criminosos, por exemplo. O critério de internação não era o diagnóstico clínico, mesmo porque simplesmente ele nem existia, mas a incapacidade de se ajustar às normas de trabalho e à moralidade da época.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Alemanha ===&lt;br /&gt;
Na Alemanha, surgiram as Zuchthäusern, que seriam as [[Casas de Correção (Zuchthäusern)|Casas de Correção]]. Cidades como Hamburgo e Bremen estabeleceram esses locais onde a loucura era tratada através do trabalho forçado. Eles acreditavam que o ócio era a raiz do mal e que o confinamento servia para reintegrar o indivíduo à lógica da produtividade. De qualquer forma, uma vez enclausurado, ele permanecia escondido da visão da população.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Inglaterra ===&lt;br /&gt;
Na Inglaterra, o sistema das Workhouses (Casas de Trabalho) cumpria um papel semelhante ao modelo alemão. No entanto, Londres já possuía o [[Bethlem Royal Hospital (Bedlam)|Bethlem Royal Hospital]], conhecido popularmente como Bedlam. No século XVII e XVIII, Bedlam se tornou um espetáculo de horror, onde o público podia pagar para observar os internos como se fossem animais em um zoológico. A loucura agora um objeto de uma forma de exibição degradante e mantida atrás de grades e ferros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Portugal ===&lt;br /&gt;
Em Portugal a gestão dos &amp;quot;desviantes&amp;quot; recaiu fortemente sobre as Santas Casas da Misericórdia. O [[Hospital Real de Todos-os-Santos]], fundado em Lisboa em 1492 e inaugurado em 1501, se tornou o epicentro do tratamento (ou confinamento) dos loucos no país. Dentro deste hospital, existiam as chamadas &amp;quot;[[Casas de Doidos]]&amp;quot;, destinados àqueles que haviam “perdido a luz da razão”. Seguindo o padrão europeu, o hospital não separava rigidamente o louco por diagnóstico. Eles dividiam espaço com indigentes e enfermos de diversas naturezas, embora as &amp;quot;casas de doidos&amp;quot; fossem áreas de maior isolamento devido à agitação dos internos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XVIII português, a internação era, acima de tudo, uma solução para a mendicância e, por vezes, para o alcoolismo. O louco oriundo de uma família com posses era mantido nas próprias casas, muitas vezes escondido em sótãos ou anexos e até mesmo acorrentados. Já o &amp;quot;louco pobre&amp;quot;, que não poderiam ser cuidados por seus familiares, acabava nos hospitais reais ou mesmo nas cadeias, a depender de uma série de fatores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Nascimento da Psiquiatria ==&lt;br /&gt;
=== Pinel e a criação da psiquiatria nosográfica ===&lt;br /&gt;
É na virada do século XVIII para o XIX que nasce a psiquiatria como um campo autônomo do saber e da prática médica. Esta mudança fundamental é protagonizada por duas figuras centrais da medicina francesa: [[Philippe Pinel]] e seu discípulo, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]]. Juntos, eles transformaram o hospital de depósito de insanos e indesejáveis em um verdadeiro hospital, em que o louco e o alienado poderiam receber um tratamento racional e científico, em substituição às correntes, à disciplina e ao silenciamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A emergência da psiquiatria como campo autônomo teve como fundamento científico inicial a observação clínica sistemática dentro do asilo. Este era concebido como um laboratório, onde o alienista poderia estudar a loucura em seu estado puro, separada das influências do mundo exterior. A principal questão científica e prática que justificava essa nova ciência era desenvolvida e aplicada de forma sistemática era a chamada nosografia ou diagnóstico. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pinel, em seu [[Traité médico-philosophique sur l&#039;aliénation mentale, ou la manie]], de 1801, classificou a loucura com base em critérios sintomatológicos, seguindo um procedimento comparativo semelhante ao das ciências naturais. O desafio central, que persistiria ao longo do século XIX, era a ambiguidade constante entre a busca por uma sede orgânica, ou seja, um “local físico-biológico” da loucura, junto da necessidade de uma regulação de caráter moral. O tratamento apoiava-se na moralidade para combater as causas que eram, elas próprias, consideradas morais, mas algo estava também no corpo do doente. Isso mostra que a nova psiquiatria de Pinel era a mistura de medicina com moralidade. Este enfoque resultou na valorização do exame clínico pelos psiquiatras francófonos, permitindo a união da observação clínica com a formulação de hipóteses.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1793, em meio ao fervor da Revolução Francesa, Philippe Pinel foi nomeado médico-chefe do Hospital de Bicêtre e, posteriormente, da Salpêtrière. O cenário que encontrou era o ápice do &amp;quot;Grande Enclausuramento&amp;quot;, ou seja, homens e mulheres amontoados nas condições já descritas, com destaque para as correntes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A intervenção de Pinel, simbolizada pelo gesto de “libertar os loucos de suas correntes”, não foi apenas um ato humanitário, mas também uma decisão de natureza epistemológica. Pinel acreditava que a loucura não era uma possessão demoníaca nem uma degeneração animal irreversível, mas uma alienação mental, em outras palavras, uma perturbação das faculdades intelectuais e afetivas que mantinha o indivíduo como se fosse &amp;quot;estrangeiro&amp;quot;, ou alienado, de si mesmo e da sociedade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O pilar para a reforma psiquiátrica proposta por Pinel era o tratamento moral, e se baseava em três pilares fundamentais. O primeiro, o isolamento terapêutico. Era necessário que o paciente ficasse separado de seu ambiente que, segundo o médico, era a fonte de sua excitação e desequilíbrio. O segundo pilar era a autoridade médica, onde este deveria atuar como um pai ao mesmo tempo severo e justo, usando a persuasão, a benevolência e, se fosse necessário, a firmeza para restaurar a razão do paciente. Por fim, a disciplina e o trabalho, com a aplicação rigorosa de horários e valorização de atividades produtivas, o que ocuparia a mente alienada e, assim, combateria a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em seus estudos, Pinel identificou quatro tipos de loucura, quais sejam, a [[melancolia]], a [[mania]], a [[demência]] e a [[idiotia]], cada uma com suas questões próprias específicas e metodologias de tratamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Esquirol e a consolidação do modelo ===&lt;br /&gt;
Se Pinel era considerado o visionário e o libertador, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]] foi o grande organizador e o clínico meticuloso. Discípulo de Pinel, Esquirol sucedeu seu mestre na Salpêtrière e deu à psiquiatria a robustez científica e administrativa de que ela necessitava. Esquirol compreendeu que a eficácia do tratamento moral dependia da arquitetura hospitalar. Para ele, o hospital não era apenas um prédio onde ocorria o tratamento, mas também um instrumento de cura. Ele desenvolveu o modelo de pavilhões, permitindo a separação dos pacientes por tipo de patologia, o que reforçou a própria ideia de diagnóstico e de avaliação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Esquirol refinou as definições clínicas de Pinel. Foi ele quem estabeleceu a distinção clássica entre alucinação (uma percepção sem objeto) e ilusão (uma percepção deformada de um objeto real), entre outros pontos que, na sua época, foram considerados avanços exemplares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Legalização da Alienação ===&lt;br /&gt;
O esforço médico, político e administrativo de Esquirol na continuação do trabalho de Pinel culminou na promulgação da lei francesa de 30 de Junho de 1838, a primeira grande legislação psiquiátrica do mundo moderno. Esta lei estabeleceu a obrigatoriedade de cada departamento francês possuir um asilo e regulamentou as condições de internação e interdição. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A princípio, embora também protegesse o alienado do arbítrio e de outras violências que poderiam ser cometidos contra os loucos nas províncias e mesmo nas periferias de Paris, a lei também deu total poder ao médico psiquiatra. Era ele quem poderia decidir quem deveria ou não ser privado de sua liberdade. Com isso, a psiquiatria tornava-se, assim, um braço do Estado na gestão da ordem social mas, ao contrário do polícia e do inquérito polícial, que exigia provas independentes e a atuação do sistema judiciário, o psiquiatra estava coberto sob o manto da ciência médica, o que dava a ele poderes gigantescos de decidir entre a alienação e a razão. Isso marcou profundamente a forma como a loucura e a saúde mental passaram a ser compreendidas e tratadas nas décadas seguintes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Emil Kraepelin e uma Nova Racionalização ===&lt;br /&gt;
Apesar da forte valorização da psiquiatria francesa na constituição da psiquiatria contemporânea, uma das principais contribuições para o ramo em sua forma atual foi empreendida por um alemão, [[Emil Kraepelin]]. No final do século XIX, a psiquiatria alemã estava dividida entre os &amp;quot;psiquistas&amp;quot;, que viam a loucura como uma doença da alma ou um mal moral, a exemplo dos franceses; e os &amp;quot;somatistas&amp;quot;, que buscavam no cérebro a origem dos sintomas das doenças mentais. Kraepelin superou esse impasse ao focar não na anatomia, mas na evolução temporal das doenças. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin passou a entender que sintomas isolados, como ouvir vozes ou acreditar ser uma personalidade histórica, não eram suficientes para definir uma doença, mas seu desenvolvimento ao longo do tempo. Com essa premissa em mãos, Kraepelin introduziu as &amp;quot;cartas diagnósticas&amp;quot; (&#039;&#039;Zählkarten&#039;&#039;), um sistema de fichamento padronizado onde se registrava a história de vida do paciente, seus antecedentes familiares, os sintomas detalhados e, por fim, o desfecho da doença. Isso transformou a clínica psiquiátrica, pois articulava neuroanatomia e psicologia experimental, já que ele fora aluno de [[Wilhelm Wundt|Wundt]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin também é considerado o pioneiro da [[Psiquiatria Transcultural]]. Visando provar que as categorias diagnósticas psiquiátricas seriam universais, ele viajou para lugares como a ilha de Java (Indonésia) em 1904 para estudar a manifestação da loucura em populações não europeias. Ele concluiu que, ainda que os conteúdos dos delírios mudassem conforme a cultura, a estrutura fundamental da loucura permanecia a mesma, o que reforçou sua tese de que eram doenças biológicas da espécie humana. Apesar disso, no final de sua vida ele se transformou um higienista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O I Congresso Internacional de Psiquiatria ===&lt;br /&gt;
Realizado em Paris em agosto de 1950, o [[I Congresso Internacional de Psiquiatria]] foi projetado especificamente para unificar, debater e institucionalizar a psiquiatria como uma disciplina médica global e autônoma. Durante o Congresso foram colocados, frente a frente, as grandes correntes que disputavam a hegemonia do entendimento da mente humana na época, a saber, as correntes psicodinâmica e a biológica. De forma menor, uma corrente social e anti-manicomial também se fez presente. O resultado do embate foi uma conciliação entre as duas maiores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um dos resultados do Congresso de 1950 foi a pressão para que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Associação Psiquiátrica Americana (APA) criassem manuais estatísticos e classificatórios unificados, o que resultou na inserção de uma seção robusta de transtornos mentais na CID-6 (Classificação Internacional de Doenças) e na publicação do primeiro [[DSM]], em 1952.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro resultado importante do evento foi a fundação da Associação Mundial de Psiquiatria ([[World Psychiatric Association (WPA)|World Psychiatric Association - WPA]]). Com isso, a psiquiatria deixou de ser um conjunto de escolas nacionais isoladas, como as escolas francesa, alemã, anglo-saxã, entre outras, para se tornar uma corporação científica internacional, com congressos periódicos, periódicos indexados e diretrizes globais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Loucura no Brasil ==&lt;br /&gt;
Até o início do século XIX, o Brasil colonial lidava com seus insanos de forma semelhante ao que ocorria na Europa. As famílias ricas mantinham seus parentes loucos em &amp;quot;quartos fortes&amp;quot;, privando-os mais ou menos da vida comunitária e familiar, a depender das circunstâncias, de forma semelhante ao que acontecia em Portugal. Já os pobres eram entregues à caridade das [[Santas Casas de Misericórdia]] ou vagavam pelas ruas, sendo ocasionalmente recolhidos a cadeias públicas quando perturbavam a ordem, indo e vindo das frágeis instituições brasileiras, sofrendo abusos e violências de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A transferência da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 gerou a necessidade de transformar a capital colonial em uma moderna metrópole europeia. Sob a influência do Iluminismo tardio e das notícias que chegavam sobre as reformas de Pinel na França, a elite médica brasileira, que havia estudado sobretudo na França e em Portugal, começou a pressionar o poder público pela criação de espaços específicos para o tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1830, a criação da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (que viria a ser a [[Academia Nacional de Medicina]]) foi o marco institucional dessa pressão. Esse movimento político funcionou. O momento decisivo ocorreu em 18 de julho de 1841, quando o Imperador D. Pedro II, em comemoração à sua coroação, assinou o decreto de fundação do primeiro hospital psiquiátrico do Brasil e da América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Hospício de Pedro II, ou o Palácio dos Loucos (1852–1889) ===&lt;br /&gt;
Inaugurado apenas em 8 de dezembro de 1852, o [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)|Hospício de Pedro II]] era gerido pela Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, que por anos geriu grande parte da loucura brasileira. Seu provedor era o médico [[José Clemente Pereira]], que era responsável por todos os aspectos da instituição, desde os médicos até os administrativos. Embora a gestão administrativa fosse religiosa, o saber médico tinha muito espaço, com nomes como [[Manoel Feliciano Pereira de Carvalho]], que tentaram implementar o &amp;quot;tratamento moral&amp;quot; inspirado em Esquirol. Apesar dos esforços, muitos relatos de abusos e de condições precárias mostravam a dificuldade em implementar um modelo brasileiro de tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a Proclamação da República em 1889, o Hospício de Pedro II foi desvinculado da Santa Casa e renomeado como [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)]]. Este foi um período de maior laicização e pela busca por um maior rigor científico, o que não aconteceu por completo, em grande parte devido à falta de profissionais adequadamente treinados para a questão. Apesar disso, o Brasil já possuía uma cátedra de psiquiatria desde 1883, ocupada por João Carlos Teixeira Brandão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diante dos altíssimos custos em manter o Hospital, surgem as colônias agrícolas como alternativa ao confinamento urbano. Em 1884, já havia sido inaugurada a [[Colônia de São Bento]] e, em 1890, a [[Colônia de Conde de Mesquita]], na Ilha do Governador. A ideia era que o trabalho na terra poderia colaborar na cura, além de os produtos deste trabalho poderiam ser consumidos no local, ajudando na manutenção dos espaços. Apesar dessas transformações e de evidentes melhorias, os relatos de época mostram que não acontecia nenhuma das duas coisas, nem produção agrícola suficiente, nem um processo terapêutico efetivo, mas entendia-se que a colônia agrícola era melhor do que o confinamento do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Era Juliano Moreira ===&lt;br /&gt;
Em 1903, o médico baiano [[Juliano Moreira]] assume a direção do Hospital Nacional de Alienados. Negro, de origem humilde e dotado de uma erudição impressionante, ele revolucionou a assistência brasileira aos alienados, sendo reconhecido internacionalmente como um dos grandes psiquiatras de seu tempo. Ele se tornaria o principal médico alienista do Brasil, tornando-se referência para todo o país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Moreira aboliu definitivamente o uso de camisas de força e as grades nas janelas, num gesto que se assemelhava àquele de Pinel, enfatizando que o hospital era um local de tratamento e cura, e não uma prisão ou um depósito de indesejados. Além disso, ele trouxe para o Brasil a nosologia de Emil Kraepelin, um psiquiatra alemão considerado o pai da psiquiatria moderna, da psicofarmacologia e da genética psiquiátrica, o que seria uma modernização do modelo francês adotado até então. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a gestão Moreira ocorreram várias mudanças. Foi criado o [[Pavilhão Bourneville]] para crianças com deficiência intelectual. Além disso, fundou-se em 1921 o [[Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro]], o primeiro do país, sob a liderança de [[Heitor Carrilho]]. Dentro dos hospitais incentivou-se a pesquisa laboratorial e anátomo-patológica, o que também abriu espaço para a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A influência e o prestígio de Juliano Moreira se espalhou pelo Brasil. Em São Paulo, destacou-se a figura de [[Franco da Rocha|Francisco Franco da Rocha]], que fundou em 1898 o [[Hospital do Juquery]]. O Juquery, como ficou conhecido, tornou-se uma &amp;quot;cidade-asilo&amp;quot;, chegando a abrigar dezenas de milhares de pacientes em um modelo que mesclava pavilhôes médicos com imensas colônias agrícolas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste período, a psiquiatria brasileira flertou intensamente com as teorias da degenerescência (de Morel e Magnan) e com a eugenia. Médicos como [[Renato Kehl]], bem como a criação da [[Liga Brasileira de Higiene Mental]] (1923), uma organização higienista fundada por [[Gustavo Riedel]], começaram a ver a loucura não apenas como um problema individual, mas como um risco biológico à raça brasileira. A higiene mental passou a atuar preventivamente em escolas e fábricas, buscando identificar &amp;quot;pré-delinquentes&amp;quot; e &amp;quot;personalidades anormais&amp;quot;. Apesar de não ter conseguido desenvolver muitas políticas efetivas, os eugenistas brasileiros eram ativos e influentes em muitos círculos decisórios importantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A criação de hospitais não se limitou a São Paulo e Rio de Janeiro. Em  1903, o governo de Minas Gerais fundou o [[Hospital Psiquiátrico de Barbacena]], que mais tarde seria palco de uma das maiores tragédias humanitárias do país. Em Pernambuco, o [[Hospital Ulysses Pernambucano]] foi fundado pelo médico de mesmo nome, que começou a desenvolver uma psiquiatria mais voltada para o social e para a prevenção no final dos anos 1920. Hospitais na Bahia, Rio Grande do Sul, entre outros, também foram criados, seguindo o pioneirismo do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Era Vargas e além: o início do encarceramento ===&lt;br /&gt;
Com a Revolução de 1930, o projeto de nação de Vargas exigia um povo saudável e produtivo, devido à visão desenvolvimentista suportada pela Aliança Liberal, que o elegeu. A loucura deixou de ser apenas uma questão de ordem pública ou um aspecto da caridade para se tornar um problema de segurança nacional e de saúde pública. Em 1941, no âmbito do Estado Novo, foi criado o [[Serviço Nacional de Doenças Mentais (SNDM)]], substituindo o antigo modelo de assistência a alienados, que era fragmentado nas diferentes províncias. Dessa maneira, Vargas criou uma diretriz federal centralizada para a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a Liga Brasileira de Higiene Mental ganhou fôlego. O foco deslocou-se do hospital para a prevenção na sociedade. A psiquiatria não deveria se limitar aos hospitais, mas também atuar na escola, na fábrica e na família, buscando limpar a nação e extirpar o que chamavam de &amp;quot;elementos degenerados&amp;quot;. O médico Gustavo Riedel e seus sucessores defendiam que o Estado deveria intervir precocemente para evitar que o &amp;quot;anormal&amp;quot; se tornasse um fardo para a máquina pública.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi durante as décadas de 1930 e 1940 que o modelo de colônia agrícola, antes visto como terapêutico e de assistência à manutenção hospitalar, atingiu proporções industriais. O que se viu em Barbacena e em instituições como o Juquery em São Paulo, foi a transformação do hospital em, praticamente, um campo de concentração administrativo. A internação não dependia mais de um diagnóstico médico rigoroso, que na prática ainda era frágil e baseado em elementos pouco científicos. Bastava ser considerado &amp;quot;socialmente inconveniente&amp;quot; para correr-se o risco de ir parar numa instituições dessas. Assim, pobres, prostitutas, homossexuais, militantes políticos e mães solteiras eram enviados para essas instituições, onde a sobrevivência era a exceção. Estima-se que, no auge do descaso, o Hospital de Barbacena registrava um número alarmante de óbitos por frio, fome e doenças evitáveis, cujos corpos eram, por vezes, vendidos para faculdades de medicina. Situações similares aconteciam em outras instituições do tipo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tratamentos Brutais e os Modos de Resistência ===&lt;br /&gt;
Para além do horror asilar, o período entre 1930 e 1950 também foi marcado pela introdução de terapias biológicas drásticas, importadas da Europa, conhecidas como [[somatoterapias]]. Com uma psicofarmacologia pouco eficaz, os médicos buscavam &amp;quot;chacoalhar&amp;quot; o organismo, produzindo nele como um choque que pudesse restaurar a razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma dessas técnicas era a [[insulinoterapia]]. Introduzida na Europa pelo médico austríaco Manfred Sakel (1900–1957) em Viena, no início dos anos 1930, representou uma das primeiras e mais invasivas formas de somatoterapia. Originalmente destinada ao tratamento da [[esquizofrenia]], a técnica consistia na administração de doses maciças de insulina no paciente, provocando um estado de hipoglicemia profunda que levava o paciente ao coma. Na volta desse estado, se esperava que o indivíduo “restaurasse” a razão por conta do choque orgânico violento que havia vivenciado. O procedimento era extremamente perigoso e estava associado a uma alta taxa de mortalidade e morbidade devido às convulsões e aos possíveis danos cerebrais. Apesar dos riscos, o método foi amplamente adotado no mundo todo, incluindo o Brasil, onde foi usado em grandes instituições de confinamento, como o Hospital Nacional de Alienados (HNA), no Hospital Juquery, entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que passou a ser muito utilizada foi a [[Eletroconvulsoterapia]], ou simplesmente o eletrochoque. Introduzido no Brasil logo após sua invenção na Itália (1938), consiste em colocar eletrodos carregados com correntes elétricas em lados opostos, na lateral da cabeça, de modo que uma forte corrente elétrica atravessasse o cérebro. A duração e a intensidade podiam variar, mas relatos de mais de trinta minutos de choques violentos não eram incomuns. Sua brutalidade era tamanha que exigia que sua vítima fosse fortemente amarrada. Tornou-se uma ferramenta onipresente nos hospitais, muitas vezes aplicada sem anestesia e como método de punição, desvirtuando sua finalidade clínica já questionável e usada, basicamente, como ferramenta de tortura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que ingressou no Brasil nesse período foi a [[lobotomia]], um procedimento cirúrgico que consistia em apenas retirar um pedaço do cérebro do paciente. Eles foram realizados em larga escala em hospitais como o Juquery e no Hospital Pedro II, buscando a docilização de pacientes crônicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em oposição à violência do isolamento oferecido por essas instituições, surge a figura de [[Nise da Silveira]]. Em 1946, após ter sido presa pelo regime de Vargas por suas inclinações políticas, Nise assumiu o Setor de Terapêutica Ocupacional do [[Centro Psiquiátrico Nacional]] (Engenho de Dentro), no Rio de Janeiro. Ela se recusou a usar eletrochoques e lobotomias, introduzindo a arte e o afeto como mediadores da cura. Ela fundou o [[Museu de Imagens do Inconsciente (MIS)|Museu de Imagens do Inconsciente]] em 1952, onde demonstrou, através das pinturas e esculturas de pacientes como [[Arthur Bispo do Rosario]], que o louco preservava uma riqueza simbólica e uma humanidade que a psiquiatria tradicional tentava apagar. Sua colaboração com [[Carl Jung]] colocou a experiência brasileira no mapa da psicologia analítica mundial, provando que o tratamento em liberdade e através da expressão criativa era viável.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Criação da Indústria da Loucura ===&lt;br /&gt;
No final da década de 1950 e início da de 1960, durante o governo de Juscelino Kubitschek e o breve período democrático posterior, o Brasil viu o surgimento de uma nova e ainda mais perversa dinâmica: a Indústria da Loucura. A assistência psiquiátrica, antes quase totalmente pública ou baseada no assistencialismo das Santas Casas, começou a ser privatizada. Com o crescimento dos institutos de previdência (IAPs), o Estado passou a pagar hospitais privados por dia de internação. Isso criou um incentivo perverso: quanto mais tempo o paciente ficasse internado e quanto menos recursos fossem gastos com ele, maior o lucro das clínicas privadas. Esse modelo, conhecido como &amp;quot;hospitalocêntrico&amp;quot;, inchou o sistema e preparou o terreno para a política de contenção social que seria radicalizada após o golpe de 1964. Foi um momento de multiplicação da brutalidade. Pouco importava a loucura ou não, o tratamento ou não, a eficácia ou não. O que importava era lucar com o dinheiro estatal por meio de um encarceramento fácil de impor e praticamente impossível de escapar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A coisa se aprofundou ainda mais com o golpe militar, que unificou em 1966 os Institutos de Aposentadoria e Pensões no INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), produzindo uma centralização gigantesca de recursos, com um modelo de privatização quase total. A psiquiatria, por ser uma especialidade cuja formação exigia baixo investimento tecnológico quando comparada a outras como a cirurgia, cardiologia ou oncologia, permitia grandes lucros com as internações de longa permanência. Assim, trancafiar e atormentar os loucos tornou-se o setor mais atraente para o empresariado da saúde.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de pessoas possivelmente diagnosticadas, o sistema era alimentado pelo encarceramento de militantes políticos, estudantes rebeldes, pessoas em situação de rua,  mendigos, homossexuais, indivíduos com comportamentos &amp;quot;desviantes&amp;quot; da moral tradicional, dependentes químicos, alcoólatras ou mesmo pessoas “problemáticas” da família, que se recusavam, por exemplo, a participar de casamentos arranjados, que denunciavam violência sexual sofrida ou eram apenas mulheres que haviam engravidado antes do casamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As instituições privadas multiplicaram-se pelo interior do país, longe dos olhos da fiscalização e dos centros urbanos. Instaladas em locais de difícil acesso, facilitava o ocultamento de violações de direitos humanos e ainda utilizava da conivência dos governos locais. As populações dessas localidades, crentes no saber médico, dificilmente desconfiavam do que poderia acontecer dentro dessas instituições e, quando vazavam denúncias, elas rapidamente podiam ser facilmente manejadas em conluio com os poderes locais. A loucura tornou-se um negócio de massa, com o abrigo precário de centenas de pessoas em galpões, onde a única &amp;quot;terapia&amp;quot; era a contenção química por sedativos baratos ou o uso indiscriminado do eletrochoque para manter a ordem além, é claro, da violência e brutalidade de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Luta Antimanicomial ==&lt;br /&gt;
No final da década de 1970, o modelo de saúde mental começou a dar sinais de exaustão, tanto financeira quanto ética. O Estado já não conseguia arcar com os custos crescentes de um sistema que só expandia o número de crônicos, e as denúncias de maus-tratos começaram a furar o bloqueio da censura, aparecendo em jornais mais prestigiados e em espaços mais amplos do debate social. O estopim para a o início do movimento da reforma psiquiátrica no Brasil começa com uma crise na [[Divisão Nacional de Saúde Mental (DINSAM)]], que havia recebido denúncias de irregularidades no Centro Psiquiátrico Pedro II, no [[Hospital Pinel]], na [[Colônia Juliano Moreira]] e no [[Manicômio Judiciário Heitor Carrilho]]. A denúncia foi acompanhada de uma greve por parte dos funcionários, que exigiam melhorias institucionais e questionavam irregularidades trabalhistas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É dessa crise que surge o [[Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM)]] que, nesse primeiro momento, estão mais preocupados com questões trabalhistas do que com o problema da própria prática psiquiátrica, que vai caracterizar parte dos movimentos antimanicomiais posteriormente. O MTSM se fortalece e consegue espaço no extremamente conservador [[V Congresso Brasileiro de Psiquiatria]], que ocorre em 1978, no que fica conhecido como “congresso da abertura”, num período também de abertura política com o iminente fim do regime militar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda em 1978, um grupo importante de intelectuais vinculados às bases teóricas do [[Movimento Antimanicomial]] participa do [[I Congresso Brasileiro de Psicanálise de Grupos e Instituições]], incluindo [[Franco Basaglia]], [[Felix Guattari]], [[Robert Castel]] e [[Erwin Goffman]], todos eles de grande inspiração e influência para o movimento antimanicomial brasileiro. No ano seguinte, o [[I Congresso Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental]] fortalece a contextação não apenas de problemas trabalhistas, mas do próprio modelo asilar e da forma como a psiquiatria intervinha e oprimia a população marginalizada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação público-privada que alimentava o modelo até então começa a ruir em 1980, com a chamada política da co-gestão interministerial. Nela, um convênio celebrado entre o Ministério da Previdência e Assistência Social com o Ministério da Saúde liquida a &amp;quot;Unidade de Serviço&amp;quot;, a política que permitia a contratação privada de serviços psiquiátricos e que representou o triunfo do público sobre o privado. Membros do MTSM passam a integrar a gestão do atendimento em saúde mental que, por dentro do aparato estatal, começam a implementar uma política de saúde pública baseada em prestação de serviços, cooperação, descentralização e regionalização, propostas que já eram defendidas pelos reformadores. Apesar desses avanços, críticos afirmam que a política de co-gestão apenas visava reformar os serviços, não atingindo o âmago da questão, que seria desconstruir o próprio paradigma psiquiátrico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo de desinstitucionalização de fato começa em 1985, ano marcado pelo fim da Ditadura Militar e pela realização de vários eventos que aprofundam o debate sobre a situação do atendimento. A [[I Conferência Nacional de Saúde Mental]] marca o início da desinstitucionalização devido aos conflitos entre o MTSM, a ABP e grupos não-organicistas que passaram a dirigir o DINSAM. Na conferência, consagrou-se uma reviravolta na perspectiva com a consolidação do lema &amp;quot;por uma sociedade sem manicômios&amp;quot;, rompendo com a lógica tanto privatista quanto estatista e questionando o próprio modelo psiquiátrico tradicional. Este passou a ser amplamente entendido como fenômeno cultural que promove o tratamento moral e o controle dos corpos, uma visão abertamente basagliana e antimanicomial. Alguns entendem que, nesse momento, a tradição anti-institucional que originou os primeiros questionamentos na década de 1970 foi restaurada e fortalecida. Após a Conferência, o próprio MTSM se renovou, se desatrelando do Estado, retomando sua independência e seu papel de transformação social.  A mudança do movimento se consolidou no [[II Congresso Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental]], quando a noção de racionalização e modernização dos serviços que havia caracterizado o período da co-gestão foi recusado em nome de uma pauta anti-institucional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em meados dos anos 1980 começam a surgir novos modelos de atenção à saúde que poderia substituir o modelo psiquiátrico. Em São Paulo é criado o primeiro [[Centro de Atenção Psicossocial (CAPS)]], em 1987. Em Santos, surge o [[Núcleo de Atenção Psicossocial (NAPS)]], em 1989. Estes serviços passaram a ser vistos como os modelos para uma contestação profunda dos manicômios, justificando seu encerramento. Já na década de 1990, o SUS introduziu mecanismos de fiscalização e auditoria que começaram a sufocar financeiramente os asilos privados que não cumpriam níveis mínimos de dignidade. Portarias históricas do Ministério da Saúde, inspiradas na [[Declaração de Caracas (1990)]], passaram a proibir a criação de novos leitos psiquiátricos asilares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após mais de uma década de tramitação e intensos debates no Congresso Nacional, como fruto dos embates históricos iniciados na crise do DINSAM e que atravessaram debates públicos extremamente imporantes, foi promulgada a Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001, que ficou conhecida como [[Lei da Reforma Psiquiátrica]] ou Lei Paulo Delgado, seu autor. Esta legislação se tornou o marco jurídico definitivo da virada assistencial no Brasil. A lei instituiu o direito do paciente de ser tratado em ambiente terapêutico o menos restritivo possível e colocou a internação psiquiátrica como último recurso possível. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para preencher o vazio deixado pelo fechamento dos grandes hospitais, o SUS estruturou a [[Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)]], formalizada na década seguinte pela Portaria nº 3.088 de 2011. A RAPS organizou o cuidado em diferentes níveis de complexidade, com os CAPS divididos nas modalidades CAPS I, II, III, CAPSi  e CAPS AD e, por fim, os [[Serviços de Residência Terapêutica (SRT)]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, a luta continua devido a retrocessos observados na segunda metade da década de 2010 e início dos anos 2020. Mudanças nas diretrizes da Política Nacional de Saúde Mental tentaram reintroduzir a centralidade do hospital psiquiátrico e incentivaram o uso de práticas baseadas no isolamento. Além disso, o governo federal passou a financiar massivamente as chamadas [[Comunidades Terapêuticas]], instituições de caráter predominantemente privado e religioso voltadas ao acolhimento de usuários de drogas, de onde emanam graves denúncias de todos os tipos de violação dos direitos humanos e que representam um evidente retrocesso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje, o campo da saúde mental no Brasil vive um embate profundo entre duas visões. De um lado, aqueles que lutam pela consolidação da RAPS, em defesa da clínica da subjetividade, da defesa dos direitos humanos, pela redução de danos e pela inserção social pelo trabalho e pela cultura. Do outro lado observa-se a persistência do &#039;&#039;lobby&#039;&#039; asilar e de setores que buscam a mercantilização do cuidado, por meio do encarceramento, da medicalização extrema do sofrimento psíquico, da higienização dos centros urbanos e do recolhimento dos indesejáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
AMARANTE, Paulo. &#039;&#039;&#039;Loucos pela vida&#039;&#039;&#039;: a trajetória da reforma psiquiátrica no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 1995.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ARBEX, Daniela. &#039;&#039;&#039;Holocausto brasileiro&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Geração Editorial, 2013.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BASAGLIA, Franco. &#039;&#039;&#039;A instituição negada&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Graal, 1985.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BIRMAN, Joel. &#039;&#039;&#039;A physis da arte&#039;&#039;&#039;: Deleuze e a clínica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CAMPOS, Gastão Wagner de Sousa. &#039;&#039;&#039;Tratado de saúde coletiva&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Hucitec, 2006. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CASTEL, Robert. &#039;&#039;&#039;A ordem psiquiátrica&#039;&#039;&#039;: a idade de ouro do alienismo. Rio de Janeiro: Graal, 1978.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
COSTA, Jurandir Freire. &#039;&#039;&#039;Violência e psicanálise&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Graal, 1986.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
COSTA, Jurandir Freire. &#039;&#039;&#039;História da assistência psiquiátrica no Brasil&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Garamond, 2007. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
DALGALARRONDO, Paulo. &#039;&#039;&#039;Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais&#039;&#039;&#039;. Porto Alegre: Artmed, 2018. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ENGEL, Magali. &#039;&#039;&#039;Os delírios da razão&#039;&#039;&#039;: médicos, loucos e hospícios (Rio de Janeiro, 1830-1930). Rio de Janeiro: Fiocruz, 2001&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
FOUCAULT, Michel. &#039;&#039;&#039;História da loucura na Idade Clássica&#039;&#039;&#039; (Trad, de José Teixeira Coelho Netto). São Paulo: Perspectiva, 2014.&lt;br /&gt;
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MELLO, Luiz Carlos. &#039;&#039;&#039;Nise da Silveira&#039;&#039;&#039;: caminhos de uma psiquiatra rebelde. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2014.&lt;br /&gt;
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PEREIRA, Ana Leonor; PITA, João Rui. &#039;&#039;&#039;A institucionalização da loucura em portugal&#039;&#039;&#039;. Coimbra: Estudo Geral, 1994.&lt;br /&gt;
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PESSOTTI, Isaias. &#039;&#039;&#039;A loucura e as épocas&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994.&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
SANTOS, Marcus Vinícius do Amaral Gama. História whig e história da psicologia. Em: ____. &#039;&#039;&#039;História whig, história da psicologia e história da psiquiatria&#039;&#039;&#039;: investigando a revolução behaviorista e a reforma psiquiátrica brasileira. Rio de Janeiro, 2023. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2023, p.94-133.&lt;br /&gt;
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TENÓRIO, Fernando. A Reforma Psiquiátrica Brasileira da década de 1980 aos dias Atuais: história e conceitos. &#039;&#039;&#039;História, Ciências, Saúde-Manguinhos&#039;&#039;&#039;, v. 9, n. 1, 2002.&lt;br /&gt;
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VENANCIO, Ana Teresa A.; CARVALHAL, Lázaro. Juliano Moreira: a ciência da assistência e a assistência da ciência. &#039;&#039;&#039;Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental&#039;&#039;&#039;, 2001.&lt;br /&gt;
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YASUI, Silvio. &#039;&#039;&#039;Rupturas e encontros&#039;&#039;&#039;: desafios da Reforma Psiquiátrica Brasileira. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2010.&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1692</id>
		<title>História da loucura: da Grécia antiga à luta anti-manicomial</title>
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		<updated>2026-07-03T22:05:35Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* Tradição bíblica */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto com finalidade didática, escrito por André Elias Morelli Ribeiro para o curso de Psicologia do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras. Seu uso é aberto, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Introdução ==&lt;br /&gt;
A história da loucura é, ao mesmo tempo, uma narrativa sobre o modo como diferentes sociedades compreenderam a mente humana e uma reflexão sobre os mecanismos de poder que moldaram práticas de exclusão, cuidado e resistência vinculados às diferentes formas que diferentes grupos humanos entenderam como loucura ou algo similar, conforme uma visão ampliada contemporânea. Este material inicia na Grécia antiga e chega até o movimento antimanicomial no Brasil e, ao longo deste trajeto, pode-se observar como a loucura foi interpretada ora como intervenção divina, ora como desvio moral, ora como doença fisiológica, ora como ameaça social. Cada época construiu suas próprias respostas àquilo que considerou loucura que variaram entre a integração comunitária, o confinamento, o tratamento brutal e a busca por tratamentos médicos ou espirituais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, a trajetória seguiu de perto os modelos europeus. Do Hospício de Pedro II às colônias agrícolas, passando pela gestão de Juliano Moreira, a psiquiatria nacional oscilou entre avanços humanitários e práticas de exclusão. O período Vargas e o Estado Novo intensificaram o encarceramento, transformando hospitais em verdadeiros campos de concentração administrativos. As décadas seguintes viram a adoção de terapias brutais, como eletrochoques e lobotomias, mas também o surgimento de movimentos de resistência, como o trabalho de Nise da Silveira, que introduziu a arte e o afeto como caminhos de cura, ou a emergência de questionamentos ao modelo psiquátrico manicomial. A partir dos anos 1960, a privatização da assistência psiquiátrica gerou a chamada “Indústria da Loucura”, marcada por internações lucrativas e violações sistemáticas de direitos humanos que marcaram profundamente a forma como se entende a loucura contemporaneamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em síntese, o percurso histórico apresentado aqui mostra que a loucura nunca foi apenas um fenômeno clínico mas, antes, um espelho das sociedades, revelando seus medos, suas crenças e suas formas de organizar o convívio humano. De sagrada a temida, de medicalizada a mercantilizada, apresenta-se e se discute como surgiram vozes e práticas que reivindicaram humanidade e liberdade para os considerados loucos.&lt;br /&gt;
== As Loucuras no Mundo Antigo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Grécia antiga ===&lt;br /&gt;
Na Grécia antiga, em certo momento a loucura era considerada uma intervenção dos deuses e, como os gregos era politeístas, a varidade de formas de loucura e os modos de intervenção também era bem grande. A loucura poderia ser vista, por exemplo, como uma punição. É o caso do herói Ajax, filho de Telamão. Após a morte de Aquiles, a armadura do herói foi dada a Odisseu, e a afronta levou Ajax a um estado de fúria e ressentimento. A deusa Atena, intervindo em favor de Odisseu para proteger os Aqueus da vingança de Ajax, lançou sobre ele uma cegueira mental. Tomado pela loucura, Ajax massacrou o gado de guerra que havia sido capturado, acreditando que estava matando os líderes aqueus, incluindo Odisseu e Agamenon. Ao recobrar a sanidade e perceber seu ato vergonhoso, cometeu suicídio devido à humilhação. Essa cena ilustra a loucura como uma intervenção divina direta na forma de loucura poderia ser vista como destrutiva e extremamente negativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em outros episódios da mitologia grega, a loucura surge como uma consequência direta de traumas e da perseguição implacável por vingança. Um exemplo é o de Orestes que, após assassinar sua mãe, Clitemnestra para vingar a morte de seu pai, Agamenon, passa a ser atormentado pelas Erínias. Essas divindades da vingança, também conhecidas como Fúrias, levaram o herói a um estado de delírio e desespero profundo, personificando a tortura psicológica e a perda da razão como uma forma de acerto de contas espiritual e moral pelo matricídio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura não era unicamente um flagelo ou uma punição. Os gregos  viam a mania, um termo que hoje engloba a loucura, em uma perspectiva dual. Na sua manifestação mais elevada, era considerada uma benção ou inspiração divina. Essa visão positiva estava profundamente ligada ao culto de Dionísio, o deus do vinho, do teatro e do êxtase. Nos rituais dionisíacos, as bacantes e outros seguidores buscavam o êxtase, que é, literalmente, &amp;quot;sair de si&amp;quot;, por meio da dança frenética, música e consumo de vinho, o que era percebido como um estado de comunhão direta e inspirada com a divindade. Longe de ser destrutiva, essa forma de loucura era vista como uma fonte de criatividade, revelação e poder, sendo um caminho para a verdade profética e como expressão artística ligada a Dionísio. Este conceito de mania inspirada também se estendia a outros domínios, como a profecia dos oráculos, que eram vinculados à adoração ao deus Apolo, e mesmo a poesia, onde a perda temporária da razão humana era interpretada como a mente sendo tomada por uma força divina que trazia algum tipo de inspiração superior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em certo momento, ainda na Grécia antiga, as ideias sobre a loucura - ou algo que pareça loucura aos olhos contemporâneos - foi modificada graças a Hipócrates, o pai da medicina. A visão de [[Hipócrates]] marcou uma transição crucial para o entendimento da loucura na Grécia Antiga, pois afastou a loucura das concepções divinas e sobrenaturais para uma explicação puramente fisiológica e natural. Ele desenvolveu a [[Teoria dos Quatro Humores]], que se tornou o pilar da medicina ocidental por séculos. Segundo essa teoria, o corpo humano era composto por quatro fluidos essenciais (ou humores), que são sangue, fleuma, bile amarela e bile negra. A saúde mental e física dependia do equilíbrio harmonioso desses humores. A loucura, ou qualquer doença mental, era, portanto, interpretada como o resultado de um desequilíbrio, como o excesso de bile negra causando a melancolia (depressão), ou o desarranjo da fleuma e da bile amarela, que poderiam levar a estados de mania e frenesi. Com isso, Hipócrates postulou que a loucura não era uma maldição dos deuses, mas sim uma doença com origem no corpo. Essa abordagem naturalista permitiu que a loucura passasse a ser tratada com métodos como dietas, exercícios e remédios, no lugar de rituais religiosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tradição bíblica ===&lt;br /&gt;
Na tradição bíblica, escrita em contextos e culturas não europeias, a loucura também é frequentemente retratada como uma forma de intervenção ou punição divina. Um dos episódios mais emblemáticos é a história do rei Nabucodonosor II, relatada no Livro de Daniel. De acordo com o texto, devido ao seu orgulho excessivo e sua recusa em reconhecer a soberania de Deus, o rei foi acometido por uma forma de loucura que o levou a viver como um animal, alimentando-se de ervas e deixando seus cabelos e unhas crescerem sem controle. Na psicologia moderna, esse estado em que um indivíduo acredita ter se transformado em um animal é conhecido como licantropia clínica, uma condição rara. A loucura, conforme emerge na descrição bíblica, emerge ligada à perda da razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, a tradição bíblica também apresenta um paradoxo. No Novo Testamento, cujos livros foram escritos no contexto do mundo greco-romano, o que é considerado &#039;loucura&#039; pelos homens revela-se a suprema sabedoria divina. Essa ideia é desenvolvida pelo apóstolo Paulo em sua Primeira Carta aos Coríntios. Na passagem, ele afirma: &#039;Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens&#039; (1 Coríntios 1:25). Paulo usa o termo &#039;&#039;moria&#039;&#039; (loucura, tolice) para contrastar a sabedoria humana que, na época do texto, era representada pela filosofia e retórica grega. A mensagem da cruz parecia ilógica e insensata aos olhos dos não cristãos, que debochavam do fato do messias ter sido capturado e morto pelos romanos. Assim, a loucura deixa de ser apenas uma punição para se tornar uma lente através da qual a verdadeira sabedoria, ou seja, a salvação, é revelada, invertendo a hierarquia de valores do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Pérsia ===&lt;br /&gt;
Na Pérsia, a visão da loucura e do comportamento irracional foi moldada por seu profundo dualismo religioso e, posteriormente, pelas tradições islâmicas que se seguiram à conquista árabe. O zoroastrismo, a antiga religião persa fundada por Zoroastro (Zaratustra), transformou o politeísmo em um dualismo cósmico centralizado no conflito eterno entre Ahura Mazda (Ormazd), o criador da vida, luz e verdade, e Angra Mainyu (Ahriman), a escuridão e a mentira. Neste cenário, o mundo material é o campo de batalha entre os dois. Ahriman buscava corromper tudo o que Ormazd havia criado. Embora o texto não defina a loucura diretamente, o comportamento irracional e a desrazão poderiam ser facilmente associados ao domínio de Ahriman e à mentira (&#039;&#039;druj&#039;&#039;), enquanto a sanidade e a pureza eram atributos de Ormazd. A batalha contra essa corrupção exigia que os adoradores de Ormazd permanecessem verdadeiros e evitassem poluir o fogo e a terra sagrada, indicando que a pureza mental e ritual era uma defesa contra as forças do mal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Islã ===&lt;br /&gt;
Na cultura islãmica, de forma geral e bastante resumida, o comportamento considerado irracional era frequentemente explicado pela crença nos &#039;&#039;djinn&#039;&#039;, espíritos errantes que habitavam o deserto e certos lugares considerados místicos e que podiam invadir a mente humana, causando o que a sociedade ocidental moderna chamaria de insanidade ou, talvez, distúrbio emocional, cujo tratamento era o exorcismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura também apareceu em narrativas culturais associadas aos povos, de forma a sugerir causas e curas mais mundanas. O famoso conto persa de As Mil e Uma Noites relata a história do rei Shahriyar, que, convencido da inevitável traição feminina, cai em uma loucura paranóica que o leva a se casar com uma virgem todas as noites e, pela manhã, assassiná-la. Sua &amp;quot;cura&amp;quot; é alcançada através da engenhosidade e paciência humana por meio de uma dessas esposas, Scheherazade, que usa a arte de contar histórias para retardar sua execução por &amp;quot;mil e uma noites&amp;quot;, período em que sua paranoia é gradualmente desfeita. A história sugere que a narrativa e o tempo podem curar a loucura causada por trauma psicológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As Loucuras na Idade Média ==&lt;br /&gt;
A transição para a Idade Média é marcada pelo colapso do Império Romano do Ocidente (476 d.C.), que trouxe profundas transformações políticas e sociais. O fim do governo centralizado romano levou à fragmentação do poder e ao surgimento do sistema feudal, onde a administração das terras e a autoridade passaram para as mãos de senhores locais, muitos deles antigos oficiais romanos. Este período também é caracterizado por um notável declínio na vida urbana e nos grandes centros intelectuais. O colpaso das instituições romanas deu lugar à ascensão e consolidação da única instituição internacional grande e organizada que havia sobrado, a Igreja Católica, que se tornou a principal instituição, com poder tanto político quanto cultural e simbólico. Houve ainda uma perda gradual da tradição cultural greco-romana e, consequentemente, um afastamento das explicações naturalistas de Hipócrates, com exceção do pequeno renascimento do século XII e retomadas pontuais da sabedoria grega. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a hegemonia da Igreja Católica, a loucura tendeu a ser novamente interpretada sob uma lente teológica, sendo vista como uma manifestação de forças sobrenaturais ou desvios morais. Nesse contexto, certas vezes a loucura era interpretada como a intervenção de Satanás ou como possessão demoníaca, exigindo rituais de exorcismo para a cura. Em outros momentos, era vista como uma prova espiritual enviada por Deus ou como um efeito direto do pecado na alma do indivíduo. Havia também explicações que a tratavam como uma fragilidade da vontade humana, como no caso do que chamaríamos hoje de compulsões, misturando elementos da antiga tradição grega com aspectos da teologia cristã. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Socialmente, a gestão da loucura na Idade Média também passou por diferentes fases e transformações, dependendo do local e da época. Havia casos em que os considerados loucos eram apenas torturados e trancafiados, métodos considerados eficazes para expulsão de espíritos malignos, por exemplo. Contudo, em muitos outros casos, os considerados loucos conviviam de forma mais ou menos harmoniosa com o resto da comunidade, a depender de suas capacidades e possibilidades, e certos “desvios” eram perdoados devido à sua condição peculiar, sem a necessidade imediata de uma exclusão radical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Nau dos Loucos ===&lt;br /&gt;
Um caso notável e emblemático da gestão da loucura nesse período é a [[Nau dos Loucos]] (&#039;&#039;Stultifera Navis&#039;&#039;), conforme trabalhado por [[Michel Foucault]]. Anteriormente ao modelo de exclusão-repressão que viria a se consolidar na Idade Clássica, a loucura viveu o que se pode chamar de seus &amp;quot;dias de glória&amp;quot; na transição para a Renascença. Nesse contexto, o louco poderia ser visto como um sábio, um místico, um bobo da corte ou simplesmente um excêntrico que estava, de certa forma, integrado ao tecido social.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Nau dos Loucos simbolizava uma existência errante, onde o louco era confiado à água e ao navio para ser levado de uma cidade a outra, mantendo-o em um estado de exclusão simbólica, mas ainda assim em movimento e circulação. Para Foucault, essa experiência trágica da loucura permitia que o insano portasse uma forma de lucidez em sua insensatez, revelando verdades que a razão comum não ousava enunciar. O louco via através das ilusões mundanas, aproximando-se de uma verdade profética ou ética que seria progressivamente silenciada nos séculos seguintes pela ascensão do saber médico e da racionalidade científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Santa Dimpna e Geel ===&lt;br /&gt;
Outro acontecimento relevante da Idade Média para a compreensão da loucura é o episódio de [[Santa Dimpna]]. Nascida no século VII na Irlanda, ela era filha de um rei pagão e de uma mãe cristã devota, de quem herdou sua fé e pela qual decidiu fazer votos de castidade. Após a morte prematura da mãe, seu pai, mergulhado em um profundo luto, decidiu que Dimpna era a única mulher com beleza comparável à da falecida rainha e insistiu em se casar com a própria filha, o que seria considerado escandaloso também para aquela cultura. Diante dessa perseguição incestuosa, Dimpna fugiu da Irlanda acompanhada de seu confessor, o padre Gereberno, e de dois servos fiéis. O grupo cruzou o mar e estabeleceu-se em [[Geel]], um minúsculo vilarejo na atual Bélgica, onde Dimpna se dedicou ao cuidado dos pobres e doentes mentais. No entanto, o rei conseguiu encontrá-los e, após a recusa de Dimpna tanto em retornar para a Irlanda quanto se casar com o pai, ordenou a execução de Gereberno, enquanto ele mesmo decapitou a filha, tornando a menina de 15 anos de idade numa mártir cristã. Após sua morte, relatos de curas milagrosas de pessoas com distúrbios mentais e epilepsia começaram a ocorrer junto ao seu túmulo, o que a tornou a padroeira dos doentes mentais e o local um espaço de peregrinação ligado à questão da saúde mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O legado de Santa Dimpna em Geel deu origem a um modelo para a psiquiatria moderna pois, devido à devoção e adoração à Santa Dimpna, a cidade transformou-se em um santuário onde os pacientes não eram trancafiados, mas acolhidos em lares de famílias locais como &amp;quot;hóspedes&amp;quot;. Esse sistema de cuidado comunitário e desinstitucionalização, que persiste há séculos, é considerado um dos precursores do tratamento humanizado e da reabilitação psicossocial na saúde mental contemporânea.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Idade Clássica: a nova era da loucura encarcerada ==&lt;br /&gt;
A partir do século XVII, um período em que o filósofo Michel Foucault denominou como &amp;quot;A Época Clássica&amp;quot;, a forma de entender e lidar com a loucura passa por uma nova mudança devido ao ingresso da razão como centro e alma do pensamento europeu, em substituição ao dogmatismo religioso e ao conhecimento da igreja. Esta mudança não é brusca, mas lenta e gradual, porém suas marcas serão duradouras e serão sentidas por quase toda a Europa. Para essa nova e nascente razão, a loucura seria seu oposto direto. Se o homem era definido pela sua capacidade racional e sua utilidade produtiva, o louco era, portanto, como um &amp;quot;não-homem&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a solução para a não-razão era a internação, que não buscava a cura, mas a neutralização do irracional. O silenciamento da loucura era necessário para que a ordem social pudesse florescer. Os campos e cidades deveriam ser espaços de circulação de mercadorias pelas mãos de cidadãos produtivos, e qualquer elemento que atrapalhasse essa dinâmica deveria ser guardado em instituições que funcionavam como uma guarda contra o risco social que tais pessoas ofereciam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Relatos da época descrevem cenários terríveis sobre as condições de internação dos loucos. Os internos eram frequentemente mantidos em celas úmidas e insalubres, muitas vezes acorrentados às paredes. O uso de chicotes e outras punições corporais era justificado pela crença de que o louco, por ter perdido a razão, teria a resistência física de um animal, não sentindo frio ou dor da mesma forma que uma pessoa &amp;quot;normal&amp;quot;. Além disso, as instituições funcionavam sob uma lógica de vigilância constante. Não se tratava de observar para entender a mente, mas para garantir que o corpo anormal permanecesse contido e, no máximo possível, docilizado. Foi dentro desse ambiente de absoluta degradação e mistura indiscriminada de diferentes &amp;quot;tipos&amp;quot; de desviantes que a consciência médica começou a germinar, ainda que de forma incipiente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== França ===&lt;br /&gt;
O ano de 1656 marca um divisor de águas simbólico para o modelo de confinamento asilar no mundo todo, com a criação do Hôpital Général (Hospital Geral) em Paris, por um edito real do rei Luís XIV. É importante entender que um hospital geral deste período não é como um hospital moderno, ou seja, uma instituição médica e voltada para a compreensão da doença e a prática do tratamento e cura. Ele estava mais próximo de uma estrutura administrativa e, de certo modo, semi-judiciária. Isso ocorria porque o interesse não estava em “curar” ou “tratar” ninguém mas, antes disso, perseguir o interesse do Estado de &amp;quot;limpar&amp;quot; as ruas de Paris de tudo o que era considerado improdutivo ou escandaloso. Era um período de abundância material, grandes gastos estatais e de uma imensa riqueza do império colonial francês, e desvios nessa ordem eram vistos como perigosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes tais hospitais gerais eram confinados, todos juntos, grupos totalmente diferentes, tais como pobres, mendigos, desempregados, libertinos, prostitutas, alquimistas, opositores políticos e, claro, também os considerados loucos. Em suma, um depósito de indesejados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que começou em Paris se tornou um modelo para outros lugares sobre como fazer a gestão da miséria e da “desrazão”, num forte deslocamento do que se via na Idade Média. O louco, antes tendo algo de profético, místico ou talvez apenas uma excentricidade da vida medieval campesina, se torna uma questão político-administrativa. Essa mudança importante marca uma migração para a possibilidade de institucionalização daquilo que era considerado errante ou, de alguma forma, desagradável e, assim passível de ser alvo de uma forma de gestão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em Paris, as duas principais unidades do Hospital Geral se tornaram emblemáticas e simbólicas. A [[Salpêtrière]], que era destinada às mulheres, e o hospital [[Bicêtre]], destinado aos homens. Ambas as instituições não ofereciam qualquer forma de tratamento. Eram basicamente depósitos humanos, onde o louco poderia acabar acorrentado ao lado de criminosos, por exemplo. O critério de internação não era o diagnóstico clínico, mesmo porque simplesmente ele nem existia, mas a incapacidade de se ajustar às normas de trabalho e à moralidade da época.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Alemanha ===&lt;br /&gt;
Na Alemanha, surgiram as Zuchthäusern, que seriam as [[Casas de Correção (Zuchthäusern)|Casas de Correção]]. Cidades como Hamburgo e Bremen estabeleceram esses locais onde a loucura era tratada através do trabalho forçado. Eles acreditavam que o ócio era a raiz do mal e que o confinamento servia para reintegrar o indivíduo à lógica da produtividade. De qualquer forma, uma vez enclausurado, ele permanecia escondido da visão da população.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Inglaterra ===&lt;br /&gt;
Na Inglaterra, o sistema das Workhouses (Casas de Trabalho) cumpria um papel semelhante ao modelo alemão. No entanto, Londres já possuía o [[Bethlem Royal Hospital (Bedlam)|Bethlem Royal Hospital]], conhecido popularmente como Bedlam. No século XVII e XVIII, Bedlam se tornou um espetáculo de horror, onde o público podia pagar para observar os internos como se fossem animais em um zoológico. A loucura agora um objeto de uma forma de exibição degradante e mantida atrás de grades e ferros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Portugal ===&lt;br /&gt;
Em Portugal a gestão dos &amp;quot;desviantes&amp;quot; recaiu fortemente sobre as Santas Casas da Misericórdia. O [[Hospital Real de Todos-os-Santos]], fundado em Lisboa em 1492 e inaugurado em 1501, se tornou o epicentro do tratamento (ou confinamento) dos loucos no país. Dentro deste hospital, existiam as chamadas &amp;quot;[[Casas de Doidos]]&amp;quot;, destinados àqueles que haviam “perdido a luz da razão”. Seguindo o padrão europeu, o hospital não separava rigidamente o louco por diagnóstico. Eles dividiam espaço com indigentes e enfermos de diversas naturezas, embora as &amp;quot;casas de doidos&amp;quot; fossem áreas de maior isolamento devido à agitação dos internos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XVIII português, a internação era, acima de tudo, uma solução para a mendicância e, por vezes, para o alcoolismo. O louco oriundo de uma família com posses era mantido nas próprias casas, muitas vezes escondido em sótãos ou anexos e até mesmo acorrentados. Já o &amp;quot;louco pobre&amp;quot;, que não poderiam ser cuidados por seus familiares, acabava nos hospitais reais ou mesmo nas cadeias, a depender de uma série de fatores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Nascimento da Psiquiatria ==&lt;br /&gt;
=== Pinel e a criação da psiquiatria nosográfica ===&lt;br /&gt;
É na virada do século XVIII para o XIX que nasce a psiquiatria como um campo autônomo do saber e da prática médica. Esta mudança fundamental é protagonizada por duas figuras centrais da medicina francesa: [[Philippe Pinel]] e seu discípulo, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]]. Juntos, eles transformaram o hospital de depósito de insanos e indesejáveis em um verdadeiro hospital, em que o louco e o alienado poderiam receber um tratamento racional e científico, em substituição às correntes, à disciplina e ao silenciamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A emergência da psiquiatria como campo autônomo teve como fundamento científico inicial a observação clínica sistemática dentro do asilo. Este era concebido como um laboratório, onde o alienista poderia estudar a loucura em seu estado puro, separada das influências do mundo exterior. A principal questão científica e prática que justificava essa nova ciência era desenvolvida e aplicada de forma sistemática era a chamada nosografia ou diagnóstico. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pinel, em seu [[Traité médico-philosophique sur l&#039;aliénation mentale, ou la manie]], de 1801, classificou a loucura com base em critérios sintomatológicos, seguindo um procedimento comparativo semelhante ao das ciências naturais. O desafio central, que persistiria ao longo do século XIX, era a ambiguidade constante entre a busca por uma sede orgânica, ou seja, um “local físico-biológico” da loucura, junto da necessidade de uma regulação de caráter moral. O tratamento apoiava-se na moralidade para combater as causas que eram, elas próprias, consideradas morais, mas algo estava também no corpo do doente. Isso mostra que a nova psiquiatria de Pinel era a mistura de medicina com moralidade. Este enfoque resultou na valorização do exame clínico pelos psiquiatras francófonos, permitindo a união da observação clínica com a formulação de hipóteses.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1793, em meio ao fervor da Revolução Francesa, Philippe Pinel foi nomeado médico-chefe do Hospital de Bicêtre e, posteriormente, da Salpêtrière. O cenário que encontrou era o ápice do &amp;quot;Grande Enclausuramento&amp;quot;, ou seja, homens e mulheres amontoados nas condições já descritas, com destaque para as correntes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A intervenção de Pinel, simbolizada pelo gesto de “libertar os loucos de suas correntes”, não foi apenas um ato humanitário, mas também uma decisão de natureza epistemológica. Pinel acreditava que a loucura não era uma possessão demoníaca nem uma degeneração animal irreversível, mas uma alienação mental, em outras palavras, uma perturbação das faculdades intelectuais e afetivas que mantinha o indivíduo como se fosse &amp;quot;estrangeiro&amp;quot;, ou alienado, de si mesmo e da sociedade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O pilar para a reforma psiquiátrica proposta por Pinel era o tratamento moral, e se baseava em três pilares fundamentais. O primeiro, o isolamento terapêutico. Era necessário que o paciente ficasse separado de seu ambiente que, segundo o médico, era a fonte de sua excitação e desequilíbrio. O segundo pilar era a autoridade médica, onde este deveria atuar como um pai ao mesmo tempo severo e justo, usando a persuasão, a benevolência e, se fosse necessário, a firmeza para restaurar a razão do paciente. Por fim, a disciplina e o trabalho, com a aplicação rigorosa de horários e valorização de atividades produtivas, o que ocuparia a mente alienada e, assim, combateria a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em seus estudos, Pinel identificou quatro tipos de loucura, quais sejam, a [[melancolia]], a [[mania]], a [[demência]] e a [[idiotia]], cada uma com suas questões próprias específicas e metodologias de tratamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Esquirol e a consolidação do modelo ===&lt;br /&gt;
Se Pinel era considerado o visionário e o libertador, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]] foi o grande organizador e o clínico meticuloso. Discípulo de Pinel, Esquirol sucedeu seu mestre na Salpêtrière e deu à psiquiatria a robustez científica e administrativa de que ela necessitava. Esquirol compreendeu que a eficácia do tratamento moral dependia da arquitetura hospitalar. Para ele, o hospital não era apenas um prédio onde ocorria o tratamento, mas também um instrumento de cura. Ele desenvolveu o modelo de pavilhões, permitindo a separação dos pacientes por tipo de patologia, o que reforçou a própria ideia de diagnóstico e de avaliação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Esquirol refinou as definições clínicas de Pinel. Foi ele quem estabeleceu a distinção clássica entre alucinação (uma percepção sem objeto) e ilusão (uma percepção deformada de um objeto real), entre outros pontos que, na sua época, foram considerados avanços exemplares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Legalização da Alienação ===&lt;br /&gt;
O esforço médico, político e administrativo de Esquirol na continuação do trabalho de Pinel culminou na promulgação da lei francesa de 30 de Junho de 1838, a primeira grande legislação psiquiátrica do mundo moderno. Esta lei estabeleceu a obrigatoriedade de cada departamento francês possuir um asilo e regulamentou as condições de internação e interdição. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A princípio, embora também protegesse o alienado do arbítrio e de outras violências que poderiam ser cometidos contra os loucos nas províncias e mesmo nas periferias de Paris, a lei também deu total poder ao médico psiquiatra. Era ele quem poderia decidir quem deveria ou não ser privado de sua liberdade. Com isso, a psiquiatria tornava-se, assim, um braço do Estado na gestão da ordem social mas, ao contrário do polícia e do inquérito polícial, que exigia provas independentes e a atuação do sistema judiciário, o psiquiatra estava coberto sob o manto da ciência médica, o que dava a ele poderes gigantescos de decidir entre a alienação e a razão. Isso marcou profundamente a forma como a loucura e a saúde mental passaram a ser compreendidas e tratadas nas décadas seguintes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Emil Kraepelin e uma Nova Racionalização ===&lt;br /&gt;
Apesar da forte valorização da psiquiatria francesa na constituição da psiquiatria contemporânea, uma das principais contribuições para o ramo em sua forma atual foi empreendida por um alemão, [[Emil Kraepelin]]. No final do século XIX, a psiquiatria alemã estava dividida entre os &amp;quot;psiquistas&amp;quot;, que viam a loucura como uma doença da alma ou um mal moral, a exemplo dos franceses; e os &amp;quot;somatistas&amp;quot;, que buscavam no cérebro a origem dos sintomas das doenças mentais. Kraepelin superou esse impasse ao focar não na anatomia, mas na evolução temporal das doenças. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin passou a entender que sintomas isolados, como ouvir vozes ou acreditar ser uma personalidade histórica, não eram suficientes para definir uma doença, mas seu desenvolvimento ao longo do tempo. Com essa premissa em mãos, Kraepelin introduziu as &amp;quot;cartas diagnósticas&amp;quot; (&#039;&#039;Zählkarten&#039;&#039;), um sistema de fichamento padronizado onde se registrava a história de vida do paciente, seus antecedentes familiares, os sintomas detalhados e, por fim, o desfecho da doença. Isso transformou a clínica psiquiátrica, pois articulava neuroanatomia e psicologia experimental, já que ele fora aluno de [[Wilhelm Wundt|Wundt]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin também é considerado o pioneiro da [[Psiquiatria Transcultural]]. Visando provar que as categorias diagnósticas psiquiátricas seriam universais, ele viajou para lugares como a ilha de Java (Indonésia) em 1904 para estudar a manifestação da loucura em populações não europeias. Ele concluiu que, ainda que os conteúdos dos delírios mudassem conforme a cultura, a estrutura fundamental da loucura permanecia a mesma, o que reforçou sua tese de que eram doenças biológicas da espécie humana. Apesar disso, no final de sua vida ele se transformou um higienista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O I Congresso Internacional de Psiquiatria ===&lt;br /&gt;
Realizado em Paris em agosto de 1950, o [[I Congresso Internacional de Psiquiatria]] foi projetado especificamente para unificar, debater e institucionalizar a psiquiatria como uma disciplina médica global e autônoma. Durante o Congresso foram colocados, frente a frente, as grandes correntes que disputavam a hegemonia do entendimento da mente humana na época, a saber, as correntes psicodinâmica e a biológica. De forma menor, uma corrente social e anti-manicomial também se fez presente. O resultado do embate foi uma conciliação entre as duas maiores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um dos resultados do Congresso de 1950 foi a pressão para que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Associação Psiquiátrica Americana (APA) criassem manuais estatísticos e classificatórios unificados, o que resultou na inserção de uma seção robusta de transtornos mentais na CID-6 (Classificação Internacional de Doenças) e na publicação do primeiro [[DSM]], em 1952.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro resultado importante do evento foi a fundação da Associação Mundial de Psiquiatria ([[World Psychiatric Association (WPA)|World Psychiatric Association - WPA]]). Com isso, a psiquiatria deixou de ser um conjunto de escolas nacionais isoladas, como as escolas francesa, alemã, anglo-saxã, entre outras, para se tornar uma corporação científica internacional, com congressos periódicos, periódicos indexados e diretrizes globais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Loucura no Brasil ==&lt;br /&gt;
Até o início do século XIX, o Brasil colonial lidava com seus insanos de forma semelhante ao que ocorria na Europa. As famílias ricas mantinham seus parentes loucos em &amp;quot;quartos fortes&amp;quot;, privando-os mais ou menos da vida comunitária e familiar, a depender das circunstâncias, de forma semelhante ao que acontecia em Portugal. Já os pobres eram entregues à caridade das [[Santas Casas de Misericórdia]] ou vagavam pelas ruas, sendo ocasionalmente recolhidos a cadeias públicas quando perturbavam a ordem, indo e vindo das frágeis instituições brasileiras, sofrendo abusos e violências de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A transferência da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 gerou a necessidade de transformar a capital colonial em uma moderna metrópole europeia. Sob a influência do Iluminismo tardio e das notícias que chegavam sobre as reformas de Pinel na França, a elite médica brasileira, que havia estudado sobretudo na França e em Portugal, começou a pressionar o poder público pela criação de espaços específicos para o tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1830, a criação da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (que viria a ser a [[Academia Nacional de Medicina]]) foi o marco institucional dessa pressão. Esse movimento político funcionou. O momento decisivo ocorreu em 18 de julho de 1841, quando o Imperador D. Pedro II, em comemoração à sua coroação, assinou o decreto de fundação do primeiro hospital psiquiátrico do Brasil e da América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Hospício de Pedro II, ou o Palácio dos Loucos (1852–1889) ===&lt;br /&gt;
Inaugurado apenas em 8 de dezembro de 1852, o [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)|Hospício de Pedro II]] era gerido pela Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, que por anos geriu grande parte da loucura brasileira. Seu provedor era o médico [[José Clemente Pereira]], que era responsável por todos os aspectos da instituição, desde os médicos até os administrativos. Embora a gestão administrativa fosse religiosa, o saber médico tinha muito espaço, com nomes como [[Manoel Feliciano Pereira de Carvalho]], que tentaram implementar o &amp;quot;tratamento moral&amp;quot; inspirado em Esquirol. Apesar dos esforços, muitos relatos de abusos e de condições precárias mostravam a dificuldade em implementar um modelo brasileiro de tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a Proclamação da República em 1889, o Hospício de Pedro II foi desvinculado da Santa Casa e renomeado como [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)]]. Este foi um período de maior laicização e pela busca por um maior rigor científico, o que não aconteceu por completo, em grande parte devido à falta de profissionais adequadamente treinados para a questão. Apesar disso, o Brasil já possuía uma cátedra de psiquiatria desde 1883, ocupada por João Carlos Teixeira Brandão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diante dos altíssimos custos em manter o Hospital, surgem as colônias agrícolas como alternativa ao confinamento urbano. Em 1884, já havia sido inaugurada a [[Colônia de São Bento]] e, em 1890, a [[Colônia de Conde de Mesquita]], na Ilha do Governador. A ideia era que o trabalho na terra poderia colaborar na cura, além de os produtos deste trabalho poderiam ser consumidos no local, ajudando na manutenção dos espaços. Apesar dessas transformações e de evidentes melhorias, os relatos de época mostram que não acontecia nenhuma das duas coisas, nem produção agrícola suficiente, nem um processo terapêutico efetivo, mas entendia-se que a colônia agrícola era melhor do que o confinamento do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Era Juliano Moreira ===&lt;br /&gt;
Em 1903, o médico baiano [[Juliano Moreira]] assume a direção do Hospital Nacional de Alienados. Negro, de origem humilde e dotado de uma erudição impressionante, ele revolucionou a assistência brasileira aos alienados, sendo reconhecido internacionalmente como um dos grandes psiquiatras de seu tempo. Ele se tornaria o principal médico alienista do Brasil, tornando-se referência para todo o país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Moreira aboliu definitivamente o uso de camisas de força e as grades nas janelas, num gesto que se assemelhava àquele de Pinel, enfatizando que o hospital era um local de tratamento e cura, e não uma prisão ou um depósito de indesejados. Além disso, ele trouxe para o Brasil a nosologia de Emil Kraepelin, um psiquiatra alemão considerado o pai da psiquiatria moderna, da psicofarmacologia e da genética psiquiátrica, o que seria uma modernização do modelo francês adotado até então. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a gestão Moreira ocorreram várias mudanças. Foi criado o [[Pavilhão Bourneville]] para crianças com deficiência intelectual. Além disso, fundou-se em 1921 o [[Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro]], o primeiro do país, sob a liderança de [[Heitor Carrilho]]. Dentro dos hospitais incentivou-se a pesquisa laboratorial e anátomo-patológica, o que também abriu espaço para a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A influência e o prestígio de Juliano Moreira se espalhou pelo Brasil. Em São Paulo, destacou-se a figura de [[Franco da Rocha|Francisco Franco da Rocha]], que fundou em 1898 o [[Hospital do Juquery]]. O Juquery, como ficou conhecido, tornou-se uma &amp;quot;cidade-asilo&amp;quot;, chegando a abrigar dezenas de milhares de pacientes em um modelo que mesclava pavilhôes médicos com imensas colônias agrícolas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste período, a psiquiatria brasileira flertou intensamente com as teorias da degenerescência (de Morel e Magnan) e com a eugenia. Médicos como [[Renato Kehl]], bem como a criação da [[Liga Brasileira de Higiene Mental]] (1923), uma organização higienista fundada por [[Gustavo Riedel]], começaram a ver a loucura não apenas como um problema individual, mas como um risco biológico à raça brasileira. A higiene mental passou a atuar preventivamente em escolas e fábricas, buscando identificar &amp;quot;pré-delinquentes&amp;quot; e &amp;quot;personalidades anormais&amp;quot;. Apesar de não ter conseguido desenvolver muitas políticas efetivas, os eugenistas brasileiros eram ativos e influentes em muitos círculos decisórios importantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A criação de hospitais não se limitou a São Paulo e Rio de Janeiro. Em  1903, o governo de Minas Gerais fundou o [[Hospital Psiquiátrico de Barbacena]], que mais tarde seria palco de uma das maiores tragédias humanitárias do país. Em Pernambuco, o [[Hospital Ulysses Pernambucano]] foi fundado pelo médico de mesmo nome, que começou a desenvolver uma psiquiatria mais voltada para o social e para a prevenção no final dos anos 1920. Hospitais na Bahia, Rio Grande do Sul, entre outros, também foram criados, seguindo o pioneirismo do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Era Vargas e além: o início do encarceramento ===&lt;br /&gt;
