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Francis Galton, também conhecido como Sir. Francis Galton (Warwickshire, Inglaterra, 16 de fevereiro de 1822 – Surrey, Inglaterra, 17 de janeiro de 1911), foi um pesquisador, antropólogo e explorador inglês, reconhecido por sua diversidade de metodologias, como a elaboração de testes mentais e a aplicação estatística. Dentre outras conquistas e marcos, é considerado como um dos fundadores da psicometria e um dos pioneiros na abordagem científica da psicologia. Desenvolveu a Eugenia, ideia que recebeu inúmeras críticas pelo seu teor extremista, racista e discriminatório. | Francis Galton, também conhecido como Sir. Francis Galton (Warwickshire, Inglaterra, 16 de fevereiro de 1822 – Surrey, Inglaterra, 17 de janeiro de 1911), foi um pesquisador, antropólogo e explorador inglês, reconhecido por sua diversidade de metodologias, como a elaboração de testes mentais e a aplicação estatística. Dentre outras conquistas e marcos, é considerado como um dos fundadores da psicometria e um dos pioneiros na abordagem científica da psicologia. Desenvolveu a Eugenia, ideia que recebeu inúmeras críticas pelo seu teor extremista, racista e discriminatório. | ||
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Em sua obra “Hereditary Genius” (1869), Galton apresentou cinco condições para sustentar que a habilidade era hereditária: | Em sua obra “Hereditary Genius” (1869), Galton apresentou cinco condições para sustentar que a habilidade era hereditária: | ||
# Indivíduos altamente capazes tenderiam a ter mais parentes habilidosos do lado paterno; | |||
# Famílias de homens notáveis teriam, em média, mais parentes talentosos que o restante da população; | |||
# O tipo de habilidade seria herdado; | |||
# A presença da característica diminuiria com o grau de parentesco; | |||
# O talento surgiria gradualmente na linhagem, e não de forma isolada. | |||
As ideias de Darwin sobre seleção natural influenciaram Galton, mas ele discordava da herança de caracteres adquiridos por uso e desuso, que considerava insignificante. A partir de observações e experimentos, percebeu que indivíduos podiam transmitir características que não apresentavam, sugerindo a existência de elementos latentes na herança. | As ideias de Darwin sobre seleção natural influenciaram Galton, mas ele discordava da herança de caracteres adquiridos por uso e desuso, que considerava insignificante. A partir de observações e experimentos, percebeu que indivíduos podiam transmitir características que não apresentavam, sugerindo a existência de elementos latentes na herança. | ||
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* O livro “Os Bem Nascidos: Racismo, Eugenia e Educação no Brasil”, de Ruth Meyre Mota Rodrigues e publicado pela Editora Appris, revela reflexões sobre a manutenção dos discursos eugenistas sobre um aspecto educacional nas relações étnicos-raciais no Brasil. | * O livro “Os Bem Nascidos: Racismo, Eugenia e Educação no Brasil”, de Ruth Meyre Mota Rodrigues e publicado pela Editora Appris, revela reflexões sobre a manutenção dos discursos eugenistas sobre um aspecto educacional nas relações étnicos-raciais no Brasil. | ||
== Referências == | |||
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DEL CONT, Valdeir. Francis Galton: eugenia e hereditariedade. '''Scielo Brasil''', São Paulo, v. 6, n. 2, p. 201-218, jun. 2008. | |||
DEUTSCH, James I. [https://doi.org/10.1093/jahist/jaz330 The Eugenics Crusade]. '''The Journal of American History''', Estados Unidos, v. 106, n. 1, p. 284-285, jun. 2019. | |||
GALTON, Francis. '''Hereditary Genius''': an inquiry into its laws and consequences. 2ª ed. London: Macmillan's Magazine, 1892. | |||
GALTON, Francis. '''Narrative of an Explorer in Tropical South Africa'''. 4ª ed. London: The Minerva Library of Famous Books, 1891. | |||
