O surgimento da psicologia científica: mudanças entre as edições

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== Um longo passado, uma curta história ==
== Um longo passado, uma curta história ==
A psicologia tem um longo passado, mas uma curta história. Esta é uma frase muito famosa no campo da história da psicologia, tendo sido consagrada por Hermann Ebbinghaus, um psicólogo alemão pioneiro no estudo da memória, ainda no século XIX. A frase é exemplar sobre como é difícil dizer quando a psicologia teve início. Retomemos ela em mais detalhes. A psicologia tem um longo passado, porque os temas que consideramos hoje como parte da psicologia aparecem muitas vezes na filosofia, na religião, em saberes tradicionais, entre muitos outros lugares. É difícil estabelecer qual o objeto de estudo da história da psicologia, assim como é difícil, ao longo da história, separar o que é  psicologia daquilo que não é psicologia.
A psicologia tem um longo passado, mas uma curta história. Esta é uma frase muito famosa no campo da história da psicologia, tendo sido consagrada por Hermann Ebbinghaus, um psicólogo alemão pioneiro no estudo da memória, ainda no século XIX. A frase é exemplar e muito usada em debates sobre a historiografia da psicologia, e isto revela como é difícil dizer quando a psicologia teve início. Ela tem um '''longo passado''', porque os temas que consideramos hoje como parte da psicologia aparecem muitas vezes na filosofia, na religião, em saberes tradicionais, entre muitos outros lugares, ao longo da história. É difícil estabelecer qual '''o objeto de estudo da história da psicologi'''a, assim como é difícil, ao longo da história, '''separar o que é  psicologia daquilo que não é psicologia'''.


Esse longo passado pode remontar, por exemplo, à Antiguidade, com o tratado De Anima de Aristóteles, que escreveu muito antes de se imaginar o próprio conceito de ciência moderna e, menos ainda, de uma psicologia moderna. Outros podem colocar o lugar de início da psicologia em Descartes, que elaborou a máxima, também famosa, “penso, logo existo”. Isso mostra que os objetos de estudo da psicologia são historicamente construídos, ou seja, emergem a partir dos locais ou pessoas que atuaram na psicologia, como na medida das diferenças individuais, as dinâmicas de controle num laboratório, nas práticas de psicoterapia, entre muitas outras.
Esse longo passado pode remontar, por exemplo, à Antiguidade, com o tratado De Anima, de Aristóteles, que escreveu muito antes de se imaginar o próprio conceito de ciência moderna e, menos ainda, de uma psicologia moderna. Outros podem colocar o início da psicologia com Descartes, que elaborou a máxima, também famosa, “penso, logo existo”. Isso mostra que '''os objetos de estudo da psicologia são historicamente construídos''', ou seja, emergem a partir dos locais ou pessoas que atuaram na psicologia, como na medida das diferenças individuais, as dinâmicas de controle num laboratório, nas práticas de psicoterapia, entre muitas outras.


Se cada historiador localiza o passado da psicologia em lugares diferentes no tempo e no espaço, a história da psicologia, por seu lado, tem uma definição bem mais estável e curta. Nos anos 1980, os historiadores, reunidos num congresso nos EUA, definiram que a psicologia científica teria começado em 1879, quando Wilhelm Wundt fundou o primeiro laboratório de psicologia experimental na Universidade de Leipzig, na Alemanha. Essa definição está consagrada e é quase um consenso, porém, não foi tão simples estabelecê-la. Alguns advogavam pelo pioneirismo de outro alemão, Theodore Fechner, criador da chamada psicofísica, de onde vieram muitos dos experimentos e ideias de Wundt. Outros ainda queriam que William James, um filósofo e psicólogo americano, fosse reconhecido como fundador, pois seu laboratório de psicologia era ainda mais antigo que o de Wundt que, no final, venceu essa disputa.
Se cada historiador localiza o passado da psicologia em lugares diferentes no tempo e no espaço, a '''história da psicologia''', por seu lado, tem uma definição bem mais estável e curta. Nos anos 1980, historiadores reunidos num congresso nos EUA definiram que '''a psicologia científica começou em 1879, quando [[Wilhelm Wundt]] fundou o primeiro laboratório de psicologia experimental na Universidade de Leipzig, na Alemanha'''. Essa definição está consagrada e é quase um consenso, porém, não foi tão simples estabelecê-la. Alguns advogavam pelo pioneirismo de outro alemão, [[Gustav T. Fechner|Gustav Theodor Fechner]], criador da chamada [[psicofísica]], de onde vieram muitos dos experimentos e ideias de Wundt. Outros ainda queriam que [[William James]], um filósofo e psicólogo americano, fosse reconhecido como fundador, pois seu laboratório de psicologia era ainda mais antigo que o de Wundt que, no final, venceu essa disputa.


