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(Criou página com 'Franco Lo Presti Seminerio (Turim, 20 de janeiro de 1923 – Rio de Janeiro, 17 de junho de 2003) foi um psicólogo, filósofo, doutor em letras e professor ítalo-brasileiro. Sua trajetória é marcada pelo pioneirismo na psicologia cognitiva no Brasil, tendo atuado como diretor do Instituto Superior de Estudos e Pesquisas Psicossociais (ISOP) por vinte anos e recebido o título de Professor Emérito da UFRJ, onde lecionou por quase três décadas. Por meio de seus estu...') |
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=== Jornada na psicologia === | === Jornada na psicologia === | ||
Seminerio iniciou suas atividades na psicologia em 1957, no Centro Juvenil de Orientação e Pesquisa (CeJOP), onde orientava adolescentes em situação de vulnerabilidade, de forma voluntária, aos finais de semana. Os resultados de seu trabalho com os jovens e o interesse pela psicologia aplicada despertaram a atenção de Francisco Campos, então chefe da Divisão de Seleção do ISOP (Instituto de Seleção e Orientação Profissional), que o convidou a ingressar na instituição como psicólogo-adjunto em 1962. No mesmo ano, a aprovação da Lei nº 4.119 permitiu seu registro profissional como psicólogo, tendo em vista sua experiência comprovada. O registro, no entanto, não o impediu de buscar sua graduação formal em Psicologia, realizada entre os anos de 1964 e 1967, na UFRJ. | Seminerio iniciou suas atividades na psicologia em 1957, no [[Centro Juvenil de Orientação e Pesquisa (CeJOP)]], onde orientava adolescentes em situação de vulnerabilidade, de forma voluntária, aos finais de semana. Os resultados de seu trabalho com os jovens e o interesse pela psicologia aplicada despertaram a atenção de Francisco Campos, então chefe da [[Instituto de Seleção e Orientação Profissional (ISOP)|Divisão de Seleção do ISOP (Instituto de Seleção e Orientação Profissional)]], que o convidou a ingressar na instituição como psicólogo-adjunto em 1962. No mesmo ano, a aprovação da Lei nº 4.119 permitiu seu registro profissional como psicólogo, tendo em vista sua experiência comprovada. O registro, no entanto, não o impediu de buscar sua graduação formal em Psicologia, realizada entre os anos de 1964 e 1967, na UFRJ. | ||
No ISOP, Seminerio passou a questionar a validade dos testes de avaliação psicológica que aplicava, entre eles a psicometria de Alfred Binet, sob a justificativa de que se limitavam a medir a inteligência apenas como resultado, e não explicavam, de fato, o funcionamento interno dos processos mentais. Essa insatisfação o levou a estudar as bases teóricas da cognição, sobretudo a Epistemologia Genética de Jean Piaget, que viria a se tornar fundamental para a construção de sua teoria da mente. | No ISOP, Seminerio passou a questionar a validade dos testes de avaliação psicológica que aplicava, entre eles a psicometria de Alfred Binet, sob a justificativa de que se limitavam a medir a inteligência apenas como resultado, e não explicavam, de fato, o funcionamento interno dos processos mentais. Essa insatisfação o levou a estudar as bases teóricas da cognição, sobretudo a [[Epistemologia Genética de Jean Piaget]], que viria a se tornar fundamental para a construção de sua teoria da mente. | ||
Apesar das convergências com o autor suíço, entre elas a da criança como agente ativo de seu aprendizado, Seminerio questionou o “continuísmo” piagetiano, que entendia o desenvolvimento cognitivo como um processo impossível de ser acelerado por intervenções externas. Essa divergência motivou Seminerio a articular outras perspectivas teóricas em seu projeto, entre elas a de autores como Bandura, Vygotsky e Chomsky, o que contribuiu com a formulação de sua Elaboração Dirigida, técnica cujo objetivo era promover os chamados saltos cognitivos e acelerar a construção da inteligência. | Apesar das convergências com o autor suíço, entre elas a da criança como agente ativo de seu aprendizado, Seminerio questionou o “continuísmo” piagetiano, que entendia o desenvolvimento cognitivo como um processo impossível de ser acelerado por intervenções externas. Essa divergência motivou Seminerio a articular outras perspectivas teóricas em seu projeto, entre elas a de autores como [[Albert Bandura|Bandura]], [[Lev Vygotsky|Vygotsky]] e [[Noam Chomsky|Chomsky]], o que contribuiu com a formulação de sua Elaboração Dirigida, técnica cujo objetivo era promover os chamados saltos cognitivos e acelerar a construção da inteligência. | ||
