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	<title>WikiHP - Contribuições do usuário [pt-br]</title>
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	<subtitle>Contribuições do usuário</subtitle>
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		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_surgimento_da_psicologia_cient%C3%ADfica&amp;diff=1758</id>
		<title>O surgimento da psicologia científica</title>
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		<updated>2026-09-07T15:15:08Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* Fechner e a Fundação da Psicofísica */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto [[Portal História da Psicologia]]) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um longo passado, uma curta história ==&lt;br /&gt;
A psicologia tem um longo passado, mas uma curta história. Esta é uma frase muito famosa no campo da história da psicologia, tendo sido consagrada por Hermann Ebbinghaus, um psicólogo alemão pioneiro no estudo da memória, ainda no século XIX. A frase é exemplar e muito usada em debates sobre a historiografia da psicologia, e isto revela como é difícil dizer quando a psicologia teve início. Ela tem um &#039;&#039;&#039;longo passado&#039;&#039;&#039;, porque os temas que consideramos hoje como parte da psicologia aparecem muitas vezes na filosofia, na religião, em saberes tradicionais, entre muitos outros lugares, ao longo da história. É difícil estabelecer qual &#039;&#039;&#039;o objeto de estudo da história da psicologi&#039;&#039;&#039;a, assim como é difícil, ao longo da história, &#039;&#039;&#039;separar o que é  psicologia daquilo que não é psicologia&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse longo passado pode remontar, por exemplo, à Antiguidade, com o tratado De Anima, de Aristóteles, que escreveu muito antes de se imaginar o próprio conceito de ciência moderna e, menos ainda, de uma psicologia moderna. Outros podem colocar o início da psicologia com Descartes, que elaborou a máxima, também famosa, “penso, logo existo”. Isso mostra que &#039;&#039;&#039;os objetos de estudo da psicologia são historicamente construídos&#039;&#039;&#039;, ou seja, emergem a partir dos locais ou pessoas que atuaram na psicologia, como na medida das diferenças individuais, as dinâmicas de controle num laboratório, nas práticas de psicoterapia, entre muitas outras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se cada historiador localiza o passado da psicologia em lugares diferentes no tempo e no espaço, a &#039;&#039;&#039;história da psicologia&#039;&#039;&#039;, por seu lado, tem uma definição bem mais estável e curta. Nos anos 1980, historiadores reunidos num congresso nos EUA definiram que &#039;&#039;&#039;a psicologia científica começou em 1879, quando [[Wilhelm Wundt]] fundou o primeiro laboratório de psicologia experimental na Universidade de Leipzig, na Alemanha&#039;&#039;&#039;. Essa definição está consagrada e é quase um consenso, porém, não foi tão simples estabelecê-la. Alguns advogavam pelo pioneirismo de outro alemão, [[Gustav T. Fechner|Gustav Theodor Fechner]], criador da chamada [[psicofísica]], de onde vieram muitos dos experimentos e ideias de Wundt. Outros ainda queriam que [[William James]], um filósofo e psicólogo americano, fosse reconhecido como fundador, pois seu laboratório de psicologia era ainda mais antigo que o de Wundt que, no final, venceu essa disputa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Resumindo, a psicologia possui um “longo passado”, com raízes filosóficas e religiosas milenares e altamente diversas, e uma “curta história” como disciplina científica, cujo marco está situado em 1879, com a fundação do primeiro laboratório experimental por Wilhelm Wundt, na Alemanha. Pelo menos é assim que, atualmente, a grande maioria dos historiadores entende a questão, uma das poucas em que há algum conceito neste campo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Presentismo ===&lt;br /&gt;
Mas o que seriam essas psicologias anteriores a essa psicologia científica? Para entender melhor essa história, é preciso refletir para superar, da melhor forma, um problema chamado &#039;&#039;&#039;presentismo&#039;&#039;&#039;, ou seja, julgar, entender, interpretar e analisar o passado com a visão do presente. Não é apenas uma questão de olhar para as pessoas do passado e superar o pensamento de que elas eram “ignorantes”, pois “não tinham o conhecimento que temos hoje”. É entender também que, no passado, haviam formas de conhecimentos diferentes, bem como visões de mundo diferentes da atual. Este é um problema fascinante. Muitos dos consensos contemporâneos, coisas que entende-se totalmente óbvias, eram vistas de forma completamente diferente no passado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo interessante é o &#039;&#039;&#039;conceito de atenção&#039;&#039;&#039;. Hoje, ela é um tema tão discutido e consensual que pouco se reflete sobre seu significado. Atualmente, seria algo como centralizar as faculdades mentais ou talvez a percepção em um ponto específico. Pode-se ouvir as pessoas reclamando da própria falta de atenção, que “não conseguem prestar atenção”, ou que nunca “mantém a atenção”, e até mesmo existem medicamentos para resolver esse problema. Contudo, a palavra “atenção” nem sempre significou o que entendemos hoje. Para [[Santo Agostinho]], atenção era apenas o ato de passar de um pensamento para outro. [[René Descartes|Descartes]] tinha um conceito mais parecido com o contemporâneo, onde a atenção era mobilizada de forma voluntária para fixar e reter na memória coisas raras e extraordinárias que o entendimento considerava úteis. Na obra de [[John Locke|Locke]], a atenção é mencionada apenas de passagem, como um mero mecanismo auxiliar da retenção de memórias. A partir do momento em que a ciência passou a entender que a percepção depende da estrutura física e biológica do corpo, com a psicofísica e a fisiologia sensorial, já no século XIX, a visão passou a ser encarada como intrinsecamente incompleta, instável e condicionada pelo tempo. Nesse contexto, a atenção foi utilizada como um substituto pragmático para garantir a coerência do mundo percebido. Autores do final do século XIX, como [[Théodule Ribot]] e [[Max Nordau]], associaram os desvios ou a fraqueza da atenção a patologias psíquicas, comportamentos sociopáticos e teorias da “degeneração”. Para eles, uma atenção defeituosa deixava a mente à mercê de “associações caóticas”, gerando uma visão borrada e distorcida da realidade. Foi apenas na década de 1950 que a nossa compreensão contemporânea de atenção começou a se delinear, paralelamente aos estudos sobre os medicamentos desenvolvidos para tratar as suas disfunções.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma pessoa desavisada, que não está atenta às grandes diferenças entre as ideias e conceitos ao longo do tempo, poderia ler um trecho de Ribot, Santo Agostinho, Descartes e outros e achar que a atenção sobre a qual eles falam é a mesma coisa que entendemos hoje. O leitor estaria totalmente enganado, a ponto de não conseguir nem mesmo compreender o que estes pensadores queriam dizer. Em outras palavras, &#039;&#039;&#039;o esforço para entender as psicologia do passado passa também pelo esforço de entender como se pensava no passado, qual a visão que se tinha nesse passado&#039;&#039;&#039;. Parte do esforço do historiador é trazer esses aspectos de volta ao presente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O sujeito transcedental de Kant ==&lt;br /&gt;
A concepção de uma psicologia ocupada especificamente com a “mente” humana e suas operações começou a ganhar contornos modernos no século XVIII com o filósofo [[Christian Wolff]]. Ele dividiu a psicologia em [[Psicologia Empírica (livro)|&#039;&#039;&#039;Psicologia Empírica&#039;&#039;&#039;]], num livro publicado em  1732 e baseada na introspecção; e em &#039;&#039;&#039;Psicologia Racional&#039;&#039;&#039;, numa obra de 1734, dedicada a deduzir a natureza e a essência da alma, como sua imortalidade e imaterialidade, de forma puramente lógica e racional, independentemente da experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, o projeto de Wolff enfrentava um sério problema metodológico: a chamada observação interna ou [[introspecção]]. Quando se estuda um fenômeno natural, como a chuva, é necessário observar tudo que está envolvido com estee fenômeno, incluindo como as nuvens se formam, qual a umidade do ar, a intensidade dos raios solares, a direção dos ventos, entre muitos outros fatores. A questão é que todos estes aspectos são &#039;&#039;&#039;externos ao sujeito&#039;&#039;&#039;. Toda a ciência é feita dessa forma, observando, testando e analisando o mundo que está fora dos indivíduos. O problema está em estudar algo que é interno aos sujeitos. Não se pode observar diretamente o que se passa na cabeça de alguém, pelo menos não por enquanto. Contudo, é possível analisar o que se passa nas nossas próprias cabeças. Isso seria a &#039;&#039;&#039;introspecção&#039;&#039;&#039;, ou seja, o processo pelo qual adquirimos conhecimento sobre nossos próprios estados ou processos mentais Apesar de ser uma ideia interessante, fazer introspecção não era considerado algo muito científico. Entendia-se que “observar a si mesmo” distorcia os eventos mentais, pois o sujeito que observa e o objeto observado são o mesmo, o que impediria a neutralidade exigida pelo modelo científico então vigente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até a segunda metade do século XVIII, as teorias do conhecimento, que incluíam o empirismo e o racionalismo, compartilhavam a premissa de que o conhecimento era determinado pelo objeto a ser conhecido. A ideia era a de que objeto estava lá, esperando a melhor forma de ser conhecido. &#039;&#039;&#039;Kant&#039;&#039;&#039;, em sua obra [[Crítica da Razão Pura (livro)|Crítica da Razão Pura]] (1781), inverteu essa lógica de forma radical. Ele propôs que &#039;&#039;&#039;não é o conhecimento que se adequa aos objetos, mas são os objetos que são determinados pelo sujeito&#039;&#039;&#039;. O conhecimento passou a ser compreendido não como uma recepção passiva, mas como uma produção ativa do chamado sujeito transcendental, moldada por suas formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;sujeito transcendental&#039;&#039;&#039; em Kant não se refere propriamente a um indivíduo empírico ou psicológico, ou seja, alguém com personalidade e história pessoal. Pense no sujeito transcendental não como “você” (André ou Maria), mas como o “sistema operacional” universal da mente humana. Assim como um software organiza os dados que chegam do teclado, convertendo eles em coisas numa tela, o sujeito transcendental organiza os dados que chegam dos sentidos, como o tempo e o espaço, antes mesmo de termos consciência deles.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o sujeito transcedental, é preciso fazer um importante exercício de abstração, visando conseguir entender algo que está além da experiência existencial individual e entender aquilo que molda essa própria experiência. O sujeito transcedental de Kant é, segundo ele próprio, uma condição universal de possibilidade para qualquer conhecimento. Em outras palavras, é algo que todas as pessoas possuem e é a forma que o ser humano tem para saber as coisas. É a estrutura ativa da mente que organiza a experiência antes mesmo que possamos refletir sobre ela. Esse sujeito é o princípio unificador que garante a coerência dos dados sensoriais, transformando o caos de impressões oriundas dos órgãos dos sentidos em uma experiência significativa e estruturada. Através das formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039; da sensibilidade (espaço e tempo) e das categorias do entendimento, o sujeito transcendental “constrói” o objeto conhecido. Ele é o “Eu penso” cartesiano, que deve poder acompanhar todas as nossas representações, conferindo unidade à consciência. Em suma, &#039;&#039;&#039;não conhecemos o mundo como ele é em si, mas como o sujeito transcendental o molda e o organiza para que se torne inteligível para nós&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Immanuel Kant revolucionou a teoria do conhecimento ao postular que a mente humana não funciona como um receptáculo passivo de impressões sensoriais, mas sim como um agente ativo dotado de estruturas constitutivas a priori que organizam, unificam e interpretam a matéria-prima da experiência. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas ideias de Kant, o processo de constituição do conhecimento dos fenômenos que chegam para nossa mente a partir dos órgãos dos sentidos articula-se em três instâncias fundamentais. A primeira são as formas puras da sensibilidade, depois vem os conceitos puros do entendimento, ou seja, as categorias e, por fim, a unidade sintética da apercepção. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas &#039;&#039;&#039;formas puras da sensibilidade&#039;&#039;&#039;, antes mesmo que o intelecto possa aplicar qualquer conceito, o caos das sensações brutas é necessariamente ordenado no espaço e no tempo, que não são propriedades das coisas em si, mas intuições puras da sensibilidade que funcionam como os eixos coordenados onde os fenômenos são dados. Ou seja, as informações dos sentidos já chegam num espaço e num tempo para o resto do processo de constituição do conhecimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma vez colocados no espaço e estruturados numa sucessão e simultaneidade temporal, esses dados passam pelas &#039;&#039;&#039;doze categorias do entendimento puro&#039;&#039;&#039;. Essas categorias se dividem em &#039;&#039;&#039;quatro classes de tríades&#039;&#039;&#039;: quantidade, qualidade, relação e modalidade. As &#039;&#039;&#039;categorias&#039;&#039;&#039; representam as regras lógicas puras, fundamentais e necessárias para tornar qualquer objeto da experiência inteligível. Elas podem ser observadas de forma simplificada na tabela a seguir:&lt;br /&gt;
{| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot;&lt;br /&gt;
|Classe de Categorias&lt;br /&gt;
|Categoria 1 (Tese)&lt;br /&gt;
|Categoria 2 (Antítese)&lt;br /&gt;
|Categoria 3 (Síntese)&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|1. Quantidade&lt;br /&gt;
|Unidade&lt;br /&gt;
|Pluralidade&lt;br /&gt;
|Totalidade&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|2. Qualidade&lt;br /&gt;
|Realidade&lt;br /&gt;
|Negação&lt;br /&gt;
|Limitação&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|3. Relação&lt;br /&gt;
|Substância e Acidente&lt;br /&gt;
|Causa e Efeito&lt;br /&gt;
|Ação Recíproca&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|4. Modalidade&lt;br /&gt;
|Possibilidade (Impossibilidade)&lt;br /&gt;
|Existência (Não-existência)&lt;br /&gt;
|Necessidade (Contingência)&lt;br /&gt;
|}&lt;br /&gt;
As categorias de quantidade dizem respeito à extensão em que aplicamos um conceito aos objetos, ou seja, “quantos” elementos estamos considerando no juízo. Na unidade, temos um único objeto. Na pluralidade, trazemos vários objetos do mesmo tipo para um conjunto. Já a totalidade surge quando pensamos a pluralidade como uma unidade completa.Vejamos um exemplo. Quando um observador vê uma maçã, aplica a categoria da unidade, ou seja, ele viu uma maçã. Ao ver várias maçãs espalhadas na mesa, apreende uma pluralidade, ou seja, ele tem um conceito de “maçãs” e as vê como um conjunto. Porém, ao formular uma lei universal, aplica-se a totalidade, que engloba toda a pluralidade possível sob uma única regra conceitual, ou seja, todas as maçãs são frutas e existem vários tipos de maçãs.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade trata da atribuição de um predicado, ou seja, se a experiência afirma algo, nega algo ou se situa num limite conceitual. Em outras palavras, é a forma da mente definir “como algo é”. A realidade é afirmação de que um predicado pertence a um ser, ou seja, ele é alguma coisa. A negação é a afirmação de que o predicado não pertence a algo, ou seja, um “não-ser”. A limitação é a síntese das duas anteriores. Atribui-se uma negação como se fosse uma realidade, excluindo aquilo de uma esfera, mas deixando infinita a esfera onde ele pode estar. Vamos a um exemplo. Dizer “O homem é mortal” aplica a categoria de realidade (afirma-se um atributo). Dizer “O homem não é mortal” aplica a negação. No entanto, dizer “A alma é não-mortal (imortal)” é um juízo infinito clássico de Kant que evoca a limitação. Não sabemos o que a alma é de fato, mas a limitamos removendo ela da esfera das coisas mortais, o que a situa num campo aberto e indeterminado de possibilidades.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Consideradas por muitos comentadores como o coração da epistemologia kantiana, as categorias de relação definem como os objetos se relacionam entre si e como permanecem ou mudam no tempo. Substância e Acidente referem-se àquilo que permanece através da mudança (substância) e as propriedades que são transitórias, ou seja, que mudam (acidentes). Um exemplo disso é a água de um lago que congela no inverno. Seu estado físico muda do líquido para o sólido, que é o acidente, mas a matéria da água em si, a substância, permanece inalterada. Sem a categoria de substância, nossa mente registraria apenas uma sucessão caótica de imagens, sem reconhecer que se trata da mesma “coisa” sofrendo alteração. A Causa e Efeito é a relação estritamente necessária onde um evento segue outro no tempo. O exemplo de Kant, em resposta ao filósofo David Hume, é sobre o sol que ilumina uma pedra, e a pedra esquenta. Hume diria que inferimos causalidade por mero hábito psicológico, ou seja, não há conexão necessária, apenas uma observação e uma intuição. Kant argumenta que o próprio fato de distinguirmos uma sucessão objetiva de eventos exige que a mente aplique a categoria a priori de Causalidade. A mente “dita” a regra estrutural de que o aquecimento necessariamente sucede a irradiação solar, colocando uma como causa da outra. Já na Ação Recíproca (Comunidade), tem-se a relação simultânea de mútua influência entre múltiplas substâncias no espaço como, por exemplo, a interação gravitacional entre a Terra e a Lua. Elas não são eventos sucessivos no tempo, mas existem simultaneamente e influenciam-se de modo contínuo e bidirecional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, temos as categorias modais. Eles são os Postulados do Pensamento Empírico e não acrescentam nenhum atributo novo ao objeto em si, mas definem exclusivamente como esse objeto ou evento se relaciona com o sujeito cognitivo e suas faculdades. No caso da Possibilidade-Impossibilidade, é algo que concorda com as condições formais, que são as condições lógicas e puras da experiência. No binômio Existência-Não-existência, é algo que está dado materialmente na intuição empírica, ou seja, nos sentidos. Já na Necessidade-Contingência, é algo cuja conexão com a experiência empírica está determinada por condições universais. Vamos a um exemplo. Um dragão voador de escamas verdes ou um triângulo cujos ângulos somam 180 graus são conceitos logicamente possíveis, ou seja, não envolvem contradição formal. No entanto, apenas um objeto sensorialmente verificável, como a caneta sobre a sua mesa, tem a marca da existência. Já o fato de que um objeto massivo abandonado no ar cairá em direção ao solo é uma necessidade ditada pelas leis empíricas que o entendimento prescreve à natureza, ou seja, atribui a ele.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Acima dessas estruturas, Kant postulou a apercepção ou apercepção transcendental, que é o processo pelo qual a mente unifica de forma ativa diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Sem a apercepção, a mente seria apenas um amontoado de estímulos desconectados. Assim, a aperceção a base da própria consciência humana. Devido a essa complexa mediação ativa da mente, Kant estabeleceu uma distinção insuperável entre o mundo externo e a mente. Isso significa dizer que nós não temos acesso à “coisa em si”, ou noumenon, mas apenas a como as coisas nos aparecem, ou seja, na forma de fenômeno, já devidamente processadas pelo nosso aparato cognitivo. Neste sentido, É importante distinguir o “Eu empírico”, ou seja, aquilo que observamos em nós mesmos, como nossa personalidade ou o nosso humor, do “Eu transcendental”, a pura unidade lógica do “Eu penso”. Ademais, a apercepção transcendental não é uma faculdade psicológica de “prestar atenção”, mas uma exigência lógica. Para que uma experiência seja minha, o “Eu penso” deve poder acompanhar todas as minhas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Os Vetos Kantianos à Psicologia Científica ===&lt;br /&gt;
Apesar de ter colocado o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que conhece, no centro do universo epistemológico, Kant foi muito crítico sobre a possibilidade de a psicologia se tornar uma ciência. Em sua obra Princípios metafísicos da ciência da natureza, de 1786, ele negou a possibilidade de uma psicologia científica, pois afirmou que uma disciplina só poderia Sê-lo se possuísse uma elaboração racional capaz de fornecer leis formuladas matematicamente, o que poderia ser chamado de veto matemático. A psicologia falhava nesse critério porque os eventos mentais possuem apenas a dimensão do tempo, sem nenhuma extensão espacial, o que impossibilitaria a sua matematização. Para Kant, assim como o espaço é a forma do sentido externo, o tempo é a forma pura do sentido interno. Como os estados mentais só se dão na sucessão do tempo (sem extensão espacial), eles não formam figuras nem podem ser medidos geometricamente, inviabilizando a matemática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Kant apontou a impossibilidade de isolar diferentes pensamentos para a realização de experimentos controlados. Assim, como não podemos acessar o que seria o conteúdo da mente, cercá-la e analisá-la como ela é em seu estado bruto ou natural, qualquer experimentação seria impossível, o que poderia ser chamado de veto do objeto. Por fim, ele reforçou a crítica que já era direcionada a Wolff, aquele do começo dessa seção. A introspecção como método, segundo Kant, seria inviável porque a própria tentativa de observar um fenômeno interno altera o fenômeno, o veto metodológico. Se tento observar minha própria tristeza, por exemplo, o fenômeno original desaparece e se transforma em “tristeza-sendo-observada-por-mim”, misturando sujeito e objeto de tal maneira que corrompe a objetividade. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A impossibilidade de uma psicologia científica não significava, contudo, a impossibilidade de estudar a mente e o comportamento. Kant trabalhou e lecionou com o que chamou de Antropologia Pragmática. Enquanto a psicologia empírica tentava, em vão, segundo ele, ser uma ciência exata, a antropologia pragmática estudava “o que o homem, como ser livre, faz, ou pode e deve fazer de si mesmo”. Era um estudo prático do comportamento, das paixões, da memória e da cognição, focado na vida em sociedade. De certo modo, pode-se dizer que Kant fechou a porta para a psicologia mecanicista, ou ainda, uma psicologia como ciência exata, mas ajudou a abrir uma janela imensa para as ciências humanas e sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Emergência do Neokantismo Fisiológico e as Primeiras Aproximações para a Psicologia Científica ==&lt;br /&gt;
A primeira metade do século XIX na Alemanha foi inicialmente dominada pelo Idealismo Pós-Kantiano (Hegel, Fichte, Schelling), que propunha sistemas metafísicos grandiosos onde a realidade era essencialmente racional e espiritual. Contudo, a partir da década de 1850, o forte avanço das ciências naturais, como a fisiologia e a química, gerou uma importante reação materialista, consolidados nas figuras de Feuerbach, Vogt, Büchner e outros, que passaram a ridicularizar a filosofia idealista como mera especulação vazia. A metafísica, vista como uma das glórias da filosofia e do pensamento humano, passou a ser vista cada vez mais como um discurso com pouco ou nenhum lastro na realidade. Essa mudança foi muito importante para a história da psicologia científica, pois foi devido a esse contexto que foram formulados os primeiros experimentos voltados para o que seria, no futuro, a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Johannes Müller e a Teoria das Energias Nervosas Específicas ===&lt;br /&gt;
Neste período, a fisiologia se estabeleceu como uma ciência rigorosa e extremamente respeita, liderada por figuras como Johannes Müller. Müller, professor na Universidade de Berlim, publicou seu Manual de Fisiologia Humana (1833-1840), que sistematizou o conhecimento fisiológico da época e transformou a compreensão da percepção. Até o final do século XVIII, ela era explicada pela Teoria da impressão da sensação, derivada da física newtoniana e do empirismo britânico. Esse modelo assumia que o sistema nervoso era um meio homogêneo e passivo que simplesmente “transportava” as qualidades dos objetos externos para a mente, como se a sensação fosse uma cópia exata do estímulo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Johannes Müller revolucionou esse entendimento ao formular a Teoria das energias nervosas específicas (1826). Ele provou, através de experimentos, que a estimulação de um determinado nervo sensorial sempre provoca uma sensação característica e exclusiva daquele nervo, independentemente da natureza do estímulo físico externo. Em outras palavras, a qualidade da sensação não pertence ao objeto físico, mas sim à estrutura do próprio aparato sensorial humano. O mesmo estímulo pode produzir sensações completamente diferentes dependendo de qual via nervosa é ativada. Por exemplo, ao aplicar sal na pele, na língua e nos olhos, as sensações serão totalmente distintas, todas diretamente relacionadas às especificidades do aparelho sensorial que foi ativado. É importante entender que isso não acontece por conta da especificidade das características do estímulo, como o sal ser “salgado”. A pele produz apenas sensações táteis, ainda que o estímulo não seja tátil. Isso cria um problema de confiança naquilo que percebemos sensorialmente, pois mostra que os órgãos não enviam apenas propriedades dos objetos, mas antes operam apenas de modo específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Müller, por meio de experimentos, mostrou que os objetos físicos projetam imagens invertidas na retina, mas nós os percebemos na posição correta. Ele mostrou também que, embora as imagens projetadas nas duas retinas sejam levemente diferentes, o cérebro as unifica em uma única imagem tridimensional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas descobertas trouxeram Kant para o terreno da biologia, inclusive pelo próprio Müller que, apesar de não ser neokantiano, viu suas descobertas científicas influenciarem profundamente a primeira geração deles. O sistema nervoso não é um receptor passivo, antes, ele medeia, molda e traduz ativamente a realidade externa. A sensação deixou de ser vista como uma cópia do mundo e passou a ser um enigma, que pode ser analisado a partir da seguinte pergunta: “o que existe entre o estímulo físico e a sensação subjetiva?”. Este é o mundo do primeiro projeto de psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Hermann von Helmholtz e o Neokantismo Psicofisiológico ===&lt;br /&gt;
A ponte definitiva entre a epistemologia kantiana e a prática laboratorial foi construída por um antigo aluno de Johannes Müller, Hermann von Helmholtz (1821-1894). Ele colaborou no desenvolvimento do neokantismo psicofisiológico ou neokantismo fisiológico, apesar de sua associação ao neokantismo como movimento não é um consenso. Ele entendeu que as descobertas de seu professor forneciam a base material exata para a teoria do conhecimento de Kant. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1855, Helmholtz argumentou que as estruturas a priori propostas por Kant como condições de possibilidade da experiência eram, na verdade, características da anatomia e da fisiologia do aparato perceptivo humano. Ao “naturalizar” a filosofia de Kant, Helmholtz formulou a sua teoria dos signos, que postula que nossas sensações e percepções não são cópias diretas da realidade, mas sim símbolos ou signos gerados pelo nosso sistema nervoso em resposta aos estímulos. Para explicar como construímos uma imagem coerente e espacial do mundo a partir desses signos neurológicos isolados, Helmholtz introduziu o conceito de inferências inconscientes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo essa teoria, a mente realiza uma série de ajustes e cálculos automáticos, baseados na experiência e na aprendizagem contínua, para interpretar os dados sensoriais. A percepção de profundidade, a posição espacial e a resolução de duas imagens retinianas em uma única visão estereoscópica não são inatas, como defendia o nativismo de Ewald Hering ou o próprio Müller, mas são aprendidas empiricamente através do movimento do corpo e da repetição das sensações. O espaço perceptivo atua como uma linguagem que a mente usa para interpretar os dados fisiológicos brutos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com isso, Helmholtz fundou o projeto de uma psicologia fisiológica autônoma, diferente da psicologia filosófica discutida na época. Ele concordou com Kant que a introspecção tradicional era um método falho, que podia conduzir a ilusões porque o observador só capta a superfície consciente do pensamento. A solução de Helmholtz foi submeter o sujeito da experiência a condições de laboratório rigorosamente controladas. Se as condições da percepção dependem de mecanismos fisiológicos, então a única forma de fazer epistemologia científica é através da experimentação fisiológica e da ótica. O sujeito do conhecimento tornou-se, assim, um objeto, que poderia ser manipulado e analisado em laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Suas contribuições não acabam por aí. Antes das pesquisas de Helmholtz, a comunidade científica acreditava que o impulso nervoso era instantâneo ou rápido demais para ser mensurado. Em 1850, estimulando um nervo motor na perna de uma rã e medindo o tempo da contração muscular, ele obteve o registro da velocidade de condução neural, que é de aproximadamente 27 metros por segundo, provando que havia “algo” entre o estímulo e a percepção que poderia ser analisado cientificamente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também mediu o tempo de reação de nervos sensoriais em humanos. Essa descoberta provou que o pensamento e o movimento corporal não ocorrem simultaneamente, mas são separados por um intervalo de tempo mensurável. Essa foi a base que abriu caminho para os experimentos de tempo de reação e cronometria mental que dominariam o laboratório de Wundt décadas depois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== F. A. Lange e o Projeto de uma “Psicologia Sem Alma” ===&lt;br /&gt;
O segundo pilar desse “retorno a Kant”, também de matriz fisiológica, foi erguido pelo filósofo e sociólogo Friedrich Albert Lange (1828-1875). Lange foi uma figura central na “controvérsia materialista” que agitava a Alemanha. Ele rejeitava tanto os “delírios” dos sistemas idealistas metafísicos quanto o reducionismo ingênuo do materialismo científico de Vogt e Büchner. Em sua influente obra História do Materialismo, de 1866, Lange defendeu que a limitação proposta por Kant é absoluta, ou seja, não temos e nem nunca teremos acesso à essência última da realidade, às coisas em si. Nosso conhecimento se restringe aos efeitos das coisas, ou seja, os fenômenos, que nos aparecem totalmente moldados pela nossa organização mental e neurológica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Lange argumentou que a impossibilidade de conhecer a essência não impede o estudo científico rigoroso das “aparências”, ou seja, sobre como as coisas nos aparecem. Para viabilizar esse estudo, Lange atacou as psicologias filosóficas do passado, que versavam debates que ele ele entendia estéreis sobre a natureza, a imortalidade e a substancialidade da “alma”. Para Lange, a alma era um conceito vazio, um “mito antigo” que forçava a psicologia a operar sobre pressupostos metafísicos inverificáveis. Em resposta, ele propôs a criação de uma psicologia sem alma, ou, em outras palavras, uma psicologia sem metafísica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste novo paradigma, o objeto de estudo da psicologia deveria ser reduzido aos dados empíricos observáveis, incluindo a sensação, a percepção, a ação e a linguagem, sempre buscando o seu correlato fisiológico. Lange rejeitou a introspecção puramente filosófica, pois a auto-observação isolada é privada, não pode ser repetida, não permite a presença de observadores externos e leva invariavelmente a ilusões verbais. Segundo ele, essa introspecção conduzia o pesquisador a substancializar conceitos como “vontade” ou “pensamento”, sem nenhum lastro empírico ou experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A única saída para a psicologia tornar-se verdadeiramente científica era abraçar a metodologia das ciências naturais. Apoiando-se no trabalho de Helmholtz e nas medições pioneiras de psicofísicos como Ernst Weber e Gustav Fechner, Lange prescreveu que a psicologia deveria investigar as leis fisiológicas da percepção e medir a correlação exata entre estímulos físicos e respostas sensoriais, como nos tempos de reação e nos limiares diferenciais. A psicologia passava a ser entendida não como a ciência do espírito transcendente, mas como a ciência psicofisiológica que estuda experimentalmente as condições de possibilidade da experiência, trazendo o sujeito transcendente de Kant para uma fisiologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fechner e a Fundação da Psicofísica ===&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner (1801–1887) foi um físico e metafísico alemão e antigo aluno de Weber. Apesar de não ser um neokantiano, ele tem uma importância fundamental para este momento da fundação da psicologia experimental, tendo sido citado e adotado por neokantianos. Ele assumiu a prestigiada e importante cadeira de física da Universidade de Leipzig em 1834, enquanto produzia sátiras sobre temas metafísicos e artísticos sob um pseudônimo. Após uma série de experimentos em que observava diretamente o Sol, feriu gravemente suas retinas, evento que o conduziu a um colapso físico e mental. Teve uma recuperação milagrosa em 1843, quando tentou observar flores em seu jardim e, por meio de uma experiência mística, observou que a natureza brilhava de dentro para fora, de onde concluiu que o universo era dotado de alma e consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esssa experiência decisiva levou-o a dedicar sua vida ao combate do materialismo científico, que ele denominava visão noturna, que via o mundo como uma matéria inerte e sem vida. Já a sua visão diurna entendia que a matéria era a manifestação da consciência universal divina, uma cosmovisão espiritualista que pode ser entendida como panpsiquista, ou seja, todos os corpos físicos possuem uma forma de alma. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi buscando provar sua visão que Fechner entendeu que poderia provar empiricamente a relação entre a mente (ou o espírito) e o corpo (ou a matéria) se encontrasse uma relação matemática constante entre a intensidade do estímulo físico e a magnitude da sensação psíquica correspondente. Isso porque Fechner percebeu que um aumento na intensidade do estímulo físico não gerava um aumento equivalente e proporcional na sensação subjetiva. A relação não era linear, mas sim proporcional, pois o estímulo físico aumentava em uma progressão geométrica, enquanto a sensação psíquica crescia em uma progressão aritmética. Por exemplo, acrescentar o som de um sino a outro que já está tocando gera um forte impacto perceptivo, pois é possível distinguir claramente que passou-se de um para dois sinos. Já acrescentar um sino a uma dezena deles produz uma alteração quase imperceptível. A sensação dependia, portanto, do nível de estimulação já existente no sistema.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para dar sustentação empírica à sua teoria, Fechner apropriou-se dos trabalhos experimentais realizados por Weber, que havia formulado a teoria da diferença mínima perceptível, demonstrando que a sensibilidade humana não avaliava diferenças absolutas entre estímulos, mas sim relações relativas ou proporcionais. Weber observou que, ao levantar pesos, os sujeitos conseguiam detectar uma variação mínima correspondente a uma fração constante de aproximadamente 1:40 em relação ao peso padrão. Essa constância proporcional é descrita pela chamada Lei de Weber:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Δ&#039;&#039;I&#039;&#039;/&#039;&#039;I&#039;&#039; = K &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ou &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
d&#039;&#039;R&#039;&#039;/&#039;&#039;R&#039;&#039; = K&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde I (ou &#039;&#039;R&#039;&#039;, do alemão &#039;&#039;Reiz&#039;&#039;) representa a intensidade do estímulo padrão, ΔI é o acréscimo mínimo necessário para produzir uma mudança perceptível na sensação e k é uma constante matemática específica para cada modalidade sensorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Fechner percebeu que essa fração constante (ΔI/I) correspondia à unidade de medida da sensação subjetiva (dS). Utilizando o cálculo infinitesimal, Fechner integrou matematicamente a equação de Weber, assumindo que todas as diferenças mínimas perceptíveis eram subjetivamente iguais entre si. Essa operação matemática resultou na célebre Lei de Fechner ou Lei de Weber-Fechner:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
S = k Log R&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde S representa a magnitude da sensação subjetiva (qualidade mental), R representa a intensidade física do estímulo (qualidade material) e K é uma constante experimental ajustada a cada sentido. Essa fórmula logarítmica foi construída para mostrar que, para a sensação aumentar linearmente, o estímulo físico precisava crescer exponencialmente, estabelecendo uma relação exata e mensurável entre o psíquico e o físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para aplicar sua fórmula, Fechner sistematizou dois conceitos fundamentais que estruturam as medições psicofísicas. A primeira é o limiar absoluto, ou seja, o ponto de intensidade física mínima abaixo do qual o estímulo não é detectado pelo sujeito e acima do qual a sensação passa a ser percebida. Outro conceito é o de limiar diferencial, que é a quantidade mínima de alteração ou variação que deve ser aplicada a um estímulo para que o sujeito seja capaz de discriminar uma mudança na sensação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um desdobramento fascinante da Lei de Fechner ocorreu quando o estímulo físico apresentava valores abaixo do limiar absoluto (R&amp;lt;1), resultando em valores negativos para a sensação (S). Fechner definiu esses valores como sensações negativas ou subliminares, postulando a existência de processos mentais ativos abaixo ou acima do limiar da consciência desperta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para determinar com precisão científica os limiares absolutos e diferenciais, Fechner desenvolveu e padronizou três metodologias experimentais rigorosas, que se tornaram os pilares metodológicos de toda a psicologia experimental posterior. No Método do Erro Médio ou do Ajuste, o próprio sujeito experimental manipula ativamente um instrumento para ajustar um estímulo variável até que sinta que este se iguala a um estímulo padrão constante. A média dos desvios entre os ajustes do sujeito e o padrão real define o erro de observação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já no Método do Estímulo Constante ou dos Casos Corretos e Incorretos, o pesquisador apresenta de forma aleatória uma série de estímulos pré-determinados e constantes em comparação com um estímulo padrão. O sujeito deve julgar se o estímulo de comparação é maior, menor ou igual ao padrão, medindo-se a proporção estatística de acertos. Por fim, no Método dos Limites ou das Diferenças Mínimas Perceptíveis, dois estímulos são apresentados ao sujeito. Um deles é aumentado ou reduzido sistematicamente em passos discretos e graduais, e o sujeito relata o momento exato em que deixa de perceber ou passa a perceber a diferença entre ambos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1860, Fechner publicou seu livro monumental, Elementos de Psicofísica, que alguns entendem ser o primeiro sobre a psicologia científica experimental. Ao fornecer à psicologia técnicas de medição coerentes e precisas, Fechner provou de forma contundente que a mente humana era passível de investigação científica e experimental, sepultando em definitivo o antigo veto imposto por Immanuel Kant, em pleno momento de desenvolvimento do Neokantismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Incomodados com as inclinações metafísicas e espiritualistas de Fechner, os psicólogos experimentais subsequentes, sob a liderança de Wilhelm Wundt, rejeitaram completamente o panpsiquismo entre outras ideias, apropriando-se exclusivamente de seus métodos quantitativos de laboratório para estabelecer a psicologia como uma ciência empírica e natural. Como bem observou o historiador Edwin G. Boring, Fechner agiu como um “Colombo que descobriu um Novo Mundo (a psicologia científica) enquanto procurava pelas antigas Índias (a prova de sua metafísica)”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Resumindo ===&lt;br /&gt;
A intersecção entre a epistemologia kantiana, a fisiologia de Müller e a reformulação promovida por Helmholtz e Lange constituiu o início daquilo que tornou possível a psicologia científica. Kant havia mostrado que o sujeito constrói ativamente a realidade, mas negou que esse sujeito pudesse ser estudado matematicamente ou experimentalmente. Müller transferiu a estrutura ativa da mente para os nervos sensoriais específicos. Helmholtz e Lange reinterpretaram as pesadas categorias transcendentais de Kant como mecanismos biológicos e perceptivos operando através de inferências inconscientes e leis fisiológicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao “naturalizar” a Crítica da Razão Pura, o Neokantismo Psicofisiológico resolveu o veto de Kant a uma psicologia científica. Se os limites e as formas do nosso conhecimento são determinados pelo nosso sistema nervoso e sensorial, então o estudo epistemológico da mente deve ser feito no laboratório de fisiologia, estudando principalmente a percepção. A exigência de matematização foi superada pelas leis da psicofísica de Fechner e Weber, e o problema da introspecção descontrolada foi resolvido pelo uso de instrumentos de precisão, como cronoscópios, além de métodos de medidas de limiar, controle de estímulos, erros médios, entre outros, que transformavam as respostas subjetivas em dados objetivos, replicáveis e mensuráveis. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse foi o cenário epistemológico e institucional que Wilhelm Wundt encontrou e ajudou a consolidar. Wundt não fundou a psicologia a partir do nada em 1879. Seu Instituto em Leipzig foi organização metodológica e teórica de décadas de esforços em que a filosofia foi obrigada a dialogar com os nervos, os músculos e os tempos de reação, transformando para sempre a especulação sobre a alma em uma rigorosa ciência da experiência imediata. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ironicamente, escolas neokantianas posteriores, como a Escola de Marburgo, foram focos de resistência à psicologia experimental, alegando que o sujeito do conhecimento de Kant era de ordem puramente transcendental e lógica, e não empírica ou mensurável, ou seja, rejeitando a “biologização” do pensamento kantiano e a consequente criação da psicologia experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, conforme mostra Gundlach, a criação de uma posição acadêmica e o laboratório de psicologia por Wundt não se deu por conta de um amplo reconhecimento da superioridade do pensamento wundtano, mas sim por conta de disputas políticas e institucionais nas universidades alemãs. De qualquer forma, Wundt conseguiu desenvolver bem sua teoria ao longo de sua vida e conseguiu estabelecer-se na proeminência da psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia de Wundt ==&lt;br /&gt;
[[Wilhelm Wundt|Wilhelm Maximilian Wundt]] é, na historiografia da psicologia, uma figura ao mesmo tempo onipresente e pouco compreendida. Freqüentemente reduzido ao título de “fundador do laboratório de Leipzig”, essa simplificação negligencia sua estatura como um dos últimos grandes arquitetos de sistemas do século XIX, cujo &#039;&#039;Systemgedanke&#039;&#039; (pensamento sistêmico) buscava integrar a psicologia como uma propedêutica fundamental para a filosofia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Recuperar o Wundt original exige preencher uma vasta lacuna historiográfica. A primeira envolve apontar as conhecidas e muitas das distorções da tradução de [[Titchener|E.B. Titchener]] para o contexto anglo-americano, que foi formulada para aproximar suas ideias e pdasdaquelas de Wundt, visando uma “confirmação” do pensamento de Titchener. Wundt não era um estruturalista ou associacionista clássico e seu sistema é essencialmente dinâmico e pode ser classificado melhor como &#039;&#039;&#039;voluntarismo&#039;&#039;&#039;. Para Wundt, a vontade e os processos afetivos não são meros epifenômenos, ou seja, um fenômenos secundários ou acessórios que acompanhma um fenômeno principal, mas o eixo organizador da consciência ativa. Esta reconstrução crítica visa resgatar a autonomia epistemológica de uma ciência que define seu objeto não como uma substância, mas como a experiência em sua totalidade imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Experiência conforme Wundt ===&lt;br /&gt;
Para Wilhelm Wundt, a experiência é concebida como um todo unitário e coerente. As duas abordagens da experiência que ele propõe não se deve a uma diferença ontológica, mas como dois pontos de vista distintos e complementares que permite sua abordagem científica, que ele separa entre Experiência Mediata e Experiência Imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experiência Mediata ====&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Experiência Mediata&#039;&#039;&#039; é a experiência objetiva) está &#039;&#039;&#039;focada nos objetos do mundo externo&#039;&#039;&#039;. Ela foca exclusivamente nos objetos do mundo externo, abstraindo o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que sabe, que tem conhecimento. A Experiência Mediata seria o ponto de vista característico das ciências naturais, como física, química e fisiologia. A ciência natural opera por meio de uma abstração sistemática, pois ela coloca o sujeito cognoscente &amp;quot;entre parênteses&amp;quot; e analisa apenas os objetos externos pensados, como se existissem de maneira totalmente independente de quem os percebe. É chamada de &amp;quot;mediata&amp;quot; porque &#039;&#039;&#039;nosso acesso a tais objetos é sempre indireto&#039;&#039;&#039;, ou seja, precisa de mediação, pois é dependente de conceitos abstratos, inferências teóricas e construções conceituais auxiliares para representá-los. Por um lado, o estímulo físico é intermediado pelos limites anatômicos e biológicos do nosso aparato perceptivo, ou seja, temos os limites e capacidades da nossa percepção. No caso da visão, por exemplo, não vemos os raios ultravioleta e infravermelho, pois não estão no expecto da luz visível, mas vemos as cores e suas combinações. Por outro lado, para constituir a &amp;quot;realidade objetiva&amp;quot;, o cientista natural precisa utilizar conceitos teóricos auxiliares e construções hipotéticas, como átomos, ondas eletromagnéticas e forças gravitacionais, que não são dados imediatamente na percepção sensível mas que podem ser vistos experimentalmente e por meio de instrumentos e aparatos científicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wundt critica assim o empirismo tradicional e o associacionismo. A doutrina do empirismo diz que a mente como página em branco, conforme a formulação de John Locke e sua &#039;&#039;tabula rasa&#039;&#039;. Neste caso, a mente seria progressivamente preenchida pelas impressões do mundo exterior (sensação) e pelas operações internas (reflexão). David Hume radicaliza o princípio empírico, postulando que as impressões são os átomos cognitivos fundamentais e as ideias nada mais são do que cópias atenuadas ou lembranças dessas impressões na memória e na imaginação. Já o associacionismo constitui a hipótese de que as ideias simples e discretas se combinam para formar pensamentos complexos, juízos e raciocínios abstratos. Se o empirismo fornece os blocos de construção, o associacionismo descreve a &amp;quot;força de atração&amp;quot; que os une. Conforme sistematizado por Hume e, depois, desenvolvido por Hartley e James Mill, a mente transita espontaneamente de uma ideia para outra por meio de regras regulares de associação, como a semelhança, a contiguidade no tempo e as relações de causa e efeito.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para Wundt, ambos erraram, pois transferiam as características dos objetos externos da física, como a solidez, os limites rígidos e a permanência estática, para os conteúdos conscientes, passando a tratar as representações (&#039;&#039;Vorstellungen&#039;&#039;) como coisas ou &amp;quot;átomos mentais&amp;quot;. Na física, o foco recai sobre o objeto substantivo. Contudo, segundo Wundt, a consciência não contém objetos estáveis. Ele parte de uma diferença fundamental que os psicofísicos e outros haviam apontado, que é aquela entre o mundo externo e o mundo percebido, ou ainda, entre as coisas e suas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em resumo, a Experiência Mediata se aproxima dos objetos estáveis do mundo externo e de como eles nos chegam. Na experiência mediata, o cientista da natureza pode retornar quando quiser ao mesmo objeto físico estável (uma pedra ou um elemento químico) para observá-lo repetidamente, ainda que o observador em si esteja sempre em mudança.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experiência Imediata, o Objeto de Estudo da Psicologia ====&lt;br /&gt;
Ao definir seu objeto, Wundt deu um passo decisivo para dar à psicologia autonomia perante as outras ciências naturais. Ele propõe que a experiência é uma unidade indivisível. Mas o que ele quer dizer por &#039;&#039;&#039;experiência&#039;&#039;&#039;? Uma definição poderia ser a totalidade dos processos conscientes, englobando sensações, sentimentos, representações e volições (vontades), apreendida da exata forma como se apresenta diretamente ao sujeito, sem qualquer abstração conceitual ou mediação de instrumentos externos. Ou seja, a experiência de Wundt seria como tudo o que se passa na mente, exatamente como ela aparece para uma pessoa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;O domínio da psicologia seria a experiência imediata&#039;&#039;&#039;, subjetiva, que é a experiência em sua realidade concreta, direta e intuitiva, apreendida antes de qualquer conceituação, teorização ou abstração. Ou seja, é a experiência antes de ela adquirir qualquer camada de compreensão, que seriam mediadores, por isso é imediata, &#039;&#039;&#039;sem mediação&#039;&#039;&#039;. Ela envolve o processamento de elementos sensoriais simples, como cor, som, temperatura, e de sentimentos simples, como prazer e desprazer. Ela diz respeito ao modo puro de funcionamento mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vamos a um exemplo, desta vez no campo do acústica. Na perspectiva mediata, o cientista natural abstrai o sujeito e estuda o som de forma indireta e conceitual. Ele utiliza aparelhos para medir as ondas sonoras e a sua propagação física pelo ar. O objeto físico “som” é, portanto, mediado e traduzido por conceitos de frequência, amplitude e decibéis. Já sob a perspectiva imediata, que é a da psicologia, o psicólogo estuda a sensação direta e em si mesma do tom no momento exato em que ele aparece na consciência. A análise está na vivência concreta do sujeito, que inclui a qualidade do tom, a sua intensidade subjetiva, a tonalidade afetiva de prazer ou desprazer que o acompanha e o processo ativo da atenção (apercepção, que será tratada mais adiante) que coloca aquele som no foco da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se olharmos desta vez para a cromática, na visão mediata, ciência natural estuda o azul abstraindo a experiência do sujeito. A física o descreverá de forma conceitual como uma radiação eletromagnética com determinado comprimento de onda atingindo a retina. A fisiologia se debruçará sobre o funcionamento dos tecidos dos olhos quando estimulados com a cor azul em suas nuances. Para a psicologia de Wundt, o azul é investigado como um dado imediato e real na consciência do sujeito no momento da percepção interna. O foco não está nas propriedades físicas do estímulo, mas sim na reação subjetiva e ativa do cérebro vivo a esse estímulo, que gera a qualidade imediata da cor na experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conduzindo seus estudos, Wundt também identificou aquilo que denominou &#039;&#039;&#039;causalidade psíquica&#039;&#039;&#039;. Ao nos lembrarmos de um fato triste, por exemplo, a fisiologia explicaria a tristeza de forma conceitual e indireta, por meio de correntes elétricas no córtex cerebral, liberação de hormônios ou atividade de sinapses nervosas. Já o psicólogo numa linha wundtiana observa a conexão de processos internos como elas ocorrem diretamente na consciência do sujeito, como a ligação da lembrança triste a um sentimento de angústia. A causalidade psíquica é uma causalidade própria da mente e irredutível às leis físicas da natureza, ou seja, não pode ser comparada à causalidade física como a conhecemos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao adotar a experiência como seu objeto, Wundt rompe com a psicologia da alma, filosófica e metafísica. Ele substitui a psicologia de substâncias, que postula uma entidade mental oculta, pela &#039;&#039;&#039;teoria da atualidade&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Aktualitätstheorie&#039;&#039;), na qual o psiquismo é definido como um fluxo de processos em constante devir. Seu sistema está fundamentado em um &#039;&#039;&#039;monismo perspectivista&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, para ele, mente e corpo não são substâncias que interagem mecanicamente, mas perspectivas distintas sobre a mesma unidade da experiência (&#039;&#039;Erfahrung&#039;&#039;). A psicologia, portanto, não estuda um “mundo interno”, que está isolado do externo, ainda que em contato com ele, mas a totalidade da experiência humana sob o prisma da imediatidade. Essa transição do estatuto de substância “mente” ou algo semelhante para o de processo traz uma nova perspectiva, criando um objeto que pode ser alvo de experimentação científica, partindo de experimentos já criados pela psicofísica e ainda outros que seriam desenvolvidos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Apercepção ===&lt;br /&gt;
No contexto filosófico, como já visto, o conceito de apercepção remonta a Kant, que a definiu como o processo autônomo, ativo e prévio pelo qual a mente unifica diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Wundt adotou essa noção kantiana para fundamentar sua teoria da consciência, definindo &#039;&#039;&#039;apercepção&#039;&#039;&#039; como o processo psicológico ativo pelo qual um conteúdo psíquico (ou representação) é trazido à &#039;&#039;&#039;clareza máxima e ao foco da consciência&#039;&#039;&#039;, vindo necessariamente acompanhado pelo estado de atenção voluntária.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para explicar a dinâmica da consciência, Wundt utilizou uma famosa analogia com a visão para diferenciar apercepção e percepção. O campo visual da consciência (&#039;&#039;Blickfeld&#039;&#039;) corresponde à percepção, que é a simples entrada de uma representação na consciência de forma difusa, ampla e sem a presença focalizada da atenção. Já o ponto focal da consciência (&#039;&#039;Blickpunkt&#039;&#039;) corresponde à apercepção, que é a entrada de uma representação no ponto central de máxima clareza e foco estreito da atenção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A apercepção, então, é uma &#039;&#039;&#039;manifestação primordial da vontade&#039;&#039;&#039;, funcionando como o princípio dinâmico que dá direção e estrutura tanto à experiência quanto ao movimento. Além disso, a apercepção pode ser ativa, que é quando o sujeito deliberadamente seleciona onde focará sua atenção, ou passiva, quando é o estímulo que se impõe no foco no sujeito. Por fim, a apercepção é o mecanismo central da operação da causalidade psíquica. É ela que unifica a mente em um sistema ativo, permitindo que a fusão de elementos resulte em sínteses criadoras com propriedades qualitativamente novas e imprevisíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Percepção Interna (innere Wahrnehmung) vs. Auto-observação (Selbstbeobachtung) ===&lt;br /&gt;
Para garantir o rigor procedimental e responder ao “desafio kantiano”, Wundt rejeitou a &#039;&#039;Selbstbeobachtung&#039;&#039;, que pode ser entendida como a &#039;&#039;&#039;auto-observação tradicional&#039;&#039;&#039; ou introspecção casual. Trata-se do método introspectivo puramente filosófico e especulativo que, segundo Wundt e outros, seria fonte de auto-ilusões. No momento em que o sujeito tenta observar ativamente o curso de seus próprios processos mentais complexos, a atenção que ele direciona para si mesmo altera, deforma ou suprime o próprio fenômeno em curso. Na reflexão puramente interna, é impossível garantir que o mesmo estado mental se repita de forma idêntica, impedindo a replicação intersubjetiva e a formulação de leis científicas gerais &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A solução científica é a &#039;&#039;innere&#039;&#039; &#039;&#039;Wahrnehmung&#039;&#039;, ou &#039;&#039;&#039;percepção interna&#039;&#039;&#039;, que permite a criação de um método científico baseado na repetição de estímulos externos controlados. No laboratório, o psicólogo replica condições experimentais que permitem a observação do aparecimento imediato do processo psíquico sob condições estáveis e previsíveis. O laboratório funciona, portanto, como o estabilizador do objeto psicológico, permitindo que a percepção interna atinja a precisão necessária para decompor a consciência em seus elementos fundamentais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O método de investigação da percepção interna é bem mais rigoroso. Em vez de pedir ao sujeito que reflita livremente sobre seus pensamentos, o experimentador utiliza aparelhos físicos de precisão, tais como [[Cronoscópio|cronoscópios]], pêndulos, compassos táteis, geradores de tons para controlar rigorosamente o início, a intensidade, a duração e a apresentação de estímulos externos predeterminados. Como o estímulo físico externo pode ser repetido e modificado arbitrariamente pelo pesquisador, as condições fisiológicas e sensoriais associadas à percepção interna são reproduzidas com exatidão. Com isso, o sujeito experimental pode antecipar sua atenção ao evento e captar com máxima precisão o surgimento da experiência imediata correspondente. O participante deveria ser rigorosamente treinado, muitas vezes revezando as funções de sujeito e pesquisador, e era instruído a fornecer respostas simples e verificáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Experimentos do Laboratório de Wundt ===&lt;br /&gt;
Vamos a alguns exemplos do que acontecia no laboratório de Wundt, para integrar melhor os conceitos já apresentados. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O primeiro experimento foi concebido originalmente para descrever a &#039;&#039;&#039;“equação pessoal” que aparecia nas medições dos astrônomos&#039;&#039;&#039;. O interesse neste tema surgiu quando se constatou que astrônomos treinados, utilizando os mesmos equipamentos, discordavam de suas medições que, à época, eram feitas manualmente com ajuda de instrumentos. De alguma forma, estas diferenças nas medições pareciam ter um tipo de padrão. Neste experimento, Wundt utilizava um aparelho chamado medidor de pensamento (&#039;&#039;Gedankenmesser&#039;&#039;) e, posteriormente, o pêndulo de complicação (&#039;&#039;Complicationspendel&#039;&#039;). O dispositivo consistia em um grande relógio de pêndulo que possuía uma agulha cruzada, como uma agulha de tricô, capaz de golpear fisicamente um pequeno sino em um ponto exato do seu arco de oscilação. O sujeito do experimento deveria olhar para a escala do pêndulo e tentar determinar a posição exata do ponteiro no momento em que ouvia o sino tocar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste experimento, Wundt descobriu que o sujeito sempre cometia um erro sistemático de registro, de aproximadamente um oitavo de segundo. Segundo ele, era impossível perceber visualmente a agulha e o som do sino ao mesmo tempo. Esse experimento seria uma &#039;&#039;&#039;prova laboratorial de que a consciência possui uma capacidade limitada e só consegue focar em uma única percepção por vez&#039;&#039;&#039;, como a diferença no marco da medição podia mostrar. A ilusão de simultaneidade devia-se apenas à rápida sucessão dos processos de atenção (apercepção).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os experimentos de &#039;&#039;&#039;tempo de reação&#039;&#039;&#039;, nosso segundo exemplo, constituíam o verdadeiro coração do trabalho em Leipzig na década de 1880. Wundt adaptou o método de subtração (&#039;&#039;Subtractiemethode&#039;&#039;), do fisiologista holandês F. C. Donders, para medir a velocidade de processos mentais complexos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o experimento de Wundt, é necessário compreender que, para ele, uma reação consciente envolvia: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- transmissão da sensação ao cérebro; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2- entrada do estímulo no campo amplo da consciência (percepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
3- entrada no foco ativo da atenção (apercepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
4- ato de vontade para liberar a resposta; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
5- execução motora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada um dessas partes exigem um certo tempo, pois são processos não imediatos. A depender de como as etapas do experimento são organizadas, diferentes tempos indicariam o acionamento maior ou menor de cada um deles. No experimento, o sujeito era treinado para responder pressionando uma tecla telegráfica ao ver um estímulo luminoso simples, como um &#039;&#039;flash&#039;&#039; de luz. Em seguida, vinha a tarefa mais difícil. Duas imagens eram apresentadas, um círculo branco sobre fundo preto ou vice-versa, e o sujeito só deveria reagir após identificar com clareza qual imagem havia aparecido. Ao subtrair o tempo da reação simples do tempo da reação complexa, Wundt calculava o “tempo de apercepção” ou discriminação. Na primeira tese de doutorado em psicologia experimental da história, Max Friedrich, que atuou no experimento, mostrou que o tempo de discriminação aumentava de acordo com a complexidade do estímulo visual. Por exemplo, o sujeito levava mais tempo para aperceber e discriminar uma sequência de seis dígitos do que de apenas um ou dois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O assistente de Wundt, Ludwig Lange, também colaborou no estudo ao desenvolver um experimento crucial. Ele demonstrou que os &#039;&#039;&#039;tempos de reação variavam drasticamente dependendo da preparação da atenção&#039;&#039;&#039; (no conceito moderno da palavra) do sujeito. Se a atenção estivesse focada no movimento de resposta que o dedo faria (reação muscular), o tempo era curto (cerca de 125 ms), pois funcionava como um “reflexo cerebral” que pulava a apercepção. Se o foco estivesse direcionado ao estímulo sensorial que iria surgir (reação sensorial), o tempo era cerca de 100 ms mais longo, pois envolvia o circuito completo da mente consciente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O terceiro experimento foi desenvolvido por Martin Trautscholdt, um dos estudantes de doutorado de Wundt. Ele estudava a &#039;&#039;&#039;associação de ideias&#039;&#039;&#039;. No seu estudo, o sujeito era instruído a pressionar uma tecla no momento exato em que uma ideia associada surgisse em sua consciência a partir de um estímulo visual ou auditivo. Ao subtrair o tempo que o sujeito levava para simplesmente reconhecer a palavra estimulante, Trautscholdt conseguiu quantificar o tempo gasto pela mente para realizar a conexão associativa propriamente dita que, segundo Trautscholdt, variava entre 706 e 874 ms. Wundt também adaptou a &#039;&#039;&#039;técnica de associação de palavras de Francis Galton&#039;&#039;&#039;, limitando a resposta do sujeito a apenas uma única palavra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O quarto e último experimento que será apresentado é relacionado a &#039;&#039;&#039;acordes musicais&#039;&#039;&#039;. Nele, sujeitos ouviam tons isolados no piano, que seriam as sensações puras, e depois os mesmos tons tocados simultaneamente. Os participantes descreviam em detalhes a transição afetiva de como a fusão física das frequências dava origem a um produto inteiramente novo na consciência. Este seria o sentimento estético de harmonia e o prazer decorrente de uma síntese criadora. Wundt conduzia vários experimentos em estética experimental, tal qual seu colega Fechner.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Arquitetura da Mente: Elementos, Fusão e Síntese Criadora ===&lt;br /&gt;
Segundo Wundt, &#039;&#039;&#039;a experiência pode ser decomposta em elementos simples&#039;&#039;&#039;, que incluem as sensações e os sentimentos simples. Os &#039;&#039;&#039;sentimentos&#039;&#039;&#039;, por sua vez, são entendidos a partir da &#039;&#039;&#039;teoria tridimensional dos sentimentos&#039;&#039;&#039;, onde eles se distribuem em um espaço qualitativo entre os polos prazer/desprazer (&#039;&#039;Lust-Unlust&#039;&#039;), tensão/relaxamento (&#039;&#039;Spannung-Lösung&#039;&#039;) e excitação/depressão (&#039;&#039;Erregung-Beruhigung&#039;&#039;). A primeira é a mais evidente, se refere à avaliação afetiva primária da experiência. A segunda se relaciona ao esforço da atenção ou à preparação interna da mente. Já a terceira está relacionada ao nível de ativação biológica e psicológica do organismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esses aspectos todos são organizados através do mecanismo de &#039;&#039;&#039;fusão&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Verschmelzung&#039;&#039;), onde as qualidades elementares se fundem em complexos psíquicos. O conceito central aqui é o princípio da &#039;&#039;&#039;síntese criadora&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;schöpferische Synthese&#039;&#039;). Ao contrário do associacionismo britânico, Wundt afirma que o todo resultante possui propriedades que não estão contidas na mera soma das partes. Essa síntese não é um processo mecânico passivo, mas um ato aperceptivo ativo, ou seja, vinculado à vontade. Na mente humana, a combinação de elementos gera um valor novo e qualitativamente superior, marcando a distinção fundamental entre a causalidade psíquica e a mecânica física.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em termos simples, a síntese criadora estabelece que os complexos psíquicos, como representações, sentimentos compostos e afetos, embora formados pela união de elementos simples (sensações e sentimentos simples), possuem características qualitativas inteiramente novas que não pertencem a nenhum de seus elementos constituintes isolados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fusão é o processo ativo e primário de integração psíquica. É através dela que os elementos sensoriais e afetivos brutos são ativamente sintetizados pela mente para dar origem a uma nova unidade psicologicamente complexa. A fusão é a geradora da síntese criadora. Para Wundt, a síntese criadora é a prova cabal da causalidade psíquica. Ela mostra que os fenômenos mentais obedecem a leis de conexão e geração próprias que não se ajustam às leis da física ou da fisiologia mecânica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Observemos isso com um exemplo já apresentado, sobre a música. Se você tocar no piano as notas Dó, Mi e Sol isoladamente, você terá apenas a experiência de três sensações auditivas distintas. No entanto, quando essas notas são tocadas simultaneamente, a fusão de seus elementos gera na consciência uma experiência qualitativamente nova, que seria um acorde musical. O sentimento de harmonia e a qualidade estética do acorde são um produto da síntese criadora, pois não existiam em nenhuma das notas isoladas e surgem puramente da atividade unificadora da mente sobre o estímulo físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Paralelismo Psicofísico e Causalidade Psíquica ===&lt;br /&gt;
O paralelismo psicofísico foi um dos conceitos mais importantes e debatidos no século XIX durante o processo de fundação da psicologia científica. Ele surgiu como uma alternativa teórica para solucionar o clássico problema mente-corpo. O conceito foi formulado de forma a tanto o dualismo substancial, que dividia o ser humano em duas substâncias isoladas cuja forma de interação era desconhecida, quanto o materialismo reducionista, que reduzia a mente a uma mera secreção cerebral ou processo físico ou fisiológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para &#039;&#039;&#039;Fechner&#039;&#039;&#039;, o &#039;&#039;&#039;paralelismo&#039;&#039;&#039; era a manifestação de um monismo neutro, ou teoria de duplo aspecto. Ele defendia que a matéria (corpo) e o espírito (mente) não são substâncias diferentes, mas sim dois modos de aparência ou perspectivas distintas de uma única e mesma realidade subjacente, teoria sobre o qual fundamental grande parte de seu projeto científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt também adotou o termo &#039;&#039;&#039;paralelismo psicofísico&#039;&#039;&#039;, mas realizou uma redefinição epistemológica radical do conceito, visando se afastar da metafísica. Ele rejeitava categoricamente qualquer tentativa de transformar o paralelismo em uma doutrina ontológica sobre a natureza última da realidade, transformando-o estritamente um postulado metodológico e heurístico indispensável para a investigação científica. Os processos mentais não sejam reduzidos a processos fisiológicos ou neurais, pois a consciência obedece a leis de conexão próprias, como a causalidade psíquica, que não podem ser explicadas pelas leis da mecânica cerebral.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Psicologia Individual e Völkerpsychologie: dois métodos para manifestações da experiência ===&lt;br /&gt;
A arquitetura metodológica de Wundt responde ao desafio de investigar processos mentais que variam em complexidade. Ele estabelece que &#039;&#039;&#039;a psicologia deve ser compreendida como o fundamento das ciências humanas&#039;&#039;&#039; ou ciências do espírito (&#039;&#039;Geisteswissenschaften&#039;&#039;). A &#039;&#039;&#039;Psicologia Individual&#039;&#039;&#039;, na concepção de Wundt, foca nos processos elementares, que incluem sensação e percepção, que são passíveis de controle rigoroso em laboratório através da manipulação de estímulos externos e pelas técnicas da [[introspecção]] experimental e estudo da experiência interna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entretanto, Wundt reconhece a insuficiência do modelo experimental para os processos mentais superiores, como o pensamento e a linguagem, que são historicamente condicionados. Para estes, ele propõe a &#039;&#039;Völkerpsychologie&#039;&#039; , ou &#039;&#039;&#039;Psicologia dos Povos&#039;&#039;&#039;, dedicada ao estudo dos produtos das &#039;&#039;geistige Gemeinschaften&#039;&#039; (comunidades espirituais, no sentido das ciências do espírito, ou coletividades). Wundt vai apontar a linguagem, o mito e os costumes (&#039;&#039;Sitten&#039;&#039;) não são apenas dados culturais, mas objetivações de leis psíquicas superiores, inacessíveis à introspecção de laboratório. Eles seriam produtos da experiência humana nas suas formas mais avançadas e superiores e, por não serem passíveis de experimentação, exigem uma outra abordagem. Essas duas vertentes, experimental e histórico-cultural, não são divergentes, mas sim o projeto integrador que permite apreender a mente tanto em sua base sensório-motora quanto em suas manifestações espirituais complexas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As investigações da psicologia dos povos focavam na alma do povo (&#039;&#039;Volksseele&#039;&#039;), definida como a realidade factual dos processos psíquicos que surgem em uma comunidade por meio da interação das energias mentais dos indivíduos. Essa “mente coletiva” se tornava um objeto tangível e investigável ao longo da história em três grandes produtos culturais. O primeiro é a &#039;&#039;&#039;linguagem&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Die Sprache&#039;&#039;), ferramenta pela qual o pensamento é estruturado e externalizado. Já o &#039;&#039;&#039;mito e a religião&#039;&#039;&#039; são as formas como a imaginação e os sentimentos humanos coletivos projetam suas explicações sobre o cosmos e a existência. Os &#039;&#039;&#039;costumes&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Sitten&#039;&#039;) e o &#039;&#039;&#039;direito&#039;&#039;&#039;, por sua vez, são  as regras de conduta coletiva que nascem de atos voluntários e impulsos compartilhados, padronizando as interações sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não podia realizar experimentos com culturas inteiras, Wundt operava por meio da pura &#039;&#039;&#039;observação retrospectiva e comparativa dos produtos mentais&#039;&#039;&#039;, ou seja, analisando os objetos já criados e usados ou em uso por diferentes povos e culturas, anotando suas diferenças e semelhanças. Wundt juntava, lia e analisava de forma exaustiva relatos históricos, estudos filológicos, dicionários, mitologias comparadas, códigos de leis e descrições etnológicas e antropológicas de povos ao redor do globo, ou seja, utilizava dos estudos de diferentes ciências humanas e sociais para extrair as leis psicológicas gerais do desenvolvimento mental humano por trás dessas manifestações. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seu objetivo era mapear como a mente coletiva evoluía do simples para o complexo ao longo das eras, numa abordagem genética e desenvolvimentista e reconstruir, de forma retrospectiva, as forças dinâmicas, os afetos, os impulsos (&#039;&#039;Triebe&#039;&#039;) e os processos de síntese criadora (melhor discutida mais adiante) que estiveram ativos na mente das pessoas no momento de sua formação. Wundt dedicou os últimos 20 anos de sua vida (de 1900 a 1920) quase exclusivamente a esse empreendimento monumental, escrevendo dez volumes sobre o assunto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O que Aconteceu Depois? ===&lt;br /&gt;
No final de sua vida, Wilhelm Wundt era visto de forma ambivalente. Enquanto mantinha o prestígio de fundador da psicologia científica, uma nova geração de psicólogos que buscava se firmar, via como um “pai tribal”, cujo longo domínio de mais de quatro décadas estava desgastado. Ele se tornou o alvo de críticas severas e passou a ser tratado por muitos como o ícone de um passado superado e falido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante a Primeira Guerra Mundial e nos anos que a sucederam, a reputação internacional de Wundt sofreu graves danos. Influenciado por seu filho Max, Wundt adotou posturas políticas ultranacionalistas, chegando a usar a &#039;&#039;Völkerpsychologie&#039;&#039; de maneira tendenciosa para criticar os inimigos da Alemanha. Essa postura inflamou um forte preconceito anti-alemão, especialmente nos Estados Unidos, onde ex-alunos e intelectuais americanos passaram a ver ele como uma mente maligna e autoritária, acelerando a rejeição de suas obras em solo estrangeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A maior frustração de Wundt no fim da vida ocorreu no âmbito acadêmico alemão. Ele sempre defendeu que a psicologia era uma ciência propedêutica e uma aliada indispensável da filosofia, devendo permanecer integrada a esta. No entanto, os filósofos acadêmicos de sua época, especialmente os neokantianos e fenomenologistas, rejeitaram veementemente o  que chamavam de “&#039;&#039;&#039;[[psicologismo]] de Wundt&#039;&#039;&#039;”, ou seja, a redução da lógica e da validade do conhecimento a fatos psicológicos. Em 1913, após a contratação de um psicólogo experimental para a cadeira de filosofia em Marburg, mais de cem professores de filosofia assinaram um &#039;&#039;&#039;protesto público exigindo que psicólogos fossem banidos dos departamentos de filosofia&#039;&#039;&#039;. Esse movimento resultou no progressivo divórcio institucional entre a psicologia e a filosofia, uma separação que Wundt lamentou e combateu até a sua morte em 1920.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir da década de 1890, uma forte onda de positivismo, inspirada pela filosofia de Ernst Mach e Richard Avenarius, varreu a psicologia experimental. Jovens psicólogos, incluindo os assistentes do próprio Wundt, rejeitaram conceitos fundamentais do sistema de Leipzig, como a apercepção, a causalidade psíquica e a síntese criadora, tomando eles como metafísica, exatamente o oposto do que desejava seu formulador. Eles preferiam um modelo elementarista e reducionista, focado na descrição de relações funcionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos EUA, a influência da teoria da evolução de Darwin deslocou o interesse da estrutura da consciência para as suas funções de adaptação ao meio, o chamado funcionalismo. Com o surgimento e o fortalecimento do behaviorismo e a eliminação da mente como objeto de estudo, o voluntarismo de Wundt perdeu qualquer espaço. Na Europa, a própria psicologia da Gestalt ergueu-se combatendo o elementarismo que havia sido falsamente associado a Wundt. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O golpe final veio após a Primeira Guerra Mundial, quando a Alemanha mergulhou em colapso econômico. Diante da “&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;”, os pesquisadores precisaram provar a utilidade prática da ciência que praticavam para sobreviver, o que já acontecia nos EUA, voltando-se para a psicologia militar, industrial, educacional e clínica. &#039;&#039;&#039;Wundt, que sempre desprezou a psicologia aplicada&#039;&#039;&#039;, teria visto seu sistema dinâmico de laboratório perder todo o fôlego diante das pressões pragmáticas da época, ainda que mantivesse sua fama e sua alcunha maior. Ironicamente, um dos principais defensores da psicologia puramente laboratorial, foi quem escreveu a obra mais bem-sucedida de história da psicologia, servindo de parâmetro para o campo por décadas, ou seja, [[Edwin Boring]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia Científica na Inglaterra ==&lt;br /&gt;
O surgimento da psicologia na Inglaterra seguiu um caminho bastante distinto do modelo laboratorial alemão, focado na introspecção e na busca de leis universais. A psicologia britânica formou-se na intersecção de duas grandes forças intelectuais, que são as filosofias empirista e associacionista, e a biologia evolutiva. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No &#039;&#039;&#039;empirismo&#039;&#039;&#039;, pensadores como John Locke postularam que a mente humana nasce como uma tabula rasa ou uma folha em branco, e que absolutamente todo o conhecimento deriva da experiência sensorial. No &#039;&#039;&#039;associacionismo&#039;&#039;&#039;, filósofos como David Hume, James Mill e John Stuart Mill afirmavam processos mentais complexos são formados pela associação contínua de ideias simples e sensações, governadas por leis lógicas. tais como similaridade, contiguidade e causa e efeito. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A despeito de sua rica tradição filosófica, o maior divisor de águas para a ciência britânica foi a publicação de [[A Origem das Espécies (livro)|A Origem das Espécies]], em 1859. A teoria da evolução natural de Darwin, trouxe novas e profundas questões para o estudo da mente britânica. Se humanos e animais compartilham ancestrais comuns, argumentava-se que deveria haver uma continuidade não apenas física, mas também mental entre as espécies, conectando a psicologia ao estudo da zoologia, dando origem à &#039;&#039;&#039;Psicologia Comparada&#039;&#039;&#039;. Além disso, a mente e a consciência deixaram de ser vistas apenas como objetos metafísicos e passaram a ser estudadas como ferramentas biológicas de adaptação, que evoluíram porque ajudavam o organismo a sobreviver em seu ambiente, sendo fundamental para a criação do funcionalismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a validação da biologia evolutiva, o estudo da inteligência animal explodiu no Reino Unido, [[George Romanes]] foi um dos primeiros a tentar sistematizar o comportamento animal. Contudo, seu método anedótico foi duramente criticado por ser antropomórfico, ou seja, por atribuir pensamentos e emoções humanas complexas a animais. Seu colega [[Conwy Lloyd Morgan]] introduziu mais rigor científico à área através do que ficou mundialmente conhecido como o &#039;&#039;&#039;Cânone de Morgan&#039;&#039;&#039;, ou [[princípio da parcimônia]]. A regra dizia que um comportamento animal não deve ser interpretado como resultado de uma faculdade mental superior se puder ser explicado por um processo psicológico mais básico, como o instinto ou o aprendizado por tentativa e erro. Apesar de a perspectiva de ambos ter sido abandonada, a Psicologia Comparada se tornou um dos principais ramos da psicologia moderna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Francis Galton e a Psicologia Diferencial ===&lt;br /&gt;
[[Francis Galton]] (1822-1911) foi um cientista e polímata britânico de inteligência extraordinária, com um QI estimado por volta de 200, algo extremamente raro, além de ser primo de Charles Darwin. Galton é amplamente reconhecido como pioneiro ao incorporar o estudo sistemático das diferenças individuais e da herança mental na nova psicologia, uma área que era ignorada ou rejeitada por pioneiros experimentalistas como Wilhelm Wundt.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Galton se interessou pela medição das variações da inteligência e das capacidades humanas. Ele fundou um [[Laboratório de Galton|&#039;&#039;&#039;laboratório antropométrico&#039;&#039;&#039;]] onde testou a acuidade sensorial, a força e os tempos de reação de milhares de pessoas. Além disso, baseando-se na premissa empirista de John Locke de que todo o conhecimento vem da percepção, Galton assumiu que os indivíduos mais inteligentes seriam aqueles com as capacidades sensoriais e motoras mais aguçadas. Ele foi o inventor do conceito de testes mentais, termo posteriormente cunhado por seu aluno dos EUA, [[James McKeen Cattell]]. Galton também desenvolveu o &#039;&#039;&#039;método experimental de associação de palavras&#039;&#039;&#039;, medindo o tempo de reação mental e demonstrando a enorme influência das experiências da infância e do inconsciente no pensamento adulto, um trabalho que impressionou profundamente [[Sigmund Freud]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também foi um dos primeiros a fazer uso amplo do questionário psicológico para investigar imagens mentais, constatando para sua própria surpresa que a maioria dos cientistas relatava ausência de imagens mentais nítidas, em contraste com relatos muito mais detalhados fornecidos por mulheres e crianças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para conduzir medições em larga escala, ele inventou vários instrumentos clássicos e, para analisar suas enormes bases de dados, &#039;&#039;&#039;Galton desenvolveu conceitos estatísticos fundamentais&#039;&#039;&#039;, como a correlação. Essa tradição quantitativa foi depois aperfeiçoada por outros britânicos, como [[Charles Spearman]], criador da análise fatorial e do conceito de [[fator g de inteligência geral]], fundando a base da psicometria moderna. e influenciando de forma decisiva a psicologia dos testes nos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Conclusão ==&lt;br /&gt;
A história da psicologia é definida pelo paradoxo de ter um “longo passado” e uma “curta história”, podendo ir do De Anima de Aristóteles até a a fundação do laboratório de Wilhelm Wundt na Universidade de Leipzig, em 1879. A psicologia, assim, mostra que tem uma rica história, com muitos personagens, conceitos e acontecimentos importantes, de modo que qualquer narrativa sobre sua composição elegerá heróis e vilões, dará mais relevância para alguns, menos para outros e o esquecimento para a maioria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Immanuel Kant foi uma figura central na composição da psicologia científica. Ele propôs que a mente humana é um agente ativo que organiza o conhecimento através de estruturas &#039;&#039;a priori&#039;&#039;, tais como o tempo, o espaço e as categorias do entendimento. Assim, ele introduziu o conceito de “sujeito transcendental” como a estrutura universal que garante a unidade da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Kant impôs um “veto” ao status científico da psicologia, defendendo a necessidade de uma base na matematização. A superação desse veto ocorreu através da “naturalização” de Kant pela fisiologia. Johannes Müller, com a Teoria das Energias Nervosas Específicas, mostrou que a sensação é mediada pelo sistema nervoso, não sendo uma cópia fiel do mundo externo. Hermann von Helmholtz avançou essa ideia ao postular que as estruturas a priori de Kant seriam, na verdade, características da anatomia e fisiologia humanas. Ele propôs o conceito de “inferências inconscientes” para explicar como interpretamos dados sensoriais. Nesse contexto, Friedrich Albert Lange defendeu uma “psicologia sem alma”, rejeitando a metafísica e argumentando que o estudo científico deve focar apenas nas aparências e fenômenos observáveis, reduzindo o objeto da psicologia a dados empíricos e correlações fisiológicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner, por sua vez, foi crucial ao oferecer a base matemática e experimental que faltavam, por meio da Lei de Weber-Fechner. Ele também padronizou e melhorou métodos para o estudo dos limites e constantes sensoriais, que se tornaram a base metodológica da psicologia experimental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt não apenas fundou um laboratório, como também arquitetou um sistema complexo. Para Wundt, o objeto da psicologia é a experiência imediata, criando conceitos como voluntarismo, causalidade psíquica, apercepção, entre outros. Além disso, ele também criou a psicologia dos povos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente do foco laboratorial alemão, a psicologia britânica foi moldada pela filosofia empirista e pela teoria da evolução de Charles Darwin. Neste contexto, Galton ganha destaque, por ter fundado o laboratório antropométrico, inventado ideias que levaram aos “testes mentais”, pelo uso de estatísticas no estudo da psicologia e ter influenciado o desenvolvimento da psicometria e a análise fatorial com Charles Spearman, consolidando uma tradição que focava mais na variabilidade genética e na inteligência do que na estrutura da consciência em si.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A história da psicologia tem origens ricas e diversas, e sua difusão implicou em muitas transformações em variadas formas. Qualquer narrativa sobre o surgimento da psicologia científica terá limites e potencialidades, devido às escolhas epistemológicas, filosóficas e de acontecimentos históricos. Este material defende que a psicologia científica teve origem em um elementos específico da fisiologia alemã que uniu-se a um movimento filosófico de retorno a Kant no século XIX. Uma vez fundada, a psicologia científica abriu o caminho para outras ideias e formas da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
ABIB, José Antônio Damásio. Prólogo à História da Psicologia. &#039;&#039;&#039;Psicologia: Teoria e Pesquisa&#039;&#039;&#039;, Brasília, v. 21, n. 1, p. 53-60, jan./abr. 2005. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ptp/a/dXKZvy3jf6V9ZjcPykVF8kn/abstract/?lang=pt&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ALVES, Gabriel Siqueira. O neokantismo e o surgimento da psicologia experimental: uma introdução didática. In: RIBEIRO, André Elias Morelli; CARNEIRO, Júlia Lombardi; FERREIRA, Arthur Arruda Leal; SANTOS, Marcus Vinícius do Amaral Gama (Org.). &#039;&#039;&#039;Boletim do Portal História da Psicologia 4&#039;&#039;&#039;. Rio das Ostras, RJ: Editora do Portal História da Psicologia, 2025. p. 242-279. Disponível em: https://doi.org/10.5281/zenodo.18130096&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ARAUJO, Saulo de Freitas. Wilhelm Wundt e o estudo da experiência interna. In: VILELA, A. M. J.; FERREIRA, A. L.; PORTUGAL, F. T. (Org.). &#039;&#039;&#039;História da psicologia&#039;&#039;&#039;: rumos e percursos. 2. ed. Rio de Janeiro: Nau, 2007. p. 93-104.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_surgimento_da_psicologia_cient%C3%ADfica&amp;diff=1757</id>
		<title>O surgimento da psicologia científica</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_surgimento_da_psicologia_cient%C3%ADfica&amp;diff=1757"/>
		<updated>2026-09-07T15:08:16Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* A Psicologia de Wundt */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto [[Portal História da Psicologia]]) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um longo passado, uma curta história ==&lt;br /&gt;
A psicologia tem um longo passado, mas uma curta história. Esta é uma frase muito famosa no campo da história da psicologia, tendo sido consagrada por Hermann Ebbinghaus, um psicólogo alemão pioneiro no estudo da memória, ainda no século XIX. A frase é exemplar e muito usada em debates sobre a historiografia da psicologia, e isto revela como é difícil dizer quando a psicologia teve início. Ela tem um &#039;&#039;&#039;longo passado&#039;&#039;&#039;, porque os temas que consideramos hoje como parte da psicologia aparecem muitas vezes na filosofia, na religião, em saberes tradicionais, entre muitos outros lugares, ao longo da história. É difícil estabelecer qual &#039;&#039;&#039;o objeto de estudo da história da psicologi&#039;&#039;&#039;a, assim como é difícil, ao longo da história, &#039;&#039;&#039;separar o que é  psicologia daquilo que não é psicologia&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse longo passado pode remontar, por exemplo, à Antiguidade, com o tratado De Anima, de Aristóteles, que escreveu muito antes de se imaginar o próprio conceito de ciência moderna e, menos ainda, de uma psicologia moderna. Outros podem colocar o início da psicologia com Descartes, que elaborou a máxima, também famosa, “penso, logo existo”. Isso mostra que &#039;&#039;&#039;os objetos de estudo da psicologia são historicamente construídos&#039;&#039;&#039;, ou seja, emergem a partir dos locais ou pessoas que atuaram na psicologia, como na medida das diferenças individuais, as dinâmicas de controle num laboratório, nas práticas de psicoterapia, entre muitas outras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se cada historiador localiza o passado da psicologia em lugares diferentes no tempo e no espaço, a &#039;&#039;&#039;história da psicologia&#039;&#039;&#039;, por seu lado, tem uma definição bem mais estável e curta. Nos anos 1980, historiadores reunidos num congresso nos EUA definiram que &#039;&#039;&#039;a psicologia científica começou em 1879, quando [[Wilhelm Wundt]] fundou o primeiro laboratório de psicologia experimental na Universidade de Leipzig, na Alemanha&#039;&#039;&#039;. Essa definição está consagrada e é quase um consenso, porém, não foi tão simples estabelecê-la. Alguns advogavam pelo pioneirismo de outro alemão, [[Gustav T. Fechner|Gustav Theodor Fechner]], criador da chamada [[psicofísica]], de onde vieram muitos dos experimentos e ideias de Wundt. Outros ainda queriam que [[William James]], um filósofo e psicólogo americano, fosse reconhecido como fundador, pois seu laboratório de psicologia era ainda mais antigo que o de Wundt que, no final, venceu essa disputa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Resumindo, a psicologia possui um “longo passado”, com raízes filosóficas e religiosas milenares e altamente diversas, e uma “curta história” como disciplina científica, cujo marco está situado em 1879, com a fundação do primeiro laboratório experimental por Wilhelm Wundt, na Alemanha. Pelo menos é assim que, atualmente, a grande maioria dos historiadores entende a questão, uma das poucas em que há algum conceito neste campo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Presentismo ===&lt;br /&gt;
Mas o que seriam essas psicologias anteriores a essa psicologia científica? Para entender melhor essa história, é preciso refletir para superar, da melhor forma, um problema chamado &#039;&#039;&#039;presentismo&#039;&#039;&#039;, ou seja, julgar, entender, interpretar e analisar o passado com a visão do presente. Não é apenas uma questão de olhar para as pessoas do passado e superar o pensamento de que elas eram “ignorantes”, pois “não tinham o conhecimento que temos hoje”. É entender também que, no passado, haviam formas de conhecimentos diferentes, bem como visões de mundo diferentes da atual. Este é um problema fascinante. Muitos dos consensos contemporâneos, coisas que entende-se totalmente óbvias, eram vistas de forma completamente diferente no passado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo interessante é o &#039;&#039;&#039;conceito de atenção&#039;&#039;&#039;. Hoje, ela é um tema tão discutido e consensual que pouco se reflete sobre seu significado. Atualmente, seria algo como centralizar as faculdades mentais ou talvez a percepção em um ponto específico. Pode-se ouvir as pessoas reclamando da própria falta de atenção, que “não conseguem prestar atenção”, ou que nunca “mantém a atenção”, e até mesmo existem medicamentos para resolver esse problema. Contudo, a palavra “atenção” nem sempre significou o que entendemos hoje. Para [[Santo Agostinho]], atenção era apenas o ato de passar de um pensamento para outro. [[René Descartes|Descartes]] tinha um conceito mais parecido com o contemporâneo, onde a atenção era mobilizada de forma voluntária para fixar e reter na memória coisas raras e extraordinárias que o entendimento considerava úteis. Na obra de [[John Locke|Locke]], a atenção é mencionada apenas de passagem, como um mero mecanismo auxiliar da retenção de memórias. A partir do momento em que a ciência passou a entender que a percepção depende da estrutura física e biológica do corpo, com a psicofísica e a fisiologia sensorial, já no século XIX, a visão passou a ser encarada como intrinsecamente incompleta, instável e condicionada pelo tempo. Nesse contexto, a atenção foi utilizada como um substituto pragmático para garantir a coerência do mundo percebido. Autores do final do século XIX, como [[Théodule Ribot]] e [[Max Nordau]], associaram os desvios ou a fraqueza da atenção a patologias psíquicas, comportamentos sociopáticos e teorias da “degeneração”. Para eles, uma atenção defeituosa deixava a mente à mercê de “associações caóticas”, gerando uma visão borrada e distorcida da realidade. Foi apenas na década de 1950 que a nossa compreensão contemporânea de atenção começou a se delinear, paralelamente aos estudos sobre os medicamentos desenvolvidos para tratar as suas disfunções.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma pessoa desavisada, que não está atenta às grandes diferenças entre as ideias e conceitos ao longo do tempo, poderia ler um trecho de Ribot, Santo Agostinho, Descartes e outros e achar que a atenção sobre a qual eles falam é a mesma coisa que entendemos hoje. O leitor estaria totalmente enganado, a ponto de não conseguir nem mesmo compreender o que estes pensadores queriam dizer. Em outras palavras, &#039;&#039;&#039;o esforço para entender as psicologia do passado passa também pelo esforço de entender como se pensava no passado, qual a visão que se tinha nesse passado&#039;&#039;&#039;. Parte do esforço do historiador é trazer esses aspectos de volta ao presente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O sujeito transcedental de Kant ==&lt;br /&gt;
A concepção de uma psicologia ocupada especificamente com a “mente” humana e suas operações começou a ganhar contornos modernos no século XVIII com o filósofo [[Christian Wolff]]. Ele dividiu a psicologia em [[Psicologia Empírica (livro)|&#039;&#039;&#039;Psicologia Empírica&#039;&#039;&#039;]], num livro publicado em  1732 e baseada na introspecção; e em &#039;&#039;&#039;Psicologia Racional&#039;&#039;&#039;, numa obra de 1734, dedicada a deduzir a natureza e a essência da alma, como sua imortalidade e imaterialidade, de forma puramente lógica e racional, independentemente da experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, o projeto de Wolff enfrentava um sério problema metodológico: a chamada observação interna ou [[introspecção]]. Quando se estuda um fenômeno natural, como a chuva, é necessário observar tudo que está envolvido com estee fenômeno, incluindo como as nuvens se formam, qual a umidade do ar, a intensidade dos raios solares, a direção dos ventos, entre muitos outros fatores. A questão é que todos estes aspectos são &#039;&#039;&#039;externos ao sujeito&#039;&#039;&#039;. Toda a ciência é feita dessa forma, observando, testando e analisando o mundo que está fora dos indivíduos. O problema está em estudar algo que é interno aos sujeitos. Não se pode observar diretamente o que se passa na cabeça de alguém, pelo menos não por enquanto. Contudo, é possível analisar o que se passa nas nossas próprias cabeças. Isso seria a &#039;&#039;&#039;introspecção&#039;&#039;&#039;, ou seja, o processo pelo qual adquirimos conhecimento sobre nossos próprios estados ou processos mentais Apesar de ser uma ideia interessante, fazer introspecção não era considerado algo muito científico. Entendia-se que “observar a si mesmo” distorcia os eventos mentais, pois o sujeito que observa e o objeto observado são o mesmo, o que impediria a neutralidade exigida pelo modelo científico então vigente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até a segunda metade do século XVIII, as teorias do conhecimento, que incluíam o empirismo e o racionalismo, compartilhavam a premissa de que o conhecimento era determinado pelo objeto a ser conhecido. A ideia era a de que objeto estava lá, esperando a melhor forma de ser conhecido. &#039;&#039;&#039;Kant&#039;&#039;&#039;, em sua obra [[Crítica da Razão Pura (livro)|Crítica da Razão Pura]] (1781), inverteu essa lógica de forma radical. Ele propôs que &#039;&#039;&#039;não é o conhecimento que se adequa aos objetos, mas são os objetos que são determinados pelo sujeito&#039;&#039;&#039;. O conhecimento passou a ser compreendido não como uma recepção passiva, mas como uma produção ativa do chamado sujeito transcendental, moldada por suas formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;sujeito transcendental&#039;&#039;&#039; em Kant não se refere propriamente a um indivíduo empírico ou psicológico, ou seja, alguém com personalidade e história pessoal. Pense no sujeito transcendental não como “você” (André ou Maria), mas como o “sistema operacional” universal da mente humana. Assim como um software organiza os dados que chegam do teclado, convertendo eles em coisas numa tela, o sujeito transcendental organiza os dados que chegam dos sentidos, como o tempo e o espaço, antes mesmo de termos consciência deles.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o sujeito transcedental, é preciso fazer um importante exercício de abstração, visando conseguir entender algo que está além da experiência existencial individual e entender aquilo que molda essa própria experiência. O sujeito transcedental de Kant é, segundo ele próprio, uma condição universal de possibilidade para qualquer conhecimento. Em outras palavras, é algo que todas as pessoas possuem e é a forma que o ser humano tem para saber as coisas. É a estrutura ativa da mente que organiza a experiência antes mesmo que possamos refletir sobre ela. Esse sujeito é o princípio unificador que garante a coerência dos dados sensoriais, transformando o caos de impressões oriundas dos órgãos dos sentidos em uma experiência significativa e estruturada. Através das formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039; da sensibilidade (espaço e tempo) e das categorias do entendimento, o sujeito transcendental “constrói” o objeto conhecido. Ele é o “Eu penso” cartesiano, que deve poder acompanhar todas as nossas representações, conferindo unidade à consciência. Em suma, &#039;&#039;&#039;não conhecemos o mundo como ele é em si, mas como o sujeito transcendental o molda e o organiza para que se torne inteligível para nós&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Immanuel Kant revolucionou a teoria do conhecimento ao postular que a mente humana não funciona como um receptáculo passivo de impressões sensoriais, mas sim como um agente ativo dotado de estruturas constitutivas a priori que organizam, unificam e interpretam a matéria-prima da experiência. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas ideias de Kant, o processo de constituição do conhecimento dos fenômenos que chegam para nossa mente a partir dos órgãos dos sentidos articula-se em três instâncias fundamentais. A primeira são as formas puras da sensibilidade, depois vem os conceitos puros do entendimento, ou seja, as categorias e, por fim, a unidade sintética da apercepção. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas &#039;&#039;&#039;formas puras da sensibilidade&#039;&#039;&#039;, antes mesmo que o intelecto possa aplicar qualquer conceito, o caos das sensações brutas é necessariamente ordenado no espaço e no tempo, que não são propriedades das coisas em si, mas intuições puras da sensibilidade que funcionam como os eixos coordenados onde os fenômenos são dados. Ou seja, as informações dos sentidos já chegam num espaço e num tempo para o resto do processo de constituição do conhecimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma vez colocados no espaço e estruturados numa sucessão e simultaneidade temporal, esses dados passam pelas &#039;&#039;&#039;doze categorias do entendimento puro&#039;&#039;&#039;. Essas categorias se dividem em &#039;&#039;&#039;quatro classes de tríades&#039;&#039;&#039;: quantidade, qualidade, relação e modalidade. As &#039;&#039;&#039;categorias&#039;&#039;&#039; representam as regras lógicas puras, fundamentais e necessárias para tornar qualquer objeto da experiência inteligível. Elas podem ser observadas de forma simplificada na tabela a seguir:&lt;br /&gt;
{| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot;&lt;br /&gt;
|Classe de Categorias&lt;br /&gt;
|Categoria 1 (Tese)&lt;br /&gt;
|Categoria 2 (Antítese)&lt;br /&gt;
|Categoria 3 (Síntese)&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|1. Quantidade&lt;br /&gt;
|Unidade&lt;br /&gt;
|Pluralidade&lt;br /&gt;
|Totalidade&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|2. Qualidade&lt;br /&gt;
|Realidade&lt;br /&gt;
|Negação&lt;br /&gt;
|Limitação&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|3. Relação&lt;br /&gt;
|Substância e Acidente&lt;br /&gt;
|Causa e Efeito&lt;br /&gt;
|Ação Recíproca&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|4. Modalidade&lt;br /&gt;
|Possibilidade (Impossibilidade)&lt;br /&gt;
|Existência (Não-existência)&lt;br /&gt;
|Necessidade (Contingência)&lt;br /&gt;
|}&lt;br /&gt;
As categorias de quantidade dizem respeito à extensão em que aplicamos um conceito aos objetos, ou seja, “quantos” elementos estamos considerando no juízo. Na unidade, temos um único objeto. Na pluralidade, trazemos vários objetos do mesmo tipo para um conjunto. Já a totalidade surge quando pensamos a pluralidade como uma unidade completa.Vejamos um exemplo. Quando um observador vê uma maçã, aplica a categoria da unidade, ou seja, ele viu uma maçã. Ao ver várias maçãs espalhadas na mesa, apreende uma pluralidade, ou seja, ele tem um conceito de “maçãs” e as vê como um conjunto. Porém, ao formular uma lei universal, aplica-se a totalidade, que engloba toda a pluralidade possível sob uma única regra conceitual, ou seja, todas as maçãs são frutas e existem vários tipos de maçãs.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade trata da atribuição de um predicado, ou seja, se a experiência afirma algo, nega algo ou se situa num limite conceitual. Em outras palavras, é a forma da mente definir “como algo é”. A realidade é afirmação de que um predicado pertence a um ser, ou seja, ele é alguma coisa. A negação é a afirmação de que o predicado não pertence a algo, ou seja, um “não-ser”. A limitação é a síntese das duas anteriores. Atribui-se uma negação como se fosse uma realidade, excluindo aquilo de uma esfera, mas deixando infinita a esfera onde ele pode estar. Vamos a um exemplo. Dizer “O homem é mortal” aplica a categoria de realidade (afirma-se um atributo). Dizer “O homem não é mortal” aplica a negação. No entanto, dizer “A alma é não-mortal (imortal)” é um juízo infinito clássico de Kant que evoca a limitação. Não sabemos o que a alma é de fato, mas a limitamos removendo ela da esfera das coisas mortais, o que a situa num campo aberto e indeterminado de possibilidades.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Consideradas por muitos comentadores como o coração da epistemologia kantiana, as categorias de relação definem como os objetos se relacionam entre si e como permanecem ou mudam no tempo. Substância e Acidente referem-se àquilo que permanece através da mudança (substância) e as propriedades que são transitórias, ou seja, que mudam (acidentes). Um exemplo disso é a água de um lago que congela no inverno. Seu estado físico muda do líquido para o sólido, que é o acidente, mas a matéria da água em si, a substância, permanece inalterada. Sem a categoria de substância, nossa mente registraria apenas uma sucessão caótica de imagens, sem reconhecer que se trata da mesma “coisa” sofrendo alteração. A Causa e Efeito é a relação estritamente necessária onde um evento segue outro no tempo. O exemplo de Kant, em resposta ao filósofo David Hume, é sobre o sol que ilumina uma pedra, e a pedra esquenta. Hume diria que inferimos causalidade por mero hábito psicológico, ou seja, não há conexão necessária, apenas uma observação e uma intuição. Kant argumenta que o próprio fato de distinguirmos uma sucessão objetiva de eventos exige que a mente aplique a categoria a priori de Causalidade. A mente “dita” a regra estrutural de que o aquecimento necessariamente sucede a irradiação solar, colocando uma como causa da outra. Já na Ação Recíproca (Comunidade), tem-se a relação simultânea de mútua influência entre múltiplas substâncias no espaço como, por exemplo, a interação gravitacional entre a Terra e a Lua. Elas não são eventos sucessivos no tempo, mas existem simultaneamente e influenciam-se de modo contínuo e bidirecional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, temos as categorias modais. Eles são os Postulados do Pensamento Empírico e não acrescentam nenhum atributo novo ao objeto em si, mas definem exclusivamente como esse objeto ou evento se relaciona com o sujeito cognitivo e suas faculdades. No caso da Possibilidade-Impossibilidade, é algo que concorda com as condições formais, que são as condições lógicas e puras da experiência. No binômio Existência-Não-existência, é algo que está dado materialmente na intuição empírica, ou seja, nos sentidos. Já na Necessidade-Contingência, é algo cuja conexão com a experiência empírica está determinada por condições universais. Vamos a um exemplo. Um dragão voador de escamas verdes ou um triângulo cujos ângulos somam 180 graus são conceitos logicamente possíveis, ou seja, não envolvem contradição formal. No entanto, apenas um objeto sensorialmente verificável, como a caneta sobre a sua mesa, tem a marca da existência. Já o fato de que um objeto massivo abandonado no ar cairá em direção ao solo é uma necessidade ditada pelas leis empíricas que o entendimento prescreve à natureza, ou seja, atribui a ele.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Acima dessas estruturas, Kant postulou a apercepção ou apercepção transcendental, que é o processo pelo qual a mente unifica de forma ativa diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Sem a apercepção, a mente seria apenas um amontoado de estímulos desconectados. Assim, a aperceção a base da própria consciência humana. Devido a essa complexa mediação ativa da mente, Kant estabeleceu uma distinção insuperável entre o mundo externo e a mente. Isso significa dizer que nós não temos acesso à “coisa em si”, ou noumenon, mas apenas a como as coisas nos aparecem, ou seja, na forma de fenômeno, já devidamente processadas pelo nosso aparato cognitivo. Neste sentido, É importante distinguir o “Eu empírico”, ou seja, aquilo que observamos em nós mesmos, como nossa personalidade ou o nosso humor, do “Eu transcendental”, a pura unidade lógica do “Eu penso”. Ademais, a apercepção transcendental não é uma faculdade psicológica de “prestar atenção”, mas uma exigência lógica. Para que uma experiência seja minha, o “Eu penso” deve poder acompanhar todas as minhas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Os Vetos Kantianos à Psicologia Científica ===&lt;br /&gt;
Apesar de ter colocado o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que conhece, no centro do universo epistemológico, Kant foi muito crítico sobre a possibilidade de a psicologia se tornar uma ciência. Em sua obra Princípios metafísicos da ciência da natureza, de 1786, ele negou a possibilidade de uma psicologia científica, pois afirmou que uma disciplina só poderia Sê-lo se possuísse uma elaboração racional capaz de fornecer leis formuladas matematicamente, o que poderia ser chamado de veto matemático. A psicologia falhava nesse critério porque os eventos mentais possuem apenas a dimensão do tempo, sem nenhuma extensão espacial, o que impossibilitaria a sua matematização. Para Kant, assim como o espaço é a forma do sentido externo, o tempo é a forma pura do sentido interno. Como os estados mentais só se dão na sucessão do tempo (sem extensão espacial), eles não formam figuras nem podem ser medidos geometricamente, inviabilizando a matemática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Kant apontou a impossibilidade de isolar diferentes pensamentos para a realização de experimentos controlados. Assim, como não podemos acessar o que seria o conteúdo da mente, cercá-la e analisá-la como ela é em seu estado bruto ou natural, qualquer experimentação seria impossível, o que poderia ser chamado de veto do objeto. Por fim, ele reforçou a crítica que já era direcionada a Wolff, aquele do começo dessa seção. A introspecção como método, segundo Kant, seria inviável porque a própria tentativa de observar um fenômeno interno altera o fenômeno, o veto metodológico. Se tento observar minha própria tristeza, por exemplo, o fenômeno original desaparece e se transforma em “tristeza-sendo-observada-por-mim”, misturando sujeito e objeto de tal maneira que corrompe a objetividade. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A impossibilidade de uma psicologia científica não significava, contudo, a impossibilidade de estudar a mente e o comportamento. Kant trabalhou e lecionou com o que chamou de Antropologia Pragmática. Enquanto a psicologia empírica tentava, em vão, segundo ele, ser uma ciência exata, a antropologia pragmática estudava “o que o homem, como ser livre, faz, ou pode e deve fazer de si mesmo”. Era um estudo prático do comportamento, das paixões, da memória e da cognição, focado na vida em sociedade. De certo modo, pode-se dizer que Kant fechou a porta para a psicologia mecanicista, ou ainda, uma psicologia como ciência exata, mas ajudou a abrir uma janela imensa para as ciências humanas e sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Emergência do Neokantismo Fisiológico e as Primeiras Aproximações para a Psicologia Científica ==&lt;br /&gt;
A primeira metade do século XIX na Alemanha foi inicialmente dominada pelo Idealismo Pós-Kantiano (Hegel, Fichte, Schelling), que propunha sistemas metafísicos grandiosos onde a realidade era essencialmente racional e espiritual. Contudo, a partir da década de 1850, o forte avanço das ciências naturais, como a fisiologia e a química, gerou uma importante reação materialista, consolidados nas figuras de Feuerbach, Vogt, Büchner e outros, que passaram a ridicularizar a filosofia idealista como mera especulação vazia. A metafísica, vista como uma das glórias da filosofia e do pensamento humano, passou a ser vista cada vez mais como um discurso com pouco ou nenhum lastro na realidade. Essa mudança foi muito importante para a história da psicologia científica, pois foi devido a esse contexto que foram formulados os primeiros experimentos voltados para o que seria, no futuro, a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Johannes Müller e a Teoria das Energias Nervosas Específicas ===&lt;br /&gt;
Neste período, a fisiologia se estabeleceu como uma ciência rigorosa e extremamente respeita, liderada por figuras como Johannes Müller. Müller, professor na Universidade de Berlim, publicou seu Manual de Fisiologia Humana (1833-1840), que sistematizou o conhecimento fisiológico da época e transformou a compreensão da percepção. Até o final do século XVIII, ela era explicada pela Teoria da impressão da sensação, derivada da física newtoniana e do empirismo britânico. Esse modelo assumia que o sistema nervoso era um meio homogêneo e passivo que simplesmente “transportava” as qualidades dos objetos externos para a mente, como se a sensação fosse uma cópia exata do estímulo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Johannes Müller revolucionou esse entendimento ao formular a Teoria das energias nervosas específicas (1826). Ele provou, através de experimentos, que a estimulação de um determinado nervo sensorial sempre provoca uma sensação característica e exclusiva daquele nervo, independentemente da natureza do estímulo físico externo. Em outras palavras, a qualidade da sensação não pertence ao objeto físico, mas sim à estrutura do próprio aparato sensorial humano. O mesmo estímulo pode produzir sensações completamente diferentes dependendo de qual via nervosa é ativada. Por exemplo, ao aplicar sal na pele, na língua e nos olhos, as sensações serão totalmente distintas, todas diretamente relacionadas às especificidades do aparelho sensorial que foi ativado. É importante entender que isso não acontece por conta da especificidade das características do estímulo, como o sal ser “salgado”. A pele produz apenas sensações táteis, ainda que o estímulo não seja tátil. Isso cria um problema de confiança naquilo que percebemos sensorialmente, pois mostra que os órgãos não enviam apenas propriedades dos objetos, mas antes operam apenas de modo específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Müller, por meio de experimentos, mostrou que os objetos físicos projetam imagens invertidas na retina, mas nós os percebemos na posição correta. Ele mostrou também que, embora as imagens projetadas nas duas retinas sejam levemente diferentes, o cérebro as unifica em uma única imagem tridimensional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas descobertas trouxeram Kant para o terreno da biologia, inclusive pelo próprio Müller que, apesar de não ser neokantiano, viu suas descobertas científicas influenciarem profundamente a primeira geração deles. O sistema nervoso não é um receptor passivo, antes, ele medeia, molda e traduz ativamente a realidade externa. A sensação deixou de ser vista como uma cópia do mundo e passou a ser um enigma, que pode ser analisado a partir da seguinte pergunta: “o que existe entre o estímulo físico e a sensação subjetiva?”. Este é o mundo do primeiro projeto de psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Hermann von Helmholtz e o Neokantismo Psicofisiológico ===&lt;br /&gt;
A ponte definitiva entre a epistemologia kantiana e a prática laboratorial foi construída por um antigo aluno de Johannes Müller, Hermann von Helmholtz (1821-1894). Ele colaborou no desenvolvimento do neokantismo psicofisiológico ou neokantismo fisiológico, apesar de sua associação ao neokantismo como movimento não é um consenso. Ele entendeu que as descobertas de seu professor forneciam a base material exata para a teoria do conhecimento de Kant. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1855, Helmholtz argumentou que as estruturas a priori propostas por Kant como condições de possibilidade da experiência eram, na verdade, características da anatomia e da fisiologia do aparato perceptivo humano. Ao “naturalizar” a filosofia de Kant, Helmholtz formulou a sua teoria dos signos, que postula que nossas sensações e percepções não são cópias diretas da realidade, mas sim símbolos ou signos gerados pelo nosso sistema nervoso em resposta aos estímulos. Para explicar como construímos uma imagem coerente e espacial do mundo a partir desses signos neurológicos isolados, Helmholtz introduziu o conceito de inferências inconscientes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo essa teoria, a mente realiza uma série de ajustes e cálculos automáticos, baseados na experiência e na aprendizagem contínua, para interpretar os dados sensoriais. A percepção de profundidade, a posição espacial e a resolução de duas imagens retinianas em uma única visão estereoscópica não são inatas, como defendia o nativismo de Ewald Hering ou o próprio Müller, mas são aprendidas empiricamente através do movimento do corpo e da repetição das sensações. O espaço perceptivo atua como uma linguagem que a mente usa para interpretar os dados fisiológicos brutos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com isso, Helmholtz fundou o projeto de uma psicologia fisiológica autônoma, diferente da psicologia filosófica discutida na época. Ele concordou com Kant que a introspecção tradicional era um método falho, que podia conduzir a ilusões porque o observador só capta a superfície consciente do pensamento. A solução de Helmholtz foi submeter o sujeito da experiência a condições de laboratório rigorosamente controladas. Se as condições da percepção dependem de mecanismos fisiológicos, então a única forma de fazer epistemologia científica é através da experimentação fisiológica e da ótica. O sujeito do conhecimento tornou-se, assim, um objeto, que poderia ser manipulado e analisado em laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Suas contribuições não acabam por aí. Antes das pesquisas de Helmholtz, a comunidade científica acreditava que o impulso nervoso era instantâneo ou rápido demais para ser mensurado. Em 1850, estimulando um nervo motor na perna de uma rã e medindo o tempo da contração muscular, ele obteve o registro da velocidade de condução neural, que é de aproximadamente 27 metros por segundo, provando que havia “algo” entre o estímulo e a percepção que poderia ser analisado cientificamente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também mediu o tempo de reação de nervos sensoriais em humanos. Essa descoberta provou que o pensamento e o movimento corporal não ocorrem simultaneamente, mas são separados por um intervalo de tempo mensurável. Essa foi a base que abriu caminho para os experimentos de tempo de reação e cronometria mental que dominariam o laboratório de Wundt décadas depois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== F. A. Lange e o Projeto de uma “Psicologia Sem Alma” ===&lt;br /&gt;
O segundo pilar desse “retorno a Kant”, também de matriz fisiológica, foi erguido pelo filósofo e sociólogo Friedrich Albert Lange (1828-1875). Lange foi uma figura central na “controvérsia materialista” que agitava a Alemanha. Ele rejeitava tanto os “delírios” dos sistemas idealistas metafísicos quanto o reducionismo ingênuo do materialismo científico de Vogt e Büchner. Em sua influente obra História do Materialismo, de 1866, Lange defendeu que a limitação proposta por Kant é absoluta, ou seja, não temos e nem nunca teremos acesso à essência última da realidade, às coisas em si. Nosso conhecimento se restringe aos efeitos das coisas, ou seja, os fenômenos, que nos aparecem totalmente moldados pela nossa organização mental e neurológica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Lange argumentou que a impossibilidade de conhecer a essência não impede o estudo científico rigoroso das “aparências”, ou seja, sobre como as coisas nos aparecem. Para viabilizar esse estudo, Lange atacou as psicologias filosóficas do passado, que versavam debates que ele ele entendia estéreis sobre a natureza, a imortalidade e a substancialidade da “alma”. Para Lange, a alma era um conceito vazio, um “mito antigo” que forçava a psicologia a operar sobre pressupostos metafísicos inverificáveis. Em resposta, ele propôs a criação de uma psicologia sem alma, ou, em outras palavras, uma psicologia sem metafísica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste novo paradigma, o objeto de estudo da psicologia deveria ser reduzido aos dados empíricos observáveis, incluindo a sensação, a percepção, a ação e a linguagem, sempre buscando o seu correlato fisiológico. Lange rejeitou a introspecção puramente filosófica, pois a auto-observação isolada é privada, não pode ser repetida, não permite a presença de observadores externos e leva invariavelmente a ilusões verbais. Segundo ele, essa introspecção conduzia o pesquisador a substancializar conceitos como “vontade” ou “pensamento”, sem nenhum lastro empírico ou experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A única saída para a psicologia tornar-se verdadeiramente científica era abraçar a metodologia das ciências naturais. Apoiando-se no trabalho de Helmholtz e nas medições pioneiras de psicofísicos como Ernst Weber e Gustav Fechner, Lange prescreveu que a psicologia deveria investigar as leis fisiológicas da percepção e medir a correlação exata entre estímulos físicos e respostas sensoriais, como nos tempos de reação e nos limiares diferenciais. A psicologia passava a ser entendida não como a ciência do espírito transcendente, mas como a ciência psicofisiológica que estuda experimentalmente as condições de possibilidade da experiência, trazendo o sujeito transcendente de Kant para uma fisiologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fechner e a Fundação da Psicofísica ===&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner (1801–1887) foi um físico e metafísico alemão e antigo aluno de Weber. Apesar de não ser um neokantiano, ele tem uma importância fundamental para este momento da fundação da psicologia experimental, tendo sido citado e adotado por neokantianos. Ele assumiu a prestigiada e importante cadeira de física da Universidade de Leipzig em 1834, enquanto produzia sátiras sobre temas metafísicos e artísticos sob um pseudônimo. Após uma série de experimentos em que observava diretamente o Sol, feriu gravemente suas retinas, evento que o conduziu a um colapso físico e mental. Teve uma recuperação milagrosa em 1843, quando tentou observar flores em seu jardim e, por meio de uma experiência mística, observou que a natureza brilhava de dentro para fora, de onde concluiu que o universo era dotado de alma e consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esssa experiência decisiva levou-o a dedicar sua vida ao combate do materialismo científico, que ele denominava visão noturna, que via o mundo como uma matéria inerte e sem vida. Já a sua visão diurna entendia que a matéria era a manifestação da consciência universal divina, uma cosmovisão espiritualista que pode ser entendida como panpsiquista, ou seja, todos os corpos físicos possuem uma forma de alma. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi buscando provar sua visão que Fechner entendeu que poderia provar empiricamente a relação entre a mente (ou o espírito) e o corpo (ou a matéria) se encontrasse uma relação matemática constante entre a intensidade do estímulo físico e a magnitude da sensação psíquica correspondente. Isso porque Fechner percebeu que um aumento na intensidade do estímulo físico não gerava um aumento equivalente e proporcional na sensação subjetiva. A relação não era linear, mas sim proporcional, pois o estímulo físico aumentava em uma progressão geométrica, enquanto a sensação psíquica crescia em uma progressão aritmética. Por exemplo, acrescentar o som de um sino a outro que já está tocando gera um forte impacto perceptivo, pois é possível distinguir claramente que passou-se de um para dois sinos. Já acrescentar um sino a uma dezena deles produz uma alteração quase imperceptível. A sensação dependia, portanto, do nível de estimulação já existente no sistema.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para dar sustentação empírica à sua teoria, Fechner apropriou-se dos trabalhos experimentais realizados por Weber, que havia formulado a teoria da diferença mínima perceptível, demonstrando que a sensibilidade humana não avaliava diferenças absolutas entre estímulos, mas sim relações relativas ou proporcionais. Weber observou que, ao levantar pesos, os sujeitos conseguiam detectar uma variação mínima correspondente a uma fração constante de aproximadamente 1:40 em relação ao peso padrão. Essa constância proporcional é descrita pela chamada Lei de Weber:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Δ&#039;&#039;I&#039;&#039;/&#039;&#039;I&#039;&#039; = K &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ou &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
d&#039;&#039;R&#039;&#039;/&#039;&#039;R&#039;&#039; = K&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde I (ou &#039;&#039;R&#039;&#039;, do alemão &#039;&#039;Reiz&#039;&#039;) representa a intensidade do estímulo padrão, ΔI é o acréscimo mínimo necessário para produzir uma mudança perceptível na sensação e k é uma constante matemática específica para cada modalidade sensorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Fechner percebeu que essa fração constante (ΔI/I) correspondia à unidade de medida da sensação subjetiva (dS). Utilizando o cálculo infinitesimal, Fechner integrou matematicamente a equação de Weber, assumindo que todas as diferenças mínimas perceptíveis eram subjetivamente iguais entre si. Essa operação matemática resultou na célebre Lei de Fechner ou Lei de Weber-Fechner:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
S = k Log R&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde S representa a magnitude da sensação subjetiva (qualidade mental), R representa a intensidade física do estímulo (qualidade material) e K é uma constante experimental ajustada a cada sentido. Essa fórmula logarítmica foi construída para mostrar que, para a sensação aumentar linearmente, o estímulo físico precisava crescer exponencialmente, estabelecendo uma relação exata e mensurável entre o psíquico e o físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para aplicar sua fórmula, Fechner sistematizou dois conceitos fundamentais que estruturam as medições psicofísicas. A primeira é o limiar absoluto, ou seja, o ponto de intensidade física mínima abaixo do qual o estímulo não é detectado pelo sujeito e acima do qual a sensação passa a ser percebida. Outro conceito é o de limiar diferencial, que é a quantidade mínima de alteração ou variação que deve ser aplicada a um estímulo para que o sujeito seja capaz de discriminar uma mudança na sensação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um desdobramento fascinante da Lei de Fechner ocorreu quando o estímulo físico apresentava valores abaixo do limiar absoluto (R&amp;lt;1), resultando em valores negativos para a sensação (S). Fechner definiu esses valores como sensações negativas ou subliminares, postulando a existência de processos mentais ativos abaixo do limiar da consciência desperta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para determinar com precisão científica os limiares absolutos e diferenciais, Fechner desenvolveu e padronizou três metodologias experimentais rigorosas, que se tornaram os pilares metodológicos de toda a psicologia experimental posterior. No Método do Erro Médio ou do Ajuste, o próprio sujeito experimental manipula ativamente um instrumento para ajustar um estímulo variável até que sinta que este se iguala a um estímulo padrão constante. A média dos desvios entre os ajustes do sujeito e o padrão real define o erro de observação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já no Método do Estímulo Constante ou dos Casos Corretos e Incorretos, o pesquisador apresenta de forma aleatória uma série de estímulos pré-determinados e constantes em comparação com um estímulo padrão. O sujeito deve julgar se o estímulo de comparação é maior, menor ou igual ao padrão, medindo-se a proporção estatística de acertos. Por fim, no Método dos Limites ou das Diferenças Mínimas Perceptíveis, dois estímulos são apresentados ao sujeito. Um deles é aumentado ou reduzido sistematicamente em passos discretos e graduais, e o sujeito relata o momento exato em que deixa de perceber ou passa a perceber a diferença entre ambos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1860, Fechner publicou seu livro monumental, Elementos de Psicofísica, que alguns entendem ser o primeiro sobre a psicologia científica experimental. Ao fornecer à psicologia técnicas de medição coerentes e precisas, Fechner provou de forma contundente que a mente humana era passível de investigação científica e experimental, sepultando em definitivo o antigo veto imposto por Immanuel Kant, em pleno momento de desenvolvimento do Neokantismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Incomodados com as inclinações metafísicas e espiritualistas de Fechner, os psicólogos experimentais subsequentes, sob a liderança de Wilhelm Wundt, rejeitaram completamente o panpsiquismo entre outras ideias, apropriando-se exclusivamente de seus métodos quantitativos de laboratório para estabelecer a psicologia como uma ciência empírica e natural. Como bem observou o historiador Edwin G. Boring, Fechner agiu como um “Colombo que descobriu um Novo Mundo (a psicologia científica) enquanto procurava pelas antigas Índias (a prova de sua metafísica)”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Resumindo ===&lt;br /&gt;
A intersecção entre a epistemologia kantiana, a fisiologia de Müller e a reformulação promovida por Helmholtz e Lange constituiu o início daquilo que tornou possível a psicologia científica. Kant havia mostrado que o sujeito constrói ativamente a realidade, mas negou que esse sujeito pudesse ser estudado matematicamente ou experimentalmente. Müller transferiu a estrutura ativa da mente para os nervos sensoriais específicos. Helmholtz e Lange reinterpretaram as pesadas categorias transcendentais de Kant como mecanismos biológicos e perceptivos operando através de inferências inconscientes e leis fisiológicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao “naturalizar” a Crítica da Razão Pura, o Neokantismo Psicofisiológico resolveu o veto de Kant a uma psicologia científica. Se os limites e as formas do nosso conhecimento são determinados pelo nosso sistema nervoso e sensorial, então o estudo epistemológico da mente deve ser feito no laboratório de fisiologia, estudando principalmente a percepção. A exigência de matematização foi superada pelas leis da psicofísica de Fechner e Weber, e o problema da introspecção descontrolada foi resolvido pelo uso de instrumentos de precisão, como cronoscópios, além de métodos de medidas de limiar, controle de estímulos, erros médios, entre outros, que transformavam as respostas subjetivas em dados objetivos, replicáveis e mensuráveis. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse foi o cenário epistemológico e institucional que Wilhelm Wundt encontrou e ajudou a consolidar. Wundt não fundou a psicologia a partir do nada em 1879. Seu Instituto em Leipzig foi organização metodológica e teórica de décadas de esforços em que a filosofia foi obrigada a dialogar com os nervos, os músculos e os tempos de reação, transformando para sempre a especulação sobre a alma em uma rigorosa ciência da experiência imediata. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ironicamente, escolas neokantianas posteriores, como a Escola de Marburgo, foram focos de resistência à psicologia experimental, alegando que o sujeito do conhecimento de Kant era de ordem puramente transcendental e lógica, e não empírica ou mensurável, ou seja, rejeitando a “biologização” do pensamento kantiano e a consequente criação da psicologia experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, conforme mostra Gundlach, a criação de uma posição acadêmica e o laboratório de psicologia por Wundt não se deu por conta de um amplo reconhecimento da superioridade do pensamento wundtano, mas sim por conta de disputas políticas e institucionais nas universidades alemãs. De qualquer forma, Wundt conseguiu desenvolver bem sua teoria ao longo de sua vida e conseguiu estabelecer-se na proeminência da psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia de Wundt ==&lt;br /&gt;
[[Wilhelm Wundt|Wilhelm Maximilian Wundt]] é, na historiografia da psicologia, uma figura ao mesmo tempo onipresente e pouco compreendida. Freqüentemente reduzido ao título de “fundador do laboratório de Leipzig”, essa simplificação negligencia sua estatura como um dos últimos grandes arquitetos de sistemas do século XIX, cujo &#039;&#039;Systemgedanke&#039;&#039; (pensamento sistêmico) buscava integrar a psicologia como uma propedêutica fundamental para a filosofia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Recuperar o Wundt original exige preencher uma vasta lacuna historiográfica. A primeira envolve apontar as conhecidas e muitas das distorções da tradução de [[Titchener|E.B. Titchener]] para o contexto anglo-americano, que foi formulada para aproximar suas ideias e pdasdaquelas de Wundt, visando uma “confirmação” do pensamento de Titchener. Wundt não era um estruturalista ou associacionista clássico e seu sistema é essencialmente dinâmico e pode ser classificado melhor como &#039;&#039;&#039;voluntarismo&#039;&#039;&#039;. Para Wundt, a vontade e os processos afetivos não são meros epifenômenos, ou seja, um fenômenos secundários ou acessórios que acompanhma um fenômeno principal, mas o eixo organizador da consciência ativa. Esta reconstrução crítica visa resgatar a autonomia epistemológica de uma ciência que define seu objeto não como uma substância, mas como a experiência em sua totalidade imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Experiência conforme Wundt ===&lt;br /&gt;
Para Wilhelm Wundt, a experiência é concebida como um todo unitário e coerente. As duas abordagens da experiência que ele propõe não se deve a uma diferença ontológica, mas como dois pontos de vista distintos e complementares que permite sua abordagem científica, que ele separa entre Experiência Mediata e Experiência Imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experiência Mediata ====&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Experiência Mediata&#039;&#039;&#039; é a experiência objetiva) está &#039;&#039;&#039;focada nos objetos do mundo externo&#039;&#039;&#039;. Ela foca exclusivamente nos objetos do mundo externo, abstraindo o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que sabe, que tem conhecimento. A Experiência Mediata seria o ponto de vista característico das ciências naturais, como física, química e fisiologia. A ciência natural opera por meio de uma abstração sistemática, pois ela coloca o sujeito cognoscente &amp;quot;entre parênteses&amp;quot; e analisa apenas os objetos externos pensados, como se existissem de maneira totalmente independente de quem os percebe. É chamada de &amp;quot;mediata&amp;quot; porque &#039;&#039;&#039;nosso acesso a tais objetos é sempre indireto&#039;&#039;&#039;, ou seja, precisa de mediação, pois é dependente de conceitos abstratos, inferências teóricas e construções conceituais auxiliares para representá-los. Por um lado, o estímulo físico é intermediado pelos limites anatômicos e biológicos do nosso aparato perceptivo, ou seja, temos os limites e capacidades da nossa percepção. No caso da visão, por exemplo, não vemos os raios ultravioleta e infravermelho, pois não estão no expecto da luz visível, mas vemos as cores e suas combinações. Por outro lado, para constituir a &amp;quot;realidade objetiva&amp;quot;, o cientista natural precisa utilizar conceitos teóricos auxiliares e construções hipotéticas, como átomos, ondas eletromagnéticas e forças gravitacionais, que não são dados imediatamente na percepção sensível mas que podem ser vistos experimentalmente e por meio de instrumentos e aparatos científicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wundt critica assim o empirismo tradicional e o associacionismo. A doutrina do empirismo diz que a mente como página em branco, conforme a formulação de John Locke e sua &#039;&#039;tabula rasa&#039;&#039;. Neste caso, a mente seria progressivamente preenchida pelas impressões do mundo exterior (sensação) e pelas operações internas (reflexão). David Hume radicaliza o princípio empírico, postulando que as impressões são os átomos cognitivos fundamentais e as ideias nada mais são do que cópias atenuadas ou lembranças dessas impressões na memória e na imaginação. Já o associacionismo constitui a hipótese de que as ideias simples e discretas se combinam para formar pensamentos complexos, juízos e raciocínios abstratos. Se o empirismo fornece os blocos de construção, o associacionismo descreve a &amp;quot;força de atração&amp;quot; que os une. Conforme sistematizado por Hume e, depois, desenvolvido por Hartley e James Mill, a mente transita espontaneamente de uma ideia para outra por meio de regras regulares de associação, como a semelhança, a contiguidade no tempo e as relações de causa e efeito.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para Wundt, ambos erraram, pois transferiam as características dos objetos externos da física, como a solidez, os limites rígidos e a permanência estática, para os conteúdos conscientes, passando a tratar as representações (&#039;&#039;Vorstellungen&#039;&#039;) como coisas ou &amp;quot;átomos mentais&amp;quot;. Na física, o foco recai sobre o objeto substantivo. Contudo, segundo Wundt, a consciência não contém objetos estáveis. Ele parte de uma diferença fundamental que os psicofísicos e outros haviam apontado, que é aquela entre o mundo externo e o mundo percebido, ou ainda, entre as coisas e suas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em resumo, a Experiência Mediata se aproxima dos objetos estáveis do mundo externo e de como eles nos chegam. Na experiência mediata, o cientista da natureza pode retornar quando quiser ao mesmo objeto físico estável (uma pedra ou um elemento químico) para observá-lo repetidamente, ainda que o observador em si esteja sempre em mudança.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experiência Imediata, o Objeto de Estudo da Psicologia ====&lt;br /&gt;
Ao definir seu objeto, Wundt deu um passo decisivo para dar à psicologia autonomia perante as outras ciências naturais. Ele propõe que a experiência é uma unidade indivisível. Mas o que ele quer dizer por &#039;&#039;&#039;experiência&#039;&#039;&#039;? Uma definição poderia ser a totalidade dos processos conscientes, englobando sensações, sentimentos, representações e volições (vontades), apreendida da exata forma como se apresenta diretamente ao sujeito, sem qualquer abstração conceitual ou mediação de instrumentos externos. Ou seja, a experiência de Wundt seria como tudo o que se passa na mente, exatamente como ela aparece para uma pessoa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;O domínio da psicologia seria a experiência imediata&#039;&#039;&#039;, subjetiva, que é a experiência em sua realidade concreta, direta e intuitiva, apreendida antes de qualquer conceituação, teorização ou abstração. Ou seja, é a experiência antes de ela adquirir qualquer camada de compreensão, que seriam mediadores, por isso é imediata, &#039;&#039;&#039;sem mediação&#039;&#039;&#039;. Ela envolve o processamento de elementos sensoriais simples, como cor, som, temperatura, e de sentimentos simples, como prazer e desprazer. Ela diz respeito ao modo puro de funcionamento mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vamos a um exemplo, desta vez no campo do acústica. Na perspectiva mediata, o cientista natural abstrai o sujeito e estuda o som de forma indireta e conceitual. Ele utiliza aparelhos para medir as ondas sonoras e a sua propagação física pelo ar. O objeto físico “som” é, portanto, mediado e traduzido por conceitos de frequência, amplitude e decibéis. Já sob a perspectiva imediata, que é a da psicologia, o psicólogo estuda a sensação direta e em si mesma do tom no momento exato em que ele aparece na consciência. A análise está na vivência concreta do sujeito, que inclui a qualidade do tom, a sua intensidade subjetiva, a tonalidade afetiva de prazer ou desprazer que o acompanha e o processo ativo da atenção (apercepção, que será tratada mais adiante) que coloca aquele som no foco da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se olharmos desta vez para a cromática, na visão mediata, ciência natural estuda o azul abstraindo a experiência do sujeito. A física o descreverá de forma conceitual como uma radiação eletromagnética com determinado comprimento de onda atingindo a retina. A fisiologia se debruçará sobre o funcionamento dos tecidos dos olhos quando estimulados com a cor azul em suas nuances. Para a psicologia de Wundt, o azul é investigado como um dado imediato e real na consciência do sujeito no momento da percepção interna. O foco não está nas propriedades físicas do estímulo, mas sim na reação subjetiva e ativa do cérebro vivo a esse estímulo, que gera a qualidade imediata da cor na experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conduzindo seus estudos, Wundt também identificou aquilo que denominou &#039;&#039;&#039;causalidade psíquica&#039;&#039;&#039;. Ao nos lembrarmos de um fato triste, por exemplo, a fisiologia explicaria a tristeza de forma conceitual e indireta, por meio de correntes elétricas no córtex cerebral, liberação de hormônios ou atividade de sinapses nervosas. Já o psicólogo numa linha wundtiana observa a conexão de processos internos como elas ocorrem diretamente na consciência do sujeito, como a ligação da lembrança triste a um sentimento de angústia. A causalidade psíquica é uma causalidade própria da mente e irredutível às leis físicas da natureza, ou seja, não pode ser comparada à causalidade física como a conhecemos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao adotar a experiência como seu objeto, Wundt rompe com a psicologia da alma, filosófica e metafísica. Ele substitui a psicologia de substâncias, que postula uma entidade mental oculta, pela &#039;&#039;&#039;teoria da atualidade&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Aktualitätstheorie&#039;&#039;), na qual o psiquismo é definido como um fluxo de processos em constante devir. Seu sistema está fundamentado em um &#039;&#039;&#039;monismo perspectivista&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, para ele, mente e corpo não são substâncias que interagem mecanicamente, mas perspectivas distintas sobre a mesma unidade da experiência (&#039;&#039;Erfahrung&#039;&#039;). A psicologia, portanto, não estuda um “mundo interno”, que está isolado do externo, ainda que em contato com ele, mas a totalidade da experiência humana sob o prisma da imediatidade. Essa transição do estatuto de substância “mente” ou algo semelhante para o de processo traz uma nova perspectiva, criando um objeto que pode ser alvo de experimentação científica, partindo de experimentos já criados pela psicofísica e ainda outros que seriam desenvolvidos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Apercepção ===&lt;br /&gt;
No contexto filosófico, como já visto, o conceito de apercepção remonta a Kant, que a definiu como o processo autônomo, ativo e prévio pelo qual a mente unifica diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Wundt adotou essa noção kantiana para fundamentar sua teoria da consciência, definindo &#039;&#039;&#039;apercepção&#039;&#039;&#039; como o processo psicológico ativo pelo qual um conteúdo psíquico (ou representação) é trazido à &#039;&#039;&#039;clareza máxima e ao foco da consciência&#039;&#039;&#039;, vindo necessariamente acompanhado pelo estado de atenção voluntária.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para explicar a dinâmica da consciência, Wundt utilizou uma famosa analogia com a visão para diferenciar apercepção e percepção. O campo visual da consciência (&#039;&#039;Blickfeld&#039;&#039;) corresponde à percepção, que é a simples entrada de uma representação na consciência de forma difusa, ampla e sem a presença focalizada da atenção. Já o ponto focal da consciência (&#039;&#039;Blickpunkt&#039;&#039;) corresponde à apercepção, que é a entrada de uma representação no ponto central de máxima clareza e foco estreito da atenção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A apercepção, então, é uma &#039;&#039;&#039;manifestação primordial da vontade&#039;&#039;&#039;, funcionando como o princípio dinâmico que dá direção e estrutura tanto à experiência quanto ao movimento. Além disso, a apercepção pode ser ativa, que é quando o sujeito deliberadamente seleciona onde focará sua atenção, ou passiva, quando é o estímulo que se impõe no foco no sujeito. Por fim, a apercepção é o mecanismo central da operação da causalidade psíquica. É ela que unifica a mente em um sistema ativo, permitindo que a fusão de elementos resulte em sínteses criadoras com propriedades qualitativamente novas e imprevisíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Percepção Interna (innere Wahrnehmung) vs. Auto-observação (Selbstbeobachtung) ===&lt;br /&gt;
Para garantir o rigor procedimental e responder ao “desafio kantiano”, Wundt rejeitou a &#039;&#039;Selbstbeobachtung&#039;&#039;, que pode ser entendida como a &#039;&#039;&#039;auto-observação tradicional&#039;&#039;&#039; ou introspecção casual. Trata-se do método introspectivo puramente filosófico e especulativo que, segundo Wundt e outros, seria fonte de auto-ilusões. No momento em que o sujeito tenta observar ativamente o curso de seus próprios processos mentais complexos, a atenção que ele direciona para si mesmo altera, deforma ou suprime o próprio fenômeno em curso. Na reflexão puramente interna, é impossível garantir que o mesmo estado mental se repita de forma idêntica, impedindo a replicação intersubjetiva e a formulação de leis científicas gerais &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A solução científica é a &#039;&#039;innere&#039;&#039; &#039;&#039;Wahrnehmung&#039;&#039;, ou &#039;&#039;&#039;percepção interna&#039;&#039;&#039;, que permite a criação de um método científico baseado na repetição de estímulos externos controlados. No laboratório, o psicólogo replica condições experimentais que permitem a observação do aparecimento imediato do processo psíquico sob condições estáveis e previsíveis. O laboratório funciona, portanto, como o estabilizador do objeto psicológico, permitindo que a percepção interna atinja a precisão necessária para decompor a consciência em seus elementos fundamentais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O método de investigação da percepção interna é bem mais rigoroso. Em vez de pedir ao sujeito que reflita livremente sobre seus pensamentos, o experimentador utiliza aparelhos físicos de precisão, tais como [[Cronoscópio|cronoscópios]], pêndulos, compassos táteis, geradores de tons para controlar rigorosamente o início, a intensidade, a duração e a apresentação de estímulos externos predeterminados. Como o estímulo físico externo pode ser repetido e modificado arbitrariamente pelo pesquisador, as condições fisiológicas e sensoriais associadas à percepção interna são reproduzidas com exatidão. Com isso, o sujeito experimental pode antecipar sua atenção ao evento e captar com máxima precisão o surgimento da experiência imediata correspondente. O participante deveria ser rigorosamente treinado, muitas vezes revezando as funções de sujeito e pesquisador, e era instruído a fornecer respostas simples e verificáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Experimentos do Laboratório de Wundt ===&lt;br /&gt;
Vamos a alguns exemplos do que acontecia no laboratório de Wundt, para integrar melhor os conceitos já apresentados. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O primeiro experimento foi concebido originalmente para descrever a &#039;&#039;&#039;“equação pessoal” que aparecia nas medições dos astrônomos&#039;&#039;&#039;. O interesse neste tema surgiu quando se constatou que astrônomos treinados, utilizando os mesmos equipamentos, discordavam de suas medições que, à época, eram feitas manualmente com ajuda de instrumentos. De alguma forma, estas diferenças nas medições pareciam ter um tipo de padrão. Neste experimento, Wundt utilizava um aparelho chamado medidor de pensamento (&#039;&#039;Gedankenmesser&#039;&#039;) e, posteriormente, o pêndulo de complicação (&#039;&#039;Complicationspendel&#039;&#039;). O dispositivo consistia em um grande relógio de pêndulo que possuía uma agulha cruzada, como uma agulha de tricô, capaz de golpear fisicamente um pequeno sino em um ponto exato do seu arco de oscilação. O sujeito do experimento deveria olhar para a escala do pêndulo e tentar determinar a posição exata do ponteiro no momento em que ouvia o sino tocar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste experimento, Wundt descobriu que o sujeito sempre cometia um erro sistemático de registro, de aproximadamente um oitavo de segundo. Segundo ele, era impossível perceber visualmente a agulha e o som do sino ao mesmo tempo. Esse experimento seria uma &#039;&#039;&#039;prova laboratorial de que a consciência possui uma capacidade limitada e só consegue focar em uma única percepção por vez&#039;&#039;&#039;, como a diferença no marco da medição podia mostrar. A ilusão de simultaneidade devia-se apenas à rápida sucessão dos processos de atenção (apercepção).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os experimentos de &#039;&#039;&#039;tempo de reação&#039;&#039;&#039;, nosso segundo exemplo, constituíam o verdadeiro coração do trabalho em Leipzig na década de 1880. Wundt adaptou o método de subtração (&#039;&#039;Subtractiemethode&#039;&#039;), do fisiologista holandês F. C. Donders, para medir a velocidade de processos mentais complexos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o experimento de Wundt, é necessário compreender que, para ele, uma reação consciente envolvia: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- transmissão da sensação ao cérebro; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2- entrada do estímulo no campo amplo da consciência (percepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
3- entrada no foco ativo da atenção (apercepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
4- ato de vontade para liberar a resposta; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
5- execução motora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada um dessas partes exigem um certo tempo, pois são processos não imediatos. A depender de como as etapas do experimento são organizadas, diferentes tempos indicariam o acionamento maior ou menor de cada um deles. No experimento, o sujeito era treinado para responder pressionando uma tecla telegráfica ao ver um estímulo luminoso simples, como um &#039;&#039;flash&#039;&#039; de luz. Em seguida, vinha a tarefa mais difícil. Duas imagens eram apresentadas, um círculo branco sobre fundo preto ou vice-versa, e o sujeito só deveria reagir após identificar com clareza qual imagem havia aparecido. Ao subtrair o tempo da reação simples do tempo da reação complexa, Wundt calculava o “tempo de apercepção” ou discriminação. Na primeira tese de doutorado em psicologia experimental da história, Max Friedrich, que atuou no experimento, mostrou que o tempo de discriminação aumentava de acordo com a complexidade do estímulo visual. Por exemplo, o sujeito levava mais tempo para aperceber e discriminar uma sequência de seis dígitos do que de apenas um ou dois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O assistente de Wundt, Ludwig Lange, também colaborou no estudo ao desenvolver um experimento crucial. Ele demonstrou que os &#039;&#039;&#039;tempos de reação variavam drasticamente dependendo da preparação da atenção&#039;&#039;&#039; (no conceito moderno da palavra) do sujeito. Se a atenção estivesse focada no movimento de resposta que o dedo faria (reação muscular), o tempo era curto (cerca de 125 ms), pois funcionava como um “reflexo cerebral” que pulava a apercepção. Se o foco estivesse direcionado ao estímulo sensorial que iria surgir (reação sensorial), o tempo era cerca de 100 ms mais longo, pois envolvia o circuito completo da mente consciente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O terceiro experimento foi desenvolvido por Martin Trautscholdt, um dos estudantes de doutorado de Wundt. Ele estudava a &#039;&#039;&#039;associação de ideias&#039;&#039;&#039;. No seu estudo, o sujeito era instruído a pressionar uma tecla no momento exato em que uma ideia associada surgisse em sua consciência a partir de um estímulo visual ou auditivo. Ao subtrair o tempo que o sujeito levava para simplesmente reconhecer a palavra estimulante, Trautscholdt conseguiu quantificar o tempo gasto pela mente para realizar a conexão associativa propriamente dita que, segundo Trautscholdt, variava entre 706 e 874 ms. Wundt também adaptou a &#039;&#039;&#039;técnica de associação de palavras de Francis Galton&#039;&#039;&#039;, limitando a resposta do sujeito a apenas uma única palavra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O quarto e último experimento que será apresentado é relacionado a &#039;&#039;&#039;acordes musicais&#039;&#039;&#039;. Nele, sujeitos ouviam tons isolados no piano, que seriam as sensações puras, e depois os mesmos tons tocados simultaneamente. Os participantes descreviam em detalhes a transição afetiva de como a fusão física das frequências dava origem a um produto inteiramente novo na consciência. Este seria o sentimento estético de harmonia e o prazer decorrente de uma síntese criadora. Wundt conduzia vários experimentos em estética experimental, tal qual seu colega Fechner.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Arquitetura da Mente: Elementos, Fusão e Síntese Criadora ===&lt;br /&gt;
Segundo Wundt, &#039;&#039;&#039;a experiência pode ser decomposta em elementos simples&#039;&#039;&#039;, que incluem as sensações e os sentimentos simples. Os &#039;&#039;&#039;sentimentos&#039;&#039;&#039;, por sua vez, são entendidos a partir da &#039;&#039;&#039;teoria tridimensional dos sentimentos&#039;&#039;&#039;, onde eles se distribuem em um espaço qualitativo entre os polos prazer/desprazer (&#039;&#039;Lust-Unlust&#039;&#039;), tensão/relaxamento (&#039;&#039;Spannung-Lösung&#039;&#039;) e excitação/depressão (&#039;&#039;Erregung-Beruhigung&#039;&#039;). A primeira é a mais evidente, se refere à avaliação afetiva primária da experiência. A segunda se relaciona ao esforço da atenção ou à preparação interna da mente. Já a terceira está relacionada ao nível de ativação biológica e psicológica do organismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esses aspectos todos são organizados através do mecanismo de &#039;&#039;&#039;fusão&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Verschmelzung&#039;&#039;), onde as qualidades elementares se fundem em complexos psíquicos. O conceito central aqui é o princípio da &#039;&#039;&#039;síntese criadora&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;schöpferische Synthese&#039;&#039;). Ao contrário do associacionismo britânico, Wundt afirma que o todo resultante possui propriedades que não estão contidas na mera soma das partes. Essa síntese não é um processo mecânico passivo, mas um ato aperceptivo ativo, ou seja, vinculado à vontade. Na mente humana, a combinação de elementos gera um valor novo e qualitativamente superior, marcando a distinção fundamental entre a causalidade psíquica e a mecânica física.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em termos simples, a síntese criadora estabelece que os complexos psíquicos, como representações, sentimentos compostos e afetos, embora formados pela união de elementos simples (sensações e sentimentos simples), possuem características qualitativas inteiramente novas que não pertencem a nenhum de seus elementos constituintes isolados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fusão é o processo ativo e primário de integração psíquica. É através dela que os elementos sensoriais e afetivos brutos são ativamente sintetizados pela mente para dar origem a uma nova unidade psicologicamente complexa. A fusão é a geradora da síntese criadora. Para Wundt, a síntese criadora é a prova cabal da causalidade psíquica. Ela mostra que os fenômenos mentais obedecem a leis de conexão e geração próprias que não se ajustam às leis da física ou da fisiologia mecânica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Observemos isso com um exemplo já apresentado, sobre a música. Se você tocar no piano as notas Dó, Mi e Sol isoladamente, você terá apenas a experiência de três sensações auditivas distintas. No entanto, quando essas notas são tocadas simultaneamente, a fusão de seus elementos gera na consciência uma experiência qualitativamente nova, que seria um acorde musical. O sentimento de harmonia e a qualidade estética do acorde são um produto da síntese criadora, pois não existiam em nenhuma das notas isoladas e surgem puramente da atividade unificadora da mente sobre o estímulo físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Paralelismo Psicofísico e Causalidade Psíquica ===&lt;br /&gt;
O paralelismo psicofísico foi um dos conceitos mais importantes e debatidos no século XIX durante o processo de fundação da psicologia científica. Ele surgiu como uma alternativa teórica para solucionar o clássico problema mente-corpo. O conceito foi formulado de forma a tanto o dualismo substancial, que dividia o ser humano em duas substâncias isoladas cuja forma de interação era desconhecida, quanto o materialismo reducionista, que reduzia a mente a uma mera secreção cerebral ou processo físico ou fisiológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para &#039;&#039;&#039;Fechner&#039;&#039;&#039;, o &#039;&#039;&#039;paralelismo&#039;&#039;&#039; era a manifestação de um monismo neutro, ou teoria de duplo aspecto. Ele defendia que a matéria (corpo) e o espírito (mente) não são substâncias diferentes, mas sim dois modos de aparência ou perspectivas distintas de uma única e mesma realidade subjacente, teoria sobre o qual fundamental grande parte de seu projeto científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt também adotou o termo &#039;&#039;&#039;paralelismo psicofísico&#039;&#039;&#039;, mas realizou uma redefinição epistemológica radical do conceito, visando se afastar da metafísica. Ele rejeitava categoricamente qualquer tentativa de transformar o paralelismo em uma doutrina ontológica sobre a natureza última da realidade, transformando-o estritamente um postulado metodológico e heurístico indispensável para a investigação científica. Os processos mentais não sejam reduzidos a processos fisiológicos ou neurais, pois a consciência obedece a leis de conexão próprias, como a causalidade psíquica, que não podem ser explicadas pelas leis da mecânica cerebral.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Psicologia Individual e Völkerpsychologie: dois métodos para manifestações da experiência ===&lt;br /&gt;
A arquitetura metodológica de Wundt responde ao desafio de investigar processos mentais que variam em complexidade. Ele estabelece que &#039;&#039;&#039;a psicologia deve ser compreendida como o fundamento das ciências humanas&#039;&#039;&#039; ou ciências do espírito (&#039;&#039;Geisteswissenschaften&#039;&#039;). A &#039;&#039;&#039;Psicologia Individual&#039;&#039;&#039;, na concepção de Wundt, foca nos processos elementares, que incluem sensação e percepção, que são passíveis de controle rigoroso em laboratório através da manipulação de estímulos externos e pelas técnicas da [[introspecção]] experimental e estudo da experiência interna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entretanto, Wundt reconhece a insuficiência do modelo experimental para os processos mentais superiores, como o pensamento e a linguagem, que são historicamente condicionados. Para estes, ele propõe a &#039;&#039;Völkerpsychologie&#039;&#039; , ou &#039;&#039;&#039;Psicologia dos Povos&#039;&#039;&#039;, dedicada ao estudo dos produtos das &#039;&#039;geistige Gemeinschaften&#039;&#039; (comunidades espirituais, no sentido das ciências do espírito, ou coletividades). Wundt vai apontar a linguagem, o mito e os costumes (&#039;&#039;Sitten&#039;&#039;) não são apenas dados culturais, mas objetivações de leis psíquicas superiores, inacessíveis à introspecção de laboratório. Eles seriam produtos da experiência humana nas suas formas mais avançadas e superiores e, por não serem passíveis de experimentação, exigem uma outra abordagem. Essas duas vertentes, experimental e histórico-cultural, não são divergentes, mas sim o projeto integrador que permite apreender a mente tanto em sua base sensório-motora quanto em suas manifestações espirituais complexas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As investigações da psicologia dos povos focavam na alma do povo (&#039;&#039;Volksseele&#039;&#039;), definida como a realidade factual dos processos psíquicos que surgem em uma comunidade por meio da interação das energias mentais dos indivíduos. Essa “mente coletiva” se tornava um objeto tangível e investigável ao longo da história em três grandes produtos culturais. O primeiro é a &#039;&#039;&#039;linguagem&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Die Sprache&#039;&#039;), ferramenta pela qual o pensamento é estruturado e externalizado. Já o &#039;&#039;&#039;mito e a religião&#039;&#039;&#039; são as formas como a imaginação e os sentimentos humanos coletivos projetam suas explicações sobre o cosmos e a existência. Os &#039;&#039;&#039;costumes&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Sitten&#039;&#039;) e o &#039;&#039;&#039;direito&#039;&#039;&#039;, por sua vez, são  as regras de conduta coletiva que nascem de atos voluntários e impulsos compartilhados, padronizando as interações sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não podia realizar experimentos com culturas inteiras, Wundt operava por meio da pura &#039;&#039;&#039;observação retrospectiva e comparativa dos produtos mentais&#039;&#039;&#039;, ou seja, analisando os objetos já criados e usados ou em uso por diferentes povos e culturas, anotando suas diferenças e semelhanças. Wundt juntava, lia e analisava de forma exaustiva relatos históricos, estudos filológicos, dicionários, mitologias comparadas, códigos de leis e descrições etnológicas e antropológicas de povos ao redor do globo, ou seja, utilizava dos estudos de diferentes ciências humanas e sociais para extrair as leis psicológicas gerais do desenvolvimento mental humano por trás dessas manifestações. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seu objetivo era mapear como a mente coletiva evoluía do simples para o complexo ao longo das eras, numa abordagem genética e desenvolvimentista e reconstruir, de forma retrospectiva, as forças dinâmicas, os afetos, os impulsos (&#039;&#039;Triebe&#039;&#039;) e os processos de síntese criadora (melhor discutida mais adiante) que estiveram ativos na mente das pessoas no momento de sua formação. Wundt dedicou os últimos 20 anos de sua vida (de 1900 a 1920) quase exclusivamente a esse empreendimento monumental, escrevendo dez volumes sobre o assunto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O que Aconteceu Depois? ===&lt;br /&gt;
No final de sua vida, Wilhelm Wundt era visto de forma ambivalente. Enquanto mantinha o prestígio de fundador da psicologia científica, uma nova geração de psicólogos que buscava se firmar, via como um “pai tribal”, cujo longo domínio de mais de quatro décadas estava desgastado. Ele se tornou o alvo de críticas severas e passou a ser tratado por muitos como o ícone de um passado superado e falido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante a Primeira Guerra Mundial e nos anos que a sucederam, a reputação internacional de Wundt sofreu graves danos. Influenciado por seu filho Max, Wundt adotou posturas políticas ultranacionalistas, chegando a usar a &#039;&#039;Völkerpsychologie&#039;&#039; de maneira tendenciosa para criticar os inimigos da Alemanha. Essa postura inflamou um forte preconceito anti-alemão, especialmente nos Estados Unidos, onde ex-alunos e intelectuais americanos passaram a ver ele como uma mente maligna e autoritária, acelerando a rejeição de suas obras em solo estrangeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A maior frustração de Wundt no fim da vida ocorreu no âmbito acadêmico alemão. Ele sempre defendeu que a psicologia era uma ciência propedêutica e uma aliada indispensável da filosofia, devendo permanecer integrada a esta. No entanto, os filósofos acadêmicos de sua época, especialmente os neokantianos e fenomenologistas, rejeitaram veementemente o  que chamavam de “&#039;&#039;&#039;[[psicologismo]] de Wundt&#039;&#039;&#039;”, ou seja, a redução da lógica e da validade do conhecimento a fatos psicológicos. Em 1913, após a contratação de um psicólogo experimental para a cadeira de filosofia em Marburg, mais de cem professores de filosofia assinaram um &#039;&#039;&#039;protesto público exigindo que psicólogos fossem banidos dos departamentos de filosofia&#039;&#039;&#039;. Esse movimento resultou no progressivo divórcio institucional entre a psicologia e a filosofia, uma separação que Wundt lamentou e combateu até a sua morte em 1920.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir da década de 1890, uma forte onda de positivismo, inspirada pela filosofia de Ernst Mach e Richard Avenarius, varreu a psicologia experimental. Jovens psicólogos, incluindo os assistentes do próprio Wundt, rejeitaram conceitos fundamentais do sistema de Leipzig, como a apercepção, a causalidade psíquica e a síntese criadora, tomando eles como metafísica, exatamente o oposto do que desejava seu formulador. Eles preferiam um modelo elementarista e reducionista, focado na descrição de relações funcionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos EUA, a influência da teoria da evolução de Darwin deslocou o interesse da estrutura da consciência para as suas funções de adaptação ao meio, o chamado funcionalismo. Com o surgimento e o fortalecimento do behaviorismo e a eliminação da mente como objeto de estudo, o voluntarismo de Wundt perdeu qualquer espaço. Na Europa, a própria psicologia da Gestalt ergueu-se combatendo o elementarismo que havia sido falsamente associado a Wundt. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O golpe final veio após a Primeira Guerra Mundial, quando a Alemanha mergulhou em colapso econômico. Diante da “&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;”, os pesquisadores precisaram provar a utilidade prática da ciência que praticavam para sobreviver, o que já acontecia nos EUA, voltando-se para a psicologia militar, industrial, educacional e clínica. &#039;&#039;&#039;Wundt, que sempre desprezou a psicologia aplicada&#039;&#039;&#039;, teria visto seu sistema dinâmico de laboratório perder todo o fôlego diante das pressões pragmáticas da época, ainda que mantivesse sua fama e sua alcunha maior. Ironicamente, um dos principais defensores da psicologia puramente laboratorial, foi quem escreveu a obra mais bem-sucedida de história da psicologia, servindo de parâmetro para o campo por décadas, ou seja, [[Edwin Boring]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia Científica na Inglaterra ==&lt;br /&gt;
O surgimento da psicologia na Inglaterra seguiu um caminho bastante distinto do modelo laboratorial alemão, focado na introspecção e na busca de leis universais. A psicologia britânica formou-se na intersecção de duas grandes forças intelectuais, que são as filosofias empirista e associacionista, e a biologia evolutiva. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No &#039;&#039;&#039;empirismo&#039;&#039;&#039;, pensadores como John Locke postularam que a mente humana nasce como uma tabula rasa ou uma folha em branco, e que absolutamente todo o conhecimento deriva da experiência sensorial. No &#039;&#039;&#039;associacionismo&#039;&#039;&#039;, filósofos como David Hume, James Mill e John Stuart Mill afirmavam processos mentais complexos são formados pela associação contínua de ideias simples e sensações, governadas por leis lógicas. tais como similaridade, contiguidade e causa e efeito. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A despeito de sua rica tradição filosófica, o maior divisor de águas para a ciência britânica foi a publicação de [[A Origem das Espécies (livro)|A Origem das Espécies]], em 1859. A teoria da evolução natural de Darwin, trouxe novas e profundas questões para o estudo da mente britânica. Se humanos e animais compartilham ancestrais comuns, argumentava-se que deveria haver uma continuidade não apenas física, mas também mental entre as espécies, conectando a psicologia ao estudo da zoologia, dando origem à &#039;&#039;&#039;Psicologia Comparada&#039;&#039;&#039;. Além disso, a mente e a consciência deixaram de ser vistas apenas como objetos metafísicos e passaram a ser estudadas como ferramentas biológicas de adaptação, que evoluíram porque ajudavam o organismo a sobreviver em seu ambiente, sendo fundamental para a criação do funcionalismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a validação da biologia evolutiva, o estudo da inteligência animal explodiu no Reino Unido, [[George Romanes]] foi um dos primeiros a tentar sistematizar o comportamento animal. Contudo, seu método anedótico foi duramente criticado por ser antropomórfico, ou seja, por atribuir pensamentos e emoções humanas complexas a animais. Seu colega [[Conwy Lloyd Morgan]] introduziu mais rigor científico à área através do que ficou mundialmente conhecido como o &#039;&#039;&#039;Cânone de Morgan&#039;&#039;&#039;, ou [[princípio da parcimônia]]. A regra dizia que um comportamento animal não deve ser interpretado como resultado de uma faculdade mental superior se puder ser explicado por um processo psicológico mais básico, como o instinto ou o aprendizado por tentativa e erro. Apesar de a perspectiva de ambos ter sido abandonada, a Psicologia Comparada se tornou um dos principais ramos da psicologia moderna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Francis Galton e a Psicologia Diferencial ===&lt;br /&gt;
[[Francis Galton]] (1822-1911) foi um cientista e polímata britânico de inteligência extraordinária, com um QI estimado por volta de 200, algo extremamente raro, além de ser primo de Charles Darwin. Galton é amplamente reconhecido como pioneiro ao incorporar o estudo sistemático das diferenças individuais e da herança mental na nova psicologia, uma área que era ignorada ou rejeitada por pioneiros experimentalistas como Wilhelm Wundt.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Galton se interessou pela medição das variações da inteligência e das capacidades humanas. Ele fundou um [[Laboratório de Galton|&#039;&#039;&#039;laboratório antropométrico&#039;&#039;&#039;]] onde testou a acuidade sensorial, a força e os tempos de reação de milhares de pessoas. Além disso, baseando-se na premissa empirista de John Locke de que todo o conhecimento vem da percepção, Galton assumiu que os indivíduos mais inteligentes seriam aqueles com as capacidades sensoriais e motoras mais aguçadas. Ele foi o inventor do conceito de testes mentais, termo posteriormente cunhado por seu aluno dos EUA, [[James McKeen Cattell]]. Galton também desenvolveu o &#039;&#039;&#039;método experimental de associação de palavras&#039;&#039;&#039;, medindo o tempo de reação mental e demonstrando a enorme influência das experiências da infância e do inconsciente no pensamento adulto, um trabalho que impressionou profundamente [[Sigmund Freud]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também foi um dos primeiros a fazer uso amplo do questionário psicológico para investigar imagens mentais, constatando para sua própria surpresa que a maioria dos cientistas relatava ausência de imagens mentais nítidas, em contraste com relatos muito mais detalhados fornecidos por mulheres e crianças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para conduzir medições em larga escala, ele inventou vários instrumentos clássicos e, para analisar suas enormes bases de dados, &#039;&#039;&#039;Galton desenvolveu conceitos estatísticos fundamentais&#039;&#039;&#039;, como a correlação. Essa tradição quantitativa foi depois aperfeiçoada por outros britânicos, como [[Charles Spearman]], criador da análise fatorial e do conceito de [[fator g de inteligência geral]], fundando a base da psicometria moderna. e influenciando de forma decisiva a psicologia dos testes nos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Conclusão ==&lt;br /&gt;
A história da psicologia é definida pelo paradoxo de ter um “longo passado” e uma “curta história”, podendo ir do De Anima de Aristóteles até a a fundação do laboratório de Wilhelm Wundt na Universidade de Leipzig, em 1879. A psicologia, assim, mostra que tem uma rica história, com muitos personagens, conceitos e acontecimentos importantes, de modo que qualquer narrativa sobre sua composição elegerá heróis e vilões, dará mais relevância para alguns, menos para outros e o esquecimento para a maioria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Immanuel Kant foi uma figura central na composição da psicologia científica. Ele propôs que a mente humana é um agente ativo que organiza o conhecimento através de estruturas &#039;&#039;a priori&#039;&#039;, tais como o tempo, o espaço e as categorias do entendimento. Assim, ele introduziu o conceito de “sujeito transcendental” como a estrutura universal que garante a unidade da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Kant impôs um “veto” ao status científico da psicologia, defendendo a necessidade de uma base na matematização. A superação desse veto ocorreu através da “naturalização” de Kant pela fisiologia. Johannes Müller, com a Teoria das Energias Nervosas Específicas, mostrou que a sensação é mediada pelo sistema nervoso, não sendo uma cópia fiel do mundo externo. Hermann von Helmholtz avançou essa ideia ao postular que as estruturas a priori de Kant seriam, na verdade, características da anatomia e fisiologia humanas. Ele propôs o conceito de “inferências inconscientes” para explicar como interpretamos dados sensoriais. Nesse contexto, Friedrich Albert Lange defendeu uma “psicologia sem alma”, rejeitando a metafísica e argumentando que o estudo científico deve focar apenas nas aparências e fenômenos observáveis, reduzindo o objeto da psicologia a dados empíricos e correlações fisiológicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner, por sua vez, foi crucial ao oferecer a base matemática e experimental que faltavam, por meio da Lei de Weber-Fechner. Ele também padronizou e melhorou métodos para o estudo dos limites e constantes sensoriais, que se tornaram a base metodológica da psicologia experimental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt não apenas fundou um laboratório, como também arquitetou um sistema complexo. Para Wundt, o objeto da psicologia é a experiência imediata, criando conceitos como voluntarismo, causalidade psíquica, apercepção, entre outros. Além disso, ele também criou a psicologia dos povos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente do foco laboratorial alemão, a psicologia britânica foi moldada pela filosofia empirista e pela teoria da evolução de Charles Darwin. Neste contexto, Galton ganha destaque, por ter fundado o laboratório antropométrico, inventado ideias que levaram aos “testes mentais”, pelo uso de estatísticas no estudo da psicologia e ter influenciado o desenvolvimento da psicometria e a análise fatorial com Charles Spearman, consolidando uma tradição que focava mais na variabilidade genética e na inteligência do que na estrutura da consciência em si.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A história da psicologia tem origens ricas e diversas, e sua difusão implicou em muitas transformações em variadas formas. Qualquer narrativa sobre o surgimento da psicologia científica terá limites e potencialidades, devido às escolhas epistemológicas, filosóficas e de acontecimentos históricos. Este material defende que a psicologia científica teve origem em um elementos específico da fisiologia alemã que uniu-se a um movimento filosófico de retorno a Kant no século XIX. Uma vez fundada, a psicologia científica abriu o caminho para outras ideias e formas da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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SMITH, Roger. Does the history of psychology have a subject? &#039;&#039;&#039;History of the Human Sciences&#039;&#039;&#039;, v. 1, n. 2, p. 147-177, 1988. Disponível em: https://doi.org/10.1177/095269518800100201&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_surgimento_da_psicologia_cient%C3%ADfica&amp;diff=1756</id>
		<title>O surgimento da psicologia científica</title>
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		<updated>2026-09-07T15:06:51Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* Hermann von Helmholtz e o Neokantismo Psicofisiológico */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto [[Portal História da Psicologia]]) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um longo passado, uma curta história ==&lt;br /&gt;
A psicologia tem um longo passado, mas uma curta história. Esta é uma frase muito famosa no campo da história da psicologia, tendo sido consagrada por Hermann Ebbinghaus, um psicólogo alemão pioneiro no estudo da memória, ainda no século XIX. A frase é exemplar e muito usada em debates sobre a historiografia da psicologia, e isto revela como é difícil dizer quando a psicologia teve início. Ela tem um &#039;&#039;&#039;longo passado&#039;&#039;&#039;, porque os temas que consideramos hoje como parte da psicologia aparecem muitas vezes na filosofia, na religião, em saberes tradicionais, entre muitos outros lugares, ao longo da história. É difícil estabelecer qual &#039;&#039;&#039;o objeto de estudo da história da psicologi&#039;&#039;&#039;a, assim como é difícil, ao longo da história, &#039;&#039;&#039;separar o que é  psicologia daquilo que não é psicologia&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse longo passado pode remontar, por exemplo, à Antiguidade, com o tratado De Anima, de Aristóteles, que escreveu muito antes de se imaginar o próprio conceito de ciência moderna e, menos ainda, de uma psicologia moderna. Outros podem colocar o início da psicologia com Descartes, que elaborou a máxima, também famosa, “penso, logo existo”. Isso mostra que &#039;&#039;&#039;os objetos de estudo da psicologia são historicamente construídos&#039;&#039;&#039;, ou seja, emergem a partir dos locais ou pessoas que atuaram na psicologia, como na medida das diferenças individuais, as dinâmicas de controle num laboratório, nas práticas de psicoterapia, entre muitas outras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se cada historiador localiza o passado da psicologia em lugares diferentes no tempo e no espaço, a &#039;&#039;&#039;história da psicologia&#039;&#039;&#039;, por seu lado, tem uma definição bem mais estável e curta. Nos anos 1980, historiadores reunidos num congresso nos EUA definiram que &#039;&#039;&#039;a psicologia científica começou em 1879, quando [[Wilhelm Wundt]] fundou o primeiro laboratório de psicologia experimental na Universidade de Leipzig, na Alemanha&#039;&#039;&#039;. Essa definição está consagrada e é quase um consenso, porém, não foi tão simples estabelecê-la. Alguns advogavam pelo pioneirismo de outro alemão, [[Gustav T. Fechner|Gustav Theodor Fechner]], criador da chamada [[psicofísica]], de onde vieram muitos dos experimentos e ideias de Wundt. Outros ainda queriam que [[William James]], um filósofo e psicólogo americano, fosse reconhecido como fundador, pois seu laboratório de psicologia era ainda mais antigo que o de Wundt que, no final, venceu essa disputa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Resumindo, a psicologia possui um “longo passado”, com raízes filosóficas e religiosas milenares e altamente diversas, e uma “curta história” como disciplina científica, cujo marco está situado em 1879, com a fundação do primeiro laboratório experimental por Wilhelm Wundt, na Alemanha. Pelo menos é assim que, atualmente, a grande maioria dos historiadores entende a questão, uma das poucas em que há algum conceito neste campo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Presentismo ===&lt;br /&gt;
Mas o que seriam essas psicologias anteriores a essa psicologia científica? Para entender melhor essa história, é preciso refletir para superar, da melhor forma, um problema chamado &#039;&#039;&#039;presentismo&#039;&#039;&#039;, ou seja, julgar, entender, interpretar e analisar o passado com a visão do presente. Não é apenas uma questão de olhar para as pessoas do passado e superar o pensamento de que elas eram “ignorantes”, pois “não tinham o conhecimento que temos hoje”. É entender também que, no passado, haviam formas de conhecimentos diferentes, bem como visões de mundo diferentes da atual. Este é um problema fascinante. Muitos dos consensos contemporâneos, coisas que entende-se totalmente óbvias, eram vistas de forma completamente diferente no passado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo interessante é o &#039;&#039;&#039;conceito de atenção&#039;&#039;&#039;. Hoje, ela é um tema tão discutido e consensual que pouco se reflete sobre seu significado. Atualmente, seria algo como centralizar as faculdades mentais ou talvez a percepção em um ponto específico. Pode-se ouvir as pessoas reclamando da própria falta de atenção, que “não conseguem prestar atenção”, ou que nunca “mantém a atenção”, e até mesmo existem medicamentos para resolver esse problema. Contudo, a palavra “atenção” nem sempre significou o que entendemos hoje. Para [[Santo Agostinho]], atenção era apenas o ato de passar de um pensamento para outro. [[René Descartes|Descartes]] tinha um conceito mais parecido com o contemporâneo, onde a atenção era mobilizada de forma voluntária para fixar e reter na memória coisas raras e extraordinárias que o entendimento considerava úteis. Na obra de [[John Locke|Locke]], a atenção é mencionada apenas de passagem, como um mero mecanismo auxiliar da retenção de memórias. A partir do momento em que a ciência passou a entender que a percepção depende da estrutura física e biológica do corpo, com a psicofísica e a fisiologia sensorial, já no século XIX, a visão passou a ser encarada como intrinsecamente incompleta, instável e condicionada pelo tempo. Nesse contexto, a atenção foi utilizada como um substituto pragmático para garantir a coerência do mundo percebido. Autores do final do século XIX, como [[Théodule Ribot]] e [[Max Nordau]], associaram os desvios ou a fraqueza da atenção a patologias psíquicas, comportamentos sociopáticos e teorias da “degeneração”. Para eles, uma atenção defeituosa deixava a mente à mercê de “associações caóticas”, gerando uma visão borrada e distorcida da realidade. Foi apenas na década de 1950 que a nossa compreensão contemporânea de atenção começou a se delinear, paralelamente aos estudos sobre os medicamentos desenvolvidos para tratar as suas disfunções.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma pessoa desavisada, que não está atenta às grandes diferenças entre as ideias e conceitos ao longo do tempo, poderia ler um trecho de Ribot, Santo Agostinho, Descartes e outros e achar que a atenção sobre a qual eles falam é a mesma coisa que entendemos hoje. O leitor estaria totalmente enganado, a ponto de não conseguir nem mesmo compreender o que estes pensadores queriam dizer. Em outras palavras, &#039;&#039;&#039;o esforço para entender as psicologia do passado passa também pelo esforço de entender como se pensava no passado, qual a visão que se tinha nesse passado&#039;&#039;&#039;. Parte do esforço do historiador é trazer esses aspectos de volta ao presente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O sujeito transcedental de Kant ==&lt;br /&gt;
A concepção de uma psicologia ocupada especificamente com a “mente” humana e suas operações começou a ganhar contornos modernos no século XVIII com o filósofo [[Christian Wolff]]. Ele dividiu a psicologia em [[Psicologia Empírica (livro)|&#039;&#039;&#039;Psicologia Empírica&#039;&#039;&#039;]], num livro publicado em  1732 e baseada na introspecção; e em &#039;&#039;&#039;Psicologia Racional&#039;&#039;&#039;, numa obra de 1734, dedicada a deduzir a natureza e a essência da alma, como sua imortalidade e imaterialidade, de forma puramente lógica e racional, independentemente da experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, o projeto de Wolff enfrentava um sério problema metodológico: a chamada observação interna ou [[introspecção]]. Quando se estuda um fenômeno natural, como a chuva, é necessário observar tudo que está envolvido com estee fenômeno, incluindo como as nuvens se formam, qual a umidade do ar, a intensidade dos raios solares, a direção dos ventos, entre muitos outros fatores. A questão é que todos estes aspectos são &#039;&#039;&#039;externos ao sujeito&#039;&#039;&#039;. Toda a ciência é feita dessa forma, observando, testando e analisando o mundo que está fora dos indivíduos. O problema está em estudar algo que é interno aos sujeitos. Não se pode observar diretamente o que se passa na cabeça de alguém, pelo menos não por enquanto. Contudo, é possível analisar o que se passa nas nossas próprias cabeças. Isso seria a &#039;&#039;&#039;introspecção&#039;&#039;&#039;, ou seja, o processo pelo qual adquirimos conhecimento sobre nossos próprios estados ou processos mentais Apesar de ser uma ideia interessante, fazer introspecção não era considerado algo muito científico. Entendia-se que “observar a si mesmo” distorcia os eventos mentais, pois o sujeito que observa e o objeto observado são o mesmo, o que impediria a neutralidade exigida pelo modelo científico então vigente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até a segunda metade do século XVIII, as teorias do conhecimento, que incluíam o empirismo e o racionalismo, compartilhavam a premissa de que o conhecimento era determinado pelo objeto a ser conhecido. A ideia era a de que objeto estava lá, esperando a melhor forma de ser conhecido. &#039;&#039;&#039;Kant&#039;&#039;&#039;, em sua obra [[Crítica da Razão Pura (livro)|Crítica da Razão Pura]] (1781), inverteu essa lógica de forma radical. Ele propôs que &#039;&#039;&#039;não é o conhecimento que se adequa aos objetos, mas são os objetos que são determinados pelo sujeito&#039;&#039;&#039;. O conhecimento passou a ser compreendido não como uma recepção passiva, mas como uma produção ativa do chamado sujeito transcendental, moldada por suas formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;sujeito transcendental&#039;&#039;&#039; em Kant não se refere propriamente a um indivíduo empírico ou psicológico, ou seja, alguém com personalidade e história pessoal. Pense no sujeito transcendental não como “você” (André ou Maria), mas como o “sistema operacional” universal da mente humana. Assim como um software organiza os dados que chegam do teclado, convertendo eles em coisas numa tela, o sujeito transcendental organiza os dados que chegam dos sentidos, como o tempo e o espaço, antes mesmo de termos consciência deles.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o sujeito transcedental, é preciso fazer um importante exercício de abstração, visando conseguir entender algo que está além da experiência existencial individual e entender aquilo que molda essa própria experiência. O sujeito transcedental de Kant é, segundo ele próprio, uma condição universal de possibilidade para qualquer conhecimento. Em outras palavras, é algo que todas as pessoas possuem e é a forma que o ser humano tem para saber as coisas. É a estrutura ativa da mente que organiza a experiência antes mesmo que possamos refletir sobre ela. Esse sujeito é o princípio unificador que garante a coerência dos dados sensoriais, transformando o caos de impressões oriundas dos órgãos dos sentidos em uma experiência significativa e estruturada. Através das formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039; da sensibilidade (espaço e tempo) e das categorias do entendimento, o sujeito transcendental “constrói” o objeto conhecido. Ele é o “Eu penso” cartesiano, que deve poder acompanhar todas as nossas representações, conferindo unidade à consciência. Em suma, &#039;&#039;&#039;não conhecemos o mundo como ele é em si, mas como o sujeito transcendental o molda e o organiza para que se torne inteligível para nós&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Immanuel Kant revolucionou a teoria do conhecimento ao postular que a mente humana não funciona como um receptáculo passivo de impressões sensoriais, mas sim como um agente ativo dotado de estruturas constitutivas a priori que organizam, unificam e interpretam a matéria-prima da experiência. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas ideias de Kant, o processo de constituição do conhecimento dos fenômenos que chegam para nossa mente a partir dos órgãos dos sentidos articula-se em três instâncias fundamentais. A primeira são as formas puras da sensibilidade, depois vem os conceitos puros do entendimento, ou seja, as categorias e, por fim, a unidade sintética da apercepção. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas &#039;&#039;&#039;formas puras da sensibilidade&#039;&#039;&#039;, antes mesmo que o intelecto possa aplicar qualquer conceito, o caos das sensações brutas é necessariamente ordenado no espaço e no tempo, que não são propriedades das coisas em si, mas intuições puras da sensibilidade que funcionam como os eixos coordenados onde os fenômenos são dados. Ou seja, as informações dos sentidos já chegam num espaço e num tempo para o resto do processo de constituição do conhecimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma vez colocados no espaço e estruturados numa sucessão e simultaneidade temporal, esses dados passam pelas &#039;&#039;&#039;doze categorias do entendimento puro&#039;&#039;&#039;. Essas categorias se dividem em &#039;&#039;&#039;quatro classes de tríades&#039;&#039;&#039;: quantidade, qualidade, relação e modalidade. As &#039;&#039;&#039;categorias&#039;&#039;&#039; representam as regras lógicas puras, fundamentais e necessárias para tornar qualquer objeto da experiência inteligível. Elas podem ser observadas de forma simplificada na tabela a seguir:&lt;br /&gt;
{| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot;&lt;br /&gt;
|Classe de Categorias&lt;br /&gt;
|Categoria 1 (Tese)&lt;br /&gt;
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|-&lt;br /&gt;
|1. Quantidade&lt;br /&gt;
|Unidade&lt;br /&gt;
|Pluralidade&lt;br /&gt;
|Totalidade&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|2. Qualidade&lt;br /&gt;
|Realidade&lt;br /&gt;
|Negação&lt;br /&gt;
|Limitação&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|3. Relação&lt;br /&gt;
|Substância e Acidente&lt;br /&gt;
|Causa e Efeito&lt;br /&gt;
|Ação Recíproca&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|4. Modalidade&lt;br /&gt;
|Possibilidade (Impossibilidade)&lt;br /&gt;
|Existência (Não-existência)&lt;br /&gt;
|Necessidade (Contingência)&lt;br /&gt;
|}&lt;br /&gt;
As categorias de quantidade dizem respeito à extensão em que aplicamos um conceito aos objetos, ou seja, “quantos” elementos estamos considerando no juízo. Na unidade, temos um único objeto. Na pluralidade, trazemos vários objetos do mesmo tipo para um conjunto. Já a totalidade surge quando pensamos a pluralidade como uma unidade completa.Vejamos um exemplo. Quando um observador vê uma maçã, aplica a categoria da unidade, ou seja, ele viu uma maçã. Ao ver várias maçãs espalhadas na mesa, apreende uma pluralidade, ou seja, ele tem um conceito de “maçãs” e as vê como um conjunto. Porém, ao formular uma lei universal, aplica-se a totalidade, que engloba toda a pluralidade possível sob uma única regra conceitual, ou seja, todas as maçãs são frutas e existem vários tipos de maçãs.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade trata da atribuição de um predicado, ou seja, se a experiência afirma algo, nega algo ou se situa num limite conceitual. Em outras palavras, é a forma da mente definir “como algo é”. A realidade é afirmação de que um predicado pertence a um ser, ou seja, ele é alguma coisa. A negação é a afirmação de que o predicado não pertence a algo, ou seja, um “não-ser”. A limitação é a síntese das duas anteriores. Atribui-se uma negação como se fosse uma realidade, excluindo aquilo de uma esfera, mas deixando infinita a esfera onde ele pode estar. Vamos a um exemplo. Dizer “O homem é mortal” aplica a categoria de realidade (afirma-se um atributo). Dizer “O homem não é mortal” aplica a negação. No entanto, dizer “A alma é não-mortal (imortal)” é um juízo infinito clássico de Kant que evoca a limitação. Não sabemos o que a alma é de fato, mas a limitamos removendo ela da esfera das coisas mortais, o que a situa num campo aberto e indeterminado de possibilidades.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Consideradas por muitos comentadores como o coração da epistemologia kantiana, as categorias de relação definem como os objetos se relacionam entre si e como permanecem ou mudam no tempo. Substância e Acidente referem-se àquilo que permanece através da mudança (substância) e as propriedades que são transitórias, ou seja, que mudam (acidentes). Um exemplo disso é a água de um lago que congela no inverno. Seu estado físico muda do líquido para o sólido, que é o acidente, mas a matéria da água em si, a substância, permanece inalterada. Sem a categoria de substância, nossa mente registraria apenas uma sucessão caótica de imagens, sem reconhecer que se trata da mesma “coisa” sofrendo alteração. A Causa e Efeito é a relação estritamente necessária onde um evento segue outro no tempo. O exemplo de Kant, em resposta ao filósofo David Hume, é sobre o sol que ilumina uma pedra, e a pedra esquenta. Hume diria que inferimos causalidade por mero hábito psicológico, ou seja, não há conexão necessária, apenas uma observação e uma intuição. Kant argumenta que o próprio fato de distinguirmos uma sucessão objetiva de eventos exige que a mente aplique a categoria a priori de Causalidade. A mente “dita” a regra estrutural de que o aquecimento necessariamente sucede a irradiação solar, colocando uma como causa da outra. Já na Ação Recíproca (Comunidade), tem-se a relação simultânea de mútua influência entre múltiplas substâncias no espaço como, por exemplo, a interação gravitacional entre a Terra e a Lua. Elas não são eventos sucessivos no tempo, mas existem simultaneamente e influenciam-se de modo contínuo e bidirecional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, temos as categorias modais. Eles são os Postulados do Pensamento Empírico e não acrescentam nenhum atributo novo ao objeto em si, mas definem exclusivamente como esse objeto ou evento se relaciona com o sujeito cognitivo e suas faculdades. No caso da Possibilidade-Impossibilidade, é algo que concorda com as condições formais, que são as condições lógicas e puras da experiência. No binômio Existência-Não-existência, é algo que está dado materialmente na intuição empírica, ou seja, nos sentidos. Já na Necessidade-Contingência, é algo cuja conexão com a experiência empírica está determinada por condições universais. Vamos a um exemplo. Um dragão voador de escamas verdes ou um triângulo cujos ângulos somam 180 graus são conceitos logicamente possíveis, ou seja, não envolvem contradição formal. No entanto, apenas um objeto sensorialmente verificável, como a caneta sobre a sua mesa, tem a marca da existência. Já o fato de que um objeto massivo abandonado no ar cairá em direção ao solo é uma necessidade ditada pelas leis empíricas que o entendimento prescreve à natureza, ou seja, atribui a ele.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Acima dessas estruturas, Kant postulou a apercepção ou apercepção transcendental, que é o processo pelo qual a mente unifica de forma ativa diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Sem a apercepção, a mente seria apenas um amontoado de estímulos desconectados. Assim, a aperceção a base da própria consciência humana. Devido a essa complexa mediação ativa da mente, Kant estabeleceu uma distinção insuperável entre o mundo externo e a mente. Isso significa dizer que nós não temos acesso à “coisa em si”, ou noumenon, mas apenas a como as coisas nos aparecem, ou seja, na forma de fenômeno, já devidamente processadas pelo nosso aparato cognitivo. Neste sentido, É importante distinguir o “Eu empírico”, ou seja, aquilo que observamos em nós mesmos, como nossa personalidade ou o nosso humor, do “Eu transcendental”, a pura unidade lógica do “Eu penso”. Ademais, a apercepção transcendental não é uma faculdade psicológica de “prestar atenção”, mas uma exigência lógica. Para que uma experiência seja minha, o “Eu penso” deve poder acompanhar todas as minhas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Os Vetos Kantianos à Psicologia Científica ===&lt;br /&gt;
Apesar de ter colocado o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que conhece, no centro do universo epistemológico, Kant foi muito crítico sobre a possibilidade de a psicologia se tornar uma ciência. Em sua obra Princípios metafísicos da ciência da natureza, de 1786, ele negou a possibilidade de uma psicologia científica, pois afirmou que uma disciplina só poderia Sê-lo se possuísse uma elaboração racional capaz de fornecer leis formuladas matematicamente, o que poderia ser chamado de veto matemático. A psicologia falhava nesse critério porque os eventos mentais possuem apenas a dimensão do tempo, sem nenhuma extensão espacial, o que impossibilitaria a sua matematização. Para Kant, assim como o espaço é a forma do sentido externo, o tempo é a forma pura do sentido interno. Como os estados mentais só se dão na sucessão do tempo (sem extensão espacial), eles não formam figuras nem podem ser medidos geometricamente, inviabilizando a matemática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Kant apontou a impossibilidade de isolar diferentes pensamentos para a realização de experimentos controlados. Assim, como não podemos acessar o que seria o conteúdo da mente, cercá-la e analisá-la como ela é em seu estado bruto ou natural, qualquer experimentação seria impossível, o que poderia ser chamado de veto do objeto. Por fim, ele reforçou a crítica que já era direcionada a Wolff, aquele do começo dessa seção. A introspecção como método, segundo Kant, seria inviável porque a própria tentativa de observar um fenômeno interno altera o fenômeno, o veto metodológico. Se tento observar minha própria tristeza, por exemplo, o fenômeno original desaparece e se transforma em “tristeza-sendo-observada-por-mim”, misturando sujeito e objeto de tal maneira que corrompe a objetividade. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A impossibilidade de uma psicologia científica não significava, contudo, a impossibilidade de estudar a mente e o comportamento. Kant trabalhou e lecionou com o que chamou de Antropologia Pragmática. Enquanto a psicologia empírica tentava, em vão, segundo ele, ser uma ciência exata, a antropologia pragmática estudava “o que o homem, como ser livre, faz, ou pode e deve fazer de si mesmo”. Era um estudo prático do comportamento, das paixões, da memória e da cognição, focado na vida em sociedade. De certo modo, pode-se dizer que Kant fechou a porta para a psicologia mecanicista, ou ainda, uma psicologia como ciência exata, mas ajudou a abrir uma janela imensa para as ciências humanas e sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Emergência do Neokantismo Fisiológico e as Primeiras Aproximações para a Psicologia Científica ==&lt;br /&gt;
A primeira metade do século XIX na Alemanha foi inicialmente dominada pelo Idealismo Pós-Kantiano (Hegel, Fichte, Schelling), que propunha sistemas metafísicos grandiosos onde a realidade era essencialmente racional e espiritual. Contudo, a partir da década de 1850, o forte avanço das ciências naturais, como a fisiologia e a química, gerou uma importante reação materialista, consolidados nas figuras de Feuerbach, Vogt, Büchner e outros, que passaram a ridicularizar a filosofia idealista como mera especulação vazia. A metafísica, vista como uma das glórias da filosofia e do pensamento humano, passou a ser vista cada vez mais como um discurso com pouco ou nenhum lastro na realidade. Essa mudança foi muito importante para a história da psicologia científica, pois foi devido a esse contexto que foram formulados os primeiros experimentos voltados para o que seria, no futuro, a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Johannes Müller e a Teoria das Energias Nervosas Específicas ===&lt;br /&gt;
Neste período, a fisiologia se estabeleceu como uma ciência rigorosa e extremamente respeita, liderada por figuras como Johannes Müller. Müller, professor na Universidade de Berlim, publicou seu Manual de Fisiologia Humana (1833-1840), que sistematizou o conhecimento fisiológico da época e transformou a compreensão da percepção. Até o final do século XVIII, ela era explicada pela Teoria da impressão da sensação, derivada da física newtoniana e do empirismo britânico. Esse modelo assumia que o sistema nervoso era um meio homogêneo e passivo que simplesmente “transportava” as qualidades dos objetos externos para a mente, como se a sensação fosse uma cópia exata do estímulo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Johannes Müller revolucionou esse entendimento ao formular a Teoria das energias nervosas específicas (1826). Ele provou, através de experimentos, que a estimulação de um determinado nervo sensorial sempre provoca uma sensação característica e exclusiva daquele nervo, independentemente da natureza do estímulo físico externo. Em outras palavras, a qualidade da sensação não pertence ao objeto físico, mas sim à estrutura do próprio aparato sensorial humano. O mesmo estímulo pode produzir sensações completamente diferentes dependendo de qual via nervosa é ativada. Por exemplo, ao aplicar sal na pele, na língua e nos olhos, as sensações serão totalmente distintas, todas diretamente relacionadas às especificidades do aparelho sensorial que foi ativado. É importante entender que isso não acontece por conta da especificidade das características do estímulo, como o sal ser “salgado”. A pele produz apenas sensações táteis, ainda que o estímulo não seja tátil. Isso cria um problema de confiança naquilo que percebemos sensorialmente, pois mostra que os órgãos não enviam apenas propriedades dos objetos, mas antes operam apenas de modo específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Müller, por meio de experimentos, mostrou que os objetos físicos projetam imagens invertidas na retina, mas nós os percebemos na posição correta. Ele mostrou também que, embora as imagens projetadas nas duas retinas sejam levemente diferentes, o cérebro as unifica em uma única imagem tridimensional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas descobertas trouxeram Kant para o terreno da biologia, inclusive pelo próprio Müller que, apesar de não ser neokantiano, viu suas descobertas científicas influenciarem profundamente a primeira geração deles. O sistema nervoso não é um receptor passivo, antes, ele medeia, molda e traduz ativamente a realidade externa. A sensação deixou de ser vista como uma cópia do mundo e passou a ser um enigma, que pode ser analisado a partir da seguinte pergunta: “o que existe entre o estímulo físico e a sensação subjetiva?”. Este é o mundo do primeiro projeto de psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Hermann von Helmholtz e o Neokantismo Psicofisiológico ===&lt;br /&gt;
A ponte definitiva entre a epistemologia kantiana e a prática laboratorial foi construída por um antigo aluno de Johannes Müller, Hermann von Helmholtz (1821-1894). Ele colaborou no desenvolvimento do neokantismo psicofisiológico ou neokantismo fisiológico, apesar de sua associação ao neokantismo como movimento não é um consenso. Ele entendeu que as descobertas de seu professor forneciam a base material exata para a teoria do conhecimento de Kant. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1855, Helmholtz argumentou que as estruturas a priori propostas por Kant como condições de possibilidade da experiência eram, na verdade, características da anatomia e da fisiologia do aparato perceptivo humano. Ao “naturalizar” a filosofia de Kant, Helmholtz formulou a sua teoria dos signos, que postula que nossas sensações e percepções não são cópias diretas da realidade, mas sim símbolos ou signos gerados pelo nosso sistema nervoso em resposta aos estímulos. Para explicar como construímos uma imagem coerente e espacial do mundo a partir desses signos neurológicos isolados, Helmholtz introduziu o conceito de inferências inconscientes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo essa teoria, a mente realiza uma série de ajustes e cálculos automáticos, baseados na experiência e na aprendizagem contínua, para interpretar os dados sensoriais. A percepção de profundidade, a posição espacial e a resolução de duas imagens retinianas em uma única visão estereoscópica não são inatas, como defendia o nativismo de Ewald Hering ou o próprio Müller, mas são aprendidas empiricamente através do movimento do corpo e da repetição das sensações. O espaço perceptivo atua como uma linguagem que a mente usa para interpretar os dados fisiológicos brutos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com isso, Helmholtz fundou o projeto de uma psicologia fisiológica autônoma, diferente da psicologia filosófica discutida na época. Ele concordou com Kant que a introspecção tradicional era um método falho, que podia conduzir a ilusões porque o observador só capta a superfície consciente do pensamento. A solução de Helmholtz foi submeter o sujeito da experiência a condições de laboratório rigorosamente controladas. Se as condições da percepção dependem de mecanismos fisiológicos, então a única forma de fazer epistemologia científica é através da experimentação fisiológica e da ótica. O sujeito do conhecimento tornou-se, assim, um objeto, que poderia ser manipulado e analisado em laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Suas contribuições não acabam por aí. Antes das pesquisas de Helmholtz, a comunidade científica acreditava que o impulso nervoso era instantâneo ou rápido demais para ser mensurado. Em 1850, estimulando um nervo motor na perna de uma rã e medindo o tempo da contração muscular, ele obteve o registro da velocidade de condução neural, que é de aproximadamente 27 metros por segundo, provando que havia “algo” entre o estímulo e a percepção que poderia ser analisado cientificamente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também mediu o tempo de reação de nervos sensoriais em humanos. Essa descoberta provou que o pensamento e o movimento corporal não ocorrem simultaneamente, mas são separados por um intervalo de tempo mensurável. Essa foi a base que abriu caminho para os experimentos de tempo de reação e cronometria mental que dominariam o laboratório de Wundt décadas depois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== F. A. Lange e o Projeto de uma “Psicologia Sem Alma” ===&lt;br /&gt;
O segundo pilar desse “retorno a Kant”, também de matriz fisiológica, foi erguido pelo filósofo e sociólogo Friedrich Albert Lange (1828-1875). Lange foi uma figura central na “controvérsia materialista” que agitava a Alemanha. Ele rejeitava tanto os “delírios” dos sistemas idealistas metafísicos quanto o reducionismo ingênuo do materialismo científico de Vogt e Büchner. Em sua influente obra História do Materialismo, de 1866, Lange defendeu que a limitação proposta por Kant é absoluta, ou seja, não temos e nem nunca teremos acesso à essência última da realidade, às coisas em si. Nosso conhecimento se restringe aos efeitos das coisas, ou seja, os fenômenos, que nos aparecem totalmente moldados pela nossa organização mental e neurológica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Lange argumentou que a impossibilidade de conhecer a essência não impede o estudo científico rigoroso das “aparências”, ou seja, sobre como as coisas nos aparecem. Para viabilizar esse estudo, Lange atacou as psicologias filosóficas do passado, que versavam debates que ele ele entendia estéreis sobre a natureza, a imortalidade e a substancialidade da “alma”. Para Lange, a alma era um conceito vazio, um “mito antigo” que forçava a psicologia a operar sobre pressupostos metafísicos inverificáveis. Em resposta, ele propôs a criação de uma psicologia sem alma, ou, em outras palavras, uma psicologia sem metafísica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste novo paradigma, o objeto de estudo da psicologia deveria ser reduzido aos dados empíricos observáveis, incluindo a sensação, a percepção, a ação e a linguagem, sempre buscando o seu correlato fisiológico. Lange rejeitou a introspecção puramente filosófica, pois a auto-observação isolada é privada, não pode ser repetida, não permite a presença de observadores externos e leva invariavelmente a ilusões verbais. Segundo ele, essa introspecção conduzia o pesquisador a substancializar conceitos como “vontade” ou “pensamento”, sem nenhum lastro empírico ou experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A única saída para a psicologia tornar-se verdadeiramente científica era abraçar a metodologia das ciências naturais. Apoiando-se no trabalho de Helmholtz e nas medições pioneiras de psicofísicos como Ernst Weber e Gustav Fechner, Lange prescreveu que a psicologia deveria investigar as leis fisiológicas da percepção e medir a correlação exata entre estímulos físicos e respostas sensoriais, como nos tempos de reação e nos limiares diferenciais. A psicologia passava a ser entendida não como a ciência do espírito transcendente, mas como a ciência psicofisiológica que estuda experimentalmente as condições de possibilidade da experiência, trazendo o sujeito transcendente de Kant para uma fisiologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fechner e a Fundação da Psicofísica ===&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner (1801–1887) foi um físico e metafísico alemão e antigo aluno de Weber. Apesar de não ser um neokantiano, ele tem uma importância fundamental para este momento da fundação da psicologia experimental, tendo sido citado e adotado por neokantianos. Ele assumiu a prestigiada e importante cadeira de física da Universidade de Leipzig em 1834, enquanto produzia sátiras sobre temas metafísicos e artísticos sob um pseudônimo. Após uma série de experimentos em que observava diretamente o Sol, feriu gravemente suas retinas, evento que o conduziu a um colapso físico e mental. Teve uma recuperação milagrosa em 1843, quando tentou observar flores em seu jardim e, por meio de uma experiência mística, observou que a natureza brilhava de dentro para fora, de onde concluiu que o universo era dotado de alma e consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esssa experiência decisiva levou-o a dedicar sua vida ao combate do materialismo científico, que ele denominava visão noturna, que via o mundo como uma matéria inerte e sem vida. Já a sua visão diurna entendia que a matéria era a manifestação da consciência universal divina, uma cosmovisão espiritualista que pode ser entendida como panpsiquista, ou seja, todos os corpos físicos possuem uma forma de alma. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi buscando provar sua visão que Fechner entendeu que poderia provar empiricamente a relação entre a mente (ou o espírito) e o corpo (ou a matéria) se encontrasse uma relação matemática constante entre a intensidade do estímulo físico e a magnitude da sensação psíquica correspondente. Isso porque Fechner percebeu que um aumento na intensidade do estímulo físico não gerava um aumento equivalente e proporcional na sensação subjetiva. A relação não era linear, mas sim proporcional, pois o estímulo físico aumentava em uma progressão geométrica, enquanto a sensação psíquica crescia em uma progressão aritmética. Por exemplo, acrescentar o som de um sino a outro que já está tocando gera um forte impacto perceptivo, pois é possível distinguir claramente que passou-se de um para dois sinos. Já acrescentar um sino a uma dezena deles produz uma alteração quase imperceptível. A sensação dependia, portanto, do nível de estimulação já existente no sistema.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para dar sustentação empírica à sua teoria, Fechner apropriou-se dos trabalhos experimentais realizados por Weber, que havia formulado a teoria da diferença mínima perceptível, demonstrando que a sensibilidade humana não avaliava diferenças absolutas entre estímulos, mas sim relações relativas ou proporcionais. Weber observou que, ao levantar pesos, os sujeitos conseguiam detectar uma variação mínima correspondente a uma fração constante de aproximadamente 1:40 em relação ao peso padrão. Essa constância proporcional é descrita pela chamada Lei de Weber:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Δ&#039;&#039;I&#039;&#039;/&#039;&#039;I&#039;&#039; = K &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ou &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
d&#039;&#039;R&#039;&#039;/&#039;&#039;R&#039;&#039; = K&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde I (ou &#039;&#039;R&#039;&#039;, do alemão &#039;&#039;Reiz&#039;&#039;) representa a intensidade do estímulo padrão, ΔI é o acréscimo mínimo necessário para produzir uma mudança perceptível na sensação e k é uma constante matemática específica para cada modalidade sensorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Fechner percebeu que essa fração constante (ΔI/I) correspondia à unidade de medida da sensação subjetiva (dS). Utilizando o cálculo infinitesimal, Fechner integrou matematicamente a equação de Weber, assumindo que todas as diferenças mínimas perceptíveis eram subjetivamente iguais entre si. Essa operação matemática resultou na célebre Lei de Fechner ou Lei de Weber-Fechner:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
S = k Log R&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde S representa a magnitude da sensação subjetiva (qualidade mental), R representa a intensidade física do estímulo (qualidade material) e K é uma constante experimental ajustada a cada sentido. Essa fórmula logarítmica foi construída para mostrar que, para a sensação aumentar linearmente, o estímulo físico precisava crescer exponencialmente, estabelecendo uma relação exata e mensurável entre o psíquico e o físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para aplicar sua fórmula, Fechner sistematizou dois conceitos fundamentais que estruturam as medições psicofísicas. A primeira é o limiar absoluto, ou seja, o ponto de intensidade física mínima abaixo do qual o estímulo não é detectado pelo sujeito e acima do qual a sensação passa a ser percebida. Outro conceito é o de limiar diferencial, que é a quantidade mínima de alteração ou variação que deve ser aplicada a um estímulo para que o sujeito seja capaz de discriminar uma mudança na sensação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um desdobramento fascinante da Lei de Fechner ocorreu quando o estímulo físico apresentava valores abaixo do limiar absoluto (R&amp;lt;1), resultando em valores negativos para a sensação (S). Fechner definiu esses valores como sensações negativas ou subliminares, postulando a existência de processos mentais ativos abaixo do limiar da consciência desperta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para determinar com precisão científica os limiares absolutos e diferenciais, Fechner desenvolveu e padronizou três metodologias experimentais rigorosas, que se tornaram os pilares metodológicos de toda a psicologia experimental posterior. No Método do Erro Médio ou do Ajuste, o próprio sujeito experimental manipula ativamente um instrumento para ajustar um estímulo variável até que sinta que este se iguala a um estímulo padrão constante. A média dos desvios entre os ajustes do sujeito e o padrão real define o erro de observação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já no Método do Estímulo Constante ou dos Casos Corretos e Incorretos, o pesquisador apresenta de forma aleatória uma série de estímulos pré-determinados e constantes em comparação com um estímulo padrão. O sujeito deve julgar se o estímulo de comparação é maior, menor ou igual ao padrão, medindo-se a proporção estatística de acertos. Por fim, no Método dos Limites ou das Diferenças Mínimas Perceptíveis, dois estímulos são apresentados ao sujeito. Um deles é aumentado ou reduzido sistematicamente em passos discretos e graduais, e o sujeito relata o momento exato em que deixa de perceber ou passa a perceber a diferença entre ambos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1860, Fechner publicou seu livro monumental, Elementos de Psicofísica, que alguns entendem ser o primeiro sobre a psicologia científica experimental. Ao fornecer à psicologia técnicas de medição coerentes e precisas, Fechner provou de forma contundente que a mente humana era passível de investigação científica e experimental, sepultando em definitivo o antigo veto imposto por Immanuel Kant, em pleno momento de desenvolvimento do Neokantismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Incomodados com as inclinações metafísicas e espiritualistas de Fechner, os psicólogos experimentais subsequentes, sob a liderança de Wilhelm Wundt, rejeitaram completamente o panpsiquismo entre outras ideias, apropriando-se exclusivamente de seus métodos quantitativos de laboratório para estabelecer a psicologia como uma ciência empírica e natural. Como bem observou o historiador Edwin G. Boring, Fechner agiu como um “Colombo que descobriu um Novo Mundo (a psicologia científica) enquanto procurava pelas antigas Índias (a prova de sua metafísica)”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Resumindo ===&lt;br /&gt;
A intersecção entre a epistemologia kantiana, a fisiologia de Müller e a reformulação promovida por Helmholtz e Lange constituiu o início daquilo que tornou possível a psicologia científica. Kant havia mostrado que o sujeito constrói ativamente a realidade, mas negou que esse sujeito pudesse ser estudado matematicamente ou experimentalmente. Müller transferiu a estrutura ativa da mente para os nervos sensoriais específicos. Helmholtz e Lange reinterpretaram as pesadas categorias transcendentais de Kant como mecanismos biológicos e perceptivos operando através de inferências inconscientes e leis fisiológicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao “naturalizar” a Crítica da Razão Pura, o Neokantismo Psicofisiológico resolveu o veto de Kant a uma psicologia científica. Se os limites e as formas do nosso conhecimento são determinados pelo nosso sistema nervoso e sensorial, então o estudo epistemológico da mente deve ser feito no laboratório de fisiologia, estudando principalmente a percepção. A exigência de matematização foi superada pelas leis da psicofísica de Fechner e Weber, e o problema da introspecção descontrolada foi resolvido pelo uso de instrumentos de precisão, como cronoscópios, além de métodos de medidas de limiar, controle de estímulos, erros médios, entre outros, que transformavam as respostas subjetivas em dados objetivos, replicáveis e mensuráveis. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse foi o cenário epistemológico e institucional que Wilhelm Wundt encontrou e ajudou a consolidar. Wundt não fundou a psicologia a partir do nada em 1879. Seu Instituto em Leipzig foi organização metodológica e teórica de décadas de esforços em que a filosofia foi obrigada a dialogar com os nervos, os músculos e os tempos de reação, transformando para sempre a especulação sobre a alma em uma rigorosa ciência da experiência imediata. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ironicamente, escolas neokantianas posteriores, como a Escola de Marburgo, foram focos de resistência à psicologia experimental, alegando que o sujeito do conhecimento de Kant era de ordem puramente transcendental e lógica, e não empírica ou mensurável, ou seja, rejeitando a “biologização” do pensamento kantiano e a consequente criação da psicologia experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, conforme mostra Gundlach, a criação de uma posição acadêmica e o laboratório de psicologia por Wundt não se deu por conta de um amplo reconhecimento da superioridade do pensamento wundtano, mas sim por conta de disputas políticas e institucionais nas universidades alemãs. De qualquer forma, Wundt conseguiu desenvolver bem sua teoria ao longo de sua vida e conseguiu estabelecer-se na proeminência da psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia de Wundt ==&lt;br /&gt;
[[Wilhelm Wundt|Wilhelm Maximilian Wundt]] é, na historiografia da psicologia, uma figura ao mesmo tempo onipresente e pouco compreendida. Freqüentemente reduzido ao título de “fundador do laboratório de Leipzig”, essa simplificação negligencia sua estatura como um dos últimos grandes arquitetos de sistemas do século XIX, cujo &#039;&#039;Systemgedanke&#039;&#039; (pensamento sistêmico) buscava integrar a psicologia como uma propedêutica fundamental para a filosofia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Recuperar o Wundt original exige preencher uma vasta lacuna historiográfica. A primeira envolve apontar as conhecidas e muitas das distorções da tradução de [[Titchener|E.B. Titchener]] para o contexto anglo-americano, que foi formulada para aproximar suas ideias e pdasdaquelas de Wundt, visando uma “confirmação” do pensamento de Titchener. Wundt não era um estruturalista ou associacionista clássico e seu sistema é essencialmente dinâmico e centrado no &#039;&#039;&#039;voluntarismo&#039;&#039;&#039;. Para Wundt, a vontade e os processos afetivos não são meros epifenômenos, ou seja, um fenômenos secundários ou acessórios que acompanhma um fenômeno principal, mas o eixo organizador da consciência ativa. Esta reconstrução crítica visa resgatar a autonomia epistemológica de uma ciência que define seu objeto não como uma substância, mas como a experiência em sua totalidade imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Experiência conforme Wundt ===&lt;br /&gt;
Para Wilhelm Wundt, a experiência é concebida como um todo unitário e coerente. As duas abordagens da experiência que ele propõe não se deve a uma diferença ontológica, mas como dois pontos de vista distintos e complementares que permite sua abordagem científica, que ele separa entre Experiência Mediata e Experiência Imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experiência Mediata ====&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Experiência Mediata&#039;&#039;&#039; é a experiência objetiva) está &#039;&#039;&#039;focada nos objetos do mundo externo&#039;&#039;&#039;. Ela foca exclusivamente nos objetos do mundo externo, abstraindo o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que sabe, que tem conhecimento. A Experiência Mediata seria o ponto de vista característico das ciências naturais, como física, química e fisiologia. A ciência natural opera por meio de uma abstração sistemática, pois ela coloca o sujeito cognoscente &amp;quot;entre parênteses&amp;quot; e analisa apenas os objetos externos pensados, como se existissem de maneira totalmente independente de quem os percebe. É chamada de &amp;quot;mediata&amp;quot; porque &#039;&#039;&#039;nosso acesso a tais objetos é sempre indireto&#039;&#039;&#039;, ou seja, precisa de mediação, pois é dependente de conceitos abstratos, inferências teóricas e construções conceituais auxiliares para representá-los. Por um lado, o estímulo físico é intermediado pelos limites anatômicos e biológicos do nosso aparato perceptivo, ou seja, temos os limites e capacidades da nossa percepção. No caso da visão, por exemplo, não vemos os raios ultravioleta e infravermelho, pois não estão no expecto da luz visível, mas vemos as cores e suas combinações. Por outro lado, para constituir a &amp;quot;realidade objetiva&amp;quot;, o cientista natural precisa utilizar conceitos teóricos auxiliares e construções hipotéticas, como átomos, ondas eletromagnéticas e forças gravitacionais, que não são dados imediatamente na percepção sensível mas que podem ser vistos experimentalmente e por meio de instrumentos e aparatos científicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wundt critica assim o empirismo tradicional e o associacionismo. A doutrina do empirismo diz que a mente como página em branco, conforme a formulação de John Locke e sua &#039;&#039;tabula rasa&#039;&#039;. Neste caso, a mente seria progressivamente preenchida pelas impressões do mundo exterior (sensação) e pelas operações internas (reflexão). David Hume radicaliza o princípio empírico, postulando que as impressões são os átomos cognitivos fundamentais e as ideias nada mais são do que cópias atenuadas ou lembranças dessas impressões na memória e na imaginação. Já o associacionismo constitui a hipótese de que as ideias simples e discretas se combinam para formar pensamentos complexos, juízos e raciocínios abstratos. Se o empirismo fornece os blocos de construção, o associacionismo descreve a &amp;quot;força de atração&amp;quot; que os une. Conforme sistematizado por Hume e, depois, desenvolvido por Hartley e James Mill, a mente transita espontaneamente de uma ideia para outra por meio de regras regulares de associação, como a semelhança, a contiguidade no tempo e as relações de causa e efeito.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para Wundt, ambos erraram, pois transferiam as características dos objetos externos da física, como a solidez, os limites rígidos e a permanência estática, para os conteúdos conscientes, passando a tratar as representações (&#039;&#039;Vorstellungen&#039;&#039;) como coisas ou &amp;quot;átomos mentais&amp;quot;. Na física, o foco recai sobre o objeto substantivo. Contudo, segundo Wundt, a consciência não contém objetos estáveis. Ele parte de uma diferença fundamental que os psicofísicos e outros haviam apontado, que é aquela entre o mundo externo e o mundo percebido, ou ainda, entre as coisas e suas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em resumo, a Experiência Mediata se aproxima dos objetos estáveis do mundo externo e de como eles nos chegam. Na experiência mediata, o cientista da natureza pode retornar quando quiser ao mesmo objeto físico estável (uma pedra ou um elemento químico) para observá-lo repetidamente, ainda que o observador em si esteja sempre em mudança.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experiência Imediata, o Objeto de Estudo da Psicologia ====&lt;br /&gt;
Ao definir seu objeto, Wundt deu um passo decisivo para dar à psicologia autonomia perante as outras ciências naturais. Ele propõe que a experiência é uma unidade indivisível. Mas o que ele quer dizer por &#039;&#039;&#039;experiência&#039;&#039;&#039;? Uma definição poderia ser a totalidade dos processos conscientes, englobando sensações, sentimentos, representações e volições (vontades), apreendida da exata forma como se apresenta diretamente ao sujeito, sem qualquer abstração conceitual ou mediação de instrumentos externos. Ou seja, a experiência de Wundt seria como tudo o que se passa na mente, exatamente como ela aparece para uma pessoa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;O domínio da psicologia seria a experiência imediata&#039;&#039;&#039;, subjetiva, que é a experiência em sua realidade concreta, direta e intuitiva, apreendida antes de qualquer conceituação, teorização ou abstração. Ou seja, é a experiência antes de ela adquirir qualquer camada de compreensão, que seriam mediadores, por isso é imediata, &#039;&#039;&#039;sem mediação&#039;&#039;&#039;. Ela envolve o processamento de elementos sensoriais simples, como cor, som, temperatura, e de sentimentos simples, como prazer e desprazer. Ela diz respeito ao modo puro de funcionamento mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vamos a um exemplo, desta vez no campo do acústica. Na perspectiva mediata, o cientista natural abstrai o sujeito e estuda o som de forma indireta e conceitual. Ele utiliza aparelhos para medir as ondas sonoras e a sua propagação física pelo ar. O objeto físico “som” é, portanto, mediado e traduzido por conceitos de frequência, amplitude e decibéis. Já sob a perspectiva imediata, que é a da psicologia, o psicólogo estuda a sensação direta e em si mesma do tom no momento exato em que ele aparece na consciência. A análise está na vivência concreta do sujeito, que inclui a qualidade do tom, a sua intensidade subjetiva, a tonalidade afetiva de prazer ou desprazer que o acompanha e o processo ativo da atenção (apercepção, que será tratada mais adiante) que coloca aquele som no foco da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se olharmos desta vez para a cromática, na visão mediata, ciência natural estuda o azul abstraindo a experiência do sujeito. A física o descreverá de forma conceitual como uma radiação eletromagnética com determinado comprimento de onda atingindo a retina. A fisiologia se debruçará sobre o funcionamento dos tecidos dos olhos quando estimulados com a cor azul em suas nuances. Para a psicologia de Wundt, o azul é investigado como um dado imediato e real na consciência do sujeito no momento da percepção interna. O foco não está nas propriedades físicas do estímulo, mas sim na reação subjetiva e ativa do cérebro vivo a esse estímulo, que gera a qualidade imediata da cor na experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conduzindo seus estudos, Wundt também identificou aquilo que denominou &#039;&#039;&#039;causalidade psíquica&#039;&#039;&#039;. Ao nos lembrarmos de um fato triste, por exemplo, a fisiologia explicaria a tristeza de forma conceitual e indireta, por meio de correntes elétricas no córtex cerebral, liberação de hormônios ou atividade de sinapses nervosas. Já o psicólogo numa linha wundtiana observa a conexão de processos internos como elas ocorrem diretamente na consciência do sujeito, como a ligação da lembrança triste a um sentimento de angústia. A causalidade psíquica é uma causalidade própria da mente e irredutível às leis físicas da natureza, ou seja, não pode ser comparada à causalidade física como a conhecemos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao adotar a experiência como seu objeto, Wundt rompe com a psicologia da alma, filosófica e metafísica. Ele substitui a psicologia de substâncias, que postula uma entidade mental oculta, pela &#039;&#039;&#039;teoria da atualidade&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Aktualitätstheorie&#039;&#039;), na qual o psiquismo é definido como um fluxo de processos em constante devir. Seu sistema está fundamentado em um &#039;&#039;&#039;monismo perspectivista&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, para ele, mente e corpo não são substâncias que interagem mecanicamente, mas perspectivas distintas sobre a mesma unidade da experiência (&#039;&#039;Erfahrung&#039;&#039;). A psicologia, portanto, não estuda um “mundo interno”, que está isolado do externo, ainda que em contato com ele, mas a totalidade da experiência humana sob o prisma da imediatidade. Essa transição do estatuto de substância “mente” ou algo semelhante para o de processo traz uma nova perspectiva, criando um objeto que pode ser alvo de experimentação científica, partindo de experimentos já criados pela psicofísica e ainda outros que seriam desenvolvidos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Apercepção ===&lt;br /&gt;
No contexto filosófico, como já visto, o conceito de apercepção remonta a Kant, que a definiu como o processo autônomo, ativo e prévio pelo qual a mente unifica diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Wundt adotou essa noção kantiana para fundamentar sua teoria da consciência, definindo &#039;&#039;&#039;apercepção&#039;&#039;&#039; como o processo psicológico ativo pelo qual um conteúdo psíquico (ou representação) é trazido à &#039;&#039;&#039;clareza máxima e ao foco da consciência&#039;&#039;&#039;, vindo necessariamente acompanhado pelo estado de atenção voluntária.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para explicar a dinâmica da consciência, Wundt utilizou uma famosa analogia com a visão para diferenciar apercepção e percepção. O campo visual da consciência (&#039;&#039;Blickfeld&#039;&#039;) corresponde à percepção, que é a simples entrada de uma representação na consciência de forma difusa, ampla e sem a presença focalizada da atenção. Já o ponto focal da consciência (&#039;&#039;Blickpunkt&#039;&#039;) corresponde à apercepção, que é a entrada de uma representação no ponto central de máxima clareza e foco estreito da atenção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A apercepção, então, é uma &#039;&#039;&#039;manifestação primordial da vontade&#039;&#039;&#039;, funcionando como o princípio dinâmico que dá direção e estrutura tanto à experiência quanto ao movimento. Além disso, a apercepção pode ser ativa, que é quando o sujeito deliberadamente seleciona onde focará sua atenção, ou passiva, quando é o estímulo que se impõe no foco no sujeito. Por fim, a apercepção é o mecanismo central da operação da causalidade psíquica. É ela que unifica a mente em um sistema ativo, permitindo que a fusão de elementos resulte em sínteses criadoras com propriedades qualitativamente novas e imprevisíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Percepção Interna (innere Wahrnehmung) vs. Auto-observação (Selbstbeobachtung) ===&lt;br /&gt;
Para garantir o rigor procedimental e responder ao “desafio kantiano”, Wundt rejeitou a &#039;&#039;Selbstbeobachtung&#039;&#039;, que pode ser entendida como a &#039;&#039;&#039;auto-observação tradicional&#039;&#039;&#039; ou introspecção casual. Trata-se do método introspectivo puramente filosófico e especulativo que, segundo Wundt e outros, seria fonte de auto-ilusões. No momento em que o sujeito tenta observar ativamente o curso de seus próprios processos mentais complexos, a atenção que ele direciona para si mesmo altera, deforma ou suprime o próprio fenômeno em curso. Na reflexão puramente interna, é impossível garantir que o mesmo estado mental se repita de forma idêntica, impedindo a replicação intersubjetiva e a formulação de leis científicas gerais &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A solução científica é a &#039;&#039;innere&#039;&#039; &#039;&#039;Wahrnehmung&#039;&#039;, ou &#039;&#039;&#039;percepção interna&#039;&#039;&#039;, que permite a criação de um método científico baseado na repetição de estímulos externos controlados. No laboratório, o psicólogo replica condições experimentais que permitem a observação do aparecimento imediato do processo psíquico sob condições estáveis e previsíveis. O laboratório funciona, portanto, como o estabilizador do objeto psicológico, permitindo que a percepção interna atinja a precisão necessária para decompor a consciência em seus elementos fundamentais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O método de investigação da percepção interna é bem mais rigoroso. Em vez de pedir ao sujeito que reflita livremente sobre seus pensamentos, o experimentador utiliza aparelhos físicos de precisão, tais como [[Cronoscópio|cronoscópios]], pêndulos, compassos táteis, geradores de tons para controlar rigorosamente o início, a intensidade, a duração e a apresentação de estímulos externos predeterminados. Como o estímulo físico externo pode ser repetido e modificado arbitrariamente pelo pesquisador, as condições fisiológicas e sensoriais associadas à percepção interna são reproduzidas com exatidão. Com isso, o sujeito experimental pode antecipar sua atenção ao evento e captar com máxima precisão o surgimento da experiência imediata correspondente. O participante deveria ser rigorosamente treinado, muitas vezes revezando as funções de sujeito e pesquisador, e era instruído a fornecer respostas simples e verificáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Experimentos do Laboratório de Wundt ===&lt;br /&gt;
Vamos a alguns exemplos do que acontecia no laboratório de Wundt, para integrar melhor os conceitos já apresentados. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O primeiro experimento foi concebido originalmente para descrever a &#039;&#039;&#039;“equação pessoal” que aparecia nas medições dos astrônomos&#039;&#039;&#039;. O interesse neste tema surgiu quando se constatou que astrônomos treinados, utilizando os mesmos equipamentos, discordavam de suas medições que, à época, eram feitas manualmente com ajuda de instrumentos. De alguma forma, estas diferenças nas medições pareciam ter um tipo de padrão. Neste experimento, Wundt utilizava um aparelho chamado medidor de pensamento (&#039;&#039;Gedankenmesser&#039;&#039;) e, posteriormente, o pêndulo de complicação (&#039;&#039;Complicationspendel&#039;&#039;). O dispositivo consistia em um grande relógio de pêndulo que possuía uma agulha cruzada, como uma agulha de tricô, capaz de golpear fisicamente um pequeno sino em um ponto exato do seu arco de oscilação. O sujeito do experimento deveria olhar para a escala do pêndulo e tentar determinar a posição exata do ponteiro no momento em que ouvia o sino tocar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste experimento, Wundt descobriu que o sujeito sempre cometia um erro sistemático de registro, de aproximadamente um oitavo de segundo. Segundo ele, era impossível perceber visualmente a agulha e o som do sino ao mesmo tempo. Esse experimento seria uma &#039;&#039;&#039;prova laboratorial de que a consciência possui uma capacidade limitada e só consegue focar em uma única percepção por vez&#039;&#039;&#039;, como a diferença no marco da medição podia mostrar. A ilusão de simultaneidade devia-se apenas à rápida sucessão dos processos de atenção (apercepção).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os experimentos de &#039;&#039;&#039;tempo de reação&#039;&#039;&#039;, nosso segundo exemplo, constituíam o verdadeiro coração do trabalho em Leipzig na década de 1880. Wundt adaptou o método de subtração (&#039;&#039;Subtractiemethode&#039;&#039;), do fisiologista holandês F. C. Donders, para medir a velocidade de processos mentais complexos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o experimento de Wundt, é necessário compreender que, para ele, uma reação consciente envolvia: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- transmissão da sensação ao cérebro; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2- entrada do estímulo no campo amplo da consciência (percepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
3- entrada no foco ativo da atenção (apercepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
4- ato de vontade para liberar a resposta; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
5- execução motora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada um dessas partes exigem um certo tempo, pois são processos não imediatos. A depender de como as etapas do experimento são organizadas, diferentes tempos indicariam o acionamento maior ou menor de cada um deles. No experimento, o sujeito era treinado para responder pressionando uma tecla telegráfica ao ver um estímulo luminoso simples, como um &#039;&#039;flash&#039;&#039; de luz. Em seguida, vinha a tarefa mais difícil. Duas imagens eram apresentadas, um círculo branco sobre fundo preto ou vice-versa, e o sujeito só deveria reagir após identificar com clareza qual imagem havia aparecido. Ao subtrair o tempo da reação simples do tempo da reação complexa, Wundt calculava o “tempo de apercepção” ou discriminação. Na primeira tese de doutorado em psicologia experimental da história, Max Friedrich, que atuou no experimento, mostrou que o tempo de discriminação aumentava de acordo com a complexidade do estímulo visual. Por exemplo, o sujeito levava mais tempo para aperceber e discriminar uma sequência de seis dígitos do que de apenas um ou dois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O assistente de Wundt, Ludwig Lange, também colaborou no estudo ao desenvolver um experimento crucial. Ele demonstrou que os &#039;&#039;&#039;tempos de reação variavam drasticamente dependendo da preparação da atenção&#039;&#039;&#039; (no conceito moderno da palavra) do sujeito. Se a atenção estivesse focada no movimento de resposta que o dedo faria (reação muscular), o tempo era curto (cerca de 125 ms), pois funcionava como um “reflexo cerebral” que pulava a apercepção. Se o foco estivesse direcionado ao estímulo sensorial que iria surgir (reação sensorial), o tempo era cerca de 100 ms mais longo, pois envolvia o circuito completo da mente consciente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O terceiro experimento foi desenvolvido por Martin Trautscholdt, um dos estudantes de doutorado de Wundt. Ele estudava a &#039;&#039;&#039;associação de ideias&#039;&#039;&#039;. No seu estudo, o sujeito era instruído a pressionar uma tecla no momento exato em que uma ideia associada surgisse em sua consciência a partir de um estímulo visual ou auditivo. Ao subtrair o tempo que o sujeito levava para simplesmente reconhecer a palavra estimulante, Trautscholdt conseguiu quantificar o tempo gasto pela mente para realizar a conexão associativa propriamente dita que, segundo Trautscholdt, variava entre 706 e 874 ms. Wundt também adaptou a &#039;&#039;&#039;técnica de associação de palavras de Francis Galton&#039;&#039;&#039;, limitando a resposta do sujeito a apenas uma única palavra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O quarto e último experimento que será apresentado é relacionado a &#039;&#039;&#039;acordes musicais&#039;&#039;&#039;. Nele, sujeitos ouviam tons isolados no piano, que seriam as sensações puras, e depois os mesmos tons tocados simultaneamente. Os participantes descreviam em detalhes a transição afetiva de como a fusão física das frequências dava origem a um produto inteiramente novo na consciência. Este seria o sentimento estético de harmonia e o prazer decorrente de uma síntese criadora. Wundt conduzia vários experimentos em estética experimental, tal qual seu colega Fechner.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Arquitetura da Mente: Elementos, Fusão e Síntese Criadora ===&lt;br /&gt;