Resumindo, a psicologia possui um “longo passado”, com raízes filosóficas e religiosas milenares e altamente diversas, e uma “curta história” como disciplina científica, cujo marco está situado em 1879, com a fundação do primeiro laboratório experimental por Wilhelm Wundt, na Alemanha.
Resumindo, a psicologia possui um “longo passado”, com raízes filosóficas e religiosas milenares e altamente diversas, e uma “curta história” como disciplina científica, cujo marco está situado em 1879, com a fundação do primeiro laboratório experimental por Wilhelm Wundt, na Alemanha. Pelo menos é assim que, atualmente, a grande maioria dos historiadores entende a questão, uma das poucas em que há algum conceito neste campo.


=== Presentismo ===
=== Presentismo ===
Mas o que seriam essas psicologias anteriores a essa psicologia científica? Para entender melhor essa história, é preciso refletir para superar, da melhor forma, um problema chamado “presentismo”, ou seja, julgar, entender, interpretar e analisar o passado com a visão do presente. Não é apenas uma questão de olhar para as pessoas do passado e superar o pensamento de que elas eram “ignorantes”, pois “não tinham o conhecimento que temos hoje”. É entender também que, no passado, haviam formas de conhecimentos diferentes, bem como visões de mundo diferentes da atual. Pensando em termos da psicologia, como elas seriam diferentes?
Mas o que seriam essas psicologias anteriores a essa psicologia científica? Para entender melhor essa história, é preciso refletir para superar, da melhor forma, um problema chamado '''presentismo''', ou seja, julgar, entender, interpretar e analisar o passado com a visão do presente. Não é apenas uma questão de olhar para as pessoas do passado e superar o pensamento de que elas eram “ignorantes”, pois “não tinham o conhecimento que temos hoje”. É entender também que, no passado, haviam formas de conhecimentos diferentes, bem como visões de mundo diferentes da atual. Este é um problema fascinante. Muitos dos consensos contemporâneos, coisas que entende-se totalmente óbvias, eram vistas de forma completamente diferente no passado.


Um exemplo interessante é o conceito de atenção. Hoje, ela é um tema tão discutido e consensual que pouco se reflete sobre seu significado. Atualmente, seria algo como centralizar as faculdades mentais em um lugar específico. Pode-se ouvir as pessoas reclamando que “não conseguem prestar atenção”, ou que nunca “mantém a atenção”, e até mesmo existem medicamentos para resolver esse problema. Contudo, a palavra “atenção” nem sempre significou o que entendemos hoje. Para Santo Agostinho, atenção era apenas o ato de passar de um pensamento para outro. Descartes tinha um conceito mais parecido com o contemporâneo, onde a atenção era mobilizada de forma voluntária para fixar e reter na memória coisas raras e extraordinárias que o entendimento considerava úteis. Na obra de Locke, a atenção é mencionada apenas de passagem, como um mero mecanismo auxiliar da retenção de memórias. A partir do momento em que a ciência demonstrou que a percepção depende da estrutura física e biológica do corpo (com a psicofísica e a fisiologia sensorial), já no século XIX, a visão passou a ser encarada como intrinsecamente incompleta, instável e condicionada pelo tempo. Nesse contexto, a atenção foi utilizada como um substituto pragmático para garantir a coerência do mundo percebido. Autores do final do século XIX, como Théodule Ribot e Max Nordau, associaram os desvios ou a fraqueza da atenção a patologias psíquicas, comportamentos sociopáticos e teorias da “degeneração”. Para eles, uma atenção defeituosa deixava a mente à mercê de “associações caóticas”, gerando uma visão borrada e distorcida da realidade. Foi apenas na década de 1950 que a nossa compreensão contemporânea de atenção começou a se delinear, paralelamente aos estudos sobre os medicamentos desenvolvidos para tratar as suas disfunções.
Um exemplo interessante é o '''conceito de atenção'''. Hoje, ela é um tema tão discutido e consensual que pouco se reflete sobre seu significado. Atualmente, seria algo como centralizar as faculdades mentais ou talvez a percepção em um ponto específico. Pode-se ouvir as pessoas reclamando da própria falta de atenção, que “não conseguem prestar atenção”, ou que nunca “mantém a atenção”, e até mesmo existem medicamentos para resolver esse problema. Contudo, a palavra “atenção” nem sempre significou o que entendemos hoje. Para [[Santo Agostinho]], atenção era apenas o ato de passar de um pensamento para outro. [[René Descartes|Descartes]] tinha um conceito mais parecido com o contemporâneo, onde a atenção era mobilizada de forma voluntária para fixar e reter na memória coisas raras e extraordinárias que o entendimento considerava úteis. Na obra de [[John Locke|Locke]], a atenção é mencionada apenas de passagem, como um mero mecanismo auxiliar da retenção de memórias. A partir do momento em que a ciência passou a entender que a percepção depende da estrutura física e biológica do corpo, com a psicofísica e a fisiologia sensorial, já no século XIX, a visão passou a ser encarada como intrinsecamente incompleta, instável e condicionada pelo tempo. Nesse contexto, a atenção foi utilizada como um substituto pragmático para garantir a coerência do mundo percebido. Autores do final do século XIX, como [[Théodule Ribot]] e [[Max Nordau]], associaram os desvios ou a fraqueza da atenção a patologias psíquicas, comportamentos sociopáticos e teorias da “degeneração”. Para eles, uma atenção defeituosa deixava a mente à mercê de “associações caóticas”, gerando uma visão borrada e distorcida da realidade. Foi apenas na década de 1950 que a nossa compreensão contemporânea de atenção começou a se delinear, paralelamente aos estudos sobre os medicamentos desenvolvidos para tratar as suas disfunções.