Mais tarde, Seminerio exemplificou sua tese ao ensinar a regra da seriação a crianças de 5 anos de idade, algo que, seguindo a cronologia apontada por Piaget, seria teoricamente improvável. Os resultados dessas pesquisas demonstraram que o desenvolvimento cognitivo não estaria necessariamente ligado a um tempo biológico, indicando, inclusive, a possibilidade de se provocar saltos por agentes externos, algo fundamental para a superação de déficits cognitivos. Essa proposta refletia os objetivos políticos e sociais de Seminerio, que entendia o meio como fator substancial para construção do pensamento lógico. Dessa forma, ferramentas como a Elaboração Dirigida possibilitariam a intervenção no desenvolvimento intelectual de crianças de classes menos favorecidas, contribuindo para a redução das desigualdades sociais. | Mais tarde, Seminerio exemplificou sua tese ao ensinar a regra da seriação a crianças de 5 anos de idade, algo que, seguindo a cronologia apontada por Piaget, seria teoricamente improvável. Os resultados dessas pesquisas demonstraram que o desenvolvimento cognitivo não estaria necessariamente ligado a um tempo biológico, indicando, inclusive, a possibilidade de se provocar saltos por agentes externos, algo fundamental para a superação de déficits cognitivos. Essa proposta refletia os objetivos políticos e sociais de Seminerio, que entendia o meio como fator substancial para construção do pensamento lógico. Dessa forma, ferramentas como a Elaboração Dirigida possibilitariam a intervenção no desenvolvimento intelectual de crianças de classes menos favorecidas, contribuindo para a redução das desigualdades sociais. | ||
Esse projeto se viabilizava em meio a uma ascensão administrativa de Seminerio no ISOP. Após atuar como psicólogo-adjunto, assumiu cargos como a Chefia da Seção de Seleção Geral (1966), a Chefia do Serviço de Pesquisa e Ensino (1968) e a Vice-Diretoria (1969). Além disso, em 1970, tornou-se diretor efetivo do instituto, função que ocuparia até o fim da entidade, em 1990. Nesse período, transformou o ISOP em um órgão acadêmico de pós-graduação em Psicologia, oferecendo cursos de mestrado, inaugurado em 1971, e doutorado, o primeiro da área credenciado pelo Conselho Federal de Educação, em 1977. | Esse projeto se viabilizava em meio a uma ascensão administrativa de Seminerio no [[Instituto de Seleção e Orientação Profissional (ISOP)|ISOP]]. Após atuar como psicólogo-adjunto, assumiu cargos como a Chefia da Seção de Seleção Geral (1966), a Chefia do Serviço de Pesquisa e Ensino (1968) e a Vice-Diretoria (1969). Além disso, em 1970, tornou-se diretor efetivo do instituto, função que ocuparia até o fim da entidade, em 1990. Nesse período, transformou o ISOP em um órgão acadêmico de pós-graduação em Psicologia, oferecendo cursos de mestrado, inaugurado em 1971, e doutorado, o primeiro da área credenciado pelo Conselho Federal de Educação, em 1977. | ||
Como professor, foi convidado pela Faculdade Fluminense de Filosofia (atual | Como professor, foi convidado pela Faculdade Fluminense de Filosofia (atual [https://www.uff.br/ Universidade Federal Fluminense]) a lecionar Orientação Profissional logo após obter o certificado no mesmo curso, em 1960. Se transferiu para a [https://ufrj.br/ Universidade Federal do Rio de Janeiro] em 1968, também a convite, onde integrou o quadro docente até sua aposentadoria compulsória, em 1993. Em 1991, organizou a criação do Laboratório Metaprocessual (UFRJ), cujo principal objetivo era dar continuidade ao trabalho que vinha sendo desenvolvido no ISOP. Ao se aposentar, recebeu o título de professor emérito da UFRJ, em 1994. | ||
