CAPS Clarice Lispector: mudanças entre as edições

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O Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) Clarice Lispector é uma unidade de saúde mental localizada no Rio de Janeiro. Ele oferece serviços de atenção e atendimento psicossocial (psicológico e psiquiátrico, por exemplo) para pessoas em sofrimento psíquico grave e possui caráter territorial. A trajetória do CAPS Clarice Lispector remete à Zona Norte do Rio de Janeiro, mais especificamente ao bairro do Engenho de Dentro, onde o referido CAPS atualmente se localiza. Nesse mesmo local, anteriormente havia o Centro Psiquiátrico Pedro II, o qual foi um dos maiores e mais antigos hospitais psiquiátricos do Brasil. Esse, por sua vez, remonta ao Hospício Pedro II, que foi a primeira instituição psiquiátrica do Brasil — localizada no atual campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro na Praia Vermelha — para tratamento de pessoas avaliadas como doentes mentais, na época tidos como alienados. Ou seja, a história do CAPS Clarice Lispector remonta à história da mais antiga instituição de tratamento de saúde mental no Brasil.  
O Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) Clarice Lispector é uma unidade de saúde mental localizada no Rio de Janeiro e oferece serviços de atenção e atendimento psicossocial para pessoas em sofrimento psíquico grave, além de possuir caráter territorial. A trajetória do CAPS Clarice Lispector remete à Zona Norte do Rio de Janeiro, mais especificamente ao bairro do Engenho de Dentro, onde o referido CAPS atualmente se situa. De forma mais precisa, ele se situa no espaço do antigo Centro Psiquiátrico Pedro II, o qual foi um dos maiores e mais antigos hospitais do setor no Brasil. Esse, por sua vez, remonta ao Hospício Pedro II, que foi a primeira instituição psiquiátrica do Brasil — localizada no atual campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro na Praia Vermelha — para o tratamento de pessoas avaliadas na época como alienadas. Ou seja, a história do CAPS Clarice Lispector remonta em algumas linhas à história da mais antiga instituição de tratamento de saúde mental no Brasil.  


== História ==
== História ==


=== História entre 1830 e 1930 ===
=== História entre 1830 e 1930 ===
Essa história teve início a partir da década de 1830, quando médicos do então Distrito Federal do Brasil, atual Rio de Janeiro, começaram a debater a necessidade de criar um manicômio para tratar pacientes com doenças mentais, visto que, com a ausência de um espaço específico para essa demanda, esses pacientes eram presos ou enviados para a Santa Casa de Misericórdia. A Santa Casa, assim, desempenhou um papel chave na institucionalização e implantação dos aparatos psiquiátricos, além da mobilização para a construção do Hospício Pedro II.
Essa história teve início a partir da década de 1830, quando médicos do então Distrito Federal do Brasil, atual Rio de Janeiro, começaram a debater a necessidade de criar um manicômio para tratar pacientes com doenças mentais, visto que, com a ausência de um espaço específico para essa demanda, esses pacientes eram presos ou enviados para a Santa Casa de Misericórdia. A Santa Casa, assim, desempenhou um papel chave na institucionalização e implantação dos aparatos psiquiátricos, além da mobilização para a construção do Hospício Pedro II. É importante igualmente destacar que o Código criminal de 1832 igualmente já previa em seu artigo 12º uma casa destinada aos loucos que tivessem cometido crimes (BRASIL,  1832).


