Psicologia de Massas do Fascismo
O livro “Psicologia de massas do fascismo” foi escrito em 1932 pelo psiquiatra austríaco Wilhelm Reich e publicado em 1933 pela editora Farrar, Straus and Giroux na Dinamarca. No Brasil, sua primeira publicação ocorreu em 1975, pela editora Martins Fontes. O livro é um estudo crítico do fascismo que se dá no contexto de formação da Alemanha Hitlerista e busca compreender o comportamento das massas diante deste cenário. A obra teve uma repercussão polêmica por receber críticas de partidos de direita e do movimento socialista, justamente pelo seu caráter firme e suas conexões com as teorias de Freud e Marx.
Sobre o autor
Vida pregressa
Wilhelm Reich nasceu em 24 de março de 1897 na Galícia, no Império Austro-Húngaro, hoje parte da Ucrânia. Filho de uma família judia, passou sua infância em Bukovina, numa fazenda, onde desenvolveu um profundo interesse pela natureza. Quando jovem sua mãe se suicidou (1910), pouco tempo depois, seu pai morreu em decorrência a uma tuberculose (1914). Após perder os bens familiares com a queda do Império Austro-Húngaro, alistou-se no exército austríaco, servindo até 1918. Em seguida, mudou-se para Viena, local em que completou sua graduação em medicina por meio de um programa para os que serviram na guerra se graduarem em apenas 4 anos.
Psicanálise e vida política
Em 1919, Reich teve seu primeiro contato com Freud em um seminário extracurricular de sexologia, onde o autor identificou questões de sua vida nas teorias psicanalíticas e se impressionou com a personalidade de Freud. No ano seguinte, Reich se tornou um de seus discípulos, atendendo vários pacientes da psicanálise e logo sendo aceito na Associação Psicanalítica de Viena. Em 1924, ele assumiu a direção do Seminário de Terapia Psicanalítica da Policlínica Psicanalítica de Viena.
Em 1927, Reich ingressou no movimento de esquerda austríaco, o que desagradava o próprio Freud. A relação entre Freud e Reich foi se desgastando a partir de suas diferenças políticas e culturais. A última vez que os dois se encontraram foi na casa de Freud, em 1929, onde este acreditava que os instintos deviam ser adaptados ao meio cultural, enquanto Reich defendia a reestruturação das instituições em favor das necessidades do homem.
Em 1930, Reich se mudou para Berlim e filiou-se ao Partido Comunista Alemão. Sua trajetória na psicologia foi muito marcada pelos estudos sobre sexologia. Porém, ao longo de sua residência na Alemanha, ele buscou aliar essas teorias à ideologia marxista. Foi a partir dessa busca que Reich escreveu o livro Psicologia de Massas do Fascismo. No mesmo ano em que o livro viria a ser publicado, ele precisou fugir para a Noruega devido à perseguição dos nazistas, residindo lá de 1933 a 1939.
Últimos Anos
Com o início da Segunda Guerra Mundial, Reich migrou para os Estados Unidos, onde sofreu com a Doutrina McCarthy devido ao seu passado como membro do Partido Comunista Alemão. Durante esse período, ele dedicou seus estudos à “energia orgônica” e à invenção das máquinas “acumuladores de orgone”, o que lhe rendeu diversas acusações de charlatanismo e, futuramente, resultaria em sua prisão.
Em 1956, Reich foi julgado e condenado por ignorar uma liminar do FDA (Food and Drug Administration) que exigia a destruição de todos os seus “acumuladores de orgone”. Ele recebeu uma sentença de dois anos de cadeia e começou a cumprir a pena em 1957, na Penitenciária Federal de Lewisburg, Pensilvânia. Neste mesmo ano, Wilhelm Reich faleceu em 3 de novembro, em decorrência de um ataque cardíaco fulminante.
História da Criação do Livro
Durante toda a estadia de Reich na Alemanha, o país ainda sofria com as consequências econômicas da Primeira Guerra Mundial. O PIB, entre 1928 e 1932, diminuiu em 26%. O número de desempregados passou de 1,4 milhão (8%) para 5,6 milhões (30%). Essa crise colaborou para a ascensão do Partido Nazista. No ano de 1932, ocorreu a eleição presidencial, na qual Hitler perdeu, mas, ainda assim, ele e seu partido possuíam grande apoio da população, apoio este que o levaria a ser nomeado Chanceler da Alemanha no ano seguinte.