== Contribuições == | == Contribuições == | ||
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=== Conselho Federal de Psicologia === | === Conselho Federal de Psicologia === | ||
Foi um dos dois delegados designados pelo Estado da Guanabara (atual Rio de Janeiro) para compor a comissão responsável por eleger o primeiro Conselho Federal de Psicologia (CFP), em 1973. Este processo representa o marco da regulamentação da profissão, consolidada pela Lei nº 5.766. | Foi um dos dois delegados designados pelo Estado da Guanabara (atual Rio de Janeiro) para compor a comissão responsável por eleger o primeiro [https://site.cfp.org.br/ Conselho Federal de Psicologia] (CFP), em 1973. Este processo representa o marco da regulamentação da profissão, consolidada pela Lei nº 5.766. | ||
Embora tenha sido convidado a participar também das eleições do conselho, recusou devido ao acúmulo de funções que exercia na época. | Embora tenha sido convidado a participar também das eleições do conselho, recusou devido ao acúmulo de funções que exercia na época. | ||
=== Contribuições em instituições === | === Contribuições em instituições === | ||
Seminerio ingressou como psicólogo-adjunto no ISOP (Instituto de Seleção e Orientação Profissional) em 1962, mesmo ano em que iniciou seu projeto de estudos sobre a cognição humana e a Elaboração Dirigida. Em 1969, foi nomeado pelo diretor da Faculdade da Educação da UFRJ para chefiar o Departamento de Psicologia da Educação. Assumiu a direção efetiva do ISOP e da revista Arquivos Brasileiros de Psicologia Aplicada (atual Arquivos Brasileiros de Psicologia) em 1970, permanecendo no cargo até a extinção do instituto, vinte anos depois. Durante esse período, contribuiu para a criação dos cursos de pós-graduação do ISOP, com o mestrado sendo implantado em 1971 e o doutorado em 1977. | Seminerio ingressou como psicólogo-adjunto no [[Instituto de Seleção e Orientação Profissional (ISOP)|ISOP (Instituto de Seleção e Orientação Profissional)]] em 1962, mesmo ano em que iniciou seu projeto de estudos sobre a cognição humana e a Elaboração Dirigida. Em 1969, foi nomeado pelo diretor da [[Faculdade da Educação da UFRJ]] para chefiar o Departamento de Psicologia da Educação. Assumiu a direção efetiva do ISOP e da revista Arquivos Brasileiros de Psicologia Aplicada (atual [[Arquivos Brasileiros de Psicologia]]) em 1970, permanecendo no cargo até a extinção do instituto, vinte anos depois. Durante esse período, contribuiu para a criação dos cursos de pós-graduação do ISOP, com o mestrado sendo implantado em 1971 e o doutorado em 1977. | ||
Além disso, Seminerio foi eleito presidente de duas importantes associações: a Associação Brasileira de Psicologia Aplicada, em 1973, na qual permaneceu por dois mandatos, e a Associação Brasileira de Psicologia, filiada à ''International Union of Psychological Science'', em 1978 e, novamente, em 1986. Com a extinção do ISOP pela Fundação Getúlio Vargas, em 1990, Seminerio dedicou-se à transferência dos cursos de mestrado e doutorado do instituto, assim como da revista Arquivos Brasileiros de Psicologia, para a UFRJ. A transferência foi concluída em 1991, com Seminerio assumindo a coordenação de ambos os cursos. | Além disso, Seminerio foi eleito presidente de duas importantes associações: a [[Associação Brasileira de Psicologia Aplicada]], em 1973, na qual permaneceu por dois mandatos, e a [[Associação Brasileira de Psicologia]], filiada à ''[[International Union of Psychological Science]]'', em 1978 e, novamente, em 1986. Com a extinção do ISOP pela [[Fundação Getúlio Vargas]], em 1990, Seminerio dedicou-se à transferência dos cursos de mestrado e doutorado do instituto, assim como da revista Arquivos Brasileiros de Psicologia, para a UFRJ. A transferência foi concluída em 1991, com Seminerio assumindo a coordenação de ambos os cursos. | ||
