Henri Wallon

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O francês Henri Paul Hyacinthe Wallon nasceu em 25 de junho de 1879 em Paris, cidade em que morou até sua morte em 1 de dezembro de 1962. Foi filósofo, médico e psicólogo, estudioso da educação e, principalmente, da educação infantil; temática que lhe rendeu suas obras mais eminentes. Wallon foi, em primeiro lugar, um revolucionário que lutou pela educação e em muito influenciou na transformação do sistema de ensino francês.  

Biografia[editar | editar código-fonte]

Início da vida e formação[editar | editar código-fonte]

Filho de Paul Alexandre Joseph e neto de importante historiador francês a quem seu nome presta homenagem, Henri Wallon é o terceiro de sete filhos de uma família aristocrática politicamente engajada, da qual absorve valores como justiça e democracia desde muito cedo.

O interesse pela educação sempre esteve presente em sua vida, a partir do qual ingressa, em 1899, na Ecolé Normale Supérieure (Escola Normal Superior), almejando a cadeira de professor de Filosofia.

Forma-se em 1902, aos 23 anos, e após aprovação em concurso público passa a lecionar em Bar-Le-Duc, liceu na periferia de Paris, cargo que ocupa por um ano. Paralelamente, inicia estudo em Medicina, influenciado por Théodule Ribot, crendo ser o caminho para ingressar no campo da Psicologia científica.

Forma-se em 1908 e rapidamente torna-se assistente do professor Nageotte, eminente histopatologista; primeiro no hospital de Bicêtre e posteriormente em Salpêtrière, onde coleta dados relevantes à sua tese de doutorado.

Década de 1910[editar | editar código-fonte]

Dedica-se a pedo-psiquiatria, em especial casos de crianças com anomalias motoras e mentais em hospitais psiquiátricos. Em ocasião da Primeira Guerra Mundial, em 1914 serve ao seu país enquanto médico do exército francês, cargo que exerce por vários meses.

O contato com doentes neurológicos e traumatizados de guerra o faz revisar os dados coletados com crianças em Salpêtrière e em muito contribuiu à sua tese.

Em 1917, casa-se com a até então Germaine Roussey, tornando-a Germaine Roussey-Wallon, companheira de vida e de trabalho.

Década de 1920[editar | editar código-fonte]

Passadas as tensões da guerra, Wallon retorna às suas atividades enquanto psiquiatra, agora no Laboratório de Psicobiologia localizado em anexo a uma escola na periferia da capital francesa.

Já no primeiro ano da década torna-se mestre de conferências sobre Psicologia da criança em Sorbonne, cargo que ocupa até 1937.

Defende, em 1925, sua tese de doutorado. Ano em que é nomeado diretor do Laboratório de Psicobiologia da Criança. Além de fundar laboratório destinado à pesquisa e ao atendimento de crianças ditas deficientes, a Fundação Vallée à Bicetre.

Dois anos depois, é nomeado presidente da Sociedade Francesa de Psicologia. E, no último ano da década, funda em conjunto com seu amigo Henri Pièron o "Instituto Nacional de Estudo do Trabalho e Orientação Vocacional", um dos primeiros nesse campo. Localizado em Boulogne-Billancourt, o instituto é destinado aos jovens locais; além de ser o contexto no qual surge seu terceiro livro "Princípios da Psicologia Aplicada" publicado um ano depois.

Década de 1930[editar | editar código-fonte]

Durante viagem a Rússia em ocasião do Congresso de Psicologia Clínica, em 1931, Wallon é convidado a integrar o Círculo da Nova Rússia; grupo de intelectuais em busca de contribuições marxistas às suas respectivas áreas. Nesse contexto, caracteriza sua Psicologia como propriamente dialética. No mesmo ano, filia-se ao Partido Socialista, do qual posteriormente retira-se por discordar das opções eleitorais. Ainda em 1931, abre um consultório médico-psicológico num bairro operário e, com isso, encerra seu trabalho em instituições psiquiátricas.

Três anos depois publica seu primeiro livro notável "As Origens do Caráter", no qual já estão expressas suas principais teses sobre o desenvolvimento do eu e o papel da emoção e do movimento no mesmo.

