Angela Biaggio

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Angela Maria Brasil Biaggio (Rio de Janeiro, 20 de julho de 1940 – Porto Alegre, 19 de maio de 2003) foi uma psicóloga e pesquisadora brasileira. Dedicou-se sistematicamente à investigação do Desenvolvimento Moral com base na teoria do Julgamento Moral de Lawrence Kohlberg (1927-1987), ainda desconhecida no Brasil. Também se dedicou aos estudos da ansiedade e da raiva, adaptando e validando escalas para a avaliação destes aspectos para uso no país. Por toda sua formação e pesquisa desenvolvidas, tornou-se pioneira na psicologia brasileira.

Biografia[editar | editar código-fonte]

Formação Inicial[editar | editar código-fonte]

Angela Maria Brasil Biaggio nasceu no Rio de Janeiro em 20 de julho de 1940. Durante o ensino médio passou um ano nos Estados Unidos (EUA) convivendo com uma família americana, frequentando uma escola local, em regime de intercâmbio, experiência que pode ter influenciado sua decisão de permanecer nos EUA depois da graduação para cursar mestrado e doutorado.

Fez Bacharelado em Psicologia na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), entre 1960 e 1964. Obteve seu título de mestrado na Universidade de Wisconsin-Madison, nos EUA em 1965, sob orientação de Julian C. Stanley. Entre 1965 e 1967 elaborou sua tese de doutorado, na mesma universidade, sob orientação de Robert E. Grinder, quando estudou diferentes aspectos do Desenvolvimento Moral. Aposentou-se em 1988, mas permaneceu como orientadora dos cursos de Mestrado e Doutorado da UFRGS até seu falecimento, em 2003, emd decorrência de um câncer de pâncreas fatal. Foi casada com Luis Isnard Leão Baggio, com quem teve 2 filhos: Ana Cristina e Maurício.

Início da Carreira[editar | editar código-fonte]

Integrou o corpo docente do curso de Psicologia da PUC-RJ em 1968. Em 1969 foi aceita como membro da American PsychologicalAssociation. Entre 1970 e 1971 foi professora no Departamento de Psicologia da Minnesota StateUniversityatMoorhead-EUA. Em 1972 foi professora na Universidade de Brasília, ano no qual aconteceu sua primeira experiência como professora e pesquisadora em Porto Alegre, quando integrou o corpo docente do curso de mestrado em Psicologia da PUC-RS. Em 1974 voltou para o Rio de Janeiro para trabalhar junto ao psicólogo Aroldo Rodrigues na PUC-RJ, onde permaneceu até dezembro de 1980.

Entre 1976 e 1978, quando o Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) organizou o primeiro comitê para a área de Psicologia, foi uma das representantes da área. Em 1981 retornou para Porto Alegre a convite de Juracy Marques, dessa vez para integrar o corpo docente da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, atuando no programa de pós graduação na área de Psicologia Educacional. Em 1986 colaborou no planejamento do curso de mestrado em Psicologia e passou a integrar o corpo docente em 1987.

Entre 1991 e 1993 foi presidente da Sociedade Interamericana de Psicologia. Em 1994 cursou pós doutorado naUniversityof North Dakota (UND), nos EUA. Em 1998, mais precisamente no dia 02 de maio, no Ato de Fundação da Sociedade Brasileira de Psicologia foi aclamada Presidente Honorária.

Contribuições[editar | editar código-fonte]

Contribuições na Psicometria[editar | editar código-fonte]

Além dos estudos no campo da Psicologia do Desenvolvimento, e por sua dedicação nos estudos da ansiedade e da raiva, Biaggio adaptou e validou escalas para a avaliação destes aspectos para uso no Brasil, ambas em colaboração com Charles D. Spielberger, e as referentes à adaptação de medidas do julgamento moral, como as realizadas com o Moral Judgement Interview-MJI (medida subjetiva da moral, elaborada por Kolhlberg) e ainda no desenvolvimento de instrumentos de avaliação psicológica, debruçou-se sobre o Sociomoral Reflective Objective Measure-SROM, uma medida objetiva de avaliação do julgamento moral, realizando a adaptação e validação do instrumento para a coleta de dados com amostras brasileiras.

Nos últimos anos de sua vida, estava desenvolvendo estudos para contribuir com uma versão adaptada e validada de outra medida de moralidade, o DefiningIssuesTest 2 (DIT-2), sobre o qual apresentou pesquisa em simpósio no encontro científico da Association for Moral Education em Chicago, no ano de 2002.