=== Laboratório Metaprocessual === | === Laboratório Metaprocessual === | ||
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=== Principais obras === | === Principais obras === | ||
'''Infra-estrutura da cognição: fatores ou linguagens? (Cadernos do ISOP, nº 4, 1984)''' | |||
Esta edição reúne um histórico dos 20 primeiros anos de pesquisas realizadas por Seminerio, além dos questionamentos iniciais acerca da confiabilidade dos testes psicológicos aplicados na época. | Esta edição reúne um histórico dos 20 primeiros anos de pesquisas realizadas por Seminerio, além dos questionamentos iniciais acerca da confiabilidade dos testes psicológicos aplicados na época. | ||
'''Infra-estrutura da cognição (II): linguagens e canais morfogenéticos (Cadernos do ISOP, nº 8, 1985)''' | |||
Seminerio aprofunda sua investigação epistemológica da cognição humana. Os canais morfogenéticos (visomotor e audiofonético) são detalhados, assim como o metaprocesso. A Elaboração Dirigida é citada, embora não seja o foco desta edição. | Seminerio aprofunda sua investigação epistemológica da cognição humana. Os canais morfogenéticos (visomotor e audiofonético) são detalhados, assim como o metaprocesso. A Elaboração Dirigida é citada, embora não seja o foco desta edição. | ||
'''Elaboração dirigida: um caminho para o desenvolvimento metaprocessual da cognição humana (Cadernos do ISOP, nº 10, 1987)''' | |||
A Elaboração Dirigida é apresentada como a aplicação prática da teoria apresentada nos cadernos anteriores. As bases, os objetivos e as situações de uso da ferramenta são debatidos, assim como a importância do diálogo entre professor e aluno na educação. | A Elaboração Dirigida é apresentada como a aplicação prática da teoria apresentada nos cadernos anteriores. As bases, os objetivos e as situações de uso da ferramenta são debatidos, assim como a importância do diálogo entre professor e aluno na educação. | ||
'''Metaprocesso: a chave do desenvolvimento cognitivo: uma reavaliação da pedagogia contemporânea (Cadernos do ISOP, nº 13, 1988)''' | |||
Considerado o fechamento das ideias dos cadernos anteriores, esta edição traz um diálogo crítico entre a Elaboração Dirigida e teorias de autores como Piaget, Vygotsky, Bandura e Bruner. | |||
Considerado o fechamento das ideias dos cadernos anteriores, esta edição traz um diálogo crítico entre a Elaboração Dirigida e teorias de autores como Piaget, Vygotsky, Bandura e [[Jerome Bruner|Bruner]]. | |||
=== Outras obras === | === Outras obras === | ||
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=== Jean Piaget === | === Jean Piaget === | ||
Piaget entende que o desenvolvimento cognitivo ocorre por uma sequência de estágios fixos que não podem ser acelerados por influências externas. Em contrapartida, Seminerio defende a possibilidade de intervenção sobre esses estágios, principalmente para compensar déficits cognitivos em crianças. A partir dessa divergência, o autor propõe o método da Elaboração Dirigida, utilizando metamodelos e ações reflexivas para que a criança alcance níveis de raciocínio mais complexos. | [[Jean Piaget|Piaget]] entende que o desenvolvimento cognitivo ocorre por uma sequência de estágios fixos que não podem ser acelerados por influências externas. Em contrapartida, Seminerio defende a possibilidade de intervenção sobre esses estágios, principalmente para compensar déficits cognitivos em crianças. A partir dessa divergência, o autor propõe o método da Elaboração Dirigida, utilizando metamodelos e ações reflexivas para que a criança alcance níveis de raciocínio mais complexos. | ||
=== John Flavell === | === John Flavell === | ||