Em 1935, Wallon é eleito para o quadro de professores do Collège de France, entretanto, devido ao posicionamento político progressista do médico em contraste ao tradicionalismo da instituição, sua admissão de fato ocorre apenas dois anos depois, na disciplina Psicologia e Educação da Criança. Ainda em 1935, responsabiliza-se pela organização e pelo prefácio de "A La Lumiere du Marxisme"; a publicação ocorre um ano após. No ano da publicação em decorrência do surgimento da Frente Popular, aceita participar da implementação de classes novas; além de, no ano seguinte, ser nomeado presidente da Sociedade Francesa de Pedagogia.

A convite de seu amigo e conterrâneo, historiador Lucien Febvre, Wallon coordena e redige o oitavo tomo da enciclopédia francesa, intitulada "A Vida Mental"; seu intuito é reunir os principais achados das ciências psicológicas sem retornar ao tradicionalismo dos manuais psicológicos. Busca, com isso, aproximar os "saberes psi" da vida par excellence (cotidiana).

No último ano da década, viaja à capital espanhola, que encontra-se em guerra civil, para juntar-se a estudantes e intelectuais em protesto à iminente ditadura franquista. Destaca-se aqui o perfil revolucionário e engajamento político do médico, que luta não só pelo seu país, mas pela democracia e justiça de fato.

Década de 1940[editar | editar código-fonte]

Embora em período de guerra e pós guerra, a década de 40 é berço das publicações mais relevantes de Henri Wallon. Em decorrência de seu posicionamento político, é perseguido pela polícia nazista e passa a viver em clandestinidade, morando em pequenos apartamentos insalúbres, sob o pseudonimo "René Hubert".

Em ocasião da invasão alemã no ano de 1942, o francês, mesmo sob risco de ser detido pela Gestapo, mantém sua rotina de consultas; torna-se resistência ao facismo alemão. No mesmo ano filia-se ao Partido Comunista Francês em resposta a morte de dois jovens intelectuais proximos somada a invasão nazista; no qual permanece até o fim de sua vida.

Dois anos depois, é nomeado Secretário-geral da Educação Nacional até a nomeação de um ministro um mês depois. Ainda em 1944 é responsável pela ementa que introduz o serviço de Psicologia escolar nas escolas públicas francesas; ocasião na qual é convidado a integrar a comissão nomeada  pelo Ministério da Educação Nacional para reformular o sistema francês, composta por 23 personalidades pertencentes a distintos níveis da área da educação.

Em razão do término da Segunda Grande Guerra, retoma suas atividades em laboratórios e liceus experimentais, mesmo que em menor escala e meios limitados.

Com a morte de Langevin, em 1946, torna-se presidente da Liga Francesa de Educação Nova; no mesmo ano é eleito deputado na Assembléia Constituinte formada pós guerra. No ano seguinte publica o projeto Langevin-Wallon, onde destacam-se as proposições: entendimento do aprendizado como sendo um trabalho exercido pelo estudante e, em razão disso, da necessidade de pagamento de bolsas que auxiliem e reforcem seu trabalho.

Em 1948, funda a revista Enfance, com intuito de reunir ideias inovadoras no mundo da educação. Além de, no último ano da década, aposentar-se da função de médico, mantendo, entretanto, atividades científicas em seu laboratório.

Década de 1950[editar | editar código-fonte]

Já no segundo ano da década, torna-se presidente da Sociedade Médico-Psicológica Francesa.

Dois anos depois, em 1953, morre sua esposa, deixando-o viúvo e sem filhos. Meses depois sofre atropelamento que deixa-o paraplégico, entretanto, isso não significa o fim de suas atividades científicas, às quais dá continuidade em sua casa. No ano seguinte torna-se presidente da Sociedade Francesa de Educação Nova, engajando-se em jornadas internacionais de Psicologia infantil.

Em razão do massacre que ocasionou a morte de 25 mil jovens húngaros por parte das tropas soviéticas, assina junto a intelectuais e figuras públicas um manifesto contra a intervenção militar e apoio do Partido Comunista Francês ao exército soviético.

Permanece com suas atividades científicas em sua residência, período no qual faz cerca de 80 publicações até 1 de dezembro de 1962, data de seu falecimento; época na qual escrevia seu último artigo "Mémoire et Raisonnement".  

Contribuições[editar | editar código-fonte]

As contribuições de Wallon à Psicologia são inegáveis no que tange a concepção do ser humano em sua totalidade, levando em consideração a emoção, consciência, representações (e etc), relacionados às condições concretas de existência do sujeito; eu, o mundo e o lugar do eu no mundo.

Destaca-se principalmente seu trabalho no campo da Educação lecionando, mas, principalmente, no que tange à educação dos menos privilegiados.