Segundo Wundt, &#039;&#039;&#039;a experiência pode ser decomposta em elementos simples&#039;&#039;&#039;, que incluem as sensações e os sentimentos simples. Os &#039;&#039;&#039;sentimentos&#039;&#039;&#039;, por sua vez, são entendidos a partir da &#039;&#039;&#039;teoria tridimensional dos sentimentos&#039;&#039;&#039;, onde eles se distribuem em um espaço qualitativo entre os polos prazer/desprazer (&#039;&#039;Lust-Unlust&#039;&#039;), tensão/relaxamento (&#039;&#039;Spannung-Lösung&#039;&#039;) e excitação/depressão (&#039;&#039;Erregung-Beruhigung&#039;&#039;). A primeira é a mais evidente, se refere à avaliação afetiva primária da experiência. A segunda se relaciona ao esforço da atenção ou à preparação interna da mente. Já a terceira está relacionada ao nível de ativação biológica e psicológica do organismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esses aspectos todos são organizados através do mecanismo de &#039;&#039;&#039;fusão&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Verschmelzung&#039;&#039;), onde as qualidades elementares se fundem em complexos psíquicos. O conceito central aqui é o princípio da &#039;&#039;&#039;síntese criadora&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;schöpferische Synthese&#039;&#039;). Ao contrário do associacionismo britânico, Wundt afirma que o todo resultante possui propriedades que não estão contidas na mera soma das partes. Essa síntese não é um processo mecânico passivo, mas um ato aperceptivo ativo, ou seja, vinculado à vontade. Na mente humana, a combinação de elementos gera um valor novo e qualitativamente superior, marcando a distinção fundamental entre a causalidade psíquica e a mecânica física.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em termos simples, a síntese criadora estabelece que os complexos psíquicos, como representações, sentimentos compostos e afetos, embora formados pela união de elementos simples (sensações e sentimentos simples), possuem características qualitativas inteiramente novas que não pertencem a nenhum de seus elementos constituintes isolados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fusão é o processo ativo e primário de integração psíquica. É através dela que os elementos sensoriais e afetivos brutos são ativamente sintetizados pela mente para dar origem a uma nova unidade psicologicamente complexa. A fusão é a geradora da síntese criadora. Para Wundt, a síntese criadora é a prova cabal da causalidade psíquica. Ela mostra que os fenômenos mentais obedecem a leis de conexão e geração próprias que não se ajustam às leis da física ou da fisiologia mecânica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Observemos isso com um exemplo já apresentado, sobre a música. Se você tocar no piano as notas Dó, Mi e Sol isoladamente, você terá apenas a experiência de três sensações auditivas distintas. No entanto, quando essas notas são tocadas simultaneamente, a fusão de seus elementos gera na consciência uma experiência qualitativamente nova, que seria um acorde musical. O sentimento de harmonia e a qualidade estética do acorde são um produto da síntese criadora, pois não existiam em nenhuma das notas isoladas e surgem puramente da atividade unificadora da mente sobre o estímulo físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Paralelismo Psicofísico e Causalidade Psíquica ===&lt;br /&gt;
O paralelismo psicofísico foi um dos conceitos mais importantes e debatidos no século XIX durante o processo de fundação da psicologia científica. Ele surgiu como uma alternativa teórica para solucionar o clássico problema mente-corpo. O conceito foi formulado de forma a tanto o dualismo substancial, que dividia o ser humano em duas substâncias isoladas cuja forma de interação era desconhecida, quanto o materialismo reducionista, que reduzia a mente a uma mera secreção cerebral ou processo físico ou fisiológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para &#039;&#039;&#039;Fechner&#039;&#039;&#039;, o &#039;&#039;&#039;paralelismo&#039;&#039;&#039; era a manifestação de um monismo neutro, ou teoria de duplo aspecto. Ele defendia que a matéria (corpo) e o espírito (mente) não são substâncias diferentes, mas sim dois modos de aparência ou perspectivas distintas de uma única e mesma realidade subjacente, teoria sobre o qual fundamental grande parte de seu projeto científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt também adotou o termo &#039;&#039;&#039;paralelismo psicofísico&#039;&#039;&#039;, mas realizou uma redefinição epistemológica radical do conceito, visando se afastar da metafísica. Ele rejeitava categoricamente qualquer tentativa de transformar o paralelismo em uma doutrina ontológica sobre a natureza última da realidade, transformando-o estritamente um postulado metodológico e heurístico indispensável para a investigação científica. Os processos mentais não sejam reduzidos a processos fisiológicos ou neurais, pois a consciência obedece a leis de conexão próprias, como a causalidade psíquica, que não podem ser explicadas pelas leis da mecânica cerebral.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Psicologia Individual e Völkerpsychologie: dois métodos para manifestações da experiência ===&lt;br /&gt;
A arquitetura metodológica de Wundt responde ao desafio de investigar processos mentais que variam em complexidade. Ele estabelece que &#039;&#039;&#039;a psicologia deve ser compreendida como o fundamento das ciências humanas&#039;&#039;&#039; ou ciências do espírito (&#039;&#039;Geisteswissenschaften&#039;&#039;). A &#039;&#039;&#039;Psicologia Individual&#039;&#039;&#039;, na concepção de Wundt, foca nos processos elementares, que incluem sensação e percepção, que são passíveis de controle rigoroso em laboratório através da manipulação de estímulos externos e pelas técnicas da [[introspecção]] experimental e estudo da experiência interna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entretanto, Wundt reconhece a insuficiência do modelo experimental para os processos mentais superiores, como o pensamento e a linguagem, que são historicamente condicionados. Para estes, ele propõe a &#039;&#039;Völkerpsychologie&#039;&#039; , ou &#039;&#039;&#039;Psicologia dos Povos&#039;&#039;&#039;, dedicada ao estudo dos produtos das &#039;&#039;geistige Gemeinschaften&#039;&#039; (comunidades espirituais, no sentido das ciências do espírito, ou coletividades). Wundt vai apontar a linguagem, o mito e os costumes (&#039;&#039;Sitten&#039;&#039;) não são apenas dados culturais, mas objetivações de leis psíquicas superiores, inacessíveis à introspecção de laboratório. Eles seriam produtos da experiência humana nas suas formas mais avançadas e superiores e, por não serem passíveis de experimentação, exigem uma outra abordagem. Essas duas vertentes, experimental e histórico-cultural, não são divergentes, mas sim o projeto integrador que permite apreender a mente tanto em sua base sensório-motora quanto em suas manifestações espirituais complexas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As investigações da psicologia dos povos focavam na alma do povo (&#039;&#039;Volksseele&#039;&#039;), definida como a realidade factual dos processos psíquicos que surgem em uma comunidade por meio da interação das energias mentais dos indivíduos. Essa “mente coletiva” se tornava um objeto tangível e investigável ao longo da história em três grandes produtos culturais. O primeiro é a &#039;&#039;&#039;linguagem&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Die Sprache&#039;&#039;), ferramenta pela qual o pensamento é estruturado e externalizado. Já o &#039;&#039;&#039;mito e a religião&#039;&#039;&#039; são as formas como a imaginação e os sentimentos humanos coletivos projetam suas explicações sobre o cosmos e a existência. Os &#039;&#039;&#039;costumes&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Sitten&#039;&#039;) e o &#039;&#039;&#039;direito&#039;&#039;&#039;, por sua vez, são  as regras de conduta coletiva que nascem de atos voluntários e impulsos compartilhados, padronizando as interações sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não podia realizar experimentos com culturas inteiras, Wundt operava por meio da pura &#039;&#039;&#039;observação retrospectiva e comparativa dos produtos mentais&#039;&#039;&#039;, ou seja, analisando os objetos já criados e usados ou em uso por diferentes povos e culturas, anotando suas diferenças e semelhanças. Wundt juntava, lia e analisava de forma exaustiva relatos históricos, estudos filológicos, dicionários, mitologias comparadas, códigos de leis e descrições etnológicas e antropológicas de povos ao redor do globo, ou seja, utilizava dos estudos de diferentes ciências humanas e sociais para extrair as leis psicológicas gerais do desenvolvimento mental humano por trás dessas manifestações. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seu objetivo era mapear como a mente coletiva evoluía do simples para o complexo ao longo das eras, numa abordagem genética e desenvolvimentista e reconstruir, de forma retrospectiva, as forças dinâmicas, os afetos, os impulsos (&#039;&#039;Triebe&#039;&#039;) e os processos de síntese criadora (melhor discutida mais adiante) que estiveram ativos na mente das pessoas no momento de sua formação. Wundt dedicou os últimos 20 anos de sua vida (de 1900 a 1920) quase exclusivamente a esse empreendimento monumental, escrevendo dez volumes sobre o assunto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O que Aconteceu Depois? ===&lt;br /&gt;
No final de sua vida, Wilhelm Wundt era visto de forma ambivalente. Enquanto mantinha o prestígio de fundador da psicologia científica, uma nova geração de psicólogos que buscava se firmar, via como um “pai tribal”, cujo longo domínio de mais de quatro décadas estava desgastado. Ele se tornou o alvo de críticas severas e passou a ser tratado por muitos como o ícone de um passado superado e falido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante a Primeira Guerra Mundial e nos anos que a sucederam, a reputação internacional de Wundt sofreu graves danos. Influenciado por seu filho Max, Wundt adotou posturas políticas ultranacionalistas, chegando a usar a &#039;&#039;Völkerpsychologie&#039;&#039; de maneira tendenciosa para criticar os inimigos da Alemanha. Essa postura inflamou um forte preconceito anti-alemão, especialmente nos Estados Unidos, onde ex-alunos e intelectuais americanos passaram a ver ele como uma mente maligna e autoritária, acelerando a rejeição de suas obras em solo estrangeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A maior frustração de Wundt no fim da vida ocorreu no âmbito acadêmico alemão. Ele sempre defendeu que a psicologia era uma ciência propedêutica e uma aliada indispensável da filosofia, devendo permanecer integrada a esta. No entanto, os filósofos acadêmicos de sua época, especialmente os neokantianos e fenomenologistas, rejeitaram veementemente o  que chamavam de “&#039;&#039;&#039;[[psicologismo]] de Wundt&#039;&#039;&#039;”, ou seja, a redução da lógica e da validade do conhecimento a fatos psicológicos. Em 1913, após a contratação de um psicólogo experimental para a cadeira de filosofia em Marburg, mais de cem professores de filosofia assinaram um &#039;&#039;&#039;protesto público exigindo que psicólogos fossem banidos dos departamentos de filosofia&#039;&#039;&#039;. Esse movimento resultou no progressivo divórcio institucional entre a psicologia e a filosofia, uma separação que Wundt lamentou e combateu até a sua morte em 1920.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir da década de 1890, uma forte onda de positivismo, inspirada pela filosofia de Ernst Mach e Richard Avenarius, varreu a psicologia experimental. Jovens psicólogos, incluindo os assistentes do próprio Wundt, rejeitaram conceitos fundamentais do sistema de Leipzig, como a apercepção, a causalidade psíquica e a síntese criadora, tomando eles como metafísica, exatamente o oposto do que desejava seu formulador. Eles preferiam um modelo elementarista e reducionista, focado na descrição de relações funcionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos EUA, a influência da teoria da evolução de Darwin deslocou o interesse da estrutura da consciência para as suas funções de adaptação ao meio, o chamado funcionalismo. Com o surgimento e o fortalecimento do behaviorismo e a eliminação da mente como objeto de estudo, o voluntarismo de Wundt perdeu qualquer espaço. Na Europa, a própria psicologia da Gestalt ergueu-se combatendo o elementarismo que havia sido falsamente associado a Wundt. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O golpe final veio após a Primeira Guerra Mundial, quando a Alemanha mergulhou em colapso econômico. Diante da “&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;”, os pesquisadores precisaram provar a utilidade prática da ciência que praticavam para sobreviver, o que já acontecia nos EUA, voltando-se para a psicologia militar, industrial, educacional e clínica. &#039;&#039;&#039;Wundt, que sempre desprezou a psicologia aplicada&#039;&#039;&#039;, teria visto seu sistema dinâmico de laboratório perder todo o fôlego diante das pressões pragmáticas da época, ainda que mantivesse sua fama e sua alcunha maior. Ironicamente, um dos principais defensores da psicologia puramente laboratorial, foi quem escreveu a obra mais bem-sucedida de história da psicologia, servindo de parâmetro para o campo por décadas, ou seja, [[Edwin Boring]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia Científica na Inglaterra ==&lt;br /&gt;
O surgimento da psicologia na Inglaterra seguiu um caminho bastante distinto do modelo laboratorial alemão, focado na introspecção e na busca de leis universais. A psicologia britânica formou-se na intersecção de duas grandes forças intelectuais, que são as filosofias empirista e associacionista, e a biologia evolutiva. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No &#039;&#039;&#039;empirismo&#039;&#039;&#039;, pensadores como John Locke postularam que a mente humana nasce como uma tabula rasa ou uma folha em branco, e que absolutamente todo o conhecimento deriva da experiência sensorial. No &#039;&#039;&#039;associacionismo&#039;&#039;&#039;, filósofos como David Hume, James Mill e John Stuart Mill afirmavam processos mentais complexos são formados pela associação contínua de ideias simples e sensações, governadas por leis lógicas. tais como similaridade, contiguidade e causa e efeito. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A despeito de sua rica tradição filosófica, o maior divisor de águas para a ciência britânica foi a publicação de [[A Origem das Espécies (livro)|A Origem das Espécies]], em 1859. A teoria da evolução natural de Darwin, trouxe novas e profundas questões para o estudo da mente britânica. Se humanos e animais compartilham ancestrais comuns, argumentava-se que deveria haver uma continuidade não apenas física, mas também mental entre as espécies, conectando a psicologia ao estudo da zoologia, dando origem à &#039;&#039;&#039;Psicologia Comparada&#039;&#039;&#039;. Além disso, a mente e a consciência deixaram de ser vistas apenas como objetos metafísicos e passaram a ser estudadas como ferramentas biológicas de adaptação, que evoluíram porque ajudavam o organismo a sobreviver em seu ambiente, sendo fundamental para a criação do funcionalismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a validação da biologia evolutiva, o estudo da inteligência animal explodiu no Reino Unido, [[George Romanes]] foi um dos primeiros a tentar sistematizar o comportamento animal. Contudo, seu método anedótico foi duramente criticado por ser antropomórfico, ou seja, por atribuir pensamentos e emoções humanas complexas a animais. Seu colega [[Conwy Lloyd Morgan]] introduziu mais rigor científico à área através do que ficou mundialmente conhecido como o &#039;&#039;&#039;Cânone de Morgan&#039;&#039;&#039;, ou [[princípio da parcimônia]]. A regra dizia que um comportamento animal não deve ser interpretado como resultado de uma faculdade mental superior se puder ser explicado por um processo psicológico mais básico, como o instinto ou o aprendizado por tentativa e erro. Apesar de a perspectiva de ambos ter sido abandonada, a Psicologia Comparada se tornou um dos principais ramos da psicologia moderna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Francis Galton e a Psicologia Diferencial ===&lt;br /&gt;
[[Francis Galton]] (1822-1911) foi um cientista e polímata britânico de inteligência extraordinária, com um QI estimado por volta de 200, algo extremamente raro, além de ser primo de Charles Darwin. Galton é amplamente reconhecido como pioneiro ao incorporar o estudo sistemático das diferenças individuais e da herança mental na nova psicologia, uma área que era ignorada ou rejeitada por pioneiros experimentalistas como Wilhelm Wundt.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Galton se interessou pela medição das variações da inteligência e das capacidades humanas. Ele fundou um [[Laboratório de Galton|&#039;&#039;&#039;laboratório antropométrico&#039;&#039;&#039;]] onde testou a acuidade sensorial, a força e os tempos de reação de milhares de pessoas. Além disso, baseando-se na premissa empirista de John Locke de que todo o conhecimento vem da percepção, Galton assumiu que os indivíduos mais inteligentes seriam aqueles com as capacidades sensoriais e motoras mais aguçadas. Ele foi o inventor do conceito de testes mentais, termo posteriormente cunhado por seu aluno dos EUA, [[James McKeen Cattell]]. Galton também desenvolveu o &#039;&#039;&#039;método experimental de associação de palavras&#039;&#039;&#039;, medindo o tempo de reação mental e demonstrando a enorme influência das experiências da infância e do inconsciente no pensamento adulto, um trabalho que impressionou profundamente [[Sigmund Freud]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também foi um dos primeiros a fazer uso amplo do questionário psicológico para investigar imagens mentais, constatando para sua própria surpresa que a maioria dos cientistas relatava ausência de imagens mentais nítidas, em contraste com relatos muito mais detalhados fornecidos por mulheres e crianças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para conduzir medições em larga escala, ele inventou vários instrumentos clássicos e, para analisar suas enormes bases de dados, &#039;&#039;&#039;Galton desenvolveu conceitos estatísticos fundamentais&#039;&#039;&#039;, como a correlação. Essa tradição quantitativa foi depois aperfeiçoada por outros britânicos, como [[Charles Spearman]], criador da análise fatorial e do conceito de [[fator g de inteligência geral]], fundando a base da psicometria moderna. e influenciando de forma decisiva a psicologia dos testes nos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Conclusão ==&lt;br /&gt;
A história da psicologia é definida pelo paradoxo de ter um “longo passado” e uma “curta história”, podendo ir do De Anima de Aristóteles até a a fundação do laboratório de Wilhelm Wundt na Universidade de Leipzig, em 1879. A psicologia, assim, mostra que tem uma rica história, com muitos personagens, conceitos e acontecimentos importantes, de modo que qualquer narrativa sobre sua composição elegerá heróis e vilões, dará mais relevância para alguns, menos para outros e o esquecimento para a maioria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Immanuel Kant foi uma figura central na composição da psicologia científica. Ele propôs que a mente humana é um agente ativo que organiza o conhecimento através de estruturas &#039;&#039;a priori&#039;&#039;, tais como o tempo, o espaço e as categorias do entendimento. Assim, ele introduziu o conceito de “sujeito transcendental” como a estrutura universal que garante a unidade da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Kant impôs um “veto” ao status científico da psicologia, defendendo a necessidade de uma base na matematização. A superação desse veto ocorreu através da “naturalização” de Kant pela fisiologia. Johannes Müller, com a Teoria das Energias Nervosas Específicas, mostrou que a sensação é mediada pelo sistema nervoso, não sendo uma cópia fiel do mundo externo. Hermann von Helmholtz avançou essa ideia ao postular que as estruturas a priori de Kant seriam, na verdade, características da anatomia e fisiologia humanas. Ele propôs o conceito de “inferências inconscientes” para explicar como interpretamos dados sensoriais. Nesse contexto, Friedrich Albert Lange defendeu uma “psicologia sem alma”, rejeitando a metafísica e argumentando que o estudo científico deve focar apenas nas aparências e fenômenos observáveis, reduzindo o objeto da psicologia a dados empíricos e correlações fisiológicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner, por sua vez, foi crucial ao oferecer a base matemática e experimental que faltavam, por meio da Lei de Weber-Fechner. Ele também padronizou e melhorou métodos para o estudo dos limites e constantes sensoriais, que se tornaram a base metodológica da psicologia experimental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt não apenas fundou um laboratório, como também arquitetou um sistema complexo. Para Wundt, o objeto da psicologia é a experiência imediata, criando conceitos como voluntarismo, causalidade psíquica, apercepção, entre outros. Além disso, ele também criou a psicologia dos povos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente do foco laboratorial alemão, a psicologia britânica foi moldada pela filosofia empirista e pela teoria da evolução de Charles Darwin. Neste contexto, Galton ganha destaque, por ter fundado o laboratório antropométrico, inventado ideias que levaram aos “testes mentais”, pelo uso de estatísticas no estudo da psicologia e ter influenciado o desenvolvimento da psicometria e a análise fatorial com Charles Spearman, consolidando uma tradição que focava mais na variabilidade genética e na inteligência do que na estrutura da consciência em si.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A história da psicologia tem origens ricas e diversas, e sua difusão implicou em muitas transformações em variadas formas. Qualquer narrativa sobre o surgimento da psicologia científica terá limites e potencialidades, devido às escolhas epistemológicas, filosóficas e de acontecimentos históricos. Este material defende que a psicologia científica teve origem em um elementos específico da fisiologia alemã que uniu-se a um movimento filosófico de retorno a Kant no século XIX. Uma vez fundada, a psicologia científica abriu o caminho para outras ideias e formas da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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ARAUJO, Saulo de Freitas. Uma visão panorâmica da psicologia científica de Wilhelm Wundt. &#039;&#039;&#039;Scientiæ Studia&#039;&#039;&#039;, São Paulo, v. 7, n. 2, p. 209-220, 2009. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S1678-31662009000200003&lt;br /&gt;
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ARISTÓTELES. &#039;&#039;&#039;De Anima&#039;&#039;&#039;. Trad. de Maria Cecília Gomes dos Reis. São Paulo: Editora 34, 2013.&lt;br /&gt;
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SMITH, Roger. Does the history of psychology have a subject? &#039;&#039;&#039;History of the Human Sciences&#039;&#039;&#039;, v. 1, n. 2, p. 147-177, 1988. Disponível em: https://doi.org/10.1177/095269518800100201&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_surgimento_da_psicologia_cient%C3%ADfica&amp;diff=1755</id>
		<title>O surgimento da psicologia científica</title>
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		<updated>2026-09-05T14:46:36Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* Fechner e a Fundação da Psicofísica */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto [[Portal História da Psicologia]]) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um longo passado, uma curta história ==&lt;br /&gt;
A psicologia tem um longo passado, mas uma curta história. Esta é uma frase muito famosa no campo da história da psicologia, tendo sido consagrada por Hermann Ebbinghaus, um psicólogo alemão pioneiro no estudo da memória, ainda no século XIX. A frase é exemplar e muito usada em debates sobre a historiografia da psicologia, e isto revela como é difícil dizer quando a psicologia teve início. Ela tem um &#039;&#039;&#039;longo passado&#039;&#039;&#039;, porque os temas que consideramos hoje como parte da psicologia aparecem muitas vezes na filosofia, na religião, em saberes tradicionais, entre muitos outros lugares, ao longo da história. É difícil estabelecer qual &#039;&#039;&#039;o objeto de estudo da história da psicologi&#039;&#039;&#039;a, assim como é difícil, ao longo da história, &#039;&#039;&#039;separar o que é  psicologia daquilo que não é psicologia&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse longo passado pode remontar, por exemplo, à Antiguidade, com o tratado De Anima, de Aristóteles, que escreveu muito antes de se imaginar o próprio conceito de ciência moderna e, menos ainda, de uma psicologia moderna. Outros podem colocar o início da psicologia com Descartes, que elaborou a máxima, também famosa, “penso, logo existo”. Isso mostra que &#039;&#039;&#039;os objetos de estudo da psicologia são historicamente construídos&#039;&#039;&#039;, ou seja, emergem a partir dos locais ou pessoas que atuaram na psicologia, como na medida das diferenças individuais, as dinâmicas de controle num laboratório, nas práticas de psicoterapia, entre muitas outras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se cada historiador localiza o passado da psicologia em lugares diferentes no tempo e no espaço, a &#039;&#039;&#039;história da psicologia&#039;&#039;&#039;, por seu lado, tem uma definição bem mais estável e curta. Nos anos 1980, historiadores reunidos num congresso nos EUA definiram que &#039;&#039;&#039;a psicologia científica começou em 1879, quando [[Wilhelm Wundt]] fundou o primeiro laboratório de psicologia experimental na Universidade de Leipzig, na Alemanha&#039;&#039;&#039;. Essa definição está consagrada e é quase um consenso, porém, não foi tão simples estabelecê-la. Alguns advogavam pelo pioneirismo de outro alemão, [[Gustav T. Fechner|Gustav Theodor Fechner]], criador da chamada [[psicofísica]], de onde vieram muitos dos experimentos e ideias de Wundt. Outros ainda queriam que [[William James]], um filósofo e psicólogo americano, fosse reconhecido como fundador, pois seu laboratório de psicologia era ainda mais antigo que o de Wundt que, no final, venceu essa disputa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Resumindo, a psicologia possui um “longo passado”, com raízes filosóficas e religiosas milenares e altamente diversas, e uma “curta história” como disciplina científica, cujo marco está situado em 1879, com a fundação do primeiro laboratório experimental por Wilhelm Wundt, na Alemanha. Pelo menos é assim que, atualmente, a grande maioria dos historiadores entende a questão, uma das poucas em que há algum conceito neste campo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Presentismo ===&lt;br /&gt;
Mas o que seriam essas psicologias anteriores a essa psicologia científica? Para entender melhor essa história, é preciso refletir para superar, da melhor forma, um problema chamado &#039;&#039;&#039;presentismo&#039;&#039;&#039;, ou seja, julgar, entender, interpretar e analisar o passado com a visão do presente. Não é apenas uma questão de olhar para as pessoas do passado e superar o pensamento de que elas eram “ignorantes”, pois “não tinham o conhecimento que temos hoje”. É entender também que, no passado, haviam formas de conhecimentos diferentes, bem como visões de mundo diferentes da atual. Este é um problema fascinante. Muitos dos consensos contemporâneos, coisas que entende-se totalmente óbvias, eram vistas de forma completamente diferente no passado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo interessante é o &#039;&#039;&#039;conceito de atenção&#039;&#039;&#039;. Hoje, ela é um tema tão discutido e consensual que pouco se reflete sobre seu significado. Atualmente, seria algo como centralizar as faculdades mentais ou talvez a percepção em um ponto específico. Pode-se ouvir as pessoas reclamando da própria falta de atenção, que “não conseguem prestar atenção”, ou que nunca “mantém a atenção”, e até mesmo existem medicamentos para resolver esse problema. Contudo, a palavra “atenção” nem sempre significou o que entendemos hoje. Para [[Santo Agostinho]], atenção era apenas o ato de passar de um pensamento para outro. [[René Descartes|Descartes]] tinha um conceito mais parecido com o contemporâneo, onde a atenção era mobilizada de forma voluntária para fixar e reter na memória coisas raras e extraordinárias que o entendimento considerava úteis. Na obra de [[John Locke|Locke]], a atenção é mencionada apenas de passagem, como um mero mecanismo auxiliar da retenção de memórias. A partir do momento em que a ciência passou a entender que a percepção depende da estrutura física e biológica do corpo, com a psicofísica e a fisiologia sensorial, já no século XIX, a visão passou a ser encarada como intrinsecamente incompleta, instável e condicionada pelo tempo. Nesse contexto, a atenção foi utilizada como um substituto pragmático para garantir a coerência do mundo percebido. Autores do final do século XIX, como [[Théodule Ribot]] e [[Max Nordau]], associaram os desvios ou a fraqueza da atenção a patologias psíquicas, comportamentos sociopáticos e teorias da “degeneração”. Para eles, uma atenção defeituosa deixava a mente à mercê de “associações caóticas”, gerando uma visão borrada e distorcida da realidade. Foi apenas na década de 1950 que a nossa compreensão contemporânea de atenção começou a se delinear, paralelamente aos estudos sobre os medicamentos desenvolvidos para tratar as suas disfunções.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma pessoa desavisada, que não está atenta às grandes diferenças entre as ideias e conceitos ao longo do tempo, poderia ler um trecho de Ribot, Santo Agostinho, Descartes e outros e achar que a atenção sobre a qual eles falam é a mesma coisa que entendemos hoje. O leitor estaria totalmente enganado, a ponto de não conseguir nem mesmo compreender o que estes pensadores queriam dizer. Em outras palavras, &#039;&#039;&#039;o esforço para entender as psicologia do passado passa também pelo esforço de entender como se pensava no passado, qual a visão que se tinha nesse passado&#039;&#039;&#039;. Parte do esforço do historiador é trazer esses aspectos de volta ao presente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O sujeito transcedental de Kant ==&lt;br /&gt;
A concepção de uma psicologia ocupada especificamente com a “mente” humana e suas operações começou a ganhar contornos modernos no século XVIII com o filósofo [[Christian Wolff]]. Ele dividiu a psicologia em [[Psicologia Empírica (livro)|&#039;&#039;&#039;Psicologia Empírica&#039;&#039;&#039;]], num livro publicado em  1732 e baseada na introspecção; e em &#039;&#039;&#039;Psicologia Racional&#039;&#039;&#039;, numa obra de 1734, dedicada a deduzir a natureza e a essência da alma, como sua imortalidade e imaterialidade, de forma puramente lógica e racional, independentemente da experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, o projeto de Wolff enfrentava um sério problema metodológico: a chamada observação interna ou [[introspecção]]. Quando se estuda um fenômeno natural, como a chuva, é necessário observar tudo que está envolvido com estee fenômeno, incluindo como as nuvens se formam, qual a umidade do ar, a intensidade dos raios solares, a direção dos ventos, entre muitos outros fatores. A questão é que todos estes aspectos são &#039;&#039;&#039;externos ao sujeito&#039;&#039;&#039;. Toda a ciência é feita dessa forma, observando, testando e analisando o mundo que está fora dos indivíduos. O problema está em estudar algo que é interno aos sujeitos. Não se pode observar diretamente o que se passa na cabeça de alguém, pelo menos não por enquanto. Contudo, é possível analisar o que se passa nas nossas próprias cabeças. Isso seria a &#039;&#039;&#039;introspecção&#039;&#039;&#039;, ou seja, o processo pelo qual adquirimos conhecimento sobre nossos próprios estados ou processos mentais Apesar de ser uma ideia interessante, fazer introspecção não era considerado algo muito científico. Entendia-se que “observar a si mesmo” distorcia os eventos mentais, pois o sujeito que observa e o objeto observado são o mesmo, o que impediria a neutralidade exigida pelo modelo científico então vigente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até a segunda metade do século XVIII, as teorias do conhecimento, que incluíam o empirismo e o racionalismo, compartilhavam a premissa de que o conhecimento era determinado pelo objeto a ser conhecido. A ideia era a de que objeto estava lá, esperando a melhor forma de ser conhecido. &#039;&#039;&#039;Kant&#039;&#039;&#039;, em sua obra [[Crítica da Razão Pura (livro)|Crítica da Razão Pura]] (1781), inverteu essa lógica de forma radical. Ele propôs que &#039;&#039;&#039;não é o conhecimento que se adequa aos objetos, mas são os objetos que são determinados pelo sujeito&#039;&#039;&#039;. O conhecimento passou a ser compreendido não como uma recepção passiva, mas como uma produção ativa do chamado sujeito transcendental, moldada por suas formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;sujeito transcendental&#039;&#039;&#039; em Kant não se refere propriamente a um indivíduo empírico ou psicológico, ou seja, alguém com personalidade e história pessoal. Pense no sujeito transcendental não como “você” (André ou Maria), mas como o “sistema operacional” universal da mente humana. Assim como um software organiza os dados que chegam do teclado, convertendo eles em coisas numa tela, o sujeito transcendental organiza os dados que chegam dos sentidos, como o tempo e o espaço, antes mesmo de termos consciência deles.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o sujeito transcedental, é preciso fazer um importante exercício de abstração, visando conseguir entender algo que está além da experiência existencial individual e entender aquilo que molda essa própria experiência. O sujeito transcedental de Kant é, segundo ele próprio, uma condição universal de possibilidade para qualquer conhecimento. Em outras palavras, é algo que todas as pessoas possuem e é a forma que o ser humano tem para saber as coisas. É a estrutura ativa da mente que organiza a experiência antes mesmo que possamos refletir sobre ela. Esse sujeito é o princípio unificador que garante a coerência dos dados sensoriais, transformando o caos de impressões oriundas dos órgãos dos sentidos em uma experiência significativa e estruturada. Através das formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039; da sensibilidade (espaço e tempo) e das categorias do entendimento, o sujeito transcendental “constrói” o objeto conhecido. Ele é o “Eu penso” cartesiano, que deve poder acompanhar todas as nossas representações, conferindo unidade à consciência. Em suma, &#039;&#039;&#039;não conhecemos o mundo como ele é em si, mas como o sujeito transcendental o molda e o organiza para que se torne inteligível para nós&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Immanuel Kant revolucionou a teoria do conhecimento ao postular que a mente humana não funciona como um receptáculo passivo de impressões sensoriais, mas sim como um agente ativo dotado de estruturas constitutivas a priori que organizam, unificam e interpretam a matéria-prima da experiência. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas ideias de Kant, o processo de constituição do conhecimento dos fenômenos que chegam para nossa mente a partir dos órgãos dos sentidos articula-se em três instâncias fundamentais. A primeira são as formas puras da sensibilidade, depois vem os conceitos puros do entendimento, ou seja, as categorias e, por fim, a unidade sintética da apercepção. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas &#039;&#039;&#039;formas puras da sensibilidade&#039;&#039;&#039;, antes mesmo que o intelecto possa aplicar qualquer conceito, o caos das sensações brutas é necessariamente ordenado no espaço e no tempo, que não são propriedades das coisas em si, mas intuições puras da sensibilidade que funcionam como os eixos coordenados onde os fenômenos são dados. Ou seja, as informações dos sentidos já chegam num espaço e num tempo para o resto do processo de constituição do conhecimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma vez colocados no espaço e estruturados numa sucessão e simultaneidade temporal, esses dados passam pelas &#039;&#039;&#039;doze categorias do entendimento puro&#039;&#039;&#039;. Essas categorias se dividem em &#039;&#039;&#039;quatro classes de tríades&#039;&#039;&#039;: quantidade, qualidade, relação e modalidade. As &#039;&#039;&#039;categorias&#039;&#039;&#039; representam as regras lógicas puras, fundamentais e necessárias para tornar qualquer objeto da experiência inteligível. Elas podem ser observadas de forma simplificada na tabela a seguir:&lt;br /&gt;
{| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot;&lt;br /&gt;
|Classe de Categorias&lt;br /&gt;
|Categoria 1 (Tese)&lt;br /&gt;
|Categoria 2 (Antítese)&lt;br /&gt;
|Categoria 3 (Síntese)&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|1. Quantidade&lt;br /&gt;
|Unidade&lt;br /&gt;
|Pluralidade&lt;br /&gt;
|Totalidade&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|2. Qualidade&lt;br /&gt;
|Realidade&lt;br /&gt;
|Negação&lt;br /&gt;
|Limitação&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|3. Relação&lt;br /&gt;
|Substância e Acidente&lt;br /&gt;
|Causa e Efeito&lt;br /&gt;
|Ação Recíproca&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|4. Modalidade&lt;br /&gt;
|Possibilidade (Impossibilidade)&lt;br /&gt;
|Existência (Não-existência)&lt;br /&gt;
|Necessidade (Contingência)&lt;br /&gt;
|}&lt;br /&gt;
As categorias de quantidade dizem respeito à extensão em que aplicamos um conceito aos objetos, ou seja, “quantos” elementos estamos considerando no juízo. Na unidade, temos um único objeto. Na pluralidade, trazemos vários objetos do mesmo tipo para um conjunto. Já a totalidade surge quando pensamos a pluralidade como uma unidade completa.Vejamos um exemplo. Quando um observador vê uma maçã, aplica a categoria da unidade, ou seja, ele viu uma maçã. Ao ver várias maçãs espalhadas na mesa, apreende uma pluralidade, ou seja, ele tem um conceito de “maçãs” e as vê como um conjunto. Porém, ao formular uma lei universal, aplica-se a totalidade, que engloba toda a pluralidade possível sob uma única regra conceitual, ou seja, todas as maçãs são frutas e existem vários tipos de maçãs.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade trata da atribuição de um predicado, ou seja, se a experiência afirma algo, nega algo ou se situa num limite conceitual. Em outras palavras, é a forma da mente definir “como algo é”. A realidade é afirmação de que um predicado pertence a um ser, ou seja, ele é alguma coisa. A negação é a afirmação de que o predicado não pertence a algo, ou seja, um “não-ser”. A limitação é a síntese das duas anteriores. Atribui-se uma negação como se fosse uma realidade, excluindo aquilo de uma esfera, mas deixando infinita a esfera onde ele pode estar. Vamos a um exemplo. Dizer “O homem é mortal” aplica a categoria de realidade (afirma-se um atributo). Dizer “O homem não é mortal” aplica a negação. No entanto, dizer “A alma é não-mortal (imortal)” é um juízo infinito clássico de Kant que evoca a limitação. Não sabemos o que a alma é de fato, mas a limitamos removendo ela da esfera das coisas mortais, o que a situa num campo aberto e indeterminado de possibilidades.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Consideradas por muitos comentadores como o coração da epistemologia kantiana, as categorias de relação definem como os objetos se relacionam entre si e como permanecem ou mudam no tempo. Substância e Acidente referem-se àquilo que permanece através da mudança (substância) e as propriedades que são transitórias, ou seja, que mudam (acidentes). Um exemplo disso é a água de um lago que congela no inverno. Seu estado físico muda do líquido para o sólido, que é o acidente, mas a matéria da água em si, a substância, permanece inalterada. Sem a categoria de substância, nossa mente registraria apenas uma sucessão caótica de imagens, sem reconhecer que se trata da mesma “coisa” sofrendo alteração. A Causa e Efeito é a relação estritamente necessária onde um evento segue outro no tempo. O exemplo de Kant, em resposta ao filósofo David Hume, é sobre o sol que ilumina uma pedra, e a pedra esquenta. Hume diria que inferimos causalidade por mero hábito psicológico, ou seja, não há conexão necessária, apenas uma observação e uma intuição. Kant argumenta que o próprio fato de distinguirmos uma sucessão objetiva de eventos exige que a mente aplique a categoria a priori de Causalidade. A mente “dita” a regra estrutural de que o aquecimento necessariamente sucede a irradiação solar, colocando uma como causa da outra. Já na Ação Recíproca (Comunidade), tem-se a relação simultânea de mútua influência entre múltiplas substâncias no espaço como, por exemplo, a interação gravitacional entre a Terra e a Lua. Elas não são eventos sucessivos no tempo, mas existem simultaneamente e influenciam-se de modo contínuo e bidirecional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, temos as categorias modais. Eles são os Postulados do Pensamento Empírico e não acrescentam nenhum atributo novo ao objeto em si, mas definem exclusivamente como esse objeto ou evento se relaciona com o sujeito cognitivo e suas faculdades. No caso da Possibilidade-Impossibilidade, é algo que concorda com as condições formais, que são as condições lógicas e puras da experiência. No binômio Existência-Não-existência, é algo que está dado materialmente na intuição empírica, ou seja, nos sentidos. Já na Necessidade-Contingência, é algo cuja conexão com a experiência empírica está determinada por condições universais. Vamos a um exemplo. Um dragão voador de escamas verdes ou um triângulo cujos ângulos somam 180 graus são conceitos logicamente possíveis, ou seja, não envolvem contradição formal. No entanto, apenas um objeto sensorialmente verificável, como a caneta sobre a sua mesa, tem a marca da existência. Já o fato de que um objeto massivo abandonado no ar cairá em direção ao solo é uma necessidade ditada pelas leis empíricas que o entendimento prescreve à natureza, ou seja, atribui a ele.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Acima dessas estruturas, Kant postulou a apercepção ou apercepção transcendental, que é o processo pelo qual a mente unifica de forma ativa diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Sem a apercepção, a mente seria apenas um amontoado de estímulos desconectados. Assim, a aperceção a base da própria consciência humana. Devido a essa complexa mediação ativa da mente, Kant estabeleceu uma distinção insuperável entre o mundo externo e a mente. Isso significa dizer que nós não temos acesso à “coisa em si”, ou noumenon, mas apenas a como as coisas nos aparecem, ou seja, na forma de fenômeno, já devidamente processadas pelo nosso aparato cognitivo. Neste sentido, É importante distinguir o “Eu empírico”, ou seja, aquilo que observamos em nós mesmos, como nossa personalidade ou o nosso humor, do “Eu transcendental”, a pura unidade lógica do “Eu penso”. Ademais, a apercepção transcendental não é uma faculdade psicológica de “prestar atenção”, mas uma exigência lógica. Para que uma experiência seja minha, o “Eu penso” deve poder acompanhar todas as minhas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Os Vetos Kantianos à Psicologia Científica ===&lt;br /&gt;
Apesar de ter colocado o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que conhece, no centro do universo epistemológico, Kant foi muito crítico sobre a possibilidade de a psicologia se tornar uma ciência. Em sua obra Princípios metafísicos da ciência da natureza, de 1786, ele negou a possibilidade de uma psicologia científica, pois afirmou que uma disciplina só poderia Sê-lo se possuísse uma elaboração racional capaz de fornecer leis formuladas matematicamente, o que poderia ser chamado de veto matemático. A psicologia falhava nesse critério porque os eventos mentais possuem apenas a dimensão do tempo, sem nenhuma extensão espacial, o que impossibilitaria a sua matematização. Para Kant, assim como o espaço é a forma do sentido externo, o tempo é a forma pura do sentido interno. Como os estados mentais só se dão na sucessão do tempo (sem extensão espacial), eles não formam figuras nem podem ser medidos geometricamente, inviabilizando a matemática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Kant apontou a impossibilidade de isolar diferentes pensamentos para a realização de experimentos controlados. Assim, como não podemos acessar o que seria o conteúdo da mente, cercá-la e analisá-la como ela é em seu estado bruto ou natural, qualquer experimentação seria impossível, o que poderia ser chamado de veto do objeto. Por fim, ele reforçou a crítica que já era direcionada a Wolff, aquele do começo dessa seção. A introspecção como método, segundo Kant, seria inviável porque a própria tentativa de observar um fenômeno interno altera o fenômeno, o veto metodológico. Se tento observar minha própria tristeza, por exemplo, o fenômeno original desaparece e se transforma em “tristeza-sendo-observada-por-mim”, misturando sujeito e objeto de tal maneira que corrompe a objetividade. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A impossibilidade de uma psicologia científica não significava, contudo, a impossibilidade de estudar a mente e o comportamento. Kant trabalhou e lecionou com o que chamou de Antropologia Pragmática. Enquanto a psicologia empírica tentava, em vão, segundo ele, ser uma ciência exata, a antropologia pragmática estudava “o que o homem, como ser livre, faz, ou pode e deve fazer de si mesmo”. Era um estudo prático do comportamento, das paixões, da memória e da cognição, focado na vida em sociedade. De certo modo, pode-se dizer que Kant fechou a porta para a psicologia mecanicista, ou ainda, uma psicologia como ciência exata, mas ajudou a abrir uma janela imensa para as ciências humanas e sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Emergência do Neokantismo Fisiológico e as Primeiras Aproximações para a Psicologia Científica ==&lt;br /&gt;
A primeira metade do século XIX na Alemanha foi inicialmente dominada pelo Idealismo Pós-Kantiano (Hegel, Fichte, Schelling), que propunha sistemas metafísicos grandiosos onde a realidade era essencialmente racional e espiritual. Contudo, a partir da década de 1850, o forte avanço das ciências naturais, como a fisiologia e a química, gerou uma importante reação materialista, consolidados nas figuras de Feuerbach, Vogt, Büchner e outros, que passaram a ridicularizar a filosofia idealista como mera especulação vazia. A metafísica, vista como uma das glórias da filosofia e do pensamento humano, passou a ser vista cada vez mais como um discurso com pouco ou nenhum lastro na realidade. Essa mudança foi muito importante para a história da psicologia científica, pois foi devido a esse contexto que foram formulados os primeiros experimentos voltados para o que seria, no futuro, a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Johannes Müller e a Teoria das Energias Nervosas Específicas ===&lt;br /&gt;
Neste período, a fisiologia se estabeleceu como uma ciência rigorosa e extremamente respeita, liderada por figuras como Johannes Müller. Müller, professor na Universidade de Berlim, publicou seu Manual de Fisiologia Humana (1833-1840), que sistematizou o conhecimento fisiológico da época e transformou a compreensão da percepção. Até o final do século XVIII, ela era explicada pela Teoria da impressão da sensação, derivada da física newtoniana e do empirismo britânico. Esse modelo assumia que o sistema nervoso era um meio homogêneo e passivo que simplesmente “transportava” as qualidades dos objetos externos para a mente, como se a sensação fosse uma cópia exata do estímulo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Johannes Müller revolucionou esse entendimento ao formular a Teoria das energias nervosas específicas (1826). Ele provou, através de experimentos, que a estimulação de um determinado nervo sensorial sempre provoca uma sensação característica e exclusiva daquele nervo, independentemente da natureza do estímulo físico externo. Em outras palavras, a qualidade da sensação não pertence ao objeto físico, mas sim à estrutura do próprio aparato sensorial humano. O mesmo estímulo pode produzir sensações completamente diferentes dependendo de qual via nervosa é ativada. Por exemplo, ao aplicar sal na pele, na língua e nos olhos, as sensações serão totalmente distintas, todas diretamente relacionadas às especificidades do aparelho sensorial que foi ativado. É importante entender que isso não acontece por conta da especificidade das características do estímulo, como o sal ser “salgado”. A pele produz apenas sensações táteis, ainda que o estímulo não seja tátil. Isso cria um problema de confiança naquilo que percebemos sensorialmente, pois mostra que os órgãos não enviam apenas propriedades dos objetos, mas antes operam apenas de modo específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Müller, por meio de experimentos, mostrou que os objetos físicos projetam imagens invertidas na retina, mas nós os percebemos na posição correta. Ele mostrou também que, embora as imagens projetadas nas duas retinas sejam levemente diferentes, o cérebro as unifica em uma única imagem tridimensional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas descobertas trouxeram Kant para o terreno da biologia, inclusive pelo próprio Müller que, apesar de não ser neokantiano, viu suas descobertas científicas influenciarem profundamente a primeira geração deles. O sistema nervoso não é um receptor passivo, antes, ele medeia, molda e traduz ativamente a realidade externa. A sensação deixou de ser vista como uma cópia do mundo e passou a ser um enigma, que pode ser analisado a partir da seguinte pergunta: “o que existe entre o estímulo físico e a sensação subjetiva?”. Este é o mundo do primeiro projeto de psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Hermann von Helmholtz e o Neokantismo Psicofisiológico ===&lt;br /&gt;
A ponte definitiva entre a epistemologia kantiana e a prática laboratorial foi construída por um antigo aluno de Johannes Müller, Hermann von Helmholtz (1821-1894). Ele colaborou no desenvolvimento do neokantismo psicofisiológico ou neokantismo fisiológico. Ele entendeu que as descobertas de seu professor forneciam a base material exata para a teoria do conhecimento de Kant. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1855, Helmholtz argumentou que as estruturas a priori propostas por Kant como condições de possibilidade da experiência eram, na verdade, características da anatomia e da fisiologia do aparato perceptivo humano. Ao “naturalizar” a filosofia de Kant, Helmholtz formulou a sua teoria dos signos, que postula que nossas sensações e percepções não são cópias diretas da realidade, mas sim símbolos ou signos gerados pelo nosso sistema nervoso em resposta aos estímulos. Para explicar como construímos uma imagem coerente e espacial do mundo a partir desses signos neurológicos isolados, Helmholtz introduziu o conceito de inferências inconscientes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo essa teoria, a mente realiza uma série de ajustes e cálculos automáticos, baseados na experiência e na aprendizagem contínua, para interpretar os dados sensoriais. A percepção de profundidade, a posição espacial e a resolução de duas imagens retinianas em uma única visão estereoscópica não são inatas, como defendia o nativismo de Ewald Hering ou o próprio Müller, mas são aprendidas empiricamente através do movimento do corpo e da repetição das sensações. O espaço perceptivo atua como uma linguagem que a mente usa para interpretar os dados fisiológicos brutos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com isso, Helmholtz fundou o projeto de uma psicologia fisiológica autônoma, diferente da psicologia filosófica discutida na época. Ele concordou com Kant que a introspecção tradicional era um método falho, que podia conduzir a ilusões porque o observador só capta a superfície consciente do pensamento. A solução de Helmholtz foi submeter o sujeito da experiência a condições de laboratório rigorosamente controladas. Se as condições da percepção dependem de mecanismos fisiológicos, então a única forma de fazer epistemologia científica é através da experimentação fisiológica e da ótica. O sujeito do conhecimento tornou-se, assim, um objeto, que poderia ser manipulado e analisado em laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Suas contribuições não acabam por aí. Antes das pesquisas de Helmholtz, a comunidade científica acreditava que o impulso nervoso era instantâneo ou rápido demais para ser mensurado. Em 1850, estimulando um nervo motor na perna de uma rã e medindo o tempo da contração muscular, ele obteve o registro da velocidade de condução neural, que é de aproximadamente 27 metros por segundo, provando que havia “algo” entre o estímulo e a percepção que poderia ser analisado cientificamente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também mediu o tempo de reação de nervos sensoriais em humanos. Essa descoberta provou que o pensamento e o movimento corporal não ocorrem simultaneamente, mas são separados por um intervalo de tempo mensurável. Essa foi a base que abriu caminho para os experimentos de tempo de reação e cronometria mental que dominariam o laboratório de Wundt décadas depois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== F. A. Lange e o Projeto de uma “Psicologia Sem Alma” ===&lt;br /&gt;
O segundo pilar desse “retorno a Kant”, também de matriz fisiológica, foi erguido pelo filósofo e sociólogo Friedrich Albert Lange (1828-1875). Lange foi uma figura central na “controvérsia materialista” que agitava a Alemanha. Ele rejeitava tanto os “delírios” dos sistemas idealistas metafísicos quanto o reducionismo ingênuo do materialismo científico de Vogt e Büchner. Em sua influente obra História do Materialismo, de 1866, Lange defendeu que a limitação proposta por Kant é absoluta, ou seja, não temos e nem nunca teremos acesso à essência última da realidade, às coisas em si. Nosso conhecimento se restringe aos efeitos das coisas, ou seja, os fenômenos, que nos aparecem totalmente moldados pela nossa organização mental e neurológica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Lange argumentou que a impossibilidade de conhecer a essência não impede o estudo científico rigoroso das “aparências”, ou seja, sobre como as coisas nos aparecem. Para viabilizar esse estudo, Lange atacou as psicologias filosóficas do passado, que versavam debates que ele ele entendia estéreis sobre a natureza, a imortalidade e a substancialidade da “alma”. Para Lange, a alma era um conceito vazio, um “mito antigo” que forçava a psicologia a operar sobre pressupostos metafísicos inverificáveis. Em resposta, ele propôs a criação de uma psicologia sem alma, ou, em outras palavras, uma psicologia sem metafísica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste novo paradigma, o objeto de estudo da psicologia deveria ser reduzido aos dados empíricos observáveis, incluindo a sensação, a percepção, a ação e a linguagem, sempre buscando o seu correlato fisiológico. Lange rejeitou a introspecção puramente filosófica, pois a auto-observação isolada é privada, não pode ser repetida, não permite a presença de observadores externos e leva invariavelmente a ilusões verbais. Segundo ele, essa introspecção conduzia o pesquisador a substancializar conceitos como “vontade” ou “pensamento”, sem nenhum lastro empírico ou experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A única saída para a psicologia tornar-se verdadeiramente científica era abraçar a metodologia das ciências naturais. Apoiando-se no trabalho de Helmholtz e nas medições pioneiras de psicofísicos como Ernst Weber e Gustav Fechner, Lange prescreveu que a psicologia deveria investigar as leis fisiológicas da percepção e medir a correlação exata entre estímulos físicos e respostas sensoriais, como nos tempos de reação e nos limiares diferenciais. A psicologia passava a ser entendida não como a ciência do espírito transcendente, mas como a ciência psicofisiológica que estuda experimentalmente as condições de possibilidade da experiência, trazendo o sujeito transcendente de Kant para uma fisiologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fechner e a Fundação da Psicofísica ===&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner (1801–1887) foi um físico e metafísico alemão e antigo aluno de Weber. Apesar de não ser um neokantiano, ele tem uma importância fundamental para este momento da fundação da psicologia experimental, tendo sido citado e adotado por neokantianos. Ele assumiu a prestigiada e importante cadeira de física da Universidade de Leipzig em 1834, enquanto produzia sátiras sobre temas metafísicos e artísticos sob um pseudônimo. Após uma série de experimentos em que observava diretamente o Sol, feriu gravemente suas retinas, evento que o conduziu a um colapso físico e mental. Teve uma recuperação milagrosa em 1843, quando tentou observar flores em seu jardim e, por meio de uma experiência mística, observou que a natureza brilhava de dentro para fora, de onde concluiu que o universo era dotado de alma e consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esssa experiência decisiva levou-o a dedicar sua vida ao combate do materialismo científico, que ele denominava visão noturna, que via o mundo como uma matéria inerte e sem vida. Já a sua visão diurna entendia que a matéria era a manifestação da consciência universal divina, uma cosmovisão espiritualista que pode ser entendida como panpsiquista, ou seja, todos os corpos físicos possuem uma forma de alma. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi buscando provar sua visão que Fechner entendeu que poderia provar empiricamente a relação entre a mente (ou o espírito) e o corpo (ou a matéria) se encontrasse uma relação matemática constante entre a intensidade do estímulo físico e a magnitude da sensação psíquica correspondente. Isso porque Fechner percebeu que um aumento na intensidade do estímulo físico não gerava um aumento equivalente e proporcional na sensação subjetiva. A relação não era linear, mas sim proporcional, pois o estímulo físico aumentava em uma progressão geométrica, enquanto a sensação psíquica crescia em uma progressão aritmética. Por exemplo, acrescentar o som de um sino a outro que já está tocando gera um forte impacto perceptivo, pois é possível distinguir claramente que passou-se de um para dois sinos. Já acrescentar um sino a uma dezena deles produz uma alteração quase imperceptível. A sensação dependia, portanto, do nível de estimulação já existente no sistema.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para dar sustentação empírica à sua teoria, Fechner apropriou-se dos trabalhos experimentais realizados por Weber, que havia formulado a teoria da diferença mínima perceptível, demonstrando que a sensibilidade humana não avaliava diferenças absolutas entre estímulos, mas sim relações relativas ou proporcionais. Weber observou que, ao levantar pesos, os sujeitos conseguiam detectar uma variação mínima correspondente a uma fração constante de aproximadamente 1:40 em relação ao peso padrão. Essa constância proporcional é descrita pela chamada Lei de Weber:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Δ&#039;&#039;I&#039;&#039;/&#039;&#039;I&#039;&#039; = K &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ou &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
d&#039;&#039;R&#039;&#039;/&#039;&#039;R&#039;&#039; = K&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde I (ou &#039;&#039;R&#039;&#039;, do alemão &#039;&#039;Reiz&#039;&#039;) representa a intensidade do estímulo padrão, ΔI é o acréscimo mínimo necessário para produzir uma mudança perceptível na sensação e k é uma constante matemática específica para cada modalidade sensorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Fechner percebeu que essa fração constante (ΔI/I) correspondia à unidade de medida da sensação subjetiva (dS). Utilizando o cálculo infinitesimal, Fechner integrou matematicamente a equação de Weber, assumindo que todas as diferenças mínimas perceptíveis eram subjetivamente iguais entre si. Essa operação matemática resultou na célebre Lei de Fechner ou Lei de Weber-Fechner:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
S = k Log R&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde S representa a magnitude da sensação subjetiva (qualidade mental), R representa a intensidade física do estímulo (qualidade material) e K é uma constante experimental ajustada a cada sentido. Essa fórmula logarítmica foi construída para mostrar que, para a sensação aumentar linearmente, o estímulo físico precisava crescer exponencialmente, estabelecendo uma relação exata e mensurável entre o psíquico e o físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para aplicar sua fórmula, Fechner sistematizou dois conceitos fundamentais que estruturam as medições psicofísicas. A primeira é o limiar absoluto, ou seja, o ponto de intensidade física mínima abaixo do qual o estímulo não é detectado pelo sujeito e acima do qual a sensação passa a ser percebida. Outro conceito é o de limiar diferencial, que é a quantidade mínima de alteração ou variação que deve ser aplicada a um estímulo para que o sujeito seja capaz de discriminar uma mudança na sensação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um desdobramento fascinante da Lei de Fechner ocorreu quando o estímulo físico apresentava valores abaixo do limiar absoluto (R&amp;lt;1), resultando em valores negativos para a sensação (S). Fechner definiu esses valores como sensações negativas ou subliminares, postulando a existência de processos mentais ativos abaixo do limiar da consciência desperta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para determinar com precisão científica os limiares absolutos e diferenciais, Fechner desenvolveu e padronizou três metodologias experimentais rigorosas, que se tornaram os pilares metodológicos de toda a psicologia experimental posterior. No Método do Erro Médio ou do Ajuste, o próprio sujeito experimental manipula ativamente um instrumento para ajustar um estímulo variável até que sinta que este se iguala a um estímulo padrão constante. A média dos desvios entre os ajustes do sujeito e o padrão real define o erro de observação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já no Método do Estímulo Constante ou dos Casos Corretos e Incorretos, o pesquisador apresenta de forma aleatória uma série de estímulos pré-determinados e constantes em comparação com um estímulo padrão. O sujeito deve julgar se o estímulo de comparação é maior, menor ou igual ao padrão, medindo-se a proporção estatística de acertos. Por fim, no Método dos Limites ou das Diferenças Mínimas Perceptíveis, dois estímulos são apresentados ao sujeito. Um deles é aumentado ou reduzido sistematicamente em passos discretos e graduais, e o sujeito relata o momento exato em que deixa de perceber ou passa a perceber a diferença entre ambos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1860, Fechner publicou seu livro monumental, Elementos de Psicofísica, que alguns entendem ser o primeiro sobre a psicologia científica experimental. Ao fornecer à psicologia técnicas de medição coerentes e precisas, Fechner provou de forma contundente que a mente humana era passível de investigação científica e experimental, sepultando em definitivo o antigo veto imposto por Immanuel Kant, em pleno momento de desenvolvimento do Neokantismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Incomodados com as inclinações metafísicas e espiritualistas de Fechner, os psicólogos experimentais subsequentes, sob a liderança de Wilhelm Wundt, rejeitaram completamente o panpsiquismo entre outras ideias, apropriando-se exclusivamente de seus métodos quantitativos de laboratório para estabelecer a psicologia como uma ciência empírica e natural. Como bem observou o historiador Edwin G. Boring, Fechner agiu como um “Colombo que descobriu um Novo Mundo (a psicologia científica) enquanto procurava pelas antigas Índias (a prova de sua metafísica)”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Resumindo ===&lt;br /&gt;
A intersecção entre a epistemologia kantiana, a fisiologia de Müller e a reformulação promovida por Helmholtz e Lange constituiu o início daquilo que tornou possível a psicologia científica. Kant havia mostrado que o sujeito constrói ativamente a realidade, mas negou que esse sujeito pudesse ser estudado matematicamente ou experimentalmente. Müller transferiu a estrutura ativa da mente para os nervos sensoriais específicos. Helmholtz e Lange reinterpretaram as pesadas categorias transcendentais de Kant como mecanismos biológicos e perceptivos operando através de inferências inconscientes e leis fisiológicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao “naturalizar” a Crítica da Razão Pura, o Neokantismo Psicofisiológico resolveu o veto de Kant a uma psicologia científica. Se os limites e as formas do nosso conhecimento são determinados pelo nosso sistema nervoso e sensorial, então o estudo epistemológico da mente deve ser feito no laboratório de fisiologia, estudando principalmente a percepção. A exigência de matematização foi superada pelas leis da psicofísica de Fechner e Weber, e o problema da introspecção descontrolada foi resolvido pelo uso de instrumentos de precisão, como cronoscópios, além de métodos de medidas de limiar, controle de estímulos, erros médios, entre outros, que transformavam as respostas subjetivas em dados objetivos, replicáveis e mensuráveis. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse foi o cenário epistemológico e institucional que Wilhelm Wundt encontrou e ajudou a consolidar. Wundt não fundou a psicologia a partir do nada em 1879. Seu Instituto em Leipzig foi organização metodológica e teórica de décadas de esforços em que a filosofia foi obrigada a dialogar com os nervos, os músculos e os tempos de reação, transformando para sempre a especulação sobre a alma em uma rigorosa ciência da experiência imediata. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ironicamente, escolas neokantianas posteriores, como a Escola de Marburgo, foram focos de resistência à psicologia experimental, alegando que o sujeito do conhecimento de Kant era de ordem puramente transcendental e lógica, e não empírica ou mensurável, ou seja, rejeitando a “biologização” do pensamento kantiano e a consequente criação da psicologia experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, conforme mostra Gundlach, a criação de uma posição acadêmica e o laboratório de psicologia por Wundt não se deu por conta de um amplo reconhecimento da superioridade do pensamento wundtano, mas sim por conta de disputas políticas e institucionais nas universidades alemãs. De qualquer forma, Wundt conseguiu desenvolver bem sua teoria ao longo de sua vida e conseguiu estabelecer-se na proeminência da psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia de Wundt ==&lt;br /&gt;
[[Wilhelm Wundt|Wilhelm Maximilian Wundt]] é, na historiografia da psicologia, uma figura ao mesmo tempo onipresente e pouco compreendida. Freqüentemente reduzido ao título de “fundador do laboratório de Leipzig”, essa simplificação negligencia sua estatura como um dos últimos grandes arquitetos de sistemas do século XIX, cujo &#039;&#039;Systemgedanke&#039;&#039; (pensamento sistêmico) buscava integrar a psicologia como uma propedêutica fundamental para a filosofia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Recuperar o Wundt original exige preencher uma vasta lacuna historiográfica. A primeira envolve apontar as conhecidas e muitas das distorções da tradução de [[Titchener|E.B. Titchener]] para o contexto anglo-americano, que foi formulada para aproximar suas ideias e pdasdaquelas de Wundt, visando uma “confirmação” do pensamento de Titchener. Wundt não era um estruturalista ou associacionista clássico e seu sistema é essencialmente dinâmico e centrado no &#039;&#039;&#039;voluntarismo&#039;&#039;&#039;. Para Wundt, a vontade e os processos afetivos não são meros epifenômenos, ou seja, um fenômenos secundários ou acessórios que acompanhma um fenômeno principal, mas o eixo organizador da consciência ativa. Esta reconstrução crítica visa resgatar a autonomia epistemológica de uma ciência que define seu objeto não como uma substância, mas como a experiência em sua totalidade imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Experiência conforme Wundt ===&lt;br /&gt;
Para Wilhelm Wundt, a experiência é concebida como um todo unitário e coerente. As duas abordagens da experiência que ele propõe não se deve a uma diferença ontológica, mas como dois pontos de vista distintos e complementares que permite sua abordagem científica, que ele separa entre Experiência Mediata e Experiência Imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experiência Mediata ====&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Experiência Mediata&#039;&#039;&#039; é a experiência objetiva) está &#039;&#039;&#039;focada nos objetos do mundo externo&#039;&#039;&#039;. Ela foca exclusivamente nos objetos do mundo externo, abstraindo o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que sabe, que tem conhecimento. A Experiência Mediata seria o ponto de vista característico das ciências naturais, como física, química e fisiologia. A ciência natural opera por meio de uma abstração sistemática, pois ela coloca o sujeito cognoscente &amp;quot;entre parênteses&amp;quot; e analisa apenas os objetos externos pensados, como se existissem de maneira totalmente independente de quem os percebe. É chamada de &amp;quot;mediata&amp;quot; porque &#039;&#039;&#039;nosso acesso a tais objetos é sempre indireto&#039;&#039;&#039;, ou seja, precisa de mediação, pois é dependente de conceitos abstratos, inferências teóricas e construções conceituais auxiliares para representá-los. Por um lado, o estímulo físico é intermediado pelos limites anatômicos e biológicos do nosso aparato perceptivo, ou seja, temos os limites e capacidades da nossa percepção. No caso da visão, por exemplo, não vemos os raios ultravioleta e infravermelho, pois não estão no expecto da luz visível, mas vemos as cores e suas combinações. Por outro lado, para constituir a &amp;quot;realidade objetiva&amp;quot;, o cientista natural precisa utilizar conceitos teóricos auxiliares e construções hipotéticas, como átomos, ondas eletromagnéticas e forças gravitacionais, que não são dados imediatamente na percepção sensível mas que podem ser vistos experimentalmente e por meio de instrumentos e aparatos científicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wundt critica assim o empirismo tradicional e o associacionismo. A doutrina do empirismo diz que a mente como página em branco, conforme a formulação de John Locke e sua &#039;&#039;tabula rasa&#039;&#039;. Neste caso, a mente seria progressivamente preenchida pelas impressões do mundo exterior (sensação) e pelas operações internas (reflexão). David Hume radicaliza o princípio empírico, postulando que as impressões são os átomos cognitivos fundamentais e as ideias nada mais são do que cópias atenuadas ou lembranças dessas impressões na memória e na imaginação. Já o associacionismo constitui a hipótese de que as ideias simples e discretas se combinam para formar pensamentos complexos, juízos e raciocínios abstratos. Se o empirismo fornece os blocos de construção, o associacionismo descreve a &amp;quot;força de atração&amp;quot; que os une. Conforme sistematizado por Hume e, depois, desenvolvido por Hartley e James Mill, a mente transita espontaneamente de uma ideia para outra por meio de regras regulares de associação, como a semelhança, a contiguidade no tempo e as relações de causa e efeito.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para Wundt, ambos erraram, pois transferiam as características dos objetos externos da física, como a solidez, os limites rígidos e a permanência estática, para os conteúdos conscientes, passando a tratar as representações (&#039;&#039;Vorstellungen&#039;&#039;) como coisas ou &amp;quot;átomos mentais&amp;quot;. Na física, o foco recai sobre o objeto substantivo. Contudo, segundo Wundt, a consciência não contém objetos estáveis. Ele parte de uma diferença fundamental que os psicofísicos e outros haviam apontado, que é aquela entre o mundo externo e o mundo percebido, ou ainda, entre as coisas e suas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em resumo, a Experiência Mediata se aproxima dos objetos estáveis do mundo externo e de como eles nos chegam. Na experiência mediata, o cientista da natureza pode retornar quando quiser ao mesmo objeto físico estável (uma pedra ou um elemento químico) para observá-lo repetidamente, ainda que o observador em si esteja sempre em mudança.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experiência Imediata, o Objeto de Estudo da Psicologia ====&lt;br /&gt;
Ao definir seu objeto, Wundt deu um passo decisivo para dar à psicologia autonomia perante as outras ciências naturais. Ele propõe que a experiência é uma unidade indivisível. Mas o que ele quer dizer por &#039;&#039;&#039;experiência&#039;&#039;&#039;? Uma definição poderia ser a totalidade dos processos conscientes, englobando sensações, sentimentos, representações e volições (vontades), apreendida da exata forma como se apresenta diretamente ao sujeito, sem qualquer abstração conceitual ou mediação de instrumentos externos. Ou seja, a experiência de Wundt seria como tudo o que se passa na mente, exatamente como ela aparece para uma pessoa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;O domínio da psicologia seria a experiência imediata&#039;&#039;&#039;, subjetiva, que é a experiência em sua realidade concreta, direta e intuitiva, apreendida antes de qualquer conceituação, teorização ou abstração. Ou seja, é a experiência antes de ela adquirir qualquer camada de compreensão, que seriam mediadores, por isso é imediata, &#039;&#039;&#039;sem mediação&#039;&#039;&#039;. Ela envolve o processamento de elementos sensoriais simples, como cor, som, temperatura, e de sentimentos simples, como prazer e desprazer. Ela diz respeito ao modo puro de funcionamento mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vamos a um exemplo, desta vez no campo do acústica. Na perspectiva mediata, o cientista natural abstrai o sujeito e estuda o som de forma indireta e conceitual. Ele utiliza aparelhos para medir as ondas sonoras e a sua propagação física pelo ar. O objeto físico “som” é, portanto, mediado e traduzido por conceitos de frequência, amplitude e decibéis. Já sob a perspectiva imediata, que é a da psicologia, o psicólogo estuda a sensação direta e em si mesma do tom no momento exato em que ele aparece na consciência. A análise está na vivência concreta do sujeito, que inclui a qualidade do tom, a sua intensidade subjetiva, a tonalidade afetiva de prazer ou desprazer que o acompanha e o processo ativo da atenção (apercepção, que será tratada mais adiante) que coloca aquele som no foco da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se olharmos desta vez para a cromática, na visão mediata, ciência natural estuda o azul abstraindo a experiência do sujeito. A física o descreverá de forma conceitual como uma radiação eletromagnética com determinado comprimento de onda atingindo a retina. A fisiologia se debruçará sobre o funcionamento dos tecidos dos olhos quando estimulados com a cor azul em suas nuances. Para a psicologia de Wundt, o azul é investigado como um dado imediato e real na consciência do sujeito no momento da percepção interna. O foco não está nas propriedades físicas do estímulo, mas sim na reação subjetiva e ativa do cérebro vivo a esse estímulo, que gera a qualidade imediata da cor na experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conduzindo seus estudos, Wundt também identificou aquilo que denominou &#039;&#039;&#039;causalidade psíquica&#039;&#039;&#039;. Ao nos lembrarmos de um fato triste, por exemplo, a fisiologia explicaria a tristeza de forma conceitual e indireta, por meio de correntes elétricas no córtex cerebral, liberação de hormônios ou atividade de sinapses nervosas. Já o psicólogo numa linha wundtiana observa a conexão de processos internos como elas ocorrem diretamente na consciência do sujeito, como a ligação da lembrança triste a um sentimento de angústia. A causalidade psíquica é uma causalidade própria da mente e irredutível às leis físicas da natureza, ou seja, não pode ser comparada à causalidade física como a conhecemos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao adotar a experiência como seu objeto, Wundt rompe com a psicologia da alma, filosófica e metafísica. Ele substitui a psicologia de substâncias, que postula uma entidade mental oculta, pela &#039;&#039;&#039;teoria da atualidade&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Aktualitätstheorie&#039;&#039;), na qual o psiquismo é definido como um fluxo de processos em constante devir. Seu sistema está fundamentado em um &#039;&#039;&#039;monismo perspectivista&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, para ele, mente e corpo não são substâncias que interagem mecanicamente, mas perspectivas distintas sobre a mesma unidade da experiência (&#039;&#039;Erfahrung&#039;&#039;). A psicologia, portanto, não estuda um “mundo interno”, que está isolado do externo, ainda que em contato com ele, mas a totalidade da experiência humana sob o prisma da imediatidade. Essa transição do estatuto de substância “mente” ou algo semelhante para o de processo traz uma nova perspectiva, criando um objeto que pode ser alvo de experimentação científica, partindo de experimentos já criados pela psicofísica e ainda outros que seriam desenvolvidos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Apercepção ===&lt;br /&gt;
No contexto filosófico, como já visto, o conceito de apercepção remonta a Kant, que a definiu como o processo autônomo, ativo e prévio pelo qual a mente unifica diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Wundt adotou essa noção kantiana para fundamentar sua teoria da consciência, definindo &#039;&#039;&#039;apercepção&#039;&#039;&#039; como o processo psicológico ativo pelo qual um conteúdo psíquico (ou representação) é trazido à &#039;&#039;&#039;clareza máxima e ao foco da consciência&#039;&#039;&#039;, vindo necessariamente acompanhado pelo estado de atenção voluntária.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para explicar a dinâmica da consciência, Wundt utilizou uma famosa analogia com a visão para diferenciar apercepção e percepção. O campo visual da consciência (&#039;&#039;Blickfeld&#039;&#039;) corresponde à percepção, que é a simples entrada de uma representação na consciência de forma difusa, ampla e sem a presença focalizada da atenção. Já o ponto focal da consciência (&#039;&#039;Blickpunkt&#039;&#039;) corresponde à apercepção, que é a entrada de uma representação no ponto central de máxima clareza e foco estreito da atenção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A apercepção, então, é uma &#039;&#039;&#039;manifestação primordial da vontade&#039;&#039;&#039;, funcionando como o princípio dinâmico que dá direção e estrutura tanto à experiência quanto ao movimento. Além disso, a apercepção pode ser ativa, que é quando o sujeito deliberadamente seleciona onde focará sua atenção, ou passiva, quando é o estímulo que se impõe no foco no sujeito. Por fim, a apercepção é o mecanismo central da operação da causalidade psíquica. É ela que unifica a mente em um sistema ativo, permitindo que a fusão de elementos resulte em sínteses criadoras com propriedades qualitativamente novas e imprevisíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Percepção Interna (innere Wahrnehmung) vs. Auto-observação (Selbstbeobachtung) ===&lt;br /&gt;
Para garantir o rigor procedimental e responder ao “desafio kantiano”, Wundt rejeitou a &#039;&#039;Selbstbeobachtung&#039;&#039;, que pode ser entendida como a &#039;&#039;&#039;auto-observação tradicional&#039;&#039;&#039; ou introspecção casual. Trata-se do método introspectivo puramente filosófico e especulativo que, segundo Wundt e outros, seria fonte de auto-ilusões. No momento em que o sujeito tenta observar ativamente o curso de seus próprios processos mentais complexos, a atenção que ele direciona para si mesmo altera, deforma ou suprime o próprio fenômeno em curso. Na reflexão puramente interna, é impossível garantir que o mesmo estado mental se repita de forma idêntica, impedindo a replicação intersubjetiva e a formulação de leis científicas gerais &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A solução científica é a &#039;&#039;innere&#039;&#039; &#039;&#039;Wahrnehmung&#039;&#039;, ou &#039;&#039;&#039;percepção interna&#039;&#039;&#039;, que permite a criação de um método científico baseado na repetição de estímulos externos controlados. No laboratório, o psicólogo replica condições experimentais que permitem a observação do aparecimento imediato do processo psíquico sob condições estáveis e previsíveis. O laboratório funciona, portanto, como o estabilizador do objeto psicológico, permitindo que a percepção interna atinja a precisão necessária para decompor a consciência em seus elementos fundamentais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O método de investigação da percepção interna é bem mais rigoroso. Em vez de pedir ao sujeito que reflita livremente sobre seus pensamentos, o experimentador utiliza aparelhos físicos de precisão, tais como [[Cronoscópio|cronoscópios]], pêndulos, compassos táteis, geradores de tons para controlar rigorosamente o início, a intensidade, a duração e a apresentação de estímulos externos predeterminados. Como o estímulo físico externo pode ser repetido e modificado arbitrariamente pelo pesquisador, as condições fisiológicas e sensoriais associadas à percepção interna são reproduzidas com exatidão. Com isso, o sujeito experimental pode antecipar sua atenção ao evento e captar com máxima precisão o surgimento da experiência imediata correspondente. O participante deveria ser rigorosamente treinado, muitas vezes revezando as funções de sujeito e pesquisador, e era instruído a fornecer respostas simples e verificáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Experimentos do Laboratório de Wundt ===&lt;br /&gt;
Vamos a alguns exemplos do que acontecia no laboratório de Wundt, para integrar melhor os conceitos já apresentados. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O primeiro experimento foi concebido originalmente para descrever a &#039;&#039;&#039;“equação pessoal” que aparecia nas medições dos astrônomos&#039;&#039;&#039;. O interesse neste tema surgiu quando se constatou que astrônomos treinados, utilizando os mesmos equipamentos, discordavam de suas medições que, à época, eram feitas manualmente com ajuda de instrumentos. De alguma forma, estas diferenças nas medições pareciam ter um tipo de padrão. Neste experimento, Wundt utilizava um aparelho chamado medidor de pensamento (&#039;&#039;Gedankenmesser&#039;&#039;) e, posteriormente, o pêndulo de complicação (&#039;&#039;Complicationspendel&#039;&#039;). O dispositivo consistia em um grande relógio de pêndulo que possuía uma agulha cruzada, como uma agulha de tricô, capaz de golpear fisicamente um pequeno sino em um ponto exato do seu arco de oscilação. O sujeito do experimento deveria olhar para a escala do pêndulo e tentar determinar a posição exata do ponteiro no momento em que ouvia o sino tocar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste experimento, Wundt descobriu que o sujeito sempre cometia um erro sistemático de registro, de aproximadamente um oitavo de segundo. Segundo ele, era impossível perceber visualmente a agulha e o som do sino ao mesmo tempo. Esse experimento seria uma &#039;&#039;&#039;prova laboratorial de que a consciência possui uma capacidade limitada e só consegue focar em uma única percepção por vez&#039;&#039;&#039;, como a diferença no marco da medição podia mostrar. A ilusão de simultaneidade devia-se apenas à rápida sucessão dos processos de atenção (apercepção).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os experimentos de &#039;&#039;&#039;tempo de reação&#039;&#039;&#039;, nosso segundo exemplo, constituíam o verdadeiro coração do trabalho em Leipzig na década de 1880. Wundt adaptou o método de subtração (&#039;&#039;Subtractiemethode&#039;&#039;), do fisiologista holandês F. C. Donders, para medir a velocidade de processos mentais complexos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o experimento de Wundt, é necessário compreender que, para ele, uma reação consciente envolvia: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- transmissão da sensação ao cérebro; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2- entrada do estímulo no campo amplo da consciência (percepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
3- entrada no foco ativo da atenção (apercepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
4- ato de vontade para liberar a resposta; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
5- execução motora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada um dessas partes exigem um certo tempo, pois são processos não imediatos. A depender de como as etapas do experimento são organizadas, diferentes tempos indicariam o acionamento maior ou menor de cada um deles. No experimento, o sujeito era treinado para responder pressionando uma tecla telegráfica ao ver um estímulo luminoso simples, como um &#039;&#039;flash&#039;&#039; de luz. Em seguida, vinha a tarefa mais difícil. Duas imagens eram apresentadas, um círculo branco sobre fundo preto ou vice-versa, e o sujeito só deveria reagir após identificar com clareza qual imagem havia aparecido. Ao subtrair o tempo da reação simples do tempo da reação complexa, Wundt calculava o “tempo de apercepção” ou discriminação. Na primeira tese de doutorado em psicologia experimental da história, Max Friedrich, que atuou no experimento, mostrou que o tempo de discriminação aumentava de acordo com a complexidade do estímulo visual. Por exemplo, o sujeito levava mais tempo para aperceber e discriminar uma sequência de seis dígitos do que de apenas um ou dois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O assistente de Wundt, Ludwig Lange, também colaborou no estudo ao desenvolver um experimento crucial. Ele demonstrou que os &#039;&#039;&#039;tempos de reação variavam drasticamente dependendo da preparação da atenção&#039;&#039;&#039; (no conceito moderno da palavra) do sujeito. Se a atenção estivesse focada no movimento de resposta que o dedo faria (reação muscular), o tempo era curto (cerca de 125 ms), pois funcionava como um “reflexo cerebral” que pulava a apercepção. Se o foco estivesse direcionado ao estímulo sensorial que iria surgir (reação sensorial), o tempo era cerca de 100 ms mais longo, pois envolvia o circuito completo da mente consciente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O terceiro experimento foi desenvolvido por Martin Trautscholdt, um dos estudantes de doutorado de Wundt. Ele estudava a &#039;&#039;&#039;associação de ideias&#039;&#039;&#039;. No seu estudo, o sujeito era instruído a pressionar uma tecla no momento exato em que uma ideia associada surgisse em sua consciência a partir de um estímulo visual ou auditivo. Ao subtrair o tempo que o sujeito levava para simplesmente reconhecer a palavra estimulante, Trautscholdt conseguiu quantificar o tempo gasto pela mente para realizar a conexão associativa propriamente dita que, segundo Trautscholdt, variava entre 706 e 874 ms. Wundt também adaptou a &#039;&#039;&#039;técnica de associação de palavras de Francis Galton&#039;&#039;&#039;, limitando a resposta do sujeito a apenas uma única palavra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O quarto e último experimento que será apresentado é relacionado a &#039;&#039;&#039;acordes musicais&#039;&#039;&#039;. Nele, sujeitos ouviam tons isolados no piano, que seriam as sensações puras, e depois os mesmos tons tocados simultaneamente. Os participantes descreviam em detalhes a transição afetiva de como a fusão física das frequências dava origem a um produto inteiramente novo na consciência. Este seria o sentimento estético de harmonia e o prazer decorrente de uma síntese criadora. Wundt conduzia vários experimentos em estética experimental, tal qual seu colega Fechner.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Arquitetura da Mente: Elementos, Fusão e Síntese Criadora ===&lt;br /&gt;
Segundo Wundt, &#039;&#039;&#039;a experiência pode ser decomposta em elementos simples&#039;&#039;&#039;, que incluem as sensações e os sentimentos simples. Os &#039;&#039;&#039;sentimentos&#039;&#039;&#039;, por sua vez, são entendidos a partir da &#039;&#039;&#039;teoria tridimensional dos sentimentos&#039;&#039;&#039;, onde eles se distribuem em um espaço qualitativo entre os polos prazer/desprazer (&#039;&#039;Lust-Unlust&#039;&#039;), tensão/relaxamento (&#039;&#039;Spannung-Lösung&#039;&#039;) e excitação/depressão (&#039;&#039;Erregung-Beruhigung&#039;&#039;). A primeira é a mais evidente, se refere à avaliação afetiva primária da experiência. A segunda se relaciona ao esforço da atenção ou à preparação interna da mente. Já a terceira está relacionada ao nível de ativação biológica e psicológica do organismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esses aspectos todos são organizados através do mecanismo de &#039;&#039;&#039;fusão&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Verschmelzung&#039;&#039;), onde as qualidades elementares se fundem em complexos psíquicos. O conceito central aqui é o princípio da &#039;&#039;&#039;síntese criadora&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;schöpferische Synthese&#039;&#039;). Ao contrário do associacionismo britânico, Wundt afirma que o todo resultante possui propriedades que não estão contidas na mera soma das partes. Essa síntese não é um processo mecânico passivo, mas um ato aperceptivo ativo, ou seja, vinculado à vontade. Na mente humana, a combinação de elementos gera um valor novo e qualitativamente superior, marcando a distinção fundamental entre a causalidade psíquica e a mecânica física.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em termos simples, a síntese criadora estabelece que os complexos psíquicos, como representações, sentimentos compostos e afetos, embora formados pela união de elementos simples (sensações e sentimentos simples), possuem características qualitativas inteiramente novas que não pertencem a nenhum de seus elementos constituintes isolados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fusão é o processo ativo e primário de integração psíquica. É através dela que os elementos sensoriais e afetivos brutos são ativamente sintetizados pela mente para dar origem a uma nova unidade psicologicamente complexa. A fusão é a geradora da síntese criadora. Para Wundt, a síntese criadora é a prova cabal da causalidade psíquica. Ela mostra que os fenômenos mentais obedecem a leis de conexão e geração próprias que não se ajustam às leis da física ou da fisiologia mecânica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Observemos isso com um exemplo já apresentado, sobre a música. Se você tocar no piano as notas Dó, Mi e Sol isoladamente, você terá apenas a experiência de três sensações auditivas distintas. No entanto, quando essas notas são tocadas simultaneamente, a fusão de seus elementos gera na consciência uma experiência qualitativamente nova, que seria um acorde musical. O sentimento de harmonia e a qualidade estética do acorde são um produto da síntese criadora, pois não existiam em nenhuma das notas isoladas e surgem puramente da atividade unificadora da mente sobre o estímulo físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Paralelismo Psicofísico e Causalidade Psíquica ===&lt;br /&gt;
O paralelismo psicofísico foi um dos conceitos mais importantes e debatidos no século XIX durante o processo de fundação da psicologia científica. Ele surgiu como uma alternativa teórica para solucionar o clássico problema mente-corpo. O conceito foi formulado de forma a tanto o dualismo substancial, que dividia o ser humano em duas substâncias isoladas cuja forma de interação era desconhecida, quanto o materialismo reducionista, que reduzia a mente a uma mera secreção cerebral ou processo físico ou fisiológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para &#039;&#039;&#039;Fechner&#039;&#039;&#039;, o &#039;&#039;&#039;paralelismo&#039;&#039;&#039; era a manifestação de um monismo neutro, ou teoria de duplo aspecto. Ele defendia que a matéria (corpo) e o espírito (mente) não são substâncias diferentes, mas sim dois modos de aparência ou perspectivas distintas de uma única e mesma realidade subjacente, teoria sobre o qual fundamental grande parte de seu projeto científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt também adotou o termo &#039;&#039;&#039;paralelismo psicofísico&#039;&#039;&#039;, mas realizou uma redefinição epistemológica radical do conceito, visando se afastar da metafísica. Ele rejeitava categoricamente qualquer tentativa de transformar o paralelismo em uma doutrina ontológica sobre a natureza última da realidade, transformando-o estritamente um postulado metodológico e heurístico indispensável para a investigação científica. Os processos mentais não sejam reduzidos a processos fisiológicos ou neurais, pois a consciência obedece a leis de conexão próprias, como a causalidade psíquica, que não podem ser explicadas pelas leis da mecânica cerebral.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Psicologia Individual e Völkerpsychologie: dois métodos para manifestações da experiência ===&lt;br /&gt;
A arquitetura metodológica de Wundt responde ao desafio de investigar processos mentais que variam em complexidade. Ele estabelece que &#039;&#039;&#039;a psicologia deve ser compreendida como o fundamento das ciências humanas&#039;&#039;&#039; ou ciências do espírito (&#039;&#039;Geisteswissenschaften&#039;&#039;). A &#039;&#039;&#039;Psicologia Individual&#039;&#039;&#039;, na concepção de Wundt, foca nos processos elementares, que incluem sensação e percepção, que são passíveis de controle rigoroso em laboratório através da manipulação de estímulos externos e pelas técnicas da [[introspecção]] experimental e estudo da experiência interna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entretanto, Wundt reconhece a insuficiência do modelo experimental para os processos mentais superiores, como o pensamento e a linguagem, que são historicamente condicionados. Para estes, ele propõe a &#039;&#039;Völkerpsychologie&#039;&#039; , ou &#039;&#039;&#039;Psicologia dos Povos&#039;&#039;&#039;, dedicada ao estudo dos produtos das &#039;&#039;geistige Gemeinschaften&#039;&#039; (comunidades espirituais, no sentido das ciências do espírito, ou coletividades). Wundt vai apontar a linguagem, o mito e os costumes (&#039;&#039;Sitten&#039;&#039;) não são apenas dados culturais, mas objetivações de leis psíquicas superiores, inacessíveis à introspecção de laboratório. Eles seriam produtos da experiência humana nas suas formas mais avançadas e superiores e, por não serem passíveis de experimentação, exigem uma outra abordagem. Essas duas vertentes, experimental e histórico-cultural, não são divergentes, mas sim o projeto integrador que permite apreender a mente tanto em sua base sensório-motora quanto em suas manifestações espirituais complexas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As investigações da psicologia dos povos focavam na alma do povo (&#039;&#039;Volksseele&#039;&#039;), definida como a realidade factual dos processos psíquicos que surgem em uma comunidade por meio da interação das energias mentais dos indivíduos. Essa “mente coletiva” se tornava um objeto tangível e investigável ao longo da história em três grandes produtos culturais. O primeiro é a &#039;&#039;&#039;linguagem&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Die Sprache&#039;&#039;), ferramenta pela qual o pensamento é estruturado e externalizado. Já o &#039;&#039;&#039;mito e a religião&#039;&#039;&#039; são as formas como a imaginação e os sentimentos humanos coletivos projetam suas explicações sobre o cosmos e a existência. Os &#039;&#039;&#039;costumes&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Sitten&#039;&#039;) e o &#039;&#039;&#039;direito&#039;&#039;&#039;, por sua vez, são  as regras de conduta coletiva que nascem de atos voluntários e impulsos compartilhados, padronizando as interações sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não podia realizar experimentos com culturas inteiras, Wundt operava por meio da pura &#039;&#039;&#039;observação retrospectiva e comparativa dos produtos mentais&#039;&#039;&#039;, ou seja, analisando os objetos já criados e usados ou em uso por diferentes povos e culturas, anotando suas diferenças e semelhanças. Wundt juntava, lia e analisava de forma exaustiva relatos históricos, estudos filológicos, dicionários, mitologias comparadas, códigos de leis e descrições etnológicas e antropológicas de povos ao redor do globo, ou seja, utilizava dos estudos de diferentes ciências humanas e sociais para extrair as leis psicológicas gerais do desenvolvimento mental humano por trás dessas manifestações. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seu objetivo era mapear como a mente coletiva evoluía do simples para o complexo ao longo das eras, numa abordagem genética e desenvolvimentista e reconstruir, de forma retrospectiva, as forças dinâmicas, os afetos, os impulsos (&#039;&#039;Triebe&#039;&#039;) e os processos de síntese criadora (melhor discutida mais adiante) que estiveram ativos na mente das pessoas no momento de sua formação. Wundt dedicou os últimos 20 anos de sua vida (de 1900 a 1920) quase exclusivamente a esse empreendimento monumental, escrevendo dez volumes sobre o assunto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O que Aconteceu Depois? ===&lt;br /&gt;
No final de sua vida, Wilhelm Wundt era visto de forma ambivalente. Enquanto mantinha o prestígio de fundador da psicologia científica, uma nova geração de psicólogos que buscava se firmar, via como um “pai tribal”, cujo longo domínio de mais de quatro décadas estava desgastado. Ele se tornou o alvo de críticas severas e passou a ser tratado por muitos como o ícone de um passado superado e falido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante a Primeira Guerra Mundial e nos anos que a sucederam, a reputação internacional de Wundt sofreu graves danos. Influenciado por seu filho Max, Wundt adotou posturas políticas ultranacionalistas, chegando a usar a &#039;&#039;Völkerpsychologie&#039;&#039; de maneira tendenciosa para criticar os inimigos da Alemanha. Essa postura inflamou um forte preconceito anti-alemão, especialmente nos Estados Unidos, onde ex-alunos e intelectuais americanos passaram a ver ele como uma mente maligna e autoritária, acelerando a rejeição de suas obras em solo estrangeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A maior frustração de Wundt no fim da vida ocorreu no âmbito acadêmico alemão. Ele sempre defendeu que a psicologia era uma ciência propedêutica e uma aliada indispensável da filosofia, devendo permanecer integrada a esta. No entanto, os filósofos acadêmicos de sua época, especialmente os neokantianos e fenomenologistas, rejeitaram veementemente o  que chamavam de “&#039;&#039;&#039;[[psicologismo]] de Wundt&#039;&#039;&#039;”, ou seja, a redução da lógica e da validade do conhecimento a fatos psicológicos. Em 1913, após a contratação de um psicólogo experimental para a cadeira de filosofia em Marburg, mais de cem professores de filosofia assinaram um &#039;&#039;&#039;protesto público exigindo que psicólogos fossem banidos dos departamentos de filosofia&#039;&#039;&#039;. Esse movimento resultou no progressivo divórcio institucional entre a psicologia e a filosofia, uma separação que Wundt lamentou e combateu até a sua morte em 1920.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir da década de 1890, uma forte onda de positivismo, inspirada pela filosofia de Ernst Mach e Richard Avenarius, varreu a psicologia experimental. Jovens psicólogos, incluindo os assistentes do próprio Wundt, rejeitaram conceitos fundamentais do sistema de Leipzig, como a apercepção, a causalidade psíquica e a síntese criadora, tomando eles como metafísica, exatamente o oposto do que desejava seu formulador. Eles preferiam um modelo elementarista e reducionista, focado na descrição de relações funcionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos EUA, a influência da teoria da evolução de Darwin deslocou o interesse da estrutura da consciência para as suas funções de adaptação ao meio, o chamado funcionalismo. Com o surgimento e o fortalecimento do behaviorismo e a eliminação da mente como objeto de estudo, o voluntarismo de Wundt perdeu qualquer espaço. Na Europa, a própria psicologia da Gestalt ergueu-se combatendo o elementarismo que havia sido falsamente associado a Wundt. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O golpe final veio após a Primeira Guerra Mundial, quando a Alemanha mergulhou em colapso econômico. Diante da “&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;”, os pesquisadores precisaram provar a utilidade prática da ciência que praticavam para sobreviver, o que já acontecia nos EUA, voltando-se para a psicologia militar, industrial, educacional e clínica. &#039;&#039;&#039;Wundt, que sempre desprezou a psicologia aplicada&#039;&#039;&#039;, teria visto seu sistema dinâmico de laboratório perder todo o fôlego diante das pressões pragmáticas da época, ainda que mantivesse sua fama e sua alcunha maior. Ironicamente, um dos principais defensores da psicologia puramente laboratorial, foi quem escreveu a obra mais bem-sucedida de história da psicologia, servindo de parâmetro para o campo por décadas, ou seja, [[Edwin Boring]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia Científica na Inglaterra ==&lt;br /&gt;
O surgimento da psicologia na Inglaterra seguiu um caminho bastante distinto do modelo laboratorial alemão, focado na introspecção e na busca de leis universais. A psicologia britânica formou-se na intersecção de duas grandes forças intelectuais, que são as filosofias empirista e associacionista, e a biologia evolutiva. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No &#039;&#039;&#039;empirismo&#039;&#039;&#039;, pensadores como John Locke postularam que a mente humana nasce como uma tabula rasa ou uma folha em branco, e que absolutamente todo o conhecimento deriva da experiência sensorial. No &#039;&#039;&#039;associacionismo&#039;&#039;&#039;, filósofos como David Hume, James Mill e John Stuart Mill afirmavam processos mentais complexos são formados pela associação contínua de ideias simples e sensações, governadas por leis lógicas. tais como similaridade, contiguidade e causa e efeito. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A despeito de sua rica tradição filosófica, o maior divisor de águas para a ciência britânica foi a publicação de [[A Origem das Espécies (livro)|A Origem das Espécies]], em 1859. A teoria da evolução natural de Darwin, trouxe novas e profundas questões para o estudo da mente britânica. Se humanos e animais compartilham ancestrais comuns, argumentava-se que deveria haver uma continuidade não apenas física, mas também mental entre as espécies, conectando a psicologia ao estudo da zoologia, dando origem à &#039;&#039;&#039;Psicologia Comparada&#039;&#039;&#039;. Além disso, a mente e a consciência deixaram de ser vistas apenas como objetos metafísicos e passaram a ser estudadas como ferramentas biológicas de adaptação, que evoluíram porque ajudavam o organismo a sobreviver em seu ambiente, sendo fundamental para a criação do funcionalismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a validação da biologia evolutiva, o estudo da inteligência animal explodiu no Reino Unido, [[George Romanes]] foi um dos primeiros a tentar sistematizar o comportamento animal. Contudo, seu método anedótico foi duramente criticado por ser antropomórfico, ou seja, por atribuir pensamentos e emoções humanas complexas a animais. Seu colega [[Conwy Lloyd Morgan]] introduziu mais rigor científico à área através do que ficou mundialmente conhecido como o &#039;&#039;&#039;Cânone de Morgan&#039;&#039;&#039;, ou [[princípio da parcimônia]]. A regra dizia que um comportamento animal não deve ser interpretado como resultado de uma faculdade mental superior se puder ser explicado por um processo psicológico mais básico, como o instinto ou o aprendizado por tentativa e erro. Apesar de a perspectiva de ambos ter sido abandonada, a Psicologia Comparada se tornou um dos principais ramos da psicologia moderna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Francis Galton e a Psicologia Diferencial ===&lt;br /&gt;
[[Francis Galton]] (1822-1911) foi um cientista e polímata britânico de inteligência extraordinária, com um QI estimado por volta de 200, algo extremamente raro, além de ser primo de Charles Darwin. Galton é amplamente reconhecido como pioneiro ao incorporar o estudo sistemático das diferenças individuais e da herança mental na nova psicologia, uma área que era ignorada ou rejeitada por pioneiros experimentalistas como Wilhelm Wundt.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Galton se interessou pela medição das variações da inteligência e das capacidades humanas. Ele fundou um [[Laboratório de Galton|&#039;&#039;&#039;laboratório antropométrico&#039;&#039;&#039;]] onde testou a acuidade sensorial, a força e os tempos de reação de milhares de pessoas. Além disso, baseando-se na premissa empirista de John Locke de que todo o conhecimento vem da percepção, Galton assumiu que os indivíduos mais inteligentes seriam aqueles com as capacidades sensoriais e motoras mais aguçadas. Ele foi o inventor do conceito de testes mentais, termo posteriormente cunhado por seu aluno dos EUA, [[James McKeen Cattell]]. Galton também desenvolveu o &#039;&#039;&#039;método experimental de associação de palavras&#039;&#039;&#039;, medindo o tempo de reação mental e demonstrando a enorme influência das experiências da infância e do inconsciente no pensamento adulto, um trabalho que impressionou profundamente [[Sigmund Freud]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também foi um dos primeiros a fazer uso amplo do questionário psicológico para investigar imagens mentais, constatando para sua própria surpresa que a maioria dos cientistas relatava ausência de imagens mentais nítidas, em contraste com relatos muito mais detalhados fornecidos por mulheres e crianças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para conduzir medições em larga escala, ele inventou vários instrumentos clássicos e, para analisar suas enormes bases de dados, &#039;&#039;&#039;Galton desenvolveu conceitos estatísticos fundamentais&#039;&#039;&#039;, como a correlação. Essa tradição quantitativa foi depois aperfeiçoada por outros britânicos, como [[Charles Spearman]], criador da análise fatorial e do conceito de [[fator g de inteligência geral]], fundando a base da psicometria moderna. e influenciando de forma decisiva a psicologia dos testes nos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Conclusão ==&lt;br /&gt;
A história da psicologia é definida pelo paradoxo de ter um “longo passado” e uma “curta história”, podendo ir do De Anima de Aristóteles até a a fundação do laboratório de Wilhelm Wundt na Universidade de Leipzig, em 1879. A psicologia, assim, mostra que tem uma rica história, com muitos personagens, conceitos e acontecimentos importantes, de modo que qualquer narrativa sobre sua composição elegerá heróis e vilões, dará mais relevância para alguns, menos para outros e o esquecimento para a maioria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Immanuel Kant foi uma figura central na composição da psicologia científica. Ele propôs que a mente humana é um agente ativo que organiza o conhecimento através de estruturas &#039;&#039;a priori&#039;&#039;, tais como o tempo, o espaço e as categorias do entendimento. Assim, ele introduziu o conceito de “sujeito transcendental” como a estrutura universal que garante a unidade da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Kant impôs um “veto” ao status científico da psicologia, defendendo a necessidade de uma base na matematização. A superação desse veto ocorreu através da “naturalização” de Kant pela fisiologia. Johannes Müller, com a Teoria das Energias Nervosas Específicas, mostrou que a sensação é mediada pelo sistema nervoso, não sendo uma cópia fiel do mundo externo. Hermann von Helmholtz avançou essa ideia ao postular que as estruturas a priori de Kant seriam, na verdade, características da anatomia e fisiologia humanas. Ele propôs o conceito de “inferências inconscientes” para explicar como interpretamos dados sensoriais. Nesse contexto, Friedrich Albert Lange defendeu uma “psicologia sem alma”, rejeitando a metafísica e argumentando que o estudo científico deve focar apenas nas aparências e fenômenos observáveis, reduzindo o objeto da psicologia a dados empíricos e correlações fisiológicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner, por sua vez, foi crucial ao oferecer a base matemática e experimental que faltavam, por meio da Lei de Weber-Fechner. Ele também padronizou e melhorou métodos para o estudo dos limites e constantes sensoriais, que se tornaram a base metodológica da psicologia experimental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt não apenas fundou um laboratório, como também arquitetou um sistema complexo. Para Wundt, o objeto da psicologia é a experiência imediata, criando conceitos como voluntarismo, causalidade psíquica, apercepção, entre outros. Além disso, ele também criou a psicologia dos povos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente do foco laboratorial alemão, a psicologia britânica foi moldada pela filosofia empirista e pela teoria da evolução de Charles Darwin. Neste contexto, Galton ganha destaque, por ter fundado o laboratório antropométrico, inventado ideias que levaram aos “testes mentais”, pelo uso de estatísticas no estudo da psicologia e ter influenciado o desenvolvimento da psicometria e a análise fatorial com Charles Spearman, consolidando uma tradição que focava mais na variabilidade genética e na inteligência do que na estrutura da consciência em si.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A história da psicologia tem origens ricas e diversas, e sua difusão implicou em muitas transformações em variadas formas. Qualquer narrativa sobre o surgimento da psicologia científica terá limites e potencialidades, devido às escolhas epistemológicas, filosóficas e de acontecimentos históricos. Este material defende que a psicologia científica teve origem em um elementos específico da fisiologia alemã que uniu-se a um movimento filosófico de retorno a Kant no século XIX. Uma vez fundada, a psicologia científica abriu o caminho para outras ideias e formas da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
ARAUJO, Saulo de Freitas. Uma visão panorâmica da psicologia científica de Wilhelm Wundt. &#039;&#039;&#039;Scientiæ Studia&#039;&#039;&#039;, São Paulo, v. 7, n. 2, p. 209-220, 2009. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S1678-31662009000200003&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_surgimento_da_psicologia_cient%C3%ADfica&amp;diff=1754</id>
		<title>O surgimento da psicologia científica</title>
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		<updated>2026-09-05T14:36:36Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* Referências */ Inserção de links&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto [[Portal História da Psicologia]]) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um longo passado, uma curta história ==&lt;br /&gt;
A psicologia tem um longo passado, mas uma curta história. Esta é uma frase muito famosa no campo da história da psicologia, tendo sido consagrada por Hermann Ebbinghaus, um psicólogo alemão pioneiro no estudo da memória, ainda no século XIX. A frase é exemplar e muito usada em debates sobre a historiografia da psicologia, e isto revela como é difícil dizer quando a psicologia teve início. Ela tem um &#039;&#039;&#039;longo passado&#039;&#039;&#039;, porque os temas que consideramos hoje como parte da psicologia aparecem muitas vezes na filosofia, na religião, em saberes tradicionais, entre muitos outros lugares, ao longo da história. É difícil estabelecer qual &#039;&#039;&#039;o objeto de estudo da história da psicologi&#039;&#039;&#039;a, assim como é difícil, ao longo da história, &#039;&#039;&#039;separar o que é  psicologia daquilo que não é psicologia&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse longo passado pode remontar, por exemplo, à Antiguidade, com o tratado De Anima, de Aristóteles, que escreveu muito antes de se imaginar o próprio conceito de ciência moderna e, menos ainda, de uma psicologia moderna. Outros podem colocar o início da psicologia com Descartes, que elaborou a máxima, também famosa, “penso, logo existo”. Isso mostra que &#039;&#039;&#039;os objetos de estudo da psicologia são historicamente construídos&#039;&#039;&#039;, ou seja, emergem a partir dos locais ou pessoas que atuaram na psicologia, como na medida das diferenças individuais, as dinâmicas de controle num laboratório, nas práticas de psicoterapia, entre muitas outras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se cada historiador localiza o passado da psicologia em lugares diferentes no tempo e no espaço, a &#039;&#039;&#039;história da psicologia&#039;&#039;&#039;, por seu lado, tem uma definição bem mais estável e curta. Nos anos 1980, historiadores reunidos num congresso nos EUA definiram que &#039;&#039;&#039;a psicologia científica começou em 1879, quando [[Wilhelm Wundt]] fundou o primeiro laboratório de psicologia experimental na Universidade de Leipzig, na Alemanha&#039;&#039;&#039;. Essa definição está consagrada e é quase um consenso, porém, não foi tão simples estabelecê-la. Alguns advogavam pelo pioneirismo de outro alemão, [[Gustav T. Fechner|Gustav Theodor Fechner]], criador da chamada [[psicofísica]], de onde vieram muitos dos experimentos e ideias de Wundt. Outros ainda queriam que [[William James]], um filósofo e psicólogo americano, fosse reconhecido como fundador, pois seu laboratório de psicologia era ainda mais antigo que o de Wundt que, no final, venceu essa disputa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Resumindo, a psicologia possui um “longo passado”, com raízes filosóficas e religiosas milenares e altamente diversas, e uma “curta história” como disciplina científica, cujo marco está situado em 1879, com a fundação do primeiro laboratório experimental por Wilhelm Wundt, na Alemanha. Pelo menos é assim que, atualmente, a grande maioria dos historiadores entende a questão, uma das poucas em que há algum conceito neste campo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Presentismo ===&lt;br /&gt;
Mas o que seriam essas psicologias anteriores a essa psicologia científica? Para entender melhor essa história, é preciso refletir para superar, da melhor forma, um problema chamado &#039;&#039;&#039;presentismo&#039;&#039;&#039;, ou seja, julgar, entender, interpretar e analisar o passado com a visão do presente. Não é apenas uma questão de olhar para as pessoas do passado e superar o pensamento de que elas eram “ignorantes”, pois “não tinham o conhecimento que temos hoje”. É entender também que, no passado, haviam formas de conhecimentos diferentes, bem como visões de mundo diferentes da atual. Este é um problema fascinante. Muitos dos consensos contemporâneos, coisas que entende-se totalmente óbvias, eram vistas de forma completamente diferente no passado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo interessante é o &#039;&#039;&#039;conceito de atenção&#039;&#039;&#039;. Hoje, ela é um tema tão discutido e consensual que pouco se reflete sobre seu significado. Atualmente, seria algo como centralizar as faculdades mentais ou talvez a percepção em um ponto específico. Pode-se ouvir as pessoas reclamando da própria falta de atenção, que “não conseguem prestar atenção”, ou que nunca “mantém a atenção”, e até mesmo existem medicamentos para resolver esse problema. Contudo, a palavra “atenção” nem sempre significou o que entendemos hoje. Para [[Santo Agostinho]], atenção era apenas o ato de passar de um pensamento para outro. [[René Descartes|Descartes]] tinha um conceito mais parecido com o contemporâneo, onde a atenção era mobilizada de forma voluntária para fixar e reter na memória coisas raras e extraordinárias que o entendimento considerava úteis. Na obra de [[John Locke|Locke]], a atenção é mencionada apenas de passagem, como um mero mecanismo auxiliar da retenção de memórias. A partir do momento em que a ciência passou a entender que a percepção depende da estrutura física e biológica do corpo, com a psicofísica e a fisiologia sensorial, já no século XIX, a visão passou a ser encarada como intrinsecamente incompleta, instável e condicionada pelo tempo. Nesse contexto, a atenção foi utilizada como um substituto pragmático para garantir a coerência do mundo percebido. Autores do final do século XIX, como [[Théodule Ribot]] e [[Max Nordau]], associaram os desvios ou a fraqueza da atenção a patologias psíquicas, comportamentos sociopáticos e teorias da “degeneração”. Para eles, uma atenção defeituosa deixava a mente à mercê de “associações caóticas”, gerando uma visão borrada e distorcida da realidade. Foi apenas na década de 1950 que a nossa compreensão contemporânea de atenção começou a se delinear, paralelamente aos estudos sobre os medicamentos desenvolvidos para tratar as suas disfunções.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma pessoa desavisada, que não está atenta às grandes diferenças entre as ideias e conceitos ao longo do tempo, poderia ler um trecho de Ribot, Santo Agostinho, Descartes e outros e achar que a atenção sobre a qual eles falam é a mesma coisa que entendemos hoje. O leitor estaria totalmente enganado, a ponto de não conseguir nem mesmo compreender o que estes pensadores queriam dizer. Em outras palavras, &#039;&#039;&#039;o esforço para entender as psicologia do passado passa também pelo esforço de entender como se pensava no passado, qual a visão que se tinha nesse passado&#039;&#039;&#039;. Parte do esforço do historiador é trazer esses aspectos de volta ao presente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O sujeito transcedental de Kant ==&lt;br /&gt;
A concepção de uma psicologia ocupada especificamente com a “mente” humana e suas operações começou a ganhar contornos modernos no século XVIII com o filósofo [[Christian Wolff]]. Ele dividiu a psicologia em [[Psicologia Empírica (livro)|&#039;&#039;&#039;Psicologia Empírica&#039;&#039;&#039;]], num livro publicado em  1732 e baseada na introspecção; e em &#039;&#039;&#039;Psicologia Racional&#039;&#039;&#039;, numa obra de 1734, dedicada a deduzir a natureza e a essência da alma, como sua imortalidade e imaterialidade, de forma puramente lógica e racional, independentemente da experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, o projeto de Wolff enfrentava um sério problema metodológico: a chamada observação interna ou [[introspecção]]. Quando se estuda um fenômeno natural, como a chuva, é necessário observar tudo que está envolvido com estee fenômeno, incluindo como as nuvens se formam, qual a umidade do ar, a intensidade dos raios solares, a direção dos ventos, entre muitos outros fatores. A questão é que todos estes aspectos são &#039;&#039;&#039;externos ao sujeito&#039;&#039;&#039;. Toda a ciência é feita dessa forma, observando, testando e analisando o mundo que está fora dos indivíduos. O problema está em estudar algo que é interno aos sujeitos. Não se pode observar diretamente o que se passa na cabeça de alguém, pelo menos não por enquanto. Contudo, é possível analisar o que se passa nas nossas próprias cabeças. Isso seria a &#039;&#039;&#039;introspecção&#039;&#039;&#039;, ou seja, o processo pelo qual adquirimos conhecimento sobre nossos próprios estados ou processos mentais Apesar de ser uma ideia interessante, fazer introspecção não era considerado algo muito científico. Entendia-se que “observar a si mesmo” distorcia os eventos mentais, pois o sujeito que observa e o objeto observado são o mesmo, o que impediria a neutralidade exigida pelo modelo científico então vigente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até a segunda metade do século XVIII, as teorias do conhecimento, que incluíam o empirismo e o racionalismo, compartilhavam a premissa de que o conhecimento era determinado pelo objeto a ser conhecido. A ideia era a de que objeto estava lá, esperando a melhor forma de ser conhecido. &#039;&#039;&#039;Kant&#039;&#039;&#039;, em sua obra [[Crítica da Razão Pura (livro)|Crítica da Razão Pura]] (1781), inverteu essa lógica de forma radical. Ele propôs que &#039;&#039;&#039;não é o conhecimento que se adequa aos objetos, mas são os objetos que são determinados pelo sujeito&#039;&#039;&#039;. O conhecimento passou a ser compreendido não como uma recepção passiva, mas como uma produção ativa do chamado sujeito transcendental, moldada por suas formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;sujeito transcendental&#039;&#039;&#039; em Kant não se refere propriamente a um indivíduo empírico ou psicológico, ou seja, alguém com personalidade e história pessoal. Pense no sujeito transcendental não como “você” (André ou Maria), mas como o “sistema operacional” universal da mente humana. Assim como um software organiza os dados que chegam do teclado, convertendo eles em coisas numa tela, o sujeito transcendental organiza os dados que chegam dos sentidos, como o tempo e o espaço, antes mesmo de termos consciência deles.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o sujeito transcedental, é preciso fazer um importante exercício de abstração, visando conseguir entender algo que está além da experiência existencial individual e entender aquilo que molda essa própria experiência. O sujeito transcedental de Kant é, segundo ele próprio, uma condição universal de possibilidade para qualquer conhecimento. Em outras palavras, é algo que todas as pessoas possuem e é a forma que o ser humano tem para saber as coisas. É a estrutura ativa da mente que organiza a experiência antes mesmo que possamos refletir sobre ela. Esse sujeito é o princípio unificador que garante a coerência dos dados sensoriais, transformando o caos de impressões oriundas dos órgãos dos sentidos em uma experiência significativa e estruturada. Através das formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039; da sensibilidade (espaço e tempo) e das categorias do entendimento, o sujeito transcendental “constrói” o objeto conhecido. Ele é o “Eu penso” cartesiano, que deve poder acompanhar todas as nossas representações, conferindo unidade à consciência. Em suma, &#039;&#039;&#039;não conhecemos o mundo como ele é em si, mas como o sujeito transcendental o molda e o organiza para que se torne inteligível para nós&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Immanuel Kant revolucionou a teoria do conhecimento ao postular que a mente humana não funciona como um receptáculo passivo de impressões sensoriais, mas sim como um agente ativo dotado de estruturas constitutivas a priori que organizam, unificam e interpretam a matéria-prima da experiência. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas ideias de Kant, o processo de constituição do conhecimento dos fenômenos que chegam para nossa mente a partir dos órgãos dos sentidos articula-se em três instâncias fundamentais. A primeira são as formas puras da sensibilidade, depois vem os conceitos puros do entendimento, ou seja, as categorias e, por fim, a unidade sintética da apercepção. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas &#039;&#039;&#039;formas puras da sensibilidade&#039;&#039;&#039;, antes mesmo que o intelecto possa aplicar qualquer conceito, o caos das sensações brutas é necessariamente ordenado no espaço e no tempo, que não são propriedades das coisas em si, mas intuições puras da sensibilidade que funcionam como os eixos coordenados onde os fenômenos são dados. Ou seja, as informações dos sentidos já chegam num espaço e num tempo para o resto do processo de constituição do conhecimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma vez colocados no espaço e estruturados numa sucessão e simultaneidade temporal, esses dados passam pelas &#039;&#039;&#039;doze categorias do entendimento puro&#039;&#039;&#039;. Essas categorias se dividem em &#039;&#039;&#039;quatro classes de tríades&#039;&#039;&#039;: quantidade, qualidade, relação e modalidade. As &#039;&#039;&#039;categorias&#039;&#039;&#039; representam as regras lógicas puras, fundamentais e necessárias para tornar qualquer objeto da experiência inteligível. Elas podem ser observadas de forma simplificada na tabela a seguir:&lt;br /&gt;
{| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot;&lt;br /&gt;
|Classe de Categorias&lt;br /&gt;
|Categoria 1 (Tese)&lt;br /&gt;
|Categoria 2 (Antítese)&lt;br /&gt;
|Categoria 3 (Síntese)&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|1. Quantidade&lt;br /&gt;
|Unidade&lt;br /&gt;
|Pluralidade&lt;br /&gt;
|Totalidade&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|2. Qualidade&lt;br /&gt;
|Realidade&lt;br /&gt;
|Negação&lt;br /&gt;
|Limitação&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|3. Relação&lt;br /&gt;
|Substância e Acidente&lt;br /&gt;
|Causa e Efeito&lt;br /&gt;
|Ação Recíproca&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|4. Modalidade&lt;br /&gt;
|Possibilidade (Impossibilidade)&lt;br /&gt;
|Existência (Não-existência)&lt;br /&gt;
|Necessidade (Contingência)&lt;br /&gt;
|}&lt;br /&gt;
As categorias de quantidade dizem respeito à extensão em que aplicamos um conceito aos objetos, ou seja, “quantos” elementos estamos considerando no juízo. Na unidade, temos um único objeto. Na pluralidade, trazemos vários objetos do mesmo tipo para um conjunto. Já a totalidade surge quando pensamos a pluralidade como uma unidade completa.Vejamos um exemplo. Quando um observador vê uma maçã, aplica a categoria da unidade, ou seja, ele viu uma maçã. Ao ver várias maçãs espalhadas na mesa, apreende uma pluralidade, ou seja, ele tem um conceito de “maçãs” e as vê como um conjunto. Porém, ao formular uma lei universal, aplica-se a totalidade, que engloba toda a pluralidade possível sob uma única regra conceitual, ou seja, todas as maçãs são frutas e existem vários tipos de maçãs.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade trata da atribuição de um predicado, ou seja, se a experiência afirma algo, nega algo ou se situa num limite conceitual. Em outras palavras, é a forma da mente definir “como algo é”. A realidade é afirmação de que um predicado pertence a um ser, ou seja, ele é alguma coisa. A negação é a afirmação de que o predicado não pertence a algo, ou seja, um “não-ser”. A limitação é a síntese das duas anteriores. Atribui-se uma negação como se fosse uma realidade, excluindo aquilo de uma esfera, mas deixando infinita a esfera onde ele pode estar. Vamos a um exemplo. Dizer “O homem é mortal” aplica a categoria de realidade (afirma-se um atributo). Dizer “O homem não é mortal” aplica a negação. No entanto, dizer “A alma é não-mortal (imortal)” é um juízo infinito clássico de Kant que evoca a limitação. Não sabemos o que a alma é de fato, mas a limitamos removendo ela da esfera das coisas mortais, o que a situa num campo aberto e indeterminado de possibilidades.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Consideradas por muitos comentadores como o coração da epistemologia kantiana, as categorias de relação definem como os objetos se relacionam entre si e como permanecem ou mudam no tempo. Substância e Acidente referem-se àquilo que permanece através da mudança (substância) e as propriedades que são transitórias, ou seja, que mudam (acidentes). Um exemplo disso é a água de um lago que congela no inverno. Seu estado físico muda do líquido para o sólido, que é o acidente, mas a matéria da água em si, a substância, permanece inalterada. Sem a categoria de substância, nossa mente registraria apenas uma sucessão caótica de imagens, sem reconhecer que se trata da mesma “coisa” sofrendo alteração. A Causa e Efeito é a relação estritamente necessária onde um evento segue outro no tempo. O exemplo de Kant, em resposta ao filósofo David Hume, é sobre o sol que ilumina uma pedra, e a pedra esquenta. Hume diria que inferimos causalidade por mero hábito psicológico, ou seja, não há conexão necessária, apenas uma observação e uma intuição. Kant argumenta que o próprio fato de distinguirmos uma sucessão objetiva de eventos exige que a mente aplique a categoria a priori de Causalidade. A mente “dita” a regra estrutural de que o aquecimento necessariamente sucede a irradiação solar, colocando uma como causa da outra. Já na Ação Recíproca (Comunidade), tem-se a relação simultânea de mútua influência entre múltiplas substâncias no espaço como, por exemplo, a interação gravitacional entre a Terra e a Lua. Elas não são eventos sucessivos no tempo, mas existem simultaneamente e influenciam-se de modo contínuo e bidirecional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, temos as categorias modais. Eles são os Postulados do Pensamento Empírico e não acrescentam nenhum atributo novo ao objeto em si, mas definem exclusivamente como esse objeto ou evento se relaciona com o sujeito cognitivo e suas faculdades. No caso da Possibilidade-Impossibilidade, é algo que concorda com as condições formais, que são as condições lógicas e puras da experiência. No binômio Existência-Não-existência, é algo que está dado materialmente na intuição empírica, ou seja, nos sentidos. Já na Necessidade-Contingência, é algo cuja conexão com a experiência empírica está determinada por condições universais. Vamos a um exemplo. Um dragão voador de escamas verdes ou um triângulo cujos ângulos somam 180 graus são conceitos logicamente possíveis, ou seja, não envolvem contradição formal. No entanto, apenas um objeto sensorialmente verificável, como a caneta sobre a sua mesa, tem a marca da existência. Já o fato de que um objeto massivo abandonado no ar cairá em direção ao solo é uma necessidade ditada pelas leis empíricas que o entendimento prescreve à natureza, ou seja, atribui a ele.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Acima dessas estruturas, Kant postulou a apercepção ou apercepção transcendental, que é o processo pelo qual a mente unifica de forma ativa diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Sem a apercepção, a mente seria apenas um amontoado de estímulos desconectados. Assim, a aperceção a base da própria consciência humana. Devido a essa complexa mediação ativa da mente, Kant estabeleceu uma distinção insuperável entre o mundo externo e a mente. Isso significa dizer que nós não temos acesso à “coisa em si”, ou noumenon, mas apenas a como as coisas nos aparecem, ou seja, na forma de fenômeno, já devidamente processadas pelo nosso aparato cognitivo. Neste sentido, É importante distinguir o “Eu empírico”, ou seja, aquilo que observamos em nós mesmos, como nossa personalidade ou o nosso humor, do “Eu transcendental”, a pura unidade lógica do “Eu penso”. Ademais, a apercepção transcendental não é uma faculdade psicológica de “prestar atenção”, mas uma exigência lógica. Para que uma experiência seja minha, o “Eu penso” deve poder acompanhar todas as minhas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Os Vetos Kantianos à Psicologia Científica ===&lt;br /&gt;
Apesar de ter colocado o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que conhece, no centro do universo epistemológico, Kant foi muito crítico sobre a possibilidade de a psicologia se tornar uma ciência. Em sua obra Princípios metafísicos da ciência da natureza, de 1786, ele negou a possibilidade de uma psicologia científica, pois afirmou que uma disciplina só poderia Sê-lo se possuísse uma elaboração racional capaz de fornecer leis formuladas matematicamente, o que poderia ser chamado de veto matemático. A psicologia falhava nesse critério porque os eventos mentais possuem apenas a dimensão do tempo, sem nenhuma extensão espacial, o que impossibilitaria a sua matematização. Para Kant, assim como o espaço é a forma do sentido externo, o tempo é a forma pura do sentido interno. Como os estados mentais só se dão na sucessão do tempo (sem extensão espacial), eles não formam figuras nem podem ser medidos geometricamente, inviabilizando a matemática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Kant apontou a impossibilidade de isolar diferentes pensamentos para a realização de experimentos controlados. Assim, como não podemos acessar o que seria o conteúdo da mente, cercá-la e analisá-la como ela é em seu estado bruto ou natural, qualquer experimentação seria impossível, o que poderia ser chamado de veto do objeto. Por fim, ele reforçou a crítica que já era direcionada a Wolff, aquele do começo dessa seção. A introspecção como método, segundo Kant, seria inviável porque a própria tentativa de observar um fenômeno interno altera o fenômeno, o veto metodológico. Se tento observar minha própria tristeza, por exemplo, o fenômeno original desaparece e se transforma em “tristeza-sendo-observada-por-mim”, misturando sujeito e objeto de tal maneira que corrompe a objetividade. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A impossibilidade de uma psicologia científica não significava, contudo, a impossibilidade de estudar a mente e o comportamento. Kant trabalhou e lecionou com o que chamou de Antropologia Pragmática. Enquanto a psicologia empírica tentava, em vão, segundo ele, ser uma ciência exata, a antropologia pragmática estudava “o que o homem, como ser livre, faz, ou pode e deve fazer de si mesmo”. Era um estudo prático do comportamento, das paixões, da memória e da cognição, focado na vida em sociedade. De certo modo, pode-se dizer que Kant fechou a porta para a psicologia mecanicista, ou ainda, uma psicologia como ciência exata, mas ajudou a abrir uma janela imensa para as ciências humanas e sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Emergência do Neokantismo Fisiológico e as Primeiras Aproximações para a Psicologia Científica ==&lt;br /&gt;
A primeira metade do século XIX na Alemanha foi inicialmente dominada pelo Idealismo Pós-Kantiano (Hegel, Fichte, Schelling), que propunha sistemas metafísicos grandiosos onde a realidade era essencialmente racional e espiritual. Contudo, a partir da década de 1850, o forte avanço das ciências naturais, como a fisiologia e a química, gerou uma importante reação materialista, consolidados nas figuras de Feuerbach, Vogt, Büchner e outros, que passaram a ridicularizar a filosofia idealista como mera especulação vazia. A metafísica, vista como uma das glórias da filosofia e do pensamento humano, passou a ser vista cada vez mais como um discurso com pouco ou nenhum lastro na realidade. Essa mudança foi muito importante para a história da psicologia científica, pois foi devido a esse contexto que foram formulados os primeiros experimentos voltados para o que seria, no futuro, a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Johannes Müller e a Teoria das Energias Nervosas Específicas ===&lt;br /&gt;
Neste período, a fisiologia se estabeleceu como uma ciência rigorosa e extremamente respeita, liderada por figuras como Johannes Müller. Müller, professor na Universidade de Berlim, publicou seu Manual de Fisiologia Humana (1833-1840), que sistematizou o conhecimento fisiológico da época e transformou a compreensão da percepção. Até o final do século XVIII, ela era explicada pela Teoria da impressão da sensação, derivada da física newtoniana e do empirismo britânico. Esse modelo assumia que o sistema nervoso era um meio homogêneo e passivo que simplesmente “transportava” as qualidades dos objetos externos para a mente, como se a sensação fosse uma cópia exata do estímulo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Johannes Müller revolucionou esse entendimento ao formular a Teoria das energias nervosas específicas (1826). Ele provou, através de experimentos, que a estimulação de um determinado nervo sensorial sempre provoca uma sensação característica e exclusiva daquele nervo, independentemente da natureza do estímulo físico externo. Em outras palavras, a qualidade da sensação não pertence ao objeto físico, mas sim à estrutura do próprio aparato sensorial humano. O mesmo estímulo pode produzir sensações completamente diferentes dependendo de qual via nervosa é ativada. Por exemplo, ao aplicar sal na pele, na língua e nos olhos, as sensações serão totalmente distintas, todas diretamente relacionadas às especificidades do aparelho sensorial que foi ativado. É importante entender que isso não acontece por conta da especificidade das características do estímulo, como o sal ser “salgado”. A pele produz apenas sensações táteis, ainda que o estímulo não seja tátil. Isso cria um problema de confiança naquilo que percebemos sensorialmente, pois mostra que os órgãos não enviam apenas propriedades dos objetos, mas antes operam apenas de modo específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Müller, por meio de experimentos, mostrou que os objetos físicos projetam imagens invertidas na retina, mas nós os percebemos na posição correta. Ele mostrou também que, embora as imagens projetadas nas duas retinas sejam levemente diferentes, o cérebro as unifica em uma única imagem tridimensional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas descobertas trouxeram Kant para o terreno da biologia, inclusive pelo próprio Müller que, apesar de não ser neokantiano, viu suas descobertas científicas influenciarem profundamente a primeira geração deles. O sistema nervoso não é um receptor passivo, antes, ele medeia, molda e traduz ativamente a realidade externa. A sensação deixou de ser vista como uma cópia do mundo e passou a ser um enigma, que pode ser analisado a partir da seguinte pergunta: “o que existe entre o estímulo físico e a sensação subjetiva?”. Este é o mundo do primeiro projeto de psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Hermann von Helmholtz e o Neokantismo Psicofisiológico ===&lt;br /&gt;
A ponte definitiva entre a epistemologia kantiana e a prática laboratorial foi construída por um antigo aluno de Johannes Müller, Hermann von Helmholtz (1821-1894). Ele colaborou no desenvolvimento do neokantismo psicofisiológico ou neokantismo fisiológico. Ele entendeu que as descobertas de seu professor forneciam a base material exata para a teoria do conhecimento de Kant. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1855, Helmholtz argumentou que as estruturas a priori propostas por Kant como condições de possibilidade da experiência eram, na verdade, características da anatomia e da fisiologia do aparato perceptivo humano. Ao “naturalizar” a filosofia de Kant, Helmholtz formulou a sua teoria dos signos, que postula que nossas sensações e percepções não são cópias diretas da realidade, mas sim símbolos ou signos gerados pelo nosso sistema nervoso em resposta aos estímulos. Para explicar como construímos uma imagem coerente e espacial do mundo a partir desses signos neurológicos isolados, Helmholtz introduziu o conceito de inferências inconscientes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo essa teoria, a mente realiza uma série de ajustes e cálculos automáticos, baseados na experiência e na aprendizagem contínua, para interpretar os dados sensoriais. A percepção de profundidade, a posição espacial e a resolução de duas imagens retinianas em uma única visão estereoscópica não são inatas, como defendia o nativismo de Ewald Hering ou o próprio Müller, mas são aprendidas empiricamente através do movimento do corpo e da repetição das sensações. O espaço perceptivo atua como uma linguagem que a mente usa para interpretar os dados fisiológicos brutos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com isso, Helmholtz fundou o projeto de uma psicologia fisiológica autônoma, diferente da psicologia filosófica discutida na época. Ele concordou com Kant que a introspecção tradicional era um método falho, que podia conduzir a ilusões porque o observador só capta a superfície consciente do pensamento. A solução de Helmholtz foi submeter o sujeito da experiência a condições de laboratório rigorosamente controladas. Se as condições da percepção dependem de mecanismos fisiológicos, então a única forma de fazer epistemologia científica é através da experimentação fisiológica e da ótica. O sujeito do conhecimento tornou-se, assim, um objeto, que poderia ser manipulado e analisado em laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Suas contribuições não acabam por aí. Antes das pesquisas de Helmholtz, a comunidade científica acreditava que o impulso nervoso era instantâneo ou rápido demais para ser mensurado. Em 1850, estimulando um nervo motor na perna de uma rã e medindo o tempo da contração muscular, ele obteve o registro da velocidade de condução neural, que é de aproximadamente 27 metros por segundo, provando que havia “algo” entre o estímulo e a percepção que poderia ser analisado cientificamente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também mediu o tempo de reação de nervos sensoriais em humanos. Essa descoberta provou que o pensamento e o movimento corporal não ocorrem simultaneamente, mas são separados por um intervalo de tempo mensurável. Essa foi a base que abriu caminho para os experimentos de tempo de reação e cronometria mental que dominariam o laboratório de Wundt décadas depois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== F. A. Lange e o Projeto de uma “Psicologia Sem Alma” ===&lt;br /&gt;
O segundo pilar desse “retorno a Kant”, também de matriz fisiológica, foi erguido pelo filósofo e sociólogo Friedrich Albert Lange (1828-1875). Lange foi uma figura central na “controvérsia materialista” que agitava a Alemanha. Ele rejeitava tanto os “delírios” dos sistemas idealistas metafísicos quanto o reducionismo ingênuo do materialismo científico de Vogt e Büchner. Em sua influente obra História do Materialismo, de 1866, Lange defendeu que a limitação proposta por Kant é absoluta, ou seja, não temos e nem nunca teremos acesso à essência última da realidade, às coisas em si. Nosso conhecimento se restringe aos efeitos das coisas, ou seja, os fenômenos, que nos aparecem totalmente moldados pela nossa organização mental e neurológica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Lange argumentou que a impossibilidade de conhecer a essência não impede o estudo científico rigoroso das “aparências”, ou seja, sobre como as coisas nos aparecem. Para viabilizar esse estudo, Lange atacou as psicologias filosóficas do passado, que versavam debates que ele ele entendia estéreis sobre a natureza, a imortalidade e a substancialidade da “alma”. Para Lange, a alma era um conceito vazio, um “mito antigo” que forçava a psicologia a operar sobre pressupostos metafísicos inverificáveis. Em resposta, ele propôs a criação de uma psicologia sem alma, ou, em outras palavras, uma psicologia sem metafísica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste novo paradigma, o objeto de estudo da psicologia deveria ser reduzido aos dados empíricos observáveis, incluindo a sensação, a percepção, a ação e a linguagem, sempre buscando o seu correlato fisiológico. Lange rejeitou a introspecção puramente filosófica, pois a auto-observação isolada é privada, não pode ser repetida, não permite a presença de observadores externos e leva invariavelmente a ilusões verbais. Segundo ele, essa introspecção conduzia o pesquisador a substancializar conceitos como “vontade” ou “pensamento”, sem nenhum lastro empírico ou experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A única saída para a psicologia tornar-se verdadeiramente científica era abraçar a metodologia das ciências naturais. Apoiando-se no trabalho de Helmholtz e nas medições pioneiras de psicofísicos como Ernst Weber e Gustav Fechner, Lange prescreveu que a psicologia deveria investigar as leis fisiológicas da percepção e medir a correlação exata entre estímulos físicos e respostas sensoriais, como nos tempos de reação e nos limiares diferenciais. A psicologia passava a ser entendida não como a ciência do espírito transcendente, mas como a ciência psicofisiológica que estuda experimentalmente as condições de possibilidade da experiência, trazendo o sujeito transcendente de Kant para uma fisiologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fechner e a Fundação da Psicofísica ===&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner (1801–1887) foi um físico e metafísico alemão e antigo aluno de Weber. Apesar de não ser um neokantiano, ele tem uma importância fundamental para este momento da fundação da psicologia experimental, tendo sido citado e adotado por neokantianos. Ele assumiu a prestigiada e importante cadeira de física da Universidade de Leipzig em 1834, enquanto produzia sátiras sobre temas metafísicos e artísticos sob um pseudônimo. Após uma série de experimentos em que observava diretamente o Sol, feriu gravemente suas retinas, evento que o conduziu a um colapso físico e mental. Teve uma recuperação milagrosa em 1843, quando tentou observar flores em seu jardim e, por meio de uma experiência mística, observou que a natureza brilhava de dentro para fora, de onde concluiu que o universo era dotado de alma e consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esssa experiência decisiva levou-o a dedicar sua vida ao combate do materialismo científico, que ele denominava visão noturna, que via o mundo como uma matéria inerte e sem vida. Já a sua visão diurna entendia que a matéria era a manifestação da consciência universal divina, uma cosmovisão espiritualista que pode ser entendida como panpsiquista, ou seja, todos os corpos físicos possuem uma forma de alma. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi buscando provar sua visão que Fechner entendeu que poderia provar empiricamente a relação entre a mente (ou o espírito) e o corpo (ou a matéria) se encontrasse uma relação matemática constante entre a intensidade do estímulo físico e a magnitude da sensação psíquica correspondente. Isso porque Fechner percebeu que um aumento na intensidade do estímulo físico não gerava um aumento equivalente e proporcional na sensação subjetiva. A relação não era linear, mas sim proporcional, pois o estímulo físico aumentava em uma progressão geométrica, enquanto a sensação psíquica crescia em uma progressão aritmética. Por exemplo, acrescentar o som de um sino a outro que já está tocando gera um forte impacto perceptivo, pois é possível distinguir claramente que passou-se de um para dois sinos. Já acrescentar um sino a uma dezena deles produz uma alteração quase imperceptível. A sensação dependia, portanto, do nível de estimulação já existente no sistema.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para dar sustentação empírica à sua teoria, Fechner apropriou-se dos trabalhos experimentais realizados por Weber, que havia formulado a teoria da diferença mínima perceptível, demonstrando que a sensibilidade humana não avaliava diferenças absolutas entre estímulos, mas sim relações relativas ou proporcionais. Weber observou que, ao levantar pesos, os sujeitos conseguiam detectar uma variação mínima correspondente a uma fração constante de aproximadamente 1:40 em relação ao peso padrão. Essa constância proporcional é descrita pela chamada Lei de Weber:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
II=K&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde I representa a intensidade do estímulo padrão (que aparecerá como R posteriormente), ΔI é o acréscimo mínimo necessário para produzir uma mudança perceptível na sensação e k é uma constante matemática específica para cada modalidade sensorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Fechner percebeu que essa fração constante (ΔI/I) correspondia à unidade de medida da sensação subjetiva (dS). Utilizando o cálculo infinitesimal, Fechner integrou matematicamente a equação de Weber, assumindo que todas as diferenças mínimas perceptíveis eram subjetivamente iguais entre si. Essa operação matemática resultou na célebre Lei de Fechner ou Lei de Weber-Fechner:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
S = k Log R&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde S representa a magnitude da sensação subjetiva (qualidade mental), R representa a intensidade física do estímulo (qualidade material) e K é uma constante experimental ajustada a cada sentido. Essa fórmula logarítmica foi construída para mostrar que, para a sensação aumentar linearmente, o estímulo físico precisava crescer exponencialmente, estabelecendo uma relação exata e mensurável entre o psíquico e o físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para aplicar sua fórmula, Fechner sistematizou dois conceitos fundamentais que estruturam as medições psicofísicas. A primeira é o limiar absoluto, ou seja, o ponto de intensidade física mínima abaixo do qual o estímulo não é detectado pelo sujeito e acima do qual a sensação passa a ser percebida. Outro conceito é o de limiar diferencial, que é a quantidade mínima de alteração ou variação que deve ser aplicada a um estímulo para que o sujeito seja capaz de discriminar uma mudança na sensação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um desdobramento fascinante da Lei de Fechner ocorreu quando o estímulo físico apresentava valores abaixo do limiar absoluto (R&amp;lt;1), resultando em valores negativos para a sensação (S). Fechner definiu esses valores como sensações negativas ou subliminares, postulando a existência de processos mentais ativos abaixo do limiar da consciência desperta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para determinar com precisão científica os limiares absolutos e diferenciais, Fechner desenvolveu e padronizou três metodologias experimentais rigorosas, que se tornaram os pilares metodológicos de toda a psicologia experimental posterior. No Método do Erro Médio ou do Ajuste, o próprio sujeito experimental manipula ativamente um instrumento para ajustar um estímulo variável até que sinta que este se iguala a um estímulo padrão constante. A média dos desvios entre os ajustes do sujeito e o padrão real define o erro de observação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já no Método do Estímulo Constante ou dos Casos Corretos e Incorretos, o pesquisador apresenta de forma aleatória uma série de estímulos pré-determinados e constantes em comparação com um estímulo padrão. O sujeito deve julgar se o estímulo de comparação é maior, menor ou igual ao padrão, medindo-se a proporção estatística de acertos. Por fim, no Método dos Limites ou das Diferenças Mínimas Perceptíveis, dois estímulos são apresentados ao sujeito. Um deles é aumentado ou reduzido sistematicamente em passos discretos e graduais, e o sujeito relata o momento exato em que deixa de perceber ou passa a perceber a diferença entre ambos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1860, Fechner publicou seu livro monumental, Elementos de Psicofísica, que alguns entendem ser o primeiro sobre a psicologia científica experimental. Ao fornecer à psicologia técnicas de medição coerentes e precisas, Fechner provou de forma contundente que a mente humana era passível de investigação científica e experimental, sepultando em definitivo o antigo veto imposto por Immanuel Kant, em pleno momento de desenvolvimento do Neokantismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Incomodados com as inclinações metafísicas e espiritualistas de Fechner, os psicólogos experimentais subsequentes, sob a liderança de Wilhelm Wundt, rejeitaram completamente o panpsiquismo entre outras ideias, apropriando-se exclusivamente de seus métodos quantitativos de laboratório para estabelecer a psicologia como uma ciência empírica e natural. Como bem observou o historiador Edwin G. Boring, Fechner agiu como um “Colombo que descobriu um Novo Mundo (a psicologia científica) enquanto procurava pelas antigas Índias (a prova de sua metafísica)”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Resumindo ===&lt;br /&gt;
A intersecção entre a epistemologia kantiana, a fisiologia de Müller e a reformulação promovida por Helmholtz e Lange constituiu o início daquilo que tornou possível a psicologia científica. Kant havia mostrado que o sujeito constrói ativamente a realidade, mas negou que esse sujeito pudesse ser estudado matematicamente ou experimentalmente. Müller transferiu a estrutura ativa da mente para os nervos sensoriais específicos. Helmholtz e Lange reinterpretaram as pesadas categorias transcendentais de Kant como mecanismos biológicos e perceptivos operando através de inferências inconscientes e leis fisiológicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao “naturalizar” a Crítica da Razão Pura, o Neokantismo Psicofisiológico resolveu o veto de Kant a uma psicologia científica. Se os limites e as formas do nosso conhecimento são determinados pelo nosso sistema nervoso e sensorial, então o estudo epistemológico da mente deve ser feito no laboratório de fisiologia, estudando principalmente a percepção. A exigência de matematização foi superada pelas leis da psicofísica de Fechner e Weber, e o problema da introspecção descontrolada foi resolvido pelo uso de instrumentos de precisão, como cronoscópios, além de métodos de medidas de limiar, controle de estímulos, erros médios, entre outros, que transformavam as respostas subjetivas em dados objetivos, replicáveis e mensuráveis. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse foi o cenário epistemológico e institucional que Wilhelm Wundt encontrou e ajudou a consolidar. Wundt não fundou a psicologia a partir do nada em 1879. Seu Instituto em Leipzig foi organização metodológica e teórica de décadas de esforços em que a filosofia foi obrigada a dialogar com os nervos, os músculos e os tempos de reação, transformando para sempre a especulação sobre a alma em uma rigorosa ciência da experiência imediata. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ironicamente, escolas neokantianas posteriores, como a Escola de Marburgo, foram focos de resistência à psicologia experimental, alegando que o sujeito do conhecimento de Kant era de ordem puramente transcendental e lógica, e não empírica ou mensurável, ou seja, rejeitando a “biologização” do pensamento kantiano e a consequente criação da psicologia experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, conforme mostra Gundlach, a criação de uma posição acadêmica e o laboratório de psicologia por Wundt não se deu por conta de um amplo reconhecimento da superioridade do pensamento wundtano, mas sim por conta de disputas políticas e institucionais nas universidades alemãs. De qualquer forma, Wundt conseguiu desenvolver bem sua teoria ao longo de sua vida e conseguiu estabelecer-se na proeminência da psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia de Wundt ==&lt;br /&gt;
[[Wilhelm Wundt|Wilhelm Maximilian Wundt]] é, na historiografia da psicologia, uma figura ao mesmo tempo onipresente e pouco compreendida. Freqüentemente reduzido ao título de “fundador do laboratório de Leipzig”, essa simplificação negligencia sua estatura como um dos últimos grandes arquitetos de sistemas do século XIX, cujo &#039;&#039;Systemgedanke&#039;&#039; (pensamento sistêmico) buscava integrar a psicologia como uma propedêutica fundamental para a filosofia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Recuperar o Wundt original exige preencher uma vasta lacuna historiográfica. A primeira envolve apontar as conhecidas e muitas das distorções da tradução de [[Titchener|E.B. Titchener]] para o contexto anglo-americano, que foi formulada para aproximar suas ideias e pdasdaquelas de Wundt, visando uma “confirmação” do pensamento de Titchener. Wundt não era um estruturalista ou associacionista clássico e seu sistema é essencialmente dinâmico e centrado no &#039;&#039;&#039;voluntarismo&#039;&#039;&#039;. Para Wundt, a vontade e os processos afetivos não são meros epifenômenos, ou seja, um fenômenos secundários ou acessórios que acompanhma um fenômeno principal, mas o eixo organizador da consciência ativa. Esta reconstrução crítica visa resgatar a autonomia epistemológica de uma ciência que define seu objeto não como uma substância, mas como a experiência em sua totalidade imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Experiência conforme Wundt ===&lt;br /&gt;
Para Wilhelm Wundt, a experiência é concebida como um todo unitário e coerente. As duas abordagens da experiência que ele propõe não se deve a uma diferença ontológica, mas como dois pontos de vista distintos e complementares que permite sua abordagem científica, que ele separa entre Experiência Mediata e Experiência Imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experiência Mediata ====&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Experiência Mediata&#039;&#039;&#039; é a experiência objetiva) está &#039;&#039;&#039;focada nos objetos do mundo externo&#039;&#039;&#039;. Ela foca exclusivamente nos objetos do mundo externo, abstraindo o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que sabe, que tem conhecimento. A Experiência Mediata seria o ponto de vista característico das ciências naturais, como física, química e fisiologia. A ciência natural opera por meio de uma abstração sistemática, pois ela coloca o sujeito cognoscente &amp;quot;entre parênteses&amp;quot; e analisa apenas os objetos externos pensados, como se existissem de maneira totalmente independente de quem os percebe. É chamada de &amp;quot;mediata&amp;quot; porque &#039;&#039;&#039;nosso acesso a tais objetos é sempre indireto&#039;&#039;&#039;, ou seja, precisa de mediação, pois é dependente de conceitos abstratos, inferências teóricas e construções conceituais auxiliares para representá-los. Por um lado, o estímulo físico é intermediado pelos limites anatômicos e biológicos do nosso aparato perceptivo, ou seja, temos os limites e capacidades da nossa percepção. No caso da visão, por exemplo, não vemos os raios ultravioleta e infravermelho, pois não estão no expecto da luz visível, mas vemos as cores e suas combinações. Por outro lado, para constituir a &amp;quot;realidade objetiva&amp;quot;, o cientista natural precisa utilizar conceitos teóricos auxiliares e construções hipotéticas, como átomos, ondas eletromagnéticas e forças gravitacionais, que não são dados imediatamente na percepção sensível mas que podem ser vistos experimentalmente e por meio de instrumentos e aparatos científicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wundt critica assim o empirismo tradicional e o associacionismo. A doutrina do empirismo diz que a mente como página em branco, conforme a formulação de John Locke e sua &#039;&#039;tabula rasa&#039;&#039;. Neste caso, a mente seria progressivamente preenchida pelas impressões do mundo exterior (sensação) e pelas operações internas (reflexão). David Hume radicaliza o princípio empírico, postulando que as impressões são os átomos cognitivos fundamentais e as ideias nada mais são do que cópias atenuadas ou lembranças dessas impressões na memória e na imaginação. Já o associacionismo constitui a hipótese de que as ideias simples e discretas se combinam para formar pensamentos complexos, juízos e raciocínios abstratos. Se o empirismo fornece os blocos de construção, o associacionismo descreve a &amp;quot;força de atração&amp;quot; que os une. Conforme sistematizado por Hume e, depois, desenvolvido por Hartley e James Mill, a mente transita espontaneamente de uma ideia para outra por meio de regras regulares de associação, como a semelhança, a contiguidade no tempo e as relações de causa e efeito.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para Wundt, ambos erraram, pois transferiam as características dos objetos externos da física, como a solidez, os limites rígidos e a permanência estática, para os conteúdos conscientes, passando a tratar as representações (&#039;&#039;Vorstellungen&#039;&#039;) como coisas ou &amp;quot;átomos mentais&amp;quot;. Na física, o foco recai sobre o objeto substantivo. Contudo, segundo Wundt, a consciência não contém objetos estáveis. Ele parte de uma diferença fundamental que os psicofísicos e outros haviam apontado, que é aquela entre o mundo externo e o mundo percebido, ou ainda, entre as coisas e suas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em resumo, a Experiência Mediata se aproxima dos objetos estáveis do mundo externo e de como eles nos chegam. Na experiência mediata, o cientista da natureza pode retornar quando quiser ao mesmo objeto físico estável (uma pedra ou um elemento químico) para observá-lo repetidamente, ainda que o observador em si esteja sempre em mudança.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experiência Imediata, o Objeto de Estudo da Psicologia ====&lt;br /&gt;
Ao definir seu objeto, Wundt deu um passo decisivo para dar à psicologia autonomia perante as outras ciências naturais. Ele propõe que a experiência é uma unidade indivisível. Mas o que ele quer dizer por &#039;&#039;&#039;experiência&#039;&#039;&#039;? Uma definição poderia ser a totalidade dos processos conscientes, englobando sensações, sentimentos, representações e volições (vontades), apreendida da exata forma como se apresenta diretamente ao sujeito, sem qualquer abstração conceitual ou mediação de instrumentos externos. Ou seja, a experiência de Wundt seria como tudo o que se passa na mente, exatamente como ela aparece para uma pessoa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;O domínio da psicologia seria a experiência imediata&#039;&#039;&#039;, subjetiva, que é a experiência em sua realidade concreta, direta e intuitiva, apreendida antes de qualquer conceituação, teorização ou abstração. Ou seja, é a experiência antes de ela adquirir qualquer camada de compreensão, que seriam mediadores, por isso é imediata, &#039;&#039;&#039;sem mediação&#039;&#039;&#039;. Ela envolve o processamento de elementos sensoriais simples, como cor, som, temperatura, e de sentimentos simples, como prazer e desprazer. Ela diz respeito ao modo puro de funcionamento mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vamos a um exemplo, desta vez no campo do acústica. Na perspectiva mediata, o cientista natural abstrai o sujeito e estuda o som de forma indireta e conceitual. Ele utiliza aparelhos para medir as ondas sonoras e a sua propagação física pelo ar. O objeto físico “som” é, portanto, mediado e traduzido por conceitos de frequência, amplitude e decibéis. Já sob a perspectiva imediata, que é a da psicologia, o psicólogo estuda a sensação direta e em si mesma do tom no momento exato em que ele aparece na consciência. A análise está na vivência concreta do sujeito, que inclui a qualidade do tom, a sua intensidade subjetiva, a tonalidade afetiva de prazer ou desprazer que o acompanha e o processo ativo da atenção (apercepção, que será tratada mais adiante) que coloca aquele som no foco da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se olharmos desta vez para a cromática, na visão mediata, ciência natural estuda o azul abstraindo a experiência do sujeito. A física o descreverá de forma conceitual como uma radiação eletromagnética com determinado comprimento de onda atingindo a retina. A fisiologia se debruçará sobre o funcionamento dos tecidos dos olhos quando estimulados com a cor azul em suas nuances. Para a psicologia de Wundt, o azul é investigado como um dado imediato e real na consciência do sujeito no momento da percepção interna. O foco não está nas propriedades físicas do estímulo, mas sim na reação subjetiva e ativa do cérebro vivo a esse estímulo, que gera a qualidade imediata da cor na experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conduzindo seus estudos, Wundt também identificou aquilo que denominou &#039;&#039;&#039;causalidade psíquica&#039;&#039;&#039;. Ao nos lembrarmos de um fato triste, por exemplo, a fisiologia explicaria a tristeza de forma conceitual e indireta, por meio de correntes elétricas no córtex cerebral, liberação de hormônios ou atividade de sinapses nervosas. Já o psicólogo numa linha wundtiana observa a conexão de processos internos como elas ocorrem diretamente na consciência do sujeito, como a ligação da lembrança triste a um sentimento de angústia. A causalidade psíquica é uma causalidade própria da mente e irredutível às leis físicas da natureza, ou seja, não pode ser comparada à causalidade física como a conhecemos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao adotar a experiência como seu objeto, Wundt rompe com a psicologia da alma, filosófica e metafísica. Ele substitui a psicologia de substâncias, que postula uma entidade mental oculta, pela &#039;&#039;&#039;teoria da atualidade&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Aktualitätstheorie&#039;&#039;), na qual o psiquismo é definido como um fluxo de processos em constante devir. Seu sistema está fundamentado em um &#039;&#039;&#039;monismo perspectivista&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, para ele, mente e corpo não são substâncias que interagem mecanicamente, mas perspectivas distintas sobre a mesma unidade da experiência (&#039;&#039;Erfahrung&#039;&#039;). A psicologia, portanto, não estuda um “mundo interno”, que está isolado do externo, ainda que em contato com ele, mas a totalidade da experiência humana sob o prisma da imediatidade. Essa transição do estatuto de substância “mente” ou algo semelhante para o de processo traz uma nova perspectiva, criando um objeto que pode ser alvo de experimentação científica, partindo de experimentos já criados pela psicofísica e ainda outros que seriam desenvolvidos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Apercepção ===&lt;br /&gt;
No contexto filosófico, como já visto, o conceito de apercepção remonta a Kant, que a definiu como o processo autônomo, ativo e prévio pelo qual a mente unifica diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Wundt adotou essa noção kantiana para fundamentar sua teoria da consciência, definindo &#039;&#039;&#039;apercepção&#039;&#039;&#039; como o processo psicológico ativo pelo qual um conteúdo psíquico (ou representação) é trazido à &#039;&#039;&#039;clareza máxima e ao foco da consciência&#039;&#039;&#039;, vindo necessariamente acompanhado pelo estado de atenção voluntária.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para explicar a dinâmica da consciência, Wundt utilizou uma famosa analogia com a visão para diferenciar apercepção e percepção. O campo visual da consciência (&#039;&#039;Blickfeld&#039;&#039;) corresponde à percepção, que é a simples entrada de uma representação na consciência de forma difusa, ampla e sem a presença focalizada da atenção. Já o ponto focal da consciência (&#039;&#039;Blickpunkt&#039;&#039;) corresponde à apercepção, que é a entrada de uma representação no ponto central de máxima clareza e foco estreito da atenção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A apercepção, então, é uma &#039;&#039;&#039;manifestação primordial da vontade&#039;&#039;&#039;, funcionando como o princípio dinâmico que dá direção e estrutura tanto à experiência quanto ao movimento. Além disso, a apercepção pode ser ativa, que é quando o sujeito deliberadamente seleciona onde focará sua atenção, ou passiva, quando é o estímulo que se impõe no foco no sujeito. Por fim, a apercepção é o mecanismo central da operação da causalidade psíquica. É ela que unifica a mente em um sistema ativo, permitindo que a fusão de elementos resulte em sínteses criadoras com propriedades qualitativamente novas e imprevisíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Percepção Interna (innere Wahrnehmung) vs. Auto-observação (Selbstbeobachtung) ===&lt;br /&gt;
Para garantir o rigor procedimental e responder ao “desafio kantiano”, Wundt rejeitou a &#039;&#039;Selbstbeobachtung&#039;&#039;, que pode ser entendida como a &#039;&#039;&#039;auto-observação tradicional&#039;&#039;&#039; ou introspecção casual. Trata-se do método introspectivo puramente filosófico e especulativo que, segundo Wundt e outros, seria fonte de auto-ilusões. No momento em que o sujeito tenta observar ativamente o curso de seus próprios processos mentais complexos, a atenção que ele direciona para si mesmo altera, deforma ou suprime o próprio fenômeno em curso. Na reflexão puramente interna, é impossível garantir que o mesmo estado mental se repita de forma idêntica, impedindo a replicação intersubjetiva e a formulação de leis científicas gerais &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A solução científica é a &#039;&#039;innere&#039;&#039; &#039;&#039;Wahrnehmung&#039;&#039;, ou &#039;&#039;&#039;percepção interna&#039;&#039;&#039;, que permite a criação de um método científico baseado na repetição de estímulos externos controlados. No laboratório, o psicólogo replica condições experimentais que permitem a observação do aparecimento imediato do processo psíquico sob condições estáveis e previsíveis. O laboratório funciona, portanto, como o estabilizador do objeto psicológico, permitindo que a percepção interna atinja a precisão necessária para decompor a consciência em seus elementos fundamentais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O método de investigação da percepção interna é bem mais rigoroso. Em vez de pedir ao sujeito que reflita livremente sobre seus pensamentos, o experimentador utiliza aparelhos físicos de precisão, tais como [[Cronoscópio|cronoscópios]], pêndulos, compassos táteis, geradores de tons para controlar rigorosamente o início, a intensidade, a duração e a apresentação de estímulos externos predeterminados. Como o estímulo físico externo pode ser repetido e modificado arbitrariamente pelo pesquisador, as condições fisiológicas e sensoriais associadas à percepção interna são reproduzidas com exatidão. Com isso, o sujeito experimental pode antecipar sua atenção ao evento e captar com máxima precisão o surgimento da experiência imediata correspondente. O participante deveria ser rigorosamente treinado, muitas vezes revezando as funções de sujeito e pesquisador, e era instruído a fornecer respostas simples e verificáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Experimentos do Laboratório de Wundt ===&lt;br /&gt;
Vamos a alguns exemplos do que acontecia no laboratório de Wundt, para integrar melhor os conceitos já apresentados. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O primeiro experimento foi concebido originalmente para descrever a &#039;&#039;&#039;“equação pessoal” que aparecia nas medições dos astrônomos&#039;&#039;&#039;. O interesse neste tema surgiu quando se constatou que astrônomos treinados, utilizando os mesmos equipamentos, discordavam de suas medições que, à época, eram feitas manualmente com ajuda de instrumentos. De alguma forma, estas diferenças nas medições pareciam ter um tipo de padrão. Neste experimento, Wundt utilizava um aparelho chamado medidor de pensamento (&#039;&#039;Gedankenmesser&#039;&#039;) e, posteriormente, o pêndulo de complicação (&#039;&#039;Complicationspendel&#039;&#039;). O dispositivo consistia em um grande relógio de pêndulo que possuía uma agulha cruzada, como uma agulha de tricô, capaz de golpear fisicamente um pequeno sino em um ponto exato do seu arco de oscilação. O sujeito do experimento deveria olhar para a escala do pêndulo e tentar determinar a posição exata do ponteiro no momento em que ouvia o sino tocar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste experimento, Wundt descobriu que o sujeito sempre cometia um erro sistemático de registro, de aproximadamente um oitavo de segundo. Segundo ele, era impossível perceber visualmente a agulha e o som do sino ao mesmo tempo. Esse experimento seria uma &#039;&#039;&#039;prova laboratorial de que a consciência possui uma capacidade limitada e só consegue focar em uma única percepção por vez&#039;&#039;&#039;, como a diferença no marco da medição podia mostrar. A ilusão de simultaneidade devia-se apenas à rápida sucessão dos processos de atenção (apercepção).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os experimentos de &#039;&#039;&#039;tempo de reação&#039;&#039;&#039;, nosso segundo exemplo, constituíam o verdadeiro coração do trabalho em Leipzig na década de 1880. Wundt adaptou o método de subtração (&#039;&#039;Subtractiemethode&#039;&#039;), do fisiologista holandês F. C. Donders, para medir a velocidade de processos mentais complexos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o experimento de Wundt, é necessário compreender que, para ele, uma reação consciente envolvia: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- transmissão da sensação ao cérebro; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2- entrada do estímulo no campo amplo da consciência (percepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
3- entrada no foco ativo da atenção (apercepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
4- ato de vontade para liberar a resposta; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
5- execução motora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada um dessas partes exigem um certo tempo, pois são processos não imediatos. A depender de como as etapas do experimento são organizadas, diferentes tempos indicariam o acionamento maior ou menor de cada um deles. No experimento, o sujeito era treinado para responder pressionando uma tecla telegráfica ao ver um estímulo luminoso simples, como um &#039;&#039;flash&#039;&#039; de luz. Em seguida, vinha a tarefa mais difícil. Duas imagens eram apresentadas, um círculo branco sobre fundo preto ou vice-versa, e o sujeito só deveria reagir após identificar com clareza qual imagem havia aparecido. Ao subtrair o tempo da reação simples do tempo da reação complexa, Wundt calculava o “tempo de apercepção” ou discriminação. Na primeira tese de doutorado em psicologia experimental da história, Max Friedrich, que atuou no experimento, mostrou que o tempo de discriminação aumentava de acordo com a complexidade do estímulo visual. Por exemplo, o sujeito levava mais tempo para aperceber e discriminar uma sequência de seis dígitos do que de apenas um ou dois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O assistente de Wundt, Ludwig Lange, também colaborou no estudo ao desenvolver um experimento crucial. Ele demonstrou que os &#039;&#039;&#039;tempos de reação variavam drasticamente dependendo da preparação da atenção&#039;&#039;&#039; (no conceito moderno da palavra) do sujeito. Se a atenção estivesse focada no movimento de resposta que o dedo faria (reação muscular), o tempo era curto (cerca de 125 ms), pois funcionava como um “reflexo cerebral” que pulava a apercepção. Se o foco estivesse direcionado ao estímulo sensorial que iria surgir (reação sensorial), o tempo era cerca de 100 ms mais longo, pois envolvia o circuito completo da mente consciente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O terceiro experimento foi desenvolvido por Martin Trautscholdt, um dos estudantes de doutorado de Wundt. Ele estudava a &#039;&#039;&#039;associação de ideias&#039;&#039;&#039;. No seu estudo, o sujeito era instruído a pressionar uma tecla no momento exato em que uma ideia associada surgisse em sua consciência a partir de um estímulo visual ou auditivo. Ao subtrair o tempo que o sujeito levava para simplesmente reconhecer a palavra estimulante, Trautscholdt conseguiu quantificar o tempo gasto pela mente para realizar a conexão associativa propriamente dita que, segundo Trautscholdt, variava entre 706 e 874 ms. Wundt também adaptou a &#039;&#039;&#039;técnica de associação de palavras de Francis Galton&#039;&#039;&#039;, limitando a resposta do sujeito a apenas uma única palavra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O quarto e último experimento que será apresentado é relacionado a &#039;&#039;&#039;acordes musicais&#039;&#039;&#039;. Nele, sujeitos ouviam tons isolados no piano, que seriam as sensações puras, e depois os mesmos tons tocados simultaneamente. Os participantes descreviam em detalhes a transição afetiva de como a fusão física das frequências dava origem a um produto inteiramente novo na consciência. Este seria o sentimento estético de harmonia e o prazer decorrente de uma síntese criadora. Wundt conduzia vários experimentos em estética experimental, tal qual seu colega Fechner.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Arquitetura da Mente: Elementos, Fusão e Síntese Criadora ===&lt;br /&gt;
Segundo Wundt, &#039;&#039;&#039;a experiência pode ser decomposta em elementos simples&#039;&#039;&#039;, que incluem as sensações e os sentimentos simples. Os &#039;&#039;&#039;sentimentos&#039;&#039;&#039;, por sua vez, são entendidos a partir da &#039;&#039;&#039;teoria tridimensional dos sentimentos&#039;&#039;&#039;, onde eles se distribuem em um espaço qualitativo entre os polos prazer/desprazer (&#039;&#039;Lust-Unlust&#039;&#039;), tensão/relaxamento (&#039;&#039;Spannung-Lösung&#039;&#039;) e excitação/depressão (&#039;&#039;Erregung-Beruhigung&#039;&#039;). A primeira é a mais evidente, se refere à avaliação afetiva primária da experiência. A segunda se relaciona ao esforço da atenção ou à preparação interna da mente. Já a terceira está relacionada ao nível de ativação biológica e psicológica do organismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esses aspectos todos são organizados através do mecanismo de &#039;&#039;&#039;fusão&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Verschmelzung&#039;&#039;), onde as qualidades elementares se fundem em complexos psíquicos. O conceito central aqui é o princípio da &#039;&#039;&#039;síntese criadora&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;schöpferische Synthese&#039;&#039;). Ao contrário do associacionismo britânico, Wundt afirma que o todo resultante possui propriedades que não estão contidas na mera soma das partes. Essa síntese não é um processo mecânico passivo, mas um ato aperceptivo ativo, ou seja, vinculado à vontade. Na mente humana, a combinação de elementos gera um valor novo e qualitativamente superior, marcando a distinção fundamental entre a causalidade psíquica e a mecânica física.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em termos simples, a síntese criadora estabelece que os complexos psíquicos, como representações, sentimentos compostos e afetos, embora formados pela união de elementos simples (sensações e sentimentos simples), possuem características qualitativas inteiramente novas que não pertencem a nenhum de seus elementos constituintes isolados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fusão é o processo ativo e primário de integração psíquica. É através dela que os elementos sensoriais e afetivos brutos são ativamente sintetizados pela mente para dar origem a uma nova unidade psicologicamente complexa. A fusão é a geradora da síntese criadora. Para Wundt, a síntese criadora é a prova cabal da causalidade psíquica. Ela mostra que os fenômenos mentais obedecem a leis de conexão e geração próprias que não se ajustam às leis da física ou da fisiologia mecânica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Observemos isso com um exemplo já apresentado, sobre a música. Se você tocar no piano as notas Dó, Mi e Sol isoladamente, você terá apenas a experiência de três sensações auditivas distintas. No entanto, quando essas notas são tocadas simultaneamente, a fusão de seus elementos gera na consciência uma experiência qualitativamente nova, que seria um acorde musical. O sentimento de harmonia e a qualidade estética do acorde são um produto da síntese criadora, pois não existiam em nenhuma das notas isoladas e surgem puramente da atividade unificadora da mente sobre o estímulo físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Paralelismo Psicofísico e Causalidade Psíquica ===&lt;br /&gt;
O paralelismo psicofísico foi um dos conceitos mais importantes e debatidos no século XIX durante o processo de fundação da psicologia científica. Ele surgiu como uma alternativa teórica para solucionar o clássico problema mente-corpo. O conceito foi formulado de forma a tanto o dualismo substancial, que dividia o ser humano em duas substâncias isoladas cuja forma de interação era desconhecida, quanto o materialismo reducionista, que reduzia a mente a uma mera secreção cerebral ou processo físico ou fisiológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para &#039;&#039;&#039;Fechner&#039;&#039;&#039;, o &#039;&#039;&#039;paralelismo&#039;&#039;&#039; era a manifestação de um monismo neutro, ou teoria de duplo aspecto. Ele defendia que a matéria (corpo) e o espírito (mente) não são substâncias diferentes, mas sim dois modos de aparência ou perspectivas distintas de uma única e mesma realidade subjacente, teoria sobre o qual fundamental grande parte de seu projeto científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt também adotou o termo &#039;&#039;&#039;paralelismo psicofísico&#039;&#039;&#039;, mas realizou uma redefinição epistemológica radical do conceito, visando se afastar da metafísica. Ele rejeitava categoricamente qualquer tentativa de transformar o paralelismo em uma doutrina ontológica sobre a natureza última da realidade, transformando-o estritamente um postulado metodológico e heurístico indispensável para a investigação científica. Os processos mentais não sejam reduzidos a processos fisiológicos ou neurais, pois a consciência obedece a leis de conexão próprias, como a causalidade psíquica, que não podem ser explicadas pelas leis da mecânica cerebral.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Psicologia Individual e Völkerpsychologie: dois métodos para manifestações da experiência ===&lt;br /&gt;
A arquitetura metodológica de Wundt responde ao desafio de investigar processos mentais que variam em complexidade. Ele estabelece que &#039;&#039;&#039;a psicologia deve ser compreendida como o fundamento das ciências humanas&#039;&#039;&#039; ou ciências do espírito (&#039;&#039;Geisteswissenschaften&#039;&#039;). A &#039;&#039;&#039;Psicologia Individual&#039;&#039;&#039;, na concepção de Wundt, foca nos processos elementares, que incluem sensação e percepção, que são passíveis de controle rigoroso em laboratório através da manipulação de estímulos externos e pelas técnicas da [[introspecção]] experimental e estudo da experiência interna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entretanto, Wundt reconhece a insuficiência do modelo experimental para os processos mentais superiores, como o pensamento e a linguagem, que são historicamente condicionados. Para estes, ele propõe a &#039;&#039;Völkerpsychologie&#039;&#039; , ou &#039;&#039;&#039;Psicologia dos Povos&#039;&#039;&#039;, dedicada ao estudo dos produtos das &#039;&#039;geistige Gemeinschaften&#039;&#039; (comunidades espirituais, no sentido das ciências do espírito, ou coletividades). Wundt vai apontar a linguagem, o mito e os costumes (&#039;&#039;Sitten&#039;&#039;) não são apenas dados culturais, mas objetivações de leis psíquicas superiores, inacessíveis à introspecção de laboratório. Eles seriam produtos da experiência humana nas suas formas mais avançadas e superiores e, por não serem passíveis de experimentação, exigem uma outra abordagem. Essas duas vertentes, experimental e histórico-cultural, não são divergentes, mas sim o projeto integrador que permite apreender a mente tanto em sua base sensório-motora quanto em suas manifestações espirituais complexas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As investigações da psicologia dos povos focavam na alma do povo (&#039;&#039;Volksseele&#039;&#039;), definida como a realidade factual dos processos psíquicos que surgem em uma comunidade por meio da interação das energias mentais dos indivíduos. Essa “mente coletiva” se tornava um objeto tangível e investigável ao longo da história em três grandes produtos culturais. O primeiro é a &#039;&#039;&#039;linguagem&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Die Sprache&#039;&#039;), ferramenta pela qual o pensamento é estruturado e externalizado. Já o &#039;&#039;&#039;mito e a religião&#039;&#039;&#039; são as formas como a imaginação e os sentimentos humanos coletivos projetam suas explicações sobre o cosmos e a existência. Os &#039;&#039;&#039;costumes&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Sitten&#039;&#039;) e o &#039;&#039;&#039;direito&#039;&#039;&#039;, por sua vez, são  as regras de conduta coletiva que nascem de atos voluntários e impulsos compartilhados, padronizando as interações sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não podia realizar experimentos com culturas inteiras, Wundt operava por meio da pura &#039;&#039;&#039;observação retrospectiva e comparativa dos produtos mentais&#039;&#039;&#039;, ou seja, analisando os objetos já criados e usados ou em uso por diferentes povos e culturas, anotando suas diferenças e semelhanças. Wundt juntava, lia e analisava de forma exaustiva relatos históricos, estudos filológicos, dicionários, mitologias comparadas, códigos de leis e descrições etnológicas e antropológicas de povos ao redor do globo, ou seja, utilizava dos estudos de diferentes ciências humanas e sociais para extrair as leis psicológicas gerais do desenvolvimento mental humano por trás dessas manifestações. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seu objetivo era mapear como a mente coletiva evoluía do simples para o complexo ao longo das eras, numa abordagem genética e desenvolvimentista e reconstruir, de forma retrospectiva, as forças dinâmicas, os afetos, os impulsos (&#039;&#039;Triebe&#039;&#039;) e os processos de síntese criadora (melhor discutida mais adiante) que estiveram ativos na mente das pessoas no momento de sua formação. Wundt dedicou os últimos 20 anos de sua vida (de 1900 a 1920) quase exclusivamente a esse empreendimento monumental, escrevendo dez volumes sobre o assunto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O que Aconteceu Depois? ===&lt;br /&gt;
No final de sua vida, Wilhelm Wundt era visto de forma ambivalente. Enquanto mantinha o prestígio de fundador da psicologia científica, uma nova geração de psicólogos que buscava se firmar, via como um “pai tribal”, cujo longo domínio de mais de quatro décadas estava desgastado. Ele se tornou o alvo de críticas severas e passou a ser tratado por muitos como o ícone de um passado superado e falido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante a Primeira Guerra Mundial e nos anos que a sucederam, a reputação internacional de Wundt sofreu graves danos. Influenciado por seu filho Max, Wundt adotou posturas políticas ultranacionalistas, chegando a usar a &#039;&#039;Völkerpsychologie&#039;&#039; de maneira tendenciosa para criticar os inimigos da Alemanha. Essa postura inflamou um forte preconceito anti-alemão, especialmente nos Estados Unidos, onde ex-alunos e intelectuais americanos passaram a ver ele como uma mente maligna e autoritária, acelerando a rejeição de suas obras em solo estrangeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A maior frustração de Wundt no fim da vida ocorreu no âmbito acadêmico alemão. Ele sempre defendeu que a psicologia era uma ciência propedêutica e uma aliada indispensável da filosofia, devendo permanecer integrada a esta. No entanto, os filósofos acadêmicos de sua época, especialmente os neokantianos e fenomenologistas, rejeitaram veementemente o  que chamavam de “&#039;&#039;&#039;[[psicologismo]] de Wundt&#039;&#039;&#039;”, ou seja, a redução da lógica e da validade do conhecimento a fatos psicológicos. Em 1913, após a contratação de um psicólogo experimental para a cadeira de filosofia em Marburg, mais de cem professores de filosofia assinaram um &#039;&#039;&#039;protesto público exigindo que psicólogos fossem banidos dos departamentos de filosofia&#039;&#039;&#039;. Esse movimento resultou no progressivo divórcio institucional entre a psicologia e a filosofia, uma separação que Wundt lamentou e combateu até a sua morte em 1920.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir da década de 1890, uma forte onda de positivismo, inspirada pela filosofia de Ernst Mach e Richard Avenarius, varreu a psicologia experimental. Jovens psicólogos, incluindo os assistentes do próprio Wundt, rejeitaram conceitos fundamentais do sistema de Leipzig, como a apercepção, a causalidade psíquica e a síntese criadora, tomando eles como metafísica, exatamente o oposto do que desejava seu formulador. Eles preferiam um modelo elementarista e reducionista, focado na descrição de relações funcionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos EUA, a influência da teoria da evolução de Darwin deslocou o interesse da estrutura da consciência para as suas funções de adaptação ao meio, o chamado funcionalismo. Com o surgimento e o fortalecimento do behaviorismo e a eliminação da mente como objeto de estudo, o voluntarismo de Wundt perdeu qualquer espaço. Na Europa, a própria psicologia da Gestalt ergueu-se combatendo o elementarismo que havia sido falsamente associado a Wundt. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O golpe final veio após a Primeira Guerra Mundial, quando a Alemanha mergulhou em colapso econômico. Diante da “&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;”, os pesquisadores precisaram provar a utilidade prática da ciência que praticavam para sobreviver, o que já acontecia nos EUA, voltando-se para a psicologia militar, industrial, educacional e clínica. &#039;&#039;&#039;Wundt, que sempre desprezou a psicologia aplicada&#039;&#039;&#039;, teria visto seu sistema dinâmico de laboratório perder todo o fôlego diante das pressões pragmáticas da época, ainda que mantivesse sua fama e sua alcunha maior. Ironicamente, um dos principais defensores da psicologia puramente laboratorial, foi quem escreveu a obra mais bem-sucedida de história da psicologia, servindo de parâmetro para o campo por décadas, ou seja, [[Edwin Boring]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia Científica na Inglaterra ==&lt;br /&gt;
O surgimento da psicologia na Inglaterra seguiu um caminho bastante distinto do modelo laboratorial alemão, focado na introspecção e na busca de leis universais. A psicologia britânica formou-se na intersecção de duas grandes forças intelectuais, que são as filosofias empirista e associacionista, e a biologia evolutiva. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No &#039;&#039;&#039;empirismo&#039;&#039;&#039;, pensadores como John Locke postularam que a mente humana nasce como uma tabula rasa ou uma folha em branco, e que absolutamente todo o conhecimento deriva da experiência sensorial. No &#039;&#039;&#039;associacionismo&#039;&#039;&#039;, filósofos como David Hume, James Mill e John Stuart Mill afirmavam processos mentais complexos são formados pela associação contínua de ideias simples e sensações, governadas por leis lógicas. tais como similaridade, contiguidade e causa e efeito. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A despeito de sua rica tradição filosófica, o maior divisor de águas para a ciência britânica foi a publicação de [[A Origem das Espécies (livro)|A Origem das Espécies]], em 1859. A teoria da evolução natural de Darwin, trouxe novas e profundas questões para o estudo da mente britânica. Se humanos e animais compartilham ancestrais comuns, argumentava-se que deveria haver uma continuidade não apenas física, mas também mental entre as espécies, conectando a psicologia ao estudo da zoologia, dando origem à &#039;&#039;&#039;Psicologia Comparada&#039;&#039;&#039;. Além disso, a mente e a consciência deixaram de ser vistas apenas como objetos metafísicos e passaram a ser estudadas como ferramentas biológicas de adaptação, que evoluíram porque ajudavam o organismo a sobreviver em seu ambiente, sendo fundamental para a criação do funcionalismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a validação da biologia evolutiva, o estudo da inteligência animal explodiu no Reino Unido, [[George Romanes]] foi um dos primeiros a tentar sistematizar o comportamento animal. Contudo, seu método anedótico foi duramente criticado por ser antropomórfico, ou seja, por atribuir pensamentos e emoções humanas complexas a animais. Seu colega [[Conwy Lloyd Morgan]] introduziu mais rigor científico à área através do que ficou mundialmente conhecido como o &#039;&#039;&#039;Cânone de Morgan&#039;&#039;&#039;, ou [[princípio da parcimônia]]. A regra dizia que um comportamento animal não deve ser interpretado como resultado de uma faculdade mental superior se puder ser explicado por um processo psicológico mais básico, como o instinto ou o aprendizado por tentativa e erro. Apesar de a perspectiva de ambos ter sido abandonada, a Psicologia Comparada se tornou um dos principais ramos da psicologia moderna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Francis Galton e a Psicologia Diferencial ===&lt;br /&gt;
[[Francis Galton]] (1822-1911) foi um cientista e polímata britânico de inteligência extraordinária, com um QI estimado por volta de 200, algo extremamente raro, além de ser primo de Charles Darwin. Galton é amplamente reconhecido como pioneiro ao incorporar o estudo sistemático das diferenças individuais e da herança mental na nova psicologia, uma área que era ignorada ou rejeitada por pioneiros experimentalistas como Wilhelm Wundt.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Galton se interessou pela medição das variações da inteligência e das capacidades humanas. Ele fundou um [[Laboratório de Galton|&#039;&#039;&#039;laboratório antropométrico&#039;&#039;&#039;]] onde testou a acuidade sensorial, a força e os tempos de reação de milhares de pessoas. Além disso, baseando-se na premissa empirista de John Locke de que todo o conhecimento vem da percepção, Galton assumiu que os indivíduos mais inteligentes seriam aqueles com as capacidades sensoriais e motoras mais aguçadas. Ele foi o inventor do conceito de testes mentais, termo posteriormente cunhado por seu aluno dos EUA, [[James McKeen Cattell]]. Galton também desenvolveu o &#039;&#039;&#039;método experimental de associação de palavras&#039;&#039;&#039;, medindo o tempo de reação mental e demonstrando a enorme influência das experiências da infância e do inconsciente no pensamento adulto, um trabalho que impressionou profundamente [[Sigmund Freud]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também foi um dos primeiros a fazer uso amplo do questionário psicológico para investigar imagens mentais, constatando para sua própria surpresa que a maioria dos cientistas relatava ausência de imagens mentais nítidas, em contraste com relatos muito mais detalhados fornecidos por mulheres e crianças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para conduzir medições em larga escala, ele inventou vários instrumentos clássicos e, para analisar suas enormes bases de dados, &#039;&#039;&#039;Galton desenvolveu conceitos estatísticos fundamentais&#039;&#039;&#039;, como a correlação. Essa tradição quantitativa foi depois aperfeiçoada por outros britânicos, como [[Charles Spearman]], criador da análise fatorial e do conceito de [[fator g de inteligência geral]], fundando a base da psicometria moderna. e influenciando de forma decisiva a psicologia dos testes nos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Conclusão ==&lt;br /&gt;
A história da psicologia é definida pelo paradoxo de ter um “longo passado” e uma “curta história”, podendo ir do De Anima de Aristóteles até a a fundação do laboratório de Wilhelm Wundt na Universidade de Leipzig, em 1879. A psicologia, assim, mostra que tem uma rica história, com muitos personagens, conceitos e acontecimentos importantes, de modo que qualquer narrativa sobre sua composição elegerá heróis e vilões, dará mais relevância para alguns, menos para outros e o esquecimento para a maioria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Immanuel Kant foi uma figura central na composição da psicologia científica. Ele propôs que a mente humana é um agente ativo que organiza o conhecimento através de estruturas &#039;&#039;a priori&#039;&#039;, tais como o tempo, o espaço e as categorias do entendimento. Assim, ele introduziu o conceito de “sujeito transcendental” como a estrutura universal que garante a unidade da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Kant impôs um “veto” ao status científico da psicologia, defendendo a necessidade de uma base na matematização. A superação desse veto ocorreu através da “naturalização” de Kant pela fisiologia. Johannes Müller, com a Teoria das Energias Nervosas Específicas, mostrou que a sensação é mediada pelo sistema nervoso, não sendo uma cópia fiel do mundo externo. Hermann von Helmholtz avançou essa ideia ao postular que as estruturas a priori de Kant seriam, na verdade, características da anatomia e fisiologia humanas. Ele propôs o conceito de “inferências inconscientes” para explicar como interpretamos dados sensoriais. Nesse contexto, Friedrich Albert Lange defendeu uma “psicologia sem alma”, rejeitando a metafísica e argumentando que o estudo científico deve focar apenas nas aparências e fenômenos observáveis, reduzindo o objeto da psicologia a dados empíricos e correlações fisiológicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner, por sua vez, foi crucial ao oferecer a base matemática e experimental que faltavam, por meio da Lei de Weber-Fechner. Ele também padronizou e melhorou métodos para o estudo dos limites e constantes sensoriais, que se tornaram a base metodológica da psicologia experimental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt não apenas fundou um laboratório, como também arquitetou um sistema complexo. Para Wundt, o objeto da psicologia é a experiência imediata, criando conceitos como voluntarismo, causalidade psíquica, apercepção, entre outros. Além disso, ele também criou a psicologia dos povos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente do foco laboratorial alemão, a psicologia britânica foi moldada pela filosofia empirista e pela teoria da evolução de Charles Darwin. Neste contexto, Galton ganha destaque, por ter fundado o laboratório antropométrico, inventado ideias que levaram aos “testes mentais”, pelo uso de estatísticas no estudo da psicologia e ter influenciado o desenvolvimento da psicometria e a análise fatorial com Charles Spearman, consolidando uma tradição que focava mais na variabilidade genética e na inteligência do que na estrutura da consciência em si.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A história da psicologia tem origens ricas e diversas, e sua difusão implicou em muitas transformações em variadas formas. Qualquer narrativa sobre o surgimento da psicologia científica terá limites e potencialidades, devido às escolhas epistemológicas, filosóficas e de acontecimentos históricos. Este material defende que a psicologia científica teve origem em um elementos específico da fisiologia alemã que uniu-se a um movimento filosófico de retorno a Kant no século XIX. Uma vez fundada, a psicologia científica abriu o caminho para outras ideias e formas da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
ABIB, José Antônio Damásio. Prólogo à História da Psicologia. &#039;&#039;&#039;Psicologia: Teoria e Pesquisa&#039;&#039;&#039;, Brasília, v. 21, n. 1, p. 53-60, jan./abr. 2005. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ptp/a/dXKZvy3jf6V9ZjcPykVF8kn/abstract/?lang=pt&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ALVES, Gabriel Siqueira. O neokantismo e o surgimento da psicologia experimental: uma introdução didática. In: RIBEIRO, André Elias Morelli; CARNEIRO, Júlia Lombardi; FERREIRA, Arthur Arruda Leal; SANTOS, Marcus Vinícius do Amaral Gama (Org.). &#039;&#039;&#039;Boletim do Portal História da Psicologia 4&#039;&#039;&#039;. Rio das Ostras, RJ: Editora do Portal História da Psicologia, 2025. p. 242-279. Disponível em: https://doi.org/10.5281/zenodo.18130096&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ARAUJO, Saulo de Freitas. Wilhelm Wundt e o estudo da experiência interna. In: VILELA, A. M. J.; FERREIRA, A. L.; PORTUGAL, F. T. (Org.). &#039;&#039;&#039;História da psicologia&#039;&#039;&#039;: rumos e percursos. 2. ed. Rio de Janeiro: Nau, 2007. p. 93-104.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ARAUJO, Saulo de Freitas. Uma visão panorâmica da psicologia científica de Wilhelm Wundt. &#039;&#039;&#039;Scientiæ Studia&#039;&#039;&#039;, São Paulo, v. 7, n. 2, p. 209-220, 2009. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S1678-31662009000200003&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ARISTÓTELES. &#039;&#039;&#039;De Anima&#039;&#039;&#039;. Trad. de Maria Cecília Gomes dos Reis. São Paulo: Editora 34, 2013.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BEISER, Frederick C. Gustav Theodor Fechner. In: ZALTA, Edward N. (Ed.). &#039;&#039;&#039;The Stanford Encyclopedia of Philosophy&#039;&#039;&#039;. Stanford: Metaphysics Research Lab, Stanford University, 2020. Disponível em: https://plato.stanford.edu/entries/fechner &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BROCK, Adrian. História da história da psicologia. Tradução de André Elias Morelli Ribeiro, Luiz Eduardo Prado da Fonseca e Marcus Vinícius do Amaral Gama Santos. In: RIBEIRO, André Elias Morelli et al. (Org.). &#039;&#039;&#039;Boletim do Portal História da Psicologia&#039;&#039;&#039;. Rio das Ostras, RJ: Editora do Portal História da Psicologia, 2022. p. 79-143. Disponível em: https://doi.org/10.5281/zenodo.14589616&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CRARY, Jonathan. &#039;&#039;&#039;Suspensões da percepção&#039;&#039;&#039;: atenção, espetáculo e cultura moderna. Tradução de Adail Sobral e Maria Stela Gonçalves. São Paulo: Cosac Naify, 2013.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
DARWIN, Charles. &#039;&#039;&#039;A origem das espécies&#039;&#039;&#039;. Trad, de Carlos Duarte. São Paulo: Martin Claret, 2014.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
DASTON, Lorraine. &#039;&#039;&#039;Historicidade e objetividade&#039;&#039;&#039;. Organização de Tiago Santos Almeida. Tradução de Derley Menezes Alves e Francine Iegelski. 1. ed. São Paulo: LiberArs, 2017.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
FERREIRA, Arthur Arruda Leal; RIBEIRO, André Elias Morelli; ROSA, Hugo Leonardo Rocha Silva da; SANTOS, Marcus Vinicius do Amaral Gama (Org.). &#039;&#039;&#039;Para além da psicofísica&#039;&#039;&#039;: Fechner e as visões diurna e noturna. Rio de Janeiro: Nau Editora, 2022.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_surgimento_da_psicologia_cient%C3%ADfica&amp;diff=1753</id>
		<title>O surgimento da psicologia científica</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_surgimento_da_psicologia_cient%C3%ADfica&amp;diff=1753"/>
		<updated>2026-09-05T14:28:16Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* Conclusão */ Várias modificações substanciais&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto [[Portal História da Psicologia]]) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um longo passado, uma curta história ==&lt;br /&gt;
A psicologia tem um longo passado, mas uma curta história. Esta é uma frase muito famosa no campo da história da psicologia, tendo sido consagrada por Hermann Ebbinghaus, um psicólogo alemão pioneiro no estudo da memória, ainda no século XIX. A frase é exemplar e muito usada em debates sobre a historiografia da psicologia, e isto revela como é difícil dizer quando a psicologia teve início. Ela tem um &#039;&#039;&#039;longo passado&#039;&#039;&#039;, porque os temas que consideramos hoje como parte da psicologia aparecem muitas vezes na filosofia, na religião, em saberes tradicionais, entre muitos outros lugares, ao longo da história. É difícil estabelecer qual &#039;&#039;&#039;o objeto de estudo da história da psicologi&#039;&#039;&#039;a, assim como é difícil, ao longo da história, &#039;&#039;&#039;separar o que é  psicologia daquilo que não é psicologia&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse longo passado pode remontar, por exemplo, à Antiguidade, com o tratado De Anima, de Aristóteles, que escreveu muito antes de se imaginar o próprio conceito de ciência moderna e, menos ainda, de uma psicologia moderna. Outros podem colocar o início da psicologia com Descartes, que elaborou a máxima, também famosa, “penso, logo existo”. Isso mostra que &#039;&#039;&#039;os objetos de estudo da psicologia são historicamente construídos&#039;&#039;&#039;, ou seja, emergem a partir dos locais ou pessoas que atuaram na psicologia, como na medida das diferenças individuais, as dinâmicas de controle num laboratório, nas práticas de psicoterapia, entre muitas outras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se cada historiador localiza o passado da psicologia em lugares diferentes no tempo e no espaço, a &#039;&#039;&#039;história da psicologia&#039;&#039;&#039;, por seu lado, tem uma definição bem mais estável e curta. Nos anos 1980, historiadores reunidos num congresso nos EUA definiram que &#039;&#039;&#039;a psicologia científica começou em 1879, quando [[Wilhelm Wundt]] fundou o primeiro laboratório de psicologia experimental na Universidade de Leipzig, na Alemanha&#039;&#039;&#039;. Essa definição está consagrada e é quase um consenso, porém, não foi tão simples estabelecê-la. Alguns advogavam pelo pioneirismo de outro alemão, [[Gustav T. Fechner|Gustav Theodor Fechner]], criador da chamada [[psicofísica]], de onde vieram muitos dos experimentos e ideias de Wundt. Outros ainda queriam que [[William James]], um filósofo e psicólogo americano, fosse reconhecido como fundador, pois seu laboratório de psicologia era ainda mais antigo que o de Wundt que, no final, venceu essa disputa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Resumindo, a psicologia possui um “longo passado”, com raízes filosóficas e religiosas milenares e altamente diversas, e uma “curta história” como disciplina científica, cujo marco está situado em 1879, com a fundação do primeiro laboratório experimental por Wilhelm Wundt, na Alemanha. Pelo menos é assim que, atualmente, a grande maioria dos historiadores entende a questão, uma das poucas em que há algum conceito neste campo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Presentismo ===&lt;br /&gt;
Mas o que seriam essas psicologias anteriores a essa psicologia científica? Para entender melhor essa história, é preciso refletir para superar, da melhor forma, um problema chamado &#039;&#039;&#039;presentismo&#039;&#039;&#039;, ou seja, julgar, entender, interpretar e analisar o passado com a visão do presente. Não é apenas uma questão de olhar para as pessoas do passado e superar o pensamento de que elas eram “ignorantes”, pois “não tinham o conhecimento que temos hoje”. É entender também que, no passado, haviam formas de conhecimentos diferentes, bem como visões de mundo diferentes da atual. Este é um problema fascinante. Muitos dos consensos contemporâneos, coisas que entende-se totalmente óbvias, eram vistas de forma completamente diferente no passado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo interessante é o &#039;&#039;&#039;conceito de atenção&#039;&#039;&#039;. Hoje, ela é um tema tão discutido e consensual que pouco se reflete sobre seu significado. Atualmente, seria algo como centralizar as faculdades mentais ou talvez a percepção em um ponto específico. Pode-se ouvir as pessoas reclamando da própria falta de atenção, que “não conseguem prestar atenção”, ou que nunca “mantém a atenção”, e até mesmo existem medicamentos para resolver esse problema. Contudo, a palavra “atenção” nem sempre significou o que entendemos hoje. Para [[Santo Agostinho]], atenção era apenas o ato de passar de um pensamento para outro. [[René Descartes|Descartes]] tinha um conceito mais parecido com o contemporâneo, onde a atenção era mobilizada de forma voluntária para fixar e reter na memória coisas raras e extraordinárias que o entendimento considerava úteis. Na obra de [[John Locke|Locke]], a atenção é mencionada apenas de passagem, como um mero mecanismo auxiliar da retenção de memórias. A partir do momento em que a ciência passou a entender que a percepção depende da estrutura física e biológica do corpo, com a psicofísica e a fisiologia sensorial, já no século XIX, a visão passou a ser encarada como intrinsecamente incompleta, instável e condicionada pelo tempo. Nesse contexto, a atenção foi utilizada como um substituto pragmático para garantir a coerência do mundo percebido. Autores do final do século XIX, como [[Théodule Ribot]] e [[Max Nordau]], associaram os desvios ou a fraqueza da atenção a patologias psíquicas, comportamentos sociopáticos e teorias da “degeneração”. Para eles, uma atenção defeituosa deixava a mente à mercê de “associações caóticas”, gerando uma visão borrada e distorcida da realidade. Foi apenas na década de 1950 que a nossa compreensão contemporânea de atenção começou a se delinear, paralelamente aos estudos sobre os medicamentos desenvolvidos para tratar as suas disfunções.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma pessoa desavisada, que não está atenta às grandes diferenças entre as ideias e conceitos ao longo do tempo, poderia ler um trecho de Ribot, Santo Agostinho, Descartes e outros e achar que a atenção sobre a qual eles falam é a mesma coisa que entendemos hoje. O leitor estaria totalmente enganado, a ponto de não conseguir nem mesmo compreender o que estes pensadores queriam dizer. Em outras palavras, &#039;&#039;&#039;o esforço para entender as psicologia do passado passa também pelo esforço de entender como se pensava no passado, qual a visão que se tinha nesse passado&#039;&#039;&#039;. Parte do esforço do historiador é trazer esses aspectos de volta ao presente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O sujeito transcedental de Kant ==&lt;br /&gt;
A concepção de uma psicologia ocupada especificamente com a “mente” humana e suas operações começou a ganhar contornos modernos no século XVIII com o filósofo [[Christian Wolff]]. Ele dividiu a psicologia em [[Psicologia Empírica (livro)|&#039;&#039;&#039;Psicologia Empírica&#039;&#039;&#039;]], num livro publicado em  1732 e baseada na introspecção; e em &#039;&#039;&#039;Psicologia Racional&#039;&#039;&#039;, numa obra de 1734, dedicada a deduzir a natureza e a essência da alma, como sua imortalidade e imaterialidade, de forma puramente lógica e racional, independentemente da experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, o projeto de Wolff enfrentava um sério problema metodológico: a chamada observação interna ou [[introspecção]]. Quando se estuda um fenômeno natural, como a chuva, é necessário observar tudo que está envolvido com estee fenômeno, incluindo como as nuvens se formam, qual a umidade do ar, a intensidade dos raios solares, a direção dos ventos, entre muitos outros fatores. A questão é que todos estes aspectos são &#039;&#039;&#039;externos ao sujeito&#039;&#039;&#039;. Toda a ciência é feita dessa forma, observando, testando e analisando o mundo que está fora dos indivíduos. O problema está em estudar algo que é interno aos sujeitos. Não se pode observar diretamente o que se passa na cabeça de alguém, pelo menos não por enquanto. Contudo, é possível analisar o que se passa nas nossas próprias cabeças. Isso seria a &#039;&#039;&#039;introspecção&#039;&#039;&#039;, ou seja, o processo pelo qual adquirimos conhecimento sobre nossos próprios estados ou processos mentais Apesar de ser uma ideia interessante, fazer introspecção não era considerado algo muito científico. Entendia-se que “observar a si mesmo” distorcia os eventos mentais, pois o sujeito que observa e o objeto observado são o mesmo, o que impediria a neutralidade exigida pelo modelo científico então vigente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até a segunda metade do século XVIII, as teorias do conhecimento, que incluíam o empirismo e o racionalismo, compartilhavam a premissa de que o conhecimento era determinado pelo objeto a ser conhecido. A ideia era a de que objeto estava lá, esperando a melhor forma de ser conhecido. &#039;&#039;&#039;Kant&#039;&#039;&#039;, em sua obra [[Crítica da Razão Pura (livro)|Crítica da Razão Pura]] (1781), inverteu essa lógica de forma radical. Ele propôs que &#039;&#039;&#039;não é o conhecimento que se adequa aos objetos, mas são os objetos que são determinados pelo sujeito&#039;&#039;&#039;. O conhecimento passou a ser compreendido não como uma recepção passiva, mas como uma produção ativa do chamado sujeito transcendental, moldada por suas formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;sujeito transcendental&#039;&#039;&#039; em Kant não se refere propriamente a um indivíduo empírico ou psicológico, ou seja, alguém com personalidade e história pessoal. Pense no sujeito transcendental não como “você” (André ou Maria), mas como o “sistema operacional” universal da mente humana. Assim como um software organiza os dados que chegam do teclado, convertendo eles em coisas numa tela, o sujeito transcendental organiza os dados que chegam dos sentidos, como o tempo e o espaço, antes mesmo de termos consciência deles.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o sujeito transcedental, é preciso fazer um importante exercício de abstração, visando conseguir entender algo que está além da experiência existencial individual e entender aquilo que molda essa própria experiência. O sujeito transcedental de Kant é, segundo ele próprio, uma condição universal de possibilidade para qualquer conhecimento. Em outras palavras, é algo que todas as pessoas possuem e é a forma que o ser humano tem para saber as coisas. É a estrutura ativa da mente que organiza a experiência antes mesmo que possamos refletir sobre ela. Esse sujeito é o princípio unificador que garante a coerência dos dados sensoriais, transformando o caos de impressões oriundas dos órgãos dos sentidos em uma experiência significativa e estruturada. Através das formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039; da sensibilidade (espaço e tempo) e das categorias do entendimento, o sujeito transcendental “constrói” o objeto conhecido. Ele é o “Eu penso” cartesiano, que deve poder acompanhar todas as nossas representações, conferindo unidade à consciência. Em suma, &#039;&#039;&#039;não conhecemos o mundo como ele é em si, mas como o sujeito transcendental o molda e o organiza para que se torne inteligível para nós&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Immanuel Kant revolucionou a teoria do conhecimento ao postular que a mente humana não funciona como um receptáculo passivo de impressões sensoriais, mas sim como um agente ativo dotado de estruturas constitutivas a priori que organizam, unificam e interpretam a matéria-prima da experiência. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas ideias de Kant, o processo de constituição do conhecimento dos fenômenos que chegam para nossa mente a partir dos órgãos dos sentidos articula-se em três instâncias fundamentais. A primeira são as formas puras da sensibilidade, depois vem os conceitos puros do entendimento, ou seja, as categorias e, por fim, a unidade sintética da apercepção. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas &#039;&#039;&#039;formas puras da sensibilidade&#039;&#039;&#039;, antes mesmo que o intelecto possa aplicar qualquer conceito, o caos das sensações brutas é necessariamente ordenado no espaço e no tempo, que não são propriedades das coisas em si, mas intuições puras da sensibilidade que funcionam como os eixos coordenados onde os fenômenos são dados. Ou seja, as informações dos sentidos já chegam num espaço e num tempo para o resto do processo de constituição do conhecimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma vez colocados no espaço e estruturados numa sucessão e simultaneidade temporal, esses dados passam pelas &#039;&#039;&#039;doze categorias do entendimento puro&#039;&#039;&#039;. Essas categorias se dividem em &#039;&#039;&#039;quatro classes de tríades&#039;&#039;&#039;: quantidade, qualidade, relação e modalidade. As &#039;&#039;&#039;categorias&#039;&#039;&#039; representam as regras lógicas puras, fundamentais e necessárias para tornar qualquer objeto da experiência inteligível. Elas podem ser observadas de forma simplificada na tabela a seguir:&lt;br /&gt;
{| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot;&lt;br /&gt;
|Classe de Categorias&lt;br /&gt;
|Categoria 1 (Tese)&lt;br /&gt;
|Categoria 2 (Antítese)&lt;br /&gt;
|Categoria 3 (Síntese)&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|1. Quantidade&lt;br /&gt;
|Unidade&lt;br /&gt;
|Pluralidade&lt;br /&gt;
|Totalidade&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|2. Qualidade&lt;br /&gt;
|Realidade&lt;br /&gt;
|Negação&lt;br /&gt;
|Limitação&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|3. Relação&lt;br /&gt;
|Substância e Acidente&lt;br /&gt;
|Causa e Efeito&lt;br /&gt;
|Ação Recíproca&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|4. Modalidade&lt;br /&gt;
|Possibilidade (Impossibilidade)&lt;br /&gt;
|Existência (Não-existência)&lt;br /&gt;
|Necessidade (Contingência)&lt;br /&gt;
|}&lt;br /&gt;
As categorias de quantidade dizem respeito à extensão em que aplicamos um conceito aos objetos, ou seja, “quantos” elementos estamos considerando no juízo. Na unidade, temos um único objeto. Na pluralidade, trazemos vários objetos do mesmo tipo para um conjunto. Já a totalidade surge quando pensamos a pluralidade como uma unidade completa.Vejamos um exemplo. Quando um observador vê uma maçã, aplica a categoria da unidade, ou seja, ele viu uma maçã. Ao ver várias maçãs espalhadas na mesa, apreende uma pluralidade, ou seja, ele tem um conceito de “maçãs” e as vê como um conjunto. Porém, ao formular uma lei universal, aplica-se a totalidade, que engloba toda a pluralidade possível sob uma única regra conceitual, ou seja, todas as maçãs são frutas e existem vários tipos de maçãs.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade trata da atribuição de um predicado, ou seja, se a experiência afirma algo, nega algo ou se situa num limite conceitual. Em outras palavras, é a forma da mente definir “como algo é”. A realidade é afirmação de que um predicado pertence a um ser, ou seja, ele é alguma coisa. A negação é a afirmação de que o predicado não pertence a algo, ou seja, um “não-ser”. A limitação é a síntese das duas anteriores. Atribui-se uma negação como se fosse uma realidade, excluindo aquilo de uma esfera, mas deixando infinita a esfera onde ele pode estar. Vamos a um exemplo. Dizer “O homem é mortal” aplica a categoria de realidade (afirma-se um atributo). Dizer “O homem não é mortal” aplica a negação. No entanto, dizer “A alma é não-mortal (imortal)” é um juízo infinito clássico de Kant que evoca a limitação. Não sabemos o que a alma é de fato, mas a limitamos removendo ela da esfera das coisas mortais, o que a situa num campo aberto e indeterminado de possibilidades.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Consideradas por muitos comentadores como o coração da epistemologia kantiana, as categorias de relação definem como os objetos se relacionam entre si e como permanecem ou mudam no tempo. Substância e Acidente referem-se àquilo que permanece através da mudança (substância) e as propriedades que são transitórias, ou seja, que mudam (acidentes). Um exemplo disso é a água de um lago que congela no inverno. Seu estado físico muda do líquido para o sólido, que é o acidente, mas a matéria da água em si, a substância, permanece inalterada. Sem a categoria de substância, nossa mente registraria apenas uma sucessão caótica de imagens, sem reconhecer que se trata da mesma “coisa” sofrendo alteração. A Causa e Efeito é a relação estritamente necessária onde um evento segue outro no tempo. O exemplo de Kant, em resposta ao filósofo David Hume, é sobre o sol que ilumina uma pedra, e a pedra esquenta. Hume diria que inferimos causalidade por mero hábito psicológico, ou seja, não há conexão necessária, apenas uma observação e uma intuição. Kant argumenta que o próprio fato de distinguirmos uma sucessão objetiva de eventos exige que a mente aplique a categoria a priori de Causalidade. A mente “dita” a regra estrutural de que o aquecimento necessariamente sucede a irradiação solar, colocando uma como causa da outra. Já na Ação Recíproca (Comunidade), tem-se a relação simultânea de mútua influência entre múltiplas substâncias no espaço como, por exemplo, a interação gravitacional entre a Terra e a Lua. Elas não são eventos sucessivos no tempo, mas existem simultaneamente e influenciam-se de modo contínuo e bidirecional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, temos as categorias modais. Eles são os Postulados do Pensamento Empírico e não acrescentam nenhum atributo novo ao objeto em si, mas definem exclusivamente como esse objeto ou evento se relaciona com o sujeito cognitivo e suas faculdades. No caso da Possibilidade-Impossibilidade, é algo que concorda com as condições formais, que são as condições lógicas e puras da experiência. No binômio Existência-Não-existência, é algo que está dado materialmente na intuição empírica, ou seja, nos sentidos. Já na Necessidade-Contingência, é algo cuja conexão com a experiência empírica está determinada por condições universais. Vamos a um exemplo. Um dragão voador de escamas verdes ou um triângulo cujos ângulos somam 180 graus são conceitos logicamente possíveis, ou seja, não envolvem contradição formal. No entanto, apenas um objeto sensorialmente verificável, como a caneta sobre a sua mesa, tem a marca da existência. Já o fato de que um objeto massivo abandonado no ar cairá em direção ao solo é uma necessidade ditada pelas leis empíricas que o entendimento prescreve à natureza, ou seja, atribui a ele.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Acima dessas estruturas, Kant postulou a apercepção ou apercepção transcendental, que é o processo pelo qual a mente unifica de forma ativa diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Sem a apercepção, a mente seria apenas um amontoado de estímulos desconectados. Assim, a aperceção a base da própria consciência humana. Devido a essa complexa mediação ativa da mente, Kant estabeleceu uma distinção insuperável entre o mundo externo e a mente. Isso significa dizer que nós não temos acesso à “coisa em si”, ou noumenon, mas apenas a como as coisas nos aparecem, ou seja, na forma de fenômeno, já devidamente processadas pelo nosso aparato cognitivo. Neste sentido, É importante distinguir o “Eu empírico”, ou seja, aquilo que observamos em nós mesmos, como nossa personalidade ou o nosso humor, do “Eu transcendental”, a pura unidade lógica do “Eu penso”. Ademais, a apercepção transcendental não é uma faculdade psicológica de “prestar atenção”, mas uma exigência lógica. Para que uma experiência seja minha, o “Eu penso” deve poder acompanhar todas as minhas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Os Vetos Kantianos à Psicologia Científica ===&lt;br /&gt;
Apesar de ter colocado o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que conhece, no centro do universo epistemológico, Kant foi muito crítico sobre a possibilidade de a psicologia se tornar uma ciência. Em sua obra Princípios metafísicos da ciência da natureza, de 1786, ele negou a possibilidade de uma psicologia científica, pois afirmou que uma disciplina só poderia Sê-lo se possuísse uma elaboração racional capaz de fornecer leis formuladas matematicamente, o que poderia ser chamado de veto matemático. A psicologia falhava nesse critério porque os eventos mentais possuem apenas a dimensão do tempo, sem nenhuma extensão espacial, o que impossibilitaria a sua matematização. Para Kant, assim como o espaço é a forma do sentido externo, o tempo é a forma pura do sentido interno. Como os estados mentais só se dão na sucessão do tempo (sem extensão espacial), eles não formam figuras nem podem ser medidos geometricamente, inviabilizando a matemática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Kant apontou a impossibilidade de isolar diferentes pensamentos para a realização de experimentos controlados. Assim, como não podemos acessar o que seria o conteúdo da mente, cercá-la e analisá-la como ela é em seu estado bruto ou natural, qualquer experimentação seria impossível, o que poderia ser chamado de veto do objeto. Por fim, ele reforçou a crítica que já era direcionada a Wolff, aquele do começo dessa seção. A introspecção como método, segundo Kant, seria inviável porque a própria tentativa de observar um fenômeno interno altera o fenômeno, o veto metodológico. Se tento observar minha própria tristeza, por exemplo, o fenômeno original desaparece e se transforma em “tristeza-sendo-observada-por-mim”, misturando sujeito e objeto de tal maneira que corrompe a objetividade. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A impossibilidade de uma psicologia científica não significava, contudo, a impossibilidade de estudar a mente e o comportamento. Kant trabalhou e lecionou com o que chamou de Antropologia Pragmática. Enquanto a psicologia empírica tentava, em vão, segundo ele, ser uma ciência exata, a antropologia pragmática estudava “o que o homem, como ser livre, faz, ou pode e deve fazer de si mesmo”. Era um estudo prático do comportamento, das paixões, da memória e da cognição, focado na vida em sociedade. De certo modo, pode-se dizer que Kant fechou a porta para a psicologia mecanicista, ou ainda, uma psicologia como ciência exata, mas ajudou a abrir uma janela imensa para as ciências humanas e sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Emergência do Neokantismo Fisiológico e as Primeiras Aproximações para a Psicologia Científica ==&lt;br /&gt;
A primeira metade do século XIX na Alemanha foi inicialmente dominada pelo Idealismo Pós-Kantiano (Hegel, Fichte, Schelling), que propunha sistemas metafísicos grandiosos onde a realidade era essencialmente racional e espiritual. Contudo, a partir da década de 1850, o forte avanço das ciências naturais, como a fisiologia e a química, gerou uma importante reação materialista, consolidados nas figuras de Feuerbach, Vogt, Büchner e outros, que passaram a ridicularizar a filosofia idealista como mera especulação vazia. A metafísica, vista como uma das glórias da filosofia e do pensamento humano, passou a ser vista cada vez mais como um discurso com pouco ou nenhum lastro na realidade. Essa mudança foi muito importante para a história da psicologia científica, pois foi devido a esse contexto que foram formulados os primeiros experimentos voltados para o que seria, no futuro, a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Johannes Müller e a Teoria das Energias Nervosas Específicas ===&lt;br /&gt;
Neste período, a fisiologia se estabeleceu como uma ciência rigorosa e extremamente respeita, liderada por figuras como Johannes Müller. Müller, professor na Universidade de Berlim, publicou seu Manual de Fisiologia Humana (1833-1840), que sistematizou o conhecimento fisiológico da época e transformou a compreensão da percepção. Até o final do século XVIII, ela era explicada pela Teoria da impressão da sensação, derivada da física newtoniana e do empirismo britânico. Esse modelo assumia que o sistema nervoso era um meio homogêneo e passivo que simplesmente “transportava” as qualidades dos objetos externos para a mente, como se a sensação fosse uma cópia exata do estímulo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Johannes Müller revolucionou esse entendimento ao formular a Teoria das energias nervosas específicas (1826). Ele provou, através de experimentos, que a estimulação de um determinado nervo sensorial sempre provoca uma sensação característica e exclusiva daquele nervo, independentemente da natureza do estímulo físico externo. Em outras palavras, a qualidade da sensação não pertence ao objeto físico, mas sim à estrutura do próprio aparato sensorial humano. O mesmo estímulo pode produzir sensações completamente diferentes dependendo de qual via nervosa é ativada. Por exemplo, ao aplicar sal na pele, na língua e nos olhos, as sensações serão totalmente distintas, todas diretamente relacionadas às especificidades do aparelho sensorial que foi ativado. É importante entender que isso não acontece por conta da especificidade das características do estímulo, como o sal ser “salgado”. A pele produz apenas sensações táteis, ainda que o estímulo não seja tátil. Isso cria um problema de confiança naquilo que percebemos sensorialmente, pois mostra que os órgãos não enviam apenas propriedades dos objetos, mas antes operam apenas de modo específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Müller, por meio de experimentos, mostrou que os objetos físicos projetam imagens invertidas na retina, mas nós os percebemos na posição correta. Ele mostrou também que, embora as imagens projetadas nas duas retinas sejam levemente diferentes, o cérebro as unifica em uma única imagem tridimensional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas descobertas trouxeram Kant para o terreno da biologia, inclusive pelo próprio Müller que, apesar de não ser neokantiano, viu suas descobertas científicas influenciarem profundamente a primeira geração deles. O sistema nervoso não é um receptor passivo, antes, ele medeia, molda e traduz ativamente a realidade externa. A sensação deixou de ser vista como uma cópia do mundo e passou a ser um enigma, que pode ser analisado a partir da seguinte pergunta: “o que existe entre o estímulo físico e a sensação subjetiva?”. Este é o mundo do primeiro projeto de psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Hermann von Helmholtz e o Neokantismo Psicofisiológico ===&lt;br /&gt;
A ponte definitiva entre a epistemologia kantiana e a prática laboratorial foi construída por um antigo aluno de Johannes Müller, Hermann von Helmholtz (1821-1894). Ele colaborou no desenvolvimento do neokantismo psicofisiológico ou neokantismo fisiológico. Ele entendeu que as descobertas de seu professor forneciam a base material exata para a teoria do conhecimento de Kant. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1855, Helmholtz argumentou que as estruturas a priori propostas por Kant como condições de possibilidade da experiência eram, na verdade, características da anatomia e da fisiologia do aparato perceptivo humano. Ao “naturalizar” a filosofia de Kant, Helmholtz formulou a sua teoria dos signos, que postula que nossas sensações e percepções não são cópias diretas da realidade, mas sim símbolos ou signos gerados pelo nosso sistema nervoso em resposta aos estímulos. Para explicar como construímos uma imagem coerente e espacial do mundo a partir desses signos neurológicos isolados, Helmholtz introduziu o conceito de inferências inconscientes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo essa teoria, a mente realiza uma série de ajustes e cálculos automáticos, baseados na experiência e na aprendizagem contínua, para interpretar os dados sensoriais. A percepção de profundidade, a posição espacial e a resolução de duas imagens retinianas em uma única visão estereoscópica não são inatas, como defendia o nativismo de Ewald Hering ou o próprio Müller, mas são aprendidas empiricamente através do movimento do corpo e da repetição das sensações. O espaço perceptivo atua como uma linguagem que a mente usa para interpretar os dados fisiológicos brutos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com isso, Helmholtz fundou o projeto de uma psicologia fisiológica autônoma, diferente da psicologia filosófica discutida na época. Ele concordou com Kant que a introspecção tradicional era um método falho, que podia conduzir a ilusões porque o observador só capta a superfície consciente do pensamento. A solução de Helmholtz foi submeter o sujeito da experiência a condições de laboratório rigorosamente controladas. Se as condições da percepção dependem de mecanismos fisiológicos, então a única forma de fazer epistemologia científica é através da experimentação fisiológica e da ótica. O sujeito do conhecimento tornou-se, assim, um objeto, que poderia ser manipulado e analisado em laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Suas contribuições não acabam por aí. Antes das pesquisas de Helmholtz, a comunidade científica acreditava que o impulso nervoso era instantâneo ou rápido demais para ser mensurado. Em 1850, estimulando um nervo motor na perna de uma rã e medindo o tempo da contração muscular, ele obteve o registro da velocidade de condução neural, que é de aproximadamente 27 metros por segundo, provando que havia “algo” entre o estímulo e a percepção que poderia ser analisado cientificamente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também mediu o tempo de reação de nervos sensoriais em humanos. Essa descoberta provou que o pensamento e o movimento corporal não ocorrem simultaneamente, mas são separados por um intervalo de tempo mensurável. Essa foi a base que abriu caminho para os experimentos de tempo de reação e cronometria mental que dominariam o laboratório de Wundt décadas depois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== F. A. Lange e o Projeto de uma “Psicologia Sem Alma” ===&lt;br /&gt;
O segundo pilar desse “retorno a Kant”, também de matriz fisiológica, foi erguido pelo filósofo e sociólogo Friedrich Albert Lange (1828-1875). Lange foi uma figura central na “controvérsia materialista” que agitava a Alemanha. Ele rejeitava tanto os “delírios” dos sistemas idealistas metafísicos quanto o reducionismo ingênuo do materialismo científico de Vogt e Büchner. Em sua influente obra História do Materialismo, de 1866, Lange defendeu que a limitação proposta por Kant é absoluta, ou seja, não temos e nem nunca teremos acesso à essência última da realidade, às coisas em si. Nosso conhecimento se restringe aos efeitos das coisas, ou seja, os fenômenos, que nos aparecem totalmente moldados pela nossa organização mental e neurológica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Lange argumentou que a impossibilidade de conhecer a essência não impede o estudo científico rigoroso das “aparências”, ou seja, sobre como as coisas nos aparecem. Para viabilizar esse estudo, Lange atacou as psicologias filosóficas do passado, que versavam debates que ele ele entendia estéreis sobre a natureza, a imortalidade e a substancialidade da “alma”. Para Lange, a alma era um conceito vazio, um “mito antigo” que forçava a psicologia a operar sobre pressupostos metafísicos inverificáveis. Em resposta, ele propôs a criação de uma psicologia sem alma, ou, em outras palavras, uma psicologia sem metafísica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste novo paradigma, o objeto de estudo da psicologia deveria ser reduzido aos dados empíricos observáveis, incluindo a sensação, a percepção, a ação e a linguagem, sempre buscando o seu correlato fisiológico. Lange rejeitou a introspecção puramente filosófica, pois a auto-observação isolada é privada, não pode ser repetida, não permite a presença de observadores externos e leva invariavelmente a ilusões verbais. Segundo ele, essa introspecção conduzia o pesquisador a substancializar conceitos como “vontade” ou “pensamento”, sem nenhum lastro empírico ou experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A única saída para a psicologia tornar-se verdadeiramente científica era abraçar a metodologia das ciências naturais. Apoiando-se no trabalho de Helmholtz e nas medições pioneiras de psicofísicos como Ernst Weber e Gustav Fechner, Lange prescreveu que a psicologia deveria investigar as leis fisiológicas da percepção e medir a correlação exata entre estímulos físicos e respostas sensoriais, como nos tempos de reação e nos limiares diferenciais. A psicologia passava a ser entendida não como a ciência do espírito transcendente, mas como a ciência psicofisiológica que estuda experimentalmente as condições de possibilidade da experiência, trazendo o sujeito transcendente de Kant para uma fisiologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fechner e a Fundação da Psicofísica ===&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner (1801–1887) foi um físico e metafísico alemão e antigo aluno de Weber. Apesar de não ser um neokantiano, ele tem uma importância fundamental para este momento da fundação da psicologia experimental, tendo sido citado e adotado por neokantianos. Ele assumiu a prestigiada e importante cadeira de física da Universidade de Leipzig em 1834, enquanto produzia sátiras sobre temas metafísicos e artísticos sob um pseudônimo. Após uma série de experimentos em que observava diretamente o Sol, feriu gravemente suas retinas, evento que o conduziu a um colapso físico e mental. Teve uma recuperação milagrosa em 1843, quando tentou observar flores em seu jardim e, por meio de uma experiência mística, observou que a natureza brilhava de dentro para fora, de onde concluiu que o universo era dotado de alma e consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esssa experiência decisiva levou-o a dedicar sua vida ao combate do materialismo científico, que ele denominava visão noturna, que via o mundo como uma matéria inerte e sem vida. Já a sua visão diurna entendia que a matéria era a manifestação da consciência universal divina, uma cosmovisão espiritualista que pode ser entendida como panpsiquista, ou seja, todos os corpos físicos possuem uma forma de alma. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi buscando provar sua visão que Fechner entendeu que poderia provar empiricamente a relação entre a mente (ou o espírito) e o corpo (ou a matéria) se encontrasse uma relação matemática constante entre a intensidade do estímulo físico e a magnitude da sensação psíquica correspondente. Isso porque Fechner percebeu que um aumento na intensidade do estímulo físico não gerava um aumento equivalente e proporcional na sensação subjetiva. A relação não era linear, mas sim proporcional, pois o estímulo físico aumentava em uma progressão geométrica, enquanto a sensação psíquica crescia em uma progressão aritmética. Por exemplo, acrescentar o som de um sino a outro que já está tocando gera um forte impacto perceptivo, pois é possível distinguir claramente que passou-se de um para dois sinos. Já acrescentar um sino a uma dezena deles produz uma alteração quase imperceptível. A sensação dependia, portanto, do nível de estimulação já existente no sistema.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para dar sustentação empírica à sua teoria, Fechner apropriou-se dos trabalhos experimentais realizados por Weber, que havia formulado a teoria da diferença mínima perceptível, demonstrando que a sensibilidade humana não avaliava diferenças absolutas entre estímulos, mas sim relações relativas ou proporcionais. Weber observou que, ao levantar pesos, os sujeitos conseguiam detectar uma variação mínima correspondente a uma fração constante de aproximadamente 1:40 em relação ao peso padrão. Essa constância proporcional é descrita pela chamada Lei de Weber:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
II=K&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde I representa a intensidade do estímulo padrão (que aparecerá como R posteriormente), ΔI é o acréscimo mínimo necessário para produzir uma mudança perceptível na sensação e k é uma constante matemática específica para cada modalidade sensorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Fechner percebeu que essa fração constante (ΔI/I) correspondia à unidade de medida da sensação subjetiva (dS). Utilizando o cálculo infinitesimal, Fechner integrou matematicamente a equação de Weber, assumindo que todas as diferenças mínimas perceptíveis eram subjetivamente iguais entre si. Essa operação matemática resultou na célebre Lei de Fechner ou Lei de Weber-Fechner:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
S = k Log R&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde S representa a magnitude da sensação subjetiva (qualidade mental), R representa a intensidade física do estímulo (qualidade material) e K é uma constante experimental ajustada a cada sentido. Essa fórmula logarítmica foi construída para mostrar que, para a sensação aumentar linearmente, o estímulo físico precisava crescer exponencialmente, estabelecendo uma relação exata e mensurável entre o psíquico e o físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para aplicar sua fórmula, Fechner sistematizou dois conceitos fundamentais que estruturam as medições psicofísicas. A primeira é o limiar absoluto, ou seja, o ponto de intensidade física mínima abaixo do qual o estímulo não é detectado pelo sujeito e acima do qual a sensação passa a ser percebida. Outro conceito é o de limiar diferencial, que é a quantidade mínima de alteração ou variação que deve ser aplicada a um estímulo para que o sujeito seja capaz de discriminar uma mudança na sensação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um desdobramento fascinante da Lei de Fechner ocorreu quando o estímulo físico apresentava valores abaixo do limiar absoluto (R&amp;lt;1), resultando em valores negativos para a sensação (S). Fechner definiu esses valores como sensações negativas ou subliminares, postulando a existência de processos mentais ativos abaixo do limiar da consciência desperta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para determinar com precisão científica os limiares absolutos e diferenciais, Fechner desenvolveu e padronizou três metodologias experimentais rigorosas, que se tornaram os pilares metodológicos de toda a psicologia experimental posterior. No Método do Erro Médio ou do Ajuste, o próprio sujeito experimental manipula ativamente um instrumento para ajustar um estímulo variável até que sinta que este se iguala a um estímulo padrão constante. A média dos desvios entre os ajustes do sujeito e o padrão real define o erro de observação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já no Método do Estímulo Constante ou dos Casos Corretos e Incorretos, o pesquisador apresenta de forma aleatória uma série de estímulos pré-determinados e constantes em comparação com um estímulo padrão. O sujeito deve julgar se o estímulo de comparação é maior, menor ou igual ao padrão, medindo-se a proporção estatística de acertos. Por fim, no Método dos Limites ou das Diferenças Mínimas Perceptíveis, dois estímulos são apresentados ao sujeito. Um deles é aumentado ou reduzido sistematicamente em passos discretos e graduais, e o sujeito relata o momento exato em que deixa de perceber ou passa a perceber a diferença entre ambos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1860, Fechner publicou seu livro monumental, Elementos de Psicofísica, que alguns entendem ser o primeiro sobre a psicologia científica experimental. Ao fornecer à psicologia técnicas de medição coerentes e precisas, Fechner provou de forma contundente que a mente humana era passível de investigação científica e experimental, sepultando em definitivo o antigo veto imposto por Immanuel Kant, em pleno momento de desenvolvimento do Neokantismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Incomodados com as inclinações metafísicas e espiritualistas de Fechner, os psicólogos experimentais subsequentes, sob a liderança de Wilhelm Wundt, rejeitaram completamente o panpsiquismo entre outras ideias, apropriando-se exclusivamente de seus métodos quantitativos de laboratório para estabelecer a psicologia como uma ciência empírica e natural. Como bem observou o historiador Edwin G. Boring, Fechner agiu como um “Colombo que descobriu um Novo Mundo (a psicologia científica) enquanto procurava pelas antigas Índias (a prova de sua metafísica)”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Resumindo ===&lt;br /&gt;
A intersecção entre a epistemologia kantiana, a fisiologia de Müller e a reformulação promovida por Helmholtz e Lange constituiu o início daquilo que tornou possível a psicologia científica. Kant havia mostrado que o sujeito constrói ativamente a realidade, mas negou que esse sujeito pudesse ser estudado matematicamente ou experimentalmente. Müller transferiu a estrutura ativa da mente para os nervos sensoriais específicos. Helmholtz e Lange reinterpretaram as pesadas categorias transcendentais de Kant como mecanismos biológicos e perceptivos operando através de inferências inconscientes e leis fisiológicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao “naturalizar” a Crítica da Razão Pura, o Neokantismo Psicofisiológico resolveu o veto de Kant a uma psicologia científica. Se os limites e as formas do nosso conhecimento são determinados pelo nosso sistema nervoso e sensorial, então o estudo epistemológico da mente deve ser feito no laboratório de fisiologia, estudando principalmente a percepção. A exigência de matematização foi superada pelas leis da psicofísica de Fechner e Weber, e o problema da introspecção descontrolada foi resolvido pelo uso de instrumentos de precisão, como cronoscópios, além de métodos de medidas de limiar, controle de estímulos, erros médios, entre outros, que transformavam as respostas subjetivas em dados objetivos, replicáveis e mensuráveis. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse foi o cenário epistemológico e institucional que Wilhelm Wundt encontrou e ajudou a consolidar. Wundt não fundou a psicologia a partir do nada em 1879. Seu Instituto em Leipzig foi organização metodológica e teórica de décadas de esforços em que a filosofia foi obrigada a dialogar com os nervos, os músculos e os tempos de reação, transformando para sempre a especulação sobre a alma em uma rigorosa ciência da experiência imediata. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ironicamente, escolas neokantianas posteriores, como a Escola de Marburgo, foram focos de resistência à psicologia experimental, alegando que o sujeito do conhecimento de Kant era de ordem puramente transcendental e lógica, e não empírica ou mensurável, ou seja, rejeitando a “biologização” do pensamento kantiano e a consequente criação da psicologia experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, conforme mostra Gundlach, a criação de uma posição acadêmica e o laboratório de psicologia por Wundt não se deu por conta de um amplo reconhecimento da superioridade do pensamento wundtano, mas sim por conta de disputas políticas e institucionais nas universidades alemãs. De qualquer forma, Wundt conseguiu desenvolver bem sua teoria ao longo de sua vida e conseguiu estabelecer-se na proeminência da psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia de Wundt ==&lt;br /&gt;