Um dos objetivos da proposta psicopedagógica de Seminerio, a Elaboração Dirigida, é provocar na criança aquilo que Flavell descreve como metacognição, ou seja, a capacidade de refletir sobre os próprios pensamentos. As pesquisas do norte-americano, sobretudo as apresentadas no XXI Congresso Internacional de Psicologia, em 1976, contribuíram para as noções de Seminério acerca da atividade metaprocessual. Esta, por sua vez, é entendida como uma ampliação do conceito de Flavell, abrangendo não apenas os processos cognitivos, mas também a recursividade. | Um dos objetivos da proposta psicopedagógica de Seminerio, a Elaboração Dirigida, é provocar na criança aquilo que [[John Flavell|Flavell]] descreve como metacognição, ou seja, a capacidade de refletir sobre os próprios pensamentos. As pesquisas do norte-americano, sobretudo as apresentadas no XXI Congresso Internacional de Psicologia, em 1976, contribuíram para as noções de Seminério acerca da atividade metaprocessual. Esta, por sua vez, é entendida como uma ampliação do conceito de Flavell, abrangendo não apenas os processos cognitivos, mas também a recursividade. | ||
=== Noam Chomsky === | === Noam Chomsky === | ||
Seminerio busca em Chomsky a noção do inatismo da recursividade, uma das bases para a compreensão do desenvolvimento dos processos lógicos. Chomsky propõe que, mesmo com um número finito de regras, o sujeito é capaz de gerar um número infinito de frases em um idioma (processo recursivo). Essas regras não são aprendidas apenas pela interação com o ambiente, mas possibilitadas por princípios universais da linguagem, indicando a existência de um preformismo estrutural. Assim como na linguística de Chomsky, é a recursividade que possibilita ao aluno realizar o salto metaprocessual, isto é, usar uma regra já compreendida para elaborar novas lógicas em situações desconhecidas. | Seminerio busca em [[Noam Chomsky|Chomsky]] a noção do inatismo da recursividade, uma das bases para a compreensão do desenvolvimento dos processos lógicos. Chomsky propõe que, mesmo com um número finito de regras, o sujeito é capaz de gerar um número infinito de frases em um idioma (processo recursivo). Essas regras não são aprendidas apenas pela interação com o ambiente, mas possibilitadas por princípios universais da linguagem, indicando a existência de um preformismo estrutural. Assim como na linguística de Chomsky, é a recursividade que possibilita ao aluno realizar o salto metaprocessual, isto é, usar uma regra já compreendida para elaborar novas lógicas em situações desconhecidas. | ||
=== Lev Vygotsky === | === Lev Vygotsky === | ||
A proposta sócio-interacionista de Vygotsky fomenta a importância do educador e o papel das interações sociais na teoria metaprocessual. Ambos os autores partilham da ideia de que os fenômenos psicológicos se constroem por meio do diálogo interpessoal, com o adulto mediando o acesso da criança aos signos e significados. A linguagem funciona como um sistema essencial que permite à criança nomear e representar mentalmente aquilo que não está visível (descontextualização imediata), condição fundamental para o desenvolvimento de processos cognitivos mais sofisticados. | A proposta sócio-interacionista de [[Lev Vygotsky|Vygotsky]] fomenta a importância do educador e o papel das interações sociais na teoria metaprocessual. Ambos os autores partilham da ideia de que os fenômenos psicológicos se constroem por meio do diálogo interpessoal, com o adulto mediando o acesso da criança aos signos e significados. A linguagem funciona como um sistema essencial que permite à criança nomear e representar mentalmente aquilo que não está visível (descontextualização imediata), condição fundamental para o desenvolvimento de processos cognitivos mais sofisticados. | ||
Seminerio retoma essa concepção ao enfatizar que a inteligência é produto das classes sociais e não o contrário, tendo em vista a lógica de que quanto menor a circulação de signos ou mediações, menos recursos a criança terá para expandir suas capacidades cognitivas. Nesse sentido, a aprendizagem se intensifica quando há mediação ativa do adulto, que instiga e organiza o processo para além do espontâneo. É esse o ponto de atuação da Elaboração Dirigida. | Seminerio retoma essa concepção ao enfatizar que a inteligência é produto das classes sociais e não o contrário, tendo em vista a lógica de que quanto menor a circulação de signos ou mediações, menos recursos a criança terá para expandir suas capacidades cognitivas. Nesse sentido, a aprendizagem se intensifica quando há mediação ativa do adulto, que instiga e organiza o processo para além do espontâneo. É esse o ponto de atuação da Elaboração Dirigida. | ||