Com isso, destacam-se suas principais contribuições como sendo o projeto Langevin-Wallon (no qual defende a necessidade de pagamento de bolsas aos estudantes), a ementa que introduz o  serviço de Psicologia escolar em escolas públicas francesas e, principalmente, seu empenho em aproximar os saberes psicológicos da vida cotidiana sem retornar ao tradicionalismo dos manuais psicológicos.

Teoria[editar | editar código-fonte]

Entendida como "Psicologia da pessoa completa", a teoria de Wallon visa considerações acerca da totalidade do indivíduo; suas emoções, consciência, representações, eu, função social, etc, em relação às condições concretas de sua existência. O método de investigação concreto multidimensional, fortemente embasado no materialismo dialético, caracteriza-se pela comparação em diversos planos de atividade. Por exemplo, compara a criança ao adulto, o homem moderno ao dito primitivo, etc; focando principalmente nas divergências. Busca superar o limite de racionalidade redutora que condiciona tudo a um plano causal único; diz sobre "as" origens dos fenômenos, negando a existência de uma única origem.

Teoria da emoção: do gesto ao símbolo[editar | editar código-fonte]

Para Wallon, a emoção é a resposta orgânica, sustentada por centros nervosos específicos, de que o bebê dispõe para lidar com seu meio; sendo não meramente instrumental, mas expressiva e comunicativa, através da qual faz-se ativação do outro e surge a consciência de si. Tornada consciente e atravessada por conteúdos e significações dadas pela cultura, torna-se afetividade. Esta integra-se ao desenvolvimento e construção do eu e do mundo externo, ou seja, é através dela que o indivíduo constrói a si e relaciona-se com o mundo.

A partir do primeiro ano de vida, com a estabilização das reações emotivas bem como a maturação fisiológica e interpretação de tais reações por parte do ambiente externo, a criança passa a entender-se como sujeito das reações. A criança confunde-se com a situação na qual está inserida ou agindo.

O papel primordial da emoção é provocar no meio social uma resposta em direção a si mesmo. Sua gênese dá-se a partir do tônus, uma vez que este garante a força necessária para a expressão corporal, enquanto a função clônica é responsável pela efetivação do movimento e sua regulação. O trabalho conjunto entre tais funções dá origem ao "gesto". A função simbólica, entretanto, surge após a maturação dos centros nervosos correspondentes; a partir da qual a criança compreende a representação. Esta é afetada pela emoção e, por essa razão, há necessidade de função inibidora para estabilizar a emoção através do controle do movimento; surgindo após a maturação de outros centros nervosos. Nesse sentido, a emoção possibilita o surgimento da razão e o estabelecimento desta, inibe-a.  

Teoria de Wallon no Brasil[editar | editar código-fonte]

Embora tenha havido a divulgação de alguns trabalhos de Wallon no país, sua repercussão limita-se a um seleto grupo de intelectuais. Isto porquê a influência social e econômica dos Estados Unidos (durante e após a Segunda Guerra Mundial) dificulta e até mesmo interrompe o contato brasileiro com a produção científica europeia. Além da dificuldade de tradução, o posicionamento político de Wallon justifica a baixa difusão de suas obras no Brasil, ao passo que Piaget é amplamente divulgado.

A partir dos anos 1980, a divulgação da teoria de Wallon no país torna-se mais expressiva com a contribuição de Pedro Dantas, psiquiatra brasileiro que na época realiza estudos em Paris, tendo diversos contatos com Wallon e seu principal seguidor René Zazzo. Sendo retomado seu trabalho de divulgação após sua morte por sua filha Heloysa Dantas.

Além disso, a repercussão da teoria de Wallon no Brasil deve muito ao apontamento de divergências e convergências com Piaget e Vygotsky; seja por meio dos seminários e grupos de debates em encontros anuais da Sociedade de Psicologia de Ribeirão Preto (atualmente Sociedade Brasileira de Psicologia), sob direção de Clotilde Ferreira, seja em livros e artigos como o de Cassiana L. Pereira, acerca das contribuições dos três autores ao estudo da linguagem.

Cronologia biográfica[editar | editar código-fonte]

1879: nasce em 25 de junho em Paris.

1899: ingressa na Escola Normal Superior.

1902: forma-se em Filosofia, aos 23 anos.

1903-1904: leciona em Bar-Le-Duc; paralelamente inicia estudo em Medicina.

