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Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte. | |||
Este é um texto didático de autoria de André Elias Morelli Ribeiro para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte. | |||
= Funcionalismo = | = Funcionalismo = | ||
O funcionalismo | O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um '''movimento''' amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às linhas de pensamento de lá. | ||
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que '''a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos''' e, consequentemente, '''na adaptação ao meio ambiente'''. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua '''utilidade''', '''propósito''' e '''operação'''. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os os fenômenos da mente a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas, tais como: "para que isso serve?", "por que o sujeito fez/pensou isso?" ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”. | |||
Com o objetivo de conferir um embasamento científico ao seu construto teórico, a base do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas '''teorias evolutivas''', as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, '''a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo''', provendo recursos para que os organismos possam transformar o seu meio enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam análogos aos órgãos e às partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não podem fazer muito, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana. | |||
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada escola funcionalista. As teorias evolutivas têm relevância central, visto que a mente é o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza. | Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, '''o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia'''. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada escola funcionalista. As teorias evolutivas têm relevância central, visto que a mente é o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza. | ||
= As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu = | = As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu = | ||
Como vimos na seção anterior, o funcionalismo como um movimento transatlântico se inicia nos EUA mas chega à Europa, onde se transforma e adquire características próprias, mas ambos compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças. | Como vimos na seção anterior, o funcionalismo como um movimento transatlântico se inicia nos EUA mas chega à Europa, onde se transforma e adquire características próprias, mas ambos compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças. | ||
No '''funcionalismo americano''', o foco recai sobre os '''processos adaptativos comportamentais'''. Os fenômenos mentais e comportamentais são vistos como operações destinadas à sobrevivência. A consciência não é uma coisa por si, mas um órgão seletivo que ajuda o organismo a se adaptar ao meio. Comportamentos, tal qual fenômenos mentais como a consciência, não são meros movimentos, eles são operações. A consciência, por exemplo, é concebida como uma operação que atua na seleção e autorregulação das táticas comportamentais visando à adaptação. Para entender essas operações, é preciso identificar o interesse subjacente a elas. Essa identificação dos interesses constitui a análise funcional dos processos psicológicos e comportamentais. | No '''[[funcionalismo americano]]''', o foco recai sobre os '''processos adaptativos comportamentais'''. Os fenômenos mentais e comportamentais são vistos como operações destinadas à sobrevivência. A consciência não é uma coisa por si, mas um órgão seletivo que ajuda o organismo a se adaptar ao meio. Comportamentos, tal qual fenômenos mentais como a consciência, não são meros movimentos, eles são operações. A consciência, por exemplo, é concebida como uma operação que atua na seleção e autorregulação das táticas comportamentais visando à adaptação. Para entender essas operações, é preciso identificar o interesse subjacente a elas. Essa identificação dos interesses constitui a análise funcional dos processos psicológicos e comportamentais. | ||
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o '''pragmatismo''', uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de Wundt e seus seguidores. | Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o '''[[pragmatismo]]''', uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores. | ||
Já o '''funcionalismo europeu''', apesar de compartilhar vários aspectos do seu colega americano, apresenta importantes diferenças. Em primeiro lugar, existem '''três linhagens''' do funcionalismo europeu. Primeiro, o da '''etologia''', com foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de '''matriz psicanalítica''', que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem '''matriz genético-funcional''', ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. | Já o '''funcionalismo europeu''', apesar de compartilhar vários aspectos do seu colega americano, apresenta importantes diferenças. Em primeiro lugar, existem '''três linhagens''' do funcionalismo europeu. Primeiro, o da '''[[etologia]]''', com foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de '''matriz psicanalítica''', que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem '''matriz genético-funcional''', ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. | ||
O funcionalismo europeu continental (excluindo a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui '''estágios evolutivos'''. O pensamento europeu, nesse sentido, compreende que, assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo análogo. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo. | O funcionalismo europeu continental (excluindo a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui '''estágios evolutivos'''. O pensamento europeu, nesse sentido, compreende que, assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo análogo. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo. | ||
Os europeus do continente também decidiram não seguir com a proposta dualista de Galton, conhecida como natureza vs. cultura. É um debate que busca entender de onde vem a psicologia humana, ou seja, se nascemos com nossa psicologia ou se a adquirimos conforme envelhecemos. A proposição do funcionalismo europeu é o chamada '''interacionismo''', que entende que, na verdade, trata-se da mistura dos dois. Por um lado, nascemos com uma certa capacidade de desenvolvimento e de aprendizagem, definida pela espécie, mas que só ocorre conforme interagimos com o meio. | Os europeus do continente também decidiram não seguir com a proposta dualista de [[Francis Galton|Galton]], conhecida como [[Debate natureza vs. cultura|natureza vs. cultura]]. É um debate que busca entender de onde vem a psicologia humana, ou seja, se nascemos com nossa psicologia ou se a adquirimos conforme envelhecemos. A proposição do funcionalismo europeu é o chamada '''[[interacionismo]]''', que entende que, na verdade, trata-se da mistura dos dois. Por um lado, nascemos com uma certa capacidade de desenvolvimento e de aprendizagem, definida pela espécie, mas que só ocorre conforme interagimos com o meio. | ||
