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=== Tratamentos Brutais e os Modos de Resistência === | === Tratamentos Brutais e os Modos de Resistência === | ||
Para além do horror asilar, o período entre 1930 e 1950 também foi marcado pela introdução de terapias biológicas drásticas, importadas da Europa, conhecidas como [[somatoterapias]]. Com uma psicofarmacologia pouco eficaz, os médicos buscavam "chacoalhar" o organismo, produzindo nele como um choque que pudesse restaurar a razão. | Para além do horror asilar, o período entre 1930 e 1950 também foi marcado pela introdução de terapias biológicas drásticas, importadas da Europa, conhecidas como [[somatoterapias]]. Com uma psicofarmacologia ainda pouco eficaz, os médicos buscavam "chacoalhar" o organismo, produzindo nele como um choque que pudesse restaurar a razão. | ||
Uma dessas técnicas era a [[insulinoterapia]]. Introduzida na Europa pelo médico austríaco Manfred Sakel (1900–1957) em Viena, no início dos anos 1930, representou uma das primeiras e mais invasivas formas de somatoterapia. Originalmente destinada ao tratamento da [[esquizofrenia]], a técnica consistia na administração de doses maciças de insulina no paciente, provocando um estado de hipoglicemia profunda que levava o paciente ao coma. Na volta desse estado, se esperava que o indivíduo “restaurasse” a razão por conta do choque orgânico violento que havia vivenciado. O procedimento era extremamente perigoso e estava associado a uma alta taxa de mortalidade e morbidade devido às convulsões e aos possíveis danos cerebrais. Apesar dos riscos, o método foi amplamente adotado no mundo todo, incluindo o Brasil, onde foi usado em grandes instituições de confinamento, como o Hospital Nacional de Alienados (HNA), no Hospital Juquery, entre outros. | Uma dessas técnicas era a [[insulinoterapia]]. Introduzida na Europa pelo médico austríaco Manfred Sakel (1900–1957) em Viena, no início dos anos 1930, representou uma das primeiras e mais invasivas formas de somatoterapia. Originalmente destinada ao tratamento da [[esquizofrenia]], a técnica consistia na administração de doses maciças de insulina no paciente, provocando um estado de hipoglicemia profunda que levava o paciente ao coma. Na volta desse estado, se esperava que o indivíduo “restaurasse” a razão por conta do choque orgânico violento que havia vivenciado. O procedimento era extremamente perigoso e estava associado a uma alta taxa de mortalidade e morbidade devido às convulsões e aos possíveis danos cerebrais. Apesar dos riscos, o método foi amplamente adotado no mundo todo, incluindo o Brasil, onde foi usado em grandes instituições de confinamento, como o Hospital Nacional de Alienados (HNA), no Hospital Juquery, entre outros. | ||
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=== A Criação da Indústria da Loucura === | === A Criação da Indústria da Loucura === | ||
No final da década de 1950 e início da de 1960, durante o governo de Juscelino Kubitschek e o breve período democrático posterior, o Brasil viu o surgimento de uma nova e ainda mais perversa dinâmica: a Indústria da Loucura. A assistência psiquiátrica, antes quase totalmente pública ou baseada no assistencialismo das Santas Casas, começou a ser privatizada. Com o crescimento dos institutos de previdência (IAPs), o Estado passou a pagar hospitais privados por dia de internação. Isso criou um incentivo perverso: quanto mais tempo o paciente ficasse internado e quanto menos recursos fossem gastos com ele, maior o lucro das clínicas privadas. Esse modelo, conhecido como "hospitalocêntrico", inchou o sistema e preparou o terreno para a política de contenção social que seria radicalizada após o golpe de 1964. Foi um momento de multiplicação da brutalidade. Pouco importava | No final da década de 1950 e início da de 1960, durante o governo de Juscelino Kubitschek e o breve período democrático posterior, o Brasil viu o surgimento de uma nova e ainda mais perversa dinâmica: a Indústria da Loucura. A assistência psiquiátrica, antes quase totalmente pública ou baseada no assistencialismo das Santas Casas, começou a ser privatizada. Com o crescimento dos institutos de previdência (IAPs), o Estado passou a pagar hospitais privados por dia de internação. Isso criou um incentivo perverso: quanto mais tempo o paciente ficasse internado e quanto menos recursos fossem gastos com ele, maior o lucro das clínicas privadas. Esse modelo, conhecido como "hospitalocêntrico", inchou o sistema e preparou o terreno para a política de contenção social que seria radicalizada após o golpe de 1964. Foi um momento de multiplicação da brutalidade, da violência e da desumanização. Pouco importava se havia doença ou tratamento. O que importava era lucar com o dinheiro estatal por meio de um encarceramento fácil de impor e praticamente impossível de escapar. | ||
