Este é um texto didático de autoria de André Elias Morelli Ribeiro para a disciplina História da Psicologia, do curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.
Funcionalismo
O funcionalismo constitui um movimento de pensadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao estruturalismo (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao atomismo e ao mecanicismo. O movimento migra para a Europa ainda no final do mesmo século, com a circulação das ideias de William James, James Angell, James Baldwin, John Dewey, entre outros, e tem impacto significativo em pensadores do velho continente, que aplicam modificações e adaptações às linhas de pensamento europeias.
A unidade do movimento pode ser observada pela perspectiva compartilhada de que a mente desempenha um papel crucial no processo evolutivo dos seres humanos e, consequentemente, na adaptação ao meio ambiente. Diferentemente do estruturalismo, que se concentrava em repartir a mente em seus elementos constituintes (estruturas), o funcionalismo voltou seu foco para os processos psicológicos em termos de sua utilidade, propósito e operação. No geral, a visão funcionalista enxerga e interpreta os processos psicológicos a partir de sua função ou, grosso modo, a partir de perguntas pragmáticas como: "para que isso serve?", "por que o sujeito fez/pensou isso?" ou, no geral, “qual é a utilidade adaptativa de tal comportamento ou processo mental?”.
Com o objetivo de conferir um embasamento científico ao seu construto teórico, a base do funcionalismo encontra-se parcialmente alicerçada nas teorias evolutivas, as quais postulam que os seres vivos se encontram em incessante transformação e adaptação. Sob essa ótica, a mente opera como parte integrante desse processo adaptativo, provendo recursos para que os organismos possam transformar o meio ambiente enquanto são, por sua vez, transformados por ele. Os processos mentais seriam como os órgãos e as partes do corpo. Cada um tem a sua função e seu funcionamento próprio que, isolados, não são muito capazes, mas, num conjunto, funcionam de forma ordenada e ordenadora da experiência humana.
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada escola funcionalista. As teorias evolutivas têm relevância central, visto que a mente é o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada escola funcionalista. As teorias evolutivas têm relevância central, visto que a mente é o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza.
As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu
Como vimos na seção anterior, o funcionalismo como um movimento transatlântico se inicia nos EUA mas chega à Europa, onde se transforma e adquire características próprias, mas ambos compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.
No funcionalismo americano, o foco recai sobre os processos adaptativos comportamentais. Os fenômenos mentais e comportamentais são vistos como operações destinadas à sobrevivência. A consciência não é uma coisa por si, mas um órgão seletivo que ajuda o organismo a se adaptar ao meio. Comportamentos, tal qual fenômenos mentais como a consciência, não são meros movimentos, eles são operações. A consciência, por exemplo, é concebida como uma operação que atua na seleção e autorregulação das táticas comportamentais visando à adaptação. Para entender essas operações, é preciso identificar o interesse subjacente a elas. Essa identificação dos interesses constitui a análise funcional dos processos psicológicos e comportamentais.
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o pragmatismo, uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de Wundt e seus seguidores.
Já o funcionalismo europeu, apesar de compartilhar vários aspectos do seu colega americano, apresenta importantes diferenças. Em primeiro lugar, existem três linhagens do funcionalismo europeu. Primeiro, o da etologia, com foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de matriz psicanalítica, que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem matriz genético-funcional, ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa.
O funcionalismo europeu continental (excluindo a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui estágios evolutivos. O pensamento europeu, nesse sentido, compreende que, assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo análogo. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.
Os europeus do continente também decidiram não seguir com a proposta dualista de Galton, conhecida como natureza vs. cultura. É um debate que busca entender de onde vem a psicologia humana, ou seja, se nascemos com nossa psicologia ou se a adquirimos conforme envelhecemos. A proposição do funcionalismo europeu é o chamada interacionismo, que entende que, na verdade, trata-se da mistura dos dois. Por um lado, nascemos com uma certa capacidade de desenvolvimento e de aprendizagem, definida pela espécie, mas que só ocorre conforme interagimos com o meio.
Um passeio por psicologias europeias
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia.
Nestes três casos, é importante destacar que, nestes três casos, não se deve limitar a criação e circulação de ideias psicológicas apenas com questões geográficas, mas também culturais e de influência. A psicologia francesa estava em diálogo com países francófonos (como Bélgica e Suíça), a Alemanha com países da influência cultural gemânica (como Polônia, Suíça e Áustria) e a Rússia é, na verdade, a grande representante dos países eslavos.
A psicologia na Itália teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo. Ademais, muitas vezes manuais portugueses e espanhois circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, ideias não eslavas do leste europeu e dos países nórdicos, devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções passageiras em livros e manuais importados da Europa e EUA.
A psicologia na França
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes.
A primeira foi aquela desenvolvida na Salpetrière. Fundada em 1656 por decreto de Luís XIV, o hospital Pitié-Salpêtrière foi originalmente construído no prédio de uma antiga fábrica de pólvora, com o objetivo de abrigar um grande encarceramento. Prostitutas, mendigos, alcoolistas, órfãos, entre outros indesejados da sociedade eram agrupados no local.