[[Wilhelm Wundt|Wilhelm Maximilian Wundt]] é, na historiografia da psicologia, uma figura ao mesmo tempo onipresente e pouco compreendida. Freqüentemente reduzido ao título de “fundador do laboratório de Leipzig”, essa simplificação negligencia sua estatura como um dos últimos grandes arquitetos de sistemas do século XIX, cujo &#039;&#039;Systemgedanke&#039;&#039; (pensamento sistêmico) buscava integrar a psicologia como uma propedêutica fundamental para a filosofia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Recuperar o Wundt original exige preencher uma vasta lacuna historiográfica. A primeira envolve apontar as conhecidas e muitas das distorções da tradução de [[Titchener|E.B. Titchener]] para o contexto anglo-americano, que foi formulada para aproximar suas ideias e pdasdaquelas de Wundt, visando uma “confirmação” do pensamento de Titchener. Wundt não era um estruturalista ou associacionista clássico e seu sistema é essencialmente dinâmico e centrado no &#039;&#039;&#039;voluntarismo&#039;&#039;&#039;. Para Wundt, a vontade e os processos afetivos não são meros epifenômenos, ou seja, um fenômenos secundários ou acessórios que acompanhma um fenômeno principal, mas o eixo organizador da consciência ativa. Esta reconstrução crítica visa resgatar a autonomia epistemológica de uma ciência que define seu objeto não como uma substância, mas como a experiência em sua totalidade imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Experiência conforme Wundt ===&lt;br /&gt;
Para Wilhelm Wundt, a experiência é concebida como um todo unitário e coerente. As duas abordagens da experiência que ele propõe não se deve a uma diferença ontológica, mas como dois pontos de vista distintos e complementares que permite sua abordagem científica, que ele separa entre Experiência Mediata e Experiência Imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experiência Mediata ====&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Experiência Mediata&#039;&#039;&#039; é a experiência objetiva) está &#039;&#039;&#039;focada nos objetos do mundo externo&#039;&#039;&#039;. Ela foca exclusivamente nos objetos do mundo externo, abstraindo o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que sabe, que tem conhecimento. A Experiência Mediata seria o ponto de vista característico das ciências naturais, como física, química e fisiologia. A ciência natural opera por meio de uma abstração sistemática, pois ela coloca o sujeito cognoscente &amp;quot;entre parênteses&amp;quot; e analisa apenas os objetos externos pensados, como se existissem de maneira totalmente independente de quem os percebe. É chamada de &amp;quot;mediata&amp;quot; porque &#039;&#039;&#039;nosso acesso a tais objetos é sempre indireto&#039;&#039;&#039;, ou seja, precisa de mediação, pois é dependente de conceitos abstratos, inferências teóricas e construções conceituais auxiliares para representá-los. Por um lado, o estímulo físico é intermediado pelos limites anatômicos e biológicos do nosso aparato perceptivo, ou seja, temos os limites e capacidades da nossa percepção. No caso da visão, por exemplo, não vemos os raios ultravioleta e infravermelho, pois não estão no expecto da luz visível, mas vemos as cores e suas combinações. Por outro lado, para constituir a &amp;quot;realidade objetiva&amp;quot;, o cientista natural precisa utilizar conceitos teóricos auxiliares e construções hipotéticas, como átomos, ondas eletromagnéticas e forças gravitacionais, que não são dados imediatamente na percepção sensível mas que podem ser vistos experimentalmente e por meio de instrumentos e aparatos científicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wundt critica assim o empirismo tradicional e o associacionismo. A doutrina do empirismo diz que a mente como página em branco, conforme a formulação de John Locke e sua &#039;&#039;tabula rasa&#039;&#039;. Neste caso, a mente seria progressivamente preenchida pelas impressões do mundo exterior (sensação) e pelas operações internas (reflexão). David Hume radicaliza o princípio empírico, postulando que as impressões são os átomos cognitivos fundamentais e as ideias nada mais são do que cópias atenuadas ou lembranças dessas impressões na memória e na imaginação. Já o associacionismo constitui a hipótese de que as ideias simples e discretas se combinam para formar pensamentos complexos, juízos e raciocínios abstratos. Se o empirismo fornece os blocos de construção, o associacionismo descreve a &amp;quot;força de atração&amp;quot; que os une. Conforme sistematizado por Hume e, depois, desenvolvido por Hartley e James Mill, a mente transita espontaneamente de uma ideia para outra por meio de regras regulares de associação, como a semelhança, a contiguidade no tempo e as relações de causa e efeito.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para Wundt, ambos erraram, pois transferiam as características dos objetos externos da física, como a solidez, os limites rígidos e a permanência estática, para os conteúdos conscientes, passando a tratar as representações (&#039;&#039;Vorstellungen&#039;&#039;) como coisas ou &amp;quot;átomos mentais&amp;quot;. Na física, o foco recai sobre o objeto substantivo. Contudo, segundo Wundt, a consciência não contém objetos estáveis. Ele parte de uma diferença fundamental que os psicofísicos e outros haviam apontado, que é aquela entre o mundo externo e o mundo percebido, ou ainda, entre as coisas e suas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em resumo, a Experiência Mediata se aproxima dos objetos estáveis do mundo externo e de como eles nos chegam. Na experiência mediata, o cientista da natureza pode retornar quando quiser ao mesmo objeto físico estável (uma pedra ou um elemento químico) para observá-lo repetidamente, ainda que o observador em si esteja sempre em mudança.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experiência Imediata, o Objeto de Estudo da Psicologia ====&lt;br /&gt;
Ao definir seu objeto, Wundt deu um passo decisivo para dar à psicologia autonomia perante as outras ciências naturais. Ele propõe que a experiência é uma unidade indivisível. Mas o que ele quer dizer por &#039;&#039;&#039;experiência&#039;&#039;&#039;? Uma definição poderia ser a totalidade dos processos conscientes, englobando sensações, sentimentos, representações e volições (vontades), apreendida da exata forma como se apresenta diretamente ao sujeito, sem qualquer abstração conceitual ou mediação de instrumentos externos. Ou seja, a experiência de Wundt seria como tudo o que se passa na mente, exatamente como ela aparece para uma pessoa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;O domínio da psicologia seria a experiência imediata&#039;&#039;&#039;, subjetiva, que é a experiência em sua realidade concreta, direta e intuitiva, apreendida antes de qualquer conceituação, teorização ou abstração. Ou seja, é a experiência antes de ela adquirir qualquer camada de compreensão, que seriam mediadores, por isso é imediata, &#039;&#039;&#039;sem mediação&#039;&#039;&#039;. Ela envolve o processamento de elementos sensoriais simples, como cor, som, temperatura, e de sentimentos simples, como prazer e desprazer. Ela diz respeito ao modo puro de funcionamento mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vamos a um exemplo, desta vez no campo do acústica. Na perspectiva mediata, o cientista natural abstrai o sujeito e estuda o som de forma indireta e conceitual. Ele utiliza aparelhos para medir as ondas sonoras e a sua propagação física pelo ar. O objeto físico “som” é, portanto, mediado e traduzido por conceitos de frequência, amplitude e decibéis. Já sob a perspectiva imediata, que é a da psicologia, o psicólogo estuda a sensação direta e em si mesma do tom no momento exato em que ele aparece na consciência. A análise está na vivência concreta do sujeito, que inclui a qualidade do tom, a sua intensidade subjetiva, a tonalidade afetiva de prazer ou desprazer que o acompanha e o processo ativo da atenção (apercepção, que será tratada mais adiante) que coloca aquele som no foco da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se olharmos desta vez para a cromática, na visão mediata, ciência natural estuda o azul abstraindo a experiência do sujeito. A física o descreverá de forma conceitual como uma radiação eletromagnética com determinado comprimento de onda atingindo a retina. A fisiologia se debruçará sobre o funcionamento dos tecidos dos olhos quando estimulados com a cor azul em suas nuances. Para a psicologia de Wundt, o azul é investigado como um dado imediato e real na consciência do sujeito no momento da percepção interna. O foco não está nas propriedades físicas do estímulo, mas sim na reação subjetiva e ativa do cérebro vivo a esse estímulo, que gera a qualidade imediata da cor na experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conduzindo seus estudos, Wundt também identificou aquilo que denominou &#039;&#039;&#039;causalidade psíquica&#039;&#039;&#039;. Ao nos lembrarmos de um fato triste, por exemplo, a fisiologia explicaria a tristeza de forma conceitual e indireta, por meio de correntes elétricas no córtex cerebral, liberação de hormônios ou atividade de sinapses nervosas. Já o psicólogo numa linha wundtiana observa a conexão de processos internos como elas ocorrem diretamente na consciência do sujeito, como a ligação da lembrança triste a um sentimento de angústia. A causalidade psíquica é uma causalidade própria da mente e irredutível às leis físicas da natureza, ou seja, não pode ser comparada à causalidade física como a conhecemos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao adotar a experiência como seu objeto, Wundt rompe com a psicologia da alma, filosófica e metafísica. Ele substitui a psicologia de substâncias, que postula uma entidade mental oculta, pela &#039;&#039;&#039;teoria da atualidade&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Aktualitätstheorie&#039;&#039;), na qual o psiquismo é definido como um fluxo de processos em constante devir. Seu sistema está fundamentado em um &#039;&#039;&#039;monismo perspectivista&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, para ele, mente e corpo não são substâncias que interagem mecanicamente, mas perspectivas distintas sobre a mesma unidade da experiência (&#039;&#039;Erfahrung&#039;&#039;). A psicologia, portanto, não estuda um “mundo interno”, que está isolado do externo, ainda que em contato com ele, mas a totalidade da experiência humana sob o prisma da imediatidade. Essa transição do estatuto de substância “mente” ou algo semelhante para o de processo traz uma nova perspectiva, criando um objeto que pode ser alvo de experimentação científica, partindo de experimentos já criados pela psicofísica e ainda outros que seriam desenvolvidos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Apercepção ===&lt;br /&gt;
No contexto filosófico, como já visto, o conceito de apercepção remonta a Kant, que a definiu como o processo autônomo, ativo e prévio pelo qual a mente unifica diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Wundt adotou essa noção kantiana para fundamentar sua teoria da consciência, definindo &#039;&#039;&#039;apercepção&#039;&#039;&#039; como o processo psicológico ativo pelo qual um conteúdo psíquico (ou representação) é trazido à &#039;&#039;&#039;clareza máxima e ao foco da consciência&#039;&#039;&#039;, vindo necessariamente acompanhado pelo estado de atenção voluntária.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para explicar a dinâmica da consciência, Wundt utilizou uma famosa analogia com a visão para diferenciar apercepção e percepção. O campo visual da consciência (&#039;&#039;Blickfeld&#039;&#039;) corresponde à percepção, que é a simples entrada de uma representação na consciência de forma difusa, ampla e sem a presença focalizada da atenção. Já o ponto focal da consciência (&#039;&#039;Blickpunkt&#039;&#039;) corresponde à apercepção, que é a entrada de uma representação no ponto central de máxima clareza e foco estreito da atenção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A apercepção, então, é uma &#039;&#039;&#039;manifestação primordial da vontade&#039;&#039;&#039;, funcionando como o princípio dinâmico que dá direção e estrutura tanto à experiência quanto ao movimento. Além disso, a apercepção pode ser ativa, que é quando o sujeito deliberadamente seleciona onde focará sua atenção, ou passiva, quando é o estímulo que se impõe no foco no sujeito. Por fim, a apercepção é o mecanismo central da operação da causalidade psíquica. É ela que unifica a mente em um sistema ativo, permitindo que a fusão de elementos resulte em sínteses criadoras com propriedades qualitativamente novas e imprevisíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Percepção Interna (innere Wahrnehmung) vs. Auto-observação (Selbstbeobachtung) ===&lt;br /&gt;
Para garantir o rigor procedimental e responder ao “desafio kantiano”, Wundt rejeitou a &#039;&#039;Selbstbeobachtung&#039;&#039;, que pode ser entendida como a &#039;&#039;&#039;auto-observação tradicional&#039;&#039;&#039; ou introspecção casual. Trata-se do método introspectivo puramente filosófico e especulativo que, segundo Wundt e outros, seria fonte de auto-ilusões. No momento em que o sujeito tenta observar ativamente o curso de seus próprios processos mentais complexos, a atenção que ele direciona para si mesmo altera, deforma ou suprime o próprio fenômeno em curso. Na reflexão puramente interna, é impossível garantir que o mesmo estado mental se repita de forma idêntica, impedindo a replicação intersubjetiva e a formulação de leis científicas gerais &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A solução científica é a &#039;&#039;innere&#039;&#039; &#039;&#039;Wahrnehmung&#039;&#039;, ou &#039;&#039;&#039;percepção interna&#039;&#039;&#039;, que permite a criação de um método científico baseado na repetição de estímulos externos controlados. No laboratório, o psicólogo replica condições experimentais que permitem a observação do aparecimento imediato do processo psíquico sob condições estáveis e previsíveis. O laboratório funciona, portanto, como o estabilizador do objeto psicológico, permitindo que a percepção interna atinja a precisão necessária para decompor a consciência em seus elementos fundamentais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O método de investigação da percepção interna é bem mais rigoroso. Em vez de pedir ao sujeito que reflita livremente sobre seus pensamentos, o experimentador utiliza aparelhos físicos de precisão, tais como [[Cronoscópio|cronoscópios]], pêndulos, compassos táteis, geradores de tons para controlar rigorosamente o início, a intensidade, a duração e a apresentação de estímulos externos predeterminados. Como o estímulo físico externo pode ser repetido e modificado arbitrariamente pelo pesquisador, as condições fisiológicas e sensoriais associadas à percepção interna são reproduzidas com exatidão. Com isso, o sujeito experimental pode antecipar sua atenção ao evento e captar com máxima precisão o surgimento da experiência imediata correspondente. O participante deveria ser rigorosamente treinado, muitas vezes revezando as funções de sujeito e pesquisador, e era instruído a fornecer respostas simples e verificáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Experimentos do Laboratório de Wundt ===&lt;br /&gt;
Vamos a alguns exemplos do que acontecia no laboratório de Wundt, para integrar melhor os conceitos já apresentados. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O primeiro experimento foi concebido originalmente para descrever a &#039;&#039;&#039;“equação pessoal” que aparecia nas medições dos astrônomos&#039;&#039;&#039;. O interesse neste tema surgiu quando se constatou que astrônomos treinados, utilizando os mesmos equipamentos, discordavam de suas medições que, à época, eram feitas manualmente com ajuda de instrumentos. De alguma forma, estas diferenças nas medições pareciam ter um tipo de padrão. Neste experimento, Wundt utilizava um aparelho chamado medidor de pensamento (&#039;&#039;Gedankenmesser&#039;&#039;) e, posteriormente, o pêndulo de complicação (&#039;&#039;Complicationspendel&#039;&#039;). O dispositivo consistia em um grande relógio de pêndulo que possuía uma agulha cruzada, como uma agulha de tricô, capaz de golpear fisicamente um pequeno sino em um ponto exato do seu arco de oscilação. O sujeito do experimento deveria olhar para a escala do pêndulo e tentar determinar a posição exata do ponteiro no momento em que ouvia o sino tocar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste experimento, Wundt descobriu que o sujeito sempre cometia um erro sistemático de registro, de aproximadamente um oitavo de segundo. Segundo ele, era impossível perceber visualmente a agulha e o som do sino ao mesmo tempo. Esse experimento seria uma &#039;&#039;&#039;prova laboratorial de que a consciência possui uma capacidade limitada e só consegue focar em uma única percepção por vez&#039;&#039;&#039;, como a diferença no marco da medição podia mostrar. A ilusão de simultaneidade devia-se apenas à rápida sucessão dos processos de atenção (apercepção).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os experimentos de &#039;&#039;&#039;tempo de reação&#039;&#039;&#039;, nosso segundo exemplo, constituíam o verdadeiro coração do trabalho em Leipzig na década de 1880. Wundt adaptou o método de subtração (&#039;&#039;Subtractiemethode&#039;&#039;), do fisiologista holandês F. C. Donders, para medir a velocidade de processos mentais complexos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o experimento de Wundt, é necessário compreender que, para ele, uma reação consciente envolvia: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- transmissão da sensação ao cérebro; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2- entrada do estímulo no campo amplo da consciência (percepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
3- entrada no foco ativo da atenção (apercepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
4- ato de vontade para liberar a resposta; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
5- execução motora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada um dessas partes exigem um certo tempo, pois são processos não imediatos. A depender de como as etapas do experimento são organizadas, diferentes tempos indicariam o acionamento maior ou menor de cada um deles. No experimento, o sujeito era treinado para responder pressionando uma tecla telegráfica ao ver um estímulo luminoso simples, como um &#039;&#039;flash&#039;&#039; de luz. Em seguida, vinha a tarefa mais difícil. Duas imagens eram apresentadas, um círculo branco sobre fundo preto ou vice-versa, e o sujeito só deveria reagir após identificar com clareza qual imagem havia aparecido. Ao subtrair o tempo da reação simples do tempo da reação complexa, Wundt calculava o “tempo de apercepção” ou discriminação. Na primeira tese de doutorado em psicologia experimental da história, Max Friedrich, que atuou no experimento, mostrou que o tempo de discriminação aumentava de acordo com a complexidade do estímulo visual. Por exemplo, o sujeito levava mais tempo para aperceber e discriminar uma sequência de seis dígitos do que de apenas um ou dois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O assistente de Wundt, Ludwig Lange, também colaborou no estudo ao desenvolver um experimento crucial. Ele demonstrou que os &#039;&#039;&#039;tempos de reação variavam drasticamente dependendo da preparação da atenção&#039;&#039;&#039; (no conceito moderno da palavra) do sujeito. Se a atenção estivesse focada no movimento de resposta que o dedo faria (reação muscular), o tempo era curto (cerca de 125 ms), pois funcionava como um “reflexo cerebral” que pulava a apercepção. Se o foco estivesse direcionado ao estímulo sensorial que iria surgir (reação sensorial), o tempo era cerca de 100 ms mais longo, pois envolvia o circuito completo da mente consciente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O terceiro experimento foi desenvolvido por Martin Trautscholdt, um dos estudantes de doutorado de Wundt. Ele estudava a &#039;&#039;&#039;associação de ideias&#039;&#039;&#039;. No seu estudo, o sujeito era instruído a pressionar uma tecla no momento exato em que uma ideia associada surgisse em sua consciência a partir de um estímulo visual ou auditivo. Ao subtrair o tempo que o sujeito levava para simplesmente reconhecer a palavra estimulante, Trautscholdt conseguiu quantificar o tempo gasto pela mente para realizar a conexão associativa propriamente dita que, segundo Trautscholdt, variava entre 706 e 874 ms. Wundt também adaptou a &#039;&#039;&#039;técnica de associação de palavras de Francis Galton&#039;&#039;&#039;, limitando a resposta do sujeito a apenas uma única palavra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O quarto e último experimento que será apresentado é relacionado a &#039;&#039;&#039;acordes musicais&#039;&#039;&#039;. Nele, sujeitos ouviam tons isolados no piano, que seriam as sensações puras, e depois os mesmos tons tocados simultaneamente. Os participantes descreviam em detalhes a transição afetiva de como a fusão física das frequências dava origem a um produto inteiramente novo na consciência. Este seria o sentimento estético de harmonia e o prazer decorrente de uma síntese criadora. Wundt conduzia vários experimentos em estética experimental, tal qual seu colega Fechner.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Arquitetura da Mente: Elementos, Fusão e Síntese Criadora ===&lt;br /&gt;
Segundo Wundt, &#039;&#039;&#039;a experiência pode ser decomposta em elementos simples&#039;&#039;&#039;, que incluem as sensações e os sentimentos simples. Os &#039;&#039;&#039;sentimentos&#039;&#039;&#039;, por sua vez, são entendidos a partir da &#039;&#039;&#039;teoria tridimensional dos sentimentos&#039;&#039;&#039;, onde eles se distribuem em um espaço qualitativo entre os polos prazer/desprazer (&#039;&#039;Lust-Unlust&#039;&#039;), tensão/relaxamento (&#039;&#039;Spannung-Lösung&#039;&#039;) e excitação/depressão (&#039;&#039;Erregung-Beruhigung&#039;&#039;). A primeira é a mais evidente, se refere à avaliação afetiva primária da experiência. A segunda se relaciona ao esforço da atenção ou à preparação interna da mente. Já a terceira está relacionada ao nível de ativação biológica e psicológica do organismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esses aspectos todos são organizados através do mecanismo de &#039;&#039;&#039;fusão&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Verschmelzung&#039;&#039;), onde as qualidades elementares se fundem em complexos psíquicos. O conceito central aqui é o princípio da &#039;&#039;&#039;síntese criadora&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;schöpferische Synthese&#039;&#039;). Ao contrário do associacionismo britânico, Wundt afirma que o todo resultante possui propriedades que não estão contidas na mera soma das partes. Essa síntese não é um processo mecânico passivo, mas um ato aperceptivo ativo, ou seja, vinculado à vontade. Na mente humana, a combinação de elementos gera um valor novo e qualitativamente superior, marcando a distinção fundamental entre a causalidade psíquica e a mecânica física.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em termos simples, a síntese criadora estabelece que os complexos psíquicos, como representações, sentimentos compostos e afetos, embora formados pela união de elementos simples (sensações e sentimentos simples), possuem características qualitativas inteiramente novas que não pertencem a nenhum de seus elementos constituintes isolados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fusão é o processo ativo e primário de integração psíquica. É através dela que os elementos sensoriais e afetivos brutos são ativamente sintetizados pela mente para dar origem a uma nova unidade psicologicamente complexa. A fusão é a geradora da síntese criadora. Para Wundt, a síntese criadora é a prova cabal da causalidade psíquica. Ela mostra que os fenômenos mentais obedecem a leis de conexão e geração próprias que não se ajustam às leis da física ou da fisiologia mecânica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Observemos isso com um exemplo já apresentado, sobre a música. Se você tocar no piano as notas Dó, Mi e Sol isoladamente, você terá apenas a experiência de três sensações auditivas distintas. No entanto, quando essas notas são tocadas simultaneamente, a fusão de seus elementos gera na consciência uma experiência qualitativamente nova, que seria um acorde musical. O sentimento de harmonia e a qualidade estética do acorde são um produto da síntese criadora, pois não existiam em nenhuma das notas isoladas e surgem puramente da atividade unificadora da mente sobre o estímulo físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Paralelismo Psicofísico e Causalidade Psíquica ===&lt;br /&gt;
O paralelismo psicofísico foi um dos conceitos mais importantes e debatidos no século XIX durante o processo de fundação da psicologia científica. Ele surgiu como uma alternativa teórica para solucionar o clássico problema mente-corpo. O conceito foi formulado de forma a tanto o dualismo substancial, que dividia o ser humano em duas substâncias isoladas cuja forma de interação era desconhecida, quanto o materialismo reducionista, que reduzia a mente a uma mera secreção cerebral ou processo físico ou fisiológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para &#039;&#039;&#039;Fechner&#039;&#039;&#039;, o &#039;&#039;&#039;paralelismo&#039;&#039;&#039; era a manifestação de um monismo neutro, ou teoria de duplo aspecto. Ele defendia que a matéria (corpo) e o espírito (mente) não são substâncias diferentes, mas sim dois modos de aparência ou perspectivas distintas de uma única e mesma realidade subjacente, teoria sobre o qual fundamental grande parte de seu projeto científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt também adotou o termo &#039;&#039;&#039;paralelismo psicofísico&#039;&#039;&#039;, mas realizou uma redefinição epistemológica radical do conceito, visando se afastar da metafísica. Ele rejeitava categoricamente qualquer tentativa de transformar o paralelismo em uma doutrina ontológica sobre a natureza última da realidade, transformando-o estritamente um postulado metodológico e heurístico indispensável para a investigação científica. Os processos mentais não sejam reduzidos a processos fisiológicos ou neurais, pois a consciência obedece a leis de conexão próprias, como a causalidade psíquica, que não podem ser explicadas pelas leis da mecânica cerebral.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Psicologia Individual e Völkerpsychologie: dois métodos para manifestações da experiência ===&lt;br /&gt;
A arquitetura metodológica de Wundt responde ao desafio de investigar processos mentais que variam em complexidade. Ele estabelece que &#039;&#039;&#039;a psicologia deve ser compreendida como o fundamento das ciências humanas&#039;&#039;&#039; ou ciências do espírito (&#039;&#039;Geisteswissenschaften&#039;&#039;). A &#039;&#039;&#039;Psicologia Individual&#039;&#039;&#039;, na concepção de Wundt, foca nos processos elementares, que incluem sensação e percepção, que são passíveis de controle rigoroso em laboratório através da manipulação de estímulos externos e pelas técnicas da [[introspecção]] experimental e estudo da experiência interna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entretanto, Wundt reconhece a insuficiência do modelo experimental para os processos mentais superiores, como o pensamento e a linguagem, que são historicamente condicionados. Para estes, ele propõe a &#039;&#039;Völkerpsychologie&#039;&#039; , ou &#039;&#039;&#039;Psicologia dos Povos&#039;&#039;&#039;, dedicada ao estudo dos produtos das &#039;&#039;geistige Gemeinschaften&#039;&#039; (comunidades espirituais, no sentido das ciências do espírito, ou coletividades). Wundt vai apontar a linguagem, o mito e os costumes (&#039;&#039;Sitten&#039;&#039;) não são apenas dados culturais, mas objetivações de leis psíquicas superiores, inacessíveis à introspecção de laboratório. Eles seriam produtos da experiência humana nas suas formas mais avançadas e superiores e, por não serem passíveis de experimentação, exigem uma outra abordagem. Essas duas vertentes, experimental e histórico-cultural, não são divergentes, mas sim o projeto integrador que permite apreender a mente tanto em sua base sensório-motora quanto em suas manifestações espirituais complexas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As investigações da psicologia dos povos focavam na alma do povo (&#039;&#039;Volksseele&#039;&#039;), definida como a realidade factual dos processos psíquicos que surgem em uma comunidade por meio da interação das energias mentais dos indivíduos. Essa “mente coletiva” se tornava um objeto tangível e investigável ao longo da história em três grandes produtos culturais. O primeiro é a &#039;&#039;&#039;linguagem&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Die Sprache&#039;&#039;), ferramenta pela qual o pensamento é estruturado e externalizado. Já o &#039;&#039;&#039;mito e a religião&#039;&#039;&#039; são as formas como a imaginação e os sentimentos humanos coletivos projetam suas explicações sobre o cosmos e a existência. Os &#039;&#039;&#039;costumes&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Sitten&#039;&#039;) e o &#039;&#039;&#039;direito&#039;&#039;&#039;, por sua vez, são  as regras de conduta coletiva que nascem de atos voluntários e impulsos compartilhados, padronizando as interações sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não podia realizar experimentos com culturas inteiras, Wundt operava por meio da pura &#039;&#039;&#039;observação retrospectiva e comparativa dos produtos mentais&#039;&#039;&#039;, ou seja, analisando os objetos já criados e usados ou em uso por diferentes povos e culturas, anotando suas diferenças e semelhanças. Wundt juntava, lia e analisava de forma exaustiva relatos históricos, estudos filológicos, dicionários, mitologias comparadas, códigos de leis e descrições etnológicas e antropológicas de povos ao redor do globo, ou seja, utilizava dos estudos de diferentes ciências humanas e sociais para extrair as leis psicológicas gerais do desenvolvimento mental humano por trás dessas manifestações. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seu objetivo era mapear como a mente coletiva evoluía do simples para o complexo ao longo das eras, numa abordagem genética e desenvolvimentista e reconstruir, de forma retrospectiva, as forças dinâmicas, os afetos, os impulsos (&#039;&#039;Triebe&#039;&#039;) e os processos de síntese criadora (melhor discutida mais adiante) que estiveram ativos na mente das pessoas no momento de sua formação. Wundt dedicou os últimos 20 anos de sua vida (de 1900 a 1920) quase exclusivamente a esse empreendimento monumental, escrevendo dez volumes sobre o assunto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O que Aconteceu Depois? ===&lt;br /&gt;
No final de sua vida, Wilhelm Wundt era visto de forma ambivalente. Enquanto mantinha o prestígio de fundador da psicologia científica, uma nova geração de psicólogos que buscava se firmar, via como um “pai tribal”, cujo longo domínio de mais de quatro décadas estava desgastado. Ele se tornou o alvo de críticas severas e passou a ser tratado por muitos como o ícone de um passado superado e falido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante a Primeira Guerra Mundial e nos anos que a sucederam, a reputação internacional de Wundt sofreu graves danos. Influenciado por seu filho Max, Wundt adotou posturas políticas ultranacionalistas, chegando a usar a &#039;&#039;Völkerpsychologie&#039;&#039; de maneira tendenciosa para criticar os inimigos da Alemanha. Essa postura inflamou um forte preconceito anti-alemão, especialmente nos Estados Unidos, onde ex-alunos e intelectuais americanos passaram a ver ele como uma mente maligna e autoritária, acelerando a rejeição de suas obras em solo estrangeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A maior frustração de Wundt no fim da vida ocorreu no âmbito acadêmico alemão. Ele sempre defendeu que a psicologia era uma ciência propedêutica e uma aliada indispensável da filosofia, devendo permanecer integrada a esta. No entanto, os filósofos acadêmicos de sua época, especialmente os neokantianos e fenomenologistas, rejeitaram veementemente o  que chamavam de “&#039;&#039;&#039;[[psicologismo]] de Wundt&#039;&#039;&#039;”, ou seja, a redução da lógica e da validade do conhecimento a fatos psicológicos. Em 1913, após a contratação de um psicólogo experimental para a cadeira de filosofia em Marburg, mais de cem professores de filosofia assinaram um &#039;&#039;&#039;protesto público exigindo que psicólogos fossem banidos dos departamentos de filosofia&#039;&#039;&#039;. Esse movimento resultou no progressivo divórcio institucional entre a psicologia e a filosofia, uma separação que Wundt lamentou e combateu até a sua morte em 1920.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir da década de 1890, uma forte onda de positivismo, inspirada pela filosofia de Ernst Mach e Richard Avenarius, varreu a psicologia experimental. Jovens psicólogos, incluindo os assistentes do próprio Wundt, rejeitaram conceitos fundamentais do sistema de Leipzig, como a apercepção, a causalidade psíquica e a síntese criadora, tomando eles como metafísica, exatamente o oposto do que desejava seu formulador. Eles preferiam um modelo elementarista e reducionista, focado na descrição de relações funcionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos EUA, a influência da teoria da evolução de Darwin deslocou o interesse da estrutura da consciência para as suas funções de adaptação ao meio, o chamado funcionalismo. Com o surgimento e o fortalecimento do behaviorismo e a eliminação da mente como objeto de estudo, o voluntarismo de Wundt perdeu qualquer espaço. Na Europa, a própria psicologia da Gestalt ergueu-se combatendo o elementarismo que havia sido falsamente associado a Wundt. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O golpe final veio após a Primeira Guerra Mundial, quando a Alemanha mergulhou em colapso econômico. Diante da “&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;”, os pesquisadores precisaram provar a utilidade prática da ciência que praticavam para sobreviver, o que já acontecia nos EUA, voltando-se para a psicologia militar, industrial, educacional e clínica. &#039;&#039;&#039;Wundt, que sempre desprezou a psicologia aplicada&#039;&#039;&#039;, teria visto seu sistema dinâmico de laboratório perder todo o fôlego diante das pressões pragmáticas da época, ainda que mantivesse sua fama e sua alcunha maior. Ironicamente, um dos principais defensores da psicologia puramente laboratorial, foi quem escreveu a obra mais bem-sucedida de história da psicologia, servindo de parâmetro para o campo por décadas, ou seja, [[Edwin Boring]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia Científica na Inglaterra ==&lt;br /&gt;
O surgimento da psicologia na Inglaterra seguiu um caminho bastante distinto do modelo laboratorial alemão, focado na introspecção e na busca de leis universais. A psicologia britânica formou-se na intersecção de duas grandes forças intelectuais, que são as filosofias empirista e associacionista, e a biologia evolutiva. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No &#039;&#039;&#039;empirismo&#039;&#039;&#039;, pensadores como John Locke postularam que a mente humana nasce como uma tabula rasa ou uma folha em branco, e que absolutamente todo o conhecimento deriva da experiência sensorial. No &#039;&#039;&#039;associacionismo&#039;&#039;&#039;, filósofos como David Hume, James Mill e John Stuart Mill afirmavam processos mentais complexos são formados pela associação contínua de ideias simples e sensações, governadas por leis lógicas. tais como similaridade, contiguidade e causa e efeito. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A despeito de sua rica tradição filosófica, o maior divisor de águas para a ciência britânica foi a publicação de [[A Origem das Espécies (livro)|A Origem das Espécies]], em 1859. A teoria da evolução natural de Darwin, trouxe novas e profundas questões para o estudo da mente britânica. Se humanos e animais compartilham ancestrais comuns, argumentava-se que deveria haver uma continuidade não apenas física, mas também mental entre as espécies, conectando a psicologia ao estudo da zoologia, dando origem à &#039;&#039;&#039;Psicologia Comparada&#039;&#039;&#039;. Além disso, a mente e a consciência deixaram de ser vistas apenas como objetos metafísicos e passaram a ser estudadas como ferramentas biológicas de adaptação, que evoluíram porque ajudavam o organismo a sobreviver em seu ambiente, sendo fundamental para a criação do funcionalismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a validação da biologia evolutiva, o estudo da inteligência animal explodiu no Reino Unido, [[George Romanes]] foi um dos primeiros a tentar sistematizar o comportamento animal. Contudo, seu método anedótico foi duramente criticado por ser antropomórfico, ou seja, por atribuir pensamentos e emoções humanas complexas a animais. Seu colega [[Conwy Lloyd Morgan]] introduziu mais rigor científico à área através do que ficou mundialmente conhecido como o &#039;&#039;&#039;Cânone de Morgan&#039;&#039;&#039;, ou [[princípio da parcimônia]]. A regra dizia que um comportamento animal não deve ser interpretado como resultado de uma faculdade mental superior se puder ser explicado por um processo psicológico mais básico, como o instinto ou o aprendizado por tentativa e erro. Apesar de a perspectiva de ambos ter sido abandonada, a Psicologia Comparada se tornou um dos principais ramos da psicologia moderna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Francis Galton e a Psicologia Diferencial ===&lt;br /&gt;
[[Francis Galton]] (1822-1911) foi um cientista e polímata britânico de inteligência extraordinária, com um QI estimado por volta de 200, algo extremamente raro, além de ser primo de Charles Darwin. Galton é amplamente reconhecido como pioneiro ao incorporar o estudo sistemático das diferenças individuais e da herança mental na nova psicologia, uma área que era ignorada ou rejeitada por pioneiros experimentalistas como Wilhelm Wundt.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Galton se interessou pela medição das variações da inteligência e das capacidades humanas. Ele fundou um [[Laboratório de Galton|&#039;&#039;&#039;laboratório antropométrico&#039;&#039;&#039;]] onde testou a acuidade sensorial, a força e os tempos de reação de milhares de pessoas. Além disso, baseando-se na premissa empirista de John Locke de que todo o conhecimento vem da percepção, Galton assumiu que os indivíduos mais inteligentes seriam aqueles com as capacidades sensoriais e motoras mais aguçadas. Ele foi o inventor do conceito de testes mentais, termo posteriormente cunhado por seu aluno dos EUA, [[James McKeen Cattell]]. Galton também desenvolveu o &#039;&#039;&#039;método experimental de associação de palavras&#039;&#039;&#039;, medindo o tempo de reação mental e demonstrando a enorme influência das experiências da infância e do inconsciente no pensamento adulto, um trabalho que impressionou profundamente [[Sigmund Freud]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também foi um dos primeiros a fazer uso amplo do questionário psicológico para investigar imagens mentais, constatando para sua própria surpresa que a maioria dos cientistas relatava ausência de imagens mentais nítidas, em contraste com relatos muito mais detalhados fornecidos por mulheres e crianças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para conduzir medições em larga escala, ele inventou vários instrumentos clássicos e, para analisar suas enormes bases de dados, &#039;&#039;&#039;Galton desenvolveu conceitos estatísticos fundamentais&#039;&#039;&#039;, como a correlação. Essa tradição quantitativa foi depois aperfeiçoada por outros britânicos, como [[Charles Spearman]], criador da análise fatorial e do conceito de [[fator g de inteligência geral]], fundando a base da psicometria moderna. e influenciando de forma decisiva a psicologia dos testes nos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Conclusão ==&lt;br /&gt;
A história da psicologia é definida pelo paradoxo de ter um “longo passado” e uma “curta história”, podendo ir do De Anima de Aristóteles até a a fundação do laboratório de Wilhelm Wundt na Universidade de Leipzig, em 1879. A psicologia, assim, mostra que tem uma rica história, com muitos personagens, conceitos e acontecimentos importantes, de modo que qualquer narrativa sobre sua composição elegerá heróis e vilões, dará mais relevância para alguns, menos para outros e o esquecimento para a maioria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Immanuel Kant foi uma figura central na composição da psicologia científica. Ele propôs que a mente humana é um agente ativo que organiza o conhecimento através de estruturas &#039;&#039;a priori&#039;&#039;, tais como o tempo, o espaço e as categorias do entendimento. Assim, ele introduziu o conceito de “sujeito transcendental” como a estrutura universal que garante a unidade da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Kant impôs um “veto” ao status científico da psicologia, defendendo a necessidade de uma base na matematização. A superação desse veto ocorreu através da “naturalização” de Kant pela fisiologia. Johannes Müller, com a Teoria das Energias Nervosas Específicas, mostrou que a sensação é mediada pelo sistema nervoso, não sendo uma cópia fiel do mundo externo. Hermann von Helmholtz avançou essa ideia ao postular que as estruturas a priori de Kant seriam, na verdade, características da anatomia e fisiologia humanas. Ele propôs o conceito de “inferências inconscientes” para explicar como interpretamos dados sensoriais. Nesse contexto, Friedrich Albert Lange defendeu uma “psicologia sem alma”, rejeitando a metafísica e argumentando que o estudo científico deve focar apenas nas aparências e fenômenos observáveis, reduzindo o objeto da psicologia a dados empíricos e correlações fisiológicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner, por sua vez, foi crucial ao oferecer a base matemática e experimental que faltavam, por meio da Lei de Weber-Fechner. Ele também padronizou e melhorou métodos para o estudo dos limites e constantes sensoriais, que se tornaram a base metodológica da psicologia experimental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt não apenas fundou um laboratório, como também arquitetou um sistema complexo. Para Wundt, o objeto da psicologia é a experiência imediata, criando conceitos como voluntarismo, causalidade psíquica, apercepção, entre outros. Além disso, ele também criou a psicologia dos povos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente do foco laboratorial alemão, a psicologia britânica foi moldada pela filosofia empirista e pela teoria da evolução de Charles Darwin. Neste contexto, Galton ganha destaque, por ter fundado o laboratório antropométrico, inventado ideias que levaram aos “testes mentais”, pelo uso de estatísticas no estudo da psicologia e ter influenciado o desenvolvimento da psicometria e a análise fatorial com Charles Spearman, consolidando uma tradição que focava mais na variabilidade genética e na inteligência do que na estrutura da consciência em si.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A história da psicologia tem origens ricas e diversas, e sua difusão implicou em muitas transformações em variadas formas. Qualquer narrativa sobre o surgimento da psicologia científica terá limites e potencialidades, devido às escolhas epistemológicas, filosóficas e de acontecimentos históricos. Este material defende que a psicologia científica teve origem em um elementos específico da fisiologia alemã que uniu-se a um movimento filosófico de retorno a Kant no século XIX. Uma vez fundada, a psicologia científica abriu o caminho para outras ideias e formas da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_surgimento_da_psicologia_cient%C3%ADfica&amp;diff=1752</id>
		<title>O surgimento da psicologia científica</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_surgimento_da_psicologia_cient%C3%ADfica&amp;diff=1752"/>
		<updated>2026-09-05T14:23:47Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* A Psicologia Científica na Inglaterra */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto [[Portal História da Psicologia]]) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um longo passado, uma curta história ==&lt;br /&gt;
A psicologia tem um longo passado, mas uma curta história. Esta é uma frase muito famosa no campo da história da psicologia, tendo sido consagrada por Hermann Ebbinghaus, um psicólogo alemão pioneiro no estudo da memória, ainda no século XIX. A frase é exemplar e muito usada em debates sobre a historiografia da psicologia, e isto revela como é difícil dizer quando a psicologia teve início. Ela tem um &#039;&#039;&#039;longo passado&#039;&#039;&#039;, porque os temas que consideramos hoje como parte da psicologia aparecem muitas vezes na filosofia, na religião, em saberes tradicionais, entre muitos outros lugares, ao longo da história. É difícil estabelecer qual &#039;&#039;&#039;o objeto de estudo da história da psicologi&#039;&#039;&#039;a, assim como é difícil, ao longo da história, &#039;&#039;&#039;separar o que é  psicologia daquilo que não é psicologia&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse longo passado pode remontar, por exemplo, à Antiguidade, com o tratado De Anima, de Aristóteles, que escreveu muito antes de se imaginar o próprio conceito de ciência moderna e, menos ainda, de uma psicologia moderna. Outros podem colocar o início da psicologia com Descartes, que elaborou a máxima, também famosa, “penso, logo existo”. Isso mostra que &#039;&#039;&#039;os objetos de estudo da psicologia são historicamente construídos&#039;&#039;&#039;, ou seja, emergem a partir dos locais ou pessoas que atuaram na psicologia, como na medida das diferenças individuais, as dinâmicas de controle num laboratório, nas práticas de psicoterapia, entre muitas outras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se cada historiador localiza o passado da psicologia em lugares diferentes no tempo e no espaço, a &#039;&#039;&#039;história da psicologia&#039;&#039;&#039;, por seu lado, tem uma definição bem mais estável e curta. Nos anos 1980, historiadores reunidos num congresso nos EUA definiram que &#039;&#039;&#039;a psicologia científica começou em 1879, quando [[Wilhelm Wundt]] fundou o primeiro laboratório de psicologia experimental na Universidade de Leipzig, na Alemanha&#039;&#039;&#039;. Essa definição está consagrada e é quase um consenso, porém, não foi tão simples estabelecê-la. Alguns advogavam pelo pioneirismo de outro alemão, [[Gustav T. Fechner|Gustav Theodor Fechner]], criador da chamada [[psicofísica]], de onde vieram muitos dos experimentos e ideias de Wundt. Outros ainda queriam que [[William James]], um filósofo e psicólogo americano, fosse reconhecido como fundador, pois seu laboratório de psicologia era ainda mais antigo que o de Wundt que, no final, venceu essa disputa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Resumindo, a psicologia possui um “longo passado”, com raízes filosóficas e religiosas milenares e altamente diversas, e uma “curta história” como disciplina científica, cujo marco está situado em 1879, com a fundação do primeiro laboratório experimental por Wilhelm Wundt, na Alemanha. Pelo menos é assim que, atualmente, a grande maioria dos historiadores entende a questão, uma das poucas em que há algum conceito neste campo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Presentismo ===&lt;br /&gt;
Mas o que seriam essas psicologias anteriores a essa psicologia científica? Para entender melhor essa história, é preciso refletir para superar, da melhor forma, um problema chamado &#039;&#039;&#039;presentismo&#039;&#039;&#039;, ou seja, julgar, entender, interpretar e analisar o passado com a visão do presente. Não é apenas uma questão de olhar para as pessoas do passado e superar o pensamento de que elas eram “ignorantes”, pois “não tinham o conhecimento que temos hoje”. É entender também que, no passado, haviam formas de conhecimentos diferentes, bem como visões de mundo diferentes da atual. Este é um problema fascinante. Muitos dos consensos contemporâneos, coisas que entende-se totalmente óbvias, eram vistas de forma completamente diferente no passado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo interessante é o &#039;&#039;&#039;conceito de atenção&#039;&#039;&#039;. Hoje, ela é um tema tão discutido e consensual que pouco se reflete sobre seu significado. Atualmente, seria algo como centralizar as faculdades mentais ou talvez a percepção em um ponto específico. Pode-se ouvir as pessoas reclamando da própria falta de atenção, que “não conseguem prestar atenção”, ou que nunca “mantém a atenção”, e até mesmo existem medicamentos para resolver esse problema. Contudo, a palavra “atenção” nem sempre significou o que entendemos hoje. Para [[Santo Agostinho]], atenção era apenas o ato de passar de um pensamento para outro. [[René Descartes|Descartes]] tinha um conceito mais parecido com o contemporâneo, onde a atenção era mobilizada de forma voluntária para fixar e reter na memória coisas raras e extraordinárias que o entendimento considerava úteis. Na obra de [[John Locke|Locke]], a atenção é mencionada apenas de passagem, como um mero mecanismo auxiliar da retenção de memórias. A partir do momento em que a ciência passou a entender que a percepção depende da estrutura física e biológica do corpo, com a psicofísica e a fisiologia sensorial, já no século XIX, a visão passou a ser encarada como intrinsecamente incompleta, instável e condicionada pelo tempo. Nesse contexto, a atenção foi utilizada como um substituto pragmático para garantir a coerência do mundo percebido. Autores do final do século XIX, como [[Théodule Ribot]] e [[Max Nordau]], associaram os desvios ou a fraqueza da atenção a patologias psíquicas, comportamentos sociopáticos e teorias da “degeneração”. Para eles, uma atenção defeituosa deixava a mente à mercê de “associações caóticas”, gerando uma visão borrada e distorcida da realidade. Foi apenas na década de 1950 que a nossa compreensão contemporânea de atenção começou a se delinear, paralelamente aos estudos sobre os medicamentos desenvolvidos para tratar as suas disfunções.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma pessoa desavisada, que não está atenta às grandes diferenças entre as ideias e conceitos ao longo do tempo, poderia ler um trecho de Ribot, Santo Agostinho, Descartes e outros e achar que a atenção sobre a qual eles falam é a mesma coisa que entendemos hoje. O leitor estaria totalmente enganado, a ponto de não conseguir nem mesmo compreender o que estes pensadores queriam dizer. Em outras palavras, &#039;&#039;&#039;o esforço para entender as psicologia do passado passa também pelo esforço de entender como se pensava no passado, qual a visão que se tinha nesse passado&#039;&#039;&#039;. Parte do esforço do historiador é trazer esses aspectos de volta ao presente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O sujeito transcedental de Kant ==&lt;br /&gt;
A concepção de uma psicologia ocupada especificamente com a “mente” humana e suas operações começou a ganhar contornos modernos no século XVIII com o filósofo [[Christian Wolff]]. Ele dividiu a psicologia em [[Psicologia Empírica (livro)|&#039;&#039;&#039;Psicologia Empírica&#039;&#039;&#039;]], num livro publicado em  1732 e baseada na introspecção; e em &#039;&#039;&#039;Psicologia Racional&#039;&#039;&#039;, numa obra de 1734, dedicada a deduzir a natureza e a essência da alma, como sua imortalidade e imaterialidade, de forma puramente lógica e racional, independentemente da experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, o projeto de Wolff enfrentava um sério problema metodológico: a chamada observação interna ou [[introspecção]]. Quando se estuda um fenômeno natural, como a chuva, é necessário observar tudo que está envolvido com estee fenômeno, incluindo como as nuvens se formam, qual a umidade do ar, a intensidade dos raios solares, a direção dos ventos, entre muitos outros fatores. A questão é que todos estes aspectos são &#039;&#039;&#039;externos ao sujeito&#039;&#039;&#039;. Toda a ciência é feita dessa forma, observando, testando e analisando o mundo que está fora dos indivíduos. O problema está em estudar algo que é interno aos sujeitos. Não se pode observar diretamente o que se passa na cabeça de alguém, pelo menos não por enquanto. Contudo, é possível analisar o que se passa nas nossas próprias cabeças. Isso seria a &#039;&#039;&#039;introspecção&#039;&#039;&#039;, ou seja, o processo pelo qual adquirimos conhecimento sobre nossos próprios estados ou processos mentais Apesar de ser uma ideia interessante, fazer introspecção não era considerado algo muito científico. Entendia-se que “observar a si mesmo” distorcia os eventos mentais, pois o sujeito que observa e o objeto observado são o mesmo, o que impediria a neutralidade exigida pelo modelo científico então vigente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até a segunda metade do século XVIII, as teorias do conhecimento, que incluíam o empirismo e o racionalismo, compartilhavam a premissa de que o conhecimento era determinado pelo objeto a ser conhecido. A ideia era a de que objeto estava lá, esperando a melhor forma de ser conhecido. &#039;&#039;&#039;Kant&#039;&#039;&#039;, em sua obra [[Crítica da Razão Pura (livro)|Crítica da Razão Pura]] (1781), inverteu essa lógica de forma radical. Ele propôs que &#039;&#039;&#039;não é o conhecimento que se adequa aos objetos, mas são os objetos que são determinados pelo sujeito&#039;&#039;&#039;. O conhecimento passou a ser compreendido não como uma recepção passiva, mas como uma produção ativa do chamado sujeito transcendental, moldada por suas formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;sujeito transcendental&#039;&#039;&#039; em Kant não se refere propriamente a um indivíduo empírico ou psicológico, ou seja, alguém com personalidade e história pessoal. Pense no sujeito transcendental não como “você” (André ou Maria), mas como o “sistema operacional” universal da mente humana. Assim como um software organiza os dados que chegam do teclado, convertendo eles em coisas numa tela, o sujeito transcendental organiza os dados que chegam dos sentidos, como o tempo e o espaço, antes mesmo de termos consciência deles.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o sujeito transcedental, é preciso fazer um importante exercício de abstração, visando conseguir entender algo que está além da experiência existencial individual e entender aquilo que molda essa própria experiência. O sujeito transcedental de Kant é, segundo ele próprio, uma condição universal de possibilidade para qualquer conhecimento. Em outras palavras, é algo que todas as pessoas possuem e é a forma que o ser humano tem para saber as coisas. É a estrutura ativa da mente que organiza a experiência antes mesmo que possamos refletir sobre ela. Esse sujeito é o princípio unificador que garante a coerência dos dados sensoriais, transformando o caos de impressões oriundas dos órgãos dos sentidos em uma experiência significativa e estruturada. Através das formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039; da sensibilidade (espaço e tempo) e das categorias do entendimento, o sujeito transcendental “constrói” o objeto conhecido. Ele é o “Eu penso” cartesiano, que deve poder acompanhar todas as nossas representações, conferindo unidade à consciência. Em suma, &#039;&#039;&#039;não conhecemos o mundo como ele é em si, mas como o sujeito transcendental o molda e o organiza para que se torne inteligível para nós&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Immanuel Kant revolucionou a teoria do conhecimento ao postular que a mente humana não funciona como um receptáculo passivo de impressões sensoriais, mas sim como um agente ativo dotado de estruturas constitutivas a priori que organizam, unificam e interpretam a matéria-prima da experiência. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas ideias de Kant, o processo de constituição do conhecimento dos fenômenos que chegam para nossa mente a partir dos órgãos dos sentidos articula-se em três instâncias fundamentais. A primeira são as formas puras da sensibilidade, depois vem os conceitos puros do entendimento, ou seja, as categorias e, por fim, a unidade sintética da apercepção. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas &#039;&#039;&#039;formas puras da sensibilidade&#039;&#039;&#039;, antes mesmo que o intelecto possa aplicar qualquer conceito, o caos das sensações brutas é necessariamente ordenado no espaço e no tempo, que não são propriedades das coisas em si, mas intuições puras da sensibilidade que funcionam como os eixos coordenados onde os fenômenos são dados. Ou seja, as informações dos sentidos já chegam num espaço e num tempo para o resto do processo de constituição do conhecimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma vez colocados no espaço e estruturados numa sucessão e simultaneidade temporal, esses dados passam pelas &#039;&#039;&#039;doze categorias do entendimento puro&#039;&#039;&#039;. Essas categorias se dividem em &#039;&#039;&#039;quatro classes de tríades&#039;&#039;&#039;: quantidade, qualidade, relação e modalidade. As &#039;&#039;&#039;categorias&#039;&#039;&#039; representam as regras lógicas puras, fundamentais e necessárias para tornar qualquer objeto da experiência inteligível. Elas podem ser observadas de forma simplificada na tabela a seguir:&lt;br /&gt;
{| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot;&lt;br /&gt;
|Classe de Categorias&lt;br /&gt;
|Categoria 1 (Tese)&lt;br /&gt;
|Categoria 2 (Antítese)&lt;br /&gt;
|Categoria 3 (Síntese)&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|1. Quantidade&lt;br /&gt;
|Unidade&lt;br /&gt;
|Pluralidade&lt;br /&gt;
|Totalidade&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|2. Qualidade&lt;br /&gt;
|Realidade&lt;br /&gt;
|Negação&lt;br /&gt;
|Limitação&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|3. Relação&lt;br /&gt;
|Substância e Acidente&lt;br /&gt;
|Causa e Efeito&lt;br /&gt;
|Ação Recíproca&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|4. Modalidade&lt;br /&gt;
|Possibilidade (Impossibilidade)&lt;br /&gt;
|Existência (Não-existência)&lt;br /&gt;
|Necessidade (Contingência)&lt;br /&gt;
|}&lt;br /&gt;
As categorias de quantidade dizem respeito à extensão em que aplicamos um conceito aos objetos, ou seja, “quantos” elementos estamos considerando no juízo. Na unidade, temos um único objeto. Na pluralidade, trazemos vários objetos do mesmo tipo para um conjunto. Já a totalidade surge quando pensamos a pluralidade como uma unidade completa.Vejamos um exemplo. Quando um observador vê uma maçã, aplica a categoria da unidade, ou seja, ele viu uma maçã. Ao ver várias maçãs espalhadas na mesa, apreende uma pluralidade, ou seja, ele tem um conceito de “maçãs” e as vê como um conjunto. Porém, ao formular uma lei universal, aplica-se a totalidade, que engloba toda a pluralidade possível sob uma única regra conceitual, ou seja, todas as maçãs são frutas e existem vários tipos de maçãs.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade trata da atribuição de um predicado, ou seja, se a experiência afirma algo, nega algo ou se situa num limite conceitual. Em outras palavras, é a forma da mente definir “como algo é”. A realidade é afirmação de que um predicado pertence a um ser, ou seja, ele é alguma coisa. A negação é a afirmação de que o predicado não pertence a algo, ou seja, um “não-ser”. A limitação é a síntese das duas anteriores. Atribui-se uma negação como se fosse uma realidade, excluindo aquilo de uma esfera, mas deixando infinita a esfera onde ele pode estar. Vamos a um exemplo. Dizer “O homem é mortal” aplica a categoria de realidade (afirma-se um atributo). Dizer “O homem não é mortal” aplica a negação. No entanto, dizer “A alma é não-mortal (imortal)” é um juízo infinito clássico de Kant que evoca a limitação. Não sabemos o que a alma é de fato, mas a limitamos removendo ela da esfera das coisas mortais, o que a situa num campo aberto e indeterminado de possibilidades.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Consideradas por muitos comentadores como o coração da epistemologia kantiana, as categorias de relação definem como os objetos se relacionam entre si e como permanecem ou mudam no tempo. Substância e Acidente referem-se àquilo que permanece através da mudança (substância) e as propriedades que são transitórias, ou seja, que mudam (acidentes). Um exemplo disso é a água de um lago que congela no inverno. Seu estado físico muda do líquido para o sólido, que é o acidente, mas a matéria da água em si, a substância, permanece inalterada. Sem a categoria de substância, nossa mente registraria apenas uma sucessão caótica de imagens, sem reconhecer que se trata da mesma “coisa” sofrendo alteração. A Causa e Efeito é a relação estritamente necessária onde um evento segue outro no tempo. O exemplo de Kant, em resposta ao filósofo David Hume, é sobre o sol que ilumina uma pedra, e a pedra esquenta. Hume diria que inferimos causalidade por mero hábito psicológico, ou seja, não há conexão necessária, apenas uma observação e uma intuição. Kant argumenta que o próprio fato de distinguirmos uma sucessão objetiva de eventos exige que a mente aplique a categoria a priori de Causalidade. A mente “dita” a regra estrutural de que o aquecimento necessariamente sucede a irradiação solar, colocando uma como causa da outra. Já na Ação Recíproca (Comunidade), tem-se a relação simultânea de mútua influência entre múltiplas substâncias no espaço como, por exemplo, a interação gravitacional entre a Terra e a Lua. Elas não são eventos sucessivos no tempo, mas existem simultaneamente e influenciam-se de modo contínuo e bidirecional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, temos as categorias modais. Eles são os Postulados do Pensamento Empírico e não acrescentam nenhum atributo novo ao objeto em si, mas definem exclusivamente como esse objeto ou evento se relaciona com o sujeito cognitivo e suas faculdades. No caso da Possibilidade-Impossibilidade, é algo que concorda com as condições formais, que são as condições lógicas e puras da experiência. No binômio Existência-Não-existência, é algo que está dado materialmente na intuição empírica, ou seja, nos sentidos. Já na Necessidade-Contingência, é algo cuja conexão com a experiência empírica está determinada por condições universais. Vamos a um exemplo. Um dragão voador de escamas verdes ou um triângulo cujos ângulos somam 180 graus são conceitos logicamente possíveis, ou seja, não envolvem contradição formal. No entanto, apenas um objeto sensorialmente verificável, como a caneta sobre a sua mesa, tem a marca da existência. Já o fato de que um objeto massivo abandonado no ar cairá em direção ao solo é uma necessidade ditada pelas leis empíricas que o entendimento prescreve à natureza, ou seja, atribui a ele.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Acima dessas estruturas, Kant postulou a apercepção ou apercepção transcendental, que é o processo pelo qual a mente unifica de forma ativa diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Sem a apercepção, a mente seria apenas um amontoado de estímulos desconectados. Assim, a aperceção a base da própria consciência humana. Devido a essa complexa mediação ativa da mente, Kant estabeleceu uma distinção insuperável entre o mundo externo e a mente. Isso significa dizer que nós não temos acesso à “coisa em si”, ou noumenon, mas apenas a como as coisas nos aparecem, ou seja, na forma de fenômeno, já devidamente processadas pelo nosso aparato cognitivo. Neste sentido, É importante distinguir o “Eu empírico”, ou seja, aquilo que observamos em nós mesmos, como nossa personalidade ou o nosso humor, do “Eu transcendental”, a pura unidade lógica do “Eu penso”. Ademais, a apercepção transcendental não é uma faculdade psicológica de “prestar atenção”, mas uma exigência lógica. Para que uma experiência seja minha, o “Eu penso” deve poder acompanhar todas as minhas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Os Vetos Kantianos à Psicologia Científica ===&lt;br /&gt;
Apesar de ter colocado o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que conhece, no centro do universo epistemológico, Kant foi muito crítico sobre a possibilidade de a psicologia se tornar uma ciência. Em sua obra Princípios metafísicos da ciência da natureza, de 1786, ele negou a possibilidade de uma psicologia científica, pois afirmou que uma disciplina só poderia Sê-lo se possuísse uma elaboração racional capaz de fornecer leis formuladas matematicamente, o que poderia ser chamado de veto matemático. A psicologia falhava nesse critério porque os eventos mentais possuem apenas a dimensão do tempo, sem nenhuma extensão espacial, o que impossibilitaria a sua matematização. Para Kant, assim como o espaço é a forma do sentido externo, o tempo é a forma pura do sentido interno. Como os estados mentais só se dão na sucessão do tempo (sem extensão espacial), eles não formam figuras nem podem ser medidos geometricamente, inviabilizando a matemática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Kant apontou a impossibilidade de isolar diferentes pensamentos para a realização de experimentos controlados. Assim, como não podemos acessar o que seria o conteúdo da mente, cercá-la e analisá-la como ela é em seu estado bruto ou natural, qualquer experimentação seria impossível, o que poderia ser chamado de veto do objeto. Por fim, ele reforçou a crítica que já era direcionada a Wolff, aquele do começo dessa seção. A introspecção como método, segundo Kant, seria inviável porque a própria tentativa de observar um fenômeno interno altera o fenômeno, o veto metodológico. Se tento observar minha própria tristeza, por exemplo, o fenômeno original desaparece e se transforma em “tristeza-sendo-observada-por-mim”, misturando sujeito e objeto de tal maneira que corrompe a objetividade. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A impossibilidade de uma psicologia científica não significava, contudo, a impossibilidade de estudar a mente e o comportamento. Kant trabalhou e lecionou com o que chamou de Antropologia Pragmática. Enquanto a psicologia empírica tentava, em vão, segundo ele, ser uma ciência exata, a antropologia pragmática estudava “o que o homem, como ser livre, faz, ou pode e deve fazer de si mesmo”. Era um estudo prático do comportamento, das paixões, da memória e da cognição, focado na vida em sociedade. De certo modo, pode-se dizer que Kant fechou a porta para a psicologia mecanicista, ou ainda, uma psicologia como ciência exata, mas ajudou a abrir uma janela imensa para as ciências humanas e sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Emergência do Neokantismo Fisiológico e as Primeiras Aproximações para a Psicologia Científica ==&lt;br /&gt;
A primeira metade do século XIX na Alemanha foi inicialmente dominada pelo Idealismo Pós-Kantiano (Hegel, Fichte, Schelling), que propunha sistemas metafísicos grandiosos onde a realidade era essencialmente racional e espiritual. Contudo, a partir da década de 1850, o forte avanço das ciências naturais, como a fisiologia e a química, gerou uma importante reação materialista, consolidados nas figuras de Feuerbach, Vogt, Büchner e outros, que passaram a ridicularizar a filosofia idealista como mera especulação vazia. A metafísica, vista como uma das glórias da filosofia e do pensamento humano, passou a ser vista cada vez mais como um discurso com pouco ou nenhum lastro na realidade. Essa mudança foi muito importante para a história da psicologia científica, pois foi devido a esse contexto que foram formulados os primeiros experimentos voltados para o que seria, no futuro, a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Johannes Müller e a Teoria das Energias Nervosas Específicas ===&lt;br /&gt;
Neste período, a fisiologia se estabeleceu como uma ciência rigorosa e extremamente respeita, liderada por figuras como Johannes Müller. Müller, professor na Universidade de Berlim, publicou seu Manual de Fisiologia Humana (1833-1840), que sistematizou o conhecimento fisiológico da época e transformou a compreensão da percepção. Até o final do século XVIII, ela era explicada pela Teoria da impressão da sensação, derivada da física newtoniana e do empirismo britânico. Esse modelo assumia que o sistema nervoso era um meio homogêneo e passivo que simplesmente “transportava” as qualidades dos objetos externos para a mente, como se a sensação fosse uma cópia exata do estímulo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Johannes Müller revolucionou esse entendimento ao formular a Teoria das energias nervosas específicas (1826). Ele provou, através de experimentos, que a estimulação de um determinado nervo sensorial sempre provoca uma sensação característica e exclusiva daquele nervo, independentemente da natureza do estímulo físico externo. Em outras palavras, a qualidade da sensação não pertence ao objeto físico, mas sim à estrutura do próprio aparato sensorial humano. O mesmo estímulo pode produzir sensações completamente diferentes dependendo de qual via nervosa é ativada. Por exemplo, ao aplicar sal na pele, na língua e nos olhos, as sensações serão totalmente distintas, todas diretamente relacionadas às especificidades do aparelho sensorial que foi ativado. É importante entender que isso não acontece por conta da especificidade das características do estímulo, como o sal ser “salgado”. A pele produz apenas sensações táteis, ainda que o estímulo não seja tátil. Isso cria um problema de confiança naquilo que percebemos sensorialmente, pois mostra que os órgãos não enviam apenas propriedades dos objetos, mas antes operam apenas de modo específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Müller, por meio de experimentos, mostrou que os objetos físicos projetam imagens invertidas na retina, mas nós os percebemos na posição correta. Ele mostrou também que, embora as imagens projetadas nas duas retinas sejam levemente diferentes, o cérebro as unifica em uma única imagem tridimensional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas descobertas trouxeram Kant para o terreno da biologia, inclusive pelo próprio Müller que, apesar de não ser neokantiano, viu suas descobertas científicas influenciarem profundamente a primeira geração deles. O sistema nervoso não é um receptor passivo, antes, ele medeia, molda e traduz ativamente a realidade externa. A sensação deixou de ser vista como uma cópia do mundo e passou a ser um enigma, que pode ser analisado a partir da seguinte pergunta: “o que existe entre o estímulo físico e a sensação subjetiva?”. Este é o mundo do primeiro projeto de psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Hermann von Helmholtz e o Neokantismo Psicofisiológico ===&lt;br /&gt;
A ponte definitiva entre a epistemologia kantiana e a prática laboratorial foi construída por um antigo aluno de Johannes Müller, Hermann von Helmholtz (1821-1894). Ele colaborou no desenvolvimento do neokantismo psicofisiológico ou neokantismo fisiológico. Ele entendeu que as descobertas de seu professor forneciam a base material exata para a teoria do conhecimento de Kant. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1855, Helmholtz argumentou que as estruturas a priori propostas por Kant como condições de possibilidade da experiência eram, na verdade, características da anatomia e da fisiologia do aparato perceptivo humano. Ao “naturalizar” a filosofia de Kant, Helmholtz formulou a sua teoria dos signos, que postula que nossas sensações e percepções não são cópias diretas da realidade, mas sim símbolos ou signos gerados pelo nosso sistema nervoso em resposta aos estímulos. Para explicar como construímos uma imagem coerente e espacial do mundo a partir desses signos neurológicos isolados, Helmholtz introduziu o conceito de inferências inconscientes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo essa teoria, a mente realiza uma série de ajustes e cálculos automáticos, baseados na experiência e na aprendizagem contínua, para interpretar os dados sensoriais. A percepção de profundidade, a posição espacial e a resolução de duas imagens retinianas em uma única visão estereoscópica não são inatas, como defendia o nativismo de Ewald Hering ou o próprio Müller, mas são aprendidas empiricamente através do movimento do corpo e da repetição das sensações. O espaço perceptivo atua como uma linguagem que a mente usa para interpretar os dados fisiológicos brutos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com isso, Helmholtz fundou o projeto de uma psicologia fisiológica autônoma, diferente da psicologia filosófica discutida na época. Ele concordou com Kant que a introspecção tradicional era um método falho, que podia conduzir a ilusões porque o observador só capta a superfície consciente do pensamento. A solução de Helmholtz foi submeter o sujeito da experiência a condições de laboratório rigorosamente controladas. Se as condições da percepção dependem de mecanismos fisiológicos, então a única forma de fazer epistemologia científica é através da experimentação fisiológica e da ótica. O sujeito do conhecimento tornou-se, assim, um objeto, que poderia ser manipulado e analisado em laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Suas contribuições não acabam por aí. Antes das pesquisas de Helmholtz, a comunidade científica acreditava que o impulso nervoso era instantâneo ou rápido demais para ser mensurado. Em 1850, estimulando um nervo motor na perna de uma rã e medindo o tempo da contração muscular, ele obteve o registro da velocidade de condução neural, que é de aproximadamente 27 metros por segundo, provando que havia “algo” entre o estímulo e a percepção que poderia ser analisado cientificamente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também mediu o tempo de reação de nervos sensoriais em humanos. Essa descoberta provou que o pensamento e o movimento corporal não ocorrem simultaneamente, mas são separados por um intervalo de tempo mensurável. Essa foi a base que abriu caminho para os experimentos de tempo de reação e cronometria mental que dominariam o laboratório de Wundt décadas depois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== F. A. Lange e o Projeto de uma “Psicologia Sem Alma” ===&lt;br /&gt;
O segundo pilar desse “retorno a Kant”, também de matriz fisiológica, foi erguido pelo filósofo e sociólogo Friedrich Albert Lange (1828-1875). Lange foi uma figura central na “controvérsia materialista” que agitava a Alemanha. Ele rejeitava tanto os “delírios” dos sistemas idealistas metafísicos quanto o reducionismo ingênuo do materialismo científico de Vogt e Büchner. Em sua influente obra História do Materialismo, de 1866, Lange defendeu que a limitação proposta por Kant é absoluta, ou seja, não temos e nem nunca teremos acesso à essência última da realidade, às coisas em si. Nosso conhecimento se restringe aos efeitos das coisas, ou seja, os fenômenos, que nos aparecem totalmente moldados pela nossa organização mental e neurológica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Lange argumentou que a impossibilidade de conhecer a essência não impede o estudo científico rigoroso das “aparências”, ou seja, sobre como as coisas nos aparecem. Para viabilizar esse estudo, Lange atacou as psicologias filosóficas do passado, que versavam debates que ele ele entendia estéreis sobre a natureza, a imortalidade e a substancialidade da “alma”. Para Lange, a alma era um conceito vazio, um “mito antigo” que forçava a psicologia a operar sobre pressupostos metafísicos inverificáveis. Em resposta, ele propôs a criação de uma psicologia sem alma, ou, em outras palavras, uma psicologia sem metafísica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste novo paradigma, o objeto de estudo da psicologia deveria ser reduzido aos dados empíricos observáveis, incluindo a sensação, a percepção, a ação e a linguagem, sempre buscando o seu correlato fisiológico. Lange rejeitou a introspecção puramente filosófica, pois a auto-observação isolada é privada, não pode ser repetida, não permite a presença de observadores externos e leva invariavelmente a ilusões verbais. Segundo ele, essa introspecção conduzia o pesquisador a substancializar conceitos como “vontade” ou “pensamento”, sem nenhum lastro empírico ou experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A única saída para a psicologia tornar-se verdadeiramente científica era abraçar a metodologia das ciências naturais. Apoiando-se no trabalho de Helmholtz e nas medições pioneiras de psicofísicos como Ernst Weber e Gustav Fechner, Lange prescreveu que a psicologia deveria investigar as leis fisiológicas da percepção e medir a correlação exata entre estímulos físicos e respostas sensoriais, como nos tempos de reação e nos limiares diferenciais. A psicologia passava a ser entendida não como a ciência do espírito transcendente, mas como a ciência psicofisiológica que estuda experimentalmente as condições de possibilidade da experiência, trazendo o sujeito transcendente de Kant para uma fisiologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fechner e a Fundação da Psicofísica ===&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner (1801–1887) foi um físico e metafísico alemão e antigo aluno de Weber. Apesar de não ser um neokantiano, ele tem uma importância fundamental para este momento da fundação da psicologia experimental, tendo sido citado e adotado por neokantianos. Ele assumiu a prestigiada e importante cadeira de física da Universidade de Leipzig em 1834, enquanto produzia sátiras sobre temas metafísicos e artísticos sob um pseudônimo. Após uma série de experimentos em que observava diretamente o Sol, feriu gravemente suas retinas, evento que o conduziu a um colapso físico e mental. Teve uma recuperação milagrosa em 1843, quando tentou observar flores em seu jardim e, por meio de uma experiência mística, observou que a natureza brilhava de dentro para fora, de onde concluiu que o universo era dotado de alma e consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esssa experiência decisiva levou-o a dedicar sua vida ao combate do materialismo científico, que ele denominava visão noturna, que via o mundo como uma matéria inerte e sem vida. Já a sua visão diurna entendia que a matéria era a manifestação da consciência universal divina, uma cosmovisão espiritualista que pode ser entendida como panpsiquista, ou seja, todos os corpos físicos possuem uma forma de alma. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi buscando provar sua visão que Fechner entendeu que poderia provar empiricamente a relação entre a mente (ou o espírito) e o corpo (ou a matéria) se encontrasse uma relação matemática constante entre a intensidade do estímulo físico e a magnitude da sensação psíquica correspondente. Isso porque Fechner percebeu que um aumento na intensidade do estímulo físico não gerava um aumento equivalente e proporcional na sensação subjetiva. A relação não era linear, mas sim proporcional, pois o estímulo físico aumentava em uma progressão geométrica, enquanto a sensação psíquica crescia em uma progressão aritmética. Por exemplo, acrescentar o som de um sino a outro que já está tocando gera um forte impacto perceptivo, pois é possível distinguir claramente que passou-se de um para dois sinos. Já acrescentar um sino a uma dezena deles produz uma alteração quase imperceptível. A sensação dependia, portanto, do nível de estimulação já existente no sistema.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para dar sustentação empírica à sua teoria, Fechner apropriou-se dos trabalhos experimentais realizados por Weber, que havia formulado a teoria da diferença mínima perceptível, demonstrando que a sensibilidade humana não avaliava diferenças absolutas entre estímulos, mas sim relações relativas ou proporcionais. Weber observou que, ao levantar pesos, os sujeitos conseguiam detectar uma variação mínima correspondente a uma fração constante de aproximadamente 1:40 em relação ao peso padrão. Essa constância proporcional é descrita pela chamada Lei de Weber:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
II=K&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde I representa a intensidade do estímulo padrão (que aparecerá como R posteriormente), ΔI é o acréscimo mínimo necessário para produzir uma mudança perceptível na sensação e k é uma constante matemática específica para cada modalidade sensorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Fechner percebeu que essa fração constante (ΔI/I) correspondia à unidade de medida da sensação subjetiva (dS). Utilizando o cálculo infinitesimal, Fechner integrou matematicamente a equação de Weber, assumindo que todas as diferenças mínimas perceptíveis eram subjetivamente iguais entre si. Essa operação matemática resultou na célebre Lei de Fechner ou Lei de Weber-Fechner:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
S = k Log R&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde S representa a magnitude da sensação subjetiva (qualidade mental), R representa a intensidade física do estímulo (qualidade material) e K é uma constante experimental ajustada a cada sentido. Essa fórmula logarítmica foi construída para mostrar que, para a sensação aumentar linearmente, o estímulo físico precisava crescer exponencialmente, estabelecendo uma relação exata e mensurável entre o psíquico e o físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para aplicar sua fórmula, Fechner sistematizou dois conceitos fundamentais que estruturam as medições psicofísicas. A primeira é o limiar absoluto, ou seja, o ponto de intensidade física mínima abaixo do qual o estímulo não é detectado pelo sujeito e acima do qual a sensação passa a ser percebida. Outro conceito é o de limiar diferencial, que é a quantidade mínima de alteração ou variação que deve ser aplicada a um estímulo para que o sujeito seja capaz de discriminar uma mudança na sensação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um desdobramento fascinante da Lei de Fechner ocorreu quando o estímulo físico apresentava valores abaixo do limiar absoluto (R&amp;lt;1), resultando em valores negativos para a sensação (S). Fechner definiu esses valores como sensações negativas ou subliminares, postulando a existência de processos mentais ativos abaixo do limiar da consciência desperta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para determinar com precisão científica os limiares absolutos e diferenciais, Fechner desenvolveu e padronizou três metodologias experimentais rigorosas, que se tornaram os pilares metodológicos de toda a psicologia experimental posterior. No Método do Erro Médio ou do Ajuste, o próprio sujeito experimental manipula ativamente um instrumento para ajustar um estímulo variável até que sinta que este se iguala a um estímulo padrão constante. A média dos desvios entre os ajustes do sujeito e o padrão real define o erro de observação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já no Método do Estímulo Constante ou dos Casos Corretos e Incorretos, o pesquisador apresenta de forma aleatória uma série de estímulos pré-determinados e constantes em comparação com um estímulo padrão. O sujeito deve julgar se o estímulo de comparação é maior, menor ou igual ao padrão, medindo-se a proporção estatística de acertos. Por fim, no Método dos Limites ou das Diferenças Mínimas Perceptíveis, dois estímulos são apresentados ao sujeito. Um deles é aumentado ou reduzido sistematicamente em passos discretos e graduais, e o sujeito relata o momento exato em que deixa de perceber ou passa a perceber a diferença entre ambos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1860, Fechner publicou seu livro monumental, Elementos de Psicofísica, que alguns entendem ser o primeiro sobre a psicologia científica experimental. Ao fornecer à psicologia técnicas de medição coerentes e precisas, Fechner provou de forma contundente que a mente humana era passível de investigação científica e experimental, sepultando em definitivo o antigo veto imposto por Immanuel Kant, em pleno momento de desenvolvimento do Neokantismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Incomodados com as inclinações metafísicas e espiritualistas de Fechner, os psicólogos experimentais subsequentes, sob a liderança de Wilhelm Wundt, rejeitaram completamente o panpsiquismo entre outras ideias, apropriando-se exclusivamente de seus métodos quantitativos de laboratório para estabelecer a psicologia como uma ciência empírica e natural. Como bem observou o historiador Edwin G. Boring, Fechner agiu como um “Colombo que descobriu um Novo Mundo (a psicologia científica) enquanto procurava pelas antigas Índias (a prova de sua metafísica)”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Resumindo ===&lt;br /&gt;
A intersecção entre a epistemologia kantiana, a fisiologia de Müller e a reformulação promovida por Helmholtz e Lange constituiu o início daquilo que tornou possível a psicologia científica. Kant havia mostrado que o sujeito constrói ativamente a realidade, mas negou que esse sujeito pudesse ser estudado matematicamente ou experimentalmente. Müller transferiu a estrutura ativa da mente para os nervos sensoriais específicos. Helmholtz e Lange reinterpretaram as pesadas categorias transcendentais de Kant como mecanismos biológicos e perceptivos operando através de inferências inconscientes e leis fisiológicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao “naturalizar” a Crítica da Razão Pura, o Neokantismo Psicofisiológico resolveu o veto de Kant a uma psicologia científica. Se os limites e as formas do nosso conhecimento são determinados pelo nosso sistema nervoso e sensorial, então o estudo epistemológico da mente deve ser feito no laboratório de fisiologia, estudando principalmente a percepção. A exigência de matematização foi superada pelas leis da psicofísica de Fechner e Weber, e o problema da introspecção descontrolada foi resolvido pelo uso de instrumentos de precisão, como cronoscópios, além de métodos de medidas de limiar, controle de estímulos, erros médios, entre outros, que transformavam as respostas subjetivas em dados objetivos, replicáveis e mensuráveis. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse foi o cenário epistemológico e institucional que Wilhelm Wundt encontrou e ajudou a consolidar. Wundt não fundou a psicologia a partir do nada em 1879. Seu Instituto em Leipzig foi organização metodológica e teórica de décadas de esforços em que a filosofia foi obrigada a dialogar com os nervos, os músculos e os tempos de reação, transformando para sempre a especulação sobre a alma em uma rigorosa ciência da experiência imediata. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ironicamente, escolas neokantianas posteriores, como a Escola de Marburgo, foram focos de resistência à psicologia experimental, alegando que o sujeito do conhecimento de Kant era de ordem puramente transcendental e lógica, e não empírica ou mensurável, ou seja, rejeitando a “biologização” do pensamento kantiano e a consequente criação da psicologia experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, conforme mostra Gundlach, a criação de uma posição acadêmica e o laboratório de psicologia por Wundt não se deu por conta de um amplo reconhecimento da superioridade do pensamento wundtano, mas sim por conta de disputas políticas e institucionais nas universidades alemãs. De qualquer forma, Wundt conseguiu desenvolver bem sua teoria ao longo de sua vida e conseguiu estabelecer-se na proeminência da psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia de Wundt ==&lt;br /&gt;
[[Wilhelm Wundt|Wilhelm Maximilian Wundt]] é, na historiografia da psicologia, uma figura ao mesmo tempo onipresente e pouco compreendida. Freqüentemente reduzido ao título de “fundador do laboratório de Leipzig”, essa simplificação negligencia sua estatura como um dos últimos grandes arquitetos de sistemas do século XIX, cujo &#039;&#039;Systemgedanke&#039;&#039; (pensamento sistêmico) buscava integrar a psicologia como uma propedêutica fundamental para a filosofia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Recuperar o Wundt original exige preencher uma vasta lacuna historiográfica. A primeira envolve apontar as conhecidas e muitas das distorções da tradução de [[Titchener|E.B. Titchener]] para o contexto anglo-americano, que foi formulada para aproximar suas ideias e pdasdaquelas de Wundt, visando uma “confirmação” do pensamento de Titchener. Wundt não era um estruturalista ou associacionista clássico e seu sistema é essencialmente dinâmico e centrado no &#039;&#039;&#039;voluntarismo&#039;&#039;&#039;. Para Wundt, a vontade e os processos afetivos não são meros epifenômenos, ou seja, um fenômenos secundários ou acessórios que acompanhma um fenômeno principal, mas o eixo organizador da consciência ativa. Esta reconstrução crítica visa resgatar a autonomia epistemológica de uma ciência que define seu objeto não como uma substância, mas como a experiência em sua totalidade imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Experiência conforme Wundt ===&lt;br /&gt;
Para Wilhelm Wundt, a experiência é concebida como um todo unitário e coerente. As duas abordagens da experiência que ele propõe não se deve a uma diferença ontológica, mas como dois pontos de vista distintos e complementares que permite sua abordagem científica, que ele separa entre Experiência Mediata e Experiência Imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experiência Mediata ====&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Experiência Mediata&#039;&#039;&#039; é a experiência objetiva) está &#039;&#039;&#039;focada nos objetos do mundo externo&#039;&#039;&#039;. Ela foca exclusivamente nos objetos do mundo externo, abstraindo o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que sabe, que tem conhecimento. A Experiência Mediata seria o ponto de vista característico das ciências naturais, como física, química e fisiologia. A ciência natural opera por meio de uma abstração sistemática, pois ela coloca o sujeito cognoscente &amp;quot;entre parênteses&amp;quot; e analisa apenas os objetos externos pensados, como se existissem de maneira totalmente independente de quem os percebe. É chamada de &amp;quot;mediata&amp;quot; porque &#039;&#039;&#039;nosso acesso a tais objetos é sempre indireto&#039;&#039;&#039;, ou seja, precisa de mediação, pois é dependente de conceitos abstratos, inferências teóricas e construções conceituais auxiliares para representá-los. Por um lado, o estímulo físico é intermediado pelos limites anatômicos e biológicos do nosso aparato perceptivo, ou seja, temos os limites e capacidades da nossa percepção. No caso da visão, por exemplo, não vemos os raios ultravioleta e infravermelho, pois não estão no expecto da luz visível, mas vemos as cores e suas combinações. Por outro lado, para constituir a &amp;quot;realidade objetiva&amp;quot;, o cientista natural precisa utilizar conceitos teóricos auxiliares e construções hipotéticas, como átomos, ondas eletromagnéticas e forças gravitacionais, que não são dados imediatamente na percepção sensível mas que podem ser vistos experimentalmente e por meio de instrumentos e aparatos científicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wundt critica assim o empirismo tradicional e o associacionismo. A doutrina do empirismo diz que a mente como página em branco, conforme a formulação de John Locke e sua &#039;&#039;tabula rasa&#039;&#039;. Neste caso, a mente seria progressivamente preenchida pelas impressões do mundo exterior (sensação) e pelas operações internas (reflexão). David Hume radicaliza o princípio empírico, postulando que as impressões são os átomos cognitivos fundamentais e as ideias nada mais são do que cópias atenuadas ou lembranças dessas impressões na memória e na imaginação. Já o associacionismo constitui a hipótese de que as ideias simples e discretas se combinam para formar pensamentos complexos, juízos e raciocínios abstratos. Se o empirismo fornece os blocos de construção, o associacionismo descreve a &amp;quot;força de atração&amp;quot; que os une. Conforme sistematizado por Hume e, depois, desenvolvido por Hartley e James Mill, a mente transita espontaneamente de uma ideia para outra por meio de regras regulares de associação, como a semelhança, a contiguidade no tempo e as relações de causa e efeito.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para Wundt, ambos erraram, pois transferiam as características dos objetos externos da física, como a solidez, os limites rígidos e a permanência estática, para os conteúdos conscientes, passando a tratar as representações (&#039;&#039;Vorstellungen&#039;&#039;) como coisas ou &amp;quot;átomos mentais&amp;quot;. Na física, o foco recai sobre o objeto substantivo. Contudo, segundo Wundt, a consciência não contém objetos estáveis. Ele parte de uma diferença fundamental que os psicofísicos e outros haviam apontado, que é aquela entre o mundo externo e o mundo percebido, ou ainda, entre as coisas e suas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em resumo, a Experiência Mediata se aproxima dos objetos estáveis do mundo externo e de como eles nos chegam. Na experiência mediata, o cientista da natureza pode retornar quando quiser ao mesmo objeto físico estável (uma pedra ou um elemento químico) para observá-lo repetidamente, ainda que o observador em si esteja sempre em mudança.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experiência Imediata, o Objeto de Estudo da Psicologia ====&lt;br /&gt;
Ao definir seu objeto, Wundt deu um passo decisivo para dar à psicologia autonomia perante as outras ciências naturais. Ele propõe que a experiência é uma unidade indivisível. Mas o que ele quer dizer por &#039;&#039;&#039;experiência&#039;&#039;&#039;? Uma definição poderia ser a totalidade dos processos conscientes, englobando sensações, sentimentos, representações e volições (vontades), apreendida da exata forma como se apresenta diretamente ao sujeito, sem qualquer abstração conceitual ou mediação de instrumentos externos. Ou seja, a experiência de Wundt seria como tudo o que se passa na mente, exatamente como ela aparece para uma pessoa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;O domínio da psicologia seria a experiência imediata&#039;&#039;&#039;, subjetiva, que é a experiência em sua realidade concreta, direta e intuitiva, apreendida antes de qualquer conceituação, teorização ou abstração. Ou seja, é a experiência antes de ela adquirir qualquer camada de compreensão, que seriam mediadores, por isso é imediata, &#039;&#039;&#039;sem mediação&#039;&#039;&#039;. Ela envolve o processamento de elementos sensoriais simples, como cor, som, temperatura, e de sentimentos simples, como prazer e desprazer. Ela diz respeito ao modo puro de funcionamento mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vamos a um exemplo, desta vez no campo do acústica. Na perspectiva mediata, o cientista natural abstrai o sujeito e estuda o som de forma indireta e conceitual. Ele utiliza aparelhos para medir as ondas sonoras e a sua propagação física pelo ar. O objeto físico “som” é, portanto, mediado e traduzido por conceitos de frequência, amplitude e decibéis. Já sob a perspectiva imediata, que é a da psicologia, o psicólogo estuda a sensação direta e em si mesma do tom no momento exato em que ele aparece na consciência. A análise está na vivência concreta do sujeito, que inclui a qualidade do tom, a sua intensidade subjetiva, a tonalidade afetiva de prazer ou desprazer que o acompanha e o processo ativo da atenção (apercepção, que será tratada mais adiante) que coloca aquele som no foco da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se olharmos desta vez para a cromática, na visão mediata, ciência natural estuda o azul abstraindo a experiência do sujeito. A física o descreverá de forma conceitual como uma radiação eletromagnética com determinado comprimento de onda atingindo a retina. A fisiologia se debruçará sobre o funcionamento dos tecidos dos olhos quando estimulados com a cor azul em suas nuances. Para a psicologia de Wundt, o azul é investigado como um dado imediato e real na consciência do sujeito no momento da percepção interna. O foco não está nas propriedades físicas do estímulo, mas sim na reação subjetiva e ativa do cérebro vivo a esse estímulo, que gera a qualidade imediata da cor na experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conduzindo seus estudos, Wundt também identificou aquilo que denominou &#039;&#039;&#039;causalidade psíquica&#039;&#039;&#039;. Ao nos lembrarmos de um fato triste, por exemplo, a fisiologia explicaria a tristeza de forma conceitual e indireta, por meio de correntes elétricas no córtex cerebral, liberação de hormônios ou atividade de sinapses nervosas. Já o psicólogo numa linha wundtiana observa a conexão de processos internos como elas ocorrem diretamente na consciência do sujeito, como a ligação da lembrança triste a um sentimento de angústia. A causalidade psíquica é uma causalidade própria da mente e irredutível às leis físicas da natureza, ou seja, não pode ser comparada à causalidade física como a conhecemos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao adotar a experiência como seu objeto, Wundt rompe com a psicologia da alma, filosófica e metafísica. Ele substitui a psicologia de substâncias, que postula uma entidade mental oculta, pela &#039;&#039;&#039;teoria da atualidade&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Aktualitätstheorie&#039;&#039;), na qual o psiquismo é definido como um fluxo de processos em constante devir. Seu sistema está fundamentado em um &#039;&#039;&#039;monismo perspectivista&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, para ele, mente e corpo não são substâncias que interagem mecanicamente, mas perspectivas distintas sobre a mesma unidade da experiência (&#039;&#039;Erfahrung&#039;&#039;). A psicologia, portanto, não estuda um “mundo interno”, que está isolado do externo, ainda que em contato com ele, mas a totalidade da experiência humana sob o prisma da imediatidade. Essa transição do estatuto de substância “mente” ou algo semelhante para o de processo traz uma nova perspectiva, criando um objeto que pode ser alvo de experimentação científica, partindo de experimentos já criados pela psicofísica e ainda outros que seriam desenvolvidos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Apercepção ===&lt;br /&gt;
No contexto filosófico, como já visto, o conceito de apercepção remonta a Kant, que a definiu como o processo autônomo, ativo e prévio pelo qual a mente unifica diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Wundt adotou essa noção kantiana para fundamentar sua teoria da consciência, definindo &#039;&#039;&#039;apercepção&#039;&#039;&#039; como o processo psicológico ativo pelo qual um conteúdo psíquico (ou representação) é trazido à &#039;&#039;&#039;clareza máxima e ao foco da consciência&#039;&#039;&#039;, vindo necessariamente acompanhado pelo estado de atenção voluntária.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para explicar a dinâmica da consciência, Wundt utilizou uma famosa analogia com a visão para diferenciar apercepção e percepção. O campo visual da consciência (&#039;&#039;Blickfeld&#039;&#039;) corresponde à percepção, que é a simples entrada de uma representação na consciência de forma difusa, ampla e sem a presença focalizada da atenção. Já o ponto focal da consciência (&#039;&#039;Blickpunkt&#039;&#039;) corresponde à apercepção, que é a entrada de uma representação no ponto central de máxima clareza e foco estreito da atenção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A apercepção, então, é uma &#039;&#039;&#039;manifestação primordial da vontade&#039;&#039;&#039;, funcionando como o princípio dinâmico que dá direção e estrutura tanto à experiência quanto ao movimento. Além disso, a apercepção pode ser ativa, que é quando o sujeito deliberadamente seleciona onde focará sua atenção, ou passiva, quando é o estímulo que se impõe no foco no sujeito. Por fim, a apercepção é o mecanismo central da operação da causalidade psíquica. É ela que unifica a mente em um sistema ativo, permitindo que a fusão de elementos resulte em sínteses criadoras com propriedades qualitativamente novas e imprevisíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Percepção Interna (innere Wahrnehmung) vs. Auto-observação (Selbstbeobachtung) ===&lt;br /&gt;
Para garantir o rigor procedimental e responder ao “desafio kantiano”, Wundt rejeitou a &#039;&#039;Selbstbeobachtung&#039;&#039;, que pode ser entendida como a &#039;&#039;&#039;auto-observação tradicional&#039;&#039;&#039; ou introspecção casual. Trata-se do método introspectivo puramente filosófico e especulativo que, segundo Wundt e outros, seria fonte de auto-ilusões. No momento em que o sujeito tenta observar ativamente o curso de seus próprios processos mentais complexos, a atenção que ele direciona para si mesmo altera, deforma ou suprime o próprio fenômeno em curso. Na reflexão puramente interna, é impossível garantir que o mesmo estado mental se repita de forma idêntica, impedindo a replicação intersubjetiva e a formulação de leis científicas gerais &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A solução científica é a &#039;&#039;innere&#039;&#039; &#039;&#039;Wahrnehmung&#039;&#039;, ou &#039;&#039;&#039;percepção interna&#039;&#039;&#039;, que permite a criação de um método científico baseado na repetição de estímulos externos controlados. No laboratório, o psicólogo replica condições experimentais que permitem a observação do aparecimento imediato do processo psíquico sob condições estáveis e previsíveis. O laboratório funciona, portanto, como o estabilizador do objeto psicológico, permitindo que a percepção interna atinja a precisão necessária para decompor a consciência em seus elementos fundamentais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O método de investigação da percepção interna é bem mais rigoroso. Em vez de pedir ao sujeito que reflita livremente sobre seus pensamentos, o experimentador utiliza aparelhos físicos de precisão, tais como [[Cronoscópio|cronoscópios]], pêndulos, compassos táteis, geradores de tons para controlar rigorosamente o início, a intensidade, a duração e a apresentação de estímulos externos predeterminados. Como o estímulo físico externo pode ser repetido e modificado arbitrariamente pelo pesquisador, as condições fisiológicas e sensoriais associadas à percepção interna são reproduzidas com exatidão. Com isso, o sujeito experimental pode antecipar sua atenção ao evento e captar com máxima precisão o surgimento da experiência imediata correspondente. O participante deveria ser rigorosamente treinado, muitas vezes revezando as funções de sujeito e pesquisador, e era instruído a fornecer respostas simples e verificáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Experimentos do Laboratório de Wundt ===&lt;br /&gt;
Vamos a alguns exemplos do que acontecia no laboratório de Wundt, para integrar melhor os conceitos já apresentados. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O primeiro experimento foi concebido originalmente para descrever a &#039;&#039;&#039;“equação pessoal” que aparecia nas medições dos astrônomos&#039;&#039;&#039;. O interesse neste tema surgiu quando se constatou que astrônomos treinados, utilizando os mesmos equipamentos, discordavam de suas medições que, à época, eram feitas manualmente com ajuda de instrumentos. De alguma forma, estas diferenças nas medições pareciam ter um tipo de padrão. Neste experimento, Wundt utilizava um aparelho chamado medidor de pensamento (&#039;&#039;Gedankenmesser&#039;&#039;) e, posteriormente, o pêndulo de complicação (&#039;&#039;Complicationspendel&#039;&#039;). O dispositivo consistia em um grande relógio de pêndulo que possuía uma agulha cruzada, como uma agulha de tricô, capaz de golpear fisicamente um pequeno sino em um ponto exato do seu arco de oscilação. O sujeito do experimento deveria olhar para a escala do pêndulo e tentar determinar a posição exata do ponteiro no momento em que ouvia o sino tocar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste experimento, Wundt descobriu que o sujeito sempre cometia um erro sistemático de registro, de aproximadamente um oitavo de segundo. Segundo ele, era impossível perceber visualmente a agulha e o som do sino ao mesmo tempo. Esse experimento seria uma &#039;&#039;&#039;prova laboratorial de que a consciência possui uma capacidade limitada e só consegue focar em uma única percepção por vez&#039;&#039;&#039;, como a diferença no marco da medição podia mostrar. A ilusão de simultaneidade devia-se apenas à rápida sucessão dos processos de atenção (apercepção).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os experimentos de &#039;&#039;&#039;tempo de reação&#039;&#039;&#039;, nosso segundo exemplo, constituíam o verdadeiro coração do trabalho em Leipzig na década de 1880. Wundt adaptou o método de subtração (&#039;&#039;Subtractiemethode&#039;&#039;), do fisiologista holandês F. C. Donders, para medir a velocidade de processos mentais complexos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o experimento de Wundt, é necessário compreender que, para ele, uma reação consciente envolvia: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- transmissão da sensação ao cérebro; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2- entrada do estímulo no campo amplo da consciência (percepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
3- entrada no foco ativo da atenção (apercepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
4- ato de vontade para liberar a resposta; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
5- execução motora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada um dessas partes exigem um certo tempo, pois são processos não imediatos. A depender de como as etapas do experimento são organizadas, diferentes tempos indicariam o acionamento maior ou menor de cada um deles. No experimento, o sujeito era treinado para responder pressionando uma tecla telegráfica ao ver um estímulo luminoso simples, como um &#039;&#039;flash&#039;&#039; de luz. Em seguida, vinha a tarefa mais difícil. Duas imagens eram apresentadas, um círculo branco sobre fundo preto ou vice-versa, e o sujeito só deveria reagir após identificar com clareza qual imagem havia aparecido. Ao subtrair o tempo da reação simples do tempo da reação complexa, Wundt calculava o “tempo de apercepção” ou discriminação. Na primeira tese de doutorado em psicologia experimental da história, Max Friedrich, que atuou no experimento, mostrou que o tempo de discriminação aumentava de acordo com a complexidade do estímulo visual. Por exemplo, o sujeito levava mais tempo para aperceber e discriminar uma sequência de seis dígitos do que de apenas um ou dois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O assistente de Wundt, Ludwig Lange, também colaborou no estudo ao desenvolver um experimento crucial. Ele demonstrou que os &#039;&#039;&#039;tempos de reação variavam drasticamente dependendo da preparação da atenção&#039;&#039;&#039; (no conceito moderno da palavra) do sujeito. Se a atenção estivesse focada no movimento de resposta que o dedo faria (reação muscular), o tempo era curto (cerca de 125 ms), pois funcionava como um “reflexo cerebral” que pulava a apercepção. Se o foco estivesse direcionado ao estímulo sensorial que iria surgir (reação sensorial), o tempo era cerca de 100 ms mais longo, pois envolvia o circuito completo da mente consciente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O terceiro experimento foi desenvolvido por Martin Trautscholdt, um dos estudantes de doutorado de Wundt. Ele estudava a &#039;&#039;&#039;associação de ideias&#039;&#039;&#039;. No seu estudo, o sujeito era instruído a pressionar uma tecla no momento exato em que uma ideia associada surgisse em sua consciência a partir de um estímulo visual ou auditivo. Ao subtrair o tempo que o sujeito levava para simplesmente reconhecer a palavra estimulante, Trautscholdt conseguiu quantificar o tempo gasto pela mente para realizar a conexão associativa propriamente dita que, segundo Trautscholdt, variava entre 706 e 874 ms. Wundt também adaptou a &#039;&#039;&#039;técnica de associação de palavras de Francis Galton&#039;&#039;&#039;, limitando a resposta do sujeito a apenas uma única palavra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O quarto e último experimento que será apresentado é relacionado a &#039;&#039;&#039;acordes musicais&#039;&#039;&#039;. Nele, sujeitos ouviam tons isolados no piano, que seriam as sensações puras, e depois os mesmos tons tocados simultaneamente. Os participantes descreviam em detalhes a transição afetiva de como a fusão física das frequências dava origem a um produto inteiramente novo na consciência. Este seria o sentimento estético de harmonia e o prazer decorrente de uma síntese criadora. Wundt conduzia vários experimentos em estética experimental, tal qual seu colega Fechner.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Arquitetura da Mente: Elementos, Fusão e Síntese Criadora ===&lt;br /&gt;
Segundo Wundt, &#039;&#039;&#039;a experiência pode ser decomposta em elementos simples&#039;&#039;&#039;, que incluem as sensações e os sentimentos simples. Os &#039;&#039;&#039;sentimentos&#039;&#039;&#039;, por sua vez, são entendidos a partir da &#039;&#039;&#039;teoria tridimensional dos sentimentos&#039;&#039;&#039;, onde eles se distribuem em um espaço qualitativo entre os polos prazer/desprazer (&#039;&#039;Lust-Unlust&#039;&#039;), tensão/relaxamento (&#039;&#039;Spannung-Lösung&#039;&#039;) e excitação/depressão (&#039;&#039;Erregung-Beruhigung&#039;&#039;). A primeira é a mais evidente, se refere à avaliação afetiva primária da experiência. A segunda se relaciona ao esforço da atenção ou à preparação interna da mente. Já a terceira está relacionada ao nível de ativação biológica e psicológica do organismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esses aspectos todos são organizados através do mecanismo de &#039;&#039;&#039;fusão&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Verschmelzung&#039;&#039;), onde as qualidades elementares se fundem em complexos psíquicos. O conceito central aqui é o princípio da &#039;&#039;&#039;síntese criadora&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;schöpferische Synthese&#039;&#039;). Ao contrário do associacionismo britânico, Wundt afirma que o todo resultante possui propriedades que não estão contidas na mera soma das partes. Essa síntese não é um processo mecânico passivo, mas um ato aperceptivo ativo, ou seja, vinculado à vontade. Na mente humana, a combinação de elementos gera um valor novo e qualitativamente superior, marcando a distinção fundamental entre a causalidade psíquica e a mecânica física.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em termos simples, a síntese criadora estabelece que os complexos psíquicos, como representações, sentimentos compostos e afetos, embora formados pela união de elementos simples (sensações e sentimentos simples), possuem características qualitativas inteiramente novas que não pertencem a nenhum de seus elementos constituintes isolados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fusão é o processo ativo e primário de integração psíquica. É através dela que os elementos sensoriais e afetivos brutos são ativamente sintetizados pela mente para dar origem a uma nova unidade psicologicamente complexa. A fusão é a geradora da síntese criadora. Para Wundt, a síntese criadora é a prova cabal da causalidade psíquica. Ela mostra que os fenômenos mentais obedecem a leis de conexão e geração próprias que não se ajustam às leis da física ou da fisiologia mecânica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Observemos isso com um exemplo já apresentado, sobre a música. Se você tocar no piano as notas Dó, Mi e Sol isoladamente, você terá apenas a experiência de três sensações auditivas distintas. No entanto, quando essas notas são tocadas simultaneamente, a fusão de seus elementos gera na consciência uma experiência qualitativamente nova, que seria um acorde musical. O sentimento de harmonia e a qualidade estética do acorde são um produto da síntese criadora, pois não existiam em nenhuma das notas isoladas e surgem puramente da atividade unificadora da mente sobre o estímulo físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Paralelismo Psicofísico e Causalidade Psíquica ===&lt;br /&gt;
O paralelismo psicofísico foi um dos conceitos mais importantes e debatidos no século XIX durante o processo de fundação da psicologia científica. Ele surgiu como uma alternativa teórica para solucionar o clássico problema mente-corpo. O conceito foi formulado de forma a tanto o dualismo substancial, que dividia o ser humano em duas substâncias isoladas cuja forma de interação era desconhecida, quanto o materialismo reducionista, que reduzia a mente a uma mera secreção cerebral ou processo físico ou fisiológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para &#039;&#039;&#039;Fechner&#039;&#039;&#039;, o &#039;&#039;&#039;paralelismo&#039;&#039;&#039; era a manifestação de um monismo neutro, ou teoria de duplo aspecto. Ele defendia que a matéria (corpo) e o espírito (mente) não são substâncias diferentes, mas sim dois modos de aparência ou perspectivas distintas de uma única e mesma realidade subjacente, teoria sobre o qual fundamental grande parte de seu projeto científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt também adotou o termo &#039;&#039;&#039;paralelismo psicofísico&#039;&#039;&#039;, mas realizou uma redefinição epistemológica radical do conceito, visando se afastar da metafísica. Ele rejeitava categoricamente qualquer tentativa de transformar o paralelismo em uma doutrina ontológica sobre a natureza última da realidade, transformando-o estritamente um postulado metodológico e heurístico indispensável para a investigação científica. Os processos mentais não sejam reduzidos a processos fisiológicos ou neurais, pois a consciência obedece a leis de conexão próprias, como a causalidade psíquica, que não podem ser explicadas pelas leis da mecânica cerebral.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Psicologia Individual e Völkerpsychologie: dois métodos para manifestações da experiência ===&lt;br /&gt;
A arquitetura metodológica de Wundt responde ao desafio de investigar processos mentais que variam em complexidade. Ele estabelece que &#039;&#039;&#039;a psicologia deve ser compreendida como o fundamento das ciências humanas&#039;&#039;&#039; ou ciências do espírito (&#039;&#039;Geisteswissenschaften&#039;&#039;). A &#039;&#039;&#039;Psicologia Individual&#039;&#039;&#039;, na concepção de Wundt, foca nos processos elementares, que incluem sensação e percepção, que são passíveis de controle rigoroso em laboratório através da manipulação de estímulos externos e pelas técnicas da [[introspecção]] experimental e estudo da experiência interna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entretanto, Wundt reconhece a insuficiência do modelo experimental para os processos mentais superiores, como o pensamento e a linguagem, que são historicamente condicionados. Para estes, ele propõe a &#039;&#039;Völkerpsychologie&#039;&#039; , ou &#039;&#039;&#039;Psicologia dos Povos&#039;&#039;&#039;, dedicada ao estudo dos produtos das &#039;&#039;geistige Gemeinschaften&#039;&#039; (comunidades espirituais, no sentido das ciências do espírito, ou coletividades). Wundt vai apontar a linguagem, o mito e os costumes (&#039;&#039;Sitten&#039;&#039;) não são apenas dados culturais, mas objetivações de leis psíquicas superiores, inacessíveis à introspecção de laboratório. Eles seriam produtos da experiência humana nas suas formas mais avançadas e superiores e, por não serem passíveis de experimentação, exigem uma outra abordagem. Essas duas vertentes, experimental e histórico-cultural, não são divergentes, mas sim o projeto integrador que permite apreender a mente tanto em sua base sensório-motora quanto em suas manifestações espirituais complexas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As investigações da psicologia dos povos focavam na alma do povo (&#039;&#039;Volksseele&#039;&#039;), definida como a realidade factual dos processos psíquicos que surgem em uma comunidade por meio da interação das energias mentais dos indivíduos. Essa “mente coletiva” se tornava um objeto tangível e investigável ao longo da história em três grandes produtos culturais. O primeiro é a &#039;&#039;&#039;linguagem&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Die Sprache&#039;&#039;), ferramenta pela qual o pensamento é estruturado e externalizado. Já o &#039;&#039;&#039;mito e a religião&#039;&#039;&#039; são as formas como a imaginação e os sentimentos humanos coletivos projetam suas explicações sobre o cosmos e a existência. Os &#039;&#039;&#039;costumes&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Sitten&#039;&#039;) e o &#039;&#039;&#039;direito&#039;&#039;&#039;, por sua vez, são  as regras de conduta coletiva que nascem de atos voluntários e impulsos compartilhados, padronizando as interações sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não podia realizar experimentos com culturas inteiras, Wundt operava por meio da pura &#039;&#039;&#039;observação retrospectiva e comparativa dos produtos mentais&#039;&#039;&#039;, ou seja, analisando os objetos já criados e usados ou em uso por diferentes povos e culturas, anotando suas diferenças e semelhanças. Wundt juntava, lia e analisava de forma exaustiva relatos históricos, estudos filológicos, dicionários, mitologias comparadas, códigos de leis e descrições etnológicas e antropológicas de povos ao redor do globo, ou seja, utilizava dos estudos de diferentes ciências humanas e sociais para extrair as leis psicológicas gerais do desenvolvimento mental humano por trás dessas manifestações. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seu objetivo era mapear como a mente coletiva evoluía do simples para o complexo ao longo das eras, numa abordagem genética e desenvolvimentista e reconstruir, de forma retrospectiva, as forças dinâmicas, os afetos, os impulsos (&#039;&#039;Triebe&#039;&#039;) e os processos de síntese criadora (melhor discutida mais adiante) que estiveram ativos na mente das pessoas no momento de sua formação. Wundt dedicou os últimos 20 anos de sua vida (de 1900 a 1920) quase exclusivamente a esse empreendimento monumental, escrevendo dez volumes sobre o assunto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O que Aconteceu Depois? ===&lt;br /&gt;
No final de sua vida, Wilhelm Wundt era visto de forma ambivalente. Enquanto mantinha o prestígio de fundador da psicologia científica, uma nova geração de psicólogos que buscava se firmar, via como um “pai tribal”, cujo longo domínio de mais de quatro décadas estava desgastado. Ele se tornou o alvo de críticas severas e passou a ser tratado por muitos como o ícone de um passado superado e falido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante a Primeira Guerra Mundial e nos anos que a sucederam, a reputação internacional de Wundt sofreu graves danos. Influenciado por seu filho Max, Wundt adotou posturas políticas ultranacionalistas, chegando a usar a &#039;&#039;Völkerpsychologie&#039;&#039; de maneira tendenciosa para criticar os inimigos da Alemanha. Essa postura inflamou um forte preconceito anti-alemão, especialmente nos Estados Unidos, onde ex-alunos e intelectuais americanos passaram a ver ele como uma mente maligna e autoritária, acelerando a rejeição de suas obras em solo estrangeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A maior frustração de Wundt no fim da vida ocorreu no âmbito acadêmico alemão. Ele sempre defendeu que a psicologia era uma ciência propedêutica e uma aliada indispensável da filosofia, devendo permanecer integrada a esta. No entanto, os filósofos acadêmicos de sua época, especialmente os neokantianos e fenomenologistas, rejeitaram veementemente o  que chamavam de “&#039;&#039;&#039;[[psicologismo]] de Wundt&#039;&#039;&#039;”, ou seja, a redução da lógica e da validade do conhecimento a fatos psicológicos. Em 1913, após a contratação de um psicólogo experimental para a cadeira de filosofia em Marburg, mais de cem professores de filosofia assinaram um &#039;&#039;&#039;protesto público exigindo que psicólogos fossem banidos dos departamentos de filosofia&#039;&#039;&#039;. Esse movimento resultou no progressivo divórcio institucional entre a psicologia e a filosofia, uma separação que Wundt lamentou e combateu até a sua morte em 1920.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir da década de 1890, uma forte onda de positivismo, inspirada pela filosofia de Ernst Mach e Richard Avenarius, varreu a psicologia experimental. Jovens psicólogos, incluindo os assistentes do próprio Wundt, rejeitaram conceitos fundamentais do sistema de Leipzig, como a apercepção, a causalidade psíquica e a síntese criadora, tomando eles como metafísica, exatamente o oposto do que desejava seu formulador. Eles preferiam um modelo elementarista e reducionista, focado na descrição de relações funcionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos EUA, a influência da teoria da evolução de Darwin deslocou o interesse da estrutura da consciência para as suas funções de adaptação ao meio, o chamado funcionalismo. Com o surgimento e o fortalecimento do behaviorismo e a eliminação da mente como objeto de estudo, o voluntarismo de Wundt perdeu qualquer espaço. Na Europa, a própria psicologia da Gestalt ergueu-se combatendo o elementarismo que havia sido falsamente associado a Wundt. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O golpe final veio após a Primeira Guerra Mundial, quando a Alemanha mergulhou em colapso econômico. Diante da “&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;”, os pesquisadores precisaram provar a utilidade prática da ciência que praticavam para sobreviver, o que já acontecia nos EUA, voltando-se para a psicologia militar, industrial, educacional e clínica. &#039;&#039;&#039;Wundt, que sempre desprezou a psicologia aplicada&#039;&#039;&#039;, teria visto seu sistema dinâmico de laboratório perder todo o fôlego diante das pressões pragmáticas da época, ainda que mantivesse sua fama e sua alcunha maior. Ironicamente, um dos principais defensores da psicologia puramente laboratorial, foi quem escreveu a obra mais bem-sucedida de história da psicologia, servindo de parâmetro para o campo por décadas, ou seja, [[Edwin Boring]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia Científica na Inglaterra ==&lt;br /&gt;
O surgimento da psicologia na Inglaterra seguiu um caminho bastante distinto do modelo laboratorial alemão, focado na introspecção e na busca de leis universais. A psicologia britânica formou-se na intersecção de duas grandes forças intelectuais, que são as filosofias empirista e associacionista, e a biologia evolutiva. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No &#039;&#039;&#039;empirismo&#039;&#039;&#039;, pensadores como John Locke postularam que a mente humana nasce como uma tabula rasa ou uma folha em branco, e que absolutamente todo o conhecimento deriva da experiência sensorial. No &#039;&#039;&#039;associacionismo&#039;&#039;&#039;, filósofos como David Hume, James Mill e John Stuart Mill afirmavam processos mentais complexos são formados pela associação contínua de ideias simples e sensações, governadas por leis lógicas. tais como similaridade, contiguidade e causa e efeito. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A despeito de sua rica tradição filosófica, o maior divisor de águas para a ciência britânica foi a publicação de [[A Origem das Espécies (livro)|A Origem das Espécies]], em 1859. A teoria da evolução natural de Darwin, trouxe novas e profundas questões para o estudo da mente britânica. Se humanos e animais compartilham ancestrais comuns, argumentava-se que deveria haver uma continuidade não apenas física, mas também mental entre as espécies, conectando a psicologia ao estudo da zoologia, dando origem à &#039;&#039;&#039;Psicologia Comparada&#039;&#039;&#039;. Além disso, a mente e a consciência deixaram de ser vistas apenas como objetos metafísicos e passaram a ser estudadas como ferramentas biológicas de adaptação, que evoluíram porque ajudavam o organismo a sobreviver em seu ambiente, sendo fundamental para a criação do funcionalismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a validação da biologia evolutiva, o estudo da inteligência animal explodiu no Reino Unido, [[George Romanes]] foi um dos primeiros a tentar sistematizar o comportamento animal. Contudo, seu método anedótico foi duramente criticado por ser antropomórfico, ou seja, por atribuir pensamentos e emoções humanas complexas a animais. Seu colega [[Conwy Lloyd Morgan]] introduziu mais rigor científico à área através do que ficou mundialmente conhecido como o &#039;&#039;&#039;Cânone de Morgan&#039;&#039;&#039;, ou [[princípio da parcimônia]]. A regra dizia que um comportamento animal não deve ser interpretado como resultado de uma faculdade mental superior se puder ser explicado por um processo psicológico mais básico, como o instinto ou o aprendizado por tentativa e erro. Apesar de a perspectiva de ambos ter sido abandonada, a Psicologia Comparada se tornou um dos principais ramos da psicologia moderna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Francis Galton e a Psicologia Diferencial ===&lt;br /&gt;
[[Francis Galton]] (1822-1911) foi um cientista e polímata britânico de inteligência extraordinária, com um QI estimado por volta de 200, algo extremamente raro, além de ser primo de Charles Darwin. Galton é amplamente reconhecido como pioneiro ao incorporar o estudo sistemático das diferenças individuais e da herança mental na nova psicologia, uma área que era ignorada ou rejeitada por pioneiros experimentalistas como Wilhelm Wundt.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Galton se interessou pela medição das variações da inteligência e das capacidades humanas. Ele fundou um [[Laboratório de Galton|&#039;&#039;&#039;laboratório antropométrico&#039;&#039;&#039;]] onde testou a acuidade sensorial, a força e os tempos de reação de milhares de pessoas. Além disso, baseando-se na premissa empirista de John Locke de que todo o conhecimento vem da percepção, Galton assumiu que os indivíduos mais inteligentes seriam aqueles com as capacidades sensoriais e motoras mais aguçadas. Ele foi o inventor do conceito de testes mentais, termo posteriormente cunhado por seu aluno dos EUA, [[James McKeen Cattell]]. Galton também desenvolveu o &#039;&#039;&#039;método experimental de associação de palavras&#039;&#039;&#039;, medindo o tempo de reação mental e demonstrando a enorme influência das experiências da infância e do inconsciente no pensamento adulto, um trabalho que impressionou profundamente [[Sigmund Freud]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também foi um dos primeiros a fazer uso amplo do questionário psicológico para investigar imagens mentais, constatando para sua própria surpresa que a maioria dos cientistas relatava ausência de imagens mentais nítidas, em contraste com relatos muito mais detalhados fornecidos por mulheres e crianças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para conduzir medições em larga escala, ele inventou vários instrumentos clássicos e, para analisar suas enormes bases de dados, &#039;&#039;&#039;Galton desenvolveu conceitos estatísticos fundamentais&#039;&#039;&#039;, como a correlação. Essa tradição quantitativa foi depois aperfeiçoada por outros britânicos, como [[Charles Spearman]], criador da análise fatorial e do conceito de [[fator g de inteligência geral]], fundando a base da psicometria moderna. e influenciando de forma decisiva a psicologia dos testes nos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Conclusão ==&lt;br /&gt;
A história da psicologia é definida pelo paradoxo de ter um “longo passado” e uma “curta história”, podendo ir do De Anima de Aristóteles até a a fundação do laboratório de Wilhelm Wundt na Universidade de Leipzig, em 1879. A psicologia, assim, mostra que tem uma rica história, com muitos personagens, conceitos e acontecimentos importantes, de modo que qualquer narrativa sobre sua composição elegerá heróis e vilões, dará mais relevância para alguns, menos para outros e o esquecimento para a maioria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O texto propõe que Immanuel Kant foi uma figura central na composição da psicologia científica. Ele propôs que a mente humana é um agente ativo que organiza o conhecimento através de estruturas a priori, tais como o tempo, o espaço e as categorias do entendimento. Assim, ele introduziu o conceito de “sujeito transcendental” como a estrutura universal que garante a unidade da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Kant impôs um “veto” ao status científico da psicologia, defendendo a base na matematização. A superação desse veto ocorreu através da “naturalização” de Kant pela fisiologia. Johannes Müller, com a Teoria das Energias Nervosas Específicas, mostrou que a sensação é mediada pelo sistema nervoso, não sendo uma cópia fiel do mundo externo. Hermann von Helmholtz avançou essa ideia ao postular que as estruturas a priori de Kant seriam, na verdade, características da anatomia e fisiologia humanas. Ele propôs o conceito de “inferências inconscientes” para explicar como interpretamos dados sensoriais. Nesse contexto, Friedrich Albert Lange defendeu uma “psicologia sem alma”, rejeitando a metafísica e argumentando que o estudo científico deve focar apenas nas aparências e fenômenos observáveis, reduzindo o objeto da psicologia a dados empíricos e correlações fisiológicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner foi crucial ao oferecer a base matemática e experimental que faltavam, por meio da Lei de Weber-Fechner. Ele também padronizou e melhorou métodos para o estudo dos limites e constantes sensoriais, que se tornaram a base metodológica da psicologia experimental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt não apenas fundou um laboratório, como também arquitetou um sistema complexo. Para Wundt, o objeto da psicologia é a experiência imediata, criando conceitos como voluntarismo, causalidade psíquica, apercepção, entre outros. Além disso, ele também criou a psicologia dos povos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente do foco laboratorial alemão, a psicologia britânica foi moldada pela filosofia empirista e, crucialmente, pela teoria da evolução de Charles Darwin. Neste contexto, Galton ganha destaque, por ter fundado o laboratório antropométrico, inventado o conceitos de “testes mentais”, pelo uso de estatísticas no estudo da psicologia e ter influenciado o desenvolvimento da psicometria e a análise fatorial (com Charles Spearman), consolidando uma tradição que focava mais na variabilidade genética e na inteligência do que na estrutura da consciência em si.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_surgimento_da_psicologia_cient%C3%ADfica&amp;diff=1751</id>
		<title>O surgimento da psicologia científica</title>
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		<updated>2026-09-05T14:17:59Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* O que Aconteceu Depois? */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto [[Portal História da Psicologia]]) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um longo passado, uma curta história ==&lt;br /&gt;
A psicologia tem um longo passado, mas uma curta história. Esta é uma frase muito famosa no campo da história da psicologia, tendo sido consagrada por Hermann Ebbinghaus, um psicólogo alemão pioneiro no estudo da memória, ainda no século XIX. A frase é exemplar e muito usada em debates sobre a historiografia da psicologia, e isto revela como é difícil dizer quando a psicologia teve início. Ela tem um &#039;&#039;&#039;longo passado&#039;&#039;&#039;, porque os temas que consideramos hoje como parte da psicologia aparecem muitas vezes na filosofia, na religião, em saberes tradicionais, entre muitos outros lugares, ao longo da história. É difícil estabelecer qual &#039;&#039;&#039;o objeto de estudo da história da psicologi&#039;&#039;&#039;a, assim como é difícil, ao longo da história, &#039;&#039;&#039;separar o que é  psicologia daquilo que não é psicologia&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse longo passado pode remontar, por exemplo, à Antiguidade, com o tratado De Anima, de Aristóteles, que escreveu muito antes de se imaginar o próprio conceito de ciência moderna e, menos ainda, de uma psicologia moderna. Outros podem colocar o início da psicologia com Descartes, que elaborou a máxima, também famosa, “penso, logo existo”. Isso mostra que &#039;&#039;&#039;os objetos de estudo da psicologia são historicamente construídos&#039;&#039;&#039;, ou seja, emergem a partir dos locais ou pessoas que atuaram na psicologia, como na medida das diferenças individuais, as dinâmicas de controle num laboratório, nas práticas de psicoterapia, entre muitas outras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se cada historiador localiza o passado da psicologia em lugares diferentes no tempo e no espaço, a &#039;&#039;&#039;história da psicologia&#039;&#039;&#039;, por seu lado, tem uma definição bem mais estável e curta. Nos anos 1980, historiadores reunidos num congresso nos EUA definiram que &#039;&#039;&#039;a psicologia científica começou em 1879, quando [[Wilhelm Wundt]] fundou o primeiro laboratório de psicologia experimental na Universidade de Leipzig, na Alemanha&#039;&#039;&#039;. Essa definição está consagrada e é quase um consenso, porém, não foi tão simples estabelecê-la. Alguns advogavam pelo pioneirismo de outro alemão, [[Gustav T. Fechner|Gustav Theodor Fechner]], criador da chamada [[psicofísica]], de onde vieram muitos dos experimentos e ideias de Wundt. Outros ainda queriam que [[William James]], um filósofo e psicólogo americano, fosse reconhecido como fundador, pois seu laboratório de psicologia era ainda mais antigo que o de Wundt que, no final, venceu essa disputa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Resumindo, a psicologia possui um “longo passado”, com raízes filosóficas e religiosas milenares e altamente diversas, e uma “curta história” como disciplina científica, cujo marco está situado em 1879, com a fundação do primeiro laboratório experimental por Wilhelm Wundt, na Alemanha. Pelo menos é assim que, atualmente, a grande maioria dos historiadores entende a questão, uma das poucas em que há algum conceito neste campo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Presentismo ===&lt;br /&gt;
Mas o que seriam essas psicologias anteriores a essa psicologia científica? Para entender melhor essa história, é preciso refletir para superar, da melhor forma, um problema chamado &#039;&#039;&#039;presentismo&#039;&#039;&#039;, ou seja, julgar, entender, interpretar e analisar o passado com a visão do presente. Não é apenas uma questão de olhar para as pessoas do passado e superar o pensamento de que elas eram “ignorantes”, pois “não tinham o conhecimento que temos hoje”. É entender também que, no passado, haviam formas de conhecimentos diferentes, bem como visões de mundo diferentes da atual. Este é um problema fascinante. Muitos dos consensos contemporâneos, coisas que entende-se totalmente óbvias, eram vistas de forma completamente diferente no passado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo interessante é o &#039;&#039;&#039;conceito de atenção&#039;&#039;&#039;. Hoje, ela é um tema tão discutido e consensual que pouco se reflete sobre seu significado. Atualmente, seria algo como centralizar as faculdades mentais ou talvez a percepção em um ponto específico. Pode-se ouvir as pessoas reclamando da própria falta de atenção, que “não conseguem prestar atenção”, ou que nunca “mantém a atenção”, e até mesmo existem medicamentos para resolver esse problema. Contudo, a palavra “atenção” nem sempre significou o que entendemos hoje. Para [[Santo Agostinho]], atenção era apenas o ato de passar de um pensamento para outro. [[René Descartes|Descartes]] tinha um conceito mais parecido com o contemporâneo, onde a atenção era mobilizada de forma voluntária para fixar e reter na memória coisas raras e extraordinárias que o entendimento considerava úteis. Na obra de [[John Locke|Locke]], a atenção é mencionada apenas de passagem, como um mero mecanismo auxiliar da retenção de memórias. A partir do momento em que a ciência passou a entender que a percepção depende da estrutura física e biológica do corpo, com a psicofísica e a fisiologia sensorial, já no século XIX, a visão passou a ser encarada como intrinsecamente incompleta, instável e condicionada pelo tempo. Nesse contexto, a atenção foi utilizada como um substituto pragmático para garantir a coerência do mundo percebido. Autores do final do século XIX, como [[Théodule Ribot]] e [[Max Nordau]], associaram os desvios ou a fraqueza da atenção a patologias psíquicas, comportamentos sociopáticos e teorias da “degeneração”. Para eles, uma atenção defeituosa deixava a mente à mercê de “associações caóticas”, gerando uma visão borrada e distorcida da realidade. Foi apenas na década de 1950 que a nossa compreensão contemporânea de atenção começou a se delinear, paralelamente aos estudos sobre os medicamentos desenvolvidos para tratar as suas disfunções.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma pessoa desavisada, que não está atenta às grandes diferenças entre as ideias e conceitos ao longo do tempo, poderia ler um trecho de Ribot, Santo Agostinho, Descartes e outros e achar que a atenção sobre a qual eles falam é a mesma coisa que entendemos hoje. O leitor estaria totalmente enganado, a ponto de não conseguir nem mesmo compreender o que estes pensadores queriam dizer. Em outras palavras, &#039;&#039;&#039;o esforço para entender as psicologia do passado passa também pelo esforço de entender como se pensava no passado, qual a visão que se tinha nesse passado&#039;&#039;&#039;. Parte do esforço do historiador é trazer esses aspectos de volta ao presente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O sujeito transcedental de Kant ==&lt;br /&gt;
A concepção de uma psicologia ocupada especificamente com a “mente” humana e suas operações começou a ganhar contornos modernos no século XVIII com o filósofo [[Christian Wolff]]. Ele dividiu a psicologia em [[Psicologia Empírica (livro)|&#039;&#039;&#039;Psicologia Empírica&#039;&#039;&#039;]], num livro publicado em  1732 e baseada na introspecção; e em &#039;&#039;&#039;Psicologia Racional&#039;&#039;&#039;, numa obra de 1734, dedicada a deduzir a natureza e a essência da alma, como sua imortalidade e imaterialidade, de forma puramente lógica e racional, independentemente da experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, o projeto de Wolff enfrentava um sério problema metodológico: a chamada observação interna ou [[introspecção]]. Quando se estuda um fenômeno natural, como a chuva, é necessário observar tudo que está envolvido com estee fenômeno, incluindo como as nuvens se formam, qual a umidade do ar, a intensidade dos raios solares, a direção dos ventos, entre muitos outros fatores. A questão é que todos estes aspectos são &#039;&#039;&#039;externos ao sujeito&#039;&#039;&#039;. Toda a ciência é feita dessa forma, observando, testando e analisando o mundo que está fora dos indivíduos. O problema está em estudar algo que é interno aos sujeitos. Não se pode observar diretamente o que se passa na cabeça de alguém, pelo menos não por enquanto. Contudo, é possível analisar o que se passa nas nossas próprias cabeças. Isso seria a &#039;&#039;&#039;introspecção&#039;&#039;&#039;, ou seja, o processo pelo qual adquirimos conhecimento sobre nossos próprios estados ou processos mentais Apesar de ser uma ideia interessante, fazer introspecção não era considerado algo muito científico. Entendia-se que “observar a si mesmo” distorcia os eventos mentais, pois o sujeito que observa e o objeto observado são o mesmo, o que impediria a neutralidade exigida pelo modelo científico então vigente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até a segunda metade do século XVIII, as teorias do conhecimento, que incluíam o empirismo e o racionalismo, compartilhavam a premissa de que o conhecimento era determinado pelo objeto a ser conhecido. A ideia era a de que objeto estava lá, esperando a melhor forma de ser conhecido. &#039;&#039;&#039;Kant&#039;&#039;&#039;, em sua obra [[Crítica da Razão Pura (livro)|Crítica da Razão Pura]] (1781), inverteu essa lógica de forma radical. Ele propôs que &#039;&#039;&#039;não é o conhecimento que se adequa aos objetos, mas são os objetos que são determinados pelo sujeito&#039;&#039;&#039;. O conhecimento passou a ser compreendido não como uma recepção passiva, mas como uma produção ativa do chamado sujeito transcendental, moldada por suas formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;sujeito transcendental&#039;&#039;&#039; em Kant não se refere propriamente a um indivíduo empírico ou psicológico, ou seja, alguém com personalidade e história pessoal. Pense no sujeito transcendental não como “você” (André ou Maria), mas como o “sistema operacional” universal da mente humana. Assim como um software organiza os dados que chegam do teclado, convertendo eles em coisas numa tela, o sujeito transcendental organiza os dados que chegam dos sentidos, como o tempo e o espaço, antes mesmo de termos consciência deles.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o sujeito transcedental, é preciso fazer um importante exercício de abstração, visando conseguir entender algo que está além da experiência existencial individual e entender aquilo que molda essa própria experiência. O sujeito transcedental de Kant é, segundo ele próprio, uma condição universal de possibilidade para qualquer conhecimento. Em outras palavras, é algo que todas as pessoas possuem e é a forma que o ser humano tem para saber as coisas. É a estrutura ativa da mente que organiza a experiência antes mesmo que possamos refletir sobre ela. Esse sujeito é o princípio unificador que garante a coerência dos dados sensoriais, transformando o caos de impressões oriundas dos órgãos dos sentidos em uma experiência significativa e estruturada. Através das formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039; da sensibilidade (espaço e tempo) e das categorias do entendimento, o sujeito transcendental “constrói” o objeto conhecido. Ele é o “Eu penso” cartesiano, que deve poder acompanhar todas as nossas representações, conferindo unidade à consciência. Em suma, &#039;&#039;&#039;não conhecemos o mundo como ele é em si, mas como o sujeito transcendental o molda e o organiza para que se torne inteligível para nós&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Immanuel Kant revolucionou a teoria do conhecimento ao postular que a mente humana não funciona como um receptáculo passivo de impressões sensoriais, mas sim como um agente ativo dotado de estruturas constitutivas a priori que organizam, unificam e interpretam a matéria-prima da experiência. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas ideias de Kant, o processo de constituição do conhecimento dos fenômenos que chegam para nossa mente a partir dos órgãos dos sentidos articula-se em três instâncias fundamentais. A primeira são as formas puras da sensibilidade, depois vem os conceitos puros do entendimento, ou seja, as categorias e, por fim, a unidade sintética da apercepção. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas &#039;&#039;&#039;formas puras da sensibilidade&#039;&#039;&#039;, antes mesmo que o intelecto possa aplicar qualquer conceito, o caos das sensações brutas é necessariamente ordenado no espaço e no tempo, que não são propriedades das coisas em si, mas intuições puras da sensibilidade que funcionam como os eixos coordenados onde os fenômenos são dados. Ou seja, as informações dos sentidos já chegam num espaço e num tempo para o resto do processo de constituição do conhecimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma vez colocados no espaço e estruturados numa sucessão e simultaneidade temporal, esses dados passam pelas &#039;&#039;&#039;doze categorias do entendimento puro&#039;&#039;&#039;. Essas categorias se dividem em &#039;&#039;&#039;quatro classes de tríades&#039;&#039;&#039;: quantidade, qualidade, relação e modalidade. As &#039;&#039;&#039;categorias&#039;&#039;&#039; representam as regras lógicas puras, fundamentais e necessárias para tornar qualquer objeto da experiência inteligível. Elas podem ser observadas de forma simplificada na tabela a seguir:&lt;br /&gt;
{| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot;&lt;br /&gt;
|Classe de Categorias&lt;br /&gt;
|Categoria 1 (Tese)&lt;br /&gt;
|Categoria 2 (Antítese)&lt;br /&gt;
|Categoria 3 (Síntese)&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|1. Quantidade&lt;br /&gt;
|Unidade&lt;br /&gt;
|Pluralidade&lt;br /&gt;
|Totalidade&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|2. Qualidade&lt;br /&gt;
|Realidade&lt;br /&gt;
|Negação&lt;br /&gt;
|Limitação&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|3. Relação&lt;br /&gt;
|Substância e Acidente&lt;br /&gt;
|Causa e Efeito&lt;br /&gt;
|Ação Recíproca&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|4. Modalidade&lt;br /&gt;
|Possibilidade (Impossibilidade)&lt;br /&gt;
|Existência (Não-existência)&lt;br /&gt;
|Necessidade (Contingência)&lt;br /&gt;
|}&lt;br /&gt;
As categorias de quantidade dizem respeito à extensão em que aplicamos um conceito aos objetos, ou seja, “quantos” elementos estamos considerando no juízo. Na unidade, temos um único objeto. Na pluralidade, trazemos vários objetos do mesmo tipo para um conjunto. Já a totalidade surge quando pensamos a pluralidade como uma unidade completa.Vejamos um exemplo. Quando um observador vê uma maçã, aplica a categoria da unidade, ou seja, ele viu uma maçã. Ao ver várias maçãs espalhadas na mesa, apreende uma pluralidade, ou seja, ele tem um conceito de “maçãs” e as vê como um conjunto. Porém, ao formular uma lei universal, aplica-se a totalidade, que engloba toda a pluralidade possível sob uma única regra conceitual, ou seja, todas as maçãs são frutas e existem vários tipos de maçãs.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade trata da atribuição de um predicado, ou seja, se a experiência afirma algo, nega algo ou se situa num limite conceitual. Em outras palavras, é a forma da mente definir “como algo é”. A realidade é afirmação de que um predicado pertence a um ser, ou seja, ele é alguma coisa. A negação é a afirmação de que o predicado não pertence a algo, ou seja, um “não-ser”. A limitação é a síntese das duas anteriores. Atribui-se uma negação como se fosse uma realidade, excluindo aquilo de uma esfera, mas deixando infinita a esfera onde ele pode estar. Vamos a um exemplo. Dizer “O homem é mortal” aplica a categoria de realidade (afirma-se um atributo). Dizer “O homem não é mortal” aplica a negação. No entanto, dizer “A alma é não-mortal (imortal)” é um juízo infinito clássico de Kant que evoca a limitação. Não sabemos o que a alma é de fato, mas a limitamos removendo ela da esfera das coisas mortais, o que a situa num campo aberto e indeterminado de possibilidades.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Consideradas por muitos comentadores como o coração da epistemologia kantiana, as categorias de relação definem como os objetos se relacionam entre si e como permanecem ou mudam no tempo. Substância e Acidente referem-se àquilo que permanece através da mudança (substância) e as propriedades que são transitórias, ou seja, que mudam (acidentes). Um exemplo disso é a água de um lago que congela no inverno. Seu estado físico muda do líquido para o sólido, que é o acidente, mas a matéria da água em si, a substância, permanece inalterada. Sem a categoria de substância, nossa mente registraria apenas uma sucessão caótica de imagens, sem reconhecer que se trata da mesma “coisa” sofrendo alteração. A Causa e Efeito é a relação estritamente necessária onde um evento segue outro no tempo. O exemplo de Kant, em resposta ao filósofo David Hume, é sobre o sol que ilumina uma pedra, e a pedra esquenta. Hume diria que inferimos causalidade por mero hábito psicológico, ou seja, não há conexão necessária, apenas uma observação e uma intuição. Kant argumenta que o próprio fato de distinguirmos uma sucessão objetiva de eventos exige que a mente aplique a categoria a priori de Causalidade. A mente “dita” a regra estrutural de que o aquecimento necessariamente sucede a irradiação solar, colocando uma como causa da outra. Já na Ação Recíproca (Comunidade), tem-se a relação simultânea de mútua influência entre múltiplas substâncias no espaço como, por exemplo, a interação gravitacional entre a Terra e a Lua. Elas não são eventos sucessivos no tempo, mas existem simultaneamente e influenciam-se de modo contínuo e bidirecional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, temos as categorias modais. Eles são os Postulados do Pensamento Empírico e não acrescentam nenhum atributo novo ao objeto em si, mas definem exclusivamente como esse objeto ou evento se relaciona com o sujeito cognitivo e suas faculdades. No caso da Possibilidade-Impossibilidade, é algo que concorda com as condições formais, que são as condições lógicas e puras da experiência. No binômio Existência-Não-existência, é algo que está dado materialmente na intuição empírica, ou seja, nos sentidos. Já na Necessidade-Contingência, é algo cuja conexão com a experiência empírica está determinada por condições universais. Vamos a um exemplo. Um dragão voador de escamas verdes ou um triângulo cujos ângulos somam 180 graus são conceitos logicamente possíveis, ou seja, não envolvem contradição formal. No entanto, apenas um objeto sensorialmente verificável, como a caneta sobre a sua mesa, tem a marca da existência. Já o fato de que um objeto massivo abandonado no ar cairá em direção ao solo é uma necessidade ditada pelas leis empíricas que o entendimento prescreve à natureza, ou seja, atribui a ele.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Acima dessas estruturas, Kant postulou a apercepção ou apercepção transcendental, que é o processo pelo qual a mente unifica de forma ativa diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Sem a apercepção, a mente seria apenas um amontoado de estímulos desconectados. Assim, a aperceção a base da própria consciência humana. Devido a essa complexa mediação ativa da mente, Kant estabeleceu uma distinção insuperável entre o mundo externo e a mente. Isso significa dizer que nós não temos acesso à “coisa em si”, ou noumenon, mas apenas a como as coisas nos aparecem, ou seja, na forma de fenômeno, já devidamente processadas pelo nosso aparato cognitivo. Neste sentido, É importante distinguir o “Eu empírico”, ou seja, aquilo que observamos em nós mesmos, como nossa personalidade ou o nosso humor, do “Eu transcendental”, a pura unidade lógica do “Eu penso”. Ademais, a apercepção transcendental não é uma faculdade psicológica de “prestar atenção”, mas uma exigência lógica. Para que uma experiência seja minha, o “Eu penso” deve poder acompanhar todas as minhas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Os Vetos Kantianos à Psicologia Científica ===&lt;br /&gt;
Apesar de ter colocado o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que conhece, no centro do universo epistemológico, Kant foi muito crítico sobre a possibilidade de a psicologia se tornar uma ciência. Em sua obra Princípios metafísicos da ciência da natureza, de 1786, ele negou a possibilidade de uma psicologia científica, pois afirmou que uma disciplina só poderia Sê-lo se possuísse uma elaboração racional capaz de fornecer leis formuladas matematicamente, o que poderia ser chamado de veto matemático. A psicologia falhava nesse critério porque os eventos mentais possuem apenas a dimensão do tempo, sem nenhuma extensão espacial, o que impossibilitaria a sua matematização. Para Kant, assim como o espaço é a forma do sentido externo, o tempo é a forma pura do sentido interno. Como os estados mentais só se dão na sucessão do tempo (sem extensão espacial), eles não formam figuras nem podem ser medidos geometricamente, inviabilizando a matemática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Kant apontou a impossibilidade de isolar diferentes pensamentos para a realização de experimentos controlados. Assim, como não podemos acessar o que seria o conteúdo da mente, cercá-la e analisá-la como ela é em seu estado bruto ou natural, qualquer experimentação seria impossível, o que poderia ser chamado de veto do objeto. Por fim, ele reforçou a crítica que já era direcionada a Wolff, aquele do começo dessa seção. A introspecção como método, segundo Kant, seria inviável porque a própria tentativa de observar um fenômeno interno altera o fenômeno, o veto metodológico. Se tento observar minha própria tristeza, por exemplo, o fenômeno original desaparece e se transforma em “tristeza-sendo-observada-por-mim”, misturando sujeito e objeto de tal maneira que corrompe a objetividade. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A impossibilidade de uma psicologia científica não significava, contudo, a impossibilidade de estudar a mente e o comportamento. Kant trabalhou e lecionou com o que chamou de Antropologia Pragmática. Enquanto a psicologia empírica tentava, em vão, segundo ele, ser uma ciência exata, a antropologia pragmática estudava “o que o homem, como ser livre, faz, ou pode e deve fazer de si mesmo”. Era um estudo prático do comportamento, das paixões, da memória e da cognição, focado na vida em sociedade. De certo modo, pode-se dizer que Kant fechou a porta para a psicologia mecanicista, ou ainda, uma psicologia como ciência exata, mas ajudou a abrir uma janela imensa para as ciências humanas e sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Emergência do Neokantismo Fisiológico e as Primeiras Aproximações para a Psicologia Científica ==&lt;br /&gt;
A primeira metade do século XIX na Alemanha foi inicialmente dominada pelo Idealismo Pós-Kantiano (Hegel, Fichte, Schelling), que propunha sistemas metafísicos grandiosos onde a realidade era essencialmente racional e espiritual. Contudo, a partir da década de 1850, o forte avanço das ciências naturais, como a fisiologia e a química, gerou uma importante reação materialista, consolidados nas figuras de Feuerbach, Vogt, Büchner e outros, que passaram a ridicularizar a filosofia idealista como mera especulação vazia. A metafísica, vista como uma das glórias da filosofia e do pensamento humano, passou a ser vista cada vez mais como um discurso com pouco ou nenhum lastro na realidade. Essa mudança foi muito importante para a história da psicologia científica, pois foi devido a esse contexto que foram formulados os primeiros experimentos voltados para o que seria, no futuro, a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Johannes Müller e a Teoria das Energias Nervosas Específicas ===&lt;br /&gt;
Neste período, a fisiologia se estabeleceu como uma ciência rigorosa e extremamente respeita, liderada por figuras como Johannes Müller. Müller, professor na Universidade de Berlim, publicou seu Manual de Fisiologia Humana (1833-1840), que sistematizou o conhecimento fisiológico da época e transformou a compreensão da percepção. Até o final do século XVIII, ela era explicada pela Teoria da impressão da sensação, derivada da física newtoniana e do empirismo britânico. Esse modelo assumia que o sistema nervoso era um meio homogêneo e passivo que simplesmente “transportava” as qualidades dos objetos externos para a mente, como se a sensação fosse uma cópia exata do estímulo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Johannes Müller revolucionou esse entendimento ao formular a Teoria das energias nervosas específicas (1826). Ele provou, através de experimentos, que a estimulação de um determinado nervo sensorial sempre provoca uma sensação característica e exclusiva daquele nervo, independentemente da natureza do estímulo físico externo. Em outras palavras, a qualidade da sensação não pertence ao objeto físico, mas sim à estrutura do próprio aparato sensorial humano. O mesmo estímulo pode produzir sensações completamente diferentes dependendo de qual via nervosa é ativada. Por exemplo, ao aplicar sal na pele, na língua e nos olhos, as sensações serão totalmente distintas, todas diretamente relacionadas às especificidades do aparelho sensorial que foi ativado. É importante entender que isso não acontece por conta da especificidade das características do estímulo, como o sal ser “salgado”. A pele produz apenas sensações táteis, ainda que o estímulo não seja tátil. Isso cria um problema de confiança naquilo que percebemos sensorialmente, pois mostra que os órgãos não enviam apenas propriedades dos objetos, mas antes operam apenas de modo específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Müller, por meio de experimentos, mostrou que os objetos físicos projetam imagens invertidas na retina, mas nós os percebemos na posição correta. Ele mostrou também que, embora as imagens projetadas nas duas retinas sejam levemente diferentes, o cérebro as unifica em uma única imagem tridimensional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas descobertas trouxeram Kant para o terreno da biologia, inclusive pelo próprio Müller que, apesar de não ser neokantiano, viu suas descobertas científicas influenciarem profundamente a primeira geração deles. O sistema nervoso não é um receptor passivo, antes, ele medeia, molda e traduz ativamente a realidade externa. A sensação deixou de ser vista como uma cópia do mundo e passou a ser um enigma, que pode ser analisado a partir da seguinte pergunta: “o que existe entre o estímulo físico e a sensação subjetiva?”. Este é o mundo do primeiro projeto de psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Hermann von Helmholtz e o Neokantismo Psicofisiológico ===&lt;br /&gt;
A ponte definitiva entre a epistemologia kantiana e a prática laboratorial foi construída por um antigo aluno de Johannes Müller, Hermann von Helmholtz (1821-1894). Ele colaborou no desenvolvimento do neokantismo psicofisiológico ou neokantismo fisiológico. Ele entendeu que as descobertas de seu professor forneciam a base material exata para a teoria do conhecimento de Kant. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1855, Helmholtz argumentou que as estruturas a priori propostas por Kant como condições de possibilidade da experiência eram, na verdade, características da anatomia e da fisiologia do aparato perceptivo humano. Ao “naturalizar” a filosofia de Kant, Helmholtz formulou a sua teoria dos signos, que postula que nossas sensações e percepções não são cópias diretas da realidade, mas sim símbolos ou signos gerados pelo nosso sistema nervoso em resposta aos estímulos. Para explicar como construímos uma imagem coerente e espacial do mundo a partir desses signos neurológicos isolados, Helmholtz introduziu o conceito de inferências inconscientes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo essa teoria, a mente realiza uma série de ajustes e cálculos automáticos, baseados na experiência e na aprendizagem contínua, para interpretar os dados sensoriais. A percepção de profundidade, a posição espacial e a resolução de duas imagens retinianas em uma única visão estereoscópica não são inatas, como defendia o nativismo de Ewald Hering ou o próprio Müller, mas são aprendidas empiricamente através do movimento do corpo e da repetição das sensações. O espaço perceptivo atua como uma linguagem que a mente usa para interpretar os dados fisiológicos brutos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com isso, Helmholtz fundou o projeto de uma psicologia fisiológica autônoma, diferente da psicologia filosófica discutida na época. Ele concordou com Kant que a introspecção tradicional era um método falho, que podia conduzir a ilusões porque o observador só capta a superfície consciente do pensamento. A solução de Helmholtz foi submeter o sujeito da experiência a condições de laboratório rigorosamente controladas. Se as condições da percepção dependem de mecanismos fisiológicos, então a única forma de fazer epistemologia científica é através da experimentação fisiológica e da ótica. O sujeito do conhecimento tornou-se, assim, um objeto, que poderia ser manipulado e analisado em laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Suas contribuições não acabam por aí. Antes das pesquisas de Helmholtz, a comunidade científica acreditava que o impulso nervoso era instantâneo ou rápido demais para ser mensurado. Em 1850, estimulando um nervo motor na perna de uma rã e medindo o tempo da contração muscular, ele obteve o registro da velocidade de condução neural, que é de aproximadamente 27 metros por segundo, provando que havia “algo” entre o estímulo e a percepção que poderia ser analisado cientificamente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também mediu o tempo de reação de nervos sensoriais em humanos. Essa descoberta provou que o pensamento e o movimento corporal não ocorrem simultaneamente, mas são separados por um intervalo de tempo mensurável. Essa foi a base que abriu caminho para os experimentos de tempo de reação e cronometria mental que dominariam o laboratório de Wundt décadas depois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== F. A. Lange e o Projeto de uma “Psicologia Sem Alma” ===&lt;br /&gt;
O segundo pilar desse “retorno a Kant”, também de matriz fisiológica, foi erguido pelo filósofo e sociólogo Friedrich Albert Lange (1828-1875). Lange foi uma figura central na “controvérsia materialista” que agitava a Alemanha. Ele rejeitava tanto os “delírios” dos sistemas idealistas metafísicos quanto o reducionismo ingênuo do materialismo científico de Vogt e Büchner. Em sua influente obra História do Materialismo, de 1866, Lange defendeu que a limitação proposta por Kant é absoluta, ou seja, não temos e nem nunca teremos acesso à essência última da realidade, às coisas em si. Nosso conhecimento se restringe aos efeitos das coisas, ou seja, os fenômenos, que nos aparecem totalmente moldados pela nossa organização mental e neurológica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Lange argumentou que a impossibilidade de conhecer a essência não impede o estudo científico rigoroso das “aparências”, ou seja, sobre como as coisas nos aparecem. Para viabilizar esse estudo, Lange atacou as psicologias filosóficas do passado, que versavam debates que ele ele entendia estéreis sobre a natureza, a imortalidade e a substancialidade da “alma”. Para Lange, a alma era um conceito vazio, um “mito antigo” que forçava a psicologia a operar sobre pressupostos metafísicos inverificáveis. Em resposta, ele propôs a criação de uma psicologia sem alma, ou, em outras palavras, uma psicologia sem metafísica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste novo paradigma, o objeto de estudo da psicologia deveria ser reduzido aos dados empíricos observáveis, incluindo a sensação, a percepção, a ação e a linguagem, sempre buscando o seu correlato fisiológico. Lange rejeitou a introspecção puramente filosófica, pois a auto-observação isolada é privada, não pode ser repetida, não permite a presença de observadores externos e leva invariavelmente a ilusões verbais. Segundo ele, essa introspecção conduzia o pesquisador a substancializar conceitos como “vontade” ou “pensamento”, sem nenhum lastro empírico ou experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A única saída para a psicologia tornar-se verdadeiramente científica era abraçar a metodologia das ciências naturais. Apoiando-se no trabalho de Helmholtz e nas medições pioneiras de psicofísicos como Ernst Weber e Gustav Fechner, Lange prescreveu que a psicologia deveria investigar as leis fisiológicas da percepção e medir a correlação exata entre estímulos físicos e respostas sensoriais, como nos tempos de reação e nos limiares diferenciais. A psicologia passava a ser entendida não como a ciência do espírito transcendente, mas como a ciência psicofisiológica que estuda experimentalmente as condições de possibilidade da experiência, trazendo o sujeito transcendente de Kant para uma fisiologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fechner e a Fundação da Psicofísica ===&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner (1801–1887) foi um físico e metafísico alemão e antigo aluno de Weber. Apesar de não ser um neokantiano, ele tem uma importância fundamental para este momento da fundação da psicologia experimental, tendo sido citado e adotado por neokantianos. Ele assumiu a prestigiada e importante cadeira de física da Universidade de Leipzig em 1834, enquanto produzia sátiras sobre temas metafísicos e artísticos sob um pseudônimo. Após uma série de experimentos em que observava diretamente o Sol, feriu gravemente suas retinas, evento que o conduziu a um colapso físico e mental. Teve uma recuperação milagrosa em 1843, quando tentou observar flores em seu jardim e, por meio de uma experiência mística, observou que a natureza brilhava de dentro para fora, de onde concluiu que o universo era dotado de alma e consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esssa experiência decisiva levou-o a dedicar sua vida ao combate do materialismo científico, que ele denominava visão noturna, que via o mundo como uma matéria inerte e sem vida. Já a sua visão diurna entendia que a matéria era a manifestação da consciência universal divina, uma cosmovisão espiritualista que pode ser entendida como panpsiquista, ou seja, todos os corpos físicos possuem uma forma de alma. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi buscando provar sua visão que Fechner entendeu que poderia provar empiricamente a relação entre a mente (ou o espírito) e o corpo (ou a matéria) se encontrasse uma relação matemática constante entre a intensidade do estímulo físico e a magnitude da sensação psíquica correspondente. Isso porque Fechner percebeu que um aumento na intensidade do estímulo físico não gerava um aumento equivalente e proporcional na sensação subjetiva. A relação não era linear, mas sim proporcional, pois o estímulo físico aumentava em uma progressão geométrica, enquanto a sensação psíquica crescia em uma progressão aritmética. Por exemplo, acrescentar o som de um sino a outro que já está tocando gera um forte impacto perceptivo, pois é possível distinguir claramente que passou-se de um para dois sinos. Já acrescentar um sino a uma dezena deles produz uma alteração quase imperceptível. A sensação dependia, portanto, do nível de estimulação já existente no sistema.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para dar sustentação empírica à sua teoria, Fechner apropriou-se dos trabalhos experimentais realizados por Weber, que havia formulado a teoria da diferença mínima perceptível, demonstrando que a sensibilidade humana não avaliava diferenças absolutas entre estímulos, mas sim relações relativas ou proporcionais. Weber observou que, ao levantar pesos, os sujeitos conseguiam detectar uma variação mínima correspondente a uma fração constante de aproximadamente 1:40 em relação ao peso padrão. Essa constância proporcional é descrita pela chamada Lei de Weber:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
II=K&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde I representa a intensidade do estímulo padrão (que aparecerá como R posteriormente), ΔI é o acréscimo mínimo necessário para produzir uma mudança perceptível na sensação e k é uma constante matemática específica para cada modalidade sensorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Fechner percebeu que essa fração constante (ΔI/I) correspondia à unidade de medida da sensação subjetiva (dS). Utilizando o cálculo infinitesimal, Fechner integrou matematicamente a equação de Weber, assumindo que todas as diferenças mínimas perceptíveis eram subjetivamente iguais entre si. Essa operação matemática resultou na célebre Lei de Fechner ou Lei de Weber-Fechner:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
S = k Log R&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde S representa a magnitude da sensação subjetiva (qualidade mental), R representa a intensidade física do estímulo (qualidade material) e K é uma constante experimental ajustada a cada sentido. Essa fórmula logarítmica foi construída para mostrar que, para a sensação aumentar linearmente, o estímulo físico precisava crescer exponencialmente, estabelecendo uma relação exata e mensurável entre o psíquico e o físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para aplicar sua fórmula, Fechner sistematizou dois conceitos fundamentais que estruturam as medições psicofísicas. A primeira é o limiar absoluto, ou seja, o ponto de intensidade física mínima abaixo do qual o estímulo não é detectado pelo sujeito e acima do qual a sensação passa a ser percebida. Outro conceito é o de limiar diferencial, que é a quantidade mínima de alteração ou variação que deve ser aplicada a um estímulo para que o sujeito seja capaz de discriminar uma mudança na sensação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um desdobramento fascinante da Lei de Fechner ocorreu quando o estímulo físico apresentava valores abaixo do limiar absoluto (R&amp;lt;1), resultando em valores negativos para a sensação (S). Fechner definiu esses valores como sensações negativas ou subliminares, postulando a existência de processos mentais ativos abaixo do limiar da consciência desperta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para determinar com precisão científica os limiares absolutos e diferenciais, Fechner desenvolveu e padronizou três metodologias experimentais rigorosas, que se tornaram os pilares metodológicos de toda a psicologia experimental posterior. No Método do Erro Médio ou do Ajuste, o próprio sujeito experimental manipula ativamente um instrumento para ajustar um estímulo variável até que sinta que este se iguala a um estímulo padrão constante. A média dos desvios entre os ajustes do sujeito e o padrão real define o erro de observação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já no Método do Estímulo Constante ou dos Casos Corretos e Incorretos, o pesquisador apresenta de forma aleatória uma série de estímulos pré-determinados e constantes em comparação com um estímulo padrão. O sujeito deve julgar se o estímulo de comparação é maior, menor ou igual ao padrão, medindo-se a proporção estatística de acertos. Por fim, no Método dos Limites ou das Diferenças Mínimas Perceptíveis, dois estímulos são apresentados ao sujeito. Um deles é aumentado ou reduzido sistematicamente em passos discretos e graduais, e o sujeito relata o momento exato em que deixa de perceber ou passa a perceber a diferença entre ambos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1860, Fechner publicou seu livro monumental, Elementos de Psicofísica, que alguns entendem ser o primeiro sobre a psicologia científica experimental. Ao fornecer à psicologia técnicas de medição coerentes e precisas, Fechner provou de forma contundente que a mente humana era passível de investigação científica e experimental, sepultando em definitivo o antigo veto imposto por Immanuel Kant, em pleno momento de desenvolvimento do Neokantismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Incomodados com as inclinações metafísicas e espiritualistas de Fechner, os psicólogos experimentais subsequentes, sob a liderança de Wilhelm Wundt, rejeitaram completamente o panpsiquismo entre outras ideias, apropriando-se exclusivamente de seus métodos quantitativos de laboratório para estabelecer a psicologia como uma ciência empírica e natural. Como bem observou o historiador Edwin G. Boring, Fechner agiu como um “Colombo que descobriu um Novo Mundo (a psicologia científica) enquanto procurava pelas antigas Índias (a prova de sua metafísica)”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Resumindo ===&lt;br /&gt;
A intersecção entre a epistemologia kantiana, a fisiologia de Müller e a reformulação promovida por Helmholtz e Lange constituiu o início daquilo que tornou possível a psicologia científica. Kant havia mostrado que o sujeito constrói ativamente a realidade, mas negou que esse sujeito pudesse ser estudado matematicamente ou experimentalmente. Müller transferiu a estrutura ativa da mente para os nervos sensoriais específicos. Helmholtz e Lange reinterpretaram as pesadas categorias transcendentais de Kant como mecanismos biológicos e perceptivos operando através de inferências inconscientes e leis fisiológicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao “naturalizar” a Crítica da Razão Pura, o Neokantismo Psicofisiológico resolveu o veto de Kant a uma psicologia científica. Se os limites e as formas do nosso conhecimento são determinados pelo nosso sistema nervoso e sensorial, então o estudo epistemológico da mente deve ser feito no laboratório de fisiologia, estudando principalmente a percepção. A exigência de matematização foi superada pelas leis da psicofísica de Fechner e Weber, e o problema da introspecção descontrolada foi resolvido pelo uso de instrumentos de precisão, como cronoscópios, além de métodos de medidas de limiar, controle de estímulos, erros médios, entre outros, que transformavam as respostas subjetivas em dados objetivos, replicáveis e mensuráveis. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse foi o cenário epistemológico e institucional que Wilhelm Wundt encontrou e ajudou a consolidar. Wundt não fundou a psicologia a partir do nada em 1879. Seu Instituto em Leipzig foi organização metodológica e teórica de décadas de esforços em que a filosofia foi obrigada a dialogar com os nervos, os músculos e os tempos de reação, transformando para sempre a especulação sobre a alma em uma rigorosa ciência da experiência imediata. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ironicamente, escolas neokantianas posteriores, como a Escola de Marburgo, foram focos de resistência à psicologia experimental, alegando que o sujeito do conhecimento de Kant era de ordem puramente transcendental e lógica, e não empírica ou mensurável, ou seja, rejeitando a “biologização” do pensamento kantiano e a consequente criação da psicologia experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, conforme mostra Gundlach, a criação de uma posição acadêmica e o laboratório de psicologia por Wundt não se deu por conta de um amplo reconhecimento da superioridade do pensamento wundtano, mas sim por conta de disputas políticas e institucionais nas universidades alemãs. De qualquer forma, Wundt conseguiu desenvolver bem sua teoria ao longo de sua vida e conseguiu estabelecer-se na proeminência da psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia de Wundt ==&lt;br /&gt;
[[Wilhelm Wundt|Wilhelm Maximilian Wundt]] é, na historiografia da psicologia, uma figura ao mesmo tempo onipresente e pouco compreendida. Freqüentemente reduzido ao título de “fundador do laboratório de Leipzig”, essa simplificação negligencia sua estatura como um dos últimos grandes arquitetos de sistemas do século XIX, cujo &#039;&#039;Systemgedanke&#039;&#039; (pensamento sistêmico) buscava integrar a psicologia como uma propedêutica fundamental para a filosofia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Recuperar o Wundt original exige preencher uma vasta lacuna historiográfica. A primeira envolve apontar as conhecidas e muitas das distorções da tradução de [[Titchener|E.B. Titchener]] para o contexto anglo-americano, que foi formulada para aproximar suas ideias e pdasdaquelas de Wundt, visando uma “confirmação” do pensamento de Titchener. Wundt não era um estruturalista ou associacionista clássico e seu sistema é essencialmente dinâmico e centrado no &#039;&#039;&#039;voluntarismo&#039;&#039;&#039;. Para Wundt, a vontade e os processos afetivos não são meros epifenômenos, ou seja, um fenômenos secundários ou acessórios que acompanhma um fenômeno principal, mas o eixo organizador da consciência ativa. Esta reconstrução crítica visa resgatar a autonomia epistemológica de uma ciência que define seu objeto não como uma substância, mas como a experiência em sua totalidade imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Experiência conforme Wundt ===&lt;br /&gt;
Para Wilhelm Wundt, a experiência é concebida como um todo unitário e coerente. As duas abordagens da experiência que ele propõe não se deve a uma diferença ontológica, mas como dois pontos de vista distintos e complementares que permite sua abordagem científica, que ele separa entre Experiência Mediata e Experiência Imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experiência Mediata ====&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Experiência Mediata&#039;&#039;&#039; é a experiência objetiva) está &#039;&#039;&#039;focada nos objetos do mundo externo&#039;&#039;&#039;. Ela foca exclusivamente nos objetos do mundo externo, abstraindo o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que sabe, que tem conhecimento. A Experiência Mediata seria o ponto de vista característico das ciências naturais, como física, química e fisiologia. A ciência natural opera por meio de uma abstração sistemática, pois ela coloca o sujeito cognoscente &amp;quot;entre parênteses&amp;quot; e analisa apenas os objetos externos pensados, como se existissem de maneira totalmente independente de quem os percebe. É chamada de &amp;quot;mediata&amp;quot; porque &#039;&#039;&#039;nosso acesso a tais objetos é sempre indireto&#039;&#039;&#039;, ou seja, precisa de mediação, pois é dependente de conceitos abstratos, inferências teóricas e construções conceituais auxiliares para representá-los. Por um lado, o estímulo físico é intermediado pelos limites anatômicos e biológicos do nosso aparato perceptivo, ou seja, temos os limites e capacidades da nossa percepção. No caso da visão, por exemplo, não vemos os raios ultravioleta e infravermelho, pois não estão no expecto da luz visível, mas vemos as cores e suas combinações. Por outro lado, para constituir a &amp;quot;realidade objetiva&amp;quot;, o cientista natural precisa utilizar conceitos teóricos auxiliares e construções hipotéticas, como átomos, ondas eletromagnéticas e forças gravitacionais, que não são dados imediatamente na percepção sensível mas que podem ser vistos experimentalmente e por meio de instrumentos e aparatos científicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wundt critica assim o empirismo tradicional e o associacionismo. A doutrina do empirismo diz que a mente como página em branco, conforme a formulação de John Locke e sua &#039;&#039;tabula rasa&#039;&#039;. Neste caso, a mente seria progressivamente preenchida pelas impressões do mundo exterior (sensação) e pelas operações internas (reflexão). David Hume radicaliza o princípio empírico, postulando que as impressões são os átomos cognitivos fundamentais e as ideias nada mais são do que cópias atenuadas ou lembranças dessas impressões na memória e na imaginação. Já o associacionismo constitui a hipótese de que as ideias simples e discretas se combinam para formar pensamentos complexos, juízos e raciocínios abstratos. Se o empirismo fornece os blocos de construção, o associacionismo descreve a &amp;quot;força de atração&amp;quot; que os une. Conforme sistematizado por Hume e, depois, desenvolvido por Hartley e James Mill, a mente transita espontaneamente de uma ideia para outra por meio de regras regulares de associação, como a semelhança, a contiguidade no tempo e as relações de causa e efeito.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para Wundt, ambos erraram, pois transferiam as características dos objetos externos da física, como a solidez, os limites rígidos e a permanência estática, para os conteúdos conscientes, passando a tratar as representações (&#039;&#039;Vorstellungen&#039;&#039;) como coisas ou &amp;quot;átomos mentais&amp;quot;. Na física, o foco recai sobre o objeto substantivo. Contudo, segundo Wundt, a consciência não contém objetos estáveis. Ele parte de uma diferença fundamental que os psicofísicos e outros haviam apontado, que é aquela entre o mundo externo e o mundo percebido, ou ainda, entre as coisas e suas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em resumo, a Experiência Mediata se aproxima dos objetos estáveis do mundo externo e de como eles nos chegam. Na experiência mediata, o cientista da natureza pode retornar quando quiser ao mesmo objeto físico estável (uma pedra ou um elemento químico) para observá-lo repetidamente, ainda que o observador em si esteja sempre em mudança.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experiência Imediata, o Objeto de Estudo da Psicologia ====&lt;br /&gt;
Ao definir seu objeto, Wundt deu um passo decisivo para dar à psicologia autonomia perante as outras ciências naturais. Ele propõe que a experiência é uma unidade indivisível. Mas o que ele quer dizer por &#039;&#039;&#039;experiência&#039;&#039;&#039;? Uma definição poderia ser a totalidade dos processos conscientes, englobando sensações, sentimentos, representações e volições (vontades), apreendida da exata forma como se apresenta diretamente ao sujeito, sem qualquer abstração conceitual ou mediação de instrumentos externos. Ou seja, a experiência de Wundt seria como tudo o que se passa na mente, exatamente como ela aparece para uma pessoa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;O domínio da psicologia seria a experiência imediata&#039;&#039;&#039;, subjetiva, que é a experiência em sua realidade concreta, direta e intuitiva, apreendida antes de qualquer conceituação, teorização ou abstração. Ou seja, é a experiência antes de ela adquirir qualquer camada de compreensão, que seriam mediadores, por isso é imediata, &#039;&#039;&#039;sem mediação&#039;&#039;&#039;. Ela envolve o processamento de elementos sensoriais simples, como cor, som, temperatura, e de sentimentos simples, como prazer e desprazer. Ela diz respeito ao modo puro de funcionamento mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vamos a um exemplo, desta vez no campo do acústica. Na perspectiva mediata, o cientista natural abstrai o sujeito e estuda o som de forma indireta e conceitual. Ele utiliza aparelhos para medir as ondas sonoras e a sua propagação física pelo ar. O objeto físico “som” é, portanto, mediado e traduzido por conceitos de frequência, amplitude e decibéis. Já sob a perspectiva imediata, que é a da psicologia, o psicólogo estuda a sensação direta e em si mesma do tom no momento exato em que ele aparece na consciência. A análise está na vivência concreta do sujeito, que inclui a qualidade do tom, a sua intensidade subjetiva, a tonalidade afetiva de prazer ou desprazer que o acompanha e o processo ativo da atenção (apercepção, que será tratada mais adiante) que coloca aquele som no foco da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se olharmos desta vez para a cromática, na visão mediata, ciência natural estuda o azul abstraindo a experiência do sujeito. A física o descreverá de forma conceitual como uma radiação eletromagnética com determinado comprimento de onda atingindo a retina. A fisiologia se debruçará sobre o funcionamento dos tecidos dos olhos quando estimulados com a cor azul em suas nuances. Para a psicologia de Wundt, o azul é investigado como um dado imediato e real na consciência do sujeito no momento da percepção interna. O foco não está nas propriedades físicas do estímulo, mas sim na reação subjetiva e ativa do cérebro vivo a esse estímulo, que gera a qualidade imediata da cor na experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conduzindo seus estudos, Wundt também identificou aquilo que denominou &#039;&#039;&#039;causalidade psíquica&#039;&#039;&#039;. Ao nos lembrarmos de um fato triste, por exemplo, a fisiologia explicaria a tristeza de forma conceitual e indireta, por meio de correntes elétricas no córtex cerebral, liberação de hormônios ou atividade de sinapses nervosas. Já o psicólogo numa linha wundtiana observa a conexão de processos internos como elas ocorrem diretamente na consciência do sujeito, como a ligação da lembrança triste a um sentimento de angústia. A causalidade psíquica é uma causalidade própria da mente e irredutível às leis físicas da natureza, ou seja, não pode ser comparada à causalidade física como a conhecemos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao adotar a experiência como seu objeto, Wundt rompe com a psicologia da alma, filosófica e metafísica. Ele substitui a psicologia de substâncias, que postula uma entidade mental oculta, pela &#039;&#039;&#039;teoria da atualidade&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Aktualitätstheorie&#039;&#039;), na qual o psiquismo é definido como um fluxo de processos em constante devir. Seu sistema está fundamentado em um &#039;&#039;&#039;monismo perspectivista&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, para ele, mente e corpo não são substâncias que interagem mecanicamente, mas perspectivas distintas sobre a mesma unidade da experiência (&#039;&#039;Erfahrung&#039;&#039;). A psicologia, portanto, não estuda um “mundo interno”, que está isolado do externo, ainda que em contato com ele, mas a totalidade da experiência humana sob o prisma da imediatidade. Essa transição do estatuto de substância “mente” ou algo semelhante para o de processo traz uma nova perspectiva, criando um objeto que pode ser alvo de experimentação científica, partindo de experimentos já criados pela psicofísica e ainda outros que seriam desenvolvidos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Apercepção ===&lt;br /&gt;
No contexto filosófico, como já visto, o conceito de apercepção remonta a Kant, que a definiu como o processo autônomo, ativo e prévio pelo qual a mente unifica diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Wundt adotou essa noção kantiana para fundamentar sua teoria da consciência, definindo &#039;&#039;&#039;apercepção&#039;&#039;&#039; como o processo psicológico ativo pelo qual um conteúdo psíquico (ou representação) é trazido à &#039;&#039;&#039;clareza máxima e ao foco da consciência&#039;&#039;&#039;, vindo necessariamente acompanhado pelo estado de atenção voluntária.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para explicar a dinâmica da consciência, Wundt utilizou uma famosa analogia com a visão para diferenciar apercepção e percepção. O campo visual da consciência (&#039;&#039;Blickfeld&#039;&#039;) corresponde à percepção, que é a simples entrada de uma representação na consciência de forma difusa, ampla e sem a presença focalizada da atenção. Já o ponto focal da consciência (&#039;&#039;Blickpunkt&#039;&#039;) corresponde à apercepção, que é a entrada de uma representação no ponto central de máxima clareza e foco estreito da atenção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A apercepção, então, é uma &#039;&#039;&#039;manifestação primordial da vontade&#039;&#039;&#039;, funcionando como o princípio dinâmico que dá direção e estrutura tanto à experiência quanto ao movimento. Além disso, a apercepção pode ser ativa, que é quando o sujeito deliberadamente seleciona onde focará sua atenção, ou passiva, quando é o estímulo que se impõe no foco no sujeito. Por fim, a apercepção é o mecanismo central da operação da causalidade psíquica. É ela que unifica a mente em um sistema ativo, permitindo que a fusão de elementos resulte em sínteses criadoras com propriedades qualitativamente novas e imprevisíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Percepção Interna (innere Wahrnehmung) vs. Auto-observação (Selbstbeobachtung) ===&lt;br /&gt;
Para garantir o rigor procedimental e responder ao “desafio kantiano”, Wundt rejeitou a &#039;&#039;Selbstbeobachtung&#039;&#039;, que pode ser entendida como a &#039;&#039;&#039;auto-observação tradicional&#039;&#039;&#039; ou introspecção casual. Trata-se do método introspectivo puramente filosófico e especulativo que, segundo Wundt e outros, seria fonte de auto-ilusões. No momento em que o sujeito tenta observar ativamente o curso de seus próprios processos mentais complexos, a atenção que ele direciona para si mesmo altera, deforma ou suprime o próprio fenômeno em curso. Na reflexão puramente interna, é impossível garantir que o mesmo estado mental se repita de forma idêntica, impedindo a replicação intersubjetiva e a formulação de leis científicas gerais &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A solução científica é a &#039;&#039;innere&#039;&#039; &#039;&#039;Wahrnehmung&#039;&#039;, ou &#039;&#039;&#039;percepção interna&#039;&#039;&#039;, que permite a criação de um método científico baseado na repetição de estímulos externos controlados. No laboratório, o psicólogo replica condições experimentais que permitem a observação do aparecimento imediato do processo psíquico sob condições estáveis e previsíveis. O laboratório funciona, portanto, como o estabilizador do objeto psicológico, permitindo que a percepção interna atinja a precisão necessária para decompor a consciência em seus elementos fundamentais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O método de investigação da percepção interna é bem mais rigoroso. Em vez de pedir ao sujeito que reflita livremente sobre seus pensamentos, o experimentador utiliza aparelhos físicos de precisão, tais como [[Cronoscópio|cronoscópios]], pêndulos, compassos táteis, geradores de tons para controlar rigorosamente o início, a intensidade, a duração e a apresentação de estímulos externos predeterminados. Como o estímulo físico externo pode ser repetido e modificado arbitrariamente pelo pesquisador, as condições fisiológicas e sensoriais associadas à percepção interna são reproduzidas com exatidão. Com isso, o sujeito experimental pode antecipar sua atenção ao evento e captar com máxima precisão o surgimento da experiência imediata correspondente. O participante deveria ser rigorosamente treinado, muitas vezes revezando as funções de sujeito e pesquisador, e era instruído a fornecer respostas simples e verificáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Experimentos do Laboratório de Wundt ===&lt;br /&gt;
Vamos a alguns exemplos do que acontecia no laboratório de Wundt, para integrar melhor os conceitos já apresentados. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O primeiro experimento foi concebido originalmente para descrever a &#039;&#039;&#039;“equação pessoal” que aparecia nas medições dos astrônomos&#039;&#039;&#039;. O interesse neste tema surgiu quando se constatou que astrônomos treinados, utilizando os mesmos equipamentos, discordavam de suas medições que, à época, eram feitas manualmente com ajuda de instrumentos. De alguma forma, estas diferenças nas medições pareciam ter um tipo de padrão. Neste experimento, Wundt utilizava um aparelho chamado medidor de pensamento (&#039;&#039;Gedankenmesser&#039;&#039;) e, posteriormente, o pêndulo de complicação (&#039;&#039;Complicationspendel&#039;&#039;). O dispositivo consistia em um grande relógio de pêndulo que possuía uma agulha cruzada, como uma agulha de tricô, capaz de golpear fisicamente um pequeno sino em um ponto exato do seu arco de oscilação. O sujeito do experimento deveria olhar para a escala do pêndulo e tentar determinar a posição exata do ponteiro no momento em que ouvia o sino tocar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste experimento, Wundt descobriu que o sujeito sempre cometia um erro sistemático de registro, de aproximadamente um oitavo de segundo. Segundo ele, era impossível perceber visualmente a agulha e o som do sino ao mesmo tempo. Esse experimento seria uma &#039;&#039;&#039;prova laboratorial de que a consciência possui uma capacidade limitada e só consegue focar em uma única percepção por vez&#039;&#039;&#039;, como a diferença no marco da medição podia mostrar. A ilusão de simultaneidade devia-se apenas à rápida sucessão dos processos de atenção (apercepção).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os experimentos de &#039;&#039;&#039;tempo de reação&#039;&#039;&#039;, nosso segundo exemplo, constituíam o verdadeiro coração do trabalho em Leipzig na década de 1880. Wundt adaptou o método de subtração (&#039;&#039;Subtractiemethode&#039;&#039;), do fisiologista holandês F. C. Donders, para medir a velocidade de processos mentais complexos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o experimento de Wundt, é necessário compreender que, para ele, uma reação consciente envolvia: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- transmissão da sensação ao cérebro; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2- entrada do estímulo no campo amplo da consciência (percepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
3- entrada no foco ativo da atenção (apercepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
4- ato de vontade para liberar a resposta; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
5- execução motora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada um dessas partes exigem um certo tempo, pois são processos não imediatos. A depender de como as etapas do experimento são organizadas, diferentes tempos indicariam o acionamento maior ou menor de cada um deles. No experimento, o sujeito era treinado para responder pressionando uma tecla telegráfica ao ver um estímulo luminoso simples, como um &#039;&#039;flash&#039;&#039; de luz. Em seguida, vinha a tarefa mais difícil. Duas imagens eram apresentadas, um círculo branco sobre fundo preto ou vice-versa, e o sujeito só deveria reagir após identificar com clareza qual imagem havia aparecido. Ao subtrair o tempo da reação simples do tempo da reação complexa, Wundt calculava o “tempo de apercepção” ou discriminação. Na primeira tese de doutorado em psicologia experimental da história, Max Friedrich, que atuou no experimento, mostrou que o tempo de discriminação aumentava de acordo com a complexidade do estímulo visual. Por exemplo, o sujeito levava mais tempo para aperceber e discriminar uma sequência de seis dígitos do que de apenas um ou dois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O assistente de Wundt, Ludwig Lange, também colaborou no estudo ao desenvolver um experimento crucial. Ele demonstrou que os &#039;&#039;&#039;tempos de reação variavam drasticamente dependendo da preparação da atenção&#039;&#039;&#039; (no conceito moderno da palavra) do sujeito. Se a atenção estivesse focada no movimento de resposta que o dedo faria (reação muscular), o tempo era curto (cerca de 125 ms), pois funcionava como um “reflexo cerebral” que pulava a apercepção. Se o foco estivesse direcionado ao estímulo sensorial que iria surgir (reação sensorial), o tempo era cerca de 100 ms mais longo, pois envolvia o circuito completo da mente consciente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O terceiro experimento foi desenvolvido por Martin Trautscholdt, um dos estudantes de doutorado de Wundt. Ele estudava a &#039;&#039;&#039;associação de ideias&#039;&#039;&#039;. No seu estudo, o sujeito era instruído a pressionar uma tecla no momento exato em que uma ideia associada surgisse em sua consciência a partir de um estímulo visual ou auditivo. Ao subtrair o tempo que o sujeito levava para simplesmente reconhecer a palavra estimulante, Trautscholdt conseguiu quantificar o tempo gasto pela mente para realizar a conexão associativa propriamente dita que, segundo Trautscholdt, variava entre 706 e 874 ms. Wundt também adaptou a &#039;&#039;&#039;técnica de associação de palavras de Francis Galton&#039;&#039;&#039;, limitando a resposta do sujeito a apenas uma única palavra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O quarto e último experimento que será apresentado é relacionado a &#039;&#039;&#039;acordes musicais&#039;&#039;&#039;. Nele, sujeitos ouviam tons isolados no piano, que seriam as sensações puras, e depois os mesmos tons tocados simultaneamente. Os participantes descreviam em detalhes a transição afetiva de como a fusão física das frequências dava origem a um produto inteiramente novo na consciência. Este seria o sentimento estético de harmonia e o prazer decorrente de uma síntese criadora. Wundt conduzia vários experimentos em estética experimental, tal qual seu colega Fechner.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Arquitetura da Mente: Elementos, Fusão e Síntese Criadora ===&lt;br /&gt;
Segundo Wundt, &#039;&#039;&#039;a experiência pode ser decomposta em elementos simples&#039;&#039;&#039;, que incluem as sensações e os sentimentos simples. Os &#039;&#039;&#039;sentimentos&#039;&#039;&#039;, por sua vez, são entendidos a partir da &#039;&#039;&#039;teoria tridimensional dos sentimentos&#039;&#039;&#039;, onde eles se distribuem em um espaço qualitativo entre os polos prazer/desprazer (&#039;&#039;Lust-Unlust&#039;&#039;), tensão/relaxamento (&#039;&#039;Spannung-Lösung&#039;&#039;) e excitação/depressão (&#039;&#039;Erregung-Beruhigung&#039;&#039;). A primeira é a mais evidente, se refere à avaliação afetiva primária da experiência. A segunda se relaciona ao esforço da atenção ou à preparação interna da mente. Já a terceira está relacionada ao nível de ativação biológica e psicológica do organismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esses aspectos todos são organizados através do mecanismo de &#039;&#039;&#039;fusão&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Verschmelzung&#039;&#039;), onde as qualidades elementares se fundem em complexos psíquicos. O conceito central aqui é o princípio da &#039;&#039;&#039;síntese criadora&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;schöpferische Synthese&#039;&#039;). Ao contrário do associacionismo britânico, Wundt afirma que o todo resultante possui propriedades que não estão contidas na mera soma das partes. Essa síntese não é um processo mecânico passivo, mas um ato aperceptivo ativo, ou seja, vinculado à vontade. Na mente humana, a combinação de elementos gera um valor novo e qualitativamente superior, marcando a distinção fundamental entre a causalidade psíquica e a mecânica física.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em termos simples, a síntese criadora estabelece que os complexos psíquicos, como representações, sentimentos compostos e afetos, embora formados pela união de elementos simples (sensações e sentimentos simples), possuem características qualitativas inteiramente novas que não pertencem a nenhum de seus elementos constituintes isolados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fusão é o processo ativo e primário de integração psíquica. É através dela que os elementos sensoriais e afetivos brutos são ativamente sintetizados pela mente para dar origem a uma nova unidade psicologicamente complexa. A fusão é a geradora da síntese criadora. Para Wundt, a síntese criadora é a prova cabal da causalidade psíquica. Ela mostra que os fenômenos mentais obedecem a leis de conexão e geração próprias que não se ajustam às leis da física ou da fisiologia mecânica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Observemos isso com um exemplo já apresentado, sobre a música. Se você tocar no piano as notas Dó, Mi e Sol isoladamente, você terá apenas a experiência de três sensações auditivas distintas. No entanto, quando essas notas são tocadas simultaneamente, a fusão de seus elementos gera na consciência uma experiência qualitativamente nova, que seria um acorde musical. O sentimento de harmonia e a qualidade estética do acorde são um produto da síntese criadora, pois não existiam em nenhuma das notas isoladas e surgem puramente da atividade unificadora da mente sobre o estímulo físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Paralelismo Psicofísico e Causalidade Psíquica ===&lt;br /&gt;
O paralelismo psicofísico foi um dos conceitos mais importantes e debatidos no século XIX durante o processo de fundação da psicologia científica. Ele surgiu como uma alternativa teórica para solucionar o clássico problema mente-corpo. O conceito foi formulado de forma a tanto o dualismo substancial, que dividia o ser humano em duas substâncias isoladas cuja forma de interação era desconhecida, quanto o materialismo reducionista, que reduzia a mente a uma mera secreção cerebral ou processo físico ou fisiológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para &#039;&#039;&#039;Fechner&#039;&#039;&#039;, o &#039;&#039;&#039;paralelismo&#039;&#039;&#039; era a manifestação de um monismo neutro, ou teoria de duplo aspecto. Ele defendia que a matéria (corpo) e o espírito (mente) não são substâncias diferentes, mas sim dois modos de aparência ou perspectivas distintas de uma única e mesma realidade subjacente, teoria sobre o qual fundamental grande parte de seu projeto científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt também adotou o termo &#039;&#039;&#039;paralelismo psicofísico&#039;&#039;&#039;, mas realizou uma redefinição epistemológica radical do conceito, visando se afastar da metafísica. Ele rejeitava categoricamente qualquer tentativa de transformar o paralelismo em uma doutrina ontológica sobre a natureza última da realidade, transformando-o estritamente um postulado metodológico e heurístico indispensável para a investigação científica. Os processos mentais não sejam reduzidos a processos fisiológicos ou neurais, pois a consciência obedece a leis de conexão próprias, como a causalidade psíquica, que não podem ser explicadas pelas leis da mecânica cerebral.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Psicologia Individual e Völkerpsychologie: dois métodos para manifestações da experiência ===&lt;br /&gt;
A arquitetura metodológica de Wundt responde ao desafio de investigar processos mentais que variam em complexidade. Ele estabelece que &#039;&#039;&#039;a psicologia deve ser compreendida como o fundamento das ciências humanas&#039;&#039;&#039; ou ciências do espírito (&#039;&#039;Geisteswissenschaften&#039;&#039;). A &#039;&#039;&#039;Psicologia Individual&#039;&#039;&#039;, na concepção de Wundt, foca nos processos elementares, que incluem sensação e percepção, que são passíveis de controle rigoroso em laboratório através da manipulação de estímulos externos e pelas técnicas da [[introspecção]] experimental e estudo da experiência interna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entretanto, Wundt reconhece a insuficiência do modelo experimental para os processos mentais superiores, como o pensamento e a linguagem, que são historicamente condicionados. Para estes, ele propõe a &#039;&#039;Völkerpsychologie&#039;&#039; , ou &#039;&#039;&#039;Psicologia dos Povos&#039;&#039;&#039;, dedicada ao estudo dos produtos das &#039;&#039;geistige Gemeinschaften&#039;&#039; (comunidades espirituais, no sentido das ciências do espírito, ou coletividades). Wundt vai apontar a linguagem, o mito e os costumes (&#039;&#039;Sitten&#039;&#039;) não são apenas dados culturais, mas objetivações de leis psíquicas superiores, inacessíveis à introspecção de laboratório. Eles seriam produtos da experiência humana nas suas formas mais avançadas e superiores e, por não serem passíveis de experimentação, exigem uma outra abordagem. Essas duas vertentes, experimental e histórico-cultural, não são divergentes, mas sim o projeto integrador que permite apreender a mente tanto em sua base sensório-motora quanto em suas manifestações espirituais complexas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As investigações da psicologia dos povos focavam na alma do povo (&#039;&#039;Volksseele&#039;&#039;), definida como a realidade factual dos processos psíquicos que surgem em uma comunidade por meio da interação das energias mentais dos indivíduos. Essa “mente coletiva” se tornava um objeto tangível e investigável ao longo da história em três grandes produtos culturais. O primeiro é a &#039;&#039;&#039;linguagem&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Die Sprache&#039;&#039;), ferramenta pela qual o pensamento é estruturado e externalizado. Já o &#039;&#039;&#039;mito e a religião&#039;&#039;&#039; são as formas como a imaginação e os sentimentos humanos coletivos projetam suas explicações sobre o cosmos e a existência. Os &#039;&#039;&#039;costumes&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Sitten&#039;&#039;) e o &#039;&#039;&#039;direito&#039;&#039;&#039;, por sua vez, são  as regras de conduta coletiva que nascem de atos voluntários e impulsos compartilhados, padronizando as interações sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não podia realizar experimentos com culturas inteiras, Wundt operava por meio da pura &#039;&#039;&#039;observação retrospectiva e comparativa dos produtos mentais&#039;&#039;&#039;, ou seja, analisando os objetos já criados e usados ou em uso por diferentes povos e culturas, anotando suas diferenças e semelhanças. Wundt juntava, lia e analisava de forma exaustiva relatos históricos, estudos filológicos, dicionários, mitologias comparadas, códigos de leis e descrições etnológicas e antropológicas de povos ao redor do globo, ou seja, utilizava dos estudos de diferentes ciências humanas e sociais para extrair as leis psicológicas gerais do desenvolvimento mental humano por trás dessas manifestações. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seu objetivo era mapear como a mente coletiva evoluía do simples para o complexo ao longo das eras, numa abordagem genética e desenvolvimentista e reconstruir, de forma retrospectiva, as forças dinâmicas, os afetos, os impulsos (&#039;&#039;Triebe&#039;&#039;) e os processos de síntese criadora (melhor discutida mais adiante) que estiveram ativos na mente das pessoas no momento de sua formação. Wundt dedicou os últimos 20 anos de sua vida (de 1900 a 1920) quase exclusivamente a esse empreendimento monumental, escrevendo dez volumes sobre o assunto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O que Aconteceu Depois? ===&lt;br /&gt;
No final de sua vida, Wilhelm Wundt era visto de forma ambivalente. Enquanto mantinha o prestígio de fundador da psicologia científica, uma nova geração de psicólogos que buscava se firmar, via como um “pai tribal”, cujo longo domínio de mais de quatro décadas estava desgastado. Ele se tornou o alvo de críticas severas e passou a ser tratado por muitos como o ícone de um passado superado e falido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante a Primeira Guerra Mundial e nos anos que a sucederam, a reputação internacional de Wundt sofreu graves danos. Influenciado por seu filho Max, Wundt adotou posturas políticas ultranacionalistas, chegando a usar a &#039;&#039;Völkerpsychologie&#039;&#039; de maneira tendenciosa para criticar os inimigos da Alemanha. Essa postura inflamou um forte preconceito anti-alemão, especialmente nos Estados Unidos, onde ex-alunos e intelectuais americanos passaram a ver ele como uma mente maligna e autoritária, acelerando a rejeição de suas obras em solo estrangeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A maior frustração de Wundt no fim da vida ocorreu no âmbito acadêmico alemão. Ele sempre defendeu que a psicologia era uma ciência propedêutica e uma aliada indispensável da filosofia, devendo permanecer integrada a esta. No entanto, os filósofos acadêmicos de sua época, especialmente os neokantianos e fenomenologistas, rejeitaram veementemente o  que chamavam de “&#039;&#039;&#039;[[psicologismo]] de Wundt&#039;&#039;&#039;”, ou seja, a redução da lógica e da validade do conhecimento a fatos psicológicos. Em 1913, após a contratação de um psicólogo experimental para a cadeira de filosofia em Marburg, mais de cem professores de filosofia assinaram um &#039;&#039;&#039;protesto público exigindo que psicólogos fossem banidos dos departamentos de filosofia&#039;&#039;&#039;. Esse movimento resultou no progressivo divórcio institucional entre a psicologia e a filosofia, uma separação que Wundt lamentou e combateu até a sua morte em 1920.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir da década de 1890, uma forte onda de positivismo, inspirada pela filosofia de Ernst Mach e Richard Avenarius, varreu a psicologia experimental. Jovens psicólogos, incluindo os assistentes do próprio Wundt, rejeitaram conceitos fundamentais do sistema de Leipzig, como a apercepção, a causalidade psíquica e a síntese criadora, tomando eles como metafísica, exatamente o oposto do que desejava seu formulador. Eles preferiam um modelo elementarista e reducionista, focado na descrição de relações funcionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos EUA, a influência da teoria da evolução de Darwin deslocou o interesse da estrutura da consciência para as suas funções de adaptação ao meio, o chamado funcionalismo. Com o surgimento e o fortalecimento do behaviorismo e a eliminação da mente como objeto de estudo, o voluntarismo de Wundt perdeu qualquer espaço. Na Europa, a própria psicologia da Gestalt ergueu-se combatendo o elementarismo que havia sido falsamente associado a Wundt. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O golpe final veio após a Primeira Guerra Mundial, quando a Alemanha mergulhou em colapso econômico. Diante da “&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;”, os pesquisadores precisaram provar a utilidade prática da ciência que praticavam para sobreviver, o que já acontecia nos EUA, voltando-se para a psicologia militar, industrial, educacional e clínica. &#039;&#039;&#039;Wundt, que sempre desprezou a psicologia aplicada&#039;&#039;&#039;, teria visto seu sistema dinâmico de laboratório perder todo o fôlego diante das pressões pragmáticas da época, ainda que mantivesse sua fama e sua alcunha maior. Ironicamente, um dos principais defensores da psicologia puramente laboratorial, foi quem escreveu a obra mais bem-sucedida de história da psicologia, servindo de parâmetro para o campo por décadas, ou seja, [[Edwin Boring]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia Científica na Inglaterra ==&lt;br /&gt;
O surgimento da psicologia na Inglaterra seguiu um caminho bastante distinto do modelo laboratorial alemão, focado na introspecção e na busca de leis universais. A psicologia britânica formou-se na intersecção de duas grandes forças intelectuais, que são as filosofias empirista e associacionista, e a biologia evolutiva. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No empirismo, pensadores como John Locke postularam que a mente humana nasce como uma tabula rasa ou uma folha em branco, e que absolutamente todo o conhecimento deriva da experiência sensorial. No associacionismo, filósofos como David Hume, James Mill e John Stuart Mill afirmavam processos mentais complexos são formados pela associação contínua de ideias simples e sensações, governadas por leis lógicas. tais como similaridade, contiguidade e causa e efeito. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A despeito de sua rica tradição filosófica, o maior divisor de águas para a ciência britânica foi a publicação de A Origem das Espécies, em 1859. A teoria da evolução natural de Darwin, trouxe novas e profundas questões para o estudo da mente britânica. Se humanos e animais compartilham ancestrais comuns, argumentava-se que deveria haver uma continuidade não apenas física, mas também mental entre as espécies, conectando a psicologia ao estudo da zoologia, dando origem à Psicologia Comparada. Além disso, a mente e a consciência deixaram de ser vistas apenas como objetos metafísicos e passaram a ser estudadas como ferramentas biológicas de adaptação, que evoluíram porque ajudavam o organismo a sobreviver em seu ambiente, sendo fundamental para a criação do funcionalismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a validação da biologia evolutiva, o estudo da inteligência animal explodiu no Reino Unido, George Romanes foi um dos primeiros a tentar sistematizar o comportamento animal. Contudo, seu método anedótico foi duramente criticado por ser antropomórfico, ou seja, por atribuir pensamentos e emoções humanas complexas a animais. Seu colega Conwy Lloyd Morgan introduziu mais rigor científico à área através do que ficou mundialmente conhecido como o Cânone de Morgan, ou princípio da parcimônia. A regra dizia que um comportamento animal não deve ser interpretado como resultado de uma faculdade mental superior se puder ser explicado por um processo psicológico mais básico, como o instinto ou o aprendizado por tentativa e erro. Apesar de a perspectiva de ambos ter sido abandonada, a Psicologia Comparada se tornou um dos principais ramos da psicologia moderna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Francis Galton e a Psicologia Diferencial ===&lt;br /&gt;
Francis Galton (1822-1911) foi um cientista e polímata britânico de inteligência extraordinária, com um QI estimado por volta de 200, algo extremamente raro, além de ser primo de Charles Darwin. Galton é amplamente reconhecido como pioneiro ao incorporar o estudo sistemático das diferenças individuais e da herança mental na nova psicologia, uma área que era ignorada ou rejeitada por pioneiros experimentalistas como Wilhelm Wundt.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Galton interessou-se pela medição das variações da inteligência e das capacidades humanas. Ele fundou um laboratório antropométrico onde testou a acuidade sensorial, a força e os tempos de reação de milhares de pessoas. Além disso, baseando-se na premissa empirista de John Locke de que todo o conhecimento vem da percepção, Galton assumiu que os indivíduos mais inteligentes seriam aqueles com as capacidades sensoriais e motoras mais aguçadas. Ele foi o inventor do conceito de testes mentais, termo posteriormente cunhado por seu aluno dos EUA, James McKeen Cattell. Galton também desenvolveu o método experimental de associação de palavras, medindo o tempo de reação mental e demonstrando a enorme influência das experiências da infância e do inconsciente no pensamento adulto, um trabalho que impressionou profundamente Sigmund Freud. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também foi um dos primeiros a fazer uso amplo do questionário psicológico para investigar imagens mentais, constatando para sua própria surpresa que a maioria dos cientistas relatava ausência de imagens mentais nítidas, em contraste com relatos muito mais detalhados fornecidos por mulheres e crianças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para conduzir medições em larga escala, ele inventou vários instrumentos clássicos e, para analisar suas enormes bases de dados, Galton desenvolveu conceitos estatísticos fundamentais, como a correlação. Essa tradição quantitativa foi depois aperfeiçoada por outros britânicos, como Charles Spearman, criador da análise fatorial e do conceito de fator g de inteligência geral, fundando a base da psicometria moderna. e influenciando de forma decisiva a psicologia dos testes nos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Conclusão ==&lt;br /&gt;
A história da psicologia é definida pelo paradoxo de ter um “longo passado” e uma “curta história”, podendo ir do De Anima de Aristóteles até a a fundação do laboratório de Wilhelm Wundt na Universidade de Leipzig, em 1879. A psicologia, assim, mostra que tem uma rica história, com muitos personagens, conceitos e acontecimentos importantes, de modo que qualquer narrativa sobre sua composição elegerá heróis e vilões, dará mais relevância para alguns, menos para outros e o esquecimento para a maioria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O texto propõe que Immanuel Kant foi uma figura central na composição da psicologia científica. Ele propôs que a mente humana é um agente ativo que organiza o conhecimento através de estruturas a priori, tais como o tempo, o espaço e as categorias do entendimento. Assim, ele introduziu o conceito de “sujeito transcendental” como a estrutura universal que garante a unidade da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Kant impôs um “veto” ao status científico da psicologia, defendendo a base na matematização. A superação desse veto ocorreu através da “naturalização” de Kant pela fisiologia. Johannes Müller, com a Teoria das Energias Nervosas Específicas, mostrou que a sensação é mediada pelo sistema nervoso, não sendo uma cópia fiel do mundo externo. Hermann von Helmholtz avançou essa ideia ao postular que as estruturas a priori de Kant seriam, na verdade, características da anatomia e fisiologia humanas. Ele propôs o conceito de “inferências inconscientes” para explicar como interpretamos dados sensoriais. Nesse contexto, Friedrich Albert Lange defendeu uma “psicologia sem alma”, rejeitando a metafísica e argumentando que o estudo científico deve focar apenas nas aparências e fenômenos observáveis, reduzindo o objeto da psicologia a dados empíricos e correlações fisiológicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner foi crucial ao oferecer a base matemática e experimental que faltavam, por meio da Lei de Weber-Fechner. Ele também padronizou e melhorou métodos para o estudo dos limites e constantes sensoriais, que se tornaram a base metodológica da psicologia experimental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt não apenas fundou um laboratório, como também arquitetou um sistema complexo. Para Wundt, o objeto da psicologia é a experiência imediata, criando conceitos como voluntarismo, causalidade psíquica, apercepção, entre outros. Além disso, ele também criou a psicologia dos povos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente do foco laboratorial alemão, a psicologia britânica foi moldada pela filosofia empirista e, crucialmente, pela teoria da evolução de Charles Darwin. Neste contexto, Galton ganha destaque, por ter fundado o laboratório antropométrico, inventado o conceitos de “testes mentais”, pelo uso de estatísticas no estudo da psicologia e ter influenciado o desenvolvimento da psicometria e a análise fatorial (com Charles Spearman), consolidando uma tradição que focava mais na variabilidade genética e na inteligência do que na estrutura da consciência em si.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_surgimento_da_psicologia_cient%C3%ADfica&amp;diff=1750</id>
		<title>O surgimento da psicologia científica</title>
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		<updated>2026-09-05T14:11:31Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* Arquitetura da Mente: Elementos, Fusão e Síntese Criadora */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto [[Portal História da Psicologia]]) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um longo passado, uma curta história ==&lt;br /&gt;
A psicologia tem um longo passado, mas uma curta história. Esta é uma frase muito famosa no campo da história da psicologia, tendo sido consagrada por Hermann Ebbinghaus, um psicólogo alemão pioneiro no estudo da memória, ainda no século XIX. A frase é exemplar e muito usada em debates sobre a historiografia da psicologia, e isto revela como é difícil dizer quando a psicologia teve início. Ela tem um &#039;&#039;&#039;longo passado&#039;&#039;&#039;, porque os temas que consideramos hoje como parte da psicologia aparecem muitas vezes na filosofia, na religião, em saberes tradicionais, entre muitos outros lugares, ao longo da história. É difícil estabelecer qual &#039;&#039;&#039;o objeto de estudo da história da psicologi&#039;&#039;&#039;a, assim como é difícil, ao longo da história, &#039;&#039;&#039;separar o que é  psicologia daquilo que não é psicologia&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse longo passado pode remontar, por exemplo, à Antiguidade, com o tratado De Anima, de Aristóteles, que escreveu muito antes de se imaginar o próprio conceito de ciência moderna e, menos ainda, de uma psicologia moderna. Outros podem colocar o início da psicologia com Descartes, que elaborou a máxima, também famosa, “penso, logo existo”. Isso mostra que &#039;&#039;&#039;os objetos de estudo da psicologia são historicamente construídos&#039;&#039;&#039;, ou seja, emergem a partir dos locais ou pessoas que atuaram na psicologia, como na medida das diferenças individuais, as dinâmicas de controle num laboratório, nas práticas de psicoterapia, entre muitas outras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se cada historiador localiza o passado da psicologia em lugares diferentes no tempo e no espaço, a &#039;&#039;&#039;história da psicologia&#039;&#039;&#039;, por seu lado, tem uma definição bem mais estável e curta. Nos anos 1980, historiadores reunidos num congresso nos EUA definiram que &#039;&#039;&#039;a psicologia científica começou em 1879, quando [[Wilhelm Wundt]] fundou o primeiro laboratório de psicologia experimental na Universidade de Leipzig, na Alemanha&#039;&#039;&#039;. Essa definição está consagrada e é quase um consenso, porém, não foi tão simples estabelecê-la. Alguns advogavam pelo pioneirismo de outro alemão, [[Gustav T. Fechner|Gustav Theodor Fechner]], criador da chamada [[psicofísica]], de onde vieram muitos dos experimentos e ideias de Wundt. Outros ainda queriam que [[William James]], um filósofo e psicólogo americano, fosse reconhecido como fundador, pois seu laboratório de psicologia era ainda mais antigo que o de Wundt que, no final, venceu essa disputa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Resumindo, a psicologia possui um “longo passado”, com raízes filosóficas e religiosas milenares e altamente diversas, e uma “curta história” como disciplina científica, cujo marco está situado em 1879, com a fundação do primeiro laboratório experimental por Wilhelm Wundt, na Alemanha. Pelo menos é assim que, atualmente, a grande maioria dos historiadores entende a questão, uma das poucas em que há algum conceito neste campo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Presentismo ===&lt;br /&gt;
Mas o que seriam essas psicologias anteriores a essa psicologia científica? Para entender melhor essa história, é preciso refletir para superar, da melhor forma, um problema chamado &#039;&#039;&#039;presentismo&#039;&#039;&#039;, ou seja, julgar, entender, interpretar e analisar o passado com a visão do presente. Não é apenas uma questão de olhar para as pessoas do passado e superar o pensamento de que elas eram “ignorantes”, pois “não tinham o conhecimento que temos hoje”. É entender também que, no passado, haviam formas de conhecimentos diferentes, bem como visões de mundo diferentes da atual. Este é um problema fascinante. Muitos dos consensos contemporâneos, coisas que entende-se totalmente óbvias, eram vistas de forma completamente diferente no passado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo interessante é o &#039;&#039;&#039;conceito de atenção&#039;&#039;&#039;. Hoje, ela é um tema tão discutido e consensual que pouco se reflete sobre seu significado. Atualmente, seria algo como centralizar as faculdades mentais ou talvez a percepção em um ponto específico. Pode-se ouvir as pessoas reclamando da própria falta de atenção, que “não conseguem prestar atenção”, ou que nunca “mantém a atenção”, e até mesmo existem medicamentos para resolver esse problema. Contudo, a palavra “atenção” nem sempre significou o que entendemos hoje. Para [[Santo Agostinho]], atenção era apenas o ato de passar de um pensamento para outro. [[René Descartes|Descartes]] tinha um conceito mais parecido com o contemporâneo, onde a atenção era mobilizada de forma voluntária para fixar e reter na memória coisas raras e extraordinárias que o entendimento considerava úteis. Na obra de [[John Locke|Locke]], a atenção é mencionada apenas de passagem, como um mero mecanismo auxiliar da retenção de memórias. A partir do momento em que a ciência passou a entender que a percepção depende da estrutura física e biológica do corpo, com a psicofísica e a fisiologia sensorial, já no século XIX, a visão passou a ser encarada como intrinsecamente incompleta, instável e condicionada pelo tempo. Nesse contexto, a atenção foi utilizada como um substituto pragmático para garantir a coerência do mundo percebido. Autores do final do século XIX, como [[Théodule Ribot]] e [[Max Nordau]], associaram os desvios ou a fraqueza da atenção a patologias psíquicas, comportamentos sociopáticos e teorias da “degeneração”. Para eles, uma atenção defeituosa deixava a mente à mercê de “associações caóticas”, gerando uma visão borrada e distorcida da realidade. Foi apenas na década de 1950 que a nossa compreensão contemporânea de atenção começou a se delinear, paralelamente aos estudos sobre os medicamentos desenvolvidos para tratar as suas disfunções.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma pessoa desavisada, que não está atenta às grandes diferenças entre as ideias e conceitos ao longo do tempo, poderia ler um trecho de Ribot, Santo Agostinho, Descartes e outros e achar que a atenção sobre a qual eles falam é a mesma coisa que entendemos hoje. O leitor estaria totalmente enganado, a ponto de não conseguir nem mesmo compreender o que estes pensadores queriam dizer. Em outras palavras, &#039;&#039;&#039;o esforço para entender as psicologia do passado passa também pelo esforço de entender como se pensava no passado, qual a visão que se tinha nesse passado&#039;&#039;&#039;. Parte do esforço do historiador é trazer esses aspectos de volta ao presente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O sujeito transcedental de Kant ==&lt;br /&gt;
A concepção de uma psicologia ocupada especificamente com a “mente” humana e suas operações começou a ganhar contornos modernos no século XVIII com o filósofo [[Christian Wolff]]. Ele dividiu a psicologia em [[Psicologia Empírica (livro)|&#039;&#039;&#039;Psicologia Empírica&#039;&#039;&#039;]], num livro publicado em  1732 e baseada na introspecção; e em &#039;&#039;&#039;Psicologia Racional&#039;&#039;&#039;, numa obra de 1734, dedicada a deduzir a natureza e a essência da alma, como sua imortalidade e imaterialidade, de forma puramente lógica e racional, independentemente da experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, o projeto de Wolff enfrentava um sério problema metodológico: a chamada observação interna ou [[introspecção]]. Quando se estuda um fenômeno natural, como a chuva, é necessário observar tudo que está envolvido com estee fenômeno, incluindo como as nuvens se formam, qual a umidade do ar, a intensidade dos raios solares, a direção dos ventos, entre muitos outros fatores. A questão é que todos estes aspectos são &#039;&#039;&#039;externos ao sujeito&#039;&#039;&#039;. Toda a ciência é feita dessa forma, observando, testando e analisando o mundo que está fora dos indivíduos. O problema está em estudar algo que é interno aos sujeitos. Não se pode observar diretamente o que se passa na cabeça de alguém, pelo menos não por enquanto. Contudo, é possível analisar o que se passa nas nossas próprias cabeças. Isso seria a &#039;&#039;&#039;introspecção&#039;&#039;&#039;, ou seja, o processo pelo qual adquirimos conhecimento sobre nossos próprios estados ou processos mentais Apesar de ser uma ideia interessante, fazer introspecção não era considerado algo muito científico. Entendia-se que “observar a si mesmo” distorcia os eventos mentais, pois o sujeito que observa e o objeto observado são o mesmo, o que impediria a neutralidade exigida pelo modelo científico então vigente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até a segunda metade do século XVIII, as teorias do conhecimento, que incluíam o empirismo e o racionalismo, compartilhavam a premissa de que o conhecimento era determinado pelo objeto a ser conhecido. A ideia era a de que objeto estava lá, esperando a melhor forma de ser conhecido. &#039;&#039;&#039;Kant&#039;&#039;&#039;, em sua obra [[Crítica da Razão Pura (livro)|Crítica da Razão Pura]] (1781), inverteu essa lógica de forma radical. Ele propôs que &#039;&#039;&#039;não é o conhecimento que se adequa aos objetos, mas são os objetos que são determinados pelo sujeito&#039;&#039;&#039;. O conhecimento passou a ser compreendido não como uma recepção passiva, mas como uma produção ativa do chamado sujeito transcendental, moldada por suas formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;sujeito transcendental&#039;&#039;&#039; em Kant não se refere propriamente a um indivíduo empírico ou psicológico, ou seja, alguém com personalidade e história pessoal. Pense no sujeito transcendental não como “você” (André ou Maria), mas como o “sistema operacional” universal da mente humana. Assim como um software organiza os dados que chegam do teclado, convertendo eles em coisas numa tela, o sujeito transcendental organiza os dados que chegam dos sentidos, como o tempo e o espaço, antes mesmo de termos consciência deles.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o sujeito transcedental, é preciso fazer um importante exercício de abstração, visando conseguir entender algo que está além da experiência existencial individual e entender aquilo que molda essa própria experiência. O sujeito transcedental de Kant é, segundo ele próprio, uma condição universal de possibilidade para qualquer conhecimento. Em outras palavras, é algo que todas as pessoas possuem e é a forma que o ser humano tem para saber as coisas. É a estrutura ativa da mente que organiza a experiência antes mesmo que possamos refletir sobre ela. Esse sujeito é o princípio unificador que garante a coerência dos dados sensoriais, transformando o caos de impressões oriundas dos órgãos dos sentidos em uma experiência significativa e estruturada. Através das formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039; da sensibilidade (espaço e tempo) e das categorias do entendimento, o sujeito transcendental “constrói” o objeto conhecido. Ele é o “Eu penso” cartesiano, que deve poder acompanhar todas as nossas representações, conferindo unidade à consciência. Em suma, &#039;&#039;&#039;não conhecemos o mundo como ele é em si, mas como o sujeito transcendental o molda e o organiza para que se torne inteligível para nós&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Immanuel Kant revolucionou a teoria do conhecimento ao postular que a mente humana não funciona como um receptáculo passivo de impressões sensoriais, mas sim como um agente ativo dotado de estruturas constitutivas a priori que organizam, unificam e interpretam a matéria-prima da experiência. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas ideias de Kant, o processo de constituição do conhecimento dos fenômenos que chegam para nossa mente a partir dos órgãos dos sentidos articula-se em três instâncias fundamentais. A primeira são as formas puras da sensibilidade, depois vem os conceitos puros do entendimento, ou seja, as categorias e, por fim, a unidade sintética da apercepção. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas &#039;&#039;&#039;formas puras da sensibilidade&#039;&#039;&#039;, antes mesmo que o intelecto possa aplicar qualquer conceito, o caos das sensações brutas é necessariamente ordenado no espaço e no tempo, que não são propriedades das coisas em si, mas intuições puras da sensibilidade que funcionam como os eixos coordenados onde os fenômenos são dados. Ou seja, as informações dos sentidos já chegam num espaço e num tempo para o resto do processo de constituição do conhecimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma vez colocados no espaço e estruturados numa sucessão e simultaneidade temporal, esses dados passam pelas &#039;&#039;&#039;doze categorias do entendimento puro&#039;&#039;&#039;. Essas categorias se dividem em &#039;&#039;&#039;quatro classes de tríades&#039;&#039;&#039;: quantidade, qualidade, relação e modalidade. As &#039;&#039;&#039;categorias&#039;&#039;&#039; representam as regras lógicas puras, fundamentais e necessárias para tornar qualquer objeto da experiência inteligível. Elas podem ser observadas de forma simplificada na tabela a seguir:&lt;br /&gt;
{| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot;&lt;br /&gt;
|Classe de Categorias&lt;br /&gt;
|Categoria 1 (Tese)&lt;br /&gt;
|Categoria 2 (Antítese)&lt;br /&gt;
|Categoria 3 (Síntese)&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|1. Quantidade&lt;br /&gt;
|Unidade&lt;br /&gt;
|Pluralidade&lt;br /&gt;
|Totalidade&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|2. Qualidade&lt;br /&gt;
|Realidade&lt;br /&gt;
|Negação&lt;br /&gt;
|Limitação&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|3. Relação&lt;br /&gt;
|Substância e Acidente&lt;br /&gt;
|Causa e Efeito&lt;br /&gt;
|Ação Recíproca&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|4. Modalidade&lt;br /&gt;
|Possibilidade (Impossibilidade)&lt;br /&gt;
|Existência (Não-existência)&lt;br /&gt;
|Necessidade (Contingência)&lt;br /&gt;
|}&lt;br /&gt;
As categorias de quantidade dizem respeito à extensão em que aplicamos um conceito aos objetos, ou seja, “quantos” elementos estamos considerando no juízo. Na unidade, temos um único objeto. Na pluralidade, trazemos vários objetos do mesmo tipo para um conjunto. Já a totalidade surge quando pensamos a pluralidade como uma unidade completa.Vejamos um exemplo. Quando um observador vê uma maçã, aplica a categoria da unidade, ou seja, ele viu uma maçã. Ao ver várias maçãs espalhadas na mesa, apreende uma pluralidade, ou seja, ele tem um conceito de “maçãs” e as vê como um conjunto. Porém, ao formular uma lei universal, aplica-se a totalidade, que engloba toda a pluralidade possível sob uma única regra conceitual, ou seja, todas as maçãs são frutas e existem vários tipos de maçãs.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade trata da atribuição de um predicado, ou seja, se a experiência afirma algo, nega algo ou se situa num limite conceitual. Em outras palavras, é a forma da mente definir “como algo é”. A realidade é afirmação de que um predicado pertence a um ser, ou seja, ele é alguma coisa. A negação é a afirmação de que o predicado não pertence a algo, ou seja, um “não-ser”. A limitação é a síntese das duas anteriores. Atribui-se uma negação como se fosse uma realidade, excluindo aquilo de uma esfera, mas deixando infinita a esfera onde ele pode estar. Vamos a um exemplo. Dizer “O homem é mortal” aplica a categoria de realidade (afirma-se um atributo). Dizer “O homem não é mortal” aplica a negação. No entanto, dizer “A alma é não-mortal (imortal)” é um juízo infinito clássico de Kant que evoca a limitação. Não sabemos o que a alma é de fato, mas a limitamos removendo ela da esfera das coisas mortais, o que a situa num campo aberto e indeterminado de possibilidades.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Consideradas por muitos comentadores como o coração da epistemologia kantiana, as categorias de relação definem como os objetos se relacionam entre si e como permanecem ou mudam no tempo. Substância e Acidente referem-se àquilo que permanece através da mudança (substância) e as propriedades que são transitórias, ou seja, que mudam (acidentes). Um exemplo disso é a água de um lago que congela no inverno. Seu estado físico muda do líquido para o sólido, que é o acidente, mas a matéria da água em si, a substância, permanece inalterada. Sem a categoria de substância, nossa mente registraria apenas uma sucessão caótica de imagens, sem reconhecer que se trata da mesma “coisa” sofrendo alteração. A Causa e Efeito é a relação estritamente necessária onde um evento segue outro no tempo. O exemplo de Kant, em resposta ao filósofo David Hume, é sobre o sol que ilumina uma pedra, e a pedra esquenta. Hume diria que inferimos causalidade por mero hábito psicológico, ou seja, não há conexão necessária, apenas uma observação e uma intuição. Kant argumenta que o próprio fato de distinguirmos uma sucessão objetiva de eventos exige que a mente aplique a categoria a priori de Causalidade. A mente “dita” a regra estrutural de que o aquecimento necessariamente sucede a irradiação solar, colocando uma como causa da outra. Já na Ação Recíproca (Comunidade), tem-se a relação simultânea de mútua influência entre múltiplas substâncias no espaço como, por exemplo, a interação gravitacional entre a Terra e a Lua. Elas não são eventos sucessivos no tempo, mas existem simultaneamente e influenciam-se de modo contínuo e bidirecional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, temos as categorias modais. Eles são os Postulados do Pensamento Empírico e não acrescentam nenhum atributo novo ao objeto em si, mas definem exclusivamente como esse objeto ou evento se relaciona com o sujeito cognitivo e suas faculdades. No caso da Possibilidade-Impossibilidade, é algo que concorda com as condições formais, que são as condições lógicas e puras da experiência. No binômio Existência-Não-existência, é algo que está dado materialmente na intuição empírica, ou seja, nos sentidos. Já na Necessidade-Contingência, é algo cuja conexão com a experiência empírica está determinada por condições universais. Vamos a um exemplo. Um dragão voador de escamas verdes ou um triângulo cujos ângulos somam 180 graus são conceitos logicamente possíveis, ou seja, não envolvem contradição formal. No entanto, apenas um objeto sensorialmente verificável, como a caneta sobre a sua mesa, tem a marca da existência. Já o fato de que um objeto massivo abandonado no ar cairá em direção ao solo é uma necessidade ditada pelas leis empíricas que o entendimento prescreve à natureza, ou seja, atribui a ele.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Acima dessas estruturas, Kant postulou a apercepção ou apercepção transcendental, que é o processo pelo qual a mente unifica de forma ativa diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Sem a apercepção, a mente seria apenas um amontoado de estímulos desconectados. Assim, a aperceção a base da própria consciência humana. Devido a essa complexa mediação ativa da mente, Kant estabeleceu uma distinção insuperável entre o mundo externo e a mente. Isso significa dizer que nós não temos acesso à “coisa em si”, ou noumenon, mas apenas a como as coisas nos aparecem, ou seja, na forma de fenômeno, já devidamente processadas pelo nosso aparato cognitivo. Neste sentido, É importante distinguir o “Eu empírico”, ou seja, aquilo que observamos em nós mesmos, como nossa personalidade ou o nosso humor, do “Eu transcendental”, a pura unidade lógica do “Eu penso”. Ademais, a apercepção transcendental não é uma faculdade psicológica de “prestar atenção”, mas uma exigência lógica. Para que uma experiência seja minha, o “Eu penso” deve poder acompanhar todas as minhas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Os Vetos Kantianos à Psicologia Científica ===&lt;br /&gt;
Apesar de ter colocado o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que conhece, no centro do universo epistemológico, Kant foi muito crítico sobre a possibilidade de a psicologia se tornar uma ciência. Em sua obra Princípios metafísicos da ciência da natureza, de 1786, ele negou a possibilidade de uma psicologia científica, pois afirmou que uma disciplina só poderia Sê-lo se possuísse uma elaboração racional capaz de fornecer leis formuladas matematicamente, o que poderia ser chamado de veto matemático. A psicologia falhava nesse critério porque os eventos mentais possuem apenas a dimensão do tempo, sem nenhuma extensão espacial, o que impossibilitaria a sua matematização. Para Kant, assim como o espaço é a forma do sentido externo, o tempo é a forma pura do sentido interno. Como os estados mentais só se dão na sucessão do tempo (sem extensão espacial), eles não formam figuras nem podem ser medidos geometricamente, inviabilizando a matemática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Kant apontou a impossibilidade de isolar diferentes pensamentos para a realização de experimentos controlados. Assim, como não podemos acessar o que seria o conteúdo da mente, cercá-la e analisá-la como ela é em seu estado bruto ou natural, qualquer experimentação seria impossível, o que poderia ser chamado de veto do objeto. Por fim, ele reforçou a crítica que já era direcionada a Wolff, aquele do começo dessa seção. A introspecção como método, segundo Kant, seria inviável porque a própria tentativa de observar um fenômeno interno altera o fenômeno, o veto metodológico. Se tento observar minha própria tristeza, por exemplo, o fenômeno original desaparece e se transforma em “tristeza-sendo-observada-por-mim”, misturando sujeito e objeto de tal maneira que corrompe a objetividade. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A impossibilidade de uma psicologia científica não significava, contudo, a impossibilidade de estudar a mente e o comportamento. Kant trabalhou e lecionou com o que chamou de Antropologia Pragmática. Enquanto a psicologia empírica tentava, em vão, segundo ele, ser uma ciência exata, a antropologia pragmática estudava “o que o homem, como ser livre, faz, ou pode e deve fazer de si mesmo”. Era um estudo prático do comportamento, das paixões, da memória e da cognição, focado na vida em sociedade. De certo modo, pode-se dizer que Kant fechou a porta para a psicologia mecanicista, ou ainda, uma psicologia como ciência exata, mas ajudou a abrir uma janela imensa para as ciências humanas e sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Emergência do Neokantismo Fisiológico e as Primeiras Aproximações para a Psicologia Científica ==&lt;br /&gt;
A primeira metade do século XIX na Alemanha foi inicialmente dominada pelo Idealismo Pós-Kantiano (Hegel, Fichte, Schelling), que propunha sistemas metafísicos grandiosos onde a realidade era essencialmente racional e espiritual. Contudo, a partir da década de 1850, o forte avanço das ciências naturais, como a fisiologia e a química, gerou uma importante reação materialista, consolidados nas figuras de Feuerbach, Vogt, Büchner e outros, que passaram a ridicularizar a filosofia idealista como mera especulação vazia. A metafísica, vista como uma das glórias da filosofia e do pensamento humano, passou a ser vista cada vez mais como um discurso com pouco ou nenhum lastro na realidade. Essa mudança foi muito importante para a história da psicologia científica, pois foi devido a esse contexto que foram formulados os primeiros experimentos voltados para o que seria, no futuro, a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Johannes Müller e a Teoria das Energias Nervosas Específicas ===&lt;br /&gt;
Neste período, a fisiologia se estabeleceu como uma ciência rigorosa e extremamente respeita, liderada por figuras como Johannes Müller. Müller, professor na Universidade de Berlim, publicou seu Manual de Fisiologia Humana (1833-1840), que sistematizou o conhecimento fisiológico da época e transformou a compreensão da percepção. Até o final do século XVIII, ela era explicada pela Teoria da impressão da sensação, derivada da física newtoniana e do empirismo britânico. Esse modelo assumia que o sistema nervoso era um meio homogêneo e passivo que simplesmente “transportava” as qualidades dos objetos externos para a mente, como se a sensação fosse uma cópia exata do estímulo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Johannes Müller revolucionou esse entendimento ao formular a Teoria das energias nervosas específicas (1826). Ele provou, através de experimentos, que a estimulação de um determinado nervo sensorial sempre provoca uma sensação característica e exclusiva daquele nervo, independentemente da natureza do estímulo físico externo. Em outras palavras, a qualidade da sensação não pertence ao objeto físico, mas sim à estrutura do próprio aparato sensorial humano. O mesmo estímulo pode produzir sensações completamente diferentes dependendo de qual via nervosa é ativada. Por exemplo, ao aplicar sal na pele, na língua e nos olhos, as sensações serão totalmente distintas, todas diretamente relacionadas às especificidades do aparelho sensorial que foi ativado. É importante entender que isso não acontece por conta da especificidade das características do estímulo, como o sal ser “salgado”. A pele produz apenas sensações táteis, ainda que o estímulo não seja tátil. Isso cria um problema de confiança naquilo que percebemos sensorialmente, pois mostra que os órgãos não enviam apenas propriedades dos objetos, mas antes operam apenas de modo específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Müller, por meio de experimentos, mostrou que os objetos físicos projetam imagens invertidas na retina, mas nós os percebemos na posição correta. Ele mostrou também que, embora as imagens projetadas nas duas retinas sejam levemente diferentes, o cérebro as unifica em uma única imagem tridimensional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas descobertas trouxeram Kant para o terreno da biologia, inclusive pelo próprio Müller que, apesar de não ser neokantiano, viu suas descobertas científicas influenciarem profundamente a primeira geração deles. O sistema nervoso não é um receptor passivo, antes, ele medeia, molda e traduz ativamente a realidade externa. A sensação deixou de ser vista como uma cópia do mundo e passou a ser um enigma, que pode ser analisado a partir da seguinte pergunta: “o que existe entre o estímulo físico e a sensação subjetiva?”. Este é o mundo do primeiro projeto de psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Hermann von Helmholtz e o Neokantismo Psicofisiológico ===&lt;br /&gt;
