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A transferência da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 gerou a necessidade de transformar a capital colonial em uma moderna metrópole europeia. Sob a influência do Iluminismo tardio e das notícias que chegavam sobre as reformas de Pinel na França, a elite médica brasileira, que havia estudado sobretudo na França e em Portugal, começou a pressionar o poder público pela criação de espaços específicos para o tratamento dos alienados. | A transferência da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro em 1808 gerou a necessidade de transformar a capital colonial em uma moderna metrópole europeia. Sob a influência do Iluminismo tardio e das notícias que chegavam sobre as reformas de Pinel na França, a elite médica brasileira, que havia estudado sobretudo na França e em Portugal, começou a pressionar o poder público pela criação de espaços específicos para o tratamento dos alienados. | ||
Em 1830, a criação da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (que viria a ser a [[Academia Nacional de Medicina]]) foi o marco institucional dessa pressão. Esse movimento político funcionou. O momento decisivo ocorreu em 18 de julho de 1841, quando o Imperador D. Pedro II, em comemoração à sua coroação, assinou o decreto de fundação do primeiro hospital psiquiátrico do Brasil e da América Latina. | Em 1830, a criação da Sociedade de Medicina do Rio de Janeiro (que viria a ser a [[Academia Nacional de Medicina]]) foi o marco institucional dessa pressão. Esse movimento político funcionou. O momento decisivo ocorreu em 18 de julho de 1841, quando o Imperador D. Pedro II, em comemoração à sua coroação, assinou o decreto de fundação do primeiro hospital psiquiátrico do Brasil e da América Latina. | ||
=== O Hospício de Pedro II, ou o Palácio dos Loucos (1852–1889) === | === O Hospício de Pedro II, ou o Palácio dos Loucos (1852–1889) === | ||
Inaugurado apenas em 8 de dezembro de 1852, o [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)|Hospício de Pedro II]] era gerido pela Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, que por anos geriu grande parte da loucura brasileira. Seu provedor era o médico [[José Clemente Pereira]], que era responsável por todos os aspectos da instituição, desde os médicos até os administrativos. Embora a gestão administrativa fosse religiosa, o saber médico tinha muito espaço, com nomes como [[Manoel Feliciano Pereira de Carvalho]], que tentaram implementar o "tratamento moral" inspirado em Esquirol. Apesar dos esforços, muitos relatos de abusos e de condições precárias mostravam a dificuldade em implementar um modelo brasileiro de tratamento dos alienados. | Inaugurado apenas em 8 de dezembro de 1852, o [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)|Hospício de Pedro II]] era gerido pela Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, que por anos geriu grande parte da loucura brasileira. Seu provedor era o médico [[José Clemente Pereira]], que era responsável por todos os aspectos da instituição, desde os médicos até os administrativos. Embora a gestão administrativa fosse religiosa, o saber médico tinha muito espaço, com nomes como [[Manoel Feliciano Pereira de Carvalho]], que tentaram implementar o "tratamento moral" inspirado em Esquirol. Apesar dos esforços, muitos relatos de abusos e de condições precárias mostravam a dificuldade em implementar um modelo brasileiro de tratamento dos alienados. | ||
Com a Proclamação da República em 1889, o Hospício de Pedro II foi desvinculado da Santa Casa e renomeado como [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)]]. Este foi um período de maior laicização e pela busca por um maior rigor científico, o que não aconteceu por completo, em grande parte devido à falta de profissionais adequadamente treinados | Com a Proclamação da República em 1889, o Hospício de Pedro II foi desvinculado da Santa Casa e renomeado como [[Hospital Nacional de Alienados (HNA)]]. Este foi um período de maior laicização e pela busca por um maior rigor científico, o que não aconteceu por completo, em grande parte devido à falta de profissionais adequadamente treinados, apesar de o Brasil já possuir, à época, uma cátedra de psiquiatria, fundada em 1883 e ocupada por [[Teixeira Brandão|João Carlos Teixeira Brandão]]. | ||
Diante dos altíssimos custos em manter o Hospital, surgem as colônias agrícolas como alternativa ao confinamento urbano. Em 1884 | Diante dos altíssimos custos em manter o Hospital, surgem as colônias agrícolas como alternativa ao confinamento urbano. Em 1884 foi inaugurada a [[Colônia de São Bento]] e, em 1890, a [[Colônia de Conde de Mesquita]], na Ilha do Governador. A ideia era que o trabalho na terra poderia colaborar na cura, além de os produtos deste trabalho poderiam ser consumidos no local, ajudando na manutenção dos espaços. Apesar dessas transformações e de evidentes melhorias, os relatos de época mostram que não acontecia nenhuma das duas coisas, nem produção agrícola suficiente para manter as coloônias minimamente autônomas, nem um processo terapêutico efetivo oriundo do trabalho organizado. De qualquer forma, entendia-se que a colônia agrícola era melhor do que o confinamento do HNA. | ||
=== A Era Juliano Moreira === | === A Era Juliano Moreira === | ||