Com a Revolução de 1930, o projeto de nação de Vargas exigia um povo saudável e produtivo, devido à visão desenvolvimentista suportada pela Aliança Liberal, que o elegeu. A loucura deixou de ser apenas uma questão de ordem pública ou um aspecto da caridade para se tornar um problema de segurança nacional e de saúde pública. Em 1941, no âmbito do Estado Novo, foi criado o [[Serviço Nacional de Doenças Mentais (SNDM)]], substituindo o antigo modelo de assistência a alienados, que era fragmentado nas diferentes províncias. Dessa maneira, Vargas criou uma diretriz federal centralizada para a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a Liga Brasileira de Higiene Mental ganhou fôlego. O foco deslocou-se do hospital para a prevenção na sociedade. A psiquiatria não deveria se limitar aos hospitais, mas também atuar na escola, na fábrica e na família, buscando limpar a nação e extirpar o que chamavam de &amp;quot;elementos degenerados&amp;quot;. O médico Gustavo Riedel e seus sucessores defendiam que o Estado deveria intervir precocemente para evitar que o &amp;quot;anormal&amp;quot; se tornasse um fardo para a máquina pública.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi durante as décadas de 1930 e 1940 que o modelo de colônia agrícola, antes visto como terapêutico e de assistência à manutenção hospitalar, atingiu proporções industriais. O que se viu em Barbacena e em instituições como o Juquery em São Paulo, foi a transformação do hospital em, praticamente, um campo de concentração administrativo. A internação não dependia mais de um diagnóstico médico rigoroso, que na prática ainda era frágil e baseado em elementos pouco científicos. Bastava ser considerado &amp;quot;socialmente inconveniente&amp;quot; para correr-se o risco de ir parar numa instituições dessas. Assim, pobres, prostitutas, homossexuais, militantes políticos e mães solteiras eram enviados para essas instituições, onde a sobrevivência era a exceção. Estima-se que, no auge do descaso, o Hospital de Barbacena registrava um número alarmante de óbitos por frio, fome e doenças evitáveis, cujos corpos eram, por vezes, vendidos para faculdades de medicina. Situações similares aconteciam em outras instituições do tipo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tratamentos Brutais e os Modos de Resistência ===&lt;br /&gt;
Para além do horror asilar, o período entre 1930 e 1950 também foi marcado pela introdução de terapias biológicas drásticas, importadas da Europa, conhecidas como [[somatoterapias]]. Com uma psicofarmacologia pouco eficaz, os médicos buscavam &amp;quot;chacoalhar&amp;quot; o organismo, produzindo nele como um choque que pudesse restaurar a razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma dessas técnicas era a [[insulinoterapia]]. Introduzida na Europa pelo médico austríaco Manfred Sakel (1900–1957) em Viena, no início dos anos 1930, representou uma das primeiras e mais invasivas formas de somatoterapia. Originalmente destinada ao tratamento da [[esquizofrenia]], a técnica consistia na administração de doses maciças de insulina no paciente, provocando um estado de hipoglicemia profunda que levava o paciente ao coma. Na volta desse estado, se esperava que o indivíduo “restaurasse” a razão por conta do choque orgânico violento que havia vivenciado. O procedimento era extremamente perigoso e estava associado a uma alta taxa de mortalidade e morbidade devido às convulsões e aos possíveis danos cerebrais. Apesar dos riscos, o método foi amplamente adotado no mundo todo, incluindo o Brasil, onde foi usado em grandes instituições de confinamento, como o Hospital Nacional de Alienados (HNA), no Hospital Juquery, entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que passou a ser muito utilizada foi a [[Eletroconvulsoterapia]], ou simplesmente o eletrochoque. Introduzido no Brasil logo após sua invenção na Itália (1938), consiste em colocar eletrodos carregados com correntes elétricas em lados opostos, na lateral da cabeça, de modo que uma forte corrente elétrica atravessasse o cérebro. A duração e a intensidade podiam variar, mas relatos de mais de trinta minutos de choques violentos não eram incomuns. Sua brutalidade era tamanha que exigia que sua vítima fosse fortemente amarrada. Tornou-se uma ferramenta onipresente nos hospitais, muitas vezes aplicada sem anestesia e como método de punição, desvirtuando sua finalidade clínica já questionável e usada, basicamente, como ferramenta de tortura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que ingressou no Brasil nesse período foi a [[lobotomia]], um procedimento cirúrgico que consistia em apenas retirar um pedaço do cérebro do paciente. Eles foram realizados em larga escala em hospitais como o Juquery e no Hospital Pedro II, buscando a docilização de pacientes crônicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em oposição à violência do isolamento oferecido por essas instituições, surge a figura de [[Nise da Silveira]]. Em 1946, após ter sido presa pelo regime de Vargas por suas inclinações políticas, Nise assumiu o Setor de Terapêutica Ocupacional do [[Centro Psiquiátrico Nacional]] (Engenho de Dentro), no Rio de Janeiro. Ela se recusou a usar eletrochoques e lobotomias, introduzindo a arte e o afeto como mediadores da cura. Ela fundou o [[Museu de Imagens do Inconsciente (MIS)|Museu de Imagens do Inconsciente]] em 1952, onde demonstrou, através das pinturas e esculturas de pacientes como [[Arthur Bispo do Rosario]], que o louco preservava uma riqueza simbólica e uma humanidade que a psiquiatria tradicional tentava apagar. Sua colaboração com [[Carl Jung]] colocou a experiência brasileira no mapa da psicologia analítica mundial, provando que o tratamento em liberdade e através da expressão criativa era viável.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Criação da Indústria da Loucura ===&lt;br /&gt;
No final da década de 1950 e início da de 1960, durante o governo de Juscelino Kubitschek e o breve período democrático posterior, o Brasil viu o surgimento de uma nova e ainda mais perversa dinâmica: a Indústria da Loucura. A assistência psiquiátrica, antes quase totalmente pública ou baseada no assistencialismo das Santas Casas, começou a ser privatizada. Com o crescimento dos institutos de previdência (IAPs), o Estado passou a pagar hospitais privados por dia de internação. Isso criou um incentivo perverso: quanto mais tempo o paciente ficasse internado e quanto menos recursos fossem gastos com ele, maior o lucro das clínicas privadas. Esse modelo, conhecido como &amp;quot;hospitalocêntrico&amp;quot;, inchou o sistema e preparou o terreno para a política de contenção social que seria radicalizada após o golpe de 1964. Foi um momento de multiplicação da brutalidade. Pouco importava a loucura ou não, o tratamento ou não, a eficácia ou não. O que importava era lucar com o dinheiro estatal por meio de um encarceramento fácil de impor e praticamente impossível de escapar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A coisa se aprofundou ainda mais com o golpe militar, que unificou em 1966 os Institutos de Aposentadoria e Pensões no INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), produzindo uma centralização gigantesca de recursos, com um modelo de privatização quase total. A psiquiatria, por ser uma especialidade cuja formação exigia baixo investimento tecnológico quando comparada a outras como a cirurgia, cardiologia ou oncologia, permitia grandes lucros com as internações de longa permanência. Assim, trancafiar e atormentar os loucos tornou-se o setor mais atraente para o empresariado da saúde.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de pessoas possivelmente diagnosticadas, o sistema era alimentado pelo encarceramento de militantes políticos, estudantes rebeldes, pessoas em situação de rua,  mendigos, homossexuais, indivíduos com comportamentos &amp;quot;desviantes&amp;quot; da moral tradicional, dependentes químicos, alcoólatras ou mesmo pessoas “problemáticas” da família, que se recusavam, por exemplo, a participar de casamentos arranjados, que denunciavam violência sexual sofrida ou eram apenas mulheres que haviam engravidado antes do casamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As instituições privadas multiplicaram-se pelo interior do país, longe dos olhos da fiscalização e dos centros urbanos. Instaladas em locais de difícil acesso, facilitava o ocultamento de violações de direitos humanos e ainda utilizava da conivência dos governos locais. As populações dessas localidades, crentes no saber médico, dificilmente desconfiavam do que poderia acontecer dentro dessas instituições e, quando vazavam denúncias, elas rapidamente podiam ser facilmente manejadas em conluio com os poderes locais. A loucura tornou-se um negócio de massa, com o abrigo precário de centenas de pessoas em galpões, onde a única &amp;quot;terapia&amp;quot; era a contenção química por sedativos baratos ou o uso indiscriminado do eletrochoque para manter a ordem além, é claro, da violência e brutalidade de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Luta Antimanicomial ==&lt;br /&gt;
No final da década de 1970, o modelo de saúde mental começou a dar sinais de exaustão, tanto financeira quanto ética. O Estado já não conseguia arcar com os custos crescentes de um sistema que só expandia o número de crônicos, e as denúncias de maus-tratos começaram a furar o bloqueio da censura, aparecendo em jornais mais prestigiados e em espaços mais amplos do debate social. O estopim para a o início do movimento da reforma psiquiátrica no Brasil começa com uma crise na [[Divisão Nacional de Saúde Mental (DINSAM)]], que havia recebido denúncias de irregularidades no Centro Psiquiátrico Pedro II, no [[Hospital Pinel]], na [[Colônia Juliano Moreira]] e no [[Manicômio Judiciário Heitor Carrilho]]. A denúncia foi acompanhada de uma greve por parte dos funcionários, que exigiam melhorias institucionais e questionavam irregularidades trabalhistas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É dessa crise que surge o [[Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM)]] que, nesse primeiro momento, estão mais preocupados com questões trabalhistas do que com o problema da própria prática psiquiátrica, que vai caracterizar parte dos movimentos antimanicomiais posteriormente. O MTSM se fortalece e consegue espaço no extremamente conservador [[V Congresso Brasileiro de Psiquiatria]], que ocorre em 1978, no que fica conhecido como “congresso da abertura”, num período também de abertura política com o iminente fim do regime militar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda em 1978, um grupo importante de intelectuais vinculados às bases teóricas do [[Movimento Antimanicomial]] participa do [[I Congresso Brasileiro de Psicanálise de Grupos e Instituições]], incluindo [[Franco Basaglia]], [[Felix Guattari]], [[Robert Castel]] e [[Erwin Goffman]], todos eles de grande inspiração e influência para o movimento antimanicomial brasileiro. No ano seguinte, o [[I Congresso Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental]] fortalece a contextação não apenas de problemas trabalhistas, mas do próprio modelo asilar e da forma como a psiquiatria intervinha e oprimia a população marginalizada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação público-privada que alimentava o modelo até então começa a ruir em 1980, com a chamada política da co-gestão interministerial. Nela, um convênio celebrado entre o Ministério da Previdência e Assistência Social com o Ministério da Saúde liquida a &amp;quot;Unidade de Serviço&amp;quot;, a política que permitia a contratação privada de serviços psiquiátricos e que representou o triunfo do público sobre o privado. Membros do MTSM passam a integrar a gestão do atendimento em saúde mental que, por dentro do aparato estatal, começam a implementar uma política de saúde pública baseada em prestação de serviços, cooperação, descentralização e regionalização, propostas que já eram defendidas pelos reformadores. Apesar desses avanços, críticos afirmam que a política de co-gestão apenas visava reformar os serviços, não atingindo o âmago da questão, que seria desconstruir o próprio paradigma psiquiátrico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo de desinstitucionalização de fato começa em 1985, ano marcado pelo fim da Ditadura Militar e pela realização de vários eventos que aprofundam o debate sobre a situação do atendimento. A [[I Conferência Nacional de Saúde Mental]] marca o início da desinstitucionalização devido aos conflitos entre o MTSM, a ABP e grupos não-organicistas que passaram a dirigir o DINSAM. Na conferência, consagrou-se uma reviravolta na perspectiva com a consolidação do lema &amp;quot;por uma sociedade sem manicômios&amp;quot;, rompendo com a lógica tanto privatista quanto estatista e questionando o próprio modelo psiquiátrico tradicional. Este passou a ser amplamente entendido como fenômeno cultural que promove o tratamento moral e o controle dos corpos, uma visão abertamente basagliana e antimanicomial. Alguns entendem que, nesse momento, a tradição anti-institucional que originou os primeiros questionamentos na década de 1970 foi restaurada e fortalecida. Após a Conferência, o próprio MTSM se renovou, se desatrelando do Estado, retomando sua independência e seu papel de transformação social.  A mudança do movimento se consolidou no [[II Congresso Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental]], quando a noção de racionalização e modernização dos serviços que havia caracterizado o período da co-gestão foi recusado em nome de uma pauta anti-institucional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em meados dos anos 1980 começam a surgir novos modelos de atenção à saúde que poderia substituir o modelo psiquiátrico. Em São Paulo é criado o primeiro [[Centro de Atenção Psicossocial (CAPS)]], em 1987. Em Santos, surge o [[Núcleo de Atenção Psicossocial (NAPS)]], em 1989. Estes serviços passaram a ser vistos como os modelos para uma contestação profunda dos manicômios, justificando seu encerramento. Já na década de 1990, o SUS introduziu mecanismos de fiscalização e auditoria que começaram a sufocar financeiramente os asilos privados que não cumpriam níveis mínimos de dignidade. Portarias históricas do Ministério da Saúde, inspiradas na [[Declaração de Caracas (1990)]], passaram a proibir a criação de novos leitos psiquiátricos asilares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após mais de uma década de tramitação e intensos debates no Congresso Nacional, como fruto dos embates históricos iniciados na crise do DINSAM e que atravessaram debates públicos extremamente imporantes, foi promulgada a Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001, que ficou conhecida como [[Lei da Reforma Psiquiátrica]] ou Lei Paulo Delgado, seu autor. Esta legislação se tornou o marco jurídico definitivo da virada assistencial no Brasil. A lei instituiu o direito do paciente de ser tratado em ambiente terapêutico o menos restritivo possível e colocou a internação psiquiátrica como último recurso possível. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para preencher o vazio deixado pelo fechamento dos grandes hospitais, o SUS estruturou a [[Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)]], formalizada na década seguinte pela Portaria nº 3.088 de 2011. A RAPS organizou o cuidado em diferentes níveis de complexidade, com os CAPS divididos nas modalidades CAPS I, II, III, CAPSi  e CAPS AD e, por fim, os [[Serviços de Residência Terapêutica (SRT)]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, a luta continua devido a retrocessos observados na segunda metade da década de 2010 e início dos anos 2020. Mudanças nas diretrizes da Política Nacional de Saúde Mental tentaram reintroduzir a centralidade do hospital psiquiátrico e incentivaram o uso de práticas baseadas no isolamento. Além disso, o governo federal passou a financiar massivamente as chamadas [[Comunidades Terapêuticas]], instituições de caráter predominantemente privado e religioso voltadas ao acolhimento de usuários de drogas, de onde emanam graves denúncias de todos os tipos de violação dos direitos humanos e que representam um evidente retrocesso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje, o campo da saúde mental no Brasil vive um embate profundo entre duas visões. De um lado, aqueles que lutam pela consolidação da RAPS, em defesa da clínica da subjetividade, da defesa dos direitos humanos, pela redução de danos e pela inserção social pelo trabalho e pela cultura. Do outro lado observa-se a persistência do &#039;&#039;lobby&#039;&#039; asilar e de setores que buscam a mercantilização do cuidado, por meio do encarceramento, da medicalização extrema do sofrimento psíquico, da higienização dos centros urbanos e do recolhimento dos indesejáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
ARBEX, Daniela. &#039;&#039;&#039;Holocausto brasileiro&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Geração Editorial, 2013.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BASAGLIA, Franco. &#039;&#039;&#039;A instituição negada&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Graal, 1985.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BIRMAN, Joel. &#039;&#039;&#039;A physis da arte&#039;&#039;&#039;: Deleuze e a clínica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CAMPOS, Gastão Wagner de Sousa. &#039;&#039;&#039;Tratado de saúde coletiva&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Hucitec, 2006. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CASTEL, Robert. &#039;&#039;&#039;A ordem psiquiátrica&#039;&#039;&#039;: a idade de ouro do alienismo. Rio de Janeiro: Graal, 1978.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
COSTA, Jurandir Freire. &#039;&#039;&#039;Violência e psicanálise&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Graal, 1986.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
COSTA, Jurandir Freire. &#039;&#039;&#039;História da assistência psiquiátrica no Brasil&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Garamond, 2007. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
DALGALARRONDO, Paulo. &#039;&#039;&#039;Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais&#039;&#039;&#039;. Porto Alegre: Artmed, 2018. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ENGEL, Magali. &#039;&#039;&#039;Os delírios da razão&#039;&#039;&#039;: médicos, loucos e hospícios (Rio de Janeiro, 1830-1930). Rio de Janeiro: Fiocruz, 2001&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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TENÓRIO, Fernando. A Reforma Psiquiátrica Brasileira da década de 1980 aos dias Atuais: história e conceitos. &#039;&#039;&#039;História, Ciências, Saúde-Manguinhos&#039;&#039;&#039;, v. 9, n. 1, 2002.&lt;br /&gt;
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VENANCIO, Ana Teresa A.; CARVALHAL, Lázaro. Juliano Moreira: a ciência da assistência e a assistência da ciência. &#039;&#039;&#039;Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental&#039;&#039;&#039;, 2001.&lt;br /&gt;
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YASUI, Silvio. &#039;&#039;&#039;Rupturas e encontros&#039;&#039;&#039;: desafios da Reforma Psiquiátrica Brasileira. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2010.&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1691</id>
		<title>História da loucura: da Grécia antiga à luta anti-manicomial</title>
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		<updated>2026-07-03T21:59:48Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: Diversas correções de texto&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto com finalidade didática, escrito por André Elias Morelli Ribeiro para o curso de Psicologia do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras. Seu uso é aberto, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Introdução ==&lt;br /&gt;
A história da loucura é, ao mesmo tempo, uma narrativa sobre o modo como diferentes sociedades compreenderam a mente humana e uma reflexão sobre os mecanismos de poder que moldaram práticas de exclusão, cuidado e resistência vinculados às diferentes formas que diferentes grupos humanos entenderam como loucura ou algo similar, conforme uma visão ampliada contemporânea. Este material inicia na Grécia antiga e chega até o movimento antimanicomial no Brasil e, ao longo deste trajeto, pode-se observar como a loucura foi interpretada ora como intervenção divina, ora como desvio moral, ora como doença fisiológica, ora como ameaça social. Cada época construiu suas próprias respostas àquilo que considerou loucura que variaram entre a integração comunitária, o confinamento, o tratamento brutal e a busca por tratamentos médicos ou espirituais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, a trajetória seguiu de perto os modelos europeus. Do Hospício de Pedro II às colônias agrícolas, passando pela gestão de Juliano Moreira, a psiquiatria nacional oscilou entre avanços humanitários e práticas de exclusão. O período Vargas e o Estado Novo intensificaram o encarceramento, transformando hospitais em verdadeiros campos de concentração administrativos. As décadas seguintes viram a adoção de terapias brutais, como eletrochoques e lobotomias, mas também o surgimento de movimentos de resistência, como o trabalho de Nise da Silveira, que introduziu a arte e o afeto como caminhos de cura, ou a emergência de questionamentos ao modelo psiquátrico manicomial. A partir dos anos 1960, a privatização da assistência psiquiátrica gerou a chamada “Indústria da Loucura”, marcada por internações lucrativas e violações sistemáticas de direitos humanos que marcaram profundamente a forma como se entende a loucura contemporaneamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em síntese, o percurso histórico apresentado aqui mostra que a loucura nunca foi apenas um fenômeno clínico mas, antes, um espelho das sociedades, revelando seus medos, suas crenças e suas formas de organizar o convívio humano. De sagrada a temida, de medicalizada a mercantilizada, apresenta-se e se discute como surgiram vozes e práticas que reivindicaram humanidade e liberdade para os considerados loucos.&lt;br /&gt;
== As Loucuras no Mundo Antigo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Grécia antiga ===&lt;br /&gt;
Na Grécia antiga, em certo momento a loucura era considerada uma intervenção dos deuses e, como os gregos era politeístas, a varidade de formas de loucura e os modos de intervenção também era bem grande. A loucura poderia ser vista, por exemplo, como uma punição. É o caso do herói Ajax, filho de Telamão. Após a morte de Aquiles, a armadura do herói foi dada a Odisseu, e a afronta levou Ajax a um estado de fúria e ressentimento. A deusa Atena, intervindo em favor de Odisseu para proteger os Aqueus da vingança de Ajax, lançou sobre ele uma cegueira mental. Tomado pela loucura, Ajax massacrou o gado de guerra que havia sido capturado, acreditando que estava matando os líderes aqueus, incluindo Odisseu e Agamenon. Ao recobrar a sanidade e perceber seu ato vergonhoso, cometeu suicídio devido à humilhação. Essa cena ilustra a loucura como uma intervenção divina direta na forma de loucura poderia ser vista como destrutiva e extremamente negativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em outros episódios da mitologia grega, a loucura surge como uma consequência direta de traumas e da perseguição implacável por vingança. Um exemplo é o de Orestes que, após assassinar sua mãe, Clitemnestra para vingar a morte de seu pai, Agamenon, passa a ser atormentado pelas Erínias. Essas divindades da vingança, também conhecidas como Fúrias, levaram o herói a um estado de delírio e desespero profundo, personificando a tortura psicológica e a perda da razão como uma forma de acerto de contas espiritual e moral pelo matricídio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura não era unicamente um flagelo ou uma punição. Os gregos  viam a mania, um termo que hoje engloba a loucura, em uma perspectiva dual. Na sua manifestação mais elevada, era considerada uma benção ou inspiração divina. Essa visão positiva estava profundamente ligada ao culto de Dionísio, o deus do vinho, do teatro e do êxtase. Nos rituais dionisíacos, as bacantes e outros seguidores buscavam o êxtase, que é, literalmente, &amp;quot;sair de si&amp;quot;, por meio da dança frenética, música e consumo de vinho, o que era percebido como um estado de comunhão direta e inspirada com a divindade. Longe de ser destrutiva, essa forma de loucura era vista como uma fonte de criatividade, revelação e poder, sendo um caminho para a verdade profética e como expressão artística ligada a Dionísio. Este conceito de mania inspirada também se estendia a outros domínios, como a profecia dos oráculos, que eram vinculados à adoração ao deus Apolo, e mesmo a poesia, onde a perda temporária da razão humana era interpretada como a mente sendo tomada por uma força divina que trazia algum tipo de inspiração superior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em certo momento, ainda na Grécia antiga, as ideias sobre a loucura - ou algo que pareça loucura aos olhos contemporâneos - foi modificada graças a Hipócrates, o pai da medicina. A visão de [[Hipócrates]] marcou uma transição crucial para o entendimento da loucura na Grécia Antiga, pois afastou a loucura das concepções divinas e sobrenaturais para uma explicação puramente fisiológica e natural. Ele desenvolveu a [[Teoria dos Quatro Humores]], que se tornou o pilar da medicina ocidental por séculos. Segundo essa teoria, o corpo humano era composto por quatro fluidos essenciais (ou humores), que são sangue, fleuma, bile amarela e bile negra. A saúde mental e física dependia do equilíbrio harmonioso desses humores. A loucura, ou qualquer doença mental, era, portanto, interpretada como o resultado de um desequilíbrio, como o excesso de bile negra causando a melancolia (depressão), ou o desarranjo da fleuma e da bile amarela, que poderiam levar a estados de mania e frenesi. Com isso, Hipócrates postulou que a loucura não era uma maldição dos deuses, mas sim uma doença com origem no corpo. Essa abordagem naturalista permitiu que a loucura passasse a ser tratada com métodos como dietas, exercícios e remédios, no lugar de rituais religiosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tradição bíblica ===&lt;br /&gt;
Na tradição bíblica, escrita em contextos e culturas não europeias, a loucura também é frequentemente retratada como uma forma de intervenção ou punição divina. Um dos episódios mais emblemáticos é a história do rei Nabucodonosor II, relatada no Livro de Daniel. De acordo com o texto, devido ao seu orgulho excessivo e sua recusa em reconhecer a soberania de Deus, o rei foi acometido por uma forma de loucura que o levou a viver como um animal, alimentando-se de ervas e deixando seus cabelos e unhas crescerem sem controle. Na psicologia moderna, esse estado em que um indivíduo acredita ter se transformado em um animal é conhecido como licantropia clínica, uma condição rara. A loucura, conforme emerge na descrição bíblica, emerge ligada à perda da razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, a tradição bíblica também apresenta um paradoxo. No Novo Testamento, escrito no contexto do mundo greco-romano, o que é considerado &#039;loucura&#039; pelos homens revela-se a suprema sabedoria divina. Essa ideia é desenvolvida pelo apóstolo Paulo em sua Primeira Carta aos Coríntios. Na passagem, ele afirma: &#039;Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens&#039; (1 Coríntios 1:25). Paulo usa o termo &#039;&#039;moria&#039;&#039; (loucura, tolice) para contrastar a sabedoria humana que, na época do texto, era representada pela filosofia e retórica grega. A mensagem da cruz parecia ilógica e insensata aos olhos dos não cristãos, que debochavam do fato do profeta ter sido capturado e morto pelos romanos. Assim, a loucura deixa de ser apenas uma punição para se tornar uma lente através da qual a verdadeira sabedoria, ou seja, a salvação, é revelada, invertendo a hierarquia de valores do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Pérsia ===&lt;br /&gt;
Na Pérsia, a visão da loucura e do comportamento irracional foi moldada por seu profundo dualismo religioso e, posteriormente, pelas tradições islâmicas que se seguiram à conquista árabe. O zoroastrismo, a antiga religião persa fundada por Zoroastro (Zaratustra), transformou o politeísmo em um dualismo cósmico centralizado no conflito eterno entre Ahura Mazda (Ormazd), o criador da vida, luz e verdade, e Angra Mainyu (Ahriman), a escuridão e a mentira. Neste cenário, o mundo material é o campo de batalha entre os dois. Ahriman buscava corromper tudo o que Ormazd havia criado. Embora o texto não defina a loucura diretamente, o comportamento irracional e a desrazão poderiam ser facilmente associados ao domínio de Ahriman e à mentira (&#039;&#039;druj&#039;&#039;), enquanto a sanidade e a pureza eram atributos de Ormazd. A batalha contra essa corrupção exigia que os adoradores de Ormazd permanecessem verdadeiros e evitassem poluir o fogo e a terra sagrada, indicando que a pureza mental e ritual era uma defesa contra as forças do mal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Islã ===&lt;br /&gt;
Na cultura islãmica, de forma geral e bastante resumida, o comportamento considerado irracional era frequentemente explicado pela crença nos &#039;&#039;djinn&#039;&#039;, espíritos errantes que habitavam o deserto e certos lugares considerados místicos e que podiam invadir a mente humana, causando o que a sociedade ocidental moderna chamaria de insanidade ou, talvez, distúrbio emocional, cujo tratamento era o exorcismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura também apareceu em narrativas culturais associadas aos povos, de forma a sugerir causas e curas mais mundanas. O famoso conto persa de As Mil e Uma Noites relata a história do rei Shahriyar, que, convencido da inevitável traição feminina, cai em uma loucura paranóica que o leva a se casar com uma virgem todas as noites e, pela manhã, assassiná-la. Sua &amp;quot;cura&amp;quot; é alcançada através da engenhosidade e paciência humana por meio de uma dessas esposas, Scheherazade, que usa a arte de contar histórias para retardar sua execução por &amp;quot;mil e uma noites&amp;quot;, período em que sua paranoia é gradualmente desfeita. A história sugere que a narrativa e o tempo podem curar a loucura causada por trauma psicológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As Loucuras na Idade Média ==&lt;br /&gt;
A transição para a Idade Média é marcada pelo colapso do Império Romano do Ocidente (476 d.C.), que trouxe profundas transformações políticas e sociais. O fim do governo centralizado romano levou à fragmentação do poder e ao surgimento do sistema feudal, onde a administração das terras e a autoridade passaram para as mãos de senhores locais, muitos deles antigos oficiais romanos. Este período também é caracterizado por um notável declínio na vida urbana e nos grandes centros intelectuais. O colpaso das instituições romanas deu lugar à ascensão e consolidação da única instituição internacional grande e organizada que havia sobrado, a Igreja Católica, que se tornou a principal instituição, com poder tanto político quanto cultural e simbólico. Houve ainda uma perda gradual da tradição cultural greco-romana e, consequentemente, um afastamento das explicações naturalistas de Hipócrates, com exceção do pequeno renascimento do século XII e retomadas pontuais da sabedoria grega. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a hegemonia da Igreja Católica, a loucura tendeu a ser novamente interpretada sob uma lente teológica, sendo vista como uma manifestação de forças sobrenaturais ou desvios morais. Nesse contexto, certas vezes a loucura era interpretada como a intervenção de Satanás ou como possessão demoníaca, exigindo rituais de exorcismo para a cura. Em outros momentos, era vista como uma prova espiritual enviada por Deus ou como um efeito direto do pecado na alma do indivíduo. Havia também explicações que a tratavam como uma fragilidade da vontade humana, como no caso do que chamaríamos hoje de compulsões, misturando elementos da antiga tradição grega com aspectos da teologia cristã. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Socialmente, a gestão da loucura na Idade Média também passou por diferentes fases e transformações, dependendo do local e da época. Havia casos em que os considerados loucos eram apenas torturados e trancafiados, métodos considerados eficazes para expulsão de espíritos malignos, por exemplo. Contudo, em muitos outros casos, os considerados loucos conviviam de forma mais ou menos harmoniosa com o resto da comunidade, a depender de suas capacidades e possibilidades, e certos “desvios” eram perdoados devido à sua condição peculiar, sem a necessidade imediata de uma exclusão radical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Nau dos Loucos ===&lt;br /&gt;
Um caso notável e emblemático da gestão da loucura nesse período é a [[Nau dos Loucos]] (&#039;&#039;Stultifera Navis&#039;&#039;), conforme trabalhado por [[Michel Foucault]]. Anteriormente ao modelo de exclusão-repressão que viria a se consolidar na Idade Clássica, a loucura viveu o que se pode chamar de seus &amp;quot;dias de glória&amp;quot; na transição para a Renascença. Nesse contexto, o louco poderia ser visto como um sábio, um místico, um bobo da corte ou simplesmente um excêntrico que estava, de certa forma, integrado ao tecido social.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Nau dos Loucos simbolizava uma existência errante, onde o louco era confiado à água e ao navio para ser levado de uma cidade a outra, mantendo-o em um estado de exclusão simbólica, mas ainda assim em movimento e circulação. Para Foucault, essa experiência trágica da loucura permitia que o insano portasse uma forma de lucidez em sua insensatez, revelando verdades que a razão comum não ousava enunciar. O louco via através das ilusões mundanas, aproximando-se de uma verdade profética ou ética que seria progressivamente silenciada nos séculos seguintes pela ascensão do saber médico e da racionalidade científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Santa Dimpna e Geel ===&lt;br /&gt;
Outro acontecimento relevante da Idade Média para a compreensão da loucura é o episódio de [[Santa Dimpna]]. Nascida no século VII na Irlanda, ela era filha de um rei pagão e de uma mãe cristã devota, de quem herdou sua fé e pela qual decidiu fazer votos de castidade. Após a morte prematura da mãe, seu pai, mergulhado em um profundo luto, decidiu que Dimpna era a única mulher com beleza comparável à da falecida rainha e insistiu em se casar com a própria filha, o que seria considerado escandaloso também para aquela cultura. Diante dessa perseguição incestuosa, Dimpna fugiu da Irlanda acompanhada de seu confessor, o padre Gereberno, e de dois servos fiéis. O grupo cruzou o mar e estabeleceu-se em [[Geel]], um minúsculo vilarejo na atual Bélgica, onde Dimpna se dedicou ao cuidado dos pobres e doentes mentais. No entanto, o rei conseguiu encontrá-los e, após a recusa de Dimpna tanto em retornar para a Irlanda quanto se casar com o pai, ordenou a execução de Gereberno, enquanto ele mesmo decapitou a filha, tornando a menina de 15 anos de idade numa mártir cristã. Após sua morte, relatos de curas milagrosas de pessoas com distúrbios mentais e epilepsia começaram a ocorrer junto ao seu túmulo, o que a tornou a padroeira dos doentes mentais e o local um espaço de peregrinação ligado à questão da saúde mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O legado de Santa Dimpna em Geel deu origem a um modelo para a psiquiatria moderna pois, devido à devoção e adoração à Santa Dimpna, a cidade transformou-se em um santuário onde os pacientes não eram trancafiados, mas acolhidos em lares de famílias locais como &amp;quot;hóspedes&amp;quot;. Esse sistema de cuidado comunitário e desinstitucionalização, que persiste há séculos, é considerado um dos precursores do tratamento humanizado e da reabilitação psicossocial na saúde mental contemporânea.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Idade Clássica: a nova era da loucura encarcerada ==&lt;br /&gt;
A partir do século XVII, um período em que o filósofo Michel Foucault denominou como &amp;quot;A Época Clássica&amp;quot;, a forma de entender e lidar com a loucura passa por uma nova mudança devido ao ingresso da razão como centro e alma do pensamento europeu, em substituição ao dogmatismo religioso e ao conhecimento da igreja. Esta mudança não é brusca, mas lenta e gradual, porém suas marcas serão duradouras e serão sentidas por quase toda a Europa. Para essa nova e nascente razão, a loucura seria seu oposto direto. Se o homem era definido pela sua capacidade racional e sua utilidade produtiva, o louco era, portanto, como um &amp;quot;não-homem&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a solução para a não-razão era a internação, que não buscava a cura, mas a neutralização do irracional. O silenciamento da loucura era necessário para que a ordem social pudesse florescer. Os campos e cidades deveriam ser espaços de circulação de mercadorias pelas mãos de cidadãos produtivos, e qualquer elemento que atrapalhasse essa dinâmica deveria ser guardado em instituições que funcionavam como uma guarda contra o risco social que tais pessoas ofereciam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Relatos da época descrevem cenários terríveis sobre as condições de internação dos loucos. Os internos eram frequentemente mantidos em celas úmidas e insalubres, muitas vezes acorrentados às paredes. O uso de chicotes e outras punições corporais era justificado pela crença de que o louco, por ter perdido a razão, teria a resistência física de um animal, não sentindo frio ou dor da mesma forma que uma pessoa &amp;quot;normal&amp;quot;. Além disso, as instituições funcionavam sob uma lógica de vigilância constante. Não se tratava de observar para entender a mente, mas para garantir que o corpo anormal permanecesse contido e, no máximo possível, docilizado. Foi dentro desse ambiente de absoluta degradação e mistura indiscriminada de diferentes &amp;quot;tipos&amp;quot; de desviantes que a consciência médica começou a germinar, ainda que de forma incipiente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== França ===&lt;br /&gt;
O ano de 1656 marca um divisor de águas simbólico para o modelo de confinamento asilar no mundo todo, com a criação do Hôpital Général (Hospital Geral) em Paris, por um edito real do rei Luís XIV. É importante entender que um hospital geral deste período não é como um hospital moderno, ou seja, uma instituição médica e voltada para a compreensão da doença e a prática do tratamento e cura. Ele estava mais próximo de uma estrutura administrativa e, de certo modo, semi-judiciária. Isso ocorria porque o interesse não estava em “curar” ou “tratar” ninguém mas, antes disso, perseguir o interesse do Estado de &amp;quot;limpar&amp;quot; as ruas de Paris de tudo o que era considerado improdutivo ou escandaloso. Era um período de abundância material, grandes gastos estatais e de uma imensa riqueza do império colonial francês, e desvios nessa ordem eram vistos como perigosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes tais hospitais gerais eram confinados, todos juntos, grupos totalmente diferentes, tais como pobres, mendigos, desempregados, libertinos, prostitutas, alquimistas, opositores políticos e, claro, também os considerados loucos. Em suma, um depósito de indesejados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que começou em Paris se tornou um modelo para outros lugares sobre como fazer a gestão da miséria e da “desrazão”, num forte deslocamento do que se via na Idade Média. O louco, antes tendo algo de profético, místico ou talvez apenas uma excentricidade da vida medieval campesina, se torna uma questão político-administrativa. Essa mudança importante marca uma migração para a possibilidade de institucionalização daquilo que era considerado errante ou, de alguma forma, desagradável e, assim passível de ser alvo de uma forma de gestão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em Paris, as duas principais unidades do Hospital Geral se tornaram emblemáticas e simbólicas. A [[Salpêtrière]], que era destinada às mulheres, e o hospital [[Bicêtre]], destinado aos homens. Ambas as instituições não ofereciam qualquer forma de tratamento. Eram basicamente depósitos humanos, onde o louco poderia acabar acorrentado ao lado de criminosos, por exemplo. O critério de internação não era o diagnóstico clínico, mesmo porque simplesmente ele nem existia, mas a incapacidade de se ajustar às normas de trabalho e à moralidade da época.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Alemanha ===&lt;br /&gt;
Na Alemanha, surgiram as Zuchthäusern, que seriam as [[Casas de Correção (Zuchthäusern)|Casas de Correção]]. Cidades como Hamburgo e Bremen estabeleceram esses locais onde a loucura era tratada através do trabalho forçado. Eles acreditavam que o ócio era a raiz do mal e que o confinamento servia para reintegrar o indivíduo à lógica da produtividade. De qualquer forma, uma vez enclausurado, ele permanecia escondido da visão da população.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Inglaterra ===&lt;br /&gt;
Na Inglaterra, o sistema das Workhouses (Casas de Trabalho) cumpria um papel semelhante ao modelo alemão. No entanto, Londres já possuía o [[Bethlem Royal Hospital (Bedlam)|Bethlem Royal Hospital]], conhecido popularmente como Bedlam. No século XVII e XVIII, Bedlam se tornou um espetáculo de horror, onde o público podia pagar para observar os internos como se fossem animais em um zoológico. A loucura agora um objeto de uma forma de exibição degradante e mantida atrás de grades e ferros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Portugal ===&lt;br /&gt;
Em Portugal a gestão dos &amp;quot;desviantes&amp;quot; recaiu fortemente sobre as Santas Casas da Misericórdia. O [[Hospital Real de Todos-os-Santos]], fundado em Lisboa em 1492 e inaugurado em 1501, se tornou o epicentro do tratamento (ou confinamento) dos loucos no país. Dentro deste hospital, existiam as chamadas &amp;quot;[[Casas de Doidos]]&amp;quot;, destinados àqueles que haviam “perdido a luz da razão”. Seguindo o padrão europeu, o hospital não separava rigidamente o louco por diagnóstico. Eles dividiam espaço com indigentes e enfermos de diversas naturezas, embora as &amp;quot;casas de doidos&amp;quot; fossem áreas de maior isolamento devido à agitação dos internos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XVIII português, a internação era, acima de tudo, uma solução para a mendicância e, por vezes, para o alcoolismo. O louco oriundo de uma família com posses era mantido nas próprias casas, muitas vezes escondido em sótãos ou anexos e até mesmo acorrentados. Já o &amp;quot;louco pobre&amp;quot;, que não poderiam ser cuidados por seus familiares, acabava nos hospitais reais ou mesmo nas cadeias, a depender de uma série de fatores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Nascimento da Psiquiatria ==&lt;br /&gt;
=== Pinel e a criação da psiquiatria nosográfica ===&lt;br /&gt;
É na virada do século XVIII para o XIX que nasce a psiquiatria como um campo autônomo do saber e da prática médica. Esta mudança fundamental é protagonizada por duas figuras centrais da medicina francesa: [[Philippe Pinel]] e seu discípulo, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]]. Juntos, eles transformaram o hospital de depósito de insanos e indesejáveis em um verdadeiro hospital, em que o louco e o alienado poderiam receber um tratamento racional e científico, em substituição às correntes, à disciplina e ao silenciamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A emergência da psiquiatria como campo autônomo teve como fundamento científico inicial a observação clínica sistemática dentro do asilo. Este era concebido como um laboratório, onde o alienista poderia estudar a loucura em seu estado puro, separada das influências do mundo exterior. A principal questão científica e prática que justificava essa nova ciência era desenvolvida e aplicada de forma sistemática era a chamada nosografia ou diagnóstico. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pinel, em seu [[Traité médico-philosophique sur l&#039;aliénation mentale, ou la manie]], de 1801, classificou a loucura com base em critérios sintomatológicos, seguindo um procedimento comparativo semelhante ao das ciências naturais. O desafio central, que persistiria ao longo do século XIX, era a ambiguidade constante entre a busca por uma sede orgânica, ou seja, um “local físico-biológico” da loucura, junto da necessidade de uma regulação de caráter moral. O tratamento apoiava-se na moralidade para combater as causas que eram, elas próprias, consideradas morais, mas algo estava também no corpo do doente. Isso mostra que a nova psiquiatria de Pinel era a mistura de medicina com moralidade. Este enfoque resultou na valorização do exame clínico pelos psiquiatras francófonos, permitindo a união da observação clínica com a formulação de hipóteses.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1793, em meio ao fervor da Revolução Francesa, Philippe Pinel foi nomeado médico-chefe do Hospital de Bicêtre e, posteriormente, da Salpêtrière. O cenário que encontrou era o ápice do &amp;quot;Grande Enclausuramento&amp;quot;, ou seja, homens e mulheres amontoados nas condições já descritas, com destaque para as correntes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A intervenção de Pinel, simbolizada pelo gesto de “libertar os loucos de suas correntes”, não foi apenas um ato humanitário, mas também uma decisão de natureza epistemológica. Pinel acreditava que a loucura não era uma possessão demoníaca nem uma degeneração animal irreversível, mas uma alienação mental, em outras palavras, uma perturbação das faculdades intelectuais e afetivas que mantinha o indivíduo como se fosse &amp;quot;estrangeiro&amp;quot;, ou alienado, de si mesmo e da sociedade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O pilar para a reforma psiquiátrica proposta por Pinel era o tratamento moral, e se baseava em três pilares fundamentais. O primeiro, o isolamento terapêutico. Era necessário que o paciente ficasse separado de seu ambiente que, segundo o médico, era a fonte de sua excitação e desequilíbrio. O segundo pilar era a autoridade médica, onde este deveria atuar como um pai ao mesmo tempo severo e justo, usando a persuasão, a benevolência e, se fosse necessário, a firmeza para restaurar a razão do paciente. Por fim, a disciplina e o trabalho, com a aplicação rigorosa de horários e valorização de atividades produtivas, o que ocuparia a mente alienada e, assim, combateria a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em seus estudos, Pinel identificou quatro tipos de loucura, quais sejam, a [[melancolia]], a [[mania]], a [[demência]] e a [[idiotia]], cada uma com suas questões próprias específicas e metodologias de tratamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Esquirol e a consolidação do modelo ===&lt;br /&gt;
Se Pinel era considerado o visionário e o libertador, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]] foi o grande organizador e o clínico meticuloso. Discípulo de Pinel, Esquirol sucedeu seu mestre na Salpêtrière e deu à psiquiatria a robustez científica e administrativa de que ela necessitava. Esquirol compreendeu que a eficácia do tratamento moral dependia da arquitetura hospitalar. Para ele, o hospital não era apenas um prédio onde ocorria o tratamento, mas também um instrumento de cura. Ele desenvolveu o modelo de pavilhões, permitindo a separação dos pacientes por tipo de patologia, o que reforçou a própria ideia de diagnóstico e de avaliação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Esquirol refinou as definições clínicas de Pinel. Foi ele quem estabeleceu a distinção clássica entre alucinação (uma percepção sem objeto) e ilusão (uma percepção deformada de um objeto real), entre outros pontos que, na sua época, foram considerados avanços exemplares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Legalização da Alienação ===&lt;br /&gt;
O esforço médico, político e administrativo de Esquirol na continuação do trabalho de Pinel culminou na promulgação da lei francesa de 30 de Junho de 1838, a primeira grande legislação psiquiátrica do mundo moderno. Esta lei estabeleceu a obrigatoriedade de cada departamento francês possuir um asilo e regulamentou as condições de internação e interdição. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A princípio, embora também protegesse o alienado do arbítrio e de outras violências que poderiam ser cometidos contra os loucos nas províncias e mesmo nas periferias de Paris, a lei também deu total poder ao médico psiquiatra. Era ele quem poderia decidir quem deveria ou não ser privado de sua liberdade. Com isso, a psiquiatria tornava-se, assim, um braço do Estado na gestão da ordem social mas, ao contrário do polícia e do inquérito polícial, que exigia provas independentes e a atuação do sistema judiciário, o psiquiatra estava coberto sob o manto da ciência médica, o que dava a ele poderes gigantescos de decidir entre a alienação e a razão. Isso marcou profundamente a forma como a loucura e a saúde mental passaram a ser compreendidas e tratadas nas décadas seguintes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Emil Kraepelin e uma Nova Racionalização ===&lt;br /&gt;
Apesar da forte valorização da psiquiatria francesa na constituição da psiquiatria contemporânea, uma das principais contribuições para o ramo em sua forma atual foi empreendida por um alemão, [[Emil Kraepelin]]. No final do século XIX, a psiquiatria alemã estava dividida entre os &amp;quot;psiquistas&amp;quot;, que viam a loucura como uma doença da alma ou um mal moral, a exemplo dos franceses; e os &amp;quot;somatistas&amp;quot;, que buscavam no cérebro a origem dos sintomas das doenças mentais. Kraepelin superou esse impasse ao focar não na anatomia, mas na evolução temporal das doenças. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin passou a entender que sintomas isolados, como ouvir vozes ou acreditar ser uma personalidade histórica, não eram suficientes para definir uma doença, mas seu desenvolvimento ao longo do tempo. Com essa premissa em mãos, Kraepelin introduziu as &amp;quot;cartas diagnósticas&amp;quot; (&#039;&#039;Zählkarten&#039;&#039;), um sistema de fichamento padronizado onde se registrava a história de vida do paciente, seus antecedentes familiares, os sintomas detalhados e, por fim, o desfecho da doença. Isso transformou a clínica psiquiátrica, pois articulava neuroanatomia e psicologia experimental, já que ele fora aluno de [[Wilhelm Wundt|Wundt]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin também é considerado o pioneiro da [[Psiquiatria Transcultural]]. Visando provar que as categorias diagnósticas psiquiátricas seriam universais, ele viajou para lugares como a ilha de Java (Indonésia) em 1904 para estudar a manifestação da loucura em populações não europeias. Ele concluiu que, ainda que os conteúdos dos delírios mudassem conforme a cultura, a estrutura fundamental da loucura permanecia a mesma, o que reforçou sua tese de que eram doenças biológicas da espécie humana. Apesar disso, no final de sua vida ele se transformou um higienista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O I Congresso Internacional de Psiquiatria ===&lt;br /&gt;
Realizado em Paris em agosto de 1950, o [[I Congresso Internacional de Psiquiatria]] foi projetado especificamente para unificar, debater e institucionalizar a psiquiatria como uma disciplina médica global e autônoma. Durante o Congresso foram colocados, frente a frente, as grandes correntes que disputavam a hegemonia do entendimento da mente humana na época, a saber, as correntes psicodinâmica e a biológica. De forma menor, uma corrente social e anti-manicomial também se fez presente. O resultado do embate foi uma conciliação entre as duas maiores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um dos resultados do Congresso de 1950 foi a pressão para que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Associação Psiquiátrica Americana (APA) criassem manuais estatísticos e classificatórios unificados, o que resultou na inserção de uma seção robusta de transtornos mentais na CID-6 (Classificação Internacional de Doenças) e na publicação do primeiro [[DSM]], em 1952.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro resultado importante do evento foi a fundação da Associação Mundial de Psiquiatria ([[World Psychiatric Association (WPA)|World Psychiatric Association - WPA]]). Com isso, a psiquiatria deixou de ser um conjunto de escolas nacionais isoladas, como as escolas francesa, alemã, anglo-saxã, entre outras, para se tornar uma corporação científica internacional, com congressos periódicos, periódicos indexados e diretrizes globais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Loucura no Brasil ==&lt;br /&gt;
Até o início do século XIX, o Brasil colonial lidava com seus insanos de forma semelhante ao que ocorria na Europa. As famílias ricas mantinham seus parentes loucos em &amp;quot;quartos fortes&amp;quot;, privando-os mais ou menos da vida comunitária e familiar, a depender das circunstâncias, de forma semelhante ao que acontecia em Portugal. Já os pobres eram entregues à caridade das [[Santas Casas de Misericórdia]] ou vagavam pelas ruas, sendo ocasionalmente recolhidos a cadeias públicas quando perturbavam a ordem, indo e vindo das frágeis instituições brasileiras, sofrendo abusos e violências de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A transferência da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 gerou a necessidade de transformar a capital colonial em uma moderna metrópole europeia. Sob a influência do Iluminismo tardio e das notícias que chegavam sobre as reformas de Pinel na França, a elite médica brasileira, que havia estudado sobretudo na França e em Portugal, começou a pressionar o poder público pela criação de espaços específicos para o tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1830, a criação da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (que viria a ser a [[Academia Nacional de Medicina]]) foi o marco institucional dessa pressão. Esse movimento político funcionou. O momento decisivo ocorreu em 18 de julho de 1841, quando o Imperador D. Pedro II, em comemoração à sua coroação, assinou o decreto de fundação do primeiro hospital psiquiátrico do Brasil e da América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Hospício de Pedro II, ou o Palácio dos Loucos (1852–1889) ===&lt;br /&gt;
Inaugurado apenas em 8 de dezembro de 1852, o [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)|Hospício de Pedro II]] era gerido pela Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, que por anos geriu grande parte da loucura brasileira. Seu provedor era o médico [[José Clemente Pereira]], que era responsável por todos os aspectos da instituição, desde os médicos até os administrativos. Embora a gestão administrativa fosse religiosa, o saber médico tinha muito espaço, com nomes como [[Manoel Feliciano Pereira de Carvalho]], que tentaram implementar o &amp;quot;tratamento moral&amp;quot; inspirado em Esquirol. Apesar dos esforços, muitos relatos de abusos e de condições precárias mostravam a dificuldade em implementar um modelo brasileiro de tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a Proclamação da República em 1889, o Hospício de Pedro II foi desvinculado da Santa Casa e renomeado como [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)]]. Este foi um período de maior laicização e pela busca por um maior rigor científico, o que não aconteceu por completo, em grande parte devido à falta de profissionais adequadamente treinados para a questão. Apesar disso, o Brasil já possuía uma cátedra de psiquiatria desde 1883, ocupada por João Carlos Teixeira Brandão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diante dos altíssimos custos em manter o Hospital, surgem as colônias agrícolas como alternativa ao confinamento urbano. Em 1884, já havia sido inaugurada a [[Colônia de São Bento]] e, em 1890, a [[Colônia de Conde de Mesquita]], na Ilha do Governador. A ideia era que o trabalho na terra poderia colaborar na cura, além de os produtos deste trabalho poderiam ser consumidos no local, ajudando na manutenção dos espaços. Apesar dessas transformações e de evidentes melhorias, os relatos de época mostram que não acontecia nenhuma das duas coisas, nem produção agrícola suficiente, nem um processo terapêutico efetivo, mas entendia-se que a colônia agrícola era melhor do que o confinamento do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Era Juliano Moreira ===&lt;br /&gt;
Em 1903, o médico baiano [[Juliano Moreira]] assume a direção do Hospital Nacional de Alienados. Negro, de origem humilde e dotado de uma erudição impressionante, ele revolucionou a assistência brasileira aos alienados, sendo reconhecido internacionalmente como um dos grandes psiquiatras de seu tempo. Ele se tornaria o principal médico alienista do Brasil, tornando-se referência para todo o país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Moreira aboliu definitivamente o uso de camisas de força e as grades nas janelas, num gesto que se assemelhava àquele de Pinel, enfatizando que o hospital era um local de tratamento e cura, e não uma prisão ou um depósito de indesejados. Além disso, ele trouxe para o Brasil a nosologia de Emil Kraepelin, um psiquiatra alemão considerado o pai da psiquiatria moderna, da psicofarmacologia e da genética psiquiátrica, o que seria uma modernização do modelo francês adotado até então. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a gestão Moreira ocorreram várias mudanças. Foi criado o [[Pavilhão Bourneville]] para crianças com deficiência intelectual. Além disso, fundou-se em 1921 o [[Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro]], o primeiro do país, sob a liderança de [[Heitor Carrilho]]. Dentro dos hospitais incentivou-se a pesquisa laboratorial e anátomo-patológica, o que também abriu espaço para a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A influência e o prestígio de Juliano Moreira se espalhou pelo Brasil. Em São Paulo, destacou-se a figura de [[Franco da Rocha|Francisco Franco da Rocha]], que fundou em 1898 o [[Hospital do Juquery]]. O Juquery, como ficou conhecido, tornou-se uma &amp;quot;cidade-asilo&amp;quot;, chegando a abrigar dezenas de milhares de pacientes em um modelo que mesclava pavilhôes médicos com imensas colônias agrícolas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste período, a psiquiatria brasileira flertou intensamente com as teorias da degenerescência (de Morel e Magnan) e com a eugenia. Médicos como [[Renato Kehl]], bem como a criação da [[Liga Brasileira de Higiene Mental]] (1923), uma organização higienista fundada por [[Gustavo Riedel]], começaram a ver a loucura não apenas como um problema individual, mas como um risco biológico à raça brasileira. A higiene mental passou a atuar preventivamente em escolas e fábricas, buscando identificar &amp;quot;pré-delinquentes&amp;quot; e &amp;quot;personalidades anormais&amp;quot;. Apesar de não ter conseguido desenvolver muitas políticas efetivas, os eugenistas brasileiros eram ativos e influentes em muitos círculos decisórios importantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A criação de hospitais não se limitou a São Paulo e Rio de Janeiro. Em  1903, o governo de Minas Gerais fundou o [[Hospital Psiquiátrico de Barbacena]], que mais tarde seria palco de uma das maiores tragédias humanitárias do país. Em Pernambuco, o [[Hospital Ulysses Pernambucano]] foi fundado pelo médico de mesmo nome, que começou a desenvolver uma psiquiatria mais voltada para o social e para a prevenção no final dos anos 1920. Hospitais na Bahia, Rio Grande do Sul, entre outros, também foram criados, seguindo o pioneirismo do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Era Vargas e além: o início do encarceramento ===&lt;br /&gt;
Com a Revolução de 1930, o projeto de nação de Vargas exigia um povo saudável e produtivo, devido à visão desenvolvimentista suportada pela Aliança Liberal, que o elegeu. A loucura deixou de ser apenas uma questão de ordem pública ou um aspecto da caridade para se tornar um problema de segurança nacional e de saúde pública. Em 1941, no âmbito do Estado Novo, foi criado o [[Serviço Nacional de Doenças Mentais (SNDM)]], substituindo o antigo modelo de assistência a alienados, que era fragmentado nas diferentes províncias. Dessa maneira, Vargas criou uma diretriz federal centralizada para a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a Liga Brasileira de Higiene Mental ganhou fôlego. O foco deslocou-se do hospital para a prevenção na sociedade. A psiquiatria não deveria se limitar aos hospitais, mas também atuar na escola, na fábrica e na família, buscando limpar a nação e extirpar o que chamavam de &amp;quot;elementos degenerados&amp;quot;. O médico Gustavo Riedel e seus sucessores defendiam que o Estado deveria intervir precocemente para evitar que o &amp;quot;anormal&amp;quot; se tornasse um fardo para a máquina pública.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi durante as décadas de 1930 e 1940 que o modelo de colônia agrícola, antes visto como terapêutico e de assistência à manutenção hospitalar, atingiu proporções industriais. O que se viu em Barbacena e em instituições como o Juquery em São Paulo, foi a transformação do hospital em, praticamente, um campo de concentração administrativo. A internação não dependia mais de um diagnóstico médico rigoroso, que na prática ainda era frágil e baseado em elementos pouco científicos. Bastava ser considerado &amp;quot;socialmente inconveniente&amp;quot; para correr-se o risco de ir parar numa instituições dessas. Assim, pobres, prostitutas, homossexuais, militantes políticos e mães solteiras eram enviados para essas instituições, onde a sobrevivência era a exceção. Estima-se que, no auge do descaso, o Hospital de Barbacena registrava um número alarmante de óbitos por frio, fome e doenças evitáveis, cujos corpos eram, por vezes, vendidos para faculdades de medicina. Situações similares aconteciam em outras instituições do tipo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tratamentos Brutais e os Modos de Resistência ===&lt;br /&gt;
Para além do horror asilar, o período entre 1930 e 1950 também foi marcado pela introdução de terapias biológicas drásticas, importadas da Europa, conhecidas como [[somatoterapias]]. Com uma psicofarmacologia pouco eficaz, os médicos buscavam &amp;quot;chacoalhar&amp;quot; o organismo, produzindo nele como um choque que pudesse restaurar a razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma dessas técnicas era a [[insulinoterapia]]. Introduzida na Europa pelo médico austríaco Manfred Sakel (1900–1957) em Viena, no início dos anos 1930, representou uma das primeiras e mais invasivas formas de somatoterapia. Originalmente destinada ao tratamento da [[esquizofrenia]], a técnica consistia na administração de doses maciças de insulina no paciente, provocando um estado de hipoglicemia profunda que levava o paciente ao coma. Na volta desse estado, se esperava que o indivíduo “restaurasse” a razão por conta do choque orgânico violento que havia vivenciado. O procedimento era extremamente perigoso e estava associado a uma alta taxa de mortalidade e morbidade devido às convulsões e aos possíveis danos cerebrais. Apesar dos riscos, o método foi amplamente adotado no mundo todo, incluindo o Brasil, onde foi usado em grandes instituições de confinamento, como o Hospital Nacional de Alienados (HNA), no Hospital Juquery, entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que passou a ser muito utilizada foi a [[Eletroconvulsoterapia]], ou simplesmente o eletrochoque. Introduzido no Brasil logo após sua invenção na Itália (1938), consiste em colocar eletrodos carregados com correntes elétricas em lados opostos, na lateral da cabeça, de modo que uma forte corrente elétrica atravessasse o cérebro. A duração e a intensidade podiam variar, mas relatos de mais de trinta minutos de choques violentos não eram incomuns. Sua brutalidade era tamanha que exigia que sua vítima fosse fortemente amarrada. Tornou-se uma ferramenta onipresente nos hospitais, muitas vezes aplicada sem anestesia e como método de punição, desvirtuando sua finalidade clínica já questionável e usada, basicamente, como ferramenta de tortura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que ingressou no Brasil nesse período foi a [[lobotomia]], um procedimento cirúrgico que consistia em apenas retirar um pedaço do cérebro do paciente. Eles foram realizados em larga escala em hospitais como o Juquery e no Hospital Pedro II, buscando a docilização de pacientes crônicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em oposição à violência do isolamento oferecido por essas instituições, surge a figura de [[Nise da Silveira]]. Em 1946, após ter sido presa pelo regime de Vargas por suas inclinações políticas, Nise assumiu o Setor de Terapêutica Ocupacional do [[Centro Psiquiátrico Nacional]] (Engenho de Dentro), no Rio de Janeiro. Ela se recusou a usar eletrochoques e lobotomias, introduzindo a arte e o afeto como mediadores da cura. Ela fundou o [[Museu de Imagens do Inconsciente (MIS)|Museu de Imagens do Inconsciente]] em 1952, onde demonstrou, através das pinturas e esculturas de pacientes como [[Arthur Bispo do Rosario]], que o louco preservava uma riqueza simbólica e uma humanidade que a psiquiatria tradicional tentava apagar. Sua colaboração com [[Carl Jung]] colocou a experiência brasileira no mapa da psicologia analítica mundial, provando que o tratamento em liberdade e através da expressão criativa era viável.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Criação da Indústria da Loucura ===&lt;br /&gt;
No final da década de 1950 e início da de 1960, durante o governo de Juscelino Kubitschek e o breve período democrático posterior, o Brasil viu o surgimento de uma nova e ainda mais perversa dinâmica: a Indústria da Loucura. A assistência psiquiátrica, antes quase totalmente pública ou baseada no assistencialismo das Santas Casas, começou a ser privatizada. Com o crescimento dos institutos de previdência (IAPs), o Estado passou a pagar hospitais privados por dia de internação. Isso criou um incentivo perverso: quanto mais tempo o paciente ficasse internado e quanto menos recursos fossem gastos com ele, maior o lucro das clínicas privadas. Esse modelo, conhecido como &amp;quot;hospitalocêntrico&amp;quot;, inchou o sistema e preparou o terreno para a política de contenção social que seria radicalizada após o golpe de 1964. Foi um momento de multiplicação da brutalidade. Pouco importava a loucura ou não, o tratamento ou não, a eficácia ou não. O que importava era lucar com o dinheiro estatal por meio de um encarceramento fácil de impor e praticamente impossível de escapar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A coisa se aprofundou ainda mais com o golpe militar, que unificou em 1966 os Institutos de Aposentadoria e Pensões no INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), produzindo uma centralização gigantesca de recursos, com um modelo de privatização quase total. A psiquiatria, por ser uma especialidade cuja formação exigia baixo investimento tecnológico quando comparada a outras como a cirurgia, cardiologia ou oncologia, permitia grandes lucros com as internações de longa permanência. Assim, trancafiar e atormentar os loucos tornou-se o setor mais atraente para o empresariado da saúde.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de pessoas possivelmente diagnosticadas, o sistema era alimentado pelo encarceramento de militantes políticos, estudantes rebeldes, pessoas em situação de rua,  mendigos, homossexuais, indivíduos com comportamentos &amp;quot;desviantes&amp;quot; da moral tradicional, dependentes químicos, alcoólatras ou mesmo pessoas “problemáticas” da família, que se recusavam, por exemplo, a participar de casamentos arranjados, que denunciavam violência sexual sofrida ou eram apenas mulheres que haviam engravidado antes do casamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As instituições privadas multiplicaram-se pelo interior do país, longe dos olhos da fiscalização e dos centros urbanos. Instaladas em locais de difícil acesso, facilitava o ocultamento de violações de direitos humanos e ainda utilizava da conivência dos governos locais. As populações dessas localidades, crentes no saber médico, dificilmente desconfiavam do que poderia acontecer dentro dessas instituições e, quando vazavam denúncias, elas rapidamente podiam ser facilmente manejadas em conluio com os poderes locais. A loucura tornou-se um negócio de massa, com o abrigo precário de centenas de pessoas em galpões, onde a única &amp;quot;terapia&amp;quot; era a contenção química por sedativos baratos ou o uso indiscriminado do eletrochoque para manter a ordem além, é claro, da violência e brutalidade de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Luta Antimanicomial ==&lt;br /&gt;
No final da década de 1970, o modelo de saúde mental começou a dar sinais de exaustão, tanto financeira quanto ética. O Estado já não conseguia arcar com os custos crescentes de um sistema que só expandia o número de crônicos, e as denúncias de maus-tratos começaram a furar o bloqueio da censura, aparecendo em jornais mais prestigiados e em espaços mais amplos do debate social. O estopim para a o início do movimento da reforma psiquiátrica no Brasil começa com uma crise na [[Divisão Nacional de Saúde Mental (DINSAM)]], que havia recebido denúncias de irregularidades no Centro Psiquiátrico Pedro II, no [[Hospital Pinel]], na [[Colônia Juliano Moreira]] e no [[Manicômio Judiciário Heitor Carrilho]]. A denúncia foi acompanhada de uma greve por parte dos funcionários, que exigiam melhorias institucionais e questionavam irregularidades trabalhistas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É dessa crise que surge o [[Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM)]] que, nesse primeiro momento, estão mais preocupados com questões trabalhistas do que com o problema da própria prática psiquiátrica, que vai caracterizar parte dos movimentos antimanicomiais posteriormente. O MTSM se fortalece e consegue espaço no extremamente conservador [[V Congresso Brasileiro de Psiquiatria]], que ocorre em 1978, no que fica conhecido como “congresso da abertura”, num período também de abertura política com o iminente fim do regime militar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda em 1978, um grupo importante de intelectuais vinculados às bases teóricas do [[Movimento Antimanicomial]] participa do [[I Congresso Brasileiro de Psicanálise de Grupos e Instituições]], incluindo [[Franco Basaglia]], [[Felix Guattari]], [[Robert Castel]] e [[Erwin Goffman]], todos eles de grande inspiração e influência para o movimento antimanicomial brasileiro. No ano seguinte, o [[I Congresso Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental]] fortalece a contextação não apenas de problemas trabalhistas, mas do próprio modelo asilar e da forma como a psiquiatria intervinha e oprimia a população marginalizada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação público-privada que alimentava o modelo até então começa a ruir em 1980, com a chamada política da co-gestão interministerial. Nela, um convênio celebrado entre o Ministério da Previdência e Assistência Social com o Ministério da Saúde liquida a &amp;quot;Unidade de Serviço&amp;quot;, a política que permitia a contratação privada de serviços psiquiátricos e que representou o triunfo do público sobre o privado. Membros do MTSM passam a integrar a gestão do atendimento em saúde mental que, por dentro do aparato estatal, começam a implementar uma política de saúde pública baseada em prestação de serviços, cooperação, descentralização e regionalização, propostas que já eram defendidas pelos reformadores. Apesar desses avanços, críticos afirmam que a política de co-gestão apenas visava reformar os serviços, não atingindo o âmago da questão, que seria desconstruir o próprio paradigma psiquiátrico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo de desinstitucionalização de fato começa em 1985, ano marcado pelo fim da Ditadura Militar e pela realização de vários eventos que aprofundam o debate sobre a situação do atendimento. A [[I Conferência Nacional de Saúde Mental]] marca o início da desinstitucionalização devido aos conflitos entre o MTSM, a ABP e grupos não-organicistas que passaram a dirigir o DINSAM. Na conferência, consagrou-se uma reviravolta na perspectiva com a consolidação do lema &amp;quot;por uma sociedade sem manicômios&amp;quot;, rompendo com a lógica tanto privatista quanto estatista e questionando o próprio modelo psiquiátrico tradicional. Este passou a ser amplamente entendido como fenômeno cultural que promove o tratamento moral e o controle dos corpos, uma visão abertamente basagliana e antimanicomial. Alguns entendem que, nesse momento, a tradição anti-institucional que originou os primeiros questionamentos na década de 1970 foi restaurada e fortalecida. Após a Conferência, o próprio MTSM se renovou, se desatrelando do Estado, retomando sua independência e seu papel de transformação social.  A mudança do movimento se consolidou no [[II Congresso Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental]], quando a noção de racionalização e modernização dos serviços que havia caracterizado o período da co-gestão foi recusado em nome de uma pauta anti-institucional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em meados dos anos 1980 começam a surgir novos modelos de atenção à saúde que poderia substituir o modelo psiquiátrico. Em São Paulo é criado o primeiro [[Centro de Atenção Psicossocial (CAPS)]], em 1987. Em Santos, surge o [[Núcleo de Atenção Psicossocial (NAPS)]], em 1989. Estes serviços passaram a ser vistos como os modelos para uma contestação profunda dos manicômios, justificando seu encerramento. Já na década de 1990, o SUS introduziu mecanismos de fiscalização e auditoria que começaram a sufocar financeiramente os asilos privados que não cumpriam níveis mínimos de dignidade. Portarias históricas do Ministério da Saúde, inspiradas na [[Declaração de Caracas (1990)]], passaram a proibir a criação de novos leitos psiquiátricos asilares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após mais de uma década de tramitação e intensos debates no Congresso Nacional, como fruto dos embates históricos iniciados na crise do DINSAM e que atravessaram debates públicos extremamente imporantes, foi promulgada a Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001, que ficou conhecida como [[Lei da Reforma Psiquiátrica]] ou Lei Paulo Delgado, seu autor. Esta legislação se tornou o marco jurídico definitivo da virada assistencial no Brasil. A lei instituiu o direito do paciente de ser tratado em ambiente terapêutico o menos restritivo possível e colocou a internação psiquiátrica como último recurso possível. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para preencher o vazio deixado pelo fechamento dos grandes hospitais, o SUS estruturou a [[Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)]], formalizada na década seguinte pela Portaria nº 3.088 de 2011. A RAPS organizou o cuidado em diferentes níveis de complexidade, com os CAPS divididos nas modalidades CAPS I, II, III, CAPSi  e CAPS AD e, por fim, os [[Serviços de Residência Terapêutica (SRT)]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, a luta continua devido a retrocessos observados na segunda metade da década de 2010 e início dos anos 2020. Mudanças nas diretrizes da Política Nacional de Saúde Mental tentaram reintroduzir a centralidade do hospital psiquiátrico e incentivaram o uso de práticas baseadas no isolamento. Além disso, o governo federal passou a financiar massivamente as chamadas [[Comunidades Terapêuticas]], instituições de caráter predominantemente privado e religioso voltadas ao acolhimento de usuários de drogas, de onde emanam graves denúncias de todos os tipos de violação dos direitos humanos e que representam um evidente retrocesso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje, o campo da saúde mental no Brasil vive um embate profundo entre duas visões. De um lado, aqueles que lutam pela consolidação da RAPS, em defesa da clínica da subjetividade, da defesa dos direitos humanos, pela redução de danos e pela inserção social pelo trabalho e pela cultura. Do outro lado observa-se a persistência do &#039;&#039;lobby&#039;&#039; asilar e de setores que buscam a mercantilização do cuidado, por meio do encarceramento, da medicalização extrema do sofrimento psíquico, da higienização dos centros urbanos e do recolhimento dos indesejáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
ARBEX, Daniela. &#039;&#039;&#039;Holocausto brasileiro&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Geração Editorial, 2013.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BASAGLIA, Franco. &#039;&#039;&#039;A instituição negada&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Graal, 1985.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BIRMAN, Joel. &#039;&#039;&#039;A physis da arte&#039;&#039;&#039;: Deleuze e a clínica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CAMPOS, Gastão Wagner de Sousa. &#039;&#039;&#039;Tratado de saúde coletiva&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Hucitec, 2006. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CASTEL, Robert. &#039;&#039;&#039;A ordem psiquiátrica&#039;&#039;&#039;: a idade de ouro do alienismo. Rio de Janeiro: Graal, 1978.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
COSTA, Jurandir Freire. &#039;&#039;&#039;Violência e psicanálise&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Graal, 1986.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
COSTA, Jurandir Freire. &#039;&#039;&#039;História da assistência psiquiátrica no Brasil&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Garamond, 2007. &lt;br /&gt;
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DALGALARRONDO, Paulo. &#039;&#039;&#039;Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais&#039;&#039;&#039;. Porto Alegre: Artmed, 2018. &lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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TENÓRIO, Fernando. A Reforma Psiquiátrica Brasileira da década de 1980 aos dias Atuais: história e conceitos. &#039;&#039;&#039;História, Ciências, Saúde-Manguinhos&#039;&#039;&#039;, v. 9, n. 1, 2002.&lt;br /&gt;
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[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1690</id>
		<title>História da loucura: da Grécia antiga à luta anti-manicomial</title>
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		<updated>2026-07-03T21:55:24Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: Melhorias no cabeçalho&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto com finalidade didática, escrito por André Elias Morelli Ribeiro para o curso de Psicologia do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras. Seu uso é aberto, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Introdução ==&lt;br /&gt;
A história da loucura é, ao mesmo tempo, uma narrativa sobre o modo como diferentes sociedades compreenderam a mente humana e uma reflexão sobre os mecanismos de poder que moldaram práticas de exclusão, cuidado e resistência vinculados às diferentes formas que diferentes grupos humanos entenderam como loucura ou algo similar, conforme uma visão ampliada contemporânea. Este material inicia na Grécia antiga e chega até o movimento antimanicomial no Brasil e, ao longo deste trajeto, pode-se observar como a loucura foi interpretada ora como intervenção divina, ora como desvio moral, ora como doença fisiológica, ora como ameaça social. Cada época construiu suas próprias respostas àquilo que considerou loucura que variaram entre a integração comunitária, o confinamento, o tratamento brutal e a busca por tratamentos médicos ou espirituais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, a trajetória seguiu de perto os modelos europeus. Do Hospício de Pedro II às colônias agrícolas, passando pela gestão de Juliano Moreira, a psiquiatria nacional oscilou entre avanços humanitários e práticas de exclusão. O período Vargas e o Estado Novo intensificaram o encarceramento, transformando hospitais em verdadeiros campos de concentração administrativos. As décadas seguintes viram a adoção de terapias brutais, como eletrochoques e lobotomias, mas também o surgimento de movimentos de resistência, como o trabalho de Nise da Silveira, que introduziu a arte e o afeto como caminhos de cura, ou a emergência de questionamentos ao modelo psiquátrico manicomial. A partir dos anos 1960, a privatização da assistência psiquiátrica gerou a chamada “Indústria da Loucura”, marcada por internações lucrativas e violações sistemáticas de direitos humanos que marcaram profundamente a forma como se entende a loucura contemporaneamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em síntese, o percurso histórico apresentado aqui mostra que a loucura nunca foi apenas um fenômeno clínico mas, antes, um espelho das sociedades, revelando seus medos, suas crenças e suas formas de organizar o convívio humano. De sagrada a temida, de medicalizada a mercantilizada, apresenta-se e se discute como surgiram vozes e práticas que reivindicaram humanidade e liberdade para os considerados loucos.&lt;br /&gt;