No final do século XVIII, Philippe Pinel foi nomeado médico-chefe da instituição e introduziu o tratamento moral, defendendo que os alienados mentais eram doentes que precisavam de cuidados médicos e compaixão. As políticas e ideias de Pinel e, posteriormente, Esquirol, influenciaram de forma decisiva a psicologia e psiquiatria em várias partes do mundo.
O hospital viveu sua era de ouro durante a administração do polêmico médico Jean-Martin Charcot, já no século XIX. Ele conduziu a Salpetrière como um "museu patológico vivo", principalmente durante a chamada Grande Histeria. A histeria era uma doença considerada misteriosa na época. Sintomas como paralisias parciais, cegueira temporária, surdez temporária, entre outros, eram comuns e associados a conflitos psicológicos. Ela apresentava manifestações tanto físicas quanto psicológicas, e nenhum tratamento na época parecia ter efeito, nem nenhuma explicação parecia fazer sentido, principalmente devido à concepção dominante à época da total separação entre mente e corpo.
Nesse contexto, Charcot passou a empregar a hipnose, uma técnica controversa que havia ressurgido no Ocidente após o mesmerismo, para examinar e tratar pacientes histéricas. Suas demonstrações atraíam grandes públicos de toda a Europa. Ele selecionava uma paciente com um sintoma importante, a hipnotizava e, em seguida, demonstrava que, sob o transe hipnótico, o sintoma histérico desaparecia temporariamente, retornando logo depois. Freud estava entre os observadores dessas controversas sessões de Charcot, entre muitos outros nomes importantes para o século XX. Alguns interpretavam que as demonstrações de Charcot na Salpetrière eram uma prova da origem inconsciente da histeria. Contudo, o próprio Charcot sustentava que a histeria era, na verdade, uma degeneração hereditária do sistema nervoso. De qualquer forma, a hipnose surgia no horizonte dos estudos psiquiátricos e psicológicos, da mesma forma que o inconsciente passou a ser um problema científico.
O auge de Charcot na Salpetriêre caiu graças à Escola de Nancy, um grupo de médicos radicados numa faculdade de medicina na cidade de Nancy, demonstrou, em 1882, que os fenômenos de melhora descritos por Charcot eram falsos e fruto de mera sugestão inconsciente. Bernheim, Liégeois e Beaunis trabalharam intensamente para mostrar que a histeria era um problema psicológico e que a hipnose não era um tratamento eficaz, o que trouxe um certo descrédito para a linhagem psicológica da Salpetrière. Contudo, ela deixou marcas importantes para a compreensão do psíquico, principalmente pela abertura ao estudo do inconsciente, do próprio uso da hipnose e do estudo dos estados patológicos.
Uma segunda linha foi desenvolvida na Universidade Sorbonne, em Paris. Ela foi fundada em 1253 e, durante séculos, foi o epicentro das discussões religiosas na Europa. A universidade ficou fechada durante a Revolução Francesa e renasceu em 1806, sob o comando de Napoleão Bonaparte. O líder da França implementou uma série de reformas na educação superior, com inspiração na educação da Prússia.
Durante o período da Restauração, a Sorbonne ficou fortemente enviesada pelo cousinismo, um movimento filosófico monarquista liderado por Victor Cousin. Ele acreditava que nenhuma escola filosófica detinha a verdade completa, mas que todas possuíam uma parcela de verdade. Sua proposta era selecionar os melhores elementos de cada sistema e superar a chamada “era das escolas”. Cousin usou de suas habilidades políticas e de sua força perante a nobreza para colocar seus seguidores nas melhores posições da educação francesa, o que incluía a Sorbonne. Neste sistema, uma psicologia experimental não tinha lugar, o que paralisou a psicologia experimental mas trouxe muitos ganhos numa psicologia filosófica, que influenciou os pensadores franceses posteriores. Com a instituição da Terceira República Francesa, o cousinismo começa a entrar em sua longa decadência.
Neste ínterim, a psicologia experimental francesa persistia graças ao professor francês de filosofia Théodule Ribot, que não era cousinista e fora sabotado por isso. Ele era um estudioso do movimento da psicologia científica da Alemanha, publicando a tese A Psicologia Inglesa Contemporânea e, posteriormente, A Psicologia Alemã Contemporânea, também de grande sucesso. Ele pressionava o novo governo republicano a criar uma cadeira de Psicologia na Sorbonne que incorporasse as tendências da nova ciência, entendendo que a França estava ficando atrasada no movimento de criar essa nova ciência.
A pressão funcionou e a cadeira foi criada em 1881, dentro da Escola Prática de Altos Estudos. Contudo, quem assumiu o posto foi Jules Soury, que era amigo do ministro da educação e mais interessado em história da psicologia do que na psicologia contemporânea. Uma segunda cadeira foi criada em 1884 e dada a Louis Liard, que era um defensor da psicologia experimental e que promovia cursos abertos oferecidos por Ribot. Em 1898, uma terceira cadeira é criada e dada para Pierre Janet.