GALTON, Francis. [https://www.britannica.com/biography/Francis-Galton '''Encyclopaedia Britannica''']. | |||
HOTHERSALL, David. '''História da Psicologia'''. 4ª ed. São Paulo: McGraw-Hill, 2006. | |||
MUKIUR, Richard Mababu. La influencia de Charles Darwin en el Estudio de las Diferencias Individuales de Francis Galton. '''Revista de Historia de La Psicología''', Valência, v. 30, n. 2-3, p. 215-221, jun. 2009. | |||
NETO, Geraldo Salgado; SALGADO, Aquiléa. [https://doi.org/10.5007/2178-4582.2011v45n1p223 Sir Francis Galton e os extremos superiores da curva normal]. '''Revista de Ciências Humanas''', Florianópolis, v. 45, n. 1, p. 223-239, abr. 2011. | |||
POLIZELLO, Andreza. O desenvolvimento das ideias de herança de Francis Galton: 1865-1897. '''ABFHiB''', São Paulo, v. 6, n. 1, p. 7-8, jun. 2011. | |||
RODRIGUES, Ruth M.M. [https://editoraappris.com.br/produto/os-bem-nascidos-racismo-eugenia-e-educao-no-brasil/?srsltid=AfmBOop0CWicsNhJ9572ls_zzMJsC_gntSeiqrRQEV-9J8wN9r-4hc_V Os Bem-Nascidos: Racismo, Eugenia e Educação no Brasil]. Paraná: '''Appris Editora''', 2023. | |||
SIRENA, Julia; BELLARDI, Paulo. [https://fiocruz.br/noticia/2025/05/novo-livro-da-editora-fiocruz-investiga-raizes-e-permanencias-da-eugenia-como-forma. Novo livro da Editora Fiocruz investiga as raízes e permanências da eugenia como forma de desigualdade social]. '''Editora Fiocruz''', Rio de Janeiro, 21 de mar. de 2025. | |||
TREDOUX, Gavan. [https://galton.org./ '''Sir Francis Galton FRS'''], 1822-1911. Página Inicial. | |||
== Autoria == | == Autoria == | ||
Este verbete foi criado por Letícia Heckert, Viviane Santana, Letícia Schueler, Rhana Kicela e Maria Luiza Campos como exigência parcial para a disciplina História da Psicologia da UFF de Rio das Ostras. Revisado por Julia Lombardi Carneiro. Criado em 2025.2. Publicado em 2025.2 | Este verbete foi criado por Letícia Heckert, Viviane Santana, Letícia Schueler, Rhana Kicela e Maria Luiza Campos como exigência parcial para a disciplina História da Psicologia da UFF de Rio das Ostras. Revisado por Julia Lombardi Carneiro. Criado em 2025.2. Publicado em 2025.2 | ||
Edição atual tal como às 17h19min de 21 de dezembro de 2025
Francis Galton, também conhecido como Sir. Francis Galton (Warwickshire, Inglaterra, 16 de fevereiro de 1822 – Surrey, Inglaterra, 17 de janeiro de 1911), foi um pesquisador, antropólogo e explorador inglês, reconhecido por sua diversidade de metodologias, como a elaboração de testes mentais e a aplicação estatística. Dentre outras conquistas e marcos, é considerado como um dos fundadores da psicometria e um dos pioneiros na abordagem científica da psicologia. Desenvolveu a Eugenia, ideia que recebeu inúmeras críticas pelo seu teor extremista, racista e discriminatório.
BiografiaEditar
Primeiros anos e educaçãoEditar
Francis Galton nasceu em 16 de fevereiro de 1822, em Birmingham, Warwickshire, na Inglaterra. Filho de Samuel Tertius Galton, um banqueiro e empresário, e Anne Violetta Darwin, teve raízes em uma família abastada, que fez fortuna durante a Revolução Industrial Inglesa. Seu avô materno era Erasmus Darwin, e seu primo era o célebre naturalista Charles Darwin.
Galton foi matriculado, aos 8 anos, em um internato imensamente competitivo, onde teve um baixo desempenho, exceto em matemática. Os pais de Galton planejavam sua formação acadêmica na medicina. Assim, aos 16 anos, seguiu para uma excursão por instituições médicas. Dessa forma, foi matriculado como aluno de medicina no Birmingham General Hospital, na Inglaterra.
Posteriormente, ao realizar uma visita na Universidade de Giessen, na Alemanha, para estudos de química, desenvolveu um fascínio por viajar. Dessa forma, decidiu abandonar os estudos em medicina e iniciar uma viagem para o sudeste da Europa, onde passou por Constantinopla, Esmirna e Atenas.
