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(→O Nascimento da Psiquiatria: Inclusão de seção) |
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A princípio, embora também protegesse o alienado do arbítrio e de outras violências que poderiam ser cometidos contra os loucos nas províncias e mesmo nas periferias de Paris, a lei também deu total poder ao médico psiquiatra. Era ele quem poderia decidir quem deveria ou não ser privado de sua liberdade. Com isso, a psiquiatria tornava-se, assim, um braço do Estado na gestão da ordem social mas, ao contrário do polícia e do inquérito polícial, que exigia provas independentes e a atuação do sistema judiciário, o psiquiatra estava coberto sob o manto da ciência médica, o que dava a ele poderes gigantescos de decidir entre a alienação e a razão. Isso marcou profundamente a forma como a loucura e a saúde mental passaram a ser compreendidas e tratadas nas décadas seguintes. | A princípio, embora também protegesse o alienado do arbítrio e de outras violências que poderiam ser cometidos contra os loucos nas províncias e mesmo nas periferias de Paris, a lei também deu total poder ao médico psiquiatra. Era ele quem poderia decidir quem deveria ou não ser privado de sua liberdade. Com isso, a psiquiatria tornava-se, assim, um braço do Estado na gestão da ordem social mas, ao contrário do polícia e do inquérito polícial, que exigia provas independentes e a atuação do sistema judiciário, o psiquiatra estava coberto sob o manto da ciência médica, o que dava a ele poderes gigantescos de decidir entre a alienação e a razão. Isso marcou profundamente a forma como a loucura e a saúde mental passaram a ser compreendidas e tratadas nas décadas seguintes. | ||
== O Desenvolvimento da Psiquiatria Contemporânea == | |||
=== Emil Kraepelin e uma Nova Racionalização === | === Emil Kraepelin e uma Nova Racionalização === | ||
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Kraepelin também é considerado o pioneiro da [[Psiquiatria Transcultural]]. Visando provar que as categorias diagnósticas psiquiátricas seriam universais, ele viajou para lugares como a ilha de Java (Indonésia) em 1904 para estudar a manifestação da loucura em populações não europeias. Ele concluiu que, ainda que os conteúdos dos delírios mudassem conforme a cultura, a estrutura fundamental da loucura permanecia a mesma, o que reforçou sua tese de que eram doenças biológicas da espécie humana. Apesar de suas várias contribuições, no final de sua vida ele se transformou um higienista. | Kraepelin também é considerado o pioneiro da [[Psiquiatria Transcultural]]. Visando provar que as categorias diagnósticas psiquiátricas seriam universais, ele viajou para lugares como a ilha de Java (Indonésia) em 1904 para estudar a manifestação da loucura em populações não europeias. Ele concluiu que, ainda que os conteúdos dos delírios mudassem conforme a cultura, a estrutura fundamental da loucura permanecia a mesma, o que reforçou sua tese de que eram doenças biológicas da espécie humana. Apesar de suas várias contribuições, no final de sua vida ele se transformou um higienista. | ||
=== Tratamentos brutais === | |||
O período entreguerras foi marcado pelo desespero dos psiquiatras em encontrar tratamentos ativos e curativos para esvaziar os superlotados manicômios herdados do século XIX. Foi também um período de grande entusiasmo com a ciência, que passou a ser vista como o empreendimento que salvaria a humanidade de seus tormentos. Para a loucura, isso trouxe a a era das terapêuticas heróicas e invasivas, que transformaram a prática asilar. | |||
Foi nesse período que alguns dos tratamentos mais violentos foram desenvolvidos. Um primeiro exemplo é o da Malarioterapia, criada em 1917 por Julius Wagner-Jauregg e que consistia em infectar pacientes de neurossífilis com malária, ideia que rendeu-lhe a ele o único Nobel da psiquiatria clássica. Outro tratamento conhecido, criado em 1933, é o Coma Insulínico, onde se induzia comas por hipoglicemia em esquizofrênicos, na expectativa que, quando retornassem deste estado, estariam "melhores". Entre 1934 e 1938, Ladislas von Meduna e, posteriormente, Ugo Cerletti introduziram as convulsões artificiais (químicas e elétricas) como tratamento, que consistiam em induzir choques químicos ou elétricos no paciente. O médico português Egas Moniz, por sua vez, ganhou o Nobel de Medicina de 1949 ao criar a Lobotomia Pré-Frontal. | |||
=== A loucura no nazismo === | |||
Durante a Segunda Guerra Mundial, o determinismo biológico e as teorias de degeneração racial foram levadas ao extremo e resultaram na Ação T4 (''Aktion T4''). Este foi um programa nazista de, simplesmente, eutanásia sistemática, que assassinou mais de 200 mil doentes mentais e pessoas com deficiência na Alemanha e territórios ocupados. A cumplicidade da psiquiatria institucional com essa matança, bem como com o Holocausto, gerou uma crise ética profunda no pós-guerra, exigindo uma refundação humanista e internacional da disciplina, um dos grandes motores políticos subjacentes para a convocação do Congresso de 1950 em Paris. | |||
=== O I Congresso Internacional de Psiquiatria === | === O I Congresso Internacional de Psiquiatria === | ||