1908: forma-se em Medicina e rapidamente torna-se assistente do professor Nageotte.

1914: torna-se médico do exército francês, permanecendo por meses.

1914-1931: passa a exercer Medicina em hospitais psiquiátricos.

1920-1937:  mestre de conferências sobre Psicologia da Criança em Sorbonne.

1922: abre pequeno laboratório de pesquisa e estudo em Boulogne-Billancourt.

1925: defende sua tese de doutorado e publica "L'enfant turbulent".

1925: nomeado diretor do Laboratório de Psicobiologia da Criança.

1927: torna-se presidente da Sociedade Francesa de Psicologia.

1929: funda o Instituto Nacional de Estudo do Trabalho e de Orientação Profissional.

1930: publica "Princípios da Psicologia Aplicada".

1931: ingressa no Círculo da Nova Rússia e filia-se ao Partido Socialista.

1934: publica "As origens do caráter".

1935: é eleito ao quadro de professores de Collège de France.

1935-1936: organiza e prefacia "A la Lumiere Du Marxisme".

1937-1962: Presidente da Sociedade Francesa de Pedagogia.

1938: redige e publica o 8º tomo da Enciclopédia Francesa.

1941-1945: vive em clandestinidade devido à Guerra.

1946: torna-se presidente da Comissão de Educação Nova e deputado na Assembléia Constituinte.

1947: publica o projeto Langevin-Wallon.

1948: funda a Revista Enfance.

1949: aposenta-se como médico.

1951: torna-se presidente da Sociedade Médico-psicológica Francesa.

1953: torna-se viúvo e sofre acidente que o deixa paraplégico e retoma suas atividades científicas em casa. .

1954: torna-se presidente da Sociedade Francesa de Educação Nova.

1962: falece em 1 de dezembro em Paris.

Seguidores[editar | editar código-fonte]

Seu principal seguidor é René Zazzo, que dá seguimento ao seu trabalho e sucede-o na direção do Laboratório de Psicobiologia da Criança. No Brasil, destaca-se Pedro Dantas e, posteriormente, sua filha Heloysa Dantas. Além da influência a Clotilde Ferreira, Maria José Garcia Werebe, Jacqueline Nadel e Cláudia Lemos. Entretanto, a influência de Wallon dá-se mais no campo da Educação do que em Psicologia propriamente dita.

Obras[editar | editar código-fonte]

Suas obras carecem de divulgação e tradução para o Português, contudo, destacam-se:

  • L'enfant turbulent - 1925 (Sem tradução)
  • La conscience et la vie subconsciente - 1920 (Sem tradução)
  • La conscience et la conscience du moi - 1921 (Sem tradução)
  • Le problème biologique de la conscience - 1921 (Sem tradução)
  • Princípios de Psicologia Aplicada - 1930
  • As origens do caráter - 1934
  • A evolução psicológica da criança - 1941
  • Do ato ao pensamento - 1942
  • As origens do pensamento na criança - 1945

Prêmios e outras realizações[editar | editar código-fonte]

Além de seu título de doutor, Wallon recebe títulos como diretor do Laboratório de Psicobiologia da Criança, diretor de estudos na Escola Normal Superior, bem como presidente das Sociedade Francesas de Psicologia, Médico-psicológica, Educação Nova e Pedagogia. Além de ser eleito deputado na Assembléia Constituinte após a Guerra.

Referências bibliográficas[editar | editar código-fonte]

  1. CAVALCANTE, Raquel Maria Santos. Henri Wallon, afeto e aprendizagem: um percurso teórico. EST/PPG. São Leopoldo, 2018.
  2. PEREIRA, Caciana Linhares. Piaget, Vygotsky e Wallon: contribuições para os estudos da linguagem. Psicol. estud. Maringá, v.17, n.2, p.277-286, 2012.
  3. SILVA, D. L. Do gesto ao símbolo: a teoria de Henri Wallon sobre a formação simbólica. Educar, n. 30. Editora UFPR. Curitiba, p.145-163, 2007.  
  4. WEREBE, Maria José Garcia. Conhecimento de Henri Wallon no Brasil. Psicologia Da Educação. São Paulo, p.129-137, 2001.

Autoria[editar | editar código-fonte]

Verbete criado inicialmente por: Melissa Iara dos Santos Mollesena del Monaco, como exigência parcial para a disciplina de Psicologia e Desenvolvimento Cognitivo da UFF de Rio das Ostras. Criado em 2021.1. publicado em 2021.1.