É nesse contexto que Psicologia de Massas do Fascismo começou a ser escrito, em 1932. O livro é uma tentativa do autor de explicar por que, em momentos de crise, as massas tendem a aderir a discursos de extrema direita, enquanto, na visão de Reich, elas deveriam se radicalizar para a esquerda. Esses fatores, aliados ao convívio com as populações mais pobres que ele atendeu em projetos sociais durante seu tempo como militante em Viena, e o discurso de ódio contra o seu povo, os judeus, levaram Wilhelm Reich a escrever esse livro.
Conteúdo
Em seu livro, Wilhelm Reich procurou analisar o desenvolvimento do fascismo e do nazismo e sua conexão com a economia sexual num contexto de "degeneração do marxismo". Ele começou a trabalhar com o questionamento da falta de desenvolvimento da consciência política, se baseando nas teorias de Freud e argumentou que a inibição sexual, juntamente com a adesão a religiões patriarcais, eram elos que ligavam a família autoritária.
Fascismo, nazismo e observações sobre Hitler
No livro, Wilhelm Reich retratou sua interpretação sobre o fascismo e como Hitler explorou esse método para alcançar seu objetivo nazista. Ele enxergou o fascismo como o resultado de uma sociedade reprimida por suas emoções e desejos, gerando amargura, ira, ódio, medo e uma necessidade de identificação com figuras autoritárias. No argumento de Reich, a natureza do objeto final depois da subida ao poder pelo uso da tática fascista consistia na arte da argumentação, como foi no fascismo italiano.
Wilhelm Reich fez uma análise ao fascismo e às suas influências no âmbito político e social, que estava severamente engastado em estruturas psicológicas e culturais das massas. Ele argumentou que o fascismo não era apenas uma convicção política, mas expressões autoritárias e atitudes de repressão presentes em toda sociedade.
Ele sustentou que essa repressão sexual foi promovida pelas estruturas patriarcais autoritárias, com o objetivo de criar indivíduos submissos, desorientados e dependentes, com maior facilidade de serem manipulados e engajados na ideologia fascista. Semelhante a isso, os decretos contra as organizações econômicas da classe média, a recusa da segunda revolução e o não cumprimento das promessas socialistas revelaram a função antidemocrática do fascismo.
No trecho a seguir, o autor do livro expôs que o próprio Hitler não conhecia a dinâmica dos seus êxitos: "Esta generalidade do enfoque que nunca deve ser abandonada, combinada com a ênfase sistemática e constante, garantirá o amadurecimento do nosso sucesso final. E depois, para nosso espanto, veremos os resultados estrondosos a que levará esta perseverança — resultados quase além da nossa compreensão.” (Hitler apud Reich, 1988, p. 48).
Em seu livro, o autor explicou como o nazismo se consolidava explorando o medo e o ressentimento das massas. Para ele, o nazismo era um extremo exemplo de como essa dinâmica de manipulação foi aplicada. Podemos observar que o autor foi inspirado a escrever a respeito quando fez uso da citação de Adolf Hitler: "O cruzamento de sangues e a consequente queda do nível da raça constituem a única causa da morte das velhas colônias; porque os homens não sucumbem por perderem guerras, mas por perderem a capacidade de resistência que é característica do sangue puro". (Hitler apud Reich, 1988, p. 76). Com esse trecho, Reich concluiu que o objetivo final do fascismo era exterminar outras raças que, para eles, não eram puras.
Religião, sexualidade e as influências de Freud
A repressão sexual abordada por Reich, era um dos principais agentes da psicologia autoritária, e por consequência ela fortalecia a submissão à autoridade. Portanto, ele argumentava que na primeira infância já se via estruturas básicas do caráter e em detrimento à repressão e inibição sexual, a criança vivia submissa e se tornava futuramente um adulto insatisfeito sexualmente. O autor descreveu que o indivíduo irá suprir essa insatisfação com o sadismo, que era o fundamento psicológico para guerras imperialistas.