A ponte definitiva entre a epistemologia kantiana e a prática laboratorial foi construída por um antigo aluno de Johannes Müller, Hermann von Helmholtz (1821-1894). Ele colaborou no desenvolvimento do neokantismo psicofisiológico ou neokantismo fisiológico. Ele entendeu que as descobertas de seu professor forneciam a base material exata para a teoria do conhecimento de Kant. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1855, Helmholtz argumentou que as estruturas a priori propostas por Kant como condições de possibilidade da experiência eram, na verdade, características da anatomia e da fisiologia do aparato perceptivo humano. Ao “naturalizar” a filosofia de Kant, Helmholtz formulou a sua teoria dos signos, que postula que nossas sensações e percepções não são cópias diretas da realidade, mas sim símbolos ou signos gerados pelo nosso sistema nervoso em resposta aos estímulos. Para explicar como construímos uma imagem coerente e espacial do mundo a partir desses signos neurológicos isolados, Helmholtz introduziu o conceito de inferências inconscientes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo essa teoria, a mente realiza uma série de ajustes e cálculos automáticos, baseados na experiência e na aprendizagem contínua, para interpretar os dados sensoriais. A percepção de profundidade, a posição espacial e a resolução de duas imagens retinianas em uma única visão estereoscópica não são inatas, como defendia o nativismo de Ewald Hering ou o próprio Müller, mas são aprendidas empiricamente através do movimento do corpo e da repetição das sensações. O espaço perceptivo atua como uma linguagem que a mente usa para interpretar os dados fisiológicos brutos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com isso, Helmholtz fundou o projeto de uma psicologia fisiológica autônoma, diferente da psicologia filosófica discutida na época. Ele concordou com Kant que a introspecção tradicional era um método falho, que podia conduzir a ilusões porque o observador só capta a superfície consciente do pensamento. A solução de Helmholtz foi submeter o sujeito da experiência a condições de laboratório rigorosamente controladas. Se as condições da percepção dependem de mecanismos fisiológicos, então a única forma de fazer epistemologia científica é através da experimentação fisiológica e da ótica. O sujeito do conhecimento tornou-se, assim, um objeto, que poderia ser manipulado e analisado em laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Suas contribuições não acabam por aí. Antes das pesquisas de Helmholtz, a comunidade científica acreditava que o impulso nervoso era instantâneo ou rápido demais para ser mensurado. Em 1850, estimulando um nervo motor na perna de uma rã e medindo o tempo da contração muscular, ele obteve o registro da velocidade de condução neural, que é de aproximadamente 27 metros por segundo, provando que havia “algo” entre o estímulo e a percepção que poderia ser analisado cientificamente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também mediu o tempo de reação de nervos sensoriais em humanos. Essa descoberta provou que o pensamento e o movimento corporal não ocorrem simultaneamente, mas são separados por um intervalo de tempo mensurável. Essa foi a base que abriu caminho para os experimentos de tempo de reação e cronometria mental que dominariam o laboratório de Wundt décadas depois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== F. A. Lange e o Projeto de uma “Psicologia Sem Alma” ===&lt;br /&gt;
O segundo pilar desse “retorno a Kant”, também de matriz fisiológica, foi erguido pelo filósofo e sociólogo Friedrich Albert Lange (1828-1875). Lange foi uma figura central na “controvérsia materialista” que agitava a Alemanha. Ele rejeitava tanto os “delírios” dos sistemas idealistas metafísicos quanto o reducionismo ingênuo do materialismo científico de Vogt e Büchner. Em sua influente obra História do Materialismo, de 1866, Lange defendeu que a limitação proposta por Kant é absoluta, ou seja, não temos e nem nunca teremos acesso à essência última da realidade, às coisas em si. Nosso conhecimento se restringe aos efeitos das coisas, ou seja, os fenômenos, que nos aparecem totalmente moldados pela nossa organização mental e neurológica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Lange argumentou que a impossibilidade de conhecer a essência não impede o estudo científico rigoroso das “aparências”, ou seja, sobre como as coisas nos aparecem. Para viabilizar esse estudo, Lange atacou as psicologias filosóficas do passado, que versavam debates que ele ele entendia estéreis sobre a natureza, a imortalidade e a substancialidade da “alma”. Para Lange, a alma era um conceito vazio, um “mito antigo” que forçava a psicologia a operar sobre pressupostos metafísicos inverificáveis. Em resposta, ele propôs a criação de uma psicologia sem alma, ou, em outras palavras, uma psicologia sem metafísica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste novo paradigma, o objeto de estudo da psicologia deveria ser reduzido aos dados empíricos observáveis, incluindo a sensação, a percepção, a ação e a linguagem, sempre buscando o seu correlato fisiológico. Lange rejeitou a introspecção puramente filosófica, pois a auto-observação isolada é privada, não pode ser repetida, não permite a presença de observadores externos e leva invariavelmente a ilusões verbais. Segundo ele, essa introspecção conduzia o pesquisador a substancializar conceitos como “vontade” ou “pensamento”, sem nenhum lastro empírico ou experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A única saída para a psicologia tornar-se verdadeiramente científica era abraçar a metodologia das ciências naturais. Apoiando-se no trabalho de Helmholtz e nas medições pioneiras de psicofísicos como Ernst Weber e Gustav Fechner, Lange prescreveu que a psicologia deveria investigar as leis fisiológicas da percepção e medir a correlação exata entre estímulos físicos e respostas sensoriais, como nos tempos de reação e nos limiares diferenciais. A psicologia passava a ser entendida não como a ciência do espírito transcendente, mas como a ciência psicofisiológica que estuda experimentalmente as condições de possibilidade da experiência, trazendo o sujeito transcendente de Kant para uma fisiologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fechner e a Fundação da Psicofísica ===&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner (1801–1887) foi um físico e metafísico alemão e antigo aluno de Weber. Apesar de não ser um neokantiano, ele tem uma importância fundamental para este momento da fundação da psicologia experimental, tendo sido citado e adotado por neokantianos. Ele assumiu a prestigiada e importante cadeira de física da Universidade de Leipzig em 1834, enquanto produzia sátiras sobre temas metafísicos e artísticos sob um pseudônimo. Após uma série de experimentos em que observava diretamente o Sol, feriu gravemente suas retinas, evento que o conduziu a um colapso físico e mental. Teve uma recuperação milagrosa em 1843, quando tentou observar flores em seu jardim e, por meio de uma experiência mística, observou que a natureza brilhava de dentro para fora, de onde concluiu que o universo era dotado de alma e consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esssa experiência decisiva levou-o a dedicar sua vida ao combate do materialismo científico, que ele denominava visão noturna, que via o mundo como uma matéria inerte e sem vida. Já a sua visão diurna entendia que a matéria era a manifestação da consciência universal divina, uma cosmovisão espiritualista que pode ser entendida como panpsiquista, ou seja, todos os corpos físicos possuem uma forma de alma. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi buscando provar sua visão que Fechner entendeu que poderia provar empiricamente a relação entre a mente (ou o espírito) e o corpo (ou a matéria) se encontrasse uma relação matemática constante entre a intensidade do estímulo físico e a magnitude da sensação psíquica correspondente. Isso porque Fechner percebeu que um aumento na intensidade do estímulo físico não gerava um aumento equivalente e proporcional na sensação subjetiva. A relação não era linear, mas sim proporcional, pois o estímulo físico aumentava em uma progressão geométrica, enquanto a sensação psíquica crescia em uma progressão aritmética. Por exemplo, acrescentar o som de um sino a outro que já está tocando gera um forte impacto perceptivo, pois é possível distinguir claramente que passou-se de um para dois sinos. Já acrescentar um sino a uma dezena deles produz uma alteração quase imperceptível. A sensação dependia, portanto, do nível de estimulação já existente no sistema.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para dar sustentação empírica à sua teoria, Fechner apropriou-se dos trabalhos experimentais realizados por Weber, que havia formulado a teoria da diferença mínima perceptível, demonstrando que a sensibilidade humana não avaliava diferenças absolutas entre estímulos, mas sim relações relativas ou proporcionais. Weber observou que, ao levantar pesos, os sujeitos conseguiam detectar uma variação mínima correspondente a uma fração constante de aproximadamente 1:40 em relação ao peso padrão. Essa constância proporcional é descrita pela chamada Lei de Weber:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
II=K&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde I representa a intensidade do estímulo padrão (que aparecerá como R posteriormente), ΔI é o acréscimo mínimo necessário para produzir uma mudança perceptível na sensação e k é uma constante matemática específica para cada modalidade sensorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Fechner percebeu que essa fração constante (ΔI/I) correspondia à unidade de medida da sensação subjetiva (dS). Utilizando o cálculo infinitesimal, Fechner integrou matematicamente a equação de Weber, assumindo que todas as diferenças mínimas perceptíveis eram subjetivamente iguais entre si. Essa operação matemática resultou na célebre Lei de Fechner ou Lei de Weber-Fechner:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
S = k Log R&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde S representa a magnitude da sensação subjetiva (qualidade mental), R representa a intensidade física do estímulo (qualidade material) e K é uma constante experimental ajustada a cada sentido. Essa fórmula logarítmica foi construída para mostrar que, para a sensação aumentar linearmente, o estímulo físico precisava crescer exponencialmente, estabelecendo uma relação exata e mensurável entre o psíquico e o físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para aplicar sua fórmula, Fechner sistematizou dois conceitos fundamentais que estruturam as medições psicofísicas. A primeira é o limiar absoluto, ou seja, o ponto de intensidade física mínima abaixo do qual o estímulo não é detectado pelo sujeito e acima do qual a sensação passa a ser percebida. Outro conceito é o de limiar diferencial, que é a quantidade mínima de alteração ou variação que deve ser aplicada a um estímulo para que o sujeito seja capaz de discriminar uma mudança na sensação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um desdobramento fascinante da Lei de Fechner ocorreu quando o estímulo físico apresentava valores abaixo do limiar absoluto (R&amp;lt;1), resultando em valores negativos para a sensação (S). Fechner definiu esses valores como sensações negativas ou subliminares, postulando a existência de processos mentais ativos abaixo do limiar da consciência desperta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para determinar com precisão científica os limiares absolutos e diferenciais, Fechner desenvolveu e padronizou três metodologias experimentais rigorosas, que se tornaram os pilares metodológicos de toda a psicologia experimental posterior. No Método do Erro Médio ou do Ajuste, o próprio sujeito experimental manipula ativamente um instrumento para ajustar um estímulo variável até que sinta que este se iguala a um estímulo padrão constante. A média dos desvios entre os ajustes do sujeito e o padrão real define o erro de observação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já no Método do Estímulo Constante ou dos Casos Corretos e Incorretos, o pesquisador apresenta de forma aleatória uma série de estímulos pré-determinados e constantes em comparação com um estímulo padrão. O sujeito deve julgar se o estímulo de comparação é maior, menor ou igual ao padrão, medindo-se a proporção estatística de acertos. Por fim, no Método dos Limites ou das Diferenças Mínimas Perceptíveis, dois estímulos são apresentados ao sujeito. Um deles é aumentado ou reduzido sistematicamente em passos discretos e graduais, e o sujeito relata o momento exato em que deixa de perceber ou passa a perceber a diferença entre ambos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1860, Fechner publicou seu livro monumental, Elementos de Psicofísica, que alguns entendem ser o primeiro sobre a psicologia científica experimental. Ao fornecer à psicologia técnicas de medição coerentes e precisas, Fechner provou de forma contundente que a mente humana era passível de investigação científica e experimental, sepultando em definitivo o antigo veto imposto por Immanuel Kant, em pleno momento de desenvolvimento do Neokantismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Incomodados com as inclinações metafísicas e espiritualistas de Fechner, os psicólogos experimentais subsequentes, sob a liderança de Wilhelm Wundt, rejeitaram completamente o panpsiquismo entre outras ideias, apropriando-se exclusivamente de seus métodos quantitativos de laboratório para estabelecer a psicologia como uma ciência empírica e natural. Como bem observou o historiador Edwin G. Boring, Fechner agiu como um “Colombo que descobriu um Novo Mundo (a psicologia científica) enquanto procurava pelas antigas Índias (a prova de sua metafísica)”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Resumindo ===&lt;br /&gt;
A intersecção entre a epistemologia kantiana, a fisiologia de Müller e a reformulação promovida por Helmholtz e Lange constituiu o início daquilo que tornou possível a psicologia científica. Kant havia mostrado que o sujeito constrói ativamente a realidade, mas negou que esse sujeito pudesse ser estudado matematicamente ou experimentalmente. Müller transferiu a estrutura ativa da mente para os nervos sensoriais específicos. Helmholtz e Lange reinterpretaram as pesadas categorias transcendentais de Kant como mecanismos biológicos e perceptivos operando através de inferências inconscientes e leis fisiológicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao “naturalizar” a Crítica da Razão Pura, o Neokantismo Psicofisiológico resolveu o veto de Kant a uma psicologia científica. Se os limites e as formas do nosso conhecimento são determinados pelo nosso sistema nervoso e sensorial, então o estudo epistemológico da mente deve ser feito no laboratório de fisiologia, estudando principalmente a percepção. A exigência de matematização foi superada pelas leis da psicofísica de Fechner e Weber, e o problema da introspecção descontrolada foi resolvido pelo uso de instrumentos de precisão, como cronoscópios, além de métodos de medidas de limiar, controle de estímulos, erros médios, entre outros, que transformavam as respostas subjetivas em dados objetivos, replicáveis e mensuráveis. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse foi o cenário epistemológico e institucional que Wilhelm Wundt encontrou e ajudou a consolidar. Wundt não fundou a psicologia a partir do nada em 1879. Seu Instituto em Leipzig foi organização metodológica e teórica de décadas de esforços em que a filosofia foi obrigada a dialogar com os nervos, os músculos e os tempos de reação, transformando para sempre a especulação sobre a alma em uma rigorosa ciência da experiência imediata. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ironicamente, escolas neokantianas posteriores, como a Escola de Marburgo, foram focos de resistência à psicologia experimental, alegando que o sujeito do conhecimento de Kant era de ordem puramente transcendental e lógica, e não empírica ou mensurável, ou seja, rejeitando a “biologização” do pensamento kantiano e a consequente criação da psicologia experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, conforme mostra Gundlach, a criação de uma posição acadêmica e o laboratório de psicologia por Wundt não se deu por conta de um amplo reconhecimento da superioridade do pensamento wundtano, mas sim por conta de disputas políticas e institucionais nas universidades alemãs. De qualquer forma, Wundt conseguiu desenvolver bem sua teoria ao longo de sua vida e conseguiu estabelecer-se na proeminência da psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia de Wundt ==&lt;br /&gt;
[[Wilhelm Wundt|Wilhelm Maximilian Wundt]] é, na historiografia da psicologia, uma figura ao mesmo tempo onipresente e pouco compreendida. Freqüentemente reduzido ao título de “fundador do laboratório de Leipzig”, essa simplificação negligencia sua estatura como um dos últimos grandes arquitetos de sistemas do século XIX, cujo &#039;&#039;Systemgedanke&#039;&#039; (pensamento sistêmico) buscava integrar a psicologia como uma propedêutica fundamental para a filosofia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Recuperar o Wundt original exige preencher uma vasta lacuna historiográfica. A primeira envolve apontar as conhecidas e muitas das distorções da tradução de [[Titchener|E.B. Titchener]] para o contexto anglo-americano, que foi formulada para aproximar suas ideias e pdasdaquelas de Wundt, visando uma “confirmação” do pensamento de Titchener. Wundt não era um estruturalista ou associacionista clássico e seu sistema é essencialmente dinâmico e centrado no &#039;&#039;&#039;voluntarismo&#039;&#039;&#039;. Para Wundt, a vontade e os processos afetivos não são meros epifenômenos, ou seja, um fenômenos secundários ou acessórios que acompanhma um fenômeno principal, mas o eixo organizador da consciência ativa. Esta reconstrução crítica visa resgatar a autonomia epistemológica de uma ciência que define seu objeto não como uma substância, mas como a experiência em sua totalidade imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Experiência conforme Wundt ===&lt;br /&gt;
Para Wilhelm Wundt, a experiência é concebida como um todo unitário e coerente. As duas abordagens da experiência que ele propõe não se deve a uma diferença ontológica, mas como dois pontos de vista distintos e complementares que permite sua abordagem científica, que ele separa entre Experiência Mediata e Experiência Imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experiência Mediata ====&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Experiência Mediata&#039;&#039;&#039; é a experiência objetiva) está &#039;&#039;&#039;focada nos objetos do mundo externo&#039;&#039;&#039;. Ela foca exclusivamente nos objetos do mundo externo, abstraindo o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que sabe, que tem conhecimento. A Experiência Mediata seria o ponto de vista característico das ciências naturais, como física, química e fisiologia. A ciência natural opera por meio de uma abstração sistemática, pois ela coloca o sujeito cognoscente &amp;quot;entre parênteses&amp;quot; e analisa apenas os objetos externos pensados, como se existissem de maneira totalmente independente de quem os percebe. É chamada de &amp;quot;mediata&amp;quot; porque &#039;&#039;&#039;nosso acesso a tais objetos é sempre indireto&#039;&#039;&#039;, ou seja, precisa de mediação, pois é dependente de conceitos abstratos, inferências teóricas e construções conceituais auxiliares para representá-los. Por um lado, o estímulo físico é intermediado pelos limites anatômicos e biológicos do nosso aparato perceptivo, ou seja, temos os limites e capacidades da nossa percepção. No caso da visão, por exemplo, não vemos os raios ultravioleta e infravermelho, pois não estão no expecto da luz visível, mas vemos as cores e suas combinações. Por outro lado, para constituir a &amp;quot;realidade objetiva&amp;quot;, o cientista natural precisa utilizar conceitos teóricos auxiliares e construções hipotéticas, como átomos, ondas eletromagnéticas e forças gravitacionais, que não são dados imediatamente na percepção sensível mas que podem ser vistos experimentalmente e por meio de instrumentos e aparatos científicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wundt critica assim o empirismo tradicional e o associacionismo. A doutrina do empirismo diz que a mente como página em branco, conforme a formulação de John Locke e sua &#039;&#039;tabula rasa&#039;&#039;. Neste caso, a mente seria progressivamente preenchida pelas impressões do mundo exterior (sensação) e pelas operações internas (reflexão). David Hume radicaliza o princípio empírico, postulando que as impressões são os átomos cognitivos fundamentais e as ideias nada mais são do que cópias atenuadas ou lembranças dessas impressões na memória e na imaginação. Já o associacionismo constitui a hipótese de que as ideias simples e discretas se combinam para formar pensamentos complexos, juízos e raciocínios abstratos. Se o empirismo fornece os blocos de construção, o associacionismo descreve a &amp;quot;força de atração&amp;quot; que os une. Conforme sistematizado por Hume e, depois, desenvolvido por Hartley e James Mill, a mente transita espontaneamente de uma ideia para outra por meio de regras regulares de associação, como a semelhança, a contiguidade no tempo e as relações de causa e efeito.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para Wundt, ambos erraram, pois transferiam as características dos objetos externos da física, como a solidez, os limites rígidos e a permanência estática, para os conteúdos conscientes, passando a tratar as representações (&#039;&#039;Vorstellungen&#039;&#039;) como coisas ou &amp;quot;átomos mentais&amp;quot;. Na física, o foco recai sobre o objeto substantivo. Contudo, segundo Wundt, a consciência não contém objetos estáveis. Ele parte de uma diferença fundamental que os psicofísicos e outros haviam apontado, que é aquela entre o mundo externo e o mundo percebido, ou ainda, entre as coisas e suas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em resumo, a Experiência Mediata se aproxima dos objetos estáveis do mundo externo e de como eles nos chegam. Na experiência mediata, o cientista da natureza pode retornar quando quiser ao mesmo objeto físico estável (uma pedra ou um elemento químico) para observá-lo repetidamente, ainda que o observador em si esteja sempre em mudança.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experiência Imediata, o Objeto de Estudo da Psicologia ====&lt;br /&gt;
Ao definir seu objeto, Wundt deu um passo decisivo para dar à psicologia autonomia perante as outras ciências naturais. Ele propõe que a experiência é uma unidade indivisível. Mas o que ele quer dizer por &#039;&#039;&#039;experiência&#039;&#039;&#039;? Uma definição poderia ser a totalidade dos processos conscientes, englobando sensações, sentimentos, representações e volições (vontades), apreendida da exata forma como se apresenta diretamente ao sujeito, sem qualquer abstração conceitual ou mediação de instrumentos externos. Ou seja, a experiência de Wundt seria como tudo o que se passa na mente, exatamente como ela aparece para uma pessoa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;O domínio da psicologia seria a experiência imediata&#039;&#039;&#039;, subjetiva, que é a experiência em sua realidade concreta, direta e intuitiva, apreendida antes de qualquer conceituação, teorização ou abstração. Ou seja, é a experiência antes de ela adquirir qualquer camada de compreensão, que seriam mediadores, por isso é imediata, &#039;&#039;&#039;sem mediação&#039;&#039;&#039;. Ela envolve o processamento de elementos sensoriais simples, como cor, som, temperatura, e de sentimentos simples, como prazer e desprazer. Ela diz respeito ao modo puro de funcionamento mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vamos a um exemplo, desta vez no campo do acústica. Na perspectiva mediata, o cientista natural abstrai o sujeito e estuda o som de forma indireta e conceitual. Ele utiliza aparelhos para medir as ondas sonoras e a sua propagação física pelo ar. O objeto físico “som” é, portanto, mediado e traduzido por conceitos de frequência, amplitude e decibéis. Já sob a perspectiva imediata, que é a da psicologia, o psicólogo estuda a sensação direta e em si mesma do tom no momento exato em que ele aparece na consciência. A análise está na vivência concreta do sujeito, que inclui a qualidade do tom, a sua intensidade subjetiva, a tonalidade afetiva de prazer ou desprazer que o acompanha e o processo ativo da atenção (apercepção, que será tratada mais adiante) que coloca aquele som no foco da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se olharmos desta vez para a cromática, na visão mediata, ciência natural estuda o azul abstraindo a experiência do sujeito. A física o descreverá de forma conceitual como uma radiação eletromagnética com determinado comprimento de onda atingindo a retina. A fisiologia se debruçará sobre o funcionamento dos tecidos dos olhos quando estimulados com a cor azul em suas nuances. Para a psicologia de Wundt, o azul é investigado como um dado imediato e real na consciência do sujeito no momento da percepção interna. O foco não está nas propriedades físicas do estímulo, mas sim na reação subjetiva e ativa do cérebro vivo a esse estímulo, que gera a qualidade imediata da cor na experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conduzindo seus estudos, Wundt também identificou aquilo que denominou &#039;&#039;&#039;causalidade psíquica&#039;&#039;&#039;. Ao nos lembrarmos de um fato triste, por exemplo, a fisiologia explicaria a tristeza de forma conceitual e indireta, por meio de correntes elétricas no córtex cerebral, liberação de hormônios ou atividade de sinapses nervosas. Já o psicólogo numa linha wundtiana observa a conexão de processos internos como elas ocorrem diretamente na consciência do sujeito, como a ligação da lembrança triste a um sentimento de angústia. A causalidade psíquica é uma causalidade própria da mente e irredutível às leis físicas da natureza, ou seja, não pode ser comparada à causalidade física como a conhecemos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao adotar a experiência como seu objeto, Wundt rompe com a psicologia da alma, filosófica e metafísica. Ele substitui a psicologia de substâncias, que postula uma entidade mental oculta, pela &#039;&#039;&#039;teoria da atualidade&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Aktualitätstheorie&#039;&#039;), na qual o psiquismo é definido como um fluxo de processos em constante devir. Seu sistema está fundamentado em um &#039;&#039;&#039;monismo perspectivista&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, para ele, mente e corpo não são substâncias que interagem mecanicamente, mas perspectivas distintas sobre a mesma unidade da experiência (&#039;&#039;Erfahrung&#039;&#039;). A psicologia, portanto, não estuda um “mundo interno”, que está isolado do externo, ainda que em contato com ele, mas a totalidade da experiência humana sob o prisma da imediatidade. Essa transição do estatuto de substância “mente” ou algo semelhante para o de processo traz uma nova perspectiva, criando um objeto que pode ser alvo de experimentação científica, partindo de experimentos já criados pela psicofísica e ainda outros que seriam desenvolvidos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Apercepção ===&lt;br /&gt;
No contexto filosófico, como já visto, o conceito de apercepção remonta a Kant, que a definiu como o processo autônomo, ativo e prévio pelo qual a mente unifica diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Wundt adotou essa noção kantiana para fundamentar sua teoria da consciência, definindo &#039;&#039;&#039;apercepção&#039;&#039;&#039; como o processo psicológico ativo pelo qual um conteúdo psíquico (ou representação) é trazido à &#039;&#039;&#039;clareza máxima e ao foco da consciência&#039;&#039;&#039;, vindo necessariamente acompanhado pelo estado de atenção voluntária.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para explicar a dinâmica da consciência, Wundt utilizou uma famosa analogia com a visão para diferenciar apercepção e percepção. O campo visual da consciência (&#039;&#039;Blickfeld&#039;&#039;) corresponde à percepção, que é a simples entrada de uma representação na consciência de forma difusa, ampla e sem a presença focalizada da atenção. Já o ponto focal da consciência (&#039;&#039;Blickpunkt&#039;&#039;) corresponde à apercepção, que é a entrada de uma representação no ponto central de máxima clareza e foco estreito da atenção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A apercepção, então, é uma &#039;&#039;&#039;manifestação primordial da vontade&#039;&#039;&#039;, funcionando como o princípio dinâmico que dá direção e estrutura tanto à experiência quanto ao movimento. Além disso, a apercepção pode ser ativa, que é quando o sujeito deliberadamente seleciona onde focará sua atenção, ou passiva, quando é o estímulo que se impõe no foco no sujeito. Por fim, a apercepção é o mecanismo central da operação da causalidade psíquica. É ela que unifica a mente em um sistema ativo, permitindo que a fusão de elementos resulte em sínteses criadoras com propriedades qualitativamente novas e imprevisíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Percepção Interna (innere Wahrnehmung) vs. Auto-observação (Selbstbeobachtung) ===&lt;br /&gt;
Para garantir o rigor procedimental e responder ao “desafio kantiano”, Wundt rejeitou a &#039;&#039;Selbstbeobachtung&#039;&#039;, que pode ser entendida como a &#039;&#039;&#039;auto-observação tradicional&#039;&#039;&#039; ou introspecção casual. Trata-se do método introspectivo puramente filosófico e especulativo que, segundo Wundt e outros, seria fonte de auto-ilusões. No momento em que o sujeito tenta observar ativamente o curso de seus próprios processos mentais complexos, a atenção que ele direciona para si mesmo altera, deforma ou suprime o próprio fenômeno em curso. Na reflexão puramente interna, é impossível garantir que o mesmo estado mental se repita de forma idêntica, impedindo a replicação intersubjetiva e a formulação de leis científicas gerais &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A solução científica é a &#039;&#039;innere&#039;&#039; &#039;&#039;Wahrnehmung&#039;&#039;, ou &#039;&#039;&#039;percepção interna&#039;&#039;&#039;, que permite a criação de um método científico baseado na repetição de estímulos externos controlados. No laboratório, o psicólogo replica condições experimentais que permitem a observação do aparecimento imediato do processo psíquico sob condições estáveis e previsíveis. O laboratório funciona, portanto, como o estabilizador do objeto psicológico, permitindo que a percepção interna atinja a precisão necessária para decompor a consciência em seus elementos fundamentais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O método de investigação da percepção interna é bem mais rigoroso. Em vez de pedir ao sujeito que reflita livremente sobre seus pensamentos, o experimentador utiliza aparelhos físicos de precisão, tais como [[Cronoscópio|cronoscópios]], pêndulos, compassos táteis, geradores de tons para controlar rigorosamente o início, a intensidade, a duração e a apresentação de estímulos externos predeterminados. Como o estímulo físico externo pode ser repetido e modificado arbitrariamente pelo pesquisador, as condições fisiológicas e sensoriais associadas à percepção interna são reproduzidas com exatidão. Com isso, o sujeito experimental pode antecipar sua atenção ao evento e captar com máxima precisão o surgimento da experiência imediata correspondente. O participante deveria ser rigorosamente treinado, muitas vezes revezando as funções de sujeito e pesquisador, e era instruído a fornecer respostas simples e verificáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Experimentos do Laboratório de Wundt ===&lt;br /&gt;
Vamos a alguns exemplos do que acontecia no laboratório de Wundt, para integrar melhor os conceitos já apresentados. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O primeiro experimento foi concebido originalmente para descrever a &#039;&#039;&#039;“equação pessoal” que aparecia nas medições dos astrônomos&#039;&#039;&#039;. O interesse neste tema surgiu quando se constatou que astrônomos treinados, utilizando os mesmos equipamentos, discordavam de suas medições que, à época, eram feitas manualmente com ajuda de instrumentos. De alguma forma, estas diferenças nas medições pareciam ter um tipo de padrão. Neste experimento, Wundt utilizava um aparelho chamado medidor de pensamento (&#039;&#039;Gedankenmesser&#039;&#039;) e, posteriormente, o pêndulo de complicação (&#039;&#039;Complicationspendel&#039;&#039;). O dispositivo consistia em um grande relógio de pêndulo que possuía uma agulha cruzada, como uma agulha de tricô, capaz de golpear fisicamente um pequeno sino em um ponto exato do seu arco de oscilação. O sujeito do experimento deveria olhar para a escala do pêndulo e tentar determinar a posição exata do ponteiro no momento em que ouvia o sino tocar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste experimento, Wundt descobriu que o sujeito sempre cometia um erro sistemático de registro, de aproximadamente um oitavo de segundo. Segundo ele, era impossível perceber visualmente a agulha e o som do sino ao mesmo tempo. Esse experimento seria uma &#039;&#039;&#039;prova laboratorial de que a consciência possui uma capacidade limitada e só consegue focar em uma única percepção por vez&#039;&#039;&#039;, como a diferença no marco da medição podia mostrar. A ilusão de simultaneidade devia-se apenas à rápida sucessão dos processos de atenção (apercepção).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os experimentos de &#039;&#039;&#039;tempo de reação&#039;&#039;&#039;, nosso segundo exemplo, constituíam o verdadeiro coração do trabalho em Leipzig na década de 1880. Wundt adaptou o método de subtração (&#039;&#039;Subtractiemethode&#039;&#039;), do fisiologista holandês F. C. Donders, para medir a velocidade de processos mentais complexos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o experimento de Wundt, é necessário compreender que, para ele, uma reação consciente envolvia: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- transmissão da sensação ao cérebro; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2- entrada do estímulo no campo amplo da consciência (percepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
3- entrada no foco ativo da atenção (apercepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
4- ato de vontade para liberar a resposta; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
5- execução motora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada um dessas partes exigem um certo tempo, pois são processos não imediatos. A depender de como as etapas do experimento são organizadas, diferentes tempos indicariam o acionamento maior ou menor de cada um deles. No experimento, o sujeito era treinado para responder pressionando uma tecla telegráfica ao ver um estímulo luminoso simples, como um &#039;&#039;flash&#039;&#039; de luz. Em seguida, vinha a tarefa mais difícil. Duas imagens eram apresentadas, um círculo branco sobre fundo preto ou vice-versa, e o sujeito só deveria reagir após identificar com clareza qual imagem havia aparecido. Ao subtrair o tempo da reação simples do tempo da reação complexa, Wundt calculava o “tempo de apercepção” ou discriminação. Na primeira tese de doutorado em psicologia experimental da história, Max Friedrich, que atuou no experimento, mostrou que o tempo de discriminação aumentava de acordo com a complexidade do estímulo visual. Por exemplo, o sujeito levava mais tempo para aperceber e discriminar uma sequência de seis dígitos do que de apenas um ou dois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O assistente de Wundt, Ludwig Lange, também colaborou no estudo ao desenvolver um experimento crucial. Ele demonstrou que os &#039;&#039;&#039;tempos de reação variavam drasticamente dependendo da preparação da atenção&#039;&#039;&#039; (no conceito moderno da palavra) do sujeito. Se a atenção estivesse focada no movimento de resposta que o dedo faria (reação muscular), o tempo era curto (cerca de 125 ms), pois funcionava como um “reflexo cerebral” que pulava a apercepção. Se o foco estivesse direcionado ao estímulo sensorial que iria surgir (reação sensorial), o tempo era cerca de 100 ms mais longo, pois envolvia o circuito completo da mente consciente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O terceiro experimento foi desenvolvido por Martin Trautscholdt, um dos estudantes de doutorado de Wundt. Ele estudava a &#039;&#039;&#039;associação de ideias&#039;&#039;&#039;. No seu estudo, o sujeito era instruído a pressionar uma tecla no momento exato em que uma ideia associada surgisse em sua consciência a partir de um estímulo visual ou auditivo. Ao subtrair o tempo que o sujeito levava para simplesmente reconhecer a palavra estimulante, Trautscholdt conseguiu quantificar o tempo gasto pela mente para realizar a conexão associativa propriamente dita que, segundo Trautscholdt, variava entre 706 e 874 ms. Wundt também adaptou a &#039;&#039;&#039;técnica de associação de palavras de Francis Galton&#039;&#039;&#039;, limitando a resposta do sujeito a apenas uma única palavra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O quarto e último experimento que será apresentado é relacionado a &#039;&#039;&#039;acordes musicais&#039;&#039;&#039;. Nele, sujeitos ouviam tons isolados no piano, que seriam as sensações puras, e depois os mesmos tons tocados simultaneamente. Os participantes descreviam em detalhes a transição afetiva de como a fusão física das frequências dava origem a um produto inteiramente novo na consciência. Este seria o sentimento estético de harmonia e o prazer decorrente de uma síntese criadora. Wundt conduzia vários experimentos em estética experimental, tal qual seu colega Fechner.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Arquitetura da Mente: Elementos, Fusão e Síntese Criadora ===&lt;br /&gt;
Segundo Wundt, &#039;&#039;&#039;a experiência pode ser decomposta em elementos simples&#039;&#039;&#039;, que incluem as sensações e os sentimentos simples. Os &#039;&#039;&#039;sentimentos&#039;&#039;&#039;, por sua vez, são entendidos a partir da &#039;&#039;&#039;teoria tridimensional dos sentimentos&#039;&#039;&#039;, onde eles se distribuem em um espaço qualitativo entre os polos prazer/desprazer (&#039;&#039;Lust-Unlust&#039;&#039;), tensão/relaxamento (&#039;&#039;Spannung-Lösung&#039;&#039;) e excitação/depressão (&#039;&#039;Erregung-Beruhigung&#039;&#039;). A primeira é a mais evidente, se refere à avaliação afetiva primária da experiência. A segunda se relaciona ao esforço da atenção ou à preparação interna da mente. Já a terceira está relacionada ao nível de ativação biológica e psicológica do organismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esses aspectos todos são organizados através do mecanismo de &#039;&#039;&#039;fusão&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Verschmelzung&#039;&#039;), onde as qualidades elementares se fundem em complexos psíquicos. O conceito central aqui é o princípio da &#039;&#039;&#039;síntese criadora&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;schöpferische Synthese&#039;&#039;). Ao contrário do associacionismo britânico, Wundt afirma que o todo resultante possui propriedades que não estão contidas na mera soma das partes. Essa síntese não é um processo mecânico passivo, mas um ato aperceptivo ativo, ou seja, vinculado à vontade. Na mente humana, a combinação de elementos gera um valor novo e qualitativamente superior, marcando a distinção fundamental entre a causalidade psíquica e a mecânica física.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em termos simples, a síntese criadora estabelece que os complexos psíquicos, como representações, sentimentos compostos e afetos, embora formados pela união de elementos simples (sensações e sentimentos simples), possuem características qualitativas inteiramente novas que não pertencem a nenhum de seus elementos constituintes isolados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fusão é o processo ativo e primário de integração psíquica. É através dela que os elementos sensoriais e afetivos brutos são ativamente sintetizados pela mente para dar origem a uma nova unidade psicologicamente complexa. A fusão é a geradora da síntese criadora. Para Wundt, a síntese criadora é a prova cabal da causalidade psíquica. Ela mostra que os fenômenos mentais obedecem a leis de conexão e geração próprias que não se ajustam às leis da física ou da fisiologia mecânica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Observemos isso com um exemplo já apresentado, sobre a música. Se você tocar no piano as notas Dó, Mi e Sol isoladamente, você terá apenas a experiência de três sensações auditivas distintas. No entanto, quando essas notas são tocadas simultaneamente, a fusão de seus elementos gera na consciência uma experiência qualitativamente nova, que seria um acorde musical. O sentimento de harmonia e a qualidade estética do acorde são um produto da síntese criadora, pois não existiam em nenhuma das notas isoladas e surgem puramente da atividade unificadora da mente sobre o estímulo físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Paralelismo Psicofísico e Causalidade Psíquica ===&lt;br /&gt;
O paralelismo psicofísico foi um dos conceitos mais importantes e debatidos no século XIX durante o processo de fundação da psicologia científica. Ele surgiu como uma alternativa teórica para solucionar o clássico problema mente-corpo. O conceito foi formulado de forma a tanto o dualismo substancial, que dividia o ser humano em duas substâncias isoladas cuja forma de interação era desconhecida, quanto o materialismo reducionista, que reduzia a mente a uma mera secreção cerebral ou processo físico ou fisiológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para &#039;&#039;&#039;Fechner&#039;&#039;&#039;, o &#039;&#039;&#039;paralelismo&#039;&#039;&#039; era a manifestação de um monismo neutro, ou teoria de duplo aspecto. Ele defendia que a matéria (corpo) e o espírito (mente) não são substâncias diferentes, mas sim dois modos de aparência ou perspectivas distintas de uma única e mesma realidade subjacente, teoria sobre o qual fundamental grande parte de seu projeto científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt também adotou o termo &#039;&#039;&#039;paralelismo psicofísico&#039;&#039;&#039;, mas realizou uma redefinição epistemológica radical do conceito, visando se afastar da metafísica. Ele rejeitava categoricamente qualquer tentativa de transformar o paralelismo em uma doutrina ontológica sobre a natureza última da realidade, transformando-o estritamente um postulado metodológico e heurístico indispensável para a investigação científica. Os processos mentais não sejam reduzidos a processos fisiológicos ou neurais, pois a consciência obedece a leis de conexão próprias, como a causalidade psíquica, que não podem ser explicadas pelas leis da mecânica cerebral.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Psicologia Individual e Völkerpsychologie: dois métodos para manifestações da experiência ===&lt;br /&gt;
A arquitetura metodológica de Wundt responde ao desafio de investigar processos mentais que variam em complexidade. Ele estabelece que &#039;&#039;&#039;a psicologia deve ser compreendida como o fundamento das ciências humanas&#039;&#039;&#039; ou ciências do espírito (&#039;&#039;Geisteswissenschaften&#039;&#039;). A &#039;&#039;&#039;Psicologia Individual&#039;&#039;&#039;, na concepção de Wundt, foca nos processos elementares, que incluem sensação e percepção, que são passíveis de controle rigoroso em laboratório através da manipulação de estímulos externos e pelas técnicas da [[introspecção]] experimental e estudo da experiência interna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entretanto, Wundt reconhece a insuficiência do modelo experimental para os processos mentais superiores, como o pensamento e a linguagem, que são historicamente condicionados. Para estes, ele propõe a &#039;&#039;Völkerpsychologie&#039;&#039; , ou &#039;&#039;&#039;Psicologia dos Povos&#039;&#039;&#039;, dedicada ao estudo dos produtos das &#039;&#039;geistige Gemeinschaften&#039;&#039; (comunidades espirituais, no sentido das ciências do espírito, ou coletividades). Wundt vai apontar a linguagem, o mito e os costumes (&#039;&#039;Sitten&#039;&#039;) não são apenas dados culturais, mas objetivações de leis psíquicas superiores, inacessíveis à introspecção de laboratório. Eles seriam produtos da experiência humana nas suas formas mais avançadas e superiores e, por não serem passíveis de experimentação, exigem uma outra abordagem. Essas duas vertentes, experimental e histórico-cultural, não são divergentes, mas sim o projeto integrador que permite apreender a mente tanto em sua base sensório-motora quanto em suas manifestações espirituais complexas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As investigações da psicologia dos povos focavam na alma do povo (&#039;&#039;Volksseele&#039;&#039;), definida como a realidade factual dos processos psíquicos que surgem em uma comunidade por meio da interação das energias mentais dos indivíduos. Essa “mente coletiva” se tornava um objeto tangível e investigável ao longo da história em três grandes produtos culturais. O primeiro é a &#039;&#039;&#039;linguagem&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Die Sprache&#039;&#039;), ferramenta pela qual o pensamento é estruturado e externalizado. Já o &#039;&#039;&#039;mito e a religião&#039;&#039;&#039; são as formas como a imaginação e os sentimentos humanos coletivos projetam suas explicações sobre o cosmos e a existência. Os &#039;&#039;&#039;costumes&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Sitten&#039;&#039;) e o &#039;&#039;&#039;direito&#039;&#039;&#039;, por sua vez, são  as regras de conduta coletiva que nascem de atos voluntários e impulsos compartilhados, padronizando as interações sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não podia realizar experimentos com culturas inteiras, Wundt operava por meio da pura &#039;&#039;&#039;observação retrospectiva e comparativa dos produtos mentais&#039;&#039;&#039;, ou seja, analisando os objetos já criados e usados ou em uso por diferentes povos e culturas, anotando suas diferenças e semelhanças. Wundt juntava, lia e analisava de forma exaustiva relatos históricos, estudos filológicos, dicionários, mitologias comparadas, códigos de leis e descrições etnológicas e antropológicas de povos ao redor do globo, ou seja, utilizava dos estudos de diferentes ciências humanas e sociais para extrair as leis psicológicas gerais do desenvolvimento mental humano por trás dessas manifestações. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seu objetivo era mapear como a mente coletiva evoluía do simples para o complexo ao longo das eras, numa abordagem genética e desenvolvimentista e reconstruir, de forma retrospectiva, as forças dinâmicas, os afetos, os impulsos (&#039;&#039;Triebe&#039;&#039;) e os processos de síntese criadora (melhor discutida mais adiante) que estiveram ativos na mente das pessoas no momento de sua formação. Wundt dedicou os últimos 20 anos de sua vida (de 1900 a 1920) quase exclusivamente a esse empreendimento monumental, escrevendo dez volumes sobre o assunto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O que Aconteceu Depois? ===&lt;br /&gt;
No final de sua vida, Wilhelm Wundt era visto de forma ambivalente. Enquanto mantinha o prestígio de fundador da psicologia científica, uma nova geração de psicólogos que buscava se firmar, via como um “pai tribal”, cujo longo domínio de mais de quatro décadas estava desgastado. Ele se tornou o alvo de críticas severas e passou a ser tratado por muitos como o ícone de um passado superado e falido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante a Primeira Guerra Mundial e nos anos que a sucederam, a reputação internacional de Wundt sofreu graves danos. Influenciado por seu filho Max, Wundt adotou posturas políticas ultranacionalistas, chegando a usar a Völkerpsychologie de maneira tendenciosa para criticar os inimigos da Alemanha. Essa postura inflamou um forte preconceito anti-alemão, especialmente nos Estados Unidos, onde ex-alunos e intelectuais americanos passaram a ver ele como uma mente maligna e autoritária, acelerando a rejeição de suas obras em solo estrangeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A maior frustração de Wundt no fim da vida ocorreu no âmbito acadêmico alemão. Ele sempre defendeu que a psicologia era uma ciência propedêutica e uma aliada indispensável da filosofia, devendo permanecer integrada a esta. No entanto, os filósofos acadêmicos de sua época, especialmente os neokantianos e fenomenologistas, rejeitaram veementemente o  que chamavam de “psicologismo de Wundt”, ou seja, a redução da lógica e da validade do conhecimento a fatos psicológicos. Em 1913, após a contratação de um psicólogo experimental para a cadeira de filosofia em Marburg, mais de cem professores de filosofia assinaram um protesto público exigindo que psicólogos fossem banidos dos departamentos de filosofia. Esse movimento resultou no progressivo divórcio institucional entre a psicologia e a filosofia, uma separação que Wundt lamentou e combateu até a sua morte em 1920.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir da década de 1890, uma forte onda de positivismo, inspirada pela filosofia de Ernst Mach e Richard Avenarius, varreu a psicologia experimental. Jovens psicólogos, incluindo os assistentes do próprio Wundt, rejeitaram conceitos fundamentais do sistema de Leipzig, como a apercepção, a causalidade psíquica e a síntese criadora, tomando eles como metafísica, exatamente o oposto do que desejava seu formulador. Eles preferiam um modelo elementarista e reducionista, focado na descrição de relações funcionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos EUA, a influência da teoria da evolução de Darwin deslocou o interesse da estrutura da consciência para as suas funções de adaptação ao meio, o chamado funcionalismo. Com o surgimento e o fortalecimento do behaviorismo e a eliminação da mente como objeto de estudo, o voluntarismo de Wundt perdeu qualquer espaço. Na Europa, a própria psicologia da Gestalt ergueu-se combatendo o elementarismo que havia sido falsamente associado a Wundt. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O golpe final veio após a Primeira Guerra Mundial, quando a Alemanha mergulhou em colapso econômico. Diante da “crise da psicologia”, os pesquisadores precisaram provar a utilidade prática da ciência que praticavam para sobreviver, o que já acontecia nos EUA, voltando-se para a psicologia militar, industrial, educacional e clínica. Wundt, que sempre desprezou a psicologia aplicada, teria visto seu sistema dinâmico de laboratório perder todo o fôlego diante das pressões pragmáticas da época, ainda que mantivesse sua fama e sua alcunha maior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia Científica na Inglaterra ==&lt;br /&gt;
O surgimento da psicologia na Inglaterra seguiu um caminho bastante distinto do modelo laboratorial alemão, focado na introspecção e na busca de leis universais. A psicologia britânica formou-se na intersecção de duas grandes forças intelectuais, que são as filosofias empirista e associacionista, e a biologia evolutiva. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No empirismo, pensadores como John Locke postularam que a mente humana nasce como uma tabula rasa ou uma folha em branco, e que absolutamente todo o conhecimento deriva da experiência sensorial. No associacionismo, filósofos como David Hume, James Mill e John Stuart Mill afirmavam processos mentais complexos são formados pela associação contínua de ideias simples e sensações, governadas por leis lógicas. tais como similaridade, contiguidade e causa e efeito. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A despeito de sua rica tradição filosófica, o maior divisor de águas para a ciência britânica foi a publicação de A Origem das Espécies, em 1859. A teoria da evolução natural de Darwin, trouxe novas e profundas questões para o estudo da mente britânica. Se humanos e animais compartilham ancestrais comuns, argumentava-se que deveria haver uma continuidade não apenas física, mas também mental entre as espécies, conectando a psicologia ao estudo da zoologia, dando origem à Psicologia Comparada. Além disso, a mente e a consciência deixaram de ser vistas apenas como objetos metafísicos e passaram a ser estudadas como ferramentas biológicas de adaptação, que evoluíram porque ajudavam o organismo a sobreviver em seu ambiente, sendo fundamental para a criação do funcionalismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a validação da biologia evolutiva, o estudo da inteligência animal explodiu no Reino Unido, George Romanes foi um dos primeiros a tentar sistematizar o comportamento animal. Contudo, seu método anedótico foi duramente criticado por ser antropomórfico, ou seja, por atribuir pensamentos e emoções humanas complexas a animais. Seu colega Conwy Lloyd Morgan introduziu mais rigor científico à área através do que ficou mundialmente conhecido como o Cânone de Morgan, ou princípio da parcimônia. A regra dizia que um comportamento animal não deve ser interpretado como resultado de uma faculdade mental superior se puder ser explicado por um processo psicológico mais básico, como o instinto ou o aprendizado por tentativa e erro. Apesar de a perspectiva de ambos ter sido abandonada, a Psicologia Comparada se tornou um dos principais ramos da psicologia moderna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Francis Galton e a Psicologia Diferencial ===&lt;br /&gt;
Francis Galton (1822-1911) foi um cientista e polímata britânico de inteligência extraordinária, com um QI estimado por volta de 200, algo extremamente raro, além de ser primo de Charles Darwin. Galton é amplamente reconhecido como pioneiro ao incorporar o estudo sistemático das diferenças individuais e da herança mental na nova psicologia, uma área que era ignorada ou rejeitada por pioneiros experimentalistas como Wilhelm Wundt.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Galton interessou-se pela medição das variações da inteligência e das capacidades humanas. Ele fundou um laboratório antropométrico onde testou a acuidade sensorial, a força e os tempos de reação de milhares de pessoas. Além disso, baseando-se na premissa empirista de John Locke de que todo o conhecimento vem da percepção, Galton assumiu que os indivíduos mais inteligentes seriam aqueles com as capacidades sensoriais e motoras mais aguçadas. Ele foi o inventor do conceito de testes mentais, termo posteriormente cunhado por seu aluno dos EUA, James McKeen Cattell. Galton também desenvolveu o método experimental de associação de palavras, medindo o tempo de reação mental e demonstrando a enorme influência das experiências da infância e do inconsciente no pensamento adulto, um trabalho que impressionou profundamente Sigmund Freud. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também foi um dos primeiros a fazer uso amplo do questionário psicológico para investigar imagens mentais, constatando para sua própria surpresa que a maioria dos cientistas relatava ausência de imagens mentais nítidas, em contraste com relatos muito mais detalhados fornecidos por mulheres e crianças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para conduzir medições em larga escala, ele inventou vários instrumentos clássicos e, para analisar suas enormes bases de dados, Galton desenvolveu conceitos estatísticos fundamentais, como a correlação. Essa tradição quantitativa foi depois aperfeiçoada por outros britânicos, como Charles Spearman, criador da análise fatorial e do conceito de fator g de inteligência geral, fundando a base da psicometria moderna. e influenciando de forma decisiva a psicologia dos testes nos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Conclusão ==&lt;br /&gt;
A história da psicologia é definida pelo paradoxo de ter um “longo passado” e uma “curta história”, podendo ir do De Anima de Aristóteles até a a fundação do laboratório de Wilhelm Wundt na Universidade de Leipzig, em 1879. A psicologia, assim, mostra que tem uma rica história, com muitos personagens, conceitos e acontecimentos importantes, de modo que qualquer narrativa sobre sua composição elegerá heróis e vilões, dará mais relevância para alguns, menos para outros e o esquecimento para a maioria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O texto propõe que Immanuel Kant foi uma figura central na composição da psicologia científica. Ele propôs que a mente humana é um agente ativo que organiza o conhecimento através de estruturas a priori, tais como o tempo, o espaço e as categorias do entendimento. Assim, ele introduziu o conceito de “sujeito transcendental” como a estrutura universal que garante a unidade da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Kant impôs um “veto” ao status científico da psicologia, defendendo a base na matematização. A superação desse veto ocorreu através da “naturalização” de Kant pela fisiologia. Johannes Müller, com a Teoria das Energias Nervosas Específicas, mostrou que a sensação é mediada pelo sistema nervoso, não sendo uma cópia fiel do mundo externo. Hermann von Helmholtz avançou essa ideia ao postular que as estruturas a priori de Kant seriam, na verdade, características da anatomia e fisiologia humanas. Ele propôs o conceito de “inferências inconscientes” para explicar como interpretamos dados sensoriais. Nesse contexto, Friedrich Albert Lange defendeu uma “psicologia sem alma”, rejeitando a metafísica e argumentando que o estudo científico deve focar apenas nas aparências e fenômenos observáveis, reduzindo o objeto da psicologia a dados empíricos e correlações fisiológicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner foi crucial ao oferecer a base matemática e experimental que faltavam, por meio da Lei de Weber-Fechner. Ele também padronizou e melhorou métodos para o estudo dos limites e constantes sensoriais, que se tornaram a base metodológica da psicologia experimental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt não apenas fundou um laboratório, como também arquitetou um sistema complexo. Para Wundt, o objeto da psicologia é a experiência imediata, criando conceitos como voluntarismo, causalidade psíquica, apercepção, entre outros. Além disso, ele também criou a psicologia dos povos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente do foco laboratorial alemão, a psicologia britânica foi moldada pela filosofia empirista e, crucialmente, pela teoria da evolução de Charles Darwin. Neste contexto, Galton ganha destaque, por ter fundado o laboratório antropométrico, inventado o conceitos de “testes mentais”, pelo uso de estatísticas no estudo da psicologia e ter influenciado o desenvolvimento da psicometria e a análise fatorial (com Charles Spearman), consolidando uma tradição que focava mais na variabilidade genética e na inteligência do que na estrutura da consciência em si.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_surgimento_da_psicologia_cient%C3%ADfica&amp;diff=1749</id>
		<title>O surgimento da psicologia científica</title>
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		<updated>2026-09-05T14:00:29Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* Experimentos do Laboratório de Wundt */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto [[Portal História da Psicologia]]) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um longo passado, uma curta história ==&lt;br /&gt;
A psicologia tem um longo passado, mas uma curta história. Esta é uma frase muito famosa no campo da história da psicologia, tendo sido consagrada por Hermann Ebbinghaus, um psicólogo alemão pioneiro no estudo da memória, ainda no século XIX. A frase é exemplar e muito usada em debates sobre a historiografia da psicologia, e isto revela como é difícil dizer quando a psicologia teve início. Ela tem um &#039;&#039;&#039;longo passado&#039;&#039;&#039;, porque os temas que consideramos hoje como parte da psicologia aparecem muitas vezes na filosofia, na religião, em saberes tradicionais, entre muitos outros lugares, ao longo da história. É difícil estabelecer qual &#039;&#039;&#039;o objeto de estudo da história da psicologi&#039;&#039;&#039;a, assim como é difícil, ao longo da história, &#039;&#039;&#039;separar o que é  psicologia daquilo que não é psicologia&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse longo passado pode remontar, por exemplo, à Antiguidade, com o tratado De Anima, de Aristóteles, que escreveu muito antes de se imaginar o próprio conceito de ciência moderna e, menos ainda, de uma psicologia moderna. Outros podem colocar o início da psicologia com Descartes, que elaborou a máxima, também famosa, “penso, logo existo”. Isso mostra que &#039;&#039;&#039;os objetos de estudo da psicologia são historicamente construídos&#039;&#039;&#039;, ou seja, emergem a partir dos locais ou pessoas que atuaram na psicologia, como na medida das diferenças individuais, as dinâmicas de controle num laboratório, nas práticas de psicoterapia, entre muitas outras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se cada historiador localiza o passado da psicologia em lugares diferentes no tempo e no espaço, a &#039;&#039;&#039;história da psicologia&#039;&#039;&#039;, por seu lado, tem uma definição bem mais estável e curta. Nos anos 1980, historiadores reunidos num congresso nos EUA definiram que &#039;&#039;&#039;a psicologia científica começou em 1879, quando [[Wilhelm Wundt]] fundou o primeiro laboratório de psicologia experimental na Universidade de Leipzig, na Alemanha&#039;&#039;&#039;. Essa definição está consagrada e é quase um consenso, porém, não foi tão simples estabelecê-la. Alguns advogavam pelo pioneirismo de outro alemão, [[Gustav T. Fechner|Gustav Theodor Fechner]], criador da chamada [[psicofísica]], de onde vieram muitos dos experimentos e ideias de Wundt. Outros ainda queriam que [[William James]], um filósofo e psicólogo americano, fosse reconhecido como fundador, pois seu laboratório de psicologia era ainda mais antigo que o de Wundt que, no final, venceu essa disputa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Resumindo, a psicologia possui um “longo passado”, com raízes filosóficas e religiosas milenares e altamente diversas, e uma “curta história” como disciplina científica, cujo marco está situado em 1879, com a fundação do primeiro laboratório experimental por Wilhelm Wundt, na Alemanha. Pelo menos é assim que, atualmente, a grande maioria dos historiadores entende a questão, uma das poucas em que há algum conceito neste campo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Presentismo ===&lt;br /&gt;
Mas o que seriam essas psicologias anteriores a essa psicologia científica? Para entender melhor essa história, é preciso refletir para superar, da melhor forma, um problema chamado &#039;&#039;&#039;presentismo&#039;&#039;&#039;, ou seja, julgar, entender, interpretar e analisar o passado com a visão do presente. Não é apenas uma questão de olhar para as pessoas do passado e superar o pensamento de que elas eram “ignorantes”, pois “não tinham o conhecimento que temos hoje”. É entender também que, no passado, haviam formas de conhecimentos diferentes, bem como visões de mundo diferentes da atual. Este é um problema fascinante. Muitos dos consensos contemporâneos, coisas que entende-se totalmente óbvias, eram vistas de forma completamente diferente no passado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo interessante é o &#039;&#039;&#039;conceito de atenção&#039;&#039;&#039;. Hoje, ela é um tema tão discutido e consensual que pouco se reflete sobre seu significado. Atualmente, seria algo como centralizar as faculdades mentais ou talvez a percepção em um ponto específico. Pode-se ouvir as pessoas reclamando da própria falta de atenção, que “não conseguem prestar atenção”, ou que nunca “mantém a atenção”, e até mesmo existem medicamentos para resolver esse problema. Contudo, a palavra “atenção” nem sempre significou o que entendemos hoje. Para [[Santo Agostinho]], atenção era apenas o ato de passar de um pensamento para outro. [[René Descartes|Descartes]] tinha um conceito mais parecido com o contemporâneo, onde a atenção era mobilizada de forma voluntária para fixar e reter na memória coisas raras e extraordinárias que o entendimento considerava úteis. Na obra de [[John Locke|Locke]], a atenção é mencionada apenas de passagem, como um mero mecanismo auxiliar da retenção de memórias. A partir do momento em que a ciência passou a entender que a percepção depende da estrutura física e biológica do corpo, com a psicofísica e a fisiologia sensorial, já no século XIX, a visão passou a ser encarada como intrinsecamente incompleta, instável e condicionada pelo tempo. Nesse contexto, a atenção foi utilizada como um substituto pragmático para garantir a coerência do mundo percebido. Autores do final do século XIX, como [[Théodule Ribot]] e [[Max Nordau]], associaram os desvios ou a fraqueza da atenção a patologias psíquicas, comportamentos sociopáticos e teorias da “degeneração”. Para eles, uma atenção defeituosa deixava a mente à mercê de “associações caóticas”, gerando uma visão borrada e distorcida da realidade. Foi apenas na década de 1950 que a nossa compreensão contemporânea de atenção começou a se delinear, paralelamente aos estudos sobre os medicamentos desenvolvidos para tratar as suas disfunções.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma pessoa desavisada, que não está atenta às grandes diferenças entre as ideias e conceitos ao longo do tempo, poderia ler um trecho de Ribot, Santo Agostinho, Descartes e outros e achar que a atenção sobre a qual eles falam é a mesma coisa que entendemos hoje. O leitor estaria totalmente enganado, a ponto de não conseguir nem mesmo compreender o que estes pensadores queriam dizer. Em outras palavras, &#039;&#039;&#039;o esforço para entender as psicologia do passado passa também pelo esforço de entender como se pensava no passado, qual a visão que se tinha nesse passado&#039;&#039;&#039;. Parte do esforço do historiador é trazer esses aspectos de volta ao presente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O sujeito transcedental de Kant ==&lt;br /&gt;
A concepção de uma psicologia ocupada especificamente com a “mente” humana e suas operações começou a ganhar contornos modernos no século XVIII com o filósofo [[Christian Wolff]]. Ele dividiu a psicologia em [[Psicologia Empírica (livro)|&#039;&#039;&#039;Psicologia Empírica&#039;&#039;&#039;]], num livro publicado em  1732 e baseada na introspecção; e em &#039;&#039;&#039;Psicologia Racional&#039;&#039;&#039;, numa obra de 1734, dedicada a deduzir a natureza e a essência da alma, como sua imortalidade e imaterialidade, de forma puramente lógica e racional, independentemente da experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, o projeto de Wolff enfrentava um sério problema metodológico: a chamada observação interna ou [[introspecção]]. Quando se estuda um fenômeno natural, como a chuva, é necessário observar tudo que está envolvido com estee fenômeno, incluindo como as nuvens se formam, qual a umidade do ar, a intensidade dos raios solares, a direção dos ventos, entre muitos outros fatores. A questão é que todos estes aspectos são &#039;&#039;&#039;externos ao sujeito&#039;&#039;&#039;. Toda a ciência é feita dessa forma, observando, testando e analisando o mundo que está fora dos indivíduos. O problema está em estudar algo que é interno aos sujeitos. Não se pode observar diretamente o que se passa na cabeça de alguém, pelo menos não por enquanto. Contudo, é possível analisar o que se passa nas nossas próprias cabeças. Isso seria a &#039;&#039;&#039;introspecção&#039;&#039;&#039;, ou seja, o processo pelo qual adquirimos conhecimento sobre nossos próprios estados ou processos mentais Apesar de ser uma ideia interessante, fazer introspecção não era considerado algo muito científico. Entendia-se que “observar a si mesmo” distorcia os eventos mentais, pois o sujeito que observa e o objeto observado são o mesmo, o que impediria a neutralidade exigida pelo modelo científico então vigente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até a segunda metade do século XVIII, as teorias do conhecimento, que incluíam o empirismo e o racionalismo, compartilhavam a premissa de que o conhecimento era determinado pelo objeto a ser conhecido. A ideia era a de que objeto estava lá, esperando a melhor forma de ser conhecido. &#039;&#039;&#039;Kant&#039;&#039;&#039;, em sua obra [[Crítica da Razão Pura (livro)|Crítica da Razão Pura]] (1781), inverteu essa lógica de forma radical. Ele propôs que &#039;&#039;&#039;não é o conhecimento que se adequa aos objetos, mas são os objetos que são determinados pelo sujeito&#039;&#039;&#039;. O conhecimento passou a ser compreendido não como uma recepção passiva, mas como uma produção ativa do chamado sujeito transcendental, moldada por suas formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;sujeito transcendental&#039;&#039;&#039; em Kant não se refere propriamente a um indivíduo empírico ou psicológico, ou seja, alguém com personalidade e história pessoal. Pense no sujeito transcendental não como “você” (André ou Maria), mas como o “sistema operacional” universal da mente humana. Assim como um software organiza os dados que chegam do teclado, convertendo eles em coisas numa tela, o sujeito transcendental organiza os dados que chegam dos sentidos, como o tempo e o espaço, antes mesmo de termos consciência deles.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o sujeito transcedental, é preciso fazer um importante exercício de abstração, visando conseguir entender algo que está além da experiência existencial individual e entender aquilo que molda essa própria experiência. O sujeito transcedental de Kant é, segundo ele próprio, uma condição universal de possibilidade para qualquer conhecimento. Em outras palavras, é algo que todas as pessoas possuem e é a forma que o ser humano tem para saber as coisas. É a estrutura ativa da mente que organiza a experiência antes mesmo que possamos refletir sobre ela. Esse sujeito é o princípio unificador que garante a coerência dos dados sensoriais, transformando o caos de impressões oriundas dos órgãos dos sentidos em uma experiência significativa e estruturada. Através das formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039; da sensibilidade (espaço e tempo) e das categorias do entendimento, o sujeito transcendental “constrói” o objeto conhecido. Ele é o “Eu penso” cartesiano, que deve poder acompanhar todas as nossas representações, conferindo unidade à consciência. Em suma, &#039;&#039;&#039;não conhecemos o mundo como ele é em si, mas como o sujeito transcendental o molda e o organiza para que se torne inteligível para nós&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Immanuel Kant revolucionou a teoria do conhecimento ao postular que a mente humana não funciona como um receptáculo passivo de impressões sensoriais, mas sim como um agente ativo dotado de estruturas constitutivas a priori que organizam, unificam e interpretam a matéria-prima da experiência. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas ideias de Kant, o processo de constituição do conhecimento dos fenômenos que chegam para nossa mente a partir dos órgãos dos sentidos articula-se em três instâncias fundamentais. A primeira são as formas puras da sensibilidade, depois vem os conceitos puros do entendimento, ou seja, as categorias e, por fim, a unidade sintética da apercepção. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas &#039;&#039;&#039;formas puras da sensibilidade&#039;&#039;&#039;, antes mesmo que o intelecto possa aplicar qualquer conceito, o caos das sensações brutas é necessariamente ordenado no espaço e no tempo, que não são propriedades das coisas em si, mas intuições puras da sensibilidade que funcionam como os eixos coordenados onde os fenômenos são dados. Ou seja, as informações dos sentidos já chegam num espaço e num tempo para o resto do processo de constituição do conhecimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma vez colocados no espaço e estruturados numa sucessão e simultaneidade temporal, esses dados passam pelas &#039;&#039;&#039;doze categorias do entendimento puro&#039;&#039;&#039;. Essas categorias se dividem em &#039;&#039;&#039;quatro classes de tríades&#039;&#039;&#039;: quantidade, qualidade, relação e modalidade. As &#039;&#039;&#039;categorias&#039;&#039;&#039; representam as regras lógicas puras, fundamentais e necessárias para tornar qualquer objeto da experiência inteligível. Elas podem ser observadas de forma simplificada na tabela a seguir:&lt;br /&gt;
{| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot;&lt;br /&gt;
|Classe de Categorias&lt;br /&gt;
|Categoria 1 (Tese)&lt;br /&gt;
|Categoria 2 (Antítese)&lt;br /&gt;
|Categoria 3 (Síntese)&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|1. Quantidade&lt;br /&gt;
|Unidade&lt;br /&gt;
|Pluralidade&lt;br /&gt;
|Totalidade&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|2. Qualidade&lt;br /&gt;
|Realidade&lt;br /&gt;
|Negação&lt;br /&gt;
|Limitação&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|3. Relação&lt;br /&gt;
|Substância e Acidente&lt;br /&gt;
|Causa e Efeito&lt;br /&gt;
|Ação Recíproca&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|4. Modalidade&lt;br /&gt;
|Possibilidade (Impossibilidade)&lt;br /&gt;
|Existência (Não-existência)&lt;br /&gt;
|Necessidade (Contingência)&lt;br /&gt;
|}&lt;br /&gt;
As categorias de quantidade dizem respeito à extensão em que aplicamos um conceito aos objetos, ou seja, “quantos” elementos estamos considerando no juízo. Na unidade, temos um único objeto. Na pluralidade, trazemos vários objetos do mesmo tipo para um conjunto. Já a totalidade surge quando pensamos a pluralidade como uma unidade completa.Vejamos um exemplo. Quando um observador vê uma maçã, aplica a categoria da unidade, ou seja, ele viu uma maçã. Ao ver várias maçãs espalhadas na mesa, apreende uma pluralidade, ou seja, ele tem um conceito de “maçãs” e as vê como um conjunto. Porém, ao formular uma lei universal, aplica-se a totalidade, que engloba toda a pluralidade possível sob uma única regra conceitual, ou seja, todas as maçãs são frutas e existem vários tipos de maçãs.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade trata da atribuição de um predicado, ou seja, se a experiência afirma algo, nega algo ou se situa num limite conceitual. Em outras palavras, é a forma da mente definir “como algo é”. A realidade é afirmação de que um predicado pertence a um ser, ou seja, ele é alguma coisa. A negação é a afirmação de que o predicado não pertence a algo, ou seja, um “não-ser”. A limitação é a síntese das duas anteriores. Atribui-se uma negação como se fosse uma realidade, excluindo aquilo de uma esfera, mas deixando infinita a esfera onde ele pode estar. Vamos a um exemplo. Dizer “O homem é mortal” aplica a categoria de realidade (afirma-se um atributo). Dizer “O homem não é mortal” aplica a negação. No entanto, dizer “A alma é não-mortal (imortal)” é um juízo infinito clássico de Kant que evoca a limitação. Não sabemos o que a alma é de fato, mas a limitamos removendo ela da esfera das coisas mortais, o que a situa num campo aberto e indeterminado de possibilidades.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Consideradas por muitos comentadores como o coração da epistemologia kantiana, as categorias de relação definem como os objetos se relacionam entre si e como permanecem ou mudam no tempo. Substância e Acidente referem-se àquilo que permanece através da mudança (substância) e as propriedades que são transitórias, ou seja, que mudam (acidentes). Um exemplo disso é a água de um lago que congela no inverno. Seu estado físico muda do líquido para o sólido, que é o acidente, mas a matéria da água em si, a substância, permanece inalterada. Sem a categoria de substância, nossa mente registraria apenas uma sucessão caótica de imagens, sem reconhecer que se trata da mesma “coisa” sofrendo alteração. A Causa e Efeito é a relação estritamente necessária onde um evento segue outro no tempo. O exemplo de Kant, em resposta ao filósofo David Hume, é sobre o sol que ilumina uma pedra, e a pedra esquenta. Hume diria que inferimos causalidade por mero hábito psicológico, ou seja, não há conexão necessária, apenas uma observação e uma intuição. Kant argumenta que o próprio fato de distinguirmos uma sucessão objetiva de eventos exige que a mente aplique a categoria a priori de Causalidade. A mente “dita” a regra estrutural de que o aquecimento necessariamente sucede a irradiação solar, colocando uma como causa da outra. Já na Ação Recíproca (Comunidade), tem-se a relação simultânea de mútua influência entre múltiplas substâncias no espaço como, por exemplo, a interação gravitacional entre a Terra e a Lua. Elas não são eventos sucessivos no tempo, mas existem simultaneamente e influenciam-se de modo contínuo e bidirecional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, temos as categorias modais. Eles são os Postulados do Pensamento Empírico e não acrescentam nenhum atributo novo ao objeto em si, mas definem exclusivamente como esse objeto ou evento se relaciona com o sujeito cognitivo e suas faculdades. No caso da Possibilidade-Impossibilidade, é algo que concorda com as condições formais, que são as condições lógicas e puras da experiência. No binômio Existência-Não-existência, é algo que está dado materialmente na intuição empírica, ou seja, nos sentidos. Já na Necessidade-Contingência, é algo cuja conexão com a experiência empírica está determinada por condições universais. Vamos a um exemplo. Um dragão voador de escamas verdes ou um triângulo cujos ângulos somam 180 graus são conceitos logicamente possíveis, ou seja, não envolvem contradição formal. No entanto, apenas um objeto sensorialmente verificável, como a caneta sobre a sua mesa, tem a marca da existência. Já o fato de que um objeto massivo abandonado no ar cairá em direção ao solo é uma necessidade ditada pelas leis empíricas que o entendimento prescreve à natureza, ou seja, atribui a ele.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Acima dessas estruturas, Kant postulou a apercepção ou apercepção transcendental, que é o processo pelo qual a mente unifica de forma ativa diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Sem a apercepção, a mente seria apenas um amontoado de estímulos desconectados. Assim, a aperceção a base da própria consciência humana. Devido a essa complexa mediação ativa da mente, Kant estabeleceu uma distinção insuperável entre o mundo externo e a mente. Isso significa dizer que nós não temos acesso à “coisa em si”, ou noumenon, mas apenas a como as coisas nos aparecem, ou seja, na forma de fenômeno, já devidamente processadas pelo nosso aparato cognitivo. Neste sentido, É importante distinguir o “Eu empírico”, ou seja, aquilo que observamos em nós mesmos, como nossa personalidade ou o nosso humor, do “Eu transcendental”, a pura unidade lógica do “Eu penso”. Ademais, a apercepção transcendental não é uma faculdade psicológica de “prestar atenção”, mas uma exigência lógica. Para que uma experiência seja minha, o “Eu penso” deve poder acompanhar todas as minhas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Os Vetos Kantianos à Psicologia Científica ===&lt;br /&gt;
Apesar de ter colocado o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que conhece, no centro do universo epistemológico, Kant foi muito crítico sobre a possibilidade de a psicologia se tornar uma ciência. Em sua obra Princípios metafísicos da ciência da natureza, de 1786, ele negou a possibilidade de uma psicologia científica, pois afirmou que uma disciplina só poderia Sê-lo se possuísse uma elaboração racional capaz de fornecer leis formuladas matematicamente, o que poderia ser chamado de veto matemático. A psicologia falhava nesse critério porque os eventos mentais possuem apenas a dimensão do tempo, sem nenhuma extensão espacial, o que impossibilitaria a sua matematização. Para Kant, assim como o espaço é a forma do sentido externo, o tempo é a forma pura do sentido interno. Como os estados mentais só se dão na sucessão do tempo (sem extensão espacial), eles não formam figuras nem podem ser medidos geometricamente, inviabilizando a matemática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Kant apontou a impossibilidade de isolar diferentes pensamentos para a realização de experimentos controlados. Assim, como não podemos acessar o que seria o conteúdo da mente, cercá-la e analisá-la como ela é em seu estado bruto ou natural, qualquer experimentação seria impossível, o que poderia ser chamado de veto do objeto. Por fim, ele reforçou a crítica que já era direcionada a Wolff, aquele do começo dessa seção. A introspecção como método, segundo Kant, seria inviável porque a própria tentativa de observar um fenômeno interno altera o fenômeno, o veto metodológico. Se tento observar minha própria tristeza, por exemplo, o fenômeno original desaparece e se transforma em “tristeza-sendo-observada-por-mim”, misturando sujeito e objeto de tal maneira que corrompe a objetividade. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A impossibilidade de uma psicologia científica não significava, contudo, a impossibilidade de estudar a mente e o comportamento. Kant trabalhou e lecionou com o que chamou de Antropologia Pragmática. Enquanto a psicologia empírica tentava, em vão, segundo ele, ser uma ciência exata, a antropologia pragmática estudava “o que o homem, como ser livre, faz, ou pode e deve fazer de si mesmo”. Era um estudo prático do comportamento, das paixões, da memória e da cognição, focado na vida em sociedade. De certo modo, pode-se dizer que Kant fechou a porta para a psicologia mecanicista, ou ainda, uma psicologia como ciência exata, mas ajudou a abrir uma janela imensa para as ciências humanas e sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Emergência do Neokantismo Fisiológico e as Primeiras Aproximações para a Psicologia Científica ==&lt;br /&gt;
A primeira metade do século XIX na Alemanha foi inicialmente dominada pelo Idealismo Pós-Kantiano (Hegel, Fichte, Schelling), que propunha sistemas metafísicos grandiosos onde a realidade era essencialmente racional e espiritual. Contudo, a partir da década de 1850, o forte avanço das ciências naturais, como a fisiologia e a química, gerou uma importante reação materialista, consolidados nas figuras de Feuerbach, Vogt, Büchner e outros, que passaram a ridicularizar a filosofia idealista como mera especulação vazia. A metafísica, vista como uma das glórias da filosofia e do pensamento humano, passou a ser vista cada vez mais como um discurso com pouco ou nenhum lastro na realidade. Essa mudança foi muito importante para a história da psicologia científica, pois foi devido a esse contexto que foram formulados os primeiros experimentos voltados para o que seria, no futuro, a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Johannes Müller e a Teoria das Energias Nervosas Específicas ===&lt;br /&gt;
Neste período, a fisiologia se estabeleceu como uma ciência rigorosa e extremamente respeita, liderada por figuras como Johannes Müller. Müller, professor na Universidade de Berlim, publicou seu Manual de Fisiologia Humana (1833-1840), que sistematizou o conhecimento fisiológico da época e transformou a compreensão da percepção. Até o final do século XVIII, ela era explicada pela Teoria da impressão da sensação, derivada da física newtoniana e do empirismo britânico. Esse modelo assumia que o sistema nervoso era um meio homogêneo e passivo que simplesmente “transportava” as qualidades dos objetos externos para a mente, como se a sensação fosse uma cópia exata do estímulo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Johannes Müller revolucionou esse entendimento ao formular a Teoria das energias nervosas específicas (1826). Ele provou, através de experimentos, que a estimulação de um determinado nervo sensorial sempre provoca uma sensação característica e exclusiva daquele nervo, independentemente da natureza do estímulo físico externo. Em outras palavras, a qualidade da sensação não pertence ao objeto físico, mas sim à estrutura do próprio aparato sensorial humano. O mesmo estímulo pode produzir sensações completamente diferentes dependendo de qual via nervosa é ativada. Por exemplo, ao aplicar sal na pele, na língua e nos olhos, as sensações serão totalmente distintas, todas diretamente relacionadas às especificidades do aparelho sensorial que foi ativado. É importante entender que isso não acontece por conta da especificidade das características do estímulo, como o sal ser “salgado”. A pele produz apenas sensações táteis, ainda que o estímulo não seja tátil. Isso cria um problema de confiança naquilo que percebemos sensorialmente, pois mostra que os órgãos não enviam apenas propriedades dos objetos, mas antes operam apenas de modo específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Müller, por meio de experimentos, mostrou que os objetos físicos projetam imagens invertidas na retina, mas nós os percebemos na posição correta. Ele mostrou também que, embora as imagens projetadas nas duas retinas sejam levemente diferentes, o cérebro as unifica em uma única imagem tridimensional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas descobertas trouxeram Kant para o terreno da biologia, inclusive pelo próprio Müller que, apesar de não ser neokantiano, viu suas descobertas científicas influenciarem profundamente a primeira geração deles. O sistema nervoso não é um receptor passivo, antes, ele medeia, molda e traduz ativamente a realidade externa. A sensação deixou de ser vista como uma cópia do mundo e passou a ser um enigma, que pode ser analisado a partir da seguinte pergunta: “o que existe entre o estímulo físico e a sensação subjetiva?”. Este é o mundo do primeiro projeto de psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Hermann von Helmholtz e o Neokantismo Psicofisiológico ===&lt;br /&gt;
A ponte definitiva entre a epistemologia kantiana e a prática laboratorial foi construída por um antigo aluno de Johannes Müller, Hermann von Helmholtz (1821-1894). Ele colaborou no desenvolvimento do neokantismo psicofisiológico ou neokantismo fisiológico. Ele entendeu que as descobertas de seu professor forneciam a base material exata para a teoria do conhecimento de Kant. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1855, Helmholtz argumentou que as estruturas a priori propostas por Kant como condições de possibilidade da experiência eram, na verdade, características da anatomia e da fisiologia do aparato perceptivo humano. Ao “naturalizar” a filosofia de Kant, Helmholtz formulou a sua teoria dos signos, que postula que nossas sensações e percepções não são cópias diretas da realidade, mas sim símbolos ou signos gerados pelo nosso sistema nervoso em resposta aos estímulos. Para explicar como construímos uma imagem coerente e espacial do mundo a partir desses signos neurológicos isolados, Helmholtz introduziu o conceito de inferências inconscientes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo essa teoria, a mente realiza uma série de ajustes e cálculos automáticos, baseados na experiência e na aprendizagem contínua, para interpretar os dados sensoriais. A percepção de profundidade, a posição espacial e a resolução de duas imagens retinianas em uma única visão estereoscópica não são inatas, como defendia o nativismo de Ewald Hering ou o próprio Müller, mas são aprendidas empiricamente através do movimento do corpo e da repetição das sensações. O espaço perceptivo atua como uma linguagem que a mente usa para interpretar os dados fisiológicos brutos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com isso, Helmholtz fundou o projeto de uma psicologia fisiológica autônoma, diferente da psicologia filosófica discutida na época. Ele concordou com Kant que a introspecção tradicional era um método falho, que podia conduzir a ilusões porque o observador só capta a superfície consciente do pensamento. A solução de Helmholtz foi submeter o sujeito da experiência a condições de laboratório rigorosamente controladas. Se as condições da percepção dependem de mecanismos fisiológicos, então a única forma de fazer epistemologia científica é através da experimentação fisiológica e da ótica. O sujeito do conhecimento tornou-se, assim, um objeto, que poderia ser manipulado e analisado em laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Suas contribuições não acabam por aí. Antes das pesquisas de Helmholtz, a comunidade científica acreditava que o impulso nervoso era instantâneo ou rápido demais para ser mensurado. Em 1850, estimulando um nervo motor na perna de uma rã e medindo o tempo da contração muscular, ele obteve o registro da velocidade de condução neural, que é de aproximadamente 27 metros por segundo, provando que havia “algo” entre o estímulo e a percepção que poderia ser analisado cientificamente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também mediu o tempo de reação de nervos sensoriais em humanos. Essa descoberta provou que o pensamento e o movimento corporal não ocorrem simultaneamente, mas são separados por um intervalo de tempo mensurável. Essa foi a base que abriu caminho para os experimentos de tempo de reação e cronometria mental que dominariam o laboratório de Wundt décadas depois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== F. A. Lange e o Projeto de uma “Psicologia Sem Alma” ===&lt;br /&gt;
O segundo pilar desse “retorno a Kant”, também de matriz fisiológica, foi erguido pelo filósofo e sociólogo Friedrich Albert Lange (1828-1875). Lange foi uma figura central na “controvérsia materialista” que agitava a Alemanha. Ele rejeitava tanto os “delírios” dos sistemas idealistas metafísicos quanto o reducionismo ingênuo do materialismo científico de Vogt e Büchner. Em sua influente obra História do Materialismo, de 1866, Lange defendeu que a limitação proposta por Kant é absoluta, ou seja, não temos e nem nunca teremos acesso à essência última da realidade, às coisas em si. Nosso conhecimento se restringe aos efeitos das coisas, ou seja, os fenômenos, que nos aparecem totalmente moldados pela nossa organização mental e neurológica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Lange argumentou que a impossibilidade de conhecer a essência não impede o estudo científico rigoroso das “aparências”, ou seja, sobre como as coisas nos aparecem. Para viabilizar esse estudo, Lange atacou as psicologias filosóficas do passado, que versavam debates que ele ele entendia estéreis sobre a natureza, a imortalidade e a substancialidade da “alma”. Para Lange, a alma era um conceito vazio, um “mito antigo” que forçava a psicologia a operar sobre pressupostos metafísicos inverificáveis. Em resposta, ele propôs a criação de uma psicologia sem alma, ou, em outras palavras, uma psicologia sem metafísica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste novo paradigma, o objeto de estudo da psicologia deveria ser reduzido aos dados empíricos observáveis, incluindo a sensação, a percepção, a ação e a linguagem, sempre buscando o seu correlato fisiológico. Lange rejeitou a introspecção puramente filosófica, pois a auto-observação isolada é privada, não pode ser repetida, não permite a presença de observadores externos e leva invariavelmente a ilusões verbais. Segundo ele, essa introspecção conduzia o pesquisador a substancializar conceitos como “vontade” ou “pensamento”, sem nenhum lastro empírico ou experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A única saída para a psicologia tornar-se verdadeiramente científica era abraçar a metodologia das ciências naturais. Apoiando-se no trabalho de Helmholtz e nas medições pioneiras de psicofísicos como Ernst Weber e Gustav Fechner, Lange prescreveu que a psicologia deveria investigar as leis fisiológicas da percepção e medir a correlação exata entre estímulos físicos e respostas sensoriais, como nos tempos de reação e nos limiares diferenciais. A psicologia passava a ser entendida não como a ciência do espírito transcendente, mas como a ciência psicofisiológica que estuda experimentalmente as condições de possibilidade da experiência, trazendo o sujeito transcendente de Kant para uma fisiologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fechner e a Fundação da Psicofísica ===&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner (1801–1887) foi um físico e metafísico alemão e antigo aluno de Weber. Apesar de não ser um neokantiano, ele tem uma importância fundamental para este momento da fundação da psicologia experimental, tendo sido citado e adotado por neokantianos. Ele assumiu a prestigiada e importante cadeira de física da Universidade de Leipzig em 1834, enquanto produzia sátiras sobre temas metafísicos e artísticos sob um pseudônimo. Após uma série de experimentos em que observava diretamente o Sol, feriu gravemente suas retinas, evento que o conduziu a um colapso físico e mental. Teve uma recuperação milagrosa em 1843, quando tentou observar flores em seu jardim e, por meio de uma experiência mística, observou que a natureza brilhava de dentro para fora, de onde concluiu que o universo era dotado de alma e consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esssa experiência decisiva levou-o a dedicar sua vida ao combate do materialismo científico, que ele denominava visão noturna, que via o mundo como uma matéria inerte e sem vida. Já a sua visão diurna entendia que a matéria era a manifestação da consciência universal divina, uma cosmovisão espiritualista que pode ser entendida como panpsiquista, ou seja, todos os corpos físicos possuem uma forma de alma. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi buscando provar sua visão que Fechner entendeu que poderia provar empiricamente a relação entre a mente (ou o espírito) e o corpo (ou a matéria) se encontrasse uma relação matemática constante entre a intensidade do estímulo físico e a magnitude da sensação psíquica correspondente. Isso porque Fechner percebeu que um aumento na intensidade do estímulo físico não gerava um aumento equivalente e proporcional na sensação subjetiva. A relação não era linear, mas sim proporcional, pois o estímulo físico aumentava em uma progressão geométrica, enquanto a sensação psíquica crescia em uma progressão aritmética. Por exemplo, acrescentar o som de um sino a outro que já está tocando gera um forte impacto perceptivo, pois é possível distinguir claramente que passou-se de um para dois sinos. Já acrescentar um sino a uma dezena deles produz uma alteração quase imperceptível. A sensação dependia, portanto, do nível de estimulação já existente no sistema.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para dar sustentação empírica à sua teoria, Fechner apropriou-se dos trabalhos experimentais realizados por Weber, que havia formulado a teoria da diferença mínima perceptível, demonstrando que a sensibilidade humana não avaliava diferenças absolutas entre estímulos, mas sim relações relativas ou proporcionais. Weber observou que, ao levantar pesos, os sujeitos conseguiam detectar uma variação mínima correspondente a uma fração constante de aproximadamente 1:40 em relação ao peso padrão. Essa constância proporcional é descrita pela chamada Lei de Weber:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
II=K&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde I representa a intensidade do estímulo padrão (que aparecerá como R posteriormente), ΔI é o acréscimo mínimo necessário para produzir uma mudança perceptível na sensação e k é uma constante matemática específica para cada modalidade sensorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Fechner percebeu que essa fração constante (ΔI/I) correspondia à unidade de medida da sensação subjetiva (dS). Utilizando o cálculo infinitesimal, Fechner integrou matematicamente a equação de Weber, assumindo que todas as diferenças mínimas perceptíveis eram subjetivamente iguais entre si. Essa operação matemática resultou na célebre Lei de Fechner ou Lei de Weber-Fechner:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
S = k Log R&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde S representa a magnitude da sensação subjetiva (qualidade mental), R representa a intensidade física do estímulo (qualidade material) e K é uma constante experimental ajustada a cada sentido. Essa fórmula logarítmica foi construída para mostrar que, para a sensação aumentar linearmente, o estímulo físico precisava crescer exponencialmente, estabelecendo uma relação exata e mensurável entre o psíquico e o físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para aplicar sua fórmula, Fechner sistematizou dois conceitos fundamentais que estruturam as medições psicofísicas. A primeira é o limiar absoluto, ou seja, o ponto de intensidade física mínima abaixo do qual o estímulo não é detectado pelo sujeito e acima do qual a sensação passa a ser percebida. Outro conceito é o de limiar diferencial, que é a quantidade mínima de alteração ou variação que deve ser aplicada a um estímulo para que o sujeito seja capaz de discriminar uma mudança na sensação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um desdobramento fascinante da Lei de Fechner ocorreu quando o estímulo físico apresentava valores abaixo do limiar absoluto (R&amp;lt;1), resultando em valores negativos para a sensação (S). Fechner definiu esses valores como sensações negativas ou subliminares, postulando a existência de processos mentais ativos abaixo do limiar da consciência desperta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para determinar com precisão científica os limiares absolutos e diferenciais, Fechner desenvolveu e padronizou três metodologias experimentais rigorosas, que se tornaram os pilares metodológicos de toda a psicologia experimental posterior. No Método do Erro Médio ou do Ajuste, o próprio sujeito experimental manipula ativamente um instrumento para ajustar um estímulo variável até que sinta que este se iguala a um estímulo padrão constante. A média dos desvios entre os ajustes do sujeito e o padrão real define o erro de observação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já no Método do Estímulo Constante ou dos Casos Corretos e Incorretos, o pesquisador apresenta de forma aleatória uma série de estímulos pré-determinados e constantes em comparação com um estímulo padrão. O sujeito deve julgar se o estímulo de comparação é maior, menor ou igual ao padrão, medindo-se a proporção estatística de acertos. Por fim, no Método dos Limites ou das Diferenças Mínimas Perceptíveis, dois estímulos são apresentados ao sujeito. Um deles é aumentado ou reduzido sistematicamente em passos discretos e graduais, e o sujeito relata o momento exato em que deixa de perceber ou passa a perceber a diferença entre ambos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1860, Fechner publicou seu livro monumental, Elementos de Psicofísica, que alguns entendem ser o primeiro sobre a psicologia científica experimental. Ao fornecer à psicologia técnicas de medição coerentes e precisas, Fechner provou de forma contundente que a mente humana era passível de investigação científica e experimental, sepultando em definitivo o antigo veto imposto por Immanuel Kant, em pleno momento de desenvolvimento do Neokantismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Incomodados com as inclinações metafísicas e espiritualistas de Fechner, os psicólogos experimentais subsequentes, sob a liderança de Wilhelm Wundt, rejeitaram completamente o panpsiquismo entre outras ideias, apropriando-se exclusivamente de seus métodos quantitativos de laboratório para estabelecer a psicologia como uma ciência empírica e natural. Como bem observou o historiador Edwin G. Boring, Fechner agiu como um “Colombo que descobriu um Novo Mundo (a psicologia científica) enquanto procurava pelas antigas Índias (a prova de sua metafísica)”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Resumindo ===&lt;br /&gt;
A intersecção entre a epistemologia kantiana, a fisiologia de Müller e a reformulação promovida por Helmholtz e Lange constituiu o início daquilo que tornou possível a psicologia científica. Kant havia mostrado que o sujeito constrói ativamente a realidade, mas negou que esse sujeito pudesse ser estudado matematicamente ou experimentalmente. Müller transferiu a estrutura ativa da mente para os nervos sensoriais específicos. Helmholtz e Lange reinterpretaram as pesadas categorias transcendentais de Kant como mecanismos biológicos e perceptivos operando através de inferências inconscientes e leis fisiológicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao “naturalizar” a Crítica da Razão Pura, o Neokantismo Psicofisiológico resolveu o veto de Kant a uma psicologia científica. Se os limites e as formas do nosso conhecimento são determinados pelo nosso sistema nervoso e sensorial, então o estudo epistemológico da mente deve ser feito no laboratório de fisiologia, estudando principalmente a percepção. A exigência de matematização foi superada pelas leis da psicofísica de Fechner e Weber, e o problema da introspecção descontrolada foi resolvido pelo uso de instrumentos de precisão, como cronoscópios, além de métodos de medidas de limiar, controle de estímulos, erros médios, entre outros, que transformavam as respostas subjetivas em dados objetivos, replicáveis e mensuráveis. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse foi o cenário epistemológico e institucional que Wilhelm Wundt encontrou e ajudou a consolidar. Wundt não fundou a psicologia a partir do nada em 1879. Seu Instituto em Leipzig foi organização metodológica e teórica de décadas de esforços em que a filosofia foi obrigada a dialogar com os nervos, os músculos e os tempos de reação, transformando para sempre a especulação sobre a alma em uma rigorosa ciência da experiência imediata. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ironicamente, escolas neokantianas posteriores, como a Escola de Marburgo, foram focos de resistência à psicologia experimental, alegando que o sujeito do conhecimento de Kant era de ordem puramente transcendental e lógica, e não empírica ou mensurável, ou seja, rejeitando a “biologização” do pensamento kantiano e a consequente criação da psicologia experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, conforme mostra Gundlach, a criação de uma posição acadêmica e o laboratório de psicologia por Wundt não se deu por conta de um amplo reconhecimento da superioridade do pensamento wundtano, mas sim por conta de disputas políticas e institucionais nas universidades alemãs. De qualquer forma, Wundt conseguiu desenvolver bem sua teoria ao longo de sua vida e conseguiu estabelecer-se na proeminência da psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia de Wundt ==&lt;br /&gt;
[[Wilhelm Wundt|Wilhelm Maximilian Wundt]] é, na historiografia da psicologia, uma figura ao mesmo tempo onipresente e pouco compreendida. Freqüentemente reduzido ao título de “fundador do laboratório de Leipzig”, essa simplificação negligencia sua estatura como um dos últimos grandes arquitetos de sistemas do século XIX, cujo &#039;&#039;Systemgedanke&#039;&#039; (pensamento sistêmico) buscava integrar a psicologia como uma propedêutica fundamental para a filosofia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Recuperar o Wundt original exige preencher uma vasta lacuna historiográfica. A primeira envolve apontar as conhecidas e muitas das distorções da tradução de [[Titchener|E.B. Titchener]] para o contexto anglo-americano, que foi formulada para aproximar suas ideias e pdasdaquelas de Wundt, visando uma “confirmação” do pensamento de Titchener. Wundt não era um estruturalista ou associacionista clássico e seu sistema é essencialmente dinâmico e centrado no &#039;&#039;&#039;voluntarismo&#039;&#039;&#039;. Para Wundt, a vontade e os processos afetivos não são meros epifenômenos, ou seja, um fenômenos secundários ou acessórios que acompanhma um fenômeno principal, mas o eixo organizador da consciência ativa. Esta reconstrução crítica visa resgatar a autonomia epistemológica de uma ciência que define seu objeto não como uma substância, mas como a experiência em sua totalidade imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Experiência conforme Wundt ===&lt;br /&gt;
Para Wilhelm Wundt, a experiência é concebida como um todo unitário e coerente. As duas abordagens da experiência que ele propõe não se deve a uma diferença ontológica, mas como dois pontos de vista distintos e complementares que permite sua abordagem científica, que ele separa entre Experiência Mediata e Experiência Imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experiência Mediata ====&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Experiência Mediata&#039;&#039;&#039; é a experiência objetiva) está &#039;&#039;&#039;focada nos objetos do mundo externo&#039;&#039;&#039;. Ela foca exclusivamente nos objetos do mundo externo, abstraindo o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que sabe, que tem conhecimento. A Experiência Mediata seria o ponto de vista característico das ciências naturais, como física, química e fisiologia. A ciência natural opera por meio de uma abstração sistemática, pois ela coloca o sujeito cognoscente &amp;quot;entre parênteses&amp;quot; e analisa apenas os objetos externos pensados, como se existissem de maneira totalmente independente de quem os percebe. É chamada de &amp;quot;mediata&amp;quot; porque &#039;&#039;&#039;nosso acesso a tais objetos é sempre indireto&#039;&#039;&#039;, ou seja, precisa de mediação, pois é dependente de conceitos abstratos, inferências teóricas e construções conceituais auxiliares para representá-los. Por um lado, o estímulo físico é intermediado pelos limites anatômicos e biológicos do nosso aparato perceptivo, ou seja, temos os limites e capacidades da nossa percepção. No caso da visão, por exemplo, não vemos os raios ultravioleta e infravermelho, pois não estão no expecto da luz visível, mas vemos as cores e suas combinações. Por outro lado, para constituir a &amp;quot;realidade objetiva&amp;quot;, o cientista natural precisa utilizar conceitos teóricos auxiliares e construções hipotéticas, como átomos, ondas eletromagnéticas e forças gravitacionais, que não são dados imediatamente na percepção sensível mas que podem ser vistos experimentalmente e por meio de instrumentos e aparatos científicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wundt critica assim o empirismo tradicional e o associacionismo. A doutrina do empirismo diz que a mente como página em branco, conforme a formulação de John Locke e sua &#039;&#039;tabula rasa&#039;&#039;. Neste caso, a mente seria progressivamente preenchida pelas impressões do mundo exterior (sensação) e pelas operações internas (reflexão). David Hume radicaliza o princípio empírico, postulando que as impressões são os átomos cognitivos fundamentais e as ideias nada mais são do que cópias atenuadas ou lembranças dessas impressões na memória e na imaginação. Já o associacionismo constitui a hipótese de que as ideias simples e discretas se combinam para formar pensamentos complexos, juízos e raciocínios abstratos. Se o empirismo fornece os blocos de construção, o associacionismo descreve a &amp;quot;força de atração&amp;quot; que os une. Conforme sistematizado por Hume e, depois, desenvolvido por Hartley e James Mill, a mente transita espontaneamente de uma ideia para outra por meio de regras regulares de associação, como a semelhança, a contiguidade no tempo e as relações de causa e efeito.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para Wundt, ambos erraram, pois transferiam as características dos objetos externos da física, como a solidez, os limites rígidos e a permanência estática, para os conteúdos conscientes, passando a tratar as representações (&#039;&#039;Vorstellungen&#039;&#039;) como coisas ou &amp;quot;átomos mentais&amp;quot;. Na física, o foco recai sobre o objeto substantivo. Contudo, segundo Wundt, a consciência não contém objetos estáveis. Ele parte de uma diferença fundamental que os psicofísicos e outros haviam apontado, que é aquela entre o mundo externo e o mundo percebido, ou ainda, entre as coisas e suas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em resumo, a Experiência Mediata se aproxima dos objetos estáveis do mundo externo e de como eles nos chegam. Na experiência mediata, o cientista da natureza pode retornar quando quiser ao mesmo objeto físico estável (uma pedra ou um elemento químico) para observá-lo repetidamente, ainda que o observador em si esteja sempre em mudança.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experiência Imediata, o Objeto de Estudo da Psicologia ====&lt;br /&gt;
Ao definir seu objeto, Wundt deu um passo decisivo para dar à psicologia autonomia perante as outras ciências naturais. Ele propõe que a experiência é uma unidade indivisível. Mas o que ele quer dizer por &#039;&#039;&#039;experiência&#039;&#039;&#039;? Uma definição poderia ser a totalidade dos processos conscientes, englobando sensações, sentimentos, representações e volições (vontades), apreendida da exata forma como se apresenta diretamente ao sujeito, sem qualquer abstração conceitual ou mediação de instrumentos externos. Ou seja, a experiência de Wundt seria como tudo o que se passa na mente, exatamente como ela aparece para uma pessoa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;O domínio da psicologia seria a experiência imediata&#039;&#039;&#039;, subjetiva, que é a experiência em sua realidade concreta, direta e intuitiva, apreendida antes de qualquer conceituação, teorização ou abstração. Ou seja, é a experiência antes de ela adquirir qualquer camada de compreensão, que seriam mediadores, por isso é imediata, &#039;&#039;&#039;sem mediação&#039;&#039;&#039;. Ela envolve o processamento de elementos sensoriais simples, como cor, som, temperatura, e de sentimentos simples, como prazer e desprazer. Ela diz respeito ao modo puro de funcionamento mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vamos a um exemplo, desta vez no campo do acústica. Na perspectiva mediata, o cientista natural abstrai o sujeito e estuda o som de forma indireta e conceitual. Ele utiliza aparelhos para medir as ondas sonoras e a sua propagação física pelo ar. O objeto físico “som” é, portanto, mediado e traduzido por conceitos de frequência, amplitude e decibéis. Já sob a perspectiva imediata, que é a da psicologia, o psicólogo estuda a sensação direta e em si mesma do tom no momento exato em que ele aparece na consciência. A análise está na vivência concreta do sujeito, que inclui a qualidade do tom, a sua intensidade subjetiva, a tonalidade afetiva de prazer ou desprazer que o acompanha e o processo ativo da atenção (apercepção, que será tratada mais adiante) que coloca aquele som no foco da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se olharmos desta vez para a cromática, na visão mediata, ciência natural estuda o azul abstraindo a experiência do sujeito. A física o descreverá de forma conceitual como uma radiação eletromagnética com determinado comprimento de onda atingindo a retina. A fisiologia se debruçará sobre o funcionamento dos tecidos dos olhos quando estimulados com a cor azul em suas nuances. Para a psicologia de Wundt, o azul é investigado como um dado imediato e real na consciência do sujeito no momento da percepção interna. O foco não está nas propriedades físicas do estímulo, mas sim na reação subjetiva e ativa do cérebro vivo a esse estímulo, que gera a qualidade imediata da cor na experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conduzindo seus estudos, Wundt também identificou aquilo que denominou &#039;&#039;&#039;causalidade psíquica&#039;&#039;&#039;. Ao nos lembrarmos de um fato triste, por exemplo, a fisiologia explicaria a tristeza de forma conceitual e indireta, por meio de correntes elétricas no córtex cerebral, liberação de hormônios ou atividade de sinapses nervosas. Já o psicólogo numa linha wundtiana observa a conexão de processos internos como elas ocorrem diretamente na consciência do sujeito, como a ligação da lembrança triste a um sentimento de angústia. A causalidade psíquica é uma causalidade própria da mente e irredutível às leis físicas da natureza, ou seja, não pode ser comparada à causalidade física como a conhecemos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao adotar a experiência como seu objeto, Wundt rompe com a psicologia da alma, filosófica e metafísica. Ele substitui a psicologia de substâncias, que postula uma entidade mental oculta, pela &#039;&#039;&#039;teoria da atualidade&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Aktualitätstheorie&#039;&#039;), na qual o psiquismo é definido como um fluxo de processos em constante devir. Seu sistema está fundamentado em um &#039;&#039;&#039;monismo perspectivista&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, para ele, mente e corpo não são substâncias que interagem mecanicamente, mas perspectivas distintas sobre a mesma unidade da experiência (&#039;&#039;Erfahrung&#039;&#039;). A psicologia, portanto, não estuda um “mundo interno”, que está isolado do externo, ainda que em contato com ele, mas a totalidade da experiência humana sob o prisma da imediatidade. Essa transição do estatuto de substância “mente” ou algo semelhante para o de processo traz uma nova perspectiva, criando um objeto que pode ser alvo de experimentação científica, partindo de experimentos já criados pela psicofísica e ainda outros que seriam desenvolvidos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Apercepção ===&lt;br /&gt;
No contexto filosófico, como já visto, o conceito de apercepção remonta a Kant, que a definiu como o processo autônomo, ativo e prévio pelo qual a mente unifica diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Wundt adotou essa noção kantiana para fundamentar sua teoria da consciência, definindo &#039;&#039;&#039;apercepção&#039;&#039;&#039; como o processo psicológico ativo pelo qual um conteúdo psíquico (ou representação) é trazido à &#039;&#039;&#039;clareza máxima e ao foco da consciência&#039;&#039;&#039;, vindo necessariamente acompanhado pelo estado de atenção voluntária.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para explicar a dinâmica da consciência, Wundt utilizou uma famosa analogia com a visão para diferenciar apercepção e percepção. O campo visual da consciência (&#039;&#039;Blickfeld&#039;&#039;) corresponde à percepção, que é a simples entrada de uma representação na consciência de forma difusa, ampla e sem a presença focalizada da atenção. Já o ponto focal da consciência (&#039;&#039;Blickpunkt&#039;&#039;) corresponde à apercepção, que é a entrada de uma representação no ponto central de máxima clareza e foco estreito da atenção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A apercepção, então, é uma &#039;&#039;&#039;manifestação primordial da vontade&#039;&#039;&#039;, funcionando como o princípio dinâmico que dá direção e estrutura tanto à experiência quanto ao movimento. Além disso, a apercepção pode ser ativa, que é quando o sujeito deliberadamente seleciona onde focará sua atenção, ou passiva, quando é o estímulo que se impõe no foco no sujeito. Por fim, a apercepção é o mecanismo central da operação da causalidade psíquica. É ela que unifica a mente em um sistema ativo, permitindo que a fusão de elementos resulte em sínteses criadoras com propriedades qualitativamente novas e imprevisíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Percepção Interna (innere Wahrnehmung) vs. Auto-observação (Selbstbeobachtung) ===&lt;br /&gt;
Para garantir o rigor procedimental e responder ao “desafio kantiano”, Wundt rejeitou a &#039;&#039;Selbstbeobachtung&#039;&#039;, que pode ser entendida como a &#039;&#039;&#039;auto-observação tradicional&#039;&#039;&#039; ou introspecção casual. Trata-se do método introspectivo puramente filosófico e especulativo que, segundo Wundt e outros, seria fonte de auto-ilusões. No momento em que o sujeito tenta observar ativamente o curso de seus próprios processos mentais complexos, a atenção que ele direciona para si mesmo altera, deforma ou suprime o próprio fenômeno em curso. Na reflexão puramente interna, é impossível garantir que o mesmo estado mental se repita de forma idêntica, impedindo a replicação intersubjetiva e a formulação de leis científicas gerais &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A solução científica é a &#039;&#039;innere&#039;&#039; &#039;&#039;Wahrnehmung&#039;&#039;, ou &#039;&#039;&#039;percepção interna&#039;&#039;&#039;, que permite a criação de um método científico baseado na repetição de estímulos externos controlados. No laboratório, o psicólogo replica condições experimentais que permitem a observação do aparecimento imediato do processo psíquico sob condições estáveis e previsíveis. O laboratório funciona, portanto, como o estabilizador do objeto psicológico, permitindo que a percepção interna atinja a precisão necessária para decompor a consciência em seus elementos fundamentais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O método de investigação da percepção interna é bem mais rigoroso. Em vez de pedir ao sujeito que reflita livremente sobre seus pensamentos, o experimentador utiliza aparelhos físicos de precisão, tais como [[Cronoscópio|cronoscópios]], pêndulos, compassos táteis, geradores de tons para controlar rigorosamente o início, a intensidade, a duração e a apresentação de estímulos externos predeterminados. Como o estímulo físico externo pode ser repetido e modificado arbitrariamente pelo pesquisador, as condições fisiológicas e sensoriais associadas à percepção interna são reproduzidas com exatidão. Com isso, o sujeito experimental pode antecipar sua atenção ao evento e captar com máxima precisão o surgimento da experiência imediata correspondente. O participante deveria ser rigorosamente treinado, muitas vezes revezando as funções de sujeito e pesquisador, e era instruído a fornecer respostas simples e verificáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Experimentos do Laboratório de Wundt ===&lt;br /&gt;
Vamos a alguns exemplos do que acontecia no laboratório de Wundt, para integrar melhor os conceitos já apresentados. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O primeiro experimento foi concebido originalmente para descrever a &#039;&#039;&#039;“equação pessoal” que aparecia nas medições dos astrônomos&#039;&#039;&#039;. O interesse neste tema surgiu quando se constatou que astrônomos treinados, utilizando os mesmos equipamentos, discordavam de suas medições que, à época, eram feitas manualmente com ajuda de instrumentos. De alguma forma, estas diferenças nas medições pareciam ter um tipo de padrão. Neste experimento, Wundt utilizava um aparelho chamado medidor de pensamento (&#039;&#039;Gedankenmesser&#039;&#039;) e, posteriormente, o pêndulo de complicação (&#039;&#039;Complicationspendel&#039;&#039;). O dispositivo consistia em um grande relógio de pêndulo que possuía uma agulha cruzada, como uma agulha de tricô, capaz de golpear fisicamente um pequeno sino em um ponto exato do seu arco de oscilação. O sujeito do experimento deveria olhar para a escala do pêndulo e tentar determinar a posição exata do ponteiro no momento em que ouvia o sino tocar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste experimento, Wundt descobriu que o sujeito sempre cometia um erro sistemático de registro, de aproximadamente um oitavo de segundo. Segundo ele, era impossível perceber visualmente a agulha e o som do sino ao mesmo tempo. Esse experimento seria uma &#039;&#039;&#039;prova laboratorial de que a consciência possui uma capacidade limitada e só consegue focar em uma única percepção por vez&#039;&#039;&#039;, como a diferença no marco da medição podia mostrar. A ilusão de simultaneidade devia-se apenas à rápida sucessão dos processos de atenção (apercepção).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os experimentos de &#039;&#039;&#039;tempo de reação&#039;&#039;&#039;, nosso segundo exemplo, constituíam o verdadeiro coração do trabalho em Leipzig na década de 1880. Wundt adaptou o método de subtração (&#039;&#039;Subtractiemethode&#039;&#039;), do fisiologista holandês F. C. Donders, para medir a velocidade de processos mentais complexos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o experimento de Wundt, é necessário compreender que, para ele, uma reação consciente envolvia: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- transmissão da sensação ao cérebro; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2- entrada do estímulo no campo amplo da consciência (percepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
3- entrada no foco ativo da atenção (apercepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
4- ato de vontade para liberar a resposta; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
5- execução motora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada um dessas partes exigem um certo tempo, pois são processos não imediatos. A depender de como as etapas do experimento são organizadas, diferentes tempos indicariam o acionamento maior ou menor de cada um deles. No experimento, o sujeito era treinado para responder pressionando uma tecla telegráfica ao ver um estímulo luminoso simples, como um &#039;&#039;flash&#039;&#039; de luz. Em seguida, vinha a tarefa mais difícil. Duas imagens eram apresentadas, um círculo branco sobre fundo preto ou vice-versa, e o sujeito só deveria reagir após identificar com clareza qual imagem havia aparecido. Ao subtrair o tempo da reação simples do tempo da reação complexa, Wundt calculava o “tempo de apercepção” ou discriminação. Na primeira tese de doutorado em psicologia experimental da história, Max Friedrich, que atuou no experimento, mostrou que o tempo de discriminação aumentava de acordo com a complexidade do estímulo visual. Por exemplo, o sujeito levava mais tempo para aperceber e discriminar uma sequência de seis dígitos do que de apenas um ou dois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O assistente de Wundt, Ludwig Lange, também colaborou no estudo ao desenvolver um experimento crucial. Ele demonstrou que os &#039;&#039;&#039;tempos de reação variavam drasticamente dependendo da preparação da atenção&#039;&#039;&#039; (no conceito moderno da palavra) do sujeito. Se a atenção estivesse focada no movimento de resposta que o dedo faria (reação muscular), o tempo era curto (cerca de 125 ms), pois funcionava como um “reflexo cerebral” que pulava a apercepção. Se o foco estivesse direcionado ao estímulo sensorial que iria surgir (reação sensorial), o tempo era cerca de 100 ms mais longo, pois envolvia o circuito completo da mente consciente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O terceiro experimento foi desenvolvido por Martin Trautscholdt, um dos estudantes de doutorado de Wundt. Ele estudava a &#039;&#039;&#039;associação de ideias&#039;&#039;&#039;. No seu estudo, o sujeito era instruído a pressionar uma tecla no momento exato em que uma ideia associada surgisse em sua consciência a partir de um estímulo visual ou auditivo. Ao subtrair o tempo que o sujeito levava para simplesmente reconhecer a palavra estimulante, Trautscholdt conseguiu quantificar o tempo gasto pela mente para realizar a conexão associativa propriamente dita que, segundo Trautscholdt, variava entre 706 e 874 ms. Wundt também adaptou a &#039;&#039;&#039;técnica de associação de palavras de Francis Galton&#039;&#039;&#039;, limitando a resposta do sujeito a apenas uma única palavra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O quarto e último experimento que será apresentado é relacionado a &#039;&#039;&#039;acordes musicais&#039;&#039;&#039;. Nele, sujeitos ouviam tons isolados no piano, que seriam as sensações puras, e depois os mesmos tons tocados simultaneamente. Os participantes descreviam em detalhes a transição afetiva de como a fusão física das frequências dava origem a um produto inteiramente novo na consciência. Este seria o sentimento estético de harmonia e o prazer decorrente de uma síntese criadora. Wundt conduzia vários experimentos em estética experimental, tal qual seu colega Fechner.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Arquitetura da Mente: Elementos, Fusão e Síntese Criadora ===&lt;br /&gt;
Segundo Wundt, a experiência pode ser decomposta em elementos simples, que incluem as sensações e os sentimentos simples. Os sentimentos, por sua vez, são entendidos a partir da teoria tridimensional dos sentimentos, onde eles se distribuem em um espaço qualitativo entre os polos prazer/desprazer (Lust-Unlust), tensão/relaxamento (Spannung-Lösung) e excitação/depressão (Erregung-Beruhigung). A primeira é a mais evidente, se refere à avaliação afetiva primária da experiência. A segunda se relaciona ao esforço da atenção ou à preparação interna da mente. Já a terceira está relacionada ao nível de ativação biológica e psicológica do organismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esses aspectos todos são organizados através do mecanismo de fusão (Verschmelzung), onde as qualidades elementares se fundem em complexos psíquicos. O conceito central aqui é o princípio da síntese criadora (schöpferische Synthese). Ao contrário do associacionismo britânico, Wundt afirma que o todo resultante possui propriedades que não estão contidas na mera soma das partes. Essa síntese não é um processo mecânico passivo, mas um ato aperceptivo ativo, vinculado à vontade. Na mente humana, a combinação de elementos gera um valor novo e qualitativamente superior, marcando a distinção fundamental entre a causalidade psíquica e a mecânica física.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em termos simples, a síntese criadora estabelece que os complexos psíquicos, como representações, sentimentos compostos e afetos, embora formados pela união de elementos simples (sensações e sentimentos simples), possuem características qualitativas inteiramente novas que não pertencem a nenhum de seus elementos constituintes isolados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fusão é o processo ativo e primário de integração psíquica. É através dela que os elementos sensoriais e afetivos brutos são ativamente sintetizados pela mente para dar origem a uma nova unidade psicologicamente complexa. A fusão é a geradora da síntese criadora. Para Wundt, a síntese criadora é a prova cabal da causalidade psíquica. Ela monstra que os fenômenos mentais obedecem a leis de conexão e geração próprias que não se ajustam às leis da física ou da fisiologia mecânica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Observemos isso com um exemplo já apresentado. Se você tocar no piano as notas Dó, Mi e Sol isoladamente, você terá apenas a experiência de três sensações auditivas distintas. No entanto, quando essas notas são tocadas simultaneamente, a fusão de seus elementos gera na consciência uma experiência qualitativamente nova, que seria um acorde musical. O sentimento de harmonia e a qualidade estética do acorde são um produto da síntese criadora, pois não existiam em nenhuma das notas isoladas e surgem puramente da atividade unificadora da mente sobre o estímulo físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Paralelismo Psicofísico e Causalidade Psíquica ===&lt;br /&gt;
O paralelismo psicofísico foi um dos conceitos mais importantes e debatidos no século XIX durante o processo de fundação da psicologia científica. Ele surgiu como uma alternativa teórica para solucionar o clássico problema mente-corpo. O conceito foi formulado de forma a tanto o dualismo substancial, que dividia o ser humano em duas substâncias isoladas cuja forma de interação era desconhecida, quanto o materialismo reducionista, que reduzia a mente a uma mera secreção cerebral ou processo físico ou fisiológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para Fechner, o paralelismo era a manifestação de um monismo neutro, ou teoria de duplo aspecto. Ele defendia que a matéria (corpo) e o espírito (mente) não são substâncias diferentes, mas sim dois modos de aparência ou perspectivas distintas de uma única e mesma realidade subjacente, teoria sobre o qual fundamental grande parte de seu projeto científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt também adotou o termo paralelismo psicofísico, mas realizou uma redefinição epistemológica radical do conceito, visando se afastar da metafísica. Ele rejeitava categoricamente qualquer tentativa de transformar o paralelismo em uma doutrina ontológica sobre a natureza última da realidade, transformando-o estritamente um postulado metodológico e heurístico indispensável para a investigação científica. Os processos mentais não sejam reduzidos a processos fisiológicos ou neurais, pois a consciência obedece a leis de conexão próprias, como a causalidade psíquica, que não podem ser explicadas pelas leis da mecânica cerebral.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Psicologia Individual e Völkerpsychologie: dois métodos para manifestações da experiência ===&lt;br /&gt;
A arquitetura metodológica de Wundt responde ao desafio de investigar processos mentais que variam em complexidade. Ele estabelece que &#039;&#039;&#039;a psicologia deve ser compreendida como o fundamento das ciências humanas&#039;&#039;&#039; ou ciências do espírito (&#039;&#039;Geisteswissenschaften&#039;&#039;). A &#039;&#039;&#039;Psicologia Individual&#039;&#039;&#039;, na concepção de Wundt, foca nos processos elementares, que incluem sensação e percepção, que são passíveis de controle rigoroso em laboratório através da manipulação de estímulos externos e pelas técnicas da [[introspecção]] experimental e estudo da experiência interna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entretanto, Wundt reconhece a insuficiência do modelo experimental para os processos mentais superiores, como o pensamento e a linguagem, que são historicamente condicionados. Para estes, ele propõe a &#039;&#039;Völkerpsychologie&#039;&#039; , ou &#039;&#039;&#039;Psicologia dos Povos&#039;&#039;&#039;, dedicada ao estudo dos produtos das &#039;&#039;geistige Gemeinschaften&#039;&#039; (comunidades espirituais, no sentido das ciências do espírito, ou coletividades). Wundt vai apontar a linguagem, o mito e os costumes (&#039;&#039;Sitten&#039;&#039;) não são apenas dados culturais, mas objetivações de leis psíquicas superiores, inacessíveis à introspecção de laboratório. Eles seriam produtos da experiência humana nas suas formas mais avançadas e superiores e, por não serem passíveis de experimentação, exigem uma outra abordagem. Essas duas vertentes, experimental e histórico-cultural, não são divergentes, mas sim o projeto integrador que permite apreender a mente tanto em sua base sensório-motora quanto em suas manifestações espirituais complexas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As investigações da psicologia dos povos focavam na alma do povo (&#039;&#039;Volksseele&#039;&#039;), definida como a realidade factual dos processos psíquicos que surgem em uma comunidade por meio da interação das energias mentais dos indivíduos. Essa “mente coletiva” se tornava um objeto tangível e investigável ao longo da história em três grandes produtos culturais. O primeiro é a &#039;&#039;&#039;linguagem&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Die Sprache&#039;&#039;), ferramenta pela qual o pensamento é estruturado e externalizado. Já o &#039;&#039;&#039;mito e a religião&#039;&#039;&#039; são as formas como a imaginação e os sentimentos humanos coletivos projetam suas explicações sobre o cosmos e a existência. Os &#039;&#039;&#039;costumes&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Sitten&#039;&#039;) e o &#039;&#039;&#039;direito&#039;&#039;&#039;, por sua vez, são  as regras de conduta coletiva que nascem de atos voluntários e impulsos compartilhados, padronizando as interações sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não podia realizar experimentos com culturas inteiras, Wundt operava por meio da pura &#039;&#039;&#039;observação retrospectiva e comparativa dos produtos mentais&#039;&#039;&#039;, ou seja, analisando os objetos já criados e usados ou em uso por diferentes povos e culturas, anotando suas diferenças e semelhanças. Wundt juntava, lia e analisava de forma exaustiva relatos históricos, estudos filológicos, dicionários, mitologias comparadas, códigos de leis e descrições etnológicas e antropológicas de povos ao redor do globo, ou seja, utilizava dos estudos de diferentes ciências humanas e sociais para extrair as leis psicológicas gerais do desenvolvimento mental humano por trás dessas manifestações. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seu objetivo era mapear como a mente coletiva evoluía do simples para o complexo ao longo das eras, numa abordagem genética e desenvolvimentista e reconstruir, de forma retrospectiva, as forças dinâmicas, os afetos, os impulsos (&#039;&#039;Triebe&#039;&#039;) e os processos de síntese criadora (melhor discutida mais adiante) que estiveram ativos na mente das pessoas no momento de sua formação. Wundt dedicou os últimos 20 anos de sua vida (de 1900 a 1920) quase exclusivamente a esse empreendimento monumental, escrevendo dez volumes sobre o assunto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O que Aconteceu Depois? ===&lt;br /&gt;
No final de sua vida, Wilhelm Wundt era visto de forma ambivalente. Enquanto mantinha o prestígio de fundador da psicologia científica, uma nova geração de psicólogos que buscava se firmar, via como um “pai tribal”, cujo longo domínio de mais de quatro décadas estava desgastado. Ele se tornou o alvo de críticas severas e passou a ser tratado por muitos como o ícone de um passado superado e falido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante a Primeira Guerra Mundial e nos anos que a sucederam, a reputação internacional de Wundt sofreu graves danos. Influenciado por seu filho Max, Wundt adotou posturas políticas ultranacionalistas, chegando a usar a Völkerpsychologie de maneira tendenciosa para criticar os inimigos da Alemanha. Essa postura inflamou um forte preconceito anti-alemão, especialmente nos Estados Unidos, onde ex-alunos e intelectuais americanos passaram a ver ele como uma mente maligna e autoritária, acelerando a rejeição de suas obras em solo estrangeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A maior frustração de Wundt no fim da vida ocorreu no âmbito acadêmico alemão. Ele sempre defendeu que a psicologia era uma ciência propedêutica e uma aliada indispensável da filosofia, devendo permanecer integrada a esta. No entanto, os filósofos acadêmicos de sua época, especialmente os neokantianos e fenomenologistas, rejeitaram veementemente o  que chamavam de “psicologismo de Wundt”, ou seja, a redução da lógica e da validade do conhecimento a fatos psicológicos. Em 1913, após a contratação de um psicólogo experimental para a cadeira de filosofia em Marburg, mais de cem professores de filosofia assinaram um protesto público exigindo que psicólogos fossem banidos dos departamentos de filosofia. Esse movimento resultou no progressivo divórcio institucional entre a psicologia e a filosofia, uma separação que Wundt lamentou e combateu até a sua morte em 1920.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir da década de 1890, uma forte onda de positivismo, inspirada pela filosofia de Ernst Mach e Richard Avenarius, varreu a psicologia experimental. Jovens psicólogos, incluindo os assistentes do próprio Wundt, rejeitaram conceitos fundamentais do sistema de Leipzig, como a apercepção, a causalidade psíquica e a síntese criadora, tomando eles como metafísica, exatamente o oposto do que desejava seu formulador. Eles preferiam um modelo elementarista e reducionista, focado na descrição de relações funcionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos EUA, a influência da teoria da evolução de Darwin deslocou o interesse da estrutura da consciência para as suas funções de adaptação ao meio, o chamado funcionalismo. Com o surgimento e o fortalecimento do behaviorismo e a eliminação da mente como objeto de estudo, o voluntarismo de Wundt perdeu qualquer espaço. Na Europa, a própria psicologia da Gestalt ergueu-se combatendo o elementarismo que havia sido falsamente associado a Wundt. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O golpe final veio após a Primeira Guerra Mundial, quando a Alemanha mergulhou em colapso econômico. Diante da “crise da psicologia”, os pesquisadores precisaram provar a utilidade prática da ciência que praticavam para sobreviver, o que já acontecia nos EUA, voltando-se para a psicologia militar, industrial, educacional e clínica. Wundt, que sempre desprezou a psicologia aplicada, teria visto seu sistema dinâmico de laboratório perder todo o fôlego diante das pressões pragmáticas da época, ainda que mantivesse sua fama e sua alcunha maior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia Científica na Inglaterra ==&lt;br /&gt;
O surgimento da psicologia na Inglaterra seguiu um caminho bastante distinto do modelo laboratorial alemão, focado na introspecção e na busca de leis universais. A psicologia britânica formou-se na intersecção de duas grandes forças intelectuais, que são as filosofias empirista e associacionista, e a biologia evolutiva. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No empirismo, pensadores como John Locke postularam que a mente humana nasce como uma tabula rasa ou uma folha em branco, e que absolutamente todo o conhecimento deriva da experiência sensorial. No associacionismo, filósofos como David Hume, James Mill e John Stuart Mill afirmavam processos mentais complexos são formados pela associação contínua de ideias simples e sensações, governadas por leis lógicas. tais como similaridade, contiguidade e causa e efeito. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A despeito de sua rica tradição filosófica, o maior divisor de águas para a ciência britânica foi a publicação de A Origem das Espécies, em 1859. A teoria da evolução natural de Darwin, trouxe novas e profundas questões para o estudo da mente britânica. Se humanos e animais compartilham ancestrais comuns, argumentava-se que deveria haver uma continuidade não apenas física, mas também mental entre as espécies, conectando a psicologia ao estudo da zoologia, dando origem à Psicologia Comparada. Além disso, a mente e a consciência deixaram de ser vistas apenas como objetos metafísicos e passaram a ser estudadas como ferramentas biológicas de adaptação, que evoluíram porque ajudavam o organismo a sobreviver em seu ambiente, sendo fundamental para a criação do funcionalismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a validação da biologia evolutiva, o estudo da inteligência animal explodiu no Reino Unido, George Romanes foi um dos primeiros a tentar sistematizar o comportamento animal. Contudo, seu método anedótico foi duramente criticado por ser antropomórfico, ou seja, por atribuir pensamentos e emoções humanas complexas a animais. Seu colega Conwy Lloyd Morgan introduziu mais rigor científico à área através do que ficou mundialmente conhecido como o Cânone de Morgan, ou princípio da parcimônia. A regra dizia que um comportamento animal não deve ser interpretado como resultado de uma faculdade mental superior se puder ser explicado por um processo psicológico mais básico, como o instinto ou o aprendizado por tentativa e erro. Apesar de a perspectiva de ambos ter sido abandonada, a Psicologia Comparada se tornou um dos principais ramos da psicologia moderna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Francis Galton e a Psicologia Diferencial ===&lt;br /&gt;
Francis Galton (1822-1911) foi um cientista e polímata britânico de inteligência extraordinária, com um QI estimado por volta de 200, algo extremamente raro, além de ser primo de Charles Darwin. Galton é amplamente reconhecido como pioneiro ao incorporar o estudo sistemático das diferenças individuais e da herança mental na nova psicologia, uma área que era ignorada ou rejeitada por pioneiros experimentalistas como Wilhelm Wundt.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Galton interessou-se pela medição das variações da inteligência e das capacidades humanas. Ele fundou um laboratório antropométrico onde testou a acuidade sensorial, a força e os tempos de reação de milhares de pessoas. Além disso, baseando-se na premissa empirista de John Locke de que todo o conhecimento vem da percepção, Galton assumiu que os indivíduos mais inteligentes seriam aqueles com as capacidades sensoriais e motoras mais aguçadas. Ele foi o inventor do conceito de testes mentais, termo posteriormente cunhado por seu aluno dos EUA, James McKeen Cattell. Galton também desenvolveu o método experimental de associação de palavras, medindo o tempo de reação mental e demonstrando a enorme influência das experiências da infância e do inconsciente no pensamento adulto, um trabalho que impressionou profundamente Sigmund Freud. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também foi um dos primeiros a fazer uso amplo do questionário psicológico para investigar imagens mentais, constatando para sua própria surpresa que a maioria dos cientistas relatava ausência de imagens mentais nítidas, em contraste com relatos muito mais detalhados fornecidos por mulheres e crianças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para conduzir medições em larga escala, ele inventou vários instrumentos clássicos e, para analisar suas enormes bases de dados, Galton desenvolveu conceitos estatísticos fundamentais, como a correlação. Essa tradição quantitativa foi depois aperfeiçoada por outros britânicos, como Charles Spearman, criador da análise fatorial e do conceito de fator g de inteligência geral, fundando a base da psicometria moderna. e influenciando de forma decisiva a psicologia dos testes nos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Conclusão ==&lt;br /&gt;
A história da psicologia é definida pelo paradoxo de ter um “longo passado” e uma “curta história”, podendo ir do De Anima de Aristóteles até a a fundação do laboratório de Wilhelm Wundt na Universidade de Leipzig, em 1879. A psicologia, assim, mostra que tem uma rica história, com muitos personagens, conceitos e acontecimentos importantes, de modo que qualquer narrativa sobre sua composição elegerá heróis e vilões, dará mais relevância para alguns, menos para outros e o esquecimento para a maioria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O texto propõe que Immanuel Kant foi uma figura central na composição da psicologia científica. Ele propôs que a mente humana é um agente ativo que organiza o conhecimento através de estruturas a priori, tais como o tempo, o espaço e as categorias do entendimento. Assim, ele introduziu o conceito de “sujeito transcendental” como a estrutura universal que garante a unidade da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Kant impôs um “veto” ao status científico da psicologia, defendendo a base na matematização. A superação desse veto ocorreu através da “naturalização” de Kant pela fisiologia. Johannes Müller, com a Teoria das Energias Nervosas Específicas, mostrou que a sensação é mediada pelo sistema nervoso, não sendo uma cópia fiel do mundo externo. Hermann von Helmholtz avançou essa ideia ao postular que as estruturas a priori de Kant seriam, na verdade, características da anatomia e fisiologia humanas. Ele propôs o conceito de “inferências inconscientes” para explicar como interpretamos dados sensoriais. Nesse contexto, Friedrich Albert Lange defendeu uma “psicologia sem alma”, rejeitando a metafísica e argumentando que o estudo científico deve focar apenas nas aparências e fenômenos observáveis, reduzindo o objeto da psicologia a dados empíricos e correlações fisiológicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner foi crucial ao oferecer a base matemática e experimental que faltavam, por meio da Lei de Weber-Fechner. Ele também padronizou e melhorou métodos para o estudo dos limites e constantes sensoriais, que se tornaram a base metodológica da psicologia experimental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt não apenas fundou um laboratório, como também arquitetou um sistema complexo. Para Wundt, o objeto da psicologia é a experiência imediata, criando conceitos como voluntarismo, causalidade psíquica, apercepção, entre outros. Além disso, ele também criou a psicologia dos povos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente do foco laboratorial alemão, a psicologia britânica foi moldada pela filosofia empirista e, crucialmente, pela teoria da evolução de Charles Darwin. Neste contexto, Galton ganha destaque, por ter fundado o laboratório antropométrico, inventado o conceitos de “testes mentais”, pelo uso de estatísticas no estudo da psicologia e ter influenciado o desenvolvimento da psicometria e a análise fatorial (com Charles Spearman), consolidando uma tradição que focava mais na variabilidade genética e na inteligência do que na estrutura da consciência em si.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_surgimento_da_psicologia_cient%C3%ADfica&amp;diff=1748</id>
		<title>O surgimento da psicologia científica</title>
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		<updated>2026-09-01T23:55:42Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* A Percepção Interna (innere Wahrnehmung) vs. Auto-observação (Selbstbeobachtung) */ Várias modificações substanciais&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto [[Portal História da Psicologia]]) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um longo passado, uma curta história ==&lt;br /&gt;
A psicologia tem um longo passado, mas uma curta história. Esta é uma frase muito famosa no campo da história da psicologia, tendo sido consagrada por Hermann Ebbinghaus, um psicólogo alemão pioneiro no estudo da memória, ainda no século XIX. A frase é exemplar e muito usada em debates sobre a historiografia da psicologia, e isto revela como é difícil dizer quando a psicologia teve início. Ela tem um &#039;&#039;&#039;longo passado&#039;&#039;&#039;, porque os temas que consideramos hoje como parte da psicologia aparecem muitas vezes na filosofia, na religião, em saberes tradicionais, entre muitos outros lugares, ao longo da história. É difícil estabelecer qual &#039;&#039;&#039;o objeto de estudo da história da psicologi&#039;&#039;&#039;a, assim como é difícil, ao longo da história, &#039;&#039;&#039;separar o que é  psicologia daquilo que não é psicologia&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse longo passado pode remontar, por exemplo, à Antiguidade, com o tratado De Anima, de Aristóteles, que escreveu muito antes de se imaginar o próprio conceito de ciência moderna e, menos ainda, de uma psicologia moderna. Outros podem colocar o início da psicologia com Descartes, que elaborou a máxima, também famosa, “penso, logo existo”. Isso mostra que &#039;&#039;&#039;os objetos de estudo da psicologia são historicamente construídos&#039;&#039;&#039;, ou seja, emergem a partir dos locais ou pessoas que atuaram na psicologia, como na medida das diferenças individuais, as dinâmicas de controle num laboratório, nas práticas de psicoterapia, entre muitas outras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se cada historiador localiza o passado da psicologia em lugares diferentes no tempo e no espaço, a &#039;&#039;&#039;história da psicologia&#039;&#039;&#039;, por seu lado, tem uma definição bem mais estável e curta. Nos anos 1980, historiadores reunidos num congresso nos EUA definiram que &#039;&#039;&#039;a psicologia científica começou em 1879, quando [[Wilhelm Wundt]] fundou o primeiro laboratório de psicologia experimental na Universidade de Leipzig, na Alemanha&#039;&#039;&#039;. Essa definição está consagrada e é quase um consenso, porém, não foi tão simples estabelecê-la. Alguns advogavam pelo pioneirismo de outro alemão, [[Gustav T. Fechner|Gustav Theodor Fechner]], criador da chamada [[psicofísica]], de onde vieram muitos dos experimentos e ideias de Wundt. Outros ainda queriam que [[William James]], um filósofo e psicólogo americano, fosse reconhecido como fundador, pois seu laboratório de psicologia era ainda mais antigo que o de Wundt que, no final, venceu essa disputa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Resumindo, a psicologia possui um “longo passado”, com raízes filosóficas e religiosas milenares e altamente diversas, e uma “curta história” como disciplina científica, cujo marco está situado em 1879, com a fundação do primeiro laboratório experimental por Wilhelm Wundt, na Alemanha. Pelo menos é assim que, atualmente, a grande maioria dos historiadores entende a questão, uma das poucas em que há algum conceito neste campo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Presentismo ===&lt;br /&gt;
Mas o que seriam essas psicologias anteriores a essa psicologia científica? Para entender melhor essa história, é preciso refletir para superar, da melhor forma, um problema chamado &#039;&#039;&#039;presentismo&#039;&#039;&#039;, ou seja, julgar, entender, interpretar e analisar o passado com a visão do presente. Não é apenas uma questão de olhar para as pessoas do passado e superar o pensamento de que elas eram “ignorantes”, pois “não tinham o conhecimento que temos hoje”. É entender também que, no passado, haviam formas de conhecimentos diferentes, bem como visões de mundo diferentes da atual. Este é um problema fascinante. Muitos dos consensos contemporâneos, coisas que entende-se totalmente óbvias, eram vistas de forma completamente diferente no passado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo interessante é o &#039;&#039;&#039;conceito de atenção&#039;&#039;&#039;. Hoje, ela é um tema tão discutido e consensual que pouco se reflete sobre seu significado. Atualmente, seria algo como centralizar as faculdades mentais ou talvez a percepção em um ponto específico. Pode-se ouvir as pessoas reclamando da própria falta de atenção, que “não conseguem prestar atenção”, ou que nunca “mantém a atenção”, e até mesmo existem medicamentos para resolver esse problema. Contudo, a palavra “atenção” nem sempre significou o que entendemos hoje. Para [[Santo Agostinho]], atenção era apenas o ato de passar de um pensamento para outro. [[René Descartes|Descartes]] tinha um conceito mais parecido com o contemporâneo, onde a atenção era mobilizada de forma voluntária para fixar e reter na memória coisas raras e extraordinárias que o entendimento considerava úteis. Na obra de [[John Locke|Locke]], a atenção é mencionada apenas de passagem, como um mero mecanismo auxiliar da retenção de memórias. A partir do momento em que a ciência passou a entender que a percepção depende da estrutura física e biológica do corpo, com a psicofísica e a fisiologia sensorial, já no século XIX, a visão passou a ser encarada como intrinsecamente incompleta, instável e condicionada pelo tempo. Nesse contexto, a atenção foi utilizada como um substituto pragmático para garantir a coerência do mundo percebido. Autores do final do século XIX, como [[Théodule Ribot]] e [[Max Nordau]], associaram os desvios ou a fraqueza da atenção a patologias psíquicas, comportamentos sociopáticos e teorias da “degeneração”. Para eles, uma atenção defeituosa deixava a mente à mercê de “associações caóticas”, gerando uma visão borrada e distorcida da realidade. Foi apenas na década de 1950 que a nossa compreensão contemporânea de atenção começou a se delinear, paralelamente aos estudos sobre os medicamentos desenvolvidos para tratar as suas disfunções.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma pessoa desavisada, que não está atenta às grandes diferenças entre as ideias e conceitos ao longo do tempo, poderia ler um trecho de Ribot, Santo Agostinho, Descartes e outros e achar que a atenção sobre a qual eles falam é a mesma coisa que entendemos hoje. O leitor estaria totalmente enganado, a ponto de não conseguir nem mesmo compreender o que estes pensadores queriam dizer. Em outras palavras, &#039;&#039;&#039;o esforço para entender as psicologia do passado passa também pelo esforço de entender como se pensava no passado, qual a visão que se tinha nesse passado&#039;&#039;&#039;. Parte do esforço do historiador é trazer esses aspectos de volta ao presente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O sujeito transcedental de Kant ==&lt;br /&gt;
A concepção de uma psicologia ocupada especificamente com a “mente” humana e suas operações começou a ganhar contornos modernos no século XVIII com o filósofo [[Christian Wolff]]. Ele dividiu a psicologia em [[Psicologia Empírica (livro)|&#039;&#039;&#039;Psicologia Empírica&#039;&#039;&#039;]], num livro publicado em  1732 e baseada na introspecção; e em &#039;&#039;&#039;Psicologia Racional&#039;&#039;&#039;, numa obra de 1734, dedicada a deduzir a natureza e a essência da alma, como sua imortalidade e imaterialidade, de forma puramente lógica e racional, independentemente da experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, o projeto de Wolff enfrentava um sério problema metodológico: a chamada observação interna ou [[introspecção]]. Quando se estuda um fenômeno natural, como a chuva, é necessário observar tudo que está envolvido com estee fenômeno, incluindo como as nuvens se formam, qual a umidade do ar, a intensidade dos raios solares, a direção dos ventos, entre muitos outros fatores. A questão é que todos estes aspectos são &#039;&#039;&#039;externos ao sujeito&#039;&#039;&#039;. Toda a ciência é feita dessa forma, observando, testando e analisando o mundo que está fora dos indivíduos. O problema está em estudar algo que é interno aos sujeitos. Não se pode observar diretamente o que se passa na cabeça de alguém, pelo menos não por enquanto. Contudo, é possível analisar o que se passa nas nossas próprias cabeças. Isso seria a &#039;&#039;&#039;introspecção&#039;&#039;&#039;, ou seja, o processo pelo qual adquirimos conhecimento sobre nossos próprios estados ou processos mentais Apesar de ser uma ideia interessante, fazer introspecção não era considerado algo muito científico. Entendia-se que “observar a si mesmo” distorcia os eventos mentais, pois o sujeito que observa e o objeto observado são o mesmo, o que impediria a neutralidade exigida pelo modelo científico então vigente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até a segunda metade do século XVIII, as teorias do conhecimento, que incluíam o empirismo e o racionalismo, compartilhavam a premissa de que o conhecimento era determinado pelo objeto a ser conhecido. A ideia era a de que objeto estava lá, esperando a melhor forma de ser conhecido. &#039;&#039;&#039;Kant&#039;&#039;&#039;, em sua obra [[Crítica da Razão Pura (livro)|Crítica da Razão Pura]] (1781), inverteu essa lógica de forma radical. Ele propôs que &#039;&#039;&#039;não é o conhecimento que se adequa aos objetos, mas são os objetos que são determinados pelo sujeito&#039;&#039;&#039;. O conhecimento passou a ser compreendido não como uma recepção passiva, mas como uma produção ativa do chamado sujeito transcendental, moldada por suas formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;sujeito transcendental&#039;&#039;&#039; em Kant não se refere propriamente a um indivíduo empírico ou psicológico, ou seja, alguém com personalidade e história pessoal. Pense no sujeito transcendental não como “você” (André ou Maria), mas como o “sistema operacional” universal da mente humana. Assim como um software organiza os dados que chegam do teclado, convertendo eles em coisas numa tela, o sujeito transcendental organiza os dados que chegam dos sentidos, como o tempo e o espaço, antes mesmo de termos consciência deles.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o sujeito transcedental, é preciso fazer um importante exercício de abstração, visando conseguir entender algo que está além da experiência existencial individual e entender aquilo que molda essa própria experiência. O sujeito transcedental de Kant é, segundo ele próprio, uma condição universal de possibilidade para qualquer conhecimento. Em outras palavras, é algo que todas as pessoas possuem e é a forma que o ser humano tem para saber as coisas. É a estrutura ativa da mente que organiza a experiência antes mesmo que possamos refletir sobre ela. Esse sujeito é o princípio unificador que garante a coerência dos dados sensoriais, transformando o caos de impressões oriundas dos órgãos dos sentidos em uma experiência significativa e estruturada. Através das formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039; da sensibilidade (espaço e tempo) e das categorias do entendimento, o sujeito transcendental “constrói” o objeto conhecido. Ele é o “Eu penso” cartesiano, que deve poder acompanhar todas as nossas representações, conferindo unidade à consciência. Em suma, &#039;&#039;&#039;não conhecemos o mundo como ele é em si, mas como o sujeito transcendental o molda e o organiza para que se torne inteligível para nós&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Immanuel Kant revolucionou a teoria do conhecimento ao postular que a mente humana não funciona como um receptáculo passivo de impressões sensoriais, mas sim como um agente ativo dotado de estruturas constitutivas a priori que organizam, unificam e interpretam a matéria-prima da experiência. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas ideias de Kant, o processo de constituição do conhecimento dos fenômenos que chegam para nossa mente a partir dos órgãos dos sentidos articula-se em três instâncias fundamentais. A primeira são as formas puras da sensibilidade, depois vem os conceitos puros do entendimento, ou seja, as categorias e, por fim, a unidade sintética da apercepção. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas &#039;&#039;&#039;formas puras da sensibilidade&#039;&#039;&#039;, antes mesmo que o intelecto possa aplicar qualquer conceito, o caos das sensações brutas é necessariamente ordenado no espaço e no tempo, que não são propriedades das coisas em si, mas intuições puras da sensibilidade que funcionam como os eixos coordenados onde os fenômenos são dados. Ou seja, as informações dos sentidos já chegam num espaço e num tempo para o resto do processo de constituição do conhecimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma vez colocados no espaço e estruturados numa sucessão e simultaneidade temporal, esses dados passam pelas &#039;&#039;&#039;doze categorias do entendimento puro&#039;&#039;&#039;. Essas categorias se dividem em &#039;&#039;&#039;quatro classes de tríades&#039;&#039;&#039;: quantidade, qualidade, relação e modalidade. As &#039;&#039;&#039;categorias&#039;&#039;&#039; representam as regras lógicas puras, fundamentais e necessárias para tornar qualquer objeto da experiência inteligível. Elas podem ser observadas de forma simplificada na tabela a seguir:&lt;br /&gt;
{| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot;&lt;br /&gt;
|Classe de Categorias&lt;br /&gt;
|Categoria 1 (Tese)&lt;br /&gt;
|Categoria 2 (Antítese)&lt;br /&gt;
|Categoria 3 (Síntese)&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|1. Quantidade&lt;br /&gt;
|Unidade&lt;br /&gt;
|Pluralidade&lt;br /&gt;
|Totalidade&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|2. Qualidade&lt;br /&gt;
|Realidade&lt;br /&gt;
|Negação&lt;br /&gt;
|Limitação&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|3. Relação&lt;br /&gt;
|Substância e Acidente&lt;br /&gt;
|Causa e Efeito&lt;br /&gt;
|Ação Recíproca&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|4. Modalidade&lt;br /&gt;
|Possibilidade (Impossibilidade)&lt;br /&gt;
|Existência (Não-existência)&lt;br /&gt;
|Necessidade (Contingência)&lt;br /&gt;
|}&lt;br /&gt;
As categorias de quantidade dizem respeito à extensão em que aplicamos um conceito aos objetos, ou seja, “quantos” elementos estamos considerando no juízo. Na unidade, temos um único objeto. Na pluralidade, trazemos vários objetos do mesmo tipo para um conjunto. Já a totalidade surge quando pensamos a pluralidade como uma unidade completa.Vejamos um exemplo. Quando um observador vê uma maçã, aplica a categoria da unidade, ou seja, ele viu uma maçã. Ao ver várias maçãs espalhadas na mesa, apreende uma pluralidade, ou seja, ele tem um conceito de “maçãs” e as vê como um conjunto. Porém, ao formular uma lei universal, aplica-se a totalidade, que engloba toda a pluralidade possível sob uma única regra conceitual, ou seja, todas as maçãs são frutas e existem vários tipos de maçãs.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade trata da atribuição de um predicado, ou seja, se a experiência afirma algo, nega algo ou se situa num limite conceitual. Em outras palavras, é a forma da mente definir “como algo é”. A realidade é afirmação de que um predicado pertence a um ser, ou seja, ele é alguma coisa. A negação é a afirmação de que o predicado não pertence a algo, ou seja, um “não-ser”. A limitação é a síntese das duas anteriores. Atribui-se uma negação como se fosse uma realidade, excluindo aquilo de uma esfera, mas deixando infinita a esfera onde ele pode estar. Vamos a um exemplo. Dizer “O homem é mortal” aplica a categoria de realidade (afirma-se um atributo). Dizer “O homem não é mortal” aplica a negação. No entanto, dizer “A alma é não-mortal (imortal)” é um juízo infinito clássico de Kant que evoca a limitação. Não sabemos o que a alma é de fato, mas a limitamos removendo ela da esfera das coisas mortais, o que a situa num campo aberto e indeterminado de possibilidades.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Consideradas por muitos comentadores como o coração da epistemologia kantiana, as categorias de relação definem como os objetos se relacionam entre si e como permanecem ou mudam no tempo. Substância e Acidente referem-se àquilo que permanece através da mudança (substância) e as propriedades que são transitórias, ou seja, que mudam (acidentes). Um exemplo disso é a água de um lago que congela no inverno. Seu estado físico muda do líquido para o sólido, que é o acidente, mas a matéria da água em si, a substância, permanece inalterada. Sem a categoria de substância, nossa mente registraria apenas uma sucessão caótica de imagens, sem reconhecer que se trata da mesma “coisa” sofrendo alteração. A Causa e Efeito é a relação estritamente necessária onde um evento segue outro no tempo. O exemplo de Kant, em resposta ao filósofo David Hume, é sobre o sol que ilumina uma pedra, e a pedra esquenta. Hume diria que inferimos causalidade por mero hábito psicológico, ou seja, não há conexão necessária, apenas uma observação e uma intuição. Kant argumenta que o próprio fato de distinguirmos uma sucessão objetiva de eventos exige que a mente aplique a categoria a priori de Causalidade. A mente “dita” a regra estrutural de que o aquecimento necessariamente sucede a irradiação solar, colocando uma como causa da outra. Já na Ação Recíproca (Comunidade), tem-se a relação simultânea de mútua influência entre múltiplas substâncias no espaço como, por exemplo, a interação gravitacional entre a Terra e a Lua. Elas não são eventos sucessivos no tempo, mas existem simultaneamente e influenciam-se de modo contínuo e bidirecional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, temos as categorias modais. Eles são os Postulados do Pensamento Empírico e não acrescentam nenhum atributo novo ao objeto em si, mas definem exclusivamente como esse objeto ou evento se relaciona com o sujeito cognitivo e suas faculdades. No caso da Possibilidade-Impossibilidade, é algo que concorda com as condições formais, que são as condições lógicas e puras da experiência. No binômio Existência-Não-existência, é algo que está dado materialmente na intuição empírica, ou seja, nos sentidos. Já na Necessidade-Contingência, é algo cuja conexão com a experiência empírica está determinada por condições universais. Vamos a um exemplo. Um dragão voador de escamas verdes ou um triângulo cujos ângulos somam 180 graus são conceitos logicamente possíveis, ou seja, não envolvem contradição formal. No entanto, apenas um objeto sensorialmente verificável, como a caneta sobre a sua mesa, tem a marca da existência. Já o fato de que um objeto massivo abandonado no ar cairá em direção ao solo é uma necessidade ditada pelas leis empíricas que o entendimento prescreve à natureza, ou seja, atribui a ele.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Acima dessas estruturas, Kant postulou a apercepção ou apercepção transcendental, que é o processo pelo qual a mente unifica de forma ativa diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Sem a apercepção, a mente seria apenas um amontoado de estímulos desconectados. Assim, a aperceção a base da própria consciência humana. Devido a essa complexa mediação ativa da mente, Kant estabeleceu uma distinção insuperável entre o mundo externo e a mente. Isso significa dizer que nós não temos acesso à “coisa em si”, ou noumenon, mas apenas a como as coisas nos aparecem, ou seja, na forma de fenômeno, já devidamente processadas pelo nosso aparato cognitivo. Neste sentido, É importante distinguir o “Eu empírico”, ou seja, aquilo que observamos em nós mesmos, como nossa personalidade ou o nosso humor, do “Eu transcendental”, a pura unidade lógica do “Eu penso”. Ademais, a apercepção transcendental não é uma faculdade psicológica de “prestar atenção”, mas uma exigência lógica. Para que uma experiência seja minha, o “Eu penso” deve poder acompanhar todas as minhas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Os Vetos Kantianos à Psicologia Científica ===&lt;br /&gt;
Apesar de ter colocado o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que conhece, no centro do universo epistemológico, Kant foi muito crítico sobre a possibilidade de a psicologia se tornar uma ciência. Em sua obra Princípios metafísicos da ciência da natureza, de 1786, ele negou a possibilidade de uma psicologia científica, pois afirmou que uma disciplina só poderia Sê-lo se possuísse uma elaboração racional capaz de fornecer leis formuladas matematicamente, o que poderia ser chamado de veto matemático. A psicologia falhava nesse critério porque os eventos mentais possuem apenas a dimensão do tempo, sem nenhuma extensão espacial, o que impossibilitaria a sua matematização. Para Kant, assim como o espaço é a forma do sentido externo, o tempo é a forma pura do sentido interno. Como os estados mentais só se dão na sucessão do tempo (sem extensão espacial), eles não formam figuras nem podem ser medidos geometricamente, inviabilizando a matemática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Kant apontou a impossibilidade de isolar diferentes pensamentos para a realização de experimentos controlados. Assim, como não podemos acessar o que seria o conteúdo da mente, cercá-la e analisá-la como ela é em seu estado bruto ou natural, qualquer experimentação seria impossível, o que poderia ser chamado de veto do objeto. Por fim, ele reforçou a crítica que já era direcionada a Wolff, aquele do começo dessa seção. A introspecção como método, segundo Kant, seria inviável porque a própria tentativa de observar um fenômeno interno altera o fenômeno, o veto metodológico. Se tento observar minha própria tristeza, por exemplo, o fenômeno original desaparece e se transforma em “tristeza-sendo-observada-por-mim”, misturando sujeito e objeto de tal maneira que corrompe a objetividade. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A impossibilidade de uma psicologia científica não significava, contudo, a impossibilidade de estudar a mente e o comportamento. Kant trabalhou e lecionou com o que chamou de Antropologia Pragmática. Enquanto a psicologia empírica tentava, em vão, segundo ele, ser uma ciência exata, a antropologia pragmática estudava “o que o homem, como ser livre, faz, ou pode e deve fazer de si mesmo”. Era um estudo prático do comportamento, das paixões, da memória e da cognição, focado na vida em sociedade. De certo modo, pode-se dizer que Kant fechou a porta para a psicologia mecanicista, ou ainda, uma psicologia como ciência exata, mas ajudou a abrir uma janela imensa para as ciências humanas e sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Emergência do Neokantismo Fisiológico e as Primeiras Aproximações para a Psicologia Científica ==&lt;br /&gt;
A primeira metade do século XIX na Alemanha foi inicialmente dominada pelo Idealismo Pós-Kantiano (Hegel, Fichte, Schelling), que propunha sistemas metafísicos grandiosos onde a realidade era essencialmente racional e espiritual. Contudo, a partir da década de 1850, o forte avanço das ciências naturais, como a fisiologia e a química, gerou uma importante reação materialista, consolidados nas figuras de Feuerbach, Vogt, Büchner e outros, que passaram a ridicularizar a filosofia idealista como mera especulação vazia. A metafísica, vista como uma das glórias da filosofia e do pensamento humano, passou a ser vista cada vez mais como um discurso com pouco ou nenhum lastro na realidade. Essa mudança foi muito importante para a história da psicologia científica, pois foi devido a esse contexto que foram formulados os primeiros experimentos voltados para o que seria, no futuro, a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Johannes Müller e a Teoria das Energias Nervosas Específicas ===&lt;br /&gt;
Neste período, a fisiologia se estabeleceu como uma ciência rigorosa e extremamente respeita, liderada por figuras como Johannes Müller. Müller, professor na Universidade de Berlim, publicou seu Manual de Fisiologia Humana (1833-1840), que sistematizou o conhecimento fisiológico da época e transformou a compreensão da percepção. Até o final do século XVIII, ela era explicada pela Teoria da impressão da sensação, derivada da física newtoniana e do empirismo britânico. Esse modelo assumia que o sistema nervoso era um meio homogêneo e passivo que simplesmente “transportava” as qualidades dos objetos externos para a mente, como se a sensação fosse uma cópia exata do estímulo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Johannes Müller revolucionou esse entendimento ao formular a Teoria das energias nervosas específicas (1826). Ele provou, através de experimentos, que a estimulação de um determinado nervo sensorial sempre provoca uma sensação característica e exclusiva daquele nervo, independentemente da natureza do estímulo físico externo. Em outras palavras, a qualidade da sensação não pertence ao objeto físico, mas sim à estrutura do próprio aparato sensorial humano. O mesmo estímulo pode produzir sensações completamente diferentes dependendo de qual via nervosa é ativada. Por exemplo, ao aplicar sal na pele, na língua e nos olhos, as sensações serão totalmente distintas, todas diretamente relacionadas às especificidades do aparelho sensorial que foi ativado. É importante entender que isso não acontece por conta da especificidade das características do estímulo, como o sal ser “salgado”. A pele produz apenas sensações táteis, ainda que o estímulo não seja tátil. Isso cria um problema de confiança naquilo que percebemos sensorialmente, pois mostra que os órgãos não enviam apenas propriedades dos objetos, mas antes operam apenas de modo específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Müller, por meio de experimentos, mostrou que os objetos físicos projetam imagens invertidas na retina, mas nós os percebemos na posição correta. Ele mostrou também que, embora as imagens projetadas nas duas retinas sejam levemente diferentes, o cérebro as unifica em uma única imagem tridimensional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas descobertas trouxeram Kant para o terreno da biologia, inclusive pelo próprio Müller que, apesar de não ser neokantiano, viu suas descobertas científicas influenciarem profundamente a primeira geração deles. O sistema nervoso não é um receptor passivo, antes, ele medeia, molda e traduz ativamente a realidade externa. A sensação deixou de ser vista como uma cópia do mundo e passou a ser um enigma, que pode ser analisado a partir da seguinte pergunta: “o que existe entre o estímulo físico e a sensação subjetiva?”. Este é o mundo do primeiro projeto de psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Hermann von Helmholtz e o Neokantismo Psicofisiológico ===&lt;br /&gt;
A ponte definitiva entre a epistemologia kantiana e a prática laboratorial foi construída por um antigo aluno de Johannes Müller, Hermann von Helmholtz (1821-1894). Ele colaborou no desenvolvimento do neokantismo psicofisiológico ou neokantismo fisiológico. Ele entendeu que as descobertas de seu professor forneciam a base material exata para a teoria do conhecimento de Kant. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1855, Helmholtz argumentou que as estruturas a priori propostas por Kant como condições de possibilidade da experiência eram, na verdade, características da anatomia e da fisiologia do aparato perceptivo humano. Ao “naturalizar” a filosofia de Kant, Helmholtz formulou a sua teoria dos signos, que postula que nossas sensações e percepções não são cópias diretas da realidade, mas sim símbolos ou signos gerados pelo nosso sistema nervoso em resposta aos estímulos. Para explicar como construímos uma imagem coerente e espacial do mundo a partir desses signos neurológicos isolados, Helmholtz introduziu o conceito de inferências inconscientes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo essa teoria, a mente realiza uma série de ajustes e cálculos automáticos, baseados na experiência e na aprendizagem contínua, para interpretar os dados sensoriais. A percepção de profundidade, a posição espacial e a resolução de duas imagens retinianas em uma única visão estereoscópica não são inatas, como defendia o nativismo de Ewald Hering ou o próprio Müller, mas são aprendidas empiricamente através do movimento do corpo e da repetição das sensações. O espaço perceptivo atua como uma linguagem que a mente usa para interpretar os dados fisiológicos brutos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com isso, Helmholtz fundou o projeto de uma psicologia fisiológica autônoma, diferente da psicologia filosófica discutida na época. Ele concordou com Kant que a introspecção tradicional era um método falho, que podia conduzir a ilusões porque o observador só capta a superfície consciente do pensamento. A solução de Helmholtz foi submeter o sujeito da experiência a condições de laboratório rigorosamente controladas. Se as condições da percepção dependem de mecanismos fisiológicos, então a única forma de fazer epistemologia científica é através da experimentação fisiológica e da ótica. O sujeito do conhecimento tornou-se, assim, um objeto, que poderia ser manipulado e analisado em laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Suas contribuições não acabam por aí. Antes das pesquisas de Helmholtz, a comunidade científica acreditava que o impulso nervoso era instantâneo ou rápido demais para ser mensurado. Em 1850, estimulando um nervo motor na perna de uma rã e medindo o tempo da contração muscular, ele obteve o registro da velocidade de condução neural, que é de aproximadamente 27 metros por segundo, provando que havia “algo” entre o estímulo e a percepção que poderia ser analisado cientificamente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também mediu o tempo de reação de nervos sensoriais em humanos. Essa descoberta provou que o pensamento e o movimento corporal não ocorrem simultaneamente, mas são separados por um intervalo de tempo mensurável. Essa foi a base que abriu caminho para os experimentos de tempo de reação e cronometria mental que dominariam o laboratório de Wundt décadas depois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== F. A. Lange e o Projeto de uma “Psicologia Sem Alma” ===&lt;br /&gt;
O segundo pilar desse “retorno a Kant”, também de matriz fisiológica, foi erguido pelo filósofo e sociólogo Friedrich Albert Lange (1828-1875). Lange foi uma figura central na “controvérsia materialista” que agitava a Alemanha. Ele rejeitava tanto os “delírios” dos sistemas idealistas metafísicos quanto o reducionismo ingênuo do materialismo científico de Vogt e Büchner. Em sua influente obra História do Materialismo, de 1866, Lange defendeu que a limitação proposta por Kant é absoluta, ou seja, não temos e nem nunca teremos acesso à essência última da realidade, às coisas em si. Nosso conhecimento se restringe aos efeitos das coisas, ou seja, os fenômenos, que nos aparecem totalmente moldados pela nossa organização mental e neurológica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Lange argumentou que a impossibilidade de conhecer a essência não impede o estudo científico rigoroso das “aparências”, ou seja, sobre como as coisas nos aparecem. Para viabilizar esse estudo, Lange atacou as psicologias filosóficas do passado, que versavam debates que ele ele entendia estéreis sobre a natureza, a imortalidade e a substancialidade da “alma”. Para Lange, a alma era um conceito vazio, um “mito antigo” que forçava a psicologia a operar sobre pressupostos metafísicos inverificáveis. Em resposta, ele propôs a criação de uma psicologia sem alma, ou, em outras palavras, uma psicologia sem metafísica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste novo paradigma, o objeto de estudo da psicologia deveria ser reduzido aos dados empíricos observáveis, incluindo a sensação, a percepção, a ação e a linguagem, sempre buscando o seu correlato fisiológico. Lange rejeitou a introspecção puramente filosófica, pois a auto-observação isolada é privada, não pode ser repetida, não permite a presença de observadores externos e leva invariavelmente a ilusões verbais. Segundo ele, essa introspecção conduzia o pesquisador a substancializar conceitos como “vontade” ou “pensamento”, sem nenhum lastro empírico ou experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A única saída para a psicologia tornar-se verdadeiramente científica era abraçar a metodologia das ciências naturais. Apoiando-se no trabalho de Helmholtz e nas medições pioneiras de psicofísicos como Ernst Weber e Gustav Fechner, Lange prescreveu que a psicologia deveria investigar as leis fisiológicas da percepção e medir a correlação exata entre estímulos físicos e respostas sensoriais, como nos tempos de reação e nos limiares diferenciais. A psicologia passava a ser entendida não como a ciência do espírito transcendente, mas como a ciência psicofisiológica que estuda experimentalmente as condições de possibilidade da experiência, trazendo o sujeito transcendente de Kant para uma fisiologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fechner e a Fundação da Psicofísica ===&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner (1801–1887) foi um físico e metafísico alemão e antigo aluno de Weber. Apesar de não ser um neokantiano, ele tem uma importância fundamental para este momento da fundação da psicologia experimental, tendo sido citado e adotado por neokantianos. Ele assumiu a prestigiada e importante cadeira de física da Universidade de Leipzig em 1834, enquanto produzia sátiras sobre temas metafísicos e artísticos sob um pseudônimo. Após uma série de experimentos em que observava diretamente o Sol, feriu gravemente suas retinas, evento que o conduziu a um colapso físico e mental. Teve uma recuperação milagrosa em 1843, quando tentou observar flores em seu jardim e, por meio de uma experiência mística, observou que a natureza brilhava de dentro para fora, de onde concluiu que o universo era dotado de alma e consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esssa experiência decisiva levou-o a dedicar sua vida ao combate do materialismo científico, que ele denominava visão noturna, que via o mundo como uma matéria inerte e sem vida. Já a sua visão diurna entendia que a matéria era a manifestação da consciência universal divina, uma cosmovisão espiritualista que pode ser entendida como panpsiquista, ou seja, todos os corpos físicos possuem uma forma de alma. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi buscando provar sua visão que Fechner entendeu que poderia provar empiricamente a relação entre a mente (ou o espírito) e o corpo (ou a matéria) se encontrasse uma relação matemática constante entre a intensidade do estímulo físico e a magnitude da sensação psíquica correspondente. Isso porque Fechner percebeu que um aumento na intensidade do estímulo físico não gerava um aumento equivalente e proporcional na sensação subjetiva. A relação não era linear, mas sim proporcional, pois o estímulo físico aumentava em uma progressão geométrica, enquanto a sensação psíquica crescia em uma progressão aritmética. Por exemplo, acrescentar o som de um sino a outro que já está tocando gera um forte impacto perceptivo, pois é possível distinguir claramente que passou-se de um para dois sinos. Já acrescentar um sino a uma dezena deles produz uma alteração quase imperceptível. A sensação dependia, portanto, do nível de estimulação já existente no sistema.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para dar sustentação empírica à sua teoria, Fechner apropriou-se dos trabalhos experimentais realizados por Weber, que havia formulado a teoria da diferença mínima perceptível, demonstrando que a sensibilidade humana não avaliava diferenças absolutas entre estímulos, mas sim relações relativas ou proporcionais. Weber observou que, ao levantar pesos, os sujeitos conseguiam detectar uma variação mínima correspondente a uma fração constante de aproximadamente 1:40 em relação ao peso padrão. Essa constância proporcional é descrita pela chamada Lei de Weber:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
II=K&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde I representa a intensidade do estímulo padrão (que aparecerá como R posteriormente), ΔI é o acréscimo mínimo necessário para produzir uma mudança perceptível na sensação e k é uma constante matemática específica para cada modalidade sensorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Fechner percebeu que essa fração constante (ΔI/I) correspondia à unidade de medida da sensação subjetiva (dS). Utilizando o cálculo infinitesimal, Fechner integrou matematicamente a equação de Weber, assumindo que todas as diferenças mínimas perceptíveis eram subjetivamente iguais entre si. Essa operação matemática resultou na célebre Lei de Fechner ou Lei de Weber-Fechner:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
S = k Log R&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde S representa a magnitude da sensação subjetiva (qualidade mental), R representa a intensidade física do estímulo (qualidade material) e K é uma constante experimental ajustada a cada sentido. Essa fórmula logarítmica foi construída para mostrar que, para a sensação aumentar linearmente, o estímulo físico precisava crescer exponencialmente, estabelecendo uma relação exata e mensurável entre o psíquico e o físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para aplicar sua fórmula, Fechner sistematizou dois conceitos fundamentais que estruturam as medições psicofísicas. A primeira é o limiar absoluto, ou seja, o ponto de intensidade física mínima abaixo do qual o estímulo não é detectado pelo sujeito e acima do qual a sensação passa a ser percebida. Outro conceito é o de limiar diferencial, que é a quantidade mínima de alteração ou variação que deve ser aplicada a um estímulo para que o sujeito seja capaz de discriminar uma mudança na sensação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um desdobramento fascinante da Lei de Fechner ocorreu quando o estímulo físico apresentava valores abaixo do limiar absoluto (R&amp;lt;1), resultando em valores negativos para a sensação (S). Fechner definiu esses valores como sensações negativas ou subliminares, postulando a existência de processos mentais ativos abaixo do limiar da consciência desperta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para determinar com precisão científica os limiares absolutos e diferenciais, Fechner desenvolveu e padronizou três metodologias experimentais rigorosas, que se tornaram os pilares metodológicos de toda a psicologia experimental posterior. No Método do Erro Médio ou do Ajuste, o próprio sujeito experimental manipula ativamente um instrumento para ajustar um estímulo variável até que sinta que este se iguala a um estímulo padrão constante. A média dos desvios entre os ajustes do sujeito e o padrão real define o erro de observação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já no Método do Estímulo Constante ou dos Casos Corretos e Incorretos, o pesquisador apresenta de forma aleatória uma série de estímulos pré-determinados e constantes em comparação com um estímulo padrão. O sujeito deve julgar se o estímulo de comparação é maior, menor ou igual ao padrão, medindo-se a proporção estatística de acertos. Por fim, no Método dos Limites ou das Diferenças Mínimas Perceptíveis, dois estímulos são apresentados ao sujeito. Um deles é aumentado ou reduzido sistematicamente em passos discretos e graduais, e o sujeito relata o momento exato em que deixa de perceber ou passa a perceber a diferença entre ambos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1860, Fechner publicou seu livro monumental, Elementos de Psicofísica, que alguns entendem ser o primeiro sobre a psicologia científica experimental. Ao fornecer à psicologia técnicas de medição coerentes e precisas, Fechner provou de forma contundente que a mente humana era passível de investigação científica e experimental, sepultando em definitivo o antigo veto imposto por Immanuel Kant, em pleno momento de desenvolvimento do Neokantismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Incomodados com as inclinações metafísicas e espiritualistas de Fechner, os psicólogos experimentais subsequentes, sob a liderança de Wilhelm Wundt, rejeitaram completamente o panpsiquismo entre outras ideias, apropriando-se exclusivamente de seus métodos quantitativos de laboratório para estabelecer a psicologia como uma ciência empírica e natural. Como bem observou o historiador Edwin G. Boring, Fechner agiu como um “Colombo que descobriu um Novo Mundo (a psicologia científica) enquanto procurava pelas antigas Índias (a prova de sua metafísica)”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Resumindo ===&lt;br /&gt;
A intersecção entre a epistemologia kantiana, a fisiologia de Müller e a reformulação promovida por Helmholtz e Lange constituiu o início daquilo que tornou possível a psicologia científica. Kant havia mostrado que o sujeito constrói ativamente a realidade, mas negou que esse sujeito pudesse ser estudado matematicamente ou experimentalmente. Müller transferiu a estrutura ativa da mente para os nervos sensoriais específicos. Helmholtz e Lange reinterpretaram as pesadas categorias transcendentais de Kant como mecanismos biológicos e perceptivos operando através de inferências inconscientes e leis fisiológicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao “naturalizar” a Crítica da Razão Pura, o Neokantismo Psicofisiológico resolveu o veto de Kant a uma psicologia científica. Se os limites e as formas do nosso conhecimento são determinados pelo nosso sistema nervoso e sensorial, então o estudo epistemológico da mente deve ser feito no laboratório de fisiologia, estudando principalmente a percepção. A exigência de matematização foi superada pelas leis da psicofísica de Fechner e Weber, e o problema da introspecção descontrolada foi resolvido pelo uso de instrumentos de precisão, como cronoscópios, além de métodos de medidas de limiar, controle de estímulos, erros médios, entre outros, que transformavam as respostas subjetivas em dados objetivos, replicáveis e mensuráveis. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse foi o cenário epistemológico e institucional que Wilhelm Wundt encontrou e ajudou a consolidar. Wundt não fundou a psicologia a partir do nada em 1879. Seu Instituto em Leipzig foi organização metodológica e teórica de décadas de esforços em que a filosofia foi obrigada a dialogar com os nervos, os músculos e os tempos de reação, transformando para sempre a especulação sobre a alma em uma rigorosa ciência da experiência imediata. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ironicamente, escolas neokantianas posteriores, como a Escola de Marburgo, foram focos de resistência à psicologia experimental, alegando que o sujeito do conhecimento de Kant era de ordem puramente transcendental e lógica, e não empírica ou mensurável, ou seja, rejeitando a “biologização” do pensamento kantiano e a consequente criação da psicologia experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, conforme mostra Gundlach, a criação de uma posição acadêmica e o laboratório de psicologia por Wundt não se deu por conta de um amplo reconhecimento da superioridade do pensamento wundtano, mas sim por conta de disputas políticas e institucionais nas universidades alemãs. De qualquer forma, Wundt conseguiu desenvolver bem sua teoria ao longo de sua vida e conseguiu estabelecer-se na proeminência da psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia de Wundt ==&lt;br /&gt;
[[Wilhelm Wundt|Wilhelm Maximilian Wundt]] é, na historiografia da psicologia, uma figura ao mesmo tempo onipresente e pouco compreendida. Freqüentemente reduzido ao título de “fundador do laboratório de Leipzig”, essa simplificação negligencia sua estatura como um dos últimos grandes arquitetos de sistemas do século XIX, cujo &#039;&#039;Systemgedanke&#039;&#039; (pensamento sistêmico) buscava integrar a psicologia como uma propedêutica fundamental para a filosofia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Recuperar o Wundt original exige preencher uma vasta lacuna historiográfica. A primeira envolve apontar as conhecidas e muitas das distorções da tradução de [[Titchener|E.B. Titchener]] para o contexto anglo-americano, que foi formulada para aproximar suas ideias e pdasdaquelas de Wundt, visando uma “confirmação” do pensamento de Titchener. Wundt não era um estruturalista ou associacionista clássico e seu sistema é essencialmente dinâmico e centrado no &#039;&#039;&#039;voluntarismo&#039;&#039;&#039;. Para Wundt, a vontade e os processos afetivos não são meros epifenômenos, ou seja, um fenômenos secundários ou acessórios que acompanhma um fenômeno principal, mas o eixo organizador da consciência ativa. Esta reconstrução crítica visa resgatar a autonomia epistemológica de uma ciência que define seu objeto não como uma substância, mas como a experiência em sua totalidade imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Experiência conforme Wundt ===&lt;br /&gt;
Para Wilhelm Wundt, a experiência é concebida como um todo unitário e coerente. As duas abordagens da experiência que ele propõe não se deve a uma diferença ontológica, mas como dois pontos de vista distintos e complementares que permite sua abordagem científica, que ele separa entre Experiência Mediata e Experiência Imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experiência Mediata ====&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Experiência Mediata&#039;&#039;&#039; é a experiência objetiva) está &#039;&#039;&#039;focada nos objetos do mundo externo&#039;&#039;&#039;. Ela foca exclusivamente nos objetos do mundo externo, abstraindo o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que sabe, que tem conhecimento. A Experiência Mediata seria o ponto de vista característico das ciências naturais, como física, química e fisiologia. A ciência natural opera por meio de uma abstração sistemática, pois ela coloca o sujeito cognoscente &amp;quot;entre parênteses&amp;quot; e analisa apenas os objetos externos pensados, como se existissem de maneira totalmente independente de quem os percebe. É chamada de &amp;quot;mediata&amp;quot; porque &#039;&#039;&#039;nosso acesso a tais objetos é sempre indireto&#039;&#039;&#039;, ou seja, precisa de mediação, pois é dependente de conceitos abstratos, inferências teóricas e construções conceituais auxiliares para representá-los. Por um lado, o estímulo físico é intermediado pelos limites anatômicos e biológicos do nosso aparato perceptivo, ou seja, temos os limites e capacidades da nossa percepção. No caso da visão, por exemplo, não vemos os raios ultravioleta e infravermelho, pois não estão no expecto da luz visível, mas vemos as cores e suas combinações. Por outro lado, para constituir a &amp;quot;realidade objetiva&amp;quot;, o cientista natural precisa utilizar conceitos teóricos auxiliares e construções hipotéticas, como átomos, ondas eletromagnéticas e forças gravitacionais, que não são dados imediatamente na percepção sensível mas que podem ser vistos experimentalmente e por meio de instrumentos e aparatos científicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wundt critica assim o empirismo tradicional e o associacionismo. A doutrina do empirismo diz que a mente como página em branco, conforme a formulação de John Locke e sua &#039;&#039;tabula rasa&#039;&#039;. Neste caso, a mente seria progressivamente preenchida pelas impressões do mundo exterior (sensação) e pelas operações internas (reflexão). David Hume radicaliza o princípio empírico, postulando que as impressões são os átomos cognitivos fundamentais e as ideias nada mais são do que cópias atenuadas ou lembranças dessas impressões na memória e na imaginação. Já o associacionismo constitui a hipótese de que as ideias simples e discretas se combinam para formar pensamentos complexos, juízos e raciocínios abstratos. Se o empirismo fornece os blocos de construção, o associacionismo descreve a &amp;quot;força de atração&amp;quot; que os une. Conforme sistematizado por Hume e, depois, desenvolvido por Hartley e James Mill, a mente transita espontaneamente de uma ideia para outra por meio de regras regulares de associação, como a semelhança, a contiguidade no tempo e as relações de causa e efeito.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para Wundt, ambos erraram, pois transferiam as características dos objetos externos da física, como a solidez, os limites rígidos e a permanência estática, para os conteúdos conscientes, passando a tratar as representações (&#039;&#039;Vorstellungen&#039;&#039;) como coisas ou &amp;quot;átomos mentais&amp;quot;. Na física, o foco recai sobre o objeto substantivo. Contudo, segundo Wundt, a consciência não contém objetos estáveis. Ele parte de uma diferença fundamental que os psicofísicos e outros haviam apontado, que é aquela entre o mundo externo e o mundo percebido, ou ainda, entre as coisas e suas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em resumo, a Experiência Mediata se aproxima dos objetos estáveis do mundo externo e de como eles nos chegam. Na experiência mediata, o cientista da natureza pode retornar quando quiser ao mesmo objeto físico estável (uma pedra ou um elemento químico) para observá-lo repetidamente, ainda que o observador em si esteja sempre em mudança.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experiência Imediata, o Objeto de Estudo da Psicologia ====&lt;br /&gt;
Ao definir seu objeto, Wundt deu um passo decisivo para dar à psicologia autonomia perante as outras ciências naturais. Ele propõe que a experiência é uma unidade indivisível. Mas o que ele quer dizer por &#039;&#039;&#039;experiência&#039;&#039;&#039;? Uma definição poderia ser a totalidade dos processos conscientes, englobando sensações, sentimentos, representações e volições (vontades), apreendida da exata forma como se apresenta diretamente ao sujeito, sem qualquer abstração conceitual ou mediação de instrumentos externos. Ou seja, a experiência de Wundt seria como tudo o que se passa na mente, exatamente como ela aparece para uma pessoa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;O domínio da psicologia seria a experiência imediata&#039;&#039;&#039;, subjetiva, que é a experiência em sua realidade concreta, direta e intuitiva, apreendida antes de qualquer conceituação, teorização ou abstração. Ou seja, é a experiência antes de ela adquirir qualquer camada de compreensão, que seriam mediadores, por isso é imediata, &#039;&#039;&#039;sem mediação&#039;&#039;&#039;. Ela envolve o processamento de elementos sensoriais simples, como cor, som, temperatura, e de sentimentos simples, como prazer e desprazer. Ela diz respeito ao modo puro de funcionamento mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vamos a um exemplo, desta vez no campo do acústica. Na perspectiva mediata, o cientista natural abstrai o sujeito e estuda o som de forma indireta e conceitual. Ele utiliza aparelhos para medir as ondas sonoras e a sua propagação física pelo ar. O objeto físico “som” é, portanto, mediado e traduzido por conceitos de frequência, amplitude e decibéis. Já sob a perspectiva imediata, que é a da psicologia, o psicólogo estuda a sensação direta e em si mesma do tom no momento exato em que ele aparece na consciência. A análise está na vivência concreta do sujeito, que inclui a qualidade do tom, a sua intensidade subjetiva, a tonalidade afetiva de prazer ou desprazer que o acompanha e o processo ativo da atenção (apercepção, que será tratada mais adiante) que coloca aquele som no foco da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se olharmos desta vez para a cromática, na visão mediata, ciência natural estuda o azul abstraindo a experiência do sujeito. A física o descreverá de forma conceitual como uma radiação eletromagnética com determinado comprimento de onda atingindo a retina. A fisiologia se debruçará sobre o funcionamento dos tecidos dos olhos quando estimulados com a cor azul em suas nuances. Para a psicologia de Wundt, o azul é investigado como um dado imediato e real na consciência do sujeito no momento da percepção interna. O foco não está nas propriedades físicas do estímulo, mas sim na reação subjetiva e ativa do cérebro vivo a esse estímulo, que gera a qualidade imediata da cor na experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conduzindo seus estudos, Wundt também identificou aquilo que denominou &#039;&#039;&#039;causalidade psíquica&#039;&#039;&#039;. Ao nos lembrarmos de um fato triste, por exemplo, a fisiologia explicaria a tristeza de forma conceitual e indireta, por meio de correntes elétricas no córtex cerebral, liberação de hormônios ou atividade de sinapses nervosas. Já o psicólogo numa linha wundtiana observa a conexão de processos internos como elas ocorrem diretamente na consciência do sujeito, como a ligação da lembrança triste a um sentimento de angústia. A causalidade psíquica é uma causalidade própria da mente e irredutível às leis físicas da natureza, ou seja, não pode ser comparada à causalidade física como a conhecemos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao adotar a experiência como seu objeto, Wundt rompe com a psicologia da alma, filosófica e metafísica. Ele substitui a psicologia de substâncias, que postula uma entidade mental oculta, pela &#039;&#039;&#039;teoria da atualidade&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Aktualitätstheorie&#039;&#039;), na qual o psiquismo é definido como um fluxo de processos em constante devir. Seu sistema está fundamentado em um &#039;&#039;&#039;monismo perspectivista&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, para ele, mente e corpo não são substâncias que interagem mecanicamente, mas perspectivas distintas sobre a mesma unidade da experiência (&#039;&#039;Erfahrung&#039;&#039;). A psicologia, portanto, não estuda um “mundo interno”, que está isolado do externo, ainda que em contato com ele, mas a totalidade da experiência humana sob o prisma da imediatidade. Essa transição do estatuto de substância “mente” ou algo semelhante para o de processo traz uma nova perspectiva, criando um objeto que pode ser alvo de experimentação científica, partindo de experimentos já criados pela psicofísica e ainda outros que seriam desenvolvidos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Apercepção ===&lt;br /&gt;
No contexto filosófico, como já visto, o conceito de apercepção remonta a Kant, que a definiu como o processo autônomo, ativo e prévio pelo qual a mente unifica diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Wundt adotou essa noção kantiana para fundamentar sua teoria da consciência, definindo &#039;&#039;&#039;apercepção&#039;&#039;&#039; como o processo psicológico ativo pelo qual um conteúdo psíquico (ou representação) é trazido à &#039;&#039;&#039;clareza máxima e ao foco da consciência&#039;&#039;&#039;, vindo necessariamente acompanhado pelo estado de atenção voluntária.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para explicar a dinâmica da consciência, Wundt utilizou uma famosa analogia com a visão para diferenciar apercepção e percepção. O campo visual da consciência (&#039;&#039;Blickfeld&#039;&#039;) corresponde à percepção, que é a simples entrada de uma representação na consciência de forma difusa, ampla e sem a presença focalizada da atenção. Já o ponto focal da consciência (&#039;&#039;Blickpunkt&#039;&#039;) corresponde à apercepção, que é a entrada de uma representação no ponto central de máxima clareza e foco estreito da atenção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A apercepção, então, é uma &#039;&#039;&#039;manifestação primordial da vontade&#039;&#039;&#039;, funcionando como o princípio dinâmico que dá direção e estrutura tanto à experiência quanto ao movimento. Além disso, a apercepção pode ser ativa, que é quando o sujeito deliberadamente seleciona onde focará sua atenção, ou passiva, quando é o estímulo que se impõe no foco no sujeito. Por fim, a apercepção é o mecanismo central da operação da causalidade psíquica. É ela que unifica a mente em um sistema ativo, permitindo que a fusão de elementos resulte em sínteses criadoras com propriedades qualitativamente novas e imprevisíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Percepção Interna (innere Wahrnehmung) vs. Auto-observação (Selbstbeobachtung) ===&lt;br /&gt;
Para garantir o rigor procedimental e responder ao “desafio kantiano”, Wundt rejeitou a &#039;&#039;Selbstbeobachtung&#039;&#039;, que pode ser entendida como a &#039;&#039;&#039;auto-observação tradicional&#039;&#039;&#039; ou introspecção casual. Trata-se do método introspectivo puramente filosófico e especulativo que, segundo Wundt e outros, seria fonte de auto-ilusões. No momento em que o sujeito tenta observar ativamente o curso de seus próprios processos mentais complexos, a atenção que ele direciona para si mesmo altera, deforma ou suprime o próprio fenômeno em curso. Na reflexão puramente interna, é impossível garantir que o mesmo estado mental se repita de forma idêntica, impedindo a replicação intersubjetiva e a formulação de leis científicas gerais &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A solução científica é a &#039;&#039;innere&#039;&#039; &#039;&#039;Wahrnehmung&#039;&#039;, ou &#039;&#039;&#039;percepção interna&#039;&#039;&#039;, que permite a criação de um método científico baseado na repetição de estímulos externos controlados. No laboratório, o psicólogo replica condições experimentais que permitem a observação do aparecimento imediato do processo psíquico sob condições estáveis e previsíveis. O laboratório funciona, portanto, como o estabilizador do objeto psicológico, permitindo que a percepção interna atinja a precisão necessária para decompor a consciência em seus elementos fundamentais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O método de investigação da percepção interna é bem mais rigoroso. Em vez de pedir ao sujeito que reflita livremente sobre seus pensamentos, o experimentador utiliza aparelhos físicos de precisão, tais como [[Cronoscópio|cronoscópios]], pêndulos, compassos táteis, geradores de tons para controlar rigorosamente o início, a intensidade, a duração e a apresentação de estímulos externos predeterminados. Como o estímulo físico externo pode ser repetido e modificado arbitrariamente pelo pesquisador, as condições fisiológicas e sensoriais associadas à percepção interna são reproduzidas com exatidão. Com isso, o sujeito experimental pode antecipar sua atenção ao evento e captar com máxima precisão o surgimento da experiência imediata correspondente. O participante deveria ser rigorosamente treinado, muitas vezes revezando as funções de sujeito e pesquisador, e era instruído a fornecer respostas simples e verificáveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Experimentos do Laboratório de Wundt ===&lt;br /&gt;
Vamos a alguns exemplos do que acontecia no laboratório de Wundt, para integrar melhor os conceitos já apresentados. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O primeiro experimento foi concebido originalmente para descrever a “equação pessoal” que aparecia nas medições dos astrônomos. No caso, observava-se que astrônomos treinados, utilizando os mesmos equipamentos, discordavam de suas medições que, à época, eram feitas manualmente com ajuda de instrumentos. De alguma forma, estas diferenças nas medições pareciam ter um tipo de padrão. Neste experimento, Wundt utilizava um aparelho chamado medidor de pensamento (Gedankenmesser) e, posteriormente, o pêndulo de complicação (Complicationspendel). O dispositivo consistia em um grande relógio de pêndulo que possuía uma agulha cruzada, como uma agulha de tricô, capaz de golpear fisicamente um pequeno sino em um ponto exato do seu arco de oscilação. O sujeito do experimento deveria olhar para a escala do pêndulo e tentar determinar a posição exata do ponteiro no momento em que ouvia o sino tocar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste experimento, Wundt descobriu que o sujeito sempre cometia um erro sistemático de registro, de aproximadamente um oitavo de segundo. Segundo ele, era impossível perceber visualmente a agulha e o som do sino ao mesmo tempo. Esse experimento seria uma prova laboratorial de que a consciência possui uma capacidade limitada e só consegue focar em uma única percepção por vez, como a diferença no marco da medição podia mostrar. A ilusão de simultaneidade devia-se apenas à rápida sucessão dos processos de atenção (apercepção).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os experimentos de tempo de reação, nosso segundo exemplo, constituíam o verdadeiro coração do trabalho em Leipzig na década de 1880. Wundt adaptou o método de subtração (Subtractiemethode), do fisiologista holandês F. C. Donders, para medir a velocidade de processos mentais complexos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o experimento de Wundt, é necessário compreender que, para ele, uma reação consciente envolvia: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- transmissão da sensação ao cérebro; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2- entrada do estímulo no campo amplo da consciência (percepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
3- entrada no foco ativo da atenção (apercepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
4- ato de vontade para liberar a resposta; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
5- execução motora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada um dessas partes exigem um certo tempo, pois são processos não imediatos. A depender de como as etapas do experimento são organizadas, diferentes tempos indicariam o acionamento maior ou menor de cada um deles. No experimento, o sujeito era treinado para responder pressionando uma tecla telegráfica ao ver um estímulo luminoso simples, como um flash de luz. Em seguida, a tarefa mais difícil. Duas imagens eram apresentadas, um círculo branco sobre fundo preto ou vice-versa, e o sujeito só deveria reagir após identificar com clareza qual imagem havia aparecido. Ao subtrair o tempo da reação simples do tempo da reação complexa, Wundt calculava o “tempo de apercepção” ou discriminação. Na primeira tese de doutorado em psicologia experimental da história, Max Friedrich, que atuou no experimento, mostrou que o tempo de discriminação aumentava de acordo com a complexidade do estímulo visual. Por exemplo, o sujeito levava mais tempo para aperceber e discriminar uma sequência de seis dígitos do que de apenas um ou dois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O assistente de Wundt, Ludwig Lange, também colaborou no estudo ao desenvolver um experimento crucial. Ele demonstrou que os tempos de reação variavam drasticamente dependendo da preparação atencional do sujeito. Se a atenção estivesse focada no movimento de resposta que o dedo faria (reação muscular), o tempo era curto (cerca de 125 ms), pois funcionava como um “reflexo cerebral” que pulava a apercepção. Se o foco estivesse direcionado ao estímulo sensorial que iria surgir (reação sensorial), o tempo era cerca de 100 ms mais longo, pois envolvia o circuito completo da mente consciente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O terceiro experimento foi desenvolvido por Martin Trautscholdt, um dos estudantes de doutorado de Wundt. Ele estudava a associação de ideias. No seu estudo, o sujeito era instruído a pressionar uma tecla no momento exato em que uma ideia associada surgisse em sua consciência a partir de um estímulo visual ou auditivo. Ao subtrair o tempo que o sujeito levava para simplesmente reconhecer a palavra estimulante, Trautscholdt conseguiu quantificar o tempo gasto pela mente para realizar a conexão associativa propriamente dita que, segundo Trautscholdt, variava entre 706 e 874 ms. Wundt também adaptou a técnica de associação de palavras de Francis Galton, limitando a resposta do sujeito a apenas uma única palavra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O quarto e último experimento que será apresentado é relacionado a acordes musicais. Nele, sujeitos ouviam tons isolados no piano, que seriam as sensações puras, e depois os mesmos tons tocados simultaneamente. Os participantes descreviam em detalhes a transição afetiva de como a fusão física das frequências dava origem a um produto inteiramente novo na consciência, que seria o sentimento estético de harmonia e prazer decorrente de uma síntese criadora. Wundt conduzia vários experimentos em estética experimental, tal qual seu colega Fechner.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Arquitetura da Mente: Elementos, Fusão e Síntese Criadora ===&lt;br /&gt;
Segundo Wundt, a experiência pode ser decomposta em elementos simples, que incluem as sensações e os sentimentos simples. Os sentimentos, por sua vez, são entendidos a partir da teoria tridimensional dos sentimentos, onde eles se distribuem em um espaço qualitativo entre os polos prazer/desprazer (Lust-Unlust), tensão/relaxamento (Spannung-Lösung) e excitação/depressão (Erregung-Beruhigung). A primeira é a mais evidente, se refere à avaliação afetiva primária da experiência. A segunda se relaciona ao esforço da atenção ou à preparação interna da mente. Já a terceira está relacionada ao nível de ativação biológica e psicológica do organismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esses aspectos todos são organizados através do mecanismo de fusão (Verschmelzung), onde as qualidades elementares se fundem em complexos psíquicos. O conceito central aqui é o princípio da síntese criadora (schöpferische Synthese). Ao contrário do associacionismo britânico, Wundt afirma que o todo resultante possui propriedades que não estão contidas na mera soma das partes. Essa síntese não é um processo mecânico passivo, mas um ato aperceptivo ativo, vinculado à vontade. Na mente humana, a combinação de elementos gera um valor novo e qualitativamente superior, marcando a distinção fundamental entre a causalidade psíquica e a mecânica física.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em termos simples, a síntese criadora estabelece que os complexos psíquicos, como representações, sentimentos compostos e afetos, embora formados pela união de elementos simples (sensações e sentimentos simples), possuem características qualitativas inteiramente novas que não pertencem a nenhum de seus elementos constituintes isolados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fusão é o processo ativo e primário de integração psíquica. É através dela que os elementos sensoriais e afetivos brutos são ativamente sintetizados pela mente para dar origem a uma nova unidade psicologicamente complexa. A fusão é a geradora da síntese criadora. Para Wundt, a síntese criadora é a prova cabal da causalidade psíquica. Ela monstra que os fenômenos mentais obedecem a leis de conexão e geração próprias que não se ajustam às leis da física ou da fisiologia mecânica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Observemos isso com um exemplo já apresentado. Se você tocar no piano as notas Dó, Mi e Sol isoladamente, você terá apenas a experiência de três sensações auditivas distintas. No entanto, quando essas notas são tocadas simultaneamente, a fusão de seus elementos gera na consciência uma experiência qualitativamente nova, que seria um acorde musical. O sentimento de harmonia e a qualidade estética do acorde são um produto da síntese criadora, pois não existiam em nenhuma das notas isoladas e surgem puramente da atividade unificadora da mente sobre o estímulo físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Paralelismo Psicofísico e Causalidade Psíquica ===&lt;br /&gt;
O paralelismo psicofísico foi um dos conceitos mais importantes e debatidos no século XIX durante o processo de fundação da psicologia científica. Ele surgiu como uma alternativa teórica para solucionar o clássico problema mente-corpo. O conceito foi formulado de forma a tanto o dualismo substancial, que dividia o ser humano em duas substâncias isoladas cuja forma de interação era desconhecida, quanto o materialismo reducionista, que reduzia a mente a uma mera secreção cerebral ou processo físico ou fisiológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para Fechner, o paralelismo era a manifestação de um monismo neutro, ou teoria de duplo aspecto. Ele defendia que a matéria (corpo) e o espírito (mente) não são substâncias diferentes, mas sim dois modos de aparência ou perspectivas distintas de uma única e mesma realidade subjacente, teoria sobre o qual fundamental grande parte de seu projeto científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt também adotou o termo paralelismo psicofísico, mas realizou uma redefinição epistemológica radical do conceito, visando se afastar da metafísica. Ele rejeitava categoricamente qualquer tentativa de transformar o paralelismo em uma doutrina ontológica sobre a natureza última da realidade, transformando-o estritamente um postulado metodológico e heurístico indispensável para a investigação científica. Os processos mentais não sejam reduzidos a processos fisiológicos ou neurais, pois a consciência obedece a leis de conexão próprias, como a causalidade psíquica, que não podem ser explicadas pelas leis da mecânica cerebral.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Psicologia Individual e Völkerpsychologie: dois métodos para manifestações da experiência ===&lt;br /&gt;
A arquitetura metodológica de Wundt responde ao desafio de investigar processos mentais que variam em complexidade. Ele estabelece que &#039;&#039;&#039;a psicologia deve ser compreendida como o fundamento das ciências humanas&#039;&#039;&#039; ou ciências do espírito (&#039;&#039;Geisteswissenschaften&#039;&#039;). A &#039;&#039;&#039;Psicologia Individual&#039;&#039;&#039;, na concepção de Wundt, foca nos processos elementares, que incluem sensação e percepção, que são passíveis de controle rigoroso em laboratório através da manipulação de estímulos externos e pelas técnicas da [[introspecção]] experimental e estudo da experiência interna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entretanto, Wundt reconhece a insuficiência do modelo experimental para os processos mentais superiores, como o pensamento e a linguagem, que são historicamente condicionados. Para estes, ele propõe a &#039;&#039;Völkerpsychologie&#039;&#039; , ou &#039;&#039;&#039;Psicologia dos Povos&#039;&#039;&#039;, dedicada ao estudo dos produtos das &#039;&#039;geistige Gemeinschaften&#039;&#039; (comunidades espirituais, no sentido das ciências do espírito, ou coletividades). Wundt vai apontar a linguagem, o mito e os costumes (&#039;&#039;Sitten&#039;&#039;) não são apenas dados culturais, mas objetivações de leis psíquicas superiores, inacessíveis à introspecção de laboratório. Eles seriam produtos da experiência humana nas suas formas mais avançadas e superiores e, por não serem passíveis de experimentação, exigem uma outra abordagem. Essas duas vertentes, experimental e histórico-cultural, não são divergentes, mas sim o projeto integrador que permite apreender a mente tanto em sua base sensório-motora quanto em suas manifestações espirituais complexas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As investigações da psicologia dos povos focavam na alma do povo (&#039;&#039;Volksseele&#039;&#039;), definida como a realidade factual dos processos psíquicos que surgem em uma comunidade por meio da interação das energias mentais dos indivíduos. Essa “mente coletiva” se tornava um objeto tangível e investigável ao longo da história em três grandes produtos culturais. O primeiro é a &#039;&#039;&#039;linguagem&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Die Sprache&#039;&#039;), ferramenta pela qual o pensamento é estruturado e externalizado. Já o &#039;&#039;&#039;mito e a religião&#039;&#039;&#039; são as formas como a imaginação e os sentimentos humanos coletivos projetam suas explicações sobre o cosmos e a existência. Os &#039;&#039;&#039;costumes&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Sitten&#039;&#039;) e o &#039;&#039;&#039;direito&#039;&#039;&#039;, por sua vez, são  as regras de conduta coletiva que nascem de atos voluntários e impulsos compartilhados, padronizando as interações sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não podia realizar experimentos com culturas inteiras, Wundt operava por meio da pura &#039;&#039;&#039;observação retrospectiva e comparativa dos produtos mentais&#039;&#039;&#039;, ou seja, analisando os objetos já criados e usados ou em uso por diferentes povos e culturas, anotando suas diferenças e semelhanças. Wundt juntava, lia e analisava de forma exaustiva relatos históricos, estudos filológicos, dicionários, mitologias comparadas, códigos de leis e descrições etnológicas e antropológicas de povos ao redor do globo, ou seja, utilizava dos estudos de diferentes ciências humanas e sociais para extrair as leis psicológicas gerais do desenvolvimento mental humano por trás dessas manifestações. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seu objetivo era mapear como a mente coletiva evoluía do simples para o complexo ao longo das eras, numa abordagem genética e desenvolvimentista e reconstruir, de forma retrospectiva, as forças dinâmicas, os afetos, os impulsos (&#039;&#039;Triebe&#039;&#039;) e os processos de síntese criadora (melhor discutida mais adiante) que estiveram ativos na mente das pessoas no momento de sua formação. Wundt dedicou os últimos 20 anos de sua vida (de 1900 a 1920) quase exclusivamente a esse empreendimento monumental, escrevendo dez volumes sobre o assunto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O que Aconteceu Depois? ===&lt;br /&gt;
No final de sua vida, Wilhelm Wundt era visto de forma ambivalente. Enquanto mantinha o prestígio de fundador da psicologia científica, uma nova geração de psicólogos que buscava se firmar, via como um “pai tribal”, cujo longo domínio de mais de quatro décadas estava desgastado. Ele se tornou o alvo de críticas severas e passou a ser tratado por muitos como o ícone de um passado superado e falido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante a Primeira Guerra Mundial e nos anos que a sucederam, a reputação internacional de Wundt sofreu graves danos. Influenciado por seu filho Max, Wundt adotou posturas políticas ultranacionalistas, chegando a usar a Völkerpsychologie de maneira tendenciosa para criticar os inimigos da Alemanha. Essa postura inflamou um forte preconceito anti-alemão, especialmente nos Estados Unidos, onde ex-alunos e intelectuais americanos passaram a ver ele como uma mente maligna e autoritária, acelerando a rejeição de suas obras em solo estrangeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A maior frustração de Wundt no fim da vida ocorreu no âmbito acadêmico alemão. Ele sempre defendeu que a psicologia era uma ciência propedêutica e uma aliada indispensável da filosofia, devendo permanecer integrada a esta. No entanto, os filósofos acadêmicos de sua época, especialmente os neokantianos e fenomenologistas, rejeitaram veementemente o  que chamavam de “psicologismo de Wundt”, ou seja, a redução da lógica e da validade do conhecimento a fatos psicológicos. Em 1913, após a contratação de um psicólogo experimental para a cadeira de filosofia em Marburg, mais de cem professores de filosofia assinaram um protesto público exigindo que psicólogos fossem banidos dos departamentos de filosofia. Esse movimento resultou no progressivo divórcio institucional entre a psicologia e a filosofia, uma separação que Wundt lamentou e combateu até a sua morte em 1920.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir da década de 1890, uma forte onda de positivismo, inspirada pela filosofia de Ernst Mach e Richard Avenarius, varreu a psicologia experimental. Jovens psicólogos, incluindo os assistentes do próprio Wundt, rejeitaram conceitos fundamentais do sistema de Leipzig, como a apercepção, a causalidade psíquica e a síntese criadora, tomando eles como metafísica, exatamente o oposto do que desejava seu formulador. Eles preferiam um modelo elementarista e reducionista, focado na descrição de relações funcionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos EUA, a influência da teoria da evolução de Darwin deslocou o interesse da estrutura da consciência para as suas funções de adaptação ao meio, o chamado funcionalismo. Com o surgimento e o fortalecimento do behaviorismo e a eliminação da mente como objeto de estudo, o voluntarismo de Wundt perdeu qualquer espaço. Na Europa, a própria psicologia da Gestalt ergueu-se combatendo o elementarismo que havia sido falsamente associado a Wundt. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O golpe final veio após a Primeira Guerra Mundial, quando a Alemanha mergulhou em colapso econômico. Diante da “crise da psicologia”, os pesquisadores precisaram provar a utilidade prática da ciência que praticavam para sobreviver, o que já acontecia nos EUA, voltando-se para a psicologia militar, industrial, educacional e clínica. Wundt, que sempre desprezou a psicologia aplicada, teria visto seu sistema dinâmico de laboratório perder todo o fôlego diante das pressões pragmáticas da época, ainda que mantivesse sua fama e sua alcunha maior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia Científica na Inglaterra ==&lt;br /&gt;
O surgimento da psicologia na Inglaterra seguiu um caminho bastante distinto do modelo laboratorial alemão, focado na introspecção e na busca de leis universais. A psicologia britânica formou-se na intersecção de duas grandes forças intelectuais, que são as filosofias empirista e associacionista, e a biologia evolutiva. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No empirismo, pensadores como John Locke postularam que a mente humana nasce como uma tabula rasa ou uma folha em branco, e que absolutamente todo o conhecimento deriva da experiência sensorial. No associacionismo, filósofos como David Hume, James Mill e John Stuart Mill afirmavam processos mentais complexos são formados pela associação contínua de ideias simples e sensações, governadas por leis lógicas. tais como similaridade, contiguidade e causa e efeito. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A despeito de sua rica tradição filosófica, o maior divisor de águas para a ciência britânica foi a publicação de A Origem das Espécies, em 1859. A teoria da evolução natural de Darwin, trouxe novas e profundas questões para o estudo da mente britânica. Se humanos e animais compartilham ancestrais comuns, argumentava-se que deveria haver uma continuidade não apenas física, mas também mental entre as espécies, conectando a psicologia ao estudo da zoologia, dando origem à Psicologia Comparada. Além disso, a mente e a consciência deixaram de ser vistas apenas como objetos metafísicos e passaram a ser estudadas como ferramentas biológicas de adaptação, que evoluíram porque ajudavam o organismo a sobreviver em seu ambiente, sendo fundamental para a criação do funcionalismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a validação da biologia evolutiva, o estudo da inteligência animal explodiu no Reino Unido, George Romanes foi um dos primeiros a tentar sistematizar o comportamento animal. Contudo, seu método anedótico foi duramente criticado por ser antropomórfico, ou seja, por atribuir pensamentos e emoções humanas complexas a animais. Seu colega Conwy Lloyd Morgan introduziu mais rigor científico à área através do que ficou mundialmente conhecido como o Cânone de Morgan, ou princípio da parcimônia. A regra dizia que um comportamento animal não deve ser interpretado como resultado de uma faculdade mental superior se puder ser explicado por um processo psicológico mais básico, como o instinto ou o aprendizado por tentativa e erro. Apesar de a perspectiva de ambos ter sido abandonada, a Psicologia Comparada se tornou um dos principais ramos da psicologia moderna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Francis Galton e a Psicologia Diferencial ===&lt;br /&gt;
Francis Galton (1822-1911) foi um cientista e polímata britânico de inteligência extraordinária, com um QI estimado por volta de 200, algo extremamente raro, além de ser primo de Charles Darwin. Galton é amplamente reconhecido como pioneiro ao incorporar o estudo sistemático das diferenças individuais e da herança mental na nova psicologia, uma área que era ignorada ou rejeitada por pioneiros experimentalistas como Wilhelm Wundt.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Galton interessou-se pela medição das variações da inteligência e das capacidades humanas. Ele fundou um laboratório antropométrico onde testou a acuidade sensorial, a força e os tempos de reação de milhares de pessoas. Além disso, baseando-se na premissa empirista de John Locke de que todo o conhecimento vem da percepção, Galton assumiu que os indivíduos mais inteligentes seriam aqueles com as capacidades sensoriais e motoras mais aguçadas. Ele foi o inventor do conceito de testes mentais, termo posteriormente cunhado por seu aluno dos EUA, James McKeen Cattell. Galton também desenvolveu o método experimental de associação de palavras, medindo o tempo de reação mental e demonstrando a enorme influência das experiências da infância e do inconsciente no pensamento adulto, um trabalho que impressionou profundamente Sigmund Freud. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também foi um dos primeiros a fazer uso amplo do questionário psicológico para investigar imagens mentais, constatando para sua própria surpresa que a maioria dos cientistas relatava ausência de imagens mentais nítidas, em contraste com relatos muito mais detalhados fornecidos por mulheres e crianças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para conduzir medições em larga escala, ele inventou vários instrumentos clássicos e, para analisar suas enormes bases de dados, Galton desenvolveu conceitos estatísticos fundamentais, como a correlação. Essa tradição quantitativa foi depois aperfeiçoada por outros britânicos, como Charles Spearman, criador da análise fatorial e do conceito de fator g de inteligência geral, fundando a base da psicometria moderna. e influenciando de forma decisiva a psicologia dos testes nos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Conclusão ==&lt;br /&gt;
A história da psicologia é definida pelo paradoxo de ter um “longo passado” e uma “curta história”, podendo ir do De Anima de Aristóteles até a a fundação do laboratório de Wilhelm Wundt na Universidade de Leipzig, em 1879. A psicologia, assim, mostra que tem uma rica história, com muitos personagens, conceitos e acontecimentos importantes, de modo que qualquer narrativa sobre sua composição elegerá heróis e vilões, dará mais relevância para alguns, menos para outros e o esquecimento para a maioria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O texto propõe que Immanuel Kant foi uma figura central na composição da psicologia científica. Ele propôs que a mente humana é um agente ativo que organiza o conhecimento através de estruturas a priori, tais como o tempo, o espaço e as categorias do entendimento. Assim, ele introduziu o conceito de “sujeito transcendental” como a estrutura universal que garante a unidade da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Kant impôs um “veto” ao status científico da psicologia, defendendo a base na matematização. A superação desse veto ocorreu através da “naturalização” de Kant pela fisiologia. Johannes Müller, com a Teoria das Energias Nervosas Específicas, mostrou que a sensação é mediada pelo sistema nervoso, não sendo uma cópia fiel do mundo externo. Hermann von Helmholtz avançou essa ideia ao postular que as estruturas a priori de Kant seriam, na verdade, características da anatomia e fisiologia humanas. Ele propôs o conceito de “inferências inconscientes” para explicar como interpretamos dados sensoriais. Nesse contexto, Friedrich Albert Lange defendeu uma “psicologia sem alma”, rejeitando a metafísica e argumentando que o estudo científico deve focar apenas nas aparências e fenômenos observáveis, reduzindo o objeto da psicologia a dados empíricos e correlações fisiológicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner foi crucial ao oferecer a base matemática e experimental que faltavam, por meio da Lei de Weber-Fechner. Ele também padronizou e melhorou métodos para o estudo dos limites e constantes sensoriais, que se tornaram a base metodológica da psicologia experimental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt não apenas fundou um laboratório, como também arquitetou um sistema complexo. Para Wundt, o objeto da psicologia é a experiência imediata, criando conceitos como voluntarismo, causalidade psíquica, apercepção, entre outros. Além disso, ele também criou a psicologia dos povos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente do foco laboratorial alemão, a psicologia britânica foi moldada pela filosofia empirista e, crucialmente, pela teoria da evolução de Charles Darwin. Neste contexto, Galton ganha destaque, por ter fundado o laboratório antropométrico, inventado o conceitos de “testes mentais”, pelo uso de estatísticas no estudo da psicologia e ter influenciado o desenvolvimento da psicometria e a análise fatorial (com Charles Spearman), consolidando uma tradição que focava mais na variabilidade genética e na inteligência do que na estrutura da consciência em si.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_surgimento_da_psicologia_cient%C3%ADfica&amp;diff=1747</id>
		<title>O surgimento da psicologia científica</title>
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		<updated>2026-09-01T23:42:36Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* Psicologia Individual e Völkerpsychologie: dois métodos para manifestações da experiência */ Várias modificações substanciais&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto [[Portal História da Psicologia]]) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um longo passado, uma curta história ==&lt;br /&gt;
A psicologia tem um longo passado, mas uma curta história. Esta é uma frase muito famosa no campo da história da psicologia, tendo sido consagrada por Hermann Ebbinghaus, um psicólogo alemão pioneiro no estudo da memória, ainda no século XIX. A frase é exemplar e muito usada em debates sobre a historiografia da psicologia, e isto revela como é difícil dizer quando a psicologia teve início. Ela tem um &#039;&#039;&#039;longo passado&#039;&#039;&#039;, porque os temas que consideramos hoje como parte da psicologia aparecem muitas vezes na filosofia, na religião, em saberes tradicionais, entre muitos outros lugares, ao longo da história. É difícil estabelecer qual &#039;&#039;&#039;o objeto de estudo da história da psicologi&#039;&#039;&#039;a, assim como é difícil, ao longo da história, &#039;&#039;&#039;separar o que é  psicologia daquilo que não é psicologia&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse longo passado pode remontar, por exemplo, à Antiguidade, com o tratado De Anima, de Aristóteles, que escreveu muito antes de se imaginar o próprio conceito de ciência moderna e, menos ainda, de uma psicologia moderna. Outros podem colocar o início da psicologia com Descartes, que elaborou a máxima, também famosa, “penso, logo existo”. Isso mostra que &#039;&#039;&#039;os objetos de estudo da psicologia são historicamente construídos&#039;&#039;&#039;, ou seja, emergem a partir dos locais ou pessoas que atuaram na psicologia, como na medida das diferenças individuais, as dinâmicas de controle num laboratório, nas práticas de psicoterapia, entre muitas outras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se cada historiador localiza o passado da psicologia em lugares diferentes no tempo e no espaço, a &#039;&#039;&#039;história da psicologia&#039;&#039;&#039;, por seu lado, tem uma definição bem mais estável e curta. Nos anos 1980, historiadores reunidos num congresso nos EUA definiram que &#039;&#039;&#039;a psicologia científica começou em 1879, quando [[Wilhelm Wundt]] fundou o primeiro laboratório de psicologia experimental na Universidade de Leipzig, na Alemanha&#039;&#039;&#039;. Essa definição está consagrada e é quase um consenso, porém, não foi tão simples estabelecê-la. Alguns advogavam pelo pioneirismo de outro alemão, [[Gustav T. Fechner|Gustav Theodor Fechner]], criador da chamada [[psicofísica]], de onde vieram muitos dos experimentos e ideias de Wundt. Outros ainda queriam que [[William James]], um filósofo e psicólogo americano, fosse reconhecido como fundador, pois seu laboratório de psicologia era ainda mais antigo que o de Wundt que, no final, venceu essa disputa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Resumindo, a psicologia possui um “longo passado”, com raízes filosóficas e religiosas milenares e altamente diversas, e uma “curta história” como disciplina científica, cujo marco está situado em 1879, com a fundação do primeiro laboratório experimental por Wilhelm Wundt, na Alemanha. Pelo menos é assim que, atualmente, a grande maioria dos historiadores entende a questão, uma das poucas em que há algum conceito neste campo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Presentismo ===&lt;br /&gt;
Mas o que seriam essas psicologias anteriores a essa psicologia científica? Para entender melhor essa história, é preciso refletir para superar, da melhor forma, um problema chamado &#039;&#039;&#039;presentismo&#039;&#039;&#039;, ou seja, julgar, entender, interpretar e analisar o passado com a visão do presente. Não é apenas uma questão de olhar para as pessoas do passado e superar o pensamento de que elas eram “ignorantes”, pois “não tinham o conhecimento que temos hoje”. É entender também que, no passado, haviam formas de conhecimentos diferentes, bem como visões de mundo diferentes da atual. Este é um problema fascinante. Muitos dos consensos contemporâneos, coisas que entende-se totalmente óbvias, eram vistas de forma completamente diferente no passado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo interessante é o &#039;&#039;&#039;conceito de atenção&#039;&#039;&#039;. Hoje, ela é um tema tão discutido e consensual que pouco se reflete sobre seu significado. Atualmente, seria algo como centralizar as faculdades mentais ou talvez a percepção em um ponto específico. Pode-se ouvir as pessoas reclamando da própria falta de atenção, que “não conseguem prestar atenção”, ou que nunca “mantém a atenção”, e até mesmo existem medicamentos para resolver esse problema. Contudo, a palavra “atenção” nem sempre significou o que entendemos hoje. Para [[Santo Agostinho]], atenção era apenas o ato de passar de um pensamento para outro. [[René Descartes|Descartes]] tinha um conceito mais parecido com o contemporâneo, onde a atenção era mobilizada de forma voluntária para fixar e reter na memória coisas raras e extraordinárias que o entendimento considerava úteis. Na obra de [[John Locke|Locke]], a atenção é mencionada apenas de passagem, como um mero mecanismo auxiliar da retenção de memórias. A partir do momento em que a ciência passou a entender que a percepção depende da estrutura física e biológica do corpo, com a psicofísica e a fisiologia sensorial, já no século XIX, a visão passou a ser encarada como intrinsecamente incompleta, instável e condicionada pelo tempo. Nesse contexto, a atenção foi utilizada como um substituto pragmático para garantir a coerência do mundo percebido. Autores do final do século XIX, como [[Théodule Ribot]] e [[Max Nordau]], associaram os desvios ou a fraqueza da atenção a patologias psíquicas, comportamentos sociopáticos e teorias da “degeneração”. Para eles, uma atenção defeituosa deixava a mente à mercê de “associações caóticas”, gerando uma visão borrada e distorcida da realidade. Foi apenas na década de 1950 que a nossa compreensão contemporânea de atenção começou a se delinear, paralelamente aos estudos sobre os medicamentos desenvolvidos para tratar as suas disfunções.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma pessoa desavisada, que não está atenta às grandes diferenças entre as ideias e conceitos ao longo do tempo, poderia ler um trecho de Ribot, Santo Agostinho, Descartes e outros e achar que a atenção sobre a qual eles falam é a mesma coisa que entendemos hoje. O leitor estaria totalmente enganado, a ponto de não conseguir nem mesmo compreender o que estes pensadores queriam dizer. Em outras palavras, &#039;&#039;&#039;o esforço para entender as psicologia do passado passa também pelo esforço de entender como se pensava no passado, qual a visão que se tinha nesse passado&#039;&#039;&#039;. Parte do esforço do historiador é trazer esses aspectos de volta ao presente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O sujeito transcedental de Kant ==&lt;br /&gt;
A concepção de uma psicologia ocupada especificamente com a “mente” humana e suas operações começou a ganhar contornos modernos no século XVIII com o filósofo [[Christian Wolff]]. Ele dividiu a psicologia em [[Psicologia Empírica (livro)|&#039;&#039;&#039;Psicologia Empírica&#039;&#039;&#039;]], num livro publicado em  1732 e baseada na introspecção; e em &#039;&#039;&#039;Psicologia Racional&#039;&#039;&#039;, numa obra de 1734, dedicada a deduzir a natureza e a essência da alma, como sua imortalidade e imaterialidade, de forma puramente lógica e racional, independentemente da experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, o projeto de Wolff enfrentava um sério problema metodológico: a chamada observação interna ou [[introspecção]]. Quando se estuda um fenômeno natural, como a chuva, é necessário observar tudo que está envolvido com estee fenômeno, incluindo como as nuvens se formam, qual a umidade do ar, a intensidade dos raios solares, a direção dos ventos, entre muitos outros fatores. A questão é que todos estes aspectos são &#039;&#039;&#039;externos ao sujeito&#039;&#039;&#039;. Toda a ciência é feita dessa forma, observando, testando e analisando o mundo que está fora dos indivíduos. O problema está em estudar algo que é interno aos sujeitos. Não se pode observar diretamente o que se passa na cabeça de alguém, pelo menos não por enquanto. Contudo, é possível analisar o que se passa nas nossas próprias cabeças. Isso seria a &#039;&#039;&#039;introspecção&#039;&#039;&#039;, ou seja, o processo pelo qual adquirimos conhecimento sobre nossos próprios estados ou processos mentais Apesar de ser uma ideia interessante, fazer introspecção não era considerado algo muito científico. Entendia-se que “observar a si mesmo” distorcia os eventos mentais, pois o sujeito que observa e o objeto observado são o mesmo, o que impediria a neutralidade exigida pelo modelo científico então vigente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até a segunda metade do século XVIII, as teorias do conhecimento, que incluíam o empirismo e o racionalismo, compartilhavam a premissa de que o conhecimento era determinado pelo objeto a ser conhecido. A ideia era a de que objeto estava lá, esperando a melhor forma de ser conhecido. &#039;&#039;&#039;Kant&#039;&#039;&#039;, em sua obra [[Crítica da Razão Pura (livro)|Crítica da Razão Pura]] (1781), inverteu essa lógica de forma radical. Ele propôs que &#039;&#039;&#039;não é o conhecimento que se adequa aos objetos, mas são os objetos que são determinados pelo sujeito&#039;&#039;&#039;. O conhecimento passou a ser compreendido não como uma recepção passiva, mas como uma produção ativa do chamado sujeito transcendental, moldada por suas formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;sujeito transcendental&#039;&#039;&#039; em Kant não se refere propriamente a um indivíduo empírico ou psicológico, ou seja, alguém com personalidade e história pessoal. Pense no sujeito transcendental não como “você” (André ou Maria), mas como o “sistema operacional” universal da mente humana. Assim como um software organiza os dados que chegam do teclado, convertendo eles em coisas numa tela, o sujeito transcendental organiza os dados que chegam dos sentidos, como o tempo e o espaço, antes mesmo de termos consciência deles.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o sujeito transcedental, é preciso fazer um importante exercício de abstração, visando conseguir entender algo que está além da experiência existencial individual e entender aquilo que molda essa própria experiência. O sujeito transcedental de Kant é, segundo ele próprio, uma condição universal de possibilidade para qualquer conhecimento. Em outras palavras, é algo que todas as pessoas possuem e é a forma que o ser humano tem para saber as coisas. É a estrutura ativa da mente que organiza a experiência antes mesmo que possamos refletir sobre ela. Esse sujeito é o princípio unificador que garante a coerência dos dados sensoriais, transformando o caos de impressões oriundas dos órgãos dos sentidos em uma experiência significativa e estruturada. Através das formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039; da sensibilidade (espaço e tempo) e das categorias do entendimento, o sujeito transcendental “constrói” o objeto conhecido. Ele é o “Eu penso” cartesiano, que deve poder acompanhar todas as nossas representações, conferindo unidade à consciência. Em suma, &#039;&#039;&#039;não conhecemos o mundo como ele é em si, mas como o sujeito transcendental o molda e o organiza para que se torne inteligível para nós&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Immanuel Kant revolucionou a teoria do conhecimento ao postular que a mente humana não funciona como um receptáculo passivo de impressões sensoriais, mas sim como um agente ativo dotado de estruturas constitutivas a priori que organizam, unificam e interpretam a matéria-prima da experiência. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas ideias de Kant, o processo de constituição do conhecimento dos fenômenos que chegam para nossa mente a partir dos órgãos dos sentidos articula-se em três instâncias fundamentais. A primeira são as formas puras da sensibilidade, depois vem os conceitos puros do entendimento, ou seja, as categorias e, por fim, a unidade sintética da apercepção. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas &#039;&#039;&#039;formas puras da sensibilidade&#039;&#039;&#039;, antes mesmo que o intelecto possa aplicar qualquer conceito, o caos das sensações brutas é necessariamente ordenado no espaço e no tempo, que não são propriedades das coisas em si, mas intuições puras da sensibilidade que funcionam como os eixos coordenados onde os fenômenos são dados. Ou seja, as informações dos sentidos já chegam num espaço e num tempo para o resto do processo de constituição do conhecimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma vez colocados no espaço e estruturados numa sucessão e simultaneidade temporal, esses dados passam pelas &#039;&#039;&#039;doze categorias do entendimento puro&#039;&#039;&#039;. Essas categorias se dividem em &#039;&#039;&#039;quatro classes de tríades&#039;&#039;&#039;: quantidade, qualidade, relação e modalidade. As &#039;&#039;&#039;categorias&#039;&#039;&#039; representam as regras lógicas puras, fundamentais e necessárias para tornar qualquer objeto da experiência inteligível. Elas podem ser observadas de forma simplificada na tabela a seguir:&lt;br /&gt;
{| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot;&lt;br /&gt;
|Classe de Categorias&lt;br /&gt;
|Categoria 1 (Tese)&lt;br /&gt;
|Categoria 2 (Antítese)&lt;br /&gt;
|Categoria 3 (Síntese)&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|1. Quantidade&lt;br /&gt;
|Unidade&lt;br /&gt;
|Pluralidade&lt;br /&gt;
|Totalidade&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|2. Qualidade&lt;br /&gt;
|Realidade&lt;br /&gt;
|Negação&lt;br /&gt;
|Limitação&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|3. Relação&lt;br /&gt;
|Substância e Acidente&lt;br /&gt;
|Causa e Efeito&lt;br /&gt;
|Ação Recíproca&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|4. Modalidade&lt;br /&gt;
|Possibilidade (Impossibilidade)&lt;br /&gt;
|Existência (Não-existência)&lt;br /&gt;
|Necessidade (Contingência)&lt;br /&gt;