Ao retornar, Galton continuou seus estudos, agora em matemática, na Trinity College, em Cambridge. No entanto, essa formação teve fim após seu terceiro ano de estudo, em decorrência de uma forte crise nervosa, devido ao seu excesso de trabalho, fazendo com que ficasse apenas com um diploma geral em Cambridge. Todavia, Galton conseguiu se recuperar rapidamente ao mudar seu estilo de vida, por meio de sua retirada da universidade, investindo no seu interesse por viagens.
Viagens e exploraçõesEditar
Após retornar de Cambridge, o pai de Galton faleceu, deixando-lhe uma grande fortuna que utilizou para iniciar seu primeiro fascínio profissional: as explorações. Assim, entre 1845 e 1846, começou a organizar uma expedição para os campos desconhecidos do sudoeste, norte e sul da África. Logo, iniciou pelo Egito, seguido da Síria e Sudão, em uma busca para encontrar a fonte do Rio Nilo. No Egito, Galton diz em seus escritos que ficou impressionado com as construções monumentais e a divisão social em castas dos nobres sacerdotes da região, além das medidas adotadas para o controle de natalidade dos escravos.
Também fez estudos na África do Sul Ocidental, atual Namíbia, em busca de uma possível abertura e fortuna do Lago Ngami, onde fez contato com os povos nômades Bushmen, que viviam em condições extremamente áridas do Deserto de Kalahari.
Estas viagens foram publicadas em seu livro “Narrative of an Explorer in Tropical South Africa”, de 1853, onde descreveu suas explorações na África. Galton foi premiado por suas investigações com uma medalha de ouro concedida pela Royal Geographical Society e foi eleito membro da Royal Society, aos 31 anos, apesar de jamais ter chegado ao Lago Ngami e de fazer descrições degradantes dos povos nativos que encontrou. No mesmo ano, Galton se casou com Louisa Jane Butler. O casal não teve filhos.
Estudos eugenistasEditar
Influenciado pela obra “On the origin of species”, de Charles Darwin, e por suas teorias evolucionistas e de diferenças individuais, Galton propôs que as “qualidades superiores”, como traços de personalidade e habilidades intelectuais, eram transmitidas hereditariamente, ou seja, de geração para geração. Baseado nestas perspectivas, avançou estabelecendo que seria possível criar uma raça de seres humanos altamente dotados, a partir de casamentos e reproduções seletivas, sendo assim artificialmente melhorada.
Francis Galton expressou suas ideias em sua obra “Hereditary Genius”, de 1869, onde descreveu o conceito de gênio como um indivíduo que detinha uma habilidade excepcionalmente alta e inata, e que as características mentais e físicas eram igualmente herdadas geneticamente.
Em um artigo posterior, publicado em 1876 sob o título “Nature and nurture”, Galton dissertou sobre sua pesquisa com gêmeos. O autor queria analisar suas características que vinham já no momento de seu nascimento e quais eram obtidas pelas circunstâncias impostas posteriormente na vida adulta. Em outras palavras, os efeitos da natureza e os efeitos da criação. Seu objetivo nesse estudo era estabelecer uma média de hereditariedade de habilidades mentais e investigar as diferenças individuais. Este debate entre natureza e cultura atravessou o tempo e ainda é relevante para a psicologia e outras ciências humanas.
Mais tarde, em 1883, Galton cunharia, em sua obra “Inquiries into human faculty”, o termo “Eugenia”, que significa “bem-nascido”, para denominar seus estudos. O livro pode também ser considerado um resumo do autor sobre suas noções das faculdades ou características humanas.
Além disso, Galton se interessava por cálculos e mensurações matemáticas. Dessa forma, criou, em 1884, um laboratório antropométrico, na “International Health Exhibition”, e outro em 1888, na “South Kensington Museum”, ambos em Londres. Eles tinham como objetivo fazer mensurações mais formais e controladas, além de testagens sobre diversos aspectos humanos, como a capacidade de associação, memória e tempo de reação. Assim, esses laboratórios podem ser consideradas como as primeiras clínicas psicométricas do mundo.