A maior referência utilizada por Wilhelm Reich quando aborda a sexualidade foi Sigmund Freud. Ele tomou por base as teorias freudianas para explicar a relação entre a sexualidade e a dinâmica social no contexto do fascismo. Mas faz uma crítica ao bolchevismo no plano sexual dizendo ser preocupante os danos causados à vida familiar como a religião, pois segundo ele o bolchevismo favorece todo tipo de degradação moral, chegando ao ponto de permitir relações antinaturais entre irmãos, pais e filhos. Ele usa da obra de Braumann para se opor e mostrar do que o partido de Lênin era capaz, “Toda religião consiste na libertação do mundo e dos seus poderes pela união com a divindade. Por isso o bolchevismo nunca conseguirá acorrentar inteiramente os homens enquanto neles subsistir um vestígio de religião. (Braumann apud Reich, 1988, p. 109)”.
Reich descreveu que, através da religião, os sistemas de poder desempenhavam com bastante eficiência a manipulação das massas. Ele observou com muita clareza a facilidade que o Estado manipulava psicologicamente as massas para manutenção do fascismo, por meio da oratória e das narrativas. A religião é para ele um fator que reforça a submissão e o conformismo dos indivíduos. E ao focar na inibição do desejo sexual e a submissão a uma entidade divina, a religião fortalecia a psique submissa das massas, facilitando a inserção de ideologias fascistas, já que para o autor, a inibição sexual era o ponto principal para ligar as famílias descritas como autoritárias. No contexto da religião, Reich se baseou nas ideias de Freud sobre a psique humana e a dinâmica das massas.
Marxismo
Wilhelm Reich, ao discutir o marxismo, analisou essas ideias e as relacionou com a psicologia das massas e como a sociedade passou a se comportar. Ele propôs uma integração entre a análise de Marx e a psicologia. Apontou questões como o patriarcado e a estrutura autoritária familiar para explicar como as massas aderiram ao regime fascista.
E por meio de uma das principais ideias de Marx, ele argumenta que as classes dominantes executaram grandes ideias ao longo do tempo, com isso a classe que chegou primeiro a obter força material tornou-se também uma força ideológica que dominava. A grande questão explorada por Reich sobre a ideia econômica de Marx, foi analisar e concluir que qualquer classe que obtiver primeiro o poder material e usar como fonte de arrecadação para construir uma economia forte, automaticamente dominaria a produção ideológica.
Ele contrariou o marxismo, dizendo que a luta contra o fascismo não era apenas por mudanças econômicas, mas por meio de profundas transformações de cunho interpessoais. Também buscou entender como as emoções pessoais e a dinâmica psicológica interferiam na política e na sociedade.
Inspirações de outros autores
No livro são utilizadas outras referências como: “Deutschland so oder so” escrito por Hubert Renfro e publicado em 1933; “Die soziale Revolution” escrito por Karl Kautsky e publicado em 1902; “Mythus” de 1930 por Alfred Rosenberg; “Das Programm der NSDAP und seine weltanschaulichen grundlagen” de 1929 por Gottfried Feder e “O Estado e a Revolução” escrito por Vladimir Lenin e publicado em 1917. Reich faz anotações no rodapé de muitas páginas ao longo do livro, ao todo são 47 notas que são utilizadas em suas argumentações. Essas foram as referências e inspirações citadas pelo escritor em seu livro “Psicologia das Massas do Fascismo”.
Reich estabelece suas conclusões com base nas obras de Freud quando fala da repressão sexual. Ele usa ideias de Karl Marx para explicar o papel das condições sócio econômicas na formação de ideologias que identificam os eventos políticos e sociais como o movimento nazista e o contexto do movimento facista na Europa.
Reich faz citações do livro “Mein Kampf” do autor Adolf Hitler no qual ele expressou suas ideias antissemitas, antimarxistas, anticomunistas, racistas e nacionalistas de extrema-direita. Nesse mesmo contexto, para explicar o interresse do nazismo ele usa uma frase de Goebbels do livro “Eher Verlag, Munique”, onde responde a pergunta se o judeu é um ser humano ou não.