Uma pessoa desavisada, que não está atenta às grandes diferenças entre as ideias e conceitos ao longo do tempo, poderia ler um trecho de Ribot e achar que a atenção do qual ele fala é a mesma coisa que entendemos hoje. O leitor estaria totalmente enganado, a ponto de não conseguir nem mesmo compreender o que Ribot queria dizer. Em outras palavras, o esforço para entender as psicologia do passado passa também pelo esforço de entender como se pensava no passado, qual a visão que se tinha nesse passado. Parte do esforço do historiador é trazer esses aspectos de volta ao presente.
Uma pessoa desavisada, que não está atenta às grandes diferenças entre as ideias e conceitos ao longo do tempo, poderia ler um trecho de Ribot, Santo Agostinho, Descartes e outros e achar que a atenção sobre a qual eles falam é a mesma coisa que entendemos hoje. O leitor estaria totalmente enganado, a ponto de não conseguir nem mesmo compreender o que estes pensadores queriam dizer. Em outras palavras, '''o esforço para entender as psicologia do passado passa também pelo esforço de entender como se pensava no passado, qual a visão que se tinha nesse passado'''. Parte do esforço do historiador é trazer esses aspectos de volta ao presente.


== O sujeito transcedental de Kant ==
== O sujeito transcedental de Kant ==
A concepção de uma psicologia ocupada especificamente com a “mente” humana e suas operações começou a ganhar contornos modernos no século XVIII com o filósofo Christian Wolff. Ele dividiu a psicologia em Psicologia Empírica, num livro publicado em  1732 e baseada na introspecção; e em Psicologia Racional, numa obra de 1734, dedicada a deduzir a natureza e a essência da alma, como sua imortalidade e imaterialidade, de forma puramente lógica e racional, independentemente da experiência.
A concepção de uma psicologia ocupada especificamente com a “mente” humana e suas operações começou a ganhar contornos modernos no século XVIII com o filósofo [[Christian Wolff]]. Ele dividiu a psicologia em [[Psicologia Empírica (livro)|'''Psicologia Empírica''']], num livro publicado em  1732 e baseada na introspecção; e em '''Psicologia Racional''', numa obra de 1734, dedicada a deduzir a natureza e a essência da alma, como sua imortalidade e imaterialidade, de forma puramente lógica e racional, independentemente da experiência.


