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(→A Psicologia de Wundt: Pequenas correções complementares) |
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== A Psicologia de Wundt == | == A Psicologia de Wundt == | ||
Wilhelm Maximilian Wundt é, na historiografia da psicologia, uma figura ao mesmo tempo onipresente e pouco compreendida. Freqüentemente reduzido ao título de “fundador do laboratório de Leipzig”, essa simplificação negligencia sua estatura como um dos últimos grandes arquitetos de sistemas do século XIX, cujo ''Systemgedanke'' (pensamento sistêmico) buscava integrar a psicologia como uma propedêutica fundamental para a filosofia. | [[Wilhelm Wundt|Wilhelm Maximilian Wundt]] é, na historiografia da psicologia, uma figura ao mesmo tempo onipresente e pouco compreendida. Freqüentemente reduzido ao título de “fundador do laboratório de Leipzig”, essa simplificação negligencia sua estatura como um dos últimos grandes arquitetos de sistemas do século XIX, cujo ''Systemgedanke'' (pensamento sistêmico) buscava integrar a psicologia como uma propedêutica fundamental para a filosofia. | ||
Recuperar o Wundt original exige preencher uma vasta lacuna historiográfica. A primeira envolve apontar as conhecidas e muitas das distorções da tradução de E.B. Titchener para o contexto anglo-americano, que foi formulada para aproximar suas ideias e pdasdaquelas de Wundt, visando uma “confirmação” do pensamento de Titchener. Wundt não era um estruturalista ou associacionista clássico e seu sistema é essencialmente dinâmico e centrado no '''voluntarismo'''. Para Wundt, a vontade e os processos afetivos não são meros epifenômenos, ou seja, um fenômenos secundários ou acessórios que acompanhma um fenômeno principal, mas o eixo organizador da consciência ativa. Esta reconstrução crítica visa resgatar a autonomia epistemológica de uma ciência que define seu objeto não como uma substância, mas como a experiência em sua totalidade imediata. | Recuperar o Wundt original exige preencher uma vasta lacuna historiográfica. A primeira envolve apontar as conhecidas e muitas das distorções da tradução de [[Titchener|E.B. Titchener]] para o contexto anglo-americano, que foi formulada para aproximar suas ideias e pdasdaquelas de Wundt, visando uma “confirmação” do pensamento de Titchener. Wundt não era um estruturalista ou associacionista clássico e seu sistema é essencialmente dinâmico e centrado no '''voluntarismo'''. Para Wundt, a vontade e os processos afetivos não são meros epifenômenos, ou seja, um fenômenos secundários ou acessórios que acompanhma um fenômeno principal, mas o eixo organizador da consciência ativa. Esta reconstrução crítica visa resgatar a autonomia epistemológica de uma ciência que define seu objeto não como uma substância, mas como a experiência em sua totalidade imediata. | ||
=== A Experiência conforme Wundt === | === A Experiência conforme Wundt === | ||
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Em resumo, a Experiência Mediata se aproxima dos objetos estáveis do mundo externo e de como eles nos chegam. Na experiência mediata, o cientista da natureza pode retornar quando quiser ao mesmo objeto físico estável (uma pedra ou um elemento químico) para observá-lo repetidamente, ainda que o observador em si esteja sempre em mudança. | Em resumo, a Experiência Mediata se aproxima dos objetos estáveis do mundo externo e de como eles nos chegam. Na experiência mediata, o cientista da natureza pode retornar quando quiser ao mesmo objeto físico estável (uma pedra ou um elemento químico) para observá-lo repetidamente, ainda que o observador em si esteja sempre em mudança. | ||
=== Experiência Imediata, o Objeto de Estudo da Psicologia === | ==== Experiência Imediata, o Objeto de Estudo da Psicologia ==== | ||
Ao definir seu objeto, Wundt deu um passo decisivo para dar à psicologia autonomia perante as outras ciências naturais. Ele propõe que a experiência é uma unidade indivisível. Mas o que ele quer dizer por | Ao definir seu objeto, Wundt deu um passo decisivo para dar à psicologia autonomia perante as outras ciências naturais. Ele propõe que a experiência é uma unidade indivisível. Mas o que ele quer dizer por '''experiência'''? Uma definição poderia ser a totalidade dos processos conscientes, englobando sensações, sentimentos, representações e volições (vontades), apreendida da exata forma como se apresenta diretamente ao sujeito, sem qualquer abstração conceitual ou mediação de instrumentos externos. Ou seja, a experiência de Wundt seria como tudo o que se passa na mente, exatamente como ela aparece para uma pessoa. | ||
