História da loucura: da Grécia antiga à luta anti-manicomial: mudanças entre as edições

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A princípio, embora também protegesse o alienado do arbítrio e de outras violências que poderiam ser cometidos contra os loucos nas províncias e mesmo nas periferias de Paris, a lei também deu total poder ao médico psiquiatra. Era ele quem poderia decidir quem deveria ou não ser privado de sua liberdade. Com isso, a psiquiatria tornava-se, assim, um braço do Estado na gestão da ordem social mas, ao contrário do polícia e do inquérito polícial, que exigia provas independentes e a atuação do sistema judiciário, o psiquiatra estava coberto sob o manto da ciência médica, o que dava a ele poderes gigantescos de decidir entre a alienação e a razão. Isso marcou profundamente a forma como a loucura e a saúde mental passaram a ser compreendidas e tratadas nas décadas seguintes.
A princípio, embora também protegesse o alienado do arbítrio e de outras violências que poderiam ser cometidos contra os loucos nas províncias e mesmo nas periferias de Paris, a lei também deu total poder ao médico psiquiatra. Era ele quem poderia decidir quem deveria ou não ser privado de sua liberdade. Com isso, a psiquiatria tornava-se, assim, um braço do Estado na gestão da ordem social mas, ao contrário do polícia e do inquérito polícial, que exigia provas independentes e a atuação do sistema judiciário, o psiquiatra estava coberto sob o manto da ciência médica, o que dava a ele poderes gigantescos de decidir entre a alienação e a razão. Isso marcou profundamente a forma como a loucura e a saúde mental passaram a ser compreendidas e tratadas nas décadas seguintes.
=== Emil Kraepelin e uma Nova Racionalização ===
Apesar da forte valorização da psiquiatria francesa na constituição da psiquiatria contemporânea, uma das principais contribuições para o ramo em sua forma atual foi empreendida por um alemão, Emil Kraepelin. No final do século XIX, a psiquiatria alemã estava dividida entre os "psiquistas", que viam a loucura como uma doença da alma ou um mal moral, a exemplo dos franceses; e os "somatistas", que buscavam no cérebro a origem dos sintomas das doenças mentais. Kraepelin superou esse impasse ao focar não na anatomia, mas na evolução temporal das doenças.
Kraepelin passou a entender que sintomas isolados, como ouvir vozes ou acreditar ser uma personalidade histórica, não eram suficientes para definir uma doença, mas seu desenvolvimento ao longo do tempo. Com essa premissa em mãos, Kraepelin introduziu as "cartas diagnósticas" (Zählkarten), um sistema de fichamento padronizado onde se registrava a história de vida do paciente, seus antecedentes familiares, os sintomas detalhados e, por fim, o desfecho da doença. Isso transformou a clínica psiquiátrica, pois articulava neuroanatomia e psicologia experimental, já que ele fora aluno de Wundt.
Kraepelin também é considerado o pioneiro da Psiquiatria Transcultural. Visando provar que as categorias diagnósticas psiquiátricas seriam universais, ele viajou para lugares como a ilha de Java (Indonésia) em 1904 para estudar a manifestação da loucura em populações não europeias. Ele concluiu que, ainda que os conteúdos dos delírios mudassem conforme a cultura, a estrutura fundamental da loucura permanecia a mesma, o que reforçou sua tese de que eram doenças biológicas da espécie humana. Apesar disso, no final de sua vida ele se transformou um higienista.
=== O I Congresso Internacional de Psiquiatria ===
Realizado em Paris em agosto de 1950, o I Congresso Internacional de Psiquiatria foi projetado especificamente para unificar, debater e institucionalizar a psiquiatria como uma disciplina médica global e autônoma. Durante o Congresso foram colocados, frente a frente, as grandes correntes que disputavam a hegemonia do entendimento da mente humana na época, a saber, as correntes psicodinâmica e a biológica. De forma menor, uma corrente social e anti-manicomial também se fez presente. O resultado do embate foi uma conciliação entre ambas.
Um dos resultados do Congresso de 1950 foi a pressão para que a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Associação Psiquiátrica Americana (APA) criassem manuais estatísticos e classificatórios unificados, o que resultou na inserção de uma seção robusta de transtornos mentais na CID-6 (Classificação Internacional de Doenças) e na publicação do primeiro DSM, em 1952.
Outro resultado importante do evento foi a fundação da Associação Mundial de Psiquiatria (World Psychiatric Association - WPA). A partir de 1950, a psiquiatria deixou de ser um conjunto de escolas nacionais isoladas, como a escola francesa, a escola alemã, a escola anglo-saxã, entre outras, para se tornar uma corporação científica internacional, com congressos periódicos, periódicos indexados e diretrizes globais.


== A Loucura no Brasil ==
== A Loucura no Brasil ==
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COSTA, Jurandir Freire. História da Assistência Psiquiátrica no Brasil. Rio de Janeiro: Garamond, 2007.  
COSTA, Jurandir Freire. História da Assistência Psiquiátrica no Brasil. Rio de Janeiro: Garamond, 2007.  
DALGALARRONDO, Paulo. Evolução Histórica dos Conceitos em Psicopatologia. In: Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais. Porto Alegre: Artmed, 2018.


ENGEL, Magali. Os Delírios da Razão: médicos, loucos e hospícios (Rio de Janeiro, 1830-1930). Rio de Janeiro: Fiocruz, 2001
ENGEL, Magali. Os Delírios da Razão: médicos, loucos e hospícios (Rio de Janeiro, 1830-1930). Rio de Janeiro: Fiocruz, 2001