Publicação
O livro de Reich foi idealizado durante os anos de crise na Alemanha (1930-1933) e publicado em setembro de 1933, na Dinamarca, onde ganhou uma reedição em 1934. Cópias foram enviadas para a Alemanha sob pseudônimos (como Ernest Parell) para os revolucionários anti fascistas da época. A obra foi oficialmente proibida em 1935, juntamente com outras obras de psicologia política. No entanto, continuou a ser amplamente discutida em artigos de outros países, como França e Estados Unidos.
Idioma e Traduções
O livro foi publicado originalmente em alemão, com o título Die Massenpsychologie des Faschismus. Sua primeira tradução para o inglês ocorreu em 1946 por Vera Deutsche sob o título "The Mass Psychology of Fascism". Após quase 40 anos (em 1970), foi publicada uma versão corrigida e ampliada da obra, na qual são descritos novos conceitos, como o "homem médio" e os cernes da personalidade humana, que não foram incluídos na primeira tradução. A versão revisada também contém críticas e reflexões do próprio autor sobre o livro, incluindo correções sobre sua teoria da economia sexual e críticas marxistas.
No Brasil, os direitos do livro são reservados pela equipe editorial da Livraria Martins Fontes Editora Ltda. A tradução foi realizada a partir do alemão por Maria da Graça Macedo em 1975, sendo revisada conforme a última versão em língua inglesa, em março de 1988.
Recepção da obra
Política
Além de ser evidentemente criticado pelos partidos de direita e pelo movimento fascista, a obra também foi alvo de críticas em grande parte pelos Marxistas.Segundo Reich, os socialistas viam tudo sob a ótica econômica, o que gerou críticas em relação á utilidade de sua obra. Essas críticas motivaram uma reanálise do autor, resultando na versão corrigida e ampliada do livro posteriormente. No entanto, Reich continuou a rebater as críticas marxistas, especialmente no que diz respeito à sua teoria da economia sexual. Ele reiterou que sua análise sobreviveu às limitações de uma visão puramente econômica e se desvinculou da perspectiva marxista original, inclusive modificando alguns conceitos na segunda edição da obra.
Reich mencionou que esperava que os partidos que lutam pela liberdade humana acolhessem seu trabalho, mas, surpreendentemente, as organizações socialistas da época proibiram sua obra e chegaram a ameaçá-lo de morte. Ele também descreve que membros do partido comunista, entre 1934 e 1937, delatavam os defensores da economia sexual para os fascistas. Muito do repúdio à sua obra se deve à introdução da sexologia na filosofia, algo que desafiava as concepções tradicionais da época.
O viés da psicologia e psicanálise:
Apesar de Psicologia das Massas e do Fascismo ser considerada uma obra de grande importância para o reconhecimento do fascismo como um movimento de massas, ela foi extremamente criticada por diversos grupos, incluindo psicanalistas e psicólogos. Esses críticos consideravam a obra simplista e determinista, entre outras objeções contemporâneas que descartavam as soluções apresentadas por Reich a respeito do movimento. A principal crítica era que ele não abordava as situações sociais e econômicas da população e focava unicamente na ideia de repressão sexual como o agente principal no fenômeno fascista.
Público popular
Apesar de ser um livro tão criticado pelos especialistas, a obra também é reconhecida por muitos como uma forma de libertação de ideias conservadoras e de promoção de políticas progressistas na psicologia política, sendo considerada revolucionária pelo seu impacto filosófico acerca do indivíduo e seu modo de agir em sociedade.Além de alertar a população sobre o fenômeno facista, e fazer os próprios se reconhecerem como tal, muitos também Consideraram as ideias uma alternativa que se libertava da alternativa marxista (como única alternativa revolucionária) da época.
Bibliografia
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Autoria
Verbete criado inicialmente por Bruno X. da Silva, Isabella C. Venturine, Luiza do E. S. de Sena e Maria Luísa L. Simões, como exigência parcial para a disciplina de História da Psicologia da UFF de Rio das Ostras. Criado em 2024.2, publicado em 2025.1.