== As Loucuras no Mundo Antigo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Grécia antiga ===&lt;br /&gt;
Na Grécia antiga, em certo momento a loucura era considerada uma intervenção dos deuses e, como os gregos era politeístas, a varidade de formas de loucura e intervenção também era bem grande. A loucura poderia ser vista como uma punição. Um exemplo notório é o herói Ajax, filho de Telamão. Após a morte de Aquiles, a armadura do herói foi dada a Odisseu, e a afronta levou Ajax a um estado de fúria e ressentimento. A deusa Atena, intervindo em favor de Odisseu ou para proteger os Aqueus da vingança de Ajax, lançou sobre ele uma cegueira mental. Tomado pela loucura, Ajax massacrou o gado de guerra que havia sido capturado, acreditando que estava matando os líderes aqueus, incluindo Odisseu e Agamenon. Ao recobrar a sanidade e perceber seu ato vergonhoso, o que o levou a cometer suicídio por humilhação. Essa cena ilustra a loucura como uma intervenção divina direta na forma de loucura poderia ser vista como destrutiva e extremamente negativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em outros episódios da mitologia grega, a loucura surge como uma consequência direta de traumas e da perseguição implacável por vingança. Um exemplo fundamental é o de Orestes que, após assassinar sua mãe, Clitemnestra, para vingar a morte de seu pai, Agamenon, passa a ser atormentado pelas Erínias. Essas divindades da vingança, também conhecidas como Fúrias, levaram o herói a um estado de delírio e desespero profundo, personificando a tortura psicológica e a perda da razão como uma forma de acerto de contas espiritual e moral pelo matricídio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura não era unicamente um flagelo ou uma punição. Os gregos  viam a mania, um termo que hoje engloba a loucura, em uma perspectiva dual. Na sua manifestação mais elevada, era considerada uma benção ou inspiração divina. Essa visão positiva estava profundamente ligada ao culto de Dionísio, o deus do vinho, do teatro e do êxtase. Nos rituais dionisíacos, as bacantes e outros seguidores buscavam o êxtase, que é, literalmente, &amp;quot;sair de si&amp;quot;, por meio da dança frenética, música e consumo de vinho, o que era percebido como um estado de comunhão direta e inspirada com a divindade. Longe de ser destrutiva, essa forma de loucura era vista como uma fonte de criatividade, revelação e poder, sendo um caminho para a verdade profética e a expressão artística ligada a Dionísio. Este conceito de mania inspirada também se estendia a outros domínios, como a profecia dos oráculos, que eram vinculados à adoração ao deus Apolo, e mesmo a poesia, onde a perda temporária da razão humana era interpretada como a mente sendo tomada por uma força divina que trazia algum tipo de inspiração.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em certo momento, ainda na Grécia antiga, as ideias sobre a loucura - ou algo que pareça loucura aos olhos contemporâneos - foi modificada graças a Hipócrates, o pai da medicina. A visão de [[Hipócrates]] marcou uma transição crucial para o entendimento da loucura na Grécia Antiga, pois afastou a loucura das concepções divinas e sobrenaturais para uma explicação puramente fisiológica e natural. Ele desenvolveu a [[Teoria dos Quatro Humores]], que se tornou o pilar da medicina ocidental por séculos. Segundo essa teoria, o corpo humano era composto por quatro fluidos essenciais (humores): sangue, fleuma, bile amarela e bile negra. A saúde mental e física dependia do equilíbrio harmonioso desses humores. A loucura, ou qualquer doença mental, era, portanto, interpretada como o resultado de um desequilíbrio, como o excesso de bile negra causando a melancolia (depressão), ou o desarranjo da fleuma e da bile amarela, que poderiam levar a estados de mania e frenesi. Com isso, Hipócrates postulou que a loucura não era uma maldição dos deuses, mas sim uma doença com origem no corpo. Essa abordagem naturalista permitiu que a loucura passasse a ser tratada com métodos como dietas, exercícios e remédios, no lugar de rituais religiosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tradição bíblica ===&lt;br /&gt;
Na tradição bíblica, escrita em contextos e culturas não europeias, a loucura também é frequentemente retratada como uma forma de intervenção ou punição divina. Um dos episódios mais emblemáticos é a história do rei Nabucodonosor II, relatada no Livro de Daniel. De acordo com o texto, devido ao seu orgulho excessivo e sua recusa em reconhecer a soberania de Deus, o rei foi acometido por uma forma de loucura que o levou a viver como um animal, alimentando-se de ervas e deixando seus cabelos e unhas crescerem sem controle. Na psicologia moderna, esse estado em que um indivíduo acredita ter se transformado em um animal é conhecido como licantropia clínica, uma condição rara. A loucura, conforme emerge na descrição bíblica, emerge ligada à perda da razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, a tradição bíblica também apresenta um paradoxo. No Novo Testamento, escrito no contexto do mundo greco-romano, o que é considerado &#039;loucura&#039; pelos homens revela-se a suprema sabedoria divina. Essa ideia é desenvolvida pelo apóstolo Paulo em sua Primeira Carta aos Coríntios. Na passagem, ele afirma: &#039;Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens&#039; (1 Coríntios 1:25). Paulo usa o termo &#039;&#039;moria&#039;&#039; (loucura, tolice) para contrastar a sabedoria humana que, na época do texto, era representada pela filosofia e retórica grega. A mensagem da cruz parecia ilógica e insensata aos olhos dos não cristãos, que debochavam do fato do profeta ter sido capturado e morto pelos romanos. Assim, a loucura deixa de ser apenas uma punição para se tornar uma lente através da qual a verdadeira sabedoria, ou seja, a salvação, é revelada, invertendo a hierarquia de valores do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Pérsia ===&lt;br /&gt;
Na Pérsia, a visão da loucura e do comportamento irracional foi moldada por seu profundo dualismo religioso e, posteriormente, pelas tradições islâmicas que se seguiram à conquista árabe. O zoroastrismo, a antiga religião persa fundada por Zoroastro (Zaratustra), transformou o politeísmo em um dualismo cósmico centralizado no conflito eterno entre Ahura Mazda (Ormazd), o criador da vida, luz e verdade, e Angra Mainyu (Ahriman), a escuridão e a mentira. Neste cenário, o mundo material é o campo de batalha entre os dois. Ahriman buscava corromper tudo o que Ormazd havia criado. Embora o texto não defina a loucura diretamente, o comportamento irracional e a desrazão poderiam ser facilmente associados ao domínio de Ahriman e à mentira (&#039;&#039;druj&#039;&#039;), enquanto a sanidade e a pureza eram atributos de Ormazd. A batalha contra essa corrupção exigia que os adoradores de Ormazd permanecessem verdadeiros e evitassem poluir o fogo e a terra sagrada, indicando que a pureza mental e ritual era uma defesa contra as forças do mal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Islã ===&lt;br /&gt;
Na cultura islãmica, de forma geral e bastante resumida, o comportamento considerado irracional era frequentemente explicado pela crença nos &#039;&#039;djinn&#039;&#039;, espíritos errantes que habitavam o deserto e certos lugares considerados místicos e que podiam invadir a mente humana, causando o que a sociedade ocidental moderna chamaria de insanidade ou, talvez, distúrbio emocional, cujo tratamento era o exorcismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura também apareceu em narrativas culturais associadas aos povos, de forma a sugerir causas e curas mais mundanas. O famoso conto persa de As Mil e Uma Noites relata a história do rei Shahriyar, que, convencido da inevitável traição feminina, cai em uma loucura paranóica que o leva a se casar com uma virgem todas as noites e, pela manhã, assassiná-la. Sua &amp;quot;cura&amp;quot; é alcançada através da engenhosidade e paciência humana por meio de uma dessas esposas, Scheherazade, que usa a arte de contar histórias para retardar sua execução por &amp;quot;mil e uma noites&amp;quot;, período em que sua paranoia é gradualmente desfeita. A história sugere que a narrativa e o tempo podem curar a loucura causada por trauma psicológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As Loucuras na Idade Média ==&lt;br /&gt;
A transição para a Idade Média é marcada pelo colapso do Império Romano do Ocidente (476 d.C.), que trouxe profundas transformações políticas e sociais. O fim do governo centralizado romano levou à fragmentação do poder e ao surgimento do sistema feudal, onde a administração das terras e a autoridade passaram para as mãos de senhores locais, muitos deles antigos oficiais romanos. Este período também é caracterizado por um notável declínio na vida urbana e nos grandes centros intelectuais. O colpaso das instituições romanas deu lugar à ascensão e consolidação da única instituição internacional grande e organizada que havia sobrado, a Igreja Católica, que se tornou a principal instituição, com poder tanto político quanto cultural e simbólico. Houve ainda uma perda gradual da tradição cultural greco-romana e, consequentemente, um afastamento das explicações naturalistas de Hipócrates, com exceção do pequeno renascimento do século XII e retomadas pontuais da sabedoria grega. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a hegemonia da Igreja Católica, a loucura tendeu a ser novamente interpretada sob uma lente teológica, sendo vista como uma manifestação de forças sobrenaturais ou desvios morais. Nesse contexto, certas vezes a loucura era interpretada como a intervenção de Satanás ou como possessão demoníaca, exigindo rituais de exorcismo para a cura. Em outros momentos, era vista como uma prova espiritual enviada por Deus ou como um efeito direto do pecado na alma do indivíduo. Havia também explicações que a tratavam como uma fragilidade da vontade humana, como no caso do que chamaríamos hoje de compulsões, misturando elementos da antiga tradição grega com aspectos da teologia cristã. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Socialmente, a gestão da loucura na Idade Média também passou por diferentes fases e transformações, dependendo do local e da época. Havia casos em que os considerados loucos eram apenas torturados e trancafiados, métodos considerados eficazes para expulsão de espíritos malignos, por exemplo. Contudo, em muitos outros casos, os considerados loucos conviviam de forma mais ou menos harmoniosa com o resto da comunidade, a depender de suas capacidades e possibilidades, e certos “desvios” eram perdoados devido à sua condição peculiar, sem a necessidade imediata de uma exclusão radical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Nau dos Loucos ===&lt;br /&gt;
Um caso notável e emblemático da gestão da loucura nesse período é a [[Nau dos Loucos]] (&#039;&#039;Stultifera Navis&#039;&#039;), conforme trabalhado por [[Michel Foucault]]. Anteriormente ao modelo de exclusão-repressão que viria a se consolidar na Idade Clássica, a loucura viveu o que se pode chamar de seus &amp;quot;dias de glória&amp;quot; na transição para a Renascença. Nesse contexto, o louco poderia ser visto como um sábio, um místico, um bobo da corte ou simplesmente um excêntrico que estava, de certa forma, integrado ao tecido social.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Nau dos Loucos simbolizava uma existência errante, onde o louco era confiado à água e ao navio para ser levado de uma cidade a outra, mantendo-o em um estado de exclusão simbólica, mas ainda assim em movimento e circulação. Para Foucault, essa experiência trágica da loucura permitia que o insano portasse uma forma de lucidez em sua insensatez, revelando verdades que a razão comum não ousava enunciar. O louco via através das ilusões mundanas, aproximando-se de uma verdade profética ou ética que seria progressivamente silenciada nos séculos seguintes pela ascensão do saber médico e da racionalidade científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Santa Dimpna e Geel ===&lt;br /&gt;
Outro acontecimento relevante da Idade Média para a compreensão da loucura é o episódio de [[Santa Dimpna]]. Nascida no século VII na Irlanda, ela era filha de um rei pagão e de uma mãe cristã devota, de quem herdou sua fé e pela qual decidiu fazer votos de castidade. Após a morte prematura da mãe, seu pai, mergulhado em um profundo luto, decidiu que Dimpna era a única mulher com beleza comparável à da falecida rainha e insistiu em se casar com a própria filha, o que seria considerado escandaloso também para aquela cultura. Diante dessa perseguição incestuosa, Dimpna fugiu da Irlanda acompanhada de seu confessor, o padre Gereberno, e de dois servos fiéis. O grupo cruzou o mar e estabeleceu-se em [[Geel]], um minúsculo vilarejo na atual Bélgica, onde Dimpna se dedicou ao cuidado dos pobres e doentes mentais. No entanto, o rei conseguiu encontrá-los e, após a recusa de Dimpna tanto em retornar para a Irlanda quanto se casar com o pai, ordenou a execução de Gereberno, enquanto ele mesmo decapitou a filha, tornando a menina de 15 anos de idade numa mártir cristã. Após sua morte, relatos de curas milagrosas de pessoas com distúrbios mentais e epilepsia começaram a ocorrer junto ao seu túmulo, o que a tornou a padroeira dos doentes mentais e o local um espaço de peregrinação ligado à questão da saúde mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O legado de Santa Dimpna em Geel deu origem a um modelo para a psiquiatria moderna pois, devido à devoção e adoração à Santa Dimpna, a cidade transformou-se em um santuário onde os pacientes não eram trancafiados, mas acolhidos em lares de famílias locais como &amp;quot;hóspedes&amp;quot;. Esse sistema de cuidado comunitário e desinstitucionalização, que persiste há séculos, é considerado um dos precursores do tratamento humanizado e da reabilitação psicossocial na saúde mental contemporânea.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Idade Clássica: a nova era da loucura encarcerada ==&lt;br /&gt;
A partir do século XVII, um período em que o filósofo Michel Foucault denominou como &amp;quot;A Época Clássica&amp;quot;, a forma de entender e lidar com a loucura passa por uma nova mudança devido ao ingresso da razão como centro e alma do pensamento europeu, em substituição ao dogmatismo religioso e ao conhecimento da igreja. Esta mudança não é brusca, mas lenta e gradual, porém suas marcas serão duradouras e serão sentidas por quase toda a Europa. Para essa nova e nascente razão, a loucura seria seu oposto direto. Se o homem era definido pela sua capacidade racional e sua utilidade produtiva, o louco era, portanto, como um &amp;quot;não-homem&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a solução para a não-razão era a internação, que não buscava a cura, mas a neutralização do irracional. O silenciamento da loucura era necessário para que a ordem social pudesse florescer. Os campos e cidades deveriam ser espaços de circulação de mercadorias pelas mãos de cidadãos produtivos, e qualquer elemento que atrapalhasse essa dinâmica deveria ser guardado em instituições que funcionavam como uma guarda contra o risco social que tais pessoas ofereciam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Relatos da época descrevem cenários terríveis sobre as condições de internação dos loucos. Os internos eram frequentemente mantidos em celas úmidas e insalubres, muitas vezes acorrentados às paredes. O uso de chicotes e outras punições corporais era justificado pela crença de que o louco, por ter perdido a razão, teria a resistência física de um animal, não sentindo frio ou dor da mesma forma que uma pessoa &amp;quot;normal&amp;quot;. Além disso, as instituições funcionavam sob uma lógica de vigilância constante. Não se tratava de observar para entender a mente, mas para garantir que o corpo anormal permanecesse contido e, no máximo possível, docilizado. Foi dentro desse ambiente de absoluta degradação e mistura indiscriminada de diferentes &amp;quot;tipos&amp;quot; de desviantes que a consciência médica começou a germinar, ainda que de forma incipiente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== França ===&lt;br /&gt;
O ano de 1656 marca um divisor de águas simbólico para o modelo de confinamento asilar no mundo todo, com a criação do Hôpital Général (Hospital Geral) em Paris, por um edito real do rei Luís XIV. É importante entender que um hospital geral deste período não é como um hospital moderno, ou seja, uma instituição médica e voltada para a compreensão da doença e a prática do tratamento e cura. Ele estava mais próximo de uma estrutura administrativa e, de certo modo, semi-judiciária. Isso ocorria porque o interesse não estava em “curar” ou “tratar” ninguém mas, antes disso, perseguir o interesse do Estado de &amp;quot;limpar&amp;quot; as ruas de Paris de tudo o que era considerado improdutivo ou escandaloso. Era um período de abundância material, grandes gastos estatais e de uma imensa riqueza do império colonial francês, e desvios nessa ordem eram vistos como perigosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes tais hospitais gerais eram confinados, todos juntos, grupos totalmente diferentes, tais como pobres, mendigos, desempregados, libertinos, prostitutas, alquimistas, opositores políticos e, claro, também os considerados loucos. Em suma, um depósito de indesejados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que começou em Paris se tornou um modelo para outros lugares sobre como fazer a gestão da miséria e da “desrazão”, num forte deslocamento do que se via na Idade Média. O louco, antes tendo algo de profético, místico ou talvez apenas uma excentricidade da vida medieval campesina, se torna uma questão político-administrativa. Essa mudança importante marca uma migração para a possibilidade de institucionalização daquilo que era considerado errante ou, de alguma forma, desagradável e, assim passível de ser alvo de uma forma de gestão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em Paris, as duas principais unidades do Hospital Geral se tornaram emblemáticas e simbólicas. A [[Salpêtrière]], que era destinada às mulheres, e o hospital [[Bicêtre]], destinado aos homens. Ambas as instituições não ofereciam qualquer forma de tratamento. Eram basicamente depósitos humanos, onde o louco poderia acabar acorrentado ao lado de criminosos, por exemplo. O critério de internação não era o diagnóstico clínico, mesmo porque simplesmente ele nem existia, mas a incapacidade de se ajustar às normas de trabalho e à moralidade da época.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Alemanha ===&lt;br /&gt;
Na Alemanha, surgiram as Zuchthäusern, que seriam as [[Casas de Correção (Zuchthäusern)|Casas de Correção]]. Cidades como Hamburgo e Bremen estabeleceram esses locais onde a loucura era tratada através do trabalho forçado. Eles acreditavam que o ócio era a raiz do mal e que o confinamento servia para reintegrar o indivíduo à lógica da produtividade. De qualquer forma, uma vez enclausurado, ele permanecia escondido da visão da população.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Inglaterra ===&lt;br /&gt;
Na Inglaterra, o sistema das Workhouses (Casas de Trabalho) cumpria um papel semelhante ao modelo alemão. No entanto, Londres já possuía o [[Bethlem Royal Hospital (Bedlam)|Bethlem Royal Hospital]], conhecido popularmente como Bedlam. No século XVII e XVIII, Bedlam se tornou um espetáculo de horror, onde o público podia pagar para observar os internos como se fossem animais em um zoológico. A loucura agora um objeto de uma forma de exibição degradante e mantida atrás de grades e ferros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Portugal ===&lt;br /&gt;
Em Portugal a gestão dos &amp;quot;desviantes&amp;quot; recaiu fortemente sobre as Santas Casas da Misericórdia. O [[Hospital Real de Todos-os-Santos]], fundado em Lisboa em 1492 e inaugurado em 1501, se tornou o epicentro do tratamento (ou confinamento) dos loucos no país. Dentro deste hospital, existiam as chamadas &amp;quot;[[Casas de Doidos]]&amp;quot;, destinados àqueles que haviam “perdido a luz da razão”. Seguindo o padrão europeu, o hospital não separava rigidamente o louco por diagnóstico. Eles dividiam espaço com indigentes e enfermos de diversas naturezas, embora as &amp;quot;casas de doidos&amp;quot; fossem áreas de maior isolamento devido à agitação dos internos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XVIII português, a internação era, acima de tudo, uma solução para a mendicância e, por vezes, para o alcoolismo. O louco oriundo de uma família com posses era mantido nas próprias casas, muitas vezes escondido em sótãos ou anexos e até mesmo acorrentados. Já o &amp;quot;louco pobre&amp;quot;, que não poderiam ser cuidados por seus familiares, acabava nos hospitais reais ou mesmo nas cadeias, a depender de uma série de fatores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Nascimento da Psiquiatria ==&lt;br /&gt;
=== Pinel e a criação da psiquiatria nosográfica ===&lt;br /&gt;
É na virada do século XVIII para o XIX que nasce a psiquiatria como um campo autônomo do saber e da prática médica. Esta mudança fundamental é protagonizada por duas figuras centrais da medicina francesa: [[Philippe Pinel]] e seu discípulo, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]]. Juntos, eles transformaram o hospital de depósito de insanos e indesejáveis em um verdadeiro hospital, em que o louco e o alienado poderiam receber um tratamento racional e científico, em substituição às correntes, à disciplina e ao silenciamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A emergência da psiquiatria como campo autônomo teve como fundamento científico inicial a observação clínica sistemática dentro do asilo. Este era concebido como um laboratório, onde o alienista poderia estudar a loucura em seu estado puro, separada das influências do mundo exterior. A principal questão científica e prática que justificava essa nova ciência era desenvolvida e aplicada de forma sistemática era a chamada nosografia ou diagnóstico. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pinel, em seu [[Traité médico-philosophique sur l&#039;aliénation mentale, ou la manie]], de 1801, classificou a loucura com base em critérios sintomatológicos, seguindo um procedimento comparativo semelhante ao das ciências naturais. O desafio central, que persistiria ao longo do século XIX, era a ambiguidade constante entre a busca por uma sede orgânica, ou seja, um “local físico-biológico” da loucura, junto da necessidade de uma regulação de caráter moral. O tratamento apoiava-se na moralidade para combater as causas que eram, elas próprias, consideradas morais, mas algo estava também no corpo do doente. Isso mostra que a nova psiquiatria de Pinel era a mistura de medicina com moralidade. Este enfoque resultou na valorização do exame clínico pelos psiquiatras francófonos, permitindo a união da observação clínica com a formulação de hipóteses.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1793, em meio ao fervor da Revolução Francesa, Philippe Pinel foi nomeado médico-chefe do Hospital de Bicêtre e, posteriormente, da Salpêtrière. O cenário que encontrou era o ápice do &amp;quot;Grande Enclausuramento&amp;quot;, ou seja, homens e mulheres amontoados nas condições já descritas, com destaque para as correntes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A intervenção de Pinel, simbolizada pelo gesto de “libertar os loucos de suas correntes”, não foi apenas um ato humanitário, mas também uma decisão de natureza epistemológica. Pinel acreditava que a loucura não era uma possessão demoníaca nem uma degeneração animal irreversível, mas uma alienação mental, em outras palavras, uma perturbação das faculdades intelectuais e afetivas que mantinha o indivíduo como se fosse &amp;quot;estrangeiro&amp;quot;, ou alienado, de si mesmo e da sociedade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O pilar para a reforma psiquiátrica proposta por Pinel era o tratamento moral, e se baseava em três pilares fundamentais. O primeiro, o isolamento terapêutico. Era necessário que o paciente ficasse separado de seu ambiente que, segundo o médico, era a fonte de sua excitação e desequilíbrio. O segundo pilar era a autoridade médica, onde este deveria atuar como um pai ao mesmo tempo severo e justo, usando a persuasão, a benevolência e, se fosse necessário, a firmeza para restaurar a razão do paciente. Por fim, a disciplina e o trabalho, com a aplicação rigorosa de horários e valorização de atividades produtivas, o que ocuparia a mente alienada e, assim, combateria a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em seus estudos, Pinel identificou quatro tipos de loucura, quais sejam, a [[melancolia]], a [[mania]], a [[demência]] e a [[idiotia]], cada uma com suas questões próprias específicas e metodologias de tratamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Esquirol e a consolidação do modelo ===&lt;br /&gt;
Se Pinel era considerado o visionário e o libertador, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]] foi o grande organizador e o clínico meticuloso. Discípulo de Pinel, Esquirol sucedeu seu mestre na Salpêtrière e deu à psiquiatria a robustez científica e administrativa de que ela necessitava. Esquirol compreendeu que a eficácia do tratamento moral dependia da arquitetura hospitalar. Para ele, o hospital não era apenas um prédio onde ocorria o tratamento, mas também um instrumento de cura. Ele desenvolveu o modelo de pavilhões, permitindo a separação dos pacientes por tipo de patologia, o que reforçou a própria ideia de diagnóstico e de avaliação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Esquirol refinou as definições clínicas de Pinel. Foi ele quem estabeleceu a distinção clássica entre alucinação (uma percepção sem objeto) e ilusão (uma percepção deformada de um objeto real), entre outros pontos que, na sua época, foram considerados avanços exemplares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Legalização da Alienação ===&lt;br /&gt;
O esforço médico, político e administrativo de Esquirol na continuação do trabalho de Pinel culminou na promulgação da lei francesa de 30 de Junho de 1838, a primeira grande legislação psiquiátrica do mundo moderno. Esta lei estabeleceu a obrigatoriedade de cada departamento francês possuir um asilo e regulamentou as condições de internação e interdição. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A princípio, embora também protegesse o alienado do arbítrio e de outras violências que poderiam ser cometidos contra os loucos nas províncias e mesmo nas periferias de Paris, a lei também deu total poder ao médico psiquiatra. Era ele quem poderia decidir quem deveria ou não ser privado de sua liberdade. Com isso, a psiquiatria tornava-se, assim, um braço do Estado na gestão da ordem social mas, ao contrário do polícia e do inquérito polícial, que exigia provas independentes e a atuação do sistema judiciário, o psiquiatra estava coberto sob o manto da ciência médica, o que dava a ele poderes gigantescos de decidir entre a alienação e a razão. Isso marcou profundamente a forma como a loucura e a saúde mental passaram a ser compreendidas e tratadas nas décadas seguintes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Emil Kraepelin e uma Nova Racionalização ===&lt;br /&gt;
Apesar da forte valorização da psiquiatria francesa na constituição da psiquiatria contemporânea, uma das principais contribuições para o ramo em sua forma atual foi empreendida por um alemão, [[Emil Kraepelin]]. No final do século XIX, a psiquiatria alemã estava dividida entre os &amp;quot;psiquistas&amp;quot;, que viam a loucura como uma doença da alma ou um mal moral, a exemplo dos franceses; e os &amp;quot;somatistas&amp;quot;, que buscavam no cérebro a origem dos sintomas das doenças mentais. Kraepelin superou esse impasse ao focar não na anatomia, mas na evolução temporal das doenças. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin passou a entender que sintomas isolados, como ouvir vozes ou acreditar ser uma personalidade histórica, não eram suficientes para definir uma doença, mas seu desenvolvimento ao longo do tempo. Com essa premissa em mãos, Kraepelin introduziu as &amp;quot;cartas diagnósticas&amp;quot; (&#039;&#039;Zählkarten&#039;&#039;), um sistema de fichamento padronizado onde se registrava a história de vida do paciente, seus antecedentes familiares, os sintomas detalhados e, por fim, o desfecho da doença. Isso transformou a clínica psiquiátrica, pois articulava neuroanatomia e psicologia experimental, já que ele fora aluno de [[Wilhelm Wundt|Wundt]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin também é considerado o pioneiro da [[Psiquiatria Transcultural]]. Visando provar que as categorias diagnósticas psiquiátricas seriam universais, ele viajou para lugares como a ilha de Java (Indonésia) em 1904 para estudar a manifestação da loucura em populações não europeias. Ele concluiu que, ainda que os conteúdos dos delírios mudassem conforme a cultura, a estrutura fundamental da loucura permanecia a mesma, o que reforçou sua tese de que eram doenças biológicas da espécie humana. Apesar disso, no final de sua vida ele se transformou um higienista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O I Congresso Internacional de Psiquiatria ===&lt;br /&gt;
Realizado em Paris em agosto de 1950, o [[I Congresso Internacional de Psiquiatria]] foi projetado especificamente para unificar, debater e institucionalizar a psiquiatria como uma disciplina médica global e autônoma. Durante o Congresso foram colocados, frente a frente, as grandes correntes que disputavam a hegemonia do entendimento da mente humana na época, a saber, as correntes psicodinâmica e a biológica. De forma menor, uma corrente social e anti-manicomial também se fez presente. O resultado do embate foi uma conciliação entre as duas maiores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um dos resultados do Congresso de 1950 foi a pressão para que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Associação Psiquiátrica Americana (APA) criassem manuais estatísticos e classificatórios unificados, o que resultou na inserção de uma seção robusta de transtornos mentais na CID-6 (Classificação Internacional de Doenças) e na publicação do primeiro [[DSM]], em 1952.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro resultado importante do evento foi a fundação da Associação Mundial de Psiquiatria ([[World Psychiatric Association (WPA)|World Psychiatric Association - WPA]]). Com isso, a psiquiatria deixou de ser um conjunto de escolas nacionais isoladas, como as escolas francesa, alemã, anglo-saxã, entre outras, para se tornar uma corporação científica internacional, com congressos periódicos, periódicos indexados e diretrizes globais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Loucura no Brasil ==&lt;br /&gt;
Até o início do século XIX, o Brasil colonial lidava com seus insanos de forma semelhante ao que ocorria na Europa. As famílias ricas mantinham seus parentes loucos em &amp;quot;quartos fortes&amp;quot;, privando-os mais ou menos da vida comunitária e familiar, a depender das circunstâncias, de forma semelhante ao que acontecia em Portugal. Já os pobres eram entregues à caridade das [[Santas Casas de Misericórdia]] ou vagavam pelas ruas, sendo ocasionalmente recolhidos a cadeias públicas quando perturbavam a ordem, indo e vindo das frágeis instituições brasileiras, sofrendo abusos e violências de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A transferência da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 gerou a necessidade de transformar a capital colonial em uma moderna metrópole europeia. Sob a influência do Iluminismo tardio e das notícias que chegavam sobre as reformas de Pinel na França, a elite médica brasileira, que havia estudado sobretudo na França e em Portugal, começou a pressionar o poder público pela criação de espaços específicos para o tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1830, a criação da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (que viria a ser a [[Academia Nacional de Medicina]]) foi o marco institucional dessa pressão. Esse movimento político funcionou. O momento decisivo ocorreu em 18 de julho de 1841, quando o Imperador D. Pedro II, em comemoração à sua coroação, assinou o decreto de fundação do primeiro hospital psiquiátrico do Brasil e da América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Hospício de Pedro II, ou o Palácio dos Loucos (1852–1889) ===&lt;br /&gt;
Inaugurado apenas em 8 de dezembro de 1852, o [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)|Hospício de Pedro II]] era gerido pela Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, que por anos geriu grande parte da loucura brasileira. Seu provedor era o médico [[José Clemente Pereira]], que era responsável por todos os aspectos da instituição, desde os médicos até os administrativos. Embora a gestão administrativa fosse religiosa, o saber médico tinha muito espaço, com nomes como [[Manoel Feliciano Pereira de Carvalho]], que tentaram implementar o &amp;quot;tratamento moral&amp;quot; inspirado em Esquirol. Apesar dos esforços, muitos relatos de abusos e de condições precárias mostravam a dificuldade em implementar um modelo brasileiro de tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a Proclamação da República em 1889, o Hospício de Pedro II foi desvinculado da Santa Casa e renomeado como [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)]]. Este foi um período de maior laicização e pela busca por um maior rigor científico, o que não aconteceu por completo, em grande parte devido à falta de profissionais adequadamente treinados para a questão. Apesar disso, o Brasil já possuía uma cátedra de psiquiatria desde 1883, ocupada por João Carlos Teixeira Brandão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diante dos altíssimos custos em manter o Hospital, surgem as colônias agrícolas como alternativa ao confinamento urbano. Em 1884, já havia sido inaugurada a [[Colônia de São Bento]] e, em 1890, a [[Colônia de Conde de Mesquita]], na Ilha do Governador. A ideia era que o trabalho na terra poderia colaborar na cura, além de os produtos deste trabalho poderiam ser consumidos no local, ajudando na manutenção dos espaços. Apesar dessas transformações e de evidentes melhorias, os relatos de época mostram que não acontecia nenhuma das duas coisas, nem produção agrícola suficiente, nem um processo terapêutico efetivo, mas entendia-se que a colônia agrícola era melhor do que o confinamento do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Era Juliano Moreira ===&lt;br /&gt;
Em 1903, o médico baiano [[Juliano Moreira]] assume a direção do Hospital Nacional de Alienados. Negro, de origem humilde e dotado de uma erudição impressionante, ele revolucionou a assistência brasileira aos alienados, sendo reconhecido internacionalmente como um dos grandes psiquiatras de seu tempo. Ele se tornaria o principal médico alienista do Brasil, tornando-se referência para todo o país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Moreira aboliu definitivamente o uso de camisas de força e as grades nas janelas, num gesto que se assemelhava àquele de Pinel, enfatizando que o hospital era um local de tratamento e cura, e não uma prisão ou um depósito de indesejados. Além disso, ele trouxe para o Brasil a nosologia de Emil Kraepelin, um psiquiatra alemão considerado o pai da psiquiatria moderna, da psicofarmacologia e da genética psiquiátrica, o que seria uma modernização do modelo francês adotado até então. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a gestão Moreira ocorreram várias mudanças. Foi criado o [[Pavilhão Bourneville]] para crianças com deficiência intelectual. Além disso, fundou-se em 1921 o [[Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro]], o primeiro do país, sob a liderança de [[Heitor Carrilho]]. Dentro dos hospitais incentivou-se a pesquisa laboratorial e anátomo-patológica, o que também abriu espaço para a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A influência e o prestígio de Juliano Moreira se espalhou pelo Brasil. Em São Paulo, destacou-se a figura de [[Franco da Rocha|Francisco Franco da Rocha]], que fundou em 1898 o [[Hospital do Juquery]]. O Juquery, como ficou conhecido, tornou-se uma &amp;quot;cidade-asilo&amp;quot;, chegando a abrigar dezenas de milhares de pacientes em um modelo que mesclava pavilhôes médicos com imensas colônias agrícolas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste período, a psiquiatria brasileira flertou intensamente com as teorias da degenerescência (de Morel e Magnan) e com a eugenia. Médicos como [[Renato Kehl]], bem como a criação da [[Liga Brasileira de Higiene Mental]] (1923), uma organização higienista fundada por [[Gustavo Riedel]], começaram a ver a loucura não apenas como um problema individual, mas como um risco biológico à raça brasileira. A higiene mental passou a atuar preventivamente em escolas e fábricas, buscando identificar &amp;quot;pré-delinquentes&amp;quot; e &amp;quot;personalidades anormais&amp;quot;. Apesar de não ter conseguido desenvolver muitas políticas efetivas, os eugenistas brasileiros eram ativos e influentes em muitos círculos decisórios importantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A criação de hospitais não se limitou a São Paulo e Rio de Janeiro. Em  1903, o governo de Minas Gerais fundou o [[Hospital Psiquiátrico de Barbacena]], que mais tarde seria palco de uma das maiores tragédias humanitárias do país. Em Pernambuco, o [[Hospital Ulysses Pernambucano]] foi fundado pelo médico de mesmo nome, que começou a desenvolver uma psiquiatria mais voltada para o social e para a prevenção no final dos anos 1920. Hospitais na Bahia, Rio Grande do Sul, entre outros, também foram criados, seguindo o pioneirismo do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Era Vargas e além: o início do encarceramento ===&lt;br /&gt;
Com a Revolução de 1930, o projeto de nação de Vargas exigia um povo saudável e produtivo, devido à visão desenvolvimentista suportada pela Aliança Liberal, que o elegeu. A loucura deixou de ser apenas uma questão de ordem pública ou um aspecto da caridade para se tornar um problema de segurança nacional e de saúde pública. Em 1941, no âmbito do Estado Novo, foi criado o [[Serviço Nacional de Doenças Mentais (SNDM)]], substituindo o antigo modelo de assistência a alienados, que era fragmentado nas diferentes províncias. Dessa maneira, Vargas criou uma diretriz federal centralizada para a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a Liga Brasileira de Higiene Mental ganhou fôlego. O foco deslocou-se do hospital para a prevenção na sociedade. A psiquiatria não deveria se limitar aos hospitais, mas também atuar na escola, na fábrica e na família, buscando limpar a nação e extirpar o que chamavam de &amp;quot;elementos degenerados&amp;quot;. O médico Gustavo Riedel e seus sucessores defendiam que o Estado deveria intervir precocemente para evitar que o &amp;quot;anormal&amp;quot; se tornasse um fardo para a máquina pública.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi durante as décadas de 1930 e 1940 que o modelo de colônia agrícola, antes visto como terapêutico e de assistência à manutenção hospitalar, atingiu proporções industriais. O que se viu em Barbacena e em instituições como o Juquery em São Paulo, foi a transformação do hospital em, praticamente, um campo de concentração administrativo. A internação não dependia mais de um diagnóstico médico rigoroso, que na prática ainda era frágil e baseado em elementos pouco científicos. Bastava ser considerado &amp;quot;socialmente inconveniente&amp;quot; para correr-se o risco de ir parar numa instituições dessas. Assim, pobres, prostitutas, homossexuais, militantes políticos e mães solteiras eram enviados para essas instituições, onde a sobrevivência era a exceção. Estima-se que, no auge do descaso, o Hospital de Barbacena registrava um número alarmante de óbitos por frio, fome e doenças evitáveis, cujos corpos eram, por vezes, vendidos para faculdades de medicina. Situações similares aconteciam em outras instituições do tipo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tratamentos Brutais e os Modos de Resistência ===&lt;br /&gt;
Para além do horror asilar, o período entre 1930 e 1950 também foi marcado pela introdução de terapias biológicas drásticas, importadas da Europa, conhecidas como [[somatoterapias]]. Com uma psicofarmacologia pouco eficaz, os médicos buscavam &amp;quot;chacoalhar&amp;quot; o organismo, produzindo nele como um choque que pudesse restaurar a razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma dessas técnicas era a [[insulinoterapia]]. Introduzida na Europa pelo médico austríaco Manfred Sakel (1900–1957) em Viena, no início dos anos 1930, representou uma das primeiras e mais invasivas formas de somatoterapia. Originalmente destinada ao tratamento da [[esquizofrenia]], a técnica consistia na administração de doses maciças de insulina no paciente, provocando um estado de hipoglicemia profunda que levava o paciente ao coma. Na volta desse estado, se esperava que o indivíduo “restaurasse” a razão por conta do choque orgânico violento que havia vivenciado. O procedimento era extremamente perigoso e estava associado a uma alta taxa de mortalidade e morbidade devido às convulsões e aos possíveis danos cerebrais. Apesar dos riscos, o método foi amplamente adotado no mundo todo, incluindo o Brasil, onde foi usado em grandes instituições de confinamento, como o Hospital Nacional de Alienados (HNA), no Hospital Juquery, entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que passou a ser muito utilizada foi a [[Eletroconvulsoterapia]], ou simplesmente o eletrochoque. Introduzido no Brasil logo após sua invenção na Itália (1938), consiste em colocar eletrodos carregados com correntes elétricas em lados opostos, na lateral da cabeça, de modo que uma forte corrente elétrica atravessasse o cérebro. A duração e a intensidade podiam variar, mas relatos de mais de trinta minutos de choques violentos não eram incomuns. Sua brutalidade era tamanha que exigia que sua vítima fosse fortemente amarrada. Tornou-se uma ferramenta onipresente nos hospitais, muitas vezes aplicada sem anestesia e como método de punição, desvirtuando sua finalidade clínica já questionável e usada, basicamente, como ferramenta de tortura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que ingressou no Brasil nesse período foi a [[lobotomia]], um procedimento cirúrgico que consistia em apenas retirar um pedaço do cérebro do paciente. Eles foram realizados em larga escala em hospitais como o Juquery e no Hospital Pedro II, buscando a docilização de pacientes crônicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em oposição à violência do isolamento oferecido por essas instituições, surge a figura de [[Nise da Silveira]]. Em 1946, após ter sido presa pelo regime de Vargas por suas inclinações políticas, Nise assumiu o Setor de Terapêutica Ocupacional do [[Centro Psiquiátrico Nacional]] (Engenho de Dentro), no Rio de Janeiro. Ela se recusou a usar eletrochoques e lobotomias, introduzindo a arte e o afeto como mediadores da cura. Ela fundou o [[Museu de Imagens do Inconsciente (MIS)|Museu de Imagens do Inconsciente]] em 1952, onde demonstrou, através das pinturas e esculturas de pacientes como [[Arthur Bispo do Rosario]], que o louco preservava uma riqueza simbólica e uma humanidade que a psiquiatria tradicional tentava apagar. Sua colaboração com [[Carl Jung]] colocou a experiência brasileira no mapa da psicologia analítica mundial, provando que o tratamento em liberdade e através da expressão criativa era viável.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Criação da Indústria da Loucura ===&lt;br /&gt;
No final da década de 1950 e início da de 1960, durante o governo de Juscelino Kubitschek e o breve período democrático posterior, o Brasil viu o surgimento de uma nova e ainda mais perversa dinâmica: a Indústria da Loucura. A assistência psiquiátrica, antes quase totalmente pública ou baseada no assistencialismo das Santas Casas, começou a ser privatizada. Com o crescimento dos institutos de previdência (IAPs), o Estado passou a pagar hospitais privados por dia de internação. Isso criou um incentivo perverso: quanto mais tempo o paciente ficasse internado e quanto menos recursos fossem gastos com ele, maior o lucro das clínicas privadas. Esse modelo, conhecido como &amp;quot;hospitalocêntrico&amp;quot;, inchou o sistema e preparou o terreno para a política de contenção social que seria radicalizada após o golpe de 1964. Foi um momento de multiplicação da brutalidade. Pouco importava a loucura ou não, o tratamento ou não, a eficácia ou não. O que importava era lucar com o dinheiro estatal por meio de um encarceramento fácil de impor e praticamente impossível de escapar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A coisa se aprofundou ainda mais com o golpe militar, que unificou em 1966 os Institutos de Aposentadoria e Pensões no INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), produzindo uma centralização gigantesca de recursos, com um modelo de privatização quase total. A psiquiatria, por ser uma especialidade cuja formação exigia baixo investimento tecnológico quando comparada a outras como a cirurgia, cardiologia ou oncologia, permitia grandes lucros com as internações de longa permanência. Assim, trancafiar e atormentar os loucos tornou-se o setor mais atraente para o empresariado da saúde.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de pessoas possivelmente diagnosticadas, o sistema era alimentado pelo encarceramento de militantes políticos, estudantes rebeldes, pessoas em situação de rua,  mendigos, homossexuais, indivíduos com comportamentos &amp;quot;desviantes&amp;quot; da moral tradicional, dependentes químicos, alcoólatras ou mesmo pessoas “problemáticas” da família, que se recusavam, por exemplo, a participar de casamentos arranjados, que denunciavam violência sexual sofrida ou eram apenas mulheres que haviam engravidado antes do casamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As instituições privadas multiplicaram-se pelo interior do país, longe dos olhos da fiscalização e dos centros urbanos. Instaladas em locais de difícil acesso, facilitava o ocultamento de violações de direitos humanos e ainda utilizava da conivência dos governos locais. As populações dessas localidades, crentes no saber médico, dificilmente desconfiavam do que poderia acontecer dentro dessas instituições e, quando vazavam denúncias, elas rapidamente podiam ser facilmente manejadas em conluio com os poderes locais. A loucura tornou-se um negócio de massa, com o abrigo precário de centenas de pessoas em galpões, onde a única &amp;quot;terapia&amp;quot; era a contenção química por sedativos baratos ou o uso indiscriminado do eletrochoque para manter a ordem além, é claro, da violência e brutalidade de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Luta Antimanicomial ==&lt;br /&gt;
No final da década de 1970, o modelo de saúde mental começou a dar sinais de exaustão, tanto financeira quanto ética. O Estado já não conseguia arcar com os custos crescentes de um sistema que só expandia o número de crônicos, e as denúncias de maus-tratos começaram a furar o bloqueio da censura, aparecendo em jornais mais prestigiados e em espaços mais amplos do debate social. O estopim para a o início do movimento da reforma psiquiátrica no Brasil começa com uma crise na [[Divisão Nacional de Saúde Mental (DINSAM)]], que havia recebido denúncias de irregularidades no Centro Psiquiátrico Pedro II, no [[Hospital Pinel]], na [[Colônia Juliano Moreira]] e no [[Manicômio Judiciário Heitor Carrilho]]. A denúncia foi acompanhada de uma greve por parte dos funcionários, que exigiam melhorias institucionais e questionavam irregularidades trabalhistas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É dessa crise que surge o [[Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM)]] que, nesse primeiro momento, estão mais preocupados com questões trabalhistas do que com o problema da própria prática psiquiátrica, que vai caracterizar parte dos movimentos antimanicomiais posteriormente. O MTSM se fortalece e consegue espaço no extremamente conservador [[V Congresso Brasileiro de Psiquiatria]], que ocorre em 1978, no que fica conhecido como “congresso da abertura”, num período também de abertura política com o iminente fim do regime militar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda em 1978, um grupo importante de intelectuais vinculados às bases teóricas do [[Movimento Antimanicomial]] participa do [[I Congresso Brasileiro de Psicanálise de Grupos e Instituições]], incluindo [[Franco Basaglia]], [[Felix Guattari]], [[Robert Castel]] e [[Erwin Goffman]], todos eles de grande inspiração e influência para o movimento antimanicomial brasileiro. No ano seguinte, o [[I Congresso Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental]] fortalece a contextação não apenas de problemas trabalhistas, mas do próprio modelo asilar e da forma como a psiquiatria intervinha e oprimia a população marginalizada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação público-privada que alimentava o modelo até então começa a ruir em 1980, com a chamada política da co-gestão interministerial. Nela, um convênio celebrado entre o Ministério da Previdência e Assistência Social com o Ministério da Saúde liquida a &amp;quot;Unidade de Serviço&amp;quot;, a política que permitia a contratação privada de serviços psiquiátricos e que representou o triunfo do público sobre o privado. Membros do MTSM passam a integrar a gestão do atendimento em saúde mental que, por dentro do aparato estatal, começam a implementar uma política de saúde pública baseada em prestação de serviços, cooperação, descentralização e regionalização, propostas que já eram defendidas pelos reformadores. Apesar desses avanços, críticos afirmam que a política de co-gestão apenas visava reformar os serviços, não atingindo o âmago da questão, que seria desconstruir o próprio paradigma psiquiátrico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo de desinstitucionalização de fato começa em 1985, ano marcado pelo fim da Ditadura Militar e pela realização de vários eventos que aprofundam o debate sobre a situação do atendimento. A [[I Conferência Nacional de Saúde Mental]] marca o início da desinstitucionalização devido aos conflitos entre o MTSM, a ABP e grupos não-organicistas que passaram a dirigir o DINSAM. Na conferência, consagrou-se uma reviravolta na perspectiva com a consolidação do lema &amp;quot;por uma sociedade sem manicômios&amp;quot;, rompendo com a lógica tanto privatista quanto estatista e questionando o próprio modelo psiquiátrico tradicional. Este passou a ser amplamente entendido como fenômeno cultural que promove o tratamento moral e o controle dos corpos, uma visão abertamente basagliana e antimanicomial. Alguns entendem que, nesse momento, a tradição anti-institucional que originou os primeiros questionamentos na década de 1970 foi restaurada e fortalecida. Após a Conferência, o próprio MTSM se renovou, se desatrelando do Estado, retomando sua independência e seu papel de transformação social.  A mudança do movimento se consolidou no [[II Congresso Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental]], quando a noção de racionalização e modernização dos serviços que havia caracterizado o período da co-gestão foi recusado em nome de uma pauta anti-institucional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em meados dos anos 1980 começam a surgir novos modelos de atenção à saúde que poderia substituir o modelo psiquiátrico. Em São Paulo é criado o primeiro [[Centro de Atenção Psicossocial (CAPS)]], em 1987. Em Santos, surge o [[Núcleo de Atenção Psicossocial (NAPS)]], em 1989. Estes serviços passaram a ser vistos como os modelos para uma contestação profunda dos manicômios, justificando seu encerramento. Já na década de 1990, o SUS introduziu mecanismos de fiscalização e auditoria que começaram a sufocar financeiramente os asilos privados que não cumpriam níveis mínimos de dignidade. Portarias históricas do Ministério da Saúde, inspiradas na [[Declaração de Caracas (1990)]], passaram a proibir a criação de novos leitos psiquiátricos asilares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após mais de uma década de tramitação e intensos debates no Congresso Nacional, como fruto dos embates históricos iniciados na crise do DINSAM e que atravessaram debates públicos extremamente imporantes, foi promulgada a Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001, que ficou conhecida como [[Lei da Reforma Psiquiátrica]] ou Lei Paulo Delgado, seu autor. Esta legislação se tornou o marco jurídico definitivo da virada assistencial no Brasil. A lei instituiu o direito do paciente de ser tratado em ambiente terapêutico o menos restritivo possível e colocou a internação psiquiátrica como último recurso possível. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para preencher o vazio deixado pelo fechamento dos grandes hospitais, o SUS estruturou a [[Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)]], formalizada na década seguinte pela Portaria nº 3.088 de 2011. A RAPS organizou o cuidado em diferentes níveis de complexidade, com os CAPS divididos nas modalidades CAPS I, II, III, CAPSi  e CAPS AD e, por fim, os [[Serviços de Residência Terapêutica (SRT)]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, a luta continua devido a retrocessos observados na segunda metade da década de 2010 e início dos anos 2020. Mudanças nas diretrizes da Política Nacional de Saúde Mental tentaram reintroduzir a centralidade do hospital psiquiátrico e incentivaram o uso de práticas baseadas no isolamento. Além disso, o governo federal passou a financiar massivamente as chamadas [[Comunidades Terapêuticas]], instituições de caráter predominantemente privado e religioso voltadas ao acolhimento de usuários de drogas, de onde emanam graves denúncias de todos os tipos de violação dos direitos humanos e que representam um evidente retrocesso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje, o campo da saúde mental no Brasil vive um embate profundo entre duas visões. De um lado, aqueles que lutam pela consolidação da RAPS, em defesa da clínica da subjetividade, da defesa dos direitos humanos, pela redução de danos e pela inserção social pelo trabalho e pela cultura. Do outro lado observa-se a persistência do &#039;&#039;lobby&#039;&#039; asilar e de setores que buscam a mercantilização do cuidado, por meio do encarceramento, da medicalização extrema do sofrimento psíquico, da higienização dos centros urbanos e do recolhimento dos indesejáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
AMARANTE, Paulo. &#039;&#039;&#039;Loucos pela vida&#039;&#039;&#039;: a trajetória da reforma psiquiátrica no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 1995.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ARBEX, Daniela. &#039;&#039;&#039;Holocausto brasileiro&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Geração Editorial, 2013.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BASAGLIA, Franco. &#039;&#039;&#039;A instituição negada&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Graal, 1985.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BIRMAN, Joel. &#039;&#039;&#039;A physis da arte&#039;&#039;&#039;: Deleuze e a clínica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CAMPOS, Gastão Wagner de Sousa. &#039;&#039;&#039;Tratado de saúde coletiva&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Hucitec, 2006. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CASTEL, Robert. &#039;&#039;&#039;A ordem psiquiátrica&#039;&#039;&#039;: a idade de ouro do alienismo. Rio de Janeiro: Graal, 1978.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
COSTA, Jurandir Freire. &#039;&#039;&#039;Violência e psicanálise&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Graal, 1986.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
COSTA, Jurandir Freire. &#039;&#039;&#039;História da assistência psiquiátrica no Brasil&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Garamond, 2007. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
DALGALARRONDO, Paulo. &#039;&#039;&#039;Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais&#039;&#039;&#039;. Porto Alegre: Artmed, 2018. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ENGEL, Magali. &#039;&#039;&#039;Os delírios da razão&#039;&#039;&#039;: médicos, loucos e hospícios (Rio de Janeiro, 1830-1930). Rio de Janeiro: Fiocruz, 2001&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
FOUCAULT, Michel. &#039;&#039;&#039;História da loucura na Idade Clássica&#039;&#039;&#039; (Trad, de José Teixeira Coelho Netto). São Paulo: Perspectiva, 2014.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
MELLO, Luiz Carlos. &#039;&#039;&#039;Nise da Silveira&#039;&#039;&#039;: caminhos de uma psiquiatra rebelde. Rio de Janeiro: Azougue Editorial, 2014.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
PEREIRA, Ana Leonor; PITA, João Rui. &#039;&#039;&#039;A institucionalização da loucura em portugal&#039;&#039;&#039;. Coimbra: Estudo Geral, 1994.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
PESSOTTI, Isaias. &#039;&#039;&#039;A loucura e as épocas&#039;&#039;&#039;. Rio de Janeiro: Editora 34, 1994.&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
SANTOS, Marcus Vinícius do Amaral Gama. História whig e história da psicologia. Em: ____. &#039;&#039;&#039;História whig, história da psicologia e história da psiquiatria&#039;&#039;&#039;: investigando a revolução behaviorista e a reforma psiquiátrica brasileira. Rio de Janeiro, 2023. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Instituto de Psicologia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2023, p.94-133.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
SILVA, Priscila Aquino. O Hospital Real de Todos-os-Santos e seus agentes da cura. &#039;&#039;&#039;História, Ciências, Saúde-Manguinhos&#039;&#039;&#039;, Rio de Janeiro, v. 22, n. 4, 2015.&lt;br /&gt;
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TENÓRIO, Fernando. A Reforma Psiquiátrica Brasileira da década de 1980 aos dias Atuais: história e conceitos. &#039;&#039;&#039;História, Ciências, Saúde-Manguinhos&#039;&#039;&#039;, v. 9, n. 1, 2002.&lt;br /&gt;
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VENANCIO, Ana Teresa A.; CARVALHAL, Lázaro. Juliano Moreira: a ciência da assistência e a assistência da ciência. &#039;&#039;&#039;Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental&#039;&#039;&#039;, 2001.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
YASUI, Silvio. &#039;&#039;&#039;Rupturas e encontros&#039;&#039;&#039;: desafios da Reforma Psiquiátrica Brasileira. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2010.&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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		<title>Bárbara Freitag</title>
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		<updated>2026-07-02T20:15:17Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: Criou página com &amp;#039;Bárbara Freitag (Obernzell, Baviera, Alemanha, 26 de novembro de 1941) é uma socióloga, filósofa, psicóloga e professora universitária teuto-brasileira. Formada em Sociologia, Filosofia e Psicologia, destacou-se nas áreas de teoria crítica, sociologia da educação, psicologia do desenvolvimento e sociologia urbana. É reconhecida como uma das principais responsáveis pela difusão da Escola de Frankfurt no Brasil e por sua contribuição à articulação entre t...&amp;#039;&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Bárbara Freitag (Obernzell, Baviera, Alemanha, 26 de novembro de 1941) é uma socióloga, filósofa, psicóloga e professora universitária teuto-brasileira. Formada em Sociologia, Filosofia e Psicologia, destacou-se nas áreas de teoria crítica, sociologia da educação, psicologia do desenvolvimento e sociologia urbana. É reconhecida como uma das principais responsáveis pela difusão da Escola de Frankfurt no Brasil e por sua contribuição à articulação entre teoria social europeia e realidade latino-americana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Biografia ==&lt;br /&gt;
Bárbara Freitag nasceu em 26 de Novembro de 1941 e é uma socióloga e intelectual de origem alemã, cuja trajetória acadêmica e profissional se desenvolveu majoritariamente no Brasil. Natural do vilarejo de Obernzell, na Baviera, Alemanha, em meio ao contexto da Segunda Guerra Mundial, teve sua infância marcada pelos impactos do conflito, incluindo deslocamentos territoriais e a perda precoce de seu pai, Karl Freitag, falecido em 1943. Foi criada por sua mãe, Margot Freitag, contando também com a forte influência de sua avó em sua formação pessoal e intelectual.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, emigrou com a família para o Brasil, estabelecendo-se inicialmente em Itajubá, em Minas Gerais, e, posteriormente, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Nessa cidade, realizou sua formação escolar em instituições como o Colégio Farroupilha e o Colégio Júlio de Castilhos. Durante a juventude, destacou-se pelo desempenho acadêmico e iniciou atividades como professora de reforço escolar, experiência que contribuiu para o desenvolvimento de sua vocação docente e para o interesse pelas questões educacionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1961, retornou à Alemanha para dar continuidade à sua formação superior. Estudou na Universidade de Frankfurt, na Universidade Livre de Berlim e na Universidade Técnica de Berlim, onde se formou em Sociologia, Filosofia e Psicologia. Nesse período, teve contato direto com importantes representantes da Escola de Frankfurt, como Theodor Adorno e Max Horkheimer, cujas ideias exerceram influência significativa sobre sua trajetória intelectual. Concluiu o mestrado em Sociologia no ano de 1967, com pesquisa voltada ao desenvolvimento socioeconômico do Brasil, e obteve o doutorado com uma tese sobre política educacional brasileira. Sua formação foi marcada, ainda, pelo diálogo com intelectuais brasileiros, como Florestan Fernandes, e pela incorporação de referências da realidade social latino-americana em sua produção teórica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1972, passou a integrar o corpo docente da Universidade de Brasília (UnB), instituição na qual desenvolveu a maior parte de sua carreira. Ao longo de aproximadamente três décadas, atuou como professora e pesquisadora, consolidando-se como uma das principais referências da sociologia brasileira contemporânea. Sua trajetória acadêmica ocorreu durante o período da ditadura militar no Brasil, contexto em que enfrentou vigilância e resistência institucional em razão do caráter crítico de suas reflexões. Ainda assim, manteve atividade intelectual, promovendo debates, seminários e discussões, inclusive em espaços alternativos ao ambiente universitário formal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de sua atuação no Brasil, lecionou em universidades europeias, como as de Berlim, Frankfurt, Freiburg e Zurique, e participou de congressos internacionais, contribuindo para o intercâmbio acadêmico entre diferentes contextos culturais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No âmbito pessoal, foi casada com o diplomata e intelectual Sérgio Paulo Rouanet, com quem teve uma filha, Adriana Rouanet. Sua trajetória reflete uma constante articulação entre diferentes contextos culturais, especialmente entre Europa e Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Contribuições ==&lt;br /&gt;
Bárbara Freitag teve papel central na introdução e difusão da Teoria Crítica no Brasil, especialmente no que se refere à Escola de Frankfurt. Atuou como intérprete e mediadora das ideias de autores como Adorno, Horkheimer e, sobretudo, Jürgen Habermas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na área da educação, desenvolveu análises críticas sobre o sistema educacional brasileiro, destacando sua função ambivalente: ao mesmo tempo em que pode reproduzir desigualdades sociais, também pode atuar como instrumento de transformação. Defendeu a alfabetização como condição fundamental para o desenvolvimento do pensamento crítico e da cidadania.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No campo da psicologia, contribuiu para a compreensão da relação entre desenvolvimento cognitivo e contexto social, argumentando que as desigualdades cognitivas não são deterministas e podem ser transformadas por meio de intervenções educacionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na sociologia urbana, investigou os processos de urbanização, as desigualdades nas grandes cidades e a experiência social do espaço urbano, articulando diferentes campos do saber, como sociologia, literatura e psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, desempenhou papel relevante na difusão internacional de autores brasileiros, contribuindo para o intercâmbio intelectual entre Brasil e Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Instituto Freitag-Rouanet ===&lt;br /&gt;
Entre suas iniciativas no campo cultural e educacional, destaca-se a criação do Instituto Freitag-Rouanet. Fundado por Barbara Freitag e Sérgio Paulo Rouanet, o instituto foi constituído em 2020, com sede no Rio de Janeiro, e posteriormente passou a atuar na cidade de Tiradentes. O instituto foi concebido com o propósito de transformar a residência do casal em um espaço cultural aberto ao público, funcionando como biblioteca e centro de difusão do conhecimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
De caráter privado e sem fins lucrativos, o Instituto Freitag-Rouanet tem como missão promover a cultura, a educação e a inclusão social, incentivando o pensamento crítico e a formação cidadã. Suas atividades envolvem a realização de eventos, seminários, projetos culturais e ações educativas, além do apoio a artistas e pesquisadores. A iniciativa reflete o compromisso intelectual de Bárbara Freitag com a emancipação social por meio da educação e do acesso à cultura, articulando produção acadêmica, reflexão crítica e atuação pública.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Teoria ==&lt;br /&gt;
A obra de Bárbara Freitag insere-se no campo da Teoria Crítica, com forte influência da Escola de Frankfurt. Sua abordagem busca atualizar essa tradição, especialmente a partir do diálogo com Jürgen Habermas, enfatizando a importância da comunicação, da ética discursiva e do diálogo racional na construção da sociedade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na educação, sustenta que a escola é um espaço de tensão entre reprodução e transformação social. Defende que a alfabetização e o acesso ao conhecimento são fundamentais para a emancipação dos indivíduos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No campo da psicologia, influenciada por Jean Piaget, desenvolve uma perspectiva que relaciona o desenvolvimento cognitivo às condições sociais e materiais, sem reduzi-lo a um determinismo estrutural.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua teoria também dialoga com o marxismo, mantendo o compromisso com a crítica das desigualdades sociais, mas rejeitando interpretações economicistas rígidas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Influências ==&lt;br /&gt;
Entre as principais influências de Bárbara Freitag destacam-se os autores da Escola de Frankfurt, como Theodor Adorno, Max Horkheimer e Walter Benjamin, além de Jürgen Habermas. A autora também se destacou como uma importante intérprete e difusora do pensamento habermasiano no Brasil. Em sua leitura da tradição frankfurtiana, Freitag enfatiza o papel da comunicação e do diálogo como possibilidades de transformação social, aspecto que pode ser compreendido como uma releitura que relativiza o pessimismo presente em parte dos autores clássicos da escola.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua produção teórica também dialoga com o pensamento de Karl Marx, especialmente na análise das desigualdades sociais e das determinações históricas que atravessam a vida social, embora essa aproximação ocorra de forma crítica e não estritamente ortodoxa. No campo da psicologia do desenvolvimento, estabelece um diálogo crítico com Jean Piaget: reconhece a relevância da epistemologia genética e da ideia de que o conhecimento é construído ativamente pelo sujeito, mas questiona o caráter universalista da teoria piagetiana, argumentando que o desenvolvimento cognitivo não pode ser compreendido sem considerar as condições sociais e históricas que o influenciam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No contexto brasileiro, Bárbara Freitag dialogou com intelectuais como Florestan Fernandes, Gilberto Freyre e Celso Furtado, incorporando elementos da realidade social brasileira em suas reflexões. Sua trajetória intelectual caracteriza-se pela articulação entre diferentes tradições do conhecimento, integrando sociologia, filosofia, psicologia e educação em uma perspectiva interdisciplinar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Cronologia biográfica ==&lt;br /&gt;
1941: Nascimento em Obernzell, Alemanha&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1943: Falecimento do pai&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1948: Migração para o Brasil&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Década de 1950: Formação escolar no Brasil&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1961: Retorno à Alemanha&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1967: Conclusão do mestrado&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1972: Doutorado na Universidade Técnica de Berlim&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1972: Ingressou como professora na Universidade de Brasília&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1983: Pós-doutorado na Universidade Livre de Berlim&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2006: Premiada com o título de Professora Emérita da UnB&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2020: Fundação do Instituto Freitag-Rouanet &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Obras e fundações ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Teorias da Cidade (2006) ===&lt;br /&gt;
No livro, Barbara Freitag entende a cidade como um ambiente de disputa socioeconômica e que precisa ser analisada como uma construção histórica, cultural e social. Ela apresenta uma revisão ampla das ideias de diversas escolas do pensamento urbano buscando a compreensão de como as diferentes correntes explicaram os surgimentos, organizações e transformações das cidades modernas. Para além, demonstra que a urbanização causou, simultaneamente, desigualdade e progresso e percebe, através da análise das metrópoles latino-americanas, que os desafios enfrentados são consequências estruturais do modelo capitalista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Escola, Estado e Sociedade (1978) ===&lt;br /&gt;
Freitag analisa de forma crítica a correlação entre educação, Estado e estrutura social. A autora demonstra a não neutralidade da escola no modelo capitalista e procura, dialogando com ideais marxistas e sociológicos, entender como a reprodução da desigualdade social e a manutenção das relações de poder estão intimamente interligadas a essa estrutura. Contudo, a obra também afirma que a educação pode ser transformadora se baseada em práticas críticas e libertadoras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Teoria Crítica: Ontem e Hoje (1986) ===&lt;br /&gt;
A obra é uma das principais introduções em português da Escola de Frankfurt e do desenvolvimento da Teoria Crítica. Nela a autora discute a forma como os meios de comunicação podem alienar e manipular os indivíduos, também reafirma a diferença entre a teoria tradicional e a Teoria Crítica, uma neutra e outra focada na transformação social. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Sociedade e Consciência (1984) ===&lt;br /&gt;
Sociedade e Consciência debate sobre alienação, ideologia, educação e reprodução social, além de discutir a ligação entre indivíduo, sociedade e formação da consciência social, afirmando que a mesma não é formada isoladamente, mas delimitada pelas relações sociais históricas. A partir das perspectivas da sociologia crítica e marxismo, analisa o papel das instituições na mudança ou perpetuação das desigualdades sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Livro Didático em Questão (1989) ===&lt;br /&gt;
A autora analisa o papel do livro didático na educação brasileira e como esses materiais moldam a formação do conhecimento. Mostra que o livro não é apenas um instrumento neutro, mas sim um transmissor de valores sociais, culturais e ideológicos, examinando conteúdos, linguagem e métodos demonstrando como são responsáveis por reforçar desigualdades sociais. Além disso, também propõe reflexões sobre as práticas pedagógicas e a necessidade do aumento de ações participativas e democráticas, valorizando o papel dos professores e da escola para formar sujeitos críticos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Dialogando com Jürgen Habermas (2005) ===&lt;br /&gt;
Barbara Freitag analisa o pensamento habermasiano e suas contribuições para a Teoria Crítica, debatendo sobre conceitos centrais como democracia, razão comunicativa e esfera pública. Analisa as relações existentes entre linguagem, sociedade e poder e destaca o papel da comunicação na crítica aos tipos de dominação. Além disso, enfatiza a tentativa de Habermas de superar o pessimismo da primeira geração da Escola de Frankfurt ao defender que o diálogo racional pode criar meios para a emancipação social.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Outras produções ===&lt;br /&gt;
(1988). Diário de uma alfabetizadora &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1992). Itinerários de Antígona: a questão da moralidade  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1993). Marx morreu: viva Marx! &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2000). Piaget: sugestões aos educadores &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2001). O indivíduo em formação: diálogo interdisciplinares sobre a educação&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2002). Cidade dos Homens &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2004). Sheela-na-gigs &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2004). Itinerâncias urbanas &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2009). Capitais migrantes e poderes peregrinos: o caso do Rio de Janeiro &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2019). Peregrinação e aprendizado: minhas cidades formadoras  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Prêmios e reconhecimentos ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== 2002 ===&lt;br /&gt;
Participação em projetos da UNESCO, incluindo a cadeira “Cidade e Meio Ambiente” (Cátedra).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== 2006 ===&lt;br /&gt;
Professora Emérita da Universidade de Brasília (UnB). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Membro da Academia Brasileira de Filosofia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Referências&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ACADEMIA BRASILEIRA DE FILOSOFIA. Bárbara Freitag Rouanet. [s.d.]. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://www.academia-de-filosofia.org.br/barbara-rouanet&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 20 abr. 2026. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ARANTES, Silvana. Casal Freitag-Rouanet fundará em Tiradentes o Instituto Rouanet. Estado de Minas, Belo Horizonte, 23 nov. 2021. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://www.em.com.br/app/noticia/cultura/2021/11/23/interna_cultura,1324941/casal-freitag-rouanet-fundara-em-tiradentes-o-instituto-rouanet.shtml&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 20 abr. 2026. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ARENDT, Ronald João Jacques. Da psicogênese à sociogênese: por uma interação radical no modelo dialético de Jean Piaget. Arquivos Brasileiros de Psicologia, Rio de Janeiro, v. 35, n. 4, p. 36-46, out./dez. 1983. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://repositorio.fgv.br/server/api/core/bitstreams/cf10e6a7-8aad-47b7-b419-5ed13890d8ed/content&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 26 abr. 2026.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Barbara Freitag Rouanet. Escavador. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://www.escavador.com/sobre/453628/barbara-freitag-rouanet&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 26 abr. 2026.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Barbara Freitag. Wikipedia, 2022. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://pt.wikipedia.org/wiki/Barbara_Freitag&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 21 abr. 2026.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BECKER, Fernando. PIAGET: A profissão empirista de Bárbara Freitag. Educação &amp;amp; Realidade, Porto Alegre, v. 13, n. 1, p. 67-87, jan./jun. 1988. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/278840/000009733.pdf?sequence=1&amp;amp;isAllowed=y&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 25 abr. 2026.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BECKER, Fernando. Uma socióloga lê Piaget: as confusões conceituais de Bárbara Freitag. Educação e Realidade, Porto Alegre, v. 12, n. 1, p. 39-50, jan./jun. 1987. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/257898/000064978.pdf?sequence=1&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 23 abr. 2026.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BICUDO, Maria Aparecida Viggiani. Piaget e a Filosofia. Reflexão, Campinas, v. 5, n. 17, p. 115-122, mai./ago. 1980. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://scispace.com/pdf/piaget-e-a-filosofia-5cksrf7ums.pdf&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 24 abr. 2026.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CABRAL, Tânia Batista. Sociedade e Consciência. Um estudo piagetiano na favela e na escola. [Resenha de: FREITAG, Bárbara. Sociedade e Consciência. Um estudo piagetiano na favela e na escola.] Bolema: Boletim de Educação Matemática, Rio Claro, v. 2, n. 3, p. 74-81, 1987. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://www.periodicos.rc.biblioteca.unesp.br/index.php/bolema/article/download/10738/7121/57037&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 23 abr. 2026. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
COELHO, Maria Francisca Pinheiro. Barbara Freitag-Rouanet. Sociedade Brasileira de Sociologia. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://sbsociologia.com.br/project/barbara-freitag-rouanet/&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 22 abr. 2026.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
COELHO, Maria Francisca Pinheiro. Perfil de Barbara Freitag. Sociedade e Estado, Brasília,  v.20, n.3, p.735-738, set./dez 2005&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
FREITAG, Barbara. Barbara Freitag-Rouanet. Academia Brasileira de Filosofia, 14 mar. 2025. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://www.youtube.com/watch?v=csHql1cOxgE&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 26 abr. 2026.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
FREITAG, Bárbara; ROUANET, Sérgio Paulo. Barbara Freitag e Sérgio Paulo Rouanet: entre-vista mútua. Cronos, Natal- RN, v.7, n.2, , p.415-420, jul./dez. 2006&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
IGARCIA. Barbara Freitag, itinerário de uma carreira acadêmica. Observatório da imprensa, 2002. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://www.observatoriodaimprensa.com.br/primeiras-edicoes/barbara-freitag-itinerrio-de-uma-carreira-acadmica/&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 27 abr. 2026&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
INSTITUTO ROUANET. O Instituto. Instituto Rouanet [s.d]. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://institutorouanet.org/o-instituto/&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 29 abr. 2026.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