Em 1903, o médico baiano [[Juliano Moreira]] assume a direção do Hospital Nacional de Alienados. Negro, de origem humilde e dotado de uma erudição impressionante, ele revolucionou a assistência brasileira aos alienados, sendo reconhecido internacionalmente como um dos grandes psiquiatras de seu tempo. Ele se tornaria o principal médico alienista do Brasil, tornando-se referência para todo o país. | Em 1903, o médico baiano [[Juliano Moreira]] assume a direção do Hospital Nacional de Alienados. Negro, de origem humilde e dotado de uma erudição impressionante, ele revolucionou a assistência brasileira aos alienados, sendo reconhecido internacionalmente como um dos grandes psiquiatras de seu tempo. Ele se tornaria o principal médico alienista do Brasil, tornando-se referência para todo o país. | ||
Moreira aboliu definitivamente o uso de camisas de força e as grades nas janelas, num gesto que se assemelhava àquele de Pinel, enfatizando que o hospital era um local de tratamento e cura, e não uma prisão ou um depósito de indesejados. Além disso, ele trouxe para o Brasil a nosologia de Emil Kraepelin, um psiquiatra alemão considerado o pai da psiquiatria moderna, da psicofarmacologia e da genética psiquiátrica, o que seria uma modernização do modelo francês adotado até então. | Moreira aboliu definitivamente o uso de camisas de força e as grades nas janelas, num gesto que se assemelhava àquele de Pinel, enfatizando que o hospital era um local de tratamento e cura, e não uma prisão ou um depósito de indesejados. Além disso, ele trouxe para o Brasil a nosologia de Emil Kraepelin, um psiquiatra alemão considerado o pai da psiquiatria moderna, da psicofarmacologia e da genética psiquiátrica, o que seria uma modernização do modelo francês adotado até então no país. | ||
Sob a gestão Moreira ocorreram várias mudanças. Foi criado o [[Pavilhão Bourneville]] para crianças com deficiência intelectual. Além disso, fundou-se em 1921 o [[Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro]], o primeiro do país, sob a liderança de [[Heitor Carrilho]]. Dentro dos hospitais incentivou-se a pesquisa laboratorial e anátomo-patológica, o que | Sob a gestão Moreira ocorreram várias mudanças. Foi criado o [[Pavilhão Bourneville]] para crianças com deficiência intelectual. Além disso, fundou-se em 1921 o [[Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro]], o primeiro do país, sob a liderança de [[Heitor Carrilho]]. Dentro dos hospitais incentivou-se a pesquisa laboratorial e anátomo-patológica, o que abriu espaço para a criação de laboratórios de psicologia. | ||
A influência e o prestígio de Juliano Moreira se espalhou pelo Brasil. Em São Paulo, destacou-se a figura de [[Franco da Rocha|Francisco Franco da Rocha]], que fundou em 1898 o [[Hospital do Juquery]]. O Juquery, como ficou conhecido, tornou-se uma "cidade-asilo", chegando a abrigar dezenas de milhares de pacientes em um modelo que mesclava pavilhôes médicos com imensas colônias agrícolas. | A influência e o prestígio de Juliano Moreira se espalhou pelo Brasil. Em São Paulo, destacou-se a figura de [[Franco da Rocha|Francisco Franco da Rocha]], que fundou em 1898 o [[Hospital do Juquery]]. O Juquery, como ficou conhecido, tornou-se uma "cidade-asilo", chegando a abrigar dezenas de milhares de pacientes em um modelo que mesclava pavilhôes médicos com imensas colônias agrícolas. | ||
Neste período, a psiquiatria brasileira flertou intensamente com as teorias da degenerescência (de Morel e Magnan) e com a eugenia. Médicos como [[Renato Kehl]], bem como a criação da [[Liga Brasileira de Higiene Mental]] (1923), uma organização higienista fundada por [[Gustavo Riedel]], começaram a ver a loucura não apenas como um problema individual, mas como um risco biológico à raça brasileira. A higiene mental passou a atuar preventivamente em escolas e fábricas, buscando identificar "pré-delinquentes" e "personalidades anormais". Apesar de não ter conseguido desenvolver muitas políticas efetivas, os eugenistas brasileiros eram ativos e influentes em muitos círculos decisórios importantes. | Neste período, a psiquiatria brasileira flertou intensamente com as teorias da degenerescência (de Morel e Magnan) e com a eugenia. Médicos como [[Renato Kehl]], bem como a criação da [[Liga Brasileira de Higiene Mental]] (1923), uma organização higienista fundada por [[Gustavo Riedel]], começaram a ver a loucura não apenas como um problema individual, mas como um risco biológico à "raça brasileira". A higiene mental passou a atuar preventivamente em escolas e fábricas, buscando identificar "pré-delinquentes" e "personalidades anormais". Apesar de não ter conseguido desenvolver muitas políticas efetivas, os eugenistas brasileiros eram ativos e influentes em muitos círculos decisórios importantes. | ||
A criação de hospitais não se limitou a São Paulo e Rio de Janeiro. Em 1903, o governo de Minas Gerais fundou o [[Hospital Psiquiátrico de Barbacena]], que mais tarde seria palco de uma das maiores tragédias humanitárias do país. Em Pernambuco, o [[Hospital Ulysses Pernambucano]] foi fundado pelo médico de mesmo nome, que começou a desenvolver uma psiquiatria mais voltada para o social e para a prevenção no final dos anos 1920. Hospitais na Bahia, Rio Grande do Sul, entre outros, também foram criados, seguindo o pioneirismo do HNA. | A criação de hospitais não se limitou a São Paulo e Rio de Janeiro. Em 1903, o governo de Minas Gerais fundou o [[Hospital Psiquiátrico de Barbacena]], que mais tarde seria palco de uma das maiores tragédias humanitárias do país. Em Pernambuco, o [[Hospital Ulysses Pernambucano]] foi fundado pelo médico de mesmo nome, que começou a desenvolver uma psiquiatria mais voltada para o social e para a prevenção no final dos anos 1920. Hospitais na Bahia, Rio Grande do Sul, entre outros, também foram criados, seguindo o pioneirismo do HNA. | ||