'''O domínio da psicologia seria a experiência imediata''', subjetiva, que é a experiência em sua realidade concreta, direta e intuitiva, apreendida antes de qualquer conceituação, teorização ou abstração. Ou seja, é a experiência antes de ela adquirir qualquer camada de compreensão, que seriam mediadores, por isso é imediata, '''sem mediação'''. Ela envolve o processamento de elementos sensoriais simples, como cor, som, temperatura, e de sentimentos simples, como prazer e desprazer. Ela diz respeito ao modo puro de funcionamento mental. | |||
Vamos a um exemplo, desta vez no campo do acústica. Na perspectiva mediata, o cientista natural abstrai o sujeito e estuda o som de forma indireta e conceitual. Ele utiliza aparelhos para medir as ondas sonoras e a sua propagação física pelo ar. O objeto físico “som” é, portanto, mediado e traduzido por conceitos de frequência, amplitude e decibéis. Já sob a perspectiva imediata, que é a da psicologia, o psicólogo estuda a sensação direta e em si mesma do tom no momento exato em que ele aparece na consciência. A análise está na vivência concreta do sujeito, que inclui a qualidade do tom, a sua intensidade subjetiva, a tonalidade afetiva de prazer ou desprazer que o acompanha e o processo ativo da atenção (apercepção, que será tratada mais adiante) que coloca aquele som no foco da consciência. | |||
Se olharmos desta vez para a cromática, na visão mediata, ciência natural estuda o azul abstraindo a experiência do sujeito. A física o descreverá de forma conceitual como uma radiação eletromagnética com determinado comprimento de onda atingindo a retina. A fisiologia se debruçará sobre o funcionamento dos tecidos dos olhos quando estimulados com a cor azul em suas nuances. Para a psicologia de Wundt, o azul é investigado como um dado imediato e real na consciência do sujeito no momento da percepção interna. O foco não está nas propriedades físicas do estímulo, mas sim na reação subjetiva e ativa do cérebro vivo a esse estímulo, que gera a qualidade imediata da cor na experiência. | |||
Conduzindo seus estudos, Wundt também identificou aquilo que denominou '''causalidade psíquica'''. Ao nos lembrarmos de um fato triste, por exemplo, a fisiologia explicaria a tristeza de forma conceitual e indireta, por meio de correntes elétricas no córtex cerebral, liberação de hormônios ou atividade de sinapses nervosas. Já o psicólogo numa linha wundtiana observa a conexão de processos internos como elas ocorrem diretamente na consciência do sujeito, como a ligação da lembrança triste a um sentimento de angústia. A causalidade psíquica é uma causalidade própria da mente e irredutível às leis físicas da natureza, ou seja, não pode ser comparada à causalidade física como a conhecemos. | |||
Ao adotar a experiência como seu objeto, Wundt rompe com a psicologia da alma, filosófica e metafísica. Ele substitui a psicologia de substâncias, que postula uma entidade mental oculta, pela '''teoria da atualidade''' (''Aktualitätstheorie''), na qual o psiquismo é definido como um fluxo de processos em constante devir. Seu sistema está fundamentado em um '''monismo perspectivista'''. Em outras palavras, para ele, mente e corpo não são substâncias que interagem mecanicamente, mas perspectivas distintas sobre a mesma unidade da experiência (''Erfahrung''). A psicologia, portanto, não estuda um “mundo interno”, que está isolado do externo, ainda que em contato com ele, mas a totalidade da experiência humana sob o prisma da imediatidade. Essa transição do estatuto de substância “mente” ou algo semelhante para o de processo traz uma nova perspectiva, criando um objeto que pode ser alvo de experimentação científica, partindo de experimentos já criados pela psicofísica e ainda outros que seriam desenvolvidos. | |||
Ao adotar a experiência como seu objeto, Wundt rompe com a psicologia da alma, filosófica e metafísica. Ele substitui a psicologia de substâncias, que postula uma entidade mental oculta, pela teoria da atualidade (Aktualitätstheorie), na qual o psiquismo é definido como um fluxo de processos em constante devir. Seu sistema está fundamentado em um monismo perspectivista. Em outras palavras, para ele, mente e corpo não são substâncias que interagem mecanicamente, mas perspectivas distintas sobre a mesma unidade da experiência (Erfahrung). A psicologia, portanto, não estuda um “mundo interno”, que está isolado do externo, ainda que em contato com ele, mas a totalidade da experiência humana sob o prisma da imediatidade. Essa transição do estatuto de substância “mente” ou algo semelhante para o de processo traz uma nova perspectiva, criando um objeto que pode ser alvo de experimentação científica, partindo de experimentos já criados pela psicofísica e ainda outros que seriam desenvolvidos. | |||
=== Psicologia Individual e Völkerpsychologie: dois métodos para manifestações da experiência === | === Psicologia Individual e Völkerpsychologie: dois métodos para manifestações da experiência === | ||