= Um passeio por psicologias europeias = | = Um passeio por psicologias europeias = | ||
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, | Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. | ||
Nestes três casos, é importante destacar que, nestes três casos, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com '''países francófonos''' (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da '''influência cultural gemânica''' (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos '''países eslavos'''. | Nestes três casos, é importante destacar que, nestes três casos, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com '''países francófonos''' (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da '''influência cultural gemânica''' (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos '''países eslavos'''. | ||
A psicologia na '''Itália''' teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo. Ademais, muitas vezes manuais '''portugueses''' e '''espanhois''' circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, '''ideias não eslavas do leste europeu''' e | A psicologia na '''Itália''' teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais '''portugueses''' e '''espanhois''' circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, '''ideias não eslavas do leste europeu''' e elementos da psicologia produzida nos '''países nórdicos''', devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções passageiras em livros e manuais importados da Europa e EUA. | ||
== A psicologia na França == | == A psicologia na França == | ||
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A primeira foi aquela desenvolvida na '''Salpetrière'''. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. | A primeira foi aquela desenvolvida na '''Salpetrière'''. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local. | ||
No final do século XVIII, '''Philippe Pinel''' foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, Esquirol, influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo. | No final do século XVIII, '''[[Philippe Pinel]]''' foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, [[Esquirol]], influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo. | ||
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico '''Jean-Martin Charcot''', já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um "museu patológico vivo", principalmente durante a chamada Grande Histeria. A '''histeria''' era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação parecia fazer sentido, principalmente devido à concepção dominante à época da total separação entre mente e corpo. | O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico '''[[Jean-Martin Charcot]]''', já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um "museu patológico vivo", principalmente durante a chamada Grande Histeria. A '''[[histeria]]''' era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação parecia fazer sentido, principalmente devido à concepção dominante à época da total separação entre mente e corpo. | ||
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a '''hipnose''', uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após o mesmerismo, para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. Freud estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot, entre muitos outros nomes importantes para o século XX. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico. | Nesse contexto, Charcot passou a empregar a '''[[hipnose]]''', uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após o [[Mesmerismo/Magnetismo Animal|mesmerismo]], para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. [[Sigmund Freud|Freud]] estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot, entre muitos outros nomes importantes para o século XX. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico. | ||
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à '''Escola de Nancy''', um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. Bernheim, Liégeois e Beaunis trabalharam intensamente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos. | O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à '''[[Escola de Nancy]]''', um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. [[Hyppolyte Bernheim|Bernheim]], [[Jean-Pierre Liégeois|Liégeois]] e [[Henri-Étienne Beaunis|Beaunis]] trabalharam intensamente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos. | ||
Uma segunda linha foi desenvolvida na '''Universidade Sorbonne''', em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia. | Uma segunda linha foi desenvolvida na '''Universidade Sorbonne''', em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia. | ||
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo cousinismo, um movimento filosófico monarquista liderado por '''Victor Cousin'''. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que paralisou a psicologia experimental mas trouxe muitos ganhos numa psicologia filosófica, que influenciou os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência. | Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo [[cousinismo]], um movimento filosófico monarquista liderado por '''[[Victor Cousin]]'''. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que paralisou a psicologia experimental mas trouxe muitos ganhos numa psicologia filosófica, que influenciou os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência. | ||
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia '''Théodule Ribot''', que não era cousinista e fora sabotado por isso. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese A Psicologia Inglesa Contemporânea e, posteriormente, A Psicologia Alemã Contemporânea, também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência. | Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia '''[[Théodule Ribot]]''', que não era cousinista e fora sabotado por isso. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese [[A Psicologia Inglesa Contemporânea]] e, posteriormente, [[A Psicologia Alemã Contemporânea]], também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência. | ||