Outras Contribuições[editar | editar código-fonte]

Mas as contribuições de Biaggio não foram somente aos estudos científicos desenvolvidos ou na Psicometria. Ela também contribuiu para o avanço da Psicologia no Brasil, dedicando-se à outras atividades, como: ao ensino (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-RJ, Universidade de Brasília - UnB, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUC-RS e Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS), à orientação de dissertações de mestrado e teses de doutorado, à publicação de três livros (Psicologia do Desenvolvimento, 1975; Pesquisas em Psicologia do Desenvolvimento e da Personalidade, 1984; e, Lawrence Kohlberg: Ética e Educação Moral, 2002), à publicação de inúmeros artigos em periódicos nacionais e estrangeiros.

Participou, como coordenadora de área de Psicologia, no Conselho Nacional do Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), na Coordenação do Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e no comitê da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (FAPERGS).

Durante toda a sua trajetória acadêmica, Angela Biaggio manteve forte intercâmbio com vários pesquisadores estrangeiros (Robert E. Grinder-orientador de seu doutorado-, F.Clark Power, Charles D. Spielberger, James Rest, Ann Higgins, ArneVikan, John F. Snarey, Lutz Eckens Berger, Orlando Lourenço, Georg Lind e Larry Nucci).

Teorias[editar | editar código-fonte]

O Desenvolvimento Moral[editar | editar código-fonte]

Devido aos estudos para a elaboração de sua tese de doutorado – orientada pelo professor e psicólogo Dr. Robert E. Grinder, Biaggio debruçou-se sobre os diferentes aspectos do Desenvolvimento Moral, como: afetivo (culpa), cognitivo (julgamento moral segundo a tipologia de Kohlberg) e comportamentais (resistência à tentação em situações de transgressão), iniciando uma notável produção acadêmica que evidencia seu envolvimento com a Psicologia do Desenvolvimento. No campo do Desenvolvimento Moral, Biaggio foi pioneira e destacou-se, por mais de três décadas, como a mais importante pesquisadora do Brasil.

Após o doutorado, Biaggio buscou verificar, através de estudos científicos, a aplicabilidade da teoria de Kolhberg entre os brasileiros. Verificado a validade desta teoria para a interpretação dos dados colhidos entre os brasileiros, Biaggio passou a utilizar esta tipologia de forma sistemática em suas pesquisas sobre a moral, aprofundando seu conhecimento sobre o desenvolvimento moral relacionando com as dimensões psicológicas, verificando a influência do locusde controle no julgamento moral; a relação entre ansiedade e julgamento moral; e a relação entre personalidade e moralidade. Em uma outra linha de pesquisa, Biaggio buscou verificar a influência de fatores sociais sobre o desenvolvimento moral.

Comunidade Justa[editar | editar código-fonte]

Por achar relevante as mudanças comportamentais, Biaggio procurou, através dos estudos de seu pós-doutorado com F. Clark Power, capacitar-se no uso da técnica de Comunidade Justa, criada por Kohlberg, com o objetivo de promover avanços no pensamento e na ação moral.

A técnica consiste em se formar um grupo de pessoas – entre 10 a 12, no máximo – de diferentes estágios de desenvolvimento moral para discutir dilemas, tendo como coordenador da discussão um professor, psicólogo ou orientador educacional, que busca chamar a atenção para argumentos típicos de estágios superiores, podendo ser propostos por alguma pessoa do grupo ou pelo próprio coordenador.

Esse método promove a educação moral sem usar de doutrinação nem de relativismo: evita a doutrinação porque promove o desenvolvimento natural de estruturas universais que auxiliam na tomada de decisão de forma reflexiva e não na adesão a um conjunto determinado de crenças e valores, sejam religiosos ou morais; evita o relativismo, pois coloca que os estágios de desenvolvimento moral são hierárquicos, de forma que um estágio superior é "melhor" ou mais "justo" do que o que o precede.

Retornando ao Brasil, Biaggio tentou aplicar esta técnica, de forma adaptada à realidade brasileira, em uma escola em Porto Alegre. Porém, devido a várias mudanças na dinâmica desta escola foi impossível concluir esse trabalho de pesquisa.

Obras[editar | editar código-fonte]

BIAGGIO, A. (1973). Uma comparação transcultural de estudantes universitários brasileiros e norte-americanos na medida de julgamento moral de Kohlberg. Arquivos Brasileiros de Psicologia Aplicada, 27, 71-81.

BIAGGIO, A. (1976). A developmentalstudyof moral judgmentofBrazilianchildrenandadolescents. InteramericanJournalofPsychology, 10, 71-81.

BIAGGIO, A. (1979). Maternal andpeer correlates of moral judgement. JournalofGeneticPsychology, 135, 203-208.

BIAGGIO, A. M. B.. Pesquisas em psicologia do desenvolvimento e da personalidade. 1. ed. Porto alegre: Editora da UFRGS, 1984. v. 1. 217p.

BIAGGIO, A. (1988). Desenvolvimento moral: Vinte anos de pesquisa no Brasil. Psicologia: Reflexão e Crítica, 1, 60-69.