|}&lt;br /&gt;
As categorias de quantidade dizem respeito à extensão em que aplicamos um conceito aos objetos, ou seja, “quantos” elementos estamos considerando no juízo. Na unidade, temos um único objeto. Na pluralidade, trazemos vários objetos do mesmo tipo para um conjunto. Já a totalidade surge quando pensamos a pluralidade como uma unidade completa.Vejamos um exemplo. Quando um observador vê uma maçã, aplica a categoria da unidade, ou seja, ele viu uma maçã. Ao ver várias maçãs espalhadas na mesa, apreende uma pluralidade, ou seja, ele tem um conceito de “maçãs” e as vê como um conjunto. Porém, ao formular uma lei universal, aplica-se a totalidade, que engloba toda a pluralidade possível sob uma única regra conceitual, ou seja, todas as maçãs são frutas e existem vários tipos de maçãs.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade trata da atribuição de um predicado, ou seja, se a experiência afirma algo, nega algo ou se situa num limite conceitual. Em outras palavras, é a forma da mente definir “como algo é”. A realidade é afirmação de que um predicado pertence a um ser, ou seja, ele é alguma coisa. A negação é a afirmação de que o predicado não pertence a algo, ou seja, um “não-ser”. A limitação é a síntese das duas anteriores. Atribui-se uma negação como se fosse uma realidade, excluindo aquilo de uma esfera, mas deixando infinita a esfera onde ele pode estar. Vamos a um exemplo. Dizer “O homem é mortal” aplica a categoria de realidade (afirma-se um atributo). Dizer “O homem não é mortal” aplica a negação. No entanto, dizer “A alma é não-mortal (imortal)” é um juízo infinito clássico de Kant que evoca a limitação. Não sabemos o que a alma é de fato, mas a limitamos removendo ela da esfera das coisas mortais, o que a situa num campo aberto e indeterminado de possibilidades.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Consideradas por muitos comentadores como o coração da epistemologia kantiana, as categorias de relação definem como os objetos se relacionam entre si e como permanecem ou mudam no tempo. Substância e Acidente referem-se àquilo que permanece através da mudança (substância) e as propriedades que são transitórias, ou seja, que mudam (acidentes). Um exemplo disso é a água de um lago que congela no inverno. Seu estado físico muda do líquido para o sólido, que é o acidente, mas a matéria da água em si, a substância, permanece inalterada. Sem a categoria de substância, nossa mente registraria apenas uma sucessão caótica de imagens, sem reconhecer que se trata da mesma “coisa” sofrendo alteração. A Causa e Efeito é a relação estritamente necessária onde um evento segue outro no tempo. O exemplo de Kant, em resposta ao filósofo David Hume, é sobre o sol que ilumina uma pedra, e a pedra esquenta. Hume diria que inferimos causalidade por mero hábito psicológico, ou seja, não há conexão necessária, apenas uma observação e uma intuição. Kant argumenta que o próprio fato de distinguirmos uma sucessão objetiva de eventos exige que a mente aplique a categoria a priori de Causalidade. A mente “dita” a regra estrutural de que o aquecimento necessariamente sucede a irradiação solar, colocando uma como causa da outra. Já na Ação Recíproca (Comunidade), tem-se a relação simultânea de mútua influência entre múltiplas substâncias no espaço como, por exemplo, a interação gravitacional entre a Terra e a Lua. Elas não são eventos sucessivos no tempo, mas existem simultaneamente e influenciam-se de modo contínuo e bidirecional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, temos as categorias modais. Eles são os Postulados do Pensamento Empírico e não acrescentam nenhum atributo novo ao objeto em si, mas definem exclusivamente como esse objeto ou evento se relaciona com o sujeito cognitivo e suas faculdades. No caso da Possibilidade-Impossibilidade, é algo que concorda com as condições formais, que são as condições lógicas e puras da experiência. No binômio Existência-Não-existência, é algo que está dado materialmente na intuição empírica, ou seja, nos sentidos. Já na Necessidade-Contingência, é algo cuja conexão com a experiência empírica está determinada por condições universais. Vamos a um exemplo. Um dragão voador de escamas verdes ou um triângulo cujos ângulos somam 180 graus são conceitos logicamente possíveis, ou seja, não envolvem contradição formal. No entanto, apenas um objeto sensorialmente verificável, como a caneta sobre a sua mesa, tem a marca da existência. Já o fato de que um objeto massivo abandonado no ar cairá em direção ao solo é uma necessidade ditada pelas leis empíricas que o entendimento prescreve à natureza, ou seja, atribui a ele.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Acima dessas estruturas, Kant postulou a apercepção ou apercepção transcendental, que é o processo pelo qual a mente unifica de forma ativa diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Sem a apercepção, a mente seria apenas um amontoado de estímulos desconectados. Assim, a aperceção a base da própria consciência humana. Devido a essa complexa mediação ativa da mente, Kant estabeleceu uma distinção insuperável entre o mundo externo e a mente. Isso significa dizer que nós não temos acesso à “coisa em si”, ou noumenon, mas apenas a como as coisas nos aparecem, ou seja, na forma de fenômeno, já devidamente processadas pelo nosso aparato cognitivo. Neste sentido, É importante distinguir o “Eu empírico”, ou seja, aquilo que observamos em nós mesmos, como nossa personalidade ou o nosso humor, do “Eu transcendental”, a pura unidade lógica do “Eu penso”. Ademais, a apercepção transcendental não é uma faculdade psicológica de “prestar atenção”, mas uma exigência lógica. Para que uma experiência seja minha, o “Eu penso” deve poder acompanhar todas as minhas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Os Vetos Kantianos à Psicologia Científica ===&lt;br /&gt;
Apesar de ter colocado o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que conhece, no centro do universo epistemológico, Kant foi muito crítico sobre a possibilidade de a psicologia se tornar uma ciência. Em sua obra Princípios metafísicos da ciência da natureza, de 1786, ele negou a possibilidade de uma psicologia científica, pois afirmou que uma disciplina só poderia Sê-lo se possuísse uma elaboração racional capaz de fornecer leis formuladas matematicamente, o que poderia ser chamado de veto matemático. A psicologia falhava nesse critério porque os eventos mentais possuem apenas a dimensão do tempo, sem nenhuma extensão espacial, o que impossibilitaria a sua matematização. Para Kant, assim como o espaço é a forma do sentido externo, o tempo é a forma pura do sentido interno. Como os estados mentais só se dão na sucessão do tempo (sem extensão espacial), eles não formam figuras nem podem ser medidos geometricamente, inviabilizando a matemática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Kant apontou a impossibilidade de isolar diferentes pensamentos para a realização de experimentos controlados. Assim, como não podemos acessar o que seria o conteúdo da mente, cercá-la e analisá-la como ela é em seu estado bruto ou natural, qualquer experimentação seria impossível, o que poderia ser chamado de veto do objeto. Por fim, ele reforçou a crítica que já era direcionada a Wolff, aquele do começo dessa seção. A introspecção como método, segundo Kant, seria inviável porque a própria tentativa de observar um fenômeno interno altera o fenômeno, o veto metodológico. Se tento observar minha própria tristeza, por exemplo, o fenômeno original desaparece e se transforma em “tristeza-sendo-observada-por-mim”, misturando sujeito e objeto de tal maneira que corrompe a objetividade. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A impossibilidade de uma psicologia científica não significava, contudo, a impossibilidade de estudar a mente e o comportamento. Kant trabalhou e lecionou com o que chamou de Antropologia Pragmática. Enquanto a psicologia empírica tentava, em vão, segundo ele, ser uma ciência exata, a antropologia pragmática estudava “o que o homem, como ser livre, faz, ou pode e deve fazer de si mesmo”. Era um estudo prático do comportamento, das paixões, da memória e da cognição, focado na vida em sociedade. De certo modo, pode-se dizer que Kant fechou a porta para a psicologia mecanicista, ou ainda, uma psicologia como ciência exata, mas ajudou a abrir uma janela imensa para as ciências humanas e sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Emergência do Neokantismo Fisiológico e as Primeiras Aproximações para a Psicologia Científica ==&lt;br /&gt;
A primeira metade do século XIX na Alemanha foi inicialmente dominada pelo Idealismo Pós-Kantiano (Hegel, Fichte, Schelling), que propunha sistemas metafísicos grandiosos onde a realidade era essencialmente racional e espiritual. Contudo, a partir da década de 1850, o forte avanço das ciências naturais, como a fisiologia e a química, gerou uma importante reação materialista, consolidados nas figuras de Feuerbach, Vogt, Büchner e outros, que passaram a ridicularizar a filosofia idealista como mera especulação vazia. A metafísica, vista como uma das glórias da filosofia e do pensamento humano, passou a ser vista cada vez mais como um discurso com pouco ou nenhum lastro na realidade. Essa mudança foi muito importante para a história da psicologia científica, pois foi devido a esse contexto que foram formulados os primeiros experimentos voltados para o que seria, no futuro, a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Johannes Müller e a Teoria das Energias Nervosas Específicas ===&lt;br /&gt;
Neste período, a fisiologia se estabeleceu como uma ciência rigorosa e extremamente respeita, liderada por figuras como Johannes Müller. Müller, professor na Universidade de Berlim, publicou seu Manual de Fisiologia Humana (1833-1840), que sistematizou o conhecimento fisiológico da época e transformou a compreensão da percepção. Até o final do século XVIII, ela era explicada pela Teoria da impressão da sensação, derivada da física newtoniana e do empirismo britânico. Esse modelo assumia que o sistema nervoso era um meio homogêneo e passivo que simplesmente “transportava” as qualidades dos objetos externos para a mente, como se a sensação fosse uma cópia exata do estímulo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Johannes Müller revolucionou esse entendimento ao formular a Teoria das energias nervosas específicas (1826). Ele provou, através de experimentos, que a estimulação de um determinado nervo sensorial sempre provoca uma sensação característica e exclusiva daquele nervo, independentemente da natureza do estímulo físico externo. Em outras palavras, a qualidade da sensação não pertence ao objeto físico, mas sim à estrutura do próprio aparato sensorial humano. O mesmo estímulo pode produzir sensações completamente diferentes dependendo de qual via nervosa é ativada. Por exemplo, ao aplicar sal na pele, na língua e nos olhos, as sensações serão totalmente distintas, todas diretamente relacionadas às especificidades do aparelho sensorial que foi ativado. É importante entender que isso não acontece por conta da especificidade das características do estímulo, como o sal ser “salgado”. A pele produz apenas sensações táteis, ainda que o estímulo não seja tátil. Isso cria um problema de confiança naquilo que percebemos sensorialmente, pois mostra que os órgãos não enviam apenas propriedades dos objetos, mas antes operam apenas de modo específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Müller, por meio de experimentos, mostrou que os objetos físicos projetam imagens invertidas na retina, mas nós os percebemos na posição correta. Ele mostrou também que, embora as imagens projetadas nas duas retinas sejam levemente diferentes, o cérebro as unifica em uma única imagem tridimensional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas descobertas trouxeram Kant para o terreno da biologia, inclusive pelo próprio Müller que, apesar de não ser neokantiano, viu suas descobertas científicas influenciarem profundamente a primeira geração deles. O sistema nervoso não é um receptor passivo, antes, ele medeia, molda e traduz ativamente a realidade externa. A sensação deixou de ser vista como uma cópia do mundo e passou a ser um enigma, que pode ser analisado a partir da seguinte pergunta: “o que existe entre o estímulo físico e a sensação subjetiva?”. Este é o mundo do primeiro projeto de psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Hermann von Helmholtz e o Neokantismo Psicofisiológico ===&lt;br /&gt;
A ponte definitiva entre a epistemologia kantiana e a prática laboratorial foi construída por um antigo aluno de Johannes Müller, Hermann von Helmholtz (1821-1894). Ele colaborou no desenvolvimento do neokantismo psicofisiológico ou neokantismo fisiológico. Ele entendeu que as descobertas de seu professor forneciam a base material exata para a teoria do conhecimento de Kant. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1855, Helmholtz argumentou que as estruturas a priori propostas por Kant como condições de possibilidade da experiência eram, na verdade, características da anatomia e da fisiologia do aparato perceptivo humano. Ao “naturalizar” a filosofia de Kant, Helmholtz formulou a sua teoria dos signos, que postula que nossas sensações e percepções não são cópias diretas da realidade, mas sim símbolos ou signos gerados pelo nosso sistema nervoso em resposta aos estímulos. Para explicar como construímos uma imagem coerente e espacial do mundo a partir desses signos neurológicos isolados, Helmholtz introduziu o conceito de inferências inconscientes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo essa teoria, a mente realiza uma série de ajustes e cálculos automáticos, baseados na experiência e na aprendizagem contínua, para interpretar os dados sensoriais. A percepção de profundidade, a posição espacial e a resolução de duas imagens retinianas em uma única visão estereoscópica não são inatas, como defendia o nativismo de Ewald Hering ou o próprio Müller, mas são aprendidas empiricamente através do movimento do corpo e da repetição das sensações. O espaço perceptivo atua como uma linguagem que a mente usa para interpretar os dados fisiológicos brutos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com isso, Helmholtz fundou o projeto de uma psicologia fisiológica autônoma, diferente da psicologia filosófica discutida na época. Ele concordou com Kant que a introspecção tradicional era um método falho, que podia conduzir a ilusões porque o observador só capta a superfície consciente do pensamento. A solução de Helmholtz foi submeter o sujeito da experiência a condições de laboratório rigorosamente controladas. Se as condições da percepção dependem de mecanismos fisiológicos, então a única forma de fazer epistemologia científica é através da experimentação fisiológica e da ótica. O sujeito do conhecimento tornou-se, assim, um objeto, que poderia ser manipulado e analisado em laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Suas contribuições não acabam por aí. Antes das pesquisas de Helmholtz, a comunidade científica acreditava que o impulso nervoso era instantâneo ou rápido demais para ser mensurado. Em 1850, estimulando um nervo motor na perna de uma rã e medindo o tempo da contração muscular, ele obteve o registro da velocidade de condução neural, que é de aproximadamente 27 metros por segundo, provando que havia “algo” entre o estímulo e a percepção que poderia ser analisado cientificamente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também mediu o tempo de reação de nervos sensoriais em humanos. Essa descoberta provou que o pensamento e o movimento corporal não ocorrem simultaneamente, mas são separados por um intervalo de tempo mensurável. Essa foi a base que abriu caminho para os experimentos de tempo de reação e cronometria mental que dominariam o laboratório de Wundt décadas depois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== F. A. Lange e o Projeto de uma “Psicologia Sem Alma” ===&lt;br /&gt;
O segundo pilar desse “retorno a Kant”, também de matriz fisiológica, foi erguido pelo filósofo e sociólogo Friedrich Albert Lange (1828-1875). Lange foi uma figura central na “controvérsia materialista” que agitava a Alemanha. Ele rejeitava tanto os “delírios” dos sistemas idealistas metafísicos quanto o reducionismo ingênuo do materialismo científico de Vogt e Büchner. Em sua influente obra História do Materialismo, de 1866, Lange defendeu que a limitação proposta por Kant é absoluta, ou seja, não temos e nem nunca teremos acesso à essência última da realidade, às coisas em si. Nosso conhecimento se restringe aos efeitos das coisas, ou seja, os fenômenos, que nos aparecem totalmente moldados pela nossa organização mental e neurológica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Lange argumentou que a impossibilidade de conhecer a essência não impede o estudo científico rigoroso das “aparências”, ou seja, sobre como as coisas nos aparecem. Para viabilizar esse estudo, Lange atacou as psicologias filosóficas do passado, que versavam debates que ele ele entendia estéreis sobre a natureza, a imortalidade e a substancialidade da “alma”. Para Lange, a alma era um conceito vazio, um “mito antigo” que forçava a psicologia a operar sobre pressupostos metafísicos inverificáveis. Em resposta, ele propôs a criação de uma psicologia sem alma, ou, em outras palavras, uma psicologia sem metafísica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste novo paradigma, o objeto de estudo da psicologia deveria ser reduzido aos dados empíricos observáveis, incluindo a sensação, a percepção, a ação e a linguagem, sempre buscando o seu correlato fisiológico. Lange rejeitou a introspecção puramente filosófica, pois a auto-observação isolada é privada, não pode ser repetida, não permite a presença de observadores externos e leva invariavelmente a ilusões verbais. Segundo ele, essa introspecção conduzia o pesquisador a substancializar conceitos como “vontade” ou “pensamento”, sem nenhum lastro empírico ou experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A única saída para a psicologia tornar-se verdadeiramente científica era abraçar a metodologia das ciências naturais. Apoiando-se no trabalho de Helmholtz e nas medições pioneiras de psicofísicos como Ernst Weber e Gustav Fechner, Lange prescreveu que a psicologia deveria investigar as leis fisiológicas da percepção e medir a correlação exata entre estímulos físicos e respostas sensoriais, como nos tempos de reação e nos limiares diferenciais. A psicologia passava a ser entendida não como a ciência do espírito transcendente, mas como a ciência psicofisiológica que estuda experimentalmente as condições de possibilidade da experiência, trazendo o sujeito transcendente de Kant para uma fisiologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fechner e a Fundação da Psicofísica ===&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner (1801–1887) foi um físico e metafísico alemão e antigo aluno de Weber. Apesar de não ser um neokantiano, ele tem uma importância fundamental para este momento da fundação da psicologia experimental, tendo sido citado e adotado por neokantianos. Ele assumiu a prestigiada e importante cadeira de física da Universidade de Leipzig em 1834, enquanto produzia sátiras sobre temas metafísicos e artísticos sob um pseudônimo. Após uma série de experimentos em que observava diretamente o Sol, feriu gravemente suas retinas, evento que o conduziu a um colapso físico e mental. Teve uma recuperação milagrosa em 1843, quando tentou observar flores em seu jardim e, por meio de uma experiência mística, observou que a natureza brilhava de dentro para fora, de onde concluiu que o universo era dotado de alma e consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esssa experiência decisiva levou-o a dedicar sua vida ao combate do materialismo científico, que ele denominava visão noturna, que via o mundo como uma matéria inerte e sem vida. Já a sua visão diurna entendia que a matéria era a manifestação da consciência universal divina, uma cosmovisão espiritualista que pode ser entendida como panpsiquista, ou seja, todos os corpos físicos possuem uma forma de alma. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi buscando provar sua visão que Fechner entendeu que poderia provar empiricamente a relação entre a mente (ou o espírito) e o corpo (ou a matéria) se encontrasse uma relação matemática constante entre a intensidade do estímulo físico e a magnitude da sensação psíquica correspondente. Isso porque Fechner percebeu que um aumento na intensidade do estímulo físico não gerava um aumento equivalente e proporcional na sensação subjetiva. A relação não era linear, mas sim proporcional, pois o estímulo físico aumentava em uma progressão geométrica, enquanto a sensação psíquica crescia em uma progressão aritmética. Por exemplo, acrescentar o som de um sino a outro que já está tocando gera um forte impacto perceptivo, pois é possível distinguir claramente que passou-se de um para dois sinos. Já acrescentar um sino a uma dezena deles produz uma alteração quase imperceptível. A sensação dependia, portanto, do nível de estimulação já existente no sistema.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para dar sustentação empírica à sua teoria, Fechner apropriou-se dos trabalhos experimentais realizados por Weber, que havia formulado a teoria da diferença mínima perceptível, demonstrando que a sensibilidade humana não avaliava diferenças absolutas entre estímulos, mas sim relações relativas ou proporcionais. Weber observou que, ao levantar pesos, os sujeitos conseguiam detectar uma variação mínima correspondente a uma fração constante de aproximadamente 1:40 em relação ao peso padrão. Essa constância proporcional é descrita pela chamada Lei de Weber:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
II=K&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde I representa a intensidade do estímulo padrão (que aparecerá como R posteriormente), ΔI é o acréscimo mínimo necessário para produzir uma mudança perceptível na sensação e k é uma constante matemática específica para cada modalidade sensorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Fechner percebeu que essa fração constante (ΔI/I) correspondia à unidade de medida da sensação subjetiva (dS). Utilizando o cálculo infinitesimal, Fechner integrou matematicamente a equação de Weber, assumindo que todas as diferenças mínimas perceptíveis eram subjetivamente iguais entre si. Essa operação matemática resultou na célebre Lei de Fechner ou Lei de Weber-Fechner:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
S = k Log R&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde S representa a magnitude da sensação subjetiva (qualidade mental), R representa a intensidade física do estímulo (qualidade material) e K é uma constante experimental ajustada a cada sentido. Essa fórmula logarítmica foi construída para mostrar que, para a sensação aumentar linearmente, o estímulo físico precisava crescer exponencialmente, estabelecendo uma relação exata e mensurável entre o psíquico e o físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para aplicar sua fórmula, Fechner sistematizou dois conceitos fundamentais que estruturam as medições psicofísicas. A primeira é o limiar absoluto, ou seja, o ponto de intensidade física mínima abaixo do qual o estímulo não é detectado pelo sujeito e acima do qual a sensação passa a ser percebida. Outro conceito é o de limiar diferencial, que é a quantidade mínima de alteração ou variação que deve ser aplicada a um estímulo para que o sujeito seja capaz de discriminar uma mudança na sensação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um desdobramento fascinante da Lei de Fechner ocorreu quando o estímulo físico apresentava valores abaixo do limiar absoluto (R&amp;lt;1), resultando em valores negativos para a sensação (S). Fechner definiu esses valores como sensações negativas ou subliminares, postulando a existência de processos mentais ativos abaixo do limiar da consciência desperta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para determinar com precisão científica os limiares absolutos e diferenciais, Fechner desenvolveu e padronizou três metodologias experimentais rigorosas, que se tornaram os pilares metodológicos de toda a psicologia experimental posterior. No Método do Erro Médio ou do Ajuste, o próprio sujeito experimental manipula ativamente um instrumento para ajustar um estímulo variável até que sinta que este se iguala a um estímulo padrão constante. A média dos desvios entre os ajustes do sujeito e o padrão real define o erro de observação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já no Método do Estímulo Constante ou dos Casos Corretos e Incorretos, o pesquisador apresenta de forma aleatória uma série de estímulos pré-determinados e constantes em comparação com um estímulo padrão. O sujeito deve julgar se o estímulo de comparação é maior, menor ou igual ao padrão, medindo-se a proporção estatística de acertos. Por fim, no Método dos Limites ou das Diferenças Mínimas Perceptíveis, dois estímulos são apresentados ao sujeito. Um deles é aumentado ou reduzido sistematicamente em passos discretos e graduais, e o sujeito relata o momento exato em que deixa de perceber ou passa a perceber a diferença entre ambos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1860, Fechner publicou seu livro monumental, Elementos de Psicofísica, que alguns entendem ser o primeiro sobre a psicologia científica experimental. Ao fornecer à psicologia técnicas de medição coerentes e precisas, Fechner provou de forma contundente que a mente humana era passível de investigação científica e experimental, sepultando em definitivo o antigo veto imposto por Immanuel Kant, em pleno momento de desenvolvimento do Neokantismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Incomodados com as inclinações metafísicas e espiritualistas de Fechner, os psicólogos experimentais subsequentes, sob a liderança de Wilhelm Wundt, rejeitaram completamente o panpsiquismo entre outras ideias, apropriando-se exclusivamente de seus métodos quantitativos de laboratório para estabelecer a psicologia como uma ciência empírica e natural. Como bem observou o historiador Edwin G. Boring, Fechner agiu como um “Colombo que descobriu um Novo Mundo (a psicologia científica) enquanto procurava pelas antigas Índias (a prova de sua metafísica)”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Resumindo ===&lt;br /&gt;
A intersecção entre a epistemologia kantiana, a fisiologia de Müller e a reformulação promovida por Helmholtz e Lange constituiu o início daquilo que tornou possível a psicologia científica. Kant havia mostrado que o sujeito constrói ativamente a realidade, mas negou que esse sujeito pudesse ser estudado matematicamente ou experimentalmente. Müller transferiu a estrutura ativa da mente para os nervos sensoriais específicos. Helmholtz e Lange reinterpretaram as pesadas categorias transcendentais de Kant como mecanismos biológicos e perceptivos operando através de inferências inconscientes e leis fisiológicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao “naturalizar” a Crítica da Razão Pura, o Neokantismo Psicofisiológico resolveu o veto de Kant a uma psicologia científica. Se os limites e as formas do nosso conhecimento são determinados pelo nosso sistema nervoso e sensorial, então o estudo epistemológico da mente deve ser feito no laboratório de fisiologia, estudando principalmente a percepção. A exigência de matematização foi superada pelas leis da psicofísica de Fechner e Weber, e o problema da introspecção descontrolada foi resolvido pelo uso de instrumentos de precisão, como cronoscópios, além de métodos de medidas de limiar, controle de estímulos, erros médios, entre outros, que transformavam as respostas subjetivas em dados objetivos, replicáveis e mensuráveis. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse foi o cenário epistemológico e institucional que Wilhelm Wundt encontrou e ajudou a consolidar. Wundt não fundou a psicologia a partir do nada em 1879. Seu Instituto em Leipzig foi organização metodológica e teórica de décadas de esforços em que a filosofia foi obrigada a dialogar com os nervos, os músculos e os tempos de reação, transformando para sempre a especulação sobre a alma em uma rigorosa ciência da experiência imediata. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ironicamente, escolas neokantianas posteriores, como a Escola de Marburgo, foram focos de resistência à psicologia experimental, alegando que o sujeito do conhecimento de Kant era de ordem puramente transcendental e lógica, e não empírica ou mensurável, ou seja, rejeitando a “biologização” do pensamento kantiano e a consequente criação da psicologia experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, conforme mostra Gundlach, a criação de uma posição acadêmica e o laboratório de psicologia por Wundt não se deu por conta de um amplo reconhecimento da superioridade do pensamento wundtano, mas sim por conta de disputas políticas e institucionais nas universidades alemãs. De qualquer forma, Wundt conseguiu desenvolver bem sua teoria ao longo de sua vida e conseguiu estabelecer-se na proeminência da psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia de Wundt ==&lt;br /&gt;
[[Wilhelm Wundt|Wilhelm Maximilian Wundt]] é, na historiografia da psicologia, uma figura ao mesmo tempo onipresente e pouco compreendida. Freqüentemente reduzido ao título de “fundador do laboratório de Leipzig”, essa simplificação negligencia sua estatura como um dos últimos grandes arquitetos de sistemas do século XIX, cujo &#039;&#039;Systemgedanke&#039;&#039; (pensamento sistêmico) buscava integrar a psicologia como uma propedêutica fundamental para a filosofia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Recuperar o Wundt original exige preencher uma vasta lacuna historiográfica. A primeira envolve apontar as conhecidas e muitas das distorções da tradução de [[Titchener|E.B. Titchener]] para o contexto anglo-americano, que foi formulada para aproximar suas ideias e pdasdaquelas de Wundt, visando uma “confirmação” do pensamento de Titchener. Wundt não era um estruturalista ou associacionista clássico e seu sistema é essencialmente dinâmico e centrado no &#039;&#039;&#039;voluntarismo&#039;&#039;&#039;. Para Wundt, a vontade e os processos afetivos não são meros epifenômenos, ou seja, um fenômenos secundários ou acessórios que acompanhma um fenômeno principal, mas o eixo organizador da consciência ativa. Esta reconstrução crítica visa resgatar a autonomia epistemológica de uma ciência que define seu objeto não como uma substância, mas como a experiência em sua totalidade imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Experiência conforme Wundt ===&lt;br /&gt;
Para Wilhelm Wundt, a experiência é concebida como um todo unitário e coerente. As duas abordagens da experiência que ele propõe não se deve a uma diferença ontológica, mas como dois pontos de vista distintos e complementares que permite sua abordagem científica, que ele separa entre Experiência Mediata e Experiência Imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experiência Mediata ====&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Experiência Mediata&#039;&#039;&#039; é a experiência objetiva) está &#039;&#039;&#039;focada nos objetos do mundo externo&#039;&#039;&#039;. Ela foca exclusivamente nos objetos do mundo externo, abstraindo o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que sabe, que tem conhecimento. A Experiência Mediata seria o ponto de vista característico das ciências naturais, como física, química e fisiologia. A ciência natural opera por meio de uma abstração sistemática, pois ela coloca o sujeito cognoscente &amp;quot;entre parênteses&amp;quot; e analisa apenas os objetos externos pensados, como se existissem de maneira totalmente independente de quem os percebe. É chamada de &amp;quot;mediata&amp;quot; porque &#039;&#039;&#039;nosso acesso a tais objetos é sempre indireto&#039;&#039;&#039;, ou seja, precisa de mediação, pois é dependente de conceitos abstratos, inferências teóricas e construções conceituais auxiliares para representá-los. Por um lado, o estímulo físico é intermediado pelos limites anatômicos e biológicos do nosso aparato perceptivo, ou seja, temos os limites e capacidades da nossa percepção. No caso da visão, por exemplo, não vemos os raios ultravioleta e infravermelho, pois não estão no expecto da luz visível, mas vemos as cores e suas combinações. Por outro lado, para constituir a &amp;quot;realidade objetiva&amp;quot;, o cientista natural precisa utilizar conceitos teóricos auxiliares e construções hipotéticas, como átomos, ondas eletromagnéticas e forças gravitacionais, que não são dados imediatamente na percepção sensível mas que podem ser vistos experimentalmente e por meio de instrumentos e aparatos científicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wundt critica assim o empirismo tradicional e o associacionismo. A doutrina do empirismo diz que a mente como página em branco, conforme a formulação de John Locke e sua &#039;&#039;tabula rasa&#039;&#039;. Neste caso, a mente seria progressivamente preenchida pelas impressões do mundo exterior (sensação) e pelas operações internas (reflexão). David Hume radicaliza o princípio empírico, postulando que as impressões são os átomos cognitivos fundamentais e as ideias nada mais são do que cópias atenuadas ou lembranças dessas impressões na memória e na imaginação. Já o associacionismo constitui a hipótese de que as ideias simples e discretas se combinam para formar pensamentos complexos, juízos e raciocínios abstratos. Se o empirismo fornece os blocos de construção, o associacionismo descreve a &amp;quot;força de atração&amp;quot; que os une. Conforme sistematizado por Hume e, depois, desenvolvido por Hartley e James Mill, a mente transita espontaneamente de uma ideia para outra por meio de regras regulares de associação, como a semelhança, a contiguidade no tempo e as relações de causa e efeito.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para Wundt, ambos erraram, pois transferiam as características dos objetos externos da física, como a solidez, os limites rígidos e a permanência estática, para os conteúdos conscientes, passando a tratar as representações (&#039;&#039;Vorstellungen&#039;&#039;) como coisas ou &amp;quot;átomos mentais&amp;quot;. Na física, o foco recai sobre o objeto substantivo. Contudo, segundo Wundt, a consciência não contém objetos estáveis. Ele parte de uma diferença fundamental que os psicofísicos e outros haviam apontado, que é aquela entre o mundo externo e o mundo percebido, ou ainda, entre as coisas e suas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em resumo, a Experiência Mediata se aproxima dos objetos estáveis do mundo externo e de como eles nos chegam. Na experiência mediata, o cientista da natureza pode retornar quando quiser ao mesmo objeto físico estável (uma pedra ou um elemento químico) para observá-lo repetidamente, ainda que o observador em si esteja sempre em mudança.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experiência Imediata, o Objeto de Estudo da Psicologia ====&lt;br /&gt;
Ao definir seu objeto, Wundt deu um passo decisivo para dar à psicologia autonomia perante as outras ciências naturais. Ele propõe que a experiência é uma unidade indivisível. Mas o que ele quer dizer por &#039;&#039;&#039;experiência&#039;&#039;&#039;? Uma definição poderia ser a totalidade dos processos conscientes, englobando sensações, sentimentos, representações e volições (vontades), apreendida da exata forma como se apresenta diretamente ao sujeito, sem qualquer abstração conceitual ou mediação de instrumentos externos. Ou seja, a experiência de Wundt seria como tudo o que se passa na mente, exatamente como ela aparece para uma pessoa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;O domínio da psicologia seria a experiência imediata&#039;&#039;&#039;, subjetiva, que é a experiência em sua realidade concreta, direta e intuitiva, apreendida antes de qualquer conceituação, teorização ou abstração. Ou seja, é a experiência antes de ela adquirir qualquer camada de compreensão, que seriam mediadores, por isso é imediata, &#039;&#039;&#039;sem mediação&#039;&#039;&#039;. Ela envolve o processamento de elementos sensoriais simples, como cor, som, temperatura, e de sentimentos simples, como prazer e desprazer. Ela diz respeito ao modo puro de funcionamento mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vamos a um exemplo, desta vez no campo do acústica. Na perspectiva mediata, o cientista natural abstrai o sujeito e estuda o som de forma indireta e conceitual. Ele utiliza aparelhos para medir as ondas sonoras e a sua propagação física pelo ar. O objeto físico “som” é, portanto, mediado e traduzido por conceitos de frequência, amplitude e decibéis. Já sob a perspectiva imediata, que é a da psicologia, o psicólogo estuda a sensação direta e em si mesma do tom no momento exato em que ele aparece na consciência. A análise está na vivência concreta do sujeito, que inclui a qualidade do tom, a sua intensidade subjetiva, a tonalidade afetiva de prazer ou desprazer que o acompanha e o processo ativo da atenção (apercepção, que será tratada mais adiante) que coloca aquele som no foco da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se olharmos desta vez para a cromática, na visão mediata, ciência natural estuda o azul abstraindo a experiência do sujeito. A física o descreverá de forma conceitual como uma radiação eletromagnética com determinado comprimento de onda atingindo a retina. A fisiologia se debruçará sobre o funcionamento dos tecidos dos olhos quando estimulados com a cor azul em suas nuances. Para a psicologia de Wundt, o azul é investigado como um dado imediato e real na consciência do sujeito no momento da percepção interna. O foco não está nas propriedades físicas do estímulo, mas sim na reação subjetiva e ativa do cérebro vivo a esse estímulo, que gera a qualidade imediata da cor na experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conduzindo seus estudos, Wundt também identificou aquilo que denominou &#039;&#039;&#039;causalidade psíquica&#039;&#039;&#039;. Ao nos lembrarmos de um fato triste, por exemplo, a fisiologia explicaria a tristeza de forma conceitual e indireta, por meio de correntes elétricas no córtex cerebral, liberação de hormônios ou atividade de sinapses nervosas. Já o psicólogo numa linha wundtiana observa a conexão de processos internos como elas ocorrem diretamente na consciência do sujeito, como a ligação da lembrança triste a um sentimento de angústia. A causalidade psíquica é uma causalidade própria da mente e irredutível às leis físicas da natureza, ou seja, não pode ser comparada à causalidade física como a conhecemos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao adotar a experiência como seu objeto, Wundt rompe com a psicologia da alma, filosófica e metafísica. Ele substitui a psicologia de substâncias, que postula uma entidade mental oculta, pela &#039;&#039;&#039;teoria da atualidade&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Aktualitätstheorie&#039;&#039;), na qual o psiquismo é definido como um fluxo de processos em constante devir. Seu sistema está fundamentado em um &#039;&#039;&#039;monismo perspectivista&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, para ele, mente e corpo não são substâncias que interagem mecanicamente, mas perspectivas distintas sobre a mesma unidade da experiência (&#039;&#039;Erfahrung&#039;&#039;). A psicologia, portanto, não estuda um “mundo interno”, que está isolado do externo, ainda que em contato com ele, mas a totalidade da experiência humana sob o prisma da imediatidade. Essa transição do estatuto de substância “mente” ou algo semelhante para o de processo traz uma nova perspectiva, criando um objeto que pode ser alvo de experimentação científica, partindo de experimentos já criados pela psicofísica e ainda outros que seriam desenvolvidos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Apercepção ===&lt;br /&gt;
No contexto filosófico, como já visto, o conceito de apercepção remonta a Kant, que a definiu como o processo autônomo, ativo e prévio pelo qual a mente unifica diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Wundt adotou essa noção kantiana para fundamentar sua teoria da consciência, definindo &#039;&#039;&#039;apercepção&#039;&#039;&#039; como o processo psicológico ativo pelo qual um conteúdo psíquico (ou representação) é trazido à &#039;&#039;&#039;clareza máxima e ao foco da consciência&#039;&#039;&#039;, vindo necessariamente acompanhado pelo estado de atenção voluntária.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para explicar a dinâmica da consciência, Wundt utilizou uma famosa analogia com a visão para diferenciar apercepção e percepção. O campo visual da consciência (&#039;&#039;Blickfeld&#039;&#039;) corresponde à percepção, que é a simples entrada de uma representação na consciência de forma difusa, ampla e sem a presença focalizada da atenção. Já o ponto focal da consciência (&#039;&#039;Blickpunkt&#039;&#039;) corresponde à apercepção, que é a entrada de uma representação no ponto central de máxima clareza e foco estreito da atenção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A apercepção, então, é uma &#039;&#039;&#039;manifestação primordial da vontade&#039;&#039;&#039;, funcionando como o princípio dinâmico que dá direção e estrutura tanto à experiência quanto ao movimento. Além disso, a apercepção pode ser ativa, que é quando o sujeito deliberadamente seleciona onde focará sua atenção, ou passiva, quando é o estímulo que se impõe no foco no sujeito. Por fim, a apercepção é o mecanismo central da operação da causalidade psíquica. É ela que unifica a mente em um sistema ativo, permitindo que a fusão de elementos resulte em sínteses criadoras com propriedades qualitativamente novas e imprevisíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Percepção Interna (innere Wahrnehmung) vs. Auto-observação (Selbstbeobachtung) ===&lt;br /&gt;
Para garantir o rigor procedimental e responder ao “desafio kantiano”, Wundt rejeitou a Selbstbeobachtung, que pode ser entendida como a auto-observação tradicional ou introspecção casual. Trata-se do método introspectivo puramente filosófico e especulativo que, segundo Wundt e outros, seria fonte de auto-ilusões e onde o ato de observar altera o fenômeno observado. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A solução científica é a innere Wahrnehmung, ou percepção interna, que permite a criação de um método científico baseado na repetição de estímulos externos controlados. No laboratório, o psicólogo replica condições experimentais que permitem a observação do aparecimento imediato do processo psíquico sob condições estáveis e previsíveis. O laboratório funciona, portanto, como o estabilizador do objeto psicológico, permitindo que a percepção interna atinja a precisão necessária para decompor a consciência em seus elementos fundamentais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experimentos do Laboratório de Wundt ====&lt;br /&gt;
Vamos a alguns exemplos do que acontecia no laboratório de Wundt, para integrar melhor os conceitos já apresentados. O primeiro experimento foi concebido originalmente para descrever a “equação pessoal” que aparecia nas medições dos astrônomos. No caso, observava-se que astrônomos treinados, utilizando os mesmos equipamentos, discordavam de suas medições que, à época, eram feitas manualmente com ajuda de instrumentos. De alguma forma, estas diferenças nas medições pareciam ter um tipo de padrão. Neste experimento, Wundt utilizava um aparelho chamado medidor de pensamento (Gedankenmesser) e, posteriormente, o pêndulo de complicação (Complicationspendel). O dispositivo consistia em um grande relógio de pêndulo que possuía uma agulha cruzada, como uma agulha de tricô, capaz de golpear fisicamente um pequeno sino em um ponto exato do seu arco de oscilação. O sujeito do experimento deveria olhar para a escala do pêndulo e tentar determinar a posição exata do ponteiro no momento em que ouvia o sino tocar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste experimento, Wundt descobriu que o sujeito sempre cometia um erro sistemático de registro, de aproximadamente um oitavo de segundo. Segundo ele, era impossível perceber visualmente a agulha e o som do sino ao mesmo tempo. Esse experimento seria uma prova laboratorial de que a consciência possui uma capacidade limitada e só consegue focar em uma única percepção por vez, como a diferença no marco da medição podia mostrar. A ilusão de simultaneidade devia-se apenas à rápida sucessão dos processos de atenção (apercepção).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os experimentos de tempo de reação, nosso segundo exemplo, constituíam o verdadeiro coração do trabalho em Leipzig na década de 1880. Wundt adaptou o método de subtração (Subtractiemethode), do fisiologista holandês F. C. Donders, para medir a velocidade de processos mentais complexos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o experimento de Wundt, é necessário compreender que, para ele, uma reação consciente envolvia: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- transmissão da sensação ao cérebro; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2- entrada do estímulo no campo amplo da consciência (percepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
3- entrada no foco ativo da atenção (apercepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
4- ato de vontade para liberar a resposta; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
5- execução motora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada um dessas partes exigem um certo tempo, pois são processos não imediatos. A depender de como as etapas do experimento são organizadas, diferentes tempos indicariam o acionamento maior ou menor de cada um deles. No experimento, o sujeito era treinado para responder pressionando uma tecla telegráfica ao ver um estímulo luminoso simples, como um flash de luz. Em seguida, a tarefa mais difícil. Duas imagens eram apresentadas, um círculo branco sobre fundo preto ou vice-versa, e o sujeito só deveria reagir após identificar com clareza qual imagem havia aparecido. Ao subtrair o tempo da reação simples do tempo da reação complexa, Wundt calculava o “tempo de apercepção” ou discriminação. Na primeira tese de doutorado em psicologia experimental da história, Max Friedrich, que atuou no experimento, mostrou que o tempo de discriminação aumentava de acordo com a complexidade do estímulo visual. Por exemplo, o sujeito levava mais tempo para aperceber e discriminar uma sequência de seis dígitos do que de apenas um ou dois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O assistente de Wundt, Ludwig Lange, também colaborou no estudo ao desenvolver um experimento crucial. Ele demonstrou que os tempos de reação variavam drasticamente dependendo da preparação atencional do sujeito. Se a atenção estivesse focada no movimento de resposta que o dedo faria (reação muscular), o tempo era curto (cerca de 125 ms), pois funcionava como um “reflexo cerebral” que pulava a apercepção. Se o foco estivesse direcionado ao estímulo sensorial que iria surgir (reação sensorial), o tempo era cerca de 100 ms mais longo, pois envolvia o circuito completo da mente consciente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O terceiro experimento foi desenvolvido por Martin Trautscholdt, um dos estudantes de doutorado de Wundt. Ele estudava a associação de ideias. No seu estudo, o sujeito era instruído a pressionar uma tecla no momento exato em que uma ideia associada surgisse em sua consciência a partir de um estímulo visual ou auditivo. Ao subtrair o tempo que o sujeito levava para simplesmente reconhecer a palavra estimulante, Trautscholdt conseguiu quantificar o tempo gasto pela mente para realizar a conexão associativa propriamente dita que, segundo Trautscholdt, variava entre 706 e 874 ms. Wundt também adaptou a técnica de associação de palavras de Francis Galton, limitando a resposta do sujeito a apenas uma única palavra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O quarto e último experimento que será apresentado é relacionado a acordes musicais. Nele, sujeitos ouviam tons isolados no piano, que seriam as sensações puras, e depois os mesmos tons tocados simultaneamente. Os participantes descreviam em detalhes a transição afetiva de como a fusão física das frequências dava origem a um produto inteiramente novo na consciência, que seria o sentimento estético de harmonia e prazer decorrente de uma síntese criadora. Wundt conduzia vários experimentos em estética experimental, tal qual seu colega Fechner.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Arquitetura da Mente: Elementos, Fusão e Síntese Criadora ===&lt;br /&gt;
Segundo Wundt, a experiência pode ser decomposta em elementos simples, que incluem as sensações e os sentimentos simples. Os sentimentos, por sua vez, são entendidos a partir da teoria tridimensional dos sentimentos, onde eles se distribuem em um espaço qualitativo entre os polos prazer/desprazer (Lust-Unlust), tensão/relaxamento (Spannung-Lösung) e excitação/depressão (Erregung-Beruhigung). A primeira é a mais evidente, se refere à avaliação afetiva primária da experiência. A segunda se relaciona ao esforço da atenção ou à preparação interna da mente. Já a terceira está relacionada ao nível de ativação biológica e psicológica do organismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esses aspectos todos são organizados através do mecanismo de fusão (Verschmelzung), onde as qualidades elementares se fundem em complexos psíquicos. O conceito central aqui é o princípio da síntese criadora (schöpferische Synthese). Ao contrário do associacionismo britânico, Wundt afirma que o todo resultante possui propriedades que não estão contidas na mera soma das partes. Essa síntese não é um processo mecânico passivo, mas um ato aperceptivo ativo, vinculado à vontade. Na mente humana, a combinação de elementos gera um valor novo e qualitativamente superior, marcando a distinção fundamental entre a causalidade psíquica e a mecânica física.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em termos simples, a síntese criadora estabelece que os complexos psíquicos, como representações, sentimentos compostos e afetos, embora formados pela união de elementos simples (sensações e sentimentos simples), possuem características qualitativas inteiramente novas que não pertencem a nenhum de seus elementos constituintes isolados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fusão é o processo ativo e primário de integração psíquica. É através dela que os elementos sensoriais e afetivos brutos são ativamente sintetizados pela mente para dar origem a uma nova unidade psicologicamente complexa. A fusão é a geradora da síntese criadora. Para Wundt, a síntese criadora é a prova cabal da causalidade psíquica. Ela monstra que os fenômenos mentais obedecem a leis de conexão e geração próprias que não se ajustam às leis da física ou da fisiologia mecânica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Observemos isso com um exemplo já apresentado. Se você tocar no piano as notas Dó, Mi e Sol isoladamente, você terá apenas a experiência de três sensações auditivas distintas. No entanto, quando essas notas são tocadas simultaneamente, a fusão de seus elementos gera na consciência uma experiência qualitativamente nova, que seria um acorde musical. O sentimento de harmonia e a qualidade estética do acorde são um produto da síntese criadora, pois não existiam em nenhuma das notas isoladas e surgem puramente da atividade unificadora da mente sobre o estímulo físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Paralelismo Psicofísico e Causalidade Psíquica ===&lt;br /&gt;
O paralelismo psicofísico foi um dos conceitos mais importantes e debatidos no século XIX durante o processo de fundação da psicologia científica. Ele surgiu como uma alternativa teórica para solucionar o clássico problema mente-corpo. O conceito foi formulado de forma a tanto o dualismo substancial, que dividia o ser humano em duas substâncias isoladas cuja forma de interação era desconhecida, quanto o materialismo reducionista, que reduzia a mente a uma mera secreção cerebral ou processo físico ou fisiológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para Fechner, o paralelismo era a manifestação de um monismo neutro, ou teoria de duplo aspecto. Ele defendia que a matéria (corpo) e o espírito (mente) não são substâncias diferentes, mas sim dois modos de aparência ou perspectivas distintas de uma única e mesma realidade subjacente, teoria sobre o qual fundamental grande parte de seu projeto científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt também adotou o termo paralelismo psicofísico, mas realizou uma redefinição epistemológica radical do conceito, visando se afastar da metafísica. Ele rejeitava categoricamente qualquer tentativa de transformar o paralelismo em uma doutrina ontológica sobre a natureza última da realidade, transformando-o estritamente um postulado metodológico e heurístico indispensável para a investigação científica. Os processos mentais não sejam reduzidos a processos fisiológicos ou neurais, pois a consciência obedece a leis de conexão próprias, como a causalidade psíquica, que não podem ser explicadas pelas leis da mecânica cerebral.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Psicologia Individual e Völkerpsychologie: dois métodos para manifestações da experiência ===&lt;br /&gt;
A arquitetura metodológica de Wundt responde ao desafio de investigar processos mentais que variam em complexidade. Ele estabelece que &#039;&#039;&#039;a psicologia deve ser compreendida como o fundamento das ciências humanas&#039;&#039;&#039; ou ciências do espírito (&#039;&#039;Geisteswissenschaften&#039;&#039;). A &#039;&#039;&#039;Psicologia Individual&#039;&#039;&#039;, na concepção de Wundt, foca nos processos elementares, que incluem sensação e percepção, que são passíveis de controle rigoroso em laboratório através da manipulação de estímulos externos e pelas técnicas da [[introspecção]] experimental e estudo da experiência interna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entretanto, Wundt reconhece a insuficiência do modelo experimental para os processos mentais superiores, como o pensamento e a linguagem, que são historicamente condicionados. Para estes, ele propõe a &#039;&#039;Völkerpsychologie&#039;&#039; , ou &#039;&#039;&#039;Psicologia dos Povos&#039;&#039;&#039;, dedicada ao estudo dos produtos das &#039;&#039;geistige Gemeinschaften&#039;&#039; (comunidades espirituais, no sentido das ciências do espírito, ou coletividades). Wundt vai apontar a linguagem, o mito e os costumes (&#039;&#039;Sitten&#039;&#039;) não são apenas dados culturais, mas objetivações de leis psíquicas superiores, inacessíveis à introspecção de laboratório. Eles seriam produtos da experiência humana nas suas formas mais avançadas e superiores e, por não serem passíveis de experimentação, exigem uma outra abordagem. Essas duas vertentes, experimental e histórico-cultural, não são divergentes, mas sim o projeto integrador que permite apreender a mente tanto em sua base sensório-motora quanto em suas manifestações espirituais complexas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As investigações da psicologia dos povos focavam na alma do povo (&#039;&#039;Volksseele&#039;&#039;), definida como a realidade factual dos processos psíquicos que surgem em uma comunidade por meio da interação das energias mentais dos indivíduos. Essa “mente coletiva” se tornava um objeto tangível e investigável ao longo da história em três grandes produtos culturais. O primeiro é a &#039;&#039;&#039;linguagem&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Die Sprache&#039;&#039;), ferramenta pela qual o pensamento é estruturado e externalizado. Já o &#039;&#039;&#039;mito e a religião&#039;&#039;&#039; são as formas como a imaginação e os sentimentos humanos coletivos projetam suas explicações sobre o cosmos e a existência. Os &#039;&#039;&#039;costumes&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Sitten&#039;&#039;) e o &#039;&#039;&#039;direito&#039;&#039;&#039;, por sua vez, são  as regras de conduta coletiva que nascem de atos voluntários e impulsos compartilhados, padronizando as interações sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não podia realizar experimentos com culturas inteiras, Wundt operava por meio da pura &#039;&#039;&#039;observação retrospectiva e comparativa dos produtos mentais&#039;&#039;&#039;, ou seja, analisando os objetos já criados e usados ou em uso por diferentes povos e culturas, anotando suas diferenças e semelhanças. Wundt juntava, lia e analisava de forma exaustiva relatos históricos, estudos filológicos, dicionários, mitologias comparadas, códigos de leis e descrições etnológicas e antropológicas de povos ao redor do globo, ou seja, utilizava dos estudos de diferentes ciências humanas e sociais para extrair as leis psicológicas gerais do desenvolvimento mental humano por trás dessas manifestações. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seu objetivo era mapear como a mente coletiva evoluía do simples para o complexo ao longo das eras, numa abordagem genética e desenvolvimentista e reconstruir, de forma retrospectiva, as forças dinâmicas, os afetos, os impulsos (&#039;&#039;Triebe&#039;&#039;) e os processos de síntese criadora (melhor discutida mais adiante) que estiveram ativos na mente das pessoas no momento de sua formação. Wundt dedicou os últimos 20 anos de sua vida (de 1900 a 1920) quase exclusivamente a esse empreendimento monumental, escrevendo dez volumes sobre o assunto.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O que Aconteceu Depois? ===&lt;br /&gt;
No final de sua vida, Wilhelm Wundt era visto de forma ambivalente. Enquanto mantinha o prestígio de fundador da psicologia científica, uma nova geração de psicólogos que buscava se firmar, via como um “pai tribal”, cujo longo domínio de mais de quatro décadas estava desgastado. Ele se tornou o alvo de críticas severas e passou a ser tratado por muitos como o ícone de um passado superado e falido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante a Primeira Guerra Mundial e nos anos que a sucederam, a reputação internacional de Wundt sofreu graves danos. Influenciado por seu filho Max, Wundt adotou posturas políticas ultranacionalistas, chegando a usar a Völkerpsychologie de maneira tendenciosa para criticar os inimigos da Alemanha. Essa postura inflamou um forte preconceito anti-alemão, especialmente nos Estados Unidos, onde ex-alunos e intelectuais americanos passaram a ver ele como uma mente maligna e autoritária, acelerando a rejeição de suas obras em solo estrangeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A maior frustração de Wundt no fim da vida ocorreu no âmbito acadêmico alemão. Ele sempre defendeu que a psicologia era uma ciência propedêutica e uma aliada indispensável da filosofia, devendo permanecer integrada a esta. No entanto, os filósofos acadêmicos de sua época, especialmente os neokantianos e fenomenologistas, rejeitaram veementemente o  que chamavam de “psicologismo de Wundt”, ou seja, a redução da lógica e da validade do conhecimento a fatos psicológicos. Em 1913, após a contratação de um psicólogo experimental para a cadeira de filosofia em Marburg, mais de cem professores de filosofia assinaram um protesto público exigindo que psicólogos fossem banidos dos departamentos de filosofia. Esse movimento resultou no progressivo divórcio institucional entre a psicologia e a filosofia, uma separação que Wundt lamentou e combateu até a sua morte em 1920.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir da década de 1890, uma forte onda de positivismo, inspirada pela filosofia de Ernst Mach e Richard Avenarius, varreu a psicologia experimental. Jovens psicólogos, incluindo os assistentes do próprio Wundt, rejeitaram conceitos fundamentais do sistema de Leipzig, como a apercepção, a causalidade psíquica e a síntese criadora, tomando eles como metafísica, exatamente o oposto do que desejava seu formulador. Eles preferiam um modelo elementarista e reducionista, focado na descrição de relações funcionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos EUA, a influência da teoria da evolução de Darwin deslocou o interesse da estrutura da consciência para as suas funções de adaptação ao meio, o chamado funcionalismo. Com o surgimento e o fortalecimento do behaviorismo e a eliminação da mente como objeto de estudo, o voluntarismo de Wundt perdeu qualquer espaço. Na Europa, a própria psicologia da Gestalt ergueu-se combatendo o elementarismo que havia sido falsamente associado a Wundt. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O golpe final veio após a Primeira Guerra Mundial, quando a Alemanha mergulhou em colapso econômico. Diante da “crise da psicologia”, os pesquisadores precisaram provar a utilidade prática da ciência que praticavam para sobreviver, o que já acontecia nos EUA, voltando-se para a psicologia militar, industrial, educacional e clínica. Wundt, que sempre desprezou a psicologia aplicada, teria visto seu sistema dinâmico de laboratório perder todo o fôlego diante das pressões pragmáticas da época, ainda que mantivesse sua fama e sua alcunha maior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia Científica na Inglaterra ==&lt;br /&gt;
O surgimento da psicologia na Inglaterra seguiu um caminho bastante distinto do modelo laboratorial alemão, focado na introspecção e na busca de leis universais. A psicologia britânica formou-se na intersecção de duas grandes forças intelectuais, que são as filosofias empirista e associacionista, e a biologia evolutiva. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No empirismo, pensadores como John Locke postularam que a mente humana nasce como uma tabula rasa ou uma folha em branco, e que absolutamente todo o conhecimento deriva da experiência sensorial. No associacionismo, filósofos como David Hume, James Mill e John Stuart Mill afirmavam processos mentais complexos são formados pela associação contínua de ideias simples e sensações, governadas por leis lógicas. tais como similaridade, contiguidade e causa e efeito. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A despeito de sua rica tradição filosófica, o maior divisor de águas para a ciência britânica foi a publicação de A Origem das Espécies, em 1859. A teoria da evolução natural de Darwin, trouxe novas e profundas questões para o estudo da mente britânica. Se humanos e animais compartilham ancestrais comuns, argumentava-se que deveria haver uma continuidade não apenas física, mas também mental entre as espécies, conectando a psicologia ao estudo da zoologia, dando origem à Psicologia Comparada. Além disso, a mente e a consciência deixaram de ser vistas apenas como objetos metafísicos e passaram a ser estudadas como ferramentas biológicas de adaptação, que evoluíram porque ajudavam o organismo a sobreviver em seu ambiente, sendo fundamental para a criação do funcionalismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a validação da biologia evolutiva, o estudo da inteligência animal explodiu no Reino Unido, George Romanes foi um dos primeiros a tentar sistematizar o comportamento animal. Contudo, seu método anedótico foi duramente criticado por ser antropomórfico, ou seja, por atribuir pensamentos e emoções humanas complexas a animais. Seu colega Conwy Lloyd Morgan introduziu mais rigor científico à área através do que ficou mundialmente conhecido como o Cânone de Morgan, ou princípio da parcimônia. A regra dizia que um comportamento animal não deve ser interpretado como resultado de uma faculdade mental superior se puder ser explicado por um processo psicológico mais básico, como o instinto ou o aprendizado por tentativa e erro. Apesar de a perspectiva de ambos ter sido abandonada, a Psicologia Comparada se tornou um dos principais ramos da psicologia moderna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Francis Galton e a Psicologia Diferencial ===&lt;br /&gt;
Francis Galton (1822-1911) foi um cientista e polímata britânico de inteligência extraordinária, com um QI estimado por volta de 200, algo extremamente raro, além de ser primo de Charles Darwin. Galton é amplamente reconhecido como pioneiro ao incorporar o estudo sistemático das diferenças individuais e da herança mental na nova psicologia, uma área que era ignorada ou rejeitada por pioneiros experimentalistas como Wilhelm Wundt.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Galton interessou-se pela medição das variações da inteligência e das capacidades humanas. Ele fundou um laboratório antropométrico onde testou a acuidade sensorial, a força e os tempos de reação de milhares de pessoas. Além disso, baseando-se na premissa empirista de John Locke de que todo o conhecimento vem da percepção, Galton assumiu que os indivíduos mais inteligentes seriam aqueles com as capacidades sensoriais e motoras mais aguçadas. Ele foi o inventor do conceito de testes mentais, termo posteriormente cunhado por seu aluno dos EUA, James McKeen Cattell. Galton também desenvolveu o método experimental de associação de palavras, medindo o tempo de reação mental e demonstrando a enorme influência das experiências da infância e do inconsciente no pensamento adulto, um trabalho que impressionou profundamente Sigmund Freud. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também foi um dos primeiros a fazer uso amplo do questionário psicológico para investigar imagens mentais, constatando para sua própria surpresa que a maioria dos cientistas relatava ausência de imagens mentais nítidas, em contraste com relatos muito mais detalhados fornecidos por mulheres e crianças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para conduzir medições em larga escala, ele inventou vários instrumentos clássicos e, para analisar suas enormes bases de dados, Galton desenvolveu conceitos estatísticos fundamentais, como a correlação. Essa tradição quantitativa foi depois aperfeiçoada por outros britânicos, como Charles Spearman, criador da análise fatorial e do conceito de fator g de inteligência geral, fundando a base da psicometria moderna. e influenciando de forma decisiva a psicologia dos testes nos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Conclusão ==&lt;br /&gt;
A história da psicologia é definida pelo paradoxo de ter um “longo passado” e uma “curta história”, podendo ir do De Anima de Aristóteles até a a fundação do laboratório de Wilhelm Wundt na Universidade de Leipzig, em 1879. A psicologia, assim, mostra que tem uma rica história, com muitos personagens, conceitos e acontecimentos importantes, de modo que qualquer narrativa sobre sua composição elegerá heróis e vilões, dará mais relevância para alguns, menos para outros e o esquecimento para a maioria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O texto propõe que Immanuel Kant foi uma figura central na composição da psicologia científica. Ele propôs que a mente humana é um agente ativo que organiza o conhecimento através de estruturas a priori, tais como o tempo, o espaço e as categorias do entendimento. Assim, ele introduziu o conceito de “sujeito transcendental” como a estrutura universal que garante a unidade da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Kant impôs um “veto” ao status científico da psicologia, defendendo a base na matematização. A superação desse veto ocorreu através da “naturalização” de Kant pela fisiologia. Johannes Müller, com a Teoria das Energias Nervosas Específicas, mostrou que a sensação é mediada pelo sistema nervoso, não sendo uma cópia fiel do mundo externo. Hermann von Helmholtz avançou essa ideia ao postular que as estruturas a priori de Kant seriam, na verdade, características da anatomia e fisiologia humanas. Ele propôs o conceito de “inferências inconscientes” para explicar como interpretamos dados sensoriais. Nesse contexto, Friedrich Albert Lange defendeu uma “psicologia sem alma”, rejeitando a metafísica e argumentando que o estudo científico deve focar apenas nas aparências e fenômenos observáveis, reduzindo o objeto da psicologia a dados empíricos e correlações fisiológicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner foi crucial ao oferecer a base matemática e experimental que faltavam, por meio da Lei de Weber-Fechner. Ele também padronizou e melhorou métodos para o estudo dos limites e constantes sensoriais, que se tornaram a base metodológica da psicologia experimental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt não apenas fundou um laboratório, como também arquitetou um sistema complexo. Para Wundt, o objeto da psicologia é a experiência imediata, criando conceitos como voluntarismo, causalidade psíquica, apercepção, entre outros. Além disso, ele também criou a psicologia dos povos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente do foco laboratorial alemão, a psicologia britânica foi moldada pela filosofia empirista e, crucialmente, pela teoria da evolução de Charles Darwin. Neste contexto, Galton ganha destaque, por ter fundado o laboratório antropométrico, inventado o conceitos de “testes mentais”, pelo uso de estatísticas no estudo da psicologia e ter influenciado o desenvolvimento da psicometria e a análise fatorial (com Charles Spearman), consolidando uma tradição que focava mais na variabilidade genética e na inteligência do que na estrutura da consciência em si.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_surgimento_da_psicologia_cient%C3%ADfica&amp;diff=1746</id>
		<title>O surgimento da psicologia científica</title>
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		<updated>2026-09-01T22:54:33Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* Psicologia Individual e Völkerpsychologie: dois métodos para manifestações da experiência */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto [[Portal História da Psicologia]]) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um longo passado, uma curta história ==&lt;br /&gt;
A psicologia tem um longo passado, mas uma curta história. Esta é uma frase muito famosa no campo da história da psicologia, tendo sido consagrada por Hermann Ebbinghaus, um psicólogo alemão pioneiro no estudo da memória, ainda no século XIX. A frase é exemplar e muito usada em debates sobre a historiografia da psicologia, e isto revela como é difícil dizer quando a psicologia teve início. Ela tem um &#039;&#039;&#039;longo passado&#039;&#039;&#039;, porque os temas que consideramos hoje como parte da psicologia aparecem muitas vezes na filosofia, na religião, em saberes tradicionais, entre muitos outros lugares, ao longo da história. É difícil estabelecer qual &#039;&#039;&#039;o objeto de estudo da história da psicologi&#039;&#039;&#039;a, assim como é difícil, ao longo da história, &#039;&#039;&#039;separar o que é  psicologia daquilo que não é psicologia&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse longo passado pode remontar, por exemplo, à Antiguidade, com o tratado De Anima, de Aristóteles, que escreveu muito antes de se imaginar o próprio conceito de ciência moderna e, menos ainda, de uma psicologia moderna. Outros podem colocar o início da psicologia com Descartes, que elaborou a máxima, também famosa, “penso, logo existo”. Isso mostra que &#039;&#039;&#039;os objetos de estudo da psicologia são historicamente construídos&#039;&#039;&#039;, ou seja, emergem a partir dos locais ou pessoas que atuaram na psicologia, como na medida das diferenças individuais, as dinâmicas de controle num laboratório, nas práticas de psicoterapia, entre muitas outras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se cada historiador localiza o passado da psicologia em lugares diferentes no tempo e no espaço, a &#039;&#039;&#039;história da psicologia&#039;&#039;&#039;, por seu lado, tem uma definição bem mais estável e curta. Nos anos 1980, historiadores reunidos num congresso nos EUA definiram que &#039;&#039;&#039;a psicologia científica começou em 1879, quando [[Wilhelm Wundt]] fundou o primeiro laboratório de psicologia experimental na Universidade de Leipzig, na Alemanha&#039;&#039;&#039;. Essa definição está consagrada e é quase um consenso, porém, não foi tão simples estabelecê-la. Alguns advogavam pelo pioneirismo de outro alemão, [[Gustav T. Fechner|Gustav Theodor Fechner]], criador da chamada [[psicofísica]], de onde vieram muitos dos experimentos e ideias de Wundt. Outros ainda queriam que [[William James]], um filósofo e psicólogo americano, fosse reconhecido como fundador, pois seu laboratório de psicologia era ainda mais antigo que o de Wundt que, no final, venceu essa disputa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Resumindo, a psicologia possui um “longo passado”, com raízes filosóficas e religiosas milenares e altamente diversas, e uma “curta história” como disciplina científica, cujo marco está situado em 1879, com a fundação do primeiro laboratório experimental por Wilhelm Wundt, na Alemanha. Pelo menos é assim que, atualmente, a grande maioria dos historiadores entende a questão, uma das poucas em que há algum conceito neste campo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Presentismo ===&lt;br /&gt;
Mas o que seriam essas psicologias anteriores a essa psicologia científica? Para entender melhor essa história, é preciso refletir para superar, da melhor forma, um problema chamado &#039;&#039;&#039;presentismo&#039;&#039;&#039;, ou seja, julgar, entender, interpretar e analisar o passado com a visão do presente. Não é apenas uma questão de olhar para as pessoas do passado e superar o pensamento de que elas eram “ignorantes”, pois “não tinham o conhecimento que temos hoje”. É entender também que, no passado, haviam formas de conhecimentos diferentes, bem como visões de mundo diferentes da atual. Este é um problema fascinante. Muitos dos consensos contemporâneos, coisas que entende-se totalmente óbvias, eram vistas de forma completamente diferente no passado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo interessante é o &#039;&#039;&#039;conceito de atenção&#039;&#039;&#039;. Hoje, ela é um tema tão discutido e consensual que pouco se reflete sobre seu significado. Atualmente, seria algo como centralizar as faculdades mentais ou talvez a percepção em um ponto específico. Pode-se ouvir as pessoas reclamando da própria falta de atenção, que “não conseguem prestar atenção”, ou que nunca “mantém a atenção”, e até mesmo existem medicamentos para resolver esse problema. Contudo, a palavra “atenção” nem sempre significou o que entendemos hoje. Para [[Santo Agostinho]], atenção era apenas o ato de passar de um pensamento para outro. [[René Descartes|Descartes]] tinha um conceito mais parecido com o contemporâneo, onde a atenção era mobilizada de forma voluntária para fixar e reter na memória coisas raras e extraordinárias que o entendimento considerava úteis. Na obra de [[John Locke|Locke]], a atenção é mencionada apenas de passagem, como um mero mecanismo auxiliar da retenção de memórias. A partir do momento em que a ciência passou a entender que a percepção depende da estrutura física e biológica do corpo, com a psicofísica e a fisiologia sensorial, já no século XIX, a visão passou a ser encarada como intrinsecamente incompleta, instável e condicionada pelo tempo. Nesse contexto, a atenção foi utilizada como um substituto pragmático para garantir a coerência do mundo percebido. Autores do final do século XIX, como [[Théodule Ribot]] e [[Max Nordau]], associaram os desvios ou a fraqueza da atenção a patologias psíquicas, comportamentos sociopáticos e teorias da “degeneração”. Para eles, uma atenção defeituosa deixava a mente à mercê de “associações caóticas”, gerando uma visão borrada e distorcida da realidade. Foi apenas na década de 1950 que a nossa compreensão contemporânea de atenção começou a se delinear, paralelamente aos estudos sobre os medicamentos desenvolvidos para tratar as suas disfunções.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma pessoa desavisada, que não está atenta às grandes diferenças entre as ideias e conceitos ao longo do tempo, poderia ler um trecho de Ribot, Santo Agostinho, Descartes e outros e achar que a atenção sobre a qual eles falam é a mesma coisa que entendemos hoje. O leitor estaria totalmente enganado, a ponto de não conseguir nem mesmo compreender o que estes pensadores queriam dizer. Em outras palavras, &#039;&#039;&#039;o esforço para entender as psicologia do passado passa também pelo esforço de entender como se pensava no passado, qual a visão que se tinha nesse passado&#039;&#039;&#039;. Parte do esforço do historiador é trazer esses aspectos de volta ao presente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O sujeito transcedental de Kant ==&lt;br /&gt;
A concepção de uma psicologia ocupada especificamente com a “mente” humana e suas operações começou a ganhar contornos modernos no século XVIII com o filósofo [[Christian Wolff]]. Ele dividiu a psicologia em [[Psicologia Empírica (livro)|&#039;&#039;&#039;Psicologia Empírica&#039;&#039;&#039;]], num livro publicado em  1732 e baseada na introspecção; e em &#039;&#039;&#039;Psicologia Racional&#039;&#039;&#039;, numa obra de 1734, dedicada a deduzir a natureza e a essência da alma, como sua imortalidade e imaterialidade, de forma puramente lógica e racional, independentemente da experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, o projeto de Wolff enfrentava um sério problema metodológico: a chamada observação interna ou [[introspecção]]. Quando se estuda um fenômeno natural, como a chuva, é necessário observar tudo que está envolvido com estee fenômeno, incluindo como as nuvens se formam, qual a umidade do ar, a intensidade dos raios solares, a direção dos ventos, entre muitos outros fatores. A questão é que todos estes aspectos são &#039;&#039;&#039;externos ao sujeito&#039;&#039;&#039;. Toda a ciência é feita dessa forma, observando, testando e analisando o mundo que está fora dos indivíduos. O problema está em estudar algo que é interno aos sujeitos. Não se pode observar diretamente o que se passa na cabeça de alguém, pelo menos não por enquanto. Contudo, é possível analisar o que se passa nas nossas próprias cabeças. Isso seria a &#039;&#039;&#039;introspecção&#039;&#039;&#039;, ou seja, o processo pelo qual adquirimos conhecimento sobre nossos próprios estados ou processos mentais Apesar de ser uma ideia interessante, fazer introspecção não era considerado algo muito científico. Entendia-se que “observar a si mesmo” distorcia os eventos mentais, pois o sujeito que observa e o objeto observado são o mesmo, o que impediria a neutralidade exigida pelo modelo científico então vigente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até a segunda metade do século XVIII, as teorias do conhecimento, que incluíam o empirismo e o racionalismo, compartilhavam a premissa de que o conhecimento era determinado pelo objeto a ser conhecido. A ideia era a de que objeto estava lá, esperando a melhor forma de ser conhecido. &#039;&#039;&#039;Kant&#039;&#039;&#039;, em sua obra [[Crítica da Razão Pura (livro)|Crítica da Razão Pura]] (1781), inverteu essa lógica de forma radical. Ele propôs que &#039;&#039;&#039;não é o conhecimento que se adequa aos objetos, mas são os objetos que são determinados pelo sujeito&#039;&#039;&#039;. O conhecimento passou a ser compreendido não como uma recepção passiva, mas como uma produção ativa do chamado sujeito transcendental, moldada por suas formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;sujeito transcendental&#039;&#039;&#039; em Kant não se refere propriamente a um indivíduo empírico ou psicológico, ou seja, alguém com personalidade e história pessoal. Pense no sujeito transcendental não como “você” (André ou Maria), mas como o “sistema operacional” universal da mente humana. Assim como um software organiza os dados que chegam do teclado, convertendo eles em coisas numa tela, o sujeito transcendental organiza os dados que chegam dos sentidos, como o tempo e o espaço, antes mesmo de termos consciência deles.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o sujeito transcedental, é preciso fazer um importante exercício de abstração, visando conseguir entender algo que está além da experiência existencial individual e entender aquilo que molda essa própria experiência. O sujeito transcedental de Kant é, segundo ele próprio, uma condição universal de possibilidade para qualquer conhecimento. Em outras palavras, é algo que todas as pessoas possuem e é a forma que o ser humano tem para saber as coisas. É a estrutura ativa da mente que organiza a experiência antes mesmo que possamos refletir sobre ela. Esse sujeito é o princípio unificador que garante a coerência dos dados sensoriais, transformando o caos de impressões oriundas dos órgãos dos sentidos em uma experiência significativa e estruturada. Através das formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039; da sensibilidade (espaço e tempo) e das categorias do entendimento, o sujeito transcendental “constrói” o objeto conhecido. Ele é o “Eu penso” cartesiano, que deve poder acompanhar todas as nossas representações, conferindo unidade à consciência. Em suma, &#039;&#039;&#039;não conhecemos o mundo como ele é em si, mas como o sujeito transcendental o molda e o organiza para que se torne inteligível para nós&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Immanuel Kant revolucionou a teoria do conhecimento ao postular que a mente humana não funciona como um receptáculo passivo de impressões sensoriais, mas sim como um agente ativo dotado de estruturas constitutivas a priori que organizam, unificam e interpretam a matéria-prima da experiência. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas ideias de Kant, o processo de constituição do conhecimento dos fenômenos que chegam para nossa mente a partir dos órgãos dos sentidos articula-se em três instâncias fundamentais. A primeira são as formas puras da sensibilidade, depois vem os conceitos puros do entendimento, ou seja, as categorias e, por fim, a unidade sintética da apercepção. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas &#039;&#039;&#039;formas puras da sensibilidade&#039;&#039;&#039;, antes mesmo que o intelecto possa aplicar qualquer conceito, o caos das sensações brutas é necessariamente ordenado no espaço e no tempo, que não são propriedades das coisas em si, mas intuições puras da sensibilidade que funcionam como os eixos coordenados onde os fenômenos são dados. Ou seja, as informações dos sentidos já chegam num espaço e num tempo para o resto do processo de constituição do conhecimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma vez colocados no espaço e estruturados numa sucessão e simultaneidade temporal, esses dados passam pelas &#039;&#039;&#039;doze categorias do entendimento puro&#039;&#039;&#039;. Essas categorias se dividem em &#039;&#039;&#039;quatro classes de tríades&#039;&#039;&#039;: quantidade, qualidade, relação e modalidade. As &#039;&#039;&#039;categorias&#039;&#039;&#039; representam as regras lógicas puras, fundamentais e necessárias para tornar qualquer objeto da experiência inteligível. Elas podem ser observadas de forma simplificada na tabela a seguir:&lt;br /&gt;
{| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot;&lt;br /&gt;
|Classe de Categorias&lt;br /&gt;
|Categoria 1 (Tese)&lt;br /&gt;
|Categoria 2 (Antítese)&lt;br /&gt;
|Categoria 3 (Síntese)&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|1. Quantidade&lt;br /&gt;
|Unidade&lt;br /&gt;
|Pluralidade&lt;br /&gt;
|Totalidade&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|2. Qualidade&lt;br /&gt;
|Realidade&lt;br /&gt;
|Negação&lt;br /&gt;
|Limitação&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|3. Relação&lt;br /&gt;
|Substância e Acidente&lt;br /&gt;
|Causa e Efeito&lt;br /&gt;
|Ação Recíproca&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|4. Modalidade&lt;br /&gt;
|Possibilidade (Impossibilidade)&lt;br /&gt;
|Existência (Não-existência)&lt;br /&gt;
|Necessidade (Contingência)&lt;br /&gt;
|}&lt;br /&gt;
As categorias de quantidade dizem respeito à extensão em que aplicamos um conceito aos objetos, ou seja, “quantos” elementos estamos considerando no juízo. Na unidade, temos um único objeto. Na pluralidade, trazemos vários objetos do mesmo tipo para um conjunto. Já a totalidade surge quando pensamos a pluralidade como uma unidade completa.Vejamos um exemplo. Quando um observador vê uma maçã, aplica a categoria da unidade, ou seja, ele viu uma maçã. Ao ver várias maçãs espalhadas na mesa, apreende uma pluralidade, ou seja, ele tem um conceito de “maçãs” e as vê como um conjunto. Porém, ao formular uma lei universal, aplica-se a totalidade, que engloba toda a pluralidade possível sob uma única regra conceitual, ou seja, todas as maçãs são frutas e existem vários tipos de maçãs.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade trata da atribuição de um predicado, ou seja, se a experiência afirma algo, nega algo ou se situa num limite conceitual. Em outras palavras, é a forma da mente definir “como algo é”. A realidade é afirmação de que um predicado pertence a um ser, ou seja, ele é alguma coisa. A negação é a afirmação de que o predicado não pertence a algo, ou seja, um “não-ser”. A limitação é a síntese das duas anteriores. Atribui-se uma negação como se fosse uma realidade, excluindo aquilo de uma esfera, mas deixando infinita a esfera onde ele pode estar. Vamos a um exemplo. Dizer “O homem é mortal” aplica a categoria de realidade (afirma-se um atributo). Dizer “O homem não é mortal” aplica a negação. No entanto, dizer “A alma é não-mortal (imortal)” é um juízo infinito clássico de Kant que evoca a limitação. Não sabemos o que a alma é de fato, mas a limitamos removendo ela da esfera das coisas mortais, o que a situa num campo aberto e indeterminado de possibilidades.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Consideradas por muitos comentadores como o coração da epistemologia kantiana, as categorias de relação definem como os objetos se relacionam entre si e como permanecem ou mudam no tempo. Substância e Acidente referem-se àquilo que permanece através da mudança (substância) e as propriedades que são transitórias, ou seja, que mudam (acidentes). Um exemplo disso é a água de um lago que congela no inverno. Seu estado físico muda do líquido para o sólido, que é o acidente, mas a matéria da água em si, a substância, permanece inalterada. Sem a categoria de substância, nossa mente registraria apenas uma sucessão caótica de imagens, sem reconhecer que se trata da mesma “coisa” sofrendo alteração. A Causa e Efeito é a relação estritamente necessária onde um evento segue outro no tempo. O exemplo de Kant, em resposta ao filósofo David Hume, é sobre o sol que ilumina uma pedra, e a pedra esquenta. Hume diria que inferimos causalidade por mero hábito psicológico, ou seja, não há conexão necessária, apenas uma observação e uma intuição. Kant argumenta que o próprio fato de distinguirmos uma sucessão objetiva de eventos exige que a mente aplique a categoria a priori de Causalidade. A mente “dita” a regra estrutural de que o aquecimento necessariamente sucede a irradiação solar, colocando uma como causa da outra. Já na Ação Recíproca (Comunidade), tem-se a relação simultânea de mútua influência entre múltiplas substâncias no espaço como, por exemplo, a interação gravitacional entre a Terra e a Lua. Elas não são eventos sucessivos no tempo, mas existem simultaneamente e influenciam-se de modo contínuo e bidirecional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, temos as categorias modais. Eles são os Postulados do Pensamento Empírico e não acrescentam nenhum atributo novo ao objeto em si, mas definem exclusivamente como esse objeto ou evento se relaciona com o sujeito cognitivo e suas faculdades. No caso da Possibilidade-Impossibilidade, é algo que concorda com as condições formais, que são as condições lógicas e puras da experiência. No binômio Existência-Não-existência, é algo que está dado materialmente na intuição empírica, ou seja, nos sentidos. Já na Necessidade-Contingência, é algo cuja conexão com a experiência empírica está determinada por condições universais. Vamos a um exemplo. Um dragão voador de escamas verdes ou um triângulo cujos ângulos somam 180 graus são conceitos logicamente possíveis, ou seja, não envolvem contradição formal. No entanto, apenas um objeto sensorialmente verificável, como a caneta sobre a sua mesa, tem a marca da existência. Já o fato de que um objeto massivo abandonado no ar cairá em direção ao solo é uma necessidade ditada pelas leis empíricas que o entendimento prescreve à natureza, ou seja, atribui a ele.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Acima dessas estruturas, Kant postulou a apercepção ou apercepção transcendental, que é o processo pelo qual a mente unifica de forma ativa diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Sem a apercepção, a mente seria apenas um amontoado de estímulos desconectados. Assim, a aperceção a base da própria consciência humana. Devido a essa complexa mediação ativa da mente, Kant estabeleceu uma distinção insuperável entre o mundo externo e a mente. Isso significa dizer que nós não temos acesso à “coisa em si”, ou noumenon, mas apenas a como as coisas nos aparecem, ou seja, na forma de fenômeno, já devidamente processadas pelo nosso aparato cognitivo. Neste sentido, É importante distinguir o “Eu empírico”, ou seja, aquilo que observamos em nós mesmos, como nossa personalidade ou o nosso humor, do “Eu transcendental”, a pura unidade lógica do “Eu penso”. Ademais, a apercepção transcendental não é uma faculdade psicológica de “prestar atenção”, mas uma exigência lógica. Para que uma experiência seja minha, o “Eu penso” deve poder acompanhar todas as minhas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Os Vetos Kantianos à Psicologia Científica ===&lt;br /&gt;
Apesar de ter colocado o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que conhece, no centro do universo epistemológico, Kant foi muito crítico sobre a possibilidade de a psicologia se tornar uma ciência. Em sua obra Princípios metafísicos da ciência da natureza, de 1786, ele negou a possibilidade de uma psicologia científica, pois afirmou que uma disciplina só poderia Sê-lo se possuísse uma elaboração racional capaz de fornecer leis formuladas matematicamente, o que poderia ser chamado de veto matemático. A psicologia falhava nesse critério porque os eventos mentais possuem apenas a dimensão do tempo, sem nenhuma extensão espacial, o que impossibilitaria a sua matematização. Para Kant, assim como o espaço é a forma do sentido externo, o tempo é a forma pura do sentido interno. Como os estados mentais só se dão na sucessão do tempo (sem extensão espacial), eles não formam figuras nem podem ser medidos geometricamente, inviabilizando a matemática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Kant apontou a impossibilidade de isolar diferentes pensamentos para a realização de experimentos controlados. Assim, como não podemos acessar o que seria o conteúdo da mente, cercá-la e analisá-la como ela é em seu estado bruto ou natural, qualquer experimentação seria impossível, o que poderia ser chamado de veto do objeto. Por fim, ele reforçou a crítica que já era direcionada a Wolff, aquele do começo dessa seção. A introspecção como método, segundo Kant, seria inviável porque a própria tentativa de observar um fenômeno interno altera o fenômeno, o veto metodológico. Se tento observar minha própria tristeza, por exemplo, o fenômeno original desaparece e se transforma em “tristeza-sendo-observada-por-mim”, misturando sujeito e objeto de tal maneira que corrompe a objetividade. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A impossibilidade de uma psicologia científica não significava, contudo, a impossibilidade de estudar a mente e o comportamento. Kant trabalhou e lecionou com o que chamou de Antropologia Pragmática. Enquanto a psicologia empírica tentava, em vão, segundo ele, ser uma ciência exata, a antropologia pragmática estudava “o que o homem, como ser livre, faz, ou pode e deve fazer de si mesmo”. Era um estudo prático do comportamento, das paixões, da memória e da cognição, focado na vida em sociedade. De certo modo, pode-se dizer que Kant fechou a porta para a psicologia mecanicista, ou ainda, uma psicologia como ciência exata, mas ajudou a abrir uma janela imensa para as ciências humanas e sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Emergência do Neokantismo Fisiológico e as Primeiras Aproximações para a Psicologia Científica ==&lt;br /&gt;
A primeira metade do século XIX na Alemanha foi inicialmente dominada pelo Idealismo Pós-Kantiano (Hegel, Fichte, Schelling), que propunha sistemas metafísicos grandiosos onde a realidade era essencialmente racional e espiritual. Contudo, a partir da década de 1850, o forte avanço das ciências naturais, como a fisiologia e a química, gerou uma importante reação materialista, consolidados nas figuras de Feuerbach, Vogt, Büchner e outros, que passaram a ridicularizar a filosofia idealista como mera especulação vazia. A metafísica, vista como uma das glórias da filosofia e do pensamento humano, passou a ser vista cada vez mais como um discurso com pouco ou nenhum lastro na realidade. Essa mudança foi muito importante para a história da psicologia científica, pois foi devido a esse contexto que foram formulados os primeiros experimentos voltados para o que seria, no futuro, a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Johannes Müller e a Teoria das Energias Nervosas Específicas ===&lt;br /&gt;
Neste período, a fisiologia se estabeleceu como uma ciência rigorosa e extremamente respeita, liderada por figuras como Johannes Müller. Müller, professor na Universidade de Berlim, publicou seu Manual de Fisiologia Humana (1833-1840), que sistematizou o conhecimento fisiológico da época e transformou a compreensão da percepção. Até o final do século XVIII, ela era explicada pela Teoria da impressão da sensação, derivada da física newtoniana e do empirismo britânico. Esse modelo assumia que o sistema nervoso era um meio homogêneo e passivo que simplesmente “transportava” as qualidades dos objetos externos para a mente, como se a sensação fosse uma cópia exata do estímulo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Johannes Müller revolucionou esse entendimento ao formular a Teoria das energias nervosas específicas (1826). Ele provou, através de experimentos, que a estimulação de um determinado nervo sensorial sempre provoca uma sensação característica e exclusiva daquele nervo, independentemente da natureza do estímulo físico externo. Em outras palavras, a qualidade da sensação não pertence ao objeto físico, mas sim à estrutura do próprio aparato sensorial humano. O mesmo estímulo pode produzir sensações completamente diferentes dependendo de qual via nervosa é ativada. Por exemplo, ao aplicar sal na pele, na língua e nos olhos, as sensações serão totalmente distintas, todas diretamente relacionadas às especificidades do aparelho sensorial que foi ativado. É importante entender que isso não acontece por conta da especificidade das características do estímulo, como o sal ser “salgado”. A pele produz apenas sensações táteis, ainda que o estímulo não seja tátil. Isso cria um problema de confiança naquilo que percebemos sensorialmente, pois mostra que os órgãos não enviam apenas propriedades dos objetos, mas antes operam apenas de modo específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Müller, por meio de experimentos, mostrou que os objetos físicos projetam imagens invertidas na retina, mas nós os percebemos na posição correta. Ele mostrou também que, embora as imagens projetadas nas duas retinas sejam levemente diferentes, o cérebro as unifica em uma única imagem tridimensional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas descobertas trouxeram Kant para o terreno da biologia, inclusive pelo próprio Müller que, apesar de não ser neokantiano, viu suas descobertas científicas influenciarem profundamente a primeira geração deles. O sistema nervoso não é um receptor passivo, antes, ele medeia, molda e traduz ativamente a realidade externa. A sensação deixou de ser vista como uma cópia do mundo e passou a ser um enigma, que pode ser analisado a partir da seguinte pergunta: “o que existe entre o estímulo físico e a sensação subjetiva?”. Este é o mundo do primeiro projeto de psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Hermann von Helmholtz e o Neokantismo Psicofisiológico ===&lt;br /&gt;
A ponte definitiva entre a epistemologia kantiana e a prática laboratorial foi construída por um antigo aluno de Johannes Müller, Hermann von Helmholtz (1821-1894). Ele colaborou no desenvolvimento do neokantismo psicofisiológico ou neokantismo fisiológico. Ele entendeu que as descobertas de seu professor forneciam a base material exata para a teoria do conhecimento de Kant. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1855, Helmholtz argumentou que as estruturas a priori propostas por Kant como condições de possibilidade da experiência eram, na verdade, características da anatomia e da fisiologia do aparato perceptivo humano. Ao “naturalizar” a filosofia de Kant, Helmholtz formulou a sua teoria dos signos, que postula que nossas sensações e percepções não são cópias diretas da realidade, mas sim símbolos ou signos gerados pelo nosso sistema nervoso em resposta aos estímulos. Para explicar como construímos uma imagem coerente e espacial do mundo a partir desses signos neurológicos isolados, Helmholtz introduziu o conceito de inferências inconscientes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo essa teoria, a mente realiza uma série de ajustes e cálculos automáticos, baseados na experiência e na aprendizagem contínua, para interpretar os dados sensoriais. A percepção de profundidade, a posição espacial e a resolução de duas imagens retinianas em uma única visão estereoscópica não são inatas, como defendia o nativismo de Ewald Hering ou o próprio Müller, mas são aprendidas empiricamente através do movimento do corpo e da repetição das sensações. O espaço perceptivo atua como uma linguagem que a mente usa para interpretar os dados fisiológicos brutos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com isso, Helmholtz fundou o projeto de uma psicologia fisiológica autônoma, diferente da psicologia filosófica discutida na época. Ele concordou com Kant que a introspecção tradicional era um método falho, que podia conduzir a ilusões porque o observador só capta a superfície consciente do pensamento. A solução de Helmholtz foi submeter o sujeito da experiência a condições de laboratório rigorosamente controladas. Se as condições da percepção dependem de mecanismos fisiológicos, então a única forma de fazer epistemologia científica é através da experimentação fisiológica e da ótica. O sujeito do conhecimento tornou-se, assim, um objeto, que poderia ser manipulado e analisado em laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Suas contribuições não acabam por aí. Antes das pesquisas de Helmholtz, a comunidade científica acreditava que o impulso nervoso era instantâneo ou rápido demais para ser mensurado. Em 1850, estimulando um nervo motor na perna de uma rã e medindo o tempo da contração muscular, ele obteve o registro da velocidade de condução neural, que é de aproximadamente 27 metros por segundo, provando que havia “algo” entre o estímulo e a percepção que poderia ser analisado cientificamente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também mediu o tempo de reação de nervos sensoriais em humanos. Essa descoberta provou que o pensamento e o movimento corporal não ocorrem simultaneamente, mas são separados por um intervalo de tempo mensurável. Essa foi a base que abriu caminho para os experimentos de tempo de reação e cronometria mental que dominariam o laboratório de Wundt décadas depois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== F. A. Lange e o Projeto de uma “Psicologia Sem Alma” ===&lt;br /&gt;
O segundo pilar desse “retorno a Kant”, também de matriz fisiológica, foi erguido pelo filósofo e sociólogo Friedrich Albert Lange (1828-1875). Lange foi uma figura central na “controvérsia materialista” que agitava a Alemanha. Ele rejeitava tanto os “delírios” dos sistemas idealistas metafísicos quanto o reducionismo ingênuo do materialismo científico de Vogt e Büchner. Em sua influente obra História do Materialismo, de 1866, Lange defendeu que a limitação proposta por Kant é absoluta, ou seja, não temos e nem nunca teremos acesso à essência última da realidade, às coisas em si. Nosso conhecimento se restringe aos efeitos das coisas, ou seja, os fenômenos, que nos aparecem totalmente moldados pela nossa organização mental e neurológica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Lange argumentou que a impossibilidade de conhecer a essência não impede o estudo científico rigoroso das “aparências”, ou seja, sobre como as coisas nos aparecem. Para viabilizar esse estudo, Lange atacou as psicologias filosóficas do passado, que versavam debates que ele ele entendia estéreis sobre a natureza, a imortalidade e a substancialidade da “alma”. Para Lange, a alma era um conceito vazio, um “mito antigo” que forçava a psicologia a operar sobre pressupostos metafísicos inverificáveis. Em resposta, ele propôs a criação de uma psicologia sem alma, ou, em outras palavras, uma psicologia sem metafísica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste novo paradigma, o objeto de estudo da psicologia deveria ser reduzido aos dados empíricos observáveis, incluindo a sensação, a percepção, a ação e a linguagem, sempre buscando o seu correlato fisiológico. Lange rejeitou a introspecção puramente filosófica, pois a auto-observação isolada é privada, não pode ser repetida, não permite a presença de observadores externos e leva invariavelmente a ilusões verbais. Segundo ele, essa introspecção conduzia o pesquisador a substancializar conceitos como “vontade” ou “pensamento”, sem nenhum lastro empírico ou experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A única saída para a psicologia tornar-se verdadeiramente científica era abraçar a metodologia das ciências naturais. Apoiando-se no trabalho de Helmholtz e nas medições pioneiras de psicofísicos como Ernst Weber e Gustav Fechner, Lange prescreveu que a psicologia deveria investigar as leis fisiológicas da percepção e medir a correlação exata entre estímulos físicos e respostas sensoriais, como nos tempos de reação e nos limiares diferenciais. A psicologia passava a ser entendida não como a ciência do espírito transcendente, mas como a ciência psicofisiológica que estuda experimentalmente as condições de possibilidade da experiência, trazendo o sujeito transcendente de Kant para uma fisiologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fechner e a Fundação da Psicofísica ===&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner (1801–1887) foi um físico e metafísico alemão e antigo aluno de Weber. Apesar de não ser um neokantiano, ele tem uma importância fundamental para este momento da fundação da psicologia experimental, tendo sido citado e adotado por neokantianos. Ele assumiu a prestigiada e importante cadeira de física da Universidade de Leipzig em 1834, enquanto produzia sátiras sobre temas metafísicos e artísticos sob um pseudônimo. Após uma série de experimentos em que observava diretamente o Sol, feriu gravemente suas retinas, evento que o conduziu a um colapso físico e mental. Teve uma recuperação milagrosa em 1843, quando tentou observar flores em seu jardim e, por meio de uma experiência mística, observou que a natureza brilhava de dentro para fora, de onde concluiu que o universo era dotado de alma e consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esssa experiência decisiva levou-o a dedicar sua vida ao combate do materialismo científico, que ele denominava visão noturna, que via o mundo como uma matéria inerte e sem vida. Já a sua visão diurna entendia que a matéria era a manifestação da consciência universal divina, uma cosmovisão espiritualista que pode ser entendida como panpsiquista, ou seja, todos os corpos físicos possuem uma forma de alma. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi buscando provar sua visão que Fechner entendeu que poderia provar empiricamente a relação entre a mente (ou o espírito) e o corpo (ou a matéria) se encontrasse uma relação matemática constante entre a intensidade do estímulo físico e a magnitude da sensação psíquica correspondente. Isso porque Fechner percebeu que um aumento na intensidade do estímulo físico não gerava um aumento equivalente e proporcional na sensação subjetiva. A relação não era linear, mas sim proporcional, pois o estímulo físico aumentava em uma progressão geométrica, enquanto a sensação psíquica crescia em uma progressão aritmética. Por exemplo, acrescentar o som de um sino a outro que já está tocando gera um forte impacto perceptivo, pois é possível distinguir claramente que passou-se de um para dois sinos. Já acrescentar um sino a uma dezena deles produz uma alteração quase imperceptível. A sensação dependia, portanto, do nível de estimulação já existente no sistema.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para dar sustentação empírica à sua teoria, Fechner apropriou-se dos trabalhos experimentais realizados por Weber, que havia formulado a teoria da diferença mínima perceptível, demonstrando que a sensibilidade humana não avaliava diferenças absolutas entre estímulos, mas sim relações relativas ou proporcionais. Weber observou que, ao levantar pesos, os sujeitos conseguiam detectar uma variação mínima correspondente a uma fração constante de aproximadamente 1:40 em relação ao peso padrão. Essa constância proporcional é descrita pela chamada Lei de Weber:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
II=K&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde I representa a intensidade do estímulo padrão (que aparecerá como R posteriormente), ΔI é o acréscimo mínimo necessário para produzir uma mudança perceptível na sensação e k é uma constante matemática específica para cada modalidade sensorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Fechner percebeu que essa fração constante (ΔI/I) correspondia à unidade de medida da sensação subjetiva (dS). Utilizando o cálculo infinitesimal, Fechner integrou matematicamente a equação de Weber, assumindo que todas as diferenças mínimas perceptíveis eram subjetivamente iguais entre si. Essa operação matemática resultou na célebre Lei de Fechner ou Lei de Weber-Fechner:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
S = k Log R&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde S representa a magnitude da sensação subjetiva (qualidade mental), R representa a intensidade física do estímulo (qualidade material) e K é uma constante experimental ajustada a cada sentido. Essa fórmula logarítmica foi construída para mostrar que, para a sensação aumentar linearmente, o estímulo físico precisava crescer exponencialmente, estabelecendo uma relação exata e mensurável entre o psíquico e o físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para aplicar sua fórmula, Fechner sistematizou dois conceitos fundamentais que estruturam as medições psicofísicas. A primeira é o limiar absoluto, ou seja, o ponto de intensidade física mínima abaixo do qual o estímulo não é detectado pelo sujeito e acima do qual a sensação passa a ser percebida. Outro conceito é o de limiar diferencial, que é a quantidade mínima de alteração ou variação que deve ser aplicada a um estímulo para que o sujeito seja capaz de discriminar uma mudança na sensação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um desdobramento fascinante da Lei de Fechner ocorreu quando o estímulo físico apresentava valores abaixo do limiar absoluto (R&amp;lt;1), resultando em valores negativos para a sensação (S). Fechner definiu esses valores como sensações negativas ou subliminares, postulando a existência de processos mentais ativos abaixo do limiar da consciência desperta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para determinar com precisão científica os limiares absolutos e diferenciais, Fechner desenvolveu e padronizou três metodologias experimentais rigorosas, que se tornaram os pilares metodológicos de toda a psicologia experimental posterior. No Método do Erro Médio ou do Ajuste, o próprio sujeito experimental manipula ativamente um instrumento para ajustar um estímulo variável até que sinta que este se iguala a um estímulo padrão constante. A média dos desvios entre os ajustes do sujeito e o padrão real define o erro de observação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já no Método do Estímulo Constante ou dos Casos Corretos e Incorretos, o pesquisador apresenta de forma aleatória uma série de estímulos pré-determinados e constantes em comparação com um estímulo padrão. O sujeito deve julgar se o estímulo de comparação é maior, menor ou igual ao padrão, medindo-se a proporção estatística de acertos. Por fim, no Método dos Limites ou das Diferenças Mínimas Perceptíveis, dois estímulos são apresentados ao sujeito. Um deles é aumentado ou reduzido sistematicamente em passos discretos e graduais, e o sujeito relata o momento exato em que deixa de perceber ou passa a perceber a diferença entre ambos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1860, Fechner publicou seu livro monumental, Elementos de Psicofísica, que alguns entendem ser o primeiro sobre a psicologia científica experimental. Ao fornecer à psicologia técnicas de medição coerentes e precisas, Fechner provou de forma contundente que a mente humana era passível de investigação científica e experimental, sepultando em definitivo o antigo veto imposto por Immanuel Kant, em pleno momento de desenvolvimento do Neokantismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Incomodados com as inclinações metafísicas e espiritualistas de Fechner, os psicólogos experimentais subsequentes, sob a liderança de Wilhelm Wundt, rejeitaram completamente o panpsiquismo entre outras ideias, apropriando-se exclusivamente de seus métodos quantitativos de laboratório para estabelecer a psicologia como uma ciência empírica e natural. Como bem observou o historiador Edwin G. Boring, Fechner agiu como um “Colombo que descobriu um Novo Mundo (a psicologia científica) enquanto procurava pelas antigas Índias (a prova de sua metafísica)”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Resumindo ===&lt;br /&gt;
A intersecção entre a epistemologia kantiana, a fisiologia de Müller e a reformulação promovida por Helmholtz e Lange constituiu o início daquilo que tornou possível a psicologia científica. Kant havia mostrado que o sujeito constrói ativamente a realidade, mas negou que esse sujeito pudesse ser estudado matematicamente ou experimentalmente. Müller transferiu a estrutura ativa da mente para os nervos sensoriais específicos. Helmholtz e Lange reinterpretaram as pesadas categorias transcendentais de Kant como mecanismos biológicos e perceptivos operando através de inferências inconscientes e leis fisiológicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao “naturalizar” a Crítica da Razão Pura, o Neokantismo Psicofisiológico resolveu o veto de Kant a uma psicologia científica. Se os limites e as formas do nosso conhecimento são determinados pelo nosso sistema nervoso e sensorial, então o estudo epistemológico da mente deve ser feito no laboratório de fisiologia, estudando principalmente a percepção. A exigência de matematização foi superada pelas leis da psicofísica de Fechner e Weber, e o problema da introspecção descontrolada foi resolvido pelo uso de instrumentos de precisão, como cronoscópios, além de métodos de medidas de limiar, controle de estímulos, erros médios, entre outros, que transformavam as respostas subjetivas em dados objetivos, replicáveis e mensuráveis. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse foi o cenário epistemológico e institucional que Wilhelm Wundt encontrou e ajudou a consolidar. Wundt não fundou a psicologia a partir do nada em 1879. Seu Instituto em Leipzig foi organização metodológica e teórica de décadas de esforços em que a filosofia foi obrigada a dialogar com os nervos, os músculos e os tempos de reação, transformando para sempre a especulação sobre a alma em uma rigorosa ciência da experiência imediata. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ironicamente, escolas neokantianas posteriores, como a Escola de Marburgo, foram focos de resistência à psicologia experimental, alegando que o sujeito do conhecimento de Kant era de ordem puramente transcendental e lógica, e não empírica ou mensurável, ou seja, rejeitando a “biologização” do pensamento kantiano e a consequente criação da psicologia experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, conforme mostra Gundlach, a criação de uma posição acadêmica e o laboratório de psicologia por Wundt não se deu por conta de um amplo reconhecimento da superioridade do pensamento wundtano, mas sim por conta de disputas políticas e institucionais nas universidades alemãs. De qualquer forma, Wundt conseguiu desenvolver bem sua teoria ao longo de sua vida e conseguiu estabelecer-se na proeminência da psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia de Wundt ==&lt;br /&gt;
[[Wilhelm Wundt|Wilhelm Maximilian Wundt]] é, na historiografia da psicologia, uma figura ao mesmo tempo onipresente e pouco compreendida. Freqüentemente reduzido ao título de “fundador do laboratório de Leipzig”, essa simplificação negligencia sua estatura como um dos últimos grandes arquitetos de sistemas do século XIX, cujo &#039;&#039;Systemgedanke&#039;&#039; (pensamento sistêmico) buscava integrar a psicologia como uma propedêutica fundamental para a filosofia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Recuperar o Wundt original exige preencher uma vasta lacuna historiográfica. A primeira envolve apontar as conhecidas e muitas das distorções da tradução de [[Titchener|E.B. Titchener]] para o contexto anglo-americano, que foi formulada para aproximar suas ideias e pdasdaquelas de Wundt, visando uma “confirmação” do pensamento de Titchener. Wundt não era um estruturalista ou associacionista clássico e seu sistema é essencialmente dinâmico e centrado no &#039;&#039;&#039;voluntarismo&#039;&#039;&#039;. Para Wundt, a vontade e os processos afetivos não são meros epifenômenos, ou seja, um fenômenos secundários ou acessórios que acompanhma um fenômeno principal, mas o eixo organizador da consciência ativa. Esta reconstrução crítica visa resgatar a autonomia epistemológica de uma ciência que define seu objeto não como uma substância, mas como a experiência em sua totalidade imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Experiência conforme Wundt ===&lt;br /&gt;
Para Wilhelm Wundt, a experiência é concebida como um todo unitário e coerente. As duas abordagens da experiência que ele propõe não se deve a uma diferença ontológica, mas como dois pontos de vista distintos e complementares que permite sua abordagem científica, que ele separa entre Experiência Mediata e Experiência Imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experiência Mediata ====&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Experiência Mediata&#039;&#039;&#039; é a experiência objetiva) está &#039;&#039;&#039;focada nos objetos do mundo externo&#039;&#039;&#039;. Ela foca exclusivamente nos objetos do mundo externo, abstraindo o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que sabe, que tem conhecimento. A Experiência Mediata seria o ponto de vista característico das ciências naturais, como física, química e fisiologia. A ciência natural opera por meio de uma abstração sistemática, pois ela coloca o sujeito cognoscente &amp;quot;entre parênteses&amp;quot; e analisa apenas os objetos externos pensados, como se existissem de maneira totalmente independente de quem os percebe. É chamada de &amp;quot;mediata&amp;quot; porque &#039;&#039;&#039;nosso acesso a tais objetos é sempre indireto&#039;&#039;&#039;, ou seja, precisa de mediação, pois é dependente de conceitos abstratos, inferências teóricas e construções conceituais auxiliares para representá-los. Por um lado, o estímulo físico é intermediado pelos limites anatômicos e biológicos do nosso aparato perceptivo, ou seja, temos os limites e capacidades da nossa percepção. No caso da visão, por exemplo, não vemos os raios ultravioleta e infravermelho, pois não estão no expecto da luz visível, mas vemos as cores e suas combinações. Por outro lado, para constituir a &amp;quot;realidade objetiva&amp;quot;, o cientista natural precisa utilizar conceitos teóricos auxiliares e construções hipotéticas, como átomos, ondas eletromagnéticas e forças gravitacionais, que não são dados imediatamente na percepção sensível mas que podem ser vistos experimentalmente e por meio de instrumentos e aparatos científicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wundt critica assim o empirismo tradicional e o associacionismo. A doutrina do empirismo diz que a mente como página em branco, conforme a formulação de John Locke e sua &#039;&#039;tabula rasa&#039;&#039;. Neste caso, a mente seria progressivamente preenchida pelas impressões do mundo exterior (sensação) e pelas operações internas (reflexão). David Hume radicaliza o princípio empírico, postulando que as impressões são os átomos cognitivos fundamentais e as ideias nada mais são do que cópias atenuadas ou lembranças dessas impressões na memória e na imaginação. Já o associacionismo constitui a hipótese de que as ideias simples e discretas se combinam para formar pensamentos complexos, juízos e raciocínios abstratos. Se o empirismo fornece os blocos de construção, o associacionismo descreve a &amp;quot;força de atração&amp;quot; que os une. Conforme sistematizado por Hume e, depois, desenvolvido por Hartley e James Mill, a mente transita espontaneamente de uma ideia para outra por meio de regras regulares de associação, como a semelhança, a contiguidade no tempo e as relações de causa e efeito.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para Wundt, ambos erraram, pois transferiam as características dos objetos externos da física, como a solidez, os limites rígidos e a permanência estática, para os conteúdos conscientes, passando a tratar as representações (&#039;&#039;Vorstellungen&#039;&#039;) como coisas ou &amp;quot;átomos mentais&amp;quot;. Na física, o foco recai sobre o objeto substantivo. Contudo, segundo Wundt, a consciência não contém objetos estáveis. Ele parte de uma diferença fundamental que os psicofísicos e outros haviam apontado, que é aquela entre o mundo externo e o mundo percebido, ou ainda, entre as coisas e suas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em resumo, a Experiência Mediata se aproxima dos objetos estáveis do mundo externo e de como eles nos chegam. Na experiência mediata, o cientista da natureza pode retornar quando quiser ao mesmo objeto físico estável (uma pedra ou um elemento químico) para observá-lo repetidamente, ainda que o observador em si esteja sempre em mudança.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experiência Imediata, o Objeto de Estudo da Psicologia ====&lt;br /&gt;
Ao definir seu objeto, Wundt deu um passo decisivo para dar à psicologia autonomia perante as outras ciências naturais. Ele propõe que a experiência é uma unidade indivisível. Mas o que ele quer dizer por &#039;&#039;&#039;experiência&#039;&#039;&#039;? Uma definição poderia ser a totalidade dos processos conscientes, englobando sensações, sentimentos, representações e volições (vontades), apreendida da exata forma como se apresenta diretamente ao sujeito, sem qualquer abstração conceitual ou mediação de instrumentos externos. Ou seja, a experiência de Wundt seria como tudo o que se passa na mente, exatamente como ela aparece para uma pessoa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;O domínio da psicologia seria a experiência imediata&#039;&#039;&#039;, subjetiva, que é a experiência em sua realidade concreta, direta e intuitiva, apreendida antes de qualquer conceituação, teorização ou abstração. Ou seja, é a experiência antes de ela adquirir qualquer camada de compreensão, que seriam mediadores, por isso é imediata, &#039;&#039;&#039;sem mediação&#039;&#039;&#039;. Ela envolve o processamento de elementos sensoriais simples, como cor, som, temperatura, e de sentimentos simples, como prazer e desprazer. Ela diz respeito ao modo puro de funcionamento mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vamos a um exemplo, desta vez no campo do acústica. Na perspectiva mediata, o cientista natural abstrai o sujeito e estuda o som de forma indireta e conceitual. Ele utiliza aparelhos para medir as ondas sonoras e a sua propagação física pelo ar. O objeto físico “som” é, portanto, mediado e traduzido por conceitos de frequência, amplitude e decibéis. Já sob a perspectiva imediata, que é a da psicologia, o psicólogo estuda a sensação direta e em si mesma do tom no momento exato em que ele aparece na consciência. A análise está na vivência concreta do sujeito, que inclui a qualidade do tom, a sua intensidade subjetiva, a tonalidade afetiva de prazer ou desprazer que o acompanha e o processo ativo da atenção (apercepção, que será tratada mais adiante) que coloca aquele som no foco da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se olharmos desta vez para a cromática, na visão mediata, ciência natural estuda o azul abstraindo a experiência do sujeito. A física o descreverá de forma conceitual como uma radiação eletromagnética com determinado comprimento de onda atingindo a retina. A fisiologia se debruçará sobre o funcionamento dos tecidos dos olhos quando estimulados com a cor azul em suas nuances. Para a psicologia de Wundt, o azul é investigado como um dado imediato e real na consciência do sujeito no momento da percepção interna. O foco não está nas propriedades físicas do estímulo, mas sim na reação subjetiva e ativa do cérebro vivo a esse estímulo, que gera a qualidade imediata da cor na experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conduzindo seus estudos, Wundt também identificou aquilo que denominou &#039;&#039;&#039;causalidade psíquica&#039;&#039;&#039;. Ao nos lembrarmos de um fato triste, por exemplo, a fisiologia explicaria a tristeza de forma conceitual e indireta, por meio de correntes elétricas no córtex cerebral, liberação de hormônios ou atividade de sinapses nervosas. Já o psicólogo numa linha wundtiana observa a conexão de processos internos como elas ocorrem diretamente na consciência do sujeito, como a ligação da lembrança triste a um sentimento de angústia. A causalidade psíquica é uma causalidade própria da mente e irredutível às leis físicas da natureza, ou seja, não pode ser comparada à causalidade física como a conhecemos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao adotar a experiência como seu objeto, Wundt rompe com a psicologia da alma, filosófica e metafísica. Ele substitui a psicologia de substâncias, que postula uma entidade mental oculta, pela &#039;&#039;&#039;teoria da atualidade&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Aktualitätstheorie&#039;&#039;), na qual o psiquismo é definido como um fluxo de processos em constante devir. Seu sistema está fundamentado em um &#039;&#039;&#039;monismo perspectivista&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, para ele, mente e corpo não são substâncias que interagem mecanicamente, mas perspectivas distintas sobre a mesma unidade da experiência (&#039;&#039;Erfahrung&#039;&#039;). A psicologia, portanto, não estuda um “mundo interno”, que está isolado do externo, ainda que em contato com ele, mas a totalidade da experiência humana sob o prisma da imediatidade. Essa transição do estatuto de substância “mente” ou algo semelhante para o de processo traz uma nova perspectiva, criando um objeto que pode ser alvo de experimentação científica, partindo de experimentos já criados pela psicofísica e ainda outros que seriam desenvolvidos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Psicologia Individual e Völkerpsychologie: dois métodos para manifestações da experiência ===&lt;br /&gt;
A arquitetura metodológica de Wundt responde ao desafio de investigar processos mentais que variam em complexidade. Ele estabelece que &#039;&#039;&#039;a psicologia deve ser compreendida como o fundamento das ciências humanas&#039;&#039;&#039; ou ciências do espírito (&#039;&#039;Geisteswissenschaften&#039;&#039;). A &#039;&#039;&#039;Psicologia Individual&#039;&#039;&#039; foca nos processos elementares, que incluem sensação e percepção, que são passíveis de controle rigoroso em laboratório através da manipulação de estímulos externos e introspecção experimental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entretanto, Wundt reconhece a insuficiência do experimento para os processos mentais superiores, como o pensamento e a linguagem, que são historicamente condicionados. Para estes, ele propõe a Völkerpsychologie , ou Psicologia dos Povos, dedicada ao estudo dos produtos das geistige Gemeinschaften (comunidades espirituais ou coletividades). Wundt vai apontar a linguagem, o mito e os costumes (Sitten) não são apenas dados culturais, mas objetivações de leis psíquicas superiores inacessíveis à introspecção de laboratório. Eles seriam produtos da experiência humana nas suas formas mais avançadas e superiores e, por não serem passíveis de experimentação, exigem uma outra abordagem. Essas duas vertentes, experimental e histórico-cultural, não são divergentes, mas sim o projeto integrador que permite apreender a mente tanto em sua base sensório-motora quanto em suas manifestações espirituais complexas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As investigações da psicologia dos povos focavam na alma do povo (Volksseele), definida como a realidade factual dos processos psíquicos que surgem em uma comunidade por meio da interação das energias mentais dos indivíduos. Essa “mente coletiva” se tornava um objeto tangível e investigável ao longo da história em três grandes produtos culturais. O primeiro é a linguagem (Die Sprache), ferramenta pela qual o pensamento é estruturado e externalizado. Já o mito e a religião são as formas como a imaginação e os sentimentos humanos coletivos projetam suas explicações sobre o cosmos e a existência. Os costumes (Sitten) e o direito, por sua vez, são  as regras de conduta coletiva que nascem de atos voluntários e impulsos compartilhados, padronizando as interações sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não podia realizar experimentos com culturas inteiras, Wundt operava por meio da pura observação retrospectiva e comparativa dos produtos mentais, ou seja, analisando os objetos já criados e usados ou em uso por diferentes povos e culturas, anotando suas diferenças e semelhanças. Wundt juntava, lia e analisava de forma exaustiva relatos históricos, estudos filológicos, dicionários, mitologias comparadas, códigos de leis e descrições etnológicas e antropológicas de povos ao redor do globo, ou seja, utilizava dos estudos de diferentes ciências humanas e sociais para extrair as leis psicológicas gerais do desenvolvimento mental humano por trás dessas manifestações. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seu objetivo era mapear como a mente coletiva evoluía do simples para o complexo ao longo das eras, numa abordagem genética e desenvolvimentista e reconstruir, de forma retrospectiva, as forças dinâmicas, os afetos, os impulsos (Triebe) e os processos de síntese criadora (melhor discutida mais adiante) que estiveram ativos na mente das pessoas no momento de sua formação. Wundt dedicou os últimos 20 anos de sua vida (de 1900 a 1920) quase exclusivamente a esse empreendimento monumental, escrevendo dez volumes da sua obra Völkerpsychologie.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Apercepção ===&lt;br /&gt;
No contexto filosófico, como já visto, o conceito de apercepção remonta a Kant, que a definiu como o processo autônomo, ativo e prévio pelo qual a mente unifica diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Wundt adotou essa noção kantiana para fundamentar sua teoria da consciência, definindo apercepção como o processo psicológico ativo pelo qual um conteúdo psíquico (ou representação) é trazido à clareza máxima e ao foco da consciência, vindo necessariamente acompanhado pelo estado de atenção voluntária.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para explicar a dinâmica da consciência, Wundt utilizou uma famosa analogia com a visão para diferenciar apercepção e percepção. O campo visual da consciência (Blickfeld) corresponde à percepção, que é a simples entrada de uma representação na consciência de forma difusa, ampla e sem a presença focalizada da atenção. Já o ponto focal da consciência (Blickpunkt) corresponde à apercepção, que é a entrada de uma representação no ponto central de máxima clareza e foco estreito da atenção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A apercepção, então, é uma manifestação primordial da vontade, funcionando como o princípio dinâmico que dá direção e estrutura tanto à experiência quanto ao movimento. Além disso, a apercepção pode ser ativa, que é quando o sujeito deliberadamente seleciona onde focará sua atenção, ou passiva, quando é o estímulo que se impõe no foco no sujeito. Por fim, a apercepção é o mecanismo central da operação da causalidade psíquica. É ela que unifica a mente em um sistema ativo, permitindo que a fusão de elementos resulte em sínteses criadoras com propriedades qualitativamente novas e imprevisíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Percepção Interna (innere Wahrnehmung) vs. Auto-observação (Selbstbeobachtung) ===&lt;br /&gt;
Para garantir o rigor procedimental e responder ao “desafio kantiano”, Wundt rejeitou a Selbstbeobachtung, que pode ser entendida como a auto-observação tradicional ou introspecção casual. Trata-se do método introspectivo puramente filosófico e especulativo que, segundo Wundt e outros, seria fonte de auto-ilusões e onde o ato de observar altera o fenômeno observado. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A solução científica é a innere Wahrnehmung, ou percepção interna, que permite a criação de um método científico baseado na repetição de estímulos externos controlados. No laboratório, o psicólogo replica condições experimentais que permitem a observação do aparecimento imediato do processo psíquico sob condições estáveis e previsíveis. O laboratório funciona, portanto, como o estabilizador do objeto psicológico, permitindo que a percepção interna atinja a precisão necessária para decompor a consciência em seus elementos fundamentais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experimentos do Laboratório de Wundt ====&lt;br /&gt;
Vamos a alguns exemplos do que acontecia no laboratório de Wundt, para integrar melhor os conceitos já apresentados. O primeiro experimento foi concebido originalmente para descrever a “equação pessoal” que aparecia nas medições dos astrônomos. No caso, observava-se que astrônomos treinados, utilizando os mesmos equipamentos, discordavam de suas medições que, à época, eram feitas manualmente com ajuda de instrumentos. De alguma forma, estas diferenças nas medições pareciam ter um tipo de padrão. Neste experimento, Wundt utilizava um aparelho chamado medidor de pensamento (Gedankenmesser) e, posteriormente, o pêndulo de complicação (Complicationspendel). O dispositivo consistia em um grande relógio de pêndulo que possuía uma agulha cruzada, como uma agulha de tricô, capaz de golpear fisicamente um pequeno sino em um ponto exato do seu arco de oscilação. O sujeito do experimento deveria olhar para a escala do pêndulo e tentar determinar a posição exata do ponteiro no momento em que ouvia o sino tocar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste experimento, Wundt descobriu que o sujeito sempre cometia um erro sistemático de registro, de aproximadamente um oitavo de segundo. Segundo ele, era impossível perceber visualmente a agulha e o som do sino ao mesmo tempo. Esse experimento seria uma prova laboratorial de que a consciência possui uma capacidade limitada e só consegue focar em uma única percepção por vez, como a diferença no marco da medição podia mostrar. A ilusão de simultaneidade devia-se apenas à rápida sucessão dos processos de atenção (apercepção).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os experimentos de tempo de reação, nosso segundo exemplo, constituíam o verdadeiro coração do trabalho em Leipzig na década de 1880. Wundt adaptou o método de subtração (Subtractiemethode), do fisiologista holandês F. C. Donders, para medir a velocidade de processos mentais complexos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o experimento de Wundt, é necessário compreender que, para ele, uma reação consciente envolvia: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- transmissão da sensação ao cérebro; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2- entrada do estímulo no campo amplo da consciência (percepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
3- entrada no foco ativo da atenção (apercepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
4- ato de vontade para liberar a resposta; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
5- execução motora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada um dessas partes exigem um certo tempo, pois são processos não imediatos. A depender de como as etapas do experimento são organizadas, diferentes tempos indicariam o acionamento maior ou menor de cada um deles. No experimento, o sujeito era treinado para responder pressionando uma tecla telegráfica ao ver um estímulo luminoso simples, como um flash de luz. Em seguida, a tarefa mais difícil. Duas imagens eram apresentadas, um círculo branco sobre fundo preto ou vice-versa, e o sujeito só deveria reagir após identificar com clareza qual imagem havia aparecido. Ao subtrair o tempo da reação simples do tempo da reação complexa, Wundt calculava o “tempo de apercepção” ou discriminação. Na primeira tese de doutorado em psicologia experimental da história, Max Friedrich, que atuou no experimento, mostrou que o tempo de discriminação aumentava de acordo com a complexidade do estímulo visual. Por exemplo, o sujeito levava mais tempo para aperceber e discriminar uma sequência de seis dígitos do que de apenas um ou dois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O assistente de Wundt, Ludwig Lange, também colaborou no estudo ao desenvolver um experimento crucial. Ele demonstrou que os tempos de reação variavam drasticamente dependendo da preparação atencional do sujeito. Se a atenção estivesse focada no movimento de resposta que o dedo faria (reação muscular), o tempo era curto (cerca de 125 ms), pois funcionava como um “reflexo cerebral” que pulava a apercepção. Se o foco estivesse direcionado ao estímulo sensorial que iria surgir (reação sensorial), o tempo era cerca de 100 ms mais longo, pois envolvia o circuito completo da mente consciente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O terceiro experimento foi desenvolvido por Martin Trautscholdt, um dos estudantes de doutorado de Wundt. Ele estudava a associação de ideias. No seu estudo, o sujeito era instruído a pressionar uma tecla no momento exato em que uma ideia associada surgisse em sua consciência a partir de um estímulo visual ou auditivo. Ao subtrair o tempo que o sujeito levava para simplesmente reconhecer a palavra estimulante, Trautscholdt conseguiu quantificar o tempo gasto pela mente para realizar a conexão associativa propriamente dita que, segundo Trautscholdt, variava entre 706 e 874 ms. Wundt também adaptou a técnica de associação de palavras de Francis Galton, limitando a resposta do sujeito a apenas uma única palavra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O quarto e último experimento que será apresentado é relacionado a acordes musicais. Nele, sujeitos ouviam tons isolados no piano, que seriam as sensações puras, e depois os mesmos tons tocados simultaneamente. Os participantes descreviam em detalhes a transição afetiva de como a fusão física das frequências dava origem a um produto inteiramente novo na consciência, que seria o sentimento estético de harmonia e prazer decorrente de uma síntese criadora. Wundt conduzia vários experimentos em estética experimental, tal qual seu colega Fechner.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Arquitetura da Mente: Elementos, Fusão e Síntese Criadora ===&lt;br /&gt;
Segundo Wundt, a experiência pode ser decomposta em elementos simples, que incluem as sensações e os sentimentos simples. Os sentimentos, por sua vez, são entendidos a partir da teoria tridimensional dos sentimentos, onde eles se distribuem em um espaço qualitativo entre os polos prazer/desprazer (Lust-Unlust), tensão/relaxamento (Spannung-Lösung) e excitação/depressão (Erregung-Beruhigung). A primeira é a mais evidente, se refere à avaliação afetiva primária da experiência. A segunda se relaciona ao esforço da atenção ou à preparação interna da mente. Já a terceira está relacionada ao nível de ativação biológica e psicológica do organismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esses aspectos todos são organizados através do mecanismo de fusão (Verschmelzung), onde as qualidades elementares se fundem em complexos psíquicos. O conceito central aqui é o princípio da síntese criadora (schöpferische Synthese). Ao contrário do associacionismo britânico, Wundt afirma que o todo resultante possui propriedades que não estão contidas na mera soma das partes. Essa síntese não é um processo mecânico passivo, mas um ato aperceptivo ativo, vinculado à vontade. Na mente humana, a combinação de elementos gera um valor novo e qualitativamente superior, marcando a distinção fundamental entre a causalidade psíquica e a mecânica física.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em termos simples, a síntese criadora estabelece que os complexos psíquicos, como representações, sentimentos compostos e afetos, embora formados pela união de elementos simples (sensações e sentimentos simples), possuem características qualitativas inteiramente novas que não pertencem a nenhum de seus elementos constituintes isolados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fusão é o processo ativo e primário de integração psíquica. É através dela que os elementos sensoriais e afetivos brutos são ativamente sintetizados pela mente para dar origem a uma nova unidade psicologicamente complexa. A fusão é a geradora da síntese criadora. Para Wundt, a síntese criadora é a prova cabal da causalidade psíquica. Ela monstra que os fenômenos mentais obedecem a leis de conexão e geração próprias que não se ajustam às leis da física ou da fisiologia mecânica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Observemos isso com um exemplo já apresentado. Se você tocar no piano as notas Dó, Mi e Sol isoladamente, você terá apenas a experiência de três sensações auditivas distintas. No entanto, quando essas notas são tocadas simultaneamente, a fusão de seus elementos gera na consciência uma experiência qualitativamente nova, que seria um acorde musical. O sentimento de harmonia e a qualidade estética do acorde são um produto da síntese criadora, pois não existiam em nenhuma das notas isoladas e surgem puramente da atividade unificadora da mente sobre o estímulo físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Paralelismo Psicofísico e Causalidade Psíquica ===&lt;br /&gt;
O paralelismo psicofísico foi um dos conceitos mais importantes e debatidos no século XIX durante o processo de fundação da psicologia científica. Ele surgiu como uma alternativa teórica para solucionar o clássico problema mente-corpo. O conceito foi formulado de forma a tanto o dualismo substancial, que dividia o ser humano em duas substâncias isoladas cuja forma de interação era desconhecida, quanto o materialismo reducionista, que reduzia a mente a uma mera secreção cerebral ou processo físico ou fisiológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para Fechner, o paralelismo era a manifestação de um monismo neutro, ou teoria de duplo aspecto. Ele defendia que a matéria (corpo) e o espírito (mente) não são substâncias diferentes, mas sim dois modos de aparência ou perspectivas distintas de uma única e mesma realidade subjacente, teoria sobre o qual fundamental grande parte de seu projeto científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt também adotou o termo paralelismo psicofísico, mas realizou uma redefinição epistemológica radical do conceito, visando se afastar da metafísica. Ele rejeitava categoricamente qualquer tentativa de transformar o paralelismo em uma doutrina ontológica sobre a natureza última da realidade, transformando-o estritamente um postulado metodológico e heurístico indispensável para a investigação científica. Os processos mentais não sejam reduzidos a processos fisiológicos ou neurais, pois a consciência obedece a leis de conexão próprias, como a causalidade psíquica, que não podem ser explicadas pelas leis da mecânica cerebral.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O que Aconteceu Depois? ===&lt;br /&gt;
No final de sua vida, Wilhelm Wundt era visto de forma ambivalente. Enquanto mantinha o prestígio de fundador da psicologia científica, uma nova geração de psicólogos que buscava se firmar, via como um “pai tribal”, cujo longo domínio de mais de quatro décadas estava desgastado. Ele se tornou o alvo de críticas severas e passou a ser tratado por muitos como o ícone de um passado superado e falido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante a Primeira Guerra Mundial e nos anos que a sucederam, a reputação internacional de Wundt sofreu graves danos. Influenciado por seu filho Max, Wundt adotou posturas políticas ultranacionalistas, chegando a usar a Völkerpsychologie de maneira tendenciosa para criticar os inimigos da Alemanha. Essa postura inflamou um forte preconceito anti-alemão, especialmente nos Estados Unidos, onde ex-alunos e intelectuais americanos passaram a ver ele como uma mente maligna e autoritária, acelerando a rejeição de suas obras em solo estrangeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A maior frustração de Wundt no fim da vida ocorreu no âmbito acadêmico alemão. Ele sempre defendeu que a psicologia era uma ciência propedêutica e uma aliada indispensável da filosofia, devendo permanecer integrada a esta. No entanto, os filósofos acadêmicos de sua época, especialmente os neokantianos e fenomenologistas, rejeitaram veementemente o  que chamavam de “psicologismo de Wundt”, ou seja, a redução da lógica e da validade do conhecimento a fatos psicológicos. Em 1913, após a contratação de um psicólogo experimental para a cadeira de filosofia em Marburg, mais de cem professores de filosofia assinaram um protesto público exigindo que psicólogos fossem banidos dos departamentos de filosofia. Esse movimento resultou no progressivo divórcio institucional entre a psicologia e a filosofia, uma separação que Wundt lamentou e combateu até a sua morte em 1920.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir da década de 1890, uma forte onda de positivismo, inspirada pela filosofia de Ernst Mach e Richard Avenarius, varreu a psicologia experimental. Jovens psicólogos, incluindo os assistentes do próprio Wundt, rejeitaram conceitos fundamentais do sistema de Leipzig, como a apercepção, a causalidade psíquica e a síntese criadora, tomando eles como metafísica, exatamente o oposto do que desejava seu formulador. Eles preferiam um modelo elementarista e reducionista, focado na descrição de relações funcionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos EUA, a influência da teoria da evolução de Darwin deslocou o interesse da estrutura da consciência para as suas funções de adaptação ao meio, o chamado funcionalismo. Com o surgimento e o fortalecimento do behaviorismo e a eliminação da mente como objeto de estudo, o voluntarismo de Wundt perdeu qualquer espaço. Na Europa, a própria psicologia da Gestalt ergueu-se combatendo o elementarismo que havia sido falsamente associado a Wundt. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O golpe final veio após a Primeira Guerra Mundial, quando a Alemanha mergulhou em colapso econômico. Diante da “crise da psicologia”, os pesquisadores precisaram provar a utilidade prática da ciência que praticavam para sobreviver, o que já acontecia nos EUA, voltando-se para a psicologia militar, industrial, educacional e clínica. Wundt, que sempre desprezou a psicologia aplicada, teria visto seu sistema dinâmico de laboratório perder todo o fôlego diante das pressões pragmáticas da época, ainda que mantivesse sua fama e sua alcunha maior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia Científica na Inglaterra ==&lt;br /&gt;
O surgimento da psicologia na Inglaterra seguiu um caminho bastante distinto do modelo laboratorial alemão, focado na introspecção e na busca de leis universais. A psicologia britânica formou-se na intersecção de duas grandes forças intelectuais, que são as filosofias empirista e associacionista, e a biologia evolutiva. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No empirismo, pensadores como John Locke postularam que a mente humana nasce como uma tabula rasa ou uma folha em branco, e que absolutamente todo o conhecimento deriva da experiência sensorial. No associacionismo, filósofos como David Hume, James Mill e John Stuart Mill afirmavam processos mentais complexos são formados pela associação contínua de ideias simples e sensações, governadas por leis lógicas. tais como similaridade, contiguidade e causa e efeito. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A despeito de sua rica tradição filosófica, o maior divisor de águas para a ciência britânica foi a publicação de A Origem das Espécies, em 1859. A teoria da evolução natural de Darwin, trouxe novas e profundas questões para o estudo da mente britânica. Se humanos e animais compartilham ancestrais comuns, argumentava-se que deveria haver uma continuidade não apenas física, mas também mental entre as espécies, conectando a psicologia ao estudo da zoologia, dando origem à Psicologia Comparada. Além disso, a mente e a consciência deixaram de ser vistas apenas como objetos metafísicos e passaram a ser estudadas como ferramentas biológicas de adaptação, que evoluíram porque ajudavam o organismo a sobreviver em seu ambiente, sendo fundamental para a criação do funcionalismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a validação da biologia evolutiva, o estudo da inteligência animal explodiu no Reino Unido, George Romanes foi um dos primeiros a tentar sistematizar o comportamento animal. Contudo, seu método anedótico foi duramente criticado por ser antropomórfico, ou seja, por atribuir pensamentos e emoções humanas complexas a animais. Seu colega Conwy Lloyd Morgan introduziu mais rigor científico à área através do que ficou mundialmente conhecido como o Cânone de Morgan, ou princípio da parcimônia. A regra dizia que um comportamento animal não deve ser interpretado como resultado de uma faculdade mental superior se puder ser explicado por um processo psicológico mais básico, como o instinto ou o aprendizado por tentativa e erro. Apesar de a perspectiva de ambos ter sido abandonada, a Psicologia Comparada se tornou um dos principais ramos da psicologia moderna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Francis Galton e a Psicologia Diferencial ===&lt;br /&gt;
Francis Galton (1822-1911) foi um cientista e polímata britânico de inteligência extraordinária, com um QI estimado por volta de 200, algo extremamente raro, além de ser primo de Charles Darwin. Galton é amplamente reconhecido como pioneiro ao incorporar o estudo sistemático das diferenças individuais e da herança mental na nova psicologia, uma área que era ignorada ou rejeitada por pioneiros experimentalistas como Wilhelm Wundt.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Galton interessou-se pela medição das variações da inteligência e das capacidades humanas. Ele fundou um laboratório antropométrico onde testou a acuidade sensorial, a força e os tempos de reação de milhares de pessoas. Além disso, baseando-se na premissa empirista de John Locke de que todo o conhecimento vem da percepção, Galton assumiu que os indivíduos mais inteligentes seriam aqueles com as capacidades sensoriais e motoras mais aguçadas. Ele foi o inventor do conceito de testes mentais, termo posteriormente cunhado por seu aluno dos EUA, James McKeen Cattell. Galton também desenvolveu o método experimental de associação de palavras, medindo o tempo de reação mental e demonstrando a enorme influência das experiências da infância e do inconsciente no pensamento adulto, um trabalho que impressionou profundamente Sigmund Freud. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também foi um dos primeiros a fazer uso amplo do questionário psicológico para investigar imagens mentais, constatando para sua própria surpresa que a maioria dos cientistas relatava ausência de imagens mentais nítidas, em contraste com relatos muito mais detalhados fornecidos por mulheres e crianças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para conduzir medições em larga escala, ele inventou vários instrumentos clássicos e, para analisar suas enormes bases de dados, Galton desenvolveu conceitos estatísticos fundamentais, como a correlação. Essa tradição quantitativa foi depois aperfeiçoada por outros britânicos, como Charles Spearman, criador da análise fatorial e do conceito de fator g de inteligência geral, fundando a base da psicometria moderna. e influenciando de forma decisiva a psicologia dos testes nos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Conclusão ==&lt;br /&gt;
A história da psicologia é definida pelo paradoxo de ter um “longo passado” e uma “curta história”, podendo ir do De Anima de Aristóteles até a a fundação do laboratório de Wilhelm Wundt na Universidade de Leipzig, em 1879. A psicologia, assim, mostra que tem uma rica história, com muitos personagens, conceitos e acontecimentos importantes, de modo que qualquer narrativa sobre sua composição elegerá heróis e vilões, dará mais relevância para alguns, menos para outros e o esquecimento para a maioria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O texto propõe que Immanuel Kant foi uma figura central na composição da psicologia científica. Ele propôs que a mente humana é um agente ativo que organiza o conhecimento através de estruturas a priori, tais como o tempo, o espaço e as categorias do entendimento. Assim, ele introduziu o conceito de “sujeito transcendental” como a estrutura universal que garante a unidade da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Kant impôs um “veto” ao status científico da psicologia, defendendo a base na matematização. A superação desse veto ocorreu através da “naturalização” de Kant pela fisiologia. Johannes Müller, com a Teoria das Energias Nervosas Específicas, mostrou que a sensação é mediada pelo sistema nervoso, não sendo uma cópia fiel do mundo externo. Hermann von Helmholtz avançou essa ideia ao postular que as estruturas a priori de Kant seriam, na verdade, características da anatomia e fisiologia humanas. Ele propôs o conceito de “inferências inconscientes” para explicar como interpretamos dados sensoriais. Nesse contexto, Friedrich Albert Lange defendeu uma “psicologia sem alma”, rejeitando a metafísica e argumentando que o estudo científico deve focar apenas nas aparências e fenômenos observáveis, reduzindo o objeto da psicologia a dados empíricos e correlações fisiológicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner foi crucial ao oferecer a base matemática e experimental que faltavam, por meio da Lei de Weber-Fechner. Ele também padronizou e melhorou métodos para o estudo dos limites e constantes sensoriais, que se tornaram a base metodológica da psicologia experimental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt não apenas fundou um laboratório, como também arquitetou um sistema complexo. Para Wundt, o objeto da psicologia é a experiência imediata, criando conceitos como voluntarismo, causalidade psíquica, apercepção, entre outros. Além disso, ele também criou a psicologia dos povos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente do foco laboratorial alemão, a psicologia britânica foi moldada pela filosofia empirista e, crucialmente, pela teoria da evolução de Charles Darwin. Neste contexto, Galton ganha destaque, por ter fundado o laboratório antropométrico, inventado o conceitos de “testes mentais”, pelo uso de estatísticas no estudo da psicologia e ter influenciado o desenvolvimento da psicometria e a análise fatorial (com Charles Spearman), consolidando uma tradição que focava mais na variabilidade genética e na inteligência do que na estrutura da consciência em si.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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		<updated>2026-09-01T22:52:18Z</updated>

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		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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		<updated>2026-09-01T22:51:06Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: Várias modificações substanciais&lt;/p&gt;
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		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_surgimento_da_psicologia_cient%C3%ADfica&amp;diff=1743</id>
		<title>O surgimento da psicologia científica</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_surgimento_da_psicologia_cient%C3%ADfica&amp;diff=1743"/>
		<updated>2026-09-01T22:42:09Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* A Psicologia de Wundt */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto [[Portal História da Psicologia]]) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um longo passado, uma curta história ==&lt;br /&gt;
A psicologia tem um longo passado, mas uma curta história. Esta é uma frase muito famosa no campo da história da psicologia, tendo sido consagrada por Hermann Ebbinghaus, um psicólogo alemão pioneiro no estudo da memória, ainda no século XIX. A frase é exemplar e muito usada em debates sobre a historiografia da psicologia, e isto revela como é difícil dizer quando a psicologia teve início. Ela tem um &#039;&#039;&#039;longo passado&#039;&#039;&#039;, porque os temas que consideramos hoje como parte da psicologia aparecem muitas vezes na filosofia, na religião, em saberes tradicionais, entre muitos outros lugares, ao longo da história. É difícil estabelecer qual &#039;&#039;&#039;o objeto de estudo da história da psicologi&#039;&#039;&#039;a, assim como é difícil, ao longo da história, &#039;&#039;&#039;separar o que é  psicologia daquilo que não é psicologia&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse longo passado pode remontar, por exemplo, à Antiguidade, com o tratado De Anima, de Aristóteles, que escreveu muito antes de se imaginar o próprio conceito de ciência moderna e, menos ainda, de uma psicologia moderna. Outros podem colocar o início da psicologia com Descartes, que elaborou a máxima, também famosa, “penso, logo existo”. Isso mostra que &#039;&#039;&#039;os objetos de estudo da psicologia são historicamente construídos&#039;&#039;&#039;, ou seja, emergem a partir dos locais ou pessoas que atuaram na psicologia, como na medida das diferenças individuais, as dinâmicas de controle num laboratório, nas práticas de psicoterapia, entre muitas outras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se cada historiador localiza o passado da psicologia em lugares diferentes no tempo e no espaço, a &#039;&#039;&#039;história da psicologia&#039;&#039;&#039;, por seu lado, tem uma definição bem mais estável e curta. Nos anos 1980, historiadores reunidos num congresso nos EUA definiram que &#039;&#039;&#039;a psicologia científica começou em 1879, quando [[Wilhelm Wundt]] fundou o primeiro laboratório de psicologia experimental na Universidade de Leipzig, na Alemanha&#039;&#039;&#039;. Essa definição está consagrada e é quase um consenso, porém, não foi tão simples estabelecê-la. Alguns advogavam pelo pioneirismo de outro alemão, [[Gustav T. Fechner|Gustav Theodor Fechner]], criador da chamada [[psicofísica]], de onde vieram muitos dos experimentos e ideias de Wundt. Outros ainda queriam que [[William James]], um filósofo e psicólogo americano, fosse reconhecido como fundador, pois seu laboratório de psicologia era ainda mais antigo que o de Wundt que, no final, venceu essa disputa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Resumindo, a psicologia possui um “longo passado”, com raízes filosóficas e religiosas milenares e altamente diversas, e uma “curta história” como disciplina científica, cujo marco está situado em 1879, com a fundação do primeiro laboratório experimental por Wilhelm Wundt, na Alemanha. Pelo menos é assim que, atualmente, a grande maioria dos historiadores entende a questão, uma das poucas em que há algum conceito neste campo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Presentismo ===&lt;br /&gt;
Mas o que seriam essas psicologias anteriores a essa psicologia científica? Para entender melhor essa história, é preciso refletir para superar, da melhor forma, um problema chamado &#039;&#039;&#039;presentismo&#039;&#039;&#039;, ou seja, julgar, entender, interpretar e analisar o passado com a visão do presente. Não é apenas uma questão de olhar para as pessoas do passado e superar o pensamento de que elas eram “ignorantes”, pois “não tinham o conhecimento que temos hoje”. É entender também que, no passado, haviam formas de conhecimentos diferentes, bem como visões de mundo diferentes da atual. Este é um problema fascinante. Muitos dos consensos contemporâneos, coisas que entende-se totalmente óbvias, eram vistas de forma completamente diferente no passado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo interessante é o &#039;&#039;&#039;conceito de atenção&#039;&#039;&#039;. Hoje, ela é um tema tão discutido e consensual que pouco se reflete sobre seu significado. Atualmente, seria algo como centralizar as faculdades mentais ou talvez a percepção em um ponto específico. Pode-se ouvir as pessoas reclamando da própria falta de atenção, que “não conseguem prestar atenção”, ou que nunca “mantém a atenção”, e até mesmo existem medicamentos para resolver esse problema. Contudo, a palavra “atenção” nem sempre significou o que entendemos hoje. Para [[Santo Agostinho]], atenção era apenas o ato de passar de um pensamento para outro. [[René Descartes|Descartes]] tinha um conceito mais parecido com o contemporâneo, onde a atenção era mobilizada de forma voluntária para fixar e reter na memória coisas raras e extraordinárias que o entendimento considerava úteis. Na obra de [[John Locke|Locke]], a atenção é mencionada apenas de passagem, como um mero mecanismo auxiliar da retenção de memórias. A partir do momento em que a ciência passou a entender que a percepção depende da estrutura física e biológica do corpo, com a psicofísica e a fisiologia sensorial, já no século XIX, a visão passou a ser encarada como intrinsecamente incompleta, instável e condicionada pelo tempo. Nesse contexto, a atenção foi utilizada como um substituto pragmático para garantir a coerência do mundo percebido. Autores do final do século XIX, como [[Théodule Ribot]] e [[Max Nordau]], associaram os desvios ou a fraqueza da atenção a patologias psíquicas, comportamentos sociopáticos e teorias da “degeneração”. Para eles, uma atenção defeituosa deixava a mente à mercê de “associações caóticas”, gerando uma visão borrada e distorcida da realidade. Foi apenas na década de 1950 que a nossa compreensão contemporânea de atenção começou a se delinear, paralelamente aos estudos sobre os medicamentos desenvolvidos para tratar as suas disfunções.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma pessoa desavisada, que não está atenta às grandes diferenças entre as ideias e conceitos ao longo do tempo, poderia ler um trecho de Ribot, Santo Agostinho, Descartes e outros e achar que a atenção sobre a qual eles falam é a mesma coisa que entendemos hoje. O leitor estaria totalmente enganado, a ponto de não conseguir nem mesmo compreender o que estes pensadores queriam dizer. Em outras palavras, &#039;&#039;&#039;o esforço para entender as psicologia do passado passa também pelo esforço de entender como se pensava no passado, qual a visão que se tinha nesse passado&#039;&#039;&#039;. Parte do esforço do historiador é trazer esses aspectos de volta ao presente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O sujeito transcedental de Kant ==&lt;br /&gt;
A concepção de uma psicologia ocupada especificamente com a “mente” humana e suas operações começou a ganhar contornos modernos no século XVIII com o filósofo [[Christian Wolff]]. Ele dividiu a psicologia em [[Psicologia Empírica (livro)|&#039;&#039;&#039;Psicologia Empírica&#039;&#039;&#039;]], num livro publicado em  1732 e baseada na introspecção; e em &#039;&#039;&#039;Psicologia Racional&#039;&#039;&#039;, numa obra de 1734, dedicada a deduzir a natureza e a essência da alma, como sua imortalidade e imaterialidade, de forma puramente lógica e racional, independentemente da experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, o projeto de Wolff enfrentava um sério problema metodológico: a chamada observação interna ou [[introspecção]]. Quando se estuda um fenômeno natural, como a chuva, é necessário observar tudo que está envolvido com estee fenômeno, incluindo como as nuvens se formam, qual a umidade do ar, a intensidade dos raios solares, a direção dos ventos, entre muitos outros fatores. A questão é que todos estes aspectos são &#039;&#039;&#039;externos ao sujeito&#039;&#039;&#039;. Toda a ciência é feita dessa forma, observando, testando e analisando o mundo que está fora dos indivíduos. O problema está em estudar algo que é interno aos sujeitos. Não se pode observar diretamente o que se passa na cabeça de alguém, pelo menos não por enquanto. Contudo, é possível analisar o que se passa nas nossas próprias cabeças. Isso seria a &#039;&#039;&#039;introspecção&#039;&#039;&#039;, ou seja, o processo pelo qual adquirimos conhecimento sobre nossos próprios estados ou processos mentais Apesar de ser uma ideia interessante, fazer introspecção não era considerado algo muito científico. Entendia-se que “observar a si mesmo” distorcia os eventos mentais, pois o sujeito que observa e o objeto observado são o mesmo, o que impediria a neutralidade exigida pelo modelo científico então vigente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até a segunda metade do século XVIII, as teorias do conhecimento, que incluíam o empirismo e o racionalismo, compartilhavam a premissa de que o conhecimento era determinado pelo objeto a ser conhecido. A ideia era a de que objeto estava lá, esperando a melhor forma de ser conhecido. &#039;&#039;&#039;Kant&#039;&#039;&#039;, em sua obra [[Crítica da Razão Pura (livro)|Crítica da Razão Pura]] (1781), inverteu essa lógica de forma radical. Ele propôs que &#039;&#039;&#039;não é o conhecimento que se adequa aos objetos, mas são os objetos que são determinados pelo sujeito&#039;&#039;&#039;. O conhecimento passou a ser compreendido não como uma recepção passiva, mas como uma produção ativa do chamado sujeito transcendental, moldada por suas formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;sujeito transcendental&#039;&#039;&#039; em Kant não se refere propriamente a um indivíduo empírico ou psicológico, ou seja, alguém com personalidade e história pessoal. Pense no sujeito transcendental não como “você” (André ou Maria), mas como o “sistema operacional” universal da mente humana. Assim como um software organiza os dados que chegam do teclado, convertendo eles em coisas numa tela, o sujeito transcendental organiza os dados que chegam dos sentidos, como o tempo e o espaço, antes mesmo de termos consciência deles.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o sujeito transcedental, é preciso fazer um importante exercício de abstração, visando conseguir entender algo que está além da experiência existencial individual e entender aquilo que molda essa própria experiência. O sujeito transcedental de Kant é, segundo ele próprio, uma condição universal de possibilidade para qualquer conhecimento. Em outras palavras, é algo que todas as pessoas possuem e é a forma que o ser humano tem para saber as coisas. É a estrutura ativa da mente que organiza a experiência antes mesmo que possamos refletir sobre ela. Esse sujeito é o princípio unificador que garante a coerência dos dados sensoriais, transformando o caos de impressões oriundas dos órgãos dos sentidos em uma experiência significativa e estruturada. Através das formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039; da sensibilidade (espaço e tempo) e das categorias do entendimento, o sujeito transcendental “constrói” o objeto conhecido. Ele é o “Eu penso” cartesiano, que deve poder acompanhar todas as nossas representações, conferindo unidade à consciência. Em suma, &#039;&#039;&#039;não conhecemos o mundo como ele é em si, mas como o sujeito transcendental o molda e o organiza para que se torne inteligível para nós&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Immanuel Kant revolucionou a teoria do conhecimento ao postular que a mente humana não funciona como um receptáculo passivo de impressões sensoriais, mas sim como um agente ativo dotado de estruturas constitutivas a priori que organizam, unificam e interpretam a matéria-prima da experiência. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas ideias de Kant, o processo de constituição do conhecimento dos fenômenos que chegam para nossa mente a partir dos órgãos dos sentidos articula-se em três instâncias fundamentais. A primeira são as formas puras da sensibilidade, depois vem os conceitos puros do entendimento, ou seja, as categorias e, por fim, a unidade sintética da apercepção. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas &#039;&#039;&#039;formas puras da sensibilidade&#039;&#039;&#039;, antes mesmo que o intelecto possa aplicar qualquer conceito, o caos das sensações brutas é necessariamente ordenado no espaço e no tempo, que não são propriedades das coisas em si, mas intuições puras da sensibilidade que funcionam como os eixos coordenados onde os fenômenos são dados. Ou seja, as informações dos sentidos já chegam num espaço e num tempo para o resto do processo de constituição do conhecimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma vez colocados no espaço e estruturados numa sucessão e simultaneidade temporal, esses dados passam pelas &#039;&#039;&#039;doze categorias do entendimento puro&#039;&#039;&#039;. Essas categorias se dividem em &#039;&#039;&#039;quatro classes de tríades&#039;&#039;&#039;: quantidade, qualidade, relação e modalidade. As &#039;&#039;&#039;categorias&#039;&#039;&#039; representam as regras lógicas puras, fundamentais e necessárias para tornar qualquer objeto da experiência inteligível. Elas podem ser observadas de forma simplificada na tabela a seguir:&lt;br /&gt;
{| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot;&lt;br /&gt;
|Classe de Categorias&lt;br /&gt;
|Categoria 1 (Tese)&lt;br /&gt;
|Categoria 2 (Antítese)&lt;br /&gt;
|Categoria 3 (Síntese)&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|1. Quantidade&lt;br /&gt;
|Unidade&lt;br /&gt;
|Pluralidade&lt;br /&gt;
|Totalidade&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|2. Qualidade&lt;br /&gt;
|Realidade&lt;br /&gt;
|Negação&lt;br /&gt;
|Limitação&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|3. Relação&lt;br /&gt;
|Substância e Acidente&lt;br /&gt;
|Causa e Efeito&lt;br /&gt;
|Ação Recíproca&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|4. Modalidade&lt;br /&gt;
|Possibilidade (Impossibilidade)&lt;br /&gt;
|Existência (Não-existência)&lt;br /&gt;
|Necessidade (Contingência)&lt;br /&gt;
|}&lt;br /&gt;
As categorias de quantidade dizem respeito à extensão em que aplicamos um conceito aos objetos, ou seja, “quantos” elementos estamos considerando no juízo. Na unidade, temos um único objeto. Na pluralidade, trazemos vários objetos do mesmo tipo para um conjunto. Já a totalidade surge quando pensamos a pluralidade como uma unidade completa.Vejamos um exemplo. Quando um observador vê uma maçã, aplica a categoria da unidade, ou seja, ele viu uma maçã. Ao ver várias maçãs espalhadas na mesa, apreende uma pluralidade, ou seja, ele tem um conceito de “maçãs” e as vê como um conjunto. Porém, ao formular uma lei universal, aplica-se a totalidade, que engloba toda a pluralidade possível sob uma única regra conceitual, ou seja, todas as maçãs são frutas e existem vários tipos de maçãs.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade trata da atribuição de um predicado, ou seja, se a experiência afirma algo, nega algo ou se situa num limite conceitual. Em outras palavras, é a forma da mente definir “como algo é”. A realidade é afirmação de que um predicado pertence a um ser, ou seja, ele é alguma coisa. A negação é a afirmação de que o predicado não pertence a algo, ou seja, um “não-ser”. A limitação é a síntese das duas anteriores. Atribui-se uma negação como se fosse uma realidade, excluindo aquilo de uma esfera, mas deixando infinita a esfera onde ele pode estar. Vamos a um exemplo. Dizer “O homem é mortal” aplica a categoria de realidade (afirma-se um atributo). Dizer “O homem não é mortal” aplica a negação. No entanto, dizer “A alma é não-mortal (imortal)” é um juízo infinito clássico de Kant que evoca a limitação. Não sabemos o que a alma é de fato, mas a limitamos removendo ela da esfera das coisas mortais, o que a situa num campo aberto e indeterminado de possibilidades.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Consideradas por muitos comentadores como o coração da epistemologia kantiana, as categorias de relação definem como os objetos se relacionam entre si e como permanecem ou mudam no tempo. Substância e Acidente referem-se àquilo que permanece através da mudança (substância) e as propriedades que são transitórias, ou seja, que mudam (acidentes). Um exemplo disso é a água de um lago que congela no inverno. Seu estado físico muda do líquido para o sólido, que é o acidente, mas a matéria da água em si, a substância, permanece inalterada. Sem a categoria de substância, nossa mente registraria apenas uma sucessão caótica de imagens, sem reconhecer que se trata da mesma “coisa” sofrendo alteração. A Causa e Efeito é a relação estritamente necessária onde um evento segue outro no tempo. O exemplo de Kant, em resposta ao filósofo David Hume, é sobre o sol que ilumina uma pedra, e a pedra esquenta. Hume diria que inferimos causalidade por mero hábito psicológico, ou seja, não há conexão necessária, apenas uma observação e uma intuição. Kant argumenta que o próprio fato de distinguirmos uma sucessão objetiva de eventos exige que a mente aplique a categoria a priori de Causalidade. A mente “dita” a regra estrutural de que o aquecimento necessariamente sucede a irradiação solar, colocando uma como causa da outra. Já na Ação Recíproca (Comunidade), tem-se a relação simultânea de mútua influência entre múltiplas substâncias no espaço como, por exemplo, a interação gravitacional entre a Terra e a Lua. Elas não são eventos sucessivos no tempo, mas existem simultaneamente e influenciam-se de modo contínuo e bidirecional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, temos as categorias modais. Eles são os Postulados do Pensamento Empírico e não acrescentam nenhum atributo novo ao objeto em si, mas definem exclusivamente como esse objeto ou evento se relaciona com o sujeito cognitivo e suas faculdades. No caso da Possibilidade-Impossibilidade, é algo que concorda com as condições formais, que são as condições lógicas e puras da experiência. No binômio Existência-Não-existência, é algo que está dado materialmente na intuição empírica, ou seja, nos sentidos. Já na Necessidade-Contingência, é algo cuja conexão com a experiência empírica está determinada por condições universais. Vamos a um exemplo. Um dragão voador de escamas verdes ou um triângulo cujos ângulos somam 180 graus são conceitos logicamente possíveis, ou seja, não envolvem contradição formal. No entanto, apenas um objeto sensorialmente verificável, como a caneta sobre a sua mesa, tem a marca da existência. Já o fato de que um objeto massivo abandonado no ar cairá em direção ao solo é uma necessidade ditada pelas leis empíricas que o entendimento prescreve à natureza, ou seja, atribui a ele.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Acima dessas estruturas, Kant postulou a apercepção ou apercepção transcendental, que é o processo pelo qual a mente unifica de forma ativa diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Sem a apercepção, a mente seria apenas um amontoado de estímulos desconectados. Assim, a aperceção a base da própria consciência humana. Devido a essa complexa mediação ativa da mente, Kant estabeleceu uma distinção insuperável entre o mundo externo e a mente. Isso significa dizer que nós não temos acesso à “coisa em si”, ou noumenon, mas apenas a como as coisas nos aparecem, ou seja, na forma de fenômeno, já devidamente processadas pelo nosso aparato cognitivo. Neste sentido, É importante distinguir o “Eu empírico”, ou seja, aquilo que observamos em nós mesmos, como nossa personalidade ou o nosso humor, do “Eu transcendental”, a pura unidade lógica do “Eu penso”. Ademais, a apercepção transcendental não é uma faculdade psicológica de “prestar atenção”, mas uma exigência lógica. Para que uma experiência seja minha, o “Eu penso” deve poder acompanhar todas as minhas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Os Vetos Kantianos à Psicologia Científica ===&lt;br /&gt;
Apesar de ter colocado o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que conhece, no centro do universo epistemológico, Kant foi muito crítico sobre a possibilidade de a psicologia se tornar uma ciência. Em sua obra Princípios metafísicos da ciência da natureza, de 1786, ele negou a possibilidade de uma psicologia científica, pois afirmou que uma disciplina só poderia Sê-lo se possuísse uma elaboração racional capaz de fornecer leis formuladas matematicamente, o que poderia ser chamado de veto matemático. A psicologia falhava nesse critério porque os eventos mentais possuem apenas a dimensão do tempo, sem nenhuma extensão espacial, o que impossibilitaria a sua matematização. Para Kant, assim como o espaço é a forma do sentido externo, o tempo é a forma pura do sentido interno. Como os estados mentais só se dão na sucessão do tempo (sem extensão espacial), eles não formam figuras nem podem ser medidos geometricamente, inviabilizando a matemática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Kant apontou a impossibilidade de isolar diferentes pensamentos para a realização de experimentos controlados. Assim, como não podemos acessar o que seria o conteúdo da mente, cercá-la e analisá-la como ela é em seu estado bruto ou natural, qualquer experimentação seria impossível, o que poderia ser chamado de veto do objeto. Por fim, ele reforçou a crítica que já era direcionada a Wolff, aquele do começo dessa seção. A introspecção como método, segundo Kant, seria inviável porque a própria tentativa de observar um fenômeno interno altera o fenômeno, o veto metodológico. Se tento observar minha própria tristeza, por exemplo, o fenômeno original desaparece e se transforma em “tristeza-sendo-observada-por-mim”, misturando sujeito e objeto de tal maneira que corrompe a objetividade. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A impossibilidade de uma psicologia científica não significava, contudo, a impossibilidade de estudar a mente e o comportamento. Kant trabalhou e lecionou com o que chamou de Antropologia Pragmática. Enquanto a psicologia empírica tentava, em vão, segundo ele, ser uma ciência exata, a antropologia pragmática estudava “o que o homem, como ser livre, faz, ou pode e deve fazer de si mesmo”. Era um estudo prático do comportamento, das paixões, da memória e da cognição, focado na vida em sociedade. De certo modo, pode-se dizer que Kant fechou a porta para a psicologia mecanicista, ou ainda, uma psicologia como ciência exata, mas ajudou a abrir uma janela imensa para as ciências humanas e sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Emergência do Neokantismo Fisiológico e as Primeiras Aproximações para a Psicologia Científica ==&lt;br /&gt;
A primeira metade do século XIX na Alemanha foi inicialmente dominada pelo Idealismo Pós-Kantiano (Hegel, Fichte, Schelling), que propunha sistemas metafísicos grandiosos onde a realidade era essencialmente racional e espiritual. Contudo, a partir da década de 1850, o forte avanço das ciências naturais, como a fisiologia e a química, gerou uma importante reação materialista, consolidados nas figuras de Feuerbach, Vogt, Büchner e outros, que passaram a ridicularizar a filosofia idealista como mera especulação vazia. A metafísica, vista como uma das glórias da filosofia e do pensamento humano, passou a ser vista cada vez mais como um discurso com pouco ou nenhum lastro na realidade. Essa mudança foi muito importante para a história da psicologia científica, pois foi devido a esse contexto que foram formulados os primeiros experimentos voltados para o que seria, no futuro, a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Johannes Müller e a Teoria das Energias Nervosas Específicas ===&lt;br /&gt;
Neste período, a fisiologia se estabeleceu como uma ciência rigorosa e extremamente respeita, liderada por figuras como Johannes Müller. Müller, professor na Universidade de Berlim, publicou seu Manual de Fisiologia Humana (1833-1840), que sistematizou o conhecimento fisiológico da época e transformou a compreensão da percepção. Até o final do século XVIII, ela era explicada pela Teoria da impressão da sensação, derivada da física newtoniana e do empirismo britânico. Esse modelo assumia que o sistema nervoso era um meio homogêneo e passivo que simplesmente “transportava” as qualidades dos objetos externos para a mente, como se a sensação fosse uma cópia exata do estímulo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Johannes Müller revolucionou esse entendimento ao formular a Teoria das energias nervosas específicas (1826). Ele provou, através de experimentos, que a estimulação de um determinado nervo sensorial sempre provoca uma sensação característica e exclusiva daquele nervo, independentemente da natureza do estímulo físico externo. Em outras palavras, a qualidade da sensação não pertence ao objeto físico, mas sim à estrutura do próprio aparato sensorial humano. O mesmo estímulo pode produzir sensações completamente diferentes dependendo de qual via nervosa é ativada. Por exemplo, ao aplicar sal na pele, na língua e nos olhos, as sensações serão totalmente distintas, todas diretamente relacionadas às especificidades do aparelho sensorial que foi ativado. É importante entender que isso não acontece por conta da especificidade das características do estímulo, como o sal ser “salgado”. A pele produz apenas sensações táteis, ainda que o estímulo não seja tátil. Isso cria um problema de confiança naquilo que percebemos sensorialmente, pois mostra que os órgãos não enviam apenas propriedades dos objetos, mas antes operam apenas de modo específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Müller, por meio de experimentos, mostrou que os objetos físicos projetam imagens invertidas na retina, mas nós os percebemos na posição correta. Ele mostrou também que, embora as imagens projetadas nas duas retinas sejam levemente diferentes, o cérebro as unifica em uma única imagem tridimensional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas descobertas trouxeram Kant para o terreno da biologia, inclusive pelo próprio Müller que, apesar de não ser neokantiano, viu suas descobertas científicas influenciarem profundamente a primeira geração deles. O sistema nervoso não é um receptor passivo, antes, ele medeia, molda e traduz ativamente a realidade externa. A sensação deixou de ser vista como uma cópia do mundo e passou a ser um enigma, que pode ser analisado a partir da seguinte pergunta: “o que existe entre o estímulo físico e a sensação subjetiva?”. Este é o mundo do primeiro projeto de psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Hermann von Helmholtz e o Neokantismo Psicofisiológico ===&lt;br /&gt;
A ponte definitiva entre a epistemologia kantiana e a prática laboratorial foi construída por um antigo aluno de Johannes Müller, Hermann von Helmholtz (1821-1894). Ele colaborou no desenvolvimento do neokantismo psicofisiológico ou neokantismo fisiológico. Ele entendeu que as descobertas de seu professor forneciam a base material exata para a teoria do conhecimento de Kant. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1855, Helmholtz argumentou que as estruturas a priori propostas por Kant como condições de possibilidade da experiência eram, na verdade, características da anatomia e da fisiologia do aparato perceptivo humano. Ao “naturalizar” a filosofia de Kant, Helmholtz formulou a sua teoria dos signos, que postula que nossas sensações e percepções não são cópias diretas da realidade, mas sim símbolos ou signos gerados pelo nosso sistema nervoso em resposta aos estímulos. Para explicar como construímos uma imagem coerente e espacial do mundo a partir desses signos neurológicos isolados, Helmholtz introduziu o conceito de inferências inconscientes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo essa teoria, a mente realiza uma série de ajustes e cálculos automáticos, baseados na experiência e na aprendizagem contínua, para interpretar os dados sensoriais. A percepção de profundidade, a posição espacial e a resolução de duas imagens retinianas em uma única visão estereoscópica não são inatas, como defendia o nativismo de Ewald Hering ou o próprio Müller, mas são aprendidas empiricamente através do movimento do corpo e da repetição das sensações. O espaço perceptivo atua como uma linguagem que a mente usa para interpretar os dados fisiológicos brutos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com isso, Helmholtz fundou o projeto de uma psicologia fisiológica autônoma, diferente da psicologia filosófica discutida na época. Ele concordou com Kant que a introspecção tradicional era um método falho, que podia conduzir a ilusões porque o observador só capta a superfície consciente do pensamento. A solução de Helmholtz foi submeter o sujeito da experiência a condições de laboratório rigorosamente controladas. Se as condições da percepção dependem de mecanismos fisiológicos, então a única forma de fazer epistemologia científica é através da experimentação fisiológica e da ótica. O sujeito do conhecimento tornou-se, assim, um objeto, que poderia ser manipulado e analisado em laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Suas contribuições não acabam por aí. Antes das pesquisas de Helmholtz, a comunidade científica acreditava que o impulso nervoso era instantâneo ou rápido demais para ser mensurado. Em 1850, estimulando um nervo motor na perna de uma rã e medindo o tempo da contração muscular, ele obteve o registro da velocidade de condução neural, que é de aproximadamente 27 metros por segundo, provando que havia “algo” entre o estímulo e a percepção que poderia ser analisado cientificamente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também mediu o tempo de reação de nervos sensoriais em humanos. Essa descoberta provou que o pensamento e o movimento corporal não ocorrem simultaneamente, mas são separados por um intervalo de tempo mensurável. Essa foi a base que abriu caminho para os experimentos de tempo de reação e cronometria mental que dominariam o laboratório de Wundt décadas depois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== F. A. Lange e o Projeto de uma “Psicologia Sem Alma” ===&lt;br /&gt;
O segundo pilar desse “retorno a Kant”, também de matriz fisiológica, foi erguido pelo filósofo e sociólogo Friedrich Albert Lange (1828-1875). Lange foi uma figura central na “controvérsia materialista” que agitava a Alemanha. Ele rejeitava tanto os “delírios” dos sistemas idealistas metafísicos quanto o reducionismo ingênuo do materialismo científico de Vogt e Büchner. Em sua influente obra História do Materialismo, de 1866, Lange defendeu que a limitação proposta por Kant é absoluta, ou seja, não temos e nem nunca teremos acesso à essência última da realidade, às coisas em si. Nosso conhecimento se restringe aos efeitos das coisas, ou seja, os fenômenos, que nos aparecem totalmente moldados pela nossa organização mental e neurológica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Lange argumentou que a impossibilidade de conhecer a essência não impede o estudo científico rigoroso das “aparências”, ou seja, sobre como as coisas nos aparecem. Para viabilizar esse estudo, Lange atacou as psicologias filosóficas do passado, que versavam debates que ele ele entendia estéreis sobre a natureza, a imortalidade e a substancialidade da “alma”. Para Lange, a alma era um conceito vazio, um “mito antigo” que forçava a psicologia a operar sobre pressupostos metafísicos inverificáveis. Em resposta, ele propôs a criação de uma psicologia sem alma, ou, em outras palavras, uma psicologia sem metafísica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste novo paradigma, o objeto de estudo da psicologia deveria ser reduzido aos dados empíricos observáveis, incluindo a sensação, a percepção, a ação e a linguagem, sempre buscando o seu correlato fisiológico. Lange rejeitou a introspecção puramente filosófica, pois a auto-observação isolada é privada, não pode ser repetida, não permite a presença de observadores externos e leva invariavelmente a ilusões verbais. Segundo ele, essa introspecção conduzia o pesquisador a substancializar conceitos como “vontade” ou “pensamento”, sem nenhum lastro empírico ou experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A única saída para a psicologia tornar-se verdadeiramente científica era abraçar a metodologia das ciências naturais. Apoiando-se no trabalho de Helmholtz e nas medições pioneiras de psicofísicos como Ernst Weber e Gustav Fechner, Lange prescreveu que a psicologia deveria investigar as leis fisiológicas da percepção e medir a correlação exata entre estímulos físicos e respostas sensoriais, como nos tempos de reação e nos limiares diferenciais. A psicologia passava a ser entendida não como a ciência do espírito transcendente, mas como a ciência psicofisiológica que estuda experimentalmente as condições de possibilidade da experiência, trazendo o sujeito transcendente de Kant para uma fisiologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fechner e a Fundação da Psicofísica ===&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner (1801–1887) foi um físico e metafísico alemão e antigo aluno de Weber. Apesar de não ser um neokantiano, ele tem uma importância fundamental para este momento da fundação da psicologia experimental, tendo sido citado e adotado por neokantianos. Ele assumiu a prestigiada e importante cadeira de física da Universidade de Leipzig em 1834, enquanto produzia sátiras sobre temas metafísicos e artísticos sob um pseudônimo. Após uma série de experimentos em que observava diretamente o Sol, feriu gravemente suas retinas, evento que o conduziu a um colapso físico e mental. Teve uma recuperação milagrosa em 1843, quando tentou observar flores em seu jardim e, por meio de uma experiência mística, observou que a natureza brilhava de dentro para fora, de onde concluiu que o universo era dotado de alma e consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esssa experiência decisiva levou-o a dedicar sua vida ao combate do materialismo científico, que ele denominava visão noturna, que via o mundo como uma matéria inerte e sem vida. Já a sua visão diurna entendia que a matéria era a manifestação da consciência universal divina, uma cosmovisão espiritualista que pode ser entendida como panpsiquista, ou seja, todos os corpos físicos possuem uma forma de alma. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi buscando provar sua visão que Fechner entendeu que poderia provar empiricamente a relação entre a mente (ou o espírito) e o corpo (ou a matéria) se encontrasse uma relação matemática constante entre a intensidade do estímulo físico e a magnitude da sensação psíquica correspondente. Isso porque Fechner percebeu que um aumento na intensidade do estímulo físico não gerava um aumento equivalente e proporcional na sensação subjetiva. A relação não era linear, mas sim proporcional, pois o estímulo físico aumentava em uma progressão geométrica, enquanto a sensação psíquica crescia em uma progressão aritmética. Por exemplo, acrescentar o som de um sino a outro que já está tocando gera um forte impacto perceptivo, pois é possível distinguir claramente que passou-se de um para dois sinos. Já acrescentar um sino a uma dezena deles produz uma alteração quase imperceptível. A sensação dependia, portanto, do nível de estimulação já existente no sistema.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para dar sustentação empírica à sua teoria, Fechner apropriou-se dos trabalhos experimentais realizados por Weber, que havia formulado a teoria da diferença mínima perceptível, demonstrando que a sensibilidade humana não avaliava diferenças absolutas entre estímulos, mas sim relações relativas ou proporcionais. Weber observou que, ao levantar pesos, os sujeitos conseguiam detectar uma variação mínima correspondente a uma fração constante de aproximadamente 1:40 em relação ao peso padrão. Essa constância proporcional é descrita pela chamada Lei de Weber:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
II=K&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde I representa a intensidade do estímulo padrão (que aparecerá como R posteriormente), ΔI é o acréscimo mínimo necessário para produzir uma mudança perceptível na sensação e k é uma constante matemática específica para cada modalidade sensorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Fechner percebeu que essa fração constante (ΔI/I) correspondia à unidade de medida da sensação subjetiva (dS). Utilizando o cálculo infinitesimal, Fechner integrou matematicamente a equação de Weber, assumindo que todas as diferenças mínimas perceptíveis eram subjetivamente iguais entre si. Essa operação matemática resultou na célebre Lei de Fechner ou Lei de Weber-Fechner:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
S = k Log R&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde S representa a magnitude da sensação subjetiva (qualidade mental), R representa a intensidade física do estímulo (qualidade material) e K é uma constante experimental ajustada a cada sentido. Essa fórmula logarítmica foi construída para mostrar que, para a sensação aumentar linearmente, o estímulo físico precisava crescer exponencialmente, estabelecendo uma relação exata e mensurável entre o psíquico e o físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para aplicar sua fórmula, Fechner sistematizou dois conceitos fundamentais que estruturam as medições psicofísicas. A primeira é o limiar absoluto, ou seja, o ponto de intensidade física mínima abaixo do qual o estímulo não é detectado pelo sujeito e acima do qual a sensação passa a ser percebida. Outro conceito é o de limiar diferencial, que é a quantidade mínima de alteração ou variação que deve ser aplicada a um estímulo para que o sujeito seja capaz de discriminar uma mudança na sensação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um desdobramento fascinante da Lei de Fechner ocorreu quando o estímulo físico apresentava valores abaixo do limiar absoluto (R&amp;lt;1), resultando em valores negativos para a sensação (S). Fechner definiu esses valores como sensações negativas ou subliminares, postulando a existência de processos mentais ativos abaixo do limiar da consciência desperta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para determinar com precisão científica os limiares absolutos e diferenciais, Fechner desenvolveu e padronizou três metodologias experimentais rigorosas, que se tornaram os pilares metodológicos de toda a psicologia experimental posterior. No Método do Erro Médio ou do Ajuste, o próprio sujeito experimental manipula ativamente um instrumento para ajustar um estímulo variável até que sinta que este se iguala a um estímulo padrão constante. A média dos desvios entre os ajustes do sujeito e o padrão real define o erro de observação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já no Método do Estímulo Constante ou dos Casos Corretos e Incorretos, o pesquisador apresenta de forma aleatória uma série de estímulos pré-determinados e constantes em comparação com um estímulo padrão. O sujeito deve julgar se o estímulo de comparação é maior, menor ou igual ao padrão, medindo-se a proporção estatística de acertos. Por fim, no Método dos Limites ou das Diferenças Mínimas Perceptíveis, dois estímulos são apresentados ao sujeito. Um deles é aumentado ou reduzido sistematicamente em passos discretos e graduais, e o sujeito relata o momento exato em que deixa de perceber ou passa a perceber a diferença entre ambos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1860, Fechner publicou seu livro monumental, Elementos de Psicofísica, que alguns entendem ser o primeiro sobre a psicologia científica experimental. Ao fornecer à psicologia técnicas de medição coerentes e precisas, Fechner provou de forma contundente que a mente humana era passível de investigação científica e experimental, sepultando em definitivo o antigo veto imposto por Immanuel Kant, em pleno momento de desenvolvimento do Neokantismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Incomodados com as inclinações metafísicas e espiritualistas de Fechner, os psicólogos experimentais subsequentes, sob a liderança de Wilhelm Wundt, rejeitaram completamente o panpsiquismo entre outras ideias, apropriando-se exclusivamente de seus métodos quantitativos de laboratório para estabelecer a psicologia como uma ciência empírica e natural. Como bem observou o historiador Edwin G. Boring, Fechner agiu como um “Colombo que descobriu um Novo Mundo (a psicologia científica) enquanto procurava pelas antigas Índias (a prova de sua metafísica)”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Resumindo ===&lt;br /&gt;
A intersecção entre a epistemologia kantiana, a fisiologia de Müller e a reformulação promovida por Helmholtz e Lange constituiu o início daquilo que tornou possível a psicologia científica. Kant havia mostrado que o sujeito constrói ativamente a realidade, mas negou que esse sujeito pudesse ser estudado matematicamente ou experimentalmente. Müller transferiu a estrutura ativa da mente para os nervos sensoriais específicos. Helmholtz e Lange reinterpretaram as pesadas categorias transcendentais de Kant como mecanismos biológicos e perceptivos operando através de inferências inconscientes e leis fisiológicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao “naturalizar” a Crítica da Razão Pura, o Neokantismo Psicofisiológico resolveu o veto de Kant a uma psicologia científica. Se os limites e as formas do nosso conhecimento são determinados pelo nosso sistema nervoso e sensorial, então o estudo epistemológico da mente deve ser feito no laboratório de fisiologia, estudando principalmente a percepção. A exigência de matematização foi superada pelas leis da psicofísica de Fechner e Weber, e o problema da introspecção descontrolada foi resolvido pelo uso de instrumentos de precisão, como cronoscópios, além de métodos de medidas de limiar, controle de estímulos, erros médios, entre outros, que transformavam as respostas subjetivas em dados objetivos, replicáveis e mensuráveis. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse foi o cenário epistemológico e institucional que Wilhelm Wundt encontrou e ajudou a consolidar. Wundt não fundou a psicologia a partir do nada em 1879. Seu Instituto em Leipzig foi organização metodológica e teórica de décadas de esforços em que a filosofia foi obrigada a dialogar com os nervos, os músculos e os tempos de reação, transformando para sempre a especulação sobre a alma em uma rigorosa ciência da experiência imediata. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ironicamente, escolas neokantianas posteriores, como a Escola de Marburgo, foram focos de resistência à psicologia experimental, alegando que o sujeito do conhecimento de Kant era de ordem puramente transcendental e lógica, e não empírica ou mensurável, ou seja, rejeitando a “biologização” do pensamento kantiano e a consequente criação da psicologia experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, conforme mostra Gundlach, a criação de uma posição acadêmica e o laboratório de psicologia por Wundt não se deu por conta de um amplo reconhecimento da superioridade do pensamento wundtano, mas sim por conta de disputas políticas e institucionais nas universidades alemãs. De qualquer forma, Wundt conseguiu desenvolver bem sua teoria ao longo de sua vida e conseguiu estabelecer-se na proeminência da psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia de Wundt ==&lt;br /&gt;
[[Wilhelm Wundt|Wilhelm Maximilian Wundt]] é, na historiografia da psicologia, uma figura ao mesmo tempo onipresente e pouco compreendida. Freqüentemente reduzido ao título de “fundador do laboratório de Leipzig”, essa simplificação negligencia sua estatura como um dos últimos grandes arquitetos de sistemas do século XIX, cujo &#039;&#039;Systemgedanke&#039;&#039; (pensamento sistêmico) buscava integrar a psicologia como uma propedêutica fundamental para a filosofia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Recuperar o Wundt original exige preencher uma vasta lacuna historiográfica. A primeira envolve apontar as conhecidas e muitas das distorções da tradução de [[Titchener|E.B. Titchener]] para o contexto anglo-americano, que foi formulada para aproximar suas ideias e pdasdaquelas de Wundt, visando uma “confirmação” do pensamento de Titchener. Wundt não era um estruturalista ou associacionista clássico e seu sistema é essencialmente dinâmico e centrado no &#039;&#039;&#039;voluntarismo&#039;&#039;&#039;. Para Wundt, a vontade e os processos afetivos não são meros epifenômenos, ou seja, um fenômenos secundários ou acessórios que acompanhma um fenômeno principal, mas o eixo organizador da consciência ativa. Esta reconstrução crítica visa resgatar a autonomia epistemológica de uma ciência que define seu objeto não como uma substância, mas como a experiência em sua totalidade imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Experiência conforme Wundt ===&lt;br /&gt;
Para Wilhelm Wundt, a experiência é concebida como um todo unitário e coerente. As duas abordagens da experiência que ele propõe não se deve a uma diferença ontológica, mas como dois pontos de vista distintos e complementares que permite sua abordagem científica, que ele separa entre Experiência Mediata e Experiência Imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experiência Mediata ====&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Experiência Mediata&#039;&#039;&#039; é a experiência objetiva) está &#039;&#039;&#039;focada nos objetos do mundo externo&#039;&#039;&#039;. Ela foca exclusivamente nos objetos do mundo externo, abstraindo o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que sabe, que tem conhecimento. A Experiência Mediata seria o ponto de vista característico das ciências naturais, como física, química e fisiologia. A ciência natural opera por meio de uma abstração sistemática, pois ela coloca o sujeito cognoscente &amp;quot;entre parênteses&amp;quot; e analisa apenas os objetos externos pensados, como se existissem de maneira totalmente independente de quem os percebe. É chamada de &amp;quot;mediata&amp;quot; porque &#039;&#039;&#039;nosso acesso a tais objetos é sempre indireto&#039;&#039;&#039;, ou seja, precisa de mediação, pois é dependente de conceitos abstratos, inferências teóricas e construções conceituais auxiliares para representá-los. Por um lado, o estímulo físico é intermediado pelos limites anatômicos e biológicos do nosso aparato perceptivo, ou seja, temos os limites e capacidades da nossa percepção. No caso da visão, por exemplo, não vemos os raios ultravioleta e infravermelho, pois não estão no expecto da luz visível, mas vemos as cores e suas combinações. Por outro lado, para constituir a &amp;quot;realidade objetiva&amp;quot;, o cientista natural precisa utilizar conceitos teóricos auxiliares e construções hipotéticas, como átomos, ondas eletromagnéticas e forças gravitacionais, que não são dados imediatamente na percepção sensível mas que podem ser vistos experimentalmente e por meio de instrumentos e aparatos científicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wundt critica assim o empirismo tradicional e o associacionismo. A doutrina do empirismo diz que a mente como página em branco, conforme a formulação de John Locke e sua &#039;&#039;tabula rasa&#039;&#039;. Neste caso, a mente seria progressivamente preenchida pelas impressões do mundo exterior (sensação) e pelas operações internas (reflexão). David Hume radicaliza o princípio empírico, postulando que as impressões são os átomos cognitivos fundamentais e as ideias nada mais são do que cópias atenuadas ou lembranças dessas impressões na memória e na imaginação. Já o associacionismo constitui a hipótese de que as ideias simples e discretas se combinam para formar pensamentos complexos, juízos e raciocínios abstratos. Se o empirismo fornece os blocos de construção, o associacionismo descreve a &amp;quot;força de atração&amp;quot; que os une. Conforme sistematizado por Hume e, depois, desenvolvido por Hartley e James Mill, a mente transita espontaneamente de uma ideia para outra por meio de regras regulares de associação, como a semelhança, a contiguidade no tempo e as relações de causa e efeito.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para Wundt, ambos erraram, pois transferiam as características dos objetos externos da física, como a solidez, os limites rígidos e a permanência estática, para os conteúdos conscientes, passando a tratar as representações (&#039;&#039;Vorstellungen&#039;&#039;) como coisas ou &amp;quot;átomos mentais&amp;quot;. Na física, o foco recai sobre o objeto substantivo. Contudo, segundo Wundt, a consciência não contém objetos estáveis. Ele parte de uma diferença fundamental que os psicofísicos e outros haviam apontado, que é aquela entre o mundo externo e o mundo percebido, ou ainda, entre as coisas e suas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em resumo, a Experiência Mediata se aproxima dos objetos estáveis do mundo externo e de como eles nos chegam. Na experiência mediata, o cientista da natureza pode retornar quando quiser ao mesmo objeto físico estável (uma pedra ou um elemento químico) para observá-lo repetidamente, ainda que o observador em si esteja sempre em mudança.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experiência Imediata, o Objeto de Estudo da Psicologia ====&lt;br /&gt;
Ao definir seu objeto, Wundt deu um passo decisivo para dar à psicologia autonomia perante as outras ciências naturais. Ele propõe que a experiência é uma unidade indivisível. Mas o que ele quer dizer por &#039;&#039;&#039;experiência&#039;&#039;&#039;? Uma definição poderia ser a totalidade dos processos conscientes, englobando sensações, sentimentos, representações e volições (vontades), apreendida da exata forma como se apresenta diretamente ao sujeito, sem qualquer abstração conceitual ou mediação de instrumentos externos. Ou seja, a experiência de Wundt seria como tudo o que se passa na mente, exatamente como ela aparece para uma pessoa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;O domínio da psicologia seria a experiência imediata&#039;&#039;&#039;, subjetiva, que é a experiência em sua realidade concreta, direta e intuitiva, apreendida antes de qualquer conceituação, teorização ou abstração. Ou seja, é a experiência antes de ela adquirir qualquer camada de compreensão, que seriam mediadores, por isso é imediata, &#039;&#039;&#039;sem mediação&#039;&#039;&#039;. Ela envolve o processamento de elementos sensoriais simples, como cor, som, temperatura, e de sentimentos simples, como prazer e desprazer. Ela diz respeito ao modo puro de funcionamento mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vamos a um exemplo, desta vez no campo do acústica. Na perspectiva mediata, o cientista natural abstrai o sujeito e estuda o som de forma indireta e conceitual. Ele utiliza aparelhos para medir as ondas sonoras e a sua propagação física pelo ar. O objeto físico “som” é, portanto, mediado e traduzido por conceitos de frequência, amplitude e decibéis. Já sob a perspectiva imediata, que é a da psicologia, o psicólogo estuda a sensação direta e em si mesma do tom no momento exato em que ele aparece na consciência. A análise está na vivência concreta do sujeito, que inclui a qualidade do tom, a sua intensidade subjetiva, a tonalidade afetiva de prazer ou desprazer que o acompanha e o processo ativo da atenção (apercepção, que será tratada mais adiante) que coloca aquele som no foco da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se olharmos desta vez para a cromática, na visão mediata, ciência natural estuda o azul abstraindo a experiência do sujeito. A física o descreverá de forma conceitual como uma radiação eletromagnética com determinado comprimento de onda atingindo a retina. A fisiologia se debruçará sobre o funcionamento dos tecidos dos olhos quando estimulados com a cor azul em suas nuances. Para a psicologia de Wundt, o azul é investigado como um dado imediato e real na consciência do sujeito no momento da percepção interna. O foco não está nas propriedades físicas do estímulo, mas sim na reação subjetiva e ativa do cérebro vivo a esse estímulo, que gera a qualidade imediata da cor na experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conduzindo seus estudos, Wundt também identificou aquilo que denominou &#039;&#039;&#039;causalidade psíquica&#039;&#039;&#039;. Ao nos lembrarmos de um fato triste, por exemplo, a fisiologia explicaria a tristeza de forma conceitual e indireta, por meio de correntes elétricas no córtex cerebral, liberação de hormônios ou atividade de sinapses nervosas. Já o psicólogo numa linha wundtiana observa a conexão de processos internos como elas ocorrem diretamente na consciência do sujeito, como a ligação da lembrança triste a um sentimento de angústia. A causalidade psíquica é uma causalidade própria da mente e irredutível às leis físicas da natureza, ou seja, não pode ser comparada à causalidade física como a conhecemos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao adotar a experiência como seu objeto, Wundt rompe com a psicologia da alma, filosófica e metafísica. Ele substitui a psicologia de substâncias, que postula uma entidade mental oculta, pela &#039;&#039;&#039;teoria da atualidade&#039;&#039;&#039; (&#039;&#039;Aktualitätstheorie&#039;&#039;), na qual o psiquismo é definido como um fluxo de processos em constante devir. Seu sistema está fundamentado em um &#039;&#039;&#039;monismo perspectivista&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, para ele, mente e corpo não são substâncias que interagem mecanicamente, mas perspectivas distintas sobre a mesma unidade da experiência (&#039;&#039;Erfahrung&#039;&#039;). A psicologia, portanto, não estuda um “mundo interno”, que está isolado do externo, ainda que em contato com ele, mas a totalidade da experiência humana sob o prisma da imediatidade. Essa transição do estatuto de substância “mente” ou algo semelhante para o de processo traz uma nova perspectiva, criando um objeto que pode ser alvo de experimentação científica, partindo de experimentos já criados pela psicofísica e ainda outros que seriam desenvolvidos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Psicologia Individual e Völkerpsychologie: dois métodos para manifestações da experiência ===&lt;br /&gt;
A arquitetura metodológica de Wundt responde ao desafio de investigar processos mentais que variam em complexidade. Ele estabelece que a psicologia deve ser compreendida como o fundamento das Geisteswissenschaften (ciências do espírito ou humanas). A Psicologia Individual foca nos processos elementares, que incluem sensação e percepção, que são passíveis de controle rigoroso em laboratório através da manipulação de estímulos externos e introspecção experimental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entretanto, Wundt reconhece a insuficiência do experimento para os processos mentais superiores, como o pensamento e a linguagem, que são historicamente condicionados. Para estes, ele propõe a Völkerpsychologie , ou Psicologia dos Povos, dedicada ao estudo dos produtos das geistige Gemeinschaften (comunidades espirituais ou coletividades). Wundt vai apontar a linguagem, o mito e os costumes (Sitten) não são apenas dados culturais, mas objetivações de leis psíquicas superiores inacessíveis à introspecção de laboratório. Eles seriam produtos da experiência humana nas suas formas mais avançadas e superiores e, por não serem passíveis de experimentação, exigem uma outra abordagem. Essas duas vertentes, experimental e histórico-cultural, não são divergentes, mas sim o projeto integrador que permite apreender a mente tanto em sua base sensório-motora quanto em suas manifestações espirituais complexas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As investigações da psicologia dos povos focavam na alma do povo (Volksseele), definida como a realidade factual dos processos psíquicos que surgem em uma comunidade por meio da interação das energias mentais dos indivíduos. Essa “mente coletiva” se tornava um objeto tangível e investigável ao longo da história em três grandes produtos culturais. O primeiro é a linguagem (Die Sprache), ferramenta pela qual o pensamento é estruturado e externalizado. Já o mito e a religião são as formas como a imaginação e os sentimentos humanos coletivos projetam suas explicações sobre o cosmos e a existência. Os costumes (Sitten) e o direito, por sua vez, são  as regras de conduta coletiva que nascem de atos voluntários e impulsos compartilhados, padronizando as interações sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não podia realizar experimentos com culturas inteiras, Wundt operava por meio da pura observação retrospectiva e comparativa dos produtos mentais, ou seja, analisando os objetos já criados e usados ou em uso por diferentes povos e culturas, anotando suas diferenças e semelhanças. Wundt juntava, lia e analisava de forma exaustiva relatos históricos, estudos filológicos, dicionários, mitologias comparadas, códigos de leis e descrições etnológicas e antropológicas de povos ao redor do globo, ou seja, utilizava dos estudos de diferentes ciências humanas e sociais para extrair as leis psicológicas gerais do desenvolvimento mental humano por trás dessas manifestações. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seu objetivo era mapear como a mente coletiva evoluía do simples para o complexo ao longo das eras, numa abordagem genética e desenvolvimentista e reconstruir, de forma retrospectiva, as forças dinâmicas, os afetos, os impulsos (Triebe) e os processos de síntese criadora (melhor discutida mais adiante) que estiveram ativos na mente das pessoas no momento de sua formação. Wundt dedicou os últimos 20 anos de sua vida (de 1900 a 1920) quase exclusivamente a esse empreendimento monumental, escrevendo dez volumes da sua obra Völkerpsychologie.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Apercepção ===&lt;br /&gt;
No contexto filosófico, como já visto, o conceito de apercepção remonta a Kant, que a definiu como o processo autônomo, ativo e prévio pelo qual a mente unifica diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Wundt adotou essa noção kantiana para fundamentar sua teoria da consciência, definindo apercepção como o processo psicológico ativo pelo qual um conteúdo psíquico (ou representação) é trazido à clareza máxima e ao foco da consciência, vindo necessariamente acompanhado pelo estado de atenção voluntária.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para explicar a dinâmica da consciência, Wundt utilizou uma famosa analogia com a visão para diferenciar apercepção e percepção. O campo visual da consciência (Blickfeld) corresponde à percepção, que é a simples entrada de uma representação na consciência de forma difusa, ampla e sem a presença focalizada da atenção. Já o ponto focal da consciência (Blickpunkt) corresponde à apercepção, que é a entrada de uma representação no ponto central de máxima clareza e foco estreito da atenção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A apercepção, então, é uma manifestação primordial da vontade, funcionando como o princípio dinâmico que dá direção e estrutura tanto à experiência quanto ao movimento. Além disso, a apercepção pode ser ativa, que é quando o sujeito deliberadamente seleciona onde focará sua atenção, ou passiva, quando é o estímulo que se impõe no foco no sujeito. Por fim, a apercepção é o mecanismo central da operação da causalidade psíquica. É ela que unifica a mente em um sistema ativo, permitindo que a fusão de elementos resulte em sínteses criadoras com propriedades qualitativamente novas e imprevisíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Percepção Interna (innere Wahrnehmung) vs. Auto-observação (Selbstbeobachtung) ===&lt;br /&gt;
Para garantir o rigor procedimental e responder ao “desafio kantiano”, Wundt rejeitou a Selbstbeobachtung, que pode ser entendida como a auto-observação tradicional ou introspecção casual. Trata-se do método introspectivo puramente filosófico e especulativo que, segundo Wundt e outros, seria fonte de auto-ilusões e onde o ato de observar altera o fenômeno observado. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A solução científica é a innere Wahrnehmung, ou percepção interna, que permite a criação de um método científico baseado na repetição de estímulos externos controlados. No laboratório, o psicólogo replica condições experimentais que permitem a observação do aparecimento imediato do processo psíquico sob condições estáveis e previsíveis. O laboratório funciona, portanto, como o estabilizador do objeto psicológico, permitindo que a percepção interna atinja a precisão necessária para decompor a consciência em seus elementos fundamentais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experimentos do Laboratório de Wundt ====&lt;br /&gt;
Vamos a alguns exemplos do que acontecia no laboratório de Wundt, para integrar melhor os conceitos já apresentados. O primeiro experimento foi concebido originalmente para descrever a “equação pessoal” que aparecia nas medições dos astrônomos. No caso, observava-se que astrônomos treinados, utilizando os mesmos equipamentos, discordavam de suas medições que, à época, eram feitas manualmente com ajuda de instrumentos. De alguma forma, estas diferenças nas medições pareciam ter um tipo de padrão. Neste experimento, Wundt utilizava um aparelho chamado medidor de pensamento (Gedankenmesser) e, posteriormente, o pêndulo de complicação (Complicationspendel). O dispositivo consistia em um grande relógio de pêndulo que possuía uma agulha cruzada, como uma agulha de tricô, capaz de golpear fisicamente um pequeno sino em um ponto exato do seu arco de oscilação. O sujeito do experimento deveria olhar para a escala do pêndulo e tentar determinar a posição exata do ponteiro no momento em que ouvia o sino tocar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste experimento, Wundt descobriu que o sujeito sempre cometia um erro sistemático de registro, de aproximadamente um oitavo de segundo. Segundo ele, era impossível perceber visualmente a agulha e o som do sino ao mesmo tempo. Esse experimento seria uma prova laboratorial de que a consciência possui uma capacidade limitada e só consegue focar em uma única percepção por vez, como a diferença no marco da medição podia mostrar. A ilusão de simultaneidade devia-se apenas à rápida sucessão dos processos de atenção (apercepção).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os experimentos de tempo de reação, nosso segundo exemplo, constituíam o verdadeiro coração do trabalho em Leipzig na década de 1880. Wundt adaptou o método de subtração (Subtractiemethode), do fisiologista holandês F. C. Donders, para medir a velocidade de processos mentais complexos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o experimento de Wundt, é necessário compreender que, para ele, uma reação consciente envolvia: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- transmissão da sensação ao cérebro; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2- entrada do estímulo no campo amplo da consciência (percepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
3- entrada no foco ativo da atenção (apercepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
4- ato de vontade para liberar a resposta; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
5- execução motora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada um dessas partes exigem um certo tempo, pois são processos não imediatos. A depender de como as etapas do experimento são organizadas, diferentes tempos indicariam o acionamento maior ou menor de cada um deles. No experimento, o sujeito era treinado para responder pressionando uma tecla telegráfica ao ver um estímulo luminoso simples, como um flash de luz. Em seguida, a tarefa mais difícil. Duas imagens eram apresentadas, um círculo branco sobre fundo preto ou vice-versa, e o sujeito só deveria reagir após identificar com clareza qual imagem havia aparecido. Ao subtrair o tempo da reação simples do tempo da reação complexa, Wundt calculava o “tempo de apercepção” ou discriminação. Na primeira tese de doutorado em psicologia experimental da história, Max Friedrich, que atuou no experimento, mostrou que o tempo de discriminação aumentava de acordo com a complexidade do estímulo visual. Por exemplo, o sujeito levava mais tempo para aperceber e discriminar uma sequência de seis dígitos do que de apenas um ou dois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O assistente de Wundt, Ludwig Lange, também colaborou no estudo ao desenvolver um experimento crucial. Ele demonstrou que os tempos de reação variavam drasticamente dependendo da preparação atencional do sujeito. Se a atenção estivesse focada no movimento de resposta que o dedo faria (reação muscular), o tempo era curto (cerca de 125 ms), pois funcionava como um “reflexo cerebral” que pulava a apercepção. Se o foco estivesse direcionado ao estímulo sensorial que iria surgir (reação sensorial), o tempo era cerca de 100 ms mais longo, pois envolvia o circuito completo da mente consciente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O terceiro experimento foi desenvolvido por Martin Trautscholdt, um dos estudantes de doutorado de Wundt. Ele estudava a associação de ideias. No seu estudo, o sujeito era instruído a pressionar uma tecla no momento exato em que uma ideia associada surgisse em sua consciência a partir de um estímulo visual ou auditivo. Ao subtrair o tempo que o sujeito levava para simplesmente reconhecer a palavra estimulante, Trautscholdt conseguiu quantificar o tempo gasto pela mente para realizar a conexão associativa propriamente dita que, segundo Trautscholdt, variava entre 706 e 874 ms. Wundt também adaptou a técnica de associação de palavras de Francis Galton, limitando a resposta do sujeito a apenas uma única palavra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O quarto e último experimento que será apresentado é relacionado a acordes musicais. Nele, sujeitos ouviam tons isolados no piano, que seriam as sensações puras, e depois os mesmos tons tocados simultaneamente. Os participantes descreviam em detalhes a transição afetiva de como a fusão física das frequências dava origem a um produto inteiramente novo na consciência, que seria o sentimento estético de harmonia e prazer decorrente de uma síntese criadora. Wundt conduzia vários experimentos em estética experimental, tal qual seu colega Fechner.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Arquitetura da Mente: Elementos, Fusão e Síntese Criadora ===&lt;br /&gt;
Segundo Wundt, a experiência pode ser decomposta em elementos simples, que incluem as sensações e os sentimentos simples. Os sentimentos, por sua vez, são entendidos a partir da teoria tridimensional dos sentimentos, onde eles se distribuem em um espaço qualitativo entre os polos prazer/desprazer (Lust-Unlust), tensão/relaxamento (Spannung-Lösung) e excitação/depressão (Erregung-Beruhigung). A primeira é a mais evidente, se refere à avaliação afetiva primária da experiência. A segunda se relaciona ao esforço da atenção ou à preparação interna da mente. Já a terceira está relacionada ao nível de ativação biológica e psicológica do organismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esses aspectos todos são organizados através do mecanismo de fusão (Verschmelzung), onde as qualidades elementares se fundem em complexos psíquicos. O conceito central aqui é o princípio da síntese criadora (schöpferische Synthese). Ao contrário do associacionismo britânico, Wundt afirma que o todo resultante possui propriedades que não estão contidas na mera soma das partes. Essa síntese não é um processo mecânico passivo, mas um ato aperceptivo ativo, vinculado à vontade. Na mente humana, a combinação de elementos gera um valor novo e qualitativamente superior, marcando a distinção fundamental entre a causalidade psíquica e a mecânica física.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em termos simples, a síntese criadora estabelece que os complexos psíquicos, como representações, sentimentos compostos e afetos, embora formados pela união de elementos simples (sensações e sentimentos simples), possuem características qualitativas inteiramente novas que não pertencem a nenhum de seus elementos constituintes isolados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fusão é o processo ativo e primário de integração psíquica. É através dela que os elementos sensoriais e afetivos brutos são ativamente sintetizados pela mente para dar origem a uma nova unidade psicologicamente complexa. A fusão é a geradora da síntese criadora. Para Wundt, a síntese criadora é a prova cabal da causalidade psíquica. Ela monstra que os fenômenos mentais obedecem a leis de conexão e geração próprias que não se ajustam às leis da física ou da fisiologia mecânica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Observemos isso com um exemplo já apresentado. Se você tocar no piano as notas Dó, Mi e Sol isoladamente, você terá apenas a experiência de três sensações auditivas distintas. No entanto, quando essas notas são tocadas simultaneamente, a fusão de seus elementos gera na consciência uma experiência qualitativamente nova, que seria um acorde musical. O sentimento de harmonia e a qualidade estética do acorde são um produto da síntese criadora, pois não existiam em nenhuma das notas isoladas e surgem puramente da atividade unificadora da mente sobre o estímulo físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Paralelismo Psicofísico e Causalidade Psíquica ===&lt;br /&gt;
O paralelismo psicofísico foi um dos conceitos mais importantes e debatidos no século XIX durante o processo de fundação da psicologia científica. Ele surgiu como uma alternativa teórica para solucionar o clássico problema mente-corpo. O conceito foi formulado de forma a tanto o dualismo substancial, que dividia o ser humano em duas substâncias isoladas cuja forma de interação era desconhecida, quanto o materialismo reducionista, que reduzia a mente a uma mera secreção cerebral ou processo físico ou fisiológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para Fechner, o paralelismo era a manifestação de um monismo neutro, ou teoria de duplo aspecto. Ele defendia que a matéria (corpo) e o espírito (mente) não são substâncias diferentes, mas sim dois modos de aparência ou perspectivas distintas de uma única e mesma realidade subjacente, teoria sobre o qual fundamental grande parte de seu projeto científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt também adotou o termo paralelismo psicofísico, mas realizou uma redefinição epistemológica radical do conceito, visando se afastar da metafísica. Ele rejeitava categoricamente qualquer tentativa de transformar o paralelismo em uma doutrina ontológica sobre a natureza última da realidade, transformando-o estritamente um postulado metodológico e heurístico indispensável para a investigação científica. Os processos mentais não sejam reduzidos a processos fisiológicos ou neurais, pois a consciência obedece a leis de conexão próprias, como a causalidade psíquica, que não podem ser explicadas pelas leis da mecânica cerebral.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O que Aconteceu Depois? ===&lt;br /&gt;
No final de sua vida, Wilhelm Wundt era visto de forma ambivalente. Enquanto mantinha o prestígio de fundador da psicologia científica, uma nova geração de psicólogos que buscava se firmar, via como um “pai tribal”, cujo longo domínio de mais de quatro décadas estava desgastado. Ele se tornou o alvo de críticas severas e passou a ser tratado por muitos como o ícone de um passado superado e falido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante a Primeira Guerra Mundial e nos anos que a sucederam, a reputação internacional de Wundt sofreu graves danos. Influenciado por seu filho Max, Wundt adotou posturas políticas ultranacionalistas, chegando a usar a Völkerpsychologie de maneira tendenciosa para criticar os inimigos da Alemanha. Essa postura inflamou um forte preconceito anti-alemão, especialmente nos Estados Unidos, onde ex-alunos e intelectuais americanos passaram a ver ele como uma mente maligna e autoritária, acelerando a rejeição de suas obras em solo estrangeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A maior frustração de Wundt no fim da vida ocorreu no âmbito acadêmico alemão. Ele sempre defendeu que a psicologia era uma ciência propedêutica e uma aliada indispensável da filosofia, devendo permanecer integrada a esta. No entanto, os filósofos acadêmicos de sua época, especialmente os neokantianos e fenomenologistas, rejeitaram veementemente o  que chamavam de “psicologismo de Wundt”, ou seja, a redução da lógica e da validade do conhecimento a fatos psicológicos. Em 1913, após a contratação de um psicólogo experimental para a cadeira de filosofia em Marburg, mais de cem professores de filosofia assinaram um protesto público exigindo que psicólogos fossem banidos dos departamentos de filosofia. Esse movimento resultou no progressivo divórcio institucional entre a psicologia e a filosofia, uma separação que Wundt lamentou e combateu até a sua morte em 1920.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir da década de 1890, uma forte onda de positivismo, inspirada pela filosofia de Ernst Mach e Richard Avenarius, varreu a psicologia experimental. Jovens psicólogos, incluindo os assistentes do próprio Wundt, rejeitaram conceitos fundamentais do sistema de Leipzig, como a apercepção, a causalidade psíquica e a síntese criadora, tomando eles como metafísica, exatamente o oposto do que desejava seu formulador. Eles preferiam um modelo elementarista e reducionista, focado na descrição de relações funcionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos EUA, a influência da teoria da evolução de Darwin deslocou o interesse da estrutura da consciência para as suas funções de adaptação ao meio, o chamado funcionalismo. Com o surgimento e o fortalecimento do behaviorismo e a eliminação da mente como objeto de estudo, o voluntarismo de Wundt perdeu qualquer espaço. Na Europa, a própria psicologia da Gestalt ergueu-se combatendo o elementarismo que havia sido falsamente associado a Wundt. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O golpe final veio após a Primeira Guerra Mundial, quando a Alemanha mergulhou em colapso econômico. Diante da “crise da psicologia”, os pesquisadores precisaram provar a utilidade prática da ciência que praticavam para sobreviver, o que já acontecia nos EUA, voltando-se para a psicologia militar, industrial, educacional e clínica. Wundt, que sempre desprezou a psicologia aplicada, teria visto seu sistema dinâmico de laboratório perder todo o fôlego diante das pressões pragmáticas da época, ainda que mantivesse sua fama e sua alcunha maior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia Científica na Inglaterra ==&lt;br /&gt;
O surgimento da psicologia na Inglaterra seguiu um caminho bastante distinto do modelo laboratorial alemão, focado na introspecção e na busca de leis universais. A psicologia britânica formou-se na intersecção de duas grandes forças intelectuais, que são as filosofias empirista e associacionista, e a biologia evolutiva. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No empirismo, pensadores como John Locke postularam que a mente humana nasce como uma tabula rasa ou uma folha em branco, e que absolutamente todo o conhecimento deriva da experiência sensorial. No associacionismo, filósofos como David Hume, James Mill e John Stuart Mill afirmavam processos mentais complexos são formados pela associação contínua de ideias simples e sensações, governadas por leis lógicas. tais como similaridade, contiguidade e causa e efeito. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A despeito de sua rica tradição filosófica, o maior divisor de águas para a ciência britânica foi a publicação de A Origem das Espécies, em 1859. A teoria da evolução natural de Darwin, trouxe novas e profundas questões para o estudo da mente britânica. Se humanos e animais compartilham ancestrais comuns, argumentava-se que deveria haver uma continuidade não apenas física, mas também mental entre as espécies, conectando a psicologia ao estudo da zoologia, dando origem à Psicologia Comparada. Além disso, a mente e a consciência deixaram de ser vistas apenas como objetos metafísicos e passaram a ser estudadas como ferramentas biológicas de adaptação, que evoluíram porque ajudavam o organismo a sobreviver em seu ambiente, sendo fundamental para a criação do funcionalismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a validação da biologia evolutiva, o estudo da inteligência animal explodiu no Reino Unido, George Romanes foi um dos primeiros a tentar sistematizar o comportamento animal. Contudo, seu método anedótico foi duramente criticado por ser antropomórfico, ou seja, por atribuir pensamentos e emoções humanas complexas a animais. Seu colega Conwy Lloyd Morgan introduziu mais rigor científico à área através do que ficou mundialmente conhecido como o Cânone de Morgan, ou princípio da parcimônia. A regra dizia que um comportamento animal não deve ser interpretado como resultado de uma faculdade mental superior se puder ser explicado por um processo psicológico mais básico, como o instinto ou o aprendizado por tentativa e erro. Apesar de a perspectiva de ambos ter sido abandonada, a Psicologia Comparada se tornou um dos principais ramos da psicologia moderna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Francis Galton e a Psicologia Diferencial ===&lt;br /&gt;
Francis Galton (1822-1911) foi um cientista e polímata britânico de inteligência extraordinária, com um QI estimado por volta de 200, algo extremamente raro, além de ser primo de Charles Darwin. Galton é amplamente reconhecido como pioneiro ao incorporar o estudo sistemático das diferenças individuais e da herança mental na nova psicologia, uma área que era ignorada ou rejeitada por pioneiros experimentalistas como Wilhelm Wundt.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Galton interessou-se pela medição das variações da inteligência e das capacidades humanas. Ele fundou um laboratório antropométrico onde testou a acuidade sensorial, a força e os tempos de reação de milhares de pessoas. Além disso, baseando-se na premissa empirista de John Locke de que todo o conhecimento vem da percepção, Galton assumiu que os indivíduos mais inteligentes seriam aqueles com as capacidades sensoriais e motoras mais aguçadas. Ele foi o inventor do conceito de testes mentais, termo posteriormente cunhado por seu aluno dos EUA, James McKeen Cattell. Galton também desenvolveu o método experimental de associação de palavras, medindo o tempo de reação mental e demonstrando a enorme influência das experiências da infância e do inconsciente no pensamento adulto, um trabalho que impressionou profundamente Sigmund Freud. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também foi um dos primeiros a fazer uso amplo do questionário psicológico para investigar imagens mentais, constatando para sua própria surpresa que a maioria dos cientistas relatava ausência de imagens mentais nítidas, em contraste com relatos muito mais detalhados fornecidos por mulheres e crianças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para conduzir medições em larga escala, ele inventou vários instrumentos clássicos e, para analisar suas enormes bases de dados, Galton desenvolveu conceitos estatísticos fundamentais, como a correlação. Essa tradição quantitativa foi depois aperfeiçoada por outros britânicos, como Charles Spearman, criador da análise fatorial e do conceito de fator g de inteligência geral, fundando a base da psicometria moderna. e influenciando de forma decisiva a psicologia dos testes nos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Conclusão ==&lt;br /&gt;
A história da psicologia é definida pelo paradoxo de ter um “longo passado” e uma “curta história”, podendo ir do De Anima de Aristóteles até a a fundação do laboratório de Wilhelm Wundt na Universidade de Leipzig, em 1879. A psicologia, assim, mostra que tem uma rica história, com muitos personagens, conceitos e acontecimentos importantes, de modo que qualquer narrativa sobre sua composição elegerá heróis e vilões, dará mais relevância para alguns, menos para outros e o esquecimento para a maioria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O texto propõe que Immanuel Kant foi uma figura central na composição da psicologia científica. Ele propôs que a mente humana é um agente ativo que organiza o conhecimento através de estruturas a priori, tais como o tempo, o espaço e as categorias do entendimento. Assim, ele introduziu o conceito de “sujeito transcendental” como a estrutura universal que garante a unidade da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Kant impôs um “veto” ao status científico da psicologia, defendendo a base na matematização. A superação desse veto ocorreu através da “naturalização” de Kant pela fisiologia. Johannes Müller, com a Teoria das Energias Nervosas Específicas, mostrou que a sensação é mediada pelo sistema nervoso, não sendo uma cópia fiel do mundo externo. Hermann von Helmholtz avançou essa ideia ao postular que as estruturas a priori de Kant seriam, na verdade, características da anatomia e fisiologia humanas. Ele propôs o conceito de “inferências inconscientes” para explicar como interpretamos dados sensoriais. Nesse contexto, Friedrich Albert Lange defendeu uma “psicologia sem alma”, rejeitando a metafísica e argumentando que o estudo científico deve focar apenas nas aparências e fenômenos observáveis, reduzindo o objeto da psicologia a dados empíricos e correlações fisiológicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner foi crucial ao oferecer a base matemática e experimental que faltavam, por meio da Lei de Weber-Fechner. Ele também padronizou e melhorou métodos para o estudo dos limites e constantes sensoriais, que se tornaram a base metodológica da psicologia experimental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt não apenas fundou um laboratório, como também arquitetou um sistema complexo. Para Wundt, o objeto da psicologia é a experiência imediata, criando conceitos como voluntarismo, causalidade psíquica, apercepção, entre outros. Além disso, ele também criou a psicologia dos povos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente do foco laboratorial alemão, a psicologia britânica foi moldada pela filosofia empirista e, crucialmente, pela teoria da evolução de Charles Darwin. Neste contexto, Galton ganha destaque, por ter fundado o laboratório antropométrico, inventado o conceitos de “testes mentais”, pelo uso de estatísticas no estudo da psicologia e ter influenciado o desenvolvimento da psicometria e a análise fatorial (com Charles Spearman), consolidando uma tradição que focava mais na variabilidade genética e na inteligência do que na estrutura da consciência em si.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_surgimento_da_psicologia_cient%C3%ADfica&amp;diff=1742</id>
		<title>O surgimento da psicologia científica</title>
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		<updated>2026-09-01T22:29:25Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* A Psicologia de Wundt */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto [[Portal História da Psicologia]]) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um longo passado, uma curta história ==&lt;br /&gt;
A psicologia tem um longo passado, mas uma curta história. Esta é uma frase muito famosa no campo da história da psicologia, tendo sido consagrada por Hermann Ebbinghaus, um psicólogo alemão pioneiro no estudo da memória, ainda no século XIX. A frase é exemplar e muito usada em debates sobre a historiografia da psicologia, e isto revela como é difícil dizer quando a psicologia teve início. Ela tem um &#039;&#039;&#039;longo passado&#039;&#039;&#039;, porque os temas que consideramos hoje como parte da psicologia aparecem muitas vezes na filosofia, na religião, em saberes tradicionais, entre muitos outros lugares, ao longo da história. É difícil estabelecer qual &#039;&#039;&#039;o objeto de estudo da história da psicologi&#039;&#039;&#039;a, assim como é difícil, ao longo da história, &#039;&#039;&#039;separar o que é  psicologia daquilo que não é psicologia&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse longo passado pode remontar, por exemplo, à Antiguidade, com o tratado De Anima, de Aristóteles, que escreveu muito antes de se imaginar o próprio conceito de ciência moderna e, menos ainda, de uma psicologia moderna. Outros podem colocar o início da psicologia com Descartes, que elaborou a máxima, também famosa, “penso, logo existo”. Isso mostra que &#039;&#039;&#039;os objetos de estudo da psicologia são historicamente construídos&#039;&#039;&#039;, ou seja, emergem a partir dos locais ou pessoas que atuaram na psicologia, como na medida das diferenças individuais, as dinâmicas de controle num laboratório, nas práticas de psicoterapia, entre muitas outras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se cada historiador localiza o passado da psicologia em lugares diferentes no tempo e no espaço, a &#039;&#039;&#039;história da psicologia&#039;&#039;&#039;, por seu lado, tem uma definição bem mais estável e curta. Nos anos 1980, historiadores reunidos num congresso nos EUA definiram que &#039;&#039;&#039;a psicologia científica começou em 1879, quando [[Wilhelm Wundt]] fundou o primeiro laboratório de psicologia experimental na Universidade de Leipzig, na Alemanha&#039;&#039;&#039;. Essa definição está consagrada e é quase um consenso, porém, não foi tão simples estabelecê-la. Alguns advogavam pelo pioneirismo de outro alemão, [[Gustav T. Fechner|Gustav Theodor Fechner]], criador da chamada [[psicofísica]], de onde vieram muitos dos experimentos e ideias de Wundt. Outros ainda queriam que [[William James]], um filósofo e psicólogo americano, fosse reconhecido como fundador, pois seu laboratório de psicologia era ainda mais antigo que o de Wundt que, no final, venceu essa disputa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Resumindo, a psicologia possui um “longo passado”, com raízes filosóficas e religiosas milenares e altamente diversas, e uma “curta história” como disciplina científica, cujo marco está situado em 1879, com a fundação do primeiro laboratório experimental por Wilhelm Wundt, na Alemanha. Pelo menos é assim que, atualmente, a grande maioria dos historiadores entende a questão, uma das poucas em que há algum conceito neste campo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Presentismo ===&lt;br /&gt;
Mas o que seriam essas psicologias anteriores a essa psicologia científica? Para entender melhor essa história, é preciso refletir para superar, da melhor forma, um problema chamado &#039;&#039;&#039;presentismo&#039;&#039;&#039;, ou seja, julgar, entender, interpretar e analisar o passado com a visão do presente. Não é apenas uma questão de olhar para as pessoas do passado e superar o pensamento de que elas eram “ignorantes”, pois “não tinham o conhecimento que temos hoje”. É entender também que, no passado, haviam formas de conhecimentos diferentes, bem como visões de mundo diferentes da atual. Este é um problema fascinante. Muitos dos consensos contemporâneos, coisas que entende-se totalmente óbvias, eram vistas de forma completamente diferente no passado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo interessante é o &#039;&#039;&#039;conceito de atenção&#039;&#039;&#039;. Hoje, ela é um tema tão discutido e consensual que pouco se reflete sobre seu significado. Atualmente, seria algo como centralizar as faculdades mentais ou talvez a percepção em um ponto específico. Pode-se ouvir as pessoas reclamando da própria falta de atenção, que “não conseguem prestar atenção”, ou que nunca “mantém a atenção”, e até mesmo existem medicamentos para resolver esse problema. Contudo, a palavra “atenção” nem sempre significou o que entendemos hoje. Para [[Santo Agostinho]], atenção era apenas o ato de passar de um pensamento para outro. [[René Descartes|Descartes]] tinha um conceito mais parecido com o contemporâneo, onde a atenção era mobilizada de forma voluntária para fixar e reter na memória coisas raras e extraordinárias que o entendimento considerava úteis. Na obra de [[John Locke|Locke]], a atenção é mencionada apenas de passagem, como um mero mecanismo auxiliar da retenção de memórias. A partir do momento em que a ciência passou a entender que a percepção depende da estrutura física e biológica do corpo, com a psicofísica e a fisiologia sensorial, já no século XIX, a visão passou a ser encarada como intrinsecamente incompleta, instável e condicionada pelo tempo. Nesse contexto, a atenção foi utilizada como um substituto pragmático para garantir a coerência do mundo percebido. Autores do final do século XIX, como [[Théodule Ribot]] e [[Max Nordau]], associaram os desvios ou a fraqueza da atenção a patologias psíquicas, comportamentos sociopáticos e teorias da “degeneração”. Para eles, uma atenção defeituosa deixava a mente à mercê de “associações caóticas”, gerando uma visão borrada e distorcida da realidade. Foi apenas na década de 1950 que a nossa compreensão contemporânea de atenção começou a se delinear, paralelamente aos estudos sobre os medicamentos desenvolvidos para tratar as suas disfunções.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma pessoa desavisada, que não está atenta às grandes diferenças entre as ideias e conceitos ao longo do tempo, poderia ler um trecho de Ribot, Santo Agostinho, Descartes e outros e achar que a atenção sobre a qual eles falam é a mesma coisa que entendemos hoje. O leitor estaria totalmente enganado, a ponto de não conseguir nem mesmo compreender o que estes pensadores queriam dizer. Em outras palavras, &#039;&#039;&#039;o esforço para entender as psicologia do passado passa também pelo esforço de entender como se pensava no passado, qual a visão que se tinha nesse passado&#039;&#039;&#039;. Parte do esforço do historiador é trazer esses aspectos de volta ao presente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O sujeito transcedental de Kant ==&lt;br /&gt;