=== Albert Bandura === | === Albert Bandura === | ||
Seminerio utiliza a Teoria Social Cognitiva de Bandura para incorporar o princípio de que a aprendizagem ocorre pela observação, imitação e estocagem de modelos. Essa concepção justifica o foco da Elaboração Dirigida nas relações interpessoais e no fornecimento de novas lógicas aos alunos. Esse conceito é ampliado na teoria metaprocessual, tendo em vista a capacidade do indivíduo em refletir sobre as regras até compreendê-las em seu estado gerador. Assim, enquanto Bandura fundamenta a aprendizagem na aquisição de modelos externos, Seminerio desloca o foco para a capacidade inata do sujeito de processar e gerar internamente novas regras, indo além da mera repetição. | Seminerio utiliza a [[Teoria Social Cognitiva de Bandura]] para incorporar o princípio de que a aprendizagem ocorre pela observação, imitação e estocagem de modelos. Essa concepção justifica o foco da Elaboração Dirigida nas relações interpessoais e no fornecimento de novas lógicas aos alunos. Esse conceito é ampliado na teoria metaprocessual, tendo em vista a capacidade do indivíduo em refletir sobre as regras até compreendê-las em seu estado gerador. Assim, enquanto [[Albert Bandura|Bandura]] fundamenta a aprendizagem na aquisição de modelos externos, Seminerio desloca o foco para a capacidade inata do sujeito de processar e gerar internamente novas regras, indo além da mera repetição. | ||
== Referências == | == Referências == | ||
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SEMINÉRIO, Franco Lo Presti. '''Currículo do Sistema de Currículos Lattes'''. [S. l.: s. n.], 2003. Disponível em: <nowiki>http://lattes.cnpq.br/7526292347610062</nowiki>. Acesso em: 19 fev. 2026. | SEMINÉRIO, Franco Lo Presti. '''Currículo do Sistema de Currículos Lattes'''. [S. l.: s. n.], 2003. Disponível em: <nowiki>http://lattes.cnpq.br/7526292347610062</nowiki>. Acesso em: 19 fev. 2026. | ||
SILVA, José Aparecido da; BIASOLI-ALVES, Zélia Maria Mendes. '''Franco Lo Presti Seminerio (1923-2003): O homem, O professor, O amigo'''. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Brasília, v. 19, n. 2, p. 189-191, maio/ago. 2003. Disponível em: <nowiki>https://www.scielo.br/j/ptp/a/pN44PWQCFGvg9R7KWTH7S5P/</nowiki>. Acesso em: 19 fev. 2026 | SILVA, José Aparecido da; BIASOLI-ALVES, Zélia Maria Mendes. '''Franco Lo Presti Seminerio (1923-2003): O homem, O professor, O amigo'''. Psicologia: Teoria e Pesquisa, Brasília, v. 19, n. 2, p. 189-191, maio/ago. 2003. Disponível em: <nowiki>https://www.scielo.br/j/ptp/a/pN44PWQCFGvg9R7KWTH7S5P/</nowiki>. Acesso em: 19 fev. 2026. | ||
== Ver também == | |||
[[Jean Piaget]] | |||
[[Jerome Bruner]] | |||
[[Albert Bandura]] | |||
[[Lev Vygotsky]] | |||
[[Noam Chomsky]] | |||
[[John Flavell]] | |||
[[Centro Juvenil de Orientação e Pesquisa (CeJOP)]] | |||
[[Instituto de Seleção e Orientação Profissional (ISOP)]] | |||
[[Faculdade da Educação da UFRJ]] | |||
[[Arquivos Brasileiros de Psicologia]] | |||
[[Associação Brasileira de Psicologia Aplicada]] | |||
[[Associação Brasileira de Psicologia Social (ABRAPSO)|Associação Brasileira de Psicologia]] | |||
[[International Union of Psychological Science]] | |||
[[Fundação Getúlio Vargas]] | |||
[[Epistemologia Genética de Jean Piaget]] | |||
[[Teoria Social Cognitiva de Bandura]] | |||
== Autoria == | |||
Este verbete foi escrito por Luiz Fernando Mendonca Carvalho a convite dos editores da WikiHP. Criado em 2026.1, publicado em 2026.1. Este verbete está indefinidamente fechado para edição da comunidade por decisão dos editores da WikiHP. | |||
[[Categoria:Personagens]] | |||
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]] | |||