Nada obstante esses debates iniciais, foi somente em 1838 que a primeira iniciativa  surgiu de forma clara e objetiva visando a criação de um espaço próprio para o manejo da loucura no Brasil. Tal proposta encontra-se em um relatório da Comissão de Salubridade da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro. Porém, apenas em 18 de julho de 1841, dia da Sagração de Dom Pedro II como imperador, foi decretada a construção de um hospital próprio para os ditos alienados, a saber, o chamado Hospício Pedro II. Esse começou como um anexo da Santa Casa de Misericórdia até ser concluída sua construção, em 1852, na então Praia da Saudade, atual  Urca/ Praia Vermelha, na zona sul da cidade.  
Nada obstante esses debates iniciais, foi somente em 1838 que a primeira iniciativa  surgiu de forma clara e objetiva visando a criação de um espaço próprio para o manejo da loucura no Brasil. Tal proposta encontra-se em um relatório da Comissão de Salubridade da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro. Porém, apenas em 18 de julho de 1841, dia da Sagração de Dom Pedro II como imperador, foi decretada a construção de um hospital próprio para os ditos alienados, a saber, o chamado Hospício Pedro II. Esse começou como um anexo da Santa Casa de Misericórdia até ser concluída sua construção, em 1852, na então Praia da Saudade, atual  Urca/ Praia Vermelha, na zona sul da cidade.  
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=== História a partir da década de 1990 ===
=== História a partir da década de 1990 ===
Na década de 1990, reuniram-se na enfermaria feminina do hospital, os grupos de profissionais responsáveis por atender usuários com internações recorrentes. Os pacientes atendidos, em grande parte, provinham de enfermarias na Baixada Fluminense e passaram a ter assistência garantida no CPPII, através do chamado “Grupo de Egressos”. O referido grupo tinha como objetivo buscar outras alternativas além das internações e, para atingir esse fim, os atendimentos semanais poderiam se desdobrar em visitas domiciliares e acompanhamentos às crises. A partir de 1998, com aumento da necessidade de cuidados, abre-se um espaço no terraço do prédio de enfermarias para a realização de grupos e oficinas, integrando não só o Grupo de Egressos, mas também contando com a participação dos internos, especificamente daqueles que são pacientes de longa internação. Nesse mesmo momento, está ocorrendo a Municipalização do Centro Psiquiátrico Pedro II, assim, a instituição, em 1999, passa a se chamar (IMASNS), enquanto o prédio de enfermarias é renomeado de “Unidade Hospitalar Professor Adauto Botelho” para “Casa do Sol”.  
Desta história de longa duração são produzidos dois cortes na década de 1990: o primeiro na própria orientação nas políticas de assistência em saúde mental com a institucionalização de serviços substitutivos aos hospitais psiquiátricos, como os Centros de Atenção Psicossociais (os CAPS), conforme o movimento da Reforma Psiquiátrica Brasileira. Além do corte na orientação dos serviços, há um corte espacial localizado na enfermaria feminina do hospital, prioritariamente com os grupos de profissionais responsáveis por atender usuários com internações recorrentes. Os pacientes atendidos, em grande parte, provinham de enfermarias na Baixada Fluminense e passaram a ter assistência garantida no CPPII, através do chamado “Grupo de Egressos”. O referido grupo tinha como objetivo buscar outras alternativas além das internações e, para atingir esse fim, os atendimentos semanais poderiam se desdobrar em visitas domiciliares e acompanhamentos às crises. A partir de 1998, com aumento da necessidade de cuidados, abre-se um espaço no terraço do prédio de enfermarias para a realização de grupos e oficinas, integrando não só o Grupo de Egressos, mas também contando com a participação dos internos, especificamente daqueles que são pacientes de longa internação. Nesse mesmo momento, está ocorrendo a Municipalização do Centro Psiquiátrico Pedro II, e assim, a instituição em 1999 passa a se chamar (IMASNS), enquanto o prédio de enfermarias é renomeado de “Unidade Hospitalar Professor Adauto Botelho” para “Casa do Sol”.  