BIAGGIO, A. (1989). Relações entre maturidade de julgamento moral e ansiedade traço-estado. Arquivos Brasileiros de Psicologia, 41, 9-22.

BIAGGIO, A. (1997). Kohlberg e a comunidade justa: Desenvolvendo o senso ético e a cidadania na escola. Psicologia: Reflexão e Crítica, 10, 47-69.

BIAGGIO, A. (1999). Desenvolvimento moral, ecologia e pacifismo. (Simpósio). AME (Association for Moral Education), Minneapolis, Minn.

BIAGGIO, A. M. B.. Psicologia do Desenvolvimento. 21. ed. Petrópolis: Vozes, 2009. 344p.

BIAGGIO, A. &Guazzelli, E. F. (1984). Relações entre maturidade de julgamento moral e locus de controle. Arquivos Brasileiros de Psicologia Aplicada, 36, 63-73.

BIAGGIO, A. M. B.. Lawrence Kohlberg: Ética e Educação Moral. 2. ed. São Paulo: Moderna, 2006. v. 1. 144p.

BIAGGIO, A. &Morosine, M. (1987). Reprodución, Resitencia y pensamientoposconvencional; una comparación entre las teorias de Kohlberg y Girouxconrespecto al papel de laescuelaenlatrasnfomación de La sociedad. Boletin de Psicologia (Universidad José Cañas, El Salvador).

BIAGGIO, A., Natalício, L. &Spielberger, C. D. (1977). Desenvolvimento da forma experimental em Português do Inventário de Ansiedade Traço-Estado de Spielberger. Arquivos Brasileiros de Psicologia Aplicada, 29, 31-44.

BIAGGIO, A. &Spada, M. (1982). Relationsshipbetweenmaturityof moral judgmentandthestructureofpersonality: A testofHogan.shypothesiswithBraziliansubjects. InteramericanJournalof Psychology,16, 23-30

SCHUHLY, G.; BIAGGIO, A. M. B.; NERVA, G. B.. Motivação e desenvolvimento: adolescentes brasileiros de camadas populares: questões de socialização e educação. São Paulo: Edições Loyola, 1995. 200p.

SPIELBERGER, C. D.; BIAGGIO, A. M. B.. Manual do Inventário de Expressão de Raiva como Estado-Traço (STAXI): Tradução e Adaptação. São Paulo: Vetor, 1992. v. 1. 51p.

Referências bibliográficas[editar | editar código-fonte]

BIAGGIO, Angela Maria Brasil. Kohlberg e a "Comunidade Justa": promovendo o senso ético e a cidadania na escola. Psicologia: Reflexão e Crítica,  PortoAlegre,  Volume 10, número 1, p. 47-69,    1997.   Disponível no site: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-79721997000100005&lng=en&nrm=iso Acessado em 22/04/2021.  https://doi.org/10.1590/S0102-79721997000100005.

CAMINO, Cleonice. Angela Biaggio (1940-2003): Um Percurso na História do Desenvolvimento Sócio-Moral do Brasil. Psicologia: Reflexão e Crítica, Volume 16, número 01. Porto Alegre, 2003. Disponível no site https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-79722003000100002. Acessado em 26/03/2021.

_______________. Notícia: O Legado Científico de Angela Biaggio (1940-2003) para o Brasil. Psicologia: Teoria e Pesquisa. Brasília, Mai-Ago 2003, Vol. 19 n. 2, pp. 187-188. Disponível no site https://www.scielo.br/pdf/ptp/v19n2/a13v19n2.pdf. Acessado em 26/03/2021.

DUARTE, Michael de Quadros (org) et all. 9 Grandes Nomes da Psicologia Brasileira para Conhecer e Inspirar. Porto Alegre: PPGPSICO/UFRGS, 2019. pp. 10-13. Disponível no site https://lume.ufrgs.br/handle/10183/200855. Acessado em 26/03/2021.

OLIVEIRA. Luciane Karine Guedes. Angela Maria Brasil Biaggio (1940-2003) – Verbete. In Pioneiras das Ciências no Brasil - 6ª Edição. CNPq. 2021. Disponível no site https://www.gov.br/cnpq/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/programas/mulher-e-ciencia/pioneiras-da-ciencia-1/pioneiras-6a-edicao. Acessado em 26/03/2021.

Autoria[editar | editar código-fonte]

Verbete criado inicialmente por: Beatriz Campos Frazão, Fernanda Pereira da Costa, Igor de Abreu Portela Cunha, Laura Nobre de Azevedo Novaes, Talles Gomes dos Santos Silva,como exigência parcial para a disciplina de Psicologia e Desenvolvimento Cognitivo da UFF de Rio das Ostras. Criado em 2021.1. publicado em 2021.1.