A concepção de uma psicologia ocupada especificamente com a “mente” humana e suas operações começou a ganhar contornos modernos no século XVIII com o filósofo [[Christian Wolff]]. Ele dividiu a psicologia em [[Psicologia Empírica (livro)|&#039;&#039;&#039;Psicologia Empírica&#039;&#039;&#039;]], num livro publicado em  1732 e baseada na introspecção; e em &#039;&#039;&#039;Psicologia Racional&#039;&#039;&#039;, numa obra de 1734, dedicada a deduzir a natureza e a essência da alma, como sua imortalidade e imaterialidade, de forma puramente lógica e racional, independentemente da experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, o projeto de Wolff enfrentava um sério problema metodológico: a chamada observação interna ou [[introspecção]]. Quando se estuda um fenômeno natural, como a chuva, é necessário observar tudo que está envolvido com estee fenômeno, incluindo como as nuvens se formam, qual a umidade do ar, a intensidade dos raios solares, a direção dos ventos, entre muitos outros fatores. A questão é que todos estes aspectos são &#039;&#039;&#039;externos ao sujeito&#039;&#039;&#039;. Toda a ciência é feita dessa forma, observando, testando e analisando o mundo que está fora dos indivíduos. O problema está em estudar algo que é interno aos sujeitos. Não se pode observar diretamente o que se passa na cabeça de alguém, pelo menos não por enquanto. Contudo, é possível analisar o que se passa nas nossas próprias cabeças. Isso seria a &#039;&#039;&#039;introspecção&#039;&#039;&#039;, ou seja, o processo pelo qual adquirimos conhecimento sobre nossos próprios estados ou processos mentais Apesar de ser uma ideia interessante, fazer introspecção não era considerado algo muito científico. Entendia-se que “observar a si mesmo” distorcia os eventos mentais, pois o sujeito que observa e o objeto observado são o mesmo, o que impediria a neutralidade exigida pelo modelo científico então vigente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até a segunda metade do século XVIII, as teorias do conhecimento, que incluíam o empirismo e o racionalismo, compartilhavam a premissa de que o conhecimento era determinado pelo objeto a ser conhecido. A ideia era a de que objeto estava lá, esperando a melhor forma de ser conhecido. &#039;&#039;&#039;Kant&#039;&#039;&#039;, em sua obra [[Crítica da Razão Pura (livro)|Crítica da Razão Pura]] (1781), inverteu essa lógica de forma radical. Ele propôs que &#039;&#039;&#039;não é o conhecimento que se adequa aos objetos, mas são os objetos que são determinados pelo sujeito&#039;&#039;&#039;. O conhecimento passou a ser compreendido não como uma recepção passiva, mas como uma produção ativa do chamado sujeito transcendental, moldada por suas formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;sujeito transcendental&#039;&#039;&#039; em Kant não se refere propriamente a um indivíduo empírico ou psicológico, ou seja, alguém com personalidade e história pessoal. Pense no sujeito transcendental não como “você” (André ou Maria), mas como o “sistema operacional” universal da mente humana. Assim como um software organiza os dados que chegam do teclado, convertendo eles em coisas numa tela, o sujeito transcendental organiza os dados que chegam dos sentidos, como o tempo e o espaço, antes mesmo de termos consciência deles.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o sujeito transcedental, é preciso fazer um importante exercício de abstração, visando conseguir entender algo que está além da experiência existencial individual e entender aquilo que molda essa própria experiência. O sujeito transcedental de Kant é, segundo ele próprio, uma condição universal de possibilidade para qualquer conhecimento. Em outras palavras, é algo que todas as pessoas possuem e é a forma que o ser humano tem para saber as coisas. É a estrutura ativa da mente que organiza a experiência antes mesmo que possamos refletir sobre ela. Esse sujeito é o princípio unificador que garante a coerência dos dados sensoriais, transformando o caos de impressões oriundas dos órgãos dos sentidos em uma experiência significativa e estruturada. Através das formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039; da sensibilidade (espaço e tempo) e das categorias do entendimento, o sujeito transcendental “constrói” o objeto conhecido. Ele é o “Eu penso” cartesiano, que deve poder acompanhar todas as nossas representações, conferindo unidade à consciência. Em suma, &#039;&#039;&#039;não conhecemos o mundo como ele é em si, mas como o sujeito transcendental o molda e o organiza para que se torne inteligível para nós&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Immanuel Kant revolucionou a teoria do conhecimento ao postular que a mente humana não funciona como um receptáculo passivo de impressões sensoriais, mas sim como um agente ativo dotado de estruturas constitutivas a priori que organizam, unificam e interpretam a matéria-prima da experiência. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas ideias de Kant, o processo de constituição do conhecimento dos fenômenos que chegam para nossa mente a partir dos órgãos dos sentidos articula-se em três instâncias fundamentais. A primeira são as formas puras da sensibilidade, depois vem os conceitos puros do entendimento, ou seja, as categorias e, por fim, a unidade sintética da apercepção. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas &#039;&#039;&#039;formas puras da sensibilidade&#039;&#039;&#039;, antes mesmo que o intelecto possa aplicar qualquer conceito, o caos das sensações brutas é necessariamente ordenado no espaço e no tempo, que não são propriedades das coisas em si, mas intuições puras da sensibilidade que funcionam como os eixos coordenados onde os fenômenos são dados. Ou seja, as informações dos sentidos já chegam num espaço e num tempo para o resto do processo de constituição do conhecimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma vez colocados no espaço e estruturados numa sucessão e simultaneidade temporal, esses dados passam pelas &#039;&#039;&#039;doze categorias do entendimento puro&#039;&#039;&#039;. Essas categorias se dividem em &#039;&#039;&#039;quatro classes de tríades&#039;&#039;&#039;: quantidade, qualidade, relação e modalidade. As &#039;&#039;&#039;categorias&#039;&#039;&#039; representam as regras lógicas puras, fundamentais e necessárias para tornar qualquer objeto da experiência inteligível. Elas podem ser observadas de forma simplificada na tabela a seguir:&lt;br /&gt;
{| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot;&lt;br /&gt;
|Classe de Categorias&lt;br /&gt;
|Categoria 1 (Tese)&lt;br /&gt;
|Categoria 2 (Antítese)&lt;br /&gt;
|Categoria 3 (Síntese)&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|1. Quantidade&lt;br /&gt;
|Unidade&lt;br /&gt;
|Pluralidade&lt;br /&gt;
|Totalidade&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|2. Qualidade&lt;br /&gt;
|Realidade&lt;br /&gt;
|Negação&lt;br /&gt;
|Limitação&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|3. Relação&lt;br /&gt;
|Substância e Acidente&lt;br /&gt;
|Causa e Efeito&lt;br /&gt;
|Ação Recíproca&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|4. Modalidade&lt;br /&gt;
|Possibilidade (Impossibilidade)&lt;br /&gt;
|Existência (Não-existência)&lt;br /&gt;
|Necessidade (Contingência)&lt;br /&gt;
|}&lt;br /&gt;
As categorias de quantidade dizem respeito à extensão em que aplicamos um conceito aos objetos, ou seja, “quantos” elementos estamos considerando no juízo. Na unidade, temos um único objeto. Na pluralidade, trazemos vários objetos do mesmo tipo para um conjunto. Já a totalidade surge quando pensamos a pluralidade como uma unidade completa.Vejamos um exemplo. Quando um observador vê uma maçã, aplica a categoria da unidade, ou seja, ele viu uma maçã. Ao ver várias maçãs espalhadas na mesa, apreende uma pluralidade, ou seja, ele tem um conceito de “maçãs” e as vê como um conjunto. Porém, ao formular uma lei universal, aplica-se a totalidade, que engloba toda a pluralidade possível sob uma única regra conceitual, ou seja, todas as maçãs são frutas e existem vários tipos de maçãs.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade trata da atribuição de um predicado, ou seja, se a experiência afirma algo, nega algo ou se situa num limite conceitual. Em outras palavras, é a forma da mente definir “como algo é”. A realidade é afirmação de que um predicado pertence a um ser, ou seja, ele é alguma coisa. A negação é a afirmação de que o predicado não pertence a algo, ou seja, um “não-ser”. A limitação é a síntese das duas anteriores. Atribui-se uma negação como se fosse uma realidade, excluindo aquilo de uma esfera, mas deixando infinita a esfera onde ele pode estar. Vamos a um exemplo. Dizer “O homem é mortal” aplica a categoria de realidade (afirma-se um atributo). Dizer “O homem não é mortal” aplica a negação. No entanto, dizer “A alma é não-mortal (imortal)” é um juízo infinito clássico de Kant que evoca a limitação. Não sabemos o que a alma é de fato, mas a limitamos removendo ela da esfera das coisas mortais, o que a situa num campo aberto e indeterminado de possibilidades.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Consideradas por muitos comentadores como o coração da epistemologia kantiana, as categorias de relação definem como os objetos se relacionam entre si e como permanecem ou mudam no tempo. Substância e Acidente referem-se àquilo que permanece através da mudança (substância) e as propriedades que são transitórias, ou seja, que mudam (acidentes). Um exemplo disso é a água de um lago que congela no inverno. Seu estado físico muda do líquido para o sólido, que é o acidente, mas a matéria da água em si, a substância, permanece inalterada. Sem a categoria de substância, nossa mente registraria apenas uma sucessão caótica de imagens, sem reconhecer que se trata da mesma “coisa” sofrendo alteração. A Causa e Efeito é a relação estritamente necessária onde um evento segue outro no tempo. O exemplo de Kant, em resposta ao filósofo David Hume, é sobre o sol que ilumina uma pedra, e a pedra esquenta. Hume diria que inferimos causalidade por mero hábito psicológico, ou seja, não há conexão necessária, apenas uma observação e uma intuição. Kant argumenta que o próprio fato de distinguirmos uma sucessão objetiva de eventos exige que a mente aplique a categoria a priori de Causalidade. A mente “dita” a regra estrutural de que o aquecimento necessariamente sucede a irradiação solar, colocando uma como causa da outra. Já na Ação Recíproca (Comunidade), tem-se a relação simultânea de mútua influência entre múltiplas substâncias no espaço como, por exemplo, a interação gravitacional entre a Terra e a Lua. Elas não são eventos sucessivos no tempo, mas existem simultaneamente e influenciam-se de modo contínuo e bidirecional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, temos as categorias modais. Eles são os Postulados do Pensamento Empírico e não acrescentam nenhum atributo novo ao objeto em si, mas definem exclusivamente como esse objeto ou evento se relaciona com o sujeito cognitivo e suas faculdades. No caso da Possibilidade-Impossibilidade, é algo que concorda com as condições formais, que são as condições lógicas e puras da experiência. No binômio Existência-Não-existência, é algo que está dado materialmente na intuição empírica, ou seja, nos sentidos. Já na Necessidade-Contingência, é algo cuja conexão com a experiência empírica está determinada por condições universais. Vamos a um exemplo. Um dragão voador de escamas verdes ou um triângulo cujos ângulos somam 180 graus são conceitos logicamente possíveis, ou seja, não envolvem contradição formal. No entanto, apenas um objeto sensorialmente verificável, como a caneta sobre a sua mesa, tem a marca da existência. Já o fato de que um objeto massivo abandonado no ar cairá em direção ao solo é uma necessidade ditada pelas leis empíricas que o entendimento prescreve à natureza, ou seja, atribui a ele.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Acima dessas estruturas, Kant postulou a apercepção ou apercepção transcendental, que é o processo pelo qual a mente unifica de forma ativa diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Sem a apercepção, a mente seria apenas um amontoado de estímulos desconectados. Assim, a aperceção a base da própria consciência humana. Devido a essa complexa mediação ativa da mente, Kant estabeleceu uma distinção insuperável entre o mundo externo e a mente. Isso significa dizer que nós não temos acesso à “coisa em si”, ou noumenon, mas apenas a como as coisas nos aparecem, ou seja, na forma de fenômeno, já devidamente processadas pelo nosso aparato cognitivo. Neste sentido, É importante distinguir o “Eu empírico”, ou seja, aquilo que observamos em nós mesmos, como nossa personalidade ou o nosso humor, do “Eu transcendental”, a pura unidade lógica do “Eu penso”. Ademais, a apercepção transcendental não é uma faculdade psicológica de “prestar atenção”, mas uma exigência lógica. Para que uma experiência seja minha, o “Eu penso” deve poder acompanhar todas as minhas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Os Vetos Kantianos à Psicologia Científica ===&lt;br /&gt;
Apesar de ter colocado o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que conhece, no centro do universo epistemológico, Kant foi muito crítico sobre a possibilidade de a psicologia se tornar uma ciência. Em sua obra Princípios metafísicos da ciência da natureza, de 1786, ele negou a possibilidade de uma psicologia científica, pois afirmou que uma disciplina só poderia Sê-lo se possuísse uma elaboração racional capaz de fornecer leis formuladas matematicamente, o que poderia ser chamado de veto matemático. A psicologia falhava nesse critério porque os eventos mentais possuem apenas a dimensão do tempo, sem nenhuma extensão espacial, o que impossibilitaria a sua matematização. Para Kant, assim como o espaço é a forma do sentido externo, o tempo é a forma pura do sentido interno. Como os estados mentais só se dão na sucessão do tempo (sem extensão espacial), eles não formam figuras nem podem ser medidos geometricamente, inviabilizando a matemática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Kant apontou a impossibilidade de isolar diferentes pensamentos para a realização de experimentos controlados. Assim, como não podemos acessar o que seria o conteúdo da mente, cercá-la e analisá-la como ela é em seu estado bruto ou natural, qualquer experimentação seria impossível, o que poderia ser chamado de veto do objeto. Por fim, ele reforçou a crítica que já era direcionada a Wolff, aquele do começo dessa seção. A introspecção como método, segundo Kant, seria inviável porque a própria tentativa de observar um fenômeno interno altera o fenômeno, o veto metodológico. Se tento observar minha própria tristeza, por exemplo, o fenômeno original desaparece e se transforma em “tristeza-sendo-observada-por-mim”, misturando sujeito e objeto de tal maneira que corrompe a objetividade. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A impossibilidade de uma psicologia científica não significava, contudo, a impossibilidade de estudar a mente e o comportamento. Kant trabalhou e lecionou com o que chamou de Antropologia Pragmática. Enquanto a psicologia empírica tentava, em vão, segundo ele, ser uma ciência exata, a antropologia pragmática estudava “o que o homem, como ser livre, faz, ou pode e deve fazer de si mesmo”. Era um estudo prático do comportamento, das paixões, da memória e da cognição, focado na vida em sociedade. De certo modo, pode-se dizer que Kant fechou a porta para a psicologia mecanicista, ou ainda, uma psicologia como ciência exata, mas ajudou a abrir uma janela imensa para as ciências humanas e sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Emergência do Neokantismo Fisiológico e as Primeiras Aproximações para a Psicologia Científica ==&lt;br /&gt;
A primeira metade do século XIX na Alemanha foi inicialmente dominada pelo Idealismo Pós-Kantiano (Hegel, Fichte, Schelling), que propunha sistemas metafísicos grandiosos onde a realidade era essencialmente racional e espiritual. Contudo, a partir da década de 1850, o forte avanço das ciências naturais, como a fisiologia e a química, gerou uma importante reação materialista, consolidados nas figuras de Feuerbach, Vogt, Büchner e outros, que passaram a ridicularizar a filosofia idealista como mera especulação vazia. A metafísica, vista como uma das glórias da filosofia e do pensamento humano, passou a ser vista cada vez mais como um discurso com pouco ou nenhum lastro na realidade. Essa mudança foi muito importante para a história da psicologia científica, pois foi devido a esse contexto que foram formulados os primeiros experimentos voltados para o que seria, no futuro, a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Johannes Müller e a Teoria das Energias Nervosas Específicas ===&lt;br /&gt;
Neste período, a fisiologia se estabeleceu como uma ciência rigorosa e extremamente respeita, liderada por figuras como Johannes Müller. Müller, professor na Universidade de Berlim, publicou seu Manual de Fisiologia Humana (1833-1840), que sistematizou o conhecimento fisiológico da época e transformou a compreensão da percepção. Até o final do século XVIII, ela era explicada pela Teoria da impressão da sensação, derivada da física newtoniana e do empirismo britânico. Esse modelo assumia que o sistema nervoso era um meio homogêneo e passivo que simplesmente “transportava” as qualidades dos objetos externos para a mente, como se a sensação fosse uma cópia exata do estímulo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Johannes Müller revolucionou esse entendimento ao formular a Teoria das energias nervosas específicas (1826). Ele provou, através de experimentos, que a estimulação de um determinado nervo sensorial sempre provoca uma sensação característica e exclusiva daquele nervo, independentemente da natureza do estímulo físico externo. Em outras palavras, a qualidade da sensação não pertence ao objeto físico, mas sim à estrutura do próprio aparato sensorial humano. O mesmo estímulo pode produzir sensações completamente diferentes dependendo de qual via nervosa é ativada. Por exemplo, ao aplicar sal na pele, na língua e nos olhos, as sensações serão totalmente distintas, todas diretamente relacionadas às especificidades do aparelho sensorial que foi ativado. É importante entender que isso não acontece por conta da especificidade das características do estímulo, como o sal ser “salgado”. A pele produz apenas sensações táteis, ainda que o estímulo não seja tátil. Isso cria um problema de confiança naquilo que percebemos sensorialmente, pois mostra que os órgãos não enviam apenas propriedades dos objetos, mas antes operam apenas de modo específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Müller, por meio de experimentos, mostrou que os objetos físicos projetam imagens invertidas na retina, mas nós os percebemos na posição correta. Ele mostrou também que, embora as imagens projetadas nas duas retinas sejam levemente diferentes, o cérebro as unifica em uma única imagem tridimensional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas descobertas trouxeram Kant para o terreno da biologia, inclusive pelo próprio Müller que, apesar de não ser neokantiano, viu suas descobertas científicas influenciarem profundamente a primeira geração deles. O sistema nervoso não é um receptor passivo, antes, ele medeia, molda e traduz ativamente a realidade externa. A sensação deixou de ser vista como uma cópia do mundo e passou a ser um enigma, que pode ser analisado a partir da seguinte pergunta: “o que existe entre o estímulo físico e a sensação subjetiva?”. Este é o mundo do primeiro projeto de psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Hermann von Helmholtz e o Neokantismo Psicofisiológico ===&lt;br /&gt;
A ponte definitiva entre a epistemologia kantiana e a prática laboratorial foi construída por um antigo aluno de Johannes Müller, Hermann von Helmholtz (1821-1894). Ele colaborou no desenvolvimento do neokantismo psicofisiológico ou neokantismo fisiológico. Ele entendeu que as descobertas de seu professor forneciam a base material exata para a teoria do conhecimento de Kant. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1855, Helmholtz argumentou que as estruturas a priori propostas por Kant como condições de possibilidade da experiência eram, na verdade, características da anatomia e da fisiologia do aparato perceptivo humano. Ao “naturalizar” a filosofia de Kant, Helmholtz formulou a sua teoria dos signos, que postula que nossas sensações e percepções não são cópias diretas da realidade, mas sim símbolos ou signos gerados pelo nosso sistema nervoso em resposta aos estímulos. Para explicar como construímos uma imagem coerente e espacial do mundo a partir desses signos neurológicos isolados, Helmholtz introduziu o conceito de inferências inconscientes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo essa teoria, a mente realiza uma série de ajustes e cálculos automáticos, baseados na experiência e na aprendizagem contínua, para interpretar os dados sensoriais. A percepção de profundidade, a posição espacial e a resolução de duas imagens retinianas em uma única visão estereoscópica não são inatas, como defendia o nativismo de Ewald Hering ou o próprio Müller, mas são aprendidas empiricamente através do movimento do corpo e da repetição das sensações. O espaço perceptivo atua como uma linguagem que a mente usa para interpretar os dados fisiológicos brutos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com isso, Helmholtz fundou o projeto de uma psicologia fisiológica autônoma, diferente da psicologia filosófica discutida na época. Ele concordou com Kant que a introspecção tradicional era um método falho, que podia conduzir a ilusões porque o observador só capta a superfície consciente do pensamento. A solução de Helmholtz foi submeter o sujeito da experiência a condições de laboratório rigorosamente controladas. Se as condições da percepção dependem de mecanismos fisiológicos, então a única forma de fazer epistemologia científica é através da experimentação fisiológica e da ótica. O sujeito do conhecimento tornou-se, assim, um objeto, que poderia ser manipulado e analisado em laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Suas contribuições não acabam por aí. Antes das pesquisas de Helmholtz, a comunidade científica acreditava que o impulso nervoso era instantâneo ou rápido demais para ser mensurado. Em 1850, estimulando um nervo motor na perna de uma rã e medindo o tempo da contração muscular, ele obteve o registro da velocidade de condução neural, que é de aproximadamente 27 metros por segundo, provando que havia “algo” entre o estímulo e a percepção que poderia ser analisado cientificamente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também mediu o tempo de reação de nervos sensoriais em humanos. Essa descoberta provou que o pensamento e o movimento corporal não ocorrem simultaneamente, mas são separados por um intervalo de tempo mensurável. Essa foi a base que abriu caminho para os experimentos de tempo de reação e cronometria mental que dominariam o laboratório de Wundt décadas depois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== F. A. Lange e o Projeto de uma “Psicologia Sem Alma” ===&lt;br /&gt;
O segundo pilar desse “retorno a Kant”, também de matriz fisiológica, foi erguido pelo filósofo e sociólogo Friedrich Albert Lange (1828-1875). Lange foi uma figura central na “controvérsia materialista” que agitava a Alemanha. Ele rejeitava tanto os “delírios” dos sistemas idealistas metafísicos quanto o reducionismo ingênuo do materialismo científico de Vogt e Büchner. Em sua influente obra História do Materialismo, de 1866, Lange defendeu que a limitação proposta por Kant é absoluta, ou seja, não temos e nem nunca teremos acesso à essência última da realidade, às coisas em si. Nosso conhecimento se restringe aos efeitos das coisas, ou seja, os fenômenos, que nos aparecem totalmente moldados pela nossa organização mental e neurológica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Lange argumentou que a impossibilidade de conhecer a essência não impede o estudo científico rigoroso das “aparências”, ou seja, sobre como as coisas nos aparecem. Para viabilizar esse estudo, Lange atacou as psicologias filosóficas do passado, que versavam debates que ele ele entendia estéreis sobre a natureza, a imortalidade e a substancialidade da “alma”. Para Lange, a alma era um conceito vazio, um “mito antigo” que forçava a psicologia a operar sobre pressupostos metafísicos inverificáveis. Em resposta, ele propôs a criação de uma psicologia sem alma, ou, em outras palavras, uma psicologia sem metafísica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste novo paradigma, o objeto de estudo da psicologia deveria ser reduzido aos dados empíricos observáveis, incluindo a sensação, a percepção, a ação e a linguagem, sempre buscando o seu correlato fisiológico. Lange rejeitou a introspecção puramente filosófica, pois a auto-observação isolada é privada, não pode ser repetida, não permite a presença de observadores externos e leva invariavelmente a ilusões verbais. Segundo ele, essa introspecção conduzia o pesquisador a substancializar conceitos como “vontade” ou “pensamento”, sem nenhum lastro empírico ou experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A única saída para a psicologia tornar-se verdadeiramente científica era abraçar a metodologia das ciências naturais. Apoiando-se no trabalho de Helmholtz e nas medições pioneiras de psicofísicos como Ernst Weber e Gustav Fechner, Lange prescreveu que a psicologia deveria investigar as leis fisiológicas da percepção e medir a correlação exata entre estímulos físicos e respostas sensoriais, como nos tempos de reação e nos limiares diferenciais. A psicologia passava a ser entendida não como a ciência do espírito transcendente, mas como a ciência psicofisiológica que estuda experimentalmente as condições de possibilidade da experiência, trazendo o sujeito transcendente de Kant para uma fisiologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fechner e a Fundação da Psicofísica ===&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner (1801–1887) foi um físico e metafísico alemão e antigo aluno de Weber. Apesar de não ser um neokantiano, ele tem uma importância fundamental para este momento da fundação da psicologia experimental, tendo sido citado e adotado por neokantianos. Ele assumiu a prestigiada e importante cadeira de física da Universidade de Leipzig em 1834, enquanto produzia sátiras sobre temas metafísicos e artísticos sob um pseudônimo. Após uma série de experimentos em que observava diretamente o Sol, feriu gravemente suas retinas, evento que o conduziu a um colapso físico e mental. Teve uma recuperação milagrosa em 1843, quando tentou observar flores em seu jardim e, por meio de uma experiência mística, observou que a natureza brilhava de dentro para fora, de onde concluiu que o universo era dotado de alma e consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esssa experiência decisiva levou-o a dedicar sua vida ao combate do materialismo científico, que ele denominava visão noturna, que via o mundo como uma matéria inerte e sem vida. Já a sua visão diurna entendia que a matéria era a manifestação da consciência universal divina, uma cosmovisão espiritualista que pode ser entendida como panpsiquista, ou seja, todos os corpos físicos possuem uma forma de alma. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi buscando provar sua visão que Fechner entendeu que poderia provar empiricamente a relação entre a mente (ou o espírito) e o corpo (ou a matéria) se encontrasse uma relação matemática constante entre a intensidade do estímulo físico e a magnitude da sensação psíquica correspondente. Isso porque Fechner percebeu que um aumento na intensidade do estímulo físico não gerava um aumento equivalente e proporcional na sensação subjetiva. A relação não era linear, mas sim proporcional, pois o estímulo físico aumentava em uma progressão geométrica, enquanto a sensação psíquica crescia em uma progressão aritmética. Por exemplo, acrescentar o som de um sino a outro que já está tocando gera um forte impacto perceptivo, pois é possível distinguir claramente que passou-se de um para dois sinos. Já acrescentar um sino a uma dezena deles produz uma alteração quase imperceptível. A sensação dependia, portanto, do nível de estimulação já existente no sistema.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para dar sustentação empírica à sua teoria, Fechner apropriou-se dos trabalhos experimentais realizados por Weber, que havia formulado a teoria da diferença mínima perceptível, demonstrando que a sensibilidade humana não avaliava diferenças absolutas entre estímulos, mas sim relações relativas ou proporcionais. Weber observou que, ao levantar pesos, os sujeitos conseguiam detectar uma variação mínima correspondente a uma fração constante de aproximadamente 1:40 em relação ao peso padrão. Essa constância proporcional é descrita pela chamada Lei de Weber:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
II=K&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde I representa a intensidade do estímulo padrão (que aparecerá como R posteriormente), ΔI é o acréscimo mínimo necessário para produzir uma mudança perceptível na sensação e k é uma constante matemática específica para cada modalidade sensorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Fechner percebeu que essa fração constante (ΔI/I) correspondia à unidade de medida da sensação subjetiva (dS). Utilizando o cálculo infinitesimal, Fechner integrou matematicamente a equação de Weber, assumindo que todas as diferenças mínimas perceptíveis eram subjetivamente iguais entre si. Essa operação matemática resultou na célebre Lei de Fechner ou Lei de Weber-Fechner:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
S = k Log R&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde S representa a magnitude da sensação subjetiva (qualidade mental), R representa a intensidade física do estímulo (qualidade material) e K é uma constante experimental ajustada a cada sentido. Essa fórmula logarítmica foi construída para mostrar que, para a sensação aumentar linearmente, o estímulo físico precisava crescer exponencialmente, estabelecendo uma relação exata e mensurável entre o psíquico e o físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para aplicar sua fórmula, Fechner sistematizou dois conceitos fundamentais que estruturam as medições psicofísicas. A primeira é o limiar absoluto, ou seja, o ponto de intensidade física mínima abaixo do qual o estímulo não é detectado pelo sujeito e acima do qual a sensação passa a ser percebida. Outro conceito é o de limiar diferencial, que é a quantidade mínima de alteração ou variação que deve ser aplicada a um estímulo para que o sujeito seja capaz de discriminar uma mudança na sensação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um desdobramento fascinante da Lei de Fechner ocorreu quando o estímulo físico apresentava valores abaixo do limiar absoluto (R&amp;lt;1), resultando em valores negativos para a sensação (S). Fechner definiu esses valores como sensações negativas ou subliminares, postulando a existência de processos mentais ativos abaixo do limiar da consciência desperta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para determinar com precisão científica os limiares absolutos e diferenciais, Fechner desenvolveu e padronizou três metodologias experimentais rigorosas, que se tornaram os pilares metodológicos de toda a psicologia experimental posterior. No Método do Erro Médio ou do Ajuste, o próprio sujeito experimental manipula ativamente um instrumento para ajustar um estímulo variável até que sinta que este se iguala a um estímulo padrão constante. A média dos desvios entre os ajustes do sujeito e o padrão real define o erro de observação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já no Método do Estímulo Constante ou dos Casos Corretos e Incorretos, o pesquisador apresenta de forma aleatória uma série de estímulos pré-determinados e constantes em comparação com um estímulo padrão. O sujeito deve julgar se o estímulo de comparação é maior, menor ou igual ao padrão, medindo-se a proporção estatística de acertos. Por fim, no Método dos Limites ou das Diferenças Mínimas Perceptíveis, dois estímulos são apresentados ao sujeito. Um deles é aumentado ou reduzido sistematicamente em passos discretos e graduais, e o sujeito relata o momento exato em que deixa de perceber ou passa a perceber a diferença entre ambos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1860, Fechner publicou seu livro monumental, Elementos de Psicofísica, que alguns entendem ser o primeiro sobre a psicologia científica experimental. Ao fornecer à psicologia técnicas de medição coerentes e precisas, Fechner provou de forma contundente que a mente humana era passível de investigação científica e experimental, sepultando em definitivo o antigo veto imposto por Immanuel Kant, em pleno momento de desenvolvimento do Neokantismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Incomodados com as inclinações metafísicas e espiritualistas de Fechner, os psicólogos experimentais subsequentes, sob a liderança de Wilhelm Wundt, rejeitaram completamente o panpsiquismo entre outras ideias, apropriando-se exclusivamente de seus métodos quantitativos de laboratório para estabelecer a psicologia como uma ciência empírica e natural. Como bem observou o historiador Edwin G. Boring, Fechner agiu como um “Colombo que descobriu um Novo Mundo (a psicologia científica) enquanto procurava pelas antigas Índias (a prova de sua metafísica)”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Resumindo ===&lt;br /&gt;
A intersecção entre a epistemologia kantiana, a fisiologia de Müller e a reformulação promovida por Helmholtz e Lange constituiu o início daquilo que tornou possível a psicologia científica. Kant havia mostrado que o sujeito constrói ativamente a realidade, mas negou que esse sujeito pudesse ser estudado matematicamente ou experimentalmente. Müller transferiu a estrutura ativa da mente para os nervos sensoriais específicos. Helmholtz e Lange reinterpretaram as pesadas categorias transcendentais de Kant como mecanismos biológicos e perceptivos operando através de inferências inconscientes e leis fisiológicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao “naturalizar” a Crítica da Razão Pura, o Neokantismo Psicofisiológico resolveu o veto de Kant a uma psicologia científica. Se os limites e as formas do nosso conhecimento são determinados pelo nosso sistema nervoso e sensorial, então o estudo epistemológico da mente deve ser feito no laboratório de fisiologia, estudando principalmente a percepção. A exigência de matematização foi superada pelas leis da psicofísica de Fechner e Weber, e o problema da introspecção descontrolada foi resolvido pelo uso de instrumentos de precisão, como cronoscópios, além de métodos de medidas de limiar, controle de estímulos, erros médios, entre outros, que transformavam as respostas subjetivas em dados objetivos, replicáveis e mensuráveis. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse foi o cenário epistemológico e institucional que Wilhelm Wundt encontrou e ajudou a consolidar. Wundt não fundou a psicologia a partir do nada em 1879. Seu Instituto em Leipzig foi organização metodológica e teórica de décadas de esforços em que a filosofia foi obrigada a dialogar com os nervos, os músculos e os tempos de reação, transformando para sempre a especulação sobre a alma em uma rigorosa ciência da experiência imediata. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ironicamente, escolas neokantianas posteriores, como a Escola de Marburgo, foram focos de resistência à psicologia experimental, alegando que o sujeito do conhecimento de Kant era de ordem puramente transcendental e lógica, e não empírica ou mensurável, ou seja, rejeitando a “biologização” do pensamento kantiano e a consequente criação da psicologia experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, conforme mostra Gundlach, a criação de uma posição acadêmica e o laboratório de psicologia por Wundt não se deu por conta de um amplo reconhecimento da superioridade do pensamento wundtano, mas sim por conta de disputas políticas e institucionais nas universidades alemãs. De qualquer forma, Wundt conseguiu desenvolver bem sua teoria ao longo de sua vida e conseguiu estabelecer-se na proeminência da psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia de Wundt ==&lt;br /&gt;
Wilhelm Maximilian Wundt é, na historiografia da psicologia, uma figura ao mesmo tempo onipresente e pouco compreendida. Freqüentemente reduzido ao título de “fundador do laboratório de Leipzig”, essa simplificação negligencia sua estatura como um dos últimos grandes arquitetos de sistemas do século XIX, cujo &#039;&#039;Systemgedanke&#039;&#039; (pensamento sistêmico) buscava integrar a psicologia como uma propedêutica fundamental para a filosofia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Recuperar o Wundt original exige preencher uma vasta lacuna historiográfica. A primeira envolve apontar as conhecidas e muitas das distorções da tradução de E.B. Titchener para o contexto anglo-americano, que foi formulada para aproximar suas ideias e pdasdaquelas de Wundt, visando uma “confirmação” do pensamento de Titchener. Wundt não era um estruturalista ou associacionista clássico e seu sistema é essencialmente dinâmico e centrado no &#039;&#039;&#039;voluntarismo&#039;&#039;&#039;. Para Wundt, a vontade e os processos afetivos não são meros epifenômenos, ou seja, um fenômenos secundários ou acessórios que acompanhma um fenômeno principal, mas o eixo organizador da consciência ativa. Esta reconstrução crítica visa resgatar a autonomia epistemológica de uma ciência que define seu objeto não como uma substância, mas como a experiência em sua totalidade imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Experiência conforme Wundt ===&lt;br /&gt;
Para Wilhelm Wundt, a experiência é concebida como um todo unitário e coerente. As duas abordagens da experiência que ele propõe não se deve a uma diferença ontológica, mas como dois pontos de vista distintos e complementares que permite sua abordagem científica, que ele separa entre Experiência Mediata e Experiência Imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experiência Mediata ====&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Experiência Mediata&#039;&#039;&#039; é a experiência objetiva) está &#039;&#039;&#039;focada nos objetos do mundo externo&#039;&#039;&#039;. Ela foca exclusivamente nos objetos do mundo externo, abstraindo o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que sabe, que tem conhecimento. A Experiência Mediata seria o ponto de vista característico das ciências naturais, como física, química e fisiologia. A ciência natural opera por meio de uma abstração sistemática, pois ela coloca o sujeito cognoscente &amp;quot;entre parênteses&amp;quot; e analisa apenas os objetos externos pensados, como se existissem de maneira totalmente independente de quem os percebe. É chamada de &amp;quot;mediata&amp;quot; porque &#039;&#039;&#039;nosso acesso a tais objetos é sempre indireto&#039;&#039;&#039;, ou seja, precisa de mediação, pois é dependente de conceitos abstratos, inferências teóricas e construções conceituais auxiliares para representá-los. Por um lado, o estímulo físico é intermediado pelos limites anatômicos e biológicos do nosso aparato perceptivo, ou seja, temos os limites e capacidades da nossa percepção. No caso da visão, por exemplo, não vemos os raios ultravioleta e infravermelho, pois não estão no expecto da luz visível, mas vemos as cores e suas combinações. Por outro lado, para constituir a &amp;quot;realidade objetiva&amp;quot;, o cientista natural precisa utilizar conceitos teóricos auxiliares e construções hipotéticas, como átomos, ondas eletromagnéticas e forças gravitacionais, que não são dados imediatamente na percepção sensível mas que podem ser vistos experimentalmente e por meio de instrumentos e aparatos científicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wundt critica assim o empirismo tradicional e o associacionismo. A doutrina do empirismo diz que a mente como página em branco, conforme a formulação de John Locke e sua &#039;&#039;tabula rasa&#039;&#039;. Neste caso, a mente seria progressivamente preenchida pelas impressões do mundo exterior (sensação) e pelas operações internas (reflexão). David Hume radicaliza o princípio empírico, postulando que as impressões são os átomos cognitivos fundamentais e as ideias nada mais são do que cópias atenuadas ou lembranças dessas impressões na memória e na imaginação. Já o associacionismo constitui a hipótese de que as ideias simples e discretas se combinam para formar pensamentos complexos, juízos e raciocínios abstratos. Se o empirismo fornece os blocos de construção, o associacionismo descreve a &amp;quot;força de atração&amp;quot; que os une. Conforme sistematizado por Hume e, depois, desenvolvido por Hartley e James Mill, a mente transita espontaneamente de uma ideia para outra por meio de regras regulares de associação, como a semelhança, a contiguidade no tempo e as relações de causa e efeito.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para Wundt, ambos erraram, pois transferiam as características dos objetos externos da física, como a solidez, os limites rígidos e a permanência estática, para os conteúdos conscientes, passando a tratar as representações (&#039;&#039;Vorstellungen&#039;&#039;) como coisas ou &amp;quot;átomos mentais&amp;quot;. Na física, o foco recai sobre o objeto substantivo. Contudo, segundo Wundt, a consciência não contém objetos estáveis. Ele parte de uma diferença fundamental que os psicofísicos e outros haviam apontado, que é aquela entre o mundo externo e o mundo percebido, ou ainda, entre as coisas e suas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em resumo, a Experiência Mediata se aproxima dos objetos estáveis do mundo externo e de como eles nos chegam. Na experiência mediata, o cientista da natureza pode retornar quando quiser ao mesmo objeto físico estável (uma pedra ou um elemento químico) para observá-lo repetidamente, ainda que o observador em si esteja sempre em mudança.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Experiência Imediata, o Objeto de Estudo da Psicologia ===&lt;br /&gt;
Ao definir seu objeto, Wundt deu um passo decisivo para dar à psicologia autonomia perante as outras ciências naturais. Ele propõe que a experiência é uma unidade indivisível. Mas o que ele quer dizer por “experiência”? Uma definição poderia ser a totalidade dos processos conscientes, englobando sensações, sentimentos, representações e volições (vontades), apreendida da exata forma como se apresenta diretamente ao sujeito, sem qualquer abstração conceitual ou mediação de instrumentos externos. Ou seja, a experiência de Wundt seria como tudo o que se passa na mente, exatamente como ela aparece para uma pessoa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para ele, a experiência pode ser analisada a partir de duas perspectivas: a mediata e a imediata. A experiência ediata pertence ao domínio das Naturwissenschaften, ou ciências naturais, como a física e a química. Ela seria a a experiência objetiva, focada totalmente nos objetos do mundo externo que, se pensados de maneira isolada, são independentes do sujeito. Ela é chamada de mediata porque o acesso a essa realidade é indireto, ou seja, ela precisa de uma mediação. Essa mediação são conceitos teóricos e construções auxiliares e as características cognitivas e biológicas do próprio sujeito que interpreta os dados sensoriais brutos utilizando suas crenças, conhecimentos e expectativas. Isso não significa que a ciência natural esteja errada, mas sim que ela possui um recorte de interesse diferente do recorte da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O domínio da psicologia seria a experiência imediata, subjetiva, que é a experiência em sua realidade concreta, direta e intuitiva, apreendida antes de qualquer conceituação, teorização ou abstração. Ou seja, é a experiência antes de ela adquirir qualquer camada de compreensão, que seriam mediadores, por isso é imediata, sem mediação. Ela envolve o processamento de elementos sensoriais simples, como cor, som, temperatura, e de sentimentos simples, como prazer e desprazer. Ela diz respeito ao modo puro de funcionamento mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vamos a um exemplo, desta vez no campo do som. Na perspectiva mediata, o cientista natural abstrai o sujeito e estuda o som de forma indireta e conceitual. Ele utiliza aparelhos para medir as ondas sonoras e a sua propagação física pelo ar. O objeto físico “som” é, portanto, mediado e traduzido por conceitos de frequência, amplitude e decibéis. Já sob a perspectiva imediata, que é a da psicologia, o psicólogo estuda a sensação direta e em si mesma do tom no momento exato em que ele aparece na consciência. A análise está na vivência concreta do sujeito, que inclui a qualidade do tom, a sua intensidade subjetiva, a tonalidade afetiva de prazer ou desprazer que o acompanha e o processo ativo da atenção (apercepção, que será tratada mais adiante) que coloca aquele som no foco da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se olharmos desta vez para as cores, na visão mediata, ciência natural estuda o azul abstraindo a experiência do sujeito. A física o descreverá de forma conceitual como uma radiação eletromagnética com determinado comprimento de onda atingindo a retina. Para a psicologia de Wundt, o azul é investigado como um dado imediato e real na consciência do sujeito no momento da percepção interna. O foco não está nas propriedades físicas do estímulo, mas sim na reação subjetiva e ativa do cérebro vivo a esse estímulo, que gera a qualidade imediata da cor na experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conduzindo seus estudos, Wundt também identificou aquilo que denominou causalidade psíquica. Ao nos lembrarmos de um fato triste, a fisiologia explicaria a tristeza de forma conceitual e indireta, por meio de correntes elétricas no córtex cerebral, liberação de hormônios ou atividade de sinapses nervosas. Já o psicólogo observa a conexão de processos internos como elas ocorrem diretamente na consciência do sujeito, como a ligação da lembrança triste a um sentimento de angústia. A causalidade psíquica é uma causalidade própria da mente e irredutível às leis físicas da natureza, ou seja, não pode ser comparada à causalidade científica como a conhecemos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao adotar a experiência como seu objeto, Wundt rompe com a psicologia da alma, filosófica e metafísica. Ele substitui a psicologia de substâncias, que postula uma entidade mental oculta, pela teoria da atualidade (Aktualitätstheorie), na qual o psiquismo é definido como um fluxo de processos em constante devir. Seu sistema está fundamentado em um monismo perspectivista. Em outras palavras, para ele, mente e corpo não são substâncias que interagem mecanicamente, mas perspectivas distintas sobre a mesma unidade da experiência (Erfahrung). A psicologia, portanto, não estuda um “mundo interno”, que está isolado do externo, ainda que em contato com ele, mas a totalidade da experiência humana sob o prisma da imediatidade. Essa transição do estatuto de substância “mente” ou algo semelhante para o de processo traz uma nova perspectiva, criando um objeto que pode ser alvo de experimentação científica, partindo de experimentos já criados pela psicofísica e ainda outros que seriam desenvolvidos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Psicologia Individual e Völkerpsychologie: dois métodos para manifestações da experiência ===&lt;br /&gt;
A arquitetura metodológica de Wundt responde ao desafio de investigar processos mentais que variam em complexidade. Ele estabelece que a psicologia deve ser compreendida como o fundamento das Geisteswissenschaften (ciências do espírito ou humanas). A Psicologia Individual foca nos processos elementares, que incluem sensação e percepção, que são passíveis de controle rigoroso em laboratório através da manipulação de estímulos externos e introspecção experimental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entretanto, Wundt reconhece a insuficiência do experimento para os processos mentais superiores, como o pensamento e a linguagem, que são historicamente condicionados. Para estes, ele propõe a Völkerpsychologie , ou Psicologia dos Povos, dedicada ao estudo dos produtos das geistige Gemeinschaften (comunidades espirituais ou coletividades). Wundt vai apontar a linguagem, o mito e os costumes (Sitten) não são apenas dados culturais, mas objetivações de leis psíquicas superiores inacessíveis à introspecção de laboratório. Eles seriam produtos da experiência humana nas suas formas mais avançadas e superiores e, por não serem passíveis de experimentação, exigem uma outra abordagem. Essas duas vertentes, experimental e histórico-cultural, não são divergentes, mas sim o projeto integrador que permite apreender a mente tanto em sua base sensório-motora quanto em suas manifestações espirituais complexas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As investigações da psicologia dos povos focavam na alma do povo (Volksseele), definida como a realidade factual dos processos psíquicos que surgem em uma comunidade por meio da interação das energias mentais dos indivíduos. Essa “mente coletiva” se tornava um objeto tangível e investigável ao longo da história em três grandes produtos culturais. O primeiro é a linguagem (Die Sprache), ferramenta pela qual o pensamento é estruturado e externalizado. Já o mito e a religião são as formas como a imaginação e os sentimentos humanos coletivos projetam suas explicações sobre o cosmos e a existência. Os costumes (Sitten) e o direito, por sua vez, são  as regras de conduta coletiva que nascem de atos voluntários e impulsos compartilhados, padronizando as interações sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não podia realizar experimentos com culturas inteiras, Wundt operava por meio da pura observação retrospectiva e comparativa dos produtos mentais, ou seja, analisando os objetos já criados e usados ou em uso por diferentes povos e culturas, anotando suas diferenças e semelhanças. Wundt juntava, lia e analisava de forma exaustiva relatos históricos, estudos filológicos, dicionários, mitologias comparadas, códigos de leis e descrições etnológicas e antropológicas de povos ao redor do globo, ou seja, utilizava dos estudos de diferentes ciências humanas e sociais para extrair as leis psicológicas gerais do desenvolvimento mental humano por trás dessas manifestações. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seu objetivo era mapear como a mente coletiva evoluía do simples para o complexo ao longo das eras, numa abordagem genética e desenvolvimentista e reconstruir, de forma retrospectiva, as forças dinâmicas, os afetos, os impulsos (Triebe) e os processos de síntese criadora (melhor discutida mais adiante) que estiveram ativos na mente das pessoas no momento de sua formação. Wundt dedicou os últimos 20 anos de sua vida (de 1900 a 1920) quase exclusivamente a esse empreendimento monumental, escrevendo dez volumes da sua obra Völkerpsychologie.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Apercepção ===&lt;br /&gt;
No contexto filosófico, como já visto, o conceito de apercepção remonta a Kant, que a definiu como o processo autônomo, ativo e prévio pelo qual a mente unifica diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Wundt adotou essa noção kantiana para fundamentar sua teoria da consciência, definindo apercepção como o processo psicológico ativo pelo qual um conteúdo psíquico (ou representação) é trazido à clareza máxima e ao foco da consciência, vindo necessariamente acompanhado pelo estado de atenção voluntária.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para explicar a dinâmica da consciência, Wundt utilizou uma famosa analogia com a visão para diferenciar apercepção e percepção. O campo visual da consciência (Blickfeld) corresponde à percepção, que é a simples entrada de uma representação na consciência de forma difusa, ampla e sem a presença focalizada da atenção. Já o ponto focal da consciência (Blickpunkt) corresponde à apercepção, que é a entrada de uma representação no ponto central de máxima clareza e foco estreito da atenção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A apercepção, então, é uma manifestação primordial da vontade, funcionando como o princípio dinâmico que dá direção e estrutura tanto à experiência quanto ao movimento. Além disso, a apercepção pode ser ativa, que é quando o sujeito deliberadamente seleciona onde focará sua atenção, ou passiva, quando é o estímulo que se impõe no foco no sujeito. Por fim, a apercepção é o mecanismo central da operação da causalidade psíquica. É ela que unifica a mente em um sistema ativo, permitindo que a fusão de elementos resulte em sínteses criadoras com propriedades qualitativamente novas e imprevisíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Percepção Interna (innere Wahrnehmung) vs. Auto-observação (Selbstbeobachtung) ===&lt;br /&gt;
Para garantir o rigor procedimental e responder ao “desafio kantiano”, Wundt rejeitou a Selbstbeobachtung, que pode ser entendida como a auto-observação tradicional ou introspecção casual. Trata-se do método introspectivo puramente filosófico e especulativo que, segundo Wundt e outros, seria fonte de auto-ilusões e onde o ato de observar altera o fenômeno observado. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A solução científica é a innere Wahrnehmung, ou percepção interna, que permite a criação de um método científico baseado na repetição de estímulos externos controlados. No laboratório, o psicólogo replica condições experimentais que permitem a observação do aparecimento imediato do processo psíquico sob condições estáveis e previsíveis. O laboratório funciona, portanto, como o estabilizador do objeto psicológico, permitindo que a percepção interna atinja a precisão necessária para decompor a consciência em seus elementos fundamentais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experimentos do Laboratório de Wundt ====&lt;br /&gt;
Vamos a alguns exemplos do que acontecia no laboratório de Wundt, para integrar melhor os conceitos já apresentados. O primeiro experimento foi concebido originalmente para descrever a “equação pessoal” que aparecia nas medições dos astrônomos. No caso, observava-se que astrônomos treinados, utilizando os mesmos equipamentos, discordavam de suas medições que, à época, eram feitas manualmente com ajuda de instrumentos. De alguma forma, estas diferenças nas medições pareciam ter um tipo de padrão. Neste experimento, Wundt utilizava um aparelho chamado medidor de pensamento (Gedankenmesser) e, posteriormente, o pêndulo de complicação (Complicationspendel). O dispositivo consistia em um grande relógio de pêndulo que possuía uma agulha cruzada, como uma agulha de tricô, capaz de golpear fisicamente um pequeno sino em um ponto exato do seu arco de oscilação. O sujeito do experimento deveria olhar para a escala do pêndulo e tentar determinar a posição exata do ponteiro no momento em que ouvia o sino tocar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste experimento, Wundt descobriu que o sujeito sempre cometia um erro sistemático de registro, de aproximadamente um oitavo de segundo. Segundo ele, era impossível perceber visualmente a agulha e o som do sino ao mesmo tempo. Esse experimento seria uma prova laboratorial de que a consciência possui uma capacidade limitada e só consegue focar em uma única percepção por vez, como a diferença no marco da medição podia mostrar. A ilusão de simultaneidade devia-se apenas à rápida sucessão dos processos de atenção (apercepção).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os experimentos de tempo de reação, nosso segundo exemplo, constituíam o verdadeiro coração do trabalho em Leipzig na década de 1880. Wundt adaptou o método de subtração (Subtractiemethode), do fisiologista holandês F. C. Donders, para medir a velocidade de processos mentais complexos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o experimento de Wundt, é necessário compreender que, para ele, uma reação consciente envolvia: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- transmissão da sensação ao cérebro; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2- entrada do estímulo no campo amplo da consciência (percepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
3- entrada no foco ativo da atenção (apercepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
4- ato de vontade para liberar a resposta; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
5- execução motora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada um dessas partes exigem um certo tempo, pois são processos não imediatos. A depender de como as etapas do experimento são organizadas, diferentes tempos indicariam o acionamento maior ou menor de cada um deles. No experimento, o sujeito era treinado para responder pressionando uma tecla telegráfica ao ver um estímulo luminoso simples, como um flash de luz. Em seguida, a tarefa mais difícil. Duas imagens eram apresentadas, um círculo branco sobre fundo preto ou vice-versa, e o sujeito só deveria reagir após identificar com clareza qual imagem havia aparecido. Ao subtrair o tempo da reação simples do tempo da reação complexa, Wundt calculava o “tempo de apercepção” ou discriminação. Na primeira tese de doutorado em psicologia experimental da história, Max Friedrich, que atuou no experimento, mostrou que o tempo de discriminação aumentava de acordo com a complexidade do estímulo visual. Por exemplo, o sujeito levava mais tempo para aperceber e discriminar uma sequência de seis dígitos do que de apenas um ou dois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O assistente de Wundt, Ludwig Lange, também colaborou no estudo ao desenvolver um experimento crucial. Ele demonstrou que os tempos de reação variavam drasticamente dependendo da preparação atencional do sujeito. Se a atenção estivesse focada no movimento de resposta que o dedo faria (reação muscular), o tempo era curto (cerca de 125 ms), pois funcionava como um “reflexo cerebral” que pulava a apercepção. Se o foco estivesse direcionado ao estímulo sensorial que iria surgir (reação sensorial), o tempo era cerca de 100 ms mais longo, pois envolvia o circuito completo da mente consciente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O terceiro experimento foi desenvolvido por Martin Trautscholdt, um dos estudantes de doutorado de Wundt. Ele estudava a associação de ideias. No seu estudo, o sujeito era instruído a pressionar uma tecla no momento exato em que uma ideia associada surgisse em sua consciência a partir de um estímulo visual ou auditivo. Ao subtrair o tempo que o sujeito levava para simplesmente reconhecer a palavra estimulante, Trautscholdt conseguiu quantificar o tempo gasto pela mente para realizar a conexão associativa propriamente dita que, segundo Trautscholdt, variava entre 706 e 874 ms. Wundt também adaptou a técnica de associação de palavras de Francis Galton, limitando a resposta do sujeito a apenas uma única palavra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O quarto e último experimento que será apresentado é relacionado a acordes musicais. Nele, sujeitos ouviam tons isolados no piano, que seriam as sensações puras, e depois os mesmos tons tocados simultaneamente. Os participantes descreviam em detalhes a transição afetiva de como a fusão física das frequências dava origem a um produto inteiramente novo na consciência, que seria o sentimento estético de harmonia e prazer decorrente de uma síntese criadora. Wundt conduzia vários experimentos em estética experimental, tal qual seu colega Fechner.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Arquitetura da Mente: Elementos, Fusão e Síntese Criadora ===&lt;br /&gt;
Segundo Wundt, a experiência pode ser decomposta em elementos simples, que incluem as sensações e os sentimentos simples. Os sentimentos, por sua vez, são entendidos a partir da teoria tridimensional dos sentimentos, onde eles se distribuem em um espaço qualitativo entre os polos prazer/desprazer (Lust-Unlust), tensão/relaxamento (Spannung-Lösung) e excitação/depressão (Erregung-Beruhigung). A primeira é a mais evidente, se refere à avaliação afetiva primária da experiência. A segunda se relaciona ao esforço da atenção ou à preparação interna da mente. Já a terceira está relacionada ao nível de ativação biológica e psicológica do organismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esses aspectos todos são organizados através do mecanismo de fusão (Verschmelzung), onde as qualidades elementares se fundem em complexos psíquicos. O conceito central aqui é o princípio da síntese criadora (schöpferische Synthese). Ao contrário do associacionismo britânico, Wundt afirma que o todo resultante possui propriedades que não estão contidas na mera soma das partes. Essa síntese não é um processo mecânico passivo, mas um ato aperceptivo ativo, vinculado à vontade. Na mente humana, a combinação de elementos gera um valor novo e qualitativamente superior, marcando a distinção fundamental entre a causalidade psíquica e a mecânica física.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em termos simples, a síntese criadora estabelece que os complexos psíquicos, como representações, sentimentos compostos e afetos, embora formados pela união de elementos simples (sensações e sentimentos simples), possuem características qualitativas inteiramente novas que não pertencem a nenhum de seus elementos constituintes isolados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fusão é o processo ativo e primário de integração psíquica. É através dela que os elementos sensoriais e afetivos brutos são ativamente sintetizados pela mente para dar origem a uma nova unidade psicologicamente complexa. A fusão é a geradora da síntese criadora. Para Wundt, a síntese criadora é a prova cabal da causalidade psíquica. Ela monstra que os fenômenos mentais obedecem a leis de conexão e geração próprias que não se ajustam às leis da física ou da fisiologia mecânica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Observemos isso com um exemplo já apresentado. Se você tocar no piano as notas Dó, Mi e Sol isoladamente, você terá apenas a experiência de três sensações auditivas distintas. No entanto, quando essas notas são tocadas simultaneamente, a fusão de seus elementos gera na consciência uma experiência qualitativamente nova, que seria um acorde musical. O sentimento de harmonia e a qualidade estética do acorde são um produto da síntese criadora, pois não existiam em nenhuma das notas isoladas e surgem puramente da atividade unificadora da mente sobre o estímulo físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Paralelismo Psicofísico e Causalidade Psíquica ===&lt;br /&gt;
O paralelismo psicofísico foi um dos conceitos mais importantes e debatidos no século XIX durante o processo de fundação da psicologia científica. Ele surgiu como uma alternativa teórica para solucionar o clássico problema mente-corpo. O conceito foi formulado de forma a tanto o dualismo substancial, que dividia o ser humano em duas substâncias isoladas cuja forma de interação era desconhecida, quanto o materialismo reducionista, que reduzia a mente a uma mera secreção cerebral ou processo físico ou fisiológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para Fechner, o paralelismo era a manifestação de um monismo neutro, ou teoria de duplo aspecto. Ele defendia que a matéria (corpo) e o espírito (mente) não são substâncias diferentes, mas sim dois modos de aparência ou perspectivas distintas de uma única e mesma realidade subjacente, teoria sobre o qual fundamental grande parte de seu projeto científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt também adotou o termo paralelismo psicofísico, mas realizou uma redefinição epistemológica radical do conceito, visando se afastar da metafísica. Ele rejeitava categoricamente qualquer tentativa de transformar o paralelismo em uma doutrina ontológica sobre a natureza última da realidade, transformando-o estritamente um postulado metodológico e heurístico indispensável para a investigação científica. Os processos mentais não sejam reduzidos a processos fisiológicos ou neurais, pois a consciência obedece a leis de conexão próprias, como a causalidade psíquica, que não podem ser explicadas pelas leis da mecânica cerebral.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O que Aconteceu Depois? ===&lt;br /&gt;
No final de sua vida, Wilhelm Wundt era visto de forma ambivalente. Enquanto mantinha o prestígio de fundador da psicologia científica, uma nova geração de psicólogos que buscava se firmar, via como um “pai tribal”, cujo longo domínio de mais de quatro décadas estava desgastado. Ele se tornou o alvo de críticas severas e passou a ser tratado por muitos como o ícone de um passado superado e falido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante a Primeira Guerra Mundial e nos anos que a sucederam, a reputação internacional de Wundt sofreu graves danos. Influenciado por seu filho Max, Wundt adotou posturas políticas ultranacionalistas, chegando a usar a Völkerpsychologie de maneira tendenciosa para criticar os inimigos da Alemanha. Essa postura inflamou um forte preconceito anti-alemão, especialmente nos Estados Unidos, onde ex-alunos e intelectuais americanos passaram a ver ele como uma mente maligna e autoritária, acelerando a rejeição de suas obras em solo estrangeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A maior frustração de Wundt no fim da vida ocorreu no âmbito acadêmico alemão. Ele sempre defendeu que a psicologia era uma ciência propedêutica e uma aliada indispensável da filosofia, devendo permanecer integrada a esta. No entanto, os filósofos acadêmicos de sua época, especialmente os neokantianos e fenomenologistas, rejeitaram veementemente o  que chamavam de “psicologismo de Wundt”, ou seja, a redução da lógica e da validade do conhecimento a fatos psicológicos. Em 1913, após a contratação de um psicólogo experimental para a cadeira de filosofia em Marburg, mais de cem professores de filosofia assinaram um protesto público exigindo que psicólogos fossem banidos dos departamentos de filosofia. Esse movimento resultou no progressivo divórcio institucional entre a psicologia e a filosofia, uma separação que Wundt lamentou e combateu até a sua morte em 1920.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir da década de 1890, uma forte onda de positivismo, inspirada pela filosofia de Ernst Mach e Richard Avenarius, varreu a psicologia experimental. Jovens psicólogos, incluindo os assistentes do próprio Wundt, rejeitaram conceitos fundamentais do sistema de Leipzig, como a apercepção, a causalidade psíquica e a síntese criadora, tomando eles como metafísica, exatamente o oposto do que desejava seu formulador. Eles preferiam um modelo elementarista e reducionista, focado na descrição de relações funcionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos EUA, a influência da teoria da evolução de Darwin deslocou o interesse da estrutura da consciência para as suas funções de adaptação ao meio, o chamado funcionalismo. Com o surgimento e o fortalecimento do behaviorismo e a eliminação da mente como objeto de estudo, o voluntarismo de Wundt perdeu qualquer espaço. Na Europa, a própria psicologia da Gestalt ergueu-se combatendo o elementarismo que havia sido falsamente associado a Wundt. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O golpe final veio após a Primeira Guerra Mundial, quando a Alemanha mergulhou em colapso econômico. Diante da “crise da psicologia”, os pesquisadores precisaram provar a utilidade prática da ciência que praticavam para sobreviver, o que já acontecia nos EUA, voltando-se para a psicologia militar, industrial, educacional e clínica. Wundt, que sempre desprezou a psicologia aplicada, teria visto seu sistema dinâmico de laboratório perder todo o fôlego diante das pressões pragmáticas da época, ainda que mantivesse sua fama e sua alcunha maior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia Científica na Inglaterra ==&lt;br /&gt;
O surgimento da psicologia na Inglaterra seguiu um caminho bastante distinto do modelo laboratorial alemão, focado na introspecção e na busca de leis universais. A psicologia britânica formou-se na intersecção de duas grandes forças intelectuais, que são as filosofias empirista e associacionista, e a biologia evolutiva. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No empirismo, pensadores como John Locke postularam que a mente humana nasce como uma tabula rasa ou uma folha em branco, e que absolutamente todo o conhecimento deriva da experiência sensorial. No associacionismo, filósofos como David Hume, James Mill e John Stuart Mill afirmavam processos mentais complexos são formados pela associação contínua de ideias simples e sensações, governadas por leis lógicas. tais como similaridade, contiguidade e causa e efeito. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A despeito de sua rica tradição filosófica, o maior divisor de águas para a ciência britânica foi a publicação de A Origem das Espécies, em 1859. A teoria da evolução natural de Darwin, trouxe novas e profundas questões para o estudo da mente britânica. Se humanos e animais compartilham ancestrais comuns, argumentava-se que deveria haver uma continuidade não apenas física, mas também mental entre as espécies, conectando a psicologia ao estudo da zoologia, dando origem à Psicologia Comparada. Além disso, a mente e a consciência deixaram de ser vistas apenas como objetos metafísicos e passaram a ser estudadas como ferramentas biológicas de adaptação, que evoluíram porque ajudavam o organismo a sobreviver em seu ambiente, sendo fundamental para a criação do funcionalismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a validação da biologia evolutiva, o estudo da inteligência animal explodiu no Reino Unido, George Romanes foi um dos primeiros a tentar sistematizar o comportamento animal. Contudo, seu método anedótico foi duramente criticado por ser antropomórfico, ou seja, por atribuir pensamentos e emoções humanas complexas a animais. Seu colega Conwy Lloyd Morgan introduziu mais rigor científico à área através do que ficou mundialmente conhecido como o Cânone de Morgan, ou princípio da parcimônia. A regra dizia que um comportamento animal não deve ser interpretado como resultado de uma faculdade mental superior se puder ser explicado por um processo psicológico mais básico, como o instinto ou o aprendizado por tentativa e erro. Apesar de a perspectiva de ambos ter sido abandonada, a Psicologia Comparada se tornou um dos principais ramos da psicologia moderna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Francis Galton e a Psicologia Diferencial ===&lt;br /&gt;
Francis Galton (1822-1911) foi um cientista e polímata britânico de inteligência extraordinária, com um QI estimado por volta de 200, algo extremamente raro, além de ser primo de Charles Darwin. Galton é amplamente reconhecido como pioneiro ao incorporar o estudo sistemático das diferenças individuais e da herança mental na nova psicologia, uma área que era ignorada ou rejeitada por pioneiros experimentalistas como Wilhelm Wundt.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Galton interessou-se pela medição das variações da inteligência e das capacidades humanas. Ele fundou um laboratório antropométrico onde testou a acuidade sensorial, a força e os tempos de reação de milhares de pessoas. Além disso, baseando-se na premissa empirista de John Locke de que todo o conhecimento vem da percepção, Galton assumiu que os indivíduos mais inteligentes seriam aqueles com as capacidades sensoriais e motoras mais aguçadas. Ele foi o inventor do conceito de testes mentais, termo posteriormente cunhado por seu aluno dos EUA, James McKeen Cattell. Galton também desenvolveu o método experimental de associação de palavras, medindo o tempo de reação mental e demonstrando a enorme influência das experiências da infância e do inconsciente no pensamento adulto, um trabalho que impressionou profundamente Sigmund Freud. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também foi um dos primeiros a fazer uso amplo do questionário psicológico para investigar imagens mentais, constatando para sua própria surpresa que a maioria dos cientistas relatava ausência de imagens mentais nítidas, em contraste com relatos muito mais detalhados fornecidos por mulheres e crianças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para conduzir medições em larga escala, ele inventou vários instrumentos clássicos e, para analisar suas enormes bases de dados, Galton desenvolveu conceitos estatísticos fundamentais, como a correlação. Essa tradição quantitativa foi depois aperfeiçoada por outros britânicos, como Charles Spearman, criador da análise fatorial e do conceito de fator g de inteligência geral, fundando a base da psicometria moderna. e influenciando de forma decisiva a psicologia dos testes nos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Conclusão ==&lt;br /&gt;
A história da psicologia é definida pelo paradoxo de ter um “longo passado” e uma “curta história”, podendo ir do De Anima de Aristóteles até a a fundação do laboratório de Wilhelm Wundt na Universidade de Leipzig, em 1879. A psicologia, assim, mostra que tem uma rica história, com muitos personagens, conceitos e acontecimentos importantes, de modo que qualquer narrativa sobre sua composição elegerá heróis e vilões, dará mais relevância para alguns, menos para outros e o esquecimento para a maioria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O texto propõe que Immanuel Kant foi uma figura central na composição da psicologia científica. Ele propôs que a mente humana é um agente ativo que organiza o conhecimento através de estruturas a priori, tais como o tempo, o espaço e as categorias do entendimento. Assim, ele introduziu o conceito de “sujeito transcendental” como a estrutura universal que garante a unidade da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Kant impôs um “veto” ao status científico da psicologia, defendendo a base na matematização. A superação desse veto ocorreu através da “naturalização” de Kant pela fisiologia. Johannes Müller, com a Teoria das Energias Nervosas Específicas, mostrou que a sensação é mediada pelo sistema nervoso, não sendo uma cópia fiel do mundo externo. Hermann von Helmholtz avançou essa ideia ao postular que as estruturas a priori de Kant seriam, na verdade, características da anatomia e fisiologia humanas. Ele propôs o conceito de “inferências inconscientes” para explicar como interpretamos dados sensoriais. Nesse contexto, Friedrich Albert Lange defendeu uma “psicologia sem alma”, rejeitando a metafísica e argumentando que o estudo científico deve focar apenas nas aparências e fenômenos observáveis, reduzindo o objeto da psicologia a dados empíricos e correlações fisiológicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner foi crucial ao oferecer a base matemática e experimental que faltavam, por meio da Lei de Weber-Fechner. Ele também padronizou e melhorou métodos para o estudo dos limites e constantes sensoriais, que se tornaram a base metodológica da psicologia experimental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt não apenas fundou um laboratório, como também arquitetou um sistema complexo. Para Wundt, o objeto da psicologia é a experiência imediata, criando conceitos como voluntarismo, causalidade psíquica, apercepção, entre outros. Além disso, ele também criou a psicologia dos povos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente do foco laboratorial alemão, a psicologia britânica foi moldada pela filosofia empirista e, crucialmente, pela teoria da evolução de Charles Darwin. Neste contexto, Galton ganha destaque, por ter fundado o laboratório antropométrico, inventado o conceitos de “testes mentais”, pelo uso de estatísticas no estudo da psicologia e ter influenciado o desenvolvimento da psicometria e a análise fatorial (com Charles Spearman), consolidando uma tradição que focava mais na variabilidade genética e na inteligência do que na estrutura da consciência em si.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_surgimento_da_psicologia_cient%C3%ADfica&amp;diff=1741</id>
		<title>O surgimento da psicologia científica</title>
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		<updated>2026-09-01T22:19:59Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* A Psicologia de Wundt */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto [[Portal História da Psicologia]]) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um longo passado, uma curta história ==&lt;br /&gt;
A psicologia tem um longo passado, mas uma curta história. Esta é uma frase muito famosa no campo da história da psicologia, tendo sido consagrada por Hermann Ebbinghaus, um psicólogo alemão pioneiro no estudo da memória, ainda no século XIX. A frase é exemplar e muito usada em debates sobre a historiografia da psicologia, e isto revela como é difícil dizer quando a psicologia teve início. Ela tem um &#039;&#039;&#039;longo passado&#039;&#039;&#039;, porque os temas que consideramos hoje como parte da psicologia aparecem muitas vezes na filosofia, na religião, em saberes tradicionais, entre muitos outros lugares, ao longo da história. É difícil estabelecer qual &#039;&#039;&#039;o objeto de estudo da história da psicologi&#039;&#039;&#039;a, assim como é difícil, ao longo da história, &#039;&#039;&#039;separar o que é  psicologia daquilo que não é psicologia&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse longo passado pode remontar, por exemplo, à Antiguidade, com o tratado De Anima, de Aristóteles, que escreveu muito antes de se imaginar o próprio conceito de ciência moderna e, menos ainda, de uma psicologia moderna. Outros podem colocar o início da psicologia com Descartes, que elaborou a máxima, também famosa, “penso, logo existo”. Isso mostra que &#039;&#039;&#039;os objetos de estudo da psicologia são historicamente construídos&#039;&#039;&#039;, ou seja, emergem a partir dos locais ou pessoas que atuaram na psicologia, como na medida das diferenças individuais, as dinâmicas de controle num laboratório, nas práticas de psicoterapia, entre muitas outras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se cada historiador localiza o passado da psicologia em lugares diferentes no tempo e no espaço, a &#039;&#039;&#039;história da psicologia&#039;&#039;&#039;, por seu lado, tem uma definição bem mais estável e curta. Nos anos 1980, historiadores reunidos num congresso nos EUA definiram que &#039;&#039;&#039;a psicologia científica começou em 1879, quando [[Wilhelm Wundt]] fundou o primeiro laboratório de psicologia experimental na Universidade de Leipzig, na Alemanha&#039;&#039;&#039;. Essa definição está consagrada e é quase um consenso, porém, não foi tão simples estabelecê-la. Alguns advogavam pelo pioneirismo de outro alemão, [[Gustav T. Fechner|Gustav Theodor Fechner]], criador da chamada [[psicofísica]], de onde vieram muitos dos experimentos e ideias de Wundt. Outros ainda queriam que [[William James]], um filósofo e psicólogo americano, fosse reconhecido como fundador, pois seu laboratório de psicologia era ainda mais antigo que o de Wundt que, no final, venceu essa disputa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Resumindo, a psicologia possui um “longo passado”, com raízes filosóficas e religiosas milenares e altamente diversas, e uma “curta história” como disciplina científica, cujo marco está situado em 1879, com a fundação do primeiro laboratório experimental por Wilhelm Wundt, na Alemanha. Pelo menos é assim que, atualmente, a grande maioria dos historiadores entende a questão, uma das poucas em que há algum conceito neste campo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Presentismo ===&lt;br /&gt;
Mas o que seriam essas psicologias anteriores a essa psicologia científica? Para entender melhor essa história, é preciso refletir para superar, da melhor forma, um problema chamado &#039;&#039;&#039;presentismo&#039;&#039;&#039;, ou seja, julgar, entender, interpretar e analisar o passado com a visão do presente. Não é apenas uma questão de olhar para as pessoas do passado e superar o pensamento de que elas eram “ignorantes”, pois “não tinham o conhecimento que temos hoje”. É entender também que, no passado, haviam formas de conhecimentos diferentes, bem como visões de mundo diferentes da atual. Este é um problema fascinante. Muitos dos consensos contemporâneos, coisas que entende-se totalmente óbvias, eram vistas de forma completamente diferente no passado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo interessante é o &#039;&#039;&#039;conceito de atenção&#039;&#039;&#039;. Hoje, ela é um tema tão discutido e consensual que pouco se reflete sobre seu significado. Atualmente, seria algo como centralizar as faculdades mentais ou talvez a percepção em um ponto específico. Pode-se ouvir as pessoas reclamando da própria falta de atenção, que “não conseguem prestar atenção”, ou que nunca “mantém a atenção”, e até mesmo existem medicamentos para resolver esse problema. Contudo, a palavra “atenção” nem sempre significou o que entendemos hoje. Para [[Santo Agostinho]], atenção era apenas o ato de passar de um pensamento para outro. [[René Descartes|Descartes]] tinha um conceito mais parecido com o contemporâneo, onde a atenção era mobilizada de forma voluntária para fixar e reter na memória coisas raras e extraordinárias que o entendimento considerava úteis. Na obra de [[John Locke|Locke]], a atenção é mencionada apenas de passagem, como um mero mecanismo auxiliar da retenção de memórias. A partir do momento em que a ciência passou a entender que a percepção depende da estrutura física e biológica do corpo, com a psicofísica e a fisiologia sensorial, já no século XIX, a visão passou a ser encarada como intrinsecamente incompleta, instável e condicionada pelo tempo. Nesse contexto, a atenção foi utilizada como um substituto pragmático para garantir a coerência do mundo percebido. Autores do final do século XIX, como [[Théodule Ribot]] e [[Max Nordau]], associaram os desvios ou a fraqueza da atenção a patologias psíquicas, comportamentos sociopáticos e teorias da “degeneração”. Para eles, uma atenção defeituosa deixava a mente à mercê de “associações caóticas”, gerando uma visão borrada e distorcida da realidade. Foi apenas na década de 1950 que a nossa compreensão contemporânea de atenção começou a se delinear, paralelamente aos estudos sobre os medicamentos desenvolvidos para tratar as suas disfunções.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma pessoa desavisada, que não está atenta às grandes diferenças entre as ideias e conceitos ao longo do tempo, poderia ler um trecho de Ribot, Santo Agostinho, Descartes e outros e achar que a atenção sobre a qual eles falam é a mesma coisa que entendemos hoje. O leitor estaria totalmente enganado, a ponto de não conseguir nem mesmo compreender o que estes pensadores queriam dizer. Em outras palavras, &#039;&#039;&#039;o esforço para entender as psicologia do passado passa também pelo esforço de entender como se pensava no passado, qual a visão que se tinha nesse passado&#039;&#039;&#039;. Parte do esforço do historiador é trazer esses aspectos de volta ao presente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O sujeito transcedental de Kant ==&lt;br /&gt;
A concepção de uma psicologia ocupada especificamente com a “mente” humana e suas operações começou a ganhar contornos modernos no século XVIII com o filósofo [[Christian Wolff]]. Ele dividiu a psicologia em [[Psicologia Empírica (livro)|&#039;&#039;&#039;Psicologia Empírica&#039;&#039;&#039;]], num livro publicado em  1732 e baseada na introspecção; e em &#039;&#039;&#039;Psicologia Racional&#039;&#039;&#039;, numa obra de 1734, dedicada a deduzir a natureza e a essência da alma, como sua imortalidade e imaterialidade, de forma puramente lógica e racional, independentemente da experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, o projeto de Wolff enfrentava um sério problema metodológico: a chamada observação interna ou [[introspecção]]. Quando se estuda um fenômeno natural, como a chuva, é necessário observar tudo que está envolvido com estee fenômeno, incluindo como as nuvens se formam, qual a umidade do ar, a intensidade dos raios solares, a direção dos ventos, entre muitos outros fatores. A questão é que todos estes aspectos são &#039;&#039;&#039;externos ao sujeito&#039;&#039;&#039;. Toda a ciência é feita dessa forma, observando, testando e analisando o mundo que está fora dos indivíduos. O problema está em estudar algo que é interno aos sujeitos. Não se pode observar diretamente o que se passa na cabeça de alguém, pelo menos não por enquanto. Contudo, é possível analisar o que se passa nas nossas próprias cabeças. Isso seria a &#039;&#039;&#039;introspecção&#039;&#039;&#039;, ou seja, o processo pelo qual adquirimos conhecimento sobre nossos próprios estados ou processos mentais Apesar de ser uma ideia interessante, fazer introspecção não era considerado algo muito científico. Entendia-se que “observar a si mesmo” distorcia os eventos mentais, pois o sujeito que observa e o objeto observado são o mesmo, o que impediria a neutralidade exigida pelo modelo científico então vigente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até a segunda metade do século XVIII, as teorias do conhecimento, que incluíam o empirismo e o racionalismo, compartilhavam a premissa de que o conhecimento era determinado pelo objeto a ser conhecido. A ideia era a de que objeto estava lá, esperando a melhor forma de ser conhecido. &#039;&#039;&#039;Kant&#039;&#039;&#039;, em sua obra [[Crítica da Razão Pura (livro)|Crítica da Razão Pura]] (1781), inverteu essa lógica de forma radical. Ele propôs que &#039;&#039;&#039;não é o conhecimento que se adequa aos objetos, mas são os objetos que são determinados pelo sujeito&#039;&#039;&#039;. O conhecimento passou a ser compreendido não como uma recepção passiva, mas como uma produção ativa do chamado sujeito transcendental, moldada por suas formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;sujeito transcendental&#039;&#039;&#039; em Kant não se refere propriamente a um indivíduo empírico ou psicológico, ou seja, alguém com personalidade e história pessoal. Pense no sujeito transcendental não como “você” (André ou Maria), mas como o “sistema operacional” universal da mente humana. Assim como um software organiza os dados que chegam do teclado, convertendo eles em coisas numa tela, o sujeito transcendental organiza os dados que chegam dos sentidos, como o tempo e o espaço, antes mesmo de termos consciência deles.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o sujeito transcedental, é preciso fazer um importante exercício de abstração, visando conseguir entender algo que está além da experiência existencial individual e entender aquilo que molda essa própria experiência. O sujeito transcedental de Kant é, segundo ele próprio, uma condição universal de possibilidade para qualquer conhecimento. Em outras palavras, é algo que todas as pessoas possuem e é a forma que o ser humano tem para saber as coisas. É a estrutura ativa da mente que organiza a experiência antes mesmo que possamos refletir sobre ela. Esse sujeito é o princípio unificador que garante a coerência dos dados sensoriais, transformando o caos de impressões oriundas dos órgãos dos sentidos em uma experiência significativa e estruturada. Através das formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039; da sensibilidade (espaço e tempo) e das categorias do entendimento, o sujeito transcendental “constrói” o objeto conhecido. Ele é o “Eu penso” cartesiano, que deve poder acompanhar todas as nossas representações, conferindo unidade à consciência. Em suma, &#039;&#039;&#039;não conhecemos o mundo como ele é em si, mas como o sujeito transcendental o molda e o organiza para que se torne inteligível para nós&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Immanuel Kant revolucionou a teoria do conhecimento ao postular que a mente humana não funciona como um receptáculo passivo de impressões sensoriais, mas sim como um agente ativo dotado de estruturas constitutivas a priori que organizam, unificam e interpretam a matéria-prima da experiência. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas ideias de Kant, o processo de constituição do conhecimento dos fenômenos que chegam para nossa mente a partir dos órgãos dos sentidos articula-se em três instâncias fundamentais. A primeira são as formas puras da sensibilidade, depois vem os conceitos puros do entendimento, ou seja, as categorias e, por fim, a unidade sintética da apercepção. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas &#039;&#039;&#039;formas puras da sensibilidade&#039;&#039;&#039;, antes mesmo que o intelecto possa aplicar qualquer conceito, o caos das sensações brutas é necessariamente ordenado no espaço e no tempo, que não são propriedades das coisas em si, mas intuições puras da sensibilidade que funcionam como os eixos coordenados onde os fenômenos são dados. Ou seja, as informações dos sentidos já chegam num espaço e num tempo para o resto do processo de constituição do conhecimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma vez colocados no espaço e estruturados numa sucessão e simultaneidade temporal, esses dados passam pelas &#039;&#039;&#039;doze categorias do entendimento puro&#039;&#039;&#039;. Essas categorias se dividem em &#039;&#039;&#039;quatro classes de tríades&#039;&#039;&#039;: quantidade, qualidade, relação e modalidade. As &#039;&#039;&#039;categorias&#039;&#039;&#039; representam as regras lógicas puras, fundamentais e necessárias para tornar qualquer objeto da experiência inteligível. Elas podem ser observadas de forma simplificada na tabela a seguir:&lt;br /&gt;
{| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot;&lt;br /&gt;
|Classe de Categorias&lt;br /&gt;
|Categoria 1 (Tese)&lt;br /&gt;
|Categoria 2 (Antítese)&lt;br /&gt;
|Categoria 3 (Síntese)&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|1. Quantidade&lt;br /&gt;
|Unidade&lt;br /&gt;
|Pluralidade&lt;br /&gt;
|Totalidade&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|2. Qualidade&lt;br /&gt;
|Realidade&lt;br /&gt;
|Negação&lt;br /&gt;
|Limitação&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|3. Relação&lt;br /&gt;
|Substância e Acidente&lt;br /&gt;
|Causa e Efeito&lt;br /&gt;
|Ação Recíproca&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|4. Modalidade&lt;br /&gt;
|Possibilidade (Impossibilidade)&lt;br /&gt;
|Existência (Não-existência)&lt;br /&gt;
|Necessidade (Contingência)&lt;br /&gt;
|}&lt;br /&gt;
As categorias de quantidade dizem respeito à extensão em que aplicamos um conceito aos objetos, ou seja, “quantos” elementos estamos considerando no juízo. Na unidade, temos um único objeto. Na pluralidade, trazemos vários objetos do mesmo tipo para um conjunto. Já a totalidade surge quando pensamos a pluralidade como uma unidade completa.Vejamos um exemplo. Quando um observador vê uma maçã, aplica a categoria da unidade, ou seja, ele viu uma maçã. Ao ver várias maçãs espalhadas na mesa, apreende uma pluralidade, ou seja, ele tem um conceito de “maçãs” e as vê como um conjunto. Porém, ao formular uma lei universal, aplica-se a totalidade, que engloba toda a pluralidade possível sob uma única regra conceitual, ou seja, todas as maçãs são frutas e existem vários tipos de maçãs.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade trata da atribuição de um predicado, ou seja, se a experiência afirma algo, nega algo ou se situa num limite conceitual. Em outras palavras, é a forma da mente definir “como algo é”. A realidade é afirmação de que um predicado pertence a um ser, ou seja, ele é alguma coisa. A negação é a afirmação de que o predicado não pertence a algo, ou seja, um “não-ser”. A limitação é a síntese das duas anteriores. Atribui-se uma negação como se fosse uma realidade, excluindo aquilo de uma esfera, mas deixando infinita a esfera onde ele pode estar. Vamos a um exemplo. Dizer “O homem é mortal” aplica a categoria de realidade (afirma-se um atributo). Dizer “O homem não é mortal” aplica a negação. No entanto, dizer “A alma é não-mortal (imortal)” é um juízo infinito clássico de Kant que evoca a limitação. Não sabemos o que a alma é de fato, mas a limitamos removendo ela da esfera das coisas mortais, o que a situa num campo aberto e indeterminado de possibilidades.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Consideradas por muitos comentadores como o coração da epistemologia kantiana, as categorias de relação definem como os objetos se relacionam entre si e como permanecem ou mudam no tempo. Substância e Acidente referem-se àquilo que permanece através da mudança (substância) e as propriedades que são transitórias, ou seja, que mudam (acidentes). Um exemplo disso é a água de um lago que congela no inverno. Seu estado físico muda do líquido para o sólido, que é o acidente, mas a matéria da água em si, a substância, permanece inalterada. Sem a categoria de substância, nossa mente registraria apenas uma sucessão caótica de imagens, sem reconhecer que se trata da mesma “coisa” sofrendo alteração. A Causa e Efeito é a relação estritamente necessária onde um evento segue outro no tempo. O exemplo de Kant, em resposta ao filósofo David Hume, é sobre o sol que ilumina uma pedra, e a pedra esquenta. Hume diria que inferimos causalidade por mero hábito psicológico, ou seja, não há conexão necessária, apenas uma observação e uma intuição. Kant argumenta que o próprio fato de distinguirmos uma sucessão objetiva de eventos exige que a mente aplique a categoria a priori de Causalidade. A mente “dita” a regra estrutural de que o aquecimento necessariamente sucede a irradiação solar, colocando uma como causa da outra. Já na Ação Recíproca (Comunidade), tem-se a relação simultânea de mútua influência entre múltiplas substâncias no espaço como, por exemplo, a interação gravitacional entre a Terra e a Lua. Elas não são eventos sucessivos no tempo, mas existem simultaneamente e influenciam-se de modo contínuo e bidirecional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, temos as categorias modais. Eles são os Postulados do Pensamento Empírico e não acrescentam nenhum atributo novo ao objeto em si, mas definem exclusivamente como esse objeto ou evento se relaciona com o sujeito cognitivo e suas faculdades. No caso da Possibilidade-Impossibilidade, é algo que concorda com as condições formais, que são as condições lógicas e puras da experiência. No binômio Existência-Não-existência, é algo que está dado materialmente na intuição empírica, ou seja, nos sentidos. Já na Necessidade-Contingência, é algo cuja conexão com a experiência empírica está determinada por condições universais. Vamos a um exemplo. Um dragão voador de escamas verdes ou um triângulo cujos ângulos somam 180 graus são conceitos logicamente possíveis, ou seja, não envolvem contradição formal. No entanto, apenas um objeto sensorialmente verificável, como a caneta sobre a sua mesa, tem a marca da existência. Já o fato de que um objeto massivo abandonado no ar cairá em direção ao solo é uma necessidade ditada pelas leis empíricas que o entendimento prescreve à natureza, ou seja, atribui a ele.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Acima dessas estruturas, Kant postulou a apercepção ou apercepção transcendental, que é o processo pelo qual a mente unifica de forma ativa diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Sem a apercepção, a mente seria apenas um amontoado de estímulos desconectados. Assim, a aperceção a base da própria consciência humana. Devido a essa complexa mediação ativa da mente, Kant estabeleceu uma distinção insuperável entre o mundo externo e a mente. Isso significa dizer que nós não temos acesso à “coisa em si”, ou noumenon, mas apenas a como as coisas nos aparecem, ou seja, na forma de fenômeno, já devidamente processadas pelo nosso aparato cognitivo. Neste sentido, É importante distinguir o “Eu empírico”, ou seja, aquilo que observamos em nós mesmos, como nossa personalidade ou o nosso humor, do “Eu transcendental”, a pura unidade lógica do “Eu penso”. Ademais, a apercepção transcendental não é uma faculdade psicológica de “prestar atenção”, mas uma exigência lógica. Para que uma experiência seja minha, o “Eu penso” deve poder acompanhar todas as minhas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Os Vetos Kantianos à Psicologia Científica ===&lt;br /&gt;
Apesar de ter colocado o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que conhece, no centro do universo epistemológico, Kant foi muito crítico sobre a possibilidade de a psicologia se tornar uma ciência. Em sua obra Princípios metafísicos da ciência da natureza, de 1786, ele negou a possibilidade de uma psicologia científica, pois afirmou que uma disciplina só poderia Sê-lo se possuísse uma elaboração racional capaz de fornecer leis formuladas matematicamente, o que poderia ser chamado de veto matemático. A psicologia falhava nesse critério porque os eventos mentais possuem apenas a dimensão do tempo, sem nenhuma extensão espacial, o que impossibilitaria a sua matematização. Para Kant, assim como o espaço é a forma do sentido externo, o tempo é a forma pura do sentido interno. Como os estados mentais só se dão na sucessão do tempo (sem extensão espacial), eles não formam figuras nem podem ser medidos geometricamente, inviabilizando a matemática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Kant apontou a impossibilidade de isolar diferentes pensamentos para a realização de experimentos controlados. Assim, como não podemos acessar o que seria o conteúdo da mente, cercá-la e analisá-la como ela é em seu estado bruto ou natural, qualquer experimentação seria impossível, o que poderia ser chamado de veto do objeto. Por fim, ele reforçou a crítica que já era direcionada a Wolff, aquele do começo dessa seção. A introspecção como método, segundo Kant, seria inviável porque a própria tentativa de observar um fenômeno interno altera o fenômeno, o veto metodológico. Se tento observar minha própria tristeza, por exemplo, o fenômeno original desaparece e se transforma em “tristeza-sendo-observada-por-mim”, misturando sujeito e objeto de tal maneira que corrompe a objetividade. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A impossibilidade de uma psicologia científica não significava, contudo, a impossibilidade de estudar a mente e o comportamento. Kant trabalhou e lecionou com o que chamou de Antropologia Pragmática. Enquanto a psicologia empírica tentava, em vão, segundo ele, ser uma ciência exata, a antropologia pragmática estudava “o que o homem, como ser livre, faz, ou pode e deve fazer de si mesmo”. Era um estudo prático do comportamento, das paixões, da memória e da cognição, focado na vida em sociedade. De certo modo, pode-se dizer que Kant fechou a porta para a psicologia mecanicista, ou ainda, uma psicologia como ciência exata, mas ajudou a abrir uma janela imensa para as ciências humanas e sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Emergência do Neokantismo Fisiológico e as Primeiras Aproximações para a Psicologia Científica ==&lt;br /&gt;
A primeira metade do século XIX na Alemanha foi inicialmente dominada pelo Idealismo Pós-Kantiano (Hegel, Fichte, Schelling), que propunha sistemas metafísicos grandiosos onde a realidade era essencialmente racional e espiritual. Contudo, a partir da década de 1850, o forte avanço das ciências naturais, como a fisiologia e a química, gerou uma importante reação materialista, consolidados nas figuras de Feuerbach, Vogt, Büchner e outros, que passaram a ridicularizar a filosofia idealista como mera especulação vazia. A metafísica, vista como uma das glórias da filosofia e do pensamento humano, passou a ser vista cada vez mais como um discurso com pouco ou nenhum lastro na realidade. Essa mudança foi muito importante para a história da psicologia científica, pois foi devido a esse contexto que foram formulados os primeiros experimentos voltados para o que seria, no futuro, a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Johannes Müller e a Teoria das Energias Nervosas Específicas ===&lt;br /&gt;
Neste período, a fisiologia se estabeleceu como uma ciência rigorosa e extremamente respeita, liderada por figuras como Johannes Müller. Müller, professor na Universidade de Berlim, publicou seu Manual de Fisiologia Humana (1833-1840), que sistematizou o conhecimento fisiológico da época e transformou a compreensão da percepção. Até o final do século XVIII, ela era explicada pela Teoria da impressão da sensação, derivada da física newtoniana e do empirismo britânico. Esse modelo assumia que o sistema nervoso era um meio homogêneo e passivo que simplesmente “transportava” as qualidades dos objetos externos para a mente, como se a sensação fosse uma cópia exata do estímulo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Johannes Müller revolucionou esse entendimento ao formular a Teoria das energias nervosas específicas (1826). Ele provou, através de experimentos, que a estimulação de um determinado nervo sensorial sempre provoca uma sensação característica e exclusiva daquele nervo, independentemente da natureza do estímulo físico externo. Em outras palavras, a qualidade da sensação não pertence ao objeto físico, mas sim à estrutura do próprio aparato sensorial humano. O mesmo estímulo pode produzir sensações completamente diferentes dependendo de qual via nervosa é ativada. Por exemplo, ao aplicar sal na pele, na língua e nos olhos, as sensações serão totalmente distintas, todas diretamente relacionadas às especificidades do aparelho sensorial que foi ativado. É importante entender que isso não acontece por conta da especificidade das características do estímulo, como o sal ser “salgado”. A pele produz apenas sensações táteis, ainda que o estímulo não seja tátil. Isso cria um problema de confiança naquilo que percebemos sensorialmente, pois mostra que os órgãos não enviam apenas propriedades dos objetos, mas antes operam apenas de modo específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Müller, por meio de experimentos, mostrou que os objetos físicos projetam imagens invertidas na retina, mas nós os percebemos na posição correta. Ele mostrou também que, embora as imagens projetadas nas duas retinas sejam levemente diferentes, o cérebro as unifica em uma única imagem tridimensional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas descobertas trouxeram Kant para o terreno da biologia, inclusive pelo próprio Müller que, apesar de não ser neokantiano, viu suas descobertas científicas influenciarem profundamente a primeira geração deles. O sistema nervoso não é um receptor passivo, antes, ele medeia, molda e traduz ativamente a realidade externa. A sensação deixou de ser vista como uma cópia do mundo e passou a ser um enigma, que pode ser analisado a partir da seguinte pergunta: “o que existe entre o estímulo físico e a sensação subjetiva?”. Este é o mundo do primeiro projeto de psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Hermann von Helmholtz e o Neokantismo Psicofisiológico ===&lt;br /&gt;
A ponte definitiva entre a epistemologia kantiana e a prática laboratorial foi construída por um antigo aluno de Johannes Müller, Hermann von Helmholtz (1821-1894). Ele colaborou no desenvolvimento do neokantismo psicofisiológico ou neokantismo fisiológico. Ele entendeu que as descobertas de seu professor forneciam a base material exata para a teoria do conhecimento de Kant. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1855, Helmholtz argumentou que as estruturas a priori propostas por Kant como condições de possibilidade da experiência eram, na verdade, características da anatomia e da fisiologia do aparato perceptivo humano. Ao “naturalizar” a filosofia de Kant, Helmholtz formulou a sua teoria dos signos, que postula que nossas sensações e percepções não são cópias diretas da realidade, mas sim símbolos ou signos gerados pelo nosso sistema nervoso em resposta aos estímulos. Para explicar como construímos uma imagem coerente e espacial do mundo a partir desses signos neurológicos isolados, Helmholtz introduziu o conceito de inferências inconscientes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo essa teoria, a mente realiza uma série de ajustes e cálculos automáticos, baseados na experiência e na aprendizagem contínua, para interpretar os dados sensoriais. A percepção de profundidade, a posição espacial e a resolução de duas imagens retinianas em uma única visão estereoscópica não são inatas, como defendia o nativismo de Ewald Hering ou o próprio Müller, mas são aprendidas empiricamente através do movimento do corpo e da repetição das sensações. O espaço perceptivo atua como uma linguagem que a mente usa para interpretar os dados fisiológicos brutos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com isso, Helmholtz fundou o projeto de uma psicologia fisiológica autônoma, diferente da psicologia filosófica discutida na época. Ele concordou com Kant que a introspecção tradicional era um método falho, que podia conduzir a ilusões porque o observador só capta a superfície consciente do pensamento. A solução de Helmholtz foi submeter o sujeito da experiência a condições de laboratório rigorosamente controladas. Se as condições da percepção dependem de mecanismos fisiológicos, então a única forma de fazer epistemologia científica é através da experimentação fisiológica e da ótica. O sujeito do conhecimento tornou-se, assim, um objeto, que poderia ser manipulado e analisado em laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Suas contribuições não acabam por aí. Antes das pesquisas de Helmholtz, a comunidade científica acreditava que o impulso nervoso era instantâneo ou rápido demais para ser mensurado. Em 1850, estimulando um nervo motor na perna de uma rã e medindo o tempo da contração muscular, ele obteve o registro da velocidade de condução neural, que é de aproximadamente 27 metros por segundo, provando que havia “algo” entre o estímulo e a percepção que poderia ser analisado cientificamente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também mediu o tempo de reação de nervos sensoriais em humanos. Essa descoberta provou que o pensamento e o movimento corporal não ocorrem simultaneamente, mas são separados por um intervalo de tempo mensurável. Essa foi a base que abriu caminho para os experimentos de tempo de reação e cronometria mental que dominariam o laboratório de Wundt décadas depois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== F. A. Lange e o Projeto de uma “Psicologia Sem Alma” ===&lt;br /&gt;
O segundo pilar desse “retorno a Kant”, também de matriz fisiológica, foi erguido pelo filósofo e sociólogo Friedrich Albert Lange (1828-1875). Lange foi uma figura central na “controvérsia materialista” que agitava a Alemanha. Ele rejeitava tanto os “delírios” dos sistemas idealistas metafísicos quanto o reducionismo ingênuo do materialismo científico de Vogt e Büchner. Em sua influente obra História do Materialismo, de 1866, Lange defendeu que a limitação proposta por Kant é absoluta, ou seja, não temos e nem nunca teremos acesso à essência última da realidade, às coisas em si. Nosso conhecimento se restringe aos efeitos das coisas, ou seja, os fenômenos, que nos aparecem totalmente moldados pela nossa organização mental e neurológica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Lange argumentou que a impossibilidade de conhecer a essência não impede o estudo científico rigoroso das “aparências”, ou seja, sobre como as coisas nos aparecem. Para viabilizar esse estudo, Lange atacou as psicologias filosóficas do passado, que versavam debates que ele ele entendia estéreis sobre a natureza, a imortalidade e a substancialidade da “alma”. Para Lange, a alma era um conceito vazio, um “mito antigo” que forçava a psicologia a operar sobre pressupostos metafísicos inverificáveis. Em resposta, ele propôs a criação de uma psicologia sem alma, ou, em outras palavras, uma psicologia sem metafísica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste novo paradigma, o objeto de estudo da psicologia deveria ser reduzido aos dados empíricos observáveis, incluindo a sensação, a percepção, a ação e a linguagem, sempre buscando o seu correlato fisiológico. Lange rejeitou a introspecção puramente filosófica, pois a auto-observação isolada é privada, não pode ser repetida, não permite a presença de observadores externos e leva invariavelmente a ilusões verbais. Segundo ele, essa introspecção conduzia o pesquisador a substancializar conceitos como “vontade” ou “pensamento”, sem nenhum lastro empírico ou experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A única saída para a psicologia tornar-se verdadeiramente científica era abraçar a metodologia das ciências naturais. Apoiando-se no trabalho de Helmholtz e nas medições pioneiras de psicofísicos como Ernst Weber e Gustav Fechner, Lange prescreveu que a psicologia deveria investigar as leis fisiológicas da percepção e medir a correlação exata entre estímulos físicos e respostas sensoriais, como nos tempos de reação e nos limiares diferenciais. A psicologia passava a ser entendida não como a ciência do espírito transcendente, mas como a ciência psicofisiológica que estuda experimentalmente as condições de possibilidade da experiência, trazendo o sujeito transcendente de Kant para uma fisiologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fechner e a Fundação da Psicofísica ===&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner (1801–1887) foi um físico e metafísico alemão e antigo aluno de Weber. Apesar de não ser um neokantiano, ele tem uma importância fundamental para este momento da fundação da psicologia experimental, tendo sido citado e adotado por neokantianos. Ele assumiu a prestigiada e importante cadeira de física da Universidade de Leipzig em 1834, enquanto produzia sátiras sobre temas metafísicos e artísticos sob um pseudônimo. Após uma série de experimentos em que observava diretamente o Sol, feriu gravemente suas retinas, evento que o conduziu a um colapso físico e mental. Teve uma recuperação milagrosa em 1843, quando tentou observar flores em seu jardim e, por meio de uma experiência mística, observou que a natureza brilhava de dentro para fora, de onde concluiu que o universo era dotado de alma e consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esssa experiência decisiva levou-o a dedicar sua vida ao combate do materialismo científico, que ele denominava visão noturna, que via o mundo como uma matéria inerte e sem vida. Já a sua visão diurna entendia que a matéria era a manifestação da consciência universal divina, uma cosmovisão espiritualista que pode ser entendida como panpsiquista, ou seja, todos os corpos físicos possuem uma forma de alma. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi buscando provar sua visão que Fechner entendeu que poderia provar empiricamente a relação entre a mente (ou o espírito) e o corpo (ou a matéria) se encontrasse uma relação matemática constante entre a intensidade do estímulo físico e a magnitude da sensação psíquica correspondente. Isso porque Fechner percebeu que um aumento na intensidade do estímulo físico não gerava um aumento equivalente e proporcional na sensação subjetiva. A relação não era linear, mas sim proporcional, pois o estímulo físico aumentava em uma progressão geométrica, enquanto a sensação psíquica crescia em uma progressão aritmética. Por exemplo, acrescentar o som de um sino a outro que já está tocando gera um forte impacto perceptivo, pois é possível distinguir claramente que passou-se de um para dois sinos. Já acrescentar um sino a uma dezena deles produz uma alteração quase imperceptível. A sensação dependia, portanto, do nível de estimulação já existente no sistema.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para dar sustentação empírica à sua teoria, Fechner apropriou-se dos trabalhos experimentais realizados por Weber, que havia formulado a teoria da diferença mínima perceptível, demonstrando que a sensibilidade humana não avaliava diferenças absolutas entre estímulos, mas sim relações relativas ou proporcionais. Weber observou que, ao levantar pesos, os sujeitos conseguiam detectar uma variação mínima correspondente a uma fração constante de aproximadamente 1:40 em relação ao peso padrão. Essa constância proporcional é descrita pela chamada Lei de Weber:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
II=K&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde I representa a intensidade do estímulo padrão (que aparecerá como R posteriormente), ΔI é o acréscimo mínimo necessário para produzir uma mudança perceptível na sensação e k é uma constante matemática específica para cada modalidade sensorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Fechner percebeu que essa fração constante (ΔI/I) correspondia à unidade de medida da sensação subjetiva (dS). Utilizando o cálculo infinitesimal, Fechner integrou matematicamente a equação de Weber, assumindo que todas as diferenças mínimas perceptíveis eram subjetivamente iguais entre si. Essa operação matemática resultou na célebre Lei de Fechner ou Lei de Weber-Fechner:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
S = k Log R&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde S representa a magnitude da sensação subjetiva (qualidade mental), R representa a intensidade física do estímulo (qualidade material) e K é uma constante experimental ajustada a cada sentido. Essa fórmula logarítmica foi construída para mostrar que, para a sensação aumentar linearmente, o estímulo físico precisava crescer exponencialmente, estabelecendo uma relação exata e mensurável entre o psíquico e o físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para aplicar sua fórmula, Fechner sistematizou dois conceitos fundamentais que estruturam as medições psicofísicas. A primeira é o limiar absoluto, ou seja, o ponto de intensidade física mínima abaixo do qual o estímulo não é detectado pelo sujeito e acima do qual a sensação passa a ser percebida. Outro conceito é o de limiar diferencial, que é a quantidade mínima de alteração ou variação que deve ser aplicada a um estímulo para que o sujeito seja capaz de discriminar uma mudança na sensação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um desdobramento fascinante da Lei de Fechner ocorreu quando o estímulo físico apresentava valores abaixo do limiar absoluto (R&amp;lt;1), resultando em valores negativos para a sensação (S). Fechner definiu esses valores como sensações negativas ou subliminares, postulando a existência de processos mentais ativos abaixo do limiar da consciência desperta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para determinar com precisão científica os limiares absolutos e diferenciais, Fechner desenvolveu e padronizou três metodologias experimentais rigorosas, que se tornaram os pilares metodológicos de toda a psicologia experimental posterior. No Método do Erro Médio ou do Ajuste, o próprio sujeito experimental manipula ativamente um instrumento para ajustar um estímulo variável até que sinta que este se iguala a um estímulo padrão constante. A média dos desvios entre os ajustes do sujeito e o padrão real define o erro de observação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já no Método do Estímulo Constante ou dos Casos Corretos e Incorretos, o pesquisador apresenta de forma aleatória uma série de estímulos pré-determinados e constantes em comparação com um estímulo padrão. O sujeito deve julgar se o estímulo de comparação é maior, menor ou igual ao padrão, medindo-se a proporção estatística de acertos. Por fim, no Método dos Limites ou das Diferenças Mínimas Perceptíveis, dois estímulos são apresentados ao sujeito. Um deles é aumentado ou reduzido sistematicamente em passos discretos e graduais, e o sujeito relata o momento exato em que deixa de perceber ou passa a perceber a diferença entre ambos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1860, Fechner publicou seu livro monumental, Elementos de Psicofísica, que alguns entendem ser o primeiro sobre a psicologia científica experimental. Ao fornecer à psicologia técnicas de medição coerentes e precisas, Fechner provou de forma contundente que a mente humana era passível de investigação científica e experimental, sepultando em definitivo o antigo veto imposto por Immanuel Kant, em pleno momento de desenvolvimento do Neokantismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Incomodados com as inclinações metafísicas e espiritualistas de Fechner, os psicólogos experimentais subsequentes, sob a liderança de Wilhelm Wundt, rejeitaram completamente o panpsiquismo entre outras ideias, apropriando-se exclusivamente de seus métodos quantitativos de laboratório para estabelecer a psicologia como uma ciência empírica e natural. Como bem observou o historiador Edwin G. Boring, Fechner agiu como um “Colombo que descobriu um Novo Mundo (a psicologia científica) enquanto procurava pelas antigas Índias (a prova de sua metafísica)”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Resumindo ===&lt;br /&gt;
A intersecção entre a epistemologia kantiana, a fisiologia de Müller e a reformulação promovida por Helmholtz e Lange constituiu o início daquilo que tornou possível a psicologia científica. Kant havia mostrado que o sujeito constrói ativamente a realidade, mas negou que esse sujeito pudesse ser estudado matematicamente ou experimentalmente. Müller transferiu a estrutura ativa da mente para os nervos sensoriais específicos. Helmholtz e Lange reinterpretaram as pesadas categorias transcendentais de Kant como mecanismos biológicos e perceptivos operando através de inferências inconscientes e leis fisiológicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao “naturalizar” a Crítica da Razão Pura, o Neokantismo Psicofisiológico resolveu o veto de Kant a uma psicologia científica. Se os limites e as formas do nosso conhecimento são determinados pelo nosso sistema nervoso e sensorial, então o estudo epistemológico da mente deve ser feito no laboratório de fisiologia, estudando principalmente a percepção. A exigência de matematização foi superada pelas leis da psicofísica de Fechner e Weber, e o problema da introspecção descontrolada foi resolvido pelo uso de instrumentos de precisão, como cronoscópios, além de métodos de medidas de limiar, controle de estímulos, erros médios, entre outros, que transformavam as respostas subjetivas em dados objetivos, replicáveis e mensuráveis. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse foi o cenário epistemológico e institucional que Wilhelm Wundt encontrou e ajudou a consolidar. Wundt não fundou a psicologia a partir do nada em 1879. Seu Instituto em Leipzig foi organização metodológica e teórica de décadas de esforços em que a filosofia foi obrigada a dialogar com os nervos, os músculos e os tempos de reação, transformando para sempre a especulação sobre a alma em uma rigorosa ciência da experiência imediata. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ironicamente, escolas neokantianas posteriores, como a Escola de Marburgo, foram focos de resistência à psicologia experimental, alegando que o sujeito do conhecimento de Kant era de ordem puramente transcendental e lógica, e não empírica ou mensurável, ou seja, rejeitando a “biologização” do pensamento kantiano e a consequente criação da psicologia experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, conforme mostra Gundlach, a criação de uma posição acadêmica e o laboratório de psicologia por Wundt não se deu por conta de um amplo reconhecimento da superioridade do pensamento wundtano, mas sim por conta de disputas políticas e institucionais nas universidades alemãs. De qualquer forma, Wundt conseguiu desenvolver bem sua teoria ao longo de sua vida e conseguiu estabelecer-se na proeminência da psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia de Wundt ==&lt;br /&gt;
Wilhelm Maximilian Wundt é, na historiografia da psicologia, uma figura ao mesmo tempo onipresente e pouco compreendida. Freqüentemente reduzido ao título de “fundador do laboratório de Leipzig”, essa simplificação negligencia sua estatura como um dos últimos grandes arquitetos de sistemas do século XIX, cujo &#039;&#039;Systemgedanke&#039;&#039; (pensamento sistêmico) buscava integrar a psicologia como uma propedêutica fundamental para a filosofia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Recuperar o Wundt original exige preencher uma vasta lacuna historiográfica. A primeira envolve apontar as conhecidas e muitas das distorções da tradução de E.B. Titchener para o contexto anglo-americano, que foi formulada para aproximar suas ideias e pdasdaquelas de Wundt, visando uma “confirmação” do pensamento de Titchener. Wundt não era um estruturalista ou associacionista clássico e seu sistema é essencialmente dinâmico e centrado no &#039;&#039;&#039;voluntarismo&#039;&#039;&#039;. Para Wundt, a vontade e os processos afetivos não são meros epifenômenos, ou seja, um fenômenos secundários ou acessórios que acompanhma um fenômeno principal, mas o eixo organizador da consciência ativa. Esta reconstrução crítica visa resgatar a autonomia epistemológica de uma ciência que define seu objeto não como uma substância, mas como a experiência em sua totalidade imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Experiência conforme Wundt ===&lt;br /&gt;
Para Wilhelm Wundt, a experiência é concebida como um todo unitário e coerente. As duas abordagens da experiência que ele propõe não se deve a uma diferença ontológica, mas como dois pontos de vista distintos e complementares que permite sua abordagem científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Experiência Mediata&#039;&#039;&#039; é a experiência objetiva) está focada nos objetos do mundo externo. É chamada de &amp;quot;mediata&amp;quot; porque nosso acesso a tais objetos é sempre indireto, dependente de conceitos abstratos, inferências teóricas e construções conceituais auxiliares para representá-los. Ela foca exclusivamente nos objetos do mundo externo, abstraindo o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que sabe, que tem conhecimento. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A Experiência Mediata seria o ponto de vista característico das ciências naturais, como física, química e fisiologia. A ciência natural opera por meio de uma abstração sistemática, pois ela coloca o sujeito cognoscente &amp;quot;entre parênteses&amp;quot; e analisa apenas os objetos externos pensados, como se existissem de maneira totalmente independente de quem os percebe. É chamada de &amp;quot;mediata&amp;quot; porque nosso acesso a tais objetos é sempre indireto, dependente de conceitos abstratos, inferências teóricas e construções conceituais auxiliares para representá-los. Por um lado, o estímulo físico é intermediado pelos limites anatômicos e biológicos do nosso aparato perceptivo, ou seja, temos os limites e capacidades da nossa percepção. No caso da visão, por exemplo, não vemos os raios ultravioleta e infravermelho, pois não estão no expecto da luz visível, mas vemos as cores e suas combinações. Por outro lado, para constituir a &amp;quot;realidade objetiva&amp;quot;, o cientista natural precisa utilizar conceitos teóricos auxiliares e construções hipotéticas, como átomos, ondas eletromagnéticas e forças gravitacionais, que não são dados imediatamente na percepção sensível mas que podem ser vistos experimentalmente e por meio de instrumentos e aparatos científicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wundt critica assim o empirismo tradicional e o associacionismo. A doutrina do empirismo diz que a mente como página em branco, conforme a formulação de John Locke e sua &#039;&#039;tabula rasa&#039;&#039;. Neste caso, a mente seria progressivamente preenchida pelas impressões do mundo exterior (sensação) e pelas operações internas (reflexão). David Hume radicaliza o princípio empírico, postulando que as impressões são os átomos cognitivos fundamentais e as ideias nada mais são do que cópias atenuadas ou lembranças dessas impressões na memória e na imaginação. Já o associacionismo onstitui a hipótese explicativa de como ideias simples e discretas se combinam para formar pensamentos complexos, juízos e raciocínios abstratos. Se o empirismo fornece os blocos de construção, o associacionismo descreve a &amp;quot;força de atração&amp;quot; que os une.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
fala que o erro do empirismo tradicional e do associacionismo (o &amp;quot;intelectualismo&amp;quot;) foi transferir os atributos dos objetos externos da física — solidez, limites rígidos e permanência estática — para os conteúdos conscientes, passando a tratar as representações (Vorstellungen) como coisas ou &amp;quot;átomos mentais&amp;quot;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
. Na física, o foco recai sobre o objeto substantivo; contudo, a consciência não contém objetos estáveis&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Experiência Imediata (Subjetiva): É o objeto de estudo exclusivo da psicologia científica&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
. Ela investiga a experiência em sua realidade direta, concreta e intuitiva, sem abstrair o sujeito e examinando a relação viva deste com os conteúdos que surgem na consciência (como sensações brutas, sentimentos, afetos e atos de vontade)&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
. Trata-se do acesso imediato que o indivíduo tem aos seus próprios processos internos exatamente no momento em que ocorrem, antes de qualquer teorização abstrata&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Experiência Imediata, o Objeto de Estudo da Psicologia ===&lt;br /&gt;
Ao definir seu objeto, Wundt deu um passo decisivo para dar à psicologia autonomia perante as outras ciências naturais. Ele propõe que a experiência é uma unidade indivisível. Mas o que ele quer dizer por “experiência”? Uma definição poderia ser a totalidade dos processos conscientes, englobando sensações, sentimentos, representações e volições (vontades), apreendida da exata forma como se apresenta diretamente ao sujeito, sem qualquer abstração conceitual ou mediação de instrumentos externos. Ou seja, a experiência de Wundt seria como tudo o que se passa na mente, exatamente como ela aparece para uma pessoa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para ele, a experiência pode ser analisada a partir de duas perspectivas: a mediata e a imediata. A experiência ediata pertence ao domínio das Naturwissenschaften, ou ciências naturais, como a física e a química. Ela seria a a experiência objetiva, focada totalmente nos objetos do mundo externo que, se pensados de maneira isolada, são independentes do sujeito. Ela é chamada de mediata porque o acesso a essa realidade é indireto, ou seja, ela precisa de uma mediação. Essa mediação são conceitos teóricos e construções auxiliares e as características cognitivas e biológicas do próprio sujeito que interpreta os dados sensoriais brutos utilizando suas crenças, conhecimentos e expectativas. Isso não significa que a ciência natural esteja errada, mas sim que ela possui um recorte de interesse diferente do recorte da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O domínio da psicologia seria a experiência imediata, subjetiva, que é a experiência em sua realidade concreta, direta e intuitiva, apreendida antes de qualquer conceituação, teorização ou abstração. Ou seja, é a experiência antes de ela adquirir qualquer camada de compreensão, que seriam mediadores, por isso é imediata, sem mediação. Ela envolve o processamento de elementos sensoriais simples, como cor, som, temperatura, e de sentimentos simples, como prazer e desprazer. Ela diz respeito ao modo puro de funcionamento mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vamos a um exemplo, desta vez no campo do som. Na perspectiva mediata, o cientista natural abstrai o sujeito e estuda o som de forma indireta e conceitual. Ele utiliza aparelhos para medir as ondas sonoras e a sua propagação física pelo ar. O objeto físico “som” é, portanto, mediado e traduzido por conceitos de frequência, amplitude e decibéis. Já sob a perspectiva imediata, que é a da psicologia, o psicólogo estuda a sensação direta e em si mesma do tom no momento exato em que ele aparece na consciência. A análise está na vivência concreta do sujeito, que inclui a qualidade do tom, a sua intensidade subjetiva, a tonalidade afetiva de prazer ou desprazer que o acompanha e o processo ativo da atenção (apercepção, que será tratada mais adiante) que coloca aquele som no foco da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se olharmos desta vez para as cores, na visão mediata, ciência natural estuda o azul abstraindo a experiência do sujeito. A física o descreverá de forma conceitual como uma radiação eletromagnética com determinado comprimento de onda atingindo a retina. Para a psicologia de Wundt, o azul é investigado como um dado imediato e real na consciência do sujeito no momento da percepção interna. O foco não está nas propriedades físicas do estímulo, mas sim na reação subjetiva e ativa do cérebro vivo a esse estímulo, que gera a qualidade imediata da cor na experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conduzindo seus estudos, Wundt também identificou aquilo que denominou causalidade psíquica. Ao nos lembrarmos de um fato triste, a fisiologia explicaria a tristeza de forma conceitual e indireta, por meio de correntes elétricas no córtex cerebral, liberação de hormônios ou atividade de sinapses nervosas. Já o psicólogo observa a conexão de processos internos como elas ocorrem diretamente na consciência do sujeito, como a ligação da lembrança triste a um sentimento de angústia. A causalidade psíquica é uma causalidade própria da mente e irredutível às leis físicas da natureza, ou seja, não pode ser comparada à causalidade científica como a conhecemos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao adotar a experiência como seu objeto, Wundt rompe com a psicologia da alma, filosófica e metafísica. Ele substitui a psicologia de substâncias, que postula uma entidade mental oculta, pela teoria da atualidade (Aktualitätstheorie), na qual o psiquismo é definido como um fluxo de processos em constante devir. Seu sistema está fundamentado em um monismo perspectivista. Em outras palavras, para ele, mente e corpo não são substâncias que interagem mecanicamente, mas perspectivas distintas sobre a mesma unidade da experiência (Erfahrung). A psicologia, portanto, não estuda um “mundo interno”, que está isolado do externo, ainda que em contato com ele, mas a totalidade da experiência humana sob o prisma da imediatidade. Essa transição do estatuto de substância “mente” ou algo semelhante para o de processo traz uma nova perspectiva, criando um objeto que pode ser alvo de experimentação científica, partindo de experimentos já criados pela psicofísica e ainda outros que seriam desenvolvidos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Psicologia Individual e Völkerpsychologie: dois métodos para manifestações da experiência ===&lt;br /&gt;
A arquitetura metodológica de Wundt responde ao desafio de investigar processos mentais que variam em complexidade. Ele estabelece que a psicologia deve ser compreendida como o fundamento das Geisteswissenschaften (ciências do espírito ou humanas). A Psicologia Individual foca nos processos elementares, que incluem sensação e percepção, que são passíveis de controle rigoroso em laboratório através da manipulação de estímulos externos e introspecção experimental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entretanto, Wundt reconhece a insuficiência do experimento para os processos mentais superiores, como o pensamento e a linguagem, que são historicamente condicionados. Para estes, ele propõe a Völkerpsychologie , ou Psicologia dos Povos, dedicada ao estudo dos produtos das geistige Gemeinschaften (comunidades espirituais ou coletividades). Wundt vai apontar a linguagem, o mito e os costumes (Sitten) não são apenas dados culturais, mas objetivações de leis psíquicas superiores inacessíveis à introspecção de laboratório. Eles seriam produtos da experiência humana nas suas formas mais avançadas e superiores e, por não serem passíveis de experimentação, exigem uma outra abordagem. Essas duas vertentes, experimental e histórico-cultural, não são divergentes, mas sim o projeto integrador que permite apreender a mente tanto em sua base sensório-motora quanto em suas manifestações espirituais complexas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As investigações da psicologia dos povos focavam na alma do povo (Volksseele), definida como a realidade factual dos processos psíquicos que surgem em uma comunidade por meio da interação das energias mentais dos indivíduos. Essa “mente coletiva” se tornava um objeto tangível e investigável ao longo da história em três grandes produtos culturais. O primeiro é a linguagem (Die Sprache), ferramenta pela qual o pensamento é estruturado e externalizado. Já o mito e a religião são as formas como a imaginação e os sentimentos humanos coletivos projetam suas explicações sobre o cosmos e a existência. Os costumes (Sitten) e o direito, por sua vez, são  as regras de conduta coletiva que nascem de atos voluntários e impulsos compartilhados, padronizando as interações sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não podia realizar experimentos com culturas inteiras, Wundt operava por meio da pura observação retrospectiva e comparativa dos produtos mentais, ou seja, analisando os objetos já criados e usados ou em uso por diferentes povos e culturas, anotando suas diferenças e semelhanças. Wundt juntava, lia e analisava de forma exaustiva relatos históricos, estudos filológicos, dicionários, mitologias comparadas, códigos de leis e descrições etnológicas e antropológicas de povos ao redor do globo, ou seja, utilizava dos estudos de diferentes ciências humanas e sociais para extrair as leis psicológicas gerais do desenvolvimento mental humano por trás dessas manifestações. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seu objetivo era mapear como a mente coletiva evoluía do simples para o complexo ao longo das eras, numa abordagem genética e desenvolvimentista e reconstruir, de forma retrospectiva, as forças dinâmicas, os afetos, os impulsos (Triebe) e os processos de síntese criadora (melhor discutida mais adiante) que estiveram ativos na mente das pessoas no momento de sua formação. Wundt dedicou os últimos 20 anos de sua vida (de 1900 a 1920) quase exclusivamente a esse empreendimento monumental, escrevendo dez volumes da sua obra Völkerpsychologie.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Apercepção ===&lt;br /&gt;
No contexto filosófico, como já visto, o conceito de apercepção remonta a Kant, que a definiu como o processo autônomo, ativo e prévio pelo qual a mente unifica diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Wundt adotou essa noção kantiana para fundamentar sua teoria da consciência, definindo apercepção como o processo psicológico ativo pelo qual um conteúdo psíquico (ou representação) é trazido à clareza máxima e ao foco da consciência, vindo necessariamente acompanhado pelo estado de atenção voluntária.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para explicar a dinâmica da consciência, Wundt utilizou uma famosa analogia com a visão para diferenciar apercepção e percepção. O campo visual da consciência (Blickfeld) corresponde à percepção, que é a simples entrada de uma representação na consciência de forma difusa, ampla e sem a presença focalizada da atenção. Já o ponto focal da consciência (Blickpunkt) corresponde à apercepção, que é a entrada de uma representação no ponto central de máxima clareza e foco estreito da atenção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A apercepção, então, é uma manifestação primordial da vontade, funcionando como o princípio dinâmico que dá direção e estrutura tanto à experiência quanto ao movimento. Além disso, a apercepção pode ser ativa, que é quando o sujeito deliberadamente seleciona onde focará sua atenção, ou passiva, quando é o estímulo que se impõe no foco no sujeito. Por fim, a apercepção é o mecanismo central da operação da causalidade psíquica. É ela que unifica a mente em um sistema ativo, permitindo que a fusão de elementos resulte em sínteses criadoras com propriedades qualitativamente novas e imprevisíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Percepção Interna (innere Wahrnehmung) vs. Auto-observação (Selbstbeobachtung) ===&lt;br /&gt;
Para garantir o rigor procedimental e responder ao “desafio kantiano”, Wundt rejeitou a Selbstbeobachtung, que pode ser entendida como a auto-observação tradicional ou introspecção casual. Trata-se do método introspectivo puramente filosófico e especulativo que, segundo Wundt e outros, seria fonte de auto-ilusões e onde o ato de observar altera o fenômeno observado. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A solução científica é a innere Wahrnehmung, ou percepção interna, que permite a criação de um método científico baseado na repetição de estímulos externos controlados. No laboratório, o psicólogo replica condições experimentais que permitem a observação do aparecimento imediato do processo psíquico sob condições estáveis e previsíveis. O laboratório funciona, portanto, como o estabilizador do objeto psicológico, permitindo que a percepção interna atinja a precisão necessária para decompor a consciência em seus elementos fundamentais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experimentos do Laboratório de Wundt ====&lt;br /&gt;
Vamos a alguns exemplos do que acontecia no laboratório de Wundt, para integrar melhor os conceitos já apresentados. O primeiro experimento foi concebido originalmente para descrever a “equação pessoal” que aparecia nas medições dos astrônomos. No caso, observava-se que astrônomos treinados, utilizando os mesmos equipamentos, discordavam de suas medições que, à época, eram feitas manualmente com ajuda de instrumentos. De alguma forma, estas diferenças nas medições pareciam ter um tipo de padrão. Neste experimento, Wundt utilizava um aparelho chamado medidor de pensamento (Gedankenmesser) e, posteriormente, o pêndulo de complicação (Complicationspendel). O dispositivo consistia em um grande relógio de pêndulo que possuía uma agulha cruzada, como uma agulha de tricô, capaz de golpear fisicamente um pequeno sino em um ponto exato do seu arco de oscilação. O sujeito do experimento deveria olhar para a escala do pêndulo e tentar determinar a posição exata do ponteiro no momento em que ouvia o sino tocar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste experimento, Wundt descobriu que o sujeito sempre cometia um erro sistemático de registro, de aproximadamente um oitavo de segundo. Segundo ele, era impossível perceber visualmente a agulha e o som do sino ao mesmo tempo. Esse experimento seria uma prova laboratorial de que a consciência possui uma capacidade limitada e só consegue focar em uma única percepção por vez, como a diferença no marco da medição podia mostrar. A ilusão de simultaneidade devia-se apenas à rápida sucessão dos processos de atenção (apercepção).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os experimentos de tempo de reação, nosso segundo exemplo, constituíam o verdadeiro coração do trabalho em Leipzig na década de 1880. Wundt adaptou o método de subtração (Subtractiemethode), do fisiologista holandês F. C. Donders, para medir a velocidade de processos mentais complexos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o experimento de Wundt, é necessário compreender que, para ele, uma reação consciente envolvia: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- transmissão da sensação ao cérebro; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2- entrada do estímulo no campo amplo da consciência (percepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
3- entrada no foco ativo da atenção (apercepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
4- ato de vontade para liberar a resposta; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
5- execução motora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada um dessas partes exigem um certo tempo, pois são processos não imediatos. A depender de como as etapas do experimento são organizadas, diferentes tempos indicariam o acionamento maior ou menor de cada um deles. No experimento, o sujeito era treinado para responder pressionando uma tecla telegráfica ao ver um estímulo luminoso simples, como um flash de luz. Em seguida, a tarefa mais difícil. Duas imagens eram apresentadas, um círculo branco sobre fundo preto ou vice-versa, e o sujeito só deveria reagir após identificar com clareza qual imagem havia aparecido. Ao subtrair o tempo da reação simples do tempo da reação complexa, Wundt calculava o “tempo de apercepção” ou discriminação. Na primeira tese de doutorado em psicologia experimental da história, Max Friedrich, que atuou no experimento, mostrou que o tempo de discriminação aumentava de acordo com a complexidade do estímulo visual. Por exemplo, o sujeito levava mais tempo para aperceber e discriminar uma sequência de seis dígitos do que de apenas um ou dois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O assistente de Wundt, Ludwig Lange, também colaborou no estudo ao desenvolver um experimento crucial. Ele demonstrou que os tempos de reação variavam drasticamente dependendo da preparação atencional do sujeito. Se a atenção estivesse focada no movimento de resposta que o dedo faria (reação muscular), o tempo era curto (cerca de 125 ms), pois funcionava como um “reflexo cerebral” que pulava a apercepção. Se o foco estivesse direcionado ao estímulo sensorial que iria surgir (reação sensorial), o tempo era cerca de 100 ms mais longo, pois envolvia o circuito completo da mente consciente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O terceiro experimento foi desenvolvido por Martin Trautscholdt, um dos estudantes de doutorado de Wundt. Ele estudava a associação de ideias. No seu estudo, o sujeito era instruído a pressionar uma tecla no momento exato em que uma ideia associada surgisse em sua consciência a partir de um estímulo visual ou auditivo. Ao subtrair o tempo que o sujeito levava para simplesmente reconhecer a palavra estimulante, Trautscholdt conseguiu quantificar o tempo gasto pela mente para realizar a conexão associativa propriamente dita que, segundo Trautscholdt, variava entre 706 e 874 ms. Wundt também adaptou a técnica de associação de palavras de Francis Galton, limitando a resposta do sujeito a apenas uma única palavra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O quarto e último experimento que será apresentado é relacionado a acordes musicais. Nele, sujeitos ouviam tons isolados no piano, que seriam as sensações puras, e depois os mesmos tons tocados simultaneamente. Os participantes descreviam em detalhes a transição afetiva de como a fusão física das frequências dava origem a um produto inteiramente novo na consciência, que seria o sentimento estético de harmonia e prazer decorrente de uma síntese criadora. Wundt conduzia vários experimentos em estética experimental, tal qual seu colega Fechner.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Arquitetura da Mente: Elementos, Fusão e Síntese Criadora ===&lt;br /&gt;
Segundo Wundt, a experiência pode ser decomposta em elementos simples, que incluem as sensações e os sentimentos simples. Os sentimentos, por sua vez, são entendidos a partir da teoria tridimensional dos sentimentos, onde eles se distribuem em um espaço qualitativo entre os polos prazer/desprazer (Lust-Unlust), tensão/relaxamento (Spannung-Lösung) e excitação/depressão (Erregung-Beruhigung). A primeira é a mais evidente, se refere à avaliação afetiva primária da experiência. A segunda se relaciona ao esforço da atenção ou à preparação interna da mente. Já a terceira está relacionada ao nível de ativação biológica e psicológica do organismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esses aspectos todos são organizados através do mecanismo de fusão (Verschmelzung), onde as qualidades elementares se fundem em complexos psíquicos. O conceito central aqui é o princípio da síntese criadora (schöpferische Synthese). Ao contrário do associacionismo britânico, Wundt afirma que o todo resultante possui propriedades que não estão contidas na mera soma das partes. Essa síntese não é um processo mecânico passivo, mas um ato aperceptivo ativo, vinculado à vontade. Na mente humana, a combinação de elementos gera um valor novo e qualitativamente superior, marcando a distinção fundamental entre a causalidade psíquica e a mecânica física.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em termos simples, a síntese criadora estabelece que os complexos psíquicos, como representações, sentimentos compostos e afetos, embora formados pela união de elementos simples (sensações e sentimentos simples), possuem características qualitativas inteiramente novas que não pertencem a nenhum de seus elementos constituintes isolados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fusão é o processo ativo e primário de integração psíquica. É através dela que os elementos sensoriais e afetivos brutos são ativamente sintetizados pela mente para dar origem a uma nova unidade psicologicamente complexa. A fusão é a geradora da síntese criadora. Para Wundt, a síntese criadora é a prova cabal da causalidade psíquica. Ela monstra que os fenômenos mentais obedecem a leis de conexão e geração próprias que não se ajustam às leis da física ou da fisiologia mecânica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Observemos isso com um exemplo já apresentado. Se você tocar no piano as notas Dó, Mi e Sol isoladamente, você terá apenas a experiência de três sensações auditivas distintas. No entanto, quando essas notas são tocadas simultaneamente, a fusão de seus elementos gera na consciência uma experiência qualitativamente nova, que seria um acorde musical. O sentimento de harmonia e a qualidade estética do acorde são um produto da síntese criadora, pois não existiam em nenhuma das notas isoladas e surgem puramente da atividade unificadora da mente sobre o estímulo físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Paralelismo Psicofísico e Causalidade Psíquica ===&lt;br /&gt;
O paralelismo psicofísico foi um dos conceitos mais importantes e debatidos no século XIX durante o processo de fundação da psicologia científica. Ele surgiu como uma alternativa teórica para solucionar o clássico problema mente-corpo. O conceito foi formulado de forma a tanto o dualismo substancial, que dividia o ser humano em duas substâncias isoladas cuja forma de interação era desconhecida, quanto o materialismo reducionista, que reduzia a mente a uma mera secreção cerebral ou processo físico ou fisiológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para Fechner, o paralelismo era a manifestação de um monismo neutro, ou teoria de duplo aspecto. Ele defendia que a matéria (corpo) e o espírito (mente) não são substâncias diferentes, mas sim dois modos de aparência ou perspectivas distintas de uma única e mesma realidade subjacente, teoria sobre o qual fundamental grande parte de seu projeto científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt também adotou o termo paralelismo psicofísico, mas realizou uma redefinição epistemológica radical do conceito, visando se afastar da metafísica. Ele rejeitava categoricamente qualquer tentativa de transformar o paralelismo em uma doutrina ontológica sobre a natureza última da realidade, transformando-o estritamente um postulado metodológico e heurístico indispensável para a investigação científica. Os processos mentais não sejam reduzidos a processos fisiológicos ou neurais, pois a consciência obedece a leis de conexão próprias, como a causalidade psíquica, que não podem ser explicadas pelas leis da mecânica cerebral.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O que Aconteceu Depois? ===&lt;br /&gt;
No final de sua vida, Wilhelm Wundt era visto de forma ambivalente. Enquanto mantinha o prestígio de fundador da psicologia científica, uma nova geração de psicólogos que buscava se firmar, via como um “pai tribal”, cujo longo domínio de mais de quatro décadas estava desgastado. Ele se tornou o alvo de críticas severas e passou a ser tratado por muitos como o ícone de um passado superado e falido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante a Primeira Guerra Mundial e nos anos que a sucederam, a reputação internacional de Wundt sofreu graves danos. Influenciado por seu filho Max, Wundt adotou posturas políticas ultranacionalistas, chegando a usar a Völkerpsychologie de maneira tendenciosa para criticar os inimigos da Alemanha. Essa postura inflamou um forte preconceito anti-alemão, especialmente nos Estados Unidos, onde ex-alunos e intelectuais americanos passaram a ver ele como uma mente maligna e autoritária, acelerando a rejeição de suas obras em solo estrangeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A maior frustração de Wundt no fim da vida ocorreu no âmbito acadêmico alemão. Ele sempre defendeu que a psicologia era uma ciência propedêutica e uma aliada indispensável da filosofia, devendo permanecer integrada a esta. No entanto, os filósofos acadêmicos de sua época, especialmente os neokantianos e fenomenologistas, rejeitaram veementemente o  que chamavam de “psicologismo de Wundt”, ou seja, a redução da lógica e da validade do conhecimento a fatos psicológicos. Em 1913, após a contratação de um psicólogo experimental para a cadeira de filosofia em Marburg, mais de cem professores de filosofia assinaram um protesto público exigindo que psicólogos fossem banidos dos departamentos de filosofia. Esse movimento resultou no progressivo divórcio institucional entre a psicologia e a filosofia, uma separação que Wundt lamentou e combateu até a sua morte em 1920.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir da década de 1890, uma forte onda de positivismo, inspirada pela filosofia de Ernst Mach e Richard Avenarius, varreu a psicologia experimental. Jovens psicólogos, incluindo os assistentes do próprio Wundt, rejeitaram conceitos fundamentais do sistema de Leipzig, como a apercepção, a causalidade psíquica e a síntese criadora, tomando eles como metafísica, exatamente o oposto do que desejava seu formulador. Eles preferiam um modelo elementarista e reducionista, focado na descrição de relações funcionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos EUA, a influência da teoria da evolução de Darwin deslocou o interesse da estrutura da consciência para as suas funções de adaptação ao meio, o chamado funcionalismo. Com o surgimento e o fortalecimento do behaviorismo e a eliminação da mente como objeto de estudo, o voluntarismo de Wundt perdeu qualquer espaço. Na Europa, a própria psicologia da Gestalt ergueu-se combatendo o elementarismo que havia sido falsamente associado a Wundt. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O golpe final veio após a Primeira Guerra Mundial, quando a Alemanha mergulhou em colapso econômico. Diante da “crise da psicologia”, os pesquisadores precisaram provar a utilidade prática da ciência que praticavam para sobreviver, o que já acontecia nos EUA, voltando-se para a psicologia militar, industrial, educacional e clínica. Wundt, que sempre desprezou a psicologia aplicada, teria visto seu sistema dinâmico de laboratório perder todo o fôlego diante das pressões pragmáticas da época, ainda que mantivesse sua fama e sua alcunha maior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia Científica na Inglaterra ==&lt;br /&gt;
O surgimento da psicologia na Inglaterra seguiu um caminho bastante distinto do modelo laboratorial alemão, focado na introspecção e na busca de leis universais. A psicologia britânica formou-se na intersecção de duas grandes forças intelectuais, que são as filosofias empirista e associacionista, e a biologia evolutiva. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No empirismo, pensadores como John Locke postularam que a mente humana nasce como uma tabula rasa ou uma folha em branco, e que absolutamente todo o conhecimento deriva da experiência sensorial. No associacionismo, filósofos como David Hume, James Mill e John Stuart Mill afirmavam processos mentais complexos são formados pela associação contínua de ideias simples e sensações, governadas por leis lógicas. tais como similaridade, contiguidade e causa e efeito. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A despeito de sua rica tradição filosófica, o maior divisor de águas para a ciência britânica foi a publicação de A Origem das Espécies, em 1859. A teoria da evolução natural de Darwin, trouxe novas e profundas questões para o estudo da mente britânica. Se humanos e animais compartilham ancestrais comuns, argumentava-se que deveria haver uma continuidade não apenas física, mas também mental entre as espécies, conectando a psicologia ao estudo da zoologia, dando origem à Psicologia Comparada. Além disso, a mente e a consciência deixaram de ser vistas apenas como objetos metafísicos e passaram a ser estudadas como ferramentas biológicas de adaptação, que evoluíram porque ajudavam o organismo a sobreviver em seu ambiente, sendo fundamental para a criação do funcionalismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a validação da biologia evolutiva, o estudo da inteligência animal explodiu no Reino Unido, George Romanes foi um dos primeiros a tentar sistematizar o comportamento animal. Contudo, seu método anedótico foi duramente criticado por ser antropomórfico, ou seja, por atribuir pensamentos e emoções humanas complexas a animais. Seu colega Conwy Lloyd Morgan introduziu mais rigor científico à área através do que ficou mundialmente conhecido como o Cânone de Morgan, ou princípio da parcimônia. A regra dizia que um comportamento animal não deve ser interpretado como resultado de uma faculdade mental superior se puder ser explicado por um processo psicológico mais básico, como o instinto ou o aprendizado por tentativa e erro. Apesar de a perspectiva de ambos ter sido abandonada, a Psicologia Comparada se tornou um dos principais ramos da psicologia moderna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Francis Galton e a Psicologia Diferencial ===&lt;br /&gt;
Francis Galton (1822-1911) foi um cientista e polímata britânico de inteligência extraordinária, com um QI estimado por volta de 200, algo extremamente raro, além de ser primo de Charles Darwin. Galton é amplamente reconhecido como pioneiro ao incorporar o estudo sistemático das diferenças individuais e da herança mental na nova psicologia, uma área que era ignorada ou rejeitada por pioneiros experimentalistas como Wilhelm Wundt.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Galton interessou-se pela medição das variações da inteligência e das capacidades humanas. Ele fundou um laboratório antropométrico onde testou a acuidade sensorial, a força e os tempos de reação de milhares de pessoas. Além disso, baseando-se na premissa empirista de John Locke de que todo o conhecimento vem da percepção, Galton assumiu que os indivíduos mais inteligentes seriam aqueles com as capacidades sensoriais e motoras mais aguçadas. Ele foi o inventor do conceito de testes mentais, termo posteriormente cunhado por seu aluno dos EUA, James McKeen Cattell. Galton também desenvolveu o método experimental de associação de palavras, medindo o tempo de reação mental e demonstrando a enorme influência das experiências da infância e do inconsciente no pensamento adulto, um trabalho que impressionou profundamente Sigmund Freud. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também foi um dos primeiros a fazer uso amplo do questionário psicológico para investigar imagens mentais, constatando para sua própria surpresa que a maioria dos cientistas relatava ausência de imagens mentais nítidas, em contraste com relatos muito mais detalhados fornecidos por mulheres e crianças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para conduzir medições em larga escala, ele inventou vários instrumentos clássicos e, para analisar suas enormes bases de dados, Galton desenvolveu conceitos estatísticos fundamentais, como a correlação. Essa tradição quantitativa foi depois aperfeiçoada por outros britânicos, como Charles Spearman, criador da análise fatorial e do conceito de fator g de inteligência geral, fundando a base da psicometria moderna. e influenciando de forma decisiva a psicologia dos testes nos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Conclusão ==&lt;br /&gt;
A história da psicologia é definida pelo paradoxo de ter um “longo passado” e uma “curta história”, podendo ir do De Anima de Aristóteles até a a fundação do laboratório de Wilhelm Wundt na Universidade de Leipzig, em 1879. A psicologia, assim, mostra que tem uma rica história, com muitos personagens, conceitos e acontecimentos importantes, de modo que qualquer narrativa sobre sua composição elegerá heróis e vilões, dará mais relevância para alguns, menos para outros e o esquecimento para a maioria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O texto propõe que Immanuel Kant foi uma figura central na composição da psicologia científica. Ele propôs que a mente humana é um agente ativo que organiza o conhecimento através de estruturas a priori, tais como o tempo, o espaço e as categorias do entendimento. Assim, ele introduziu o conceito de “sujeito transcendental” como a estrutura universal que garante a unidade da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Kant impôs um “veto” ao status científico da psicologia, defendendo a base na matematização. A superação desse veto ocorreu através da “naturalização” de Kant pela fisiologia. Johannes Müller, com a Teoria das Energias Nervosas Específicas, mostrou que a sensação é mediada pelo sistema nervoso, não sendo uma cópia fiel do mundo externo. Hermann von Helmholtz avançou essa ideia ao postular que as estruturas a priori de Kant seriam, na verdade, características da anatomia e fisiologia humanas. Ele propôs o conceito de “inferências inconscientes” para explicar como interpretamos dados sensoriais. Nesse contexto, Friedrich Albert Lange defendeu uma “psicologia sem alma”, rejeitando a metafísica e argumentando que o estudo científico deve focar apenas nas aparências e fenômenos observáveis, reduzindo o objeto da psicologia a dados empíricos e correlações fisiológicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner foi crucial ao oferecer a base matemática e experimental que faltavam, por meio da Lei de Weber-Fechner. Ele também padronizou e melhorou métodos para o estudo dos limites e constantes sensoriais, que se tornaram a base metodológica da psicologia experimental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt não apenas fundou um laboratório, como também arquitetou um sistema complexo. Para Wundt, o objeto da psicologia é a experiência imediata, criando conceitos como voluntarismo, causalidade psíquica, apercepção, entre outros. Além disso, ele também criou a psicologia dos povos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente do foco laboratorial alemão, a psicologia britânica foi moldada pela filosofia empirista e, crucialmente, pela teoria da evolução de Charles Darwin. Neste contexto, Galton ganha destaque, por ter fundado o laboratório antropométrico, inventado o conceitos de “testes mentais”, pelo uso de estatísticas no estudo da psicologia e ter influenciado o desenvolvimento da psicometria e a análise fatorial (com Charles Spearman), consolidando uma tradição que focava mais na variabilidade genética e na inteligência do que na estrutura da consciência em si.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_surgimento_da_psicologia_cient%C3%ADfica&amp;diff=1740</id>
		<title>O surgimento da psicologia científica</title>
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		<updated>2026-08-31T23:00:58Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto [[Portal História da Psicologia]]) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um longo passado, uma curta história ==&lt;br /&gt;
A psicologia tem um longo passado, mas uma curta história. Esta é uma frase muito famosa no campo da história da psicologia, tendo sido consagrada por Hermann Ebbinghaus, um psicólogo alemão pioneiro no estudo da memória, ainda no século XIX. A frase é exemplar e muito usada em debates sobre a historiografia da psicologia, e isto revela como é difícil dizer quando a psicologia teve início. Ela tem um &#039;&#039;&#039;longo passado&#039;&#039;&#039;, porque os temas que consideramos hoje como parte da psicologia aparecem muitas vezes na filosofia, na religião, em saberes tradicionais, entre muitos outros lugares, ao longo da história. É difícil estabelecer qual &#039;&#039;&#039;o objeto de estudo da história da psicologi&#039;&#039;&#039;a, assim como é difícil, ao longo da história, &#039;&#039;&#039;separar o que é  psicologia daquilo que não é psicologia&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse longo passado pode remontar, por exemplo, à Antiguidade, com o tratado De Anima, de Aristóteles, que escreveu muito antes de se imaginar o próprio conceito de ciência moderna e, menos ainda, de uma psicologia moderna. Outros podem colocar o início da psicologia com Descartes, que elaborou a máxima, também famosa, “penso, logo existo”. Isso mostra que &#039;&#039;&#039;os objetos de estudo da psicologia são historicamente construídos&#039;&#039;&#039;, ou seja, emergem a partir dos locais ou pessoas que atuaram na psicologia, como na medida das diferenças individuais, as dinâmicas de controle num laboratório, nas práticas de psicoterapia, entre muitas outras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se cada historiador localiza o passado da psicologia em lugares diferentes no tempo e no espaço, a &#039;&#039;&#039;história da psicologia&#039;&#039;&#039;, por seu lado, tem uma definição bem mais estável e curta. Nos anos 1980, historiadores reunidos num congresso nos EUA definiram que &#039;&#039;&#039;a psicologia científica começou em 1879, quando [[Wilhelm Wundt]] fundou o primeiro laboratório de psicologia experimental na Universidade de Leipzig, na Alemanha&#039;&#039;&#039;. Essa definição está consagrada e é quase um consenso, porém, não foi tão simples estabelecê-la. Alguns advogavam pelo pioneirismo de outro alemão, [[Gustav T. Fechner|Gustav Theodor Fechner]], criador da chamada [[psicofísica]], de onde vieram muitos dos experimentos e ideias de Wundt. Outros ainda queriam que [[William James]], um filósofo e psicólogo americano, fosse reconhecido como fundador, pois seu laboratório de psicologia era ainda mais antigo que o de Wundt que, no final, venceu essa disputa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Resumindo, a psicologia possui um “longo passado”, com raízes filosóficas e religiosas milenares e altamente diversas, e uma “curta história” como disciplina científica, cujo marco está situado em 1879, com a fundação do primeiro laboratório experimental por Wilhelm Wundt, na Alemanha. Pelo menos é assim que, atualmente, a grande maioria dos historiadores entende a questão, uma das poucas em que há algum conceito neste campo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Presentismo ===&lt;br /&gt;
Mas o que seriam essas psicologias anteriores a essa psicologia científica? Para entender melhor essa história, é preciso refletir para superar, da melhor forma, um problema chamado &#039;&#039;&#039;presentismo&#039;&#039;&#039;, ou seja, julgar, entender, interpretar e analisar o passado com a visão do presente. Não é apenas uma questão de olhar para as pessoas do passado e superar o pensamento de que elas eram “ignorantes”, pois “não tinham o conhecimento que temos hoje”. É entender também que, no passado, haviam formas de conhecimentos diferentes, bem como visões de mundo diferentes da atual. Este é um problema fascinante. Muitos dos consensos contemporâneos, coisas que entende-se totalmente óbvias, eram vistas de forma completamente diferente no passado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo interessante é o &#039;&#039;&#039;conceito de atenção&#039;&#039;&#039;. Hoje, ela é um tema tão discutido e consensual que pouco se reflete sobre seu significado. Atualmente, seria algo como centralizar as faculdades mentais ou talvez a percepção em um ponto específico. Pode-se ouvir as pessoas reclamando da própria falta de atenção, que “não conseguem prestar atenção”, ou que nunca “mantém a atenção”, e até mesmo existem medicamentos para resolver esse problema. Contudo, a palavra “atenção” nem sempre significou o que entendemos hoje. Para [[Santo Agostinho]], atenção era apenas o ato de passar de um pensamento para outro. [[René Descartes|Descartes]] tinha um conceito mais parecido com o contemporâneo, onde a atenção era mobilizada de forma voluntária para fixar e reter na memória coisas raras e extraordinárias que o entendimento considerava úteis. Na obra de [[John Locke|Locke]], a atenção é mencionada apenas de passagem, como um mero mecanismo auxiliar da retenção de memórias. A partir do momento em que a ciência passou a entender que a percepção depende da estrutura física e biológica do corpo, com a psicofísica e a fisiologia sensorial, já no século XIX, a visão passou a ser encarada como intrinsecamente incompleta, instável e condicionada pelo tempo. Nesse contexto, a atenção foi utilizada como um substituto pragmático para garantir a coerência do mundo percebido. Autores do final do século XIX, como [[Théodule Ribot]] e [[Max Nordau]], associaram os desvios ou a fraqueza da atenção a patologias psíquicas, comportamentos sociopáticos e teorias da “degeneração”. Para eles, uma atenção defeituosa deixava a mente à mercê de “associações caóticas”, gerando uma visão borrada e distorcida da realidade. Foi apenas na década de 1950 que a nossa compreensão contemporânea de atenção começou a se delinear, paralelamente aos estudos sobre os medicamentos desenvolvidos para tratar as suas disfunções.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma pessoa desavisada, que não está atenta às grandes diferenças entre as ideias e conceitos ao longo do tempo, poderia ler um trecho de Ribot, Santo Agostinho, Descartes e outros e achar que a atenção sobre a qual eles falam é a mesma coisa que entendemos hoje. O leitor estaria totalmente enganado, a ponto de não conseguir nem mesmo compreender o que estes pensadores queriam dizer. Em outras palavras, &#039;&#039;&#039;o esforço para entender as psicologia do passado passa também pelo esforço de entender como se pensava no passado, qual a visão que se tinha nesse passado&#039;&#039;&#039;. Parte do esforço do historiador é trazer esses aspectos de volta ao presente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O sujeito transcedental de Kant ==&lt;br /&gt;
A concepção de uma psicologia ocupada especificamente com a “mente” humana e suas operações começou a ganhar contornos modernos no século XVIII com o filósofo [[Christian Wolff]]. Ele dividiu a psicologia em [[Psicologia Empírica (livro)|&#039;&#039;&#039;Psicologia Empírica&#039;&#039;&#039;]], num livro publicado em  1732 e baseada na introspecção; e em &#039;&#039;&#039;Psicologia Racional&#039;&#039;&#039;, numa obra de 1734, dedicada a deduzir a natureza e a essência da alma, como sua imortalidade e imaterialidade, de forma puramente lógica e racional, independentemente da experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, o projeto de Wolff enfrentava um sério problema metodológico: a chamada observação interna ou [[introspecção]]. Quando se estuda um fenômeno natural, como a chuva, é necessário observar tudo que está envolvido com estee fenômeno, incluindo como as nuvens se formam, qual a umidade do ar, a intensidade dos raios solares, a direção dos ventos, entre muitos outros fatores. A questão é que todos estes aspectos são &#039;&#039;&#039;externos ao sujeito&#039;&#039;&#039;. Toda a ciência é feita dessa forma, observando, testando e analisando o mundo que está fora dos indivíduos. O problema está em estudar algo que é interno aos sujeitos. Não se pode observar diretamente o que se passa na cabeça de alguém, pelo menos não por enquanto. Contudo, é possível analisar o que se passa nas nossas próprias cabeças. Isso seria a &#039;&#039;&#039;introspecção&#039;&#039;&#039;, ou seja, o processo pelo qual adquirimos conhecimento sobre nossos próprios estados ou processos mentais Apesar de ser uma ideia interessante, fazer introspecção não era considerado algo muito científico. Entendia-se que “observar a si mesmo” distorcia os eventos mentais, pois o sujeito que observa e o objeto observado são o mesmo, o que impediria a neutralidade exigida pelo modelo científico então vigente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até a segunda metade do século XVIII, as teorias do conhecimento, que incluíam o empirismo e o racionalismo, compartilhavam a premissa de que o conhecimento era determinado pelo objeto a ser conhecido. A ideia era a de que objeto estava lá, esperando a melhor forma de ser conhecido. &#039;&#039;&#039;Kant&#039;&#039;&#039;, em sua obra [[Crítica da Razão Pura (livro)|Crítica da Razão Pura]] (1781), inverteu essa lógica de forma radical. Ele propôs que &#039;&#039;&#039;não é o conhecimento que se adequa aos objetos, mas são os objetos que são determinados pelo sujeito&#039;&#039;&#039;. O conhecimento passou a ser compreendido não como uma recepção passiva, mas como uma produção ativa do chamado sujeito transcendental, moldada por suas formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;sujeito transcendental&#039;&#039;&#039; em Kant não se refere propriamente a um indivíduo empírico ou psicológico, ou seja, alguém com personalidade e história pessoal. Pense no sujeito transcendental não como “você” (André ou Maria), mas como o “sistema operacional” universal da mente humana. Assim como um software organiza os dados que chegam do teclado, convertendo eles em coisas numa tela, o sujeito transcendental organiza os dados que chegam dos sentidos, como o tempo e o espaço, antes mesmo de termos consciência deles.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o sujeito transcedental, é preciso fazer um importante exercício de abstração, visando conseguir entender algo que está além da experiência existencial individual e entender aquilo que molda essa própria experiência. O sujeito transcedental de Kant é, segundo ele próprio, uma condição universal de possibilidade para qualquer conhecimento. Em outras palavras, é algo que todas as pessoas possuem e é a forma que o ser humano tem para saber as coisas. É a estrutura ativa da mente que organiza a experiência antes mesmo que possamos refletir sobre ela. Esse sujeito é o princípio unificador que garante a coerência dos dados sensoriais, transformando o caos de impressões oriundas dos órgãos dos sentidos em uma experiência significativa e estruturada. Através das formas &#039;&#039;a priori&#039;&#039; da sensibilidade (espaço e tempo) e das categorias do entendimento, o sujeito transcendental “constrói” o objeto conhecido. Ele é o “Eu penso” cartesiano, que deve poder acompanhar todas as nossas representações, conferindo unidade à consciência. Em suma, &#039;&#039;&#039;não conhecemos o mundo como ele é em si, mas como o sujeito transcendental o molda e o organiza para que se torne inteligível para nós&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Immanuel Kant revolucionou a teoria do conhecimento ao postular que a mente humana não funciona como um receptáculo passivo de impressões sensoriais, mas sim como um agente ativo dotado de estruturas constitutivas a priori que organizam, unificam e interpretam a matéria-prima da experiência. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas ideias de Kant, o processo de constituição do conhecimento dos fenômenos que chegam para nossa mente a partir dos órgãos dos sentidos articula-se em três instâncias fundamentais. A primeira são as formas puras da sensibilidade, depois vem os conceitos puros do entendimento, ou seja, as categorias e, por fim, a unidade sintética da apercepção. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas &#039;&#039;&#039;formas puras da sensibilidade&#039;&#039;&#039;, antes mesmo que o intelecto possa aplicar qualquer conceito, o caos das sensações brutas é necessariamente ordenado no espaço e no tempo, que não são propriedades das coisas em si, mas intuições puras da sensibilidade que funcionam como os eixos coordenados onde os fenômenos são dados. Ou seja, as informações dos sentidos já chegam num espaço e num tempo para o resto do processo de constituição do conhecimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma vez colocados no espaço e estruturados numa sucessão e simultaneidade temporal, esses dados passam pelas &#039;&#039;&#039;doze categorias do entendimento puro&#039;&#039;&#039;. Essas categorias se dividem em &#039;&#039;&#039;quatro classes de tríades&#039;&#039;&#039;: quantidade, qualidade, relação e modalidade. As &#039;&#039;&#039;categorias&#039;&#039;&#039; representam as regras lógicas puras, fundamentais e necessárias para tornar qualquer objeto da experiência inteligível. Elas podem ser observadas de forma simplificada na tabela a seguir:&lt;br /&gt;
{| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot;&lt;br /&gt;
|Classe de Categorias&lt;br /&gt;
|Categoria 1 (Tese)&lt;br /&gt;
|Categoria 2 (Antítese)&lt;br /&gt;
|Categoria 3 (Síntese)&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|1. Quantidade&lt;br /&gt;
|Unidade&lt;br /&gt;
|Pluralidade&lt;br /&gt;
|Totalidade&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|2. Qualidade&lt;br /&gt;
|Realidade&lt;br /&gt;
|Negação&lt;br /&gt;
|Limitação&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|3. Relação&lt;br /&gt;
|Substância e Acidente&lt;br /&gt;
|Causa e Efeito&lt;br /&gt;
|Ação Recíproca&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|4. Modalidade&lt;br /&gt;
|Possibilidade (Impossibilidade)&lt;br /&gt;
|Existência (Não-existência)&lt;br /&gt;
|Necessidade (Contingência)&lt;br /&gt;
|}&lt;br /&gt;
As categorias de quantidade dizem respeito à extensão em que aplicamos um conceito aos objetos, ou seja, “quantos” elementos estamos considerando no juízo. Na unidade, temos um único objeto. Na pluralidade, trazemos vários objetos do mesmo tipo para um conjunto. Já a totalidade surge quando pensamos a pluralidade como uma unidade completa.Vejamos um exemplo. Quando um observador vê uma maçã, aplica a categoria da unidade, ou seja, ele viu uma maçã. Ao ver várias maçãs espalhadas na mesa, apreende uma pluralidade, ou seja, ele tem um conceito de “maçãs” e as vê como um conjunto. Porém, ao formular uma lei universal, aplica-se a totalidade, que engloba toda a pluralidade possível sob uma única regra conceitual, ou seja, todas as maçãs são frutas e existem vários tipos de maçãs.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade trata da atribuição de um predicado, ou seja, se a experiência afirma algo, nega algo ou se situa num limite conceitual. Em outras palavras, é a forma da mente definir “como algo é”. A realidade é afirmação de que um predicado pertence a um ser, ou seja, ele é alguma coisa. A negação é a afirmação de que o predicado não pertence a algo, ou seja, um “não-ser”. A limitação é a síntese das duas anteriores. Atribui-se uma negação como se fosse uma realidade, excluindo aquilo de uma esfera, mas deixando infinita a esfera onde ele pode estar. Vamos a um exemplo. Dizer “O homem é mortal” aplica a categoria de realidade (afirma-se um atributo). Dizer “O homem não é mortal” aplica a negação. No entanto, dizer “A alma é não-mortal (imortal)” é um juízo infinito clássico de Kant que evoca a limitação. Não sabemos o que a alma é de fato, mas a limitamos removendo ela da esfera das coisas mortais, o que a situa num campo aberto e indeterminado de possibilidades.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Consideradas por muitos comentadores como o coração da epistemologia kantiana, as categorias de relação definem como os objetos se relacionam entre si e como permanecem ou mudam no tempo. Substância e Acidente referem-se àquilo que permanece através da mudança (substância) e as propriedades que são transitórias, ou seja, que mudam (acidentes). Um exemplo disso é a água de um lago que congela no inverno. Seu estado físico muda do líquido para o sólido, que é o acidente, mas a matéria da água em si, a substância, permanece inalterada. Sem a categoria de substância, nossa mente registraria apenas uma sucessão caótica de imagens, sem reconhecer que se trata da mesma “coisa” sofrendo alteração. A Causa e Efeito é a relação estritamente necessária onde um evento segue outro no tempo. O exemplo de Kant, em resposta ao filósofo David Hume, é sobre o sol que ilumina uma pedra, e a pedra esquenta. Hume diria que inferimos causalidade por mero hábito psicológico, ou seja, não há conexão necessária, apenas uma observação e uma intuição. Kant argumenta que o próprio fato de distinguirmos uma sucessão objetiva de eventos exige que a mente aplique a categoria a priori de Causalidade. A mente “dita” a regra estrutural de que o aquecimento necessariamente sucede a irradiação solar, colocando uma como causa da outra. Já na Ação Recíproca (Comunidade), tem-se a relação simultânea de mútua influência entre múltiplas substâncias no espaço como, por exemplo, a interação gravitacional entre a Terra e a Lua. Elas não são eventos sucessivos no tempo, mas existem simultaneamente e influenciam-se de modo contínuo e bidirecional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, temos as categorias modais. Eles são os Postulados do Pensamento Empírico e não acrescentam nenhum atributo novo ao objeto em si, mas definem exclusivamente como esse objeto ou evento se relaciona com o sujeito cognitivo e suas faculdades. No caso da Possibilidade-Impossibilidade, é algo que concorda com as condições formais, que são as condições lógicas e puras da experiência. No binômio Existência-Não-existência, é algo que está dado materialmente na intuição empírica, ou seja, nos sentidos. Já na Necessidade-Contingência, é algo cuja conexão com a experiência empírica está determinada por condições universais. Vamos a um exemplo. Um dragão voador de escamas verdes ou um triângulo cujos ângulos somam 180 graus são conceitos logicamente possíveis, ou seja, não envolvem contradição formal. No entanto, apenas um objeto sensorialmente verificável, como a caneta sobre a sua mesa, tem a marca da existência. Já o fato de que um objeto massivo abandonado no ar cairá em direção ao solo é uma necessidade ditada pelas leis empíricas que o entendimento prescreve à natureza, ou seja, atribui a ele.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Acima dessas estruturas, Kant postulou a apercepção ou apercepção transcendental, que é o processo pelo qual a mente unifica de forma ativa diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Sem a apercepção, a mente seria apenas um amontoado de estímulos desconectados. Assim, a aperceção a base da própria consciência humana. Devido a essa complexa mediação ativa da mente, Kant estabeleceu uma distinção insuperável entre o mundo externo e a mente. Isso significa dizer que nós não temos acesso à “coisa em si”, ou noumenon, mas apenas a como as coisas nos aparecem, ou seja, na forma de fenômeno, já devidamente processadas pelo nosso aparato cognitivo. Neste sentido, É importante distinguir o “Eu empírico”, ou seja, aquilo que observamos em nós mesmos, como nossa personalidade ou o nosso humor, do “Eu transcendental”, a pura unidade lógica do “Eu penso”. Ademais, a apercepção transcendental não é uma faculdade psicológica de “prestar atenção”, mas uma exigência lógica. Para que uma experiência seja minha, o “Eu penso” deve poder acompanhar todas as minhas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Os Vetos Kantianos à Psicologia Científica ===&lt;br /&gt;
Apesar de ter colocado o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que conhece, no centro do universo epistemológico, Kant foi muito crítico sobre a possibilidade de a psicologia se tornar uma ciência. Em sua obra Princípios metafísicos da ciência da natureza, de 1786, ele negou a possibilidade de uma psicologia científica, pois afirmou que uma disciplina só poderia Sê-lo se possuísse uma elaboração racional capaz de fornecer leis formuladas matematicamente, o que poderia ser chamado de veto matemático. A psicologia falhava nesse critério porque os eventos mentais possuem apenas a dimensão do tempo, sem nenhuma extensão espacial, o que impossibilitaria a sua matematização. Para Kant, assim como o espaço é a forma do sentido externo, o tempo é a forma pura do sentido interno. Como os estados mentais só se dão na sucessão do tempo (sem extensão espacial), eles não formam figuras nem podem ser medidos geometricamente, inviabilizando a matemática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Kant apontou a impossibilidade de isolar diferentes pensamentos para a realização de experimentos controlados. Assim, como não podemos acessar o que seria o conteúdo da mente, cercá-la e analisá-la como ela é em seu estado bruto ou natural, qualquer experimentação seria impossível, o que poderia ser chamado de veto do objeto. Por fim, ele reforçou a crítica que já era direcionada a Wolff, aquele do começo dessa seção. A introspecção como método, segundo Kant, seria inviável porque a própria tentativa de observar um fenômeno interno altera o fenômeno, o veto metodológico. Se tento observar minha própria tristeza, por exemplo, o fenômeno original desaparece e se transforma em “tristeza-sendo-observada-por-mim”, misturando sujeito e objeto de tal maneira que corrompe a objetividade. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A impossibilidade de uma psicologia científica não significava, contudo, a impossibilidade de estudar a mente e o comportamento. Kant trabalhou e lecionou com o que chamou de Antropologia Pragmática. Enquanto a psicologia empírica tentava, em vão, segundo ele, ser uma ciência exata, a antropologia pragmática estudava “o que o homem, como ser livre, faz, ou pode e deve fazer de si mesmo”. Era um estudo prático do comportamento, das paixões, da memória e da cognição, focado na vida em sociedade. De certo modo, pode-se dizer que Kant fechou a porta para a psicologia mecanicista, ou ainda, uma psicologia como ciência exata, mas ajudou a abrir uma janela imensa para as ciências humanas e sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Emergência do Neokantismo Fisiológico e as Primeiras Aproximações para a Psicologia Científica ==&lt;br /&gt;
A primeira metade do século XIX na Alemanha foi inicialmente dominada pelo Idealismo Pós-Kantiano (Hegel, Fichte, Schelling), que propunha sistemas metafísicos grandiosos onde a realidade era essencialmente racional e espiritual. Contudo, a partir da década de 1850, o forte avanço das ciências naturais, como a fisiologia e a química, gerou uma importante reação materialista, consolidados nas figuras de Feuerbach, Vogt, Büchner e outros, que passaram a ridicularizar a filosofia idealista como mera especulação vazia. A metafísica, vista como uma das glórias da filosofia e do pensamento humano, passou a ser vista cada vez mais como um discurso com pouco ou nenhum lastro na realidade. Essa mudança foi muito importante para a história da psicologia científica, pois foi devido a esse contexto que foram formulados os primeiros experimentos voltados para o que seria, no futuro, a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Johannes Müller e a Teoria das Energias Nervosas Específicas ===&lt;br /&gt;
Neste período, a fisiologia se estabeleceu como uma ciência rigorosa e extremamente respeita, liderada por figuras como Johannes Müller. Müller, professor na Universidade de Berlim, publicou seu Manual de Fisiologia Humana (1833-1840), que sistematizou o conhecimento fisiológico da época e transformou a compreensão da percepção. Até o final do século XVIII, ela era explicada pela Teoria da impressão da sensação, derivada da física newtoniana e do empirismo britânico. Esse modelo assumia que o sistema nervoso era um meio homogêneo e passivo que simplesmente “transportava” as qualidades dos objetos externos para a mente, como se a sensação fosse uma cópia exata do estímulo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Johannes Müller revolucionou esse entendimento ao formular a Teoria das energias nervosas específicas (1826). Ele provou, através de experimentos, que a estimulação de um determinado nervo sensorial sempre provoca uma sensação característica e exclusiva daquele nervo, independentemente da natureza do estímulo físico externo. Em outras palavras, a qualidade da sensação não pertence ao objeto físico, mas sim à estrutura do próprio aparato sensorial humano. O mesmo estímulo pode produzir sensações completamente diferentes dependendo de qual via nervosa é ativada. Por exemplo, ao aplicar sal na pele, na língua e nos olhos, as sensações serão totalmente distintas, todas diretamente relacionadas às especificidades do aparelho sensorial que foi ativado. É importante entender que isso não acontece por conta da especificidade das características do estímulo, como o sal ser “salgado”. A pele produz apenas sensações táteis, ainda que o estímulo não seja tátil. Isso cria um problema de confiança naquilo que percebemos sensorialmente, pois mostra que os órgãos não enviam apenas propriedades dos objetos, mas antes operam apenas de modo específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Müller, por meio de experimentos, mostrou que os objetos físicos projetam imagens invertidas na retina, mas nós os percebemos na posição correta. Ele mostrou também que, embora as imagens projetadas nas duas retinas sejam levemente diferentes, o cérebro as unifica em uma única imagem tridimensional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas descobertas trouxeram Kant para o terreno da biologia, inclusive pelo próprio Müller que, apesar de não ser neokantiano, viu suas descobertas científicas influenciarem profundamente a primeira geração deles. O sistema nervoso não é um receptor passivo, antes, ele medeia, molda e traduz ativamente a realidade externa. A sensação deixou de ser vista como uma cópia do mundo e passou a ser um enigma, que pode ser analisado a partir da seguinte pergunta: “o que existe entre o estímulo físico e a sensação subjetiva?”. Este é o mundo do primeiro projeto de psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Hermann von Helmholtz e o Neokantismo Psicofisiológico ===&lt;br /&gt;
A ponte definitiva entre a epistemologia kantiana e a prática laboratorial foi construída por um antigo aluno de Johannes Müller, Hermann von Helmholtz (1821-1894). Ele colaborou no desenvolvimento do neokantismo psicofisiológico ou neokantismo fisiológico. Ele entendeu que as descobertas de seu professor forneciam a base material exata para a teoria do conhecimento de Kant. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1855, Helmholtz argumentou que as estruturas a priori propostas por Kant como condições de possibilidade da experiência eram, na verdade, características da anatomia e da fisiologia do aparato perceptivo humano. Ao “naturalizar” a filosofia de Kant, Helmholtz formulou a sua teoria dos signos, que postula que nossas sensações e percepções não são cópias diretas da realidade, mas sim símbolos ou signos gerados pelo nosso sistema nervoso em resposta aos estímulos. Para explicar como construímos uma imagem coerente e espacial do mundo a partir desses signos neurológicos isolados, Helmholtz introduziu o conceito de inferências inconscientes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo essa teoria, a mente realiza uma série de ajustes e cálculos automáticos, baseados na experiência e na aprendizagem contínua, para interpretar os dados sensoriais. A percepção de profundidade, a posição espacial e a resolução de duas imagens retinianas em uma única visão estereoscópica não são inatas, como defendia o nativismo de Ewald Hering ou o próprio Müller, mas são aprendidas empiricamente através do movimento do corpo e da repetição das sensações. O espaço perceptivo atua como uma linguagem que a mente usa para interpretar os dados fisiológicos brutos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com isso, Helmholtz fundou o projeto de uma psicologia fisiológica autônoma, diferente da psicologia filosófica discutida na época. Ele concordou com Kant que a introspecção tradicional era um método falho, que podia conduzir a ilusões porque o observador só capta a superfície consciente do pensamento. A solução de Helmholtz foi submeter o sujeito da experiência a condições de laboratório rigorosamente controladas. Se as condições da percepção dependem de mecanismos fisiológicos, então a única forma de fazer epistemologia científica é através da experimentação fisiológica e da ótica. O sujeito do conhecimento tornou-se, assim, um objeto, que poderia ser manipulado e analisado em laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Suas contribuições não acabam por aí. Antes das pesquisas de Helmholtz, a comunidade científica acreditava que o impulso nervoso era instantâneo ou rápido demais para ser mensurado. Em 1850, estimulando um nervo motor na perna de uma rã e medindo o tempo da contração muscular, ele obteve o registro da velocidade de condução neural, que é de aproximadamente 27 metros por segundo, provando que havia “algo” entre o estímulo e a percepção que poderia ser analisado cientificamente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também mediu o tempo de reação de nervos sensoriais em humanos. Essa descoberta provou que o pensamento e o movimento corporal não ocorrem simultaneamente, mas são separados por um intervalo de tempo mensurável. Essa foi a base que abriu caminho para os experimentos de tempo de reação e cronometria mental que dominariam o laboratório de Wundt décadas depois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== F. A. Lange e o Projeto de uma “Psicologia Sem Alma” ===&lt;br /&gt;
O segundo pilar desse “retorno a Kant”, também de matriz fisiológica, foi erguido pelo filósofo e sociólogo Friedrich Albert Lange (1828-1875). Lange foi uma figura central na “controvérsia materialista” que agitava a Alemanha. Ele rejeitava tanto os “delírios” dos sistemas idealistas metafísicos quanto o reducionismo ingênuo do materialismo científico de Vogt e Büchner. Em sua influente obra História do Materialismo, de 1866, Lange defendeu que a limitação proposta por Kant é absoluta, ou seja, não temos e nem nunca teremos acesso à essência última da realidade, às coisas em si. Nosso conhecimento se restringe aos efeitos das coisas, ou seja, os fenômenos, que nos aparecem totalmente moldados pela nossa organização mental e neurológica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Lange argumentou que a impossibilidade de conhecer a essência não impede o estudo científico rigoroso das “aparências”, ou seja, sobre como as coisas nos aparecem. Para viabilizar esse estudo, Lange atacou as psicologias filosóficas do passado, que versavam debates que ele ele entendia estéreis sobre a natureza, a imortalidade e a substancialidade da “alma”. Para Lange, a alma era um conceito vazio, um “mito antigo” que forçava a psicologia a operar sobre pressupostos metafísicos inverificáveis. Em resposta, ele propôs a criação de uma psicologia sem alma, ou, em outras palavras, uma psicologia sem metafísica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste novo paradigma, o objeto de estudo da psicologia deveria ser reduzido aos dados empíricos observáveis, incluindo a sensação, a percepção, a ação e a linguagem, sempre buscando o seu correlato fisiológico. Lange rejeitou a introspecção puramente filosófica, pois a auto-observação isolada é privada, não pode ser repetida, não permite a presença de observadores externos e leva invariavelmente a ilusões verbais. Segundo ele, essa introspecção conduzia o pesquisador a substancializar conceitos como “vontade” ou “pensamento”, sem nenhum lastro empírico ou experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A única saída para a psicologia tornar-se verdadeiramente científica era abraçar a metodologia das ciências naturais. Apoiando-se no trabalho de Helmholtz e nas medições pioneiras de psicofísicos como Ernst Weber e Gustav Fechner, Lange prescreveu que a psicologia deveria investigar as leis fisiológicas da percepção e medir a correlação exata entre estímulos físicos e respostas sensoriais, como nos tempos de reação e nos limiares diferenciais. A psicologia passava a ser entendida não como a ciência do espírito transcendente, mas como a ciência psicofisiológica que estuda experimentalmente as condições de possibilidade da experiência, trazendo o sujeito transcendente de Kant para uma fisiologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fechner e a Fundação da Psicofísica ===&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner (1801–1887) foi um físico e metafísico alemão e antigo aluno de Weber. Apesar de não ser um neokantiano, ele tem uma importância fundamental para este momento da fundação da psicologia experimental, tendo sido citado e adotado por neokantianos. Ele assumiu a prestigiada e importante cadeira de física da Universidade de Leipzig em 1834, enquanto produzia sátiras sobre temas metafísicos e artísticos sob um pseudônimo. Após uma série de experimentos em que observava diretamente o Sol, feriu gravemente suas retinas, evento que o conduziu a um colapso físico e mental. Teve uma recuperação milagrosa em 1843, quando tentou observar flores em seu jardim e, por meio de uma experiência mística, observou que a natureza brilhava de dentro para fora, de onde concluiu que o universo era dotado de alma e consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esssa experiência decisiva levou-o a dedicar sua vida ao combate do materialismo científico, que ele denominava visão noturna, que via o mundo como uma matéria inerte e sem vida. Já a sua visão diurna entendia que a matéria era a manifestação da consciência universal divina, uma cosmovisão espiritualista que pode ser entendida como panpsiquista, ou seja, todos os corpos físicos possuem uma forma de alma. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi buscando provar sua visão que Fechner entendeu que poderia provar empiricamente a relação entre a mente (ou o espírito) e o corpo (ou a matéria) se encontrasse uma relação matemática constante entre a intensidade do estímulo físico e a magnitude da sensação psíquica correspondente. Isso porque Fechner percebeu que um aumento na intensidade do estímulo físico não gerava um aumento equivalente e proporcional na sensação subjetiva. A relação não era linear, mas sim proporcional, pois o estímulo físico aumentava em uma progressão geométrica, enquanto a sensação psíquica crescia em uma progressão aritmética. Por exemplo, acrescentar o som de um sino a outro que já está tocando gera um forte impacto perceptivo, pois é possível distinguir claramente que passou-se de um para dois sinos. Já acrescentar um sino a uma dezena deles produz uma alteração quase imperceptível. A sensação dependia, portanto, do nível de estimulação já existente no sistema.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para dar sustentação empírica à sua teoria, Fechner apropriou-se dos trabalhos experimentais realizados por Weber, que havia formulado a teoria da diferença mínima perceptível, demonstrando que a sensibilidade humana não avaliava diferenças absolutas entre estímulos, mas sim relações relativas ou proporcionais. Weber observou que, ao levantar pesos, os sujeitos conseguiam detectar uma variação mínima correspondente a uma fração constante de aproximadamente 1:40 em relação ao peso padrão. Essa constância proporcional é descrita pela chamada Lei de Weber:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
II=K&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde I representa a intensidade do estímulo padrão (que aparecerá como R posteriormente), ΔI é o acréscimo mínimo necessário para produzir uma mudança perceptível na sensação e k é uma constante matemática específica para cada modalidade sensorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Fechner percebeu que essa fração constante (ΔI/I) correspondia à unidade de medida da sensação subjetiva (dS). Utilizando o cálculo infinitesimal, Fechner integrou matematicamente a equação de Weber, assumindo que todas as diferenças mínimas perceptíveis eram subjetivamente iguais entre si. Essa operação matemática resultou na célebre Lei de Fechner ou Lei de Weber-Fechner:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
S = k Log R&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde S representa a magnitude da sensação subjetiva (qualidade mental), R representa a intensidade física do estímulo (qualidade material) e K é uma constante experimental ajustada a cada sentido. Essa fórmula logarítmica foi construída para mostrar que, para a sensação aumentar linearmente, o estímulo físico precisava crescer exponencialmente, estabelecendo uma relação exata e mensurável entre o psíquico e o físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para aplicar sua fórmula, Fechner sistematizou dois conceitos fundamentais que estruturam as medições psicofísicas. A primeira é o limiar absoluto, ou seja, o ponto de intensidade física mínima abaixo do qual o estímulo não é detectado pelo sujeito e acima do qual a sensação passa a ser percebida. Outro conceito é o de limiar diferencial, que é a quantidade mínima de alteração ou variação que deve ser aplicada a um estímulo para que o sujeito seja capaz de discriminar uma mudança na sensação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um desdobramento fascinante da Lei de Fechner ocorreu quando o estímulo físico apresentava valores abaixo do limiar absoluto (R&amp;lt;1), resultando em valores negativos para a sensação (S). Fechner definiu esses valores como sensações negativas ou subliminares, postulando a existência de processos mentais ativos abaixo do limiar da consciência desperta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para determinar com precisão científica os limiares absolutos e diferenciais, Fechner desenvolveu e padronizou três metodologias experimentais rigorosas, que se tornaram os pilares metodológicos de toda a psicologia experimental posterior. No Método do Erro Médio ou do Ajuste, o próprio sujeito experimental manipula ativamente um instrumento para ajustar um estímulo variável até que sinta que este se iguala a um estímulo padrão constante. A média dos desvios entre os ajustes do sujeito e o padrão real define o erro de observação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já no Método do Estímulo Constante ou dos Casos Corretos e Incorretos, o pesquisador apresenta de forma aleatória uma série de estímulos pré-determinados e constantes em comparação com um estímulo padrão. O sujeito deve julgar se o estímulo de comparação é maior, menor ou igual ao padrão, medindo-se a proporção estatística de acertos. Por fim, no Método dos Limites ou das Diferenças Mínimas Perceptíveis, dois estímulos são apresentados ao sujeito. Um deles é aumentado ou reduzido sistematicamente em passos discretos e graduais, e o sujeito relata o momento exato em que deixa de perceber ou passa a perceber a diferença entre ambos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1860, Fechner publicou seu livro monumental, Elementos de Psicofísica, que alguns entendem ser o primeiro sobre a psicologia científica experimental. Ao fornecer à psicologia técnicas de medição coerentes e precisas, Fechner provou de forma contundente que a mente humana era passível de investigação científica e experimental, sepultando em definitivo o antigo veto imposto por Immanuel Kant, em pleno momento de desenvolvimento do Neokantismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Incomodados com as inclinações metafísicas e espiritualistas de Fechner, os psicólogos experimentais subsequentes, sob a liderança de Wilhelm Wundt, rejeitaram completamente o panpsiquismo entre outras ideias, apropriando-se exclusivamente de seus métodos quantitativos de laboratório para estabelecer a psicologia como uma ciência empírica e natural. Como bem observou o historiador Edwin G. Boring, Fechner agiu como um “Colombo que descobriu um Novo Mundo (a psicologia científica) enquanto procurava pelas antigas Índias (a prova de sua metafísica)”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Resumindo ===&lt;br /&gt;
A intersecção entre a epistemologia kantiana, a fisiologia de Müller e a reformulação promovida por Helmholtz e Lange constituiu o início daquilo que tornou possível a psicologia científica. Kant havia mostrado que o sujeito constrói ativamente a realidade, mas negou que esse sujeito pudesse ser estudado matematicamente ou experimentalmente. Müller transferiu a estrutura ativa da mente para os nervos sensoriais específicos. Helmholtz e Lange reinterpretaram as pesadas categorias transcendentais de Kant como mecanismos biológicos e perceptivos operando através de inferências inconscientes e leis fisiológicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao “naturalizar” a Crítica da Razão Pura, o Neokantismo Psicofisiológico resolveu o veto de Kant a uma psicologia científica. Se os limites e as formas do nosso conhecimento são determinados pelo nosso sistema nervoso e sensorial, então o estudo epistemológico da mente deve ser feito no laboratório de fisiologia, estudando principalmente a percepção. A exigência de matematização foi superada pelas leis da psicofísica de Fechner e Weber, e o problema da introspecção descontrolada foi resolvido pelo uso de instrumentos de precisão, como cronoscópios, além de métodos de medidas de limiar, controle de estímulos, erros médios, entre outros, que transformavam as respostas subjetivas em dados objetivos, replicáveis e mensuráveis. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse foi o cenário epistemológico e institucional que Wilhelm Wundt encontrou e ajudou a consolidar. Wundt não fundou a psicologia a partir do nada em 1879. Seu Instituto em Leipzig foi organização metodológica e teórica de décadas de esforços em que a filosofia foi obrigada a dialogar com os nervos, os músculos e os tempos de reação, transformando para sempre a especulação sobre a alma em uma rigorosa ciência da experiência imediata. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ironicamente, escolas neokantianas posteriores, como a Escola de Marburgo, foram focos de resistência à psicologia experimental, alegando que o sujeito do conhecimento de Kant era de ordem puramente transcendental e lógica, e não empírica ou mensurável, ou seja, rejeitando a “biologização” do pensamento kantiano e a consequente criação da psicologia experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, conforme mostra Gundlach, a criação de uma posição acadêmica e o laboratório de psicologia por Wundt não se deu por conta de um amplo reconhecimento da superioridade do pensamento wundtano, mas sim por conta de disputas políticas e institucionais nas universidades alemãs. De qualquer forma, Wundt conseguiu desenvolver bem sua teoria ao longo de sua vida e conseguiu estabelecer-se na proeminência da psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia de Wundt ==&lt;br /&gt;
Wilhelm Maximilian Wundt é, na historiografia da psicologia, uma figura ao mesmo tempo onipresente e bastante malcompreendida. Freqüentemente reduzido ao título de “fundador do laboratório de Leipzig”, essa simplificação negligencia sua estatura como um dos últimos grandes arquitetos de sistemas do século XIX, cujo Systemgedanke (pensamento sistêmico) buscava integrar a psicologia como uma propedêutica fundamental para a filosofia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Recuperar o Wundt original exige preencher uma vasta lacuna historiográfica vasta, a começar pela superação das distorções da tradução de E.B. Titchener para o contexto anglo-americano, que foi formulada para aproximar suas ideias e perspectivas daquelas de Wundt, visando uma “confirmação” de suas ideias. Em primeiro lugar, é necessário reejeitar a classificação de Wundt como um estruturalista ou associacionista clássico. O sistema wundtiano é essencialmente dinâmico e centrado no voluntarismo. Para Wundt, a vontade e os processos afetivos não são meros epifenômenos, ou seja, um fenômenos secundários ou acessórios que acompanhma um fenômeno principal, mas o eixo organizador da consciência ativa. Esta reconstrução crítica visa resgatar a autonomia epistemológica de uma ciência que define seu objeto não como uma substância, mas como a experiência em sua totalidade imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Experiência Imediata, o Objeto de Estudo da Psicologia ===&lt;br /&gt;
Ao definir seu objeto, Wundt deu um passo decisivo para dar à psicologia autonomia perante as outras ciências naturais. Ele propõe que a experiência é uma unidade indivisível. Mas o que ele quer dizer por “experiência”? Uma definição poderia ser a totalidade dos processos conscientes, englobando sensações, sentimentos, representações e volições (vontades), apreendida da exata forma como se apresenta diretamente ao sujeito, sem qualquer abstração conceitual ou mediação de instrumentos externos. Ou seja, a experiência de Wundt seria como tudo o que se passa na mente, exatamente como ela aparece para uma pessoa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para ele, a experiência pode ser analisada a partir de duas perspectivas: a mediata e a imediata. A experiência ediata pertence ao domínio das Naturwissenschaften, ou ciências naturais, como a física e a química. Ela seria a a experiência objetiva, focada totalmente nos objetos do mundo externo que, se pensados de maneira isolada, são independentes do sujeito. Ela é chamada de mediata porque o acesso a essa realidade é indireto, ou seja, ela precisa de uma mediação. Essa mediação são conceitos teóricos e construções auxiliares e as características cognitivas e biológicas do próprio sujeito que interpreta os dados sensoriais brutos utilizando suas crenças, conhecimentos e expectativas. Isso não significa que a ciência natural esteja errada, mas sim que ela possui um recorte de interesse diferente do recorte da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O domínio da psicologia seria a experiência imediata, subjetiva, que é a experiência em sua realidade concreta, direta e intuitiva, apreendida antes de qualquer conceituação, teorização ou abstração. Ou seja, é a experiência antes de ela adquirir qualquer camada de compreensão, que seriam mediadores, por isso é imediata, sem mediação. Ela envolve o processamento de elementos sensoriais simples, como cor, som, temperatura, e de sentimentos simples, como prazer e desprazer. Ela diz respeito ao modo puro de funcionamento mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vamos a um exemplo, desta vez no campo do som. Na perspectiva mediata, o cientista natural abstrai o sujeito e estuda o som de forma indireta e conceitual. Ele utiliza aparelhos para medir as ondas sonoras e a sua propagação física pelo ar. O objeto físico “som” é, portanto, mediado e traduzido por conceitos de frequência, amplitude e decibéis. Já sob a perspectiva imediata, que é a da psicologia, o psicólogo estuda a sensação direta e em si mesma do tom no momento exato em que ele aparece na consciência. A análise está na vivência concreta do sujeito, que inclui a qualidade do tom, a sua intensidade subjetiva, a tonalidade afetiva de prazer ou desprazer que o acompanha e o processo ativo da atenção (apercepção, que será tratada mais adiante) que coloca aquele som no foco da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se olharmos desta vez para as cores, na visão mediata, ciência natural estuda o azul abstraindo a experiência do sujeito. A física o descreverá de forma conceitual como uma radiação eletromagnética com determinado comprimento de onda atingindo a retina. Para a psicologia de Wundt, o azul é investigado como um dado imediato e real na consciência do sujeito no momento da percepção interna. O foco não está nas propriedades físicas do estímulo, mas sim na reação subjetiva e ativa do cérebro vivo a esse estímulo, que gera a qualidade imediata da cor na experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conduzindo seus estudos, Wundt também identificou aquilo que denominou causalidade psíquica. Ao nos lembrarmos de um fato triste, a fisiologia explicaria a tristeza de forma conceitual e indireta, por meio de correntes elétricas no córtex cerebral, liberação de hormônios ou atividade de sinapses nervosas. Já o psicólogo observa a conexão de processos internos como elas ocorrem diretamente na consciência do sujeito, como a ligação da lembrança triste a um sentimento de angústia. A causalidade psíquica é uma causalidade própria da mente e irredutível às leis físicas da natureza, ou seja, não pode ser comparada à causalidade científica como a conhecemos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao adotar a experiência como seu objeto, Wundt rompe com a psicologia da alma, filosófica e metafísica. Ele substitui a psicologia de substâncias, que postula uma entidade mental oculta, pela teoria da atualidade (Aktualitätstheorie), na qual o psiquismo é definido como um fluxo de processos em constante devir. Seu sistema está fundamentado em um monismo perspectivista. Em outras palavras, para ele, mente e corpo não são substâncias que interagem mecanicamente, mas perspectivas distintas sobre a mesma unidade da experiência (Erfahrung). A psicologia, portanto, não estuda um “mundo interno”, que está isolado do externo, ainda que em contato com ele, mas a totalidade da experiência humana sob o prisma da imediatidade. Essa transição do estatuto de substância “mente” ou algo semelhante para o de processo traz uma nova perspectiva, criando um objeto que pode ser alvo de experimentação científica, partindo de experimentos já criados pela psicofísica e ainda outros que seriam desenvolvidos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Psicologia Individual e Völkerpsychologie: dois métodos para manifestações da experiência ===&lt;br /&gt;
A arquitetura metodológica de Wundt responde ao desafio de investigar processos mentais que variam em complexidade. Ele estabelece que a psicologia deve ser compreendida como o fundamento das Geisteswissenschaften (ciências do espírito ou humanas). A Psicologia Individual foca nos processos elementares, que incluem sensação e percepção, que são passíveis de controle rigoroso em laboratório através da manipulação de estímulos externos e introspecção experimental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entretanto, Wundt reconhece a insuficiência do experimento para os processos mentais superiores, como o pensamento e a linguagem, que são historicamente condicionados. Para estes, ele propõe a Völkerpsychologie , ou Psicologia dos Povos, dedicada ao estudo dos produtos das geistige Gemeinschaften (comunidades espirituais ou coletividades). Wundt vai apontar a linguagem, o mito e os costumes (Sitten) não são apenas dados culturais, mas objetivações de leis psíquicas superiores inacessíveis à introspecção de laboratório. Eles seriam produtos da experiência humana nas suas formas mais avançadas e superiores e, por não serem passíveis de experimentação, exigem uma outra abordagem. Essas duas vertentes, experimental e histórico-cultural, não são divergentes, mas sim o projeto integrador que permite apreender a mente tanto em sua base sensório-motora quanto em suas manifestações espirituais complexas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As investigações da psicologia dos povos focavam na alma do povo (Volksseele), definida como a realidade factual dos processos psíquicos que surgem em uma comunidade por meio da interação das energias mentais dos indivíduos. Essa “mente coletiva” se tornava um objeto tangível e investigável ao longo da história em três grandes produtos culturais. O primeiro é a linguagem (Die Sprache), ferramenta pela qual o pensamento é estruturado e externalizado. Já o mito e a religião são as formas como a imaginação e os sentimentos humanos coletivos projetam suas explicações sobre o cosmos e a existência. Os costumes (Sitten) e o direito, por sua vez, são  as regras de conduta coletiva que nascem de atos voluntários e impulsos compartilhados, padronizando as interações sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não podia realizar experimentos com culturas inteiras, Wundt operava por meio da pura observação retrospectiva e comparativa dos produtos mentais, ou seja, analisando os objetos já criados e usados ou em uso por diferentes povos e culturas, anotando suas diferenças e semelhanças. Wundt juntava, lia e analisava de forma exaustiva relatos históricos, estudos filológicos, dicionários, mitologias comparadas, códigos de leis e descrições etnológicas e antropológicas de povos ao redor do globo, ou seja, utilizava dos estudos de diferentes ciências humanas e sociais para extrair as leis psicológicas gerais do desenvolvimento mental humano por trás dessas manifestações. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seu objetivo era mapear como a mente coletiva evoluía do simples para o complexo ao longo das eras, numa abordagem genética e desenvolvimentista e reconstruir, de forma retrospectiva, as forças dinâmicas, os afetos, os impulsos (Triebe) e os processos de síntese criadora (melhor discutida mais adiante) que estiveram ativos na mente das pessoas no momento de sua formação. Wundt dedicou os últimos 20 anos de sua vida (de 1900 a 1920) quase exclusivamente a esse empreendimento monumental, escrevendo dez volumes da sua obra Völkerpsychologie.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Apercepção ===&lt;br /&gt;
No contexto filosófico, como já visto, o conceito de apercepção remonta a Kant, que a definiu como o processo autônomo, ativo e prévio pelo qual a mente unifica diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Wundt adotou essa noção kantiana para fundamentar sua teoria da consciência, definindo apercepção como o processo psicológico ativo pelo qual um conteúdo psíquico (ou representação) é trazido à clareza máxima e ao foco da consciência, vindo necessariamente acompanhado pelo estado de atenção voluntária.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para explicar a dinâmica da consciência, Wundt utilizou uma famosa analogia com a visão para diferenciar apercepção e percepção. O campo visual da consciência (Blickfeld) corresponde à percepção, que é a simples entrada de uma representação na consciência de forma difusa, ampla e sem a presença focalizada da atenção. Já o ponto focal da consciência (Blickpunkt) corresponde à apercepção, que é a entrada de uma representação no ponto central de máxima clareza e foco estreito da atenção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A apercepção, então, é uma manifestação primordial da vontade, funcionando como o princípio dinâmico que dá direção e estrutura tanto à experiência quanto ao movimento. Além disso, a apercepção pode ser ativa, que é quando o sujeito deliberadamente seleciona onde focará sua atenção, ou passiva, quando é o estímulo que se impõe no foco no sujeito. Por fim, a apercepção é o mecanismo central da operação da causalidade psíquica. É ela que unifica a mente em um sistema ativo, permitindo que a fusão de elementos resulte em sínteses criadoras com propriedades qualitativamente novas e imprevisíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Percepção Interna (innere Wahrnehmung) vs. Auto-observação (Selbstbeobachtung) ===&lt;br /&gt;
Para garantir o rigor procedimental e responder ao “desafio kantiano”, Wundt rejeitou a Selbstbeobachtung, que pode ser entendida como a auto-observação tradicional ou introspecção casual. Trata-se do método introspectivo puramente filosófico e especulativo que, segundo Wundt e outros, seria fonte de auto-ilusões e onde o ato de observar altera o fenômeno observado. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A solução científica é a innere Wahrnehmung, ou percepção interna, que permite a criação de um método científico baseado na repetição de estímulos externos controlados. No laboratório, o psicólogo replica condições experimentais que permitem a observação do aparecimento imediato do processo psíquico sob condições estáveis e previsíveis. O laboratório funciona, portanto, como o estabilizador do objeto psicológico, permitindo que a percepção interna atinja a precisão necessária para decompor a consciência em seus elementos fundamentais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experimentos do Laboratório de Wundt ====&lt;br /&gt;
Vamos a alguns exemplos do que acontecia no laboratório de Wundt, para integrar melhor os conceitos já apresentados. O primeiro experimento foi concebido originalmente para descrever a “equação pessoal” que aparecia nas medições dos astrônomos. No caso, observava-se que astrônomos treinados, utilizando os mesmos equipamentos, discordavam de suas medições que, à época, eram feitas manualmente com ajuda de instrumentos. De alguma forma, estas diferenças nas medições pareciam ter um tipo de padrão. Neste experimento, Wundt utilizava um aparelho chamado medidor de pensamento (Gedankenmesser) e, posteriormente, o pêndulo de complicação (Complicationspendel). O dispositivo consistia em um grande relógio de pêndulo que possuía uma agulha cruzada, como uma agulha de tricô, capaz de golpear fisicamente um pequeno sino em um ponto exato do seu arco de oscilação. O sujeito do experimento deveria olhar para a escala do pêndulo e tentar determinar a posição exata do ponteiro no momento em que ouvia o sino tocar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste experimento, Wundt descobriu que o sujeito sempre cometia um erro sistemático de registro, de aproximadamente um oitavo de segundo. Segundo ele, era impossível perceber visualmente a agulha e o som do sino ao mesmo tempo. Esse experimento seria uma prova laboratorial de que a consciência possui uma capacidade limitada e só consegue focar em uma única percepção por vez, como a diferença no marco da medição podia mostrar. A ilusão de simultaneidade devia-se apenas à rápida sucessão dos processos de atenção (apercepção).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os experimentos de tempo de reação, nosso segundo exemplo, constituíam o verdadeiro coração do trabalho em Leipzig na década de 1880. Wundt adaptou o método de subtração (Subtractiemethode), do fisiologista holandês F. C. Donders, para medir a velocidade de processos mentais complexos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o experimento de Wundt, é necessário compreender que, para ele, uma reação consciente envolvia: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- transmissão da sensação ao cérebro; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2- entrada do estímulo no campo amplo da consciência (percepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
3- entrada no foco ativo da atenção (apercepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
4- ato de vontade para liberar a resposta; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
5- execução motora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada um dessas partes exigem um certo tempo, pois são processos não imediatos. A depender de como as etapas do experimento são organizadas, diferentes tempos indicariam o acionamento maior ou menor de cada um deles. No experimento, o sujeito era treinado para responder pressionando uma tecla telegráfica ao ver um estímulo luminoso simples, como um flash de luz. Em seguida, a tarefa mais difícil. Duas imagens eram apresentadas, um círculo branco sobre fundo preto ou vice-versa, e o sujeito só deveria reagir após identificar com clareza qual imagem havia aparecido. Ao subtrair o tempo da reação simples do tempo da reação complexa, Wundt calculava o “tempo de apercepção” ou discriminação. Na primeira tese de doutorado em psicologia experimental da história, Max Friedrich, que atuou no experimento, mostrou que o tempo de discriminação aumentava de acordo com a complexidade do estímulo visual. Por exemplo, o sujeito levava mais tempo para aperceber e discriminar uma sequência de seis dígitos do que de apenas um ou dois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O assistente de Wundt, Ludwig Lange, também colaborou no estudo ao desenvolver um experimento crucial. Ele demonstrou que os tempos de reação variavam drasticamente dependendo da preparação atencional do sujeito. Se a atenção estivesse focada no movimento de resposta que o dedo faria (reação muscular), o tempo era curto (cerca de 125 ms), pois funcionava como um “reflexo cerebral” que pulava a apercepção. Se o foco estivesse direcionado ao estímulo sensorial que iria surgir (reação sensorial), o tempo era cerca de 100 ms mais longo, pois envolvia o circuito completo da mente consciente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O terceiro experimento foi desenvolvido por Martin Trautscholdt, um dos estudantes de doutorado de Wundt. Ele estudava a associação de ideias. No seu estudo, o sujeito era instruído a pressionar uma tecla no momento exato em que uma ideia associada surgisse em sua consciência a partir de um estímulo visual ou auditivo. Ao subtrair o tempo que o sujeito levava para simplesmente reconhecer a palavra estimulante, Trautscholdt conseguiu quantificar o tempo gasto pela mente para realizar a conexão associativa propriamente dita que, segundo Trautscholdt, variava entre 706 e 874 ms. Wundt também adaptou a técnica de associação de palavras de Francis Galton, limitando a resposta do sujeito a apenas uma única palavra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O quarto e último experimento que será apresentado é relacionado a acordes musicais. Nele, sujeitos ouviam tons isolados no piano, que seriam as sensações puras, e depois os mesmos tons tocados simultaneamente. Os participantes descreviam em detalhes a transição afetiva de como a fusão física das frequências dava origem a um produto inteiramente novo na consciência, que seria o sentimento estético de harmonia e prazer decorrente de uma síntese criadora. Wundt conduzia vários experimentos em estética experimental, tal qual seu colega Fechner.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Arquitetura da Mente: Elementos, Fusão e Síntese Criadora ===&lt;br /&gt;
Segundo Wundt, a experiência pode ser decomposta em elementos simples, que incluem as sensações e os sentimentos simples. Os sentimentos, por sua vez, são entendidos a partir da teoria tridimensional dos sentimentos, onde eles se distribuem em um espaço qualitativo entre os polos prazer/desprazer (Lust-Unlust), tensão/relaxamento (Spannung-Lösung) e excitação/depressão (Erregung-Beruhigung). A primeira é a mais evidente, se refere à avaliação afetiva primária da experiência. A segunda se relaciona ao esforço da atenção ou à preparação interna da mente. Já a terceira está relacionada ao nível de ativação biológica e psicológica do organismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esses aspectos todos são organizados através do mecanismo de fusão (Verschmelzung), onde as qualidades elementares se fundem em complexos psíquicos. O conceito central aqui é o princípio da síntese criadora (schöpferische Synthese). Ao contrário do associacionismo britânico, Wundt afirma que o todo resultante possui propriedades que não estão contidas na mera soma das partes. Essa síntese não é um processo mecânico passivo, mas um ato aperceptivo ativo, vinculado à vontade. Na mente humana, a combinação de elementos gera um valor novo e qualitativamente superior, marcando a distinção fundamental entre a causalidade psíquica e a mecânica física.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em termos simples, a síntese criadora estabelece que os complexos psíquicos, como representações, sentimentos compostos e afetos, embora formados pela união de elementos simples (sensações e sentimentos simples), possuem características qualitativas inteiramente novas que não pertencem a nenhum de seus elementos constituintes isolados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fusão é o processo ativo e primário de integração psíquica. É através dela que os elementos sensoriais e afetivos brutos são ativamente sintetizados pela mente para dar origem a uma nova unidade psicologicamente complexa. A fusão é a geradora da síntese criadora. Para Wundt, a síntese criadora é a prova cabal da causalidade psíquica. Ela monstra que os fenômenos mentais obedecem a leis de conexão e geração próprias que não se ajustam às leis da física ou da fisiologia mecânica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Observemos isso com um exemplo já apresentado. Se você tocar no piano as notas Dó, Mi e Sol isoladamente, você terá apenas a experiência de três sensações auditivas distintas. No entanto, quando essas notas são tocadas simultaneamente, a fusão de seus elementos gera na consciência uma experiência qualitativamente nova, que seria um acorde musical. O sentimento de harmonia e a qualidade estética do acorde são um produto da síntese criadora, pois não existiam em nenhuma das notas isoladas e surgem puramente da atividade unificadora da mente sobre o estímulo físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Paralelismo Psicofísico e Causalidade Psíquica ===&lt;br /&gt;
O paralelismo psicofísico foi um dos conceitos mais importantes e debatidos no século XIX durante o processo de fundação da psicologia científica. Ele surgiu como uma alternativa teórica para solucionar o clássico problema mente-corpo. O conceito foi formulado de forma a tanto o dualismo substancial, que dividia o ser humano em duas substâncias isoladas cuja forma de interação era desconhecida, quanto o materialismo reducionista, que reduzia a mente a uma mera secreção cerebral ou processo físico ou fisiológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para Fechner, o paralelismo era a manifestação de um monismo neutro, ou teoria de duplo aspecto. Ele defendia que a matéria (corpo) e o espírito (mente) não são substâncias diferentes, mas sim dois modos de aparência ou perspectivas distintas de uma única e mesma realidade subjacente, teoria sobre o qual fundamental grande parte de seu projeto científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt também adotou o termo paralelismo psicofísico, mas realizou uma redefinição epistemológica radical do conceito, visando se afastar da metafísica. Ele rejeitava categoricamente qualquer tentativa de transformar o paralelismo em uma doutrina ontológica sobre a natureza última da realidade, transformando-o estritamente um postulado metodológico e heurístico indispensável para a investigação científica. Os processos mentais não sejam reduzidos a processos fisiológicos ou neurais, pois a consciência obedece a leis de conexão próprias, como a causalidade psíquica, que não podem ser explicadas pelas leis da mecânica cerebral.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O que Aconteceu Depois? ===&lt;br /&gt;
No final de sua vida, Wilhelm Wundt era visto de forma ambivalente. Enquanto mantinha o prestígio de fundador da psicologia científica, uma nova geração de psicólogos que buscava se firmar, via como um “pai tribal”, cujo longo domínio de mais de quatro décadas estava desgastado. Ele se tornou o alvo de críticas severas e passou a ser tratado por muitos como o ícone de um passado superado e falido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante a Primeira Guerra Mundial e nos anos que a sucederam, a reputação internacional de Wundt sofreu graves danos. Influenciado por seu filho Max, Wundt adotou posturas políticas ultranacionalistas, chegando a usar a Völkerpsychologie de maneira tendenciosa para criticar os inimigos da Alemanha. Essa postura inflamou um forte preconceito anti-alemão, especialmente nos Estados Unidos, onde ex-alunos e intelectuais americanos passaram a ver ele como uma mente maligna e autoritária, acelerando a rejeição de suas obras em solo estrangeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A maior frustração de Wundt no fim da vida ocorreu no âmbito acadêmico alemão. Ele sempre defendeu que a psicologia era uma ciência propedêutica e uma aliada indispensável da filosofia, devendo permanecer integrada a esta. No entanto, os filósofos acadêmicos de sua época, especialmente os neokantianos e fenomenologistas, rejeitaram veementemente o  que chamavam de “psicologismo de Wundt”, ou seja, a redução da lógica e da validade do conhecimento a fatos psicológicos. Em 1913, após a contratação de um psicólogo experimental para a cadeira de filosofia em Marburg, mais de cem professores de filosofia assinaram um protesto público exigindo que psicólogos fossem banidos dos departamentos de filosofia. Esse movimento resultou no progressivo divórcio institucional entre a psicologia e a filosofia, uma separação que Wundt lamentou e combateu até a sua morte em 1920.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir da década de 1890, uma forte onda de positivismo, inspirada pela filosofia de Ernst Mach e Richard Avenarius, varreu a psicologia experimental. Jovens psicólogos, incluindo os assistentes do próprio Wundt, rejeitaram conceitos fundamentais do sistema de Leipzig, como a apercepção, a causalidade psíquica e a síntese criadora, tomando eles como metafísica, exatamente o oposto do que desejava seu formulador. Eles preferiam um modelo elementarista e reducionista, focado na descrição de relações funcionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos EUA, a influência da teoria da evolução de Darwin deslocou o interesse da estrutura da consciência para as suas funções de adaptação ao meio, o chamado funcionalismo. Com o surgimento e o fortalecimento do behaviorismo e a eliminação da mente como objeto de estudo, o voluntarismo de Wundt perdeu qualquer espaço. Na Europa, a própria psicologia da Gestalt ergueu-se combatendo o elementarismo que havia sido falsamente associado a Wundt. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O golpe final veio após a Primeira Guerra Mundial, quando a Alemanha mergulhou em colapso econômico. Diante da “crise da psicologia”, os pesquisadores precisaram provar a utilidade prática da ciência que praticavam para sobreviver, o que já acontecia nos EUA, voltando-se para a psicologia militar, industrial, educacional e clínica. Wundt, que sempre desprezou a psicologia aplicada, teria visto seu sistema dinâmico de laboratório perder todo o fôlego diante das pressões pragmáticas da época, ainda que mantivesse sua fama e sua alcunha maior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia Científica na Inglaterra ==&lt;br /&gt;
O surgimento da psicologia na Inglaterra seguiu um caminho bastante distinto do modelo laboratorial alemão, focado na introspecção e na busca de leis universais. A psicologia britânica formou-se na intersecção de duas grandes forças intelectuais, que são as filosofias empirista e associacionista, e a biologia evolutiva. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No empirismo, pensadores como John Locke postularam que a mente humana nasce como uma tabula rasa ou uma folha em branco, e que absolutamente todo o conhecimento deriva da experiência sensorial. No associacionismo, filósofos como David Hume, James Mill e John Stuart Mill afirmavam processos mentais complexos são formados pela associação contínua de ideias simples e sensações, governadas por leis lógicas. tais como similaridade, contiguidade e causa e efeito. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A despeito de sua rica tradição filosófica, o maior divisor de águas para a ciência britânica foi a publicação de A Origem das Espécies, em 1859. A teoria da evolução natural de Darwin, trouxe novas e profundas questões para o estudo da mente britânica. Se humanos e animais compartilham ancestrais comuns, argumentava-se que deveria haver uma continuidade não apenas física, mas também mental entre as espécies, conectando a psicologia ao estudo da zoologia, dando origem à Psicologia Comparada. Além disso, a mente e a consciência deixaram de ser vistas apenas como objetos metafísicos e passaram a ser estudadas como ferramentas biológicas de adaptação, que evoluíram porque ajudavam o organismo a sobreviver em seu ambiente, sendo fundamental para a criação do funcionalismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a validação da biologia evolutiva, o estudo da inteligência animal explodiu no Reino Unido, George Romanes foi um dos primeiros a tentar sistematizar o comportamento animal. Contudo, seu método anedótico foi duramente criticado por ser antropomórfico, ou seja, por atribuir pensamentos e emoções humanas complexas a animais. Seu colega Conwy Lloyd Morgan introduziu mais rigor científico à área através do que ficou mundialmente conhecido como o Cânone de Morgan, ou princípio da parcimônia. A regra dizia que um comportamento animal não deve ser interpretado como resultado de uma faculdade mental superior se puder ser explicado por um processo psicológico mais básico, como o instinto ou o aprendizado por tentativa e erro. Apesar de a perspectiva de ambos ter sido abandonada, a Psicologia Comparada se tornou um dos principais ramos da psicologia moderna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Francis Galton e a Psicologia Diferencial ===&lt;br /&gt;
Francis Galton (1822-1911) foi um cientista e polímata britânico de inteligência extraordinária, com um QI estimado por volta de 200, algo extremamente raro, além de ser primo de Charles Darwin. Galton é amplamente reconhecido como pioneiro ao incorporar o estudo sistemático das diferenças individuais e da herança mental na nova psicologia, uma área que era ignorada ou rejeitada por pioneiros experimentalistas como Wilhelm Wundt.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Galton interessou-se pela medição das variações da inteligência e das capacidades humanas. Ele fundou um laboratório antropométrico onde testou a acuidade sensorial, a força e os tempos de reação de milhares de pessoas. Além disso, baseando-se na premissa empirista de John Locke de que todo o conhecimento vem da percepção, Galton assumiu que os indivíduos mais inteligentes seriam aqueles com as capacidades sensoriais e motoras mais aguçadas. Ele foi o inventor do conceito de testes mentais, termo posteriormente cunhado por seu aluno dos EUA, James McKeen Cattell. Galton também desenvolveu o método experimental de associação de palavras, medindo o tempo de reação mental e demonstrando a enorme influência das experiências da infância e do inconsciente no pensamento adulto, um trabalho que impressionou profundamente Sigmund Freud. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também foi um dos primeiros a fazer uso amplo do questionário psicológico para investigar imagens mentais, constatando para sua própria surpresa que a maioria dos cientistas relatava ausência de imagens mentais nítidas, em contraste com relatos muito mais detalhados fornecidos por mulheres e crianças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para conduzir medições em larga escala, ele inventou vários instrumentos clássicos e, para analisar suas enormes bases de dados, Galton desenvolveu conceitos estatísticos fundamentais, como a correlação. Essa tradição quantitativa foi depois aperfeiçoada por outros britânicos, como Charles Spearman, criador da análise fatorial e do conceito de fator g de inteligência geral, fundando a base da psicometria moderna. e influenciando de forma decisiva a psicologia dos testes nos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Conclusão ==&lt;br /&gt;
A história da psicologia é definida pelo paradoxo de ter um “longo passado” e uma “curta história”, podendo ir do De Anima de Aristóteles até a a fundação do laboratório de Wilhelm Wundt na Universidade de Leipzig, em 1879. A psicologia, assim, mostra que tem uma rica história, com muitos personagens, conceitos e acontecimentos importantes, de modo que qualquer narrativa sobre sua composição elegerá heróis e vilões, dará mais relevância para alguns, menos para outros e o esquecimento para a maioria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O texto propõe que Immanuel Kant foi uma figura central na composição da psicologia científica. Ele propôs que a mente humana é um agente ativo que organiza o conhecimento através de estruturas a priori, tais como o tempo, o espaço e as categorias do entendimento. Assim, ele introduziu o conceito de “sujeito transcendental” como a estrutura universal que garante a unidade da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Kant impôs um “veto” ao status científico da psicologia, defendendo a base na matematização. A superação desse veto ocorreu através da “naturalização” de Kant pela fisiologia. Johannes Müller, com a Teoria das Energias Nervosas Específicas, mostrou que a sensação é mediada pelo sistema nervoso, não sendo uma cópia fiel do mundo externo. Hermann von Helmholtz avançou essa ideia ao postular que as estruturas a priori de Kant seriam, na verdade, características da anatomia e fisiologia humanas. Ele propôs o conceito de “inferências inconscientes” para explicar como interpretamos dados sensoriais. Nesse contexto, Friedrich Albert Lange defendeu uma “psicologia sem alma”, rejeitando a metafísica e argumentando que o estudo científico deve focar apenas nas aparências e fenômenos observáveis, reduzindo o objeto da psicologia a dados empíricos e correlações fisiológicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner foi crucial ao oferecer a base matemática e experimental que faltavam, por meio da Lei de Weber-Fechner. Ele também padronizou e melhorou métodos para o estudo dos limites e constantes sensoriais, que se tornaram a base metodológica da psicologia experimental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt não apenas fundou um laboratório, como também arquitetou um sistema complexo. Para Wundt, o objeto da psicologia é a experiência imediata, criando conceitos como voluntarismo, causalidade psíquica, apercepção, entre outros. Além disso, ele também criou a psicologia dos povos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente do foco laboratorial alemão, a psicologia britânica foi moldada pela filosofia empirista e, crucialmente, pela teoria da evolução de Charles Darwin. Neste contexto, Galton ganha destaque, por ter fundado o laboratório antropométrico, inventado o conceitos de “testes mentais”, pelo uso de estatísticas no estudo da psicologia e ter influenciado o desenvolvimento da psicometria e a análise fatorial (com Charles Spearman), consolidando uma tradição que focava mais na variabilidade genética e na inteligência do que na estrutura da consciência em si.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Rosiska_Darcy&amp;diff=1739</id>
		<title>Rosiska Darcy</title>
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		<updated>2026-08-27T21:23:02Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Rosiska Darcy de Oliveira (Rio de Janeiro, 27 de março de 1944) é uma professora, advogada, escritora e ensaísta, ocupante da cadeira 10 da Academia Brasileira de Letras. Formou-se em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), mas iniciou sua carreira profissional como jornalista. Em 1970, após denunciar práticas de tortura da ditadura militar, foi obrigada a se exilar em Genebra, na Suíça, onde redirecionou seu trabalho para o campo da educação, a partir de seu encontro com Paulo Freire. Posteriormente, aprofundou seus estudos junto a Jean Piaget na Faculté de Psychologie et Sciences de l&#039;Éducation da Universidade de Genebra, onde também lecionou por dez anos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Biografia ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Formação e início da carreira no Brasil ===&lt;br /&gt;
Rosiska Darcy de Oliveira nasceu em 1944, na cidade do Rio de Janeiro, filha de José Carlos Ribeiro e Marina Reis Vianna Ribeiro. Após concluir a formação normalista no Instituto de Educação, ingressou no curso de Direito da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), graduando-se ao final da década de 1960. No entanto, o início de sua trajetória profissional se deu em outra área, a do Jornalismo. O contato com a imprensa teve início ainda durante o Ensino Normal, quando Rosiska atuou como editora da Revista Tangará, um projeto interno coordenado pelos próprios alunos do Instituto. Ainda estudante, foi contratada pela Revista Senhor em 1964, onde permaneceu até a suspensão da atividade editorial por ordem da ditadura militar. Até 1970, ela ainda atuaria em periódicos como Revista Visão, Jornal do Brasil e O Globo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O exílio na Suíça ===&lt;br /&gt;
Em 1969, Rosiska casou-se com Miguel Darcy de Oliveira, também formado em Direito pela PUC-Rio. Na área profissional, Miguel seguiu carreira diplomática, sendo nomeado, em julho de 1969, segundo-secretário da Delegação Permanente do Brasil em Genebra. Na Suíça, o casal ajudou a denunciar internacionalmente o sistema de torturas praticado pela ditadura no Brasil, divulgando testemunhos e documentos de presos políticos. As denúncias tiveram consequências. Em fevereiro de 1970, Miguel foi chamado a retornar ao Brasil para “consultas” no Itamaraty; ele ficou detido por 40 dias e foi exonerado do cargo. Rosiska, ao buscar informações sobre o marido na embaixada brasileira na Suíça, foi interrogada por cerca de 12 horas seguidas, prática que, posteriormente, também foi denunciada. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob o risco de perseguição política, Miguel conseguiu deixar o Brasil e retornou à Suíça ainda em 1970. Em Genebra, Rosiska e Miguel viveram como refugiados políticos por alguns anos no Foyer John Knox, uma residência internacional para estudantes que oferecia asilo a refugiados de diversos países. Durante esse período, Rosiska encarou um cenário que mudaria seus horizontes: o encontro com Paulo Freire, que redirecionaria seu trabalho para outro campo de atuação, e sua passagem como aluna de Jean Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Os encontros com Paulo Freire e Jean Piaget ===&lt;br /&gt;
Rosiska conheceu Paulo Freire por telefone, em 1970, no período em que solicitou asilo político no Foyer John Knox. O educador também estava em Genebra, exilado, trabalhando como consultor do Escritório de Educação do Conselho Mundial de Igrejas. O encontro entre os dois despertou em Rosiska o interesse pela área da educação, além de resultar em uma parceria que se estendeu por 15 anos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre os principais feitos dessa colaboração está a criação do IDAC (Instituto de Ação Cultural), em 1971. O objetivo era reestruturar o sistema educacional de países africanos de língua portuguesa, especialmente aqueles em processo de emancipação do domínio colonial. Os trabalhos feitos pelo Instituto também incluíram países da Europa, atuando na alfabetização de adultos e nos direitos das mulheres. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os interesses de Rosiska pelo campo da educação se aprofundaram junto a Jean Piaget, a quem teve como professor na Faculté de Psychologie et Sciences de l’Education (Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação) da Universidade de Genebra. Rosiska descreve o epistemólogo suíço como a pessoa mais brilhante que já conheceu, destacando que Piaget foi o responsável por introduzi-la ao pensamento científico e à cultura global. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de aluna, Rosiska lecionou por 10 anos na Universidade de Genebra, período em que pôde aprimorar seus estudos sobre o feminino, somado às experiências que serviram de base para a elaboração de seus primeiros ensaios. Durante sua passagem pela instituição, ela criou um curso inédito dedicado ao estudo do feminino, tema que guiou sua tese de doutorado, defendida em 1987, sob o título de “La Formation des Femmes comme Miroir de I’Ambiguité” (A Formação das Mulheres como Espelho da Ambiguidade).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período em que estiveram em Genebra, Rosiska e Miguel mantiveram posição contrária à ditadura militar; atuavam ativamente traduzindo cartas e declarações vindas de presídios e as entregavam para a imprensa internacional e defensores dos direitos humanos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O retorno ao Brasil ===&lt;br /&gt;
Em 1983, com a redemocratização, Rosiska retornou ao Brasil e retomou sua produção ensaística, trabalho voltado às questões da educação e das condições femininas na sociedade. Exerceu, simultaneamente, a função de assessora especial do então vice-governador do Rio de Janeiro, Darcy Ribeiro, com quem dividia  interesses pela melhoria na qualidade do ensino público, cargo que ocupou durante quatro anos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1984, integrou o corpo docente do curso de Letras da PUC-Rio, como professora de doutorado. Ao longo de dez anos, estruturou seus estudos sobre a produção literária feminina, por meio de cursos, conferências e ensaios.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em abril de 2013, Rosiska foi eleita para a Academia Brasileira de Letras (ABL), tornando-se a sexta ocupante da Cadeira nº 10. Ela sucedeu o poeta Lêdo Ivo, falecido em dezembro de 2012. No dia da posse, em 14 junho de 2013, Rosiska recitou um poema de Cecília Meireles sobre a liberdade, tema que sintetiza tanto a sua produção literária quanto a sua própria experiência pessoal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Contribuições ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Ações políticas e sociais ===&lt;br /&gt;
Em 1991, Rosiska fundou a Coalizão de Mulheres Brasileiras em defesa da causa feminina, empenhando-se em promover a chegada das mulheres aos lugares de saber e de poder. Em 1995, foi nomeada, pelo então Presidente da República, como presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, Programa Nacional de Promoção da Igualdade de Gênero. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Chefiou, entre 2007 e 2015, o movimento Rio Como Vamos de promoção da participação e responsabilidade cidadã. Atuou como segunda dirigente de Cultura da Associação Comercial do Rio de Janeiro e é membro do Conselho Diretor da ACRJ, do Conselho Técnico da Confederação Nacional da Indústria e, além disso,  do Instituto Brasileiro de Defesa do Deficiente (IBDD), do PEN Clube do Brasil, do Conselho Científico do Museu do Amanhã, do conselho deliberativo da Casa Firjan e do conselho editorial da PUC-RIO. Somado a isso, a acadêmica é diretora de publicações da Academia Brasileira de Letras e editora da Revista Brasileira. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Esfera Internacional ===&lt;br /&gt;