Francis Galton é conhecido pela sua diversidade de metodologias, no entanto, é a partir de 1883, após a morte de Charles Darwin, que Galton se dedica inteiramente ao estudo da Eugenia.
Fim da vidaEditar
Por suas muitas contribuições à ciência, como a criação da psicometria e uso dos testes e medidas mentais, Galton recebeu o título de Sir Francis, sendo nomeado Cavaleiro da Coroa Britânica, em 1909.
Galton também escreveu durante sua vida cerca de 9 livros e 200 artigos sobre diversos assuntos, como a pesquisa de dados biométricos, a criação de técnicas estatísticas, a análise de regressão e a correlação (co-variância e variância) e a elaboração do termo “eugenia” e vários dos seus elementos principais.
Ele morreu em 17 de janeiro de 1911, aos 89 anos, em Surrey, na Inglaterra. A causa da morte não é conhecida. Galton permaneceu social e profissionalmente ativo até seus últimos dias.
ContribuiçõesEditar
Francis Galton destacou-se pelo desenvolvimento de testes e métodos voltados à mensuração das competências e diferenças individuais. Pioneiro na psicometria, suas iniciativas permitiram estudar as faculdades mentais de forma sistemática e mensurável, contribuindo para a consolidação da psicologia como ciência empírica.
Primeiras clínicas e estudo das diferenças individuaisEditar
Fascinado pelas diferenças entre as pessoas, Galton passou a estudá-las por meio de testes e observações. Para aprimorar suas pesquisas, fundou em Londres os dois primeiros laboratórios antropométricos, em 1884 e 1888, ambos considerados as primeiras clínicas psicométricas do mundo. Neles, avaliava tempo de reação, acuidade sensorial, memória e outras capacidades cognitivas. Essas iniciativas marcaram o início da aplicação de testes de mensuração científica e estabeleceram as bases da psicologia experimental.
Natureza versus culturaEditar
Galton analisou gêmeos e famílias eminentes para compreender a influência da hereditariedade e do ambiente sobre a inteligência e as habilidades humanas. Embora reconhecesse o papel do meio, suas conclusões enfatizavam a herança biológica como o principal fator determinante. Essa abordagem fortaleceu o debate entre natureza e cultura, um tema que permanece central na psicologia moderna, ajudando a compreender como ambos os fatores atuam no desenvolvimento humano.
Estatística aplicadaEditar
Galton utilizou métodos estatísticos, como mediana, regressão, correlação, percentil e dispersão, para organizar e interpretar os dados obtidos em seus estudos. Com isso, aplicou o padrão de variação representado pela curva normal para medir diferenças cognitivas e desempenhos intelectuais, destacando também a importância dos grupos de controle para garantir maior precisão nos resultados. Esses recursos estabeleceram um modelo inovador de análise quantitativa na psicologia, permitindo que aspectos psíquicos fossem avaliados de maneira objetiva e metódica.
Estudos sobre a menteEditar
Francis Galton investigou imagens mentais e desenvolveu testes de associação de palavras por meio de questionários, buscando compreender os processos cognitivos. Constatou que cerca de 40% dessas associações derivavam de experiências infantis, evidenciando a importância dos primeiros anos no desenvolvimento da vida adulta, ideia que mais tarde seria enfatizada por Freud. Esses estudos permitiram compreender como experiências internas, especialmente as vividas na infância, influenciam o desenvolvimento mental, moldando percepções e comportamentos, além de fundamentar os testes psicológicos contemporâneos.
TeoriaEditar
Pioneiro na aplicação da estatística ao estudo da hereditariedade, Francis Galton se dedicou a investigar como características físicas e mentais eram transmitidas entre gerações. Em seu primeiro artigo sobre o tema, publicado em 1865, ele argumentou que ambas eram herdáveis, mas observou que a semelhança entre pais e filhos era muito mais evidente em aspectos físicos do que mentais.
Com base em biografias de cientistas, escritores e artistas, Galton propôs que o talento também poderia ser herdado, embora admitisse não conhecer as leis que regiam essa transmissão. Para fundamentar sua hipótese, recorreu à estatística e formulou a lei da herança ancestral, segundo a qual: “O pai transmite, em média, metade de sua natureza, o avô um quarto, o bisavô um oitavo; a divisão decresce grau a grau, em proporção geométrica, com grande rapidez.”