Contudo, o projeto de Wolff enfrentava um sério problema metodológico, a chamada observação interna ou introspecção. Quando se estuda um fenômeno natural, como a chuva, é necessário observar o que acontece, incluindo como as nuvens se formam, qual a umidade do ar, a intensidade dos raios solares, a direção dos ventos, entre muitos outros fatores, todos objetos externos do sujeito. Toda a ciência é feita dessa forma, observando, testando e analisando o mundo que está fora dos indivíduos. O problema está em estudar algo que é interno aos sujeitos. Não se pode observar diretamente o que se passa na cabeça de alguém, contudo, é possível analisar o que se passa nas nossas próprias cabeças. Isso seria a introspecção, ou seja, o processo pelo qual adquirimos conhecimento sobre nossos próprios estados ou processos mentais Apesar de ser uma ideia interessante, fazer introspecção não era considerado algo muito científico. Entendia-se que “observar a si mesmo” distorcia os eventos mentais, pois o sujeito que observa e o objeto observado são o mesmo, o que impediria a neutralidade exigida pelo modelo científico então vigente.
Contudo, o projeto de Wolff enfrentava um sério problema metodológico: a chamada observação interna ou [[introspecção]]. Quando se estuda um fenômeno natural, como a chuva, é necessário observar tudo que está envolvido com estee fenômeno, incluindo como as nuvens se formam, qual a umidade do ar, a intensidade dos raios solares, a direção dos ventos, entre muitos outros fatores. A questão é que todos estes aspectos são '''externos ao sujeito'''. Toda a ciência é feita dessa forma, observando, testando e analisando o mundo que está fora dos indivíduos. O problema está em estudar algo que é interno aos sujeitos. Não se pode observar diretamente o que se passa na cabeça de alguém, pelo menos não por enquanto. Contudo, é possível analisar o que se passa nas nossas próprias cabeças. Isso seria a '''introspecção''', ou seja, o processo pelo qual adquirimos conhecimento sobre nossos próprios estados ou processos mentais Apesar de ser uma ideia interessante, fazer introspecção não era considerado algo muito científico. Entendia-se que “observar a si mesmo” distorcia os eventos mentais, pois o sujeito que observa e o objeto observado são o mesmo, o que impediria a neutralidade exigida pelo modelo científico então vigente.


Até a segunda metade do século XVIII, as teorias do conhecimento, que incluíam o empirismo e o racionalismo, compartilhavam a premissa de que o conhecimento era determinado pelo objeto a ser conhecido. O objeto estava lá, esperando a melhor forma de ser conhecido. Kant, em sua obra Crítica da Razão Pura (1781), inverteu essa lógica de forma radical. Ele propôs que não é o conhecimento que se adequa aos objetos, mas são os objetos que são determinados pelo sujeito. O conhecimento passou a ser compreendido não como uma recepção passiva, mas como uma produção ativa do chamado sujeito transcendental, moldada por suas formas a priori.
Até a segunda metade do século XVIII, as teorias do conhecimento, que incluíam o empirismo e o racionalismo, compartilhavam a premissa de que o conhecimento era determinado pelo objeto a ser conhecido. A ideia era a de que objeto estava lá, esperando a melhor forma de ser conhecido. '''Kant''', em sua obra [[Crítica da Razão Pura (livro)|Crítica da Razão Pura]] (1781), inverteu essa lógica de forma radical. Ele propôs que '''não é o conhecimento que se adequa aos objetos, mas são os objetos que são determinados pelo sujeito'''. O conhecimento passou a ser compreendido não como uma recepção passiva, mas como uma produção ativa do chamado sujeito transcendental, moldada por suas formas ''a priori''.


O sujeito transcendental em Kant não se refere propriamente a um indivíduo empírico ou psicológico, ou seja, alguém com personalidade e história pessoal. Pense no sujeito transcendental não como “você” (André ou Maria), mas como o “sistema operacional” universal da mente humana. Assim como um software organiza os dados que chegam do teclado, o sujeito transcendental organiza os dados que chegam dos sentidos, como o tempo e o espaço, antes mesmo de termos consciência deles.
O '''sujeito transcendental''' em Kant não se refere propriamente a um indivíduo empírico ou psicológico, ou seja, alguém com personalidade e história pessoal. Pense no sujeito transcendental não como “você” (André ou Maria), mas como o “sistema operacional” universal da mente humana. Assim como um software organiza os dados que chegam do teclado, convertendo eles em coisas numa tela, o sujeito transcendental organiza os dados que chegam dos sentidos, como o tempo e o espaço, antes mesmo de termos consciência deles.