Rosiska co-presidiu a Delegação brasileira à Conferência Mundial da Mulher em Beijing, integrou o Conselho Mulher e Desenvolvimento do Banco Interamericano de Desenvolvimento e representou o Brasil na Comissão Interamericana de Mulheres da OEA. Propôs a criação e foi a primeira presidente da Reunião Especializada da Mulher no Mercosul. Presidiu a rede internacional Terra Femina: um olhar feminino sobre os temas globais nas Conferências da ONU sobre População, Direitos Humanos, Meio Ambiente e Desenvolvimento Social. Foi consultora da UNESCO sobre a emergência do feminino na cultura, integrando o Painel Mundial sobre Educação para o Desenvolvimento Sustentável e o Painel Mundial para a Democracia, presidido pelo ex-Secretário Geral da ONU Boutros-Ghali.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Cronologia Biográfica ==&lt;br /&gt;
1944: Nascimento de Rosiska Darcy de Oliveira, no dia 27 de março, no Rio de Janeiro. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1960: Iniciou sua trajetória profissional no Jornalismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1970: Ocorreu a interrupção de sua atividade como jornalista em decorrência do exílio em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1971: Fundação do Instituto de Ação Cultural, junto com Paulo Freire e Claudius Ceccon. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1983: Retornou ao território nacional brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1991: Fundou a Coalizão de Mulheres Brasileiras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1995: Nomeada presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1995: Co-chefiou a Delegação brasileira à IV Conferência Mundial da Mulher. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2003: Nomeada vice-presidente de Cultura da Associação Comercial do Rio. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2007: Presidiu, de 2007 a 2015, o Movimento Rio como Vamos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2013: Eleita para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira 10, onde atua até os dias atuais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2022: Assumiu a direção e editoria da Revista Brasileira da Academia Brasileira de Letras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2022: Tornou-se diretora de publicidade da Academia Brasileira de Letras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Obras e Fundações ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Principais Obras ===&lt;br /&gt;
O Elogio da Diferença: o feminino emergente (São Paulo, Editora Brasiliense, 1991) &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Literatura sobre o feminino, “O Elogio da Diferença” traz respostas renovadas às mais importantes questões sobre a relação homem e mulher na contemporaneidade. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Reengenharia do tempo (Rio de Janeiro, Editora Rocco, 2003) &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este escrito convida o leitor a uma reorganização do cotidiano, recuperando a discussão sobre o sentido da vida e propondo, a homens e mulheres, uma nova arte de viver. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Baile de máscaras (Rio de Janeiro, Editora Rocco, 2014) &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesta obra, de crônicas, ensaios e artigos, a autora emprega um olhar afiado para discutir os desafios da contemporaneidade, abordando temas que vão desde a esfera íntima até a política internacional, sempre com foco na liberdade, direitos humanos e na valorização do feminino.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Liberdade (Rio de Janeiro, Editora Anfiteatro, 2021) &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A obra é um libelo contra o ódio e a intolerância que impõe a todos o ponto de vista nascido de uma visão fundamentalista de mundo que brota da insegurança frente à atual era da incerteza. É uma aposta no amor, na esperança e no conhecimento, que oferece ao leitor rico material de reflexão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Outras Obras ===&lt;br /&gt;
A obra literária de Rosiska Darcy de Oliveira é vasta e transita entre o ensaio acadêmico, a crônica e o conto, refletindo sua trajetória no exílio e seu ativismo pelos direitos das mulheres.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Livros ====&lt;br /&gt;
(1975). A Libertação da Mulher, Lisboa: Sá da Costa Editora. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1977). Illich/Freire: A Opressão da Pedagogia e a Pedagogia dos Oprimidos, Sá da Costa Editora, Lisboa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1980). Vivendo e Aprendendo, co-autora, São Paulo: Editora Brasiliense. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1989). Le Féminin Ambigu, Genève : Editions du Concept Moderne. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1992). La Culture des Femmes : tradition et innovation, Paris : UNESCO. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1998). In Praise of Difference: the rise of global feminism, New Brunswick, New Jersey: Rutgers University Press. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2000). A Dama e o Unicórnio, Rio de Janeiro: Editora Rocco. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2002). Outono de Ouro e Sangue, Rio de Janeiro: Editora Rocco.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2006). A Natureza do Escorpião, Rio de Janeiro: Editora Rocco. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2010). Chão de Terra, Rio de Janeiro: Editora Rocco. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2016). Pássaro Louco. Rio de Janeiro: Editora Rocco. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2026). Rosiska, uma fotobiografia. Rio de Janeiro: Editora Edições Pinakotheke. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Artigos e ensaios ====&lt;br /&gt;
(1973). La libération de la femme: changer le monde, réinventer la vie. Documents IDAC numéro 3. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1976). La politique éducative d&#039;un mouvement de libération au pouvoir. Cahiers de l’Institut d’Etudes du Développement, no. 4. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1978). Guinée-Bissau: éducation et processus révolutionnaire. L’Homme et la Société, Editions Anthropos, no. 47.. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1978) Féminiser le monde. Documents IDAC, no. 10. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1978). Les femmes en mouvement et l’avenir de l’éducation. Education des adultes. Cahiers de la Section Sciences de de l’Education, Faculté de Psychologie et des Sciences de l’Education, Université de Genève. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1979). Education et Sociétés. Bureau International de l&#039;Education au Service du Mouvement Educatif, UNESCO. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1979). Learning by living and doing: reflections about education and self-reliance in Self-Reliance. In: Self-reliance, Preiswerk &amp;amp; Galtung ed., Londres, Bogle-L&#039;Ouverture. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1980). The role of schools in the promotion of primary health care. World Health Organization. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1981). Pesquisa Social e Ação Educativa. In: Pesquisa Participante, C. Brandão (org.), Brasiliense. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1981). Os Movimentos Sociais Reinventam a Educação, Educação e Sociedade, no. 8, Cortez Editora. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1983). As Pedras no Bolso do Feminismo, Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, vol. 2, no. 3. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1983). Women’s participation in the promotion of peace and international cooperation.  International Federation of University Women. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1984). Avaliação da aplicação pelo Brasil da Convenção Internacional para a Eliminação da Discriminação contra a Mulher. UNESCO. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1985). As fiandeiras do saber ou como se educar nos tempos que correm. In: Mulheres em movimento, Editora Marco Zero. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1985). Em Dia com a Mulher. INEP, Ministério da Educação, Brasília. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1985). Guia de Defesa das Mulheres contra a Violência. Conselho Nacional dos Direitos da Mulher/Ministério da Justiça, Brasília. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1985). Les pierres dans la poche du féminisme. Femmes et Formation. Cahiers de la Section Sciences de de l’Education, Faculté de Psychologie et des Sciences de l’Education, Université de Genève. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1987). A participação das mulheres na reconstrução da democracia no Brasil.  UNESCO/Pontifícia Universidade Católica, Rio de Janeiro.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1987). La Formation des femmes en tant que miroir de l’ambiguité. Tese de doutorado, Faculté de Psychologie et des Sciences de l’Education, Université de Genève. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1988). La Formation des Femmes au Brésil: du privé au public. In : La Formation des Femmes, UNESCO/¬Editions Le Concept Moderne, Genebra. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1989). Femme et Travail: sens, non-sens et ambiguité. UNESCO. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1990). Novos paradigmas de educação popular no Brasil, Fundação Ford. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1990). A Cicatriz do Andrógino. Feminino e Literatura, Tempo Brasileiro, nº 101, Rio de Janeiro. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1990). A Transgressão do Feminino, editora e co-autora, Rio de Janeiro: PUC-Rio/IDAC/Instituto Italiano di Cultura. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1991). La Participation des Femmes dans la Vie Publique: le cas du Brésil. UN Division for the Advancement of Women, Viena. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1992). Mulheres, políticas públicas e meio ambiente. Rio de Janeiro: PNUD/UNIFEM. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1992). Mulheres e Meio Ambiente. Rio de Janeiro: UNIFEM. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1992). Women and Nature: an ancestral bond, a new alliance, Terra Femina, vol. 1, Rio de Janeiro, IDAC/REDEH/Frauen Anstiftung. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1992). Memórias do Planeta Fêmea. Estudos Feministas, IFCS / UFRJ nº 0/92, Rio de Janeiro. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1993). Women&#039;s concerns and inputs to the World Human Rights Conference. Terra Femina, vol. 2. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1993). As mulheres e a natureza: uma relação ancestral, uma nova aliança. Transformação, Rio de Janeiro: Editora Diferença. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1994). Terra Soror, Terra Femina vol. 3. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1995). Igualdade, Desenvolvimento e Paz, Estudos Feministas, IFCS / UFRJ, Vol. 3 nº 1/95, Rio de Janeiro. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1996). O Século XXI começou em Beijing. IV Conferência Mundial sobre a Mulher: Beijing 1995, Rio de Janeiro: IDAC – FIOCRUZ. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1996). Estratégias da igualdade. Programa nacional de promoção da igualdade de gênero. Brasília: Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, Ministério da Justiça. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1998). Na democracia, a igualdade entre homens e mulheres faz toda a diferença. Programa nacional de igualdade de oportunidades na função pública. Brasília: Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, Ministério da Justiça. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1998). As mulheres, os direitos humanos e a democracia. Textos do Brasil: Cinquenta anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Brasília: Ministério das Relações Exteriores, Ano II – no 6. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1999). Educação e Desigualdade. Comissão do Desenvolvimento Sustentável e da Agenda 21 Nacional, Brasília: Ministério do Meio Ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1999). Direitos das Mulheres, Direitos Humanos. Direitos Humanos no Século XXI, Brasília: Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais – IPRI. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2000). Feminismo e Feminilidade, A Mulher no Terceiro Milênio, Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2000). Réinventer le Temps, Courrier, Paris: UNESCO. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2001). Indivíduos, sujeitos e cidadãos: globalização e quotidiano. Globalização, democracia e desenvolvimento social, Rio de Janeiro: Centro Brasileiro de Relações Internacionais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2001). Eqüidade. Virtudes. Eliana Yunes e Maria Clara Luchetti Bingemer (coordenação). São Paulo: Edições Loyola. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2002). A Liderança Feminina, Seguridade, Ano II, No. 3, Rio de Janeiro: Instituto Cultural de Seguridade Social, Rio de Janeiro. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2002). A Reengenharia do Tempo. Trabalho e Sociedade, Ano 1, nº 2, Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade - IETS / IPEA. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2005). A reengenharia do tempo: o desafio da conciliação público/privado. IPEA/FIRJAN. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2005). Inédita e subversiva: homenagem a Maria de Lurdes Pintasilgo. Revista ex aequo, nº 12. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2006). As mulheres e a reengenharia do tempo. Comissão Econômica para a América Latina – CEPAL. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2008). Listen to Latin American’s Women. America’s Quarterly, Council of the Americas, Fall. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2012). Esperanças e espertezas. Ciclo “Ética e cidadania em tempos de transição”. Revista Brasileira, Fase VII, Ano XVIII, nº 69 &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2012). Portella, pensador do tempo presente. In: O caminho, o caminhar, Tempo Brasileiro, nº 191, Rio de Janeiro. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2013). Rubem Braga: Viver em Voz Alta. Jornal das Letras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2013). Descaminhos da Razão Armada. Prosa e Verso, O Globo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fundações ===&lt;br /&gt;
Participou da criação do Instituto de Ação Cultural (IDAC), no ano de 1971, em conjunto com Paulo Freire e Claudius Ceccon, que agia na reconstrução dos sistemas educacionais, prestando apoio a independência e assessoria educativa de países africanos de língua portuguesa após a descolonização. Atuava, também, em alguns países da Europa, entre eles Suíça, Suécia, Dinamarca e Noruega. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1975, o IDAC  recebeu um chamado político de cooperação internacional do então ministro da Educação da Guiné-Bissau, após tornar-se independente, para levar uma equipe do Instituto para auxiliar na reestruturação do país. Rosiska, Paulo Freire e Miguel Darcy, junto a uma equipe especializada, realizaram missões pela África com o objetivo de reparar os estragos deixados pelo colonialismo português, como combater os altos índices de analfabetismo. A equipe lutava para romper a cultura eurocêntrica e reviver a ancestralidade e práticas culturais tradicionais africanas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As intervenções ocorriam por meio de debates políticos acerca do dia a dia daquele meio social e o sentimento da recém libertação, tratando, também, assuntos como educação, alfabetização, direitos civis, igualdade entre gêneros, de maneiras mais didáticas, diretas e descontraídas. Somado a isso, foi elaborado um modelo de materiais didáticos, principalmente cartinhas de ensino, mais adaptadas, que permitia aos povos locais adicionarem seus próprios traços culturais, garantindo a valorização de suas raízes e fugindo completamente do padrão tradicional de ensino, totalmente desconexo das realidades locais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Instituto deixou seu legado marcado na história da educação, com propostas de educação popular e círculos de cultura, abraçados por diversos espaços sociais, como escolas, secretarias de educação, universidades e movimentos estudantis atuais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Prêmios ==&lt;br /&gt;
Rosiska recebeu diversas condecorações ao longo de sua carreira, sendo reconhecida por sua atuação na literatura, nos direitos das mulheres e em serviços prestados ao país. Ela recebeu medalhas como a da Ordem Rio Branco, entregue pelo Presidente da República, por serviços prestados ao Brasil no exterior, além das medalhas Euclides da Cunha - concebida pela Academia Brasileira de Letras (ABL) - Tiradentes, dada pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ), por serviços relevantes à causa pública, ao Estado do Rio ou ao Brasil, e a medalha Nísia Floresta, honraria do estado do Rio Grande do Norte, sendo reconhecida como símbolo de protagonismo feminino. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Rosiska também recebeu os prêmios Orgulho Carioca, concedido pela Prefeitura do Rio de Janeiro - sendo reconhecida como talento literário fluminense - Personalidade Cidadania 2006, um prêmio concedido pela UNESCO que reconhece personalidades que se destacam na defesa de causas sociais, educação, direitos humanos e cidadania, o prêmio RioMania, concebido pela Associação Comercial do Rio de Janeiro e assumiu, na Academia Brasileira de Letras (ABL), a cadeira 10 no ano de 2013. Ganhou, também, a medalha Raquel de Queiroz, do estado do Ceará.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Influências ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget ===&lt;br /&gt;
Durante seu exílio em Genebra, Rosiska aprofundou seus conhecimentos na Faculté de Psychologie et Sciences de l&#039;Education da Universidade de Genebra, onde foi aluna de Piaget, a quem se refere como seu mestre.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob essa influência acadêmica e com a formação em Psicologia e Ciências da Educação, Rosiska obteve seu doutorado em Educação, fundamentando suas pesquisas subsequentes sobre o feminino.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Paulo Freire ===&lt;br /&gt;
O encontro de Rosiska com Paulo Freire em Genebra foi decisivo, pois redirecionou o trabalho de Rosiska para o campo da educação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1971, ambos fundaram o Instituto de Ação Cultural e trabalharam juntos na reconstrução dos sistemas educacionais de países africanos de língua portuguesa após a descolonização.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa experiência de trabalho e convivência foi registrada nas obras “Illich/Freire: A Opressão da Pedagogia e a Pedagogia dos Oprimidos”, de 1977, “Cuidado, Escola, Desigualdade, Domesticação e Algumas Saídas” e &amp;quot;Vivendo e Aprendendo: experiências em educação popular&amp;quot;, ambas publicadas em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Relações com outros personagens ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Darcy Ribeiro ===&lt;br /&gt;
Foi assessora de Darcy Ribeiro - importante educador e pensador brasileiro. Atuaram juntos, também, na política e na defesa da educação. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Eduardo Portella ===&lt;br /&gt;
Crítico e professor brasileiro, realizou o discurso de recepção de Rosiska na Academia Brasileira de Letras, em 2013. Compartilham interesses em debates sobre a sociedade brasileira e políticas culturais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Lêdo Ivo ===&lt;br /&gt;
Após o falecimento do escritor, Rosiska ocupou sua cadeira na Academia Brasileira de Letras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Boutros Ghali ===&lt;br /&gt;
A relação com o ex-Secretário-Geral da ONU ocorreu no âmbito da diplomacia e consultoria internacional. Rosiska integrou o Painel Mundial para a Democracia da UNESCO, que era presidido por Ghali.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Retratos na mídia ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fotobiografia ===&lt;br /&gt;
Publicada em março de 2026, a obra revisita a trajetória pessoal, política e intelectual de Rosiska Darcy de Oliveira por meio de um acervo fotográfico. O livro reúne imagens da infância, do período do exílio e de vínculos afetivos, incluindo registros realizados por Miguel Darcy, seu marido. Todos os textos foram extraídos das obras de Rosiska Darcy de Oliveira. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Elogio da liberdade ===&lt;br /&gt;
Produção dirigida por Bianca Comparato, o documentário acompanha diversas fases da vida de Rosiska, início da sua trajetória acadêmica e carreira, seu período de exílio em Genebra, devido à ditadura militar, até seu retorno ao Brasil.  Durante a criação do longa-metragem, Rosiska concede entrevistas nas quais lembra experiências marcantes de sua vida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Rosiska Darcy de Oliveira: biografia. Rio de Janeiro: ABL, [s.d.]. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=973&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 14 abr. 2026.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CRUZ, Marcia Maria. Conceição Evaristo e Rosiska Darcy Oliveira emocionam o público ao contar suas experiências de exílio. 3º Flipetrópolis, Petrópolis, maio 2024. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://flipetropolis.com.br/conceicao-evaristo-e-rosiska-darcy-oliveira-emocionam-o-publico-ao-contar-suas-experiencias-de-exilio/&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 26 ago. 2026&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
DIAS, Zwinglio Mota (Org.). Memórias ecumênicas protestantes – Os protestantes e a Ditadura: colaboração e resistência. Rio de Janeiro: KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 2014. 200 p. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://koinonia.org.br/protestantes/downloads/PDF_Memorias%20Protestantes.pdf&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 26 ago. 2026.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ELOGIO da liberdade. Direção: Bianca Comparato. Produção: Roberto Ríos, Eduardo Zaca, Patrícia Carvalho, Rafaella Giannini. [S. l.]: Max, 2019. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://youtu.be/EQl0hh1JmxU?si=qzKRtn0UaUCboklN&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 25 abr. 2026.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
FREIRE, Paulo In: Acervo Paulo Freire. São Paulo: Instituto Paulo Freire, 1975. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://www.acervo.paulofreire.org/items/91980bf1-77d5-4cc0-&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
a98e-d27d42c25745. Acesso em: 30 jun. 2026. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
OLIVEIRA, Rosiska Darcy de. Entrevista com Rosiska Darcy de Oliveira, presidenta do Centro de Liderança da Mulher, feminista e escritora. [Entrevista cedida a] MMPB. Brasília: Ministério das Mulheres, [s.d.]. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://www.gov.br/mulheres/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas-1/acoes-e-programas-de-gestoes-anteriores/politicas-para-mulheres/arquivo/assuntos/poder-e-participacao-politica/referencias/entrevistas/entrevista_rosiska_darcy_de.pdf&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 10 mai. 2026.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
OLIVEIRA, Rosiska Darcy de; OLIVEIRA, Miguel Darcy de. Guiné-Bissau: réinventer l&#039;éducation. Genebra: Instituto de Ação Cultural (IDAC), 1975. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://acervo.paulofreire.org/items/33e93452-e2ec-427e-8e65-6602fc6f2944&amp;lt;/nowiki&amp;gt; . Acesso em: 30 jun. 2026. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
OLIVEIRA, Rosiska Darcy de. Editora Rocco. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://rocco.com.br/caracteristica/autor/rosiska-darcy-de-oliveira/&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 25 abr. 2026.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O TEMPO particular da imortal Rosiska Darcy de Oliveira. O Globo, Rio De Janeiro, 28 dez. 2014. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://oglobo.globo.com/rio/o-tempo-particular-da-imortal-rosiska-darcy-de-oliveira-14923084&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 1 jul. 2026. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
PAIVA, Miguel. Minha história com Paulo Freire. Brasil 247, 2019. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://www.brasil247.com/blog/minha-historia-com-paulo-freire&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 06 jun. 2026.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
VALOR ONLINE. Rosiska Darcy de Oliveira é eleita para Academia Brasileira de Letras. G1 Economia, 11 abr. 2013. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://g1.globo.com/&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 26 ago. 2026.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por Marina Nolasco de Vasconcellos Rodrigues, Guilherme Valente Miranda de Ponte, Luiza Almeida, Juliana Gonçalves da Costa Leite, Bárbara de Moraes Barbosa, Júlia Dória Martins dos Santos e Luiz Fernando Mendonça Carvalho como exigência parcial para a disciplina História da Psicologia do curso de Psicologia da UFF de Rio das Ostras. Revisado por Luiz Fernando Mendonça Carvalho. Criado em 2026.1, publicado em 2026.2.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
‌&lt;br /&gt;
[[Categoria:Personagens]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Rosiska_Darcy&amp;diff=1738</id>
		<title>Rosiska Darcy</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Rosiska_Darcy&amp;diff=1738"/>
		<updated>2026-08-27T21:21:52Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: Criação do verbete&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Rosiska Darcy de Oliveira (Rio de Janeiro, 27 de março de 1944) é uma professora, advogada, escritora e ensaísta, ocupante da cadeira 10 da Academia Brasileira de Letras. Formou-se em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), mas iniciou sua carreira profissional como jornalista. Em 1970, após denunciar práticas de tortura da ditadura militar, foi obrigada a se exilar em Genebra, na Suíça, onde redirecionou seu trabalho para o campo da educação, a partir de seu encontro com Paulo Freire. Posteriormente, aprofundou seus estudos junto a Jean Piaget na Faculté de Psychologie et Sciences de l&#039;Éducation da Universidade de Genebra, onde também lecionou por dez anos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== BIOGRAFIA ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Formação e início da carreira no Brasil ===&lt;br /&gt;
Rosiska Darcy de Oliveira nasceu em 1944, na cidade do Rio de Janeiro, filha de José Carlos Ribeiro e Marina Reis Vianna Ribeiro. Após concluir a formação normalista no Instituto de Educação, ingressou no curso de Direito da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), graduando-se ao final da década de 1960. No entanto, o início de sua trajetória profissional se deu em outra área, a do Jornalismo. O contato com a imprensa teve início ainda durante o Ensino Normal, quando Rosiska atuou como editora da Revista Tangará, um projeto interno coordenado pelos próprios alunos do Instituto. Ainda estudante, foi contratada pela Revista Senhor em 1964, onde permaneceu até a suspensão da atividade editorial por ordem da ditadura militar. Até 1970, ela ainda atuaria em periódicos como Revista Visão, Jornal do Brasil e O Globo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O exílio na Suíça ===&lt;br /&gt;
Em 1969, Rosiska casou-se com Miguel Darcy de Oliveira, também formado em Direito pela PUC-Rio. Na área profissional, Miguel seguiu carreira diplomática, sendo nomeado, em julho de 1969, segundo-secretário da Delegação Permanente do Brasil em Genebra. Na Suíça, o casal ajudou a denunciar internacionalmente o sistema de torturas praticado pela ditadura no Brasil, divulgando testemunhos e documentos de presos políticos. As denúncias tiveram consequências. Em fevereiro de 1970, Miguel foi chamado a retornar ao Brasil para “consultas” no Itamaraty; ele ficou detido por 40 dias e foi exonerado do cargo. Rosiska, ao buscar informações sobre o marido na embaixada brasileira na Suíça, foi interrogada por cerca de 12 horas seguidas, prática que, posteriormente, também foi denunciada. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob o risco de perseguição política, Miguel conseguiu deixar o Brasil e retornou à Suíça ainda em 1970. Em Genebra, Rosiska e Miguel viveram como refugiados políticos por alguns anos no Foyer John Knox, uma residência internacional para estudantes que oferecia asilo a refugiados de diversos países. Durante esse período, Rosiska encarou um cenário que mudaria seus horizontes: o encontro com Paulo Freire, que redirecionaria seu trabalho para outro campo de atuação, e sua passagem como aluna de Jean Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Os encontros com Paulo Freire e Jean Piaget ===&lt;br /&gt;
Rosiska conheceu Paulo Freire por telefone, em 1970, no período em que solicitou asilo político no Foyer John Knox. O educador também estava em Genebra, exilado, trabalhando como consultor do Escritório de Educação do Conselho Mundial de Igrejas. O encontro entre os dois despertou em Rosiska o interesse pela área da educação, além de resultar em uma parceria que se estendeu por 15 anos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entre os principais feitos dessa colaboração está a criação do IDAC (Instituto de Ação Cultural), em 1971. O objetivo era reestruturar o sistema educacional de países africanos de língua portuguesa, especialmente aqueles em processo de emancipação do domínio colonial. Os trabalhos feitos pelo Instituto também incluíram países da Europa, atuando na alfabetização de adultos e nos direitos das mulheres. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os interesses de Rosiska pelo campo da educação se aprofundaram junto a Jean Piaget, a quem teve como professor na Faculté de Psychologie et Sciences de l’Education (Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação) da Universidade de Genebra. Rosiska descreve o epistemólogo suíço como a pessoa mais brilhante que já conheceu, destacando que Piaget foi o responsável por introduzi-la ao pensamento científico e à cultura global. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de aluna, Rosiska lecionou por 10 anos na Universidade de Genebra, período em que pôde aprimorar seus estudos sobre o feminino, somado às experiências que serviram de base para a elaboração de seus primeiros ensaios. Durante sua passagem pela instituição, ela criou um curso inédito dedicado ao estudo do feminino, tema que guiou sua tese de doutorado, defendida em 1987, sob o título de “La Formation des Femmes comme Miroir de I’Ambiguité” (A Formação das Mulheres como Espelho da Ambiguidade).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período em que estiveram em Genebra, Rosiska e Miguel mantiveram posição contrária à ditadura militar; atuavam ativamente traduzindo cartas e declarações vindas de presídios e as entregavam para a imprensa internacional e defensores dos direitos humanos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O retorno ao Brasil ===&lt;br /&gt;
Em 1983, com a redemocratização, Rosiska retornou ao Brasil e retomou sua produção ensaística, trabalho voltado às questões da educação e das condições femininas na sociedade. Exerceu, simultaneamente, a função de assessora especial do então vice-governador do Rio de Janeiro, Darcy Ribeiro, com quem dividia  interesses pela melhoria na qualidade do ensino público, cargo que ocupou durante quatro anos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1984, integrou o corpo docente do curso de Letras da PUC-Rio, como professora de doutorado. Ao longo de dez anos, estruturou seus estudos sobre a produção literária feminina, por meio de cursos, conferências e ensaios.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em abril de 2013, Rosiska foi eleita para a Academia Brasileira de Letras (ABL), tornando-se a sexta ocupante da Cadeira nº 10. Ela sucedeu o poeta Lêdo Ivo, falecido em dezembro de 2012. No dia da posse, em 14 junho de 2013, Rosiska recitou um poema de Cecília Meireles sobre a liberdade, tema que sintetiza tanto a sua produção literária quanto a sua própria experiência pessoal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Contribuições ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Ações políticas e sociais ===&lt;br /&gt;
Em 1991, Rosiska fundou a Coalizão de Mulheres Brasileiras em defesa da causa feminina, empenhando-se em promover a chegada das mulheres aos lugares de saber e de poder. Em 1995, foi nomeada, pelo então Presidente da República, como presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, Programa Nacional de Promoção da Igualdade de Gênero. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Chefiou, entre 2007 e 2015, o movimento Rio Como Vamos de promoção da participação e responsabilidade cidadã. Atuou como segunda dirigente de Cultura da Associação Comercial do Rio de Janeiro e é membro do Conselho Diretor da ACRJ, do Conselho Técnico da Confederação Nacional da Indústria e, além disso,  do Instituto Brasileiro de Defesa do Deficiente (IBDD), do PEN Clube do Brasil, do Conselho Científico do Museu do Amanhã, do conselho deliberativo da Casa Firjan e do conselho editorial da PUC-RIO. Somado a isso, a acadêmica é diretora de publicações da Academia Brasileira de Letras e editora da Revista Brasileira. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Esfera Internacional ===&lt;br /&gt;
Rosiska co-presidiu a Delegação brasileira à Conferência Mundial da Mulher em Beijing, integrou o Conselho Mulher e Desenvolvimento do Banco Interamericano de Desenvolvimento e representou o Brasil na Comissão Interamericana de Mulheres da OEA. Propôs a criação e foi a primeira presidente da Reunião Especializada da Mulher no Mercosul. Presidiu a rede internacional Terra Femina: um olhar feminino sobre os temas globais nas Conferências da ONU sobre População, Direitos Humanos, Meio Ambiente e Desenvolvimento Social. Foi consultora da UNESCO sobre a emergência do feminino na cultura, integrando o Painel Mundial sobre Educação para o Desenvolvimento Sustentável e o Painel Mundial para a Democracia, presidido pelo ex-Secretário Geral da ONU Boutros-Ghali.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== CRONOLOGIA BIOGRÁFICA ==&lt;br /&gt;
1944: Nascimento de Rosiska Darcy de Oliveira, no dia 27 de março, no Rio de Janeiro. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1960: Iniciou sua trajetória profissional no Jornalismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1970: Ocorreu a interrupção de sua atividade como jornalista em decorrência do exílio em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1971: Fundação do Instituto de Ação Cultural, junto com Paulo Freire e Claudius Ceccon. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1983: Retornou ao território nacional brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1991: Fundou a Coalizão de Mulheres Brasileiras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1995: Nomeada presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1995: Co-chefiou a Delegação brasileira à IV Conferência Mundial da Mulher. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2003: Nomeada vice-presidente de Cultura da Associação Comercial do Rio. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2007: Presidiu, de 2007 a 2015, o Movimento Rio como Vamos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2013: Eleita para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira 10, onde atua até os dias atuais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2022: Assumiu a direção e editoria da Revista Brasileira da Academia Brasileira de Letras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2022: Tornou-se diretora de publicidade da Academia Brasileira de Letras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Obras e Fundações ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Principais Obras ===&lt;br /&gt;
O Elogio da Diferença: o feminino emergente (São Paulo, Editora Brasiliense, 1991) &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Literatura sobre o feminino, “O Elogio da Diferença” traz respostas renovadas às mais importantes questões sobre a relação homem e mulher na contemporaneidade. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Reengenharia do tempo (Rio de Janeiro, Editora Rocco, 2003) &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este escrito convida o leitor a uma reorganização do cotidiano, recuperando a discussão sobre o sentido da vida e propondo, a homens e mulheres, uma nova arte de viver. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Baile de máscaras (Rio de Janeiro, Editora Rocco, 2014) &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesta obra, de crônicas, ensaios e artigos, a autora emprega um olhar afiado para discutir os desafios da contemporaneidade, abordando temas que vão desde a esfera íntima até a política internacional, sempre com foco na liberdade, direitos humanos e na valorização do feminino.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Liberdade (Rio de Janeiro, Editora Anfiteatro, 2021) &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A obra é um libelo contra o ódio e a intolerância que impõe a todos o ponto de vista nascido de uma visão fundamentalista de mundo que brota da insegurança frente à atual era da incerteza. É uma aposta no amor, na esperança e no conhecimento, que oferece ao leitor rico material de reflexão.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Outras Obras ===&lt;br /&gt;
A obra literária de Rosiska Darcy de Oliveira é vasta e transita entre o ensaio acadêmico, a crônica e o conto, refletindo sua trajetória no exílio e seu ativismo pelos direitos das mulheres.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Livros ====&lt;br /&gt;
(1975). A Libertação da Mulher, Lisboa: Sá da Costa Editora. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1977). Illich/Freire: A Opressão da Pedagogia e a Pedagogia dos Oprimidos, Sá da Costa Editora, Lisboa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1980). Vivendo e Aprendendo, co-autora, São Paulo: Editora Brasiliense. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1989). Le Féminin Ambigu, Genève : Editions du Concept Moderne. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1992). La Culture des Femmes : tradition et innovation, Paris : UNESCO. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1998). In Praise of Difference: the rise of global feminism, New Brunswick, New Jersey: Rutgers University Press. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2000). A Dama e o Unicórnio, Rio de Janeiro: Editora Rocco. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2002). Outono de Ouro e Sangue, Rio de Janeiro: Editora Rocco.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2006). A Natureza do Escorpião, Rio de Janeiro: Editora Rocco. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2010). Chão de Terra, Rio de Janeiro: Editora Rocco. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2016). Pássaro Louco. Rio de Janeiro: Editora Rocco. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2026). Rosiska, uma fotobiografia. Rio de Janeiro: Editora Edições Pinakotheke. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Artigos e ensaios ====&lt;br /&gt;
(1973). La libération de la femme: changer le monde, réinventer la vie. Documents IDAC numéro 3. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1976). La politique éducative d&#039;un mouvement de libération au pouvoir. Cahiers de l’Institut d’Etudes du Développement, no. 4. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1978). Guinée-Bissau: éducation et processus révolutionnaire. L’Homme et la Société, Editions Anthropos, no. 47.. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1978) Féminiser le monde. Documents IDAC, no. 10. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1978). Les femmes en mouvement et l’avenir de l’éducation. Education des adultes. Cahiers de la Section Sciences de de l’Education, Faculté de Psychologie et des Sciences de l’Education, Université de Genève. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1979). Education et Sociétés. Bureau International de l&#039;Education au Service du Mouvement Educatif, UNESCO. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1979). Learning by living and doing: reflections about education and self-reliance in Self-Reliance. In: Self-reliance, Preiswerk &amp;amp; Galtung ed., Londres, Bogle-L&#039;Ouverture. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1980). The role of schools in the promotion of primary health care. World Health Organization. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1981). Pesquisa Social e Ação Educativa. In: Pesquisa Participante, C. Brandão (org.), Brasiliense. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1981). Os Movimentos Sociais Reinventam a Educação, Educação e Sociedade, no. 8, Cortez Editora. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1983). As Pedras no Bolso do Feminismo, Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, vol. 2, no. 3. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1983). Women’s participation in the promotion of peace and international cooperation.  International Federation of University Women. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1984). Avaliação da aplicação pelo Brasil da Convenção Internacional para a Eliminação da Discriminação contra a Mulher. UNESCO. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1985). As fiandeiras do saber ou como se educar nos tempos que correm. In: Mulheres em movimento, Editora Marco Zero. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1985). Em Dia com a Mulher. INEP, Ministério da Educação, Brasília. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1985). Guia de Defesa das Mulheres contra a Violência. Conselho Nacional dos Direitos da Mulher/Ministério da Justiça, Brasília. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1985). Les pierres dans la poche du féminisme. Femmes et Formation. Cahiers de la Section Sciences de de l’Education, Faculté de Psychologie et des Sciences de l’Education, Université de Genève. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1987). A participação das mulheres na reconstrução da democracia no Brasil.  UNESCO/Pontifícia Universidade Católica, Rio de Janeiro.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1987). La Formation des femmes en tant que miroir de l’ambiguité. Tese de doutorado, Faculté de Psychologie et des Sciences de l’Education, Université de Genève. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1988). La Formation des Femmes au Brésil: du privé au public. In : La Formation des Femmes, UNESCO/¬Editions Le Concept Moderne, Genebra. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1989). Femme et Travail: sens, non-sens et ambiguité. UNESCO. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1990). Novos paradigmas de educação popular no Brasil, Fundação Ford. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1990). A Cicatriz do Andrógino. Feminino e Literatura, Tempo Brasileiro, nº 101, Rio de Janeiro. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1990). A Transgressão do Feminino, editora e co-autora, Rio de Janeiro: PUC-Rio/IDAC/Instituto Italiano di Cultura. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1991). La Participation des Femmes dans la Vie Publique: le cas du Brésil. UN Division for the Advancement of Women, Viena. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1992). Mulheres, políticas públicas e meio ambiente. Rio de Janeiro: PNUD/UNIFEM. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1992). Mulheres e Meio Ambiente. Rio de Janeiro: UNIFEM. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1992). Women and Nature: an ancestral bond, a new alliance, Terra Femina, vol. 1, Rio de Janeiro, IDAC/REDEH/Frauen Anstiftung. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1992). Memórias do Planeta Fêmea. Estudos Feministas, IFCS / UFRJ nº 0/92, Rio de Janeiro. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1993). Women&#039;s concerns and inputs to the World Human Rights Conference. Terra Femina, vol. 2. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1993). As mulheres e a natureza: uma relação ancestral, uma nova aliança. Transformação, Rio de Janeiro: Editora Diferença. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1994). Terra Soror, Terra Femina vol. 3. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1995). Igualdade, Desenvolvimento e Paz, Estudos Feministas, IFCS / UFRJ, Vol. 3 nº 1/95, Rio de Janeiro. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1996). O Século XXI começou em Beijing. IV Conferência Mundial sobre a Mulher: Beijing 1995, Rio de Janeiro: IDAC – FIOCRUZ. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1996). Estratégias da igualdade. Programa nacional de promoção da igualdade de gênero. Brasília: Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, Ministério da Justiça. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1998). Na democracia, a igualdade entre homens e mulheres faz toda a diferença. Programa nacional de igualdade de oportunidades na função pública. Brasília: Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, Ministério da Justiça. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1998). As mulheres, os direitos humanos e a democracia. Textos do Brasil: Cinquenta anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Brasília: Ministério das Relações Exteriores, Ano II – no 6. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1999). Educação e Desigualdade. Comissão do Desenvolvimento Sustentável e da Agenda 21 Nacional, Brasília: Ministério do Meio Ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(1999). Direitos das Mulheres, Direitos Humanos. Direitos Humanos no Século XXI, Brasília: Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais – IPRI. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2000). Feminismo e Feminilidade, A Mulher no Terceiro Milênio, Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2000). Réinventer le Temps, Courrier, Paris: UNESCO. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2001). Indivíduos, sujeitos e cidadãos: globalização e quotidiano. Globalização, democracia e desenvolvimento social, Rio de Janeiro: Centro Brasileiro de Relações Internacionais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2001). Eqüidade. Virtudes. Eliana Yunes e Maria Clara Luchetti Bingemer (coordenação). São Paulo: Edições Loyola. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2002). A Liderança Feminina, Seguridade, Ano II, No. 3, Rio de Janeiro: Instituto Cultural de Seguridade Social, Rio de Janeiro. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2002). A Reengenharia do Tempo. Trabalho e Sociedade, Ano 1, nº 2, Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade - IETS / IPEA. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2005). A reengenharia do tempo: o desafio da conciliação público/privado. IPEA/FIRJAN. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2005). Inédita e subversiva: homenagem a Maria de Lurdes Pintasilgo. Revista ex aequo, nº 12. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2006). As mulheres e a reengenharia do tempo. Comissão Econômica para a América Latina – CEPAL. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2008). Listen to Latin American’s Women. America’s Quarterly, Council of the Americas, Fall. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2012). Esperanças e espertezas. Ciclo “Ética e cidadania em tempos de transição”. Revista Brasileira, Fase VII, Ano XVIII, nº 69 &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2012). Portella, pensador do tempo presente. In: O caminho, o caminhar, Tempo Brasileiro, nº 191, Rio de Janeiro. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2013). Rubem Braga: Viver em Voz Alta. Jornal das Letras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
(2013). Descaminhos da Razão Armada. Prosa e Verso, O Globo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fundações ===&lt;br /&gt;
Participou da criação do Instituto de Ação Cultural (IDAC), no ano de 1971, em conjunto com Paulo Freire e Claudius Ceccon, que agia na reconstrução dos sistemas educacionais, prestando apoio a independência e assessoria educativa de países africanos de língua portuguesa após a descolonização. Atuava, também, em alguns países da Europa, entre eles Suíça, Suécia, Dinamarca e Noruega. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1975, o IDAC  recebeu um chamado político de cooperação internacional do então ministro da Educação da Guiné-Bissau, após tornar-se independente, para levar uma equipe do Instituto para auxiliar na reestruturação do país. Rosiska, Paulo Freire e Miguel Darcy, junto a uma equipe especializada, realizaram missões pela África com o objetivo de reparar os estragos deixados pelo colonialismo português, como combater os altos índices de analfabetismo. A equipe lutava para romper a cultura eurocêntrica e reviver a ancestralidade e práticas culturais tradicionais africanas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As intervenções ocorriam por meio de debates políticos acerca do dia a dia daquele meio social e o sentimento da recém libertação, tratando, também, assuntos como educação, alfabetização, direitos civis, igualdade entre gêneros, de maneiras mais didáticas, diretas e descontraídas. Somado a isso, foi elaborado um modelo de materiais didáticos, principalmente cartinhas de ensino, mais adaptadas, que permitia aos povos locais adicionarem seus próprios traços culturais, garantindo a valorização de suas raízes e fugindo completamente do padrão tradicional de ensino, totalmente desconexo das realidades locais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Instituto deixou seu legado marcado na história da educação, com propostas de educação popular e círculos de cultura, abraçados por diversos espaços sociais, como escolas, secretarias de educação, universidades e movimentos estudantis atuais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Prêmios ==&lt;br /&gt;
Rosiska recebeu diversas condecorações ao longo de sua carreira, sendo reconhecida por sua atuação na literatura, nos direitos das mulheres e em serviços prestados ao país. Ela recebeu medalhas como a da Ordem Rio Branco, entregue pelo Presidente da República, por serviços prestados ao Brasil no exterior, além das medalhas Euclides da Cunha - concebida pela Academia Brasileira de Letras (ABL) - Tiradentes, dada pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ), por serviços relevantes à causa pública, ao Estado do Rio ou ao Brasil, e a medalha Nísia Floresta, honraria do estado do Rio Grande do Norte, sendo reconhecida como símbolo de protagonismo feminino. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Rosiska também recebeu os prêmios Orgulho Carioca, concedido pela Prefeitura do Rio de Janeiro - sendo reconhecida como talento literário fluminense - Personalidade Cidadania 2006, um prêmio concedido pela UNESCO que reconhece personalidades que se destacam na defesa de causas sociais, educação, direitos humanos e cidadania, o prêmio RioMania, concebido pela Associação Comercial do Rio de Janeiro e assumiu, na Academia Brasileira de Letras (ABL), a cadeira 10 no ano de 2013. Ganhou, também, a medalha Raquel de Queiroz, do estado do Ceará.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Influências ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget ===&lt;br /&gt;
Durante seu exílio em Genebra, Rosiska aprofundou seus conhecimentos na Faculté de Psychologie et Sciences de l&#039;Education da Universidade de Genebra, onde foi aluna de Piaget, a quem se refere como seu mestre.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sob essa influência acadêmica e com a formação em Psicologia e Ciências da Educação, Rosiska obteve seu doutorado em Educação, fundamentando suas pesquisas subsequentes sobre o feminino.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Paulo Freire ===&lt;br /&gt;
O encontro de Rosiska com Paulo Freire em Genebra foi decisivo, pois redirecionou o trabalho de Rosiska para o campo da educação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1971, ambos fundaram o Instituto de Ação Cultural e trabalharam juntos na reconstrução dos sistemas educacionais de países africanos de língua portuguesa após a descolonização.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa experiência de trabalho e convivência foi registrada nas obras “Illich/Freire: A Opressão da Pedagogia e a Pedagogia dos Oprimidos”, de 1977, “Cuidado, Escola, Desigualdade, Domesticação e Algumas Saídas” e &amp;quot;Vivendo e Aprendendo: experiências em educação popular&amp;quot;, ambas publicadas em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Relações com outros personagens ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Darcy Ribeiro ===&lt;br /&gt;
Foi assessora de Darcy Ribeiro - importante educador e pensador brasileiro. Atuaram juntos, também, na política e na defesa da educação. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Eduardo Portella ===&lt;br /&gt;
Crítico e professor brasileiro, realizou o discurso de recepção de Rosiska na Academia Brasileira de Letras, em 2013. Compartilham interesses em debates sobre a sociedade brasileira e políticas culturais. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Lêdo Ivo ===&lt;br /&gt;
Após o falecimento do escritor, Rosiska ocupou sua cadeira na Academia Brasileira de Letras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Boutros Ghali ===&lt;br /&gt;
A relação com o ex-Secretário-Geral da ONU ocorreu no âmbito da diplomacia e consultoria internacional. Rosiska integrou o Painel Mundial para a Democracia da UNESCO, que era presidido por Ghali.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Retratos na mídia ==&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fotobiografia ===&lt;br /&gt;
Publicada em março de 2026, a obra revisita a trajetória pessoal, política e intelectual de Rosiska Darcy de Oliveira por meio de um acervo fotográfico. O livro reúne imagens da infância, do período do exílio e de vínculos afetivos, incluindo registros realizados por Miguel Darcy, seu marido. Todos os textos foram extraídos das obras de Rosiska Darcy de Oliveira. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Elogio da liberdade ===&lt;br /&gt;
Produção dirigida por Bianca Comparato, o documentário acompanha diversas fases da vida de Rosiska, início da sua trajetória acadêmica e carreira, seu período de exílio em Genebra, devido à ditadura militar, até seu retorno ao Brasil.  Durante a criação do longa-metragem, Rosiska concede entrevistas nas quais lembra experiências marcantes de sua vida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== REFERÊNCIAS ==&lt;br /&gt;
ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Rosiska Darcy de Oliveira: biografia. Rio de Janeiro: ABL, [s.d.]. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=973&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 14 abr. 2026.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
CRUZ, Marcia Maria. Conceição Evaristo e Rosiska Darcy Oliveira emocionam o público ao contar suas experiências de exílio. 3º Flipetrópolis, Petrópolis, maio 2024. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://flipetropolis.com.br/conceicao-evaristo-e-rosiska-darcy-oliveira-emocionam-o-publico-ao-contar-suas-experiencias-de-exilio/&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 26 ago. 2026&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
DIAS, Zwinglio Mota (Org.). Memórias ecumênicas protestantes – Os protestantes e a Ditadura: colaboração e resistência. Rio de Janeiro: KOINONIA Presença Ecumênica e Serviço, 2014. 200 p. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://koinonia.org.br/protestantes/downloads/PDF_Memorias%20Protestantes.pdf&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 26 ago. 2026.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ELOGIO da liberdade. Direção: Bianca Comparato. Produção: Roberto Ríos, Eduardo Zaca, Patrícia Carvalho, Rafaella Giannini. [S. l.]: Max, 2019. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://youtu.be/EQl0hh1JmxU?si=qzKRtn0UaUCboklN&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 25 abr. 2026.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
FREIRE, Paulo In: Acervo Paulo Freire. São Paulo: Instituto Paulo Freire, 1975. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://www.acervo.paulofreire.org/items/91980bf1-77d5-4cc0-&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
a98e-d27d42c25745. Acesso em: 30 jun. 2026. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
OLIVEIRA, Rosiska Darcy de. Entrevista com Rosiska Darcy de Oliveira, presidenta do Centro de Liderança da Mulher, feminista e escritora. [Entrevista cedida a] MMPB. Brasília: Ministério das Mulheres, [s.d.]. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://www.gov.br/mulheres/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas-1/acoes-e-programas-de-gestoes-anteriores/politicas-para-mulheres/arquivo/assuntos/poder-e-participacao-politica/referencias/entrevistas/entrevista_rosiska_darcy_de.pdf&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 10 mai. 2026.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
OLIVEIRA, Rosiska Darcy de; OLIVEIRA, Miguel Darcy de. Guiné-Bissau: réinventer l&#039;éducation. Genebra: Instituto de Ação Cultural (IDAC), 1975. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://acervo.paulofreire.org/items/33e93452-e2ec-427e-8e65-6602fc6f2944&amp;lt;/nowiki&amp;gt; . Acesso em: 30 jun. 2026. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
OLIVEIRA, Rosiska Darcy de. Editora Rocco. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://rocco.com.br/caracteristica/autor/rosiska-darcy-de-oliveira/&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 25 abr. 2026.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O TEMPO particular da imortal Rosiska Darcy de Oliveira. O Globo, Rio De Janeiro, 28 dez. 2014. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://oglobo.globo.com/rio/o-tempo-particular-da-imortal-rosiska-darcy-de-oliveira-14923084&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 1 jul. 2026. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
PAIVA, Miguel. Minha história com Paulo Freire. Brasil 247, 2019. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://www.brasil247.com/blog/minha-historia-com-paulo-freire&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 06 jun. 2026.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
VALOR ONLINE. Rosiska Darcy de Oliveira é eleita para Academia Brasileira de Letras. G1 Economia, 11 abr. 2013. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://g1.globo.com/&amp;lt;/nowiki&amp;gt;. Acesso em: 26 ago. 2026.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por Marina Nolasco de Vasconcellos Rodrigues, Guilherme Valente Miranda de Ponte, Luiza Almeida, Juliana Gonçalves da Costa Leite, Bárbara de Moraes Barbosa, Júlia Dória Martins dos Santos e Luiz Fernando Mendonça Carvalho como exigência parcial para a disciplina História da Psicologia do curso de Psicologia da UFF de Rio das Ostras. Revisado por Luiz Fernando Mendonça Carvalho. Criado em 2026.1, publicado em 2026.2.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
‌&lt;br /&gt;
[[Categoria:Personagens]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Cl%C3%A1ssicos_Brasileiros_da_Psicologia_(projeto)&amp;diff=1737</id>
		<title>Clássicos Brasileiros da Psicologia (projeto)</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Cl%C3%A1ssicos_Brasileiros_da_Psicologia_(projeto)&amp;diff=1737"/>
		<updated>2026-08-12T17:57:01Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: Protegido &amp;quot;Clássicos Brasileiros da Psicologia (projeto)&amp;quot; ([Editar=Permitir apenas administradores] (indefinidamente) [Mover=Permitir apenas administradores] (indefinidamente))&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;VERBETE EM CONSTRUÇÃO&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O projeto [https://memoria.historiadapsicologia.com.br/classicos-brasileiros-da-psicologia/ Clássicos Brasileiros da Psicologia] é uma iniciativa científica, patrimonial e cultural desenvolvida pelo [https://memoria.historiadapsicologia.com.br Centro de Memória e História da Psicologia (CHiP)], órgão vinculado à [https://psicologiaro.uff.br/ Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. O projeto tem como propósito central a salvaguarda, a organização, a conservação permanente e a ampla difusão de documentos, livros, periódicos e manuscritos de alto valor histórico e científico para a compreensão do desenvolvimento da psicologia no Brasil. Concebido sob as bases teóricas das Humanidades Digitais e da Ciência da Informação, o projeto atua diretamente na intersecção entre a preservação documental de acervos físicos tradicionais e a curadoria ativa de ativos digitais na internet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O que é o projeto ==&lt;br /&gt;
Operacionalmente, o projeto [https://memoria.historiadapsicologia.com.br/classicos-brasileiros-da-psicologia/ Clássicos Brasileiros da Psicologia] estruturam em duas frentes de ação complementares. A primeira é coleta ativa de documentos de relevância histórica já digitalizados e dispersos em repositórios heterogêneos de diferentes instituições, atuando como hub incorporadora de links e materiais relevantes já trabalhados por outras iniciativas de digitalização nacional e internacional. A segunda é a produção direta de novas digitalizações de fontes primárias sob custódia ou empréstimo do Centro de Memória, garantindo padrões rigorosos de qualidade, integridade e descrição técnica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma das principais inovações metodológicas do projeto consiste na integração orgânica e semântica entre os textos digitalizados das obras clássicas e os verbetes analíticos, biográficos e temáticos da própria Enciclopédia Eletrônica de História da Psicologia (WikiHP). Essa articulação cria um modelo conceitual de publicações ampliadas, em que o pesquisador não apenas consome a análise historiográfica em formato de verbete, mas acessa diretamente os dados brutos e as fontes primárias digitalizadas em uma interface unificada e transparente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao disponibilizar esse patrimônio em acesso aberto e gratuito, o projeto apoia a formação acadêmica, fomenta novas investigações historiográficas de caráter interdisciplinar e promove o engajamento público com a ciência. Ao focar na memória de cientistas e pensadores locais, o CHiP contribui para descentralizar os canais de circulação de conhecimento científico e promover a diversidade das expressões acadêmicas do Sul Global frente a discursos hegemônicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Inspiração e Contexto nas Humanidades Digitais ==&lt;br /&gt;
O projeto Clássicos Brasileiros da Psicologia busca inspiração direta no projeto [https://psychclassics.yorku.ca/ Classics in the History of Psychology], desenvolvido pela York University (Canadá), pioneiro mundial na digitalização e distribuição de textos de relevância histórica para a psicologia. O CHiP alinha-se a essa e a outras iniciativas de salvaguarda digital que visam contornar os limites físicos das instituições de custódia tradicionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa transição para o ambiente digital é amparada teoricamente pelo campo das Humanidades Digitais (HD), compreendidas como uma transdisciplina que amplia e multiplica o saber e o fazer das disciplinas tradicionais, apoiando-as, mobilizando simultaneamente os instrumentos e as perspectivas heurísticas do mundo digital. No âmbito da história da ciência, a digitalização atende a uma demanda crescente por novos serviços online voltados a acervos especializados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de ampliar drasticamente as fronteiras físicas das instituições e democratizar o acesso, a digitalização viabiliza a valorização de arquivos pessoais de cientistas. Esses arquivos frequentemente revelam o processo de bastidores da construção do texto científico (como esboços, planos e rascunhos), além de reunirem marginálias (anotações feitas à margem de livros das bibliotecas pessoais) e textos inéditos de imenso valor para o avanço da investigação científica contemporânea. A disponibilização digital desses materiais resolve a histórica tensão entre os arquivos de natureza privada e os de utilidade pública, devolvendo os registros gerados pela atividade de pesquisa à comunidade científica e à sociedade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Metodologia de Coleta, Organização e Integração ==&lt;br /&gt;
Para converter documentos dispersos em fontes de informação estruturadas e recuperáveis, o projeto implementa uma metodologia rigorosa dividida em três etapas:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Coleta e Captura Multidirecional: O projeto atua tanto na digitalização de suportes físicos próprios (gerando matrizes de alta resolução e derivadas de consulta) quanto no processo de harvesting (coleta automática) de registros e metadados de acervos parceiros, superando a fragmentação de repositórios isolados na Web.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Descrição Arquivística e Bibliográfica Padronizada: A descrição dos itens é realizada utilizando a NOBRADE (Norma Brasileira de Descrição Arquivística) para refletir o quadro de arranjo e manter a relação orgânica do acervo por meio de descrição multinível (do nível de fundo até o nível de item documental). Adota-se o padrão de metadados Dublin Core (DC), que oferece simplicidade, interoperabilidade semântica e flexibilidade internacional para descoberta de recursos na Web.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Interoperabilidade e Integração Semântica: A arquitetura do sistema é projetada para ser compatível com o protocolo OAI-PMH (Open Archives Initiative Protocol for Metadata Harvesting) e com o padrão EAD (Encoded Archival Description) baseado em XML, garantindo que o acervo possa ser coletado e integrado por outros repositórios nacionais e internacionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Criação de Objetos Digitais Compostos: Inspirado nas diretrizes do projeto OAI-ORE (Object Reuse and Exchange), o CHiP combina múltiplos recursos distribuídos (textos, imagens e dados) para formar objetos digitais compostos. Estes objetos são conectados diretamente aos verbetes analíticos da Enciclopédia Eletrônica de História da Psicologia, fornecendo ao usuário uma &amp;quot;publicação ampliada&amp;quot; que conecta a narrativa historiográfica à sua fonte primária de evidência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Políticas de Acesso Aberto e Difusão Científica ==&lt;br /&gt;
O Clássicos Brasileiros da Psicologia rege-se pelos princípios fundamentais do Movimento de Acesso Aberto (Open Access), em estrita consonância com a Declaração de Budapeste (BOAI). O movimento propõe que as pesquisas científicas e os bens intelectuais financiados publicamente ou de interesse histórico e social sejam disponibilizados de forma livre, gratuita e perpétua para leitura e reuso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa política de livre circulação traz vantagens diretas ao ecossistema acadêmico, pois:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Maximiza o impacto e a visibilidade das obras digitalizadas e dos estudos associados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Garante a democratização do conhecimento, mitigando o hiato digital e as barreiras econômicas impostas por modelos comerciais restritivos de indexação e publicação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apoia as atividades universitárias de ensino, pesquisa e extensão, fornecendo fontes primárias validadas para a formação de novos pesquisadore.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Adota licenças jurídicas flexíveis (como licenças alternativas de uso livre), que protegem os direitos autorais e de proveniência, mas asseguram o fair use e a livre circulação científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Diretrizes de Preservação Digital Multi-repositório ==&lt;br /&gt;
Considerando a extrema vulnerabilidade dos suportes digitais e o risco iminente de uma &amp;quot;Era das Trevas Digital&amp;quot; gerada pela obsolescência de hardware e software, o CHiP implementa uma robusta política de preservação digital híbrida, pautada em diretrizes técnicas e operacionais de longo prazo:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Estratégia de Múltiplos Repositórios (Cópias Geográficas): Contra ameaças de desastres físicos e sinistros lógicos, o projeto adota a replicação em rede de segurança (backup sincronizado), mantendo pelo menos três cópias completas do acervo e de seus metadados em mídias distintas e em diferentes localizações geográficas (incluindo servidores físicos locais e provedores de serviços em nuvem).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Adesão ao Modelo OAIS (Open Archival Information System): A preservação segue o modelo de referência OAIS (ISO 14721), gerenciando com precisão o ciclo de vida dos dados desde a submissão (pacotes SIP), arquivamento seguro em longo prazo (pacotes AIP) e difusão/consulta (pacotes DIP).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Metadados de Preservação e Estruturação: Utiliza-se de forma complementar o padrão PREMIS (específico para metadados de preservação digital de longo prazo) e o padrão METS (para estruturação de metadados técnicos, descritivos e de preservação em esquemas XML).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Plataformas de Software Livre Utilizadas: ===&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Cl%C3%A1ssicos_Brasileiros_da_Psicologia_(projeto)&amp;diff=1736</id>
		<title>Clássicos Brasileiros da Psicologia (projeto)</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Cl%C3%A1ssicos_Brasileiros_da_Psicologia_(projeto)&amp;diff=1736"/>
		<updated>2026-08-12T17:56:51Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: Criação do verbete&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;VERBETE EM CONSTRUÇÃO&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O projeto [https://memoria.historiadapsicologia.com.br/classicos-brasileiros-da-psicologia/ Clássicos Brasileiros da Psicologia] é uma iniciativa científica, patrimonial e cultural desenvolvida pelo [https://memoria.historiadapsicologia.com.br Centro de Memória e História da Psicologia (CHiP)], órgão vinculado à [https://psicologiaro.uff.br/ Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. O projeto tem como propósito central a salvaguarda, a organização, a conservação permanente e a ampla difusão de documentos, livros, periódicos e manuscritos de alto valor histórico e científico para a compreensão do desenvolvimento da psicologia no Brasil. Concebido sob as bases teóricas das Humanidades Digitais e da Ciência da Informação, o projeto atua diretamente na intersecção entre a preservação documental de acervos físicos tradicionais e a curadoria ativa de ativos digitais na internet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O que é o projeto ==&lt;br /&gt;
Operacionalmente, o projeto [https://memoria.historiadapsicologia.com.br/classicos-brasileiros-da-psicologia/ Clássicos Brasileiros da Psicologia] estruturam em duas frentes de ação complementares. A primeira é coleta ativa de documentos de relevância histórica já digitalizados e dispersos em repositórios heterogêneos de diferentes instituições, atuando como hub incorporadora de links e materiais relevantes já trabalhados por outras iniciativas de digitalização nacional e internacional. A segunda é a produção direta de novas digitalizações de fontes primárias sob custódia ou empréstimo do Centro de Memória, garantindo padrões rigorosos de qualidade, integridade e descrição técnica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma das principais inovações metodológicas do projeto consiste na integração orgânica e semântica entre os textos digitalizados das obras clássicas e os verbetes analíticos, biográficos e temáticos da própria Enciclopédia Eletrônica de História da Psicologia (WikiHP). Essa articulação cria um modelo conceitual de publicações ampliadas, em que o pesquisador não apenas consome a análise historiográfica em formato de verbete, mas acessa diretamente os dados brutos e as fontes primárias digitalizadas em uma interface unificada e transparente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao disponibilizar esse patrimônio em acesso aberto e gratuito, o projeto apoia a formação acadêmica, fomenta novas investigações historiográficas de caráter interdisciplinar e promove o engajamento público com a ciência. Ao focar na memória de cientistas e pensadores locais, o CHiP contribui para descentralizar os canais de circulação de conhecimento científico e promover a diversidade das expressões acadêmicas do Sul Global frente a discursos hegemônicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Inspiração e Contexto nas Humanidades Digitais ==&lt;br /&gt;
O projeto Clássicos Brasileiros da Psicologia busca inspiração direta no projeto [https://psychclassics.yorku.ca/ Classics in the History of Psychology], desenvolvido pela York University (Canadá), pioneiro mundial na digitalização e distribuição de textos de relevância histórica para a psicologia. O CHiP alinha-se a essa e a outras iniciativas de salvaguarda digital que visam contornar os limites físicos das instituições de custódia tradicionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa transição para o ambiente digital é amparada teoricamente pelo campo das Humanidades Digitais (HD), compreendidas como uma transdisciplina que amplia e multiplica o saber e o fazer das disciplinas tradicionais, apoiando-as, mobilizando simultaneamente os instrumentos e as perspectivas heurísticas do mundo digital. No âmbito da história da ciência, a digitalização atende a uma demanda crescente por novos serviços online voltados a acervos especializados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além de ampliar drasticamente as fronteiras físicas das instituições e democratizar o acesso, a digitalização viabiliza a valorização de arquivos pessoais de cientistas. Esses arquivos frequentemente revelam o processo de bastidores da construção do texto científico (como esboços, planos e rascunhos), além de reunirem marginálias (anotações feitas à margem de livros das bibliotecas pessoais) e textos inéditos de imenso valor para o avanço da investigação científica contemporânea. A disponibilização digital desses materiais resolve a histórica tensão entre os arquivos de natureza privada e os de utilidade pública, devolvendo os registros gerados pela atividade de pesquisa à comunidade científica e à sociedade.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Metodologia de Coleta, Organização e Integração ==&lt;br /&gt;
Para converter documentos dispersos em fontes de informação estruturadas e recuperáveis, o projeto implementa uma metodologia rigorosa dividida em três etapas:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Coleta e Captura Multidirecional: O projeto atua tanto na digitalização de suportes físicos próprios (gerando matrizes de alta resolução e derivadas de consulta) quanto no processo de harvesting (coleta automática) de registros e metadados de acervos parceiros, superando a fragmentação de repositórios isolados na Web.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Descrição Arquivística e Bibliográfica Padronizada: A descrição dos itens é realizada utilizando a NOBRADE (Norma Brasileira de Descrição Arquivística) para refletir o quadro de arranjo e manter a relação orgânica do acervo por meio de descrição multinível (do nível de fundo até o nível de item documental). Adota-se o padrão de metadados Dublin Core (DC), que oferece simplicidade, interoperabilidade semântica e flexibilidade internacional para descoberta de recursos na Web.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Interoperabilidade e Integração Semântica: A arquitetura do sistema é projetada para ser compatível com o protocolo OAI-PMH (Open Archives Initiative Protocol for Metadata Harvesting) e com o padrão EAD (Encoded Archival Description) baseado em XML, garantindo que o acervo possa ser coletado e integrado por outros repositórios nacionais e internacionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Criação de Objetos Digitais Compostos: Inspirado nas diretrizes do projeto OAI-ORE (Object Reuse and Exchange), o CHiP combina múltiplos recursos distribuídos (textos, imagens e dados) para formar objetos digitais compostos. Estes objetos são conectados diretamente aos verbetes analíticos da Enciclopédia Eletrônica de História da Psicologia, fornecendo ao usuário uma &amp;quot;publicação ampliada&amp;quot; que conecta a narrativa historiográfica à sua fonte primária de evidência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Políticas de Acesso Aberto e Difusão Científica ==&lt;br /&gt;
O Clássicos Brasileiros da Psicologia rege-se pelos princípios fundamentais do Movimento de Acesso Aberto (Open Access), em estrita consonância com a Declaração de Budapeste (BOAI). O movimento propõe que as pesquisas científicas e os bens intelectuais financiados publicamente ou de interesse histórico e social sejam disponibilizados de forma livre, gratuita e perpétua para leitura e reuso.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essa política de livre circulação traz vantagens diretas ao ecossistema acadêmico, pois:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Maximiza o impacto e a visibilidade das obras digitalizadas e dos estudos associados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Garante a democratização do conhecimento, mitigando o hiato digital e as barreiras econômicas impostas por modelos comerciais restritivos de indexação e publicação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apoia as atividades universitárias de ensino, pesquisa e extensão, fornecendo fontes primárias validadas para a formação de novos pesquisadore.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Adota licenças jurídicas flexíveis (como licenças alternativas de uso livre), que protegem os direitos autorais e de proveniência, mas asseguram o fair use e a livre circulação científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Diretrizes de Preservação Digital Multi-repositório ==&lt;br /&gt;
Considerando a extrema vulnerabilidade dos suportes digitais e o risco iminente de uma &amp;quot;Era das Trevas Digital&amp;quot; gerada pela obsolescência de hardware e software, o CHiP implementa uma robusta política de preservação digital híbrida, pautada em diretrizes técnicas e operacionais de longo prazo:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Estratégia de Múltiplos Repositórios (Cópias Geográficas): Contra ameaças de desastres físicos e sinistros lógicos, o projeto adota a replicação em rede de segurança (backup sincronizado), mantendo pelo menos três cópias completas do acervo e de seus metadados em mídias distintas e em diferentes localizações geográficas (incluindo servidores físicos locais e provedores de serviços em nuvem).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Adesão ao Modelo OAIS (Open Archival Information System): A preservação segue o modelo de referência OAIS (ISO 14721), gerenciando com precisão o ciclo de vida dos dados desde a submissão (pacotes SIP), arquivamento seguro em longo prazo (pacotes AIP) e difusão/consulta (pacotes DIP).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Metadados de Preservação e Estruturação: Utiliza-se de forma complementar o padrão PREMIS (específico para metadados de preservação digital de longo prazo) e o padrão METS (para estruturação de metadados técnicos, descritivos e de preservação em esquemas XML).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Plataformas de Software Livre Utilizadas: ===&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Categoria:Texto_did%C3%A1tico&amp;diff=1735</id>
		<title>Categoria:Texto didático</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Categoria:Texto_did%C3%A1tico&amp;diff=1735"/>
		<updated>2026-08-12T17:40:30Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: Várias modificações substanciais&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Esta categoria refere-se ao projeto de textos didáticos conduzido pelo Prof. [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro], do [https://psicologiaro.uff.br/ Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A categoria Texto Didático, integrada temporariamente à Enciclopédia Eletrônica de História da Psicologia (WikiHP), constitui um espaço voltado para a difusão, sistematização e ensino da história da psicologia. O projeto foi concebido como um ambiente aberto e dinâmico que visa abrigar e organizar sínteses teóricas, análises historiográficas e roteiros de estudo voltados ao estudo e ensino da história da psicologia, visando públicos desde a graduação até a pós-graduação. A curto e médio prazo, a categoria acolherá também contribuições de pesquisadores, docentes e especialistas convidados, consolidando-se como um vetor colaborativo para a produção do conhecimento pedagógico na área.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A criação de um repositório digital de textos didáticos responde a entraves históricos do mercado editorial acadêmico. O modelo tradicional de publicação impressa impõe severas restrições à circulação de saberes especializados, pois envolve custos mais elevados, tempo de preparação que pode tornar conhecimentos obsoletos, dificulta revisões e atualizações, entre outros. Além disso, obras com foco em subcampos específicos, como é o caso da história da psicologia, frequentemente enfrentam rejeição por apresentarem público estimado considerado reduzido pelas editoras comerciais e enfrenta dificuldades mesmo em editoras acadêmicas. Ao autonomizar a produção didática por meio da publicação digital aberta, a WikiHP amplia exponencialmente o leque temático de ensino, o que permite que tópicos marginais, análises historiográficas regionais, abordagens inovadoras e reflexões metodológicas que dificilmente encontrariam espaço em manuais tradicionais passam a ter um canal direto de comunicação com a comunidade acadêmica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cumpre destacar que a presença desta categoria na estrutura wiki possui caráter transitório. A WikiHP é uma Enciclopédia porém, no momento, atua como uma plataforma de incubação e validação dos materiais enquanto uma estrutura própria e customizada para os textos didáticos é desenvolvida na arquitetura do Portal História da Psicologia. Essa transição visa garantir uma navegação especializada, leiaute otimizado para leitura acadêmica e recursos avançados de indexação e metadados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A concepção dos textos didáticos neste projeto fundamenta-se nos princípios da Web 2.0 e das Humanidades Digitais. Ao contrário dos suportes estáticos, a internet permite entender o texto didático não como um produto acabado e imutável, mas como um processo contínuo de construção. Dessa maneira, o conhecimento historiográfico pode passar por constantes reavaliações dos autores, incluindo em resposta ao público. A flexibilidade da estrutura digital do Portal História da Psicologia permite que dados bibliográficos, documentos recém-descobertos e correções conceituais sejam incorporados em tempo real, sem a necessidade de esperar anos por uma nova edição, o que exigiria um novo, longo e caro ciclo editorial. Além disso, os textos didáticos podem se conectar diretamente a outras fontes de apoio, como verbetes da própria WikiHP, biografias, fontes primárias digitais e referências arquivísticas através de hiperlinks, enriquecendo a experiência pedagógica e incentivando a pesquisa autônoma pelo leitor. A disponibilização gratuita e irrestrita dos materiais na internet alinha a iniciativa ao movimento internacional dos Recursos Educacionais Abertos (REA) e do Acesso Aberto (Open Access) ao conhecimento científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O projeto é um incentivo à criação de novos materiais didáticos voltados para o ensino de história da psicologia que não passem necessariamente pela editoração conduzida por editoras comerciais. Trata-se, então, de uma forma de democratização e ampliação do acesso ao ensino da história da psicologia, em um movimento de renovação e novas formas de conexão com o público - os estudantes - e os pesquisadores.&lt;br /&gt;
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Todas as sugestões de textos didáticos podem ser enviados diretamente para os administradores do Portal História da Psicologia pelo endereço de e-mail [/cdn-cgi/l/email-protection &amp;lt;nowiki&amp;gt;[email protected]&amp;lt;/nowiki&amp;gt;]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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		<title>Categoria:Texto didático</title>
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		<updated>2026-08-12T13:56:08Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: Protegido &amp;quot;Categoria:Texto didático&amp;quot; ([Editar=Permitir apenas administradores] (indefinidamente) [Mover=Permitir apenas administradores] (indefinidamente))&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Esta categoria refere-se ao projeto de textos didáticos conduzido pelo Prof. André Elias Morelli Ribeiro, do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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Todas as sugestões de textos didáticos podem ser enviados diretamente para os administradores do Portal História da Psicologia pelo endereço de e-mail historiadapsicologia.com.br@gmail.com&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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		<updated>2026-08-12T13:55:57Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: Criação da categoria&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Esta categoria refere-se ao projeto de textos didáticos conduzido pelo Prof. André Elias Morelli Ribeiro, do Departamento de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O projeto é um incentivo à criação de novos materiais didáticos voltados para o ensino de história da psicologia que não passem necessariamente pela editoração conduzida por editoras comerciais. Trata-se, então, de uma forma de democratização e ampliação do acesso ao ensino da história da psicologia, em um movimento de renovação e novas formas de conexão com o público - os estudantes - e os pesquisadores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Todas as sugestões de textos didáticos podem ser enviados diretamente para os administradores do Portal História da Psicologia pelo endereço de e-mail historiadapsicologia.com.br@gmail.com&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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		<updated>2026-08-12T13:48:24Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: Correção de links&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Esta categoria se refere aos verbetes que contém links para materiais digitalizados pelo projeto [https://memoria.historiadapsicologia.com.br/classicos-brasileiros-da-psicologia/ Clássicos Brasileiros da Psicologia], do [https://memoria.historiadapsicologia.com.br/ Centro de Memória e História da Psicologia (CHiP)].&lt;/div&gt;</summary>
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		<updated>2026-08-12T13:46:21Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: Protegido &amp;quot;Categoria:Clássicos Brasileiros da Psicologia&amp;quot; ([Editar=Permitir apenas administradores] (indefinidamente) [Mover=Permitir apenas administradores] (indefinidamente))&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Esta categoria se refere aos verbetes que contém links para materiais digitalizados pelo projeto Clássicos Brasileiros da Psicologia, do Centro de Memória e História da Psicologia (CHiP).&lt;/div&gt;</summary>
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		<updated>2026-08-12T13:46:02Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: Criação da categoria&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Esta categoria se refere aos verbetes que contém links para materiais digitalizados pelo projeto Clássicos Brasileiros da Psicologia, do Centro de Memória e História da Psicologia (CHiP).&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Sylvio de Lyra Rabello (Aliança, Pernambuco, 29 de novembro de 1899 - Recife, 1972) foi um psicólogo, educador e intelectual brasileiro, pioneiro nos estudos de psicologia infantil e psicologia social no Nordeste do Brasil. Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Recife em 1922, Rabello dedicou sua carreira prioritariamente à educação e à psicologia.  Foi professor catedrático de Psicologia na Escola Normal de Pernambuco (1926–1960) e na Faculdade de Filosofia da Universidade do Recife (1950–1969).  Entre seus cargos públicos, destacam-se o de Secretário de Educação e Cultura de Pernambuco (1949–1950) e Diretor Geral do SENAC-PE (1947–1962). Na década de 1930, publicou obras fundamentais sobre psicologia do desenvolvimento infantil, como Os Testes Decrolianos de desenho (1931), Características do desenho infantil (1933), Psicologia do desenho infantil (1935) e Psicologia da infância (1937).  Seus trabalhos foram pioneiros na investigação empírica da percepção de cores, formas e noção de tempo entre crianças brasileiras de 3 a 11 anos. Na maturidade, atuou como psicólogo social no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (atual Fundação Joaquim Nabuco), onde dirigiu o Departamento de Psicologia Social (1966–1972) e foi membro do Seminário de Tropicologia.  Cientista, professor, literato e provocador intelectual, Rabello é reconhecido como uma figura central na institucionalização da psicologia e da educação científica em Pernambuco. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Obras ==&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Os testes decrolianos de desenho. Recife: Imprensa Universitária, 1931. ([https://drive.google.com/file/d/1KjIjY7u5bjdENtM-EVdegIEvc47RYdh6/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Características do desenho infantil. Recife: Imprensa Universitária, 1933.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Psicologia do desenho infantil. Recife: Imprensa Universitária, 1935. ([https://drive.google.com/file/d/1ZcNCY4CPXvgP3C7jkytD6p2jOKRJ8Sd3/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Psicologia da infância. Recife: Imprensa Universitária, 1937. ([https://drive.google.com/file/d/1hjnCeYbQCm-YP0Amdh3wBuOXgUv3yapc/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. A representação do tempo na criança. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1938. ([https://drive.google.com/file/d/1YIeFRk-PNjZgIh303LDrBW9tiVnAtnus/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Clássicos Brasileiros da Psicologia ===&lt;br /&gt;
Alguns dos links dispostos neste verbete remetem ao projeto [https://memoria.historiadapsicologia.com.br/classicos-brasileiros-da-psicologia/ Clássicos Brasileiros da Psicologia], do [https://memoria.historiadapsicologia.com.br Centro de Memória e História da Psicologia (CHiP)]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Personagens]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Clássicos Brasileiros da Psicologia]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=Sylvio_Rabello&amp;diff=1728</id>
		<title>Sylvio Rabello</title>
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		<updated>2026-07-31T17:55:34Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: Adicionei categoria&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Sylvio Rabello (Aliança, Pernambuco, 29 de novembro de 1899 - Recife, 1972) foi um psicólogo, educador e intelectual brasileiro, pioneiro nos estudos de psicologia infantil e psicologia social no Nordeste do Brasil. Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Recife em 1922, Rabello dedicou sua carreira prioritariamente à educação e à psicologia.  Foi professor catedrático de Psicologia na Escola Normal de Pernambuco (1926–1960) e na Faculdade de Filosofia da Universidade do Recife (1950–1969).  Entre seus cargos públicos, destacam-se o de Secretário de Educação e Cultura de Pernambuco (1949–1950) e Diretor Geral do SENAC-PE (1947–1962). Na década de 1930, publicou obras fundamentais sobre psicologia do desenvolvimento infantil, como Os Testes Decrolianos de desenho (1931), Características do desenho infantil (1933), Psicologia do desenho infantil (1935) e Psicologia da infância (1937).  Seus trabalhos foram pioneiros na investigação empírica da percepção de cores, formas e noção de tempo entre crianças brasileiras de 3 a 11 anos. Na maturidade, atuou como psicólogo social no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (atual Fundação Joaquim Nabuco), onde dirigiu o Departamento de Psicologia Social (1966–1972) e foi membro do Seminário de Tropicologia.  Cientista, professor, literato e provocador intelectual, Rabello é reconhecido como uma figura central na institucionalização da psicologia e da educação científica em Pernambuco. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Obras ==&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Os testes decrolianos de desenho. Recife: Imprensa Universitária, 1931. ([https://drive.google.com/file/d/1KjIjY7u5bjdENtM-EVdegIEvc47RYdh6/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Características do desenho infantil. Recife: Imprensa Universitária, 1933.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Psicologia do desenho infantil. Recife: Imprensa Universitária, 1935. ([https://drive.google.com/file/d/1ZcNCY4CPXvgP3C7jkytD6p2jOKRJ8Sd3/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Psicologia da infância. Recife: Imprensa Universitária, 1937. ([https://drive.google.com/file/d/1hjnCeYbQCm-YP0Amdh3wBuOXgUv3yapc/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. A representação do tempo na criança. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1938. ([https://drive.google.com/file/d/1YIeFRk-PNjZgIh303LDrBW9tiVnAtnus/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Clássicos Brasileiros da Psicologia ===&lt;br /&gt;
Alguns dos links dispostos neste verbete remetem ao projeto [https://memoria.historiadapsicologia.com.br/classicos-brasileiros-da-psicologia/ Clássicos Brasileiros da Psicologia], do [https://memoria.historiadapsicologia.com.br Centro de Memória e História da Psicologia (CHiP)]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Personagens]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Clássicos Brasileiros da Psicologia]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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		<updated>2026-07-31T17:41:38Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: &lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Sylvio Rabello (Aliança, Pernambuco, 29 de novembro de 1899 - Recife, 1972) foi um psicólogo, educador e intelectual brasileiro, pioneiro nos estudos de psicologia infantil e psicologia social no Nordeste do Brasil. Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Recife em 1922, Rabello dedicou sua carreira prioritariamente à educação e à psicologia.  Foi professor catedrático de Psicologia na Escola Normal de Pernambuco (1926–1960) e na Faculdade de Filosofia da Universidade do Recife (1950–1969).  Entre seus cargos públicos, destacam-se o de Secretário de Educação e Cultura de Pernambuco (1949–1950) e Diretor Geral do SENAC-PE (1947–1962). Na década de 1930, publicou obras fundamentais sobre psicologia do desenvolvimento infantil, como Os Testes Decrolianos de desenho (1931), Características do desenho infantil (1933), Psicologia do desenho infantil (1935) e Psicologia da infância (1937).  Seus trabalhos foram pioneiros na investigação empírica da percepção de cores, formas e noção de tempo entre crianças brasileiras de 3 a 11 anos. Na maturidade, atuou como psicólogo social no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (atual Fundação Joaquim Nabuco), onde dirigiu o Departamento de Psicologia Social (1966–1972) e foi membro do Seminário de Tropicologia.  Cientista, professor, literato e provocador intelectual, Rabello é reconhecido como uma figura central na institucionalização da psicologia e da educação científica em Pernambuco. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Obras ==&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Os testes decrolianos de desenho. Recife: Imprensa Universitária, 1931. ([https://drive.google.com/file/d/1KjIjY7u5bjdENtM-EVdegIEvc47RYdh6/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Características do desenho infantil. Recife: Imprensa Universitária, 1933.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Psicologia do desenho infantil. Recife: Imprensa Universitária, 1935. ([https://drive.google.com/file/d/1ZcNCY4CPXvgP3C7jkytD6p2jOKRJ8Sd3/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Psicologia da infância. Recife: Imprensa Universitária, 1937. ([https://drive.google.com/file/d/1hjnCeYbQCm-YP0Amdh3wBuOXgUv3yapc/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. A representação do tempo na criança. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1938. ([https://drive.google.com/file/d/1YIeFRk-PNjZgIh303LDrBW9tiVnAtnus/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Clássicos Brasileiros da Psicologia ===&lt;br /&gt;
Alguns dos links dispostos neste verbete remetem ao projeto [https://memoria.historiadapsicologia.com.br/classicos-brasileiros-da-psicologia/ Clássicos Brasileiros da Psicologia], do [https://memoria.historiadapsicologia.com.br Centro de Memória e História da Psicologia (CHiP)]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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		<title>Sylvio Rabello</title>
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		<updated>2026-07-31T17:41:08Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: Criação do verbete&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Sylvio Rabello (Aliança, Pernambuco, 29 de novembro de 1899 - Recife, 1972) foi um psicólogo, educador e intelectual brasileiro, pioneiro nos estudos de psicologia infantil e psicologia social no Nordeste do Brasil. Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Recife em 1922, Rabello dedicou sua carreira prioritariamente à educação e à psicologia.  Foi professor catedrático de Psicologia na Escola Normal de Pernambuco (1926–1960) e na Faculdade de Filosofia da Universidade do Recife (1950–1969).  Entre seus cargos públicos, destacam-se o de Secretário de Educação e Cultura de Pernambuco (1949–1950) e Diretor Geral do SENAC-PE (1947–1962). Na década de 1930, publicou obras fundamentais sobre psicologia do desenvolvimento infantil, como Os Testes Decrolianos de desenho (1931), Características do desenho infantil (1933), Psicologia do desenho infantil (1935) e Psicologia da infância (1937).  Seus trabalhos foram pioneiros na investigação empírica da percepção de cores, formas e noção de tempo entre crianças brasileiras de 3 a 11 anos. Na maturidade, atuou como psicólogo social no Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais (atual Fundação Joaquim Nabuco), onde dirigiu o Departamento de Psicologia Social (1966–1972) e foi membro do Seminário de Tropicologia.  Cientista, professor, literato e provocador intelectual, Rabello é reconhecido como uma figura central na institucionalização da psicologia e da educação científica em Pernambuco. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Obras ==&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Os testes decrolianos de desenho. Recife: Imprensa Universitária, 1931. ([https://drive.google.com/file/d/1KjIjY7u5bjdENtM-EVdegIEvc47RYdh6/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Características do desenho infantil. Recife: Imprensa Universitária, 1933.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Psicologia do desenho infantil. Recife: Imprensa Universitária, 1935. ([https://drive.google.com/file/d/1ZcNCY4CPXvgP3C7jkytD6p2jOKRJ8Sd3/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. Psicologia da infância. Recife: Imprensa Universitária, 1937. ([https://drive.google.com/file/d/1hjnCeYbQCm-YP0Amdh3wBuOXgUv3yapc/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
RABELLO, Sylvio de Lyra. A representação do tempo na criança. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1938. ([https://drive.google.com/file/d/1YIeFRk-PNjZgIh303LDrBW9tiVnAtnus/view?usp=sharing link])&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Links especiais&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Alguns dos links dispostos neste verbete remetem ao projeto [https://memoria.historiadapsicologia.com.br/classicos-brasileiros-da-psicologia/ Clássicos Brasileiros da Psicologia], do [https://memoria.historiadapsicologia.com.br Centro de Memória e História da Psicologia (CHiP)]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_surgimento_da_psicologia_cient%C3%ADfica&amp;diff=1725</id>
		<title>O surgimento da psicologia científica</title>
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		<updated>2026-07-31T17:31:37Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: Correção de links&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto [[Portal História da Psicologia]]) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um longo passado, uma curta história ==&lt;br /&gt;
A psicologia tem um longo passado, mas uma curta história. Esta é uma frase muito famosa no campo da história da psicologia, tendo sido consagrada por Hermann Ebbinghaus, um psicólogo alemão pioneiro no estudo da memória, ainda no século XIX. A frase é exemplar sobre como é difícil dizer quando a psicologia teve início. Retomemos ela em mais detalhes. A psicologia tem um longo passado, porque os temas que consideramos hoje como parte da psicologia aparecem muitas vezes na filosofia, na religião, em saberes tradicionais, entre muitos outros lugares. É difícil estabelecer qual o objeto de estudo da história da psicologia, assim como é difícil, ao longo da história, separar o que é  psicologia daquilo que não é psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse longo passado pode remontar, por exemplo, à Antiguidade, com o tratado De Anima de Aristóteles, que escreveu muito antes de se imaginar o próprio conceito de ciência moderna e, menos ainda, de uma psicologia moderna. Outros podem colocar o lugar de início da psicologia em Descartes, que elaborou a máxima, também famosa, “penso, logo existo”. Isso mostra que os objetos de estudo da psicologia são historicamente construídos, ou seja, emergem a partir dos locais ou pessoas que atuaram na psicologia, como na medida das diferenças individuais, as dinâmicas de controle num laboratório, nas práticas de psicoterapia, entre muitas outras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se cada historiador localiza o passado da psicologia em lugares diferentes no tempo e no espaço, a história da psicologia, por seu lado, tem uma definição bem mais estável e curta. Nos anos 1980, os historiadores, reunidos num congresso nos EUA, definiram que a psicologia científica teria começado em 1879, quando Wilhelm Wundt fundou o primeiro laboratório de psicologia experimental na Universidade de Leipzig, na Alemanha. Essa definição está consagrada e é quase um consenso, porém, não foi tão simples estabelecê-la. Alguns advogavam pelo pioneirismo de outro alemão, Theodore Fechner, criador da chamada psicofísica, de onde vieram muitos dos experimentos e ideias de Wundt. Outros ainda queriam que William James, um filósofo e psicólogo americano, fosse reconhecido como fundador, pois seu laboratório de psicologia era ainda mais antigo que o de Wundt que, no final, venceu essa disputa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Resumindo, a psicologia possui um “longo passado”, com raízes filosóficas e religiosas milenares e altamente diversas, e uma “curta história” como disciplina científica, cujo marco está situado em 1879, com a fundação do primeiro laboratório experimental por Wilhelm Wundt, na Alemanha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Presentismo ===&lt;br /&gt;
Mas o que seriam essas psicologias anteriores a essa psicologia científica? Para entender melhor essa história, é preciso refletir para superar, da melhor forma, um problema chamado “presentismo”, ou seja, julgar, entender, interpretar e analisar o passado com a visão do presente. Não é apenas uma questão de olhar para as pessoas do passado e superar o pensamento de que elas eram “ignorantes”, pois “não tinham o conhecimento que temos hoje”. É entender também que, no passado, haviam formas de conhecimentos diferentes, bem como visões de mundo diferentes da atual. Pensando em termos da psicologia, como elas seriam diferentes?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo interessante é o conceito de atenção. Hoje, ela é um tema tão discutido e consensual que pouco se reflete sobre seu significado. Atualmente, seria algo como centralizar as faculdades mentais em um lugar específico. Pode-se ouvir as pessoas reclamando que “não conseguem prestar atenção”, ou que nunca “mantém a atenção”, e até mesmo existem medicamentos para resolver esse problema. Contudo, a palavra “atenção” nem sempre significou o que entendemos hoje. Para Santo Agostinho, atenção era apenas o ato de passar de um pensamento para outro. Descartes tinha um conceito mais parecido com o contemporâneo, onde a atenção era mobilizada de forma voluntária para fixar e reter na memória coisas raras e extraordinárias que o entendimento considerava úteis. Na obra de Locke, a atenção é mencionada apenas de passagem, como um mero mecanismo auxiliar da retenção de memórias. A partir do momento em que a ciência demonstrou que a percepção depende da estrutura física e biológica do corpo (com a psicofísica e a fisiologia sensorial), já no século XIX, a visão passou a ser encarada como intrinsecamente incompleta, instável e condicionada pelo tempo. Nesse contexto, a atenção foi utilizada como um substituto pragmático para garantir a coerência do mundo percebido. Autores do final do século XIX, como Théodule Ribot e Max Nordau, associaram os desvios ou a fraqueza da atenção a patologias psíquicas, comportamentos sociopáticos e teorias da “degeneração”. Para eles, uma atenção defeituosa deixava a mente à mercê de “associações caóticas”, gerando uma visão borrada e distorcida da realidade. Foi apenas na década de 1950 que a nossa compreensão contemporânea de atenção começou a se delinear, paralelamente aos estudos sobre os medicamentos desenvolvidos para tratar as suas disfunções.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma pessoa desavisada, que não está atenta às grandes diferenças entre as ideias e conceitos ao longo do tempo, poderia ler um trecho de Ribot e achar que a atenção do qual ele fala é a mesma coisa que entendemos hoje. O leitor estaria totalmente enganado, a ponto de não conseguir nem mesmo compreender o que Ribot queria dizer. Em outras palavras, o esforço para entender as psicologia do passado passa também pelo esforço de entender como se pensava no passado, qual a visão que se tinha nesse passado. Parte do esforço do historiador é trazer esses aspectos de volta ao presente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O sujeito transcedental de Kant ==&lt;br /&gt;
A concepção de uma psicologia ocupada especificamente com a “mente” humana e suas operações começou a ganhar contornos modernos no século XVIII com o filósofo Christian Wolff. Ele dividiu a psicologia em Psicologia Empírica, num livro publicado em  1732 e baseada na introspecção; e em Psicologia Racional, numa obra de 1734, dedicada a deduzir a natureza e a essência da alma, como sua imortalidade e imaterialidade, de forma puramente lógica e racional, independentemente da experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, o projeto de Wolff enfrentava um sério problema metodológico, a chamada observação interna ou introspecção. Quando se estuda um fenômeno natural, como a chuva, é necessário observar o que acontece, incluindo como as nuvens se formam, qual a umidade do ar, a intensidade dos raios solares, a direção dos ventos, entre muitos outros fatores, todos objetos externos do sujeito. Toda a ciência é feita dessa forma, observando, testando e analisando o mundo que está fora dos indivíduos. O problema está em estudar algo que é interno aos sujeitos. Não se pode observar diretamente o que se passa na cabeça de alguém, contudo, é possível analisar o que se passa nas nossas próprias cabeças. Isso seria a introspecção, ou seja, o processo pelo qual adquirimos conhecimento sobre nossos próprios estados ou processos mentais Apesar de ser uma ideia interessante, fazer introspecção não era considerado algo muito científico. Entendia-se que “observar a si mesmo” distorcia os eventos mentais, pois o sujeito que observa e o objeto observado são o mesmo, o que impediria a neutralidade exigida pelo modelo científico então vigente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até a segunda metade do século XVIII, as teorias do conhecimento, que incluíam o empirismo e o racionalismo, compartilhavam a premissa de que o conhecimento era determinado pelo objeto a ser conhecido. O objeto estava lá, esperando a melhor forma de ser conhecido. Kant, em sua obra Crítica da Razão Pura (1781), inverteu essa lógica de forma radical. Ele propôs que não é o conhecimento que se adequa aos objetos, mas são os objetos que são determinados pelo sujeito. O conhecimento passou a ser compreendido não como uma recepção passiva, mas como uma produção ativa do chamado sujeito transcendental, moldada por suas formas a priori.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O sujeito transcendental em Kant não se refere propriamente a um indivíduo empírico ou psicológico, ou seja, alguém com personalidade e história pessoal. Pense no sujeito transcendental não como “você” (André ou Maria), mas como o “sistema operacional” universal da mente humana. Assim como um software organiza os dados que chegam do teclado, o sujeito transcendental organiza os dados que chegam dos sentidos, como o tempo e o espaço, antes mesmo de termos consciência deles.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o sujeito transcedental, é preciso fazer um importante exercício de abstração, visando conseguir entender algo que está além da experiência existencial individual e entender aquilo que molda essa própria experiência. O sujeito transcedental de Kant é uma condição universal de possibilidade para qualquer conhecimento. Em outras palavras, é algo que todas as pessoas possuem e é a forma que o ser humano tem para saber as coisas. É a estrutura ativa da mente que organiza a experiência antes mesmo que possamos refletir sobre ela. Esse sujeito é o princípio unificador que garante a coerência dos dados sensoriais, transformando o caos de impressões oriundas dos órgãos dos sentidos em uma experiência significativa e estruturada. Através das formas a priori da sensibilidade (espaço e tempo) e das categorias do entendimento, o sujeito transcendental “constrói” o objeto conhecido. Ele é o “Eu penso” que deve poder acompanhar todas as nossas representações, conferindo unidade à consciência. Em suma, não conhecemos o mundo como ele é em si, mas como o sujeito transcendental o molda e o organiza para que se torne inteligível para nós.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Immanuel Kant revolucionou a teoria do conhecimento ao postular que a mente humana não funciona como um receptáculo passivo de impressões sensoriais, mas sim como um agente ativo dotado de estruturas constitutivas a priori que organizam, unificam e interpretam a matéria-prima da experiência. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo de constituição do conhecimento dos fenômenos que chegam para nossa mente a partir dos órgãos dos sentidos articula-se em três instâncias fundamentais. A primeira são as formas puras da sensibilidade, depois vem os conceitos puros do entendimento, ou seja, as categorias e, por fim, a unidade sintética da apercepção. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas formas puras da sensibilidade, antes mesmo que o intelecto possa aplicar qualquer conceito, o caos das sensações brutas é necessariamente ordenado no espaço e no tempo, que não são propriedades das coisas em si, mas intuições puras da sensibilidade que funcionam como os eixos coordenados onde os fenômenos são dados. Ou seja, as informações dos sentidos já chegam num espaço e num tempo para o resto do processo de constituição do conhecimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma vez colocados no espaço e estruturados numa sucessão e simultaneidade temporal, esses dados passam pelas doze categorias do entendimento puro. Essas categorias se dividem em quatro classes de tríades: quantidade, qualidade, relação e modalidade. As categorias representam as regras lógicas puras, fundamentais e necessárias para tornar qualquer objeto da experiência inteligível. Elas podem ser observadas de forma simplificada na tabela a seguir:&lt;br /&gt;
{| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot;&lt;br /&gt;
|Classe de Categorias&lt;br /&gt;
|Categoria 1 (Tese)&lt;br /&gt;
|Categoria 2 (Antítese)&lt;br /&gt;
|Categoria 3 (Síntese)&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|1. Quantidade&lt;br /&gt;
|Unidade&lt;br /&gt;
|Pluralidade&lt;br /&gt;
|Totalidade&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|2. Qualidade&lt;br /&gt;
|Realidade&lt;br /&gt;
|Negação&lt;br /&gt;
|Limitação&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|3. Relação&lt;br /&gt;
|Substância e Acidente&lt;br /&gt;
|Causa e Efeito&lt;br /&gt;
|Ação Recíproca&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|4. Modalidade&lt;br /&gt;
|Possibilidade (Impossibilidade)&lt;br /&gt;
|Existência (Não-existência)&lt;br /&gt;
|Necessidade (Contingência)&lt;br /&gt;
|}&lt;br /&gt;
As categorias de quantidade dizem respeito à extensão em que aplicamos um conceito aos objetos, ou seja, “quantos” elementos estamos considerando no juízo. Na unidade, temos um único objeto. Na pluralidade, trazemos vários objetos do mesmo tipo para um conjunto. Já a totalidade surge quando pensamos a pluralidade como uma unidade completa.Vejamos um exemplo. Quando um observador vê uma maçã, aplica a categoria da unidade, ou seja, ele viu uma maçã. Ao ver várias maçãs espalhadas na mesa, apreende uma pluralidade, ou seja, ele tem um conceito de “maçãs” e as vê como um conjunto. Porém, ao formular uma lei universal, aplica-se a totalidade, que engloba toda a pluralidade possível sob uma única regra conceitual, ou seja, todas as maçãs são frutas e existem vários tipos de maçãs.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade trata da atribuição de um predicado, ou seja, se a experiência afirma algo, nega algo ou se situa num limite conceitual. Em outras palavras, é a forma da mente definir “como algo é”. A realidade é afirmação de que um predicado pertence a um ser, ou seja, ele é alguma coisa. A negação é a afirmação de que o predicado não pertence a algo, ou seja, um “não-ser”. A limitação é a síntese das duas anteriores. Atribui-se uma negação como se fosse uma realidade, excluindo aquilo de uma esfera, mas deixando infinita a esfera onde ele pode estar. Vamos a um exemplo. Dizer “O homem é mortal” aplica a categoria de realidade (afirma-se um atributo). Dizer “O homem não é mortal” aplica a negação. No entanto, dizer “A alma é não-mortal (imortal)” é um juízo infinito clássico de Kant que evoca a limitação. Não sabemos o que a alma é de fato, mas a limitamos removendo ela da esfera das coisas mortais, o que a situa num campo aberto e indeterminado de possibilidades.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Consideradas por muitos comentadores como o coração da epistemologia kantiana, as categorias de relação definem como os objetos se relacionam entre si e como permanecem ou mudam no tempo. Substância e Acidente referem-se àquilo que permanece através da mudança (substância) e as propriedades que são transitórias, ou seja, que mudam (acidentes). Um exemplo disso é a água de um lago que congela no inverno. Seu estado físico muda do líquido para o sólido, que é o acidente, mas a matéria da água em si, a substância, permanece inalterada. Sem a categoria de substância, nossa mente registraria apenas uma sucessão caótica de imagens, sem reconhecer que se trata da mesma “coisa” sofrendo alteração. A Causa e Efeito é a relação estritamente necessária onde um evento segue outro no tempo. O exemplo de Kant, em resposta ao filósofo David Hume, é sobre o sol que ilumina uma pedra, e a pedra esquenta. Hume diria que inferimos causalidade por mero hábito psicológico, ou seja, não há conexão necessária, apenas uma observação e uma intuição. Kant argumenta que o próprio fato de distinguirmos uma sucessão objetiva de eventos exige que a mente aplique a categoria a priori de Causalidade. A mente “dita” a regra estrutural de que o aquecimento necessariamente sucede a irradiação solar, colocando uma como causa da outra. Já na Ação Recíproca (Comunidade), tem-se a relação simultânea de mútua influência entre múltiplas substâncias no espaço como, por exemplo, a interação gravitacional entre a Terra e a Lua. Elas não são eventos sucessivos no tempo, mas existem simultaneamente e influenciam-se de modo contínuo e bidirecional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, temos as categorias modais. Eles são os Postulados do Pensamento Empírico e não acrescentam nenhum atributo novo ao objeto em si, mas definem exclusivamente como esse objeto ou evento se relaciona com o sujeito cognitivo e suas faculdades. No caso da Possibilidade-Impossibilidade, é algo que concorda com as condições formais, que são as condições lógicas e puras da experiência. No binômio Existência-Não-existência, é algo que está dado materialmente na intuição empírica, ou seja, nos sentidos. Já na Necessidade-Contingência, é algo cuja conexão com a experiência empírica está determinada por condições universais. Vamos a um exemplo. Um dragão voador de escamas verdes ou um triângulo cujos ângulos somam 180 graus são conceitos logicamente possíveis, ou seja, não envolvem contradição formal. No entanto, apenas um objeto sensorialmente verificável, como a caneta sobre a sua mesa, tem a marca da existência. Já o fato de que um objeto massivo abandonado no ar cairá em direção ao solo é uma necessidade ditada pelas leis empíricas que o entendimento prescreve à natureza, ou seja, atribui a ele.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Acima dessas estruturas, Kant postulou a apercepção ou apercepção transcendental, que é o processo pelo qual a mente unifica de forma ativa diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Sem a apercepção, a mente seria apenas um amontoado de estímulos desconectados. Assim, a aperceção a base da própria consciência humana. Devido a essa complexa mediação ativa da mente, Kant estabeleceu uma distinção insuperável entre o mundo externo e a mente. Isso significa dizer que nós não temos acesso à “coisa em si”, ou noumenon, mas apenas a como as coisas nos aparecem, ou seja, na forma de fenômeno, já devidamente processadas pelo nosso aparato cognitivo. Neste sentido, É importante distinguir o “Eu empírico”, ou seja, aquilo que observamos em nós mesmos, como nossa personalidade ou o nosso humor, do “Eu transcendental”, a pura unidade lógica do “Eu penso”. Ademais, a apercepção transcendental não é uma faculdade psicológica de “prestar atenção”, mas uma exigência lógica. Para que uma experiência seja minha, o “Eu penso” deve poder acompanhar todas as minhas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Os Vetos Kantianos à Psicologia Científica ===&lt;br /&gt;
Apesar de ter colocado o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que conhece, no centro do universo epistemológico, Kant foi muito crítico sobre a possibilidade de a psicologia se tornar uma ciência. Em sua obra Princípios metafísicos da ciência da natureza, de 1786, ele negou a possibilidade de uma psicologia científica, pois afirmou que uma disciplina só poderia Sê-lo se possuísse uma elaboração racional capaz de fornecer leis formuladas matematicamente, o que poderia ser chamado de veto matemático. A psicologia falhava nesse critério porque os eventos mentais possuem apenas a dimensão do tempo, sem nenhuma extensão espacial, o que impossibilitaria a sua matematização. Para Kant, assim como o espaço é a forma do sentido externo, o tempo é a forma pura do sentido interno. Como os estados mentais só se dão na sucessão do tempo (sem extensão espacial), eles não formam figuras nem podem ser medidos geometricamente, inviabilizando a matemática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Kant apontou a impossibilidade de isolar diferentes pensamentos para a realização de experimentos controlados. Assim, como não podemos acessar o que seria o conteúdo da mente, cercá-la e analisá-la como ela é em seu estado bruto ou natural, qualquer experimentação seria impossível, o que poderia ser chamado de veto do objeto. Por fim, ele reforçou a crítica que já era direcionada a Wolff, aquele do começo dessa seção. A introspecção como método, segundo Kant, seria inviável porque a própria tentativa de observar um fenômeno interno altera o fenômeno, o veto metodológico. Se tento observar minha própria tristeza, por exemplo, o fenômeno original desaparece e se transforma em “tristeza-sendo-observada-por-mim”, misturando sujeito e objeto de tal maneira que corrompe a objetividade. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A impossibilidade de uma psicologia científica não significava, contudo, a impossibilidade de estudar a mente e o comportamento. Kant trabalhou e lecionou com o que chamou de Antropologia Pragmática. Enquanto a psicologia empírica tentava, em vão, segundo ele, ser uma ciência exata, a antropologia pragmática estudava “o que o homem, como ser livre, faz, ou pode e deve fazer de si mesmo”. Era um estudo prático do comportamento, das paixões, da memória e da cognição, focado na vida em sociedade. De certo modo, pode-se dizer que Kant fechou a porta para a psicologia mecanicista, ou ainda, uma psicologia como ciência exata, mas ajudou a abrir uma janela imensa para as ciências humanas e sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Emergência do Neokantismo Fisiológico e as Primeiras Aproximações para a Psicologia Científica ==&lt;br /&gt;
A primeira metade do século XIX na Alemanha foi inicialmente dominada pelo Idealismo Pós-Kantiano (Hegel, Fichte, Schelling), que propunha sistemas metafísicos grandiosos onde a realidade era essencialmente racional e espiritual. Contudo, a partir da década de 1850, o forte avanço das ciências naturais, como a fisiologia e a química, gerou uma importante reação materialista, consolidados nas figuras de Feuerbach, Vogt, Büchner e outros, que passaram a ridicularizar a filosofia idealista como mera especulação vazia. A metafísica, vista como uma das glórias da filosofia e do pensamento humano, passou a ser vista cada vez mais como um discurso com pouco ou nenhum lastro na realidade. Essa mudança foi muito importante para a história da psicologia científica, pois foi devido a esse contexto que foram formulados os primeiros experimentos voltados para o que seria, no futuro, a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Johannes Müller e a Teoria das Energias Nervosas Específicas ===&lt;br /&gt;
Neste período, a fisiologia se estabeleceu como uma ciência rigorosa e extremamente respeita, liderada por figuras como Johannes Müller. Müller, professor na Universidade de Berlim, publicou seu Manual de Fisiologia Humana (1833-1840), que sistematizou o conhecimento fisiológico da época e transformou a compreensão da percepção. Até o final do século XVIII, ela era explicada pela Teoria da impressão da sensação, derivada da física newtoniana e do empirismo britânico. Esse modelo assumia que o sistema nervoso era um meio homogêneo e passivo que simplesmente “transportava” as qualidades dos objetos externos para a mente, como se a sensação fosse uma cópia exata do estímulo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Johannes Müller revolucionou esse entendimento ao formular a Teoria das energias nervosas específicas (1826). Ele provou, através de experimentos, que a estimulação de um determinado nervo sensorial sempre provoca uma sensação característica e exclusiva daquele nervo, independentemente da natureza do estímulo físico externo. Em outras palavras, a qualidade da sensação não pertence ao objeto físico, mas sim à estrutura do próprio aparato sensorial humano. O mesmo estímulo pode produzir sensações completamente diferentes dependendo de qual via nervosa é ativada. Por exemplo, ao aplicar sal na pele, na língua e nos olhos, as sensações serão totalmente distintas, todas diretamente relacionadas às especificidades do aparelho sensorial que foi ativado. É importante entender que isso não acontece por conta da especificidade das características do estímulo, como o sal ser “salgado”. A pele produz apenas sensações táteis, ainda que o estímulo não seja tátil. Isso cria um problema de confiança naquilo que percebemos sensorialmente, pois mostra que os órgãos não enviam apenas propriedades dos objetos, mas antes operam apenas de modo específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Müller, por meio de experimentos, mostrou que os objetos físicos projetam imagens invertidas na retina, mas nós os percebemos na posição correta. Ele mostrou também que, embora as imagens projetadas nas duas retinas sejam levemente diferentes, o cérebro as unifica em uma única imagem tridimensional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas descobertas trouxeram Kant para o terreno da biologia, inclusive pelo próprio Müller que, apesar de não ser neokantiano, viu suas descobertas científicas influenciarem profundamente a primeira geração deles. O sistema nervoso não é um receptor passivo, antes, ele medeia, molda e traduz ativamente a realidade externa. A sensação deixou de ser vista como uma cópia do mundo e passou a ser um enigma, que pode ser analisado a partir da seguinte pergunta: “o que existe entre o estímulo físico e a sensação subjetiva?”. Este é o mundo do primeiro projeto de psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Hermann von Helmholtz e o Neokantismo Psicofisiológico ===&lt;br /&gt;
A ponte definitiva entre a epistemologia kantiana e a prática laboratorial foi construída por um antigo aluno de Johannes Müller, Hermann von Helmholtz (1821-1894). Ele colaborou no desenvolvimento do neokantismo psicofisiológico ou neokantismo fisiológico. Ele entendeu que as descobertas de seu professor forneciam a base material exata para a teoria do conhecimento de Kant. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1855, Helmholtz argumentou que as estruturas a priori propostas por Kant como condições de possibilidade da experiência eram, na verdade, características da anatomia e da fisiologia do aparato perceptivo humano. Ao “naturalizar” a filosofia de Kant, Helmholtz formulou a sua teoria dos signos, que postula que nossas sensações e percepções não são cópias diretas da realidade, mas sim símbolos ou signos gerados pelo nosso sistema nervoso em resposta aos estímulos. Para explicar como construímos uma imagem coerente e espacial do mundo a partir desses signos neurológicos isolados, Helmholtz introduziu o conceito de inferências inconscientes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo essa teoria, a mente realiza uma série de ajustes e cálculos automáticos, baseados na experiência e na aprendizagem contínua, para interpretar os dados sensoriais. A percepção de profundidade, a posição espacial e a resolução de duas imagens retinianas em uma única visão estereoscópica não são inatas, como defendia o nativismo de Ewald Hering ou o próprio Müller, mas são aprendidas empiricamente através do movimento do corpo e da repetição das sensações. O espaço perceptivo atua como uma linguagem que a mente usa para interpretar os dados fisiológicos brutos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com isso, Helmholtz fundou o projeto de uma psicologia fisiológica autônoma, diferente da psicologia filosófica discutida na época. Ele concordou com Kant que a introspecção tradicional era um método falho, que podia conduzir a ilusões porque o observador só capta a superfície consciente do pensamento. A solução de Helmholtz foi submeter o sujeito da experiência a condições de laboratório rigorosamente controladas. Se as condições da percepção dependem de mecanismos fisiológicos, então a única forma de fazer epistemologia científica é através da experimentação fisiológica e da ótica. O sujeito do conhecimento tornou-se, assim, um objeto, que poderia ser manipulado e analisado em laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Suas contribuições não acabam por aí. Antes das pesquisas de Helmholtz, a comunidade científica acreditava que o impulso nervoso era instantâneo ou rápido demais para ser mensurado. Em 1850, estimulando um nervo motor na perna de uma rã e medindo o tempo da contração muscular, ele obteve o registro da velocidade de condução neural, que é de aproximadamente 27 metros por segundo, provando que havia “algo” entre o estímulo e a percepção que poderia ser analisado cientificamente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também mediu o tempo de reação de nervos sensoriais em humanos. Essa descoberta provou que o pensamento e o movimento corporal não ocorrem simultaneamente, mas são separados por um intervalo de tempo mensurável. Essa foi a base que abriu caminho para os experimentos de tempo de reação e cronometria mental que dominariam o laboratório de Wundt décadas depois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== F. A. Lange e o Projeto de uma “Psicologia Sem Alma” ===&lt;br /&gt;
O segundo pilar desse “retorno a Kant”, também de matriz fisiológica, foi erguido pelo filósofo e sociólogo Friedrich Albert Lange (1828-1875). Lange foi uma figura central na “controvérsia materialista” que agitava a Alemanha. Ele rejeitava tanto os “delírios” dos sistemas idealistas metafísicos quanto o reducionismo ingênuo do materialismo científico de Vogt e Büchner. Em sua influente obra História do Materialismo, de 1866, Lange defendeu que a limitação proposta por Kant é absoluta, ou seja, não temos e nem nunca teremos acesso à essência última da realidade, às coisas em si. Nosso conhecimento se restringe aos efeitos das coisas, ou seja, os fenômenos, que nos aparecem totalmente moldados pela nossa organização mental e neurológica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Lange argumentou que a impossibilidade de conhecer a essência não impede o estudo científico rigoroso das “aparências”, ou seja, sobre como as coisas nos aparecem. Para viabilizar esse estudo, Lange atacou as psicologias filosóficas do passado, que versavam debates que ele ele entendia estéreis sobre a natureza, a imortalidade e a substancialidade da “alma”. Para Lange, a alma era um conceito vazio, um “mito antigo” que forçava a psicologia a operar sobre pressupostos metafísicos inverificáveis. Em resposta, ele propôs a criação de uma psicologia sem alma, ou, em outras palavras, uma psicologia sem metafísica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste novo paradigma, o objeto de estudo da psicologia deveria ser reduzido aos dados empíricos observáveis, incluindo a sensação, a percepção, a ação e a linguagem, sempre buscando o seu correlato fisiológico. Lange rejeitou a introspecção puramente filosófica, pois a auto-observação isolada é privada, não pode ser repetida, não permite a presença de observadores externos e leva invariavelmente a ilusões verbais. Segundo ele, essa introspecção conduzia o pesquisador a substancializar conceitos como “vontade” ou “pensamento”, sem nenhum lastro empírico ou experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A única saída para a psicologia tornar-se verdadeiramente científica era abraçar a metodologia das ciências naturais. Apoiando-se no trabalho de Helmholtz e nas medições pioneiras de psicofísicos como Ernst Weber e Gustav Fechner, Lange prescreveu que a psicologia deveria investigar as leis fisiológicas da percepção e medir a correlação exata entre estímulos físicos e respostas sensoriais, como nos tempos de reação e nos limiares diferenciais. A psicologia passava a ser entendida não como a ciência do espírito transcendente, mas como a ciência psicofisiológica que estuda experimentalmente as condições de possibilidade da experiência, trazendo o sujeito transcendente de Kant para uma fisiologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fechner e a Fundação da Psicofísica ===&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner (1801–1887) foi um físico e metafísico alemão e antigo aluno de Weber. Apesar de não ser um neokantiano, ele tem uma importância fundamental para este momento da fundação da psicologia experimental, tendo sido citado e adotado por neokantianos. Ele assumiu a prestigiada e importante cadeira de física da Universidade de Leipzig em 1834, enquanto produzia sátiras sobre temas metafísicos e artísticos sob um pseudônimo. Após uma série de experimentos em que observava diretamente o Sol, feriu gravemente suas retinas, evento que o conduziu a um colapso físico e mental. Teve uma recuperação milagrosa em 1843, quando tentou observar flores em seu jardim e, por meio de uma experiência mística, observou que a natureza brilhava de dentro para fora, de onde concluiu que o universo era dotado de alma e consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esssa experiência decisiva levou-o a dedicar sua vida ao combate do materialismo científico, que ele denominava visão noturna, que via o mundo como uma matéria inerte e sem vida. Já a sua visão diurna entendia que a matéria era a manifestação da consciência universal divina, uma cosmovisão espiritualista que pode ser entendida como panpsiquista, ou seja, todos os corpos físicos possuem uma forma de alma. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi buscando provar sua visão que Fechner entendeu que poderia provar empiricamente a relação entre a mente (ou o espírito) e o corpo (ou a matéria) se encontrasse uma relação matemática constante entre a intensidade do estímulo físico e a magnitude da sensação psíquica correspondente. Isso porque Fechner percebeu que um aumento na intensidade do estímulo físico não gerava um aumento equivalente e proporcional na sensação subjetiva. A relação não era linear, mas sim proporcional, pois o estímulo físico aumentava em uma progressão geométrica, enquanto a sensação psíquica crescia em uma progressão aritmética. Por exemplo, acrescentar o som de um sino a outro que já está tocando gera um forte impacto perceptivo, pois é possível distinguir claramente que passou-se de um para dois sinos. Já acrescentar um sino a uma dezena deles produz uma alteração quase imperceptível. A sensação dependia, portanto, do nível de estimulação já existente no sistema.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para dar sustentação empírica à sua teoria, Fechner apropriou-se dos trabalhos experimentais realizados por Weber, que havia formulado a teoria da diferença mínima perceptível, demonstrando que a sensibilidade humana não avaliava diferenças absolutas entre estímulos, mas sim relações relativas ou proporcionais. Weber observou que, ao levantar pesos, os sujeitos conseguiam detectar uma variação mínima correspondente a uma fração constante de aproximadamente 1:40 em relação ao peso padrão. Essa constância proporcional é descrita pela chamada Lei de Weber:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
II=K&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde I representa a intensidade do estímulo padrão (que aparecerá como R posteriormente), ΔI é o acréscimo mínimo necessário para produzir uma mudança perceptível na sensação e k é uma constante matemática específica para cada modalidade sensorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Fechner percebeu que essa fração constante (ΔI/I) correspondia à unidade de medida da sensação subjetiva (dS). Utilizando o cálculo infinitesimal, Fechner integrou matematicamente a equação de Weber, assumindo que todas as diferenças mínimas perceptíveis eram subjetivamente iguais entre si. Essa operação matemática resultou na célebre Lei de Fechner ou Lei de Weber-Fechner:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
S = k Log R&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde S representa a magnitude da sensação subjetiva (qualidade mental), R representa a intensidade física do estímulo (qualidade material) e K é uma constante experimental ajustada a cada sentido. Essa fórmula logarítmica foi construída para mostrar que, para a sensação aumentar linearmente, o estímulo físico precisava crescer exponencialmente, estabelecendo uma relação exata e mensurável entre o psíquico e o físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para aplicar sua fórmula, Fechner sistematizou dois conceitos fundamentais que estruturam as medições psicofísicas. A primeira é o limiar absoluto, ou seja, o ponto de intensidade física mínima abaixo do qual o estímulo não é detectado pelo sujeito e acima do qual a sensação passa a ser percebida. Outro conceito é o de limiar diferencial, que é a quantidade mínima de alteração ou variação que deve ser aplicada a um estímulo para que o sujeito seja capaz de discriminar uma mudança na sensação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um desdobramento fascinante da Lei de Fechner ocorreu quando o estímulo físico apresentava valores abaixo do limiar absoluto (R&amp;lt;1), resultando em valores negativos para a sensação (S). Fechner definiu esses valores como sensações negativas ou subliminares, postulando a existência de processos mentais ativos abaixo do limiar da consciência desperta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para determinar com precisão científica os limiares absolutos e diferenciais, Fechner desenvolveu e padronizou três metodologias experimentais rigorosas, que se tornaram os pilares metodológicos de toda a psicologia experimental posterior. No Método do Erro Médio ou do Ajuste, o próprio sujeito experimental manipula ativamente um instrumento para ajustar um estímulo variável até que sinta que este se iguala a um estímulo padrão constante. A média dos desvios entre os ajustes do sujeito e o padrão real define o erro de observação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já no Método do Estímulo Constante ou dos Casos Corretos e Incorretos, o pesquisador apresenta de forma aleatória uma série de estímulos pré-determinados e constantes em comparação com um estímulo padrão. O sujeito deve julgar se o estímulo de comparação é maior, menor ou igual ao padrão, medindo-se a proporção estatística de acertos. Por fim, no Método dos Limites ou das Diferenças Mínimas Perceptíveis, dois estímulos são apresentados ao sujeito. Um deles é aumentado ou reduzido sistematicamente em passos discretos e graduais, e o sujeito relata o momento exato em que deixa de perceber ou passa a perceber a diferença entre ambos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1860, Fechner publicou seu livro monumental, Elementos de Psicofísica, que alguns entendem ser o primeiro sobre a psicologia científica experimental. Ao fornecer à psicologia técnicas de medição coerentes e precisas, Fechner provou de forma contundente que a mente humana era passível de investigação científica e experimental, sepultando em definitivo o antigo veto imposto por Immanuel Kant, em pleno momento de desenvolvimento do Neokantismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Incomodados com as inclinações metafísicas e espiritualistas de Fechner, os psicólogos experimentais subsequentes, sob a liderança de Wilhelm Wundt, rejeitaram completamente o panpsiquismo entre outras ideias, apropriando-se exclusivamente de seus métodos quantitativos de laboratório para estabelecer a psicologia como uma ciência empírica e natural. Como bem observou o historiador Edwin G. Boring, Fechner agiu como um “Colombo que descobriu um Novo Mundo (a psicologia científica) enquanto procurava pelas antigas Índias (a prova de sua metafísica)”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Resumindo ===&lt;br /&gt;
A intersecção entre a epistemologia kantiana, a fisiologia de Müller e a reformulação promovida por Helmholtz e Lange constituiu o início daquilo que tornou possível a psicologia científica. Kant havia mostrado que o sujeito constrói ativamente a realidade, mas negou que esse sujeito pudesse ser estudado matematicamente ou experimentalmente. Müller transferiu a estrutura ativa da mente para os nervos sensoriais específicos. Helmholtz e Lange reinterpretaram as pesadas categorias transcendentais de Kant como mecanismos biológicos e perceptivos operando através de inferências inconscientes e leis fisiológicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao “naturalizar” a Crítica da Razão Pura, o Neokantismo Psicofisiológico resolveu o veto de Kant a uma psicologia científica. Se os limites e as formas do nosso conhecimento são determinados pelo nosso sistema nervoso e sensorial, então o estudo epistemológico da mente deve ser feito no laboratório de fisiologia, estudando principalmente a percepção. A exigência de matematização foi superada pelas leis da psicofísica de Fechner e Weber, e o problema da introspecção descontrolada foi resolvido pelo uso de instrumentos de precisão, como cronoscópios, além de métodos de medidas de limiar, controle de estímulos, erros médios, entre outros, que transformavam as respostas subjetivas em dados objetivos, replicáveis e mensuráveis. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse foi o cenário epistemológico e institucional que Wilhelm Wundt encontrou e ajudou a consolidar. Wundt não fundou a psicologia a partir do nada em 1879. Seu Instituto em Leipzig foi organização metodológica e teórica de décadas de esforços em que a filosofia foi obrigada a dialogar com os nervos, os músculos e os tempos de reação, transformando para sempre a especulação sobre a alma em uma rigorosa ciência da experiência imediata. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ironicamente, escolas neokantianas posteriores, como a Escola de Marburgo, foram focos de resistência à psicologia experimental, alegando que o sujeito do conhecimento de Kant era de ordem puramente transcendental e lógica, e não empírica ou mensurável, ou seja, rejeitando a “biologização” do pensamento kantiano e a consequente criação da psicologia experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, conforme mostra Gundlach, a criação de uma posição acadêmica e o laboratório de psicologia por Wundt não se deu por conta de um amplo reconhecimento da superioridade do pensamento wundtano, mas sim por conta de disputas políticas e institucionais nas universidades alemãs. De qualquer forma, Wundt conseguiu desenvolver bem sua teoria ao longo de sua vida e conseguiu estabelecer-se na proeminência da psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia de Wundt ==&lt;br /&gt;
Wilhelm Maximilian Wundt é, na historiografia da psicologia, uma figura ao mesmo tempo onipresente e bastante malcompreendida. Freqüentemente reduzido ao título de “fundador do laboratório de Leipzig”, essa simplificação negligencia sua estatura como um dos últimos grandes arquitetos de sistemas do século XIX, cujo Systemgedanke (pensamento sistêmico) buscava integrar a psicologia como uma propedêutica fundamental para a filosofia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Recuperar o Wundt original exige preencher uma vasta lacuna historiográfica vasta, a começar pela superação das distorções da tradução de E.B. Titchener para o contexto anglo-americano, que foi formulada para aproximar suas ideias e perspectivas daquelas de Wundt, visando uma “confirmação” de suas ideias. Em primeiro lugar, é necessário reejeitar a classificação de Wundt como um estruturalista ou associacionista clássico. O sistema wundtiano é essencialmente dinâmico e centrado no voluntarismo. Para Wundt, a vontade e os processos afetivos não são meros epifenômenos, ou seja, um fenômenos secundários ou acessórios que acompanhma um fenômeno principal, mas o eixo organizador da consciência ativa. Esta reconstrução crítica visa resgatar a autonomia epistemológica de uma ciência que define seu objeto não como uma substância, mas como a experiência em sua totalidade imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Experiência Imediata, o Objeto de Estudo da Psicologia ===&lt;br /&gt;
Ao definir seu objeto, Wundt deu um passo decisivo para dar à psicologia autonomia perante as outras ciências naturais. Ele propõe que a experiência é uma unidade indivisível. Mas o que ele quer dizer por “experiência”? Uma definição poderia ser a totalidade dos processos conscientes, englobando sensações, sentimentos, representações e volições (vontades), apreendida da exata forma como se apresenta diretamente ao sujeito, sem qualquer abstração conceitual ou mediação de instrumentos externos. Ou seja, a experiência de Wundt seria como tudo o que se passa na mente, exatamente como ela aparece para uma pessoa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para ele, a experiência pode ser analisada a partir de duas perspectivas: a mediata e a imediata. A experiência ediata pertence ao domínio das Naturwissenschaften, ou ciências naturais, como a física e a química. Ela seria a a experiência objetiva, focada totalmente nos objetos do mundo externo que, se pensados de maneira isolada, são independentes do sujeito. Ela é chamada de mediata porque o acesso a essa realidade é indireto, ou seja, ela precisa de uma mediação. Essa mediação são conceitos teóricos e construções auxiliares e as características cognitivas e biológicas do próprio sujeito que interpreta os dados sensoriais brutos utilizando suas crenças, conhecimentos e expectativas. Isso não significa que a ciência natural esteja errada, mas sim que ela possui um recorte de interesse diferente do recorte da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O domínio da psicologia seria a experiência imediata, subjetiva, que é a experiência em sua realidade concreta, direta e intuitiva, apreendida antes de qualquer conceituação, teorização ou abstração. Ou seja, é a experiência antes de ela adquirir qualquer camada de compreensão, que seriam mediadores, por isso é imediata, sem mediação. Ela envolve o processamento de elementos sensoriais simples, como cor, som, temperatura, e de sentimentos simples, como prazer e desprazer. Ela diz respeito ao modo puro de funcionamento mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vamos a um exemplo, desta vez no campo do som. Na perspectiva mediata, o cientista natural abstrai o sujeito e estuda o som de forma indireta e conceitual. Ele utiliza aparelhos para medir as ondas sonoras e a sua propagação física pelo ar. O objeto físico “som” é, portanto, mediado e traduzido por conceitos de frequência, amplitude e decibéis. Já sob a perspectiva imediata, que é a da psicologia, o psicólogo estuda a sensação direta e em si mesma do tom no momento exato em que ele aparece na consciência. A análise está na vivência concreta do sujeito, que inclui a qualidade do tom, a sua intensidade subjetiva, a tonalidade afetiva de prazer ou desprazer que o acompanha e o processo ativo da atenção (apercepção, que será tratada mais adiante) que coloca aquele som no foco da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se olharmos desta vez para as cores, na visão mediata, ciência natural estuda o azul abstraindo a experiência do sujeito. A física o descreverá de forma conceitual como uma radiação eletromagnética com determinado comprimento de onda atingindo a retina. Para a psicologia de Wundt, o azul é investigado como um dado imediato e real na consciência do sujeito no momento da percepção interna. O foco não está nas propriedades físicas do estímulo, mas sim na reação subjetiva e ativa do cérebro vivo a esse estímulo, que gera a qualidade imediata da cor na experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conduzindo seus estudos, Wundt também identificou aquilo que denominou causalidade psíquica. Ao nos lembrarmos de um fato triste, a fisiologia explicaria a tristeza de forma conceitual e indireta, por meio de correntes elétricas no córtex cerebral, liberação de hormônios ou atividade de sinapses nervosas. Já o psicólogo observa a conexão de processos internos como elas ocorrem diretamente na consciência do sujeito, como a ligação da lembrança triste a um sentimento de angústia. A causalidade psíquica é uma causalidade própria da mente e irredutível às leis físicas da natureza, ou seja, não pode ser comparada à causalidade científica como a conhecemos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao adotar a experiência como seu objeto, Wundt rompe com a psicologia da alma, filosófica e metafísica. Ele substitui a psicologia de substâncias, que postula uma entidade mental oculta, pela teoria da atualidade (Aktualitätstheorie), na qual o psiquismo é definido como um fluxo de processos em constante devir. Seu sistema está fundamentado em um monismo perspectivista. Em outras palavras, para ele, mente e corpo não são substâncias que interagem mecanicamente, mas perspectivas distintas sobre a mesma unidade da experiência (Erfahrung). A psicologia, portanto, não estuda um “mundo interno”, que está isolado do externo, ainda que em contato com ele, mas a totalidade da experiência humana sob o prisma da imediatidade. Essa transição do estatuto de substância “mente” ou algo semelhante para o de processo traz uma nova perspectiva, criando um objeto que pode ser alvo de experimentação científica, partindo de experimentos já criados pela psicofísica e ainda outros que seriam desenvolvidos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Psicologia Individual e Völkerpsychologie: dois métodos para manifestações da experiência ===&lt;br /&gt;
A arquitetura metodológica de Wundt responde ao desafio de investigar processos mentais que variam em complexidade. Ele estabelece que a psicologia deve ser compreendida como o fundamento das Geisteswissenschaften (ciências do espírito ou humanas). A Psicologia Individual foca nos processos elementares, que incluem sensação e percepção, que são passíveis de controle rigoroso em laboratório através da manipulação de estímulos externos e introspecção experimental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entretanto, Wundt reconhece a insuficiência do experimento para os processos mentais superiores, como o pensamento e a linguagem, que são historicamente condicionados. Para estes, ele propõe a Völkerpsychologie , ou Psicologia dos Povos, dedicada ao estudo dos produtos das geistige Gemeinschaften (comunidades espirituais ou coletividades). Wundt vai apontar a linguagem, o mito e os costumes (Sitten) não são apenas dados culturais, mas objetivações de leis psíquicas superiores inacessíveis à introspecção de laboratório. Eles seriam produtos da experiência humana nas suas formas mais avançadas e superiores e, por não serem passíveis de experimentação, exigem uma outra abordagem. Essas duas vertentes, experimental e histórico-cultural, não são divergentes, mas sim o projeto integrador que permite apreender a mente tanto em sua base sensório-motora quanto em suas manifestações espirituais complexas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As investigações da psicologia dos povos focavam na alma do povo (Volksseele), definida como a realidade factual dos processos psíquicos que surgem em uma comunidade por meio da interação das energias mentais dos indivíduos. Essa “mente coletiva” se tornava um objeto tangível e investigável ao longo da história em três grandes produtos culturais. O primeiro é a linguagem (Die Sprache), ferramenta pela qual o pensamento é estruturado e externalizado. Já o mito e a religião são as formas como a imaginação e os sentimentos humanos coletivos projetam suas explicações sobre o cosmos e a existência. Os costumes (Sitten) e o direito, por sua vez, são  as regras de conduta coletiva que nascem de atos voluntários e impulsos compartilhados, padronizando as interações sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não podia realizar experimentos com culturas inteiras, Wundt operava por meio da pura observação retrospectiva e comparativa dos produtos mentais, ou seja, analisando os objetos já criados e usados ou em uso por diferentes povos e culturas, anotando suas diferenças e semelhanças. Wundt juntava, lia e analisava de forma exaustiva relatos históricos, estudos filológicos, dicionários, mitologias comparadas, códigos de leis e descrições etnológicas e antropológicas de povos ao redor do globo, ou seja, utilizava dos estudos de diferentes ciências humanas e sociais para extrair as leis psicológicas gerais do desenvolvimento mental humano por trás dessas manifestações. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seu objetivo era mapear como a mente coletiva evoluía do simples para o complexo ao longo das eras, numa abordagem genética e desenvolvimentista e reconstruir, de forma retrospectiva, as forças dinâmicas, os afetos, os impulsos (Triebe) e os processos de síntese criadora (melhor discutida mais adiante) que estiveram ativos na mente das pessoas no momento de sua formação. Wundt dedicou os últimos 20 anos de sua vida (de 1900 a 1920) quase exclusivamente a esse empreendimento monumental, escrevendo dez volumes da sua obra Völkerpsychologie.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Apercepção ===&lt;br /&gt;
No contexto filosófico, como já visto, o conceito de apercepção remonta a Kant, que a definiu como o processo autônomo, ativo e prévio pelo qual a mente unifica diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Wundt adotou essa noção kantiana para fundamentar sua teoria da consciência, definindo apercepção como o processo psicológico ativo pelo qual um conteúdo psíquico (ou representação) é trazido à clareza máxima e ao foco da consciência, vindo necessariamente acompanhado pelo estado de atenção voluntária.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para explicar a dinâmica da consciência, Wundt utilizou uma famosa analogia com a visão para diferenciar apercepção e percepção. O campo visual da consciência (Blickfeld) corresponde à percepção, que é a simples entrada de uma representação na consciência de forma difusa, ampla e sem a presença focalizada da atenção. Já o ponto focal da consciência (Blickpunkt) corresponde à apercepção, que é a entrada de uma representação no ponto central de máxima clareza e foco estreito da atenção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A apercepção, então, é uma manifestação primordial da vontade, funcionando como o princípio dinâmico que dá direção e estrutura tanto à experiência quanto ao movimento. Além disso, a apercepção pode ser ativa, que é quando o sujeito deliberadamente seleciona onde focará sua atenção, ou passiva, quando é o estímulo que se impõe no foco no sujeito. Por fim, a apercepção é o mecanismo central da operação da causalidade psíquica. É ela que unifica a mente em um sistema ativo, permitindo que a fusão de elementos resulte em sínteses criadoras com propriedades qualitativamente novas e imprevisíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Percepção Interna (innere Wahrnehmung) vs. Auto-observação (Selbstbeobachtung) ===&lt;br /&gt;
Para garantir o rigor procedimental e responder ao “desafio kantiano”, Wundt rejeitou a Selbstbeobachtung, que pode ser entendida como a auto-observação tradicional ou introspecção casual. Trata-se do método introspectivo puramente filosófico e especulativo que, segundo Wundt e outros, seria fonte de auto-ilusões e onde o ato de observar altera o fenômeno observado. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A solução científica é a innere Wahrnehmung, ou percepção interna, que permite a criação de um método científico baseado na repetição de estímulos externos controlados. No laboratório, o psicólogo replica condições experimentais que permitem a observação do aparecimento imediato do processo psíquico sob condições estáveis e previsíveis. O laboratório funciona, portanto, como o estabilizador do objeto psicológico, permitindo que a percepção interna atinja a precisão necessária para decompor a consciência em seus elementos fundamentais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experimentos do Laboratório de Wundt ====&lt;br /&gt;
Vamos a alguns exemplos do que acontecia no laboratório de Wundt, para integrar melhor os conceitos já apresentados. O primeiro experimento foi concebido originalmente para descrever a “equação pessoal” que aparecia nas medições dos astrônomos. No caso, observava-se que astrônomos treinados, utilizando os mesmos equipamentos, discordavam de suas medições que, à época, eram feitas manualmente com ajuda de instrumentos. De alguma forma, estas diferenças nas medições pareciam ter um tipo de padrão. Neste experimento, Wundt utilizava um aparelho chamado medidor de pensamento (Gedankenmesser) e, posteriormente, o pêndulo de complicação (Complicationspendel). O dispositivo consistia em um grande relógio de pêndulo que possuía uma agulha cruzada, como uma agulha de tricô, capaz de golpear fisicamente um pequeno sino em um ponto exato do seu arco de oscilação. O sujeito do experimento deveria olhar para a escala do pêndulo e tentar determinar a posição exata do ponteiro no momento em que ouvia o sino tocar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste experimento, Wundt descobriu que o sujeito sempre cometia um erro sistemático de registro, de aproximadamente um oitavo de segundo. Segundo ele, era impossível perceber visualmente a agulha e o som do sino ao mesmo tempo. Esse experimento seria uma prova laboratorial de que a consciência possui uma capacidade limitada e só consegue focar em uma única percepção por vez, como a diferença no marco da medição podia mostrar. A ilusão de simultaneidade devia-se apenas à rápida sucessão dos processos de atenção (apercepção).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os experimentos de tempo de reação, nosso segundo exemplo, constituíam o verdadeiro coração do trabalho em Leipzig na década de 1880. Wundt adaptou o método de subtração (Subtractiemethode), do fisiologista holandês F. C. Donders, para medir a velocidade de processos mentais complexos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o experimento de Wundt, é necessário compreender que, para ele, uma reação consciente envolvia: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- transmissão da sensação ao cérebro; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2- entrada do estímulo no campo amplo da consciência (percepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
3- entrada no foco ativo da atenção (apercepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
4- ato de vontade para liberar a resposta; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
5- execução motora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada um dessas partes exigem um certo tempo, pois são processos não imediatos. A depender de como as etapas do experimento são organizadas, diferentes tempos indicariam o acionamento maior ou menor de cada um deles. No experimento, o sujeito era treinado para responder pressionando uma tecla telegráfica ao ver um estímulo luminoso simples, como um flash de luz. Em seguida, a tarefa mais difícil. Duas imagens eram apresentadas, um círculo branco sobre fundo preto ou vice-versa, e o sujeito só deveria reagir após identificar com clareza qual imagem havia aparecido. Ao subtrair o tempo da reação simples do tempo da reação complexa, Wundt calculava o “tempo de apercepção” ou discriminação. Na primeira tese de doutorado em psicologia experimental da história, Max Friedrich, que atuou no experimento, mostrou que o tempo de discriminação aumentava de acordo com a complexidade do estímulo visual. Por exemplo, o sujeito levava mais tempo para aperceber e discriminar uma sequência de seis dígitos do que de apenas um ou dois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O assistente de Wundt, Ludwig Lange, também colaborou no estudo ao desenvolver um experimento crucial. Ele demonstrou que os tempos de reação variavam drasticamente dependendo da preparação atencional do sujeito. Se a atenção estivesse focada no movimento de resposta que o dedo faria (reação muscular), o tempo era curto (cerca de 125 ms), pois funcionava como um “reflexo cerebral” que pulava a apercepção. Se o foco estivesse direcionado ao estímulo sensorial que iria surgir (reação sensorial), o tempo era cerca de 100 ms mais longo, pois envolvia o circuito completo da mente consciente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O terceiro experimento foi desenvolvido por Martin Trautscholdt, um dos estudantes de doutorado de Wundt. Ele estudava a associação de ideias. No seu estudo, o sujeito era instruído a pressionar uma tecla no momento exato em que uma ideia associada surgisse em sua consciência a partir de um estímulo visual ou auditivo. Ao subtrair o tempo que o sujeito levava para simplesmente reconhecer a palavra estimulante, Trautscholdt conseguiu quantificar o tempo gasto pela mente para realizar a conexão associativa propriamente dita que, segundo Trautscholdt, variava entre 706 e 874 ms. Wundt também adaptou a técnica de associação de palavras de Francis Galton, limitando a resposta do sujeito a apenas uma única palavra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O quarto e último experimento que será apresentado é relacionado a acordes musicais. Nele, sujeitos ouviam tons isolados no piano, que seriam as sensações puras, e depois os mesmos tons tocados simultaneamente. Os participantes descreviam em detalhes a transição afetiva de como a fusão física das frequências dava origem a um produto inteiramente novo na consciência, que seria o sentimento estético de harmonia e prazer decorrente de uma síntese criadora. Wundt conduzia vários experimentos em estética experimental, tal qual seu colega Fechner.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Arquitetura da Mente: Elementos, Fusão e Síntese Criadora ===&lt;br /&gt;
Segundo Wundt, a experiência pode ser decomposta em elementos simples, que incluem as sensações e os sentimentos simples. Os sentimentos, por sua vez, são entendidos a partir da teoria tridimensional dos sentimentos, onde eles se distribuem em um espaço qualitativo entre os polos prazer/desprazer (Lust-Unlust), tensão/relaxamento (Spannung-Lösung) e excitação/depressão (Erregung-Beruhigung). A primeira é a mais evidente, se refere à avaliação afetiva primária da experiência. A segunda se relaciona ao esforço da atenção ou à preparação interna da mente. Já a terceira está relacionada ao nível de ativação biológica e psicológica do organismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esses aspectos todos são organizados através do mecanismo de fusão (Verschmelzung), onde as qualidades elementares se fundem em complexos psíquicos. O conceito central aqui é o princípio da síntese criadora (schöpferische Synthese). Ao contrário do associacionismo britânico, Wundt afirma que o todo resultante possui propriedades que não estão contidas na mera soma das partes. Essa síntese não é um processo mecânico passivo, mas um ato aperceptivo ativo, vinculado à vontade. Na mente humana, a combinação de elementos gera um valor novo e qualitativamente superior, marcando a distinção fundamental entre a causalidade psíquica e a mecânica física.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em termos simples, a síntese criadora estabelece que os complexos psíquicos, como representações, sentimentos compostos e afetos, embora formados pela união de elementos simples (sensações e sentimentos simples), possuem características qualitativas inteiramente novas que não pertencem a nenhum de seus elementos constituintes isolados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fusão é o processo ativo e primário de integração psíquica. É através dela que os elementos sensoriais e afetivos brutos são ativamente sintetizados pela mente para dar origem a uma nova unidade psicologicamente complexa. A fusão é a geradora da síntese criadora. Para Wundt, a síntese criadora é a prova cabal da causalidade psíquica. Ela monstra que os fenômenos mentais obedecem a leis de conexão e geração próprias que não se ajustam às leis da física ou da fisiologia mecânica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Observemos isso com um exemplo já apresentado. Se você tocar no piano as notas Dó, Mi e Sol isoladamente, você terá apenas a experiência de três sensações auditivas distintas. No entanto, quando essas notas são tocadas simultaneamente, a fusão de seus elementos gera na consciência uma experiência qualitativamente nova, que seria um acorde musical. O sentimento de harmonia e a qualidade estética do acorde são um produto da síntese criadora, pois não existiam em nenhuma das notas isoladas e surgem puramente da atividade unificadora da mente sobre o estímulo físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Paralelismo Psicofísico e Causalidade Psíquica ===&lt;br /&gt;
O paralelismo psicofísico foi um dos conceitos mais importantes e debatidos no século XIX durante o processo de fundação da psicologia científica. Ele surgiu como uma alternativa teórica para solucionar o clássico problema mente-corpo. O conceito foi formulado de forma a tanto o dualismo substancial, que dividia o ser humano em duas substâncias isoladas cuja forma de interação era desconhecida, quanto o materialismo reducionista, que reduzia a mente a uma mera secreção cerebral ou processo físico ou fisiológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para Fechner, o paralelismo era a manifestação de um monismo neutro, ou teoria de duplo aspecto. Ele defendia que a matéria (corpo) e o espírito (mente) não são substâncias diferentes, mas sim dois modos de aparência ou perspectivas distintas de uma única e mesma realidade subjacente, teoria sobre o qual fundamental grande parte de seu projeto científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt também adotou o termo paralelismo psicofísico, mas realizou uma redefinição epistemológica radical do conceito, visando se afastar da metafísica. Ele rejeitava categoricamente qualquer tentativa de transformar o paralelismo em uma doutrina ontológica sobre a natureza última da realidade, transformando-o estritamente um postulado metodológico e heurístico indispensável para a investigação científica. Os processos mentais não sejam reduzidos a processos fisiológicos ou neurais, pois a consciência obedece a leis de conexão próprias, como a causalidade psíquica, que não podem ser explicadas pelas leis da mecânica cerebral.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O que Aconteceu Depois? ===&lt;br /&gt;
No final de sua vida, Wilhelm Wundt era visto de forma ambivalente. Enquanto mantinha o prestígio de fundador da psicologia científica, uma nova geração de psicólogos que buscava se firmar, via como um “pai tribal”, cujo longo domínio de mais de quatro décadas estava desgastado. Ele se tornou o alvo de críticas severas e passou a ser tratado por muitos como o ícone de um passado superado e falido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante a Primeira Guerra Mundial e nos anos que a sucederam, a reputação internacional de Wundt sofreu graves danos. Influenciado por seu filho Max, Wundt adotou posturas políticas ultranacionalistas, chegando a usar a Völkerpsychologie de maneira tendenciosa para criticar os inimigos da Alemanha. Essa postura inflamou um forte preconceito anti-alemão, especialmente nos Estados Unidos, onde ex-alunos e intelectuais americanos passaram a ver ele como uma mente maligna e autoritária, acelerando a rejeição de suas obras em solo estrangeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A maior frustração de Wundt no fim da vida ocorreu no âmbito acadêmico alemão. Ele sempre defendeu que a psicologia era uma ciência propedêutica e uma aliada indispensável da filosofia, devendo permanecer integrada a esta. No entanto, os filósofos acadêmicos de sua época, especialmente os neokantianos e fenomenologistas, rejeitaram veementemente o  que chamavam de “psicologismo de Wundt”, ou seja, a redução da lógica e da validade do conhecimento a fatos psicológicos. Em 1913, após a contratação de um psicólogo experimental para a cadeira de filosofia em Marburg, mais de cem professores de filosofia assinaram um protesto público exigindo que psicólogos fossem banidos dos departamentos de filosofia. Esse movimento resultou no progressivo divórcio institucional entre a psicologia e a filosofia, uma separação que Wundt lamentou e combateu até a sua morte em 1920.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir da década de 1890, uma forte onda de positivismo, inspirada pela filosofia de Ernst Mach e Richard Avenarius, varreu a psicologia experimental. Jovens psicólogos, incluindo os assistentes do próprio Wundt, rejeitaram conceitos fundamentais do sistema de Leipzig, como a apercepção, a causalidade psíquica e a síntese criadora, tomando eles como metafísica, exatamente o oposto do que desejava seu formulador. Eles preferiam um modelo elementarista e reducionista, focado na descrição de relações funcionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos EUA, a influência da teoria da evolução de Darwin deslocou o interesse da estrutura da consciência para as suas funções de adaptação ao meio, o chamado funcionalismo. Com o surgimento e o fortalecimento do behaviorismo e a eliminação da mente como objeto de estudo, o voluntarismo de Wundt perdeu qualquer espaço. Na Europa, a própria psicologia da Gestalt ergueu-se combatendo o elementarismo que havia sido falsamente associado a Wundt. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O golpe final veio após a Primeira Guerra Mundial, quando a Alemanha mergulhou em colapso econômico. Diante da “crise da psicologia”, os pesquisadores precisaram provar a utilidade prática da ciência que praticavam para sobreviver, o que já acontecia nos EUA, voltando-se para a psicologia militar, industrial, educacional e clínica. Wundt, que sempre desprezou a psicologia aplicada, teria visto seu sistema dinâmico de laboratório perder todo o fôlego diante das pressões pragmáticas da época, ainda que mantivesse sua fama e sua alcunha maior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia Científica na Inglaterra ==&lt;br /&gt;
O surgimento da psicologia na Inglaterra seguiu um caminho bastante distinto do modelo laboratorial alemão, focado na introspecção e na busca de leis universais. A psicologia britânica formou-se na intersecção de duas grandes forças intelectuais, que são as filosofias empirista e associacionista, e a biologia evolutiva. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No empirismo, pensadores como John Locke postularam que a mente humana nasce como uma tabula rasa ou uma folha em branco, e que absolutamente todo o conhecimento deriva da experiência sensorial. No associacionismo, filósofos como David Hume, James Mill e John Stuart Mill afirmavam processos mentais complexos são formados pela associação contínua de ideias simples e sensações, governadas por leis lógicas. tais como similaridade, contiguidade e causa e efeito. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A despeito de sua rica tradição filosófica, o maior divisor de águas para a ciência britânica foi a publicação de A Origem das Espécies, em 1859. A teoria da evolução natural de Darwin, trouxe novas e profundas questões para o estudo da mente britânica. Se humanos e animais compartilham ancestrais comuns, argumentava-se que deveria haver uma continuidade não apenas física, mas também mental entre as espécies, conectando a psicologia ao estudo da zoologia, dando origem à Psicologia Comparada. Além disso, a mente e a consciência deixaram de ser vistas apenas como objetos metafísicos e passaram a ser estudadas como ferramentas biológicas de adaptação, que evoluíram porque ajudavam o organismo a sobreviver em seu ambiente, sendo fundamental para a criação do funcionalismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a validação da biologia evolutiva, o estudo da inteligência animal explodiu no Reino Unido, George Romanes foi um dos primeiros a tentar sistematizar o comportamento animal. Contudo, seu método anedótico foi duramente criticado por ser antropomórfico, ou seja, por atribuir pensamentos e emoções humanas complexas a animais. Seu colega Conwy Lloyd Morgan introduziu mais rigor científico à área através do que ficou mundialmente conhecido como o Cânone de Morgan, ou princípio da parcimônia. A regra dizia que um comportamento animal não deve ser interpretado como resultado de uma faculdade mental superior se puder ser explicado por um processo psicológico mais básico, como o instinto ou o aprendizado por tentativa e erro. Apesar de a perspectiva de ambos ter sido abandonada, a Psicologia Comparada se tornou um dos principais ramos da psicologia moderna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Francis Galton e a Psicologia Diferencial ===&lt;br /&gt;
Francis Galton (1822-1911) foi um cientista e polímata britânico de inteligência extraordinária, com um QI estimado por volta de 200, algo extremamente raro, além de ser primo de Charles Darwin. Galton é amplamente reconhecido como pioneiro ao incorporar o estudo sistemático das diferenças individuais e da herança mental na nova psicologia, uma área que era ignorada ou rejeitada por pioneiros experimentalistas como Wilhelm Wundt.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Galton interessou-se pela medição das variações da inteligência e das capacidades humanas. Ele fundou um laboratório antropométrico onde testou a acuidade sensorial, a força e os tempos de reação de milhares de pessoas. Além disso, baseando-se na premissa empirista de John Locke de que todo o conhecimento vem da percepção, Galton assumiu que os indivíduos mais inteligentes seriam aqueles com as capacidades sensoriais e motoras mais aguçadas. Ele foi o inventor do conceito de testes mentais, termo posteriormente cunhado por seu aluno dos EUA, James McKeen Cattell. Galton também desenvolveu o método experimental de associação de palavras, medindo o tempo de reação mental e demonstrando a enorme influência das experiências da infância e do inconsciente no pensamento adulto, um trabalho que impressionou profundamente Sigmund Freud. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também foi um dos primeiros a fazer uso amplo do questionário psicológico para investigar imagens mentais, constatando para sua própria surpresa que a maioria dos cientistas relatava ausência de imagens mentais nítidas, em contraste com relatos muito mais detalhados fornecidos por mulheres e crianças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para conduzir medições em larga escala, ele inventou vários instrumentos clássicos e, para analisar suas enormes bases de dados, Galton desenvolveu conceitos estatísticos fundamentais, como a correlação. Essa tradição quantitativa foi depois aperfeiçoada por outros britânicos, como Charles Spearman, criador da análise fatorial e do conceito de fator g de inteligência geral, fundando a base da psicometria moderna. e influenciando de forma decisiva a psicologia dos testes nos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Conclusão ==&lt;br /&gt;
A história da psicologia é definida pelo paradoxo de ter um “longo passado” e uma “curta história”, podendo ir do De Anima de Aristóteles até a a fundação do laboratório de Wilhelm Wundt na Universidade de Leipzig, em 1879. A psicologia, assim, mostra que tem uma rica história, com muitos personagens, conceitos e acontecimentos importantes, de modo que qualquer narrativa sobre sua composição elegerá heróis e vilões, dará mais relevância para alguns, menos para outros e o esquecimento para a maioria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O texto propõe que Immanuel Kant foi uma figura central na composição da psicologia científica. Ele propôs que a mente humana é um agente ativo que organiza o conhecimento através de estruturas a priori, tais como o tempo, o espaço e as categorias do entendimento. Assim, ele introduziu o conceito de “sujeito transcendental” como a estrutura universal que garante a unidade da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Kant impôs um “veto” ao status científico da psicologia, defendendo a base na matematização. A superação desse veto ocorreu através da “naturalização” de Kant pela fisiologia. Johannes Müller, com a Teoria das Energias Nervosas Específicas, mostrou que a sensação é mediada pelo sistema nervoso, não sendo uma cópia fiel do mundo externo. Hermann von Helmholtz avançou essa ideia ao postular que as estruturas a priori de Kant seriam, na verdade, características da anatomia e fisiologia humanas. Ele propôs o conceito de “inferências inconscientes” para explicar como interpretamos dados sensoriais. Nesse contexto, Friedrich Albert Lange defendeu uma “psicologia sem alma”, rejeitando a metafísica e argumentando que o estudo científico deve focar apenas nas aparências e fenômenos observáveis, reduzindo o objeto da psicologia a dados empíricos e correlações fisiológicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner foi crucial ao oferecer a base matemática e experimental que faltavam, por meio da Lei de Weber-Fechner. Ele também padronizou e melhorou métodos para o estudo dos limites e constantes sensoriais, que se tornaram a base metodológica da psicologia experimental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt não apenas fundou um laboratório, como também arquitetou um sistema complexo. Para Wundt, o objeto da psicologia é a experiência imediata, criando conceitos como voluntarismo, causalidade psíquica, apercepção, entre outros. Além disso, ele também criou a psicologia dos povos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente do foco laboratorial alemão, a psicologia britânica foi moldada pela filosofia empirista e, crucialmente, pela teoria da evolução de Charles Darwin. Neste contexto, Galton ganha destaque, por ter fundado o laboratório antropométrico, inventado o conceitos de “testes mentais”, pelo uso de estatísticas no estudo da psicologia e ter influenciado o desenvolvimento da psicometria e a análise fatorial (com Charles Spearman), consolidando uma tradição que focava mais na variabilidade genética e na inteligência do que na estrutura da consciência em si.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_surgimento_da_psicologia_cient%C3%ADfica&amp;diff=1724</id>
		<title>O surgimento da psicologia científica</title>
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		<updated>2026-07-29T04:33:47Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: Criação do verbete&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;Este é um texto didático de autoria de André Elias Morelli Ribeiro (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um longo passado, uma curta história ==&lt;br /&gt;
A psicologia tem um longo passado, mas uma curta história. Esta é uma frase muito famosa no campo da história da psicologia, tendo sido consagrada por Hermann Ebbinghaus, um psicólogo alemão pioneiro no estudo da memória, ainda no século XIX. A frase é exemplar sobre como é difícil dizer quando a psicologia teve início. Retomemos ela em mais detalhes. A psicologia tem um longo passado, porque os temas que consideramos hoje como parte da psicologia aparecem muitas vezes na filosofia, na religião, em saberes tradicionais, entre muitos outros lugares. É difícil estabelecer qual o objeto de estudo da história da psicologia, assim como é difícil, ao longo da história, separar o que é  psicologia daquilo que não é psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse longo passado pode remontar, por exemplo, à Antiguidade, com o tratado De Anima de Aristóteles, que escreveu muito antes de se imaginar o próprio conceito de ciência moderna e, menos ainda, de uma psicologia moderna. Outros podem colocar o lugar de início da psicologia em Descartes, que elaborou a máxima, também famosa, “penso, logo existo”. Isso mostra que os objetos de estudo da psicologia são historicamente construídos, ou seja, emergem a partir dos locais ou pessoas que atuaram na psicologia, como na medida das diferenças individuais, as dinâmicas de controle num laboratório, nas práticas de psicoterapia, entre muitas outras.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se cada historiador localiza o passado da psicologia em lugares diferentes no tempo e no espaço, a história da psicologia, por seu lado, tem uma definição bem mais estável e curta. Nos anos 1980, os historiadores, reunidos num congresso nos EUA, definiram que a psicologia científica teria começado em 1879, quando Wilhelm Wundt fundou o primeiro laboratório de psicologia experimental na Universidade de Leipzig, na Alemanha. Essa definição está consagrada e é quase um consenso, porém, não foi tão simples estabelecê-la. Alguns advogavam pelo pioneirismo de outro alemão, Theodore Fechner, criador da chamada psicofísica, de onde vieram muitos dos experimentos e ideias de Wundt. Outros ainda queriam que William James, um filósofo e psicólogo americano, fosse reconhecido como fundador, pois seu laboratório de psicologia era ainda mais antigo que o de Wundt que, no final, venceu essa disputa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Resumindo, a psicologia possui um “longo passado”, com raízes filosóficas e religiosas milenares e altamente diversas, e uma “curta história” como disciplina científica, cujo marco está situado em 1879, com a fundação do primeiro laboratório experimental por Wilhelm Wundt, na Alemanha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Presentismo ===&lt;br /&gt;
Mas o que seriam essas psicologias anteriores a essa psicologia científica? Para entender melhor essa história, é preciso refletir para superar, da melhor forma, um problema chamado “presentismo”, ou seja, julgar, entender, interpretar e analisar o passado com a visão do presente. Não é apenas uma questão de olhar para as pessoas do passado e superar o pensamento de que elas eram “ignorantes”, pois “não tinham o conhecimento que temos hoje”. É entender também que, no passado, haviam formas de conhecimentos diferentes, bem como visões de mundo diferentes da atual. Pensando em termos da psicologia, como elas seriam diferentes?&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo interessante é o conceito de atenção. Hoje, ela é um tema tão discutido e consensual que pouco se reflete sobre seu significado. Atualmente, seria algo como centralizar as faculdades mentais em um lugar específico. Pode-se ouvir as pessoas reclamando que “não conseguem prestar atenção”, ou que nunca “mantém a atenção”, e até mesmo existem medicamentos para resolver esse problema. Contudo, a palavra “atenção” nem sempre significou o que entendemos hoje. Para Santo Agostinho, atenção era apenas o ato de passar de um pensamento para outro. Descartes tinha um conceito mais parecido com o contemporâneo, onde a atenção era mobilizada de forma voluntária para fixar e reter na memória coisas raras e extraordinárias que o entendimento considerava úteis. Na obra de Locke, a atenção é mencionada apenas de passagem, como um mero mecanismo auxiliar da retenção de memórias. A partir do momento em que a ciência demonstrou que a percepção depende da estrutura física e biológica do corpo (com a psicofísica e a fisiologia sensorial), já no século XIX, a visão passou a ser encarada como intrinsecamente incompleta, instável e condicionada pelo tempo. Nesse contexto, a atenção foi utilizada como um substituto pragmático para garantir a coerência do mundo percebido. Autores do final do século XIX, como Théodule Ribot e Max Nordau, associaram os desvios ou a fraqueza da atenção a patologias psíquicas, comportamentos sociopáticos e teorias da “degeneração”. Para eles, uma atenção defeituosa deixava a mente à mercê de “associações caóticas”, gerando uma visão borrada e distorcida da realidade. Foi apenas na década de 1950 que a nossa compreensão contemporânea de atenção começou a se delinear, paralelamente aos estudos sobre os medicamentos desenvolvidos para tratar as suas disfunções.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma pessoa desavisada, que não está atenta às grandes diferenças entre as ideias e conceitos ao longo do tempo, poderia ler um trecho de Ribot e achar que a atenção do qual ele fala é a mesma coisa que entendemos hoje. O leitor estaria totalmente enganado, a ponto de não conseguir nem mesmo compreender o que Ribot queria dizer. Em outras palavras, o esforço para entender as psicologia do passado passa também pelo esforço de entender como se pensava no passado, qual a visão que se tinha nesse passado. Parte do esforço do historiador é trazer esses aspectos de volta ao presente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== O sujeito transcedental de Kant ==&lt;br /&gt;
A concepção de uma psicologia ocupada especificamente com a “mente” humana e suas operações começou a ganhar contornos modernos no século XVIII com o filósofo Christian Wolff. Ele dividiu a psicologia em Psicologia Empírica, num livro publicado em  1732 e baseada na introspecção; e em Psicologia Racional, numa obra de 1734, dedicada a deduzir a natureza e a essência da alma, como sua imortalidade e imaterialidade, de forma puramente lógica e racional, independentemente da experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, o projeto de Wolff enfrentava um sério problema metodológico, a chamada observação interna ou introspecção. Quando se estuda um fenômeno natural, como a chuva, é necessário observar o que acontece, incluindo como as nuvens se formam, qual a umidade do ar, a intensidade dos raios solares, a direção dos ventos, entre muitos outros fatores, todos objetos externos do sujeito. Toda a ciência é feita dessa forma, observando, testando e analisando o mundo que está fora dos indivíduos. O problema está em estudar algo que é interno aos sujeitos. Não se pode observar diretamente o que se passa na cabeça de alguém, contudo, é possível analisar o que se passa nas nossas próprias cabeças. Isso seria a introspecção, ou seja, o processo pelo qual adquirimos conhecimento sobre nossos próprios estados ou processos mentais Apesar de ser uma ideia interessante, fazer introspecção não era considerado algo muito científico. Entendia-se que “observar a si mesmo” distorcia os eventos mentais, pois o sujeito que observa e o objeto observado são o mesmo, o que impediria a neutralidade exigida pelo modelo científico então vigente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Até a segunda metade do século XVIII, as teorias do conhecimento, que incluíam o empirismo e o racionalismo, compartilhavam a premissa de que o conhecimento era determinado pelo objeto a ser conhecido. O objeto estava lá, esperando a melhor forma de ser conhecido. Kant, em sua obra Crítica da Razão Pura (1781), inverteu essa lógica de forma radical. Ele propôs que não é o conhecimento que se adequa aos objetos, mas são os objetos que são determinados pelo sujeito. O conhecimento passou a ser compreendido não como uma recepção passiva, mas como uma produção ativa do chamado sujeito transcendental, moldada por suas formas a priori.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O sujeito transcendental em Kant não se refere propriamente a um indivíduo empírico ou psicológico, ou seja, alguém com personalidade e história pessoal. Pense no sujeito transcendental não como “você” (André ou Maria), mas como o “sistema operacional” universal da mente humana. Assim como um software organiza os dados que chegam do teclado, o sujeito transcendental organiza os dados que chegam dos sentidos, como o tempo e o espaço, antes mesmo de termos consciência deles.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o sujeito transcedental, é preciso fazer um importante exercício de abstração, visando conseguir entender algo que está além da experiência existencial individual e entender aquilo que molda essa própria experiência. O sujeito transcedental de Kant é uma condição universal de possibilidade para qualquer conhecimento. Em outras palavras, é algo que todas as pessoas possuem e é a forma que o ser humano tem para saber as coisas. É a estrutura ativa da mente que organiza a experiência antes mesmo que possamos refletir sobre ela. Esse sujeito é o princípio unificador que garante a coerência dos dados sensoriais, transformando o caos de impressões oriundas dos órgãos dos sentidos em uma experiência significativa e estruturada. Através das formas a priori da sensibilidade (espaço e tempo) e das categorias do entendimento, o sujeito transcendental “constrói” o objeto conhecido. Ele é o “Eu penso” que deve poder acompanhar todas as nossas representações, conferindo unidade à consciência. Em suma, não conhecemos o mundo como ele é em si, mas como o sujeito transcendental o molda e o organiza para que se torne inteligível para nós.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Immanuel Kant revolucionou a teoria do conhecimento ao postular que a mente humana não funciona como um receptáculo passivo de impressões sensoriais, mas sim como um agente ativo dotado de estruturas constitutivas a priori que organizam, unificam e interpretam a matéria-prima da experiência. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O processo de constituição do conhecimento dos fenômenos que chegam para nossa mente a partir dos órgãos dos sentidos articula-se em três instâncias fundamentais. A primeira são as formas puras da sensibilidade, depois vem os conceitos puros do entendimento, ou seja, as categorias e, por fim, a unidade sintética da apercepção. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nas formas puras da sensibilidade, antes mesmo que o intelecto possa aplicar qualquer conceito, o caos das sensações brutas é necessariamente ordenado no espaço e no tempo, que não são propriedades das coisas em si, mas intuições puras da sensibilidade que funcionam como os eixos coordenados onde os fenômenos são dados. Ou seja, as informações dos sentidos já chegam num espaço e num tempo para o resto do processo de constituição do conhecimento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma vez colocados no espaço e estruturados numa sucessão e simultaneidade temporal, esses dados passam pelas doze categorias do entendimento puro. Essas categorias se dividem em quatro classes de tríades: quantidade, qualidade, relação e modalidade. As categorias representam as regras lógicas puras, fundamentais e necessárias para tornar qualquer objeto da experiência inteligível. Elas podem ser observadas de forma simplificada na tabela a seguir:&lt;br /&gt;
{| class=&amp;quot;wikitable&amp;quot;&lt;br /&gt;
|Classe de Categorias&lt;br /&gt;
|Categoria 1 (Tese)&lt;br /&gt;
|Categoria 2 (Antítese)&lt;br /&gt;
|Categoria 3 (Síntese)&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|1. Quantidade&lt;br /&gt;
|Unidade&lt;br /&gt;
|Pluralidade&lt;br /&gt;
|Totalidade&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|2. Qualidade&lt;br /&gt;
|Realidade&lt;br /&gt;
|Negação&lt;br /&gt;
|Limitação&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|3. Relação&lt;br /&gt;
|Substância e Acidente&lt;br /&gt;
|Causa e Efeito&lt;br /&gt;
|Ação Recíproca&lt;br /&gt;
|-&lt;br /&gt;
|4. Modalidade&lt;br /&gt;
|Possibilidade (Impossibilidade)&lt;br /&gt;
|Existência (Não-existência)&lt;br /&gt;
|Necessidade (Contingência)&lt;br /&gt;
|}&lt;br /&gt;
As categorias de quantidade dizem respeito à extensão em que aplicamos um conceito aos objetos, ou seja, “quantos” elementos estamos considerando no juízo. Na unidade, temos um único objeto. Na pluralidade, trazemos vários objetos do mesmo tipo para um conjunto. Já a totalidade surge quando pensamos a pluralidade como uma unidade completa.Vejamos um exemplo. Quando um observador vê uma maçã, aplica a categoria da unidade, ou seja, ele viu uma maçã. Ao ver várias maçãs espalhadas na mesa, apreende uma pluralidade, ou seja, ele tem um conceito de “maçãs” e as vê como um conjunto. Porém, ao formular uma lei universal, aplica-se a totalidade, que engloba toda a pluralidade possível sob uma única regra conceitual, ou seja, todas as maçãs são frutas e existem vários tipos de maçãs.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A qualidade trata da atribuição de um predicado, ou seja, se a experiência afirma algo, nega algo ou se situa num limite conceitual. Em outras palavras, é a forma da mente definir “como algo é”. A realidade é afirmação de que um predicado pertence a um ser, ou seja, ele é alguma coisa. A negação é a afirmação de que o predicado não pertence a algo, ou seja, um “não-ser”. A limitação é a síntese das duas anteriores. Atribui-se uma negação como se fosse uma realidade, excluindo aquilo de uma esfera, mas deixando infinita a esfera onde ele pode estar. Vamos a um exemplo. Dizer “O homem é mortal” aplica a categoria de realidade (afirma-se um atributo). Dizer “O homem não é mortal” aplica a negação. No entanto, dizer “A alma é não-mortal (imortal)” é um juízo infinito clássico de Kant que evoca a limitação. Não sabemos o que a alma é de fato, mas a limitamos removendo ela da esfera das coisas mortais, o que a situa num campo aberto e indeterminado de possibilidades.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Consideradas por muitos comentadores como o coração da epistemologia kantiana, as categorias de relação definem como os objetos se relacionam entre si e como permanecem ou mudam no tempo. Substância e Acidente referem-se àquilo que permanece através da mudança (substância) e as propriedades que são transitórias, ou seja, que mudam (acidentes). Um exemplo disso é a água de um lago que congela no inverno. Seu estado físico muda do líquido para o sólido, que é o acidente, mas a matéria da água em si, a substância, permanece inalterada. Sem a categoria de substância, nossa mente registraria apenas uma sucessão caótica de imagens, sem reconhecer que se trata da mesma “coisa” sofrendo alteração. A Causa e Efeito é a relação estritamente necessária onde um evento segue outro no tempo. O exemplo de Kant, em resposta ao filósofo David Hume, é sobre o sol que ilumina uma pedra, e a pedra esquenta. Hume diria que inferimos causalidade por mero hábito psicológico, ou seja, não há conexão necessária, apenas uma observação e uma intuição. Kant argumenta que o próprio fato de distinguirmos uma sucessão objetiva de eventos exige que a mente aplique a categoria a priori de Causalidade. A mente “dita” a regra estrutural de que o aquecimento necessariamente sucede a irradiação solar, colocando uma como causa da outra. Já na Ação Recíproca (Comunidade), tem-se a relação simultânea de mútua influência entre múltiplas substâncias no espaço como, por exemplo, a interação gravitacional entre a Terra e a Lua. Elas não são eventos sucessivos no tempo, mas existem simultaneamente e influenciam-se de modo contínuo e bidirecional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, temos as categorias modais. Eles são os Postulados do Pensamento Empírico e não acrescentam nenhum atributo novo ao objeto em si, mas definem exclusivamente como esse objeto ou evento se relaciona com o sujeito cognitivo e suas faculdades. No caso da Possibilidade-Impossibilidade, é algo que concorda com as condições formais, que são as condições lógicas e puras da experiência. No binômio Existência-Não-existência, é algo que está dado materialmente na intuição empírica, ou seja, nos sentidos. Já na Necessidade-Contingência, é algo cuja conexão com a experiência empírica está determinada por condições universais. Vamos a um exemplo. Um dragão voador de escamas verdes ou um triângulo cujos ângulos somam 180 graus são conceitos logicamente possíveis, ou seja, não envolvem contradição formal. No entanto, apenas um objeto sensorialmente verificável, como a caneta sobre a sua mesa, tem a marca da existência. Já o fato de que um objeto massivo abandonado no ar cairá em direção ao solo é uma necessidade ditada pelas leis empíricas que o entendimento prescreve à natureza, ou seja, atribui a ele.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Acima dessas estruturas, Kant postulou a apercepção ou apercepção transcendental, que é o processo pelo qual a mente unifica de forma ativa diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Sem a apercepção, a mente seria apenas um amontoado de estímulos desconectados. Assim, a aperceção a base da própria consciência humana. Devido a essa complexa mediação ativa da mente, Kant estabeleceu uma distinção insuperável entre o mundo externo e a mente. Isso significa dizer que nós não temos acesso à “coisa em si”, ou noumenon, mas apenas a como as coisas nos aparecem, ou seja, na forma de fenômeno, já devidamente processadas pelo nosso aparato cognitivo. Neste sentido, É importante distinguir o “Eu empírico”, ou seja, aquilo que observamos em nós mesmos, como nossa personalidade ou o nosso humor, do “Eu transcendental”, a pura unidade lógica do “Eu penso”. Ademais, a apercepção transcendental não é uma faculdade psicológica de “prestar atenção”, mas uma exigência lógica. Para que uma experiência seja minha, o “Eu penso” deve poder acompanhar todas as minhas representações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Os Vetos Kantianos à Psicologia Científica ===&lt;br /&gt;
Apesar de ter colocado o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que conhece, no centro do universo epistemológico, Kant foi muito crítico sobre a possibilidade de a psicologia se tornar uma ciência. Em sua obra Princípios metafísicos da ciência da natureza, de 1786, ele negou a possibilidade de uma psicologia científica, pois afirmou que uma disciplina só poderia Sê-lo se possuísse uma elaboração racional capaz de fornecer leis formuladas matematicamente, o que poderia ser chamado de veto matemático. A psicologia falhava nesse critério porque os eventos mentais possuem apenas a dimensão do tempo, sem nenhuma extensão espacial, o que impossibilitaria a sua matematização. Para Kant, assim como o espaço é a forma do sentido externo, o tempo é a forma pura do sentido interno. Como os estados mentais só se dão na sucessão do tempo (sem extensão espacial), eles não formam figuras nem podem ser medidos geometricamente, inviabilizando a matemática.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Kant apontou a impossibilidade de isolar diferentes pensamentos para a realização de experimentos controlados. Assim, como não podemos acessar o que seria o conteúdo da mente, cercá-la e analisá-la como ela é em seu estado bruto ou natural, qualquer experimentação seria impossível, o que poderia ser chamado de veto do objeto. Por fim, ele reforçou a crítica que já era direcionada a Wolff, aquele do começo dessa seção. A introspecção como método, segundo Kant, seria inviável porque a própria tentativa de observar um fenômeno interno altera o fenômeno, o veto metodológico. Se tento observar minha própria tristeza, por exemplo, o fenômeno original desaparece e se transforma em “tristeza-sendo-observada-por-mim”, misturando sujeito e objeto de tal maneira que corrompe a objetividade. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A impossibilidade de uma psicologia científica não significava, contudo, a impossibilidade de estudar a mente e o comportamento. Kant trabalhou e lecionou com o que chamou de Antropologia Pragmática. Enquanto a psicologia empírica tentava, em vão, segundo ele, ser uma ciência exata, a antropologia pragmática estudava “o que o homem, como ser livre, faz, ou pode e deve fazer de si mesmo”. Era um estudo prático do comportamento, das paixões, da memória e da cognição, focado na vida em sociedade. De certo modo, pode-se dizer que Kant fechou a porta para a psicologia mecanicista, ou ainda, uma psicologia como ciência exata, mas ajudou a abrir uma janela imensa para as ciências humanas e sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Emergência do Neokantismo Fisiológico e as Primeiras Aproximações para a Psicologia Científica ==&lt;br /&gt;
A primeira metade do século XIX na Alemanha foi inicialmente dominada pelo Idealismo Pós-Kantiano (Hegel, Fichte, Schelling), que propunha sistemas metafísicos grandiosos onde a realidade era essencialmente racional e espiritual. Contudo, a partir da década de 1850, o forte avanço das ciências naturais, como a fisiologia e a química, gerou uma importante reação materialista, consolidados nas figuras de Feuerbach, Vogt, Büchner e outros, que passaram a ridicularizar a filosofia idealista como mera especulação vazia. A metafísica, vista como uma das glórias da filosofia e do pensamento humano, passou a ser vista cada vez mais como um discurso com pouco ou nenhum lastro na realidade. Essa mudança foi muito importante para a história da psicologia científica, pois foi devido a esse contexto que foram formulados os primeiros experimentos voltados para o que seria, no futuro, a psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Johannes Müller e a Teoria das Energias Nervosas Específicas ===&lt;br /&gt;
Neste período, a fisiologia se estabeleceu como uma ciência rigorosa e extremamente respeita, liderada por figuras como Johannes Müller. Müller, professor na Universidade de Berlim, publicou seu Manual de Fisiologia Humana (1833-1840), que sistematizou o conhecimento fisiológico da época e transformou a compreensão da percepção. Até o final do século XVIII, ela era explicada pela Teoria da impressão da sensação, derivada da física newtoniana e do empirismo britânico. Esse modelo assumia que o sistema nervoso era um meio homogêneo e passivo que simplesmente “transportava” as qualidades dos objetos externos para a mente, como se a sensação fosse uma cópia exata do estímulo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Johannes Müller revolucionou esse entendimento ao formular a Teoria das energias nervosas específicas (1826). Ele provou, através de experimentos, que a estimulação de um determinado nervo sensorial sempre provoca uma sensação característica e exclusiva daquele nervo, independentemente da natureza do estímulo físico externo. Em outras palavras, a qualidade da sensação não pertence ao objeto físico, mas sim à estrutura do próprio aparato sensorial humano. O mesmo estímulo pode produzir sensações completamente diferentes dependendo de qual via nervosa é ativada. Por exemplo, ao aplicar sal na pele, na língua e nos olhos, as sensações serão totalmente distintas, todas diretamente relacionadas às especificidades do aparelho sensorial que foi ativado. É importante entender que isso não acontece por conta da especificidade das características do estímulo, como o sal ser “salgado”. A pele produz apenas sensações táteis, ainda que o estímulo não seja tátil. Isso cria um problema de confiança naquilo que percebemos sensorialmente, pois mostra que os órgãos não enviam apenas propriedades dos objetos, mas antes operam apenas de modo específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, Müller, por meio de experimentos, mostrou que os objetos físicos projetam imagens invertidas na retina, mas nós os percebemos na posição correta. Ele mostrou também que, embora as imagens projetadas nas duas retinas sejam levemente diferentes, o cérebro as unifica em uma única imagem tridimensional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Essas descobertas trouxeram Kant para o terreno da biologia, inclusive pelo próprio Müller que, apesar de não ser neokantiano, viu suas descobertas científicas influenciarem profundamente a primeira geração deles. O sistema nervoso não é um receptor passivo, antes, ele medeia, molda e traduz ativamente a realidade externa. A sensação deixou de ser vista como uma cópia do mundo e passou a ser um enigma, que pode ser analisado a partir da seguinte pergunta: “o que existe entre o estímulo físico e a sensação subjetiva?”. Este é o mundo do primeiro projeto de psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Hermann von Helmholtz e o Neokantismo Psicofisiológico ===&lt;br /&gt;
A ponte definitiva entre a epistemologia kantiana e a prática laboratorial foi construída por um antigo aluno de Johannes Müller, Hermann von Helmholtz (1821-1894). Ele colaborou no desenvolvimento do neokantismo psicofisiológico ou neokantismo fisiológico. Ele entendeu que as descobertas de seu professor forneciam a base material exata para a teoria do conhecimento de Kant. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1855, Helmholtz argumentou que as estruturas a priori propostas por Kant como condições de possibilidade da experiência eram, na verdade, características da anatomia e da fisiologia do aparato perceptivo humano. Ao “naturalizar” a filosofia de Kant, Helmholtz formulou a sua teoria dos signos, que postula que nossas sensações e percepções não são cópias diretas da realidade, mas sim símbolos ou signos gerados pelo nosso sistema nervoso em resposta aos estímulos. Para explicar como construímos uma imagem coerente e espacial do mundo a partir desses signos neurológicos isolados, Helmholtz introduziu o conceito de inferências inconscientes.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Segundo essa teoria, a mente realiza uma série de ajustes e cálculos automáticos, baseados na experiência e na aprendizagem contínua, para interpretar os dados sensoriais. A percepção de profundidade, a posição espacial e a resolução de duas imagens retinianas em uma única visão estereoscópica não são inatas, como defendia o nativismo de Ewald Hering ou o próprio Müller, mas são aprendidas empiricamente através do movimento do corpo e da repetição das sensações. O espaço perceptivo atua como uma linguagem que a mente usa para interpretar os dados fisiológicos brutos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com isso, Helmholtz fundou o projeto de uma psicologia fisiológica autônoma, diferente da psicologia filosófica discutida na época. Ele concordou com Kant que a introspecção tradicional era um método falho, que podia conduzir a ilusões porque o observador só capta a superfície consciente do pensamento. A solução de Helmholtz foi submeter o sujeito da experiência a condições de laboratório rigorosamente controladas. Se as condições da percepção dependem de mecanismos fisiológicos, então a única forma de fazer epistemologia científica é através da experimentação fisiológica e da ótica. O sujeito do conhecimento tornou-se, assim, um objeto, que poderia ser manipulado e analisado em laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Suas contribuições não acabam por aí. Antes das pesquisas de Helmholtz, a comunidade científica acreditava que o impulso nervoso era instantâneo ou rápido demais para ser mensurado. Em 1850, estimulando um nervo motor na perna de uma rã e medindo o tempo da contração muscular, ele obteve o registro da velocidade de condução neural, que é de aproximadamente 27 metros por segundo, provando que havia “algo” entre o estímulo e a percepção que poderia ser analisado cientificamente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também mediu o tempo de reação de nervos sensoriais em humanos. Essa descoberta provou que o pensamento e o movimento corporal não ocorrem simultaneamente, mas são separados por um intervalo de tempo mensurável. Essa foi a base que abriu caminho para os experimentos de tempo de reação e cronometria mental que dominariam o laboratório de Wundt décadas depois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== F. A. Lange e o Projeto de uma “Psicologia Sem Alma” ===&lt;br /&gt;
O segundo pilar desse “retorno a Kant”, também de matriz fisiológica, foi erguido pelo filósofo e sociólogo Friedrich Albert Lange (1828-1875). Lange foi uma figura central na “controvérsia materialista” que agitava a Alemanha. Ele rejeitava tanto os “delírios” dos sistemas idealistas metafísicos quanto o reducionismo ingênuo do materialismo científico de Vogt e Büchner. Em sua influente obra História do Materialismo, de 1866, Lange defendeu que a limitação proposta por Kant é absoluta, ou seja, não temos e nem nunca teremos acesso à essência última da realidade, às coisas em si. Nosso conhecimento se restringe aos efeitos das coisas, ou seja, os fenômenos, que nos aparecem totalmente moldados pela nossa organização mental e neurológica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Lange argumentou que a impossibilidade de conhecer a essência não impede o estudo científico rigoroso das “aparências”, ou seja, sobre como as coisas nos aparecem. Para viabilizar esse estudo, Lange atacou as psicologias filosóficas do passado, que versavam debates que ele ele entendia estéreis sobre a natureza, a imortalidade e a substancialidade da “alma”. Para Lange, a alma era um conceito vazio, um “mito antigo” que forçava a psicologia a operar sobre pressupostos metafísicos inverificáveis. Em resposta, ele propôs a criação de uma psicologia sem alma, ou, em outras palavras, uma psicologia sem metafísica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste novo paradigma, o objeto de estudo da psicologia deveria ser reduzido aos dados empíricos observáveis, incluindo a sensação, a percepção, a ação e a linguagem, sempre buscando o seu correlato fisiológico. Lange rejeitou a introspecção puramente filosófica, pois a auto-observação isolada é privada, não pode ser repetida, não permite a presença de observadores externos e leva invariavelmente a ilusões verbais. Segundo ele, essa introspecção conduzia o pesquisador a substancializar conceitos como “vontade” ou “pensamento”, sem nenhum lastro empírico ou experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A única saída para a psicologia tornar-se verdadeiramente científica era abraçar a metodologia das ciências naturais. Apoiando-se no trabalho de Helmholtz e nas medições pioneiras de psicofísicos como Ernst Weber e Gustav Fechner, Lange prescreveu que a psicologia deveria investigar as leis fisiológicas da percepção e medir a correlação exata entre estímulos físicos e respostas sensoriais, como nos tempos de reação e nos limiares diferenciais. A psicologia passava a ser entendida não como a ciência do espírito transcendente, mas como a ciência psicofisiológica que estuda experimentalmente as condições de possibilidade da experiência, trazendo o sujeito transcendente de Kant para uma fisiologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Fechner e a Fundação da Psicofísica ===&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner (1801–1887) foi um físico e metafísico alemão e antigo aluno de Weber. Apesar de não ser um neokantiano, ele tem uma importância fundamental para este momento da fundação da psicologia experimental, tendo sido citado e adotado por neokantianos. Ele assumiu a prestigiada e importante cadeira de física da Universidade de Leipzig em 1834, enquanto produzia sátiras sobre temas metafísicos e artísticos sob um pseudônimo. Após uma série de experimentos em que observava diretamente o Sol, feriu gravemente suas retinas, evento que o conduziu a um colapso físico e mental. Teve uma recuperação milagrosa em 1843, quando tentou observar flores em seu jardim e, por meio de uma experiência mística, observou que a natureza brilhava de dentro para fora, de onde concluiu que o universo era dotado de alma e consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esssa experiência decisiva levou-o a dedicar sua vida ao combate do materialismo científico, que ele denominava visão noturna, que via o mundo como uma matéria inerte e sem vida. Já a sua visão diurna entendia que a matéria era a manifestação da consciência universal divina, uma cosmovisão espiritualista que pode ser entendida como panpsiquista, ou seja, todos os corpos físicos possuem uma forma de alma. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Foi buscando provar sua visão que Fechner entendeu que poderia provar empiricamente a relação entre a mente (ou o espírito) e o corpo (ou a matéria) se encontrasse uma relação matemática constante entre a intensidade do estímulo físico e a magnitude da sensação psíquica correspondente. Isso porque Fechner percebeu que um aumento na intensidade do estímulo físico não gerava um aumento equivalente e proporcional na sensação subjetiva. A relação não era linear, mas sim proporcional, pois o estímulo físico aumentava em uma progressão geométrica, enquanto a sensação psíquica crescia em uma progressão aritmética. Por exemplo, acrescentar o som de um sino a outro que já está tocando gera um forte impacto perceptivo, pois é possível distinguir claramente que passou-se de um para dois sinos. Já acrescentar um sino a uma dezena deles produz uma alteração quase imperceptível. A sensação dependia, portanto, do nível de estimulação já existente no sistema.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para dar sustentação empírica à sua teoria, Fechner apropriou-se dos trabalhos experimentais realizados por Weber, que havia formulado a teoria da diferença mínima perceptível, demonstrando que a sensibilidade humana não avaliava diferenças absolutas entre estímulos, mas sim relações relativas ou proporcionais. Weber observou que, ao levantar pesos, os sujeitos conseguiam detectar uma variação mínima correspondente a uma fração constante de aproximadamente 1:40 em relação ao peso padrão. Essa constância proporcional é descrita pela chamada Lei de Weber:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
II=K&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde I representa a intensidade do estímulo padrão (que aparecerá como R posteriormente), ΔI é o acréscimo mínimo necessário para produzir uma mudança perceptível na sensação e k é uma constante matemática específica para cada modalidade sensorial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Fechner percebeu que essa fração constante (ΔI/I) correspondia à unidade de medida da sensação subjetiva (dS). Utilizando o cálculo infinitesimal, Fechner integrou matematicamente a equação de Weber, assumindo que todas as diferenças mínimas perceptíveis eram subjetivamente iguais entre si. Essa operação matemática resultou na célebre Lei de Fechner ou Lei de Weber-Fechner:&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
S = k Log R&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Onde S representa a magnitude da sensação subjetiva (qualidade mental), R representa a intensidade física do estímulo (qualidade material) e K é uma constante experimental ajustada a cada sentido. Essa fórmula logarítmica foi construída para mostrar que, para a sensação aumentar linearmente, o estímulo físico precisava crescer exponencialmente, estabelecendo uma relação exata e mensurável entre o psíquico e o físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para aplicar sua fórmula, Fechner sistematizou dois conceitos fundamentais que estruturam as medições psicofísicas. A primeira é o limiar absoluto, ou seja, o ponto de intensidade física mínima abaixo do qual o estímulo não é detectado pelo sujeito e acima do qual a sensação passa a ser percebida. Outro conceito é o de limiar diferencial, que é a quantidade mínima de alteração ou variação que deve ser aplicada a um estímulo para que o sujeito seja capaz de discriminar uma mudança na sensação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um desdobramento fascinante da Lei de Fechner ocorreu quando o estímulo físico apresentava valores abaixo do limiar absoluto (R&amp;lt;1), resultando em valores negativos para a sensação (S). Fechner definiu esses valores como sensações negativas ou subliminares, postulando a existência de processos mentais ativos abaixo do limiar da consciência desperta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para determinar com precisão científica os limiares absolutos e diferenciais, Fechner desenvolveu e padronizou três metodologias experimentais rigorosas, que se tornaram os pilares metodológicos de toda a psicologia experimental posterior. No Método do Erro Médio ou do Ajuste, o próprio sujeito experimental manipula ativamente um instrumento para ajustar um estímulo variável até que sinta que este se iguala a um estímulo padrão constante. A média dos desvios entre os ajustes do sujeito e o padrão real define o erro de observação.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já no Método do Estímulo Constante ou dos Casos Corretos e Incorretos, o pesquisador apresenta de forma aleatória uma série de estímulos pré-determinados e constantes em comparação com um estímulo padrão. O sujeito deve julgar se o estímulo de comparação é maior, menor ou igual ao padrão, medindo-se a proporção estatística de acertos. Por fim, no Método dos Limites ou das Diferenças Mínimas Perceptíveis, dois estímulos são apresentados ao sujeito. Um deles é aumentado ou reduzido sistematicamente em passos discretos e graduais, e o sujeito relata o momento exato em que deixa de perceber ou passa a perceber a diferença entre ambos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1860, Fechner publicou seu livro monumental, Elementos de Psicofísica, que alguns entendem ser o primeiro sobre a psicologia científica experimental. Ao fornecer à psicologia técnicas de medição coerentes e precisas, Fechner provou de forma contundente que a mente humana era passível de investigação científica e experimental, sepultando em definitivo o antigo veto imposto por Immanuel Kant, em pleno momento de desenvolvimento do Neokantismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Incomodados com as inclinações metafísicas e espiritualistas de Fechner, os psicólogos experimentais subsequentes, sob a liderança de Wilhelm Wundt, rejeitaram completamente o panpsiquismo entre outras ideias, apropriando-se exclusivamente de seus métodos quantitativos de laboratório para estabelecer a psicologia como uma ciência empírica e natural. Como bem observou o historiador Edwin G. Boring, Fechner agiu como um “Colombo que descobriu um Novo Mundo (a psicologia científica) enquanto procurava pelas antigas Índias (a prova de sua metafísica)”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Resumindo ===&lt;br /&gt;
A intersecção entre a epistemologia kantiana, a fisiologia de Müller e a reformulação promovida por Helmholtz e Lange constituiu o início daquilo que tornou possível a psicologia científica. Kant havia mostrado que o sujeito constrói ativamente a realidade, mas negou que esse sujeito pudesse ser estudado matematicamente ou experimentalmente. Müller transferiu a estrutura ativa da mente para os nervos sensoriais específicos. Helmholtz e Lange reinterpretaram as pesadas categorias transcendentais de Kant como mecanismos biológicos e perceptivos operando através de inferências inconscientes e leis fisiológicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao “naturalizar” a Crítica da Razão Pura, o Neokantismo Psicofisiológico resolveu o veto de Kant a uma psicologia científica. Se os limites e as formas do nosso conhecimento são determinados pelo nosso sistema nervoso e sensorial, então o estudo epistemológico da mente deve ser feito no laboratório de fisiologia, estudando principalmente a percepção. A exigência de matematização foi superada pelas leis da psicofísica de Fechner e Weber, e o problema da introspecção descontrolada foi resolvido pelo uso de instrumentos de precisão, como cronoscópios, além de métodos de medidas de limiar, controle de estímulos, erros médios, entre outros, que transformavam as respostas subjetivas em dados objetivos, replicáveis e mensuráveis. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esse foi o cenário epistemológico e institucional que Wilhelm Wundt encontrou e ajudou a consolidar. Wundt não fundou a psicologia a partir do nada em 1879. Seu Instituto em Leipzig foi organização metodológica e teórica de décadas de esforços em que a filosofia foi obrigada a dialogar com os nervos, os músculos e os tempos de reação, transformando para sempre a especulação sobre a alma em uma rigorosa ciência da experiência imediata. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ironicamente, escolas neokantianas posteriores, como a Escola de Marburgo, foram focos de resistência à psicologia experimental, alegando que o sujeito do conhecimento de Kant era de ordem puramente transcendental e lógica, e não empírica ou mensurável, ou seja, rejeitando a “biologização” do pensamento kantiano e a consequente criação da psicologia experimental. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Além disso, conforme mostra Gundlach, a criação de uma posição acadêmica e o laboratório de psicologia por Wundt não se deu por conta de um amplo reconhecimento da superioridade do pensamento wundtano, mas sim por conta de disputas políticas e institucionais nas universidades alemãs. De qualquer forma, Wundt conseguiu desenvolver bem sua teoria ao longo de sua vida e conseguiu estabelecer-se na proeminência da psicologia científica.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia de Wundt ==&lt;br /&gt;
Wilhelm Maximilian Wundt é, na historiografia da psicologia, uma figura ao mesmo tempo onipresente e bastante malcompreendida. Freqüentemente reduzido ao título de “fundador do laboratório de Leipzig”, essa simplificação negligencia sua estatura como um dos últimos grandes arquitetos de sistemas do século XIX, cujo Systemgedanke (pensamento sistêmico) buscava integrar a psicologia como uma propedêutica fundamental para a filosofia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Recuperar o Wundt original exige preencher uma vasta lacuna historiográfica vasta, a começar pela superação das distorções da tradução de E.B. Titchener para o contexto anglo-americano, que foi formulada para aproximar suas ideias e perspectivas daquelas de Wundt, visando uma “confirmação” de suas ideias. Em primeiro lugar, é necessário reejeitar a classificação de Wundt como um estruturalista ou associacionista clássico. O sistema wundtiano é essencialmente dinâmico e centrado no voluntarismo. Para Wundt, a vontade e os processos afetivos não são meros epifenômenos, ou seja, um fenômenos secundários ou acessórios que acompanhma um fenômeno principal, mas o eixo organizador da consciência ativa. Esta reconstrução crítica visa resgatar a autonomia epistemológica de uma ciência que define seu objeto não como uma substância, mas como a experiência em sua totalidade imediata.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Experiência Imediata, o Objeto de Estudo da Psicologia ===&lt;br /&gt;
Ao definir seu objeto, Wundt deu um passo decisivo para dar à psicologia autonomia perante as outras ciências naturais. Ele propõe que a experiência é uma unidade indivisível. Mas o que ele quer dizer por “experiência”? Uma definição poderia ser a totalidade dos processos conscientes, englobando sensações, sentimentos, representações e volições (vontades), apreendida da exata forma como se apresenta diretamente ao sujeito, sem qualquer abstração conceitual ou mediação de instrumentos externos. Ou seja, a experiência de Wundt seria como tudo o que se passa na mente, exatamente como ela aparece para uma pessoa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para ele, a experiência pode ser analisada a partir de duas perspectivas: a mediata e a imediata. A experiência ediata pertence ao domínio das Naturwissenschaften, ou ciências naturais, como a física e a química. Ela seria a a experiência objetiva, focada totalmente nos objetos do mundo externo que, se pensados de maneira isolada, são independentes do sujeito. Ela é chamada de mediata porque o acesso a essa realidade é indireto, ou seja, ela precisa de uma mediação. Essa mediação são conceitos teóricos e construções auxiliares e as características cognitivas e biológicas do próprio sujeito que interpreta os dados sensoriais brutos utilizando suas crenças, conhecimentos e expectativas. Isso não significa que a ciência natural esteja errada, mas sim que ela possui um recorte de interesse diferente do recorte da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O domínio da psicologia seria a experiência imediata, subjetiva, que é a experiência em sua realidade concreta, direta e intuitiva, apreendida antes de qualquer conceituação, teorização ou abstração. Ou seja, é a experiência antes de ela adquirir qualquer camada de compreensão, que seriam mediadores, por isso é imediata, sem mediação. Ela envolve o processamento de elementos sensoriais simples, como cor, som, temperatura, e de sentimentos simples, como prazer e desprazer. Ela diz respeito ao modo puro de funcionamento mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Vamos a um exemplo, desta vez no campo do som. Na perspectiva mediata, o cientista natural abstrai o sujeito e estuda o som de forma indireta e conceitual. Ele utiliza aparelhos para medir as ondas sonoras e a sua propagação física pelo ar. O objeto físico “som” é, portanto, mediado e traduzido por conceitos de frequência, amplitude e decibéis. Já sob a perspectiva imediata, que é a da psicologia, o psicólogo estuda a sensação direta e em si mesma do tom no momento exato em que ele aparece na consciência. A análise está na vivência concreta do sujeito, que inclui a qualidade do tom, a sua intensidade subjetiva, a tonalidade afetiva de prazer ou desprazer que o acompanha e o processo ativo da atenção (apercepção, que será tratada mais adiante) que coloca aquele som no foco da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se olharmos desta vez para as cores, na visão mediata, ciência natural estuda o azul abstraindo a experiência do sujeito. A física o descreverá de forma conceitual como uma radiação eletromagnética com determinado comprimento de onda atingindo a retina. Para a psicologia de Wundt, o azul é investigado como um dado imediato e real na consciência do sujeito no momento da percepção interna. O foco não está nas propriedades físicas do estímulo, mas sim na reação subjetiva e ativa do cérebro vivo a esse estímulo, que gera a qualidade imediata da cor na experiência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conduzindo seus estudos, Wundt também identificou aquilo que denominou causalidade psíquica. Ao nos lembrarmos de um fato triste, a fisiologia explicaria a tristeza de forma conceitual e indireta, por meio de correntes elétricas no córtex cerebral, liberação de hormônios ou atividade de sinapses nervosas. Já o psicólogo observa a conexão de processos internos como elas ocorrem diretamente na consciência do sujeito, como a ligação da lembrança triste a um sentimento de angústia. A causalidade psíquica é uma causalidade própria da mente e irredutível às leis físicas da natureza, ou seja, não pode ser comparada à causalidade científica como a conhecemos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ao adotar a experiência como seu objeto, Wundt rompe com a psicologia da alma, filosófica e metafísica. Ele substitui a psicologia de substâncias, que postula uma entidade mental oculta, pela teoria da atualidade (Aktualitätstheorie), na qual o psiquismo é definido como um fluxo de processos em constante devir. Seu sistema está fundamentado em um monismo perspectivista. Em outras palavras, para ele, mente e corpo não são substâncias que interagem mecanicamente, mas perspectivas distintas sobre a mesma unidade da experiência (Erfahrung). A psicologia, portanto, não estuda um “mundo interno”, que está isolado do externo, ainda que em contato com ele, mas a totalidade da experiência humana sob o prisma da imediatidade. Essa transição do estatuto de substância “mente” ou algo semelhante para o de processo traz uma nova perspectiva, criando um objeto que pode ser alvo de experimentação científica, partindo de experimentos já criados pela psicofísica e ainda outros que seriam desenvolvidos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Psicologia Individual e Völkerpsychologie: dois métodos para manifestações da experiência ===&lt;br /&gt;
A arquitetura metodológica de Wundt responde ao desafio de investigar processos mentais que variam em complexidade. Ele estabelece que a psicologia deve ser compreendida como o fundamento das Geisteswissenschaften (ciências do espírito ou humanas). A Psicologia Individual foca nos processos elementares, que incluem sensação e percepção, que são passíveis de controle rigoroso em laboratório através da manipulação de estímulos externos e introspecção experimental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Entretanto, Wundt reconhece a insuficiência do experimento para os processos mentais superiores, como o pensamento e a linguagem, que são historicamente condicionados. Para estes, ele propõe a Völkerpsychologie , ou Psicologia dos Povos, dedicada ao estudo dos produtos das geistige Gemeinschaften (comunidades espirituais ou coletividades). Wundt vai apontar a linguagem, o mito e os costumes (Sitten) não são apenas dados culturais, mas objetivações de leis psíquicas superiores inacessíveis à introspecção de laboratório. Eles seriam produtos da experiência humana nas suas formas mais avançadas e superiores e, por não serem passíveis de experimentação, exigem uma outra abordagem. Essas duas vertentes, experimental e histórico-cultural, não são divergentes, mas sim o projeto integrador que permite apreender a mente tanto em sua base sensório-motora quanto em suas manifestações espirituais complexas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As investigações da psicologia dos povos focavam na alma do povo (Volksseele), definida como a realidade factual dos processos psíquicos que surgem em uma comunidade por meio da interação das energias mentais dos indivíduos. Essa “mente coletiva” se tornava um objeto tangível e investigável ao longo da história em três grandes produtos culturais. O primeiro é a linguagem (Die Sprache), ferramenta pela qual o pensamento é estruturado e externalizado. Já o mito e a religião são as formas como a imaginação e os sentimentos humanos coletivos projetam suas explicações sobre o cosmos e a existência. Os costumes (Sitten) e o direito, por sua vez, são  as regras de conduta coletiva que nascem de atos voluntários e impulsos compartilhados, padronizando as interações sociais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não podia realizar experimentos com culturas inteiras, Wundt operava por meio da pura observação retrospectiva e comparativa dos produtos mentais, ou seja, analisando os objetos já criados e usados ou em uso por diferentes povos e culturas, anotando suas diferenças e semelhanças. Wundt juntava, lia e analisava de forma exaustiva relatos históricos, estudos filológicos, dicionários, mitologias comparadas, códigos de leis e descrições etnológicas e antropológicas de povos ao redor do globo, ou seja, utilizava dos estudos de diferentes ciências humanas e sociais para extrair as leis psicológicas gerais do desenvolvimento mental humano por trás dessas manifestações. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Seu objetivo era mapear como a mente coletiva evoluía do simples para o complexo ao longo das eras, numa abordagem genética e desenvolvimentista e reconstruir, de forma retrospectiva, as forças dinâmicas, os afetos, os impulsos (Triebe) e os processos de síntese criadora (melhor discutida mais adiante) que estiveram ativos na mente das pessoas no momento de sua formação. Wundt dedicou os últimos 20 anos de sua vida (de 1900 a 1920) quase exclusivamente a esse empreendimento monumental, escrevendo dez volumes da sua obra Völkerpsychologie.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Apercepção ===&lt;br /&gt;
No contexto filosófico, como já visto, o conceito de apercepção remonta a Kant, que a definiu como o processo autônomo, ativo e prévio pelo qual a mente unifica diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Wundt adotou essa noção kantiana para fundamentar sua teoria da consciência, definindo apercepção como o processo psicológico ativo pelo qual um conteúdo psíquico (ou representação) é trazido à clareza máxima e ao foco da consciência, vindo necessariamente acompanhado pelo estado de atenção voluntária.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para explicar a dinâmica da consciência, Wundt utilizou uma famosa analogia com a visão para diferenciar apercepção e percepção. O campo visual da consciência (Blickfeld) corresponde à percepção, que é a simples entrada de uma representação na consciência de forma difusa, ampla e sem a presença focalizada da atenção. Já o ponto focal da consciência (Blickpunkt) corresponde à apercepção, que é a entrada de uma representação no ponto central de máxima clareza e foco estreito da atenção.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A apercepção, então, é uma manifestação primordial da vontade, funcionando como o princípio dinâmico que dá direção e estrutura tanto à experiência quanto ao movimento. Além disso, a apercepção pode ser ativa, que é quando o sujeito deliberadamente seleciona onde focará sua atenção, ou passiva, quando é o estímulo que se impõe no foco no sujeito. Por fim, a apercepção é o mecanismo central da operação da causalidade psíquica. É ela que unifica a mente em um sistema ativo, permitindo que a fusão de elementos resulte em sínteses criadoras com propriedades qualitativamente novas e imprevisíveis.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A Percepção Interna (innere Wahrnehmung) vs. Auto-observação (Selbstbeobachtung) ===&lt;br /&gt;
Para garantir o rigor procedimental e responder ao “desafio kantiano”, Wundt rejeitou a Selbstbeobachtung, que pode ser entendida como a auto-observação tradicional ou introspecção casual. Trata-se do método introspectivo puramente filosófico e especulativo que, segundo Wundt e outros, seria fonte de auto-ilusões e onde o ato de observar altera o fenômeno observado. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A solução científica é a innere Wahrnehmung, ou percepção interna, que permite a criação de um método científico baseado na repetição de estímulos externos controlados. No laboratório, o psicólogo replica condições experimentais que permitem a observação do aparecimento imediato do processo psíquico sob condições estáveis e previsíveis. O laboratório funciona, portanto, como o estabilizador do objeto psicológico, permitindo que a percepção interna atinja a precisão necessária para decompor a consciência em seus elementos fundamentais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Experimentos do Laboratório de Wundt ====&lt;br /&gt;
Vamos a alguns exemplos do que acontecia no laboratório de Wundt, para integrar melhor os conceitos já apresentados. O primeiro experimento foi concebido originalmente para descrever a “equação pessoal” que aparecia nas medições dos astrônomos. No caso, observava-se que astrônomos treinados, utilizando os mesmos equipamentos, discordavam de suas medições que, à época, eram feitas manualmente com ajuda de instrumentos. De alguma forma, estas diferenças nas medições pareciam ter um tipo de padrão. Neste experimento, Wundt utilizava um aparelho chamado medidor de pensamento (Gedankenmesser) e, posteriormente, o pêndulo de complicação (Complicationspendel). O dispositivo consistia em um grande relógio de pêndulo que possuía uma agulha cruzada, como uma agulha de tricô, capaz de golpear fisicamente um pequeno sino em um ponto exato do seu arco de oscilação. O sujeito do experimento deveria olhar para a escala do pêndulo e tentar determinar a posição exata do ponteiro no momento em que ouvia o sino tocar.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste experimento, Wundt descobriu que o sujeito sempre cometia um erro sistemático de registro, de aproximadamente um oitavo de segundo. Segundo ele, era impossível perceber visualmente a agulha e o som do sino ao mesmo tempo. Esse experimento seria uma prova laboratorial de que a consciência possui uma capacidade limitada e só consegue focar em uma única percepção por vez, como a diferença no marco da medição podia mostrar. A ilusão de simultaneidade devia-se apenas à rápida sucessão dos processos de atenção (apercepção).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os experimentos de tempo de reação, nosso segundo exemplo, constituíam o verdadeiro coração do trabalho em Leipzig na década de 1880. Wundt adaptou o método de subtração (Subtractiemethode), do fisiologista holandês F. C. Donders, para medir a velocidade de processos mentais complexos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para entender o experimento de Wundt, é necessário compreender que, para ele, uma reação consciente envolvia: &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
1- transmissão da sensação ao cérebro; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
2- entrada do estímulo no campo amplo da consciência (percepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
3- entrada no foco ativo da atenção (apercepção); &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
4- ato de vontade para liberar a resposta; &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
5- execução motora.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Cada um dessas partes exigem um certo tempo, pois são processos não imediatos. A depender de como as etapas do experimento são organizadas, diferentes tempos indicariam o acionamento maior ou menor de cada um deles. No experimento, o sujeito era treinado para responder pressionando uma tecla telegráfica ao ver um estímulo luminoso simples, como um flash de luz. Em seguida, a tarefa mais difícil. Duas imagens eram apresentadas, um círculo branco sobre fundo preto ou vice-versa, e o sujeito só deveria reagir após identificar com clareza qual imagem havia aparecido. Ao subtrair o tempo da reação simples do tempo da reação complexa, Wundt calculava o “tempo de apercepção” ou discriminação. Na primeira tese de doutorado em psicologia experimental da história, Max Friedrich, que atuou no experimento, mostrou que o tempo de discriminação aumentava de acordo com a complexidade do estímulo visual. Por exemplo, o sujeito levava mais tempo para aperceber e discriminar uma sequência de seis dígitos do que de apenas um ou dois.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O assistente de Wundt, Ludwig Lange, também colaborou no estudo ao desenvolver um experimento crucial. Ele demonstrou que os tempos de reação variavam drasticamente dependendo da preparação atencional do sujeito. Se a atenção estivesse focada no movimento de resposta que o dedo faria (reação muscular), o tempo era curto (cerca de 125 ms), pois funcionava como um “reflexo cerebral” que pulava a apercepção. Se o foco estivesse direcionado ao estímulo sensorial que iria surgir (reação sensorial), o tempo era cerca de 100 ms mais longo, pois envolvia o circuito completo da mente consciente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O terceiro experimento foi desenvolvido por Martin Trautscholdt, um dos estudantes de doutorado de Wundt. Ele estudava a associação de ideias. No seu estudo, o sujeito era instruído a pressionar uma tecla no momento exato em que uma ideia associada surgisse em sua consciência a partir de um estímulo visual ou auditivo. Ao subtrair o tempo que o sujeito levava para simplesmente reconhecer a palavra estimulante, Trautscholdt conseguiu quantificar o tempo gasto pela mente para realizar a conexão associativa propriamente dita que, segundo Trautscholdt, variava entre 706 e 874 ms. Wundt também adaptou a técnica de associação de palavras de Francis Galton, limitando a resposta do sujeito a apenas uma única palavra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O quarto e último experimento que será apresentado é relacionado a acordes musicais. Nele, sujeitos ouviam tons isolados no piano, que seriam as sensações puras, e depois os mesmos tons tocados simultaneamente. Os participantes descreviam em detalhes a transição afetiva de como a fusão física das frequências dava origem a um produto inteiramente novo na consciência, que seria o sentimento estético de harmonia e prazer decorrente de uma síntese criadora. Wundt conduzia vários experimentos em estética experimental, tal qual seu colega Fechner.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Arquitetura da Mente: Elementos, Fusão e Síntese Criadora ===&lt;br /&gt;
Segundo Wundt, a experiência pode ser decomposta em elementos simples, que incluem as sensações e os sentimentos simples. Os sentimentos, por sua vez, são entendidos a partir da teoria tridimensional dos sentimentos, onde eles se distribuem em um espaço qualitativo entre os polos prazer/desprazer (Lust-Unlust), tensão/relaxamento (Spannung-Lösung) e excitação/depressão (Erregung-Beruhigung). A primeira é a mais evidente, se refere à avaliação afetiva primária da experiência. A segunda se relaciona ao esforço da atenção ou à preparação interna da mente. Já a terceira está relacionada ao nível de ativação biológica e psicológica do organismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Esses aspectos todos são organizados através do mecanismo de fusão (Verschmelzung), onde as qualidades elementares se fundem em complexos psíquicos. O conceito central aqui é o princípio da síntese criadora (schöpferische Synthese). Ao contrário do associacionismo britânico, Wundt afirma que o todo resultante possui propriedades que não estão contidas na mera soma das partes. Essa síntese não é um processo mecânico passivo, mas um ato aperceptivo ativo, vinculado à vontade. Na mente humana, a combinação de elementos gera um valor novo e qualitativamente superior, marcando a distinção fundamental entre a causalidade psíquica e a mecânica física.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em termos simples, a síntese criadora estabelece que os complexos psíquicos, como representações, sentimentos compostos e afetos, embora formados pela união de elementos simples (sensações e sentimentos simples), possuem características qualitativas inteiramente novas que não pertencem a nenhum de seus elementos constituintes isolados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A fusão é o processo ativo e primário de integração psíquica. É através dela que os elementos sensoriais e afetivos brutos são ativamente sintetizados pela mente para dar origem a uma nova unidade psicologicamente complexa. A fusão é a geradora da síntese criadora. Para Wundt, a síntese criadora é a prova cabal da causalidade psíquica. Ela monstra que os fenômenos mentais obedecem a leis de conexão e geração próprias que não se ajustam às leis da física ou da fisiologia mecânica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Observemos isso com um exemplo já apresentado. Se você tocar no piano as notas Dó, Mi e Sol isoladamente, você terá apenas a experiência de três sensações auditivas distintas. No entanto, quando essas notas são tocadas simultaneamente, a fusão de seus elementos gera na consciência uma experiência qualitativamente nova, que seria um acorde musical. O sentimento de harmonia e a qualidade estética do acorde são um produto da síntese criadora, pois não existiam em nenhuma das notas isoladas e surgem puramente da atividade unificadora da mente sobre o estímulo físico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Paralelismo Psicofísico e Causalidade Psíquica ===&lt;br /&gt;