Essa formulação expressava sua tentativa de quantificar a influência dos antepassados e deu origem ao conceito de que a contribuição genética diminui progressivamente a cada geração.
Em sua obra “Hereditary Genius” (1869), Galton apresentou cinco condições para sustentar que a habilidade era hereditária:
- Indivíduos altamente capazes tenderiam a ter mais parentes habilidosos do lado paterno;
- Famílias de homens notáveis teriam, em média, mais parentes talentosos que o restante da população;
- O tipo de habilidade seria herdado;
- A presença da característica diminuiria com o grau de parentesco;
- O talento surgiria gradualmente na linhagem, e não de forma isolada.
As ideias de Darwin sobre seleção natural influenciaram Galton, mas ele discordava da herança de caracteres adquiridos por uso e desuso, que considerava insignificante. A partir de observações e experimentos, percebeu que indivíduos podiam transmitir características que não apresentavam, sugerindo a existência de elementos latentes na herança.
Em “Hereditary Improvement” (1873), Galton defendeu que o aprimoramento hereditário da população poderia eliminar doenças e gerar indivíduos mais inteligentes e capazes. Ele acreditava que, ao selecionar pessoas com características desejáveis, seria possível criar uma sociedade mais apta e saudável. Essa linha de raciocínio deu origem ao conceito de eugenia, termo que o próprio Galton viria a cunhar e promover.
Buscando compreender melhor a influência da hereditariedade e do ambiente, Galton estudou gêmeos no artigo “The History of Twins” (1875). Observou que, mesmo criados separadamente, muitos apresentavam comportamentos e sintomas semelhantes, levando-o à famosa conclusão, “A natureza é mais forte do que a criação.”
Mais adiante, ele reforçou que as diferenças ambientais só teriam impacto significativo quando fossem muito grandes, o que raramente acontecia entre pessoas de uma mesma classe social.
Para sustentar suas ideias, Galton desenvolveu modelos estatísticos baseados em dados obtidos de ervilhas, seres humanos, mariposas e cães, buscando comprovar matematicamente a influência da hereditariedade. Defendia que, ao selecionar indivíduos com características desejáveis, seria possível formar uma “raça pura” que manteria qualidades superiores ao longo das gerações.
Em 1897, Galton formalizou sua lei da herança ancestral em quatro proposições:
- A matéria germinal perde metade da contribuição de cada progenitor a cada geração;
- A contribuição de um ancestral remoto não é independente das dos demais;
- As contribuições latentes seguem progressão geométrica;
- A soma total das contribuições hereditárias é igual a 1.
Sua principal obra de consolidação, “Natural Inheritance” (1889), apresentou uma teoria estatística da hereditariedade baseada na regressão à média, mostrando que tanto características físicas quanto mentais podiam ser herdadas. Ele distinguiu os elementos patentes (visíveis) e latentes (ocultos), observando que os pais podiam transmitir traços que não manifestavam.
Embora reconhecesse que o ambiente também influenciava o desenvolvimento humano, Galton atribuía maior importância à herança biológica. Essa ênfase na transmissão hereditária das qualidades humanas não apenas influenciou, mas constituiu a própria base da teoria eugênica, dando origem ao que mais tarde seria conhecido como eugenia.
InfluênciasEditar
Charles DarwinEditar
Primo de Francis Galton, Charles Darwin direcionou o foco de Galton para questões de hereditariedade com a publicação de A Origem das Espécies, de 1859. Galton ficou fascinado pela ideia da seleção natural e buscou aplicar conceitos semelhantes à hereditariedade das habilidades mentais e físicas em humanos, o que o levou a desenvolver seus estudos sobre "gênios hereditários" e, subsequentemente, a fundar o campo da eugenia. Embora Galton também tenha sido influenciado por outros pensadores da época, a obra de Darwin foi o ponto de virada fundamental em sua carreira intelectual.