LEAL, Sayonara. Barbara Freitag: as margens da vida e obra. Sociedade e Estado, Brasília, v. 20, n. 3, p. 725-734, set./dez. 2005. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://www.scielo.br/j/se/a/zGYBcw9VzTzfXDvqjyMKd8b/&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 30 abr. 2026.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
LinkedIn de Bárbara Freitag. LinkedIn, 2026. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://br.linkedin.com/in/barbara-freitag-a140bb132&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 28 abr. 2026&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
MARGINALIA. Barbara Freitag: perfil oficial da autora. [s.d.]. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://marginalia.social.br/barbara-freitag&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 22 abr. 2026.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Instituto de Estudos Avançados. Bárbara Freitag. 2016. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://www.iea.usp.br/pessoas/pasta-pessoab/barbara-freitag-rouanet&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 25 abr. 2026. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Verbete criado por Ágatha Brum, Ana Carolina Silva, Camila Laurett, Evelyn Pessanha e Kyanne Vilella, como exigência parcial para a disciplina de História da Psicologia da UFF de Rio das Ostras. Criado em 2026.1, publicado em julho de 2026.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Categoria:Personagens]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
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		<title>Waclaw Radecki</title>
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		<updated>2026-07-02T19:53:29Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: Criou página com &amp;#039;Waclaw Radecki nasceu em 27 de outubro de 1887, na cidade polonesa de Varsóvia. Foi um psicólogo que imigrou para o Brasil em 1923, onde se tornou um dos pioneiros do processo de profissionalização da psicologia no país. Ao longo de sua carreira, lutou pela disseminação do conhecimento psicológico teórico e prático, por meio de cursos que redigia, publicações científicas e a criação do Instituto de Psicologia da Colônia de Psicopatas do Engenho de Dentro,...&amp;#039;&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Waclaw Radecki nasceu em 27 de outubro de 1887, na cidade polonesa de Varsóvia. Foi um psicólogo que imigrou para o Brasil em 1923, onde se tornou um dos pioneiros do processo de profissionalização da psicologia no país. Ao longo de sua carreira, lutou pela disseminação do conhecimento psicológico teórico e prático, por meio de cursos que redigia, publicações científicas e a criação do Instituto de Psicologia da Colônia de Psicopatas do Engenho de Dentro, que foi eventualmente incorporado à atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Por conta de tensões com o meio intelectual carioca, deixou o Brasil em 1933 e emigrou para o Uruguai. Deste ano até sua morte, em 1953, continuou suas atividades científicas entre Montevidéu, Uruguai, e Buenos Aires, Argentina. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Biografia ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Primeiros anos e início da carreira ===&lt;br /&gt;
Nascido em 27 de outubro de 1887, em Varsóvia, Polônia, Waclaw Radecki era filho de José Wenceslao Radecki, um estudante de medicina, e Alejandra Edwiges Siekierz, aluna do Conservatório de Varsóvia. Sendo o pai falecido vítima de tuberculose antes de seu nascimento, foi criado sob os cuidados da mãe que, desde cedo, o educou sob a influência de um ideário político e patriótico em conformidade com a visão do Partido Socialista Polonês (polska partia socjalistyczna, PPS). Radecki foi um jovem engajado e participativo na vida política de seu país. Devido aos conflitos políticos da Polônia de sua época, foi ferido e contraiu tuberculose, o que o levou a viajar para a França à procura de cura para a doença que o acometia. Ao voltar ao seu país, foi expulso de sua escola, acusado de conspiração política, o que o levou a se inscrever como ouvinte na Universidade Jaguelônica de Cracóvia. Lá, aos 18 anos de idade, ele iniciou seus estudos de psicologia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para escapar da polícia czarista, fugiu para a Itália em 1907, onde se inscreveu como ouvinte e, em seguida, como estudante da Faculdade de Ciências Naturais. Porém, em 1908 viaja para Genebra, e no território suíço iniciou seus estudos com Édouard Claparède. Dois anos depois, em 1910, após se matricular na Faculdade de Ciências Naturais e Medicina de Genebra, foi nomeado assistente do Laboratório de Psicologia do próprio Claparède. Graças à sua filiação com sociedades políticas polonesas, Radecki foi mandado para diversas regiões da Europa e teve a oportunidade de conhecer vários laboratórios de psicologia, como o de Kraepelin, Kulpe, Toulouse e outros. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1911, publicou sua primeira tese sobre &amp;quot;Os fenômenos psicoelétricos&amp;quot; havendo sido nomeado docente livre da Universidade de Genebra. No ano seguinte,1912, retornou para a Polônia, para o Congresso de Psicologia, Psiquiatria e Neurologia, que ocorreu na cidade de Cracóvia, com o objetivo de lá apresentar sua tese. Após isto, se estabelece na cidade e organiza um Laboratório de Psicologia na Universidade de Cracóvia, onde produziu dois trabalhos: “Psicologia dos sentimentos e da emoção” e “Elementos psicológicos em psicanálise”; redigiu ainda duas publicações: “Psicologia da associação das representações” e “Psicologia da vontade”. Contudo, em 1914, com o início da Primeira Guerra Mundial, Radecki decidiu se dedicar a atividades militares e patrióticas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir de 1919, voltou a fazer publicações envolvendo psicologia, como “Psicologia do pensamento” e “Psicologia do exército”. Em 1923 decide imigrar para o Brasil , junto de sua esposa, Halina Radecka. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A chegada no Brasil ===&lt;br /&gt;
Radecki se fixou na cidade de Curitiba, Paraná, em 1923. Logo começou a realizar conferências em vários estados do país, como o próprio Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro. Em suas palestras em São Paulo (&amp;quot;Objetos e métodos da psicologia contemporânea&amp;quot; e &amp;quot;Métodos psicanalíticos em psicologia e vida afetiva”), revelou seus planos de criar um curso de psicologia teórica e aplicada e um laboratório de psicologia experimental, além de fazer demonstrações experimentais com o galvanômetro. Pouco depois, em julho de 1923, visitou o Rio de Janeiro e estabeleceu contato com Manoel Bomfim, após ter desenvolvido interesse em seu livro “Noções de Psychologia”. Manoel Bomfim lhe forneceu as informações que resultaram em sua ida para Engenho de Dentro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1924, Radecki foi contratado como chefe de análises clínicas, por Gustavo Riedel, o então diretor da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro. Lá, fundou ele próprio o Laboratório de Psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro ===&lt;br /&gt;
Financiado pela Fundação Gaffré-Guinle, o laboratório tinha um acervo significativo de aparelhagem clássica. O instrumental servia para os mais diversos estudos experimentais – por exemplo sensações musculares, sensações estáticas e cinestéticas, reflexos, atenção, associação, discriminação, memória, pensamento, processos afetivos e sugestão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Radecki e sua esposa, Halina Radecka, se mudaram para uma casa dentro da colônia, que lhes foi confiada. Quando as atividades do laboratório foram iniciadas, em 1924, os dois eram os únicos participantes. Radecki atuava como técnico e chefe do laboratório, possuindo sua esposa como sua secretária e primeira assistente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Promoveu cursos de psicologia dentro do laboratório, na Liga Brasileira de Higiene Mental (LBHM) e na Escola de Enfermeiras Alfredo Pinto (EEAP/UNIRIO). A partir de 1925, atraiu novos colaboradores, como o médico Nilton Campos; o psiquiatra da colônia Gustavo de Rezende; e a professora municipal indicada pela Secretaria da Educação, Lucilia Tavares. Todos eles produziram trabalhos com Radecki.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Radecki teve apoio do exército, por meio da Diretoria da Aviação (antecessora do Ministério da Aeronáutica), para o desenvolvimento de pesquisas psicológicas com interesses para a seleção de aviadores. Três médicos militares foram designados a permanecerem no laboratório, sendo um deles Ubirajara da Rocha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1927, Radecki chefiou uma comissão de médicos brasileiros, sendo um deles Nilton Campos, para fazerem uma viagem à Europa, visitando os Institutos e Laboratórios de Psicologia das Universidades de Paris, Bruxelas, Louvain, Colônia, Bonn, Berlim, Varsóvia, Cracóvia, Viena, Munich e Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após voltar de viagem, Radecki promoveu um curso na Faculdade de Direito de Curitiba e uma conferência no Congresso de Higiene em Belo Horizonte. Continuou recebendo novos colaboradores, sendo um deles Jaime Grabois, um jovem interno da clínica psiquiátrica da Faculdade de Medicina da Bahia, como o último.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Radecki amadureceu ao longo dos anos sua concepção teórica de psicologia e sistema psicológico: o “Discriminacionismo Afetivo”. Ele concluiu a teoria entre 1928 e 1929, durante um curso de psicologia ministrado na Escola de Aplicação do Serviço de Saúde do Exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda em 1928 e 1929, publicou os “Trabalhos de Psychologia” (vol. I e II), registrando as produções do laboratório. Esses “Trabalhos” eram separatas dos “Annaes da Colônia de Psychopathas”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1930, Radecki começou a planejar a transformação do laboratório em um Instituto de Psicologia. Ele aproveitou o movimento para a reforma do ensino superior brasileiro da época e convidou várias autoridades do Distrito Federal para visitarem o laboratório. No mesmo ano, Radecki recebe também Claparède, seu antigo mentor, e Kohler. A partir de 1931, as publicações do laboratório se concentram em apelar ao grande público e autoridades. Com o título comum de “À margem da Psicologia”, artigos publicados no Diário do Comércio enfatizam as relações da psicologia com outros ramos do conhecimento. Em março de 1932, o Decreto Lei nº 21.173 criou o Instituto de Psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Instituto de Psicologia da Colônia de Psicologia de Engenho de Dentro ===&lt;br /&gt;
Com a abertura de um instituto, Radecki viu a possibilidade do desenvolvimento de planos mais ambiciosos. Ele e seus colaboradores tinham a finalidade de criar, dentro do Instituto de Psicologia, um núcleo de pesquisas científicas de psicologia geral, individual, coletiva e aplicada; um centro de aplicação e uma escola superior de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Estando a direção a cargo de Radecki, seus colaboradores se tornariam seus docentes e se formariam como especialistas em diferentes áreas específicas. Teriam um curso profissional muito semelhante com faculdades atuais de psicologia, com um ano letivo que começaria em 1933.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Logo após a abertura, o Instituto distribuiu cartazes pelo Distrito Federal, para anunciar a abertura de inscrições para um curso de psicologia geral, que começaria já em maio do mesmo ano. Ainda em 1932, Radecki solicitou uma sessão especial para a psicologia brasileira e lugar no Congresso Internacional de Psicologia, em Copenhague. Radecki produziu três trabalhos (“O discriminacionismo afetivo”, “A continuidade da vida intelectual” e “Criteriologia para apreciação da idade mental”), junto com mais outros quatro trabalhos feitos por seus colaboradores, com o intuito de enviá-los para Copenhague. O Instituto, porém, não conseguiu reunir verba para a viagem.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um pouco depois que Radecki concluiu sua monografia, “A colocação da psicologia no sistema das ciências”, sete meses desde a criação do Instituto, o Decreto Lei nº 21.999 foi lançado. De acordo com o Decreto, o Instituto estava extinto e seu material deveria ser incorporado ao Serviço de Assistência a Psicopatas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na interpretação de Jaime Grabois, um dos colaboladores de Radecki, o Instituto foi criado na expectativa de que se tornasse autofinanciável e sua dotação orçamentária só teria durado sete meses. Contudo, ele também não descartou as possibilidades de setores influentes de psiquiatria e grupos católicos terem influenciado o fechamento do Instituto, levando em consideração o quão impopular Radecki era dentro do círculo da intelectualidade carioca.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a saída de Radecki daquela instituição e do Brasil, rumo ao Uruguai, o Instituto foi reaberto. Por volta do início dos anos de 1930, foi incorporado à Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Atuação no Uruguai e na Argentina ===&lt;br /&gt;
Waclaw Radecki e Halina Radecka se mudaram para Montevidéu, Uruguai. Em 1933, com a contratação de Radecki pela Universidad de la República, criou um curso de psicologia geral na Universidade de Montevidéu. No mesmo ano, passou a lecionar psicologia na Faculdade de Medicina local. Ainda em 1933, teve seu “Tratado de Psicologia” traduzido para o espanhol por Camilo Payssé e Victor Delfino.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
De 1933 a 1939, Radecki atuou tanto no Uruguai, quanto na Argentina. Payssé e Delfino se destacaram entre seus primeiros novos discípulos, com o primeiro publicando um livro de psicopatologia junto de Radecki.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1936, Radecki fundou o Centro de Estudos Psicológicos de Buenos Aires, depois renomeado “Instituto de Psicologia de Buenos Aires”. Em 1937, publicou, com René Arditi Rocha, um “Manual de Psiquiatria”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Posteriormente em 1944, fundou o Centro de Estudos Psicológicos de Montevidéu, que funcionou em cooperação com o Centro de Buenos Aires e ambos passaram a publicar um boletim semestral denominado “Hoja de Psicologia”. Três ano depois, em 1947, fundou a Escola Profissional de Psicologia no Uruguai, que, em 1951, se tornaria a Faculdade Livre de Psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1950, organizou o “I Congresso Latino-Americano de Psicologia” em Montevidéu e, em 1951, recebeu do governo uruguaio a missão oficial frente ao Congresso Mundial de&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Psicologia, em Estocolmo. Teve a tarefa de trazer de volta ao Uruguai as bases do conhecimento de psicologia da Europa. Quando voltou, em fins de 1951, começou os preparativos para a realização do II Congresso Latino-Americano de Psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O fim da vida ===&lt;br /&gt;
Dois anos depois de sua viagem de volta ao Uruguai, em 25 de março de 1953, Radecki falece.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Contribuições ==&lt;br /&gt;
A influência de Radecki na psicologia brasileira consolidou-se por três vertentes principais. A primeira foi a institucional, já que seu laboratório foi incorporado, em 1937, à Universidade do Brasil (atual Universidade Federal do Rio de Janeiro), permitindo que seus antigos assistentes continuassem formando novas gerações de psicólogos. A segunda corresponde ao pioneirismo historiográfico: a partir da década de 1980, estudos liderados por Rogério Centofanti resgataram sua trajetória, apresentando-o como um “pioneiro” da identidade científica da psicologia brasileira. Por fim, sua influência também alcançou a psicologia social, área em que sua esposa, Halina Radecka, destacou-se com a publicação da obra “Psicologia Social”, em 1960. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Embora seu sistema teórico tenha caído em relativo esquecimento, Waclaw Radecki permanece lembrado por sua contribuição decisiva para a profissionalização da psicologia e para a consolidação do rigor experimental da disciplina no Brasil. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Teoria ==&lt;br /&gt;
O Discriminacionismo Afetivo é o sistema psicológico criado por Waclaw Radecki para o estudo da psicologia individual e do caráter. O nome da teoria origina-se do reconhecimento da discriminação e da sensibilidade afetiva como os processos fundamentais da mente, pois são as funções que estabelecem o maior número de relações fixas (correlações) com as demais atividades psíquicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dentro da vida intelectual, a discriminação desempenha um papel central ao atuar como o mecanismo imediato da consciência. Ela é responsável por transformar estímulos brutos (sensações e impressões), considerados materiais pré-psíquicos, em unidades psíquicas organizadas e conteúdos intelectuais. Esse processo delimita o que está no foco da atenção e o que permanece na periferia (franja) da consciência. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A discriminação opera em conjunto com outras funções elaboradoras primárias: apercepção, o ato motor de focar em algo; abstração, o filtro de seleção de informações e recognição, a percepção de que o estado vivido é familiar. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Somente após essa organização inicial realizada pela discriminação é que as funções secundárias, como a memória, o juízo e o raciocínio, podem entrar em operação. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A sensibilidade afetiva é a outra viga mestra do sistema e é definida como um &amp;quot;adjetivo da discriminação&amp;quot;. Radecki defendia que não existe atividade intelectual pura, pois todo conteúdo lógico é acompanhado por um componente de sentimento. Diferente dos pensamentos, a consciência afetiva não possui a divisão entre foco e franja, o que torna impossível defini-la ou representá-la conceitualmente da mesma forma que os processos lógicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O sistema visava fundamentar uma caracterologia, permitindo ao psicólogo hierarquizar funções para analisar o caráter de forma não arbitrária. Radecki buscou expandir o discriminacionismo para uma proposta de psicologia unificada, de base biológica e dinâmica, criticando as visões parciais de doutrinas como o behaviorismo e a psicanálise. Apesar de sua complexidade, a teoria enfrentou resistências institucionais, foi associada ao materialismo e acabou não se consolidando como um sistema universalmente aceito. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Influências ==&lt;br /&gt;
Na Universidade de Genebra, Radecki teve contato direto com os estudos de Édouard Claparède, considerado uma de suas principais referências. Dessa aproximação, herdou a defesa de uma psicologia fundamentada na observação científica e na adaptação do indivíduo ao meio. Durante sua formação em Genebra, também teve acesso as ideias de Théodore Flournoy e com princípios da psicologia experimental desenvolvidos por Wilhelm Wundt. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Críticas ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Front da Psicologia Católica ===&lt;br /&gt;
Em 1932, o católico Alceu Amoroso Lima escreveu o artigo &amp;quot;O instituto Official de psychologia&amp;quot;, como uma crítica direta ao Instituto de Psicologia e Radecki, em si. Além de criticar inicialmente o caráter arbitrário da fundação do Instituto (como foi criado e extinto ditatorialmente), Alceu discorreu contra a infiltração da &amp;quot;filosofia nova&amp;quot; sendo introduzida na sociedade cristã, isto é, a filosofia não religiosa. Descrevendo o antigo Laboratório de Psicologia de forma favorável (que, na sua natureza científico-experimental, era útil para a psicologia como um todo), mas desdenhando a transformação subsequente em Instituto, Alceu mostra como muitos seguidores da psicologia católica da época desgostavam da ideia de uma &amp;quot;escola brasileira de psicologia&amp;quot; doutrinando o Estado Brasileiro com um viés de &amp;quot;materialismo filosófico moral&amp;quot; e &amp;quot;ciência positiva&amp;quot;. Ele não se limitou em criticar apenas Radecki, culpando também o governo, ao dizer: &amp;quot;eis aí como, sem bulha nem matinada, nas ante-salas das repartições públicas se tramou essa transformação doutrinária do Estado Brasileiro, que, de um momento para outro, se converte em Estado psicológico, em Estado filósofo, em Estado ético, combatendo determinada corrente da psicologia brasileira, a qual chama desdenhosamente de &amp;quot;idealista&amp;quot; e propugnando outra corrente, que é a do ...&amp;quot;discriminacionismo afetivo&amp;quot;...&amp;quot;. Para Alceu, Radecki e seu Instituto representavam uma ameaça para a boa sociedade cristã, com sua &amp;quot;orientação naturalista da psicologia&amp;quot;. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A teoria de Radecki ===&lt;br /&gt;
Apesar de todo seu esforço propagandista, Radecki não conseguiu popularizar seu sistema de discriminacionismo afetivo. Setores da Igreja Católica consideravam o sistema um sinônimo para &amp;quot;psicologia materialista&amp;quot;. Lourenço Filho reconhecia a importância de Radecki, mas dizia fazê-lo apesar da insistência do polonês de repetir os princípios do discriminacionismo afetivo, mesmo não julgando a &amp;quot;doutrina&amp;quot; como completamente sem méritos. Helena Antipoff, em cartas trocadas com Édouard Claparède, construiu uma imagem bem cínica sobre sua percepção de Radecki: “paranóico, certamente, porque nunca deixou de sublinhar as &#039;suas&#039; teorias, seu discernimento emocional é muito complicado, mas não vejo nenhuma originalidade: é uma salada de conceitos tirados de James, Wundt, Baldwin etc. Muito teórico também, porque nenhuma pesquisa experimental parecia direcionar suas conclusões&amp;quot;. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Mesmo autoritariamente obrigando seus colaboradores a inscreverem o discriminacionismo afetivo em seus trabalhos, não recebeu muito apoio à teoria. Nilton Campos nunca aderiu o sistema, ainda mais considerando o rompimento que ocorreu entre ele e o polonês. Jaime Grabois afirmou que não aceitava o sistema desde que ingressou no laboratório. O sistema permaneceu assim, até os dias de hoje, mal-usado e pouco entendido. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Cronologia biográfica ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* 1887: Nascimento de Waclaw Radecki no dia 27 de outubro, em Varsóvia, Polônia. &lt;br /&gt;
* 1907: Foge para a Itália, onde se inscreveu como ouvinte e estudante da Faculdade de Ciências Naturais. &lt;br /&gt;
* 1908: Viaja para Genebra, Suíça, e inicia seus estudos com Edouard Claparède e Théodore Flournoy. &lt;br /&gt;
* 1910: É nomeado assistente do Laboratório de Psicologia de Genebra. &lt;br /&gt;
* 1911: Obtém seu título de doutor com a tese “Os fenômenos psicoelétricos” e torna-se docente livre na Universidade de Genebra. &lt;br /&gt;
* 1912 - 1914: Radecki inicia a organização do Laboratório de Psicologia da Universidade de Cracóvia. &lt;br /&gt;
* 1919- 1920: Publica “Psicologia do Pensamento” (1919) e “Psicologia do Exército” (1920). &lt;br /&gt;
* 1920- 1923: Enfrenta um período de isolamento devido a acusações de abuso, o que teria motivado sua ida para a América do Sul. &lt;br /&gt;
* 1923: Muda-se para o Brasil, onde é nomeado professor da Faculdade de Ciências Jurídicas da Universidade do Paraná, Curitiba. &lt;br /&gt;
* 1924: Recebe um convite do Ministério do Interior e Saúde Pública para organizar e dirigir o Laboratório de Psicologia do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. &lt;br /&gt;
* 1928 - 1929: Conclui sua teoria “Discriminacionismo Afetivo” durante um curso de psicologia ministrado na Escola de Aplicação do Serviço de Saúde do Exército. &lt;br /&gt;
* 1932: O Instituto de Psicologia da Colônia de Psicologia do Engenho de Dentro é extinto, encerrando as atividades de Radecki no país. &lt;br /&gt;
* 1933: Recebe um convite para organizar o curso de Psicologia Geral na cidade de Montevidéu, Uruguai. &lt;br /&gt;
* 1936: Funda o Centro de Estudos Psicológicos de Buenos Aires na Argentina. &lt;br /&gt;
* 1944: Funda o Centro de Estudos Psicológicos de Montevidéu no Uruguai. &lt;br /&gt;
* 1947: Cria a Escola Profissional de Psicologia no Uruguai e inicia a publicação do boletim “Hoja de Psicologia”. &lt;br /&gt;
* 1950: Organiza o I Congresso Latino-Americano de Psicologia em Montevidéu, Uruguai. &lt;br /&gt;
* 1951: Participa do Congresso Mundial de Psicologia em Estocolmo. &lt;br /&gt;
* 1953: Waclaw Radecki falece em 25 de março, Montevidéu, Uruguai. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Quem influenciou ==&lt;br /&gt;
Waclaw Radecki foi uma importante figura para profissionalização e investigação científica da psicologia, influenciando diretamente agentes relevantes para o desenvolvimento da área psicológica no Brasil, Uruguai e Argentina. Temos Nilton Campos, Jaime Grabois e Halina Radecka como exemplos de pessoas que contribuíram, respectivamente, à fenomenologia; pesquisa e educação; e psicologia social. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Obras ==&lt;br /&gt;
RADECKI, Waclaw. Os fenômenos psicoelétricos, 1911. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RADECKI, Waclaw. Psicologia dos sentimentos e das emoções, 1912. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RADECKI, Waclaw. Elementos psicobiológicos na psicanálise, 1912. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RADECKI, Waclaw. Resumo do Curso de Psychologia, encadernado após 1929. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RADECKI, Waclaw. Trabalhos de Psychologia (vol. I e II), 1929. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RADECKI, Waclaw. A colocação da psicologia no sistema das ciências, 1932. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RADECKI, Waclaw. Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro, 1924 - 1932. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RADECKI, Waclaw. Instituto de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro, 1932. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
CENTOFANTI, Rogério. Radecki e a psicologia no Brasil. Psicologia: Ciência e Profissão, Brasília, v. 3, n. 1, p. 2-50, 1982. DOI: 10.1590/S1414-98931982000100001. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CENTOFANTI, Rogério. O discriminacionismo afetivo de Radecki. Memorandum: Memória e História em Psicologia, Belo Horizonte, v. 5, p. 94-104, 2003. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
FONSECA, Luiz E. P. Waclaw Radecki: propondo uma nova narrativa a um velho personagem. Revista de Psicología, Santiago, v. 27, n. 2, p. 103-114, 2018. DOI: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
10.5354/0719-0581.2018.52312. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
HOLANDA, Adriano Furtado. O método fenomenológico em psicologia: uma leitura de Nilton Campos. Estudos e Pesquisas em Psicologia, Rio de Janeiro, v. 12, n. 3, p. 833-851, 2012. DOI: 10.12957/epp.2012.8218. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
PERDOMO, Selma Barboza; MIGNOT, Ana Chrystina; SANTOS, Daise Silva dos. Do lado de cá do Atlântico: um discípulo polonês de Édouard Claparède. Educação, Santa Maria, v. 46, e48284, 2021. DOI: 10.5902/1984644448284. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por Anita de Ornellas dos Ramos, Ingrid Ferreira Rodeia Belleza, Luciana de Oliveira Frade de Cesar, Nicolly Rocha de Moura Paixão, Ricardo Silva Mello, Vanessa Dias Ribeiro, como exigência parcial para a disciplina História da Psicologia do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras em 2026.1 e publicado em julho de 2026 .&lt;br /&gt;
[[Categoria:Personagens]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Laura_Lacombe&amp;diff=1687</id>
		<title>Laura Lacombe</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Laura_Lacombe&amp;diff=1687"/>
		<updated>2026-07-02T19:35:54Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: Correção dos títulos de seção para cabeçalho&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Laura Jacobina Lacombe, nascida em 1897, no Rio de Janeiro, e falecida em 1990, foi uma estudiosa da educação, professora, educadora, diretora de escola, escritora, crítica literária e conferencista. Lacombe foi uma figura reconhecida por suas viagens e como uma grande intelectual da educação. Foi uma personagem de extrema importância para a divulgação dos ideais escolanovistas no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Biografia ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Primeiros anos ===&lt;br /&gt;
Laura Jacobina Lacombe nasceu no Rio de Janeiro, em 1897. Filha de Isabel Jacobina Lacombe e Domingos Lourenço Lacombe, era a mais velha de cinco irmãos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1911, formou-se como a primeira aluna do Colégio Jacobina, fundado por sua mãe. Dedicada aos estudos, passava a maior parte do tempo na instituição, onde iniciou sua trajetória como educadora. Pouco depois, passou a atuar como assistente de Heitor Lyra e Thomé Cavalcanti.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Enquanto suas irmãs se casavam, Laura permaneceu solteira e, por esse motivo, foi a escolhida para auxiliar a mãe na direção. Assim, em 1921, assumiu o cargo de vice-diretora do colégio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Início dos estudos ===&lt;br /&gt;
Diante da necessidade de planejar a sucessão na liderança da instituição, a família concluiu que Laura ainda não possuía o preparo necessário para assumir o cargo da mãe. Com o crescimento do colégio, Isabel cogitou trazer uma professora da Europa para substituí-la. No entanto, seu amigo Carneiro Leão, diretor da Instrução Pública, sugeriu uma alternativa: em vez de recrutar uma profissional estrangeira, a instituição deveria enviar a própria Laura para se capacitar na Europa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira viagem de Laura aconteceu em 1924, rumo à Suíça, para estudar no Instituto Jean-Jacques Rousseau, em Genebra. Na instituição, foi aluna de Édouard Claparède, Pierre Bovet e do influente Jean Piaget. O instituto era, na época, o principal centro de produção e difusão da Escola Nova, vertente que reunia as mais modernas metodologias educacionais da Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em Genebra, Laura pôde aprimorar seus conhecimentos e expandir sua rede de contatos. Essa bagagem internacional garantiu-lhe, posteriormente, um lugar de destaque na Associação Brasileira de Educação (ABE), espaço onde renomados intelectuais escolanovistas se reuniam para debater a renovação do sistema de ensino no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Consolidação da carreira ===&lt;br /&gt;
Após sua primeira experiência no exterior, Laura continuou a visitar países desenvolvidos com o objetivo de acessar os principais centros de ensino e, dessa forma, contribuir para a expansão dos métodos modernos de educação no Brasil. Assim, em 1927, foi escolhida pela ABE para representar o país no Congresso Internacional de Educação Moderna, em Locarno.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dois anos depois, em 1929, viajou como membro da associação com a missão de realizar um estágio no Teachers College, em Nova York, nos Estados Unidos. Naquele período, o país norte-americano era uma das principais referências do movimento escolanovista. Para a educadora, essa viagem representava uma oportunidade crucial de contribuir com a educação nacional, legitimando-se no campo pedagógico como uma especialista por meio da produção de relatórios e relatos detalhados após o seu retorno.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A participação em eventos como o Congresso Internacional de Educação Moderna permitiu a Laura conhecer o renomado Professor Ovide Decroly. A convite do próprio educador, ela viajou a Bruxelas para realizar um estágio na École de l&#039;Ermitage, localizada em Uccle e dirigida por ele.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda em 1930, de volta ao Rio de Janeiro, Laura teve o privilégio de receber no Brasil o psicólogo suíço Édouard Claparède, seu antigo mestre e que havia se tornado um grande amigo e aliado de sua trajetória profissional. Posteriormente, em 1932, Laura retornou a Locarno como representante da Associação Brasileira de Educação (ABE), oportunidade em que pôde reencontrar seus mentores em uma nova edição do Congresso de Educação Moderna, consolidando sua articulação com a vanguarda pedagógica europeia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No ano de 1932, Laura foi afastada da ABE devido aos embates ideológicos e religiosos ocorridos entre renovadores leigos e católicos. No ano seguinte, em 1933, diplomou-se pela Universidade de Louvain, na Bélgica. Ainda em 1933, passou a atuar como secretária de Everardo Backhauser na Associação de Professores Católicos (APC), auxiliando o educador no cargo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1935, assumiu definitivamente a direção do Colégio Jacobina, instituição com a qual construiu uma relação simbiótica ao longo de toda a sua vida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Início da carreira literária ===&lt;br /&gt;
Visando organizar suas propostas pedagógicas, Laura decidiu reunir suas ideias em um livro próprio para orientar pais, alunas e professoras sobre as questões relativas à educação de crianças e jovens. Assim, em 1936, lançou a obra Moral Cristã e Educação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1942, Laura Jacobina Lacombe lançou seu segundo livro, A escola e a vida. Anos mais tarde, em 1945, com a fundação da Associação de Educação Católica do Brasil (AEC), ela foi convidada a assumir o cargo de Secretária-Geral, auxiliando o primeiro presidente da entidade, o Padre Arthur Alonso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Últimas atuações ===&lt;br /&gt;
Em 1953, Laura participou de outro grandioso projeto: a fundação da Organização Mundial para a Educação Pré-Escolar (OMEP) no Brasil. Influenciada pelo Padre Arthur Alonso, de quem ainda era secretária, a educadora uniu-se a outros profissionais da área para consolidar a iniciativa. A OMEP permitiu a Laura ampliar ainda mais sua presença nos debates sobre a educação infantil e propiciou que levasse às alunas do Curso de Educadoras de sua instituição o que havia de mais recente em Psicologia e Pedagogia. Inclusive, em 1954, criou a Associação de Educação Pré-Primária Jacobina, entidade ligada ao Comitê Nacional de Educação Pré-Primária e integrada por professoras e estudantes da instituição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, após deixar o cargo de secretária do Padre Alonso, Laura assumiu a presidência nacional da OMEP, função que desempenharia por 25 anos, transferindo a sede da organização para o Colégio Jacobina. Posteriormente, atuou também como secretária e, mais tarde, presidente da Comissão de Educação e Cultura da Organização das Entidades Não Governamentais do Brasil (OENG), onde permaneceu por uma década.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1973, aos 75 anos, Laura conquistou sua última grande vitória no campo pedagógico com a assinatura, em Brasília, do decreto que criava a Faculdade de Educação Jacobina. Essa instituição de ensino superior concretizou o seu antigo desejo de formar professoras em nível de graduação sob uma sólida ótica católica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Laura foi uma intelectual da educação que trabalhou ativamente até o fim de sua vida, no início de 1990. É notório como os conhecimentos de Laura contribuíram para a educação moderna, aplicando a psicologia com a finalidade de compreender o universo infantil e apropriando-se de um novo conceito de pedagogia que estabelecia a necessidade do estudo e do aperfeiçoamento contínuos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Cronologia biográfica ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* 1897: Nasce no Rio de Janeiro. &lt;br /&gt;
* 1902: Fundação do Colégio Jacobina, onde Laura inicia sua vida escolar. &lt;br /&gt;
* 1908: Criação do jornal “Traço de União” por Laura e suas irmãs. &lt;br /&gt;
* 1911: Forma-se na primeira turma do Colégio Jacobina. &lt;br /&gt;
* 1911-1920: Atua como assistente de Heitor Lyra, na disciplina de Geometria, e de Thomé Cavalcanti, nas disciplinas de Anatomia, Fisiologia e Higiene.     &lt;br /&gt;
* 1921: Torna-se vice-diretora do Colégio Jacobina.  &lt;br /&gt;
* Década de 1930: Atuou intensamente como colaboradora na Seção Comentários do Jornal do Brasil. &lt;br /&gt;
* 1933: Diplomou-se pela Universidade de Louvain, na Bélgica.  &lt;br /&gt;
* 1934: Secretariou uma comissão no Primeiro Congresso de Educação Católica.&lt;br /&gt;
* 1935: Assume a direção do Colégio Jacobina. &lt;br /&gt;
* 1936: Publica seu primeiro livro “Moral Christã e Educação”. &lt;br /&gt;
* 1939: Em 8 de junho, publicou um texto no Jornal do Brasil intitulado “Educação Feminina&amp;quot;.&lt;br /&gt;
* 1942: Publica o livro “A Escola e a Vida&amp;quot;.&lt;br /&gt;
* 1954: Criação da Associação de Educação Pré-Primária Jacobina, ligada ao Comitê Nacional de Educação Pré-Primária &lt;br /&gt;
* 1955: Assume a presidência do Comitê Nacional da OMEP Brasil.&lt;br /&gt;
* 1958: O Jacobina torna-se o primeiro Colégio no Brasil a ser associado à Unesco.  &lt;br /&gt;
* 1962: Publica o livro “Como nasceu o Colégio Jacobina&amp;quot;.  &lt;br /&gt;
* 1973: Criação da Faculdade de Educação Jacobina. &lt;br /&gt;
* 1974: Em 3 de maio, dá uma entrevista ao Museu da Imagem e do Som, em que fala sobre suas viagens pelo mundo. &lt;br /&gt;
* 1990: Laura morre e é homenageada por uma moção emitida pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Viagens ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* 1924: Primeira viagem à Europa, Suíça, cursou o Instituto Jean Jacques Rousseau em Genebra, onde foi aluna de Édouard Claparède e Jean Piaget.&lt;br /&gt;
* 1927: Representou o Brasil, pela Associação Brasileira de Educação (ABE) no IV Congresso Internacional de Educação Moderna, em Locarno, na Suíça.&lt;br /&gt;
* 1930: Realizou um estágio no Teacher’s College para estudar a orientação educacional americana em Nova York, Estados Unidos.&lt;br /&gt;
* 1933: Diplomou-se pela Universidade de Louvain, focando-se no aprimoramento dos princípios católicos de educação na Bélgica.&lt;br /&gt;
* 1945: Congresso da Union Internationale Catholique de l&#039;Infance em Bogotá, Colômbia.&lt;br /&gt;
* 1948: Seminário Regional de Educação das Organizações Não-Governamentais (ONU) em Caracas, Venezuela.&lt;br /&gt;
* 1956: Assembleia Mundial da Organização Mundial de Educação Pré-Escolar, representando o Brasil em Atenas, Grécia.&lt;br /&gt;
* 1958: Assembleia Mundial da Organização Mundial de Educação Pré-Escolar, representando o Brasil em Bruxelas, Bélgica.&lt;br /&gt;
* 1960: Assembleia Mundial da Organização Mundial de Educação Pré-Escolar, representando o Brasil em Zagreb, Croácia.&lt;br /&gt;
* 1961: Congresso Internacional Católico em Estrasburgo, França.&lt;br /&gt;
* 1962: Assembleia Mundial da Organização Mundial de Educação Pré-Escolar, representando o Brasil em Londres, Reino Unido.&lt;br /&gt;
* 1964: Assembleia Mundial da Organização Mundial de Educação Pré-Escolar, representando o Brasil em Estocolmo, Suécia.&lt;br /&gt;
* 1968: Assembleia Mundial da Organização Mundial de Educação Pré-Escolar, representando o Brasil em Paris, França.&lt;br /&gt;
* 1970: Assembleia Mundial da Organização Mundial de Educação Pré-Escolar, representando o Brasil em Washington, EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Influências ==&lt;br /&gt;
A trajetória de Laura Jacobina Lacombe foi profundamente influenciada pelas transformações educacionais e científicas que aconteciam na Europa no início do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Escola Nova ===&lt;br /&gt;
Sua principal influência veio do movimento da Escola Nova, corrente pedagógica que criticava o ensino tradicional baseado apenas em memorização, disciplina rígida e autoridade absoluta do professor. A Escola Nova defendia uma educação mais ativa, centrada na criança, em suas necessidades, interesses e desenvolvimento psicológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Grande parte dessas influências surgiu quando Laura estudou no Instituto Jean-Jacques Rousseau em Genebra, um dos centros mais importantes de estudos sobre educação e psicologia infantil da época. Lá, ela entrou em contato com importantes educadores e psicólogos que marcaram sua formação intelectual. Entre eles, destaca-se Jean Piaget, cujos estudos sobre desenvolvimento cognitivo infantil ajudaram a fortalecer a ideia de que a criança aprende de maneira gradual e ativa, passando por diferentes etapas de desenvolvimento intelectual. O contato com esse ambiente de estudos em Genebra reforçou em Laura a valorização da psicologia infantil e a necessidade de uma educação que respeitasse o desenvolvimento natural da criança, estimulando sua autonomia e aprendizagem ativa. Também foi influenciada por Édouard Claparède, que defendia uma educação centrada nas necessidades da criança e criticava o ensino tradicional baseado apenas na memorização e na disciplina rígida. Para ele, a escola deveria adaptar-se ao desenvolvimento infantil, valorizando os interesses dos alunos e utilizando a psicologia como base da prática pedagógica. Suas ideias influenciaram Laura na defesa de métodos mais ativos de ensino, voltados para a observação da criança e sua participação no processo de aprendizagem.. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra influência muito importante foi Adolphe Ferrière, um dos principais representantes da Escola Nova, que defendia a chamada “escola ativa”, baseada na liberdade, autonomia e participação do aluno no processo educativo. Laura admirava suas propostas e participava de congressos internacionais ligados aos movimentos que ele ajudava a organizar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Laura foi fortemente influenciada por Ovide Decroly. Ela chegou a visitar sua escola na Bélgica e considerava sua experiência um verdadeiro modelo de educação moderna. Decroly defendia um ensino ligado à vida prática, aos interesses naturais da criança e à observação do mundo ao redor. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, uma influência decisiva em sua trajetória foi Antônio Carneiro Leão, importante educador e administrador da instituição pública, que incentivou Laura a estudar na Europa e a entrar em contato com os debates educacionais internacionais. Foi ele quem abriu caminhos para que ela conhecesse os principais centros de renovação pedagógica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Igreja Católica ===&lt;br /&gt;
Ao mesmo tempo, Laura também recebeu forte influência da Igreja Católica. Embora admirasse os métodos modernos da Escola Nova, acreditava que essas ideias deveriam ser conciliadas com os princípios religiosos católicos. Assim, sua atuação procurava equilibrar sua inovação pedagógica e formação moral cristã.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Contribuições ==&lt;br /&gt;
Laura Jacobina Lacombe teve importante atuação na renovação da educação brasileira durante o século XX, especialmente nos campos da educação feminina, infantil e católica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Divulgação dos ideais escolanovistas no Brasil ===&lt;br /&gt;
Sua principal contribuição foi a divulgação e adaptação, no Brasil, das ideias pedagógicas ligadas à Escola Nova.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Defendia uma educação centrada na criança, valorizando a liberdade no aprendizado, a participação ativa do aluno, a atenção do desenvolvimento psicológico infantil e métodos menos rígidos de ensino. Essas propostas colaboraram para a difusão de práticas pedagógicas inovadoras no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Educação feminina ===&lt;br /&gt;
No Colégio Jacobina, contribuiu para a construção de um modelo de educação feminina baseado na formação intelectual, moral e religiosa. Também defendia a formação de professoras fundamentada no aperfeiçoamento intelectual, pedagógico e moral do magistério. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Atuação internacional ===&lt;br /&gt;
Participou de congressos internacionais de educação e representou o Brasil em debates sobre pedagogia, infância e formação docente. Em 1927, participou do Congresso Internacional de Educação Nova realizado em Locarno (Suíça), fortalecendo o intercâmbio entre a educação brasileira e os movimentos internacionais de renovação pedagógica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Atuação nacional   ===&lt;br /&gt;
Atuou ainda na Associação Brasileira de Educação (ABE) e participou da criação do comitê brasileiro da Organização Mundial para a Educação Pré-Escolar (OMEP), contribuindo para o fortalecimento da educação infantil no Brasil. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por meio do periódico “Traço da União”, divulgou ideias educacionais, religiosas e sociais relacionadas à educação feminina, à formação moral, à infância, à família e às práticas pedagógicas modernas. Também defendia uma educação voltada para a cooperação entre os povos e para a formação moral e social dos indivíduos, especialmente após os impactos da Primeira Guerra Mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Obra ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* (1908) - Traço de União, jornal criado por Laura e suas irmãs.&lt;br /&gt;
* (1930) - Cinco semanas nos Estados Unidos.&lt;br /&gt;
* (1936) - Moral Christã e Educação.&lt;br /&gt;
* (1939) - Educação Feminina, texto no Jornal do Brasil. &lt;br /&gt;
* (1942) - A Escola e a Vida.&lt;br /&gt;
* (1962) - Como nasceu o Colégio Jacobina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Críticas ==&lt;br /&gt;
As propostas pedagógicas de Laura Jacobina Lacombe, fortemente vinculadas à militância católica e à defesa de uma educação feminina diferenciada, foram alvo de contestações por parte de setores reformistas e emancipatórios da educação brasileira. O principal ponto de divergência residia em sua postura contrária à coeducação e na defesa de um currículo moldado especificamente para as funções domésticas e sociais tradicionais da mulher. Em maio de 1958, o debate público evidenciou essas tensões quando a professora Isabel do Prado, então diretora da União Universitária Feminina, classificou o anteprojeto de lei de autoria de Lacombe - que visava instituir um &amp;quot;Curso de Humanidades Femininas&amp;quot; - como um anacronismo frente às transformações da época.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A principal crítica direcionada ao projeto pedagógico de Lacombe sustentava que sua proposta tentava perpetuar um modelo de sociedade e de papel feminino que já estava desaparecendo diante dos avanços científicos e tecnológicos do final da década de 1950. Defensores de uma linha mais progressista argumentavam que o cenário global exigia uma educação universal e integrada, rejeitando a premissa de que a formação intelectual da mulher devesse ser reduzida ou direcionada estritamente em função de seus deveres maternos. Setores da União Universitária Feminina contestavam a ideia de que o raciocínio científico prejudicasse a maternidade, argumentando que o sistema de ensino deveria focar no desenvolvimento pleno de cada indivíduo e na reforma geral da educação, o que incluiria também a formação de homens para o papel de pais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além do descompasso com a modernidade, as propostas de Lacombe foram contestadas por seu caráter considerado elitista e segregador. O currículo defendido pela comissão do Colégio Jacobina priorizava ornamentos sociais e culturais, como a conversação em idiomas estrangeiros e o preparo para círculos diplomáticos, o que gerou acusações de que o curso atendia primordialmente às demandas decorativas das classes abastadas. Para os críticos, esse modelo negligenciava o ensino científico rigoroso e a preparação voltada para a realidade prática das mulheres brasileiras, substituindo uma formação profissionalizante e emancipatória por um programa centrado em prendas domésticas e na representação social.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por Isabela Guidone Pereira Lima, Ana Caroline de Oliveira Lima, Alex Salgueiro Rodrigues, Maria Antônia Tozatto Lawall Cestaro, Arty Maciel Furtado, Helena Stumpf Ramos como exigência parcial para a disciplina História da Psicologia do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras em 2026.1 e publicado em julho de 2026 .&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Categoria:Personagens]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Laura_Lacombe&amp;diff=1686</id>
		<title>Laura Lacombe</title>
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		<updated>2026-07-02T19:34:41Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: Criou página com &amp;#039;Laura Jacobina Lacombe, nascida em 1897, no Rio de Janeiro, e falecida em 1990, foi uma estudiosa da educação, professora, educadora, diretora de escola, escritora, crítica literária e conferencista. Lacombe foi uma figura reconhecida por suas viagens e como uma grande intelectual da educação. Foi uma personagem de extrema importância para a divulgação dos ideais escolanovistas no Brasil.  == BIOGRAFIA ==  === Primeiros anos === Laura Jacobina Lacombe nasceu no...&amp;#039;&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Laura Jacobina Lacombe, nascida em 1897, no Rio de Janeiro, e falecida em 1990, foi uma estudiosa da educação, professora, educadora, diretora de escola, escritora, crítica literária e conferencista. Lacombe foi uma figura reconhecida por suas viagens e como uma grande intelectual da educação. Foi uma personagem de extrema importância para a divulgação dos ideais escolanovistas no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== BIOGRAFIA ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Primeiros anos ===&lt;br /&gt;
Laura Jacobina Lacombe nasceu no Rio de Janeiro, em 1897. Filha de Isabel Jacobina Lacombe e Domingos Lourenço Lacombe, era a mais velha de cinco irmãos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1911, formou-se como a primeira aluna do Colégio Jacobina, fundado por sua mãe. Dedicada aos estudos, passava a maior parte do tempo na instituição, onde iniciou sua trajetória como educadora. Pouco depois, passou a atuar como assistente de Heitor Lyra e Thomé Cavalcanti.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Enquanto suas irmãs se casavam, Laura permaneceu solteira e, por esse motivo, foi a escolhida para auxiliar a mãe na direção. Assim, em 1921, assumiu o cargo de vice-diretora do colégio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Início dos estudos ===&lt;br /&gt;
Diante da necessidade de planejar a sucessão na liderança da instituição, a família concluiu que Laura ainda não possuía o preparo necessário para assumir o cargo da mãe. Com o crescimento do colégio, Isabel cogitou trazer uma professora da Europa para substituí-la. No entanto, seu amigo Carneiro Leão, diretor da Instrução Pública, sugeriu uma alternativa: em vez de recrutar uma profissional estrangeira, a instituição deveria enviar a própria Laura para se capacitar na Europa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira viagem de Laura aconteceu em 1924, rumo à Suíça, para estudar no Instituto Jean-Jacques Rousseau, em Genebra. Na instituição, foi aluna de Édouard Claparède, Pierre Bovet e do influente Jean Piaget. O instituto era, na época, o principal centro de produção e difusão da Escola Nova, vertente que reunia as mais modernas metodologias educacionais da Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em Genebra, Laura pôde aprimorar seus conhecimentos e expandir sua rede de contatos. Essa bagagem internacional garantiu-lhe, posteriormente, um lugar de destaque na Associação Brasileira de Educação (ABE), espaço onde renomados intelectuais escolanovistas se reuniam para debater a renovação do sistema de ensino no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Consolidação da carreira ===&lt;br /&gt;
Após sua primeira experiência no exterior, Laura continuou a visitar países desenvolvidos com o objetivo de acessar os principais centros de ensino e, dessa forma, contribuir para a expansão dos métodos modernos de educação no Brasil. Assim, em 1927, foi escolhida pela ABE para representar o país no Congresso Internacional de Educação Moderna, em Locarno.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Dois anos depois, em 1929, viajou como membro da associação com a missão de realizar um estágio no Teachers College, em Nova York, nos Estados Unidos. Naquele período, o país norte-americano era uma das principais referências do movimento escolanovista. Para a educadora, essa viagem representava uma oportunidade crucial de contribuir com a educação nacional, legitimando-se no campo pedagógico como uma especialista por meio da produção de relatórios e relatos detalhados após o seu retorno.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A participação em eventos como o Congresso Internacional de Educação Moderna permitiu a Laura conhecer o renomado Professor Ovide Decroly. A convite do próprio educador, ela viajou a Bruxelas para realizar um estágio na École de l&#039;Ermitage, localizada em Uccle e dirigida por ele.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda em 1930, de volta ao Rio de Janeiro, Laura teve o privilégio de receber no Brasil o psicólogo suíço Édouard Claparède, seu antigo mestre e que havia se tornado um grande amigo e aliado de sua trajetória profissional. Posteriormente, em 1932, Laura retornou a Locarno como representante da Associação Brasileira de Educação (ABE), oportunidade em que pôde reencontrar seus mentores em uma nova edição do Congresso de Educação Moderna, consolidando sua articulação com a vanguarda pedagógica europeia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No ano de 1932, Laura foi afastada da ABE devido aos embates ideológicos e religiosos ocorridos entre renovadores leigos e católicos. No ano seguinte, em 1933, diplomou-se pela Universidade de Louvain, na Bélgica. Ainda em 1933, passou a atuar como secretária de Everardo Backhauser na Associação de Professores Católicos (APC), auxiliando o educador no cargo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1935, assumiu definitivamente a direção do Colégio Jacobina, instituição com a qual construiu uma relação simbiótica ao longo de toda a sua vida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Início da carreira literária ===&lt;br /&gt;
Visando organizar suas propostas pedagógicas, Laura decidiu reunir suas ideias em um livro próprio para orientar pais, alunas e professoras sobre as questões relativas à educação de crianças e jovens. Assim, em 1936, lançou a obra Moral Cristã e Educação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1942, Laura Jacobina Lacombe lançou seu segundo livro, A escola e a vida. Anos mais tarde, em 1945, com a fundação da Associação de Educação Católica do Brasil (AEC), ela foi convidada a assumir o cargo de Secretária-Geral, auxiliando o primeiro presidente da entidade, o Padre Arthur Alonso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Últimas atuações ===&lt;br /&gt;
Em 1953, Laura participou de outro grandioso projeto: a fundação da Organização Mundial para a Educação Pré-Escolar (OMEP) no Brasil. Influenciada pelo Padre Arthur Alonso, de quem ainda era secretária, a educadora uniu-se a outros profissionais da área para consolidar a iniciativa. A OMEP permitiu a Laura ampliar ainda mais sua presença nos debates sobre a educação infantil e propiciou que levasse às alunas do Curso de Educadoras de sua instituição o que havia de mais recente em Psicologia e Pedagogia. Inclusive, em 1954, criou a Associação de Educação Pré-Primária Jacobina, entidade ligada ao Comitê Nacional de Educação Pré-Primária e integrada por professoras e estudantes da instituição.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, após deixar o cargo de secretária do Padre Alonso, Laura assumiu a presidência nacional da OMEP, função que desempenharia por 25 anos, transferindo a sede da organização para o Colégio Jacobina. Posteriormente, atuou também como secretária e, mais tarde, presidente da Comissão de Educação e Cultura da Organização das Entidades Não Governamentais do Brasil (OENG), onde permaneceu por uma década.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1973, aos 75 anos, Laura conquistou sua última grande vitória no campo pedagógico com a assinatura, em Brasília, do decreto que criava a Faculdade de Educação Jacobina. Essa instituição de ensino superior concretizou o seu antigo desejo de formar professoras em nível de graduação sob uma sólida ótica católica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Laura foi uma intelectual da educação que trabalhou ativamente até o fim de sua vida, no início de 1990. É notório como os conhecimentos de Laura contribuíram para a educação moderna, aplicando a psicologia com a finalidade de compreender o universo infantil e apropriando-se de um novo conceito de pedagogia que estabelecia a necessidade do estudo e do aperfeiçoamento contínuos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== CRONOLOGIA BIOGRÁFICA ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* 1897: Nasce no Rio de Janeiro. &lt;br /&gt;
* 1902: Fundação do Colégio Jacobina, onde Laura inicia sua vida escolar. &lt;br /&gt;
* 1908: Criação do jornal “Traço de União” por Laura e suas irmãs. &lt;br /&gt;
* 1911: Forma-se na primeira turma do Colégio Jacobina. &lt;br /&gt;
* 1911-1920: Atua como assistente de Heitor Lyra, na disciplina de Geometria, e de Thomé Cavalcanti, nas disciplinas de Anatomia, Fisiologia e Higiene.     &lt;br /&gt;
* 1921: Torna-se vice-diretora do Colégio Jacobina.  &lt;br /&gt;
* Década de 1930: Atuou intensamente como colaboradora na Seção Comentários do Jornal do Brasil. &lt;br /&gt;
* 1933: Diplomou-se pela Universidade de Louvain, na Bélgica.  &lt;br /&gt;
* 1934: Secretariou uma comissão no Primeiro Congresso de Educação Católica.&lt;br /&gt;
* 1935: Assume a direção do Colégio Jacobina. &lt;br /&gt;
* 1936: Publica seu primeiro livro “Moral Christã e Educação”. &lt;br /&gt;
* 1939: Em 8 de junho, publicou um texto no Jornal do Brasil intitulado “Educação Feminina&amp;quot;.&lt;br /&gt;
* 1942: Publica o livro “A Escola e a Vida&amp;quot;.&lt;br /&gt;
* 1954: Criação da Associação de Educação Pré-Primária Jacobina, ligada ao Comitê Nacional de Educação Pré-Primária &lt;br /&gt;
* 1955: Assume a presidência do Comitê Nacional da OMEP Brasil.&lt;br /&gt;
* 1958: O Jacobina torna-se o primeiro Colégio no Brasil a ser associado à Unesco.  &lt;br /&gt;
* 1962: Publica o livro “Como nasceu o Colégio Jacobina&amp;quot;.  &lt;br /&gt;
* 1973: Criação da Faculdade de Educação Jacobina. &lt;br /&gt;
* 1974: Em 3 de maio, dá uma entrevista ao Museu da Imagem e do Som, em que fala sobre suas viagens pelo mundo. &lt;br /&gt;
* 1990: Laura morre e é homenageada por uma moção emitida pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== VIAGENS ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* 1924: Primeira viagem à Europa, Suíça, cursou o Instituto Jean Jacques Rousseau em Genebra, onde foi aluna de Édouard Claparède e Jean Piaget.&lt;br /&gt;
* 1927: Representou o Brasil, pela Associação Brasileira de Educação (ABE) no IV Congresso Internacional de Educação Moderna, em Locarno, na Suíça.&lt;br /&gt;
* 1930: Realizou um estágio no Teacher’s College para estudar a orientação educacional americana em Nova York, Estados Unidos.&lt;br /&gt;
* 1933: Diplomou-se pela Universidade de Louvain, focando-se no aprimoramento dos princípios católicos de educação na Bélgica.&lt;br /&gt;
* 1945: Congresso da Union Internationale Catholique de l&#039;Infance em Bogotá, Colômbia.&lt;br /&gt;
* 1948: Seminário Regional de Educação das Organizações Não-Governamentais (ONU) em Caracas, Venezuela.&lt;br /&gt;
* 1956: Assembleia Mundial da Organização Mundial de Educação Pré-Escolar, representando o Brasil em Atenas, Grécia.&lt;br /&gt;
* 1958: Assembleia Mundial da Organização Mundial de Educação Pré-Escolar, representando o Brasil em Bruxelas, Bélgica.&lt;br /&gt;
* 1960: Assembleia Mundial da Organização Mundial de Educação Pré-Escolar, representando o Brasil em Zagreb, Croácia.&lt;br /&gt;
* 1961: Congresso Internacional Católico em Estrasburgo, França.&lt;br /&gt;
* 1962: Assembleia Mundial da Organização Mundial de Educação Pré-Escolar, representando o Brasil em Londres, Reino Unido.&lt;br /&gt;
* 1964: Assembleia Mundial da Organização Mundial de Educação Pré-Escolar, representando o Brasil em Estocolmo, Suécia.&lt;br /&gt;
* 1968: Assembleia Mundial da Organização Mundial de Educação Pré-Escolar, representando o Brasil em Paris, França.&lt;br /&gt;
* 1970: Assembleia Mundial da Organização Mundial de Educação Pré-Escolar, representando o Brasil em Washington, EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== INFLUÊNCIAS ==&lt;br /&gt;
A trajetória de Laura Jacobina Lacombe foi profundamente influenciada pelas transformações educacionais e científicas que aconteciam na Europa no início do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Escola Nova ===&lt;br /&gt;
Sua principal influência veio do movimento da Escola Nova, corrente pedagógica que criticava o ensino tradicional baseado apenas em memorização, disciplina rígida e autoridade absoluta do professor. A Escola Nova defendia uma educação mais ativa, centrada na criança, em suas necessidades, interesses e desenvolvimento psicológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Grande parte dessas influências surgiu quando Laura estudou no Instituto Jean-Jacques Rousseau em Genebra, um dos centros mais importantes de estudos sobre educação e psicologia infantil da época. Lá, ela entrou em contato com importantes educadores e psicólogos que marcaram sua formação intelectual. Entre eles, destaca-se Jean Piaget, cujos estudos sobre desenvolvimento cognitivo infantil ajudaram a fortalecer a ideia de que a criança aprende de maneira gradual e ativa, passando por diferentes etapas de desenvolvimento intelectual. O contato com esse ambiente de estudos em Genebra reforçou em Laura a valorização da psicologia infantil e a necessidade de uma educação que respeitasse o desenvolvimento natural da criança, estimulando sua autonomia e aprendizagem ativa. Também foi influenciada por Édouard Claparède, que defendia uma educação centrada nas necessidades da criança e criticava o ensino tradicional baseado apenas na memorização e na disciplina rígida. Para ele, a escola deveria adaptar-se ao desenvolvimento infantil, valorizando os interesses dos alunos e utilizando a psicologia como base da prática pedagógica. Suas ideias influenciaram Laura na defesa de métodos mais ativos de ensino, voltados para a observação da criança e sua participação no processo de aprendizagem.. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra influência muito importante foi Adolphe Ferrière, um dos principais representantes da Escola Nova, que defendia a chamada “escola ativa”, baseada na liberdade, autonomia e participação do aluno no processo educativo. Laura admirava suas propostas e participava de congressos internacionais ligados aos movimentos que ele ajudava a organizar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Laura foi fortemente influenciada por Ovide Decroly. Ela chegou a visitar sua escola na Bélgica e considerava sua experiência um verdadeiro modelo de educação moderna. Decroly defendia um ensino ligado à vida prática, aos interesses naturais da criança e à observação do mundo ao redor. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, uma influência decisiva em sua trajetória foi Antônio Carneiro Leão, importante educador e administrador da instituição pública, que incentivou Laura a estudar na Europa e a entrar em contato com os debates educacionais internacionais. Foi ele quem abriu caminhos para que ela conhecesse os principais centros de renovação pedagógica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Igreja Católica ===&lt;br /&gt;
Ao mesmo tempo, Laura também recebeu forte influência da Igreja Católica. Embora admirasse os métodos modernos da Escola Nova, acreditava que essas ideias deveriam ser conciliadas com os princípios religiosos católicos. Assim, sua atuação procurava equilibrar sua inovação pedagógica e formação moral cristã.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== 5. CONTRIBUIÇÕES ==&lt;br /&gt;
Laura Jacobina Lacombe teve importante atuação na renovação da educação brasileira durante o século XX, especialmente nos campos da educação feminina, infantil e católica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Divulgação dos ideais escolanovistas no Brasil ===&lt;br /&gt;
Sua principal contribuição foi a divulgação e adaptação, no Brasil, das ideias pedagógicas ligadas à Escola Nova.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Defendia uma educação centrada na criança, valorizando a liberdade no aprendizado, a participação ativa do aluno, a atenção do desenvolvimento psicológico infantil e métodos menos rígidos de ensino. Essas propostas colaboraram para a difusão de práticas pedagógicas inovadoras no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Educação feminina ===&lt;br /&gt;
No Colégio Jacobina, contribuiu para a construção de um modelo de educação feminina baseado na formação intelectual, moral e religiosa. Também defendia a formação de professoras fundamentada no aperfeiçoamento intelectual, pedagógico e moral do magistério. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Atuação internacional ===&lt;br /&gt;
Participou de congressos internacionais de educação e representou o Brasil em debates sobre pedagogia, infância e formação docente. Em 1927, participou do Congresso Internacional de Educação Nova realizado em Locarno (Suíça), fortalecendo o intercâmbio entre a educação brasileira e os movimentos internacionais de renovação pedagógica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Atuação nacional   ===&lt;br /&gt;
Atuou ainda na Associação Brasileira de Educação (ABE) e participou da criação do comitê brasileiro da Organização Mundial para a Educação Pré-Escolar (OMEP), contribuindo para o fortalecimento da educação infantil no Brasil. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por meio do periódico “Traço da União”, divulgou ideias educacionais, religiosas e sociais relacionadas à educação feminina, à formação moral, à infância, à família e às práticas pedagógicas modernas. Também defendia uma educação voltada para a cooperação entre os povos e para a formação moral e social dos indivíduos, especialmente após os impactos da Primeira Guerra Mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== OBRAS ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
* (1908) - Traço de União, jornal criado por Laura e suas irmãs.&lt;br /&gt;
* (1930) - Cinco semanas nos Estados Unidos.&lt;br /&gt;
* (1936) - Moral Christã e Educação.&lt;br /&gt;
* (1939) - Educação Feminina, texto no Jornal do Brasil. &lt;br /&gt;
* (1942) - A Escola e a Vida.&lt;br /&gt;
* (1962) - Como nasceu o Colégio Jacobina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== CRÍTICAS ==&lt;br /&gt;
As propostas pedagógicas de Laura Jacobina Lacombe, fortemente vinculadas à militância católica e à defesa de uma educação feminina diferenciada, foram alvo de contestações por parte de setores reformistas e emancipatórios da educação brasileira. O principal ponto de divergência residia em sua postura contrária à coeducação e na defesa de um currículo moldado especificamente para as funções domésticas e sociais tradicionais da mulher. Em maio de 1958, o debate público evidenciou essas tensões quando a professora Isabel do Prado, então diretora da União Universitária Feminina, classificou o anteprojeto de lei de autoria de Lacombe - que visava instituir um &amp;quot;Curso de Humanidades Femininas&amp;quot; - como um anacronismo frente às transformações da época.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A principal crítica direcionada ao projeto pedagógico de Lacombe sustentava que sua proposta tentava perpetuar um modelo de sociedade e de papel feminino que já estava desaparecendo diante dos avanços científicos e tecnológicos do final da década de 1950. Defensores de uma linha mais progressista argumentavam que o cenário global exigia uma educação universal e integrada, rejeitando a premissa de que a formação intelectual da mulher devesse ser reduzida ou direcionada estritamente em função de seus deveres maternos. Setores da União Universitária Feminina contestavam a ideia de que o raciocínio científico prejudicasse a maternidade, argumentando que o sistema de ensino deveria focar no desenvolvimento pleno de cada indivíduo e na reforma geral da educação, o que incluiria também a formação de homens para o papel de pais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além do descompasso com a modernidade, as propostas de Lacombe foram contestadas por seu caráter considerado elitista e segregador. O currículo defendido pela comissão do Colégio Jacobina priorizava ornamentos sociais e culturais, como a conversação em idiomas estrangeiros e o preparo para círculos diplomáticos, o que gerou acusações de que o curso atendia primordialmente às demandas decorativas das classes abastadas. Para os críticos, esse modelo negligenciava o ensino científico rigoroso e a preparação voltada para a realidade prática das mulheres brasileiras, substituindo uma formação profissionalizante e emancipatória por um programa centrado em prendas domésticas e na representação social.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por Isabela Guidone Pereira Lima, Ana Caroline de Oliveira Lima, Alex Salgueiro Rodrigues, Maria Antônia Tozatto Lawall Cestaro, Arty Maciel Furtado, Helena Stumpf Ramos como exigência parcial para a disciplina História da Psicologia do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras em 2026.1 e publicado em julho de 2026 .&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
[[Categoria:Personagens]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1685</id>
		<title>História da loucura: da Grécia antiga à luta anti-manicomial</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1685"/>
		<updated>2026-05-16T12:43:08Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: Inserção de links&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto com finalidade didática, escrito por André Elias Morelli Ribeiro para o curso de Psicologia do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras. Seu uso é aberto, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Introdução ==&lt;br /&gt;
A história da loucura é, ao mesmo tempo, uma narrativa sobre o modo como diferentes sociedades compreenderam a mente humana e uma reflexão sobre os mecanismos de poder que moldaram práticas de exclusão, cuidado e resistência vinculados à loucura. Iniciando na Grécia antiga até o movimento antimanicomial no Brasil, pode-se observar como a loucura foi interpretada ora como intervenção divina, ora como desvio moral, ora como doença fisiológica, ora como ameaça social. Cada época construiu suas próprias respostas, que variaram entre a integração comunitária, o confinamento brutal e a busca por tratamentos médicos ou espirituais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, a trajetória seguiu de perto os modelos europeus. Do Hospício de Pedro II às colônias agrícolas, passando pela gestão de Juliano Moreira, a psiquiatria nacional oscilou entre avanços humanitários e práticas de exclusão. O período Vargas e o Estado Novo intensificaram o encarceramento, transformando hospitais em verdadeiros campos de concentração administrativos. As décadas seguintes viram a adoção de terapias brutais, como eletrochoques e lobotomias, mas também o surgimento de resistências, como a obra de Nise da Silveira, que introduziu a arte e o afeto como caminhos de cura. A partir dos anos 1960, a privatização da assistência psiquiátrica gerou a chamada “Indústria da Loucura”, marcada por internações lucrativas e violações sistemáticas de direitos humanos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em síntese, o percurso histórico apresentado aqui mostra que a loucura nunca foi apenas um fenômeno clínico mas, antes, um espelho das sociedades, revelando seus medos, suas crenças e suas formas de organizar o convívio humano. De sagrada a temida, de medicalizada a mercantilizada, apresenta-se e se discute como surgiram vozes e práticas que reivindicaram humanidade e liberdade para os considerados loucos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As Loucuras no Mundo Antigo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Grécia antiga ===&lt;br /&gt;
Na Grécia antiga, em certo momento a loucura era considerada uma intervenção dos deuses e, como os gregos era politeístas, a varidade de formas de loucura e intervenção também era bem grande. A loucura poderia ser vista como uma punição. Um exemplo notório é o herói Ajax, filho de Telamão. Após a morte de Aquiles, a armadura do herói foi dada a Odisseu, e a afronta levou Ajax a um estado de fúria e ressentimento. A deusa Atena, intervindo em favor de Odisseu ou para proteger os Aqueus da vingança de Ajax, lançou sobre ele uma cegueira mental. Tomado pela loucura, Ajax massacrou o gado de guerra que havia sido capturado, acreditando que estava matando os líderes aqueus, incluindo Odisseu e Agamenon. Ao recobrar a sanidade e perceber seu ato vergonhoso, o que o levou a cometer suicídio por humilhação. Essa cena ilustra a loucura como uma intervenção divina direta na forma de loucura poderia ser vista como destrutiva e extremamente negativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em outros episódios da mitologia grega, a loucura surge como uma consequência direta de traumas e da perseguição implacável por vingança. Um exemplo fundamental é o de Orestes que, após assassinar sua mãe, Clitemnestra, para vingar a morte de seu pai, Agamenon, passa a ser atormentado pelas Erínias. Essas divindades da vingança, também conhecidas como Fúrias, levaram o herói a um estado de delírio e desespero profundo, personificando a tortura psicológica e a perda da razão como uma forma de acerto de contas espiritual e moral pelo matricídio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura não era unicamente um flagelo ou uma punição. Os gregos  viam a mania, um termo que hoje engloba a loucura, em uma perspectiva dual. Na sua manifestação mais elevada, era considerada uma benção ou inspiração divina. Essa visão positiva estava profundamente ligada ao culto de Dionísio, o deus do vinho, do teatro e do êxtase. Nos rituais dionisíacos, as bacantes e outros seguidores buscavam o êxtase, que é, literalmente, &amp;quot;sair de si&amp;quot;, por meio da dança frenética, música e consumo de vinho, o que era percebido como um estado de comunhão direta e inspirada com a divindade. Longe de ser destrutiva, essa forma de loucura era vista como uma fonte de criatividade, revelação e poder, sendo um caminho para a verdade profética e a expressão artística ligada a Dionísio. Este conceito de mania inspirada também se estendia a outros domínios, como a profecia dos oráculos, que eram vinculados à adoração ao deus Apolo, e mesmo a poesia, onde a perda temporária da razão humana era interpretada como a mente sendo tomada por uma força divina que trazia algum tipo de inspiração.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em certo momento, ainda na Grécia antiga, as ideias sobre a loucura - ou algo que pareça loucura aos olhos contemporâneos - foi modificada graças a Hipócrates, o pai da medicina. A visão de [[Hipócrates]] marcou uma transição crucial para o entendimento da loucura na Grécia Antiga, pois afastou a loucura das concepções divinas e sobrenaturais para uma explicação puramente fisiológica e natural. Ele desenvolveu a [[Teoria dos Quatro Humores]], que se tornou o pilar da medicina ocidental por séculos. Segundo essa teoria, o corpo humano era composto por quatro fluidos essenciais (humores): sangue, fleuma, bile amarela e bile negra. A saúde mental e física dependia do equilíbrio harmonioso desses humores. A loucura, ou qualquer doença mental, era, portanto, interpretada como o resultado de um desequilíbrio, como o excesso de bile negra causando a melancolia (depressão), ou o desarranjo da fleuma e da bile amarela, que poderiam levar a estados de mania e frenesi. Com isso, Hipócrates postulou que a loucura não era uma maldição dos deuses, mas sim uma doença com origem no corpo. Essa abordagem naturalista permitiu que a loucura passasse a ser tratada com métodos como dietas, exercícios e remédios, no lugar de rituais religiosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tradição bíblica ===&lt;br /&gt;
Na tradição bíblica, escrita em contextos e culturas não europeias, a loucura também é frequentemente retratada como uma forma de intervenção ou punição divina. Um dos episódios mais emblemáticos é a história do rei Nabucodonosor II, relatada no Livro de Daniel. De acordo com o texto, devido ao seu orgulho excessivo e sua recusa em reconhecer a soberania de Deus, o rei foi acometido por uma forma de loucura que o levou a viver como um animal, alimentando-se de ervas e deixando seus cabelos e unhas crescerem sem controle. Na psicologia moderna, esse estado em que um indivíduo acredita ter se transformado em um animal é conhecido como licantropia clínica, uma condição rara. A loucura, conforme emerge na descrição bíblica, emerge ligada à perda da razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, a tradição bíblica também apresenta um paradoxo. No Novo Testamento, escrito no contexto do mundo greco-romano, o que é considerado &#039;loucura&#039; pelos homens revela-se a suprema sabedoria divina. Essa ideia é desenvolvida pelo apóstolo Paulo em sua Primeira Carta aos Coríntios. Na passagem, ele afirma: &#039;Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens&#039; (1 Coríntios 1:25). Paulo usa o termo &#039;&#039;moria&#039;&#039; (loucura, tolice) para contrastar a sabedoria humana que, na época do texto, era representada pela filosofia e retórica grega. A mensagem da cruz parecia ilógica e insensata aos olhos dos não cristãos, que debochavam do fato do profeta ter sido capturado e morto pelos romanos. Assim, a loucura deixa de ser apenas uma punição para se tornar uma lente através da qual a verdadeira sabedoria, ou seja, a salvação, é revelada, invertendo a hierarquia de valores do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Pérsia ===&lt;br /&gt;
Na Pérsia, a visão da loucura e do comportamento irracional foi moldada por seu profundo dualismo religioso e, posteriormente, pelas tradições islâmicas que se seguiram à conquista árabe. O zoroastrismo, a antiga religião persa fundada por Zoroastro (Zaratustra), transformou o politeísmo em um dualismo cósmico centralizado no conflito eterno entre Ahura Mazda (Ormazd), o criador da vida, luz e verdade, e Angra Mainyu (Ahriman), a escuridão e a mentira. Neste cenário, o mundo material é o campo de batalha entre os dois. Ahriman buscava corromper tudo o que Ormazd havia criado. Embora o texto não defina a loucura diretamente, o comportamento irracional e a desrazão poderiam ser facilmente associados ao domínio de Ahriman e à mentira (&#039;&#039;druj&#039;&#039;), enquanto a sanidade e a pureza eram atributos de Ormazd. A batalha contra essa corrupção exigia que os adoradores de Ormazd permanecessem verdadeiros e evitassem poluir o fogo e a terra sagrada, indicando que a pureza mental e ritual era uma defesa contra as forças do mal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Islã ===&lt;br /&gt;
Na cultura islãmica, de forma geral e bastante resumida, o comportamento considerado irracional era frequentemente explicado pela crença nos &#039;&#039;djinn&#039;&#039;, espíritos errantes que habitavam o deserto e certos lugares considerados místicos e que podiam invadir a mente humana, causando o que a sociedade ocidental moderna chamaria de insanidade ou, talvez, distúrbio emocional, cujo tratamento era o exorcismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura também apareceu em narrativas culturais associadas aos povos, de forma a sugerir causas e curas mais mundanas. O famoso conto persa de As Mil e Uma Noites relata a história do rei Shahriyar, que, convencido da inevitável traição feminina, cai em uma loucura paranóica que o leva a se casar com uma virgem todas as noites e, pela manhã, assassiná-la. Sua &amp;quot;cura&amp;quot; é alcançada através da engenhosidade e paciência humana por meio de uma dessas esposas, Scheherazade, que usa a arte de contar histórias para retardar sua execução por &amp;quot;mil e uma noites&amp;quot;, período em que sua paranoia é gradualmente desfeita. A história sugere que a narrativa e o tempo podem curar a loucura causada por trauma psicológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As Loucuras na Idade Média ==&lt;br /&gt;
