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Em 1969, Biaggio foi aceita como membro da [[American Psychological Association (APA)|''American Psychological Association'' (APA)]]. | |||
No início dos anos 1970, passou a lecionar no Departamento de Psicologia do Moorhead State College. No ano seguinte, retornou ao Brasil para integrar o corpo docente do curso de psicologia da PUC-RJ. Algum tempo depois, em 1972, foi docente na Universidade de Brasília (UNB) e na Faculdade de Educação da UFRGS, além de ter atuado como professora e pesquisadora e no planejamento do Curso de Mestrado em Psicologia da PUC-RS. | |||
Biaggio dedicou-se ao estudo do desenvolvimento da moral com base na teoria do julgamento moral de Lawrence Kohlberg, que ainda não era reconhecida no Brasil. Durante seu tempo como docente, orientou teses e dissertações que proporcionaram novas bases para a compreensão do tema, ampliando discussões sobre o desenvolvimento humano. Nesse sentido, também teve um papel fundamental para o campo da psicometria ao adaptar e validar escalas para a avaliação de aspectos como o controle da ansiedade e da raiva, pensando no papel dessas para o desenvolvimento da moral na realidade brasileira. | |||
Em 1975, Biaggio passou a trabalhar junto ao psicólogo social [[Aroldo Rodrigues]] na PUC-RJ, onde permaneceu até dezembro de 1980. Entre 1976 e 1978, quando o Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) organizou o primeiro comitê para a área da Psicologia, foi uma das representantes convidadas. | |||
Em 02 de maio de 1988, no Ato de Fundação da [[Sociedade Brasileira de Psicologia]], Biaggio foi aclamada Presidente Honorária. Entre 1991 e 1993, foi presidente da [[Sociedade Interamericana de Psicologia]]. | |||
Biaggio aposentou-se em 1988, mas permaneceu como orientadora de mestrado e doutorado da (UFRGS) até a data de seu falecimento. Em 1994, cursou pós-doutorado na University of North Dakota, nos Estados Unidos. | |||
=== Fim da vida === | === Fim da vida === | ||
Edição atual tal como às 22h40min de 19 de setembro de 2025
Angela Maria Brasil Biaggio (1940-2003) foi uma das pioneiras na pesquisa psicológica no Brasil. Nascida em 1940 no Rio de Janeiro, dedicou-se sistematicamente à investigação do Desenvolvimento Moral com base na teoria do Julgamento Moral de Lawrence Kohlberg (1927-1987), quando essa teoria ainda era desconhecida no Brasil. Ela também se dedicou aos estudos acerca da ansiedade e raiva, adaptando e validando escalas de avaliação desses espectros para sua utilização no país. Suas obras no campo da psicologia educacional são amplamente utilizadas na formação de professores. Faleceu em 2003, no Rio Grande do Sul, em decorrência de um câncer no pâncreas.
BiografiaEditar
Formação acadêmicaEditar
Angela Biaggio nasceu na cidade do Rio de Janeiro, em 20 de julho de 1940.
Enquanto cursava o ensino médio, foi intercambista da American Field Service (AFS) nos Estados Unidos durante o período de um ano. Nesse tempo, passou a residir com uma família americana e a frequentar uma escola da região, se inserindo cada vez mais na cultura local.
Retornando ao Brasil, Biaggio se graduou em Psicologia na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ). Pouco tempo depois, incentivada pelo Pe. Antonius Benkö, um dos fundadores do Curso de Psicologia da PUC-RJ, e inspirada por sua experiência anterior de intercâmbio, a então psicóloga retornou aos Estados Unidos para cursar uma pós-graduação, sendo uma das primeiras pesquisadoras em psicologia no Brasil a buscar formação stricto sensu no exterior.
Em 1965, sob orientação de Julian C. Stanley, Biaggio tornou-se mestre na Universidade de Wisconsin-Madison. Na mesma universidade, sob a orientação de Robert Grinder, em 1967, tornou-se doutora com a tese "Relationships among behavioral, cognitive, and affective aspects of children's conscience" [Relações entre aspectos comportamentais, cognitivos e afetivos da consciência infantil, tradução livre], que estudava os diferentes aspectos do Desenvolvimento Moral.