Adolphe Quetelet Editar
O estatístico Adolphe Quetelet, com os conceitos de Homem Médio e a aplicação da Curva Normal, foi um pioneiro no uso de métodos estatísticos nas ciências sociais. Ele demonstrou que características humanas físicas (como altura) e até mesmo sociais (como taxas de criminalidade) tendiam a se distribuir de acordo com a curva normal, conhecida também como curva do sino. Galton pegou as ferramentas de Quetelet e as aplicou de forma muito mais ampla. Ele usou a curva normal para tentar medir características mentais, como a inteligência, acreditando que o gênio era simplesmente uma ocorrência rara na extremidade superior desta curva. Isso forneceu a Galton o método quantitativo que ele precisava para estudar a hereditariedade que Darwin descreveu.
CríticasEditar
As críticas a Francis Galton são majoritariamente expressas pelo seu papel na fundação da eugenia e sobre suas ideias sobre hereditariedade. Além disso, sua metodologia também era criticada, já que, muitas vezes, confiava apenas em autorrelatos e pesquisava somente famílias de classes ricas e aristocráticas da Inglaterra.
Charles DickensEditar
Galton e Quetelet criaram o conceito de homem médio, calculando as médias de características físicas e intelectuais para analisar variações. No entanto, foram alvos de críticas por sua abordagem, ao aludir às pessoas como números, e Galton foi chamado de “cabeça deteriorada” por Charles Dickens, um romancista inglês.
Alfred BinetEditar
Alfred Binet se viu interessado pelo trabalho de Galton, o que o influenciou no desenvolvimento dos seus primeiros testes. No entanto, logo criticou a abordagem simplista de Galton em relação às técnicas psicológicas e a sua concepção de que, para a descoberta de melhores resultados, seria necessário maior precisão nos testes. Binet argumentou que, na época, não havia dispositivos disponíveis que proporcionam tamanha precisão e que medir processos mentais era uma tarefa complexa e com atividades complexas. Assim, descartou o uso dos estudos de Galton.
Alphonse de CandolleEditar
Galton realizou uma pesquisa entre famílias de sucesso da Inglaterra e concluiu que o “gênio” seria um fator hereditário, o que foi criticado por Alphonse de Candolle. Ele realizou estudos sobre diversas famílias estrangeiras, constatando que fatores ambientais, de educação e padrões de vida influenciam na questão da inteligência. Dessa forma, Candolle negou qualquer fundamento para herança da genialidade defendida por Galton.
HaldaneEditar
Haldane, um pensador marxista britânico-indiano, inicialmente apoiava a eugenia, mas criticou as conclusões apressadas e preconceituosas do movimento eugenista na Europa após seu uso no ideal nazista.
Limitações metodológicasEditar
Nos testes de imagens mentais e capacidades sensoriais, Galton interpretou os resultados a partir da ideia de que certas capacidades “superiores” eram herdadas e mais presentes nos homens, concluindo que eles seriam intelectualmente superiores às mulheres. Isso gerou acusações de sexismo e misoginia, já que suas interpretações desconsideravam outros fatores, como a influência das condições sociais da época.
Da mesma forma, em seus estudos com gêmeos, suas conclusões de que a genética era o principal fator das capacidades intelectuais foram consideradas prematuras. Isso porque ele se baseou apenas em informações enviadas por meio de cartas pelos familiares, sem investigar diretamente as condições de vida dos indivíduos analisados, o que limitava a certeza sobre a veracidade e a interpretação dos dados.
PolêmicasEditar
Além das críticas apontadas diretamente para Galton, suas ideias repercutiram em diversos movimentos indiretos, sendo usados para reforçar preconceitos e justificar políticas discriminatórias. Essas mobilizações resultaram em mortes, esterilizações forçadas e graves violações dos direitos humanos. Suas concepções eugenistas e racistas continuam presentes em debates contemporâneos sobre genética, inteligência e seleção social, influenciando reflexões da psicologia sobre desigualdade, determinismo biológico e os efeitos sociais das teorias científicas distorcidas.
EugeniaEditar
As ideias eugenistas associavam pobres, negros e outros grupos considerados inferiores a supostas limitações cognitivas, doenças e tendências à criminalidade, servindo de justificativa para práticas de exclusão da época. Essas concepções tiveram um impacto profundo, resultando em graves consequências históricas.