A transição para a Idade Média é marcada pelo colapso do Império Romano do Ocidente (476 d.C.), que trouxe profundas transformações políticas e sociais. O fim do governo centralizado romano levou à fragmentação do poder e ao surgimento do sistema feudal, onde a administração das terras e a autoridade passaram para as mãos de senhores locais, muitos deles antigos oficiais romanos. Este período também é caracterizado por um notável declínio na vida urbana e nos grandes centros intelectuais. O colpaso das instituições romanas deu lugar à ascensão e consolidação da única instituição internacional grande e organizada que havia sobrado, a Igreja Católica, que se tornou a principal instituição, com poder tanto político quanto cultural e simbólico. Houve ainda uma perda gradual da tradição cultural greco-romana e, consequentemente, um afastamento das explicações naturalistas de Hipócrates, com exceção do pequeno renascimento do século XII e retomadas pontuais da sabedoria grega. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a hegemonia da Igreja Católica, a loucura tendeu a ser novamente interpretada sob uma lente teológica, sendo vista como uma manifestação de forças sobrenaturais ou desvios morais. Nesse contexto, certas vezes a loucura era interpretada como a intervenção de Satanás ou como possessão demoníaca, exigindo rituais de exorcismo para a cura. Em outros momentos, era vista como uma prova espiritual enviada por Deus ou como um efeito direto do pecado na alma do indivíduo. Havia também explicações que a tratavam como uma fragilidade da vontade humana, como no caso do que chamaríamos hoje de compulsões, misturando elementos da antiga tradição grega com aspectos da teologia cristã. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Socialmente, a gestão da loucura na Idade Média também passou por diferentes fases e transformações, dependendo do local e da época. Havia casos em que os considerados loucos eram apenas torturados e trancafiados, métodos considerados eficazes para expulsão de espíritos malignos, por exemplo. Contudo, em muitos outros casos, os considerados loucos conviviam de forma mais ou menos harmoniosa com o resto da comunidade, a depender de suas capacidades e possibilidades, e certos “desvios” eram perdoados devido à sua condição peculiar, sem a necessidade imediata de uma exclusão radical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Nau dos Loucos ===&lt;br /&gt;
Um caso notável e emblemático da gestão da loucura nesse período é a [[Nau dos Loucos]] (&#039;&#039;Stultifera Navis&#039;&#039;), conforme trabalhado por [[Michel Foucault]]. Anteriormente ao modelo de exclusão-repressão que viria a se consolidar na Idade Clássica, a loucura viveu o que se pode chamar de seus &amp;quot;dias de glória&amp;quot; na transição para a Renascença. Nesse contexto, o louco poderia ser visto como um sábio, um místico, um bobo da corte ou simplesmente um excêntrico que estava, de certa forma, integrado ao tecido social.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Nau dos Loucos simbolizava uma existência errante, onde o louco era confiado à água e ao navio para ser levado de uma cidade a outra, mantendo-o em um estado de exclusão simbólica, mas ainda assim em movimento e circulação. Para Foucault, essa experiência trágica da loucura permitia que o insano portasse uma forma de lucidez em sua insensatez, revelando verdades que a razão comum não ousava enunciar. O louco via através das ilusões mundanas, aproximando-se de uma verdade profética ou ética que seria progressivamente silenciada nos séculos seguintes pela ascensão do saber médico e da racionalidade científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Santa Dimpna e Geel ===&lt;br /&gt;
Outro acontecimento relevante da Idade Média para a compreensão da loucura é o episódio de [[Santa Dimpna]]. Nascida no século VII na Irlanda, ela era filha de um rei pagão e de uma mãe cristã devota, de quem herdou sua fé e pela qual decidiu fazer votos de castidade. Após a morte prematura da mãe, seu pai, mergulhado em um profundo luto, decidiu que Dimpna era a única mulher com beleza comparável à da falecida rainha e insistiu em se casar com a própria filha, o que seria considerado escandaloso também para aquela cultura. Diante dessa perseguição incestuosa, Dimpna fugiu da Irlanda acompanhada de seu confessor, o padre Gereberno, e de dois servos fiéis. O grupo cruzou o mar e estabeleceu-se em [[Geel]], um minúsculo vilarejo na atual Bélgica, onde Dimpna se dedicou ao cuidado dos pobres e doentes mentais. No entanto, o rei conseguiu encontrá-los e, após a recusa de Dimpna tanto em retornar para a Irlanda quanto se casar com o pai, ordenou a execução de Gereberno, enquanto ele mesmo decapitou a filha, tornando a menina de 15 anos de idade numa mártir cristã. Após sua morte, relatos de curas milagrosas de pessoas com distúrbios mentais e epilepsia começaram a ocorrer junto ao seu túmulo, o que a tornou a padroeira dos doentes mentais e o local um espaço de peregrinação ligado à questão da saúde mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O legado de Santa Dimpna em Geel deu origem a um modelo para a psiquiatria moderna pois, devido à devoção e adoração à Santa Dimpna, a cidade transformou-se em um santuário onde os pacientes não eram trancafiados, mas acolhidos em lares de famílias locais como &amp;quot;hóspedes&amp;quot;. Esse sistema de cuidado comunitário e desinstitucionalização, que persiste há séculos, é considerado um dos precursores do tratamento humanizado e da reabilitação psicossocial na saúde mental contemporânea.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Idade Clássica: a nova era da loucura encarcerada ==&lt;br /&gt;
A partir do século XVII, um período em que o filósofo Michel Foucault denominou como &amp;quot;A Época Clássica&amp;quot;, a forma de entender e lidar com a loucura passa por uma nova mudança devido ao ingresso da razão como centro e alma do pensamento europeu, em substituição ao dogmatismo religioso e ao conhecimento da igreja. Esta mudança não é brusca, mas lenta e gradual, porém suas marcas serão duradouras e serão sentidas por quase toda a Europa. Para essa nova e nascente razão, a loucura seria seu oposto direto. Se o homem era definido pela sua capacidade racional e sua utilidade produtiva, o louco era, portanto, como um &amp;quot;não-homem&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a solução para a não-razão era a internação, que não buscava a cura, mas a neutralização do irracional. O silenciamento da loucura era necessário para que a ordem social pudesse florescer. Os campos e cidades deveriam ser espaços de circulação de mercadorias pelas mãos de cidadãos produtivos, e qualquer elemento que atrapalhasse essa dinâmica deveria ser guardado em instituições que funcionavam como uma guarda contra o risco social que tais pessoas ofereciam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Relatos da época descrevem cenários terríveis sobre as condições de internação dos loucos. Os internos eram frequentemente mantidos em celas úmidas e insalubres, muitas vezes acorrentados às paredes. O uso de chicotes e outras punições corporais era justificado pela crença de que o louco, por ter perdido a razão, teria a resistência física de um animal, não sentindo frio ou dor da mesma forma que uma pessoa &amp;quot;normal&amp;quot;. Além disso, as instituições funcionavam sob uma lógica de vigilância constante. Não se tratava de observar para entender a mente, mas para garantir que o corpo anormal permanecesse contido e, no máximo possível, docilizado. Foi dentro desse ambiente de absoluta degradação e mistura indiscriminada de diferentes &amp;quot;tipos&amp;quot; de desviantes que a consciência médica começou a germinar, ainda que de forma incipiente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== França ===&lt;br /&gt;
O ano de 1656 marca um divisor de águas simbólico para o modelo de confinamento asilar no mundo todo, com a criação do Hôpital Général (Hospital Geral) em Paris, por um edito real do rei Luís XIV. É importante entender que um hospital geral deste período não é como um hospital moderno, ou seja, uma instituição médica e voltada para a compreensão da doença e a prática do tratamento e cura. Ele estava mais próximo de uma estrutura administrativa e, de certo modo, semi-judiciária. Isso ocorria porque o interesse não estava em “curar” ou “tratar” ninguém mas, antes disso, perseguir o interesse do Estado de &amp;quot;limpar&amp;quot; as ruas de Paris de tudo o que era considerado improdutivo ou escandaloso. Era um período de abundância material, grandes gastos estatais e de uma imensa riqueza do império colonial francês, e desvios nessa ordem eram vistos como perigosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes tais hospitais gerais eram confinados, todos juntos, grupos totalmente diferentes, tais como pobres, mendigos, desempregados, libertinos, prostitutas, alquimistas, opositores políticos e, claro, também os considerados loucos. Em suma, um depósito de indesejados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que começou em Paris se tornou um modelo para outros lugares sobre como fazer a gestão da miséria e da “desrazão”, num forte deslocamento do que se via na Idade Média. O louco, antes tendo algo de profético, místico ou talvez apenas uma excentricidade da vida medieval campesina, se torna uma questão político-administrativa. Essa mudança importante marca uma migração para a possibilidade de institucionalização daquilo que era considerado errante ou, de alguma forma, desagradável e, assim passível de ser alvo de uma forma de gestão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em Paris, as duas principais unidades do Hospital Geral se tornaram emblemáticas e simbólicas. A [[Salpêtrière]], que era destinada às mulheres, e o hospital [[Bicêtre]], destinado aos homens. Ambas as instituições não ofereciam qualquer forma de tratamento. Eram basicamente depósitos humanos, onde o louco poderia acabar acorrentado ao lado de criminosos, por exemplo. O critério de internação não era o diagnóstico clínico, mesmo porque simplesmente ele nem existia, mas a incapacidade de se ajustar às normas de trabalho e à moralidade da época.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Alemanha ===&lt;br /&gt;
Na Alemanha, surgiram as Zuchthäusern, que seriam as [[Casas de Correção (Zuchthäusern)|Casas de Correção]]. Cidades como Hamburgo e Bremen estabeleceram esses locais onde a loucura era tratada através do trabalho forçado. Eles acreditavam que o ócio era a raiz do mal e que o confinamento servia para reintegrar o indivíduo à lógica da produtividade. De qualquer forma, uma vez enclausurado, ele permanecia escondido da visão da população.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Inglaterra ===&lt;br /&gt;
Na Inglaterra, o sistema das Workhouses (Casas de Trabalho) cumpria um papel semelhante ao modelo alemão. No entanto, Londres já possuía o [[Bethlem Royal Hospital (Bedlam)|Bethlem Royal Hospital]], conhecido popularmente como Bedlam. No século XVII e XVIII, Bedlam se tornou um espetáculo de horror, onde o público podia pagar para observar os internos como se fossem animais em um zoológico. A loucura agora um objeto de uma forma de exibição degradante e mantida atrás de grades e ferros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Portugal ===&lt;br /&gt;
Em Portugal a gestão dos &amp;quot;desviantes&amp;quot; recaiu fortemente sobre as Santas Casas da Misericórdia. O [[Hospital Real de Todos-os-Santos]], fundado em Lisboa em 1492 e inaugurado em 1501, se tornou o epicentro do tratamento (ou confinamento) dos loucos no país. Dentro deste hospital, existiam as chamadas &amp;quot;[[Casas de Doidos]]&amp;quot;, destinados àqueles que haviam “perdido a luz da razão”. Seguindo o padrão europeu, o hospital não separava rigidamente o louco por diagnóstico. Eles dividiam espaço com indigentes e enfermos de diversas naturezas, embora as &amp;quot;casas de doidos&amp;quot; fossem áreas de maior isolamento devido à agitação dos internos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XVIII português, a internação era, acima de tudo, uma solução para a mendicância e, por vezes, para o alcoolismo. O louco oriundo de uma família com posses era mantido nas próprias casas, muitas vezes escondido em sótãos ou anexos e até mesmo acorrentados. Já o &amp;quot;louco pobre&amp;quot;, que não poderiam ser cuidados por seus familiares, acabava nos hospitais reais ou mesmo nas cadeias, a depender de uma série de fatores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Nascimento da Psiquiatria ==&lt;br /&gt;
=== Pinel e a criação da psiquiatria nosográfica ===&lt;br /&gt;
É na virada do século XVIII para o XIX que nasce a psiquiatria como um campo autônomo do saber e da prática médica. Esta mudança fundamental é protagonizada por duas figuras centrais da medicina francesa: [[Philippe Pinel]] e seu discípulo, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]]. Juntos, eles transformaram o hospital de depósito de insanos e indesejáveis em um verdadeiro hospital, em que o louco e o alienado poderiam receber um tratamento racional e científico, em substituição às correntes, à disciplina e ao silenciamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A emergência da psiquiatria como campo autônomo teve como fundamento científico inicial a observação clínica sistemática dentro do asilo. Este era concebido como um laboratório, onde o alienista poderia estudar a loucura em seu estado puro, separada das influências do mundo exterior. A principal questão científica e prática que justificava essa nova ciência era desenvolvida e aplicada de forma sistemática era a chamada nosografia ou diagnóstico. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pinel, em seu [[Traité médico-philosophique sur l&#039;aliénation mentale, ou la manie]], de 1801, classificou a loucura com base em critérios sintomatológicos, seguindo um procedimento comparativo semelhante ao das ciências naturais. O desafio central, que persistiria ao longo do século XIX, era a ambiguidade constante entre a busca por uma sede orgânica, ou seja, um “local físico-biológico” da loucura, junto da necessidade de uma regulação de caráter moral. O tratamento apoiava-se na moralidade para combater as causas que eram, elas próprias, consideradas morais, mas algo estava também no corpo do doente. Isso mostra que a nova psiquiatria de Pinel era a mistura de medicina com moralidade. Este enfoque resultou na valorização do exame clínico pelos psiquiatras francófonos, permitindo a união da observação clínica com a formulação de hipóteses.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1793, em meio ao fervor da Revolução Francesa, Philippe Pinel foi nomeado médico-chefe do Hospital de Bicêtre e, posteriormente, da Salpêtrière. O cenário que encontrou era o ápice do &amp;quot;Grande Enclausuramento&amp;quot;, ou seja, homens e mulheres amontoados nas condições já descritas, com destaque para as correntes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A intervenção de Pinel, simbolizada pelo gesto de “libertar os loucos de suas correntes”, não foi apenas um ato humanitário, mas também uma decisão de natureza epistemológica. Pinel acreditava que a loucura não era uma possessão demoníaca nem uma degeneração animal irreversível, mas uma alienação mental, em outras palavras, uma perturbação das faculdades intelectuais e afetivas que mantinha o indivíduo como se fosse &amp;quot;estrangeiro&amp;quot;, ou alienado, de si mesmo e da sociedade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O pilar para a reforma psiquiátrica proposta por Pinel era o tratamento moral, e se baseava em três pilares fundamentais. O primeiro, o isolamento terapêutico. Era necessário que o paciente ficasse separado de seu ambiente que, segundo o médico, era a fonte de sua excitação e desequilíbrio. O segundo pilar era a autoridade médica, onde este deveria atuar como um pai ao mesmo tempo severo e justo, usando a persuasão, a benevolência e, se fosse necessário, a firmeza para restaurar a razão do paciente. Por fim, a disciplina e o trabalho, com a aplicação rigorosa de horários e valorização de atividades produtivas, o que ocuparia a mente alienada e, assim, combateria a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em seus estudos, Pinel identificou quatro tipos de loucura, quais sejam, a [[melancolia]], a [[mania]], a [[demência]] e a [[idiotia]], cada uma com suas questões próprias específicas e metodologias de tratamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Esquirol e a consolidação do modelo ===&lt;br /&gt;
Se Pinel era considerado o visionário e o libertador, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]] foi o grande organizador e o clínico meticuloso. Discípulo de Pinel, Esquirol sucedeu seu mestre na Salpêtrière e deu à psiquiatria a robustez científica e administrativa de que ela necessitava. Esquirol compreendeu que a eficácia do tratamento moral dependia da arquitetura hospitalar. Para ele, o hospital não era apenas um prédio onde ocorria o tratamento, mas também um instrumento de cura. Ele desenvolveu o modelo de pavilhões, permitindo a separação dos pacientes por tipo de patologia, o que reforçou a própria ideia de diagnóstico e de avaliação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Esquirol refinou as definições clínicas de Pinel. Foi ele quem estabeleceu a distinção clássica entre alucinação (uma percepção sem objeto) e ilusão (uma percepção deformada de um objeto real), entre outros pontos que, na sua época, foram considerados avanços exemplares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Legalização da Alienação ===&lt;br /&gt;
O esforço médico, político e administrativo de Esquirol na continuação do trabalho de Pinel culminou na promulgação da lei francesa de 30 de Junho de 1838, a primeira grande legislação psiquiátrica do mundo moderno. Esta lei estabeleceu a obrigatoriedade de cada departamento francês possuir um asilo e regulamentou as condições de internação e interdição. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A princípio, embora também protegesse o alienado do arbítrio e de outras violências que poderiam ser cometidos contra os loucos nas províncias e mesmo nas periferias de Paris, a lei também deu total poder ao médico psiquiatra. Era ele quem poderia decidir quem deveria ou não ser privado de sua liberdade. Com isso, a psiquiatria tornava-se, assim, um braço do Estado na gestão da ordem social mas, ao contrário do polícia e do inquérito polícial, que exigia provas independentes e a atuação do sistema judiciário, o psiquiatra estava coberto sob o manto da ciência médica, o que dava a ele poderes gigantescos de decidir entre a alienação e a razão. Isso marcou profundamente a forma como a loucura e a saúde mental passaram a ser compreendidas e tratadas nas décadas seguintes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Emil Kraepelin e uma Nova Racionalização ===&lt;br /&gt;
Apesar da forte valorização da psiquiatria francesa na constituição da psiquiatria contemporânea, uma das principais contribuições para o ramo em sua forma atual foi empreendida por um alemão, [[Emil Kraepelin]]. No final do século XIX, a psiquiatria alemã estava dividida entre os &amp;quot;psiquistas&amp;quot;, que viam a loucura como uma doença da alma ou um mal moral, a exemplo dos franceses; e os &amp;quot;somatistas&amp;quot;, que buscavam no cérebro a origem dos sintomas das doenças mentais. Kraepelin superou esse impasse ao focar não na anatomia, mas na evolução temporal das doenças. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin passou a entender que sintomas isolados, como ouvir vozes ou acreditar ser uma personalidade histórica, não eram suficientes para definir uma doença, mas seu desenvolvimento ao longo do tempo. Com essa premissa em mãos, Kraepelin introduziu as &amp;quot;cartas diagnósticas&amp;quot; (&#039;&#039;Zählkarten&#039;&#039;), um sistema de fichamento padronizado onde se registrava a história de vida do paciente, seus antecedentes familiares, os sintomas detalhados e, por fim, o desfecho da doença. Isso transformou a clínica psiquiátrica, pois articulava neuroanatomia e psicologia experimental, já que ele fora aluno de [[Wilhelm Wundt|Wundt]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin também é considerado o pioneiro da [[Psiquiatria Transcultural]]. Visando provar que as categorias diagnósticas psiquiátricas seriam universais, ele viajou para lugares como a ilha de Java (Indonésia) em 1904 para estudar a manifestação da loucura em populações não europeias. Ele concluiu que, ainda que os conteúdos dos delírios mudassem conforme a cultura, a estrutura fundamental da loucura permanecia a mesma, o que reforçou sua tese de que eram doenças biológicas da espécie humana. Apesar disso, no final de sua vida ele se transformou um higienista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O I Congresso Internacional de Psiquiatria ===&lt;br /&gt;
Realizado em Paris em agosto de 1950, o [[I Congresso Internacional de Psiquiatria]] foi projetado especificamente para unificar, debater e institucionalizar a psiquiatria como uma disciplina médica global e autônoma. Durante o Congresso foram colocados, frente a frente, as grandes correntes que disputavam a hegemonia do entendimento da mente humana na época, a saber, as correntes psicodinâmica e a biológica. De forma menor, uma corrente social e anti-manicomial também se fez presente. O resultado do embate foi uma conciliação entre as duas maiores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um dos resultados do Congresso de 1950 foi a pressão para que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Associação Psiquiátrica Americana (APA) criassem manuais estatísticos e classificatórios unificados, o que resultou na inserção de uma seção robusta de transtornos mentais na CID-6 (Classificação Internacional de Doenças) e na publicação do primeiro [[DSM]], em 1952.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro resultado importante do evento foi a fundação da Associação Mundial de Psiquiatria ([[World Psychiatric Association (WPA)|World Psychiatric Association - WPA]]). Com isso, a psiquiatria deixou de ser um conjunto de escolas nacionais isoladas, como as escolas francesa, alemã, anglo-saxã, entre outras, para se tornar uma corporação científica internacional, com congressos periódicos, periódicos indexados e diretrizes globais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Loucura no Brasil ==&lt;br /&gt;
Até o início do século XIX, o Brasil colonial lidava com seus insanos de forma semelhante ao que ocorria na Europa. As famílias ricas mantinham seus parentes loucos em &amp;quot;quartos fortes&amp;quot;, privando-os mais ou menos da vida comunitária e familiar, a depender das circunstâncias, de forma semelhante ao que acontecia em Portugal. Já os pobres eram entregues à caridade das [[Santas Casas de Misericórdia]] ou vagavam pelas ruas, sendo ocasionalmente recolhidos a cadeias públicas quando perturbavam a ordem, indo e vindo das frágeis instituições brasileiras, sofrendo abusos e violências de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A transferência da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 gerou a necessidade de transformar a capital colonial em uma moderna metrópole europeia. Sob a influência do Iluminismo tardio e das notícias que chegavam sobre as reformas de Pinel na França, a elite médica brasileira, que havia estudado sobretudo na França e em Portugal, começou a pressionar o poder público pela criação de espaços específicos para o tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1830, a criação da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (que viria a ser a [[Academia Nacional de Medicina]]) foi o marco institucional dessa pressão. Esse movimento político funcionou. O momento decisivo ocorreu em 18 de julho de 1841, quando o Imperador D. Pedro II, em comemoração à sua coroação, assinou o decreto de fundação do primeiro hospital psiquiátrico do Brasil e da América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Hospício de Pedro II, ou o Palácio dos Loucos (1852–1889) ===&lt;br /&gt;
Inaugurado apenas em 8 de dezembro de 1852, o [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)|Hospício de Pedro II]] era gerido pela Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, que por anos geriu grande parte da loucura brasileira. Seu provedor era o médico [[José Clemente Pereira]], que era responsável por todos os aspectos da instituição, desde os médicos até os administrativos. Embora a gestão administrativa fosse religiosa, o saber médico tinha muito espaço, com nomes como [[Manoel Feliciano Pereira de Carvalho]], que tentaram implementar o &amp;quot;tratamento moral&amp;quot; inspirado em Esquirol. Apesar dos esforços, muitos relatos de abusos e de condições precárias mostravam a dificuldade em implementar um modelo brasileiro de tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a Proclamação da República em 1889, o Hospício de Pedro II foi desvinculado da Santa Casa e renomeado como [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)]]. Este foi um período de maior laicização e pela busca por um maior rigor científico, o que não aconteceu por completo, em grande parte devido à falta de profissionais adequadamente treinados para a questão. Apesar disso, o Brasil já possuía uma cátedra de psiquiatria desde 1883, ocupada por João Carlos Teixeira Brandão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diante dos altíssimos custos em manter o Hospital, surgem as colônias agrícolas como alternativa ao confinamento urbano. Em 1884, já havia sido inaugurada a [[Colônia de São Bento]] e, em 1890, a [[Colônia de Conde de Mesquita]], na Ilha do Governador. A ideia era que o trabalho na terra poderia colaborar na cura, além de os produtos deste trabalho poderiam ser consumidos no local, ajudando na manutenção dos espaços. Apesar dessas transformações e de evidentes melhorias, os relatos de época mostram que não acontecia nenhuma das duas coisas, nem produção agrícola suficiente, nem um processo terapêutico efetivo, mas entendia-se que a colônia agrícola era melhor do que o confinamento do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Era Juliano Moreira ===&lt;br /&gt;
Em 1903, o médico baiano [[Juliano Moreira]] assume a direção do Hospital Nacional de Alienados. Negro, de origem humilde e dotado de uma erudição impressionante, ele revolucionou a assistência brasileira aos alienados, sendo reconhecido internacionalmente como um dos grandes psiquiatras de seu tempo. Ele se tornaria o principal médico alienista do Brasil, tornando-se referência para todo o país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Moreira aboliu definitivamente o uso de camisas de força e as grades nas janelas, num gesto que se assemelhava àquele de Pinel, enfatizando que o hospital era um local de tratamento e cura, e não uma prisão ou um depósito de indesejados. Além disso, ele trouxe para o Brasil a nosologia de Emil Kraepelin, um psiquiatra alemão considerado o pai da psiquiatria moderna, da psicofarmacologia e da genética psiquiátrica, o que seria uma modernização do modelo francês adotado até então. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a gestão Moreira ocorreram várias mudanças. Foi criado o [[Pavilhão Bourneville]] para crianças com deficiência intelectual. Além disso, fundou-se em 1921 o [[Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro]], o primeiro do país, sob a liderança de [[Heitor Carrilho]]. Dentro dos hospitais incentivou-se a pesquisa laboratorial e anátomo-patológica, o que também abriu espaço para a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A influência e o prestígio de Juliano Moreira se espalhou pelo Brasil. Em São Paulo, destacou-se a figura de [[Franco da Rocha|Francisco Franco da Rocha]], que fundou em 1898 o [[Hospital do Juquery]]. O Juquery, como ficou conhecido, tornou-se uma &amp;quot;cidade-asilo&amp;quot;, chegando a abrigar dezenas de milhares de pacientes em um modelo que mesclava pavilhôes médicos com imensas colônias agrícolas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste período, a psiquiatria brasileira flertou intensamente com as teorias da degenerescência (de Morel e Magnan) e com a eugenia. Médicos como [[Renato Kehl]], bem como a criação da [[Liga Brasileira de Higiene Mental]] (1923), uma organização higienista fundada por [[Gustavo Riedel]], começaram a ver a loucura não apenas como um problema individual, mas como um risco biológico à raça brasileira. A higiene mental passou a atuar preventivamente em escolas e fábricas, buscando identificar &amp;quot;pré-delinquentes&amp;quot; e &amp;quot;personalidades anormais&amp;quot;. Apesar de não ter conseguido desenvolver muitas políticas efetivas, os eugenistas brasileiros eram ativos e influentes em muitos círculos decisórios importantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A criação de hospitais não se limitou a São Paulo e Rio de Janeiro. Em  1903, o governo de Minas Gerais fundou o [[Hospital Psiquiátrico de Barbacena]], que mais tarde seria palco de uma das maiores tragédias humanitárias do país. Em Pernambuco, o [[Hospital Ulysses Pernambucano]] foi fundado pelo médico de mesmo nome, que começou a desenvolver uma psiquiatria mais voltada para o social e para a prevenção no final dos anos 1920. Hospitais na Bahia, Rio Grande do Sul, entre outros, também foram criados, seguindo o pioneirismo do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Era Vargas e além: o início do encarceramento ===&lt;br /&gt;
Com a Revolução de 1930, o projeto de nação de Vargas exigia um povo saudável e produtivo, devido à visão desenvolvimentista suportada pela Aliança Liberal, que o elegeu. A loucura deixou de ser apenas uma questão de ordem pública ou um aspecto da caridade para se tornar um problema de segurança nacional e de saúde pública. Em 1941, no âmbito do Estado Novo, foi criado o [[Serviço Nacional de Doenças Mentais (SNDM)]], substituindo o antigo modelo de assistência a alienados, que era fragmentado nas diferentes províncias. Dessa maneira, Vargas criou uma diretriz federal centralizada para a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a Liga Brasileira de Higiene Mental ganhou fôlego. O foco deslocou-se do hospital para a prevenção na sociedade. A psiquiatria não deveria se limitar aos hospitais, mas também atuar na escola, na fábrica e na família, buscando limpar a nação e extirpar o que chamavam de &amp;quot;elementos degenerados&amp;quot;. O médico Gustavo Riedel e seus sucessores defendiam que o Estado deveria intervir precocemente para evitar que o &amp;quot;anormal&amp;quot; se tornasse um fardo para a máquina pública.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi durante as décadas de 1930 e 1940 que o modelo de colônia agrícola, antes visto como terapêutico e de assistência à manutenção hospitalar, atingiu proporções industriais. O que se viu em Barbacena e em instituições como o Juquery em São Paulo, foi a transformação do hospital em, praticamente, um campo de concentração administrativo. A internação não dependia mais de um diagnóstico médico rigoroso, que na prática ainda era frágil e baseado em elementos pouco científicos. Bastava ser considerado &amp;quot;socialmente inconveniente&amp;quot; para correr-se o risco de ir parar numa instituições dessas. Assim, pobres, prostitutas, homossexuais, militantes políticos e mães solteiras eram enviados para essas instituições, onde a sobrevivência era a exceção. Estima-se que, no auge do descaso, o Hospital de Barbacena registrava um número alarmante de óbitos por frio, fome e doenças evitáveis, cujos corpos eram, por vezes, vendidos para faculdades de medicina. Situações similares aconteciam em outras instituições do tipo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tratamentos Brutais e os Modos de Resistência ===&lt;br /&gt;
Para além do horror asilar, o período entre 1930 e 1950 também foi marcado pela introdução de terapias biológicas drásticas, importadas da Europa, conhecidas como [[somatoterapias]]. Com uma psicofarmacologia pouco eficaz, os médicos buscavam &amp;quot;chacoalhar&amp;quot; o organismo, produzindo nele como um choque que pudesse restaurar a razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma dessas técnicas era a [[insulinoterapia]]. Introduzida na Europa pelo médico austríaco Manfred Sakel (1900–1957) em Viena, no início dos anos 1930, representou uma das primeiras e mais invasivas formas de somatoterapia. Originalmente destinada ao tratamento da [[esquizofrenia]], a técnica consistia na administração de doses maciças de insulina no paciente, provocando um estado de hipoglicemia profunda que levava o paciente ao coma. Na volta desse estado, se esperava que o indivíduo “restaurasse” a razão por conta do choque orgânico violento que havia vivenciado. O procedimento era extremamente perigoso e estava associado a uma alta taxa de mortalidade e morbidade devido às convulsões e aos possíveis danos cerebrais. Apesar dos riscos, o método foi amplamente adotado no mundo todo, incluindo o Brasil, onde foi usado em grandes instituições de confinamento, como o Hospital Nacional de Alienados (HNA), no Hospital Juquery, entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que passou a ser muito utilizada foi a [[Eletroconvulsoterapia]], ou simplesmente o eletrochoque. Introduzido no Brasil logo após sua invenção na Itália (1938), consiste em colocar eletrodos carregados com correntes elétricas em lados opostos, na lateral da cabeça, de modo que uma forte corrente elétrica atravessasse o cérebro. A duração e a intensidade podiam variar, mas relatos de mais de trinta minutos de choques violentos não eram incomuns. Sua brutalidade era tamanha que exigia que sua vítima fosse fortemente amarrada. Tornou-se uma ferramenta onipresente nos hospitais, muitas vezes aplicada sem anestesia e como método de punição, desvirtuando sua finalidade clínica já questionável e usada, basicamente, como ferramenta de tortura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que ingressou no Brasil nesse período foi a [[lobotomia]], um procedimento cirúrgico que consistia em apenas retirar um pedaço do cérebro do paciente. Eles foram realizados em larga escala em hospitais como o Juquery e no Hospital Pedro II, buscando a docilização de pacientes crônicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em oposição à violência do isolamento oferecido por essas instituições, surge a figura de [[Nise da Silveira]]. Em 1946, após ter sido presa pelo regime de Vargas por suas inclinações políticas, Nise assumiu o Setor de Terapêutica Ocupacional do [[Centro Psiquiátrico Nacional]] (Engenho de Dentro), no Rio de Janeiro. Ela se recusou a usar eletrochoques e lobotomias, introduzindo a arte e o afeto como mediadores da cura. Ela fundou o [[Museu de Imagens do Inconsciente (MIS)|Museu de Imagens do Inconsciente]] em 1952, onde demonstrou, através das pinturas e esculturas de pacientes como [[Arthur Bispo do Rosario]], que o louco preservava uma riqueza simbólica e uma humanidade que a psiquiatria tradicional tentava apagar. Sua colaboração com [[Carl Jung]] colocou a experiência brasileira no mapa da psicologia analítica mundial, provando que o tratamento em liberdade e através da expressão criativa era viável.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Criação da Indústria da Loucura ===&lt;br /&gt;
No final da década de 1950 e início da de 1960, durante o governo de Juscelino Kubitschek e o breve período democrático posterior, o Brasil viu o surgimento de uma nova e ainda mais perversa dinâmica: a Indústria da Loucura. A assistência psiquiátrica, antes quase totalmente pública ou baseada no assistencialismo das Santas Casas, começou a ser privatizada. Com o crescimento dos institutos de previdência (IAPs), o Estado passou a pagar hospitais privados por dia de internação. Isso criou um incentivo perverso: quanto mais tempo o paciente ficasse internado e quanto menos recursos fossem gastos com ele, maior o lucro das clínicas privadas. Esse modelo, conhecido como &amp;quot;hospitalocêntrico&amp;quot;, inchou o sistema e preparou o terreno para a política de contenção social que seria radicalizada após o golpe de 1964. Foi um momento de multiplicação da brutalidade. Pouco importava a loucura ou não, o tratamento ou não, a eficácia ou não. O que importava era lucar com o dinheiro estatal por meio de um encarceramento fácil de impor e praticamente impossível de escapar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A coisa se aprofundou ainda mais com o golpe militar, que unificou em 1966 os Institutos de Aposentadoria e Pensões no INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), produzindo uma centralização gigantesca de recursos, com um modelo de privatização quase total. A psiquiatria, por ser uma especialidade cuja formação exigia baixo investimento tecnológico quando comparada a outras como a cirurgia, cardiologia ou oncologia, permitia grandes lucros com as internações de longa permanência. Assim, trancafiar e atormentar os loucos tornou-se o setor mais atraente para o empresariado da saúde.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de pessoas possivelmente diagnosticadas, o sistema era alimentado pelo encarceramento de militantes políticos, estudantes rebeldes, pessoas em situação de rua,  mendigos, homossexuais, indivíduos com comportamentos &amp;quot;desviantes&amp;quot; da moral tradicional, dependentes químicos, alcoólatras ou mesmo pessoas “problemáticas” da família, que se recusavam, por exemplo, a participar de casamentos arranjados, que denunciavam violência sexual sofrida ou eram apenas mulheres que haviam engravidado antes do casamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As instituições privadas multiplicaram-se pelo interior do país, longe dos olhos da fiscalização e dos centros urbanos. Instaladas em locais de difícil acesso, facilitava o ocultamento de violações de direitos humanos e ainda utilizava da conivência dos governos locais. As populações dessas localidades, crentes no saber médico, dificilmente desconfiavam do que poderia acontecer dentro dessas instituições e, quando vazavam denúncias, elas rapidamente podiam ser facilmente manejadas em conluio com os poderes locais. A loucura tornou-se um negócio de massa, com o abrigo precário de centenas de pessoas em galpões, onde a única &amp;quot;terapia&amp;quot; era a contenção química por sedativos baratos ou o uso indiscriminado do eletrochoque para manter a ordem além, é claro, da violência e brutalidade de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Luta Antimanicomial ==&lt;br /&gt;
No final da década de 1970, o modelo de saúde mental começou a dar sinais de exaustão, tanto financeira quanto ética. O Estado já não conseguia arcar com os custos crescentes de um sistema que só expandia o número de crônicos, e as denúncias de maus-tratos começaram a furar o bloqueio da censura, aparecendo em jornais mais prestigiados e em espaços mais amplos do debate social. O estopim para a o início do movimento da reforma psiquiátrica no Brasil começa com uma crise na [[Divisão Nacional de Saúde Mental (DINSAM)]], que havia recebido denúncias de irregularidades no Centro Psiquiátrico Pedro II, no [[Hospital Pinel]], na [[Colônia Juliano Moreira]] e no [[Manicômio Judiciário Heitor Carrilho]]. A denúncia foi acompanhada de uma greve por parte dos funcionários, que exigiam melhorias institucionais e questionavam irregularidades trabalhistas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É dessa crise que surge o [[Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM)]] que, nesse primeiro momento, estão mais preocupados com questões trabalhistas do que com o problema da própria prática psiquiátrica, que vai caracterizar parte dos movimentos antimanicomiais posteriormente. O MTSM se fortalece e consegue espaço no extremamente conservador [[V Congresso Brasileiro de Psiquiatria]], que ocorre em 1978, no que fica conhecido como “congresso da abertura”, num período também de abertura política com o iminente fim do regime militar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda em 1978, um grupo importante de intelectuais vinculados às bases teóricas do [[Movimento Antimanicomial]] participa do [[I Congresso Brasileiro de Psicanálise de Grupos e Instituições]], incluindo [[Franco Basaglia]], [[Felix Guattari]], [[Robert Castel]] e [[Erwin Goffman]], todos eles de grande inspiração e influência para o movimento antimanicomial brasileiro. No ano seguinte, o [[I Congresso Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental]] fortalece a contextação não apenas de problemas trabalhistas, mas do próprio modelo asilar e da forma como a psiquiatria intervinha e oprimia a população marginalizada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação público-privada que alimentava o modelo até então começa a ruir em 1980, com a chamada política da co-gestão interministerial. Nela, um convênio celebrado entre o Ministério da Previdência e Assistência Social com o Ministério da Saúde liquida a &amp;quot;Unidade de Serviço&amp;quot;, a política que permitia a contratação privada de serviços psiquiátricos e que representou o triunfo do público sobre o privado. Membros do MTSM passam a integrar a gestão do atendimento em saúde mental que, por dentro do aparato estatal, começam a implementar uma política de saúde pública baseada em prestação de serviços, cooperação, descentralização e regionalização, propostas que já eram defendidas pelos reformadores. Apesar desses avanços, críticos afirmam que a política de co-gestão apenas visava reformar os serviços, não atingindo o âmago da questão, que seria desconstruir o próprio paradigma psiquiátrico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo de desinstitucionalização de fato começa em 1985, ano marcado pelo fim da Ditadura Militar e pela realização de vários eventos que aprofundam o debate sobre a situação do atendimento. A [[I Conferência Nacional de Saúde Mental]] marca o início da desinstitucionalização devido aos conflitos entre o MTSM, a ABP e grupos não-organicistas que passaram a dirigir o DINSAM. Na conferência, consagrou-se uma reviravolta na perspectiva com a consolidação do lema &amp;quot;por uma sociedade sem manicômios&amp;quot;, rompendo com a lógica tanto privatista quanto estatista e questionando o próprio modelo psiquiátrico tradicional. Este passou a ser amplamente entendido como fenômeno cultural que promove o tratamento moral e o controle dos corpos, uma visão abertamente basagliana e antimanicomial. Alguns entendem que, nesse momento, a tradição anti-institucional que originou os primeiros questionamentos na década de 1970 foi restaurada e fortalecida. Após a Conferência, o próprio MTSM se renovou, se desatrelando do Estado, retomando sua independência e seu papel de transformação social.  A mudança do movimento se consolidou no [[II Congresso Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental]], quando a noção de racionalização e modernização dos serviços que havia caracterizado o período da co-gestão foi recusado em nome de uma pauta anti-institucional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em meados dos anos 1980 começam a surgir novos modelos de atenção à saúde que poderia substituir o modelo psiquiátrico. Em São Paulo é criado o primeiro [[Centro de Atenção Psicossocial (CAPS)]], em 1987. Em Santos, surge o [[Núcleo de Atenção Psicossocial (NAPS)]], em 1989. Estes serviços passaram a ser vistos como os modelos para uma contestação profunda dos manicômios, justificando seu encerramento. Já na década de 1990, o SUS introduziu mecanismos de fiscalização e auditoria que começaram a sufocar financeiramente os asilos privados que não cumpriam níveis mínimos de dignidade. Portarias históricas do Ministério da Saúde, inspiradas na [[Declaração de Caracas (1990)]], passaram a proibir a criação de novos leitos psiquiátricos asilares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após mais de uma década de tramitação e intensos debates no Congresso Nacional, como fruto dos embates históricos iniciados na crise do DINSAM e que atravessaram debates públicos extremamente imporantes, foi promulgada a Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001, que ficou conhecida como [[Lei da Reforma Psiquiátrica]] ou Lei Paulo Delgado, seu autor. Esta legislação se tornou o marco jurídico definitivo da virada assistencial no Brasil. A lei instituiu o direito do paciente de ser tratado em ambiente terapêutico o menos restritivo possível e colocou a internação psiquiátrica como último recurso possível. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para preencher o vazio deixado pelo fechamento dos grandes hospitais, o SUS estruturou a [[Rede de Atenção Psicossocial (RAPS)]], formalizada na década seguinte pela Portaria nº 3.088 de 2011. A RAPS organizou o cuidado em diferentes níveis de complexidade, com os CAPS divididos nas modalidades CAPS I, II, III, CAPSi  e CAPS AD e, por fim, os [[Serviços de Residência Terapêutica (SRT)]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, a luta continua devido a retrocessos observados na segunda metade da década de 2010 e início dos anos 2020. Mudanças nas diretrizes da Política Nacional de Saúde Mental tentaram reintroduzir a centralidade do hospital psiquiátrico e incentivaram o uso de práticas baseadas no isolamento. Além disso, o governo federal passou a financiar massivamente as chamadas [[Comunidades Terapêuticas]], instituições de caráter predominantemente privado e religioso voltadas ao acolhimento de usuários de drogas, de onde emanam graves denúncias de todos os tipos de violação dos direitos humanos e que representam um evidente retrocesso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje, o campo da saúde mental no Brasil vive um embate profundo entre duas visões. De um lado, aqueles que lutam pela consolidação da RAPS, em defesa da clínica da subjetividade, da defesa dos direitos humanos, pela redução de danos e pela inserção social pelo trabalho e pela cultura. Do outro lado observa-se a persistência do &#039;&#039;lobby&#039;&#039; asilar e de setores que buscam a mercantilização do cuidado, por meio do encarceramento, da medicalização extrema do sofrimento psíquico, da higienização dos centros urbanos e do recolhimento dos indesejáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1684</id>
		<title>História da loucura: da Grécia antiga à luta anti-manicomial</title>
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		<updated>2026-05-16T12:34:43Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: Adicionado link para páginas pedidas&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um com finalidade didática, escrito por André Elias Morelli Ribeiro para o curso de Psicologia do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras. Seu uso é aberto, desde que citada a fonte&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Introdução ==&lt;br /&gt;
A história da loucura é, ao mesmo tempo, uma narrativa sobre o modo como diferentes sociedades compreenderam a mente humana e uma reflexão sobre os mecanismos de poder que moldaram práticas de exclusão, cuidado e resistência vinculados à loucura. Iniciando na Grécia antiga até o movimento antimanicomial no Brasil, pode-se observar como a loucura foi interpretada ora como intervenção divina, ora como desvio moral, ora como doença fisiológica, ora como ameaça social. Cada época construiu suas próprias respostas, que variaram entre a integração comunitária, o confinamento brutal e a busca por tratamentos médicos ou espirituais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, a trajetória seguiu de perto os modelos europeus. Do Hospício de Pedro II às colônias agrícolas, passando pela gestão de Juliano Moreira, a psiquiatria nacional oscilou entre avanços humanitários e práticas de exclusão. O período Vargas e o Estado Novo intensificaram o encarceramento, transformando hospitais em verdadeiros campos de concentração administrativos. As décadas seguintes viram a adoção de terapias brutais, como eletrochoques e lobotomias, mas também o surgimento de resistências, como a obra de Nise da Silveira, que introduziu a arte e o afeto como caminhos de cura. A partir dos anos 1960, a privatização da assistência psiquiátrica gerou a chamada “Indústria da Loucura”, marcada por internações lucrativas e violações sistemáticas de direitos humanos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em síntese, o percurso histórico apresentado aqui mostra que a loucura nunca foi apenas um fenômeno clínico mas, antes, um espelho das sociedades, revelando seus medos, suas crenças e suas formas de organizar o convívio humano. De sagrada a temida, de medicalizada a mercantilizada, apresenta-se e se discute como surgiram vozes e práticas que reivindicaram humanidade e liberdade para os considerados loucos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As Loucuras no Mundo Antigo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Grécia antiga ===&lt;br /&gt;
Na Grécia antiga, em certo momento a loucura era considerada uma intervenção dos deuses e, como os gregos era politeístas, a varidade de formas de loucura e intervenção também era bem grande. A loucura poderia ser vista como uma punição. Um exemplo notório é o herói Ajax, filho de Telamão. Após a morte de Aquiles, a armadura do herói foi dada a Odisseu, e a afronta levou Ajax a um estado de fúria e ressentimento. A deusa Atena, intervindo em favor de Odisseu ou para proteger os Aqueus da vingança de Ajax, lançou sobre ele uma cegueira mental. Tomado pela loucura, Ajax massacrou o gado de guerra que havia sido capturado, acreditando que estava matando os líderes aqueus, incluindo Odisseu e Agamenon. Ao recobrar a sanidade e perceber seu ato vergonhoso, o que o levou a cometer suicídio por humilhação. Essa cena ilustra a loucura como uma intervenção divina direta na forma de loucura poderia ser vista como destrutiva e extremamente negativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em outros episódios da mitologia grega, a loucura surge como uma consequência direta de traumas e da perseguição implacável por vingança. Um exemplo fundamental é o de Orestes que, após assassinar sua mãe, Clitemnestra, para vingar a morte de seu pai, Agamenon, passa a ser atormentado pelas Erínias. Essas divindades da vingança, também conhecidas como Fúrias, levaram o herói a um estado de delírio e desespero profundo, personificando a tortura psicológica e a perda da razão como uma forma de acerto de contas espiritual e moral pelo matricídio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura não era unicamente um flagelo ou uma punição. Os gregos  viam a mania, um termo que hoje engloba a loucura, em uma perspectiva dual. Na sua manifestação mais elevada, era considerada uma benção ou inspiração divina. Essa visão positiva estava profundamente ligada ao culto de Dionísio, o deus do vinho, do teatro e do êxtase. Nos rituais dionisíacos, as bacantes e outros seguidores buscavam o êxtase, que é, literalmente, &amp;quot;sair de si&amp;quot;, por meio da dança frenética, música e consumo de vinho, o que era percebido como um estado de comunhão direta e inspirada com a divindade. Longe de ser destrutiva, essa forma de loucura era vista como uma fonte de criatividade, revelação e poder, sendo um caminho para a verdade profética e a expressão artística ligada a Dionísio. Este conceito de mania inspirada também se estendia a outros domínios, como a profecia dos oráculos, que eram vinculados à adoração ao deus Apolo, e mesmo a poesia, onde a perda temporária da razão humana era interpretada como a mente sendo tomada por uma força divina que trazia algum tipo de inspiração.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em certo momento, ainda na Grécia antiga, as ideias sobre a loucura - ou algo que pareça loucura aos olhos contemporâneos - foi modificada graças a Hipócrates, o pai da medicina. A visão de [[Hipócrates]] marcou uma transição crucial para o entendimento da loucura na Grécia Antiga, pois afastou a loucura das concepções divinas e sobrenaturais para uma explicação puramente fisiológica e natural. Ele desenvolveu a [[Teoria dos Quatro Humores]], que se tornou o pilar da medicina ocidental por séculos. Segundo essa teoria, o corpo humano era composto por quatro fluidos essenciais (humores): sangue, fleuma, bile amarela e bile negra. A saúde mental e física dependia do equilíbrio harmonioso desses humores. A loucura, ou qualquer doença mental, era, portanto, interpretada como o resultado de um desequilíbrio, como o excesso de bile negra causando a melancolia (depressão), ou o desarranjo da fleuma e da bile amarela, que poderiam levar a estados de mania e frenesi. Com isso, Hipócrates postulou que a loucura não era uma maldição dos deuses, mas sim uma doença com origem no corpo. Essa abordagem naturalista permitiu que a loucura passasse a ser tratada com métodos como dietas, exercícios e remédios, no lugar de rituais religiosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tradição bíblica ===&lt;br /&gt;
Na tradição bíblica, escrita em contextos e culturas não europeias, a loucura também é frequentemente retratada como uma forma de intervenção ou punição divina. Um dos episódios mais emblemáticos é a história do rei Nabucodonosor II, relatada no Livro de Daniel. De acordo com o texto, devido ao seu orgulho excessivo e sua recusa em reconhecer a soberania de Deus, o rei foi acometido por uma forma de loucura que o levou a viver como um animal, alimentando-se de ervas e deixando seus cabelos e unhas crescerem sem controle. Na psicologia moderna, esse estado em que um indivíduo acredita ter se transformado em um animal é conhecido como licantropia clínica, uma condição rara. A loucura, conforme emerge na descrição bíblica, emerge ligada à perda da razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, a tradição bíblica também apresenta um paradoxo. No Novo Testamento, escrito no contexto do mundo greco-romano, o que é considerado &#039;loucura&#039; pelos homens revela-se a suprema sabedoria divina. Essa ideia é desenvolvida pelo apóstolo Paulo em sua Primeira Carta aos Coríntios. Na passagem, ele afirma: &#039;Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens&#039; (1 Coríntios 1:25). Paulo usa o termo &#039;&#039;moria&#039;&#039; (loucura, tolice) para contrastar a sabedoria humana que, na época do texto, era representada pela filosofia e retórica grega. A mensagem da cruz parecia ilógica e insensata aos olhos dos não cristãos, que debochavam do fato do profeta ter sido capturado e morto pelos romanos. Assim, a loucura deixa de ser apenas uma punição para se tornar uma lente através da qual a verdadeira sabedoria, ou seja, a salvação, é revelada, invertendo a hierarquia de valores do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Pérsia ===&lt;br /&gt;
Na Pérsia, a visão da loucura e do comportamento irracional foi moldada por seu profundo dualismo religioso e, posteriormente, pelas tradições islâmicas que se seguiram à conquista árabe. O zoroastrismo, a antiga religião persa fundada por Zoroastro (Zaratustra), transformou o politeísmo em um dualismo cósmico centralizado no conflito eterno entre Ahura Mazda (Ormazd), o criador da vida, luz e verdade, e Angra Mainyu (Ahriman), a escuridão e a mentira. Neste cenário, o mundo material é o campo de batalha entre os dois. Ahriman buscava corromper tudo o que Ormazd havia criado. Embora o texto não defina a loucura diretamente, o comportamento irracional e a desrazão poderiam ser facilmente associados ao domínio de Ahriman e à mentira (&#039;&#039;druj&#039;&#039;), enquanto a sanidade e a pureza eram atributos de Ormazd. A batalha contra essa corrupção exigia que os adoradores de Ormazd permanecessem verdadeiros e evitassem poluir o fogo e a terra sagrada, indicando que a pureza mental e ritual era uma defesa contra as forças do mal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Islã ===&lt;br /&gt;
Na cultura islãmica, de forma geral e bastante resumida, o comportamento considerado irracional era frequentemente explicado pela crença nos &#039;&#039;djinn&#039;&#039;, espíritos errantes que habitavam o deserto e certos lugares considerados místicos e que podiam invadir a mente humana, causando o que a sociedade ocidental moderna chamaria de insanidade ou, talvez, distúrbio emocional, cujo tratamento era o exorcismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura também apareceu em narrativas culturais associadas aos povos, de forma a sugerir causas e curas mais mundanas. O famoso conto persa de As Mil e Uma Noites relata a história do rei Shahriyar, que, convencido da inevitável traição feminina, cai em uma loucura paranóica que o leva a se casar com uma virgem todas as noites e, pela manhã, assassiná-la. Sua &amp;quot;cura&amp;quot; é alcançada através da engenhosidade e paciência humana por meio de uma dessas esposas, Scheherazade, que usa a arte de contar histórias para retardar sua execução por &amp;quot;mil e uma noites&amp;quot;, período em que sua paranoia é gradualmente desfeita. A história sugere que a narrativa e o tempo podem curar a loucura causada por trauma psicológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As Loucuras na Idade Média ==&lt;br /&gt;
A transição para a Idade Média é marcada pelo colapso do Império Romano do Ocidente (476 d.C.), que trouxe profundas transformações políticas e sociais. O fim do governo centralizado romano levou à fragmentação do poder e ao surgimento do sistema feudal, onde a administração das terras e a autoridade passaram para as mãos de senhores locais, muitos deles antigos oficiais romanos. Este período também é caracterizado por um notável declínio na vida urbana e nos grandes centros intelectuais. O colpaso das instituições romanas deu lugar à ascensão e consolidação da única instituição internacional grande e organizada que havia sobrado, a Igreja Católica, que se tornou a principal instituição, com poder tanto político quanto cultural e simbólico. Houve ainda uma perda gradual da tradição cultural greco-romana e, consequentemente, um afastamento das explicações naturalistas de Hipócrates, com exceção do pequeno renascimento do século XII e retomadas pontuais da sabedoria grega. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a hegemonia da Igreja Católica, a loucura tendeu a ser novamente interpretada sob uma lente teológica, sendo vista como uma manifestação de forças sobrenaturais ou desvios morais. Nesse contexto, certas vezes a loucura era interpretada como a intervenção de Satanás ou como possessão demoníaca, exigindo rituais de exorcismo para a cura. Em outros momentos, era vista como uma prova espiritual enviada por Deus ou como um efeito direto do pecado na alma do indivíduo. Havia também explicações que a tratavam como uma fragilidade da vontade humana, como no caso do que chamaríamos hoje de compulsões, misturando elementos da antiga tradição grega com aspectos da teologia cristã. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Socialmente, a gestão da loucura na Idade Média também passou por diferentes fases e transformações, dependendo do local e da época. Havia casos em que os considerados loucos eram apenas torturados e trancafiados, métodos considerados eficazes para expulsão de espíritos malignos, por exemplo. Contudo, em muitos outros casos, os considerados loucos conviviam de forma mais ou menos harmoniosa com o resto da comunidade, a depender de suas capacidades e possibilidades, e certos “desvios” eram perdoados devido à sua condição peculiar, sem a necessidade imediata de uma exclusão radical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Nau dos Loucos ===&lt;br /&gt;
Um caso notável e emblemático da gestão da loucura nesse período é a [[Nau dos Loucos]] (&#039;&#039;Stultifera Navis&#039;&#039;), conforme trabalhado por [[Michel Foucault]]. Anteriormente ao modelo de exclusão-repressão que viria a se consolidar na Idade Clássica, a loucura viveu o que se pode chamar de seus &amp;quot;dias de glória&amp;quot; na transição para a Renascença. Nesse contexto, o louco poderia ser visto como um sábio, um místico, um bobo da corte ou simplesmente um excêntrico que estava, de certa forma, integrado ao tecido social.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Nau dos Loucos simbolizava uma existência errante, onde o louco era confiado à água e ao navio para ser levado de uma cidade a outra, mantendo-o em um estado de exclusão simbólica, mas ainda assim em movimento e circulação. Para Foucault, essa experiência trágica da loucura permitia que o insano portasse uma forma de lucidez em sua insensatez, revelando verdades que a razão comum não ousava enunciar. O louco via através das ilusões mundanas, aproximando-se de uma verdade profética ou ética que seria progressivamente silenciada nos séculos seguintes pela ascensão do saber médico e da racionalidade científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Santa Dimpna e Geel ===&lt;br /&gt;
Outro acontecimento relevante da Idade Média para a compreensão da loucura é o episódio de [[Santa Dimpna]]. Nascida no século VII na Irlanda, ela era filha de um rei pagão e de uma mãe cristã devota, de quem herdou sua fé e pela qual decidiu fazer votos de castidade. Após a morte prematura da mãe, seu pai, mergulhado em um profundo luto, decidiu que Dimpna era a única mulher com beleza comparável à da falecida rainha e insistiu em se casar com a própria filha, o que seria considerado escandaloso também para aquela cultura. Diante dessa perseguição incestuosa, Dimpna fugiu da Irlanda acompanhada de seu confessor, o padre Gereberno, e de dois servos fiéis. O grupo cruzou o mar e estabeleceu-se em [[Geel]], um minúsculo vilarejo na atual Bélgica, onde Dimpna se dedicou ao cuidado dos pobres e doentes mentais. No entanto, o rei conseguiu encontrá-los e, após a recusa de Dimpna tanto em retornar para a Irlanda quanto se casar com o pai, ordenou a execução de Gereberno, enquanto ele mesmo decapitou a filha, tornando a menina de 15 anos de idade numa mártir cristã. Após sua morte, relatos de curas milagrosas de pessoas com distúrbios mentais e epilepsia começaram a ocorrer junto ao seu túmulo, o que a tornou a padroeira dos doentes mentais e o local um espaço de peregrinação ligado à questão da saúde mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O legado de Santa Dimpna em Geel deu origem a um modelo para a psiquiatria moderna pois, devido à devoção e adoração à Santa Dimpna, a cidade transformou-se em um santuário onde os pacientes não eram trancafiados, mas acolhidos em lares de famílias locais como &amp;quot;hóspedes&amp;quot;. Esse sistema de cuidado comunitário e desinstitucionalização, que persiste há séculos, é considerado um dos precursores do tratamento humanizado e da reabilitação psicossocial na saúde mental contemporânea.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Idade Clássica: a nova era da loucura encarcerada ==&lt;br /&gt;
A partir do século XVII, um período em que o filósofo Michel Foucault denominou como &amp;quot;A Época Clássica&amp;quot;, a forma de entender e lidar com a loucura passa por uma nova mudança devido ao ingresso da razão como centro e alma do pensamento europeu, em substituição ao dogmatismo religioso e ao conhecimento da igreja. Esta mudança não é brusca, mas lenta e gradual, porém suas marcas serão duradouras e serão sentidas por quase toda a Europa. Para essa nova e nascente razão, a loucura seria seu oposto direto. Se o homem era definido pela sua capacidade racional e sua utilidade produtiva, o louco era, portanto, como um &amp;quot;não-homem&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a solução para a não-razão era a internação, que não buscava a cura, mas a neutralização do irracional. O silenciamento da loucura era necessário para que a ordem social pudesse florescer. Os campos e cidades deveriam ser espaços de circulação de mercadorias pelas mãos de cidadãos produtivos, e qualquer elemento que atrapalhasse essa dinâmica deveria ser guardado em instituições que funcionavam como uma guarda contra o risco social que tais pessoas ofereciam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Relatos da época descrevem cenários terríveis sobre as condições de internação dos loucos. Os internos eram frequentemente mantidos em celas úmidas e insalubres, muitas vezes acorrentados às paredes. O uso de chicotes e outras punições corporais era justificado pela crença de que o louco, por ter perdido a razão, teria a resistência física de um animal, não sentindo frio ou dor da mesma forma que uma pessoa &amp;quot;normal&amp;quot;. Além disso, as instituições funcionavam sob uma lógica de vigilância constante. Não se tratava de observar para entender a mente, mas para garantir que o corpo anormal permanecesse contido e, no máximo possível, docilizado. Foi dentro desse ambiente de absoluta degradação e mistura indiscriminada de diferentes &amp;quot;tipos&amp;quot; de desviantes que a consciência médica começou a germinar, ainda que de forma incipiente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== França ===&lt;br /&gt;
O ano de 1656 marca um divisor de águas simbólico para o modelo de confinamento asilar no mundo todo, com a criação do Hôpital Général (Hospital Geral) em Paris, por um edito real do rei Luís XIV. É importante entender que um hospital geral deste período não é como um hospital moderno, ou seja, uma instituição médica e voltada para a compreensão da doença e a prática do tratamento e cura. Ele estava mais próximo de uma estrutura administrativa e, de certo modo, semi-judiciária. Isso ocorria porque o interesse não estava em “curar” ou “tratar” ninguém mas, antes disso, perseguir o interesse do Estado de &amp;quot;limpar&amp;quot; as ruas de Paris de tudo o que era considerado improdutivo ou escandaloso. Era um período de abundância material, grandes gastos estatais e de uma imensa riqueza do império colonial francês, e desvios nessa ordem eram vistos como perigosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes tais hospitais gerais eram confinados, todos juntos, grupos totalmente diferentes, tais como pobres, mendigos, desempregados, libertinos, prostitutas, alquimistas, opositores políticos e, claro, também os considerados loucos. Em suma, um depósito de indesejados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que começou em Paris se tornou um modelo para outros lugares sobre como fazer a gestão da miséria e da “desrazão”, num forte deslocamento do que se via na Idade Média. O louco, antes tendo algo de profético, místico ou talvez apenas uma excentricidade da vida medieval campesina, se torna uma questão político-administrativa. Essa mudança importante marca uma migração para a possibilidade de institucionalização daquilo que era considerado errante ou, de alguma forma, desagradável e, assim passível de ser alvo de uma forma de gestão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em Paris, as duas principais unidades do Hospital Geral se tornaram emblemáticas e simbólicas. A [[Salpêtrière]], que era destinada às mulheres, e o hospital [[Bicêtre]], destinado aos homens. Ambas as instituições não ofereciam qualquer forma de tratamento. Eram basicamente depósitos humanos, onde o louco poderia acabar acorrentado ao lado de criminosos, por exemplo. O critério de internação não era o diagnóstico clínico, mesmo porque simplesmente ele nem existia, mas a incapacidade de se ajustar às normas de trabalho e à moralidade da época.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Alemanha ===&lt;br /&gt;
Na Alemanha, surgiram as Zuchthäusern, que seriam as [[Casas de Correção (Zuchthäusern)|Casas de Correção]]. Cidades como Hamburgo e Bremen estabeleceram esses locais onde a loucura era tratada através do trabalho forçado. Eles acreditavam que o ócio era a raiz do mal e que o confinamento servia para reintegrar o indivíduo à lógica da produtividade. De qualquer forma, uma vez enclausurado, ele permanecia escondido da visão da população.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Inglaterra ===&lt;br /&gt;
Na Inglaterra, o sistema das Workhouses (Casas de Trabalho) cumpria um papel semelhante ao modelo alemão. No entanto, Londres já possuía o [[Bethlem Royal Hospital (Bedlam)|Bethlem Royal Hospital]], conhecido popularmente como Bedlam. No século XVII e XVIII, Bedlam se tornou um espetáculo de horror, onde o público podia pagar para observar os internos como se fossem animais em um zoológico. A loucura agora um objeto de uma forma de exibição degradante e mantida atrás de grades e ferros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Portugal ===&lt;br /&gt;
Em Portugal a gestão dos &amp;quot;desviantes&amp;quot; recaiu fortemente sobre as Santas Casas da Misericórdia. O [[Hospital Real de Todos-os-Santos]], fundado em Lisboa em 1492 e inaugurado em 1501, se tornou o epicentro do tratamento (ou confinamento) dos loucos no país. Dentro deste hospital, existiam as chamadas &amp;quot;[[Casas de Doidos]]&amp;quot;, destinados àqueles que haviam “perdido a luz da razão”. Seguindo o padrão europeu, o hospital não separava rigidamente o louco por diagnóstico. Eles dividiam espaço com indigentes e enfermos de diversas naturezas, embora as &amp;quot;casas de doidos&amp;quot; fossem áreas de maior isolamento devido à agitação dos internos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XVIII português, a internação era, acima de tudo, uma solução para a mendicância e, por vezes, para o alcoolismo. O louco oriundo de uma família com posses era mantido nas próprias casas, muitas vezes escondido em sótãos ou anexos e até mesmo acorrentados. Já o &amp;quot;louco pobre&amp;quot;, que não poderiam ser cuidados por seus familiares, acabava nos hospitais reais ou mesmo nas cadeias, a depender de uma série de fatores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Nascimento da Psiquiatria ==&lt;br /&gt;
=== Pinel e a criação da psiquiatria nosográfica ===&lt;br /&gt;
É na virada do século XVIII para o XIX que nasce a psiquiatria como um campo autônomo do saber e da prática médica. Esta mudança fundamental é protagonizada por duas figuras centrais da medicina francesa: [[Philippe Pinel]] e seu discípulo, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]]. Juntos, eles transformaram o hospital de depósito de insanos e indesejáveis em um verdadeiro hospital, em que o louco e o alienado poderiam receber um tratamento racional e científico, em substituição às correntes, à disciplina e ao silenciamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A emergência da psiquiatria como campo autônomo teve como fundamento científico inicial a observação clínica sistemática dentro do asilo. Este era concebido como um laboratório, onde o alienista poderia estudar a loucura em seu estado puro, separada das influências do mundo exterior. A principal questão científica e prática que justificava essa nova ciência era desenvolvida e aplicada de forma sistemática era a chamada nosografia ou diagnóstico. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pinel, em seu &#039;&#039;Traité&#039;&#039; de 1801, classificou a loucura com base em critérios sintomatológicos, seguindo um procedimento comparativo semelhante ao das ciências naturais. O desafio central, que persistiria ao longo do século XIX, era a ambiguidade constante entre a busca por uma sede orgânica, ou seja, um “local físico-biológico” da loucura, junto da necessidade de uma regulação de caráter moral. O tratamento apoiava-se na moralidade para combater as causas que eram, elas próprias, consideradas morais, mas algo estava também no corpo do doente. Isso mostra que a nova psiquiatria de Pinel era a mistura de medicina com moralidade. Este enfoque resultou na valorização do exame clínico pelos psiquiatras francófonos, permitindo a união da observação clínica com a formulação de hipóteses.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1793, em meio ao fervor da Revolução Francesa, Philippe Pinel foi nomeado médico-chefe do Hospital de Bicêtre e, posteriormente, da Salpêtrière. O cenário que encontrou era o ápice do &amp;quot;Grande Enclausuramento&amp;quot;, ou seja, homens e mulheres amontoados nas condições já descritas, com destaque para as correntes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A intervenção de Pinel, simbolizada pelo gesto de “libertar os loucos de suas correntes”, não foi apenas um ato humanitário, mas também uma decisão de natureza epistemológica. Pinel acreditava que a loucura não era uma possessão demoníaca nem uma degeneração animal irreversível, mas uma alienação mental, em outras palavras, uma perturbação das faculdades intelectuais e afetivas que mantinha o indivíduo como se fosse &amp;quot;estrangeiro&amp;quot;, ou alienado, de si mesmo e da sociedade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O pilar para a reforma psiquiátrica proposta por Pinel era o tratamento moral, e se baseava em três pilares fundamentais. O primeiro, o isolamento terapêutico. Era necessário que o paciente ficasse separado de seu ambiente que, segundo o médico, era a fonte de sua excitação e desequilíbrio. O segundo pilar era a autoridade médica, onde este deveria atuar como um pai ao mesmo tempo severo e justo, usando a persuasão, a benevolência e, se fosse necessário, a firmeza para restaurar a razão do paciente. Por fim, a disciplina e o trabalho, com a aplicação rigorosa de horários e valorização de atividades produtivas, o que ocuparia a mente alienada e, assim, combateria a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em seus estudos, Pinel identificou quatro tipos de loucura, quais sejam, a [[melancolia]], a [[mania]], a [[demência]] e a [[idiotia]], cada uma com suas questões próprias específicas e metodologias de tratamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Esquirol e a consolidação do modelo ===&lt;br /&gt;
Se Pinel era considerado o visionário e o libertador, [[Jean-Étienne Esquirol|Jean-Étienne Dominique Esquirol]] foi o grande organizador e o clínico meticuloso. Discípulo de Pinel, Esquirol sucedeu seu mestre na Salpêtrière e deu à psiquiatria a robustez científica e administrativa de que ela necessitava. Esquirol compreendeu que a eficácia do tratamento moral dependia da arquitetura hospitalar. Para ele, o hospital não era apenas um prédio onde ocorria o tratamento, mas também um instrumento de cura. Ele desenvolveu o modelo de pavilhões, permitindo a separação dos pacientes por tipo de patologia, o que reforçou a própria ideia de diagnóstico e de avaliação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Esquirol refinou as definições clínicas de Pinel. Foi ele quem estabeleceu a distinção clássica entre alucinação (uma percepção sem objeto) e ilusão (uma percepção deformada de um objeto real), entre outros pontos que, na sua época, foram considerados avanços exemplares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Legalização da Alienação ===&lt;br /&gt;
O esforço médico, político e administrativo de Esquirol na continuação do trabalho de Pinel culminou na promulgação da lei francesa de 30 de Junho de 1838, a primeira grande legislação psiquiátrica do mundo moderno. Esta lei estabeleceu a obrigatoriedade de cada departamento francês possuir um asilo e regulamentou as condições de internação e interdição. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A princípio, embora também protegesse o alienado do arbítrio e de outras violências que poderiam ser cometidos contra os loucos nas províncias e mesmo nas periferias de Paris, a lei também deu total poder ao médico psiquiatra. Era ele quem poderia decidir quem deveria ou não ser privado de sua liberdade. Com isso, a psiquiatria tornava-se, assim, um braço do Estado na gestão da ordem social mas, ao contrário do polícia e do inquérito polícial, que exigia provas independentes e a atuação do sistema judiciário, o psiquiatra estava coberto sob o manto da ciência médica, o que dava a ele poderes gigantescos de decidir entre a alienação e a razão. Isso marcou profundamente a forma como a loucura e a saúde mental passaram a ser compreendidas e tratadas nas décadas seguintes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Emil Kraepelin e uma Nova Racionalização ===&lt;br /&gt;
Apesar da forte valorização da psiquiatria francesa na constituição da psiquiatria contemporânea, uma das principais contribuições para o ramo em sua forma atual foi empreendida por um alemão, [[Emil Kraepelin]]. No final do século XIX, a psiquiatria alemã estava dividida entre os &amp;quot;psiquistas&amp;quot;, que viam a loucura como uma doença da alma ou um mal moral, a exemplo dos franceses; e os &amp;quot;somatistas&amp;quot;, que buscavam no cérebro a origem dos sintomas das doenças mentais. Kraepelin superou esse impasse ao focar não na anatomia, mas na evolução temporal das doenças. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin passou a entender que sintomas isolados, como ouvir vozes ou acreditar ser uma personalidade histórica, não eram suficientes para definir uma doença, mas seu desenvolvimento ao longo do tempo. Com essa premissa em mãos, Kraepelin introduziu as &amp;quot;cartas diagnósticas&amp;quot; (&#039;&#039;Zählkarten&#039;&#039;), um sistema de fichamento padronizado onde se registrava a história de vida do paciente, seus antecedentes familiares, os sintomas detalhados e, por fim, o desfecho da doença. Isso transformou a clínica psiquiátrica, pois articulava neuroanatomia e psicologia experimental, já que ele fora aluno de [[Wilhelm Wundt|Wundt]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin também é considerado o pioneiro da [[Psiquiatria Transcultural]]. Visando provar que as categorias diagnósticas psiquiátricas seriam universais, ele viajou para lugares como a ilha de Java (Indonésia) em 1904 para estudar a manifestação da loucura em populações não europeias. Ele concluiu que, ainda que os conteúdos dos delírios mudassem conforme a cultura, a estrutura fundamental da loucura permanecia a mesma, o que reforçou sua tese de que eram doenças biológicas da espécie humana. Apesar disso, no final de sua vida ele se transformou um higienista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O I Congresso Internacional de Psiquiatria ===&lt;br /&gt;
Realizado em Paris em agosto de 1950, o [[I Congresso Internacional de Psiquiatria]] foi projetado especificamente para unificar, debater e institucionalizar a psiquiatria como uma disciplina médica global e autônoma. Durante o Congresso foram colocados, frente a frente, as grandes correntes que disputavam a hegemonia do entendimento da mente humana na época, a saber, as correntes psicodinâmica e a biológica. De forma menor, uma corrente social e anti-manicomial também se fez presente. O resultado do embate foi uma conciliação entre as duas maiores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um dos resultados do Congresso de 1950 foi a pressão para que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Associação Psiquiátrica Americana (APA) criassem manuais estatísticos e classificatórios unificados, o que resultou na inserção de uma seção robusta de transtornos mentais na CID-6 (Classificação Internacional de Doenças) e na publicação do primeiro [[DSM]], em 1952.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro resultado importante do evento foi a fundação da Associação Mundial de Psiquiatria ([[World Psychiatric Association (WPA)|World Psychiatric Association - WPA]]). Com isso, a psiquiatria deixou de ser um conjunto de escolas nacionais isoladas, como as escolas francesa, alemã, anglo-saxã, entre outras, para se tornar uma corporação científica internacional, com congressos periódicos, periódicos indexados e diretrizes globais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Loucura no Brasil ==&lt;br /&gt;
Até o início do século XIX, o Brasil colonial lidava com seus insanos de forma semelhante ao que ocorria na Europa. As famílias ricas mantinham seus parentes loucos em &amp;quot;quartos fortes&amp;quot;, privando-os mais ou menos da vida comunitária e familiar, a depender das circunstâncias, de forma semelhante ao que acontecia em Portugal. Já os pobres eram entregues à caridade das [[Santas Casas de Misericórdia]] ou vagavam pelas ruas, sendo ocasionalmente recolhidos a cadeias públicas quando perturbavam a ordem, indo e vindo das frágeis instituições brasileiras, sofrendo abusos e violências de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A transferência da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 gerou a necessidade de transformar a capital colonial em uma moderna metrópole europeia. Sob a influência do Iluminismo tardio e das notícias que chegavam sobre as reformas de Pinel na França, a elite médica brasileira, que havia estudado sobretudo na França e em Portugal, começou a pressionar o poder público pela criação de espaços específicos para o tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1830, a criação da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (que viria a ser a [[Academia Nacional de Medicina]]) foi o marco institucional dessa pressão. Esse movimento político funcionou. O momento decisivo ocorreu em 18 de julho de 1841, quando o Imperador D. Pedro II, em comemoração à sua coroação, assinou o decreto de fundação do primeiro hospital psiquiátrico do Brasil e da América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Hospício de Pedro II, ou o Palácio dos Loucos (1852–1889) ===&lt;br /&gt;