CarreiraEditar
Em 1969, Biaggio foi aceita como membro da American Psychological Association (APA).
No início dos anos 1970, passou a lecionar no Departamento de Psicologia do Moorhead State College. No ano seguinte, retornou ao Brasil para integrar o corpo docente do curso de psicologia da PUC-RJ. Algum tempo depois, em 1972, foi docente na Universidade de Brasília (UNB) e na Faculdade de Educação da UFRGS, além de ter atuado como professora e pesquisadora e no planejamento do Curso de Mestrado em Psicologia da PUC-RS.
Biaggio dedicou-se ao estudo do desenvolvimento da moral com base na teoria do julgamento moral de Lawrence Kohlberg, que ainda não era reconhecida no Brasil. Durante seu tempo como docente, orientou teses e dissertações que proporcionaram novas bases para a compreensão do tema, ampliando discussões sobre o desenvolvimento humano. Nesse sentido, também teve um papel fundamental para o campo da psicometria ao adaptar e validar escalas para a avaliação de aspectos como o controle da ansiedade e da raiva, pensando no papel dessas para o desenvolvimento da moral na realidade brasileira.
Em 1975, Biaggio passou a trabalhar junto ao psicólogo social Aroldo Rodrigues na PUC-RJ, onde permaneceu até dezembro de 1980. Entre 1976 e 1978, quando o Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) organizou o primeiro comitê para a área da Psicologia, foi uma das representantes convidadas.
Em 02 de maio de 1988, no Ato de Fundação da Sociedade Brasileira de Psicologia, Biaggio foi aclamada Presidente Honorária. Entre 1991 e 1993, foi presidente da Sociedade Interamericana de Psicologia.
Biaggio aposentou-se em 1988, mas permaneceu como orientadora de mestrado e doutorado da (UFRGS) até a data de seu falecimento. Em 1994, cursou pós-doutorado na University of North Dakota, nos Estados Unidos.
Fim da vidaEditar
Angela Biaggio faleceu em 2003, no Rio Grande do Sul, em decorrência de um câncer no pâncreas. Biaggio foi autora de muitas contribuições para a psicologia do desenvolvimento humano, sendo considerada pioneira na área no Brasil.
TeoriasEditar
O Desenvolvimento MoralEditar
Devido aos estudos para a elaboração de sua tese de doutorado – orientada pelo professor e psicólogo Dr. Robert E. Grinder –, Biaggio debruçou-se sobre os diferentes aspectos do Desenvolvimento Moral: afetivo (culpa), cognitivos (julgamento moral segundo a tipologia de Kohlberg) e comportamentais (resistência à tentação em situações de transgressão). Ela iniciou então uma notável produção acadêmica que evidencia seu envolvimento com a Psicologia do Desenvolvimento. No campo do Desenvolvimento Moral, Biaggio foi pioneira e destacou-se como a mais importante pesquisadora do Brasil no assunto, por mais de três décadas.
Após o doutorado, Angela buscou verificar a aplicabilidade da teoria de Kohlberg entre os brasileiros, através de estudos científicos. Verificando a validade desta teoria para a interpretação dos dados colhidos entre os brasileiros, Biaggio passou a utilizar esta tipologia de forma sistemática em suas pesquisas sobre a moral. Aprofundou seu conhecimento sobre o desenvolvimento moral relacionando-o com as dimensões psicológicas. Verificou a influência do lócus de controle no julgamento moral. Analisou a relação entre ansiedade e julgamento moral e o vínculo entre personalidade e moralidade. Em outra linha de pesquisa, ela buscou verificar a influência de fatores sociais sobre o desenvolvimento moral.
Comunidade JustaEditar
Por ter interesse nas mudanças comportamentais, Biaggio procurou – através dos estudos de seu pós-doutorado com F. Clark Power – capacitar-se no uso da técnica de “Comunidade Justa”, criada por Kohlberg, com o objetivo de promover avanços no pensamento e na ação moral.
Essa técnica consiste em formar um grupo de 10 a 12 pessoas em diferentes estágios de desenvolvimento moral para discutir dilemas. A discussão do grupo seria guiada por um professor, psicólogo ou orientador educacional, que busca chamar a atenção para argumentos típicos de estágios superiores, podendo ser propostos por alguma pessoa do grupo ou pelo próprio coordenador.