Estados Unidos: segregação, esterilizações de deficientes mentais, leis restritivas de imigração e controle de natalidade, resultando em mortes e aumento da discriminação.
Alemanha nazista: Adolf Hitler iniciou políticas de extermínio de judeus, ciganos, deficientes e negros, justificadas como preservação da raça ariana. A Conferência de Wannsee, em 1942, organizou oficialmente a aplicação dessas políticas, que resultaram na morte de cerca de 6 milhões de judeus nos campos de concentração durante o Holocausto.
China: foram impostas esterilizações visando impedir nascimentos considerados inferiores, controlando a reprodução estatalmente com objetivo de reduzir até 10 milhões de pessoas por ano.
Estatística Editar
Galton, durante a preparação de seu livro de 1872 Statistical Inquiries into the Efficacy of Prayer (Investigações Estatísticas sobre a Eficácia da Oração, em tradução livre), tentou provar a eficácia da oração por meio de métodos estatísticos. Ao concluir que não havia efeitos significativos, recebeu críticas de religiosos, que o acusaram de enfraquecer a fé e atacar a religião, especialmente ao propor medidas polêmicas, como realizar missas em domingos alternados para testar os efeitos das preces. Em consequência, Galton foi obrigado a omitir essas seções na edição revista da obra, não conseguindo publicar integralmente a revisão que pretendia.
Discípulos, seguidores e quem influenciouEditar
Na área da psicologia, Galton contribuiu bastante para a psicologia diferencial e a psicometria. De suas contribuições, muitos psicólogos se influenciaram por suas ideias.
Karl Pearson (1857-1936) se assemelhava a Galton em dois assuntos: a eugenia e a estatística. Pearson desenvolveu e formalizou o cálculo do coeficiente de correlação e se tornou o principal divulgador da eugenia e do pensamento estatístico na época.
Charles Edward Spearman (1863-1945) foi pioneiro na análise fatorial. Baseados nas teses de Galton, elaborou e criou o conceito de ”fator g”.
Alfred Binet (1857- 1911), figura importante na psicometria, foi um dos criadores do primeiro teste de inteligência. Se interessou pelas ideias e os métodos de medição mental de Galton, e usou-os para desenvolver seus primeiros testes psicológicos.
David Wechsler (1896- 1981), inspirado pelos fundamentos estatísticos de Galton, como a correlação, elaborou as Escalas Wechsler, WAIS (Escala de Inteligência Wechsler para Adultos) e WISC (Escala de Inteligência Wechsler para Crianças).
Obras Editar
LivrosEditar
(1853) – Tropical South Africa. Relato da viagem à África Ocidental que inspirou os primeiros estudos sobre diferenças individuais.
(1855) (2ª ed. 1856) – The Art of Travel; or, Shifts and Contrivances Available in Wild Countries.
(1869) – Hereditary Genius: The Judges of England between 1660 and 1865. Investigação sobre a hereditariedade das capacidades humanas, baseada em análises genealógicas e estatísticas. Considerada uma das obras fundadoras da psicologia científica.
(1883) – Inquiries into Human Faculty and Its Development. Obra que introduziu o termo “eugenia” e aprofundou o estudo das faculdades humanas.
(1889) – Natural Inheritance. Uma das principais obras que reúne os estudos de Galton sobre hereditariedade, apresentando métodos estatísticos para analisar a transmissão de traços visíveis e ocultos, físicos e mentais.
(1909) – Essays in Eugenics. Reúne os principais ensaios de Galton sobre ideias eugenistas, com reflexões sobre hereditariedade e seleção humana.
ArtigosEditar
(1865) – Hereditary Talent and Character.
(1868) – Hereditary Genius.
(1871) – Gregariousness in Cattle and in Men.
(1872) – Statistical Inquiries into the Efficacy of Prayer: Obra sobre aplicação de grupos de controle e ensaio da eficácia da oração, que gerou polêmica entre religiosos.
(1873) - Hereditary Improvement. Ensaio sobre como a seleção de indivíduos com características consideradas superiores poderia reduzir doenças e gerar pessoas mais capazes, lançando as bases para a eugenia.
(1874) - English Men of Science
(1875) – The History of Twins. Estudos com gêmeos sobre hereditariedade e ambiente, realizados para provar a predominância dos fatores genéticos no desenvolvimento das habilidades humanas.