Inaugurado apenas em 8 de dezembro de 1852, o [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)|Hospício de Pedro II]] era gerido pela Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, que por anos geriu grande parte da loucura brasileira. Seu provedor era o médico [[José Clemente Pereira]], que era responsável por todos os aspectos da instituição, desde os médicos até os administrativos. Embora a gestão administrativa fosse religiosa, o saber médico tinha muito espaço, com nomes como [[Manoel Feliciano Pereira de Carvalho]], que tentaram implementar o &amp;quot;tratamento moral&amp;quot; inspirado em Esquirol. Apesar dos esforços, muitos relatos de abusos e de condições precárias mostravam a dificuldade em implementar um modelo brasileiro de tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a Proclamação da República em 1889, o Hospício de Pedro II foi desvinculado da Santa Casa e renomeado como [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)]]. Este foi um período de maior laicização e pela busca por um maior rigor científico, o que não aconteceu por completo, em grande parte devido à falta de profissionais adequadamente treinados para a questão. Apesar disso, o Brasil já possuía uma cátedra de psiquiatria desde 1883, ocupada por João Carlos Teixeira Brandão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diante dos altíssimos custos em manter o Hospital, surgem as colônias agrícolas como alternativa ao confinamento urbano. Em 1884, já havia sido inaugurada a [[Colônia de São Bento]] e, em 1890, a [[Colônia de Conde de Mesquita]], na Ilha do Governador. A ideia era que o trabalho na terra poderia colaborar na cura, além de os produtos deste trabalho poderiam ser consumidos no local, ajudando na manutenção dos espaços. Apesar dessas transformações e de evidentes melhorias, os relatos de época mostram que não acontecia nenhuma das duas coisas, nem produção agrícola suficiente, nem um processo terapêutico efetivo, mas entendia-se que a colônia agrícola era melhor do que o confinamento do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Era Juliano Moreira ===&lt;br /&gt;
Em 1903, o médico baiano [[Juliano Moreira]] assume a direção do Hospital Nacional de Alienados. Negro, de origem humilde e dotado de uma erudição impressionante, ele revolucionou a assistência brasileira aos alienados, sendo reconhecido internacionalmente como um dos grandes psiquiatras de seu tempo. Ele se tornaria o principal médico alienista do Brasil, tornando-se referência para todo o país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Moreira aboliu definitivamente o uso de camisas de força e as grades nas janelas, num gesto que se assemelhava àquele de Pinel, enfatizando que o hospital era um local de tratamento e cura, e não uma prisão ou um depósito de indesejados. Além disso, ele trouxe para o Brasil a nosologia de Emil Kraepelin, um psiquiatra alemão considerado o pai da psiquiatria moderna, da psicofarmacologia e da genética psiquiátrica, o que seria uma modernização do modelo francês adotado até então. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a gestão Moreira ocorreram várias mudanças. Foi criado o [[Pavilhão Bourneville]] para crianças com deficiência intelectual. Além disso, fundou-se em 1921 o [[Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro]], o primeiro do país, sob a liderança de [[Heitor Carrilho]]. Dentro dos hospitais incentivou-se a pesquisa laboratorial e anátomo-patológica, o que também abriu espaço para a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A influência e o prestígio de Juliano Moreira se espalhou pelo Brasil. Em São Paulo, destacou-se a figura de [[Franco da Rocha|Francisco Franco da Rocha]], que fundou em 1898 o [[Hospital do Juquery]]. O Juquery, como ficou conhecido, tornou-se uma &amp;quot;cidade-asilo&amp;quot;, chegando a abrigar dezenas de milhares de pacientes em um modelo que mesclava pavilhôes médicos com imensas colônias agrícolas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste período, a psiquiatria brasileira flertou intensamente com as teorias da degenerescência (de Morel e Magnan) e com a eugenia. Médicos como [[Renato Kehl]], bem como a criação da [[Liga Brasileira de Higiene Mental]] (1923), uma organização higienista fundada por [[Gustavo Riedel]], começaram a ver a loucura não apenas como um problema individual, mas como um risco biológico à raça brasileira. A higiene mental passou a atuar preventivamente em escolas e fábricas, buscando identificar &amp;quot;pré-delinquentes&amp;quot; e &amp;quot;personalidades anormais&amp;quot;. Apesar de não ter conseguido desenvolver muitas políticas efetivas, os eugenistas brasileiros eram ativos e influentes em muitos círculos decisórios importantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A criação de hospitais não se limitou a São Paulo e Rio de Janeiro. Em  1903, o governo de Minas Gerais fundou o [[Hospital Psiquiátrico de Barbacena]], que mais tarde seria palco de uma das maiores tragédias humanitárias do país. Em Pernambuco, o [[Hospital Ulysses Pernambucano]] foi fundado pelo médico de mesmo nome, que começou a desenvolver uma psiquiatria mais voltada para o social e para a prevenção no final dos anos 1920. Hospitais na Bahia, Rio Grande do Sul, entre outros, também foram criados, seguindo o pioneirismo do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Era Vargas e além: o início do encarceramento ===&lt;br /&gt;
Com a Revolução de 1930, o projeto de nação de Vargas exigia um povo saudável e produtivo, devido à visão desenvolvimentista suportada pela Aliança Liberal, que o elegeu. A loucura deixou de ser apenas uma questão de ordem pública ou um aspecto da caridade para se tornar um problema de segurança nacional e de saúde pública. Em 1941, no âmbito do Estado Novo, foi criado o [[Serviço Nacional de Doenças Mentais (SNDM)]], substituindo o antigo modelo de assistência a alienados, que era fragmentado nas diferentes províncias. Dessa maneira, Vargas criou uma diretriz federal centralizada para a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a Liga Brasileira de Higiene Mental ganhou fôlego. O foco deslocou-se do hospital para a prevenção na sociedade. A psiquiatria não deveria se limitar aos hospitais, mas também atuar na escola, na fábrica e na família, buscando limpar a nação e extirpar o que chamavam de &amp;quot;elementos degenerados&amp;quot;. O médico Gustavo Riedel e seus sucessores defendiam que o Estado deveria intervir precocemente para evitar que o &amp;quot;anormal&amp;quot; se tornasse um fardo para a máquina pública.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi durante as décadas de 1930 e 1940 que o modelo de colônia agrícola, antes visto como terapêutico e de assistência à manutenção hospitalar, atingiu proporções industriais. O que se viu em Barbacena e em instituições como o Juquery em São Paulo, foi a transformação do hospital em, praticamente, um campo de concentração administrativo. A internação não dependia mais de um diagnóstico médico rigoroso, que na prática ainda era frágil e baseado em elementos pouco científicos. Bastava ser considerado &amp;quot;socialmente inconveniente&amp;quot; para correr-se o risco de ir parar numa instituições dessas. Assim, pobres, prostitutas, homossexuais, militantes políticos e mães solteiras eram enviados para essas instituições, onde a sobrevivência era a exceção. Estima-se que, no auge do descaso, o Hospital de Barbacena registrava um número alarmante de óbitos por frio, fome e doenças evitáveis, cujos corpos eram, por vezes, vendidos para faculdades de medicina. Situações similares aconteciam em outras instituições do tipo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tratamentos Brutais e os Modos de Resistência ===&lt;br /&gt;
Para além do horror asilar, o período entre 1930 e 1950 também foi marcado pela introdução de terapias biológicas drásticas, importadas da Europa, conhecidas como [[somatoterapias]]. Com uma psicofarmacologia pouco eficaz, os médicos buscavam &amp;quot;chacoalhar&amp;quot; o organismo, produzindo nele como um choque que pudesse restaurar a razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma dessas técnicas era a [[insulinoterapia]]. Introduzida na Europa pelo médico austríaco Manfred Sakel (1900–1957) em Viena, no início dos anos 1930, representou uma das primeiras e mais invasivas formas de somatoterapia. Originalmente destinada ao tratamento da [[esquizofrenia]], a técnica consistia na administração de doses maciças de insulina no paciente, provocando um estado de hipoglicemia profunda que levava o paciente ao coma. Na volta desse estado, se esperava que o indivíduo “restaurasse” a razão por conta do choque orgânico violento que havia vivenciado. O procedimento era extremamente perigoso e estava associado a uma alta taxa de mortalidade e morbidade devido às convulsões e aos possíveis danos cerebrais. Apesar dos riscos, o método foi amplamente adotado no mundo todo, incluindo o Brasil, onde foi usado em grandes instituições de confinamento, como o Hospital Nacional de Alienados (HNA), no Hospital Juquery, entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que passou a ser muito utilizada foi a [[Eletroconvulsoterapia]], ou simplesmente o eletrochoque. Introduzido no Brasil logo após sua invenção na Itália (1938), consiste em colocar eletrodos carregados com correntes elétricas em lados opostos, na lateral da cabeça, de modo que uma forte corrente elétrica atravessasse o cérebro. A duração e a intensidade podiam variar, mas relatos de mais de trinta minutos de choques violentos não eram incomuns. Sua brutalidade era tamanha que exigia que sua vítima fosse fortemente amarrada. Tornou-se uma ferramenta onipresente nos hospitais, muitas vezes aplicada sem anestesia e como método de punição, desvirtuando sua finalidade clínica já questionável e usada, basicamente, como ferramenta de tortura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que ingressou no Brasil nesse período foi a [[lobotomia]], um procedimento cirúrgico que consistia em apenas retirar um pedaço do cérebro do paciente. Eles foram realizados em larga escala em hospitais como o Juquery e no Hospital Pedro II, buscando a docilização de pacientes crônicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em oposição à violência do isolamento oferecido por essas instituições, surge a figura de [[Nise da Silveira]]. Em 1946, após ter sido presa pelo regime de Vargas por suas inclinações políticas, Nise assumiu o Setor de Terapêutica Ocupacional do [[Centro Psiquiátrico Nacional]] (Engenho de Dentro), no Rio de Janeiro. Ela se recusou a usar eletrochoques e lobotomias, introduzindo a arte e o afeto como mediadores da cura. Ela fundou o [[Museu de Imagens do Inconsciente (MIS)|Museu de Imagens do Inconsciente]] em 1952, onde demonstrou, através das pinturas e esculturas de pacientes como [[Arthur Bispo do Rosario]], que o louco preservava uma riqueza simbólica e uma humanidade que a psiquiatria tradicional tentava apagar. Sua colaboração com [[Carl Jung]] colocou a experiência brasileira no mapa da psicologia analítica mundial, provando que o tratamento em liberdade e através da expressão criativa era viável.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Criação da Indústria da Loucura ===&lt;br /&gt;
No final da década de 1950 e início da de 1960, durante o governo de Juscelino Kubitschek e o breve período democrático posterior, o Brasil viu o surgimento de uma nova e ainda mais perversa dinâmica: a Indústria da Loucura. A assistência psiquiátrica, antes quase totalmente pública ou baseada no assistencialismo das Santas Casas, começou a ser privatizada. Com o crescimento dos institutos de previdência (IAPs), o Estado passou a pagar hospitais privados por dia de internação. Isso criou um incentivo perverso: quanto mais tempo o paciente ficasse internado e quanto menos recursos fossem gastos com ele, maior o lucro das clínicas privadas. Esse modelo, conhecido como &amp;quot;hospitalocêntrico&amp;quot;, inchou o sistema e preparou o terreno para a política de contenção social que seria radicalizada após o golpe de 1964. Foi um momento de multiplicação da brutalidade. Pouco importava a loucura ou não, o tratamento ou não, a eficácia ou não. O que importava era lucar com o dinheiro estatal por meio de um encarceramento fácil de impor e praticamente impossível de escapar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A coisa se aprofundou ainda mais com o golpe militar, que unificou em 1966 os Institutos de Aposentadoria e Pensões no INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), produzindo uma centralização gigantesca de recursos, com um modelo de privatização quase total. A psiquiatria, por ser uma especialidade cuja formação exigia baixo investimento tecnológico quando comparada a outras como a cirurgia, cardiologia ou oncologia, permitia grandes lucros com as internações de longa permanência. Assim, trancafiar e atormentar os loucos tornou-se o setor mais atraente para o empresariado da saúde.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de pessoas possivelmente diagnosticadas, o sistema era alimentado pelo encarceramento de militantes políticos, estudantes rebeldes, pessoas em situação de rua,  mendigos, homossexuais, indivíduos com comportamentos &amp;quot;desviantes&amp;quot; da moral tradicional, dependentes químicos, alcoólatras ou mesmo pessoas “problemáticas” da família, que se recusavam, por exemplo, a participar de casamentos arranjados, que denunciavam violência sexual sofrida ou eram apenas mulheres que haviam engravidado antes do casamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As instituições privadas multiplicaram-se pelo interior do país, longe dos olhos da fiscalização e dos centros urbanos. Instaladas em locais de difícil acesso, facilitava o ocultamento de violações de direitos humanos e ainda utilizava da conivência dos governos locais. As populações dessas localidades, crentes no saber médico, dificilmente desconfiavam do que poderia acontecer dentro dessas instituições e, quando vazavam denúncias, elas rapidamente podiam ser facilmente manejadas em conluio com os poderes locais. A loucura tornou-se um negócio de massa, com o abrigo precário de centenas de pessoas em galpões, onde a única &amp;quot;terapia&amp;quot; era a contenção química por sedativos baratos ou o uso indiscriminado do eletrochoque para manter a ordem além, é claro, da violência e brutalidade de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Luta Antimanicomial ==&lt;br /&gt;
No final da década de 1970, o modelo de saúde mental começou a dar sinais de exaustão, tanto financeira quanto ética. O Estado já não conseguia arcar com os custos crescentes de um sistema que só expandia o número de crônicos, e as denúncias de maus-tratos começaram a furar o bloqueio da censura, aparecendo em jornais mais prestigiados e em espaços mais amplos do debate social. O estopim para a o início do movimento da reforma psiquiátrica no Brasil começa com uma crise na [[Divisão Nacional de Saúde Mental (DINSAM)]], que havia recebido denúncias de irregularidades no Centro Psiquiátrico Pedro II, no [[Hospital Pinel]], na [[Colônia Juliano Moreira]] e no [[Manicômio Judiciário Heitor Carrilho]]. A denúncia foi acompanhada de uma greve por parte dos funcionários, que exigiam melhorias institucionais e questionavam irregularidades trabalhistas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É dessa crise que surge o [[Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM)]] que, nesse primeiro momento, estão mais preocupados com questões trabalhistas do que com o problema da própria prática psiquiátrica, que vai caracterizar parte dos movimentos antimanicomiais posteriormente. O MTSM se fortalece e consegue espaço no extremamente conservador [[V Congresso Brasileiro de Psiquiatria]], que ocorre em 1978, no que fica conhecido como “congresso da abertura”, num período também de abertura política com o iminente fim do regime militar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda em 1978, um grupo importante de intelectuais vinculados às bases teóricas do [[Movimento Antimanicomial]] participa do [[I Congresso Brasileiro de Psicanálise de Grupos e Instituições]], incluindo Franco Basaglia, Felix Guattari, Robert Castel e Erwinf Goffman, todos eles de grande inspiração e influência para o movimento antimanicomial brasileiro. No ano seguinte, o I Congresso Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental fortalece a contextação não apenas de problemas trabalhistas, mas do próprio modelo asilar e da forma como a psiquiatria intervinha e oprimia a população marginalizada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação público-privada que alimentava o modelo até então começa a ruir em 1980, com a chamada política da co-gestão interministerial. Nela, um convênio celebrado entre o Ministério da Previdência e Assistência Social com o Ministério da Saúde liquida a &amp;quot;Unidade de Serviço&amp;quot;, a política que permitia a contratação privada de serviços psiquiátricos e que representou o triunfo do público sobre o privado. Membros do MTSM passam a integrar a gestão do atendimento em saúde mental que, por dentro do aparato estatal, começam a implementar uma política de saúde pública baseada em prestação de serviços, cooperação, descentralização e regionalização, propostas que já eram defendidas pelos reformadores. Apesar desses avanços, críticos afirmam que a política de co-gestão apenas visava reformar os serviços, não atingindo o âmago da questão, que seria desconstruir o próprio paradigma psiquiátrico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo de desinstitucionalização de fato começa em 1985, ano marcado pelo fim da Ditadura Militar e pela realização de vários eventos que aprofundam o debate sobre a situação do atendimento. A I Conferência Nacional de Saúde Mental marca o início da desinstitucionalização devido aos conflitos entre o MTSM, a ABP e grupos não-organicistas que passaram a dirigir o DINSAM. Na conferência, consagrou-se uma reviravolta na perspectiva com a consolidação do lema &amp;quot;por uma sociedade sem manicômios&amp;quot;, rompendo com a lógica tanto privatista quanto estatista e questionando o próprio modelo psiquiátrico tradicional. Este passou a ser amplamente entendido como fenômeno cultural que promove o tratamento moral e o controle dos corpos, uma visão abertamente basagliana e antimanicomial. Alguns entendem que, nesse momento, a tradição anti-institucional que originou os primeiros questionamentos na década de 1970 foi restaurada e fortalecida. Após a Conferência, o próprio MTSM se renovou, se desatrelando do Estado, retomando sua independência e seu papel de transformação social.  A mudança do movimento se consolidou no II Congresso Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental, quando a noção de racionalização e modernização dos serviços que havia caracterizado o período da co-gestão foi recusado em nome de uma pauta anti-institucional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em meados dos anos 1980 começam a surgir novos modelos de atenção à saúde que poderia substituir o modelo psiquiátrico. Em São Paulo é criado o primeiro Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), em 1987. Em Santos, surge o Núcleo de Atenção Psicossocial (NAPS), em 1989. Estes serviços passaram a ser vistos como os modelos para uma contestação profunda dos manicômios, justificando seu encerramento. Já na década de 1990, o SUS introduziu mecanismos de fiscalização e auditoria que começaram a sufocar financeiramente os asilos privados que não cumpriam níveis mínimos de dignidade. Portarias históricas do Ministério da Saúde, inspiradas na Declaração de Caracas (1990), passaram a proibir a criação de novos leitos psiquiátricos asilares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após mais de uma década de tramitação e intensos debates no Congresso Nacional, como fruto dos embates históricos iniciados na crise do DINSAM e que atravessaram debates públicos extremamente imporantes, foi promulgada a Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001, que ficou conhecida como Lei da Reforma Psiquiátrica ou Lei Paulo Delgado, seu autor. Esta legislação se tornou o marco jurídico definitivo da virada assistencial no Brasil. A lei instituiu o direito do paciente de ser tratado em ambiente terapêutico o menos restritivo possível e colocou a internação psiquiátrica como último recurso possível. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para preencher o vazio deixado pelo fechamento dos grandes hospitais, o SUS estruturou a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), formalizada na década seguinte pela Portaria nº 3.088 de 2011. A RAPS organizou o cuidado em diferentes níveis de complexidade, com os CAPS divididos nas modalidades CAPS I, II, III, CAPSi  e CAPS AD e, por fim, os Serviços de Residência Terapêutica (SRT). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, a luta continua devido a retrocessos observados na segunda metade da década de 2010 e início dos anos 2020. Mudanças nas diretrizes da Política Nacional de Saúde Mental tentaram reintroduzir a centralidade do hospital psiquiátrico e incentivaram o uso de práticas baseadas no isolamento. Além disso, o governo federal passou a financiar massivamente as chamadas Comunidades Terapêuticas (CTs), instituições de caráter predominantemente privado e religioso voltadas ao acolhimento de usuários de drogas, de onde emanam graves denúncias de todos os tipos de violação dos direitos humanos e que representam um evidente retrocesso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje, o campo da saúde mental no Brasil vive um embate profundo entre duas visões. De um lado, aqueles que lutam pela consolidação da RAPS, em defesa da clínica da subjetividade, da defesa dos direitos humanos, pela redução de danos e pela inserção social pelo trabalho e pela cultura. Do outro lado observa-se a persistência do lobby asilar e de setores que buscam a mercantilização do cuidado, por meio do encarceramento, da medicalização extrema do sofrimento psíquico, da higienização dos centros urbanos e do recolhimento dos indesejáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1683</id>
		<title>História da loucura: da Grécia antiga à luta anti-manicomial</title>
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		<updated>2026-05-16T12:03:38Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* O Nascimento da Psiquiatria */&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um com finalidade didática, escrito por André Elias Morelli Ribeiro para o curso de Psicologia do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras. Seu uso é aberto, desde que citada a fonte&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Introdução ==&lt;br /&gt;
A história da loucura é, ao mesmo tempo, uma narrativa sobre o modo como diferentes sociedades compreenderam a mente humana e uma reflexão sobre os mecanismos de poder que moldaram práticas de exclusão, cuidado e resistência vinculados à loucura. Iniciando na Grécia antiga até o movimento antimanicomial no Brasil, pode-se observar como a loucura foi interpretada ora como intervenção divina, ora como desvio moral, ora como doença fisiológica, ora como ameaça social. Cada época construiu suas próprias respostas, que variaram entre a integração comunitária, o confinamento brutal e a busca por tratamentos médicos ou espirituais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, a trajetória seguiu de perto os modelos europeus. Do Hospício de Pedro II às colônias agrícolas, passando pela gestão de Juliano Moreira, a psiquiatria nacional oscilou entre avanços humanitários e práticas de exclusão. O período Vargas e o Estado Novo intensificaram o encarceramento, transformando hospitais em verdadeiros campos de concentração administrativos. As décadas seguintes viram a adoção de terapias brutais, como eletrochoques e lobotomias, mas também o surgimento de resistências, como a obra de Nise da Silveira, que introduziu a arte e o afeto como caminhos de cura. A partir dos anos 1960, a privatização da assistência psiquiátrica gerou a chamada “Indústria da Loucura”, marcada por internações lucrativas e violações sistemáticas de direitos humanos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em síntese, o percurso histórico apresentado aqui mostra que a loucura nunca foi apenas um fenômeno clínico mas, antes, um espelho das sociedades, revelando seus medos, suas crenças e suas formas de organizar o convívio humano. De sagrada a temida, de medicalizada a mercantilizada, apresenta-se e se discute como surgiram vozes e práticas que reivindicaram humanidade e liberdade para os considerados loucos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As Loucuras no Mundo Antigo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Grécia antiga ===&lt;br /&gt;
Na Grécia antiga, em certo momento a loucura era considerada uma intervenção dos deuses e, como os gregos era politeístas, a varidade de formas de loucura e intervenção também era bem grande. A loucura poderia ser vista como uma punição. Um exemplo notório é o herói Ajax, filho de Telamão. Após a morte de Aquiles, a armadura do herói foi dada a Odisseu, e a afronta levou Ajax a um estado de fúria e ressentimento. A deusa Atena, intervindo em favor de Odisseu ou para proteger os Aqueus da vingança de Ajax, lançou sobre ele uma cegueira mental. Tomado pela loucura, Ajax massacrou o gado de guerra que havia sido capturado, acreditando que estava matando os líderes aqueus, incluindo Odisseu e Agamenon. Ao recobrar a sanidade e perceber seu ato vergonhoso, o que o levou a cometer suicídio por humilhação. Essa cena ilustra a loucura como uma intervenção divina direta na forma de loucura poderia ser vista como destrutiva e extremamente negativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em outros episódios da mitologia grega, a loucura surge como uma consequência direta de traumas e da perseguição implacável por vingança. Um exemplo fundamental é o de Orestes que, após assassinar sua mãe, Clitemnestra, para vingar a morte de seu pai, Agamenon, passa a ser atormentado pelas Erínias. Essas divindades da vingança, também conhecidas como Fúrias, levaram o herói a um estado de delírio e desespero profundo, personificando a tortura psicológica e a perda da razão como uma forma de acerto de contas espiritual e moral pelo matricídio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura não era unicamente um flagelo ou uma punição. Os gregos  viam a mania, um termo que hoje engloba a loucura, em uma perspectiva dual. Na sua manifestação mais elevada, era considerada uma benção ou inspiração divina. Essa visão positiva estava profundamente ligada ao culto de Dionísio, o deus do vinho, do teatro e do êxtase. Nos rituais dionisíacos, as bacantes e outros seguidores buscavam o êxtase, que é, literalmente, &amp;quot;sair de si&amp;quot;, por meio da dança frenética, música e consumo de vinho, o que era percebido como um estado de comunhão direta e inspirada com a divindade. Longe de ser destrutiva, essa forma de loucura era vista como uma fonte de criatividade, revelação e poder, sendo um caminho para a verdade profética e a expressão artística ligada a Dionísio. Este conceito de mania inspirada também se estendia a outros domínios, como a profecia dos oráculos, que eram vinculados à adoração ao deus Apolo, e mesmo a poesia, onde a perda temporária da razão humana era interpretada como a mente sendo tomada por uma força divina que trazia algum tipo de inspiração.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em certo momento, ainda na Grécia antiga, as ideias sobre a loucura - ou algo que pareça loucura aos olhos contemporâneos - foi modificada graças a Hipócrates, o pai da medicina. A visão de [[Hipócrates]] marcou uma transição crucial para o entendimento da loucura na Grécia Antiga, pois afastou a loucura das concepções divinas e sobrenaturais para uma explicação puramente fisiológica e natural. Ele desenvolveu a [[Teoria dos Quatro Humores]], que se tornou o pilar da medicina ocidental por séculos. Segundo essa teoria, o corpo humano era composto por quatro fluidos essenciais (humores): sangue, fleuma, bile amarela e bile negra. A saúde mental e física dependia do equilíbrio harmonioso desses humores. A loucura, ou qualquer doença mental, era, portanto, interpretada como o resultado de um desequilíbrio, como o excesso de bile negra causando a melancolia (depressão), ou o desarranjo da fleuma e da bile amarela, que poderiam levar a estados de mania e frenesi. Com isso, Hipócrates postulou que a loucura não era uma maldição dos deuses, mas sim uma doença com origem no corpo. Essa abordagem naturalista permitiu que a loucura passasse a ser tratada com métodos como dietas, exercícios e remédios, no lugar de rituais religiosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tradição bíblica ===&lt;br /&gt;
Na tradição bíblica, escrita em contextos e culturas não europeias, a loucura também é frequentemente retratada como uma forma de intervenção ou punição divina. Um dos episódios mais emblemáticos é a história do rei Nabucodonosor II, relatada no Livro de Daniel. De acordo com o texto, devido ao seu orgulho excessivo e sua recusa em reconhecer a soberania de Deus, o rei foi acometido por uma forma de loucura que o levou a viver como um animal, alimentando-se de ervas e deixando seus cabelos e unhas crescerem sem controle. Na psicologia moderna, esse estado em que um indivíduo acredita ter se transformado em um animal é conhecido como licantropia clínica, uma condição rara. A loucura, conforme emerge na descrição bíblica, emerge ligada à perda da razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, a tradição bíblica também apresenta um paradoxo. No Novo Testamento, escrito no contexto do mundo greco-romano, o que é considerado &#039;loucura&#039; pelos homens revela-se a suprema sabedoria divina. Essa ideia é desenvolvida pelo apóstolo Paulo em sua Primeira Carta aos Coríntios. Na passagem, ele afirma: &#039;Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens&#039; (1 Coríntios 1:25). Paulo usa o termo &#039;&#039;moria&#039;&#039; (loucura, tolice) para contrastar a sabedoria humana que, na época do texto, era representada pela filosofia e retórica grega. A mensagem da cruz parecia ilógica e insensata aos olhos dos não cristãos, que debochavam do fato do profeta ter sido capturado e morto pelos romanos. Assim, a loucura deixa de ser apenas uma punição para se tornar uma lente através da qual a verdadeira sabedoria, ou seja, a salvação, é revelada, invertendo a hierarquia de valores do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Pérsia ===&lt;br /&gt;
Na Pérsia, a visão da loucura e do comportamento irracional foi moldada por seu profundo dualismo religioso e, posteriormente, pelas tradições islâmicas que se seguiram à conquista árabe. O zoroastrismo, a antiga religião persa fundada por Zoroastro (Zaratustra), transformou o politeísmo anterior em um dualismo cósmico centralizado no conflito eterno entre Ahura Mazda (Ormazd), o criador da vida, luz e verdade, e Angra Mainyu (Ahriman), a escuridão e a mentira. Neste cenário, o mundo material é o campo de batalha entre os dois. Ahriman buscava corromper tudo o que Ormazd havia criado. Embora o texto não defina a loucura diretamente, o comportamento irracional e a desrazão poderiam ser facilmente associados ao domínio de Ahriman e à mentira (druj), enquanto a sanidade e a pureza eram atributos de Ormazd. A batalha contra essa corrupção exigia que os adoradores de Ormazd permanecessem verdadeiros e evitassem poluir o fogo e a terra sagrada, indicando que a pureza mental e ritual era uma defesa contra as forças do mal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Islã ===&lt;br /&gt;
Na cultura islãmica, de forma geral e bastante resumida, o comportamento considerado irracional era frequentemente explicado pela crença nos djinn, espíritos errantes que habitavam o deserto e certos lugares considerados místicos e que podiam invadir a mente humana, causando o que a sociedade ocidental moderna chamaria de insanidade ou, talvez, distúrbio emocional, cujo tratamento era o exorcismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura também apareceu em narrativas culturais associadas aos povos de forma a sugerir causas e curas mais mundanas. O famoso conto persa de As Mil e Uma Noites relata a história do rei Shahriyar, que, convencido da inevitável traição feminina, cai em uma loucura paranóica que o leva a se casar e matar uma virgem todas as noites. Sua &amp;quot;cura&amp;quot; é alcançada através da engenhosidade e paciência humana por meio de uma dessas esposas, Scheherazade, que usa a arte de contar histórias para retardar sua execução por &amp;quot;mil e uma noites&amp;quot;, período em que sua paranoia é gradualmente desfeita. A história sugere que a narrativa e o tempo podem curar a loucura causada por trauma psicológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As Loucuras na Idade Média ==&lt;br /&gt;
A transição para a Idade Média é marcada pelo colapso do Império Romano do Ocidente (476 d.C.) e trouxe profundas transformações políticas e sociais. O fim do governo centralizado romano levou à fragmentação do poder e ao surgimento do sistema feudal, onde a administração das terras e a autoridade passaram para as mãos de senhores locais, muitos deles antigos oficiais romanos. Este período também é caracterizado por um notável declínio na vida urbana e nos grandes centros intelectuais. O colpaso das instituições romanas deu lugar à ascensão e consolidação da única instituição internacional grande e organizada que havia sobrado, a Igreja Católica, que se tornou a principal instituição de poder. Houve ainda uma perda gradual da tradição cultural greco-romana e, consequentemente, um afastamento das explicações naturalistas de Hipócrates, com exceção do pequeno renascimento do século XII e retomadas pontuais da sabedoria grega. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a hegemonia da Igreja Católica, a loucura tendeu a ser novamente interpretada sob uma lente teológica, sendo vista como uma manifestação de forças sobrenaturais ou desvios morais. Nesse contexto, certas vezes a loucura era interpretada como a intervenção de Satanás ou como possessão demoníaca, exigindo rituais de exorcismo para a cura. Em outros momentos, era vista como uma prova espiritual enviada por Deus ou como um efeito direto do pecado na alma do indivíduo. Havia também explicações que a tratavam como uma fragilidade da vontade humana, misturando elementos da antiga tradição grega com aspectos da teologia cristã, estabelecendo um novo arcabouço para o entendimento da mente humana durante a Idade Média, que tinha muitas variações e não era uniforme nem ao longo do tempo nem em todos os espaços.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Socialmente, a gestão da loucura na Idade Média também passou por diferentes fases e transformações, dependendo do local e da época. Haviam casos em que os consideradores loucos eram apenas torturados e trancafiados, acreditando-se serem métodos eficazes para expulsão de espíritos malignos, por exemplo. Contudo, em muitos outros casos, os considerados loucos conviviam de forma mais ou menos harmoniosa com o resto da comunidade, a depender de suas capacidades e possibilidades, e certos “desvios” eram perdoados devido à sua condição peculiar, sem a necessidade imediata de uma exclusão radical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Nau dos Loucos ===&lt;br /&gt;
Um caso notável e emblemático da gestão da loucura nesse período é a Nau dos Loucos (Stultifera Navis), conforme trabalhado por Michel Foucault. Anteriormente ao modelo de exclusão-repressão que viria a se consolidar na Idade Clássica, a loucura viveu o que se pode chamar de seus &amp;quot;dias de glória&amp;quot; na transição para a Renascença. Nesse contexto, o louco poderia ser visto como um sábio, um místico, um bobo da corte ou simplesmente um excêntrico que estava, de certa forma, integrado ao tecido social.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Nau dos Loucos simbolizava uma existência errante, onde o louco era confiado à água e ao navio para ser levado de uma cidade a outra, mantendo-o em um estado de exclusão simbólica, mas ainda assim em movimento e circulação. Para Foucault, essa experiência trágica da loucura permitia que o insano portasse uma forma de lucidez em sua insensatez, revelando verdades que a razão comum não ousava enunciar. O louco via através das ilusões mundanas, aproximando-se de uma verdade profética ou ética que seria progressivamente silenciada nos séculos seguintes pela ascensão do saber médico e da racionalidade científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Santa Dimpna e Geel ===&lt;br /&gt;
Outro acontecimento relevante da Idade Média para a compreensão da loucura é o episódio de Santa Dimpna. Nascida no século VII na Irlanda, ela era filha de um rei pagão e de uma mãe cristã devota, de quem herdou sua fé e pelo qual decidiu fazer votos de castidade. Após a morte prematura da mãe, seu pai, mergulhado em um profundo luto, decidiu que Dimpna era a única mulher com beleza comparável à da falecida rainha e insistiu em se casar com a própria filha, o que seria considerado escandaloso também para aquela cultura. Diante dessa perseguição incestuosa, Dimpna fugiu da Irlanda acompanhada de seu confessor, o padre Gereberno, e de dois servos fiéis. O grupo cruzou o mar e estabeleceu-se em Geel, um minúsculo vilarejo na atual Bélgica, onde Dimpna dedicou-se ao cuidado dos pobres e doentes mentais. No entanto, o rei conseguiu encontrá-los e, após a recusa de Dimpna em retornar e de se casar com o pai, ordenou a execução de Gereberno, enquanto ele mesmo decapitou a filha, tornando a menina de 15 anos de idade uma mártir cristã. Após sua morte, relatos de curas milagrosas de pessoas com distúrbios mentais e epilepsia começaram a ocorrer junto ao seu túmulo, o que a tornou a padroeira dos doentes mentais e o local um espaço de peregrinação ligado à questão da saúde mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O legado de Santa Dimpna em Geel deu origem a um modelo para a psiquiatria moderna pois, devido à devoção e adoração à Santa Dimpna, a cidade transformou-se em um santuário onde os pacientes não eram trancafiados, mas acolhidos em lares de famílias locais como &amp;quot;hóspedes&amp;quot;. Esse sistema de cuidado comunitário e desinstitucionalização, que persiste há séculos, é considerado um dos precursores do tratamento humanizado e da reabilitação psicossocial na saúde mental contemporânea.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Idade Clássica: a nova era da loucura encarcerada ==&lt;br /&gt;
A partir do século XVII, um período em que o filósofo Michel Foucault denominou como &amp;quot;A Época Clássica&amp;quot;, a forma de entender e lidar com a loucura passa por uma nova mudança devido ao ingresso da razão como centro e alma do pensamento europeu, em substituição ao dogmatismo religioso e ao conhecimento da igreja. Esta mudança não é brusca, mas lenta e gradual, porém suas marcas serão duradouras e serão sentidas por quase toda a Europa. Para essa nova e nascente razão, a loucura seria seu oposto direto. Se o homem era definido pela sua capacidade racional e sua utilidade produtiva, o louco era, portanto, como um &amp;quot;não-homem&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a solução para a não-razão era a internação que não buscava a cura, mas a neutralização do irracional. O silenciamento da loucura era necessário para que a ordem social pudesse florescer. Os campos e cidades deveriam ser espaços de circulação de mercadorias pelas mãos de cidadãos produtivos, e qualquer elemento que atrapalhasse essa dinâmica deveria ser guardado em instituições que funcionavam como uma guarda contra o risco social que tais pessoas ofereciam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Relatos da época descrevem cenários terríveis sobre as condições de internação dos loucos. Os internos eram frequentemente mantidos em celas úmidas e insalubres, muitas vezes acorrentados às paredes. O uso de chicotes e outras punições corporais era justificado pela crença de que o louco, por ter perdido a razão, teria a resistência física de um animal, não sentindo frio ou dor da mesma forma que uma pessoa &amp;quot;normal&amp;quot;. Além disso, as instituições funcionavam sob uma lógica de vigilância constante. Não se tratava de observar para entender a mente, mas para garantir que o corpo anormal permanecesse contido e, no máximo possível, docilizado. Foi dentro desse ambiente de absoluta degradação e mistura indiscriminada de diferentes &amp;quot;tipos&amp;quot; de desviantes que a consciência médica começou a germinar, ainda que de forma incipiente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== França ===&lt;br /&gt;
O ano de 1656 marca um divisor de águas simbólico para o modelo de confinamento asilar no mundo todo, com a criação do Hôpital Général (Hospital Geral) em Paris, por um edito real do rei Luís XIV. É importante entender que um hospital geral deste período não é como um hospital moderno, ou seja, uma instituição médica e voltada para a compreensão da doença e a prática do tratamento e cura. Ele estava mais próximo de uma estrutura administrativa e, de certo modo, semi-judiciária. Isso ocorria porque o interesse não estava em “curar” ou “tratar” ninguém mas, antes disso, perseguir o interesse do Estado de &amp;quot;limpar&amp;quot; as ruas de Paris de tudo o que era considerado improdutivo ou escandaloso. Era um período de abundância material, grandes gastos estatais e de uma imensa riqueza do império colonial francês, e desvios nessa ordem eram vistos como perigosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes tais hospitais gerais eram confinados, todos juntos, grupos totalmente diferentes, tais como pobres, mendigos, desempregados, libertinos, prostitutas, alquimistas, opositores políticos e, claro, também os considerados loucos. Em suma, um depósito de indesejados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que começou em Paris se tornou um modelo para outros lugares sobre como fazer a gestão da miséria e da “desrazão”, num forte deslocamento do que se via na Idade Média. O louco, antes tendo algo de profético, místico ou talvez apenas uma excentricidade da vida medieval campesina, se torna uma questão político-administrativa. Essa mudança importante marca uma migração para a possibilidade de institucionalização daquilo que era considerado errante ou, de alguma forma, desagradável e, assim passível de ser alvo de uma forma de gestão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em Paris, as duas principais unidades do Hospital Geral se tornaram emblemáticas e simbólicas. A Salpêtrière, que era destinada às mulheres, e o hospital Bicêtre, destinado aos homens. Ambas não ofereciam qualquer forma de tratamento. Eram basicamente depósitos humanos, onde o louco poderia acabar acorrentado ao lado de criminosos, por exemplo. O critério de internação não era o diagnóstico clínico, mesmo porque simplesmente ele nem existia nos moldes modernos, mas a incapacidade de se ajustar às normas de trabalho e à moralidade da época.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Alemanha ===&lt;br /&gt;
Na Alemanha, surgiram as Zuchthäusern, que seriam as Casas de Correção. Cidades como Hamburgo e Bremen estabeleceram esses locais onde a loucura era tratada através do trabalho forçado. Eles acreditavam que o ócio era a raiz do mal e que o confinamento servia para reintegrar o indivíduo à lógica da produtividade. De qualquer forma, uma vez enclausurado, ele permanecia escondido da visão da população.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Inglaterra ===&lt;br /&gt;
Na Inglaterra, o sistema das Workhouses (Casas de Trabalho) cumpria um papel semelhante ao modelo alemão. No entanto, Londres já possuía o Bethlem Royal Hospital, conhecido popularmente como Bedlam. No século XVII e XVIII, Bedlam se tornou um espetáculo de horror, onde o público podia pagar para observar os internos como se fossem animais em um zoológico. A loucura era agora um objeto de uma forma de exibição degradante e mantida atrás de grades e ferros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Portugal ===&lt;br /&gt;
Em Portugal a gestão dos &amp;quot;desviantes&amp;quot; recaiu fortemente sobre as Santas Casas da Misericórdia. O Hospital Real de Todos-os-Santos, fundado em Lisboa em 1492 e inaugurado em 1501, se tornou o epicentro do tratamento (ou confinamento) dos loucos no país. Dentro deste hospital, existiam as chamadas &amp;quot;Casas de Doidos&amp;quot;, destinados àqueles que haviam “perdido a luz da razão”. Seguindo o padrão europeu, o hospital não separava rigidamente o louco por diagnóstico. Eles dividiam espaço com indigentes e enfermos de diversas naturezas, embora as &amp;quot;casas de doidos&amp;quot; fossem áreas de maior isolamento devido à agitação dos internos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XVIII português, a internação era, acima de tudo, uma solução para a mendicância e, por vezes, para o alcoolismo. O louco que tinha família e posses era mantido nas casas das famílias, muitas vezes escondido em sótãos ou anexos e até mesmo acorrentados. Já o &amp;quot;louco pobre&amp;quot;, cujas famílias nem se importam ou que não poderiam ser cuidados por seus familiares, era aquele que acabava nos hospitais reais ou mesmo nas cadeias, a depender de uma série de elementos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Nascimento da Psiquiatria ==&lt;br /&gt;
Nesta seção será tratada a história do nascimento da psiquiatria, mas não como ela é atualmente. Sua trajetória é cheia de desvios e abusos, além de vitórias para os direitos dos internos. Os avanços convivem com muitos retrocessos. Mesmo na época de seu surgimento, muitos eram os questionamentos sobre sua validade e cientificidade. Hoje existem aqueles que perguntam se a psiquiatria é necessária e se seu objeto não é fabricado por ela mesma, por meio de suas práticas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Pinel e a criação da psiquiatria nosográfica ===&lt;br /&gt;
É na virada do século XVIII para o XIX que nasce a psiquiatria como um campo autônomo do saber e da prática médica. Esta mudança fundamental é protagonizada por duas figuras centrais da medicina francesa: Philippe Pinel e seu discípulo, Jean-Étienne Dominique Esquirol. Juntos, eles transformaram o hospital de depósito de insanos e indesejáveis em um verdadeiro hospital, em que o louco e o alienado poderiam receber um tratamento racional e científico, em substituição às correntes, à disciplina e ao silenciamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A emergência da psiquiatria como campo autônomo teve como fundamento científico inicial a observação clínica sistemática dentro do asilo. Este era concebido como um laboratório, onde o alienista poderia estudar a loucura em seu estado puro, separada das influências do mundo exterior. A principal questão científica e prática que justificava essa nova ciência era desenvolvida e aplicada de forma sistemática era a chamada nosografia ou diagnóstico. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pinel, em seu &#039;&#039;Traité&#039;&#039; de 1801, classificou a loucura com base em critérios sintomatológicos, seguindo um procedimento comparativo semelhante ao das ciências naturais. O desafio central, que persistiria ao longo do século XIX, era a ambiguidade constante entre a busca por uma sede orgânica, ou seja, um “local físico-biológico” da loucura, junto da necessidade de uma regulação de caráter moral. O tratamento apoiava-se na moralidade para combater as causas que eram, elas próprias, consideradas morais, mas algo estava também no corpo do doente. Isso mostra que a nova psiquiatria de Pinel era a mistura de uma perspectiva médica com algo de caráter moral no entendimento da loucura. Este enfoque resultou na valorização do exame clínico pelos psiquiatras francófonos, permitindo a união da observação clínica com a formulação de hipóteses.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1793, em meio ao fervor da Revolução Francesa, Philippe Pinel foi nomeado médico-chefe do Hospital de Bicêtre e, posteriormente, da Salpêtrière. O cenário que encontrou era o ápice do &amp;quot;Grande Enclausuramento&amp;quot;, ou seja, homens e mulheres amontoados nas condições já descritas, com destaque para as correntes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A intervenção de Pinel, simbolizada pelo gesto de “libertar os loucos de suas correntes”, não foi apenas um ato humanitário, mas também uma decisão de natureza epistemológica. Pinel acreditava que a loucura não era uma possessão demoníaca nem uma degeneração animal irreversível, mas uma alienação mental, em outras palavras, uma perturbação das faculdades intelectuais e afetivas que mantinha o indivíduo como se fosse &amp;quot;estrangeiro&amp;quot;, ou alienado, de si mesmo e da sociedade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O pilar para a reforma psiquiátrica proposta por Pinel era o tratamento moral, e se baseava em três pilares fundamentais. O primeiro, o isolamento terapêutico. Era necessário que o paciente ficasse separado de seu ambiente que, segundo o médico, era a fonte de sua excitação e desequilíbrio. O segundo pilar era a autoridade médica, onde este deveria atuar como um pai ao mesmo tempo severo e justo, usando a persuasão, a benevolência e, se fosse necessário, a firmeza para restaurar a razão do paciente. Por fim, a disciplina e o trabalho, com a aplicação rigorosa de horários e valorização de atividades produtivas, o que ocuparia a mente alienada e, assim, combateria a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em seus estudos, Pinel identificou quatro tipos de loucura, quais sejam, a melancolia, a mania, a demência e o idiotismo, cada uma com suas questões próprias específicas e metodologias de tratamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Esquirol e a consolidação do modelo ===&lt;br /&gt;
Se Pinel era considerado o visionário e o libertador, Jean-Étienne Dominique Esquirol foi o grande organizador e o clínico meticuloso. Discípulo de Pinel, Esquirol sucedeu seu mestre na Salpêtrière e deu à psiquiatria a robustez científica e administrativa de que ela necessitava. Esquirol compreendeu que a eficácia do tratamento moral dependia da arquitetura hospitalar. Para ele, o hospital não era apenas um prédio onde ocorria o tratamento, mas também um instrumento de cura. Ele desenvolveu o modelo de pavilhões, permitindo a separação dos pacientes por tipo de patologia, o que reforçou a própria ideia de diagnóstico e de avaliação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Esquirol refinou as definições clínicas de Pinel. Foi ele quem estabeleceu a distinção clássica entre alucinação (uma percepção sem objeto) e ilusão (uma percepção deformada de um objeto real), entre outros pontos que, na sua época, foram considerados avanços exemplares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Legalização da Alienação ===&lt;br /&gt;
O esforço médico, político e administrativo de Esquirol na continuação do trabalho de Pinel culminou na promulgação da lei francesa de 30 de Junho de 1838, a primeira grande legislação psiquiátrica do mundo moderno. Esta lei estabeleceu a obrigatoriedade de cada departamento francês possuir um asilo e regulamentou as condições de internação e interdição. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A princípio, embora também protegesse o alienado do arbítrio e de outras violências que poderiam ser cometidos contra os loucos nas províncias e mesmo nas periferias de Paris, a lei também deu total poder ao médico psiquiatra. Era ele quem poderia decidir quem deveria ou não ser privado de sua liberdade. Com isso, a psiquiatria tornava-se, assim, um braço do Estado na gestão da ordem social mas, ao contrário do polícia e do inquérito polícial, que exigia provas independentes e a atuação do sistema judiciário, o psiquiatra estava coberto sob o manto da ciência médica, o que dava a ele poderes gigantescos de decidir entre a alienação e a razão. Isso marcou profundamente a forma como a loucura e a saúde mental passaram a ser compreendidas e tratadas nas décadas seguintes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Emil Kraepelin e uma Nova Racionalização ===&lt;br /&gt;
Apesar da forte valorização da psiquiatria francesa na constituição da psiquiatria contemporânea, uma das principais contribuições para o ramo em sua forma atual foi empreendida por um alemão, Emil Kraepelin. No final do século XIX, a psiquiatria alemã estava dividida entre os &amp;quot;psiquistas&amp;quot;, que viam a loucura como uma doença da alma ou um mal moral, a exemplo dos franceses; e os &amp;quot;somatistas&amp;quot;, que buscavam no cérebro a origem dos sintomas das doenças mentais. Kraepelin superou esse impasse ao focar não na anatomia, mas na evolução temporal das doenças. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin passou a entender que sintomas isolados, como ouvir vozes ou acreditar ser uma personalidade histórica, não eram suficientes para definir uma doença, mas seu desenvolvimento ao longo do tempo. Com essa premissa em mãos, Kraepelin introduziu as &amp;quot;cartas diagnósticas&amp;quot; (Zählkarten), um sistema de fichamento padronizado onde se registrava a história de vida do paciente, seus antecedentes familiares, os sintomas detalhados e, por fim, o desfecho da doença. Isso transformou a clínica psiquiátrica, pois articulava neuroanatomia e psicologia experimental, já que ele fora aluno de Wundt.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Kraepelin também é considerado o pioneiro da Psiquiatria Transcultural. Visando provar que as categorias diagnósticas psiquiátricas seriam universais, ele viajou para lugares como a ilha de Java (Indonésia) em 1904 para estudar a manifestação da loucura em populações não europeias. Ele concluiu que, ainda que os conteúdos dos delírios mudassem conforme a cultura, a estrutura fundamental da loucura permanecia a mesma, o que reforçou sua tese de que eram doenças biológicas da espécie humana. Apesar disso, no final de sua vida ele se transformou um higienista.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O I Congresso Internacional de Psiquiatria ===&lt;br /&gt;
Realizado em Paris em agosto de 1950, o I Congresso Internacional de Psiquiatria foi projetado especificamente para unificar, debater e institucionalizar a psiquiatria como uma disciplina médica global e autônoma. Durante o Congresso foram colocados, frente a frente, as grandes correntes que disputavam a hegemonia do entendimento da mente humana na época, a saber, as correntes psicodinâmica e a biológica. De forma menor, uma corrente social e anti-manicomial também se fez presente. O resultado do embate foi uma conciliação entre ambas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um dos resultados do Congresso de 1950 foi a pressão para que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Associação Psiquiátrica Americana (APA) criassem manuais estatísticos e classificatórios unificados, o que resultou na inserção de uma seção robusta de transtornos mentais na CID-6 (Classificação Internacional de Doenças) e na publicação do primeiro DSM, em 1952.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro resultado importante do evento foi a fundação da Associação Mundial de Psiquiatria (World Psychiatric Association - WPA). A partir de 1950, a psiquiatria deixou de ser um conjunto de escolas nacionais isoladas, como a escola francesa, a escola alemã, a escola anglo-saxã, entre outras, para se tornar uma corporação científica internacional, com congressos periódicos, periódicos indexados e diretrizes globais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Loucura no Brasil ==&lt;br /&gt;
Até o início do século XIX, o Brasil colonial lidava com seus insanos de forma semelhante ao que ocorria na Europa. As famílias ricas mantinham seus parentes loucos em &amp;quot;quartos fortes&amp;quot;, privando-os mais ou menos da vida comunitária e familiar, a depender das circunstâncias. Já os pobres eram entregues à caridade das Santas Casas de Misericórdia ou vagavam pelas ruas, sendo ocasionalmente recolhidos a cadeias públicas quando perturbavam a ordem, indo e vindo das frágeis instituições brasileiras, sofrendo abusos e violências de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A transferência da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 gerou a necessidade de transformar a capital colonial em uma moderna metrópole europeia. Sob a influência do Iluminismo tardio e das notícias que chegavam sobre as reformas de Pinel na França, a elite médica brasileira, que havia estudado sobretudo na França e em Portugal, começou a pressionar o poder público pela criação de espaços específicos para o tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1830, a criação da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (que viria a ser a Academia Nacional de Medicina) foi o marco institucional dessa pressão. Esse movimento político funcionou. O momento decisivo ocorreu em 18 de julho de 1841, quando o Imperador D. Pedro II, em comemoração à sua coroação, assinou o decreto de fundação do primeiro hospital psiquiátrico do Brasil e da América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Hospício de Pedro II, ou o Palácio dos Loucos (1852–1889) ===&lt;br /&gt;
Inaugurado apenas em 8 de dezembro de 1852, o Hospício de Pedro II era gerido pela Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, que por anos geriu grande parte da loucura brasileira. Seu provedor era o médico José Clemente Pereira, que era responsável por todos os aspectos da instituição, desde os médicos até os administrativos. Embora a gestão administrativa fosse religiosa, o saber médico tinha muito espaço com nomes como Manoel Feliciano Pereira de Carvalho, que tentaram implementar o &amp;quot;tratamento moral&amp;quot; inspirado em Esquirol. Apesar dos esforços, muitos relatos de abusos e de condições precárias mostravam a dificuldade em implementar um modelo brasileiro de tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a Proclamação da República em 1889, o Hospício de Pedro II foi desvinculado da Santa Casa e renomeado como Hospital Nacional de Alienados (HNA). Este foi um período de maior laicização e pela busca por um maior rigor científico, o que não aconteceu por completo, em grande parte devido à falta de profissionais adequadamente treinados para a questão. Apesar disso, o Brasil já possuía uma cátedra de psiquiatria desde 1883, ocupada por João Carlos Teixeira Brandão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diante dos altíssimos custos em manter o Hospital, surgem as colônias agrícolas como alternativa ao confinamento urbano. Em 1884, já havia sido inaugurada a Colônia de São Bento e, em 1890, a Colônia de Conde de Mesquita, na Ilha do Governador. A ideia era que o trabalho na terra poderia colaborar na cura, além de os produtos deste trabalho poderiam ser consumidos no local, ajudando na manutenção dos espaços. Apesar dessas transformações e de evidentes melhorias, os relatos de época mostram que não acontecia nenhuma das duas coisas, nem produção agrícola suficiente, nem um processo terapêutico efetivo, mas entendia-se que a colônia agrícola era melhor do que o confinamento do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Era Juliano Moreira ===&lt;br /&gt;
Em 1903, o médico baiano Juliano Moreira assume a direção do Hospital Nacional de Alienados. Negro, de origem humilde e dotado de uma erudição impressionante, ele revolucionou a assistência brasileira aos alienados, sendo reconhecido internacionalmente como um dos grandes psiquiatras de seu tempo. Ele se tornaria o principal médico alienista do Brasil, tornando-se referência para todo o país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Moreira aboliu definitivamente o uso de camisas de força e as grades nas janelas, num gesto que se assemelhava àquele de Pinel, enfatizando que o hospital era um local de tratamento e cura, e não uma prisão ou um depósito de indesejados. Além disso, ele trouxe para o Brasil a nosologia de Emil Kraepelin, um psiquiatra alemão considerado o pai da psiquiatria moderna, da psicofarmacologia e da genética psiquiátrica, o que seria uma modernização do modelo francês adotado até então. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a gestão Moreira ocorreram várias mudanças. Foi criado o Pavilhão Bourneville para crianças com deficiência intelectual. Além disso, fundou-se o Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro (1921), o primeiro do país, sob a liderança de Heitor Carrilho. Dentro dos hospitais incentivou-se a pesquisa laboratorial e anátomo-patológica, o que também abriu espaço para a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A influência e o prestígio de Juliano Moreira se espalhou pelo Brasil. Em São Paulo, destacou-se a figura de Francisco Franco da Rocha, que fundou em 1898 o Hospital do Juquery. O Juquery, como ficou conhecido, tornou-se uma &amp;quot;cidade-asilo&amp;quot;, chegando a abrigar dezenas de milhares de pacientes em um modelo que mesclava pavilhôes médicos com imensas colônias agrícolas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste período, a psiquiatria brasileira flertou intensamente com as teorias da degenerescência (de Morel e Magnan) e com a eugenia. Médicos como Renato Kehl, bem como a criação da Liga Brasileira de Higiene Mental (1923), fundada por Gustavo Riedel, começaram a ver a loucura não apenas como um problema individual, mas como um risco biológico à raça brasileira. A higiene mental passou a atuar preventivamente em escolas e fábricas, buscando identificar &amp;quot;pré-delinquentes&amp;quot; e &amp;quot;personalidades anormais&amp;quot;. Apesar de não ter conseguido desenvolver muitas políticas efetivas, os eugenistas brasileiros eram ativos e influentes em muitos círculos decisórios importantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A criação de hospitais não se limitou a São Paulo e Rio de Janeiro. Em  1903, o governo de Minas Gerais fundou o Hospital Psiquiátrico de Barbacena, que mais tarde seria palco de uma das maiores tragédias humanitárias do país. Em Pernambuco, o Hospital Ulysses Pernambucano foi fundado pelo médico de mesmo nome, que começou a desenvolver uma psiquiatria mais voltada para o social e para a prevenção no final dos anos 1920. Hospitais na Bahia, Rio Grande do Sul, entre outros, também foram criados, seguindo o pioneirismo do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Era Vargas e além: o início do encarceramento ===&lt;br /&gt;
Com a Revolução de 1930, o projeto de nação de Vargas exigia um povo saudável e produtivo, devido à visão desenvolvimentista suportada pela Aliança Liberal, que o elegeu. A loucura deixou de ser apenas uma questão de ordem pública ou um aspecto da caridade para se tornar um problema de Segurança Nacional e Saúde Pública. Em 1941, no âmbito do Estado Novo, foi criado o Serviço Nacional de Doenças Mentais (SNDM), substituindo o antigo modelo de assistência a alienados, que era fragmentado, conforme as diferentes províncias. Dessa maneira, Vargas criou uma diretriz federal centralizada para a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a Liga Brasileira de Higiene Mental (LBHM), uma instituição que professava o higienismo no Brasil e que já atuava desde a década de 1920, ganhou fôlego. O foco deslocou-se do hospital para a prevenção na sociedade. A psiquiatria não deveria se limitar aos hospitais, mas também atuar na escola, na fábrica e na família, buscando eugenizar, limpar a nação e extirpar o que chamavam de &amp;quot;elementos degenerados&amp;quot;. O médico Gustavo Riedel e seus sucessores defendiam que o Estado deveria intervir precocemente para evitar que o &amp;quot;anormal&amp;quot; se tornasse um fardo para a máquina pública.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi durante as décadas de 1930 e 1940 que o modelo de colônia agrícola, antes visto como terapêutico e de assistência à manutenção hospitalar, atingiu proporções industriais. O que se viu em Barbacena e em instituições como o Juquery em São Paulo, foi a transformação do hospital em, praticamente, um campo de concentração administrativo. A internação não dependia mais de um diagnóstico médico rigoroso, que na prática ainda era frágil e baseado em elementos pouco científicos. Bastava ser considerado &amp;quot;socialmente inconveniente&amp;quot; para correr-se o risco de ir parar numa instituições dessas. Assim, pobres, prostitutas, homossexuais, militantes políticos e mães solteiras eram enviados para essas instituições, onde a sobrevivência era a exceção. Estima-se que, no auge do descaso, o Hospital de Barbacena registrava um número alarmante de óbitos por frio, fome e doenças evitáveis, cujos corpos eram, por vezes, vendidos para faculdades de medicina. Situações similares aconteciam em outras instituições do tipo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tratamentos Brutais e os Modos de Resistência ===&lt;br /&gt;
Para além do horror asilar, o período entre 1930 e 1950 também foi marcado pela introdução de terapias biológicas drásticas, importadas da Europa, conhecidas como somatoterapias. Com uma psicofarmacologia pouco eficaz, os médicos buscavam &amp;quot;chacoalhar&amp;quot; o organismo, produzindo nele como um choque que pudesse restaurar a razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma dessas técnicas era a insulinoterapia. Introduzida na Europa pelo médico austríaco Manfred Sakel (1900–1957) em Viena, no início dos anos 1930, representou uma das primeiras e mais invasivas formas de somatoterapia. Originalmente destinada ao tratamento da esquizofrenia, a técnica consistia na administração de doses maciças de insulina no paciente, provocando um estado de hipoglicemia profunda que levava o paciente ao coma. Na volta desse estado, se esperava que o indivíduo “restaurasse” a razão por conta do choque orgânico violento que havia vivenciado. O procedimento era extremamente perigoso e estava associado a uma alta taxa de mortalidade e morbidade devido às convulsões e aos possíveis danos cerebrais. Apesar dos riscos, o método foi amplamente adotado no mundo todo, incluindo o Brasil, onde foi usado em grandes instituições de confinamento, como o Hospital Nacional de Alienados (HNA), no Hospital Juquery, entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que passou a ser muito utilizada foi a Eletroconvulsoterapia, ou simplesmente o eletrochoque. Introduzido no Brasil logo após sua invenção na Itália (1938), consiste em colocar eletrodos carregados com correntes elétricas em lados opostos, na lateral da cabeça, de modo que uma forte corrente elétrica atravessasse o cérebro. A duração e a intensidade podiam variar, mas relatos de mais de trinta minutos de choques violentos não eram incomuns. Sua brutalidade era tamanha que exigia que sua vítima fosse fortemente amarrada. Tornou-se uma ferramenta onipresente nos hospitais, muitas vezes aplicada sem anestesia e como método de punição, desvirtuando sua finalidade clínica e usada, basicamente, como ferramenta de tortura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que ingressou no Brasil nesse período foi a lobotomia, um procedimento cirúrgico que consistia em apenas retirar um pedaço do cérebro do paciente. Eles foram realizados em larga escala em hospitais como o Juquery e no Hospital Pedro II, buscando a docilização de pacientes crônicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em oposição à violência do isolamento oferecido por essas instituições, surge a figura de Nise da Silveira. Em 1946, após ter sido presa pelo regime de Vargas por suas inclinações políticas, Nise assumiu o Setor de Terapêutica Ocupacional do Centro Psiquiátrico Nacional (Engenho de Dentro), no Rio de Janeiro. Ela se recusou a usar eletrochoques e lobotomias, introduzindo a arte e o afeto como mediadores da cura. Ela fundou o Museu de Imagens do Inconsciente em 1952, onde demonstrou, através das pinturas e esculturas de pacientes como Arthur Bispo do Rosario, que o louco preservava uma riqueza simbólica e uma humanidade que a psiquiatria tradicional tentava apagar. Sua colaboração com Carl Jung colocou a experiência brasileira no mapa da psicologia analítica mundial, provando que o tratamento em liberdade e através da expressão criativa era viável.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Criação da Indústria da Loucura ===&lt;br /&gt;
No final da década de 1950 e início da de 1960, durante o governo de Juscelino Kubitschek e o breve período democrático posterior, o Brasil viu o surgimento de uma nova e ainda mais perversa dinâmica: a Indústria da Loucura. A assistência psiquiátrica, antes quase totalmente pública ou baseada no assistencialismo das Santas Casas, começou a ser privatizada. Com o crescimento dos institutos de previdência (IAPs), o Estado passou a pagar hospitais privados por dia de internação. Isso criou um incentivo perverso: quanto mais tempo o paciente ficasse internado e quanto menos recursos fossem gastos com ele, maior o lucro das clínicas privadas. Esse modelo, conhecido como &amp;quot;hospitalocêntrico&amp;quot;, inchou o sistema e preparou o terreno para a política de contenção social que seria radicalizada após o golpe de 1964. Foi um momento de multiplicação da brutalidade. Pouco importava a loucura ou não, o tratamento ou não, a eficácia ou não. O que importava era ganhar o dinheiro estatal por meio de um encarceramento fácil e praticamente impossível de escapar, além de altamente lucrativo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A coisa se aprofundou ainda mais com o golpe militar, que unificou em 1966 os Institutos de Aposentadoria e Pensões no INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), produzindo uma centralização gigantesca de recursos, com um modelo de privatização quase total. A psiquiatria, por ser uma especialidade cuja formação exigia baixo investimento tecnológico quando comparada a outras como a cirurgia, cardiologia ou oncologia, permitia grandes lucros com as internações de longa permanência. Assim, trancafiar e atormentar os loucos tornou-se o setor mais atraente para o empresariado da saúde.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de pessoas possivelmente diagnosticadas, o sistema era alimentado pelo encarceramento de militantes políticos, estudantes rebeldes, pessoas em situação de rua,  mendigos, homossexuais, indivíduos com comportamentos &amp;quot;desviantes&amp;quot; da moral tradicional, dependentes químicos, alcoólatras ou mesmo pessoas “problemáticas” da família, que se recusavam, por exemplo, a participar de casamentos arranjados, que denunciavam violência sexual ou eram apenas mulheres que haviam engravidado antes do casamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As instituições privadas multiplicaram-se pelo interior do país, longe dos olhos da fiscalização e dos centros urbanos. Instaladas em locais de difícil acesso, facilitava o ocultamento de violações de direitos humanos e ainda utilizava da conivência dos governos locais. As populações dessas localidades, crentes no saber médico, dificilmente desconfiavam do que poderia acontecer dentro dessas instituições e, quando vazavam denúncias, elas rapidamente podiam ser facilmente manejadas em conluio com os poderes locais. A loucura tornou-se um negócio de massa, com o abrigo precário de centenas de pessoas em galpões, onde a única &amp;quot;terapia&amp;quot; era a contenção química por sedativos baratos ou o uso indiscriminado do eletrochoque para manter a ordem além, é claro, da violência e brutalidade de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Luta Antimanicomial ==&lt;br /&gt;
No final da década de 1970, o modelo de saúde mental começou a dar sinais de exaustão, tanto financeira quanto ética. O Estado já não conseguia arcar com os custos crescentes de um sistema que só expandia o número de crônicos, e as denúncias de maus-tratos começaram a furar o bloqueio da censura, aparecendo em jornais mais prestigiados e em espaços mais amplos do debate social. O estopim para a o início do movimento da reforma psiquiátrica no Brasil começa com uma crise na Divisão Nacional de Saúde Mental (DINSAM), que havia recebido denúncias de irregularidades no Centro Psiquiátrico Pedro II, no Hospital Pinel, na Colônia Juliano Moreira e no Manicômio Judiciário Heitor Carrilho. A denúncia foi acompanhada de uma greve por parte dos funcionários, que exigiam melhorias institucionais e questionavam irregularidades trabalhistas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É dessa crise que surge o Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM) que, nesse primeiro momento, estão mais preocupados com questões trabalhistas do que com o problema da própria prática psiquiátrica, que vai caracterizar parte dos movimentos antimanicomiais posteriormente. O MTSM se fortalece e consegue espaço no extremamente conservador V Congresso Brasileiro de Psiquiatria, que ocorre em 1978, no que fica conhecido como “congresso da abertura”, num período também de abertura política com o iminente fim do regime militar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda em 1978, um grupo importante de intelectuais vinculados às bases teóricas do Movimento Antimanicomial participa do I Congresso Brasileiro de Psicanálise de Grupos e Instituições, incluindo Franco Basaglia, Felix Guattari, Robert Castel e Erwinf Goffman, todos eles de grande inspiração e influência para o movimento antimanicomial brasileiro. No ano seguinte, o I Congresso Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental fortalece a contextação não apenas de problemas trabalhistas, mas do próprio modelo asilar e da forma como a psiquiatria intervinha e oprimia a população marginalizada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação público-privada que alimentava o modelo até então começa a ruir em 1980, com a chamada política da co-gestão interministerial. Nela, um convênio celebrado entre o Ministério da Previdência e Assistência Social com o Ministério da Saúde liquida a &amp;quot;Unidade de Serviço&amp;quot;, a política que permitia a contratação privada de serviços psiquiátricos e que representou o triunfo do público sobre o privado. Membros do MTSM passam a integrar a gestão do atendimento em saúde mental que, por dentro do aparato estatal, começam a implementar uma política de saúde pública baseada em prestação de serviços, cooperação, descentralização e regionalização, propostas que já eram defendidas pelos reformadores. Apesar desses avanços, críticos afirmam que a política de co-gestão apenas visava reformar os serviços, não atingindo o âmago da questão, que seria desconstruir o próprio paradigma psiquiátrico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo de desinstitucionalização de fato começa em 1985, ano marcado pelo fim da Ditadura Militar e pela realização de vários eventos que aprofundam o debate sobre a situação do atendimento. A I Conferência Nacional de Saúde Mental marca o início da desinstitucionalização devido aos conflitos entre o MTSM, a ABP e grupos não-organicistas que passaram a dirigir o DINSAM. Na conferência, consagrou-se uma reviravolta na perspectiva com a consolidação do lema &amp;quot;por uma sociedade sem manicômios&amp;quot;, rompendo com a lógica tanto privatista quanto estatista e questionando o próprio modelo psiquiátrico tradicional. Este passou a ser amplamente entendido como fenômeno cultural que promove o tratamento moral e o controle dos corpos, uma visão abertamente basagliana e antimanicomial. Alguns entendem que, nesse momento, a tradição anti-institucional que originou os primeiros questionamentos na década de 1970 foi restaurada e fortalecida. Após a Conferência, o próprio MTSM se renovou, se desatrelando do Estado, retomando sua independência e seu papel de transformação social.  A mudança do movimento se consolidou no II Congresso Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental, quando a noção de racionalização e modernização dos serviços que havia caracterizado o período da co-gestão foi recusado em nome de uma pauta anti-institucional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em meados dos anos 1980 começam a surgir novos modelos de atenção à saúde que poderia substituir o modelo psiquiátrico. Em São Paulo é criado o primeiro Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), em 1987. Em Santos, surge o Núcleo de Atenção Psicossocial (NAPS), em 1989. Estes serviços passaram a ser vistos como os modelos para uma contestação profunda dos manicômios, justificando seu encerramento. Já na década de 1990, o SUS introduziu mecanismos de fiscalização e auditoria que começaram a sufocar financeiramente os asilos privados que não cumpriam níveis mínimos de dignidade. Portarias históricas do Ministério da Saúde, inspiradas na Declaração de Caracas (1990), passaram a proibir a criação de novos leitos psiquiátricos asilares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após mais de uma década de tramitação e intensos debates no Congresso Nacional, como fruto dos embates históricos iniciados na crise do DINSAM e que atravessaram debates públicos extremamente imporantes, foi promulgada a Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001, que ficou conhecida como Lei da Reforma Psiquiátrica ou Lei Paulo Delgado, seu autor. Esta legislação se tornou o marco jurídico definitivo da virada assistencial no Brasil. A lei instituiu o direito do paciente de ser tratado em ambiente terapêutico o menos restritivo possível e colocou a internação psiquiátrica como último recurso possível. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para preencher o vazio deixado pelo fechamento dos grandes hospitais, o SUS estruturou a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), formalizada na década seguinte pela Portaria nº 3.088 de 2011. A RAPS organizou o cuidado em diferentes níveis de complexidade, com os CAPS divididos nas modalidades CAPS I, II, III, CAPSi  e CAPS AD e, por fim, os Serviços de Residência Terapêutica (SRT). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, a luta continua devido a retrocessos observados na segunda metade da década de 2010 e início dos anos 2020. Mudanças nas diretrizes da Política Nacional de Saúde Mental tentaram reintroduzir a centralidade do hospital psiquiátrico e incentivaram o uso de práticas baseadas no isolamento. Além disso, o governo federal passou a financiar massivamente as chamadas Comunidades Terapêuticas (CTs), instituições de caráter predominantemente privado e religioso voltadas ao acolhimento de usuários de drogas, de onde emanam graves denúncias de todos os tipos de violação dos direitos humanos e que representam um evidente retrocesso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje, o campo da saúde mental no Brasil vive um embate profundo entre duas visões. De um lado, aqueles que lutam pela consolidação da RAPS, em defesa da clínica da subjetividade, da defesa dos direitos humanos, pela redução de danos e pela inserção social pelo trabalho e pela cultura. Do outro lado observa-se a persistência do lobby asilar e de setores que buscam a mercantilização do cuidado, por meio do encarceramento, da medicalização extrema do sofrimento psíquico, da higienização dos centros urbanos e do recolhimento dos indesejáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1682</id>
		<title>História da loucura: da Grécia antiga à luta anti-manicomial</title>
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		<updated>2026-05-16T10:28:23Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um com finalidade didática, escrito por André Elias Morelli Ribeiro para o curso de Psicologia do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras. Seu uso é aberto, desde que citada a fonte&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Introdução ==&lt;br /&gt;