Esse método promove a educação moral sem usar de doutrinação nem de relativismo. Evita a doutrinação porque impulsiona o desenvolvimento natural de estruturas universais que auxiliam na tomada de decisão de forma reflexiva e não na adesão a um conjunto determinado de crenças e valores, religiosos ou morais. Evita o relativismo, pois demonstra que os estágios de desenvolvimento moral são hierárquicos, de forma que um estágio superior é “melhor” ou mais “justo” do que o anterior.
De volta ao Brasil, Angela Biaggio tentou aplicar esta técnica, de forma adaptada à realidade brasileira, em uma escola em Porto Alegre. Porém, devido a várias mudanças na dinâmica dessa escola foi impossível concluir essa pesquisa.
ContribuiçõesEditar
Contribuições na PsicometriaEditar
Por sua dedicação nos estudos da ansiedade e da raiva, Angela adaptou e validou escalas para a avaliação desses aspectos para serem utilizada no Brasil. Ela realizou ambas as escalas em colaboração com Charles D. Spielberger. Referente à adaptação de medidas do julgamento moral, como as realizadas com o Moral Judgement Interview-MJI (medida subjetiva da moral, elaborada por Kohlberg) e ainda no desenvolvimento de instrumentos de avaliação psicológica, se apoiou no Sociomoral Reflective Objective Measure-SROM (uma medida objetiva de avaliação do julgamento moral) para realizar a adaptação e validação do instrumento para coleta de dados com amostras brasileiras.
Nos últimos anos de sua vida, estava desenvolvendo estudos para contribuir com uma versão adaptada de outra medida de moralidade, o Defining Issues Test 2 (DIT-2), sobre o qual apresentou uma pesquisa no simpósio no encontro científico da Association for Moral Education em Chicago, no ano de 2002.
Outras ContribuiçõesEditar
As contribuições de Biaggio não se restringiram aos estudos científicos sobre Psicologia do Desenvolvimento ou na Psicometria, Angela também contribuiu para o avanço da Psicologia no Brasil dedicando se à docência na PUC-RJ, UnB, PUC-RS e na UFRGS. Ela publicou três livros durante sua carreira, sendo eles: “Psicologia do Desenvolvimento” (1975), “Pesquisas em Psicologia do Desenvolvimento e da Personalidade” (1984) e “Lawrence Kohlberg: Ética e Educação Moral” (2002). Angela Biaggio publicou também diversos artigos em periódicos nacionais e estrangeiros.
Ela participou como coordenadora no Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), na Coordenação do Aperfeiçoamento de Pessoa de Nível Superior (CAPES) e no comitê da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS).
Durante sua trajetória acadêmica, Angela Biaggio manteve um forte intercâmbio com vários pesquisadores estrangeiros como Robert E. Grinder – orientador de seu doutorado –, F.Clark Power, Charles D. Spielberger, James Rest, Ann Higgins, ArneVikan, John F. Snarey, Lutz Eckens Berger, Orlando Lourenço, Georg Lind e Larry Nucci.
Produção AcadêmicaEditar
BIAGGIO, A. Uma comparação transcultural de estudantes universitários brasileiros e norte-americanos na medida de julgamento moral de Kohlberg. Arquivos Brasileiros de Psicologia Aplicada, n.27, p.71-81, 1973.
BIAGGIO, A. A developmental study of moral judgment of Brazilian children and adolescents. Interamerican Journal of Psychology, n.10, p.71-81, 1976.
BIAGGIO, A. Maternal and peer correlates of moral judgement. Journal of Genetic Psychology, n.135, p.203-208, 1979.
BIAGGIO, A. M. B. Pesquisas em psicologia do desenvolvimento e da personalidade. 1. ed. Porto alegre: Editora da UFRGS, 1984.
BIAGGIO, A. M. B. Desenvolvimento moral: vinte anos de pesquisa no Brasil. Psicologia: Reflexão e Crítica, n.1, p.60-69, 1988.
BIAGGIO, A. M. B. Relações entre maturidade de julgamento moral e ansiedade traço-estado. Arquivos Brasileiros de Psicologia, n.41, p.9-22, 1989.