A coisa se aprofundou ainda mais com o golpe militar, que unificou em 1966 os Institutos de Aposentadoria e Pensões no INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), produzindo uma centralização gigantesca de recursos, com um modelo de privatização quase total. A psiquiatria, por ser uma especialidade cuja formação exigia baixo investimento tecnológico quando comparada a outras como a cirurgia, cardiologia ou oncologia, permitia grandes lucros com as internações de longa permanência. Assim, trancafiar e atormentar os loucos tornou-se o setor mais atraente para o empresariado da saúde. | A coisa se aprofundou ainda mais com o golpe militar, que unificou em 1966 os Institutos de Aposentadoria e Pensões no INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), produzindo uma centralização gigantesca de recursos, com um modelo de privatização quase total. A psiquiatria, por ser uma especialidade cuja formação exigia baixo investimento tecnológico quando comparada a outras como a cirurgia, cardiologia ou oncologia, permitia grandes lucros com as internações de longa permanência. Assim, trancafiar e atormentar os loucos tornou-se o setor mais atraente para o empresariado da saúde. | ||
Além de pessoas possivelmente diagnosticadas, o sistema era alimentado pelo encarceramento de militantes políticos, estudantes rebeldes, pessoas em situação de rua, mendigos, homossexuais, indivíduos com comportamentos "desviantes" da moral tradicional, dependentes químicos, alcoólatras ou mesmo pessoas “problemáticas” da família, que se recusavam, por exemplo, a participar de casamentos arranjados, que denunciavam violência sexual | Além de pessoas possivelmente diagnosticadas, o sistema era alimentado pelo encarceramento de militantes políticos, estudantes rebeldes, pessoas em situação de rua, mendigos, homossexuais, indivíduos com comportamentos "desviantes" da moral tradicional, dependentes químicos, alcoólatras ou mesmo pessoas “problemáticas” da família, que se recusavam, por exemplo, a participar de casamentos arranjados, que denunciavam violência sexual ou eram apenas mulheres que haviam engravidado antes do casamento. | ||
As instituições privadas multiplicaram-se pelo interior do país, longe dos olhos da fiscalização e dos centros urbanos. Instaladas em locais de difícil acesso, facilitava o ocultamento de violações de direitos humanos e ainda utilizava da conivência dos governos locais. As populações dessas localidades, crentes no saber médico, dificilmente desconfiavam do que poderia acontecer dentro dessas instituições e, quando vazavam denúncias, elas rapidamente podiam ser facilmente manejadas em conluio com os poderes locais. A loucura tornou-se um negócio de massa, com o abrigo precário de centenas de pessoas em galpões, onde a única "terapia" era a contenção química por sedativos baratos ou o uso indiscriminado do eletrochoque para manter a ordem além, é claro, da violência e brutalidade de toda sorte. | As instituições privadas multiplicaram-se pelo interior do país, longe dos olhos da fiscalização e dos centros urbanos. Instaladas em locais de difícil acesso, facilitava o ocultamento de violações de direitos humanos e ainda utilizava da conivência dos governos locais. As populações dessas localidades, crentes no saber médico, dificilmente desconfiavam do que poderia acontecer dentro dessas instituições e, quando vazavam denúncias, elas rapidamente podiam ser facilmente manejadas em conluio com os poderes locais. A loucura tornou-se um negócio de massa, com o abrigo precário de centenas de pessoas em galpões, onde a única "terapia" era a contenção química por sedativos baratos ou o uso indiscriminado do eletrochoque para manter a ordem além, é claro, da violência e brutalidade de toda sorte. | ||