A história da loucura é, ao mesmo tempo, uma narrativa sobre o modo como diferentes sociedades compreenderam a mente humana e uma reflexão sobre os mecanismos de poder que moldaram práticas de exclusão, cuidado e resistência vinculados à loucura. Iniciando na Grécia antiga até o movimento antimanicomial no Brasil, pode-se observar como a loucura foi interpretada ora como intervenção divina, ora como desvio moral, ora como doença fisiológica, ora como ameaça social. Cada época construiu suas próprias respostas, que variaram entre a integração comunitária, o confinamento brutal e a busca por tratamentos médicos ou espirituais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, a trajetória seguiu de perto os modelos europeus. Do Hospício de Pedro II às colônias agrícolas, passando pela gestão de Juliano Moreira, a psiquiatria nacional oscilou entre avanços humanitários e práticas de exclusão. O período Vargas e o Estado Novo intensificaram o encarceramento, transformando hospitais em verdadeiros campos de concentração administrativos. As décadas seguintes viram a adoção de terapias brutais, como eletrochoques e lobotomias, mas também o surgimento de resistências, como a obra de Nise da Silveira, que introduziu a arte e o afeto como caminhos de cura. A partir dos anos 1960, a privatização da assistência psiquiátrica gerou a chamada “Indústria da Loucura”, marcada por internações lucrativas e violações sistemáticas de direitos humanos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em síntese, o percurso histórico apresentado aqui mostra que a loucura nunca foi apenas um fenômeno clínico mas, antes, um espelho das sociedades, revelando seus medos, suas crenças e suas formas de organizar o convívio humano. De sagrada a temida, de medicalizada a mercantilizada, apresenta-se e se discute como surgiram vozes e práticas que reivindicaram humanidade e liberdade para os considerados loucos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As Loucuras no Mundo Antigo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Grécia antiga ===&lt;br /&gt;
Na Grécia antiga, em certo momento a loucura era considerada uma intervenção dos deuses e, como os gregos era politeístas, a varidade de formas de loucura e intervenção também era bem grande. A loucura poderia ser vista como uma punição. Um exemplo notório é o herói Ajax, filho de Telamão. Após a morte de Aquiles, a armadura do herói foi dada a Odisseu, e a afronta levou Ajax a um estado de fúria e ressentimento. A deusa Atena, intervindo em favor de Odisseu ou para proteger os Aqueus da vingança de Ajax, lançou sobre ele uma cegueira mental. Tomado pela loucura, Ajax massacrou o gado de guerra que havia sido capturado, acreditando que estava matando os líderes aqueus, incluindo Odisseu e Agamenon. Ao recobrar a sanidade e perceber seu ato vergonhoso, o que o levou a cometer suicídio por humilhação. Essa cena ilustra a loucura como uma intervenção divina direta na forma de loucura poderia ser vista como destrutiva e extremamente negativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em outros episódios da mitologia grega, a loucura surge como uma consequência direta de traumas e da perseguição implacável por vingança. Um exemplo fundamental é o de Orestes que, após assassinar sua mãe, Clitemnestra, para vingar a morte de seu pai, Agamenon, passa a ser atormentado pelas Erínias. Essas divindades da vingança, também conhecidas como Fúrias, levaram o herói a um estado de delírio e desespero profundo, personificando a tortura psicológica e a perda da razão como uma forma de acerto de contas espiritual e moral pelo matricídio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura não era unicamente um flagelo ou uma punição. Os gregos  viam a mania, um termo que hoje engloba a loucura, em uma perspectiva dual. Na sua manifestação mais elevada, era considerada uma benção ou inspiração divina. Essa visão positiva estava profundamente ligada ao culto de Dionísio, o deus do vinho, do teatro e do êxtase. Nos rituais dionisíacos, as bacantes e outros seguidores buscavam o êxtase, que é, literalmente, &amp;quot;sair de si&amp;quot;, por meio da dança frenética, música e consumo de vinho, o que era percebido como um estado de comunhão direta e inspirada com a divindade. Longe de ser destrutiva, essa forma de loucura era vista como uma fonte de criatividade, revelação e poder, sendo um caminho para a verdade profética e a expressão artística ligada a Dionísio. Este conceito de mania inspirada também se estendia a outros domínios, como a profecia dos oráculos, que eram vinculados à adoração ao deus Apolo, e mesmo a poesia, onde a perda temporária da razão humana era interpretada como a mente sendo tomada por uma força divina que trazia algum tipo de inspiração.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em certo momento, ainda na Grécia antiga, as ideias sobre a loucura - ou algo que pareça loucura aos olhos contemporâneos - foi modificada graças a Hipócrates, o pai da medicina. A visão de [[Hipócrates]] marcou uma transição crucial para o entendimento da loucura na Grécia Antiga, pois afastou a loucura das concepções divinas e sobrenaturais para uma explicação puramente fisiológica e natural. Ele desenvolveu a [[Teoria dos Quatro Humores]], que se tornou o pilar da medicina ocidental por séculos. Segundo essa teoria, o corpo humano era composto por quatro fluidos essenciais (humores): sangue, fleuma, bile amarela e bile negra. A saúde mental e física dependia do equilíbrio harmonioso desses humores. A loucura, ou qualquer doença mental, era, portanto, interpretada como o resultado de um desequilíbrio, como o excesso de bile negra causando a melancolia (depressão), ou o desarranjo da fleuma e da bile amarela, que poderiam levar a estados de mania e frenesi. Com isso, Hipócrates postulou que a loucura não era uma maldição dos deuses, mas sim uma doença com origem no corpo. Essa abordagem naturalista permitiu que a loucura passasse a ser tratada com métodos como dietas, exercícios e remédios, no lugar de rituais religiosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tradição bíblica ===&lt;br /&gt;
Na tradição bíblica, escrita em contextos e culturas não europeias, a loucura também é frequentemente retratada como uma forma de intervenção ou punição divina. Um dos episódios mais emblemáticos é a história do rei Nabucodonosor II, relatada no Livro de Daniel. De acordo com o texto, devido ao seu orgulho excessivo e sua recusa em reconhecer a soberania de Deus, o rei foi acometido por uma forma de loucura que o levou a viver como um animal, alimentando-se de ervas e deixando seus cabelos e unhas crescerem sem controle. Na psicologia moderna, esse estado em que um indivíduo acredita ter se transformado em um animal é conhecido como licantropia clínica, uma condição rara. A loucura, conforme emerge na descrição bíblica, emerge ligada à perda da razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, a tradição bíblica também apresenta um paradoxo. No Novo Testamento, escrito no contexto do mundo greco-romano, o que é considerado &#039;loucura&#039; pelos homens revela-se a suprema sabedoria divina. Essa ideia é desenvolvida pelo apóstolo Paulo em sua Primeira Carta aos Coríntios. Na passagem, ele afirma: &#039;Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens&#039; (1 Coríntios 1:25). Paulo usa o termo &#039;&#039;moria&#039;&#039; (loucura, tolice) para contrastar a sabedoria humana que, na época do texto, era representada pela filosofia e retórica grega. A mensagem da cruz parecia ilógica e insensata aos olhos dos não cristãos, que debochavam do fato do profeta ter sido capturado e morto pelos romanos. Assim, a loucura deixa de ser apenas uma punição para se tornar uma lente através da qual a verdadeira sabedoria, ou seja, a salvação, é revelada, invertendo a hierarquia de valores do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Pérsia ===&lt;br /&gt;
Na Pérsia, a visão da loucura e do comportamento irracional foi moldada por seu profundo dualismo religioso e, posteriormente, pelas tradições islâmicas que se seguiram à conquista árabe. O zoroastrismo, a antiga religião persa fundada por Zoroastro (Zaratustra), transformou o politeísmo anterior em um dualismo cósmico centralizado no conflito eterno entre Ahura Mazda (Ormazd), o criador da vida, luz e verdade, e Angra Mainyu (Ahriman), a escuridão e a mentira. Neste cenário, o mundo material é o campo de batalha entre os dois. Ahriman buscava corromper tudo o que Ormazd havia criado. Embora o texto não defina a loucura diretamente, o comportamento irracional e a desrazão poderiam ser facilmente associados ao domínio de Ahriman e à mentira (druj), enquanto a sanidade e a pureza eram atributos de Ormazd. A batalha contra essa corrupção exigia que os adoradores de Ormazd permanecessem verdadeiros e evitassem poluir o fogo e a terra sagrada, indicando que a pureza mental e ritual era uma defesa contra as forças do mal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Islã ===&lt;br /&gt;
Na cultura islãmica, de forma geral e bastante resumida, o comportamento considerado irracional era frequentemente explicado pela crença nos djinn, espíritos errantes que habitavam o deserto e certos lugares considerados místicos e que podiam invadir a mente humana, causando o que a sociedade ocidental moderna chamaria de insanidade ou, talvez, distúrbio emocional, cujo tratamento era o exorcismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura também apareceu em narrativas culturais associadas aos povos de forma a sugerir causas e curas mais mundanas. O famoso conto persa de As Mil e Uma Noites relata a história do rei Shahriyar, que, convencido da inevitável traição feminina, cai em uma loucura paranóica que o leva a se casar e matar uma virgem todas as noites. Sua &amp;quot;cura&amp;quot; é alcançada através da engenhosidade e paciência humana por meio de uma dessas esposas, Scheherazade, que usa a arte de contar histórias para retardar sua execução por &amp;quot;mil e uma noites&amp;quot;, período em que sua paranoia é gradualmente desfeita. A história sugere que a narrativa e o tempo podem curar a loucura causada por trauma psicológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As Loucuras na Idade Média ==&lt;br /&gt;
A transição para a Idade Média é marcada pelo colapso do Império Romano do Ocidente (476 d.C.) e trouxe profundas transformações políticas e sociais. O fim do governo centralizado romano levou à fragmentação do poder e ao surgimento do sistema feudal, onde a administração das terras e a autoridade passaram para as mãos de senhores locais, muitos deles antigos oficiais romanos. Este período também é caracterizado por um notável declínio na vida urbana e nos grandes centros intelectuais. O colpaso das instituições romanas deu lugar à ascensão e consolidação da única instituição internacional grande e organizada que havia sobrado, a Igreja Católica, que se tornou a principal instituição de poder. Houve ainda uma perda gradual da tradição cultural greco-romana e, consequentemente, um afastamento das explicações naturalistas de Hipócrates, com exceção do pequeno renascimento do século XII e retomadas pontuais da sabedoria grega. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a hegemonia da Igreja Católica, a loucura tendeu a ser novamente interpretada sob uma lente teológica, sendo vista como uma manifestação de forças sobrenaturais ou desvios morais. Nesse contexto, certas vezes a loucura era interpretada como a intervenção de Satanás ou como possessão demoníaca, exigindo rituais de exorcismo para a cura. Em outros momentos, era vista como uma prova espiritual enviada por Deus ou como um efeito direto do pecado na alma do indivíduo. Havia também explicações que a tratavam como uma fragilidade da vontade humana, misturando elementos da antiga tradição grega com aspectos da teologia cristã, estabelecendo um novo arcabouço para o entendimento da mente humana durante a Idade Média, que tinha muitas variações e não era uniforme nem ao longo do tempo nem em todos os espaços.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Socialmente, a gestão da loucura na Idade Média também passou por diferentes fases e transformações, dependendo do local e da época. Haviam casos em que os consideradores loucos eram apenas torturados e trancafiados, acreditando-se serem métodos eficazes para expulsão de espíritos malignos, por exemplo. Contudo, em muitos outros casos, os considerados loucos conviviam de forma mais ou menos harmoniosa com o resto da comunidade, a depender de suas capacidades e possibilidades, e certos “desvios” eram perdoados devido à sua condição peculiar, sem a necessidade imediata de uma exclusão radical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Nau dos Loucos ===&lt;br /&gt;
Um caso notável e emblemático da gestão da loucura nesse período é a Nau dos Loucos (Stultifera Navis), conforme trabalhado por Michel Foucault. Anteriormente ao modelo de exclusão-repressão que viria a se consolidar na Idade Clássica, a loucura viveu o que se pode chamar de seus &amp;quot;dias de glória&amp;quot; na transição para a Renascença. Nesse contexto, o louco poderia ser visto como um sábio, um místico, um bobo da corte ou simplesmente um excêntrico que estava, de certa forma, integrado ao tecido social.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Nau dos Loucos simbolizava uma existência errante, onde o louco era confiado à água e ao navio para ser levado de uma cidade a outra, mantendo-o em um estado de exclusão simbólica, mas ainda assim em movimento e circulação. Para Foucault, essa experiência trágica da loucura permitia que o insano portasse uma forma de lucidez em sua insensatez, revelando verdades que a razão comum não ousava enunciar. O louco via através das ilusões mundanas, aproximando-se de uma verdade profética ou ética que seria progressivamente silenciada nos séculos seguintes pela ascensão do saber médico e da racionalidade científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Santa Dimpna e Geel ===&lt;br /&gt;
Outro acontecimento relevante da Idade Média para a compreensão da loucura é o episódio de Santa Dimpna. Nascida no século VII na Irlanda, ela era filha de um rei pagão e de uma mãe cristã devota, de quem herdou sua fé e pelo qual decidiu fazer votos de castidade. Após a morte prematura da mãe, seu pai, mergulhado em um profundo luto, decidiu que Dimpna era a única mulher com beleza comparável à da falecida rainha e insistiu em se casar com a própria filha, o que seria considerado escandaloso também para aquela cultura. Diante dessa perseguição incestuosa, Dimpna fugiu da Irlanda acompanhada de seu confessor, o padre Gereberno, e de dois servos fiéis. O grupo cruzou o mar e estabeleceu-se em Geel, um minúsculo vilarejo na atual Bélgica, onde Dimpna dedicou-se ao cuidado dos pobres e doentes mentais. No entanto, o rei conseguiu encontrá-los e, após a recusa de Dimpna em retornar e de se casar com o pai, ordenou a execução de Gereberno, enquanto ele mesmo decapitou a filha, tornando a menina de 15 anos de idade uma mártir cristã. Após sua morte, relatos de curas milagrosas de pessoas com distúrbios mentais e epilepsia começaram a ocorrer junto ao seu túmulo, o que a tornou a padroeira dos doentes mentais e o local um espaço de peregrinação ligado à questão da saúde mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O legado de Santa Dimpna em Geel deu origem a um modelo para a psiquiatria moderna pois, devido à devoção e adoração à Santa Dimpna, a cidade transformou-se em um santuário onde os pacientes não eram trancafiados, mas acolhidos em lares de famílias locais como &amp;quot;hóspedes&amp;quot;. Esse sistema de cuidado comunitário e desinstitucionalização, que persiste há séculos, é considerado um dos precursores do tratamento humanizado e da reabilitação psicossocial na saúde mental contemporânea.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Idade Clássica: a nova era da loucura encarcerada ==&lt;br /&gt;
A partir do século XVII, um período em que o filósofo Michel Foucault denominou como &amp;quot;A Época Clássica&amp;quot;, a forma de entender e lidar com a loucura passa por uma nova mudança devido ao ingresso da razão como centro e alma do pensamento europeu, em substituição ao dogmatismo religioso e ao conhecimento da igreja. Esta mudança não é brusca, mas lenta e gradual, porém suas marcas serão duradouras e serão sentidas por quase toda a Europa. Para essa nova e nascente razão, a loucura seria seu oposto direto. Se o homem era definido pela sua capacidade racional e sua utilidade produtiva, o louco era, portanto, como um &amp;quot;não-homem&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a solução para a não-razão era a internação que não buscava a cura, mas a neutralização do irracional. O silenciamento da loucura era necessário para que a ordem social pudesse florescer. Os campos e cidades deveriam ser espaços de circulação de mercadorias pelas mãos de cidadãos produtivos, e qualquer elemento que atrapalhasse essa dinâmica deveria ser guardado em instituições que funcionavam como uma guarda contra o risco social que tais pessoas ofereciam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Relatos da época descrevem cenários terríveis sobre as condições de internação dos loucos. Os internos eram frequentemente mantidos em celas úmidas e insalubres, muitas vezes acorrentados às paredes. O uso de chicotes e outras punições corporais era justificado pela crença de que o louco, por ter perdido a razão, teria a resistência física de um animal, não sentindo frio ou dor da mesma forma que uma pessoa &amp;quot;normal&amp;quot;. Além disso, as instituições funcionavam sob uma lógica de vigilância constante. Não se tratava de observar para entender a mente, mas para garantir que o corpo anormal permanecesse contido e, no máximo possível, docilizado. Foi dentro desse ambiente de absoluta degradação e mistura indiscriminada de diferentes &amp;quot;tipos&amp;quot; de desviantes que a consciência médica começou a germinar, ainda que de forma incipiente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== França ===&lt;br /&gt;
O ano de 1656 marca um divisor de águas simbólico para o modelo de confinamento asilar no mundo todo, com a criação do Hôpital Général (Hospital Geral) em Paris, por um edito real do rei Luís XIV. É importante entender que um hospital geral deste período não é como um hospital moderno, ou seja, uma instituição médica e voltada para a compreensão da doença e a prática do tratamento e cura. Ele estava mais próximo de uma estrutura administrativa e, de certo modo, semi-judiciária. Isso ocorria porque o interesse não estava em “curar” ou “tratar” ninguém mas, antes disso, perseguir o interesse do Estado de &amp;quot;limpar&amp;quot; as ruas de Paris de tudo o que era considerado improdutivo ou escandaloso. Era um período de abundância material, grandes gastos estatais e de uma imensa riqueza do império colonial francês, e desvios nessa ordem eram vistos como perigosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes tais hospitais gerais eram confinados, todos juntos, grupos totalmente diferentes, tais como pobres, mendigos, desempregados, libertinos, prostitutas, alquimistas, opositores políticos e, claro, também os considerados loucos. Em suma, um depósito de indesejados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que começou em Paris se tornou um modelo para outros lugares sobre como fazer a gestão da miséria e da “desrazão”, num forte deslocamento do que se via na Idade Média. O louco, antes tendo algo de profético, místico ou talvez apenas uma excentricidade da vida medieval campesina, se torna uma questão político-administrativa. Essa mudança importante marca uma migração para a possibilidade de institucionalização daquilo que era considerado errante ou, de alguma forma, desagradável e, assim passível de ser alvo de uma forma de gestão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em Paris, as duas principais unidades do Hospital Geral se tornaram emblemáticas e simbólicas. A Salpêtrière, que era destinada às mulheres, e o hospital Bicêtre, destinado aos homens. Ambas não ofereciam qualquer forma de tratamento. Eram basicamente depósitos humanos, onde o louco poderia acabar acorrentado ao lado de criminosos, por exemplo. O critério de internação não era o diagnóstico clínico, mesmo porque simplesmente ele nem existia nos moldes modernos, mas a incapacidade de se ajustar às normas de trabalho e à moralidade da época.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Alemanha ===&lt;br /&gt;
Na Alemanha, surgiram as Zuchthäusern, que seriam as Casas de Correção. Cidades como Hamburgo e Bremen estabeleceram esses locais onde a loucura era tratada através do trabalho forçado. Eles acreditavam que o ócio era a raiz do mal e que o confinamento servia para reintegrar o indivíduo à lógica da produtividade. De qualquer forma, uma vez enclausurado, ele permanecia escondido da visão da população.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Inglaterra ===&lt;br /&gt;
Na Inglaterra, o sistema das Workhouses (Casas de Trabalho) cumpria um papel semelhante ao modelo alemão. No entanto, Londres já possuía o Bethlem Royal Hospital, conhecido popularmente como Bedlam. No século XVII e XVIII, Bedlam se tornou um espetáculo de horror, onde o público podia pagar para observar os internos como se fossem animais em um zoológico. A loucura era agora um objeto de uma forma de exibição degradante e mantida atrás de grades e ferros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Portugal ===&lt;br /&gt;
Em Portugal a gestão dos &amp;quot;desviantes&amp;quot; recaiu fortemente sobre as Santas Casas da Misericórdia. O Hospital Real de Todos-os-Santos, fundado em Lisboa em 1492 e inaugurado em 1501, se tornou o epicentro do tratamento (ou confinamento) dos loucos no país. Dentro deste hospital, existiam as chamadas &amp;quot;Casas de Doidos&amp;quot;, destinados àqueles que haviam “perdido a luz da razão”. Seguindo o padrão europeu, o hospital não separava rigidamente o louco por diagnóstico. Eles dividiam espaço com indigentes e enfermos de diversas naturezas, embora as &amp;quot;casas de doidos&amp;quot; fossem áreas de maior isolamento devido à agitação dos internos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XVIII português, a internação era, acima de tudo, uma solução para a mendicância e, por vezes, para o alcoolismo. O louco que tinha família e posses era mantido nas casas das famílias, muitas vezes escondido em sótãos ou anexos e até mesmo acorrentados. Já o &amp;quot;louco pobre&amp;quot;, cujas famílias nem se importam ou que não poderiam ser cuidados por seus familiares, era aquele que acabava nos hospitais reais ou mesmo nas cadeias, a depender de uma série de elementos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Nascimento da Psiquiatria ==&lt;br /&gt;
Nesta seção será tratada a história do nascimento da psiquiatria, mas não como ela é atualmente. Sua trajetória é cheia de desvios e abusos, além de vitórias para os direitos dos internos. Os avanços convivem com muitos retrocessos. Mesmo na época de seu surgimento, muitos eram os questionamentos sobre sua validade e cientificidade. Hoje existem aqueles que perguntam se a psiquiatria é necessária e se seu objeto não é fabricado por ela mesma, por meio de suas práticas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Pinel e a criação da psiquiatria nosográfica ===&lt;br /&gt;
É na virada do século XVIII para o XIX que nasce a psiquiatria como um campo autônomo do saber e da prática médica. Esta mudança fundamental é protagonizada por duas figuras centrais da medicina francesa: Philippe Pinel e seu discípulo, Jean-Étienne Dominique Esquirol. Juntos, eles transformaram o hospital de depósito de insanos e indesejáveis em um verdadeiro hospital, em que o louco e o alienado poderiam receber um tratamento racional e científico, em substituição às correntes, à disciplina e ao silenciamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A emergência da psiquiatria como campo autônomo teve como fundamento científico inicial a observação clínica sistemática dentro do asilo. Este era concebido como um laboratório, onde o alienista poderia estudar a loucura em seu estado puro, separada das influências do mundo exterior. A principal questão científica e prática que justificava essa nova ciência era desenvolvida e aplicada de forma sistemática era a chamada nosografia ou diagnóstico. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pinel, em seu &#039;&#039;Traité&#039;&#039; de 1801, classificou a loucura com base em critérios sintomatológicos, seguindo um procedimento comparativo semelhante ao das ciências naturais. O desafio central, que persistiria ao longo do século XIX, era a ambiguidade constante entre a busca por uma sede orgânica, ou seja, um “local físico-biológico” da loucura, junto da necessidade de uma regulação de caráter moral. O tratamento apoiava-se na moralidade para combater as causas que eram, elas próprias, consideradas morais, mas algo estava também no corpo do doente. Isso mostra que a nova psiquiatria de Pinel era a mistura de uma perspectiva médica com algo de caráter moral no entendimento da loucura. Este enfoque resultou na valorização do exame clínico pelos psiquiatras francófonos, permitindo a união da observação clínica com a formulação de hipóteses.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1793, em meio ao fervor da Revolução Francesa, Philippe Pinel foi nomeado médico-chefe do Hospital de Bicêtre e, posteriormente, da Salpêtrière. O cenário que encontrou era o ápice do &amp;quot;Grande Enclausuramento&amp;quot;, ou seja, homens e mulheres amontoados nas condições já descritas, com destaque para as correntes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A intervenção de Pinel, simbolizada pelo gesto de “libertar os loucos de suas correntes”, não foi apenas um ato humanitário, mas também uma decisão de natureza epistemológica. Pinel acreditava que a loucura não era uma possessão demoníaca nem uma degeneração animal irreversível, mas uma alienação mental, em outras palavras, uma perturbação das faculdades intelectuais e afetivas que mantinha o indivíduo como se fosse &amp;quot;estrangeiro&amp;quot;, ou alienado, de si mesmo e da sociedade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O pilar para a reforma psiquiátrica proposta por Pinel era o tratamento moral, e se baseava em três pilares fundamentais. O primeiro, o isolamento terapêutico. Era necessário que o paciente ficasse separado de seu ambiente que, segundo o médico, era a fonte de sua excitação e desequilíbrio. O segundo pilar era a autoridade médica, onde este deveria atuar como um pai ao mesmo tempo severo e justo, usando a persuasão, a benevolência e, se fosse necessário, a firmeza para restaurar a razão do paciente. Por fim, a disciplina e o trabalho, com a aplicação rigorosa de horários e valorização de atividades produtivas, o que ocuparia a mente alienada e, assim, combateria a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em seus estudos, Pinel identificou quatro tipos de loucura, quais sejam, a melancolia, a mania, a demência e o idiotismo, cada uma com suas questões próprias específicas e metodologias de tratamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Esquirol e a consolidação do modelo ===&lt;br /&gt;
Se Pinel era considerado o visionário e o libertador, Jean-Étienne Dominique Esquirol foi o grande organizador e o clínico meticuloso. Discípulo de Pinel, Esquirol sucedeu seu mestre na Salpêtrière e deu à psiquiatria a robustez científica e administrativa de que ela necessitava. Esquirol compreendeu que a eficácia do tratamento moral dependia da arquitetura hospitalar. Para ele, o hospital não era apenas um prédio onde ocorria o tratamento, mas também um instrumento de cura. Ele desenvolveu o modelo de pavilhões, permitindo a separação dos pacientes por tipo de patologia, o que reforçou a própria ideia de diagnóstico e de avaliação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Esquirol refinou as definições clínicas de Pinel. Foi ele quem estabeleceu a distinção clássica entre alucinação (uma percepção sem objeto) e ilusão (uma percepção deformada de um objeto real), entre outros pontos que, na sua época, foram considerados avanços exemplares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Legalização da Alienação ===&lt;br /&gt;
O esforço médico, político e administrativo de Esquirol na continuação do trabalho de Pinel culminou na promulgação da lei francesa de 30 de Junho de 1838, a primeira grande legislação psiquiátrica do mundo moderno. Esta lei estabeleceu a obrigatoriedade de cada departamento francês possuir um asilo e regulamentou as condições de internação e interdição. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A princípio, embora também protegesse o alienado do arbítrio e de outras violências que poderiam ser cometidos contra os loucos nas províncias e mesmo nas periferias de Paris, a lei também deu total poder ao médico psiquiatra. Era ele quem poderia decidir quem deveria ou não ser privado de sua liberdade. Com isso, a psiquiatria tornava-se, assim, um braço do Estado na gestão da ordem social mas, ao contrário do polícia e do inquérito polícial, que exigia provas independentes e a atuação do sistema judiciário, o psiquiatra estava coberto sob o manto da ciência médica, o que dava a ele poderes gigantescos de decidir entre a alienação e a razão. Isso marcou profundamente a forma como a loucura e a saúde mental passaram a ser compreendidas e tratadas nas décadas seguintes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Loucura no Brasil ==&lt;br /&gt;
Até o início do século XIX, o Brasil colonial lidava com seus insanos de forma semelhante ao que ocorria na Europa. As famílias ricas mantinham seus parentes loucos em &amp;quot;quartos fortes&amp;quot;, privando-os mais ou menos da vida comunitária e familiar, a depender das circunstâncias. Já os pobres eram entregues à caridade das Santas Casas de Misericórdia ou vagavam pelas ruas, sendo ocasionalmente recolhidos a cadeias públicas quando perturbavam a ordem, indo e vindo das frágeis instituições brasileiras, sofrendo abusos e violências de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A transferência da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 gerou a necessidade de transformar a capital colonial em uma moderna metrópole europeia. Sob a influência do Iluminismo tardio e das notícias que chegavam sobre as reformas de Pinel na França, a elite médica brasileira, que havia estudado sobretudo na França e em Portugal, começou a pressionar o poder público pela criação de espaços específicos para o tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1830, a criação da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (que viria a ser a Academia Nacional de Medicina) foi o marco institucional dessa pressão. Esse movimento político funcionou. O momento decisivo ocorreu em 18 de julho de 1841, quando o Imperador D. Pedro II, em comemoração à sua coroação, assinou o decreto de fundação do primeiro hospital psiquiátrico do Brasil e da América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Hospício de Pedro II, ou o Palácio dos Loucos (1852–1889) ===&lt;br /&gt;
Inaugurado apenas em 8 de dezembro de 1852, o Hospício de Pedro II era gerido pela Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, que por anos geriu grande parte da loucura brasileira. Seu provedor era o médico José Clemente Pereira, que era responsável por todos os aspectos da instituição, desde os médicos até os administrativos. Embora a gestão administrativa fosse religiosa, o saber médico tinha muito espaço com nomes como Manoel Feliciano Pereira de Carvalho, que tentaram implementar o &amp;quot;tratamento moral&amp;quot; inspirado em Esquirol. Apesar dos esforços, muitos relatos de abusos e de condições precárias mostravam a dificuldade em implementar um modelo brasileiro de tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a Proclamação da República em 1889, o Hospício de Pedro II foi desvinculado da Santa Casa e renomeado como Hospital Nacional de Alienados (HNA). Este foi um período de maior laicização e pela busca por um maior rigor científico, o que não aconteceu por completo, em grande parte devido à falta de profissionais adequadamente treinados para a questão. Apesar disso, o Brasil já possuía uma cátedra de psiquiatria desde 1883, ocupada por João Carlos Teixeira Brandão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diante dos altíssimos custos em manter o Hospital, surgem as colônias agrícolas como alternativa ao confinamento urbano. Em 1884, já havia sido inaugurada a Colônia de São Bento e, em 1890, a Colônia de Conde de Mesquita, na Ilha do Governador. A ideia era que o trabalho na terra poderia colaborar na cura, além de os produtos deste trabalho poderiam ser consumidos no local, ajudando na manutenção dos espaços. Apesar dessas transformações e de evidentes melhorias, os relatos de época mostram que não acontecia nenhuma das duas coisas, nem produção agrícola suficiente, nem um processo terapêutico efetivo, mas entendia-se que a colônia agrícola era melhor do que o confinamento do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Era Juliano Moreira ===&lt;br /&gt;
Em 1903, o médico baiano Juliano Moreira assume a direção do Hospital Nacional de Alienados. Negro, de origem humilde e dotado de uma erudição impressionante, ele revolucionou a assistência brasileira aos alienados, sendo reconhecido internacionalmente como um dos grandes psiquiatras de seu tempo. Ele se tornaria o principal médico alienista do Brasil, tornando-se referência para todo o país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Moreira aboliu definitivamente o uso de camisas de força e as grades nas janelas, num gesto que se assemelhava àquele de Pinel, enfatizando que o hospital era um local de tratamento e cura, e não uma prisão ou um depósito de indesejados. Além disso, ele trouxe para o Brasil a nosologia de Emil Kraepelin, um psiquiatra alemão considerado o pai da psiquiatria moderna, da psicofarmacologia e da genética psiquiátrica, o que seria uma modernização do modelo francês adotado até então. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a gestão Moreira ocorreram várias mudanças. Foi criado o Pavilhão Bourneville para crianças com deficiência intelectual. Além disso, fundou-se o Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro (1921), o primeiro do país, sob a liderança de Heitor Carrilho. Dentro dos hospitais incentivou-se a pesquisa laboratorial e anátomo-patológica, o que também abriu espaço para a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A influência e o prestígio de Juliano Moreira se espalhou pelo Brasil. Em São Paulo, destacou-se a figura de Francisco Franco da Rocha, que fundou em 1898 o Hospital do Juquery. O Juquery, como ficou conhecido, tornou-se uma &amp;quot;cidade-asilo&amp;quot;, chegando a abrigar dezenas de milhares de pacientes em um modelo que mesclava pavilhôes médicos com imensas colônias agrícolas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste período, a psiquiatria brasileira flertou intensamente com as teorias da degenerescência (de Morel e Magnan) e com a eugenia. Médicos como Renato Kehl, bem como a criação da Liga Brasileira de Higiene Mental (1923), fundada por Gustavo Riedel, começaram a ver a loucura não apenas como um problema individual, mas como um risco biológico à raça brasileira. A higiene mental passou a atuar preventivamente em escolas e fábricas, buscando identificar &amp;quot;pré-delinquentes&amp;quot; e &amp;quot;personalidades anormais&amp;quot;. Apesar de não ter conseguido desenvolver muitas políticas efetivas, os eugenistas brasileiros eram ativos e influentes em muitos círculos decisórios importantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A criação de hospitais não se limitou a São Paulo e Rio de Janeiro. Em  1903, o governo de Minas Gerais fundou o Hospital Psiquiátrico de Barbacena, que mais tarde seria palco de uma das maiores tragédias humanitárias do país. Em Pernambuco, o Hospital Ulysses Pernambucano foi fundado pelo médico de mesmo nome, que começou a desenvolver uma psiquiatria mais voltada para o social e para a prevenção no final dos anos 1920. Hospitais na Bahia, Rio Grande do Sul, entre outros, também foram criados, seguindo o pioneirismo do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Era Vargas e além: o início do encarceramento ===&lt;br /&gt;
Com a Revolução de 1930, o projeto de nação de Vargas exigia um povo saudável e produtivo, devido à visão desenvolvimentista suportada pela Aliança Liberal, que o elegeu. A loucura deixou de ser apenas uma questão de ordem pública ou um aspecto da caridade para se tornar um problema de Segurança Nacional e Saúde Pública. Em 1941, no âmbito do Estado Novo, foi criado o Serviço Nacional de Doenças Mentais (SNDM), substituindo o antigo modelo de assistência a alienados, que era fragmentado, conforme as diferentes províncias. Dessa maneira, Vargas criou uma diretriz federal centralizada para a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a Liga Brasileira de Higiene Mental (LBHM), uma instituição que professava o higienismo no Brasil e que já atuava desde a década de 1920, ganhou fôlego. O foco deslocou-se do hospital para a prevenção na sociedade. A psiquiatria não deveria se limitar aos hospitais, mas também atuar na escola, na fábrica e na família, buscando eugenizar, limpar a nação e extirpar o que chamavam de &amp;quot;elementos degenerados&amp;quot;. O médico Gustavo Riedel e seus sucessores defendiam que o Estado deveria intervir precocemente para evitar que o &amp;quot;anormal&amp;quot; se tornasse um fardo para a máquina pública.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi durante as décadas de 1930 e 1940 que o modelo de colônia agrícola, antes visto como terapêutico e de assistência à manutenção hospitalar, atingiu proporções industriais. O que se viu em Barbacena e em instituições como o Juquery em São Paulo, foi a transformação do hospital em, praticamente, um campo de concentração administrativo. A internação não dependia mais de um diagnóstico médico rigoroso, que na prática ainda era frágil e baseado em elementos pouco científicos. Bastava ser considerado &amp;quot;socialmente inconveniente&amp;quot; para correr-se o risco de ir parar numa instituições dessas. Assim, pobres, prostitutas, homossexuais, militantes políticos e mães solteiras eram enviados para essas instituições, onde a sobrevivência era a exceção. Estima-se que, no auge do descaso, o Hospital de Barbacena registrava um número alarmante de óbitos por frio, fome e doenças evitáveis, cujos corpos eram, por vezes, vendidos para faculdades de medicina. Situações similares aconteciam em outras instituições do tipo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tratamentos Brutais e os Modos de Resistência ===&lt;br /&gt;
Para além do horror asilar, o período entre 1930 e 1950 também foi marcado pela introdução de terapias biológicas drásticas, importadas da Europa, conhecidas como somatoterapias. Com uma psicofarmacologia pouco eficaz, os médicos buscavam &amp;quot;chacoalhar&amp;quot; o organismo, produzindo nele como um choque que pudesse restaurar a razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma dessas técnicas era a insulinoterapia. Introduzida na Europa pelo médico austríaco Manfred Sakel (1900–1957) em Viena, no início dos anos 1930, representou uma das primeiras e mais invasivas formas de somatoterapia. Originalmente destinada ao tratamento da esquizofrenia, a técnica consistia na administração de doses maciças de insulina no paciente, provocando um estado de hipoglicemia profunda que levava o paciente ao coma. Na volta desse estado, se esperava que o indivíduo “restaurasse” a razão por conta do choque orgânico violento que havia vivenciado. O procedimento era extremamente perigoso e estava associado a uma alta taxa de mortalidade e morbidade devido às convulsões e aos possíveis danos cerebrais. Apesar dos riscos, o método foi amplamente adotado no mundo todo, incluindo o Brasil, onde foi usado em grandes instituições de confinamento, como o Hospital Nacional de Alienados (HNA), no Hospital Juquery, entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que passou a ser muito utilizada foi a Eletroconvulsoterapia, ou simplesmente o eletrochoque. Introduzido no Brasil logo após sua invenção na Itália (1938), consiste em colocar eletrodos carregados com correntes elétricas em lados opostos, na lateral da cabeça, de modo que uma forte corrente elétrica atravessasse o cérebro. A duração e a intensidade podiam variar, mas relatos de mais de trinta minutos de choques violentos não eram incomuns. Sua brutalidade era tamanha que exigia que sua vítima fosse fortemente amarrada. Tornou-se uma ferramenta onipresente nos hospitais, muitas vezes aplicada sem anestesia e como método de punição, desvirtuando sua finalidade clínica e usada, basicamente, como ferramenta de tortura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que ingressou no Brasil nesse período foi a lobotomia, um procedimento cirúrgico que consistia em apenas retirar um pedaço do cérebro do paciente. Eles foram realizados em larga escala em hospitais como o Juquery e no Hospital Pedro II, buscando a docilização de pacientes crônicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em oposição à violência do isolamento oferecido por essas instituições, surge a figura de Nise da Silveira. Em 1946, após ter sido presa pelo regime de Vargas por suas inclinações políticas, Nise assumiu o Setor de Terapêutica Ocupacional do Centro Psiquiátrico Nacional (Engenho de Dentro), no Rio de Janeiro. Ela se recusou a usar eletrochoques e lobotomias, introduzindo a arte e o afeto como mediadores da cura. Ela fundou o Museu de Imagens do Inconsciente em 1952, onde demonstrou, através das pinturas e esculturas de pacientes como Arthur Bispo do Rosario, que o louco preservava uma riqueza simbólica e uma humanidade que a psiquiatria tradicional tentava apagar. Sua colaboração com Carl Jung colocou a experiência brasileira no mapa da psicologia analítica mundial, provando que o tratamento em liberdade e através da expressão criativa era viável.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Criação da Indústria da Loucura ===&lt;br /&gt;
No final da década de 1950 e início da de 1960, durante o governo de Juscelino Kubitschek e o breve período democrático posterior, o Brasil viu o surgimento de uma nova e ainda mais perversa dinâmica: a Indústria da Loucura. A assistência psiquiátrica, antes quase totalmente pública ou baseada no assistencialismo das Santas Casas, começou a ser privatizada. Com o crescimento dos institutos de previdência (IAPs), o Estado passou a pagar hospitais privados por dia de internação. Isso criou um incentivo perverso: quanto mais tempo o paciente ficasse internado e quanto menos recursos fossem gastos com ele, maior o lucro das clínicas privadas. Esse modelo, conhecido como &amp;quot;hospitalocêntrico&amp;quot;, inchou o sistema e preparou o terreno para a política de contenção social que seria radicalizada após o golpe de 1964. Foi um momento de multiplicação da brutalidade. Pouco importava a loucura ou não, o tratamento ou não, a eficácia ou não. O que importava era ganhar o dinheiro estatal por meio de um encarceramento fácil e praticamente impossível de escapar, além de altamente lucrativo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A coisa se aprofundou ainda mais com o golpe militar, que unificou em 1966 os Institutos de Aposentadoria e Pensões no INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), produzindo uma centralização gigantesca de recursos, com um modelo de privatização quase total. A psiquiatria, por ser uma especialidade cuja formação exigia baixo investimento tecnológico quando comparada a outras como a cirurgia, cardiologia ou oncologia, permitia grandes lucros com as internações de longa permanência. Assim, trancafiar e atormentar os loucos tornou-se o setor mais atraente para o empresariado da saúde.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de pessoas possivelmente diagnosticadas, o sistema era alimentado pelo encarceramento de militantes políticos, estudantes rebeldes, pessoas em situação de rua,  mendigos, homossexuais, indivíduos com comportamentos &amp;quot;desviantes&amp;quot; da moral tradicional, dependentes químicos, alcoólatras ou mesmo pessoas “problemáticas” da família, que se recusavam, por exemplo, a participar de casamentos arranjados, que denunciavam violência sexual ou eram apenas mulheres que haviam engravidado antes do casamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As instituições privadas multiplicaram-se pelo interior do país, longe dos olhos da fiscalização e dos centros urbanos. Instaladas em locais de difícil acesso, facilitava o ocultamento de violações de direitos humanos e ainda utilizava da conivência dos governos locais. As populações dessas localidades, crentes no saber médico, dificilmente desconfiavam do que poderia acontecer dentro dessas instituições e, quando vazavam denúncias, elas rapidamente podiam ser facilmente manejadas em conluio com os poderes locais. A loucura tornou-se um negócio de massa, com o abrigo precário de centenas de pessoas em galpões, onde a única &amp;quot;terapia&amp;quot; era a contenção química por sedativos baratos ou o uso indiscriminado do eletrochoque para manter a ordem além, é claro, da violência e brutalidade de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Luta Antimanicomial ==&lt;br /&gt;
No final da década de 1970, o modelo de saúde mental começou a dar sinais de exaustão, tanto financeira quanto ética. O Estado já não conseguia arcar com os custos crescentes de um sistema que só expandia o número de crônicos, e as denúncias de maus-tratos começaram a furar o bloqueio da censura, aparecendo em jornais mais prestigiados e em espaços mais amplos do debate social. O estopim para a o início do movimento da reforma psiquiátrica no Brasil começa com uma crise na Divisão Nacional de Saúde Mental (DINSAM), que havia recebido denúncias de irregularidades no Centro Psiquiátrico Pedro II, no Hospital Pinel, na Colônia Juliano Moreira e no Manicômio Judiciário Heitor Carrilho. A denúncia foi acompanhada de uma greve por parte dos funcionários, que exigiam melhorias institucionais e questionavam irregularidades trabalhistas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É dessa crise que surge o Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM) que, nesse primeiro momento, estão mais preocupados com questões trabalhistas do que com o problema da própria prática psiquiátrica, que vai caracterizar parte dos movimentos antimanicomiais posteriormente. O MTSM se fortalece e consegue espaço no extremamente conservador V Congresso Brasileiro de Psiquiatria, que ocorre em 1978, no que fica conhecido como “congresso da abertura”, num período também de abertura política com o iminente fim do regime militar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda em 1978, um grupo importante de intelectuais vinculados às bases teóricas do Movimento Antimanicomial participa do I Congresso Brasileiro de Psicanálise de Grupos e Instituições, incluindo Franco Basaglia, Felix Guattari, Robert Castel e Erwinf Goffman, todos eles de grande inspiração e influência para o movimento antimanicomial brasileiro. No ano seguinte, o I Congresso Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental fortalece a contextação não apenas de problemas trabalhistas, mas do próprio modelo asilar e da forma como a psiquiatria intervinha e oprimia a população marginalizada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação público-privada que alimentava o modelo até então começa a ruir em 1980, com a chamada política da co-gestão interministerial. Nela, um convênio celebrado entre o Ministério da Previdência e Assistência Social com o Ministério da Saúde liquida a &amp;quot;Unidade de Serviço&amp;quot;, a política que permitia a contratação privada de serviços psiquiátricos e que representou o triunfo do público sobre o privado. Membros do MTSM passam a integrar a gestão do atendimento em saúde mental que, por dentro do aparato estatal, começam a implementar uma política de saúde pública baseada em prestação de serviços, cooperação, descentralização e regionalização, propostas que já eram defendidas pelos reformadores. Apesar desses avanços, críticos afirmam que a política de co-gestão apenas visava reformar os serviços, não atingindo o âmago da questão, que seria desconstruir o próprio paradigma psiquiátrico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo de desinstitucionalização de fato começa em 1985, ano marcado pelo fim da Ditadura Militar e pela realização de vários eventos que aprofundam o debate sobre a situação do atendimento. A I Conferência Nacional de Saúde Mental marca o início da desinstitucionalização devido aos conflitos entre o MTSM, a ABP e grupos não-organicistas que passaram a dirigir o DINSAM. Na conferência, consagrou-se uma reviravolta na perspectiva com a consolidação do lema &amp;quot;por uma sociedade sem manicômios&amp;quot;, rompendo com a lógica tanto privatista quanto estatista e questionando o próprio modelo psiquiátrico tradicional. Este passou a ser amplamente entendido como fenômeno cultural que promove o tratamento moral e o controle dos corpos, uma visão abertamente basagliana e antimanicomial. Alguns entendem que, nesse momento, a tradição anti-institucional que originou os primeiros questionamentos na década de 1970 foi restaurada e fortalecida. Após a Conferência, o próprio MTSM se renovou, se desatrelando do Estado, retomando sua independência e seu papel de transformação social.  A mudança do movimento se consolidou no II Congresso Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental, quando a noção de racionalização e modernização dos serviços que havia caracterizado o período da co-gestão foi recusado em nome de uma pauta anti-institucional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em meados dos anos 1980 começam a surgir novos modelos de atenção à saúde que poderia substituir o modelo psiquiátrico. Em São Paulo é criado o primeiro Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), em 1987. Em Santos, surge o Núcleo de Atenção Psicossocial (NAPS), em 1989. Estes serviços passaram a ser vistos como os modelos para uma contestação profunda dos manicômios, justificando seu encerramento. Já na década de 1990, o SUS introduziu mecanismos de fiscalização e auditoria que começaram a sufocar financeiramente os asilos privados que não cumpriam níveis mínimos de dignidade. Portarias históricas do Ministério da Saúde, inspiradas na Declaração de Caracas (1990), passaram a proibir a criação de novos leitos psiquiátricos asilares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após mais de uma década de tramitação e intensos debates no Congresso Nacional, como fruto dos embates históricos iniciados na crise do DINSAM e que atravessaram debates públicos extremamente imporantes, foi promulgada a Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001, que ficou conhecida como Lei da Reforma Psiquiátrica ou Lei Paulo Delgado, seu autor. Esta legislação se tornou o marco jurídico definitivo da virada assistencial no Brasil. A lei instituiu o direito do paciente de ser tratado em ambiente terapêutico o menos restritivo possível e colocou a internação psiquiátrica como último recurso possível. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para preencher o vazio deixado pelo fechamento dos grandes hospitais, o SUS estruturou a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), formalizada na década seguinte pela Portaria nº 3.088 de 2011. A RAPS organizou o cuidado em diferentes níveis de complexidade, com os CAPS divididos nas modalidades CAPS I, II, III, CAPSi  e CAPS AD e, por fim, os Serviços de Residência Terapêutica (SRT). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, a luta continua devido a retrocessos observados na segunda metade da década de 2010 e início dos anos 2020. Mudanças nas diretrizes da Política Nacional de Saúde Mental tentaram reintroduzir a centralidade do hospital psiquiátrico e incentivaram o uso de práticas baseadas no isolamento. Além disso, o governo federal passou a financiar massivamente as chamadas Comunidades Terapêuticas (CTs), instituições de caráter predominantemente privado e religioso voltadas ao acolhimento de usuários de drogas, de onde emanam graves denúncias de todos os tipos de violação dos direitos humanos e que representam um evidente retrocesso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje, o campo da saúde mental no Brasil vive um embate profundo entre duas visões. De um lado, aqueles que lutam pela consolidação da RAPS, em defesa da clínica da subjetividade, da defesa dos direitos humanos, pela redução de danos e pela inserção social pelo trabalho e pela cultura. Do outro lado observa-se a persistência do lobby asilar e de setores que buscam a mercantilização do cuidado, por meio do encarceramento, da medicalização extrema do sofrimento psíquico, da higienização dos centros urbanos e do recolhimento dos indesejáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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YASUI, Silvio. Rupturas e Encontros: desafios da Reforma Psiquiátrica Brasileira. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2010.&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1681</id>
		<title>História da loucura: da Grécia antiga à luta anti-manicomial</title>
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		<updated>2026-05-16T10:21:28Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* A Luta Antimanicomial */ Várias modificações substanciais&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este texto ainda é um rascunho&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Texto com finalidade didática escrita por André Elias Morelli Ribeiro para o curso de Psicologia do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Introdução ==&lt;br /&gt;
A história da loucura é, ao mesmo tempo, uma narrativa sobre o modo como diferentes sociedades compreenderam a mente humana e uma reflexão sobre os mecanismos de poder que moldaram práticas de exclusão, cuidado e resistência vinculados à loucura. Iniciando na Grécia antiga até o movimento antimanicomial no Brasil, pode-se observar como a loucura foi interpretada ora como intervenção divina, ora como desvio moral, ora como doença fisiológica, ora como ameaça social. Cada época construiu suas próprias respostas, que variaram entre a integração comunitária, o confinamento brutal e a busca por tratamentos médicos ou espirituais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, a trajetória seguiu de perto os modelos europeus. Do Hospício de Pedro II às colônias agrícolas, passando pela gestão de Juliano Moreira, a psiquiatria nacional oscilou entre avanços humanitários e práticas de exclusão. O período Vargas e o Estado Novo intensificaram o encarceramento, transformando hospitais em verdadeiros campos de concentração administrativos. As décadas seguintes viram a adoção de terapias brutais, como eletrochoques e lobotomias, mas também o surgimento de resistências, como a obra de Nise da Silveira, que introduziu a arte e o afeto como caminhos de cura. A partir dos anos 1960, a privatização da assistência psiquiátrica gerou a chamada “Indústria da Loucura”, marcada por internações lucrativas e violações sistemáticas de direitos humanos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em síntese, o percurso histórico apresentado aqui mostra que a loucura nunca foi apenas um fenômeno clínico mas, antes, um espelho das sociedades, revelando seus medos, suas crenças e suas formas de organizar o convívio humano. De sagrada a temida, de medicalizada a mercantilizada, apresenta-se e se discute como surgiram vozes e práticas que reivindicaram humanidade e liberdade para os considerados loucos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As Loucuras no Mundo Antigo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Grécia antiga ===&lt;br /&gt;
Na Grécia antiga, em certo momento a loucura era considerada uma intervenção dos deuses e, como os gregos era politeístas, a varidade de formas de loucura e intervenção também era bem grande. A loucura poderia ser vista como uma punição. Um exemplo notório é o herói Ajax, filho de Telamão. Após a morte de Aquiles, a armadura do herói foi dada a Odisseu, e a afronta levou Ajax a um estado de fúria e ressentimento. A deusa Atena, intervindo em favor de Odisseu ou para proteger os Aqueus da vingança de Ajax, lançou sobre ele uma cegueira mental. Tomado pela loucura, Ajax massacrou o gado de guerra que havia sido capturado, acreditando que estava matando os líderes aqueus, incluindo Odisseu e Agamenon. Ao recobrar a sanidade e perceber seu ato vergonhoso, o que o levou a cometer suicídio por humilhação. Essa cena ilustra a loucura como uma intervenção divina direta na forma de loucura poderia ser vista como destrutiva e extremamente negativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em outros episódios da mitologia grega, a loucura surge como uma consequência direta de traumas e da perseguição implacável por vingança. Um exemplo fundamental é o de Orestes que, após assassinar sua mãe, Clitemnestra, para vingar a morte de seu pai, Agamenon, passa a ser atormentado pelas Erínias. Essas divindades da vingança, também conhecidas como Fúrias, levaram o herói a um estado de delírio e desespero profundo, personificando a tortura psicológica e a perda da razão como uma forma de acerto de contas espiritual e moral pelo matricídio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura não era unicamente um flagelo ou uma punição. Os gregos, notavelmente, viam a mania, um termo que hoje engloba a loucura, em uma perspectiva dual. Na sua manifestação mais elevada era considerada uma benção ou inspiração divina. Essa visão positiva estava profundamente ligada ao culto de Dionísio, o deus do vinho, do teatro e do êxtase. Nos rituais dionisíacos, as bacantes e outros seguidores buscavam o êxtase, que é, literalmente, &amp;quot;sair de si&amp;quot;, por meio da dança frenética, música e consumo de vinho, o que era percebido como um estado de comunhão direta e inspirada com a divindade. Longe de ser destrutiva, essa forma de loucura era vista como uma fonte de criatividade, revelação e poder, sendo um caminho para a verdade profética e a expressão artística ligada a Dionísio. Este conceito de mania inspirada também se estendia a outros domínios, como a profecia dos oráculos, que eram vinculados à adoração ao deus Apolo, e mesmo a poesia, onde a perda temporária da razão humana era interpretada como a mente sendo tomada por uma força divina que trazia algum tipo de inspiração.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em certo momento, ainda na Grécia antiga, as ideias sobre a loucura - ou algo que pareça loucura aos nossos olhos contemporâneos - foi modificada graças a Hipócrates, o pai da medicina. A visão de Hipócrates marcou uma transição crucial para o entendimento da loucura na Grécia Antiga, pois afastou a loucura das concepções divinas e sobrenaturais para uma explicação puramente fisiológica e natural. Ele desenvolveu a Teoria dos Quatro Humores, que se tornou o pilar da medicina ocidental por séculos. Segundo essa teoria, o corpo humano era composto por quatro fluidos essenciais (humores): sangue, fleuma, bile amarela e bile negra. A saúde mental e física dependia do equilíbrio harmonioso desses humores. A loucura, ou qualquer doença mental, era, portanto, interpretada como o resultado de um desequilíbrio, como o excesso de bile negra causando a melancolia (depressão), ou o desarranjo da fleuma e da bile amarela, que poderiam levar a estados de mania e frenesi. Com isso, Hipócrates postulou que a loucura não era uma maldição dos deuses, mas sim uma doença com origem no corpo. Essa abordagem naturalista permitiu que a loucura passasse a ser tratada com métodos como dietas, exercícios e remédios, em vez de rituais religiosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tradição bíblica ===&lt;br /&gt;
Na tradição bíblica, escrita em contextos e culturas não europeias, a loucura também é frequentemente retratada como uma forma de intervenção ou punição divina. Um dos episódios mais emblemáticos é a história do rei Nabucodonosor II, relatada no Livro de Daniel. De acordo com o texto, devido ao seu orgulho excessivo e à recusa em reconhecer a soberania de Deus, o rei foi acometido por uma forma de loucura que o baniu do convívio humano. Ele passou a viver como um animal, alimentando-se de ervas e deixando seus cabelos e unhas crescerem sem controle. Na psicologia moderna, esse estado em que um indivíduo acredita ter se transformado em um animal é conhecido como licantropia clínica, uma condição rara, conforme emerge na descrição bíblica, mostra uma concepção de loucura ligada à perda da razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, a tradição bíblica também apresenta um paradoxo da loucura, onde o que é considerado &#039;loucura&#039; pelos homens revela-se a suprema sabedoria divina. Essa ideia é desenvolvida pelo apóstolo Paulo em sua Primeira Carta aos Coríntios. Na passagem, ele afirma: &#039;Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens&#039; (1 Coríntios 1:25). Paulo usa o termo moria (loucura, tolice) para contrastar a sabedoria humana, que na época do texto era representada pela filosofia e retórica grega, com a mensagem da cruz, que parecia ilógica e insensata aos olhos dos não cristãos, que debochavam do fato do profeta ter sido capturado e morto pelos romanos. Assim, a loucura deixa de ser apenas uma punição para se tornar uma lente através da qual a verdadeira sabedoria, ou seja, a salvação, é revelada, invertendo a hierarquia de valores do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Pérsia ===&lt;br /&gt;
Na Pérsia, a visão da loucura e do comportamento irracional foi moldada por seu profundo dualismo religioso e, posteriormente, pelas tradições islâmicas que se seguiram à conquista árabe. O zoroastrismo, a antiga religião persa fundada por Zoroastro (Zaratustra), transformou o politeísmo anterior em um dualismo cósmico centralizado no conflito eterno entre Ahura Mazda (Ormazd), o criador da vida, luz e verdade, e Angra Mainyu (Ahriman), a escuridão e a mentira. Neste cenário, o mundo material é o campo de batalha entre os dois. Ahriman buscava corromper tudo o que Ormazd havia criado. Embora o texto não defina a loucura diretamente, o comportamento irracional e a desrazão poderiam ser facilmente associados ao domínio de Ahriman e à mentira (druj), enquanto a sanidade e a pureza eram atributos de Ormazd. A batalha contra essa corrupção exigia que os adoradores de Ormazd permanecessem verdadeiros e evitassem poluir o fogo e a terra sagrada, indicando que a pureza mental e ritual era uma defesa contra as forças do mal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Islã ===&lt;br /&gt;
Na cultura islãmica, de forma geral e bastante resumida, o comportamento considerado irracional era frequentemente explicado pela crença nos djinn, espíritos errantes que habitavam o deserto e certos lugares considerados místicos e que podiam invadir a mente humana, causando o que a sociedade ocidental moderna chamaria de insanidade ou, talvez, distúrbio emocional, cujo tratamento era o exorcismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura também apareceu em narrativas culturais associadas aos povos de forma a sugerir causas e curas mais mundanas. O famoso conto persa de As Mil e Uma Noites relata a história do rei Shahriyar, que, convencido da inevitável traição feminina, cai em uma loucura paranóica que o leva a se casar e matar uma virgem todas as noites. Sua &amp;quot;cura&amp;quot; é alcançada através da engenhosidade e paciência humana por meio de uma dessas esposas, Scheherazade, que usa a arte de contar histórias para retardar sua execução por &amp;quot;mil e uma noites&amp;quot;, período em que sua paranoia é gradualmente desfeita. A história sugere que a narrativa e o tempo podem curar a loucura causada por trauma psicológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As Loucuras na Idade Média ==&lt;br /&gt;
A transição para a Idade Média é marcada pelo colapso do Império Romano do Ocidente (476 d.C.) e trouxe profundas transformações políticas e sociais. O fim do governo centralizado romano levou à fragmentação do poder e ao surgimento do sistema feudal, onde a administração das terras e a autoridade passaram para as mãos de senhores locais, muitos deles antigos oficiais romanos. Este período também é caracterizado por um notável declínio na vida urbana e nos grandes centros intelectuais. O colpaso das instituições romanas deu lugar à ascensão e consolidação da única instituição internacional grande e organizada que havia sobrado, a Igreja Católica, que se tornou a principal instituição de poder. Houve ainda uma perda gradual da tradição cultural greco-romana e, consequentemente, um afastamento das explicações naturalistas de Hipócrates, com exceção do pequeno renascimento do século XII e retomadas pontuais da sabedoria grega. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a hegemonia da Igreja Católica, a loucura tendeu a ser novamente interpretada sob uma lente teológica, sendo vista como uma manifestação de forças sobrenaturais ou desvios morais. Nesse contexto, certas vezes a loucura era interpretada como a intervenção de Satanás ou como possessão demoníaca, exigindo rituais de exorcismo para a cura. Em outros momentos, era vista como uma prova espiritual enviada por Deus ou como um efeito direto do pecado na alma do indivíduo. Havia também explicações que a tratavam como uma fragilidade da vontade humana, misturando elementos da antiga tradição grega com aspectos da teologia cristã, estabelecendo um novo arcabouço para o entendimento da mente humana durante a Idade Média, que tinha muitas variações e não era uniforme nem ao longo do tempo nem em todos os espaços.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Socialmente, a gestão da loucura na Idade Média também passou por diferentes fases e transformações, dependendo do local e da época. Haviam casos em que os consideradores loucos eram apenas torturados e trancafiados, acreditando-se serem métodos eficazes para expulsão de espíritos malignos, por exemplo. Contudo, em muitos outros casos, os considerados loucos conviviam de forma mais ou menos harmoniosa com o resto da comunidade, a depender de suas capacidades e possibilidades, e certos “desvios” eram perdoados devido à sua condição peculiar, sem a necessidade imediata de uma exclusão radical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Nau dos Loucos ===&lt;br /&gt;
Um caso notável e emblemático da gestão da loucura nesse período é a Nau dos Loucos (Stultifera Navis), conforme trabalhado por Michel Foucault. Anteriormente ao modelo de exclusão-repressão que viria a se consolidar na Idade Clássica, a loucura viveu o que se pode chamar de seus &amp;quot;dias de glória&amp;quot; na transição para a Renascença. Nesse contexto, o louco poderia ser visto como um sábio, um místico, um bobo da corte ou simplesmente um excêntrico que estava, de certa forma, integrado ao tecido social.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Nau dos Loucos simbolizava uma existência errante, onde o louco era confiado à água e ao navio para ser levado de uma cidade a outra, mantendo-o em um estado de exclusão simbólica, mas ainda assim em movimento e circulação. Para Foucault, essa experiência trágica da loucura permitia que o insano portasse uma forma de lucidez em sua insensatez, revelando verdades que a razão comum não ousava enunciar. O louco via através das ilusões mundanas, aproximando-se de uma verdade profética ou ética que seria progressivamente silenciada nos séculos seguintes pela ascensão do saber médico e da racionalidade científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Santa Dimpna e Geel ===&lt;br /&gt;
Outro acontecimento relevante da Idade Média para a compreensão da loucura é o episódio de Santa Dimpna. Nascida no século VII na Irlanda, ela era filha de um rei pagão e de uma mãe cristã devota, de quem herdou sua fé e pelo qual decidiu fazer votos de castidade. Após a morte prematura da mãe, seu pai, mergulhado em um profundo luto, decidiu que Dimpna era a única mulher com beleza comparável à da falecida rainha e insistiu em se casar com a própria filha, o que seria considerado escandaloso também para aquela cultura. Diante dessa perseguição incestuosa, Dimpna fugiu da Irlanda acompanhada de seu confessor, o padre Gereberno, e de dois servos fiéis. O grupo cruzou o mar e estabeleceu-se em Geel, um minúsculo vilarejo na atual Bélgica, onde Dimpna dedicou-se ao cuidado dos pobres e doentes mentais. No entanto, o rei conseguiu encontrá-los e, após a recusa de Dimpna em retornar e de se casar com o pai, ordenou a execução de Gereberno, enquanto ele mesmo decapitou a filha, tornando a menina de 15 anos de idade uma mártir cristã. Após sua morte, relatos de curas milagrosas de pessoas com distúrbios mentais e epilepsia começaram a ocorrer junto ao seu túmulo, o que a tornou a padroeira dos doentes mentais e o local um espaço de peregrinação ligado à questão da saúde mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O legado de Santa Dimpna em Geel deu origem a um modelo para a psiquiatria moderna pois, devido à devoção e adoração à Santa Dimpna, a cidade transformou-se em um santuário onde os pacientes não eram trancafiados, mas acolhidos em lares de famílias locais como &amp;quot;hóspedes&amp;quot;. Esse sistema de cuidado comunitário e desinstitucionalização, que persiste há séculos, é considerado um dos precursores do tratamento humanizado e da reabilitação psicossocial na saúde mental contemporânea.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Idade Clássica: a nova era da loucura encarcerada ==&lt;br /&gt;
A partir do século XVII, um período em que o filósofo Michel Foucault denominou como &amp;quot;A Época Clássica&amp;quot;, a forma de entender e lidar com a loucura passa por uma nova mudança devido ao ingresso da razão como centro e alma do pensamento europeu, em substituição ao dogmatismo religioso e ao conhecimento da igreja. Esta mudança não é brusca, mas lenta e gradual, porém suas marcas serão duradouras e serão sentidas por quase toda a Europa. Para essa nova e nascente razão, a loucura seria seu oposto direto. Se o homem era definido pela sua capacidade racional e sua utilidade produtiva, o louco era, portanto, como um &amp;quot;não-homem&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a solução para a não-razão era a internação que não buscava a cura, mas a neutralização do irracional. O silenciamento da loucura era necessário para que a ordem social pudesse florescer. Os campos e cidades deveriam ser espaços de circulação de mercadorias pelas mãos de cidadãos produtivos, e qualquer elemento que atrapalhasse essa dinâmica deveria ser guardado em instituições que funcionavam como uma guarda contra o risco social que tais pessoas ofereciam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Relatos da época descrevem cenários terríveis sobre as condições de internação dos loucos. Os internos eram frequentemente mantidos em celas úmidas e insalubres, muitas vezes acorrentados às paredes. O uso de chicotes e outras punições corporais era justificado pela crença de que o louco, por ter perdido a razão, teria a resistência física de um animal, não sentindo frio ou dor da mesma forma que uma pessoa &amp;quot;normal&amp;quot;. Além disso, as instituições funcionavam sob uma lógica de vigilância constante. Não se tratava de observar para entender a mente, mas para garantir que o corpo anormal permanecesse contido e, no máximo possível, docilizado. Foi dentro desse ambiente de absoluta degradação e mistura indiscriminada de diferentes &amp;quot;tipos&amp;quot; de desviantes que a consciência médica começou a germinar, ainda que de forma incipiente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== França ===&lt;br /&gt;
O ano de 1656 marca um divisor de águas simbólico para o modelo de confinamento asilar no mundo todo, com a criação do Hôpital Général (Hospital Geral) em Paris, por um edito real do rei Luís XIV. É importante entender que um hospital geral deste período não é como um hospital moderno, ou seja, uma instituição médica e voltada para a compreensão da doença e a prática do tratamento e cura. Ele estava mais próximo de uma estrutura administrativa e, de certo modo, semi-judiciária. Isso ocorria porque o interesse não estava em “curar” ou “tratar” ninguém mas, antes disso, perseguir o interesse do Estado de &amp;quot;limpar&amp;quot; as ruas de Paris de tudo o que era considerado improdutivo ou escandaloso. Era um período de abundância material, grandes gastos estatais e de uma imensa riqueza do império colonial francês, e desvios nessa ordem eram vistos como perigosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes tais hospitais gerais eram confinados, todos juntos, grupos totalmente diferentes, tais como pobres, mendigos, desempregados, libertinos, prostitutas, alquimistas, opositores políticos e, claro, também os considerados loucos. Em suma, um depósito de indesejados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que começou em Paris se tornou um modelo para outros lugares sobre como fazer a gestão da miséria e da “desrazão”, num forte deslocamento do que se via na Idade Média. O louco, antes tendo algo de profético, místico ou talvez apenas uma excentricidade da vida medieval campesina, se torna uma questão político-administrativa. Essa mudança importante marca uma migração para a possibilidade de institucionalização daquilo que era considerado errante ou, de alguma forma, desagradável e, assim passível de ser alvo de uma forma de gestão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em Paris, as duas principais unidades do Hospital Geral se tornaram emblemáticas e simbólicas. A Salpêtrière, que era destinada às mulheres, e o hospital Bicêtre, destinado aos homens. Ambas não ofereciam qualquer forma de tratamento. Eram basicamente depósitos humanos, onde o louco poderia acabar acorrentado ao lado de criminosos, por exemplo. O critério de internação não era o diagnóstico clínico, mesmo porque simplesmente ele nem existia nos moldes modernos, mas a incapacidade de se ajustar às normas de trabalho e à moralidade da época.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Alemanha ===&lt;br /&gt;
Na Alemanha, surgiram as Zuchthäusern, que seriam as Casas de Correção. Cidades como Hamburgo e Bremen estabeleceram esses locais onde a loucura era tratada através do trabalho forçado. Eles acreditavam que o ócio era a raiz do mal e que o confinamento servia para reintegrar o indivíduo à lógica da produtividade. De qualquer forma, uma vez enclausurado, ele permanecia escondido da visão da população.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Inglaterra ===&lt;br /&gt;
Na Inglaterra, o sistema das Workhouses (Casas de Trabalho) cumpria um papel semelhante ao modelo alemão. No entanto, Londres já possuía o Bethlem Royal Hospital, conhecido popularmente como Bedlam. No século XVII e XVIII, Bedlam se tornou um espetáculo de horror, onde o público podia pagar para observar os internos como se fossem animais em um zoológico. A loucura era agora um objeto de uma forma de exibição degradante e mantida atrás de grades e ferros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Portugal ===&lt;br /&gt;
Em Portugal a gestão dos &amp;quot;desviantes&amp;quot; recaiu fortemente sobre as Santas Casas da Misericórdia. O Hospital Real de Todos-os-Santos, fundado em Lisboa em 1492 e inaugurado em 1501, se tornou o epicentro do tratamento (ou confinamento) dos loucos no país. Dentro deste hospital, existiam as chamadas &amp;quot;Casas de Doidos&amp;quot;, destinados àqueles que haviam “perdido a luz da razão”. Seguindo o padrão europeu, o hospital não separava rigidamente o louco por diagnóstico. Eles dividiam espaço com indigentes e enfermos de diversas naturezas, embora as &amp;quot;casas de doidos&amp;quot; fossem áreas de maior isolamento devido à agitação dos internos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XVIII português, a internação era, acima de tudo, uma solução para a mendicância e, por vezes, para o alcoolismo. O louco que tinha família e posses era mantido nas casas das famílias, muitas vezes escondido em sótãos ou anexos e até mesmo acorrentados. Já o &amp;quot;louco pobre&amp;quot;, cujas famílias nem se importam ou que não poderiam ser cuidados por seus familiares, era aquele que acabava nos hospitais reais ou mesmo nas cadeias, a depender de uma série de elementos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Nascimento da Psiquiatria ==&lt;br /&gt;
Nesta seção será tratada a história do nascimento da psiquiatria, mas não como ela é atualmente. Sua trajetória é cheia de desvios e abusos, além de vitórias para os direitos dos internos. Os avanços convivem com muitos retrocessos. Mesmo na época de seu surgimento, muitos eram os questionamentos sobre sua validade e cientificidade. Hoje existem aqueles que perguntam se a psiquiatria é necessária e se seu objeto não é fabricado por ela mesma, por meio de suas práticas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Pinel e a criação da psiquiatria nosográfica ===&lt;br /&gt;
É na virada do século XVIII para o XIX que nasce a psiquiatria como um campo autônomo do saber e da prática médica. Esta mudança fundamental é protagonizada por duas figuras centrais da medicina francesa: Philippe Pinel e seu discípulo, Jean-Étienne Dominique Esquirol. Juntos, eles transformaram o hospital de depósito de insanos e indesejáveis em um verdadeiro hospital, em que o louco e o alienado poderiam receber um tratamento racional e científico, em substituição às correntes, à disciplina e ao silenciamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A emergência da psiquiatria como campo autônomo teve como fundamento científico inicial a observação clínica sistemática dentro do asilo. Este era concebido como um laboratório, onde o alienista poderia estudar a loucura em seu estado puro, separada das influências do mundo exterior. A principal questão científica e prática que justificava essa nova ciência era desenvolvida e aplicada de forma sistemática era a chamada nosografia ou diagnóstico. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pinel, em seu &#039;&#039;Traité&#039;&#039; de 1801, classificou a loucura com base em critérios sintomatológicos, seguindo um procedimento comparativo semelhante ao das ciências naturais. O desafio central, que persistiria ao longo do século XIX, era a ambiguidade constante entre a busca por uma sede orgânica, ou seja, um “local físico-biológico” da loucura, junto da necessidade de uma regulação de caráter moral. O tratamento apoiava-se na moralidade para combater as causas que eram, elas próprias, consideradas morais, mas algo estava também no corpo do doente. Isso mostra que a nova psiquiatria de Pinel era a mistura de uma perspectiva médica com algo de caráter moral no entendimento da loucura. Este enfoque resultou na valorização do exame clínico pelos psiquiatras francófonos, permitindo a união da observação clínica com a formulação de hipóteses.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1793, em meio ao fervor da Revolução Francesa, Philippe Pinel foi nomeado médico-chefe do Hospital de Bicêtre e, posteriormente, da Salpêtrière. O cenário que encontrou era o ápice do &amp;quot;Grande Enclausuramento&amp;quot;, ou seja, homens e mulheres amontoados nas condições já descritas, com destaque para as correntes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A intervenção de Pinel, simbolizada pelo gesto de “libertar os loucos de suas correntes”, não foi apenas um ato humanitário, mas também uma decisão de natureza epistemológica. Pinel acreditava que a loucura não era uma possessão demoníaca nem uma degeneração animal irreversível, mas uma alienação mental, em outras palavras, uma perturbação das faculdades intelectuais e afetivas que mantinha o indivíduo como se fosse &amp;quot;estrangeiro&amp;quot;, ou alienado, de si mesmo e da sociedade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O pilar para a reforma psiquiátrica proposta por Pinel era o tratamento moral, e se baseava em três pilares fundamentais. O primeiro, o isolamento terapêutico. Era necessário que o paciente ficasse separado de seu ambiente que, segundo o médico, era a fonte de sua excitação e desequilíbrio. O segundo pilar era a autoridade médica, onde este deveria atuar como um pai ao mesmo tempo severo e justo, usando a persuasão, a benevolência e, se fosse necessário, a firmeza para restaurar a razão do paciente. Por fim, a disciplina e o trabalho, com a aplicação rigorosa de horários e valorização de atividades produtivas, o que ocuparia a mente alienada e, assim, combateria a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em seus estudos, Pinel identificou quatro tipos de loucura, quais sejam, a melancolia, a mania, a demência e o idiotismo, cada uma com suas questões próprias específicas e metodologias de tratamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Esquirol e a consolidação do modelo ===&lt;br /&gt;