Para entender o sujeito transcedental, é preciso fazer um importante exercício de abstração, visando conseguir entender algo que está além da experiência existencial individual e entender aquilo que molda essa própria experiência. O sujeito transcedental de Kant é uma condição universal de possibilidade para qualquer conhecimento. Em outras palavras, é algo que todas as pessoas possuem e é a forma que o ser humano tem para saber as coisas. É a estrutura ativa da mente que organiza a experiência antes mesmo que possamos refletir sobre ela. Esse sujeito é o princípio unificador que garante a coerência dos dados sensoriais, transformando o caos de impressões oriundas dos órgãos dos sentidos em uma experiência significativa e estruturada. Através das formas a priori da sensibilidade (espaço e tempo) e das categorias do entendimento, o sujeito transcendental “constrói” o objeto conhecido. Ele é o “Eu penso” que deve poder acompanhar todas as nossas representações, conferindo unidade à consciência. Em suma, não conhecemos o mundo como ele é em si, mas como o sujeito transcendental o molda e o organiza para que se torne inteligível para nós.
Para entender o sujeito transcedental, é preciso fazer um importante exercício de abstração, visando conseguir entender algo que está além da experiência existencial individual e entender aquilo que molda essa própria experiência. O sujeito transcedental de Kant é, segundo ele próprio, uma condição universal de possibilidade para qualquer conhecimento. Em outras palavras, é algo que todas as pessoas possuem e é a forma que o ser humano tem para saber as coisas. É a estrutura ativa da mente que organiza a experiência antes mesmo que possamos refletir sobre ela. Esse sujeito é o princípio unificador que garante a coerência dos dados sensoriais, transformando o caos de impressões oriundas dos órgãos dos sentidos em uma experiência significativa e estruturada. Através das formas ''a priori'' da sensibilidade (espaço e tempo) e das categorias do entendimento, o sujeito transcendental “constrói” o objeto conhecido. Ele é o “Eu penso” cartesiano, que deve poder acompanhar todas as nossas representações, conferindo unidade à consciência. Em suma, '''não conhecemos o mundo como ele é em si, mas como o sujeito transcendental o molda e o organiza para que se torne inteligível para nós'''.


Immanuel Kant revolucionou a teoria do conhecimento ao postular que a mente humana não funciona como um receptáculo passivo de impressões sensoriais, mas sim como um agente ativo dotado de estruturas constitutivas a priori que organizam, unificam e interpretam a matéria-prima da experiência.  
Immanuel Kant revolucionou a teoria do conhecimento ao postular que a mente humana não funciona como um receptáculo passivo de impressões sensoriais, mas sim como um agente ativo dotado de estruturas constitutivas a priori que organizam, unificam e interpretam a matéria-prima da experiência.  


O processo de constituição do conhecimento dos fenômenos que chegam para nossa mente a partir dos órgãos dos sentidos articula-se em três instâncias fundamentais. A primeira são as formas puras da sensibilidade, depois vem os conceitos puros do entendimento, ou seja, as categorias e, por fim, a unidade sintética da apercepção.  
Nas ideias de Kant, o processo de constituição do conhecimento dos fenômenos que chegam para nossa mente a partir dos órgãos dos sentidos articula-se em três instâncias fundamentais. A primeira são as formas puras da sensibilidade, depois vem os conceitos puros do entendimento, ou seja, as categorias e, por fim, a unidade sintética da apercepção.  


Nas formas puras da sensibilidade, antes mesmo que o intelecto possa aplicar qualquer conceito, o caos das sensações brutas é necessariamente ordenado no espaço e no tempo, que não são propriedades das coisas em si, mas intuições puras da sensibilidade que funcionam como os eixos coordenados onde os fenômenos são dados. Ou seja, as informações dos sentidos já chegam num espaço e num tempo para o resto do processo de constituição do conhecimento.
Nas '''formas puras da sensibilidade''', antes mesmo que o intelecto possa aplicar qualquer conceito, o caos das sensações brutas é necessariamente ordenado no espaço e no tempo, que não são propriedades das coisas em si, mas intuições puras da sensibilidade que funcionam como os eixos coordenados onde os fenômenos são dados. Ou seja, as informações dos sentidos já chegam num espaço e num tempo para o resto do processo de constituição do conhecimento.


Uma vez colocados no espaço e estruturados numa sucessão e simultaneidade temporal, esses dados passam pelas doze categorias do entendimento puro. Essas categorias se dividem em quatro classes de tríades: quantidade, qualidade, relação e modalidade. As categorias representam as regras lógicas puras, fundamentais e necessárias para tornar qualquer objeto da experiência inteligível. Elas podem ser observadas de forma simplificada na tabela a seguir:
Uma vez colocados no espaço e estruturados numa sucessão e simultaneidade temporal, esses dados passam pelas '''doze categorias do entendimento puro'''. Essas categorias se dividem em '''quatro classes de tríades''': quantidade, qualidade, relação e modalidade. As '''categorias''' representam as regras lógicas puras, fundamentais e necessárias para tornar qualquer objeto da experiência inteligível. Elas podem ser observadas de forma simplificada na tabela a seguir:
{| class="wikitable"
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|Classe de Categorias
|Classe de Categorias