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da Escola Prática de Altos Estudos. Contudo, quem assumiu o posto foi '''Jules Soury''', que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a '''Louis Liard''', que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para Pierre Janet. | A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da Escola Prática de Altos Estudos. Contudo, quem assumiu o posto foi '''[[Jules Soury]]''', que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a '''[[Louis Liard]]''', que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para [[Pierre Janet]]. | ||
A terceira linha de psicologia na França é a do '''Collège de France'''. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. | A terceira linha de psicologia na França é a do '''Collège de France'''. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa. | ||
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como Claude Bernard (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), Michel Foucault (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros. | Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como Claude Bernard (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), [[Michel Foucault]] (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros. | ||
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot não apenas assumiu o posto, ele também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. | Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot não apenas assumiu o posto, ele também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França. | ||
Os franceses criaram seu '''primeiro laboratório em 1889''', quando '''Henri-Étienne Beaunis''', um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo '''Alfred Binet''' como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história. | Os franceses criaram seu '''primeiro laboratório em 1889''', quando '''[[Henri-Étienne Beaunis]]''', um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo '''[[Alfred Binet]]''' como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. | ||
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões, muitas vezes indiretas, mas significativas, com o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. Os personagens centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX. | A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões, muitas vezes indiretas, mas significativas, com o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. Os personagens centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX. | ||
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A figura de Jean-Martin Charcot e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país. | A figura de Jean-Martin Charcot e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país. | ||
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, Alfred Binet, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no Pedagogium do Rio de Janeiro, 1904, por | Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, Alfred Binet, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no [[Pedagogium]] do Rio de Janeiro, 1904, por [[Manoel Bomfim]], seguiu a inspiração direta de Binet. | ||
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de '''Pierre Janet''', que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud, sua relevância parece ser sido esquecida. | Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de '''Pierre Janet''', que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud, sua relevância parece ser sido esquecida. | ||
== A psicologia na Alemanha == | == A psicologia na Alemanha == | ||
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceu na Alemanha, com as ideias de '''Christian Wolff'''. A tradição de interesse em psicologia alemã foi coroada por lá florescer o marco simbólico da criação da psicologia não só na Alemanha, mas no mundo, foi a fundação do laboratório de '''Wilhelm Wundt''' em Leipzig, em 1879, o que gerou avanços e debates pelo país. | As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceu na Alemanha, com as ideias de '''[[Christian Wolff]]'''. A tradição de interesse em psicologia alemã foi coroada por lá florescer o marco simbólico da criação da psicologia não só na Alemanha, mas no mundo, foi a fundação do laboratório de '''Wilhelm Wundt''' em Leipzig, em 1879, o que gerou avanços e debates pelo país. A primeira linha de psicologia aplicada do país é criada no exército. | ||
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica, conhecido como a "'''crise da psicologia'''", com o surgimento de várias escolas, como a Gestalt. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que favoreceu o surgimento de um corpo profissional. | Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica, conhecido como a "'''crise da psicologia'''", com o surgimento de várias escolas, como a [[Gestalt]]. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que favoreceu o surgimento de um corpo profissional. | ||
O '''período nazista''' marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o '''diagnóstico caracterológico'''. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (Ganzheit), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército. | O '''período nazista''' marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o '''[[diagnóstico caracterológico]]'''. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (''Ganzheit''), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército. | ||
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a '''influência americana''' começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. | Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a '''influência americana''' começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. OS '''pensadores marxistas''', que também são numerosos e respeitados, também ganham relevância progressivamente. A psicologia tipicamente alemã, a da '''Gestalt''', havia imigrado para os EUA, onde teve uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã. '''Perspectivas fenomenológicas''' ganham força junto de abordagens mais holísticas e, apesar de sua relevância, a psicologia alemã ainda busca um retorno à glória de seu passado. | ||
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à '''psicanálise''', ironicamente com destaque para a linhagem lacaniana, que tem origem francesa. A distância entre Alemanha e o Brasil se devem às dificuldades do idioma e à distância cultural, que atrapalharam a circulação das ideias daquele país no Brasil. | Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à '''psicanálise''', ironicamente com destaque para a linhagem [[Lacan|lacaniana]], que tem origem francesa. A distância entre Alemanha e o Brasil se devem às dificuldades do idioma e à distância cultural, que atrapalharam a circulação das ideias daquele país no Brasil. | ||
== A psicologia na Rússia == | == A psicologia na Rússia == | ||