O paralelismo psicofísico foi um dos conceitos mais importantes e debatidos no século XIX durante o processo de fundação da psicologia científica. Ele surgiu como uma alternativa teórica para solucionar o clássico problema mente-corpo. O conceito foi formulado de forma a tanto o dualismo substancial, que dividia o ser humano em duas substâncias isoladas cuja forma de interação era desconhecida, quanto o materialismo reducionista, que reduzia a mente a uma mera secreção cerebral ou processo físico ou fisiológico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para Fechner, o paralelismo era a manifestação de um monismo neutro, ou teoria de duplo aspecto. Ele defendia que a matéria (corpo) e o espírito (mente) não são substâncias diferentes, mas sim dois modos de aparência ou perspectivas distintas de uma única e mesma realidade subjacente, teoria sobre o qual fundamental grande parte de seu projeto científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt também adotou o termo paralelismo psicofísico, mas realizou uma redefinição epistemológica radical do conceito, visando se afastar da metafísica. Ele rejeitava categoricamente qualquer tentativa de transformar o paralelismo em uma doutrina ontológica sobre a natureza última da realidade, transformando-o estritamente um postulado metodológico e heurístico indispensável para a investigação científica. Os processos mentais não sejam reduzidos a processos fisiológicos ou neurais, pois a consciência obedece a leis de conexão próprias, como a causalidade psíquica, que não podem ser explicadas pelas leis da mecânica cerebral.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O que Aconteceu Depois? ===&lt;br /&gt;
No final de sua vida, Wilhelm Wundt era visto de forma ambivalente. Enquanto mantinha o prestígio de fundador da psicologia científica, uma nova geração de psicólogos que buscava se firmar, via como um “pai tribal”, cujo longo domínio de mais de quatro décadas estava desgastado. Ele se tornou o alvo de críticas severas e passou a ser tratado por muitos como o ícone de um passado superado e falido.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante a Primeira Guerra Mundial e nos anos que a sucederam, a reputação internacional de Wundt sofreu graves danos. Influenciado por seu filho Max, Wundt adotou posturas políticas ultranacionalistas, chegando a usar a Völkerpsychologie de maneira tendenciosa para criticar os inimigos da Alemanha. Essa postura inflamou um forte preconceito anti-alemão, especialmente nos Estados Unidos, onde ex-alunos e intelectuais americanos passaram a ver ele como uma mente maligna e autoritária, acelerando a rejeição de suas obras em solo estrangeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A maior frustração de Wundt no fim da vida ocorreu no âmbito acadêmico alemão. Ele sempre defendeu que a psicologia era uma ciência propedêutica e uma aliada indispensável da filosofia, devendo permanecer integrada a esta. No entanto, os filósofos acadêmicos de sua época, especialmente os neokantianos e fenomenologistas, rejeitaram veementemente o  que chamavam de “psicologismo de Wundt”, ou seja, a redução da lógica e da validade do conhecimento a fatos psicológicos. Em 1913, após a contratação de um psicólogo experimental para a cadeira de filosofia em Marburg, mais de cem professores de filosofia assinaram um protesto público exigindo que psicólogos fossem banidos dos departamentos de filosofia. Esse movimento resultou no progressivo divórcio institucional entre a psicologia e a filosofia, uma separação que Wundt lamentou e combateu até a sua morte em 1920.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A partir da década de 1890, uma forte onda de positivismo, inspirada pela filosofia de Ernst Mach e Richard Avenarius, varreu a psicologia experimental. Jovens psicólogos, incluindo os assistentes do próprio Wundt, rejeitaram conceitos fundamentais do sistema de Leipzig, como a apercepção, a causalidade psíquica e a síntese criadora, tomando eles como metafísica, exatamente o oposto do que desejava seu formulador. Eles preferiam um modelo elementarista e reducionista, focado na descrição de relações funcionais.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nos EUA, a influência da teoria da evolução de Darwin deslocou o interesse da estrutura da consciência para as suas funções de adaptação ao meio, o chamado funcionalismo. Com o surgimento e o fortalecimento do behaviorismo e a eliminação da mente como objeto de estudo, o voluntarismo de Wundt perdeu qualquer espaço. Na Europa, a própria psicologia da Gestalt ergueu-se combatendo o elementarismo que havia sido falsamente associado a Wundt. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O golpe final veio após a Primeira Guerra Mundial, quando a Alemanha mergulhou em colapso econômico. Diante da “crise da psicologia”, os pesquisadores precisaram provar a utilidade prática da ciência que praticavam para sobreviver, o que já acontecia nos EUA, voltando-se para a psicologia militar, industrial, educacional e clínica. Wundt, que sempre desprezou a psicologia aplicada, teria visto seu sistema dinâmico de laboratório perder todo o fôlego diante das pressões pragmáticas da época, ainda que mantivesse sua fama e sua alcunha maior.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Psicologia Científica na Inglaterra ==&lt;br /&gt;
O surgimento da psicologia na Inglaterra seguiu um caminho bastante distinto do modelo laboratorial alemão, focado na introspecção e na busca de leis universais. A psicologia britânica formou-se na intersecção de duas grandes forças intelectuais, que são as filosofias empirista e associacionista, e a biologia evolutiva. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No empirismo, pensadores como John Locke postularam que a mente humana nasce como uma tabula rasa ou uma folha em branco, e que absolutamente todo o conhecimento deriva da experiência sensorial. No associacionismo, filósofos como David Hume, James Mill e John Stuart Mill afirmavam processos mentais complexos são formados pela associação contínua de ideias simples e sensações, governadas por leis lógicas. tais como similaridade, contiguidade e causa e efeito. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A despeito de sua rica tradição filosófica, o maior divisor de águas para a ciência britânica foi a publicação de A Origem das Espécies, em 1859. A teoria da evolução natural de Darwin, trouxe novas e profundas questões para o estudo da mente britânica. Se humanos e animais compartilham ancestrais comuns, argumentava-se que deveria haver uma continuidade não apenas física, mas também mental entre as espécies, conectando a psicologia ao estudo da zoologia, dando origem à Psicologia Comparada. Além disso, a mente e a consciência deixaram de ser vistas apenas como objetos metafísicos e passaram a ser estudadas como ferramentas biológicas de adaptação, que evoluíram porque ajudavam o organismo a sobreviver em seu ambiente, sendo fundamental para a criação do funcionalismo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a validação da biologia evolutiva, o estudo da inteligência animal explodiu no Reino Unido, George Romanes foi um dos primeiros a tentar sistematizar o comportamento animal. Contudo, seu método anedótico foi duramente criticado por ser antropomórfico, ou seja, por atribuir pensamentos e emoções humanas complexas a animais. Seu colega Conwy Lloyd Morgan introduziu mais rigor científico à área através do que ficou mundialmente conhecido como o Cânone de Morgan, ou princípio da parcimônia. A regra dizia que um comportamento animal não deve ser interpretado como resultado de uma faculdade mental superior se puder ser explicado por um processo psicológico mais básico, como o instinto ou o aprendizado por tentativa e erro. Apesar de a perspectiva de ambos ter sido abandonada, a Psicologia Comparada se tornou um dos principais ramos da psicologia moderna.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Francis Galton e a Psicologia Diferencial ===&lt;br /&gt;
Francis Galton (1822-1911) foi um cientista e polímata britânico de inteligência extraordinária, com um QI estimado por volta de 200, algo extremamente raro, além de ser primo de Charles Darwin. Galton é amplamente reconhecido como pioneiro ao incorporar o estudo sistemático das diferenças individuais e da herança mental na nova psicologia, uma área que era ignorada ou rejeitada por pioneiros experimentalistas como Wilhelm Wundt.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Galton interessou-se pela medição das variações da inteligência e das capacidades humanas. Ele fundou um laboratório antropométrico onde testou a acuidade sensorial, a força e os tempos de reação de milhares de pessoas. Além disso, baseando-se na premissa empirista de John Locke de que todo o conhecimento vem da percepção, Galton assumiu que os indivíduos mais inteligentes seriam aqueles com as capacidades sensoriais e motoras mais aguçadas. Ele foi o inventor do conceito de testes mentais, termo posteriormente cunhado por seu aluno dos EUA, James McKeen Cattell. Galton também desenvolveu o método experimental de associação de palavras, medindo o tempo de reação mental e demonstrando a enorme influência das experiências da infância e do inconsciente no pensamento adulto, um trabalho que impressionou profundamente Sigmund Freud. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ele também foi um dos primeiros a fazer uso amplo do questionário psicológico para investigar imagens mentais, constatando para sua própria surpresa que a maioria dos cientistas relatava ausência de imagens mentais nítidas, em contraste com relatos muito mais detalhados fornecidos por mulheres e crianças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para conduzir medições em larga escala, ele inventou vários instrumentos clássicos e, para analisar suas enormes bases de dados, Galton desenvolveu conceitos estatísticos fundamentais, como a correlação. Essa tradição quantitativa foi depois aperfeiçoada por outros britânicos, como Charles Spearman, criador da análise fatorial e do conceito de fator g de inteligência geral, fundando a base da psicometria moderna. e influenciando de forma decisiva a psicologia dos testes nos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Conclusão ==&lt;br /&gt;
A história da psicologia é definida pelo paradoxo de ter um “longo passado” e uma “curta história”, podendo ir do De Anima de Aristóteles até a a fundação do laboratório de Wilhelm Wundt na Universidade de Leipzig, em 1879. A psicologia, assim, mostra que tem uma rica história, com muitos personagens, conceitos e acontecimentos importantes, de modo que qualquer narrativa sobre sua composição elegerá heróis e vilões, dará mais relevância para alguns, menos para outros e o esquecimento para a maioria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O texto propõe que Immanuel Kant foi uma figura central na composição da psicologia científica. Ele propôs que a mente humana é um agente ativo que organiza o conhecimento através de estruturas a priori, tais como o tempo, o espaço e as categorias do entendimento. Assim, ele introduziu o conceito de “sujeito transcendental” como a estrutura universal que garante a unidade da consciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Contudo, Kant impôs um “veto” ao status científico da psicologia, defendendo a base na matematização. A superação desse veto ocorreu através da “naturalização” de Kant pela fisiologia. Johannes Müller, com a Teoria das Energias Nervosas Específicas, mostrou que a sensação é mediada pelo sistema nervoso, não sendo uma cópia fiel do mundo externo. Hermann von Helmholtz avançou essa ideia ao postular que as estruturas a priori de Kant seriam, na verdade, características da anatomia e fisiologia humanas. Ele propôs o conceito de “inferências inconscientes” para explicar como interpretamos dados sensoriais. Nesse contexto, Friedrich Albert Lange defendeu uma “psicologia sem alma”, rejeitando a metafísica e argumentando que o estudo científico deve focar apenas nas aparências e fenômenos observáveis, reduzindo o objeto da psicologia a dados empíricos e correlações fisiológicas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Gustav Theodor Fechner foi crucial ao oferecer a base matemática e experimental que faltavam, por meio da Lei de Weber-Fechner. Ele também padronizou e melhorou métodos para o estudo dos limites e constantes sensoriais, que se tornaram a base metodológica da psicologia experimental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Wilhelm Wundt não apenas fundou um laboratório, como também arquitetou um sistema complexo. Para Wundt, o objeto da psicologia é a experiência imediata, criando conceitos como voluntarismo, causalidade psíquica, apercepção, entre outros. Além disso, ele também criou a psicologia dos povos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente do foco laboratorial alemão, a psicologia britânica foi moldada pela filosofia empirista e, crucialmente, pela teoria da evolução de Charles Darwin. Neste contexto, Galton ganha destaque, por ter fundado o laboratório antropométrico, inventado o conceitos de “testes mentais”, pelo uso de estatísticas no estudo da psicologia e ter influenciado o desenvolvimento da psicometria e a análise fatorial (com Charles Spearman), consolidando uma tradição que focava mais na variabilidade genética e na inteligência do que na estrutura da consciência em si.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
ABIB, José Antônio Damásio. Prólogo à História da Psicologia. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Brasília, v. 21, n. 1, p. 53-60, jan./abr. 2005. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://www.scielo.br/j/ptp/a/dXKZvy3jf6V9ZjcPykVF8kn/abstract/?lang=pt&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ALVES, Gabriel Siqueira. O Neokantismo e o Surgimento da Psicologia Experimental: uma introdução didática. In: RIBEIRO, André Elias Morelli; CARNEIRO, Júlia Lombardi; FERREIRA, Arthur Arruda Leal; SANTOS, Marcus Vinícius do Amaral Gama (Org.). Boletim do Portal História da Psicologia 4. Rio das Ostras, RJ: Editora do Portal História da Psicologia, 2025. p. 242-279. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://doi.org/10.5281/zenodo.18130096&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ARAUJO, Saulo de Freitas. Wilhelm Wundt e o estudo da experiência interna. In: VILELA, A. M. J.; FERREIRA, A. L.; PORTUGAL, F. T. (Org.). História da psicologia: rumos e percursos. 2. ed. Rio de Janeiro: Nau, 2007. p. 93-104.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ARAUJO, Saulo de Freitas. Uma visão panorâmica da psicologia científica de Wilhelm Wundt. Scientiæ Studia, São Paulo, v. 7, n. 2, p. 209-220, 2009. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://doi.org/10.1590/S1678-31662009000200003&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
ARISTÓTELES. De Anima. Trad. de Maria Cecília Gomes dos Reis. São Paulo: Editora 34, 2013.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BEISER, Frederick C. Gustav Theodor Fechner. In: ZALTA, Edward N. (Ed.). The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Stanford: Metaphysics Research Lab, Stanford University, 2020. Disponível em: &amp;lt;nowiki&amp;gt;https://plato.stanford.edu/entries/fechner&amp;lt;/nowiki&amp;gt; &lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1723</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1723"/>
		<updated>2026-07-17T23:21:54Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* Autoria */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base científica do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada uma das diferentes escolas funcionalistas. No funcionalismo, as teorias evolutivas têm relevância central, e consideram mente como o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No [[Funcionalismo americano|&#039;&#039;&#039;funcionalismo americano&#039;&#039;&#039;]], o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos e comportamentais&#039;&#039;&#039;. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma &amp;quot;coisa em si&amp;quot; para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039; na verdade são &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039;. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou &amp;quot;mistura&amp;quot; desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico só se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias com conexões funcionalistas mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções breves em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;[[Salpetrière]]&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação era considerada suficiente, além de os tratamentos serem bastante limitados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após a expansão do [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Nessas sessões, ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. Estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot nomes importantes para o século XX, como [[Freud]], [[Pierre Janet]], [[William James]], [[Joseph Babinski]], [[Alfred Binet]], entre outros. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]], [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] e outros trabalharam fortemente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que a paralisou, mas fomentou o desenvolvimento de uma psicologia filosófica, de grande importância para os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e, por conta disso, sofria sabotagem de seus colegas. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da [[Escola Prática de Altos Estudos]]. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como [[Claude Bernard]] (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, oriundo da Escola de Nancy e um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões muitas vezes indiretas, mas significativas para o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. As instituições centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de &#039;&#039;&#039;Jean-Martin Charcot&#039;&#039;&#039; e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, &#039;&#039;&#039;Alfred Binet&#039;&#039;&#039;, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;[[Pierre Janet]]&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud e a questões históricas da França, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceram na Alemanha, com &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. Os alemães tradicionalmente se interessam por psicologia, que era discutida amplamente em publicações de circulação acadêmica e popular, bem como em debates públicos. Essa &amp;quot;cultura psicológica&amp;quot; favoreceu o desenvolvimento da criação da psicologia, que ocorreu com a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica. Este momento ficou conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, a exemplo da linha alemã mais famosa do período, a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que colaborou com o surgimento de um corpo de psicólogos profissionais. Ao mesmo tempo, perspectivas desenvolvimentistas ou funcionalistas continuaram suas investigações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. Os &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também eram numerosos e respeitados, ganham progressiva relevância. A &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039; havia imigrado para os EUA durante a guerra e assim conseguiu uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã e enfraqueceu a própria Escola da Gestalt. Ainda no pós-guerra, ganham força &#039;&#039;&#039;perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; junto de abordagens mais holísticas, o que mostra a multiplicidade do pensamento psicológico naquele país que, apesar de sua relevância história, perdeu muito espaço para a psicologia dos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês e que circulavam no Brasil, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise.&#039;&#039;&#039; Ironicamente, a linhagem psicanalítica [[Lacan|lacaniana]], de origem francesa, foi a que mais se desenvolveu no país. As dificuldades do idioma e a distância cultural foram importantes obstáculos à circulação das ideias psicológicas da Alemanha no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente Alemanha, e associou-se fortemente à fisiologia na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra [[Vladimir Bechterev]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofundou os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um alguém que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias foram aplicadas em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecidas internacionalmente como importantes contribuições da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky progressivamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve menos circulação no Brasil, porém, Pavlov é um nome quase unanimemente citado em cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Seu nome é amplamente conhecido por estudantes de psicologia e de licenciaturas. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas criadas na cidade de Genebra, na Suíça. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre porque este país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente distintas. Essa multiplicidade impede uma classificação nacional ampla, demandando um estudo por região. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar da &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas e, por bastante tempo, foi um dos epicentros dos saberes psi.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça na fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. Esse breve apanhado mostra a multiplicidade deste país pequeno e diverso. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, puderam obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar, desenvolvimento social e econômico. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma destas cidades. Por séculos, foi uma cidade-estado autônoma próxima dos Alpes, cercada por quase todos os lados pela França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão suíço. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Valais, Friburgo e Berna (estas últimas bilíngues francês e alemão). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes políticos e religiosos foram convertidos em 1536 por um dos expoentes da Reforma, João Calvino. Na ocasião, os genebrinos expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto científica e filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculados à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu &amp;quot;sentimento de destino&amp;quot;, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos e fundos de investimento fortes e muito importantes globalmente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram uma filosofia humanista e social que convocava os cidadãos a direcionar seus esforços aos pobres, doentes, desvalidos, entre outros grupos e comunidades. Por conta dessa cultura, a cidade recebeu, em diferentes momentos, minorias perseguidas, doentes, vítimas de guerras, entre muitos imigrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação de iniciativas de promoção da paz e do desenvolvimento mundial, como a Cruz Vermelha e o Direito Internacional Humanitário. Em Genebra também se incentivou a criação de ações políticas multilaterais de fomento de diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, desarmamento, educação, proteção aos trabalhadores, entre outras . Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um de seus intelectuais, &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido treinamento em alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento com experimentos da psicofísica e da fisiologia que, posteriormente, viriam a ser utilizados ou incorporados na vindoura psicologia científica. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, sua ação inicial pode ser entendida como uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos com seus alunos da Universidade de Genebra. Fazia o mesmo no salão de sua casa, com seus convidados, antes ou depois das refeições que organizava, visando discussões privadas e sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039;. Essa experiência o leva a querer trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da psicologia. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por certas discordâncias, decidiu criar o próprio laboratório, colocando-se como um dissidente de seu mestre. Münsterberg fez várias sugestões e indicações a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes para ser num laboratório de psicologia e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viajou para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, com quem teve orientações práticas que utilizou para montar o seu próprio laboratório laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo comprou os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois foram adquiridos pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta e a partir de uma dissidência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra. O que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publicou [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio. Para Claparède, era esse meio que precisava ser transformado e adaptado, visando o desenvolvimento infantil. Defende então que a educação precisa ser baseada num conhecimento científico sobre a criança, o que passava necessariamente pela compreensão de sua psicologia. A escola, em sua visão, seria como um laboratório, onde poderiam ser testadas práticas pedagógicas, fundamentadas também na psicologia, com eficácia comprovada cientificamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se aliou a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento tanto público quanto privado, o espaço foi inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança), representando o espírito da Escola de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, incluindo o Brasil, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo e se coloca do lado do funcionalismo. Para ele, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria compreender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. De forma geral, a questão pode ser analisada se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas as necessidades, os interesses e os objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as mesmas necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos saudáveis de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é maior, como acontece, por exemplo, quando estamos com fome e precisamos providenciar alimentos no ambiente, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet, um dos fundadores do Instituto, também visitou o Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que, como consequência desta visita, o Brasil foi colocado pelos administradores do Instituto, como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Campos empresta hoje seu nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país, também esteve em contato intenso com colaboradores do IJJR.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Instituto também formou e enviou pessoas de outras nacionalidades para o Brasil, que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras da Colônia. Além disso, Radecki tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema psicológico próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga judia formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento do antisionismo na Europa. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget: uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
Nos anos 1920, a Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède. Este expande o laboratório e, pouco depois, funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa da psicologia, principalmente das suas relações com a criança e com a educação. Dentre estes, o grande nome de Genebra, aquele que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de adaptação do sujeito ao meio e que a &#039;&#039;&#039;cognição&#039;&#039;&#039; é uma extensão do real. É nessa obra que ele amadurece as noções de de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento de imenso prestígio e influência de Piaget, que dá à Instituição sua orientação e atua diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo, tempo, causalidade ou contradição, e convidava alguns dos maiores nomes do mundo para o debate. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre as discussões conduzidas, sintetizando avançadas discussões interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com externas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua Epistemologia Genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. É difícil elaborar uma lista completa, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser seu amigo pessoal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
BANKS-LEITE, Luci (Org.). &#039;&#039;&#039;Percursos piagetianos&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Cortez, 1997.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BANKS-LEITE, Luci (Org.). &#039;&#039;&#039;Piaget e a escola de Genebra&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Cortez, 1987.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
PIAGET, Jean. &#039;&#039;&#039;A causalidade física na criança&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. (publicado originalmente em 1927).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
PIAGET, Jean. &#039;&#039;&#039;A linguagem e o pensamento da criança&#039;&#039;&#039; (trad. Manuel Campos; rev. da trad. Marina Appenzeller e Aurea Regina Satori. 5ª ed. bras. inteiramente rev.). São Paulo: Martins Fontes, 1989. (Coleção psicologia e pedagogia). (Originalmente publicado em 1923).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto [[Materiais didáticos (projeto)|Materiais didáticos]] do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1722</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1722"/>
		<updated>2026-07-17T23:17:57Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base científica do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada uma das diferentes escolas funcionalistas. No funcionalismo, as teorias evolutivas têm relevância central, e consideram mente como o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No [[Funcionalismo americano|&#039;&#039;&#039;funcionalismo americano&#039;&#039;&#039;]], o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos e comportamentais&#039;&#039;&#039;. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma &amp;quot;coisa em si&amp;quot; para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039; na verdade são &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039;. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou &amp;quot;mistura&amp;quot; desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico só se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias com conexões funcionalistas mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções breves em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;[[Salpetrière]]&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação era considerada suficiente, além de os tratamentos serem bastante limitados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após a expansão do [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Nessas sessões, ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. Estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot nomes importantes para o século XX, como [[Freud]], [[Pierre Janet]], [[William James]], [[Joseph Babinski]], [[Alfred Binet]], entre outros. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]], [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] e outros trabalharam fortemente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que a paralisou, mas fomentou o desenvolvimento de uma psicologia filosófica, de grande importância para os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e, por conta disso, sofria sabotagem de seus colegas. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da [[Escola Prática de Altos Estudos]]. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como [[Claude Bernard]] (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, oriundo da Escola de Nancy e um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões muitas vezes indiretas, mas significativas para o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. As instituições centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de &#039;&#039;&#039;Jean-Martin Charcot&#039;&#039;&#039; e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, &#039;&#039;&#039;Alfred Binet&#039;&#039;&#039;, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;[[Pierre Janet]]&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud e a questões históricas da França, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceram na Alemanha, com &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. Os alemães tradicionalmente se interessam por psicologia, que era discutida amplamente em publicações de circulação acadêmica e popular, bem como em debates públicos. Essa &amp;quot;cultura psicológica&amp;quot; favoreceu o desenvolvimento da criação da psicologia, que ocorreu com a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica. Este momento ficou conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, a exemplo da linha alemã mais famosa do período, a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que colaborou com o surgimento de um corpo de psicólogos profissionais. Ao mesmo tempo, perspectivas desenvolvimentistas ou funcionalistas continuaram suas investigações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. Os &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também eram numerosos e respeitados, ganham progressiva relevância. A &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039; havia imigrado para os EUA durante a guerra e assim conseguiu uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã e enfraqueceu a própria Escola da Gestalt. Ainda no pós-guerra, ganham força &#039;&#039;&#039;perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; junto de abordagens mais holísticas, o que mostra a multiplicidade do pensamento psicológico naquele país que, apesar de sua relevância história, perdeu muito espaço para a psicologia dos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês e que circulavam no Brasil, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise.&#039;&#039;&#039; Ironicamente, a linhagem psicanalítica [[Lacan|lacaniana]], de origem francesa, foi a que mais se desenvolveu no país. As dificuldades do idioma e a distância cultural foram importantes obstáculos à circulação das ideias psicológicas da Alemanha no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente Alemanha, e associou-se fortemente à fisiologia na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra [[Vladimir Bechterev]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofundou os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um alguém que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias foram aplicadas em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecidas internacionalmente como importantes contribuições da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky progressivamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve menos circulação no Brasil, porém, Pavlov é um nome quase unanimemente citado em cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Seu nome é amplamente conhecido por estudantes de psicologia e de licenciaturas. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas criadas na cidade de Genebra, na Suíça. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre porque este país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente distintas. Essa multiplicidade impede uma classificação nacional ampla, demandando um estudo por região. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar da &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas e, por bastante tempo, foi um dos epicentros dos saberes psi.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça na fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. Esse breve apanhado mostra a multiplicidade deste país pequeno e diverso. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, puderam obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar, desenvolvimento social e econômico. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma destas cidades. Por séculos, foi uma cidade-estado autônoma próxima dos Alpes, cercada por quase todos os lados pela França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão suíço. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Valais, Friburgo e Berna (estas últimas bilíngues francês e alemão). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes políticos e religiosos foram convertidos em 1536 por um dos expoentes da Reforma, João Calvino. Na ocasião, os genebrinos expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto científica e filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculados à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu &amp;quot;sentimento de destino&amp;quot;, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos e fundos de investimento fortes e muito importantes globalmente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram uma filosofia humanista e social que convocava os cidadãos a direcionar seus esforços aos pobres, doentes, desvalidos, entre outros grupos e comunidades. Por conta dessa cultura, a cidade recebeu, em diferentes momentos, minorias perseguidas, doentes, vítimas de guerras, entre muitos imigrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação de iniciativas de promoção da paz e do desenvolvimento mundial, como a Cruz Vermelha e o Direito Internacional Humanitário. Em Genebra também se incentivou a criação de ações políticas multilaterais de fomento de diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, desarmamento, educação, proteção aos trabalhadores, entre outras . Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um de seus intelectuais, &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido treinamento em alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento com experimentos da psicofísica e da fisiologia que, posteriormente, viriam a ser utilizados ou incorporados na vindoura psicologia científica. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, sua ação inicial pode ser entendida como uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos com seus alunos da Universidade de Genebra. Fazia o mesmo no salão de sua casa, com seus convidados, antes ou depois das refeições que organizava, visando discussões privadas e sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039;. Essa experiência o leva a querer trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da psicologia. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por certas discordâncias, decidiu criar o próprio laboratório, colocando-se como um dissidente de seu mestre. Münsterberg fez várias sugestões e indicações a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes para ser num laboratório de psicologia e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viajou para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, com quem teve orientações práticas que utilizou para montar o seu próprio laboratório laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo comprou os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois foram adquiridos pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta e a partir de uma dissidência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra. O que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publicou [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio. Para Claparède, era esse meio que precisava ser transformado e adaptado, visando o desenvolvimento infantil. Defende então que a educação precisa ser baseada num conhecimento científico sobre a criança, o que passava necessariamente pela compreensão de sua psicologia. A escola, em sua visão, seria como um laboratório, onde poderiam ser testadas práticas pedagógicas, fundamentadas também na psicologia, com eficácia comprovada cientificamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se aliou a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento tanto público quanto privado, o espaço foi inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança), representando o espírito da Escola de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, incluindo o Brasil, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo e se coloca do lado do funcionalismo. Para ele, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria compreender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. De forma geral, a questão pode ser analisada se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas as necessidades, os interesses e os objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as mesmas necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos saudáveis de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é maior, como acontece, por exemplo, quando estamos com fome e precisamos providenciar alimentos no ambiente, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet, um dos fundadores do Instituto, também visitou o Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que, como consequência desta visita, o Brasil foi colocado pelos administradores do Instituto, como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Campos empresta hoje seu nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país, também esteve em contato intenso com colaboradores do IJJR.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Instituto também formou e enviou pessoas de outras nacionalidades para o Brasil, que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras da Colônia. Além disso, Radecki tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema psicológico próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga judia formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento do antisionismo na Europa. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget: uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
Nos anos 1920, a Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède. Este expande o laboratório e, pouco depois, funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa da psicologia, principalmente das suas relações com a criança e com a educação. Dentre estes, o grande nome de Genebra, aquele que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de adaptação do sujeito ao meio e que a &#039;&#039;&#039;cognição&#039;&#039;&#039; é uma extensão do real. É nessa obra que ele amadurece as noções de de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento de imenso prestígio e influência de Piaget, que dá à Instituição sua orientação e atua diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo, tempo, causalidade ou contradição, e convidava alguns dos maiores nomes do mundo para o debate. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre as discussões conduzidas, sintetizando avançadas discussões interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com externas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua Epistemologia Genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. É difícil elaborar uma lista completa, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser seu amigo pessoal.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
BANKS-LEITE, Luci (Org.). &#039;&#039;&#039;Percursos piagetianos&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Cortez, 1997.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BANKS-LEITE, Luci (Org.). &#039;&#039;&#039;Piaget e a escola de Genebra&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Cortez, 1987.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
PIAGET, Jean. &#039;&#039;&#039;A causalidade física na criança&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. (publicado originalmente em 1927).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
PIAGET, Jean. &#039;&#039;&#039;A linguagem e o pensamento da criança&#039;&#039;&#039; (trad. Manuel Campos; rev. da trad. Marina Appenzeller e Aurea Regina Satori. 5ª ed. bras. inteiramente rev.). São Paulo: Martins Fontes, 1989. (Coleção psicologia e pedagogia). (Originalmente publicado em 1923).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1721</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1721"/>
		<updated>2026-07-17T23:09:33Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* O IJJR e o Brasil */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base científica do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada uma das diferentes escolas funcionalistas. No funcionalismo, as teorias evolutivas têm relevância central, e consideram mente como o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No [[Funcionalismo americano|&#039;&#039;&#039;funcionalismo americano&#039;&#039;&#039;]], o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos e comportamentais&#039;&#039;&#039;. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma &amp;quot;coisa em si&amp;quot; para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039; na verdade são &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039;. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou &amp;quot;mistura&amp;quot; desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico só se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias com conexões funcionalistas mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções breves em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;[[Salpetrière]]&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação era considerada suficiente, além de os tratamentos serem bastante limitados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após a expansão do [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Nessas sessões, ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. Estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot nomes importantes para o século XX, como [[Freud]], [[Pierre Janet]], [[William James]], [[Joseph Babinski]], [[Alfred Binet]], entre outros. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]], [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] e outros trabalharam fortemente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que a paralisou, mas fomentou o desenvolvimento de uma psicologia filosófica, de grande importância para os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e, por conta disso, sofria sabotagem de seus colegas. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da [[Escola Prática de Altos Estudos]]. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como [[Claude Bernard]] (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, oriundo da Escola de Nancy e um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões muitas vezes indiretas, mas significativas para o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. As instituições centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de &#039;&#039;&#039;Jean-Martin Charcot&#039;&#039;&#039; e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, &#039;&#039;&#039;Alfred Binet&#039;&#039;&#039;, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;[[Pierre Janet]]&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud e a questões históricas da França, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceram na Alemanha, com &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. Os alemães tradicionalmente se interessam por psicologia, que era discutida amplamente em publicações de circulação acadêmica e popular, bem como em debates públicos. Essa &amp;quot;cultura psicológica&amp;quot; favoreceu o desenvolvimento da criação da psicologia, que ocorreu com a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica. Este momento ficou conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, a exemplo da linha alemã mais famosa do período, a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que colaborou com o surgimento de um corpo de psicólogos profissionais. Ao mesmo tempo, perspectivas desenvolvimentistas ou funcionalistas continuaram suas investigações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. Os &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também eram numerosos e respeitados, ganham progressiva relevância. A &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039; havia imigrado para os EUA durante a guerra e assim conseguiu uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã e enfraqueceu a própria Escola da Gestalt. Ainda no pós-guerra, ganham força &#039;&#039;&#039;perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; junto de abordagens mais holísticas, o que mostra a multiplicidade do pensamento psicológico naquele país que, apesar de sua relevância história, perdeu muito espaço para a psicologia dos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês e que circulavam no Brasil, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise.&#039;&#039;&#039; Ironicamente, a linhagem psicanalítica [[Lacan|lacaniana]], de origem francesa, foi a que mais se desenvolveu no país. As dificuldades do idioma e a distância cultural foram importantes obstáculos à circulação das ideias psicológicas da Alemanha no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente Alemanha, e associou-se fortemente à fisiologia na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra [[Vladimir Bechterev]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofundou os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um alguém que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias foram aplicadas em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecidas internacionalmente como importantes contribuições da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky progressivamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve menos circulação no Brasil, porém, Pavlov é um nome quase unanimemente citado em cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Seu nome é amplamente conhecido por estudantes de psicologia e de licenciaturas. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas criadas na cidade de Genebra, na Suíça. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre porque este país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente distintas. Essa multiplicidade impede uma classificação nacional ampla, demandando um estudo por região. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar da &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas e, por bastante tempo, foi um dos epicentros dos saberes psi.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça na fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. Esse breve apanhado mostra a multiplicidade deste país pequeno e diverso. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, puderam obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar, desenvolvimento social e econômico. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma destas cidades. Por séculos, foi uma cidade-estado autônoma próxima dos Alpes, cercada por quase todos os lados pela França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão suíço. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Valais, Friburgo e Berna (estas últimas bilíngues francês e alemão). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes políticos e religiosos foram convertidos em 1536 por um dos expoentes da Reforma, João Calvino. Na ocasião, os genebrinos expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto científica e filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculados à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu &amp;quot;sentimento de destino&amp;quot;, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos e fundos de investimento fortes e muito importantes globalmente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram uma filosofia humanista e social que convocava os cidadãos a direcionar seus esforços aos pobres, doentes, desvalidos, entre outros grupos e comunidades. Por conta dessa cultura, a cidade recebeu, em diferentes momentos, minorias perseguidas, doentes, vítimas de guerras, entre muitos imigrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação de iniciativas de promoção da paz e do desenvolvimento mundial, como a Cruz Vermelha e o Direito Internacional Humanitário. Em Genebra também se incentivou a criação de ações políticas multilaterais de fomento de diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, desarmamento, educação, proteção aos trabalhadores, entre outras . Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um de seus intelectuais, &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido treinamento em alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento com experimentos da psicofísica e da fisiologia que, posteriormente, viriam a ser utilizados ou incorporados na vindoura psicologia científica. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, sua ação inicial pode ser entendida como uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos com seus alunos da Universidade de Genebra. Fazia o mesmo no salão de sua casa, com seus convidados, antes ou depois das refeições que organizava, visando discussões privadas e sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039;. Essa experiência o leva a querer trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da psicologia. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por certas discordâncias, decidiu criar o próprio laboratório, colocando-se como um dissidente de seu mestre. Münsterberg fez várias sugestões e indicações a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes para ser num laboratório de psicologia e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viajou para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, com quem teve orientações práticas que utilizou para montar o seu próprio laboratório laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo comprou os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois foram adquiridos pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta e a partir de uma dissidência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra. O que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publicou [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio. Para Claparède, era esse meio que precisava ser transformado e adaptado, visando o desenvolvimento infantil. Defende então que a educação precisa ser baseada num conhecimento científico sobre a criança, o que passava necessariamente pela compreensão de sua psicologia. A escola, em sua visão, seria como um laboratório, onde poderiam ser testadas práticas pedagógicas, fundamentadas também na psicologia, com eficácia comprovada cientificamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se aliou a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento tanto público quanto privado, o espaço foi inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança), representando o espírito da Escola de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, incluindo o Brasil, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo e se coloca do lado do funcionalismo. Para ele, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria compreender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. De forma geral, a questão pode ser analisada se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas as necessidades, os interesses e os objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as mesmas necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos saudáveis de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é maior, como acontece, por exemplo, quando estamos com fome e precisamos providenciar alimentos no ambiente, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet, um dos fundadores do Instituto, também visitou o Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que, como consequência desta visita, o Brasil foi colocado pelos administradores do Instituto, como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Campos empresta hoje seu nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país, também esteve em contato intenso com colaboradores do IJJR.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O Instituto também formou e enviou pessoas de outras nacionalidades para o Brasil, que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras da Colônia. Além disso, Radecki tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema psicológico próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga judia formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento do antisionismo na Europa. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
A Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède, que o expande e funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa com uma perspectiva de aliança entre educação e psicologia. Contudo, o grande nome de Genebra, que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de &#039;&#039;&#039;adaptação do sujeito ao meio&#039;&#039;&#039; e que a &#039;&#039;&#039;cognição é uma extensão do real&#039;&#039;&#039;. É nessa obra que ele amadurece a noção de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria até o final de sua vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento em que Piaget exerce imensa influência sobre a instituição, dando sua orientação e atuando diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo: &amp;quot;o tempo&amp;quot;, &amp;quot;a causalidade&amp;quot; ou &amp;quot;a contradição&amp;quot;, e convidava os maiores nomes do mundo para debatê-lo. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre os debates conduzidos naquele período, sintetizando avançadas discussçoes interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com extrnas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua epistemologia genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. Uma lista completa é praticamente impossível de elaborar, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser amigo pessoal de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
BANKS-LEITE, Luci (Org.). &#039;&#039;&#039;Percursos piagetianos&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Cortez, 1997.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BANKS-LEITE, Luci (Org.). &#039;&#039;&#039;Piaget e a escola de Genebra&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Cortez, 1987.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
BLOCH, Henriette. &#039;&#039;&#039;La psychologie scientifique en France&#039;&#039;&#039;. Paris: Armand Colin, 2006.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
PIAGET, Jean. &#039;&#039;&#039;A causalidade física na criança&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Companhia das Letras, 1997. (publicado originalmente em 1927).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
PIAGET, Jean. &#039;&#039;&#039;O juízo moral na criança&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Summus, 1994. (publicado originalmente em 1932).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
PIAGET, Jean. &#039;&#039;&#039;A linguagem e o pensamento da criança&#039;&#039;&#039; (trad. Manuel Campos; rev. da trad. Marina Appenzeller e Aurea Regina Satori. 5ª ed. bras. inteiramente rev.). São Paulo: Martins Fontes, 1989. (Coleção psicologia e pedagogia). (Originalmente publicado em 1923).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1720</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1720"/>
		<updated>2026-07-17T23:03:54Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base científica do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada uma das diferentes escolas funcionalistas. No funcionalismo, as teorias evolutivas têm relevância central, e consideram mente como o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No [[Funcionalismo americano|&#039;&#039;&#039;funcionalismo americano&#039;&#039;&#039;]], o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos e comportamentais&#039;&#039;&#039;. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma &amp;quot;coisa em si&amp;quot; para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039; na verdade são &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039;. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou &amp;quot;mistura&amp;quot; desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico só se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias com conexões funcionalistas mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções breves em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;[[Salpetrière]]&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação era considerada suficiente, além de os tratamentos serem bastante limitados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após a expansão do [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Nessas sessões, ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. Estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot nomes importantes para o século XX, como [[Freud]], [[Pierre Janet]], [[William James]], [[Joseph Babinski]], [[Alfred Binet]], entre outros. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]], [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] e outros trabalharam fortemente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que a paralisou, mas fomentou o desenvolvimento de uma psicologia filosófica, de grande importância para os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e, por conta disso, sofria sabotagem de seus colegas. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da [[Escola Prática de Altos Estudos]]. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como [[Claude Bernard]] (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, oriundo da Escola de Nancy e um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões muitas vezes indiretas, mas significativas para o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. As instituições centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de &#039;&#039;&#039;Jean-Martin Charcot&#039;&#039;&#039; e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, &#039;&#039;&#039;Alfred Binet&#039;&#039;&#039;, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;[[Pierre Janet]]&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud e a questões históricas da França, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceram na Alemanha, com &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. Os alemães tradicionalmente se interessam por psicologia, que era discutida amplamente em publicações de circulação acadêmica e popular, bem como em debates públicos. Essa &amp;quot;cultura psicológica&amp;quot; favoreceu o desenvolvimento da criação da psicologia, que ocorreu com a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica. Este momento ficou conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, a exemplo da linha alemã mais famosa do período, a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que colaborou com o surgimento de um corpo de psicólogos profissionais. Ao mesmo tempo, perspectivas desenvolvimentistas ou funcionalistas continuaram suas investigações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. Os &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também eram numerosos e respeitados, ganham progressiva relevância. A &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039; havia imigrado para os EUA durante a guerra e assim conseguiu uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã e enfraqueceu a própria Escola da Gestalt. Ainda no pós-guerra, ganham força &#039;&#039;&#039;perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; junto de abordagens mais holísticas, o que mostra a multiplicidade do pensamento psicológico naquele país que, apesar de sua relevância história, perdeu muito espaço para a psicologia dos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês e que circulavam no Brasil, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise.&#039;&#039;&#039; Ironicamente, a linhagem psicanalítica [[Lacan|lacaniana]], de origem francesa, foi a que mais se desenvolveu no país. As dificuldades do idioma e a distância cultural foram importantes obstáculos à circulação das ideias psicológicas da Alemanha no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente Alemanha, e associou-se fortemente à fisiologia na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra [[Vladimir Bechterev]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofundou os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um alguém que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias foram aplicadas em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecidas internacionalmente como importantes contribuições da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky progressivamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve menos circulação no Brasil, porém, Pavlov é um nome quase unanimemente citado em cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Seu nome é amplamente conhecido por estudantes de psicologia e de licenciaturas. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas criadas na cidade de Genebra, na Suíça. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre porque este país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente distintas. Essa multiplicidade impede uma classificação nacional ampla, demandando um estudo por região. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar da &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas e, por bastante tempo, foi um dos epicentros dos saberes psi.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça na fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. Esse breve apanhado mostra a multiplicidade deste país pequeno e diverso. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, puderam obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar, desenvolvimento social e econômico. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma destas cidades. Por séculos, foi uma cidade-estado autônoma próxima dos Alpes, cercada por quase todos os lados pela França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão suíço. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Valais, Friburgo e Berna (estas últimas bilíngues francês e alemão). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes políticos e religiosos foram convertidos em 1536 por um dos expoentes da Reforma, João Calvino. Na ocasião, os genebrinos expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto científica e filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculados à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu &amp;quot;sentimento de destino&amp;quot;, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos e fundos de investimento fortes e muito importantes globalmente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram uma filosofia humanista e social que convocava os cidadãos a direcionar seus esforços aos pobres, doentes, desvalidos, entre outros grupos e comunidades. Por conta dessa cultura, a cidade recebeu, em diferentes momentos, minorias perseguidas, doentes, vítimas de guerras, entre muitos imigrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação de iniciativas de promoção da paz e do desenvolvimento mundial, como a Cruz Vermelha e o Direito Internacional Humanitário. Em Genebra também se incentivou a criação de ações políticas multilaterais de fomento de diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, desarmamento, educação, proteção aos trabalhadores, entre outras . Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um de seus intelectuais, &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido treinamento em alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento com experimentos da psicofísica e da fisiologia que, posteriormente, viriam a ser utilizados ou incorporados na vindoura psicologia científica. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, sua ação inicial pode ser entendida como uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos com seus alunos da Universidade de Genebra. Fazia o mesmo no salão de sua casa, com seus convidados, antes ou depois das refeições que organizava, visando discussões privadas e sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039;. Essa experiência o leva a querer trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da psicologia. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por certas discordâncias, decidiu criar o próprio laboratório, colocando-se como um dissidente de seu mestre. Münsterberg fez várias sugestões e indicações a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes para ser num laboratório de psicologia e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viajou para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, com quem teve orientações práticas que utilizou para montar o seu próprio laboratório laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo comprou os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois foram adquiridos pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta e a partir de uma dissidência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra. O que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publicou [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio. Para Claparède, era esse meio que precisava ser transformado e adaptado, visando o desenvolvimento infantil. Defende então que a educação precisa ser baseada num conhecimento científico sobre a criança, o que passava necessariamente pela compreensão de sua psicologia. A escola, em sua visão, seria como um laboratório, onde poderiam ser testadas práticas pedagógicas, fundamentadas também na psicologia, com eficácia comprovada cientificamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se aliou a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento tanto público quanto privado, o espaço foi inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança), representando o espírito da Escola de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, incluindo o Brasil, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo e se coloca do lado do funcionalismo. Para ele, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria compreender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. De forma geral, a questão pode ser analisada se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas as necessidades, os interesses e os objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as mesmas necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos saudáveis de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é maior, como acontece, por exemplo, quando estamos com fome e precisamos providenciar alimentos no ambiente, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet também visitou o país, o que reforça o intercâmbio entre os dois lugares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que nesta visita o Brasil foi colocado como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Empresta hoje nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é o de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país. Além disso, Lourenço Filho também trabalhou para o desenvolvimento da psicologia no Brasil, escrevendo livros, dando cursos, publicando nos jornais e ocupando cargos importantes na administração pública, tanto federal como na época das então províncias, facilitando a conexão entre a psicologia e a educação e o desenvolvimento da própria psicologia brasileira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O IJJR também enviou pessoas de outras nacionalidades que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras do local. Além disso, Radecki também tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento da perseguição aos judeus. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
A Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède, que o expande e funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa com uma perspectiva de aliança entre educação e psicologia. Contudo, o grande nome de Genebra, que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de &#039;&#039;&#039;adaptação do sujeito ao meio&#039;&#039;&#039; e que a &#039;&#039;&#039;cognição é uma extensão do real&#039;&#039;&#039;. É nessa obra que ele amadurece a noção de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria até o final de sua vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento em que Piaget exerce imensa influência sobre a instituição, dando sua orientação e atuando diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo: &amp;quot;o tempo&amp;quot;, &amp;quot;a causalidade&amp;quot; ou &amp;quot;a contradição&amp;quot;, e convidava os maiores nomes do mundo para debatê-lo. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre os debates conduzidos naquele período, sintetizando avançadas discussçoes interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com extrnas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua epistemologia genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. Uma lista completa é praticamente impossível de elaborar, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser amigo pessoal de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
BANKS-LEITE, Luci (Org.). &#039;&#039;&#039;Percursos piagetianos&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Cortez, 1997.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BANKS-LEITE, Luci (Org.). &#039;&#039;&#039;Piaget e a escola de Genebra&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Cortez, 1987.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1719</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1719"/>
		<updated>2026-07-17T22:59:29Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* O Instituto Jean-Jacques Rousseau */ Pequenas correções complementares&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base científica do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada uma das diferentes escolas funcionalistas. No funcionalismo, as teorias evolutivas têm relevância central, e consideram mente como o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No [[Funcionalismo americano|&#039;&#039;&#039;funcionalismo americano&#039;&#039;&#039;]], o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos e comportamentais&#039;&#039;&#039;. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma &amp;quot;coisa em si&amp;quot; para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039; na verdade são &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039;. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou &amp;quot;mistura&amp;quot; desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico só se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias com conexões funcionalistas mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções breves em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;[[Salpetrière]]&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação era considerada suficiente, além de os tratamentos serem bastante limitados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após a expansão do [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Nessas sessões, ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. Estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot nomes importantes para o século XX, como [[Freud]], [[Pierre Janet]], [[William James]], [[Joseph Babinski]], [[Alfred Binet]], entre outros. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]], [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] e outros trabalharam fortemente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que a paralisou, mas fomentou o desenvolvimento de uma psicologia filosófica, de grande importância para os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e, por conta disso, sofria sabotagem de seus colegas. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da [[Escola Prática de Altos Estudos]]. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como [[Claude Bernard]] (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, oriundo da Escola de Nancy e um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões muitas vezes indiretas, mas significativas para o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. As instituições centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de &#039;&#039;&#039;Jean-Martin Charcot&#039;&#039;&#039; e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, &#039;&#039;&#039;Alfred Binet&#039;&#039;&#039;, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;[[Pierre Janet]]&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud e a questões históricas da França, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceram na Alemanha, com &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. Os alemães tradicionalmente se interessam por psicologia, que era discutida amplamente em publicações de circulação acadêmica e popular, bem como em debates públicos. Essa &amp;quot;cultura psicológica&amp;quot; favoreceu o desenvolvimento da criação da psicologia, que ocorreu com a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica. Este momento ficou conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, a exemplo da linha alemã mais famosa do período, a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que colaborou com o surgimento de um corpo de psicólogos profissionais. Ao mesmo tempo, perspectivas desenvolvimentistas ou funcionalistas continuaram suas investigações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. Os &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também eram numerosos e respeitados, ganham progressiva relevância. A &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039; havia imigrado para os EUA durante a guerra e assim conseguiu uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã e enfraqueceu a própria Escola da Gestalt. Ainda no pós-guerra, ganham força &#039;&#039;&#039;perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; junto de abordagens mais holísticas, o que mostra a multiplicidade do pensamento psicológico naquele país que, apesar de sua relevância história, perdeu muito espaço para a psicologia dos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês e que circulavam no Brasil, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise.&#039;&#039;&#039; Ironicamente, a linhagem psicanalítica [[Lacan|lacaniana]], de origem francesa, foi a que mais se desenvolveu no país. As dificuldades do idioma e a distância cultural foram importantes obstáculos à circulação das ideias psicológicas da Alemanha no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente Alemanha, e associou-se fortemente à fisiologia na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra [[Vladimir Bechterev]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofundou os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um alguém que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias foram aplicadas em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecidas internacionalmente como importantes contribuições da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky progressivamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve menos circulação no Brasil, porém, Pavlov é um nome quase unanimemente citado em cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Seu nome é amplamente conhecido por estudantes de psicologia e de licenciaturas. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas criadas na cidade de Genebra, na Suíça. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre porque este país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente distintas. Essa multiplicidade impede uma classificação nacional ampla, demandando um estudo por região. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar da &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas e, por bastante tempo, foi um dos epicentros dos saberes psi.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça na fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. Esse breve apanhado mostra a multiplicidade deste país pequeno e diverso. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, puderam obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar, desenvolvimento social e econômico. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma destas cidades. Por séculos, foi uma cidade-estado autônoma próxima dos Alpes, cercada por quase todos os lados pela França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão suíço. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Valais, Friburgo e Berna (estas últimas bilíngues francês e alemão). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes políticos e religiosos foram convertidos em 1536 por um dos expoentes da Reforma, João Calvino. Na ocasião, os genebrinos expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto científica e filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculados à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu &amp;quot;sentimento de destino&amp;quot;, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos e fundos de investimento fortes e muito importantes globalmente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram uma filosofia humanista e social que convocava os cidadãos a direcionar seus esforços aos pobres, doentes, desvalidos, entre outros grupos e comunidades. Por conta dessa cultura, a cidade recebeu, em diferentes momentos, minorias perseguidas, doentes, vítimas de guerras, entre muitos imigrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação de iniciativas de promoção da paz e do desenvolvimento mundial, como a Cruz Vermelha e o Direito Internacional Humanitário. Em Genebra também se incentivou a criação de ações políticas multilaterais de fomento de diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, desarmamento, educação, proteção aos trabalhadores, entre outras . Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um de seus intelectuais, &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido treinamento em alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento com experimentos da psicofísica e da fisiologia que, posteriormente, viriam a ser utilizados ou incorporados na vindoura psicologia científica. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, sua ação inicial pode ser entendida como uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos com seus alunos da Universidade de Genebra. Fazia o mesmo no salão de sua casa, com seus convidados, antes ou depois das refeições que organizava, visando discussões privadas e sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039;. Essa experiência o leva a querer trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da psicologia. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por certas discordâncias, decidiu criar o próprio laboratório, colocando-se como um dissidente de seu mestre. Münsterberg fez várias sugestões e indicações a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes para ser num laboratório de psicologia e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viajou para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, com quem teve orientações práticas que utilizou para montar o seu próprio laboratório laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo comprou os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois foram adquiridos pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta e a partir de uma dissidência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra. O que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publicou [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio. Para Claparède, era esse meio que precisava ser transformado e adaptado, visando o desenvolvimento infantil. Defende então que a educação precisa ser baseada num conhecimento científico sobre a criança, o que passava necessariamente pela compreensão de sua psicologia. A escola, em sua visão, seria como um laboratório, onde poderiam ser testadas práticas pedagógicas, fundamentadas também na psicologia, com eficácia comprovada cientificamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se aliou a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento tanto público quanto privado, o espaço foi inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança), representando o espírito da Escola de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, incluindo o Brasil, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo. Assim, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria entender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. A questão pode ser compreendida, de forma geral, se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas necessidades, interesses e objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é grande, como acontece quando estamos com fome, por exemplo, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e até a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet também visitou o país, o que reforça o intercâmbio entre os dois lugares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que nesta visita o Brasil foi colocado como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Empresta hoje nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é o de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país. Além disso, Lourenço Filho também trabalhou para o desenvolvimento da psicologia no Brasil, escrevendo livros, dando cursos, publicando nos jornais e ocupando cargos importantes na administração pública, tanto federal como na época das então províncias, facilitando a conexão entre a psicologia e a educação e o desenvolvimento da própria psicologia brasileira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O IJJR também enviou pessoas de outras nacionalidades que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras do local. Além disso, Radecki também tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento da perseguição aos judeus. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
A Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède, que o expande e funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa com uma perspectiva de aliança entre educação e psicologia. Contudo, o grande nome de Genebra, que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de &#039;&#039;&#039;adaptação do sujeito ao meio&#039;&#039;&#039; e que a &#039;&#039;&#039;cognição é uma extensão do real&#039;&#039;&#039;. É nessa obra que ele amadurece a noção de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria até o final de sua vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento em que Piaget exerce imensa influência sobre a instituição, dando sua orientação e atuando diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo: &amp;quot;o tempo&amp;quot;, &amp;quot;a causalidade&amp;quot; ou &amp;quot;a contradição&amp;quot;, e convidava os maiores nomes do mundo para debatê-lo. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre os debates conduzidos naquele período, sintetizando avançadas discussçoes interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com extrnas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua epistemologia genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. Uma lista completa é praticamente impossível de elaborar, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser amigo pessoal de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
BANKS-LEITE, Luci (Org.). &#039;&#039;&#039;Percursos piagetianos&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Cortez, 1997.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BANKS-LEITE, Luci (Org.). &#039;&#039;&#039;Piaget e a escola de Genebra&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Cortez, 1987.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1718</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1718"/>
		<updated>2026-07-17T22:53:58Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* A Escola de Genebra */ Várias modificações substanciais&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base científica do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada uma das diferentes escolas funcionalistas. No funcionalismo, as teorias evolutivas têm relevância central, e consideram mente como o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No [[Funcionalismo americano|&#039;&#039;&#039;funcionalismo americano&#039;&#039;&#039;]], o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos e comportamentais&#039;&#039;&#039;. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma &amp;quot;coisa em si&amp;quot; para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039; na verdade são &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039;. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou &amp;quot;mistura&amp;quot; desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico só se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias com conexões funcionalistas mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções breves em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;[[Salpetrière]]&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação era considerada suficiente, além de os tratamentos serem bastante limitados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após a expansão do [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Nessas sessões, ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. Estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot nomes importantes para o século XX, como [[Freud]], [[Pierre Janet]], [[William James]], [[Joseph Babinski]], [[Alfred Binet]], entre outros. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]], [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] e outros trabalharam fortemente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que a paralisou, mas fomentou o desenvolvimento de uma psicologia filosófica, de grande importância para os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e, por conta disso, sofria sabotagem de seus colegas. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da [[Escola Prática de Altos Estudos]]. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como [[Claude Bernard]] (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, oriundo da Escola de Nancy e um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões muitas vezes indiretas, mas significativas para o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. As instituições centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de &#039;&#039;&#039;Jean-Martin Charcot&#039;&#039;&#039; e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, &#039;&#039;&#039;Alfred Binet&#039;&#039;&#039;, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;[[Pierre Janet]]&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud e a questões históricas da França, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceram na Alemanha, com &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. Os alemães tradicionalmente se interessam por psicologia, que era discutida amplamente em publicações de circulação acadêmica e popular, bem como em debates públicos. Essa &amp;quot;cultura psicológica&amp;quot; favoreceu o desenvolvimento da criação da psicologia, que ocorreu com a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica. Este momento ficou conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, a exemplo da linha alemã mais famosa do período, a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que colaborou com o surgimento de um corpo de psicólogos profissionais. Ao mesmo tempo, perspectivas desenvolvimentistas ou funcionalistas continuaram suas investigações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. Os &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também eram numerosos e respeitados, ganham progressiva relevância. A &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039; havia imigrado para os EUA durante a guerra e assim conseguiu uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã e enfraqueceu a própria Escola da Gestalt. Ainda no pós-guerra, ganham força &#039;&#039;&#039;perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; junto de abordagens mais holísticas, o que mostra a multiplicidade do pensamento psicológico naquele país que, apesar de sua relevância história, perdeu muito espaço para a psicologia dos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês e que circulavam no Brasil, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise.&#039;&#039;&#039; Ironicamente, a linhagem psicanalítica [[Lacan|lacaniana]], de origem francesa, foi a que mais se desenvolveu no país. As dificuldades do idioma e a distância cultural foram importantes obstáculos à circulação das ideias psicológicas da Alemanha no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente Alemanha, e associou-se fortemente à fisiologia na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra [[Vladimir Bechterev]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofundou os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um alguém que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias foram aplicadas em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecidas internacionalmente como importantes contribuições da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky progressivamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve menos circulação no Brasil, porém, Pavlov é um nome quase unanimemente citado em cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Seu nome é amplamente conhecido por estudantes de psicologia e de licenciaturas. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas criadas na cidade de Genebra, na Suíça. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre porque este país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente distintas. Essa multiplicidade impede uma classificação nacional ampla, demandando um estudo por região. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar da &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas e, por bastante tempo, foi um dos epicentros dos saberes psi.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça na fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. Esse breve apanhado mostra a multiplicidade deste país pequeno e diverso. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, puderam obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar, desenvolvimento social e econômico. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma destas cidades. Por séculos, foi uma cidade-estado autônoma próxima dos Alpes, cercada por quase todos os lados pela França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão suíço. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Valais, Friburgo e Berna (estas últimas bilíngues francês e alemão). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes políticos e religiosos foram convertidos em 1536 por um dos expoentes da Reforma, João Calvino. Na ocasião, os genebrinos expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto científica e filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculados à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu &amp;quot;sentimento de destino&amp;quot;, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos e fundos de investimento fortes e muito importantes globalmente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram uma filosofia humanista e social que convocava os cidadãos a direcionar seus esforços aos pobres, doentes, desvalidos, entre outros grupos e comunidades. Por conta dessa cultura, a cidade recebeu, em diferentes momentos, minorias perseguidas, doentes, vítimas de guerras, entre muitos imigrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação de iniciativas de promoção da paz e do desenvolvimento mundial, como a Cruz Vermelha e o Direito Internacional Humanitário. Em Genebra também se incentivou a criação de ações políticas multilaterais de fomento de diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, desarmamento, educação, proteção aos trabalhadores, entre outras . Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um de seus intelectuais, &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido treinamento em alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento com experimentos da psicofísica e da fisiologia que, posteriormente, viriam a ser utilizados ou incorporados na vindoura psicologia científica. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, sua ação inicial pode ser entendida como uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos com seus alunos da Universidade de Genebra. Fazia o mesmo no salão de sua casa, com seus convidados, antes ou depois das refeições que organizava, visando discussões privadas e sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039;. Essa experiência o leva a querer trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da psicologia. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por certas discordâncias, decidiu criar o próprio laboratório, colocando-se como um dissidente de seu mestre. Münsterberg fez várias sugestões e indicações a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes para ser num laboratório de psicologia e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viajou para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, com quem teve orientações práticas que utilizou para montar o seu próprio laboratório laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo comprou os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois foram adquiridos pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta e a partir de uma dissidência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra. O que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publicou [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio. Para Claparède, era esse meio que precisava ser transformado e adaptado, visando o desenvolvimento infantil. Defende então que a educação precisa ser baseada num conhecimento científico sobre a criança, o que passava necessariamente pela compreensão de sua psicologia. A escola, em sua visão, seria como um laboratório, onde poderiam ser testadas práticas pedagógicas, fundamentadas também na psicologia, com eficácia comprovada cientificamente.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se aliou a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento tanto público quanto privado, o espaço foi inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança), representando o espírito da Escola de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo. Assim, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria entender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. A questão pode ser compreendida, de forma geral, se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas necessidades, interesses e objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é grande, como acontece quando estamos com fome, por exemplo, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e até a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet também visitou o país, o que reforça o intercâmbio entre os dois lugares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que nesta visita o Brasil foi colocado como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Empresta hoje nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é o de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país. Além disso, Lourenço Filho também trabalhou para o desenvolvimento da psicologia no Brasil, escrevendo livros, dando cursos, publicando nos jornais e ocupando cargos importantes na administração pública, tanto federal como na época das então províncias, facilitando a conexão entre a psicologia e a educação e o desenvolvimento da própria psicologia brasileira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O IJJR também enviou pessoas de outras nacionalidades que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras do local. Além disso, Radecki também tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento da perseguição aos judeus. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
A Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède, que o expande e funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa com uma perspectiva de aliança entre educação e psicologia. Contudo, o grande nome de Genebra, que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de &#039;&#039;&#039;adaptação do sujeito ao meio&#039;&#039;&#039; e que a &#039;&#039;&#039;cognição é uma extensão do real&#039;&#039;&#039;. É nessa obra que ele amadurece a noção de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria até o final de sua vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento em que Piaget exerce imensa influência sobre a instituição, dando sua orientação e atuando diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo: &amp;quot;o tempo&amp;quot;, &amp;quot;a causalidade&amp;quot; ou &amp;quot;a contradição&amp;quot;, e convidava os maiores nomes do mundo para debatê-lo. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre os debates conduzidos naquele período, sintetizando avançadas discussçoes interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com extrnas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua epistemologia genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. Uma lista completa é praticamente impossível de elaborar, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser amigo pessoal de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
BANKS-LEITE, Luci (Org.). &#039;&#039;&#039;Percursos piagetianos&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Cortez, 1997.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BANKS-LEITE, Luci (Org.). &#039;&#039;&#039;Piaget e a escola de Genebra&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Cortez, 1987.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1717</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1717"/>
		<updated>2026-07-08T19:52:09Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* O Instituto Jean-Jacques Rousseau */ Correções de texto&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base científica do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada uma das diferentes escolas funcionalistas. No funcionalismo, as teorias evolutivas têm relevância central, e consideram mente como o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No [[Funcionalismo americano|&#039;&#039;&#039;funcionalismo americano&#039;&#039;&#039;]], o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos e comportamentais&#039;&#039;&#039;. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma &amp;quot;coisa em si&amp;quot; para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039; na verdade são &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039;. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou &amp;quot;mistura&amp;quot; desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico só se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias com conexões funcionalistas mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções breves em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;[[Salpetrière]]&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação era considerada suficiente, além de os tratamentos serem bastante limitados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após a expansão do [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Nessas sessões, ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. Estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot nomes importantes para o século XX, como [[Freud]], [[Pierre Janet]], [[William James]], [[Joseph Babinski]], [[Alfred Binet]], entre outros. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]], [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] e outros trabalharam fortemente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que a paralisou, mas fomentou o desenvolvimento de uma psicologia filosófica, de grande importância para os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e, por conta disso, sofria sabotagem de seus colegas. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da [[Escola Prática de Altos Estudos]]. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como [[Claude Bernard]] (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, oriundo da Escola de Nancy e um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões muitas vezes indiretas, mas significativas para o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. As instituições centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de &#039;&#039;&#039;Jean-Martin Charcot&#039;&#039;&#039; e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, &#039;&#039;&#039;Alfred Binet&#039;&#039;&#039;, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;[[Pierre Janet]]&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud e a questões históricas da França, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceram na Alemanha, com &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. Os alemães tradicionalmente se interessam por psicologia, que era discutida amplamente em publicações de circulação acadêmica e popular, bem como em debates públicos. Essa &amp;quot;cultura psicológica&amp;quot; favoreceu o desenvolvimento da criação da psicologia, que ocorreu com a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica. Este momento ficou conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, a exemplo da linha alemã mais famosa do período, a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que colaborou com o surgimento de um corpo de psicólogos profissionais. Ao mesmo tempo, perspectivas desenvolvimentistas ou funcionalistas continuaram suas investigações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. Os &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também eram numerosos e respeitados, ganham progressiva relevância. A &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039; havia imigrado para os EUA durante a guerra e assim conseguiu uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã e enfraqueceu a própria Escola da Gestalt. Ainda no pós-guerra, ganham força &#039;&#039;&#039;perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; junto de abordagens mais holísticas, o que mostra a multiplicidade do pensamento psicológico naquele país que, apesar de sua relevância história, perdeu muito espaço para a psicologia dos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês e que circulavam no Brasil, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise.&#039;&#039;&#039; Ironicamente, a linhagem psicanalítica [[Lacan|lacaniana]], de origem francesa, foi a que mais se desenvolveu no país. As dificuldades do idioma e a distância cultural foram importantes obstáculos à circulação das ideias psicológicas da Alemanha no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente Alemanha, e associou-se fortemente à fisiologia na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra [[Vladimir Bechterev]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofundou os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um alguém que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias foram aplicadas em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecidas internacionalmente como importantes contribuições da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky progressivamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve menos circulação no Brasil, porém, Pavlov é um nome quase unanimemente citado em cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Seu nome é amplamente conhecido por estudantes de psicologia e de licenciaturas. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas criadas na cidade de Genebra, na Suíça. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre porque este país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente diferentes. Essa multiplicidade impede uma classificação nacional ampla, demandando um estudo por região. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar de &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt mas com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça na fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, puderam obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar, desenvolvimento social e econômico. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma destas cidades. Por séculos, foi uma cidade-estado autônoma próxima dos Alpes, cercada por quase todos os lados pela França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Friburgo (bilíngue), Valais e Berna (bilíngue). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes foram convertidos pelo próprio reformador João Calvino em 1536, quando expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto científica e filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculado à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu &amp;quot;sentimento de destino&amp;quot;, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos e fundos de investimento fortes e globalmente importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram uma filosofia humanista e social que convocava os cidadãos a direcionar seus esforços aos pobres, doentes, desvalidos, entre outros grupos e comunidades. Por conta dessa cultura, a cidade recebeu, em diferentes momentos, minorias perseguidas, pessoas doentes, vítimas de guerras, entre muitos migrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação de iniciativas de promoção da paz e do desenvolvimento mundial, como a Cruz Vermelha e o Direito Internacional Humanitário. Em Genebra também se incentivou a criação de ações políticas multilaterais de fomento de diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, desarmamento, educação, proteção aos trabalhadores, entre outras . Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um de seus intelectuais, de nome &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido treinamento em alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento experimentos na psicofísica e na fisiologia que, posteriormente, viriam a ser incorporados na psicologia científica. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, sua ação inicial pode ser entendida como uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos relacionados à psicofísica e à psicologia na Universidade de Genebra com seus alunos. Fazia o mesmo no salão de sua casa, com seus convidados para as refeições que organizava, visando discussões privadas e sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039;. Essa experiência o leva a querer trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da psicologia. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por certas discordâncias, decidiu criar o próprio laboratório como um dissidente do mestre. Münsterberg fez várias sugestões e indicações a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes para ser num laboratório de psicologia e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viajou para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, com quem teve orientações práticas que utilizou para montar o seu próprio laboratório laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo comprou os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois foram adquiridos pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra, mas o que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publica [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio. Para Claparède, era esse meio que precisava ser transformado e adaptado, visando o desenvolvimento infantil. Defende então que a educação precisa ser baseada num conhecimento científico sobre a criança, o que passava necessariamente pela compreensão da psicologia do infante. A escola, em sua visão, seria como um laboratório, onde poderiam ser testadas práticas pedagógicas fundamentadas na psicologia com eficácia comprovada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se aliou a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento tanto público quanto privado, o espaço foi inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança), representando o espírito da Escola de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo. Assim, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria entender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. A questão pode ser compreendida, de forma geral, se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas necessidades, interesses e objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é grande, como acontece quando estamos com fome, por exemplo, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e até a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet também visitou o país, o que reforça o intercâmbio entre os dois lugares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que nesta visita o Brasil foi colocado como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Empresta hoje nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é o de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país. Além disso, Lourenço Filho também trabalhou para o desenvolvimento da psicologia no Brasil, escrevendo livros, dando cursos, publicando nos jornais e ocupando cargos importantes na administração pública, tanto federal como na época das então províncias, facilitando a conexão entre a psicologia e a educação e o desenvolvimento da própria psicologia brasileira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O IJJR também enviou pessoas de outras nacionalidades que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras do local. Além disso, Radecki também tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento da perseguição aos judeus. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
A Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède, que o expande e funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa com uma perspectiva de aliança entre educação e psicologia. Contudo, o grande nome de Genebra, que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de &#039;&#039;&#039;adaptação do sujeito ao meio&#039;&#039;&#039; e que a &#039;&#039;&#039;cognição é uma extensão do real&#039;&#039;&#039;. É nessa obra que ele amadurece a noção de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria até o final de sua vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento em que Piaget exerce imensa influência sobre a instituição, dando sua orientação e atuando diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo: &amp;quot;o tempo&amp;quot;, &amp;quot;a causalidade&amp;quot; ou &amp;quot;a contradição&amp;quot;, e convidava os maiores nomes do mundo para debatê-lo. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre os debates conduzidos naquele período, sintetizando avançadas discussçoes interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com extrnas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua epistemologia genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. Uma lista completa é praticamente impossível de elaborar, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser amigo pessoal de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1716</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1716"/>
		<updated>2026-07-08T19:44:36Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* História da psicologia em Genebra */ Correções de texto&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base científica do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada uma das diferentes escolas funcionalistas. No funcionalismo, as teorias evolutivas têm relevância central, e consideram mente como o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No [[Funcionalismo americano|&#039;&#039;&#039;funcionalismo americano&#039;&#039;&#039;]], o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos e comportamentais&#039;&#039;&#039;. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma &amp;quot;coisa em si&amp;quot; para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039; na verdade são &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039;. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou &amp;quot;mistura&amp;quot; desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico só se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias com conexões funcionalistas mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções breves em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;[[Salpetrière]]&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação era considerada suficiente, além de os tratamentos serem bastante limitados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após a expansão do [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Nessas sessões, ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. Estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot nomes importantes para o século XX, como [[Freud]], [[Pierre Janet]], [[William James]], [[Joseph Babinski]], [[Alfred Binet]], entre outros. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]], [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] e outros trabalharam fortemente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que a paralisou, mas fomentou o desenvolvimento de uma psicologia filosófica, de grande importância para os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e, por conta disso, sofria sabotagem de seus colegas. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da [[Escola Prática de Altos Estudos]]. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como [[Claude Bernard]] (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, oriundo da Escola de Nancy e um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões muitas vezes indiretas, mas significativas para o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. As instituições centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de &#039;&#039;&#039;Jean-Martin Charcot&#039;&#039;&#039; e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, &#039;&#039;&#039;Alfred Binet&#039;&#039;&#039;, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;[[Pierre Janet]]&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud e a questões históricas da França, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceram na Alemanha, com &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. Os alemães tradicionalmente se interessam por psicologia, que era discutida amplamente em publicações de circulação acadêmica e popular, bem como em debates públicos. Essa &amp;quot;cultura psicológica&amp;quot; favoreceu o desenvolvimento da criação da psicologia, que ocorreu com a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica. Este momento ficou conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, a exemplo da linha alemã mais famosa do período, a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que colaborou com o surgimento de um corpo de psicólogos profissionais. Ao mesmo tempo, perspectivas desenvolvimentistas ou funcionalistas continuaram suas investigações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. Os &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também eram numerosos e respeitados, ganham progressiva relevância. A &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039; havia imigrado para os EUA durante a guerra e assim conseguiu uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã e enfraqueceu a própria Escola da Gestalt. Ainda no pós-guerra, ganham força &#039;&#039;&#039;perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; junto de abordagens mais holísticas, o que mostra a multiplicidade do pensamento psicológico naquele país que, apesar de sua relevância história, perdeu muito espaço para a psicologia dos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês e que circulavam no Brasil, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise.&#039;&#039;&#039; Ironicamente, a linhagem psicanalítica [[Lacan|lacaniana]], de origem francesa, foi a que mais se desenvolveu no país. As dificuldades do idioma e a distância cultural foram importantes obstáculos à circulação das ideias psicológicas da Alemanha no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente Alemanha, e associou-se fortemente à fisiologia na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra [[Vladimir Bechterev]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofundou os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um alguém que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias foram aplicadas em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecidas internacionalmente como importantes contribuições da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky progressivamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve menos circulação no Brasil, porém, Pavlov é um nome quase unanimemente citado em cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Seu nome é amplamente conhecido por estudantes de psicologia e de licenciaturas. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas criadas na cidade de Genebra, na Suíça. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre porque este país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente diferentes. Essa multiplicidade impede uma classificação nacional ampla, demandando um estudo por região. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar de &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt mas com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça na fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, puderam obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar, desenvolvimento social e econômico. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma destas cidades. Por séculos, foi uma cidade-estado autônoma próxima dos Alpes, cercada por quase todos os lados pela França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Friburgo (bilíngue), Valais e Berna (bilíngue). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes foram convertidos pelo próprio reformador João Calvino em 1536, quando expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto científica e filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculado à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu &amp;quot;sentimento de destino&amp;quot;, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos e fundos de investimento fortes e globalmente importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram uma filosofia humanista e social que convocava os cidadãos a direcionar seus esforços aos pobres, doentes, desvalidos, entre outros grupos e comunidades. Por conta dessa cultura, a cidade recebeu, em diferentes momentos, minorias perseguidas, pessoas doentes, vítimas de guerras, entre muitos migrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação de iniciativas de promoção da paz e do desenvolvimento mundial, como a Cruz Vermelha e o Direito Internacional Humanitário. Em Genebra também se incentivou a criação de ações políticas multilaterais de fomento de diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, desarmamento, educação, proteção aos trabalhadores, entre outras . Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um de seus intelectuais, de nome &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido treinamento em alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento experimentos na psicofísica e na fisiologia que, posteriormente, viriam a ser incorporados na psicologia científica. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, sua ação inicial pode ser entendida como uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos relacionados à psicofísica e à psicologia na Universidade de Genebra com seus alunos. Fazia o mesmo no salão de sua casa, com seus convidados para as refeições que organizava, visando discussões privadas e sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039;. Essa experiência o leva a querer trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da psicologia. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por certas discordâncias, decidiu criar o próprio laboratório como um dissidente do mestre. Münsterberg fez várias sugestões e indicações a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes para ser num laboratório de psicologia e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viajou para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, com quem teve orientações práticas que utilizou para montar o seu próprio laboratório laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo comprou os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois foram adquiridos pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra, mas o que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publica [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio, que precisava ser transformado e adaptado visando o seu desenvolvimento. Defende então que a educação precisa ser baseada no conhecimento sobre a criança que a psicologia poderia ajudar a proporcionar. A escola seria um laboratório de experiências, onde são testadas práticas pedagógicas fundamentadas na psicologia com eficácia comprovada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se alia a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento público e privado, o espaço é inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo. Assim, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria entender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. A questão pode ser compreendida, de forma geral, se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas necessidades, interesses e objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é grande, como acontece quando estamos com fome, por exemplo, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e até a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet também visitou o país, o que reforça o intercâmbio entre os dois lugares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que nesta visita o Brasil foi colocado como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Empresta hoje nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é o de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país. Além disso, Lourenço Filho também trabalhou para o desenvolvimento da psicologia no Brasil, escrevendo livros, dando cursos, publicando nos jornais e ocupando cargos importantes na administração pública, tanto federal como na época das então províncias, facilitando a conexão entre a psicologia e a educação e o desenvolvimento da própria psicologia brasileira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O IJJR também enviou pessoas de outras nacionalidades que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras do local. Além disso, Radecki também tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento da perseguição aos judeus. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
A Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède, que o expande e funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa com uma perspectiva de aliança entre educação e psicologia. Contudo, o grande nome de Genebra, que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de &#039;&#039;&#039;adaptação do sujeito ao meio&#039;&#039;&#039; e que a &#039;&#039;&#039;cognição é uma extensão do real&#039;&#039;&#039;. É nessa obra que ele amadurece a noção de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria até o final de sua vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento em que Piaget exerce imensa influência sobre a instituição, dando sua orientação e atuando diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo: &amp;quot;o tempo&amp;quot;, &amp;quot;a causalidade&amp;quot; ou &amp;quot;a contradição&amp;quot;, e convidava os maiores nomes do mundo para debatê-lo. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre os debates conduzidos naquele período, sintetizando avançadas discussçoes interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com extrnas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua epistemologia genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. Uma lista completa é praticamente impossível de elaborar, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser amigo pessoal de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
BANKS-LEITE, Luci (Org.). &#039;&#039;&#039;Percursos piagetianos&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Cortez, 1997.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
BANKS-LEITE, Luci (Org.). &#039;&#039;&#039;Piaget e a escola de Genebra&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Cortez, 1987.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
ROSA, Hugo Leonardo Rocha Silva da; RIBEIRO, André Elias Morelli. A viagem de Claparède ao Brasil. Em: RIBEIRO, André Elias Morelli; SANTOS, Marcus Vinícius do Amaral Gama; VIEIRA, Yuri Pereira Antunes; GUIMARÃES, Gunther Mafra; FERREIRA, Arthur Arruda Leal; FONSECA, Luiz Eduardo Prado da (Orgs.). &#039;&#039;&#039;Boletim do Portal História da Psicologia&#039;&#039;&#039;. Rio das Ostras, RJ: Editora do Portal História da Psicologia, 2022, p.286-330. Disponível em: &amp;lt;&amp;lt;nowiki&amp;gt;https://editora.historiadapsicologia.com.br/wp-content/uploads/2026/03/13-A-Viagem-de-Claparede-ao-Brasil-1.pdf&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&amp;gt;.&lt;br /&gt;
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RUCHAT, Martine. A Escola de psicologia de Genebra em Belo Horizonte um estudo por meio da correspondência entre Edouard Claparède e Hélène Antipoff (1915-1940). &#039;&#039;&#039;Revista Brasileira de História de Educação&#039;&#039;&#039;, v. 8, n. 2, p. 181-205, 2008. Disponível em: &amp;lt;&amp;lt;nowiki&amp;gt;https://www.redalyc.org/pdf/5761/576161066010.pdf&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&amp;gt;. &lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1715</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1715"/>
		<updated>2026-07-08T19:40:03Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra */ Várias modificações substanciais&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base científica do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada uma das diferentes escolas funcionalistas. No funcionalismo, as teorias evolutivas têm relevância central, e consideram mente como o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No [[Funcionalismo americano|&#039;&#039;&#039;funcionalismo americano&#039;&#039;&#039;]], o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos e comportamentais&#039;&#039;&#039;. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma &amp;quot;coisa em si&amp;quot; para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039; na verdade são &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039;. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou &amp;quot;mistura&amp;quot; desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico só se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias com conexões funcionalistas mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções breves em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;[[Salpetrière]]&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação era considerada suficiente, além de os tratamentos serem bastante limitados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após a expansão do [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Nessas sessões, ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. Estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot nomes importantes para o século XX, como [[Freud]], [[Pierre Janet]], [[William James]], [[Joseph Babinski]], [[Alfred Binet]], entre outros. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]], [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] e outros trabalharam fortemente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que a paralisou, mas fomentou o desenvolvimento de uma psicologia filosófica, de grande importância para os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e, por conta disso, sofria sabotagem de seus colegas. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da [[Escola Prática de Altos Estudos]]. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como [[Claude Bernard]] (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, oriundo da Escola de Nancy e um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões muitas vezes indiretas, mas significativas para o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. As instituições centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de &#039;&#039;&#039;Jean-Martin Charcot&#039;&#039;&#039; e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, &#039;&#039;&#039;Alfred Binet&#039;&#039;&#039;, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;[[Pierre Janet]]&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud e a questões históricas da França, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceram na Alemanha, com &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. Os alemães tradicionalmente se interessam por psicologia, que era discutida amplamente em publicações de circulação acadêmica e popular, bem como em debates públicos. Essa &amp;quot;cultura psicológica&amp;quot; favoreceu o desenvolvimento da criação da psicologia, que ocorreu com a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica. Este momento ficou conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, a exemplo da linha alemã mais famosa do período, a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que colaborou com o surgimento de um corpo de psicólogos profissionais. Ao mesmo tempo, perspectivas desenvolvimentistas ou funcionalistas continuaram suas investigações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. Os &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também eram numerosos e respeitados, ganham progressiva relevância. A &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039; havia imigrado para os EUA durante a guerra e assim conseguiu uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã e enfraqueceu a própria Escola da Gestalt. Ainda no pós-guerra, ganham força &#039;&#039;&#039;perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; junto de abordagens mais holísticas, o que mostra a multiplicidade do pensamento psicológico naquele país que, apesar de sua relevância história, perdeu muito espaço para a psicologia dos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês e que circulavam no Brasil, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise.&#039;&#039;&#039; Ironicamente, a linhagem psicanalítica [[Lacan|lacaniana]], de origem francesa, foi a que mais se desenvolveu no país. As dificuldades do idioma e a distância cultural foram importantes obstáculos à circulação das ideias psicológicas da Alemanha no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente Alemanha, e associou-se fortemente à fisiologia na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra [[Vladimir Bechterev]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofundou os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um alguém que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias foram aplicadas em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecidas internacionalmente como importantes contribuições da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky progressivamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve menos circulação no Brasil, porém, Pavlov é um nome quase unanimemente citado em cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Seu nome é amplamente conhecido por estudantes de psicologia e de licenciaturas. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas criadas na cidade de Genebra, na Suíça. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre porque este país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente diferentes. Essa multiplicidade impede uma classificação nacional ampla, demandando um estudo por região. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar de &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt mas com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça na fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, puderam obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar, desenvolvimento social e econômico. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma destas cidades. Por séculos, foi uma cidade-estado autônoma próxima dos Alpes, cercada por quase todos os lados pela França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Friburgo (bilíngue), Valais e Berna (bilíngue). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes foram convertidos pelo próprio reformador João Calvino em 1536, quando expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto científica e filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculado à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu &amp;quot;sentimento de destino&amp;quot;, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos e fundos de investimento fortes e globalmente importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram uma filosofia humanista e social que convocava os cidadãos a direcionar seus esforços aos pobres, doentes, desvalidos, entre outros grupos e comunidades. Por conta dessa cultura, a cidade recebeu, em diferentes momentos, minorias perseguidas, pessoas doentes, vítimas de guerras, entre muitos migrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação de iniciativas de promoção da paz e do desenvolvimento mundial, como a Cruz Vermelha e o Direito Internacional Humanitário. Em Genebra também se incentivou a criação de ações políticas multilaterais de fomento de diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, desarmamento, educação, proteção aos trabalhadores, entre outras . Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um de seus intelectuais, de nome &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido treinamento em alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento experimentos na psicofísica e na fisiologia que, posteriormente, viriam a ser incorporados na psicologia científica. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, sua ação inicial pode ser entendida como uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos relacionados à psicofísica e à psicologia na Universidade de Genebra com seus alunos. Fazia o mesmo no salão de sua casa, com seus convidados para as refeições que organizava, visando discussões privadas e sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039; e, com a experiência com o que viu na cidade, decide trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da nova ciência. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por discordâncias, criou o próprio laboratório como um dissidente do mestre. Münsterberg fez todo tipo de indicação a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viaja para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, onde pega orientações prática e começa a desenhar o que seria o seu laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo compra os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois são adquirido pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra, mas o que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publica [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio, que precisava ser transformado e adaptado visando o seu desenvolvimento. Defende então que a educação precisa ser baseada no conhecimento sobre a criança que a psicologia poderia ajudar a proporcionar. A escola seria um laboratório de experiências, onde são testadas práticas pedagógicas fundamentadas na psicologia com eficácia comprovada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se alia a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento público e privado, o espaço é inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo. Assim, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria entender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. A questão pode ser compreendida, de forma geral, se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas necessidades, interesses e objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é grande, como acontece quando estamos com fome, por exemplo, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e até a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet também visitou o país, o que reforça o intercâmbio entre os dois lugares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que nesta visita o Brasil foi colocado como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Empresta hoje nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é o de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país. Além disso, Lourenço Filho também trabalhou para o desenvolvimento da psicologia no Brasil, escrevendo livros, dando cursos, publicando nos jornais e ocupando cargos importantes na administração pública, tanto federal como na época das então províncias, facilitando a conexão entre a psicologia e a educação e o desenvolvimento da própria psicologia brasileira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O IJJR também enviou pessoas de outras nacionalidades que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras do local. Além disso, Radecki também tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento da perseguição aos judeus. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
A Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède, que o expande e funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa com uma perspectiva de aliança entre educação e psicologia. Contudo, o grande nome de Genebra, que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de &#039;&#039;&#039;adaptação do sujeito ao meio&#039;&#039;&#039; e que a &#039;&#039;&#039;cognição é uma extensão do real&#039;&#039;&#039;. É nessa obra que ele amadurece a noção de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria até o final de sua vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento em que Piaget exerce imensa influência sobre a instituição, dando sua orientação e atuando diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo: &amp;quot;o tempo&amp;quot;, &amp;quot;a causalidade&amp;quot; ou &amp;quot;a contradição&amp;quot;, e convidava os maiores nomes do mundo para debatê-lo. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre os debates conduzidos naquele período, sintetizando avançadas discussçoes interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com extrnas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua epistemologia genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. Uma lista completa é praticamente impossível de elaborar, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser amigo pessoal de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
BANKS-LEITE, Luci (Org.). &#039;&#039;&#039;Piaget e a escola de Genebra&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Cortez, 1987.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
ROSA, Hugo Leonardo Rocha Silva da; RIBEIRO, André Elias Morelli. A viagem de Claparède ao Brasil. Em: RIBEIRO, André Elias Morelli; SANTOS, Marcus Vinícius do Amaral Gama; VIEIRA, Yuri Pereira Antunes; GUIMARÃES, Gunther Mafra; FERREIRA, Arthur Arruda Leal; FONSECA, Luiz Eduardo Prado da (Orgs.). &#039;&#039;&#039;Boletim do Portal História da Psicologia&#039;&#039;&#039;. Rio das Ostras, RJ: Editora do Portal História da Psicologia, 2022, p.286-330. Disponível em: &amp;lt;&amp;lt;nowiki&amp;gt;https://editora.historiadapsicologia.com.br/wp-content/uploads/2026/03/13-A-Viagem-de-Claparede-ao-Brasil-1.pdf&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&amp;gt;.&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1714</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1714"/>
		<updated>2026-07-06T20:47:09Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* A Escola de Genebra */ Várias modificações substanciais&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base científica do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada uma das diferentes escolas funcionalistas. No funcionalismo, as teorias evolutivas têm relevância central, e consideram mente como o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No [[Funcionalismo americano|&#039;&#039;&#039;funcionalismo americano&#039;&#039;&#039;]], o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos e comportamentais&#039;&#039;&#039;. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma &amp;quot;coisa em si&amp;quot; para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039; na verdade são &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039;. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou &amp;quot;mistura&amp;quot; desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico só se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias com conexões funcionalistas mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções breves em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;[[Salpetrière]]&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação era considerada suficiente, além de os tratamentos serem bastante limitados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após a expansão do [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Nessas sessões, ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. Estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot nomes importantes para o século XX, como [[Freud]], [[Pierre Janet]], [[William James]], [[Joseph Babinski]], [[Alfred Binet]], entre outros. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]], [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] e outros trabalharam fortemente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que a paralisou, mas fomentou o desenvolvimento de uma psicologia filosófica, de grande importância para os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e, por conta disso, sofria sabotagem de seus colegas. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da [[Escola Prática de Altos Estudos]]. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como [[Claude Bernard]] (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, oriundo da Escola de Nancy e um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões muitas vezes indiretas, mas significativas para o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. As instituições centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de &#039;&#039;&#039;Jean-Martin Charcot&#039;&#039;&#039; e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, &#039;&#039;&#039;Alfred Binet&#039;&#039;&#039;, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;[[Pierre Janet]]&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud e a questões históricas da França, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceram na Alemanha, com &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. Os alemães tradicionalmente se interessam por psicologia, que era discutida amplamente em publicações de circulação acadêmica e popular, bem como em debates públicos. Essa &amp;quot;cultura psicológica&amp;quot; favoreceu o desenvolvimento da criação da psicologia, que ocorreu com a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica. Este momento ficou conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, a exemplo da linha alemã mais famosa do período, a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que colaborou com o surgimento de um corpo de psicólogos profissionais. Ao mesmo tempo, perspectivas desenvolvimentistas ou funcionalistas continuaram suas investigações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. Os &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também eram numerosos e respeitados, ganham progressiva relevância. A &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039; havia imigrado para os EUA durante a guerra e assim conseguiu uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã e enfraqueceu a própria Escola da Gestalt. Ainda no pós-guerra, ganham força &#039;&#039;&#039;perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; junto de abordagens mais holísticas, o que mostra a multiplicidade do pensamento psicológico naquele país que, apesar de sua relevância história, perdeu muito espaço para a psicologia dos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês e que circulavam no Brasil, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise.&#039;&#039;&#039; Ironicamente, a linhagem psicanalítica [[Lacan|lacaniana]], de origem francesa, foi a que mais se desenvolveu no país. As dificuldades do idioma e a distância cultural foram importantes obstáculos à circulação das ideias psicológicas da Alemanha no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente Alemanha, e associou-se fortemente à fisiologia na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra [[Vladimir Bechterev]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofundou os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um alguém que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias foram aplicadas em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecidas internacionalmente como importantes contribuições da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky progressivamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve menos circulação no Brasil, porém, Pavlov é um nome quase unanimemente citado em cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Seu nome é amplamente conhecido por estudantes de psicologia e de licenciaturas. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas criadas na cidade de Genebra, na Suíça. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre porque este país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente diferentes. Essa multiplicidade impede uma classificação nacional ampla, demandando um estudo por região. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar de &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt mas com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça na fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, puderam obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar, desenvolvimento social e econômico. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma destas cidades. Por séculos, foi uma cidade-estado autônoma próxima dos Alpes, cercada por quase todos os lados pela França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Friburgo (bilíngue), Valais e Berna (bilíngue). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes foram convertidos pelo próprio reformador João Calvino em 1536, quando expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto científica e filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculado à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu &amp;quot;sentimento de destino&amp;quot;, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos e fundos de investimento fortes e globalmente importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram um humanismo social em que os cidadãos deveriam direcionar suas ações para os pobres, doentes, desvalidos, entre outros. A cidade recebeu, em diferentes momentos, grupos minoritários perseguidos, doentes e vítimas de guerras, entre muitos migrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação da Cruz Vermelha, bem como do Direito Internacional Humanitário, que inspirou diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, entre outras atitudes humanitárias internacionais que tiveram origem ou forte desenvolvimento na região. Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um dos chamados sábios da cidade, &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido um treinamento para aprender alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento do que viria a ser inserido como parte da psicologia, como experimentos na psicofísica e na fisiologia. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, trata-se de uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos relacionados à psicofísica e à psicologia na Universidade de Genebra com seus alunos, ou mesmo no salão de sua casa, com convidados, sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039; e, com a experiência com o que viu na cidade, decide trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da nova ciência. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por discordâncias, criou o próprio laboratório como um dissidente do mestre. Münsterberg fez todo tipo de indicação a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viaja para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, onde pega orientações prática e começa a desenhar o que seria o seu laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo compra os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois são adquirido pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra, mas o que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publica [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio, que precisava ser transformado e adaptado visando o seu desenvolvimento. Defende então que a educação precisa ser baseada no conhecimento sobre a criança que a psicologia poderia ajudar a proporcionar. A escola seria um laboratório de experiências, onde são testadas práticas pedagógicas fundamentadas na psicologia com eficácia comprovada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se alia a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento público e privado, o espaço é inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo. Assim, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria entender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. A questão pode ser compreendida, de forma geral, se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas necessidades, interesses e objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é grande, como acontece quando estamos com fome, por exemplo, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e até a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet também visitou o país, o que reforça o intercâmbio entre os dois lugares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que nesta visita o Brasil foi colocado como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Empresta hoje nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é o de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país. Além disso, Lourenço Filho também trabalhou para o desenvolvimento da psicologia no Brasil, escrevendo livros, dando cursos, publicando nos jornais e ocupando cargos importantes na administração pública, tanto federal como na época das então províncias, facilitando a conexão entre a psicologia e a educação e o desenvolvimento da própria psicologia brasileira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O IJJR também enviou pessoas de outras nacionalidades que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras do local. Além disso, Radecki também tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento da perseguição aos judeus. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
A Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède, que o expande e funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa com uma perspectiva de aliança entre educação e psicologia. Contudo, o grande nome de Genebra, que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de &#039;&#039;&#039;adaptação do sujeito ao meio&#039;&#039;&#039; e que a &#039;&#039;&#039;cognição é uma extensão do real&#039;&#039;&#039;. É nessa obra que ele amadurece a noção de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria até o final de sua vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento em que Piaget exerce imensa influência sobre a instituição, dando sua orientação e atuando diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo: &amp;quot;o tempo&amp;quot;, &amp;quot;a causalidade&amp;quot; ou &amp;quot;a contradição&amp;quot;, e convidava os maiores nomes do mundo para debatê-lo. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre os debates conduzidos naquele período, sintetizando avançadas discussçoes interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com extrnas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua epistemologia genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. Uma lista completa é praticamente impossível de elaborar, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser amigo pessoal de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
BANKS-LEITE, Luci (Org.). &#039;&#039;&#039;Piaget e a escola de Genebra&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Cortez, 1987.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
ROSA, Hugo Leonardo Rocha Silva da; RIBEIRO, André Elias Morelli. A viagem de Claparède ao Brasil. Em: RIBEIRO, André Elias Morelli; SANTOS, Marcus Vinícius do Amaral Gama; VIEIRA, Yuri Pereira Antunes; GUIMARÃES, Gunther Mafra; FERREIRA, Arthur Arruda Leal; FONSECA, Luiz Eduardo Prado da (Orgs.). &#039;&#039;&#039;Boletim do Portal História da Psicologia&#039;&#039;&#039;. Rio das Ostras, RJ: Editora do Portal História da Psicologia, 2022, p.286-330. Disponível em: &amp;lt;&amp;lt;nowiki&amp;gt;https://editora.historiadapsicologia.com.br/wp-content/uploads/2026/03/13-A-Viagem-de-Claparede-ao-Brasil-1.pdf&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&amp;gt;.&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1713</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1713"/>
		<updated>2026-07-06T20:04:33Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* A psicologia na Rússia */ Várias modificações substanciais&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base científica do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada uma das diferentes escolas funcionalistas. No funcionalismo, as teorias evolutivas têm relevância central, e consideram mente como o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No [[Funcionalismo americano|&#039;&#039;&#039;funcionalismo americano&#039;&#039;&#039;]], o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos e comportamentais&#039;&#039;&#039;. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma &amp;quot;coisa em si&amp;quot; para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039; na verdade são &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039;. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou &amp;quot;mistura&amp;quot; desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico só se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias com conexões funcionalistas mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções breves em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;[[Salpetrière]]&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação era considerada suficiente, além de os tratamentos serem bastante limitados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após a expansão do [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Nessas sessões, ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. Estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot nomes importantes para o século XX, como [[Freud]], [[Pierre Janet]], [[William James]], [[Joseph Babinski]], [[Alfred Binet]], entre outros. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]], [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] e outros trabalharam fortemente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que a paralisou, mas fomentou o desenvolvimento de uma psicologia filosófica, de grande importância para os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e, por conta disso, sofria sabotagem de seus colegas. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da [[Escola Prática de Altos Estudos]]. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como [[Claude Bernard]] (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, oriundo da Escola de Nancy e um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões muitas vezes indiretas, mas significativas para o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. As instituições centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de &#039;&#039;&#039;Jean-Martin Charcot&#039;&#039;&#039; e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, &#039;&#039;&#039;Alfred Binet&#039;&#039;&#039;, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;[[Pierre Janet]]&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud e a questões históricas da França, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceram na Alemanha, com &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. Os alemães tradicionalmente se interessam por psicologia, que era discutida amplamente em publicações de circulação acadêmica e popular, bem como em debates públicos. Essa &amp;quot;cultura psicológica&amp;quot; favoreceu o desenvolvimento da criação da psicologia, que ocorreu com a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica. Este momento ficou conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, a exemplo da linha alemã mais famosa do período, a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que colaborou com o surgimento de um corpo de psicólogos profissionais. Ao mesmo tempo, perspectivas desenvolvimentistas ou funcionalistas continuaram suas investigações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. Os &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também eram numerosos e respeitados, ganham progressiva relevância. A &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039; havia imigrado para os EUA durante a guerra e assim conseguiu uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã e enfraqueceu a própria Escola da Gestalt. Ainda no pós-guerra, ganham força &#039;&#039;&#039;perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; junto de abordagens mais holísticas, o que mostra a multiplicidade do pensamento psicológico naquele país que, apesar de sua relevância história, perdeu muito espaço para a psicologia dos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês e que circulavam no Brasil, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise.&#039;&#039;&#039; Ironicamente, a linhagem psicanalítica [[Lacan|lacaniana]], de origem francesa, foi a que mais se desenvolveu no país. As dificuldades do idioma e a distância cultural foram importantes obstáculos à circulação das ideias psicológicas da Alemanha no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente Alemanha, e associou-se fortemente à fisiologia na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra [[Vladimir Bechterev]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofundou os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um alguém que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias foram aplicadas em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecidas internacionalmente como importantes contribuições da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky progressivamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve menos circulação no Brasil, porém, Pavlov é um nome quase unanimemente citado em cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Seu nome é amplamente conhecido por estudantes de psicologia e de licenciaturas. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas que ocorreram na cidade de Genebra. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre por que o país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente diferentes, o que demanda um estudo por região, e não olhando o país como um todo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar de &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt mas com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça entre a fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. Há poucas informações sobre a psicologia em outros cantões e cidades da Suíça. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, podem obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar e desenvolvimento social e econômico com benefícios mútuos. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado, agora cantões, tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma cidade na Suíça, um pequeno país na Europa Central. Por séculos, foi uma cidade-estado próxima dos Alpes Suíços, cercada por quase todos os lados pela poderosa França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Friburgo (bilíngue), Valais e Berna (bilíngue). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes foram convertidos pelo próprio reformador João Calvino em 1536, quando expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculado à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu sentimento de destino, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos fortes e importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram um humanismo social, onde a ação direta de seus cidadãos deveria ser direcionada para os pobres, doentes, desvalidos, entre outros. A cidade recebeu, em diferentes momentos, grupos minoritários perseguidos, doentes e vítimas de guerras, entre muitos migrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação da Cruz Vermelha, bem como do Direito Internacional Humanitário, que levou a diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, entre outras atitudes humanitárias internacionais que tiveram origem ou forte desenvolvimento na região. Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um dos chamados sábios da cidade, &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido um treinamento para aprender alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento do que viria a ser inserido como parte da psicologia, como experimentos na psicofísica e na fisiologia. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, trata-se de uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos relacionados à psicofísica e à psicologia na Universidade de Genebra com seus alunos, ou mesmo no salão de sua casa, com convidados, sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039; e, com a experiência com o que viu na cidade, decide trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da nova ciência. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por discordâncias, criou o próprio laboratório como um dissidente do mestre. Münsterberg fez todo tipo de indicação a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viaja para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, onde pega orientações prática e começa a desenhar o que seria o seu laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo compra os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois são adquirido pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra, mas o que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publica [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio, que precisava ser transformado e adaptado visando o seu desenvolvimento. Defende então que a educação precisa ser baseada no conhecimento sobre a criança que a psicologia poderia ajudar a proporcionar. A escola seria um laboratório de experiências, onde são testadas práticas pedagógicas fundamentadas na psicologia com eficácia comprovada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se alia a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento público e privado, o espaço é inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo. Assim, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria entender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. A questão pode ser compreendida, de forma geral, se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas necessidades, interesses e objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é grande, como acontece quando estamos com fome, por exemplo, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e até a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet também visitou o país, o que reforça o intercâmbio entre os dois lugares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que nesta visita o Brasil foi colocado como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Empresta hoje nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é o de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país. Além disso, Lourenço Filho também trabalhou para o desenvolvimento da psicologia no Brasil, escrevendo livros, dando cursos, publicando nos jornais e ocupando cargos importantes na administração pública, tanto federal como na época das então províncias, facilitando a conexão entre a psicologia e a educação e o desenvolvimento da própria psicologia brasileira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O IJJR também enviou pessoas de outras nacionalidades que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras do local. Além disso, Radecki também tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento da perseguição aos judeus. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
A Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède, que o expande e funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa com uma perspectiva de aliança entre educação e psicologia. Contudo, o grande nome de Genebra, que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de &#039;&#039;&#039;adaptação do sujeito ao meio&#039;&#039;&#039; e que a &#039;&#039;&#039;cognição é uma extensão do real&#039;&#039;&#039;. É nessa obra que ele amadurece a noção de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria até o final de sua vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento em que Piaget exerce imensa influência sobre a instituição, dando sua orientação e atuando diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo: &amp;quot;o tempo&amp;quot;, &amp;quot;a causalidade&amp;quot; ou &amp;quot;a contradição&amp;quot;, e convidava os maiores nomes do mundo para debatê-lo. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre os debates conduzidos naquele período, sintetizando avançadas discussçoes interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com extrnas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua epistemologia genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. Uma lista completa é praticamente impossível de elaborar, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser amigo pessoal de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
BANKS-LEITE, Luci (Org.). &#039;&#039;&#039;Piaget e a escola de Genebra&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Cortez, 1987.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1712</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1712"/>
		<updated>2026-07-06T19:54:56Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* A psicologia na Alemanha */ Várias modificações substanciais&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base científica do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada uma das diferentes escolas funcionalistas. No funcionalismo, as teorias evolutivas têm relevância central, e consideram mente como o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No [[Funcionalismo americano|&#039;&#039;&#039;funcionalismo americano&#039;&#039;&#039;]], o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos e comportamentais&#039;&#039;&#039;. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma &amp;quot;coisa em si&amp;quot; para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039; na verdade são &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039;. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou &amp;quot;mistura&amp;quot; desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico só se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias com conexões funcionalistas mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções breves em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;[[Salpetrière]]&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação era considerada suficiente, além de os tratamentos serem bastante limitados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após a expansão do [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Nessas sessões, ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. Estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot nomes importantes para o século XX, como [[Freud]], [[Pierre Janet]], [[William James]], [[Joseph Babinski]], [[Alfred Binet]], entre outros. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]], [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] e outros trabalharam fortemente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que a paralisou, mas fomentou o desenvolvimento de uma psicologia filosófica, de grande importância para os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e, por conta disso, sofria sabotagem de seus colegas. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da [[Escola Prática de Altos Estudos]]. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como [[Claude Bernard]] (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, oriundo da Escola de Nancy e um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões muitas vezes indiretas, mas significativas para o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. As instituições centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de &#039;&#039;&#039;Jean-Martin Charcot&#039;&#039;&#039; e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, &#039;&#039;&#039;Alfred Binet&#039;&#039;&#039;, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;[[Pierre Janet]]&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud e a questões históricas da França, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceram na Alemanha, com &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. Os alemães tradicionalmente se interessam por psicologia, que era discutida amplamente em publicações de circulação acadêmica e popular, bem como em debates públicos. Essa &amp;quot;cultura psicológica&amp;quot; favoreceu o desenvolvimento da criação da psicologia, que ocorreu com a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879.  &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica. Este momento ficou conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, a exemplo da linha alemã mais famosa do período, a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que colaborou com o surgimento de um corpo de psicólogos profissionais. Ao mesmo tempo, perspectivas desenvolvimentistas ou funcionalistas continuaram suas investigações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. Os &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também eram numerosos e respeitados, ganham progressiva relevância. A &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039; havia imigrado para os EUA durante a guerra e assim conseguiu uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã e enfraqueceu a própria Escola da Gestalt. Ainda no pós-guerra, ganham força &#039;&#039;&#039;perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; junto de abordagens mais holísticas, o que mostra a multiplicidade do pensamento psicológico naquele país que, apesar de sua relevância história, perdeu muito espaço para a psicologia dos EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês e que circulavam no Brasil, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise.&#039;&#039;&#039; Ironicamente, a linhagem psicanalítica [[Lacan|lacaniana]], de origem francesa, foi a que mais se desenvolveu no país. As dificuldades do idioma e a distância cultural foram importantes obstáculos à circulação das ideias psicológicas da Alemanha no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente alemã, e associou-se fortemente à fisiologia, na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra Vladimir Bechterev.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofunda os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado de Pavlov, mas com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares, como fizera seu par russo. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. Pode-se dizer que esta é, atualmente, a linhagem dominante neste campo específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um sujeito que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias a ser desenvolvida e aplicada em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecida internacionalmente como uma importante contribuição da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky praticamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve pouca circulação no Brasil, porém Pavlov é um nome quase unanimemente citado em todos os cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Praticamente não existem estudantes de psicologia que jamais ouviram falar de seu nome, e a maioria dos estudantes das licenciaturas também conhecem ao menos fragmentos de sua história. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas que ocorreram na cidade de Genebra. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre por que o país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente diferentes, o que demanda um estudo por região, e não olhando o país como um todo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar de &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt mas com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça entre a fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. Há poucas informações sobre a psicologia em outros cantões e cidades da Suíça. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, podem obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar e desenvolvimento social e econômico com benefícios mútuos. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado, agora cantões, tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma cidade na Suíça, um pequeno país na Europa Central. Por séculos, foi uma cidade-estado próxima dos Alpes Suíços, cercada por quase todos os lados pela poderosa França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Friburgo (bilíngue), Valais e Berna (bilíngue). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes foram convertidos pelo próprio reformador João Calvino em 1536, quando expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculado à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu sentimento de destino, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos fortes e importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram um humanismo social, onde a ação direta de seus cidadãos deveria ser direcionada para os pobres, doentes, desvalidos, entre outros. A cidade recebeu, em diferentes momentos, grupos minoritários perseguidos, doentes e vítimas de guerras, entre muitos migrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação da Cruz Vermelha, bem como do Direito Internacional Humanitário, que levou a diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, entre outras atitudes humanitárias internacionais que tiveram origem ou forte desenvolvimento na região. Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um dos chamados sábios da cidade, &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido um treinamento para aprender alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento do que viria a ser inserido como parte da psicologia, como experimentos na psicofísica e na fisiologia. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, trata-se de uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos relacionados à psicofísica e à psicologia na Universidade de Genebra com seus alunos, ou mesmo no salão de sua casa, com convidados, sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039; e, com a experiência com o que viu na cidade, decide trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da nova ciência. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por discordâncias, criou o próprio laboratório como um dissidente do mestre. Münsterberg fez todo tipo de indicação a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viaja para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, onde pega orientações prática e começa a desenhar o que seria o seu laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo compra os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois são adquirido pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra, mas o que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publica [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio, que precisava ser transformado e adaptado visando o seu desenvolvimento. Defende então que a educação precisa ser baseada no conhecimento sobre a criança que a psicologia poderia ajudar a proporcionar. A escola seria um laboratório de experiências, onde são testadas práticas pedagógicas fundamentadas na psicologia com eficácia comprovada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se alia a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento público e privado, o espaço é inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo. Assim, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria entender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. A questão pode ser compreendida, de forma geral, se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas necessidades, interesses e objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é grande, como acontece quando estamos com fome, por exemplo, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e até a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet também visitou o país, o que reforça o intercâmbio entre os dois lugares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que nesta visita o Brasil foi colocado como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Empresta hoje nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é o de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país. Além disso, Lourenço Filho também trabalhou para o desenvolvimento da psicologia no Brasil, escrevendo livros, dando cursos, publicando nos jornais e ocupando cargos importantes na administração pública, tanto federal como na época das então províncias, facilitando a conexão entre a psicologia e a educação e o desenvolvimento da própria psicologia brasileira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O IJJR também enviou pessoas de outras nacionalidades que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras do local. Além disso, Radecki também tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento da perseguição aos judeus. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
A Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède, que o expande e funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa com uma perspectiva de aliança entre educação e psicologia. Contudo, o grande nome de Genebra, que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de &#039;&#039;&#039;adaptação do sujeito ao meio&#039;&#039;&#039; e que a &#039;&#039;&#039;cognição é uma extensão do real&#039;&#039;&#039;. É nessa obra que ele amadurece a noção de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria até o final de sua vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento em que Piaget exerce imensa influência sobre a instituição, dando sua orientação e atuando diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo: &amp;quot;o tempo&amp;quot;, &amp;quot;a causalidade&amp;quot; ou &amp;quot;a contradição&amp;quot;, e convidava os maiores nomes do mundo para debatê-lo. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre os debates conduzidos naquele período, sintetizando avançadas discussçoes interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com extrnas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua epistemologia genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. Uma lista completa é praticamente impossível de elaborar, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser amigo pessoal de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
BANKS-LEITE, Luci (Org.). &#039;&#039;&#039;Piaget e a escola de Genebra&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Cortez, 1987.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
ROSA, Hugo Leonardo Rocha Silva da; RIBEIRO, André Elias Morelli. A viagem de Claparède ao Brasil. Em: RIBEIRO, André Elias Morelli; SANTOS, Marcus Vinícius do Amaral Gama; VIEIRA, Yuri Pereira Antunes; GUIMARÃES, Gunther Mafra; FERREIRA, Arthur Arruda Leal; FONSECA, Luiz Eduardo Prado da (Orgs.). &#039;&#039;&#039;Boletim do Portal História da Psicologia&#039;&#039;&#039;. Rio das Ostras, RJ: Editora do Portal História da Psicologia, 2022, p.286-330. Disponível em: &amp;lt;&amp;lt;nowiki&amp;gt;https://editora.historiadapsicologia.com.br/wp-content/uploads/2026/03/13-A-Viagem-de-Claparede-ao-Brasil-1.pdf&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&amp;gt;.&lt;br /&gt;
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SOUZA JUNIOR, Eustáquio José de; LOPES, Manoela Gomes; CIRINO, Sérgio Dias. A reflexologia soviética: Séchenov, Pavlov e Bechterew. Em: JACÓ-VILELA, Ana Maria; FERREIRA, Arthur Arruda Leal; PORTUGAL, Francisco. &#039;&#039;&#039;História da psicologia&#039;&#039;&#039;: rumos e percursos. Rio de Janeiro: Nau Editora, 2005, p. 169-178.&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1711</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1711"/>
		<updated>2026-07-04T20:51:04Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* A psicologia na Alemanha */ Várias modificações substanciais&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base científica do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada uma das diferentes escolas funcionalistas. No funcionalismo, as teorias evolutivas têm relevância central, e consideram mente como o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No [[Funcionalismo americano|&#039;&#039;&#039;funcionalismo americano&#039;&#039;&#039;]], o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos e comportamentais&#039;&#039;&#039;. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma &amp;quot;coisa em si&amp;quot; para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039; na verdade são &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039;. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou &amp;quot;mistura&amp;quot; desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico só se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias com conexões funcionalistas mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções breves em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;[[Salpetrière]]&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação era considerada suficiente, além de os tratamentos serem bastante limitados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após a expansão do [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Nessas sessões, ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. Estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot nomes importantes para o século XX, como [[Freud]], [[Pierre Janet]], [[William James]], [[Joseph Babinski]], [[Alfred Binet]], entre outros. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]], [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] e outros trabalharam fortemente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que a paralisou, mas fomentou o desenvolvimento de uma psicologia filosófica, de grande importância para os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e, por conta disso, sofria sabotagem de seus colegas. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da [[Escola Prática de Altos Estudos]]. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como [[Claude Bernard]] (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, oriundo da Escola de Nancy e um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões muitas vezes indiretas, mas significativas para o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. As instituições centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de &#039;&#039;&#039;Jean-Martin Charcot&#039;&#039;&#039; e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, &#039;&#039;&#039;Alfred Binet&#039;&#039;&#039;, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;[[Pierre Janet]]&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud e a questões históricas da França, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceu na Alemanha, com as ideias de &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. Os alemães tradicionalmente se interessam por psicologia, que era discutida amplamente em publicações e debates públicos. Essa cultura psicológica acabou facilitando para que o marco simbólico da criação da psicologia fosse lá, com a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879, o que gerou avanços e debates pelo país. A primeira linha de psicologia aplicada alemã foi criada no exército. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica, conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, como a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que favoreceu o surgimento de um corpo profissional, sem falar das perspectivas desenvolvimentistas ou funcionalistas, que permanecem se aperfeiçoando.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. Os &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também são numerosos e respeitados, ganham progressiva relevância. A psicologia tipicamente alemã, a da &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039;, havia imigrado para os EUA. Lá essa escola conseguiu uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã. &#039;&#039;&#039;Perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; ganham força junto de abordagens mais holísticas e, apesar de sua relevância, a psicologia alemã ainda busca um retorno à glória de seu passado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise&#039;&#039;&#039;, ironicamente com destaque para a linhagem [[Lacan|lacaniana]], que tem origem francesa. A distância entre Alemanha e o Brasil se devem às dificuldades do idioma e à distância cultural, que atrapalharam a circulação das ideias daquele país no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente alemã, e associou-se fortemente à fisiologia, na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra Vladimir Bechterev.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofunda os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado de Pavlov, mas com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares, como fizera seu par russo. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. Pode-se dizer que esta é, atualmente, a linhagem dominante neste campo específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um sujeito que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias a ser desenvolvida e aplicada em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecida internacionalmente como uma importante contribuição da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky praticamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve pouca circulação no Brasil, porém Pavlov é um nome quase unanimemente citado em todos os cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Praticamente não existem estudantes de psicologia que jamais ouviram falar de seu nome, e a maioria dos estudantes das licenciaturas também conhecem ao menos fragmentos de sua história. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas que ocorreram na cidade de Genebra. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre por que o país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente diferentes, o que demanda um estudo por região, e não olhando o país como um todo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar de &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt mas com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça entre a fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. Há poucas informações sobre a psicologia em outros cantões e cidades da Suíça. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, podem obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar e desenvolvimento social e econômico com benefícios mútuos. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado, agora cantões, tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma cidade na Suíça, um pequeno país na Europa Central. Por séculos, foi uma cidade-estado próxima dos Alpes Suíços, cercada por quase todos os lados pela poderosa França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Friburgo (bilíngue), Valais e Berna (bilíngue). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes foram convertidos pelo próprio reformador João Calvino em 1536, quando expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculado à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu sentimento de destino, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos fortes e importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram um humanismo social, onde a ação direta de seus cidadãos deveria ser direcionada para os pobres, doentes, desvalidos, entre outros. A cidade recebeu, em diferentes momentos, grupos minoritários perseguidos, doentes e vítimas de guerras, entre muitos migrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação da Cruz Vermelha, bem como do Direito Internacional Humanitário, que levou a diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, entre outras atitudes humanitárias internacionais que tiveram origem ou forte desenvolvimento na região. Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um dos chamados sábios da cidade, &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido um treinamento para aprender alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento do que viria a ser inserido como parte da psicologia, como experimentos na psicofísica e na fisiologia. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, trata-se de uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos relacionados à psicofísica e à psicologia na Universidade de Genebra com seus alunos, ou mesmo no salão de sua casa, com convidados, sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039; e, com a experiência com o que viu na cidade, decide trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da nova ciência. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por discordâncias, criou o próprio laboratório como um dissidente do mestre. Münsterberg fez todo tipo de indicação a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viaja para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, onde pega orientações prática e começa a desenhar o que seria o seu laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo compra os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois são adquirido pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra, mas o que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publica [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio, que precisava ser transformado e adaptado visando o seu desenvolvimento. Defende então que a educação precisa ser baseada no conhecimento sobre a criança que a psicologia poderia ajudar a proporcionar. A escola seria um laboratório de experiências, onde são testadas práticas pedagógicas fundamentadas na psicologia com eficácia comprovada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se alia a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento público e privado, o espaço é inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo. Assim, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria entender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. A questão pode ser compreendida, de forma geral, se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas necessidades, interesses e objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é grande, como acontece quando estamos com fome, por exemplo, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e até a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet também visitou o país, o que reforça o intercâmbio entre os dois lugares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que nesta visita o Brasil foi colocado como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Empresta hoje nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é o de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país. Além disso, Lourenço Filho também trabalhou para o desenvolvimento da psicologia no Brasil, escrevendo livros, dando cursos, publicando nos jornais e ocupando cargos importantes na administração pública, tanto federal como na época das então províncias, facilitando a conexão entre a psicologia e a educação e o desenvolvimento da própria psicologia brasileira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O IJJR também enviou pessoas de outras nacionalidades que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras do local. Além disso, Radecki também tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento da perseguição aos judeus. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
A Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède, que o expande e funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa com uma perspectiva de aliança entre educação e psicologia. Contudo, o grande nome de Genebra, que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de &#039;&#039;&#039;adaptação do sujeito ao meio&#039;&#039;&#039; e que a &#039;&#039;&#039;cognição é uma extensão do real&#039;&#039;&#039;. É nessa obra que ele amadurece a noção de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria até o final de sua vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento em que Piaget exerce imensa influência sobre a instituição, dando sua orientação e atuando diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo: &amp;quot;o tempo&amp;quot;, &amp;quot;a causalidade&amp;quot; ou &amp;quot;a contradição&amp;quot;, e convidava os maiores nomes do mundo para debatê-lo. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre os debates conduzidos naquele período, sintetizando avançadas discussçoes interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com extrnas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua epistemologia genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. Uma lista completa é praticamente impossível de elaborar, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser amigo pessoal de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
BANKS-LEITE, Luci (Org.). &#039;&#039;&#039;Piaget e a escola de Genebra&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Cortez, 1987.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
ROSA, Hugo Leonardo Rocha Silva da; RIBEIRO, André Elias Morelli. A viagem de Claparède ao Brasil. Em: RIBEIRO, André Elias Morelli; SANTOS, Marcus Vinícius do Amaral Gama; VIEIRA, Yuri Pereira Antunes; GUIMARÃES, Gunther Mafra; FERREIRA, Arthur Arruda Leal; FONSECA, Luiz Eduardo Prado da (Orgs.). &#039;&#039;&#039;Boletim do Portal História da Psicologia&#039;&#039;&#039;. Rio das Ostras, RJ: Editora do Portal História da Psicologia, 2022, p.286-330. Disponível em: &amp;lt;&amp;lt;nowiki&amp;gt;https://editora.historiadapsicologia.com.br/wp-content/uploads/2026/03/13-A-Viagem-de-Claparede-ao-Brasil-1.pdf&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&amp;gt;.&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1710</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1710"/>
		<updated>2026-07-04T20:38:48Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* Um passeio por psicologias europeias */ Várias modificações substanciais&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base científica do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada uma das diferentes escolas funcionalistas. No funcionalismo, as teorias evolutivas têm relevância central, e consideram mente como o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No [[Funcionalismo americano|&#039;&#039;&#039;funcionalismo americano&#039;&#039;&#039;]], o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos e comportamentais&#039;&#039;&#039;. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma &amp;quot;coisa em si&amp;quot; para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039; na verdade são &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039;. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou &amp;quot;mistura&amp;quot; desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico só se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias com conexões funcionalistas mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções breves em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;[[Salpetrière]]&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação era considerada suficiente, além de os tratamentos serem bastante limitados.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após a expansão do [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Nessas sessões, ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. Estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot nomes importantes para o século XX, como [[Freud]], [[Pierre Janet]], [[William James]], [[Joseph Babinski]], [[Alfred Binet]], entre outros. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]], [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] e outros trabalharam fortemente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que a paralisou, mas fomentou o desenvolvimento de uma psicologia filosófica, de grande importância para os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e, por conta disso, sofria sabotagem de seus colegas. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da [[Escola Prática de Altos Estudos]]. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como [[Claude Bernard]] (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, oriundo da Escola de Nancy e um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões muitas vezes indiretas, mas significativas para o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. As instituições centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de &#039;&#039;&#039;Jean-Martin Charcot&#039;&#039;&#039; e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, &#039;&#039;&#039;Alfred Binet&#039;&#039;&#039;, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;[[Pierre Janet]]&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud e a questões históricas da França, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceu na Alemanha, com as ideias de &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. A tradição de interesse em psicologia alemã foi coroada por lá florescer o marco simbólico da criação da psicologia não só na Alemanha, mas no mundo, foi a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879, o que gerou avanços e debates pelo país. A primeira linha de psicologia aplicada do país é criada no exército. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica, conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, como a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que favoreceu o surgimento de um corpo profissional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. OS &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também são numerosos e respeitados, também ganham relevância progressivamente. A psicologia tipicamente alemã, a da &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039;, havia imigrado para os EUA, onde teve uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã. &#039;&#039;&#039;Perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; ganham força junto de abordagens mais holísticas e, apesar de sua relevância, a psicologia alemã ainda busca um retorno à glória de seu passado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise&#039;&#039;&#039;, ironicamente com destaque para a linhagem [[Lacan|lacaniana]], que tem origem francesa. A distância entre Alemanha e o Brasil se devem às dificuldades do idioma e à distância cultural, que atrapalharam a circulação das ideias daquele país no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente alemã, e associou-se fortemente à fisiologia, na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra Vladimir Bechterev.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofunda os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado de Pavlov, mas com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares, como fizera seu par russo. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. Pode-se dizer que esta é, atualmente, a linhagem dominante neste campo específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um sujeito que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias a ser desenvolvida e aplicada em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecida internacionalmente como uma importante contribuição da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky praticamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve pouca circulação no Brasil, porém Pavlov é um nome quase unanimemente citado em todos os cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Praticamente não existem estudantes de psicologia que jamais ouviram falar de seu nome, e a maioria dos estudantes das licenciaturas também conhecem ao menos fragmentos de sua história. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas que ocorreram na cidade de Genebra. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre por que o país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente diferentes, o que demanda um estudo por região, e não olhando o país como um todo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar de &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt mas com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça entre a fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. Há poucas informações sobre a psicologia em outros cantões e cidades da Suíça. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, podem obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar e desenvolvimento social e econômico com benefícios mútuos. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado, agora cantões, tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma cidade na Suíça, um pequeno país na Europa Central. Por séculos, foi uma cidade-estado próxima dos Alpes Suíços, cercada por quase todos os lados pela poderosa França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Friburgo (bilíngue), Valais e Berna (bilíngue). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes foram convertidos pelo próprio reformador João Calvino em 1536, quando expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculado à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu sentimento de destino, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos fortes e importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram um humanismo social, onde a ação direta de seus cidadãos deveria ser direcionada para os pobres, doentes, desvalidos, entre outros. A cidade recebeu, em diferentes momentos, grupos minoritários perseguidos, doentes e vítimas de guerras, entre muitos migrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação da Cruz Vermelha, bem como do Direito Internacional Humanitário, que levou a diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, entre outras atitudes humanitárias internacionais que tiveram origem ou forte desenvolvimento na região. Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um dos chamados sábios da cidade, &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido um treinamento para aprender alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento do que viria a ser inserido como parte da psicologia, como experimentos na psicofísica e na fisiologia. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, trata-se de uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos relacionados à psicofísica e à psicologia na Universidade de Genebra com seus alunos, ou mesmo no salão de sua casa, com convidados, sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039; e, com a experiência com o que viu na cidade, decide trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da nova ciência. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por discordâncias, criou o próprio laboratório como um dissidente do mestre. Münsterberg fez todo tipo de indicação a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viaja para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, onde pega orientações prática e começa a desenhar o que seria o seu laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo compra os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois são adquirido pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra, mas o que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publica [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio, que precisava ser transformado e adaptado visando o seu desenvolvimento. Defende então que a educação precisa ser baseada no conhecimento sobre a criança que a psicologia poderia ajudar a proporcionar. A escola seria um laboratório de experiências, onde são testadas práticas pedagógicas fundamentadas na psicologia com eficácia comprovada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se alia a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento público e privado, o espaço é inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo. Assim, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria entender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. A questão pode ser compreendida, de forma geral, se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas necessidades, interesses e objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é grande, como acontece quando estamos com fome, por exemplo, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e até a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet também visitou o país, o que reforça o intercâmbio entre os dois lugares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que nesta visita o Brasil foi colocado como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Empresta hoje nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é o de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país. Além disso, Lourenço Filho também trabalhou para o desenvolvimento da psicologia no Brasil, escrevendo livros, dando cursos, publicando nos jornais e ocupando cargos importantes na administração pública, tanto federal como na época das então províncias, facilitando a conexão entre a psicologia e a educação e o desenvolvimento da própria psicologia brasileira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O IJJR também enviou pessoas de outras nacionalidades que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras do local. Além disso, Radecki também tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento da perseguição aos judeus. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
A Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède, que o expande e funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa com uma perspectiva de aliança entre educação e psicologia. Contudo, o grande nome de Genebra, que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de &#039;&#039;&#039;adaptação do sujeito ao meio&#039;&#039;&#039; e que a &#039;&#039;&#039;cognição é uma extensão do real&#039;&#039;&#039;. É nessa obra que ele amadurece a noção de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria até o final de sua vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento em que Piaget exerce imensa influência sobre a instituição, dando sua orientação e atuando diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo: &amp;quot;o tempo&amp;quot;, &amp;quot;a causalidade&amp;quot; ou &amp;quot;a contradição&amp;quot;, e convidava os maiores nomes do mundo para debatê-lo. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre os debates conduzidos naquele período, sintetizando avançadas discussçoes interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com extrnas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua epistemologia genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. Uma lista completa é praticamente impossível de elaborar, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser amigo pessoal de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
BANKS-LEITE, Luci (Org.). &#039;&#039;&#039;Piaget e a escola de Genebra&#039;&#039;&#039;. São Paulo: Cortez, 1987.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
ROSA, Hugo Leonardo Rocha Silva da; RIBEIRO, André Elias Morelli. A viagem de Claparède ao Brasil. Em: RIBEIRO, André Elias Morelli; SANTOS, Marcus Vinícius do Amaral Gama; VIEIRA, Yuri Pereira Antunes; GUIMARÃES, Gunther Mafra; FERREIRA, Arthur Arruda Leal; FONSECA, Luiz Eduardo Prado da (Orgs.). &#039;&#039;&#039;Boletim do Portal História da Psicologia&#039;&#039;&#039;. Rio das Ostras, RJ: Editora do Portal História da Psicologia, 2022, p.286-330. Disponível em: &amp;lt;&amp;lt;nowiki&amp;gt;https://editora.historiadapsicologia.com.br/wp-content/uploads/2026/03/13-A-Viagem-de-Claparede-ao-Brasil-1.pdf&amp;lt;/nowiki&amp;gt;&amp;gt;.&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
	</entry>
	<entry>
		<id>http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1709</id>
		<title>O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil</title>
		<link rel="alternate" type="text/html" href="http://wiki.historiadapsicologia.com.br/index.php?title=O_Funcionalismo_na_Europa_e_suas_Conex%C3%B5es_com_o_Brasil&amp;diff=1709"/>
		<updated>2026-07-04T20:24:22Z</updated>

		<summary type="html">&lt;p&gt;Andreriopreto: /* As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu */ Várias modificações substanciais&lt;/p&gt;
&lt;hr /&gt;
&lt;div&gt;&lt;br /&gt;
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Funcionalismo ==&lt;br /&gt;
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um &#039;&#039;&#039;movimento&#039;&#039;&#039; amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às suas linhas de pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que &#039;&#039;&#039;a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos&#039;&#039;&#039; e, consequentemente, &#039;&#039;&#039;na adaptação ao meio ambiente&#039;&#039;&#039;. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua &#039;&#039;&#039;utilidade&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;propósito&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;operação&#039;&#039;&#039;. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: &amp;quot;para que isso serve?&amp;quot;, &amp;quot;por que o sujeito fez/pensou isso?&amp;quot; ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A base científica do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas &#039;&#039;&#039;teorias evolutivas&#039;&#039;&#039;, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, &#039;&#039;&#039;a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo&#039;&#039;&#039;, provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia&#039;&#039;&#039;. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada uma das diferentes escolas funcionalistas. No funcionalismo, as teorias evolutivas têm relevância central, e consideram mente como o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==&lt;br /&gt;
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No [[Funcionalismo americano|&#039;&#039;&#039;funcionalismo americano&#039;&#039;&#039;]], o foco recai sobre os &#039;&#039;&#039;processos adaptativos e comportamentais&#039;&#039;&#039;. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma &amp;quot;coisa em si&amp;quot; para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o &#039;&#039;&#039;[[pragmatismo]]&#039;&#039;&#039;, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já o &#039;&#039;&#039;funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039; na verdade são &#039;&#039;&#039;três linhagens&#039;&#039;&#039;. Primeiro, o da &#039;&#039;&#039;[[etologia]]&#039;&#039;&#039;, tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de &#039;&#039;&#039;[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]&#039;&#039;&#039;, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem &#039;&#039;&#039;matriz genético-funcional&#039;&#039;&#039;, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui &#039;&#039;&#039;estágios evolutivos&#039;&#039;&#039;. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou &amp;quot;mistura&amp;quot; desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico só se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Um passeio por psicologias europeias ==&lt;br /&gt;
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nestes três casos, é importante destacar que, nestes três casos, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com &#039;&#039;&#039;países francófonos&#039;&#039;&#039; (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da &#039;&#039;&#039;influência cultural gemânica&#039;&#039;&#039; (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos &#039;&#039;&#039;países eslavos&#039;&#039;&#039;.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Itália&#039;&#039;&#039; teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais &#039;&#039;&#039;portugueses&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;espanhois&#039;&#039;&#039; circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, &#039;&#039;&#039;ideias não eslavas do leste europeu&#039;&#039;&#039; e elementos da psicologia produzida nos &#039;&#039;&#039;países nórdicos&#039;&#039;&#039;, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções passageiras em livros e manuais importados da Europa e EUA.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na França ===&lt;br /&gt;
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A primeira foi aquela desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Salpetrière&#039;&#039;&#039;. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No final do século XVIII, &#039;&#039;&#039;[[Philippe Pinel]]&#039;&#039;&#039; foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico &#039;&#039;&#039;[[Jean-Martin Charcot]]&#039;&#039;&#039;, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um &amp;quot;museu patológico vivo&amp;quot;, principalmente durante a chamada Grande Histeria. A &#039;&#039;&#039;[[histeria]]&#039;&#039;&#039; era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação parecia fazer sentido, principalmente devido à concepção dominante à época da total separação entre mente e corpo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a &#039;&#039;&#039;[[hipnose]]&#039;&#039;&#039;, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após o [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. [[Sigmund Freud|Freud]] estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot, entre muitos outros nomes importantes para o século XX. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à &#039;&#039;&#039;[[Escola de Nancy]]&#039;&#039;&#039;, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]] e [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] trabalharam intensamente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma segunda linha foi desenvolvida na &#039;&#039;&#039;Universidade Sorbonne&#039;&#039;&#039;, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por &#039;&#039;&#039;[[Victor Cousin]]&#039;&#039;&#039;. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que paralisou a psicologia experimental mas trouxe muitos ganhos numa psicologia filosófica, que influenciou os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia &#039;&#039;&#039;[[Théodule Ribot]]&#039;&#039;&#039;, que não era cousinista e fora sabotado por isso. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da Escola Prática de Altos Estudos. Contudo, quem assumiu o posto foi &#039;&#039;&#039;[[Jules Soury]]&#039;&#039;&#039;, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a &#039;&#039;&#039;[[Louis Liard]]&#039;&#039;&#039;, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A terceira linha de psicologia na França é a do &#039;&#039;&#039;Collège de France&#039;&#039;&#039;. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como Claude Bernard (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot não apenas assumiu o posto, ele também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os franceses criaram seu &#039;&#039;&#039;primeiro laboratório em 1889&#039;&#039;&#039;, quando &#039;&#039;&#039;[[Henri-Étienne Beaunis]]&#039;&#039;&#039;, um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo &#039;&#039;&#039;[[Alfred Binet]]&#039;&#039;&#039; como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência francesa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões, muitas vezes indiretas, mas significativas, com o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. Os personagens centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A figura de Jean-Martin Charcot e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, Alfred Binet, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de &#039;&#039;&#039;Pierre Janet&#039;&#039;&#039;, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud, sua relevância parece ser sido esquecida.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== A psicologia na Alemanha ===&lt;br /&gt;
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceu na Alemanha, com as ideias de &#039;&#039;&#039;[[Christian Wolff]]&#039;&#039;&#039;. A tradição de interesse em psicologia alemã foi coroada por lá florescer o marco simbólico da criação da psicologia não só na Alemanha, mas no mundo, foi a fundação do laboratório de &#039;&#039;&#039;Wilhelm Wundt&#039;&#039;&#039; em Leipzig, em 1879, o que gerou avanços e debates pelo país. A primeira linha de psicologia aplicada do país é criada no exército. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica, conhecido como a &amp;quot;&#039;&#039;&#039;crise da psicologia&#039;&#039;&#039;&amp;quot;, com o surgimento de várias escolas, como a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que favoreceu o surgimento de um corpo profissional.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;período nazista&#039;&#039;&#039; marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o &#039;&#039;&#039;[[diagnóstico caracterológico]]&#039;&#039;&#039;. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (&#039;&#039;Ganzheit&#039;&#039;), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a &#039;&#039;&#039;influência americana&#039;&#039;&#039; começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. OS &#039;&#039;&#039;pensadores marxistas&#039;&#039;&#039;, que também são numerosos e respeitados, também ganham relevância progressivamente. A psicologia tipicamente alemã, a da &#039;&#039;&#039;Gestalt&#039;&#039;&#039;, havia imigrado para os EUA, onde teve uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã. &#039;&#039;&#039;Perspectivas fenomenológicas&#039;&#039;&#039; ganham força junto de abordagens mais holísticas e, apesar de sua relevância, a psicologia alemã ainda busca um retorno à glória de seu passado.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência alemã na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à &#039;&#039;&#039;psicanálise&#039;&#039;&#039;, ironicamente com destaque para a linhagem [[Lacan|lacaniana]], que tem origem francesa. A distância entre Alemanha e o Brasil se devem às dificuldades do idioma e à distância cultural, que atrapalharam a circulação das ideias daquele país no Brasil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A psicologia na Rússia ==&lt;br /&gt;
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente alemã, e associou-se fortemente à fisiologia, na composição da sua própria teoria, a &#039;&#039;&#039;[[reflexologia]]&#039;&#039;&#039;. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|&#039;&#039;&#039;Ivan&#039;&#039;&#039; &#039;&#039;&#039;Séchenov&#039;&#039;&#039;]], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de &#039;&#039;&#039;[[Ivan Pavlov]]&#039;&#039;&#039;. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma &#039;&#039;&#039;teoria sobre reflexos condicionados&#039;&#039;&#039;. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra Vladimir Bechterev.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Antigo aluno de Wundt e Charcot, &#039;&#039;&#039;Bechterev&#039;&#039;&#039; aprofunda os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de &#039;&#039;&#039;reflexo associado&#039;&#039;&#039;, uma versão do reflexo condicionado de Pavlov, mas com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares, como fizera seu par russo. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi &#039;&#039;&#039;[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]&#039;&#039;&#039;, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua &#039;&#039;&#039;[[teoria histórico-cultural]]&#039;&#039;&#039;. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a &#039;&#039;&#039;[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]&#039;&#039;&#039;, muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. Pode-se dizer que esta é, atualmente, a linhagem dominante neste campo específico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Sergei Rubinstein]]&#039;&#039;&#039;, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um sujeito que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|&#039;&#039;&#039;Aleksei Leontiev&#039;&#039;&#039;]] e [[Aleksandr Luria|&#039;&#039;&#039;Aleksandr Luria&#039;&#039;&#039;]], que desenvolveram a &#039;&#039;&#039;Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]&#039;&#039;&#039;. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias a ser desenvolvida e aplicada em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecida internacionalmente como uma importante contribuição da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
==== Influência russa na psicologia brasileira ====&lt;br /&gt;
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky praticamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A reflexologia em si teve pouca circulação no Brasil, porém Pavlov é um nome quase unanimemente citado em todos os cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Praticamente não existem estudantes de psicologia que jamais ouviram falar de seu nome, e a maioria dos estudantes das licenciaturas também conhecem ao menos fragmentos de sua história. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== A Escola de Genebra ==&lt;br /&gt;
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada [[Escola de Genebra]], uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas que ocorreram na cidade de Genebra. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre por que o país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países chamados cantões, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente diferentes, o que demanda um estudo por região, e não olhando o país como um todo. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um exemplo é o que se poderia falar de &#039;&#039;&#039;Escola de Zurique&#039;&#039;&#039;, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana e, depois, da [[Psicologia Analítica]], quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt mas com vários elementos originais. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Basileia&#039;&#039;&#039;, uma cidade Suíça entre a fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. &#039;&#039;&#039;Lausanne&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;Neuchâtel&#039;&#039;&#039;, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia na Suíça, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região e com a França. Há poucas informações sobre a psicologia em outros cantões e cidades da Suíça. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra ===&lt;br /&gt;
A &#039;&#039;&#039;Suíça&#039;&#039;&#039; é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de  pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, podem obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar e desenvolvimento social e econômico com benefícios mútuos. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado, agora cantões, tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa negociação política que se tornou uma tradição suíça, com séculos de experiência. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Genebra é uma cidade na Suíça, um pequeno país na Europa Central. Por séculos, foi uma cidade-estado próxima dos Alpes Suíços, cercada por quase todos os lados pela poderosa França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão. A cidade e o Cantão de &#039;&#039;&#039;Genebra&#039;&#039;&#039; pertencem à chamada &#039;&#039;&#039;Suíça Romanda&#039;&#039;&#039;, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França, falante do idioma francês e que inclui os cantões de Vaud, Neuchâtel, Jura, Friburgo (bilíngue), Valais e Berna (bilíngue). Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes foram convertidos pelo próprio reformador João Calvino em 1536, quando expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja de orientação calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto filosófica. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculado à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu sentimento de destino, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel. Genebra estabeleceu-se como um espaço tradicional de bancos fortes e importantes. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram um humanismo social, onde a ação direta de seus cidadãos deveria ser direcionada para os pobres, doentes, desvalidos, entre outros. A cidade recebeu, em diferentes momentos, grupos minoritários perseguidos, doentes e vítimas de guerras, entre muitos migrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação da Cruz Vermelha, bem como do Direito Internacional Humanitário, que levou a diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, entre outras atitudes humanitárias internacionais que tiveram origem ou forte desenvolvimento na região. Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== História da psicologia em Genebra ===&lt;br /&gt;
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um dos chamados sábios da cidade, &#039;&#039;&#039;[[Théodore Flournoy]]&#039;&#039;&#039;. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido um treinamento para aprender alguns dos experimentos de [[Hermann von Helmholtz]]. Flournoy tinha algum conhecimento do que viria a ser inserido como parte da psicologia, como experimentos na psicofísica e na fisiologia. Apesar de ser um entusiasta e um interessado no assunto, trata-se de uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos relacionados à psicofísica e à psicologia na Universidade de Genebra com seus alunos, ou mesmo no salão de sua casa, com convidados, sem grandes aspirações.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do &#039;&#039;&#039;[[Congresso de Psicologia de Paris]]&#039;&#039;&#039; e, com a experiência com o que viu na cidade, decide trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da nova ciência. Seu modelo de laboratório foi o de &#039;&#039;&#039;[[Hugo Münsterberg]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por discordâncias, criou o próprio laboratório como um dissidente do mestre. Münsterberg fez todo tipo de indicação a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viaja para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, onde pega orientações prática e começa a desenhar o que seria o seu laboratório.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Inicialmente, o futuro psicólogo compra os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois são adquirido pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O Instituto Jean-Jacques Rousseau ===&lt;br /&gt;
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra, mas o que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico [[Édouard Claparède]]. Ele decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
&#039;&#039;&#039;Claparède&#039;&#039;&#039;, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publica [[Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental]]. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio, que precisava ser transformado e adaptado visando o seu desenvolvimento. Defende então que a educação precisa ser baseada no conhecimento sobre a criança que a psicologia poderia ajudar a proporcionar. A escola seria um laboratório de experiências, onde são testadas práticas pedagógicas fundamentadas na psicologia com eficácia comprovada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da &#039;&#039;&#039;[[Escola Nova]]&#039;&#039;&#039;, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra [[Jean-Jacques Rousseau]] (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se alia a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, [[Pierre Bovet]], para criar o &#039;&#039;&#039;[[Instituto Jean-Jacques Rousseau]]&#039;&#039;&#039;. Após obter financiamento público e privado, o espaço é inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e [[pedagogia experimental]]. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema &#039;&#039;Discat a puero magister&#039;&#039; (Que o mestre aprenda com a criança).&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de [[Mina Audemars]] e [[Louise Lafendel]]. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como [[Maria Montessori|Montessori]] e [[Ovide Decroly|Decroly]], mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento dos projetos entre 1920-1921. As escolas de aplicação foram amplamente usadas para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da [[Fundação Rockefeller]] permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, disseminando os ideais da [[Escola Ativa]] em nível global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional ===&lt;br /&gt;
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes &#039;&#039;&#039;necessidades&#039;&#039;&#039;, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo. Assim, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria entender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. A questão pode ser compreendida, de forma geral, se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destes princípios advém o que Claparède chamou de &#039;&#039;&#039;Lei do interesse&#039;&#039;&#039;. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Conectadas necessidades, interesses e objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é grande, como acontece quando estamos com fome, por exemplo, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e até a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de &#039;&#039;&#039;Lei da extensão da vida mental&#039;&#039;&#039;. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a &#039;&#039;&#039;Lei da tomada de consciência&#039;&#039;&#039;, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O IJJR e o Brasil ===&lt;br /&gt;
O IJJR tem uma grande importância para o desenvolvimento da psicologia brasileira. Claparède, um de seus fundadores, teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. Bovet também visitou o país, o que reforça o intercâmbio entre os dois lugares.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro &#039;&#039;&#039;[[Francisco Lins]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos &#039;&#039;&#039;[[Alberto Alvares]]&#039;&#039;&#039;, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que nesta visita o Brasil foi colocado como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo &#039;&#039;&#039;[[Flávio Dias]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Artur Fajardo da Silveira]]&#039;&#039;&#039;, &#039;&#039;&#039;[[Antônio Moniz de Aragão]]&#039;&#039;&#039; e &#039;&#039;&#039;[[Nilton Campos]]&#039;&#039;&#039;. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a [[cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia]], em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Empresta hoje nome ao prédio onde funciona o [[Instituto de Psicologia da UFRJ|Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome de destaque é o de &#039;&#039;&#039;[[Laura Lacombe|Laura Jacobina Lacombe]]&#039;&#039;&#039;, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Lourenço Filho]]&#039;&#039;&#039;, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país. Além disso, Lourenço Filho também trabalhou para o desenvolvimento da psicologia no Brasil, escrevendo livros, dando cursos, publicando nos jornais e ocupando cargos importantes na administração pública, tanto federal como na época das então províncias, facilitando a conexão entre a psicologia e a educação e o desenvolvimento da própria psicologia brasileira.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
O IJJR também enviou pessoas de outras nacionalidades que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é [[Helena Antipoff]], uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a [[Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte|Escola de Aperfeiçoamento]], além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo [[Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff (CDPHA)|Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff]], um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Outro nome importante é o de &#039;&#039;&#039;[[Waclaw Radecki]]&#039;&#039;&#039;, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do &#039;&#039;&#039;[[Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro]]&#039;&#039;&#039;, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras do local. Além disso, Radecki também tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema próprio, o &#039;&#039;&#039;[[discriminacionismo afetivo]]&#039;&#039;&#039;, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é &#039;&#039;&#039;[[Mariana Schryer]]&#039;&#039;&#039;. Psicóloga formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento da perseguição aos judeus. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história foi pouco estudada.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra ===&lt;br /&gt;
A Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède, que o expande e funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa com uma perspectiva de aliança entre educação e psicologia. Contudo, o grande nome de Genebra, que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de [[Jean Piaget|Jean William Fritz Piaget]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica [[A Linguagem e o Pensamento na Criança]] e, no ano seguinte, [[O Raciocínio na Criança]], obras que o elevam à fama na Europa.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Com a publicação de [[A Representação do Mundo na Criança]], de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de &#039;&#039;&#039;[[Método clínico de Jean Piaget|método clínico]]&#039;&#039;&#039; que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o &#039;&#039;&#039;método clínico-crítico&#039;&#039;&#039;. As obras [[A Causalidade Física na Criança]] (1927) e [[O Juízo Moral na Criança]] (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de [[O Nascimento da Inteligência na Criança]], de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do &#039;&#039;&#039;desenvolvimento cognitico de bebês&#039;&#039;&#039; a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da [[Epistemologia Genética]], onde afirma claramente que a &#039;&#039;&#039;inteligência&#039;&#039;&#039; é uma ferramenta de &#039;&#039;&#039;adaptação do sujeito ao meio&#039;&#039;&#039; e que a &#039;&#039;&#039;cognição é uma extensão do real&#039;&#039;&#039;. É nessa obra que ele amadurece a noção de &#039;&#039;&#039;esquema&#039;&#039;&#039; e a de &#039;&#039;&#039;estrutura&#039;&#039;&#039;, que caracterizarão sua teoria até o final de sua vida. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau é incorporado à Universidade de Genebra e se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento em que Piaget exerce imensa influência sobre a instituição, dando sua orientação e atuando diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE) da Universidade de Genebra, formato que tem até hoje.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1955, Piaget funda o &#039;&#039;&#039;[[Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG)]]&#039;&#039;&#039;, um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo: &amp;quot;o tempo&amp;quot;, &amp;quot;a causalidade&amp;quot; ou &amp;quot;a contradição&amp;quot;, e convidava os maiores nomes do mundo para debatê-lo. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre os debates conduzidos naquele período, sintetizando avançadas discussçoes interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de &#039;&#039;&#039;adaptação&#039;&#039;&#039;, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A &#039;&#039;&#039;assimilação&#039;&#039;&#039; refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a &#039;&#039;&#039;acomodação&#039;&#039;&#039; ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo. Esta é a chamada [[Teoria da Equilibração]].&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Ademais, Piaget adota uma &#039;&#039;&#039;abordagem genético-funcional&#039;&#039;&#039;, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com extrnas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua epistemologia genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== Piaget e o Brasil ===&lt;br /&gt;
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. Uma lista completa é praticamente impossível de elaborar, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, &#039;&#039;&#039;[[Maria Luiza Ferreira|Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira]]&#039;&#039;&#039;, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e &#039;&#039;&#039;[[André Rey]]&#039;&#039;&#039; em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, &#039;&#039;&#039;[[Terezinha Rey]]&#039;&#039;&#039;, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Destaca-se também &#039;&#039;&#039;[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]]&#039;&#039;&#039;. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de &#039;&#039;&#039;[[Léa Fagundes|Léa da Cruz Fagundes]]&#039;&#039;&#039;, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com [[Bärbel Inhelder]] e conheceu Emília Ferreiro. &#039;&#039;&#039;[[Fernando Becker]]&#039;&#039;&#039; é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Já &#039;&#039;&#039;[[Luci Banks-Leite]]&#039;&#039;&#039; é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. Seu livro [[A Escola de Genebra (livro)|A Escola de Genebra]] é fundamental para a área. O médico argentino &#039;&#039;&#039;[[Antonio Maria Battro]]&#039;&#039;&#039;, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os [[Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs)]] no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil. [[Circe Navarro]] também ganha destaque por conduzir, inspirada nas ideias de Piaget, a [[Escola de Currículos]], no Rio de Janeiro. Na Unicamp, o [[Laboratório de Psicologia Genética (LPG)]] é um dos destaques. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Por fim, destaca-se o casal [[Emília Ferreiro]] e [[Rolando Garcia]]. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. &#039;&#039;&#039;Ferreiro&#039;&#039;&#039; defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já &#039;&#039;&#039;Rolando Garcia&#039;&#039;&#039; foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser amigo pessoal de Piaget.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
=== O BIE ===&lt;br /&gt;
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma &#039;&#039;&#039;instância internacional voltada para a educação e a infância&#039;&#039;&#039;. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma &#039;&#039;&#039;organização intergovernamental&#039;&#039;&#039;, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a &amp;quot;ascensão do individual ao universal&amp;quot;. Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
As &#039;&#039;&#039;Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs)&#039;&#039;&#039;, organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na &#039;&#039;&#039;internacionalização do funcionalismo europeu&#039;&#039;&#039;, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Considerações finais ==&lt;br /&gt;
O &#039;&#039;&#039;funcionalismo&#039;&#039;&#039;, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um &amp;quot;passeio&amp;quot; por importantes centros de produção psicológica no continente. Na &#039;&#039;&#039;França&#039;&#039;&#039;, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne,  e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Na &#039;&#039;&#039;Alemanha&#039;&#039;&#039;, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
A psicologia na &#039;&#039;&#039;Rússia&#039;&#039;&#039; associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Finalmente, a &#039;&#039;&#039;Escola de Genebra&#039;&#039;&#039; tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.&lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
Em suma, &#039;&#039;&#039;o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo&#039;&#039;&#039;, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX. &lt;br /&gt;
&lt;br /&gt;
== Referências ==&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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&lt;br /&gt;
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== Autoria ==&lt;br /&gt;
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia&lt;br /&gt;
[[Categoria:Texto didático]]&lt;br /&gt;
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]]&lt;/div&gt;</summary>
		<author><name>Andreriopreto</name></author>
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