(1879) – Psychometric Experiments
(1879) - Psychometric Facts
(1880) - Mental Imagery
(1880) – Visualised Numeral
(1880) - Statistics of Mental Imagery
(1881) - The Visions of Sane Persons
(1884) – Measurement of Character:
(1884) – Mr. Francis Galton's Proposed "Family Registers". Apresenta a ideia de fichas familiares padronizadas para registrar dados hereditários.
(1888) – Co-relations and Their Measurement, Chiefly from Anthropometric Data. Desenvolvimento de métodos estatísticos para medir correlações a partir de dados antropométricos, essenciais para o progresso da psicologia quantitativa e da estatística moderna.
(1890) - Exhibition of Instruments for Testing Differences of Tint and Reaction Time.
(1891) – Discussion on "An Apparent Paradox in Mental Evolution", Lady Welby
(1893) – Measure of the Imagination
(1894) – Psychology of Mental Arithmeticians and Blindfold Chess-Players
(1895) – Personality [Review of The Diseases of Personality, Th. Ribot]
(1896) – A Curious Idiosyncrasy
(1898) – Evolution of the Moral Instinct [Review of The Origin and Growth of the Moral Instinct, Alexander Sutherland]
(1901) – The Possible Improvement of the Human Breed Under Existing Conditions of Law and Sentiment. Ensaio em que Galton discute o termo “eugenia” como forma de aprimoramento da raça humana e como ela poderia ser promovida dentro das normas sociais e legais da época.
(1904) – Distribution of successes and of natural ability among the kinsfolk of Fellows of the Royal Society. Estudo com famílias de cientistas renomados para entender como o sucesso e habilidades são transmitidos de geração em geração.
(1908) – Address on Eugenics
(1908) – Local associations for promoting eugenics. Discute a criação de associações que incentivem uniões entre pessoas consideradas “aptas”, reforçando o ideal eugenista de promover certas linhagens.
(1909) – [Foreword].
Fundações Editar
Laboratórios Editar
(1884) – Anthropometric Laboratory (London International Health Exhibition): Primeiro laboratório psicométrico do mundo, marco fundamental na mensuração científica das diferenças individuais e capacidades cognitivas.
(1888) – Anthropometric Laboratory (South Kensington Museum, London): Segundo laboratório criado por Galton, que deu continuidade às medições antropométricas iniciadas em 1884 e consolidou seu trabalho pioneiro sobre as diferenças individuais.
PeriódicosEditar
(1901) – BiometrikaEditar
Revista dedicada à biometria e estatística aplicada à hereditariedade.
Retratos na MídiaEditar
As ideias eugenistas de Francis Galton acerca do melhoramento da linhagem humana e das diferenças individuais se enraizaram no imaginário popular. Diversos livros e documentários sobre a eugenia e o movimento eugenista foram publicados ao longo das décadas.
- O livro “Eugenia: ontem e hoje”, de Robert Wegner e publicado pela Editora Fiocruz, aborda a trajetória percorrida pela eugenia, desde a formação de sua teoria até suas expressões contemporâneas, revelando a persistência desse pensamento.
- O documentário “Homo Sapiens 1900”, do diretor Peter Cohen, retrata o engajamento de médicos e biólogos do século XX para criação de uma suposta melhoria do padrão genético da humanidade, sob a óptica eugenista.
- No documentário “A Cruzada Eugênica”, narra o motivo do movimento eugenista ter cativado tantas pessoas nos Estados Unidos, ao longo do século XX.
- O livro “Os Bem Nascidos: Racismo, Eugenia e Educação no Brasil”, de Ruth Meyre Mota Rodrigues e publicado pela Editora Appris, revela reflexões sobre a manutenção dos discursos eugenistas sobre um aspecto educacional nas relações étnicos-raciais no Brasil.
ReferênciasEditar
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AutoriaEditar
Este verbete foi criado por Letícia Heckert, Viviane Santana, Letícia Schueler, Rhana Kicela e Maria Luiza Campos como exigência parcial para a disciplina História da Psicologia da UFF de Rio das Ostras. Revisado por Julia Lombardi Carneiro. Criado em 2025.2. Publicado em 2025.2