Se Pinel era considerado o visionário e o libertador, Jean-Étienne Dominique Esquirol foi o grande organizador e o clínico meticuloso. Discípulo de Pinel, Esquirol sucedeu seu mestre na Salpêtrière e deu à psiquiatria a robustez científica e administrativa de que ela necessitava. Esquirol compreendeu que a eficácia do tratamento moral dependia da arquitetura hospitalar. Para ele, o hospital não era apenas um prédio onde ocorria o tratamento, mas também um instrumento de cura. Ele desenvolveu o modelo de pavilhões, permitindo a separação dos pacientes por tipo de patologia, o que reforçou a própria ideia de diagnóstico e de avaliação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Esquirol refinou as definições clínicas de Pinel. Foi ele quem estabeleceu a distinção clássica entre alucinação (uma percepção sem objeto) e ilusão (uma percepção deformada de um objeto real), entre outros pontos que, na sua época, foram considerados avanços exemplares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Legalização da Alienação ===&lt;br /&gt;
O esforço médico, político e administrativo de Esquirol na continuação do trabalho de Pinel culminou na promulgação da lei francesa de 30 de Junho de 1838, a primeira grande legislação psiquiátrica do mundo moderno. Esta lei estabeleceu a obrigatoriedade de cada departamento francês possuir um asilo e regulamentou as condições de internação e interdição. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A princípio, embora também protegesse o alienado do arbítrio e de outras violências que poderiam ser cometidos contra os loucos nas províncias e mesmo nas periferias de Paris, a lei também deu total poder ao médico psiquiatra. Era ele quem poderia decidir quem deveria ou não ser privado de sua liberdade. Com isso, a psiquiatria tornava-se, assim, um braço do Estado na gestão da ordem social mas, ao contrário do polícia e do inquérito polícial, que exigia provas independentes e a atuação do sistema judiciário, o psiquiatra estava coberto sob o manto da ciência médica, o que dava a ele poderes gigantescos de decidir entre a alienação e a razão. Isso marcou profundamente a forma como a loucura e a saúde mental passaram a ser compreendidas e tratadas nas décadas seguintes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Loucura no Brasil ==&lt;br /&gt;
Até o início do século XIX, o Brasil colonial lidava com seus insanos de forma semelhante ao que ocorria na Europa. As famílias ricas mantinham seus parentes loucos em &amp;quot;quartos fortes&amp;quot;, privando-os mais ou menos da vida comunitária e familiar, a depender das circunstâncias. Já os pobres eram entregues à caridade das Santas Casas de Misericórdia ou vagavam pelas ruas, sendo ocasionalmente recolhidos a cadeias públicas quando perturbavam a ordem, indo e vindo das frágeis instituições brasileiras, sofrendo abusos e violências de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A transferência da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 gerou a necessidade de transformar a capital colonial em uma moderna metrópole europeia. Sob a influência do Iluminismo tardio e das notícias que chegavam sobre as reformas de Pinel na França, a elite médica brasileira, que havia estudado sobretudo na França e em Portugal, começou a pressionar o poder público pela criação de espaços específicos para o tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1830, a criação da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (que viria a ser a Academia Nacional de Medicina) foi o marco institucional dessa pressão. Esse movimento político funcionou. O momento decisivo ocorreu em 18 de julho de 1841, quando o Imperador D. Pedro II, em comemoração à sua coroação, assinou o decreto de fundação do primeiro hospital psiquiátrico do Brasil e da América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Hospício de Pedro II, ou o Palácio dos Loucos (1852–1889) ===&lt;br /&gt;
Inaugurado apenas em 8 de dezembro de 1852, o Hospício de Pedro II era gerido pela Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, que por anos geriu grande parte da loucura brasileira. Seu provedor era o médico José Clemente Pereira, que era responsável por todos os aspectos da instituição, desde os médicos até os administrativos. Embora a gestão administrativa fosse religiosa, o saber médico tinha muito espaço com nomes como Manoel Feliciano Pereira de Carvalho, que tentaram implementar o &amp;quot;tratamento moral&amp;quot; inspirado em Esquirol. Apesar dos esforços, muitos relatos de abusos e de condições precárias mostravam a dificuldade em implementar um modelo brasileiro de tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a Proclamação da República em 1889, o Hospício de Pedro II foi desvinculado da Santa Casa e renomeado como Hospital Nacional de Alienados (HNA). Este foi um período de maior laicização e pela busca por um maior rigor científico, o que não aconteceu por completo, em grande parte devido à falta de profissionais adequadamente treinados para a questão. Apesar disso, o Brasil já possuía uma cátedra de psiquiatria desde 1883, ocupada por João Carlos Teixeira Brandão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diante dos altíssimos custos em manter o Hospital, surgem as colônias agrícolas como alternativa ao confinamento urbano. Em 1884, já havia sido inaugurada a Colônia de São Bento e, em 1890, a Colônia de Conde de Mesquita, na Ilha do Governador. A ideia era que o trabalho na terra poderia colaborar na cura, além de os produtos deste trabalho poderiam ser consumidos no local, ajudando na manutenção dos espaços. Apesar dessas transformações e de evidentes melhorias, os relatos de época mostram que não acontecia nenhuma das duas coisas, nem produção agrícola suficiente, nem um processo terapêutico efetivo, mas entendia-se que a colônia agrícola era melhor do que o confinamento do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Era Juliano Moreira ===&lt;br /&gt;
Em 1903, o médico baiano Juliano Moreira assume a direção do Hospital Nacional de Alienados. Negro, de origem humilde e dotado de uma erudição impressionante, ele revolucionou a assistência brasileira aos alienados, sendo reconhecido internacionalmente como um dos grandes psiquiatras de seu tempo. Ele se tornaria o principal médico alienista do Brasil, tornando-se referência para todo o país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Moreira aboliu definitivamente o uso de camisas de força e as grades nas janelas, num gesto que se assemelhava àquele de Pinel, enfatizando que o hospital era um local de tratamento e cura, e não uma prisão ou um depósito de indesejados. Além disso, ele trouxe para o Brasil a nosologia de Emil Kraepelin, um psiquiatra alemão considerado o pai da psiquiatria moderna, da psicofarmacologia e da genética psiquiátrica, o que seria uma modernização do modelo francês adotado até então. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a gestão Moreira ocorreram várias mudanças. Foi criado o Pavilhão Bourneville para crianças com deficiência intelectual. Além disso, fundou-se o Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro (1921), o primeiro do país, sob a liderança de Heitor Carrilho. Dentro dos hospitais incentivou-se a pesquisa laboratorial e anátomo-patológica, o que também abriu espaço para a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A influência e o prestígio de Juliano Moreira se espalhou pelo Brasil. Em São Paulo, destacou-se a figura de Francisco Franco da Rocha, que fundou em 1898 o Hospital do Juquery. O Juquery, como ficou conhecido, tornou-se uma &amp;quot;cidade-asilo&amp;quot;, chegando a abrigar dezenas de milhares de pacientes em um modelo que mesclava pavilhôes médicos com imensas colônias agrícolas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste período, a psiquiatria brasileira flertou intensamente com as teorias da degenerescência (de Morel e Magnan) e com a eugenia. Médicos como Renato Kehl, bem como a criação da Liga Brasileira de Higiene Mental (1923), fundada por Gustavo Riedel, começaram a ver a loucura não apenas como um problema individual, mas como um risco biológico à raça brasileira. A higiene mental passou a atuar preventivamente em escolas e fábricas, buscando identificar &amp;quot;pré-delinquentes&amp;quot; e &amp;quot;personalidades anormais&amp;quot;. Apesar de não ter conseguido desenvolver muitas políticas efetivas, os eugenistas brasileiros eram ativos e influentes em muitos círculos decisórios importantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A criação de hospitais não se limitou a São Paulo e Rio de Janeiro. Em  1903, o governo de Minas Gerais fundou o Hospital Psiquiátrico de Barbacena, que mais tarde seria palco de uma das maiores tragédias humanitárias do país. Em Pernambuco, o Hospital Ulysses Pernambucano foi fundado pelo médico de mesmo nome, que começou a desenvolver uma psiquiatria mais voltada para o social e para a prevenção no final dos anos 1920. Hospitais na Bahia, Rio Grande do Sul, entre outros, também foram criados, seguindo o pioneirismo do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Era Vargas e além: o início do encarceramento ===&lt;br /&gt;
Com a Revolução de 1930, o projeto de nação de Vargas exigia um povo saudável e produtivo, devido à visão desenvolvimentista suportada pela Aliança Liberal, que o elegeu. A loucura deixou de ser apenas uma questão de ordem pública ou um aspecto da caridade para se tornar um problema de Segurança Nacional e Saúde Pública. Em 1941, no âmbito do Estado Novo, foi criado o Serviço Nacional de Doenças Mentais (SNDM), substituindo o antigo modelo de assistência a alienados, que era fragmentado, conforme as diferentes províncias. Dessa maneira, Vargas criou uma diretriz federal centralizada para a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a Liga Brasileira de Higiene Mental (LBHM), uma instituição que professava o higienismo no Brasil e que já atuava desde a década de 1920, ganhou fôlego. O foco deslocou-se do hospital para a prevenção na sociedade. A psiquiatria não deveria se limitar aos hospitais, mas também atuar na escola, na fábrica e na família, buscando eugenizar, limpar a nação e extirpar o que chamavam de &amp;quot;elementos degenerados&amp;quot;. O médico Gustavo Riedel e seus sucessores defendiam que o Estado deveria intervir precocemente para evitar que o &amp;quot;anormal&amp;quot; se tornasse um fardo para a máquina pública.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi durante as décadas de 1930 e 1940 que o modelo de colônia agrícola, antes visto como terapêutico e de assistência à manutenção hospitalar, atingiu proporções industriais. O que se viu em Barbacena e em instituições como o Juquery em São Paulo, foi a transformação do hospital em, praticamente, um campo de concentração administrativo. A internação não dependia mais de um diagnóstico médico rigoroso, que na prática ainda era frágil e baseado em elementos pouco científicos. Bastava ser considerado &amp;quot;socialmente inconveniente&amp;quot; para correr-se o risco de ir parar numa instituições dessas. Assim, pobres, prostitutas, homossexuais, militantes políticos e mães solteiras eram enviados para essas instituições, onde a sobrevivência era a exceção. Estima-se que, no auge do descaso, o Hospital de Barbacena registrava um número alarmante de óbitos por frio, fome e doenças evitáveis, cujos corpos eram, por vezes, vendidos para faculdades de medicina. Situações similares aconteciam em outras instituições do tipo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tratamentos Brutais e os Modos de Resistência ===&lt;br /&gt;
Para além do horror asilar, o período entre 1930 e 1950 também foi marcado pela introdução de terapias biológicas drásticas, importadas da Europa, conhecidas como somatoterapias. Com uma psicofarmacologia pouco eficaz, os médicos buscavam &amp;quot;chacoalhar&amp;quot; o organismo, produzindo nele como um choque que pudesse restaurar a razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma dessas técnicas era a insulinoterapia. Introduzida na Europa pelo médico austríaco Manfred Sakel (1900–1957) em Viena, no início dos anos 1930, representou uma das primeiras e mais invasivas formas de somatoterapia. Originalmente destinada ao tratamento da esquizofrenia, a técnica consistia na administração de doses maciças de insulina no paciente, provocando um estado de hipoglicemia profunda que levava o paciente ao coma. Na volta desse estado, se esperava que o indivíduo “restaurasse” a razão por conta do choque orgânico violento que havia vivenciado. O procedimento era extremamente perigoso e estava associado a uma alta taxa de mortalidade e morbidade devido às convulsões e aos possíveis danos cerebrais. Apesar dos riscos, o método foi amplamente adotado no mundo todo, incluindo o Brasil, onde foi usado em grandes instituições de confinamento, como o Hospital Nacional de Alienados (HNA), no Hospital Juquery, entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que passou a ser muito utilizada foi a Eletroconvulsoterapia, ou simplesmente o eletrochoque. Introduzido no Brasil logo após sua invenção na Itália (1938), consiste em colocar eletrodos carregados com correntes elétricas em lados opostos, na lateral da cabeça, de modo que uma forte corrente elétrica atravessasse o cérebro. A duração e a intensidade podiam variar, mas relatos de mais de trinta minutos de choques violentos não eram incomuns. Sua brutalidade era tamanha que exigia que sua vítima fosse fortemente amarrada. Tornou-se uma ferramenta onipresente nos hospitais, muitas vezes aplicada sem anestesia e como método de punição, desvirtuando sua finalidade clínica e usada, basicamente, como ferramenta de tortura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que ingressou no Brasil nesse período foi a lobotomia, um procedimento cirúrgico que consistia em apenas retirar um pedaço do cérebro do paciente. Eles foram realizados em larga escala em hospitais como o Juquery e no Hospital Pedro II, buscando a docilização de pacientes crônicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em oposição à violência do isolamento oferecido por essas instituições, surge a figura de Nise da Silveira. Em 1946, após ter sido presa pelo regime de Vargas por suas inclinações políticas, Nise assumiu o Setor de Terapêutica Ocupacional do Centro Psiquiátrico Nacional (Engenho de Dentro), no Rio de Janeiro. Ela se recusou a usar eletrochoques e lobotomias, introduzindo a arte e o afeto como mediadores da cura. Ela fundou o Museu de Imagens do Inconsciente em 1952, onde demonstrou, através das pinturas e esculturas de pacientes como Arthur Bispo do Rosario, que o louco preservava uma riqueza simbólica e uma humanidade que a psiquiatria tradicional tentava apagar. Sua colaboração com Carl Jung colocou a experiência brasileira no mapa da psicologia analítica mundial, provando que o tratamento em liberdade e através da expressão criativa era viável.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Criação da Indústria da Loucura ===&lt;br /&gt;
No final da década de 1950 e início da de 1960, durante o governo de Juscelino Kubitschek e o breve período democrático posterior, o Brasil viu o surgimento de uma nova e ainda mais perversa dinâmica: a Indústria da Loucura. A assistência psiquiátrica, antes quase totalmente pública ou baseada no assistencialismo das Santas Casas, começou a ser privatizada. Com o crescimento dos institutos de previdência (IAPs), o Estado passou a pagar hospitais privados por dia de internação. Isso criou um incentivo perverso: quanto mais tempo o paciente ficasse internado e quanto menos recursos fossem gastos com ele, maior o lucro das clínicas privadas. Esse modelo, conhecido como &amp;quot;hospitalocêntrico&amp;quot;, inchou o sistema e preparou o terreno para a política de contenção social que seria radicalizada após o golpe de 1964. Foi um momento de multiplicação da brutalidade. Pouco importava a loucura ou não, o tratamento ou não, a eficácia ou não. O que importava era ganhar o dinheiro estatal por meio de um encarceramento fácil e praticamente impossível de escapar, além de altamente lucrativo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A coisa se aprofundou ainda mais com o golpe militar, que unificou em 1966 os Institutos de Aposentadoria e Pensões no INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), produzindo uma centralização gigantesca de recursos, com um modelo de privatização quase total. A psiquiatria, por ser uma especialidade cuja formação exigia baixo investimento tecnológico quando comparada a outras como a cirurgia, cardiologia ou oncologia, permitia grandes lucros com as internações de longa permanência. Assim, trancafiar e atormentar os loucos tornou-se o setor mais atraente para o empresariado da saúde.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de pessoas possivelmente diagnosticadas, o sistema era alimentado pelo encarceramento de militantes políticos, estudantes rebeldes, pessoas em situação de rua,  mendigos, homossexuais, indivíduos com comportamentos &amp;quot;desviantes&amp;quot; da moral tradicional, dependentes químicos, alcoólatras ou mesmo pessoas “problemáticas” da família, que se recusavam, por exemplo, a participar de casamentos arranjados, que denunciavam violência sexual ou eram apenas mulheres que haviam engravidado antes do casamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As instituições privadas multiplicaram-se pelo interior do país, longe dos olhos da fiscalização e dos centros urbanos. Instaladas em locais de difícil acesso, facilitava o ocultamento de violações de direitos humanos e ainda utilizava da conivência dos governos locais. As populações dessas localidades, crentes no saber médico, dificilmente desconfiavam do que poderia acontecer dentro dessas instituições e, quando vazavam denúncias, elas rapidamente podiam ser facilmente manejadas em conluio com os poderes locais. A loucura tornou-se um negócio de massa, com o abrigo precário de centenas de pessoas em galpões, onde a única &amp;quot;terapia&amp;quot; era a contenção química por sedativos baratos ou o uso indiscriminado do eletrochoque para manter a ordem além, é claro, da violência e brutalidade de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Luta Antimanicomial ==&lt;br /&gt;
No final da década de 1970, o modelo de saúde mental começou a dar sinais de exaustão, tanto financeira quanto ética. O Estado já não conseguia arcar com os custos crescentes de um sistema que só expandia o número de crônicos, e as denúncias de maus-tratos começaram a furar o bloqueio da censura, aparecendo em jornais mais prestigiados e em espaços mais amplos do debate social. O estopim para a o início do movimento da reforma psiquiátrica no Brasil começa com uma crise na Divisão Nacional de Saúde Mental (DINSAM), que havia recebido denúncias de irregularidades no Centro Psiquiátrico Pedro II, no Hospital Pinel, na Colônia Juliano Moreira e no Manicômio Judiciário Heitor Carrilho. A denúncia foi acompanhada de uma greve por parte dos funcionários, que exigiam melhorias institucionais e questionavam irregularidades trabalhistas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É dessa crise que surge o Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM) que, nesse primeiro momento, estão mais preocupados com questões trabalhistas do que com o problema da própria prática psiquiátrica, que vai caracterizar parte dos movimentos antimanicomiais posteriormente. O MTSM se fortalece e consegue espaço no extremamente conservador V Congresso Brasileiro de Psiquiatria, que ocorre em 1978, no que fica conhecido como “congresso da abertura”, num período também de abertura política com o iminente fim do regime militar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda em 1978, um grupo importante de intelectuais vinculados às bases teóricas do Movimento Antimanicomial participa do I Congresso Brasileiro de Psicanálise de Grupos e Instituições, incluindo Franco Basaglia, Felix Guattari, Robert Castel e Erwinf Goffman, todos eles de grande inspiração e influência para o movimento antimanicomial brasileiro. No ano seguinte, o I Congresso Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental fortalece a contextação não apenas de problemas trabalhistas, mas do próprio modelo asilar e da forma como a psiquiatria intervinha e oprimia a população marginalizada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação público-privada que alimentava o modelo até então começa a ruir em 1980, com a chamada política da co-gestão interministerial. Nela, um convênio celebrado entre o Ministério da Previdência e Assistência Social com o Ministério da Saúde liquida a &amp;quot;Unidade de Serviço&amp;quot;, a política que permitia a contratação privada de serviços psiquiátricos e que representou o triunfo do público sobre o privado. Membros do MTSM passam a integrar a gestão do atendimento em saúde mental que, por dentro do aparato estatal, começam a implementar uma política de saúde pública baseada em prestação de serviços, cooperação, descentralização e regionalização, propostas que já eram defendidas pelos reformadores. Apesar desses avanços, críticos afirmam que a política de co-gestão apenas visava reformar os serviços, não atingindo o âmago da questão, que seria desconstruir o próprio paradigma psiquiátrico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo de desinstitucionalização de fato começa em 1985, ano marcado pelo fim da Ditadura Militar e pela realização de vários eventos que aprofundam o debate sobre a situação do atendimento. A I Conferência Nacional de Saúde Mental marca o início da desinstitucionalização devido aos conflitos entre o MTSM, a ABP e grupos não-organicistas que passaram a dirigir o DINSAM. Na conferência, consagrou-se uma reviravolta na perspectiva com a consolidação do lema &amp;quot;por uma sociedade sem manicômios&amp;quot;, rompendo com a lógica tanto privatista quanto estatista e questionando o próprio modelo psiquiátrico tradicional. Este passou a ser amplamente entendido como fenômeno cultural que promove o tratamento moral e o controle dos corpos, uma visão abertamente basagliana e antimanicomial. Alguns entendem que, nesse momento, a tradição anti-institucional que originou os primeiros questionamentos na década de 1970 foi restaurada e fortalecida. Após a Conferência, o próprio MTSM se renovou, se desatrelando do Estado, retomando sua independência e seu papel de transformação social.  A mudança do movimento se consolidou no II Congresso Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental, quando a noção de racionalização e modernização dos serviços que havia caracterizado o período da co-gestão foi recusado em nome de uma pauta anti-institucional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em meados dos anos 1980 começam a surgir novos modelos de atenção à saúde que poderia substituir o modelo psiquiátrico. Em São Paulo é criado o primeiro Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), em 1987. Em Santos, surge o Núcleo de Atenção Psicossocial (NAPS), em 1989. Estes serviços passaram a ser vistos como os modelos para uma contestação profunda dos manicômios, justificando seu encerramento. Já na década de 1990, o SUS introduziu mecanismos de fiscalização e auditoria que começaram a sufocar financeiramente os asilos privados que não cumpriam níveis mínimos de dignidade. Portarias históricas do Ministério da Saúde, inspiradas na Declaração de Caracas (1990), passaram a proibir a criação de novos leitos psiquiátricos asilares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após mais de uma década de tramitação e intensos debates no Congresso Nacional, como fruto dos embates históricos iniciados na crise do DINSAM e que atravessaram debates públicos extremamente imporantes, foi promulgada a Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001, que ficou conhecida como Lei da Reforma Psiquiátrica ou Lei Paulo Delgado, seu autor. Esta legislação se tornou o marco jurídico definitivo da virada assistencial no Brasil. A lei instituiu o direito do paciente de ser tratado em ambiente terapêutico o menos restritivo possível e colocou a internação psiquiátrica como último recurso possível. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para preencher o vazio deixado pelo fechamento dos grandes hospitais, o SUS estruturou a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), formalizada na década seguinte pela Portaria nº 3.088 de 2011. A RAPS organizou o cuidado em diferentes níveis de complexidade, com os CAPS divididos nas modalidades CAPS I, II, III, CAPSi  e CAPS AD e, por fim, os Serviços de Residência Terapêutica (SRT). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, a luta continua devido a retrocessos observados na segunda metade da década de 2010 e início dos anos 2020. Mudanças nas diretrizes da Política Nacional de Saúde Mental tentaram reintroduzir a centralidade do hospital psiquiátrico e incentivaram o uso de práticas baseadas no isolamento. Além disso, o governo federal passou a financiar massivamente as chamadas Comunidades Terapêuticas (CTs), instituições de caráter predominantemente privado e religioso voltadas ao acolhimento de usuários de drogas, de onde emanam graves denúncias de todos os tipos de violação dos direitos humanos e que representam um evidente retrocesso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Hoje, o campo da saúde mental no Brasil vive um embate profundo entre duas visões. De um lado, aqueles que lutam pela consolidação da RAPS, em defesa da clínica da subjetividade, da defesa dos direitos humanos, pela redução de danos e pela inserção social pelo trabalho e pela cultura. Do outro lado observa-se a persistência do lobby asilar e de setores que buscam a mercantilização do cuidado, por meio do encarceramento, da medicalização extrema do sofrimento psíquico, da higienização dos centros urbanos e do recolhimento dos indesejáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
AMARANTE, Paulo. Loucos pela vida: a trajetória da reforma psiquiátrica no Brasil. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 1995.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ARBEX, Daniela. Holocausto Brasileiro. Rio de Janeiro: Geração Editorial, 2013.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BASAGLIA, Franco. A Instituição Negada. Rio de Janeiro: Graal, 1985.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BIRMAN, Joel. A Physis da Arte: Deleuze e a Clínica. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CAMPOS, Gastão Wagner de Sousa. Tratado de Saúde Coletiva. São Paulo: Hucitec, 2006. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CASTEL, Robert. A Ordem Psiquiátrica: a Idade de Ouro do Alienismo. Rio de Janeiro: Graal, 1978.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
COSTA, Jurandir Freire. Violência e Psicanálise. Rio de Janeiro: Graal, 1986.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
COSTA, Jurandir Freire. História da Assistência Psiquiátrica no Brasil. Rio de Janeiro: Garamond, 2007. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ENGEL, Magali. Os Delírios da Razão: médicos, loucos e hospícios (Rio de Janeiro, 1830-1930). Rio de Janeiro: Fiocruz, 2001&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
FOUCAULT, Michel. História da Loucura na Idade Clássica. Tradução de José Teixeira Coelho Netto. São Paulo: Perspectiva, 2014.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
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		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Hist%C3%B3ria_da_loucura:_da_Gr%C3%A9cia_antiga_%C3%A0_luta_anti-manicomial&amp;diff=1680</id>
		<title>História da loucura: da Grécia antiga à luta anti-manicomial</title>
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		<updated>2026-05-16T10:14:23Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* A Luta Antimanicomial */ Várias modificações substanciais&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este texto ainda é um rascunho&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Texto com finalidade didática escrita por André Elias Morelli Ribeiro para o curso de Psicologia do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Introdução ==&lt;br /&gt;
A história da loucura é, ao mesmo tempo, uma narrativa sobre o modo como diferentes sociedades compreenderam a mente humana e uma reflexão sobre os mecanismos de poder que moldaram práticas de exclusão, cuidado e resistência vinculados à loucura. Iniciando na Grécia antiga até o movimento antimanicomial no Brasil, pode-se observar como a loucura foi interpretada ora como intervenção divina, ora como desvio moral, ora como doença fisiológica, ora como ameaça social. Cada época construiu suas próprias respostas, que variaram entre a integração comunitária, o confinamento brutal e a busca por tratamentos médicos ou espirituais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No Brasil, a trajetória seguiu de perto os modelos europeus. Do Hospício de Pedro II às colônias agrícolas, passando pela gestão de Juliano Moreira, a psiquiatria nacional oscilou entre avanços humanitários e práticas de exclusão. O período Vargas e o Estado Novo intensificaram o encarceramento, transformando hospitais em verdadeiros campos de concentração administrativos. As décadas seguintes viram a adoção de terapias brutais, como eletrochoques e lobotomias, mas também o surgimento de resistências, como a obra de Nise da Silveira, que introduziu a arte e o afeto como caminhos de cura. A partir dos anos 1960, a privatização da assistência psiquiátrica gerou a chamada “Indústria da Loucura”, marcada por internações lucrativas e violações sistemáticas de direitos humanos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em síntese, o percurso histórico apresentado aqui mostra que a loucura nunca foi apenas um fenômeno clínico mas, antes, um espelho das sociedades, revelando seus medos, suas crenças e suas formas de organizar o convívio humano. De sagrada a temida, de medicalizada a mercantilizada, apresenta-se e se discute como surgiram vozes e práticas que reivindicaram humanidade e liberdade para os considerados loucos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As Loucuras no Mundo Antigo ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Grécia antiga ===&lt;br /&gt;
Na Grécia antiga, em certo momento a loucura era considerada uma intervenção dos deuses e, como os gregos era politeístas, a varidade de formas de loucura e intervenção também era bem grande. A loucura poderia ser vista como uma punição. Um exemplo notório é o herói Ajax, filho de Telamão. Após a morte de Aquiles, a armadura do herói foi dada a Odisseu, e a afronta levou Ajax a um estado de fúria e ressentimento. A deusa Atena, intervindo em favor de Odisseu ou para proteger os Aqueus da vingança de Ajax, lançou sobre ele uma cegueira mental. Tomado pela loucura, Ajax massacrou o gado de guerra que havia sido capturado, acreditando que estava matando os líderes aqueus, incluindo Odisseu e Agamenon. Ao recobrar a sanidade e perceber seu ato vergonhoso, o que o levou a cometer suicídio por humilhação. Essa cena ilustra a loucura como uma intervenção divina direta na forma de loucura poderia ser vista como destrutiva e extremamente negativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em outros episódios da mitologia grega, a loucura surge como uma consequência direta de traumas e da perseguição implacável por vingança. Um exemplo fundamental é o de Orestes que, após assassinar sua mãe, Clitemnestra, para vingar a morte de seu pai, Agamenon, passa a ser atormentado pelas Erínias. Essas divindades da vingança, também conhecidas como Fúrias, levaram o herói a um estado de delírio e desespero profundo, personificando a tortura psicológica e a perda da razão como uma forma de acerto de contas espiritual e moral pelo matricídio.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura não era unicamente um flagelo ou uma punição. Os gregos, notavelmente, viam a mania, um termo que hoje engloba a loucura, em uma perspectiva dual. Na sua manifestação mais elevada era considerada uma benção ou inspiração divina. Essa visão positiva estava profundamente ligada ao culto de Dionísio, o deus do vinho, do teatro e do êxtase. Nos rituais dionisíacos, as bacantes e outros seguidores buscavam o êxtase, que é, literalmente, &amp;quot;sair de si&amp;quot;, por meio da dança frenética, música e consumo de vinho, o que era percebido como um estado de comunhão direta e inspirada com a divindade. Longe de ser destrutiva, essa forma de loucura era vista como uma fonte de criatividade, revelação e poder, sendo um caminho para a verdade profética e a expressão artística ligada a Dionísio. Este conceito de mania inspirada também se estendia a outros domínios, como a profecia dos oráculos, que eram vinculados à adoração ao deus Apolo, e mesmo a poesia, onde a perda temporária da razão humana era interpretada como a mente sendo tomada por uma força divina que trazia algum tipo de inspiração.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em certo momento, ainda na Grécia antiga, as ideias sobre a loucura - ou algo que pareça loucura aos nossos olhos contemporâneos - foi modificada graças a Hipócrates, o pai da medicina. A visão de Hipócrates marcou uma transição crucial para o entendimento da loucura na Grécia Antiga, pois afastou a loucura das concepções divinas e sobrenaturais para uma explicação puramente fisiológica e natural. Ele desenvolveu a Teoria dos Quatro Humores, que se tornou o pilar da medicina ocidental por séculos. Segundo essa teoria, o corpo humano era composto por quatro fluidos essenciais (humores): sangue, fleuma, bile amarela e bile negra. A saúde mental e física dependia do equilíbrio harmonioso desses humores. A loucura, ou qualquer doença mental, era, portanto, interpretada como o resultado de um desequilíbrio, como o excesso de bile negra causando a melancolia (depressão), ou o desarranjo da fleuma e da bile amarela, que poderiam levar a estados de mania e frenesi. Com isso, Hipócrates postulou que a loucura não era uma maldição dos deuses, mas sim uma doença com origem no corpo. Essa abordagem naturalista permitiu que a loucura passasse a ser tratada com métodos como dietas, exercícios e remédios, em vez de rituais religiosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tradição bíblica ===&lt;br /&gt;
Na tradição bíblica, escrita em contextos e culturas não europeias, a loucura também é frequentemente retratada como uma forma de intervenção ou punição divina. Um dos episódios mais emblemáticos é a história do rei Nabucodonosor II, relatada no Livro de Daniel. De acordo com o texto, devido ao seu orgulho excessivo e à recusa em reconhecer a soberania de Deus, o rei foi acometido por uma forma de loucura que o baniu do convívio humano. Ele passou a viver como um animal, alimentando-se de ervas e deixando seus cabelos e unhas crescerem sem controle. Na psicologia moderna, esse estado em que um indivíduo acredita ter se transformado em um animal é conhecido como licantropia clínica, uma condição rara, conforme emerge na descrição bíblica, mostra uma concepção de loucura ligada à perda da razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No entanto, a tradição bíblica também apresenta um paradoxo da loucura, onde o que é considerado &#039;loucura&#039; pelos homens revela-se a suprema sabedoria divina. Essa ideia é desenvolvida pelo apóstolo Paulo em sua Primeira Carta aos Coríntios. Na passagem, ele afirma: &#039;Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens&#039; (1 Coríntios 1:25). Paulo usa o termo moria (loucura, tolice) para contrastar a sabedoria humana, que na época do texto era representada pela filosofia e retórica grega, com a mensagem da cruz, que parecia ilógica e insensata aos olhos dos não cristãos, que debochavam do fato do profeta ter sido capturado e morto pelos romanos. Assim, a loucura deixa de ser apenas uma punição para se tornar uma lente através da qual a verdadeira sabedoria, ou seja, a salvação, é revelada, invertendo a hierarquia de valores do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Pérsia ===&lt;br /&gt;
Na Pérsia, a visão da loucura e do comportamento irracional foi moldada por seu profundo dualismo religioso e, posteriormente, pelas tradições islâmicas que se seguiram à conquista árabe. O zoroastrismo, a antiga religião persa fundada por Zoroastro (Zaratustra), transformou o politeísmo anterior em um dualismo cósmico centralizado no conflito eterno entre Ahura Mazda (Ormazd), o criador da vida, luz e verdade, e Angra Mainyu (Ahriman), a escuridão e a mentira. Neste cenário, o mundo material é o campo de batalha entre os dois. Ahriman buscava corromper tudo o que Ormazd havia criado. Embora o texto não defina a loucura diretamente, o comportamento irracional e a desrazão poderiam ser facilmente associados ao domínio de Ahriman e à mentira (druj), enquanto a sanidade e a pureza eram atributos de Ormazd. A batalha contra essa corrupção exigia que os adoradores de Ormazd permanecessem verdadeiros e evitassem poluir o fogo e a terra sagrada, indicando que a pureza mental e ritual era uma defesa contra as forças do mal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Islã ===&lt;br /&gt;
Na cultura islãmica, de forma geral e bastante resumida, o comportamento considerado irracional era frequentemente explicado pela crença nos djinn, espíritos errantes que habitavam o deserto e certos lugares considerados místicos e que podiam invadir a mente humana, causando o que a sociedade ocidental moderna chamaria de insanidade ou, talvez, distúrbio emocional, cujo tratamento era o exorcismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A loucura também apareceu em narrativas culturais associadas aos povos de forma a sugerir causas e curas mais mundanas. O famoso conto persa de As Mil e Uma Noites relata a história do rei Shahriyar, que, convencido da inevitável traição feminina, cai em uma loucura paranóica que o leva a se casar e matar uma virgem todas as noites. Sua &amp;quot;cura&amp;quot; é alcançada através da engenhosidade e paciência humana por meio de uma dessas esposas, Scheherazade, que usa a arte de contar histórias para retardar sua execução por &amp;quot;mil e uma noites&amp;quot;, período em que sua paranoia é gradualmente desfeita. A história sugere que a narrativa e o tempo podem curar a loucura causada por trauma psicológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As Loucuras na Idade Média ==&lt;br /&gt;
A transição para a Idade Média é marcada pelo colapso do Império Romano do Ocidente (476 d.C.) e trouxe profundas transformações políticas e sociais. O fim do governo centralizado romano levou à fragmentação do poder e ao surgimento do sistema feudal, onde a administração das terras e a autoridade passaram para as mãos de senhores locais, muitos deles antigos oficiais romanos. Este período também é caracterizado por um notável declínio na vida urbana e nos grandes centros intelectuais. O colpaso das instituições romanas deu lugar à ascensão e consolidação da única instituição internacional grande e organizada que havia sobrado, a Igreja Católica, que se tornou a principal instituição de poder. Houve ainda uma perda gradual da tradição cultural greco-romana e, consequentemente, um afastamento das explicações naturalistas de Hipócrates, com exceção do pequeno renascimento do século XII e retomadas pontuais da sabedoria grega. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a hegemonia da Igreja Católica, a loucura tendeu a ser novamente interpretada sob uma lente teológica, sendo vista como uma manifestação de forças sobrenaturais ou desvios morais. Nesse contexto, certas vezes a loucura era interpretada como a intervenção de Satanás ou como possessão demoníaca, exigindo rituais de exorcismo para a cura. Em outros momentos, era vista como uma prova espiritual enviada por Deus ou como um efeito direto do pecado na alma do indivíduo. Havia também explicações que a tratavam como uma fragilidade da vontade humana, misturando elementos da antiga tradição grega com aspectos da teologia cristã, estabelecendo um novo arcabouço para o entendimento da mente humana durante a Idade Média, que tinha muitas variações e não era uniforme nem ao longo do tempo nem em todos os espaços.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Socialmente, a gestão da loucura na Idade Média também passou por diferentes fases e transformações, dependendo do local e da época. Haviam casos em que os consideradores loucos eram apenas torturados e trancafiados, acreditando-se serem métodos eficazes para expulsão de espíritos malignos, por exemplo. Contudo, em muitos outros casos, os considerados loucos conviviam de forma mais ou menos harmoniosa com o resto da comunidade, a depender de suas capacidades e possibilidades, e certos “desvios” eram perdoados devido à sua condição peculiar, sem a necessidade imediata de uma exclusão radical.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Nau dos Loucos ===&lt;br /&gt;
Um caso notável e emblemático da gestão da loucura nesse período é a Nau dos Loucos (Stultifera Navis), conforme trabalhado por Michel Foucault. Anteriormente ao modelo de exclusão-repressão que viria a se consolidar na Idade Clássica, a loucura viveu o que se pode chamar de seus &amp;quot;dias de glória&amp;quot; na transição para a Renascença. Nesse contexto, o louco poderia ser visto como um sábio, um místico, um bobo da corte ou simplesmente um excêntrico que estava, de certa forma, integrado ao tecido social.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Nau dos Loucos simbolizava uma existência errante, onde o louco era confiado à água e ao navio para ser levado de uma cidade a outra, mantendo-o em um estado de exclusão simbólica, mas ainda assim em movimento e circulação. Para Foucault, essa experiência trágica da loucura permitia que o insano portasse uma forma de lucidez em sua insensatez, revelando verdades que a razão comum não ousava enunciar. O louco via através das ilusões mundanas, aproximando-se de uma verdade profética ou ética que seria progressivamente silenciada nos séculos seguintes pela ascensão do saber médico e da racionalidade científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Santa Dimpna e Geel ===&lt;br /&gt;
Outro acontecimento relevante da Idade Média para a compreensão da loucura é o episódio de Santa Dimpna. Nascida no século VII na Irlanda, ela era filha de um rei pagão e de uma mãe cristã devota, de quem herdou sua fé e pelo qual decidiu fazer votos de castidade. Após a morte prematura da mãe, seu pai, mergulhado em um profundo luto, decidiu que Dimpna era a única mulher com beleza comparável à da falecida rainha e insistiu em se casar com a própria filha, o que seria considerado escandaloso também para aquela cultura. Diante dessa perseguição incestuosa, Dimpna fugiu da Irlanda acompanhada de seu confessor, o padre Gereberno, e de dois servos fiéis. O grupo cruzou o mar e estabeleceu-se em Geel, um minúsculo vilarejo na atual Bélgica, onde Dimpna dedicou-se ao cuidado dos pobres e doentes mentais. No entanto, o rei conseguiu encontrá-los e, após a recusa de Dimpna em retornar e de se casar com o pai, ordenou a execução de Gereberno, enquanto ele mesmo decapitou a filha, tornando a menina de 15 anos de idade uma mártir cristã. Após sua morte, relatos de curas milagrosas de pessoas com distúrbios mentais e epilepsia começaram a ocorrer junto ao seu túmulo, o que a tornou a padroeira dos doentes mentais e o local um espaço de peregrinação ligado à questão da saúde mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O legado de Santa Dimpna em Geel deu origem a um modelo para a psiquiatria moderna pois, devido à devoção e adoração à Santa Dimpna, a cidade transformou-se em um santuário onde os pacientes não eram trancafiados, mas acolhidos em lares de famílias locais como &amp;quot;hóspedes&amp;quot;. Esse sistema de cuidado comunitário e desinstitucionalização, que persiste há séculos, é considerado um dos precursores do tratamento humanizado e da reabilitação psicossocial na saúde mental contemporânea.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Idade Clássica: a nova era da loucura encarcerada ==&lt;br /&gt;
A partir do século XVII, um período em que o filósofo Michel Foucault denominou como &amp;quot;A Época Clássica&amp;quot;, a forma de entender e lidar com a loucura passa por uma nova mudança devido ao ingresso da razão como centro e alma do pensamento europeu, em substituição ao dogmatismo religioso e ao conhecimento da igreja. Esta mudança não é brusca, mas lenta e gradual, porém suas marcas serão duradouras e serão sentidas por quase toda a Europa. Para essa nova e nascente razão, a loucura seria seu oposto direto. Se o homem era definido pela sua capacidade racional e sua utilidade produtiva, o louco era, portanto, como um &amp;quot;não-homem&amp;quot;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a solução para a não-razão era a internação que não buscava a cura, mas a neutralização do irracional. O silenciamento da loucura era necessário para que a ordem social pudesse florescer. Os campos e cidades deveriam ser espaços de circulação de mercadorias pelas mãos de cidadãos produtivos, e qualquer elemento que atrapalhasse essa dinâmica deveria ser guardado em instituições que funcionavam como uma guarda contra o risco social que tais pessoas ofereciam.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Relatos da época descrevem cenários terríveis sobre as condições de internação dos loucos. Os internos eram frequentemente mantidos em celas úmidas e insalubres, muitas vezes acorrentados às paredes. O uso de chicotes e outras punições corporais era justificado pela crença de que o louco, por ter perdido a razão, teria a resistência física de um animal, não sentindo frio ou dor da mesma forma que uma pessoa &amp;quot;normal&amp;quot;. Além disso, as instituições funcionavam sob uma lógica de vigilância constante. Não se tratava de observar para entender a mente, mas para garantir que o corpo anormal permanecesse contido e, no máximo possível, docilizado. Foi dentro desse ambiente de absoluta degradação e mistura indiscriminada de diferentes &amp;quot;tipos&amp;quot; de desviantes que a consciência médica começou a germinar, ainda que de forma incipiente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== França ===&lt;br /&gt;
O ano de 1656 marca um divisor de águas simbólico para o modelo de confinamento asilar no mundo todo, com a criação do Hôpital Général (Hospital Geral) em Paris, por um edito real do rei Luís XIV. É importante entender que um hospital geral deste período não é como um hospital moderno, ou seja, uma instituição médica e voltada para a compreensão da doença e a prática do tratamento e cura. Ele estava mais próximo de uma estrutura administrativa e, de certo modo, semi-judiciária. Isso ocorria porque o interesse não estava em “curar” ou “tratar” ninguém mas, antes disso, perseguir o interesse do Estado de &amp;quot;limpar&amp;quot; as ruas de Paris de tudo o que era considerado improdutivo ou escandaloso. Era um período de abundância material, grandes gastos estatais e de uma imensa riqueza do império colonial francês, e desvios nessa ordem eram vistos como perigosos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes tais hospitais gerais eram confinados, todos juntos, grupos totalmente diferentes, tais como pobres, mendigos, desempregados, libertinos, prostitutas, alquimistas, opositores políticos e, claro, também os considerados loucos. Em suma, um depósito de indesejados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O que começou em Paris se tornou um modelo para outros lugares sobre como fazer a gestão da miséria e da “desrazão”, num forte deslocamento do que se via na Idade Média. O louco, antes tendo algo de profético, místico ou talvez apenas uma excentricidade da vida medieval campesina, se torna uma questão político-administrativa. Essa mudança importante marca uma migração para a possibilidade de institucionalização daquilo que era considerado errante ou, de alguma forma, desagradável e, assim passível de ser alvo de uma forma de gestão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em Paris, as duas principais unidades do Hospital Geral se tornaram emblemáticas e simbólicas. A Salpêtrière, que era destinada às mulheres, e o hospital Bicêtre, destinado aos homens. Ambas não ofereciam qualquer forma de tratamento. Eram basicamente depósitos humanos, onde o louco poderia acabar acorrentado ao lado de criminosos, por exemplo. O critério de internação não era o diagnóstico clínico, mesmo porque simplesmente ele nem existia nos moldes modernos, mas a incapacidade de se ajustar às normas de trabalho e à moralidade da época.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Alemanha ===&lt;br /&gt;
Na Alemanha, surgiram as Zuchthäusern, que seriam as Casas de Correção. Cidades como Hamburgo e Bremen estabeleceram esses locais onde a loucura era tratada através do trabalho forçado. Eles acreditavam que o ócio era a raiz do mal e que o confinamento servia para reintegrar o indivíduo à lógica da produtividade. De qualquer forma, uma vez enclausurado, ele permanecia escondido da visão da população.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Inglaterra ===&lt;br /&gt;
Na Inglaterra, o sistema das Workhouses (Casas de Trabalho) cumpria um papel semelhante ao modelo alemão. No entanto, Londres já possuía o Bethlem Royal Hospital, conhecido popularmente como Bedlam. No século XVII e XVIII, Bedlam se tornou um espetáculo de horror, onde o público podia pagar para observar os internos como se fossem animais em um zoológico. A loucura era agora um objeto de uma forma de exibição degradante e mantida atrás de grades e ferros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Portugal ===&lt;br /&gt;
Em Portugal a gestão dos &amp;quot;desviantes&amp;quot; recaiu fortemente sobre as Santas Casas da Misericórdia. O Hospital Real de Todos-os-Santos, fundado em Lisboa em 1492 e inaugurado em 1501, se tornou o epicentro do tratamento (ou confinamento) dos loucos no país. Dentro deste hospital, existiam as chamadas &amp;quot;Casas de Doidos&amp;quot;, destinados àqueles que haviam “perdido a luz da razão”. Seguindo o padrão europeu, o hospital não separava rigidamente o louco por diagnóstico. Eles dividiam espaço com indigentes e enfermos de diversas naturezas, embora as &amp;quot;casas de doidos&amp;quot; fossem áreas de maior isolamento devido à agitação dos internos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XVIII português, a internação era, acima de tudo, uma solução para a mendicância e, por vezes, para o alcoolismo. O louco que tinha família e posses era mantido nas casas das famílias, muitas vezes escondido em sótãos ou anexos e até mesmo acorrentados. Já o &amp;quot;louco pobre&amp;quot;, cujas famílias nem se importam ou que não poderiam ser cuidados por seus familiares, era aquele que acabava nos hospitais reais ou mesmo nas cadeias, a depender de uma série de elementos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O Nascimento da Psiquiatria ==&lt;br /&gt;
Nesta seção será tratada a história do nascimento da psiquiatria, mas não como ela é atualmente. Sua trajetória é cheia de desvios e abusos, além de vitórias para os direitos dos internos. Os avanços convivem com muitos retrocessos. Mesmo na época de seu surgimento, muitos eram os questionamentos sobre sua validade e cientificidade. Hoje existem aqueles que perguntam se a psiquiatria é necessária e se seu objeto não é fabricado por ela mesma, por meio de suas práticas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Pinel e a criação da psiquiatria nosográfica ===&lt;br /&gt;
É na virada do século XVIII para o XIX que nasce a psiquiatria como um campo autônomo do saber e da prática médica. Esta mudança fundamental é protagonizada por duas figuras centrais da medicina francesa: Philippe Pinel e seu discípulo, Jean-Étienne Dominique Esquirol. Juntos, eles transformaram o hospital de depósito de insanos e indesejáveis em um verdadeiro hospital, em que o louco e o alienado poderiam receber um tratamento racional e científico, em substituição às correntes, à disciplina e ao silenciamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A emergência da psiquiatria como campo autônomo teve como fundamento científico inicial a observação clínica sistemática dentro do asilo. Este era concebido como um laboratório, onde o alienista poderia estudar a loucura em seu estado puro, separada das influências do mundo exterior. A principal questão científica e prática que justificava essa nova ciência era desenvolvida e aplicada de forma sistemática era a chamada nosografia ou diagnóstico. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Pinel, em seu &#039;&#039;Traité&#039;&#039; de 1801, classificou a loucura com base em critérios sintomatológicos, seguindo um procedimento comparativo semelhante ao das ciências naturais. O desafio central, que persistiria ao longo do século XIX, era a ambiguidade constante entre a busca por uma sede orgânica, ou seja, um “local físico-biológico” da loucura, junto da necessidade de uma regulação de caráter moral. O tratamento apoiava-se na moralidade para combater as causas que eram, elas próprias, consideradas morais, mas algo estava também no corpo do doente. Isso mostra que a nova psiquiatria de Pinel era a mistura de uma perspectiva médica com algo de caráter moral no entendimento da loucura. Este enfoque resultou na valorização do exame clínico pelos psiquiatras francófonos, permitindo a união da observação clínica com a formulação de hipóteses.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1793, em meio ao fervor da Revolução Francesa, Philippe Pinel foi nomeado médico-chefe do Hospital de Bicêtre e, posteriormente, da Salpêtrière. O cenário que encontrou era o ápice do &amp;quot;Grande Enclausuramento&amp;quot;, ou seja, homens e mulheres amontoados nas condições já descritas, com destaque para as correntes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A intervenção de Pinel, simbolizada pelo gesto de “libertar os loucos de suas correntes”, não foi apenas um ato humanitário, mas também uma decisão de natureza epistemológica. Pinel acreditava que a loucura não era uma possessão demoníaca nem uma degeneração animal irreversível, mas uma alienação mental, em outras palavras, uma perturbação das faculdades intelectuais e afetivas que mantinha o indivíduo como se fosse &amp;quot;estrangeiro&amp;quot;, ou alienado, de si mesmo e da sociedade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O pilar para a reforma psiquiátrica proposta por Pinel era o tratamento moral, e se baseava em três pilares fundamentais. O primeiro, o isolamento terapêutico. Era necessário que o paciente ficasse separado de seu ambiente que, segundo o médico, era a fonte de sua excitação e desequilíbrio. O segundo pilar era a autoridade médica, onde este deveria atuar como um pai ao mesmo tempo severo e justo, usando a persuasão, a benevolência e, se fosse necessário, a firmeza para restaurar a razão do paciente. Por fim, a disciplina e o trabalho, com a aplicação rigorosa de horários e valorização de atividades produtivas, o que ocuparia a mente alienada e, assim, combateria a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em seus estudos, Pinel identificou quatro tipos de loucura, quais sejam, a melancolia, a mania, a demência e o idiotismo, cada uma com suas questões próprias específicas e metodologias de tratamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Esquirol e a consolidação do modelo ===&lt;br /&gt;
Se Pinel era considerado o visionário e o libertador, Jean-Étienne Dominique Esquirol foi o grande organizador e o clínico meticuloso. Discípulo de Pinel, Esquirol sucedeu seu mestre na Salpêtrière e deu à psiquiatria a robustez científica e administrativa de que ela necessitava. Esquirol compreendeu que a eficácia do tratamento moral dependia da arquitetura hospitalar. Para ele, o hospital não era apenas um prédio onde ocorria o tratamento, mas também um instrumento de cura. Ele desenvolveu o modelo de pavilhões, permitindo a separação dos pacientes por tipo de patologia, o que reforçou a própria ideia de diagnóstico e de avaliação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Esquirol refinou as definições clínicas de Pinel. Foi ele quem estabeleceu a distinção clássica entre alucinação (uma percepção sem objeto) e ilusão (uma percepção deformada de um objeto real), entre outros pontos que, na sua época, foram considerados avanços exemplares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Legalização da Alienação ===&lt;br /&gt;
O esforço médico, político e administrativo de Esquirol na continuação do trabalho de Pinel culminou na promulgação da lei francesa de 30 de Junho de 1838, a primeira grande legislação psiquiátrica do mundo moderno. Esta lei estabeleceu a obrigatoriedade de cada departamento francês possuir um asilo e regulamentou as condições de internação e interdição. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A princípio, embora também protegesse o alienado do arbítrio e de outras violências que poderiam ser cometidos contra os loucos nas províncias e mesmo nas periferias de Paris, a lei também deu total poder ao médico psiquiatra. Era ele quem poderia decidir quem deveria ou não ser privado de sua liberdade. Com isso, a psiquiatria tornava-se, assim, um braço do Estado na gestão da ordem social mas, ao contrário do polícia e do inquérito polícial, que exigia provas independentes e a atuação do sistema judiciário, o psiquiatra estava coberto sob o manto da ciência médica, o que dava a ele poderes gigantescos de decidir entre a alienação e a razão. Isso marcou profundamente a forma como a loucura e a saúde mental passaram a ser compreendidas e tratadas nas décadas seguintes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Loucura no Brasil ==&lt;br /&gt;
Até o início do século XIX, o Brasil colonial lidava com seus insanos de forma semelhante ao que ocorria na Europa. As famílias ricas mantinham seus parentes loucos em &amp;quot;quartos fortes&amp;quot;, privando-os mais ou menos da vida comunitária e familiar, a depender das circunstâncias. Já os pobres eram entregues à caridade das Santas Casas de Misericórdia ou vagavam pelas ruas, sendo ocasionalmente recolhidos a cadeias públicas quando perturbavam a ordem, indo e vindo das frágeis instituições brasileiras, sofrendo abusos e violências de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A transferência da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 gerou a necessidade de transformar a capital colonial em uma moderna metrópole europeia. Sob a influência do Iluminismo tardio e das notícias que chegavam sobre as reformas de Pinel na França, a elite médica brasileira, que havia estudado sobretudo na França e em Portugal, começou a pressionar o poder público pela criação de espaços específicos para o tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1830, a criação da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (que viria a ser a Academia Nacional de Medicina) foi o marco institucional dessa pressão. Esse movimento político funcionou. O momento decisivo ocorreu em 18 de julho de 1841, quando o Imperador D. Pedro II, em comemoração à sua coroação, assinou o decreto de fundação do primeiro hospital psiquiátrico do Brasil e da América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Hospício de Pedro II, ou o Palácio dos Loucos (1852–1889) ===&lt;br /&gt;
Inaugurado apenas em 8 de dezembro de 1852, o Hospício de Pedro II era gerido pela Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, que por anos geriu grande parte da loucura brasileira. Seu provedor era o médico José Clemente Pereira, que era responsável por todos os aspectos da instituição, desde os médicos até os administrativos. Embora a gestão administrativa fosse religiosa, o saber médico tinha muito espaço com nomes como Manoel Feliciano Pereira de Carvalho, que tentaram implementar o &amp;quot;tratamento moral&amp;quot; inspirado em Esquirol. Apesar dos esforços, muitos relatos de abusos e de condições precárias mostravam a dificuldade em implementar um modelo brasileiro de tratamento dos alienados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a Proclamação da República em 1889, o Hospício de Pedro II foi desvinculado da Santa Casa e renomeado como Hospital Nacional de Alienados (HNA). Este foi um período de maior laicização e pela busca por um maior rigor científico, o que não aconteceu por completo, em grande parte devido à falta de profissionais adequadamente treinados para a questão. Apesar disso, o Brasil já possuía uma cátedra de psiquiatria desde 1883, ocupada por João Carlos Teixeira Brandão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diante dos altíssimos custos em manter o Hospital, surgem as colônias agrícolas como alternativa ao confinamento urbano. Em 1884, já havia sido inaugurada a Colônia de São Bento e, em 1890, a Colônia de Conde de Mesquita, na Ilha do Governador. A ideia era que o trabalho na terra poderia colaborar na cura, além de os produtos deste trabalho poderiam ser consumidos no local, ajudando na manutenção dos espaços. Apesar dessas transformações e de evidentes melhorias, os relatos de época mostram que não acontecia nenhuma das duas coisas, nem produção agrícola suficiente, nem um processo terapêutico efetivo, mas entendia-se que a colônia agrícola era melhor do que o confinamento do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Era Juliano Moreira ===&lt;br /&gt;
Em 1903, o médico baiano Juliano Moreira assume a direção do Hospital Nacional de Alienados. Negro, de origem humilde e dotado de uma erudição impressionante, ele revolucionou a assistência brasileira aos alienados, sendo reconhecido internacionalmente como um dos grandes psiquiatras de seu tempo. Ele se tornaria o principal médico alienista do Brasil, tornando-se referência para todo o país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Moreira aboliu definitivamente o uso de camisas de força e as grades nas janelas, num gesto que se assemelhava àquele de Pinel, enfatizando que o hospital era um local de tratamento e cura, e não uma prisão ou um depósito de indesejados. Além disso, ele trouxe para o Brasil a nosologia de Emil Kraepelin, um psiquiatra alemão considerado o pai da psiquiatria moderna, da psicofarmacologia e da genética psiquiátrica, o que seria uma modernização do modelo francês adotado até então. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob a gestão Moreira ocorreram várias mudanças. Foi criado o Pavilhão Bourneville para crianças com deficiência intelectual. Além disso, fundou-se o Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro (1921), o primeiro do país, sob a liderança de Heitor Carrilho. Dentro dos hospitais incentivou-se a pesquisa laboratorial e anátomo-patológica, o que também abriu espaço para a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A influência e o prestígio de Juliano Moreira se espalhou pelo Brasil. Em São Paulo, destacou-se a figura de Francisco Franco da Rocha, que fundou em 1898 o Hospital do Juquery. O Juquery, como ficou conhecido, tornou-se uma &amp;quot;cidade-asilo&amp;quot;, chegando a abrigar dezenas de milhares de pacientes em um modelo que mesclava pavilhôes médicos com imensas colônias agrícolas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste período, a psiquiatria brasileira flertou intensamente com as teorias da degenerescência (de Morel e Magnan) e com a eugenia. Médicos como Renato Kehl, bem como a criação da Liga Brasileira de Higiene Mental (1923), fundada por Gustavo Riedel, começaram a ver a loucura não apenas como um problema individual, mas como um risco biológico à raça brasileira. A higiene mental passou a atuar preventivamente em escolas e fábricas, buscando identificar &amp;quot;pré-delinquentes&amp;quot; e &amp;quot;personalidades anormais&amp;quot;. Apesar de não ter conseguido desenvolver muitas políticas efetivas, os eugenistas brasileiros eram ativos e influentes em muitos círculos decisórios importantes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A criação de hospitais não se limitou a São Paulo e Rio de Janeiro. Em  1903, o governo de Minas Gerais fundou o Hospital Psiquiátrico de Barbacena, que mais tarde seria palco de uma das maiores tragédias humanitárias do país. Em Pernambuco, o Hospital Ulysses Pernambucano foi fundado pelo médico de mesmo nome, que começou a desenvolver uma psiquiatria mais voltada para o social e para a prevenção no final dos anos 1920. Hospitais na Bahia, Rio Grande do Sul, entre outros, também foram criados, seguindo o pioneirismo do HNA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Era Vargas e além: o início do encarceramento ===&lt;br /&gt;
Com a Revolução de 1930, o projeto de nação de Vargas exigia um povo saudável e produtivo, devido à visão desenvolvimentista suportada pela Aliança Liberal, que o elegeu. A loucura deixou de ser apenas uma questão de ordem pública ou um aspecto da caridade para se tornar um problema de Segurança Nacional e Saúde Pública. Em 1941, no âmbito do Estado Novo, foi criado o Serviço Nacional de Doenças Mentais (SNDM), substituindo o antigo modelo de assistência a alienados, que era fragmentado, conforme as diferentes províncias. Dessa maneira, Vargas criou uma diretriz federal centralizada para a loucura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste cenário, a Liga Brasileira de Higiene Mental (LBHM), uma instituição que professava o higienismo no Brasil e que já atuava desde a década de 1920, ganhou fôlego. O foco deslocou-se do hospital para a prevenção na sociedade. A psiquiatria não deveria se limitar aos hospitais, mas também atuar na escola, na fábrica e na família, buscando eugenizar, limpar a nação e extirpar o que chamavam de &amp;quot;elementos degenerados&amp;quot;. O médico Gustavo Riedel e seus sucessores defendiam que o Estado deveria intervir precocemente para evitar que o &amp;quot;anormal&amp;quot; se tornasse um fardo para a máquina pública.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi durante as décadas de 1930 e 1940 que o modelo de colônia agrícola, antes visto como terapêutico e de assistência à manutenção hospitalar, atingiu proporções industriais. O que se viu em Barbacena e em instituições como o Juquery em São Paulo, foi a transformação do hospital em, praticamente, um campo de concentração administrativo. A internação não dependia mais de um diagnóstico médico rigoroso, que na prática ainda era frágil e baseado em elementos pouco científicos. Bastava ser considerado &amp;quot;socialmente inconveniente&amp;quot; para correr-se o risco de ir parar numa instituições dessas. Assim, pobres, prostitutas, homossexuais, militantes políticos e mães solteiras eram enviados para essas instituições, onde a sobrevivência era a exceção. Estima-se que, no auge do descaso, o Hospital de Barbacena registrava um número alarmante de óbitos por frio, fome e doenças evitáveis, cujos corpos eram, por vezes, vendidos para faculdades de medicina. Situações similares aconteciam em outras instituições do tipo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Tratamentos Brutais e os Modos de Resistência ===&lt;br /&gt;
Para além do horror asilar, o período entre 1930 e 1950 também foi marcado pela introdução de terapias biológicas drásticas, importadas da Europa, conhecidas como somatoterapias. Com uma psicofarmacologia pouco eficaz, os médicos buscavam &amp;quot;chacoalhar&amp;quot; o organismo, produzindo nele como um choque que pudesse restaurar a razão. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma dessas técnicas era a insulinoterapia. Introduzida na Europa pelo médico austríaco Manfred Sakel (1900–1957) em Viena, no início dos anos 1930, representou uma das primeiras e mais invasivas formas de somatoterapia. Originalmente destinada ao tratamento da esquizofrenia, a técnica consistia na administração de doses maciças de insulina no paciente, provocando um estado de hipoglicemia profunda que levava o paciente ao coma. Na volta desse estado, se esperava que o indivíduo “restaurasse” a razão por conta do choque orgânico violento que havia vivenciado. O procedimento era extremamente perigoso e estava associado a uma alta taxa de mortalidade e morbidade devido às convulsões e aos possíveis danos cerebrais. Apesar dos riscos, o método foi amplamente adotado no mundo todo, incluindo o Brasil, onde foi usado em grandes instituições de confinamento, como o Hospital Nacional de Alienados (HNA), no Hospital Juquery, entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que passou a ser muito utilizada foi a Eletroconvulsoterapia, ou simplesmente o eletrochoque. Introduzido no Brasil logo após sua invenção na Itália (1938), consiste em colocar eletrodos carregados com correntes elétricas em lados opostos, na lateral da cabeça, de modo que uma forte corrente elétrica atravessasse o cérebro. A duração e a intensidade podiam variar, mas relatos de mais de trinta minutos de choques violentos não eram incomuns. Sua brutalidade era tamanha que exigia que sua vítima fosse fortemente amarrada. Tornou-se uma ferramenta onipresente nos hospitais, muitas vezes aplicada sem anestesia e como método de punição, desvirtuando sua finalidade clínica e usada, basicamente, como ferramenta de tortura.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra técnica que ingressou no Brasil nesse período foi a lobotomia, um procedimento cirúrgico que consistia em apenas retirar um pedaço do cérebro do paciente. Eles foram realizados em larga escala em hospitais como o Juquery e no Hospital Pedro II, buscando a docilização de pacientes crônicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em oposição à violência do isolamento oferecido por essas instituições, surge a figura de Nise da Silveira. Em 1946, após ter sido presa pelo regime de Vargas por suas inclinações políticas, Nise assumiu o Setor de Terapêutica Ocupacional do Centro Psiquiátrico Nacional (Engenho de Dentro), no Rio de Janeiro. Ela se recusou a usar eletrochoques e lobotomias, introduzindo a arte e o afeto como mediadores da cura. Ela fundou o Museu de Imagens do Inconsciente em 1952, onde demonstrou, através das pinturas e esculturas de pacientes como Arthur Bispo do Rosario, que o louco preservava uma riqueza simbólica e uma humanidade que a psiquiatria tradicional tentava apagar. Sua colaboração com Carl Jung colocou a experiência brasileira no mapa da psicologia analítica mundial, provando que o tratamento em liberdade e através da expressão criativa era viável.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Criação da Indústria da Loucura ===&lt;br /&gt;
No final da década de 1950 e início da de 1960, durante o governo de Juscelino Kubitschek e o breve período democrático posterior, o Brasil viu o surgimento de uma nova e ainda mais perversa dinâmica: a Indústria da Loucura. A assistência psiquiátrica, antes quase totalmente pública ou baseada no assistencialismo das Santas Casas, começou a ser privatizada. Com o crescimento dos institutos de previdência (IAPs), o Estado passou a pagar hospitais privados por dia de internação. Isso criou um incentivo perverso: quanto mais tempo o paciente ficasse internado e quanto menos recursos fossem gastos com ele, maior o lucro das clínicas privadas. Esse modelo, conhecido como &amp;quot;hospitalocêntrico&amp;quot;, inchou o sistema e preparou o terreno para a política de contenção social que seria radicalizada após o golpe de 1964. Foi um momento de multiplicação da brutalidade. Pouco importava a loucura ou não, o tratamento ou não, a eficácia ou não. O que importava era ganhar o dinheiro estatal por meio de um encarceramento fácil e praticamente impossível de escapar, além de altamente lucrativo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A coisa se aprofundou ainda mais com o golpe militar, que unificou em 1966 os Institutos de Aposentadoria e Pensões no INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), produzindo uma centralização gigantesca de recursos, com um modelo de privatização quase total. A psiquiatria, por ser uma especialidade cuja formação exigia baixo investimento tecnológico quando comparada a outras como a cirurgia, cardiologia ou oncologia, permitia grandes lucros com as internações de longa permanência. Assim, trancafiar e atormentar os loucos tornou-se o setor mais atraente para o empresariado da saúde.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de pessoas possivelmente diagnosticadas, o sistema era alimentado pelo encarceramento de militantes políticos, estudantes rebeldes, pessoas em situação de rua,  mendigos, homossexuais, indivíduos com comportamentos &amp;quot;desviantes&amp;quot; da moral tradicional, dependentes químicos, alcoólatras ou mesmo pessoas “problemáticas” da família, que se recusavam, por exemplo, a participar de casamentos arranjados, que denunciavam violência sexual ou eram apenas mulheres que haviam engravidado antes do casamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As instituições privadas multiplicaram-se pelo interior do país, longe dos olhos da fiscalização e dos centros urbanos. Instaladas em locais de difícil acesso, facilitava o ocultamento de violações de direitos humanos e ainda utilizava da conivência dos governos locais. As populações dessas localidades, crentes no saber médico, dificilmente desconfiavam do que poderia acontecer dentro dessas instituições e, quando vazavam denúncias, elas rapidamente podiam ser facilmente manejadas em conluio com os poderes locais. A loucura tornou-se um negócio de massa, com o abrigo precário de centenas de pessoas em galpões, onde a única &amp;quot;terapia&amp;quot; era a contenção química por sedativos baratos ou o uso indiscriminado do eletrochoque para manter a ordem além, é claro, da violência e brutalidade de toda sorte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Luta Antimanicomial ==&lt;br /&gt;
No final da década de 1970, o modelo de saúde mental começou a dar sinais de exaustão, tanto financeira quanto ética. O Estado já não conseguia arcar com os custos crescentes de um sistema que só expandia o número de crônicos, e as denúncias de maus-tratos começaram a furar o bloqueio da censura, aparecendo em jornais mais prestigiados e em mais espaços do debate social. O estopim para a o início do movimento da reforma psiquiátrica no Brasil começa com uma crise na Divisão Nacional de Saúde Mental (DINSAM), que havia recebido denúncias de irregularidades no Centro Psiquiátrico Pedro II, no Hospital Pinel, na Colônia Juliano Moreira e no Manicômio Judiciário Heitor Carrilho. A denúncia foi acompanhada de uma greve por parte dos funcionários, que exigiam melhorias institucionais e questionavam irregularidades trabalhistas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
É dessa crise que surge o Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM) que, nesse primeiro momento, estão mais preocupados com questões trabalhistas do que com o problema da própria prática psiquiátrica, que vai caracterizar parte dos movimentos antimanicomiais posteriormente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O MTSM se fortalece e conseguem espaço no extremamente conservador V Congresso Brasileiro de Psiquiatria, que ocorre em 1978, no que fica conhecido como “congresso da abertura” e que também traz elementos da abertura política com o iminente fim do regime militar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ainda em 1978, um grupo importante de intelectuais vinculados às bases teóricas do Movimento Antimanicomial participa do I Congresso Brasileiro de Psicanálise de Grupos e Instituições, incluindo Franco Basaglia, Felix Guattari, Robert Castel e Erwinf Goffman, todos eles de grande inspiração e influência para o movimento antimanicomial brasileiro. No ano seguinte, o I Congresso Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental fortalece a contextação não apenas de problemas trabalhistas, mas do próprio modelo asilar e da forma como a psiquiatria intervinha e oprimia a população marginalizada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A relação público-privada que alimentava o modelo até então começa a ruir em 1980, com a chamada política da co-gestão interministerial. Nela, um convênio celebrado entre o Ministério da Previdência e Assistência Social com o Ministério da Saúde liquida a &amp;quot;Unidade de Serviço&amp;quot;, a política que permitia a contratação privada de serviços psiquiátricos e que representou o triunfo do público sobre o privado. Membros do MTSM passam a integrar a gestão do atendimento em saúde mental que, por dentro do aparato estatal, começam a implementar uma política de saúde pública baseada em prestação de serviços, cooperação, descentralização e regionalização, propostas que já eram defendidas pelos reformadores. Apesar desses avanços, críticos afirmam que a política de co-gestão apenas visava reformar os serviços, não atingindo o âmago da questão, que seria desconstruir o próprio paradigma psiquiátrico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo de desinstitucionalização de fato começa em 1985, ano marcado pelo fim da Ditadura Militar e pela realização de vários eventos que aprofundam o debate sobre a situação do atendimento. A I Conferência Nacional de Saúde Mental marca o início da desinstitucionalização devido aos conflitos entre o MTSM, a ABP e grupos não-organicistas que passaram a dirigir o DINSAM. Na conferência, consagrou-se uma reviravolta na perspectiva com a consolidação do lema &amp;quot;por uma sociedade sem manicômios&amp;quot;, rompendo com a lógica tanto privatista quanto estatista e questionando o próprio modelo psiquiátrico tradicional. Este passou a ser amplamente entendido como fenômeno cultural que promove o tratamento moral e o controle dos corpos, uma visão abertamente basagliana e antimanicomial. Alguns entendem que, nesse momento, a tradição anti-institucional que originou os primeiros questionamentos na década de 1970 foi restaurada e fortalecida. Após a Conferência, o próprio MTSM se renovou, se desatrelando do Estado, retomando sua independência e seu papel de transformação social.  A mudança do movimento se consolidou no II Congresso Nacional de Trabalhadores de Saúde Mental, quando a noção de racionalização e modernização dos serviços que havia caracterizado o período da co-gestão foi recusado em nome de uma pauta anti-institucional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em meados dos anos 1980 começam a surgir novos modelos de atenção à saúde que poderia substituir o modelo psiquiátrico. Em São Paulo é criado o primeiro Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) em 1987. Em Santos, surge o Núcleo de Atenção Psicossocial (NAPS), em 1989. Estes serviços passaram a ser vistos como os modelos para uma contestação profunda dos manicômios, justificando seu encerramento. Já na década de 1990, o SUS introduziu mecanismos de fiscalização e auditoria que começaram a sufocar financeiramente os asilos privados que não cumpriam níveis mínimos de dignidade. Portarias históricas do Ministério da Saúde, inspiradas na Declaração de Caracas (1990), passaram a proibir a criação de novos leitos psiquiátricos asilares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após mais de uma década de tramitação e intensos debates no Congresso Nacional, como fruto dos embates históricos iniciados na crise do DINSAM, foi promulgada a Lei nº 10.216, de 6 de abril de 2001, que ficou conhecida como Lei da Reforma Psiquiátrica ou Lei Paulo Delgado, seu autor. Esta legislação tornou-se o marco jurídico definitivo da virada assistencial no Brasil. A lei instituiu o direito de ser tratado em ambiente terapêutico o menos restritivo possível e colocou a internação psiquiátrica como último recurso possível. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para preencher o vazio deixado pelo fechamento dos grandes hospitais, o SUS estruturou a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), formalizada na década seguinte pela Portaria nº 3.088 de 2011. A RAPS organizou o cuidado em diferentes níveis de complexidade, iniciando com os CAPS divididos nas modalidades CAPS I, II, III, CAPSi  e CAPS AD e os Serviços de Residência Terapêutica (SRT). &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, a luta continua devido a retrocessos observados na segunda metade da década de 2010 e início dos anos 2020. Mudanças nas diretrizes da Política Nacional de Saúde Mental tentaram reintroduzir a centralidade do hospital psiquiátrico e incentivaram o uso de práticas baseadas no isolamento. Além disso, o governo federal passou a financiar massivamente as chamadas Comunidades Terapêuticas (CTs), instituições de caráter predominantemente privado e religioso voltadas ao acolhimento de usuários de drogas de onde emanam graves denúncias de todos os tipos de violação dos direitos humanos e que representam um evidente retrocesso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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YASUI, Silvio. Rupturas e Encontros: desafios da Reforma Psiquiátrica Brasileira. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2010.&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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