BIAGGIO, A. M. B. Kohlberg e a comunidade justa: Desenvolvendo o senso ético e a cidadania na escola. Psicologia: Reflexão e Crítica, n.10, p.47-69, 1997.
BIAGGIO, A. M. B. Desenvolvimento moral, ecologia e pacifismo. (Simpósio). AME (Association for Moral Education), Minneapolis, Minn., 1999.
BIAGGIO, A. M. B. Psicologia do Desenvolvimento. Petrópolis: Vozes, 2009. (várias edições).
BIAGGIO, A. M. B.; GUAZZELLI, E. F. (1984). Relações entre maturidade de julgamento moral e lócus de controle. Arquivos Brasileiros de Psicologia Aplicada, 36, 63-73, 1984.
BIAGGIO, A. M. B.. Lawrence Kohlberg: Ética e Educação Moral. 2. ed. São Paulo: Moderna, 2006. v. 1. 144p.
BIAGGIO, A. M. B.; MOROSINE, M. Reprodución, resitencia y pensamiento pos convencional: una comparación entre las teorias de Kohlberg y Giroux con respecto al papel de la escuela em la trasnfomación de la sociedad. Boletin de Psicologia (Universidad José Cañas, El Salvador), 1987.
BIAGGIO, A. M. B.; NATALÍCIO, L.; SPIELBERGER, C. D. Desenvolvimento da forma experimental em Português do Inventário de Ansiedade Traço-Estado de Spielberger. Arquivos Brasileiros de Psicologia Aplicada, n.29, p.31-44, 1977.
BIAGGIO, A. M. B.; SPADA, M. Relationship between maturity of moral judgment and the structure of personality: a test of Hogan: hypothesis with Brazilian subjects. Interamerican Journal of Psychology, n.16, p.23-30, 1982.
SCHUHLY, G.; BIAGGIO, A. M. B.; NERVA, G. B.. Motivação e desenvolvimento: adolescentes brasileiros de camadas populares: questões de socialização e educação. São Paulo: Edições Loyola, 1995.
SPIELBERGER, C. D.; BIAGGIO, A. M. B.. Manual do Inventário de Expressão de Raiva como Estado-Traço (STAXI): tradução e adaptação. São Paulo: Vetor, 1992.
Boletim do Portal História da PsicologiaEditar
Este verbete está publicado também no Boletim do Portal História da Psicologia, e pode ser acessado aqui
Referências bibliográficasEditar
- BIAGGIO, Angela Maria Brasil. Kohlberg e a "Comunidade Justa": promovendo o senso ético e a cidadania na escola. Psicologia: Reflexão e Crítica, Porto Alegre, Volume 10, número 1, p. 47-69, 1997.
- CAMINO, Cleonice. Angela Biaggio (1940-2003): Um Percurso na História do Desenvolvimento Sócio-Moral do Brasil. Psicologia: Reflexão e Crítica, Volume 16, número 01. Porto Alegre, 2003.
- DUARTE, Michael de Quadros (org) et all. Grandes Nomes da Psicologia Brasileira para Conhecer e Inspirar. Porto Alegre: PPGPSICO/UFRGS, 2019. pp. 10-13.
- O LEGADO Científico de Angela Biaggio (1940-2003) para o Brasil. Psicologia: Teoria e Pesquisa. Brasília, Mai-Ago 2003, Vol. 19 n. 2, pp. 187-188DUARTE, Michael de Quadros (org) et all.Grandes Nomes da Psicologia Brasileira para Conhecer e Inspirar. Porto Alegre: PPGPSICO/UFRGS, 2019. pp. 10-13.
- OLIVEIRA. Luciane Karine Guedes. Angela Maria Brasil Biaggio (1940-2003) – Verbete. Pioneiras das Ciências no Brasil - 6ª Edição. CNPq. 2021.
AutoriaEditar
Verbete criado, como exigência parcial para a disciplina de Psicologia do Desenvolvimento Cognitivo, da UFF de Rio das Ostras, por: Beatriz Campos Frazão, Fernanda Pereira da Costa, Igor de Abreu Portela Cunha, Laura Nobre de Azevedo Novaes, Talles Gomes dos Santos Silva. Verbete revisado por Clara Lyra Santos.