Não obstante essas modificações, esse espaço para a realização de grupos e oficinas ainda era mantido informalmente, o que trazia problemáticas, havia a necessidade de conhecer os novos integrantes e suas histórias, que se expandiam para além dos limites do Grupo de Egressos, levando a equipe a buscar a consolidação de um lugar institucional. Diante dessa necessidade de formalização, em 2000, são formadas as bases do serviço que continuaria funcionando dentro do IMASNS por mais 5 anos - o então nomeado Centro de Convivência. Esse se estabelece com o objetivo de ultrapassar o lugar de um espaço de convivência para se implicar formalmente no tratamento de cada um dos usuários. No meio desse processo, há a chegada de novos profissionais concursados, que se fez possível diante da municipalização do CPPII, e com a presença de um supervisor de equipe passa a haver uma implementação de institucionalidade e de discussão permanente das estratégias de cuidado com os usuários.
Não obstante essas modificações, esse espaço para a realização de grupos e oficinas ainda era mantido informalmente, o que trazia problemáticas, havia a necessidade de conhecer os novos integrantes e suas histórias, que se expandiam para além dos limites do Grupo de Egressos, levando a equipe a buscar a consolidação de um lugar institucional. Diante dessa necessidade de formalização, em 2000, são formadas as bases do serviço que continuaria funcionando dentro do IMASNS por mais 5 anos - o então nomeado Centro de Convivência. Esse se estabelece com o objetivo de ultrapassar o lugar de um espaço de convivência para se implicar formalmente no tratamento de cada um dos usuários. No meio desse processo, há a chegada de novos profissionais concursados, que se fez possível diante da municipalização do CPPII, e com a presença de um supervisor de equipe passa a haver uma implementação de institucionalidade e de discussão permanente das estratégias de cuidado com os usuários.
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A inauguração do CAPS Clarice Lispector, realizada no dia 23 de maio de 2005, no bairro do Encantado, trouxe as marcas difusas de um espaço refeito e construído a partir da articulação entre o Programa de Moradia do Instituto Nise da Silveira (cuja orientação era marcada pelo viés da desinstitucionalização dos usuários) e a coordenação do CAPS.  A partir dessa implementação, o CAPS passa por processos semelhantes a de outros centros de atenção no que tange às variações nas políticas municipais de saúde e a discussões de caráter nacional, que dizem respeito aos próprios destinos da reforma. No entanto, é importante destacar que a localização dentro do próprio complexo do instituto Nise da Silveira auxilia em alguns processos referentes à tomada de decisão e mesmo o suprimento do corpo técnico para as equipes multidisciplinares. Vale também destacar a mudança para CAPS III durante a pandemia de Covid-19.
A inauguração do CAPS Clarice Lispector, realizada no dia 23 de maio de 2005, no bairro do Encantado, trouxe as marcas difusas de um espaço refeito e construído a partir da articulação entre o Programa de Moradia do Instituto Nise da Silveira (cuja orientação era marcada pelo viés da desinstitucionalização dos usuários) e a coordenação do CAPS.  A partir dessa implementação, o CAPS passa por processos semelhantes a de outros centros de atenção no que tange às variações nas políticas municipais de saúde e a discussões de caráter nacional, que dizem respeito aos próprios destinos da reforma. No entanto, é importante destacar que a localização dentro do próprio complexo do instituto Nise da Silveira auxilia em alguns processos referentes à tomada de decisão e mesmo o suprimento do corpo técnico para as equipes multidisciplinares. Vale também destacar a mudança para CAPS III durante a pandemia de Covid-19.


== Conclusão ==
Assim pode ser caracterizada a história do CAPS Clarice Lispector: uma curta história em corte com as práticas manicomiais, mas em conexão com territórios, espaços e heranças dos antigos asilos.
Assim pode ser caracterizada a história do CAPS Clarice Lispector: uma exemplificação historica e prática a respeito do manejo da loucura no Brasil. Temos assim uma curta história em corte com as práticas manicomiais, mas ao mesmo tempo em conexão com territórios, espaços e heranças dos antigos asilos.


== Ver também ==
== Ver também ==
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# '''[http://www.ccms.saude.gov.br/hospicio/colonias.php#:~:text=As%20col%C3%B4nias%20chamavam%2Dse%20S%C3%A3o,apenas%20pacientes%20do%20sexo%20masculino. As Colônias - Hospício de Pedro II]'''.  Acesso em: 8 out. 2024.  
# '''[http://www.ccms.saude.gov.br/hospicio/colonias.php#:~:text=As%20col%C3%B4nias%20chamavam%2Dse%20S%C3%A3o,apenas%20pacientes%20do%20sexo%20masculino. As Colônias - Hospício de Pedro II]'''.  Acesso em: 8 out. 2024.  
# BRASIL, Codigo do Processo Criminal do Imperio de 1832. Lei de 29 de dezembro de 1832. '''Coleção das Leis do Brasil'''.
# '''[https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1851-1899/d0142-a.htm DECRETO No 142-A, DE 11 DE JANEIRO DE 1890]'''. Disponível em: Acesso em: 23 set. 2024.  
# '''[https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1851-1899/d0142-a.htm DECRETO No 142-A, DE 11 DE JANEIRO DE 1890]'''. Disponível em: Acesso em: 23 set. 2024.  
# FACCHINETTI, CRISTIANA. Hospital Nacional de Psicopatas 1927-1943. In. JACÓ-VILELA, A. M (Org,). '''[http://newpsi.bvs-psi.org.br/ebooks2010/pt/Acervo_files/DicionarioHistorico.pdf Dicionário histórico de instituições de psicologia no Brasil]'''. Rio de Janeiro: Imago Editora Conselho Federal de Psicologia, 2011. Acesso em: 23 set. 2024.
# FACCHINETTI, CRISTIANA. Hospital Nacional de Psicopatas 1927-1943. In. JACÓ-VILELA, A. M (Org,). '''[http://newpsi.bvs-psi.org.br/ebooks2010/pt/Acervo_files/DicionarioHistorico.pdf Dicionário histórico de instituições de psicologia no Brasil]'''. Rio de Janeiro: Imago Editora Conselho Federal de Psicologia, 2011. Acesso em: 23 set. 2024.