A terceira linha de psicologia na França é a do Collège de France. Fundado em 1530 pelo rei Francisco I a pedido do filósofo humanista Guilherme Budé, o Collège nasceu como uma resposta à rigidez da Sorbonne, que focava apenas em dogmas religiosos. O Collège de France, originalmente chamado de Collège Royal, foi criado para ensinar disciplinas consideradas inferiores na época, como línguas, matemática e filosofia não religiosa.
Diferente das universidades, o Collège não tem alunos matriculados, exames nem emite diplomas. Sua missão é ensinar abertamente o conhecimento que está em processo de criação, o que atraiu as mentes mais brilhantes de cada época e transformou a instituição em um termômetro da inovação científica e intelectual da França. Trabalharam lá personagens como Claude Bernard (maior fisiologista da história), Champollion (decifrador da escrita egípcia), Fernando Henrique Cardoso (sociólogo e presidente do Brasil), Michel Foucault (filósofo do século XX), Roland Barthes (linguista), entre outros.
Em 1887, Renan, administrador do Collège, criou a cadeira de Psicologia Experimental e Comparada, devido à pressão do Ministério da Educação. Após uma disputa política, Ribot foi indicado para a cadeira, que assumiu em 1888. Ribot não apenas assumiu o posto, ele também atuou na criação de periódicos, na promoção de cursos, entre outras ações que ajudaram na consolidação da psicologia científica na França.
Os franceses criaram seu primeiro laboratório em 1889, quando Henri-Étienne Beaunis, um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo Alfred Binet como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história.
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões, muitas vezes indiretas, mas significativas, com o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. Os personagens centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX.
A figura de Jean-Martin Charcot e seus estudos na Salpêtrière sobre a histeria e a hipnose tiveram um impacto importante na psiquiatria brasileira que, na virada do século, era fortemente influenciada pela escola francesa. Isso pode ser observado nos títulos de hospitais e pavilhões homenageando médicos franceses pelo país.
Apesar de Théodule Ribot não ter trazido nenhum impacto relevante para o Brasil, Alfred Binet, teve um papel fundamental. Sua psicologia experimental, com seu foco em métodos científicos e modelos de avaliação e testagem da criança, foi o modelo que o Brasil buscou importar para estabelecer a disciplina como ciência. A criação do primeiro laboratório de psicologia no Brasil, no Pedagogium do Rio de Janeiro, 1904, por Manuel Bomfim, seguiu a inspiração direta de Binet.
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de Pierre Janet, que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud, sua relevância parece ser sido esquecida.
A psicologia na Alemanha
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceu na Alemanha, com as ideias de Christian Wolff. A tradição de interesse em psicologia alemã foi coroada por lá florescer o marco simbólico da criação da psicologia não só na Alemanha, mas no mundo, foi a fundação do laboratório de Wilhelm Wundt em Leipzig, em 1879, o que gerou avanços e debates pelo país. O país cria uma linhagem de psicologia aplicada dentro do exército.
Após a Primeira Guerra Mundial, a psicologia alemã entrou em um período de consolidação institucional, mas de profunda fragmentação teórica, conhecido como a "crise da psicologia", com o surgimento de várias escolas, como a Gestalt. Surge também, dentro do exército, uma psicotécnica ou psicologia aplicada, que favoreceu o surgimento de um corpo profissional.
O período nazista marcou um crescimento sem precedentes da psicologia no país. Durante este momento, as escolas rivais uniram-se em torno de um paradigma comum: o diagnóstico caracterológico. Em vez de focar em funções isoladas, os psicólogos enfatizavam qualidades holísticas da personalidade (Ganzheit), utilizando métodos intuitivos e situacionais para, por exemplo, selecionar oficiais para o exército.
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a influência americana começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. O mesmo ocorre com pensadores marxistas, que também são numerosos e respeitados. A psicologia tipicamente alemã, a da Gestalt, havia imigrado para os EUA, onde teve uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã. Perspectivas fenomenológicas ganham força junto de abordagens mais holísticas e, apesar de sua relevância, a psicologia alemã ainda busca um retorno à glória de seu passado.
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à psicanálise, ironicamente com destaque para a linhagem lacaniana, que tem origem francesa. A distância entre Alemanha e o Brasil se devem às dificuldades do idioma e à distância cultural, que atrapalharam a circulação das ideias daquele país no Brasil.
A psicologia na Rússia
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente alemã, e associou-se fortemente à fisiologia, na composição da sua própria teoria, a reflexologia. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi Séchenov, um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo.
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de Ivan Pavlov. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma teoria sobre reflexos condicionados. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra Bechterev.
Antigo aluno de Wundt e Charcot, Bechterev aprofunda os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de reflexo associado, uma versão motora do reflexo condicionado de Pavlov. Sua ênfase nos reflexos motores se diferenciava dos reflexos glandulares de Pavlov (salivação). Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia.
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi Lev Semenovich Vygotsky, um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua teoria histórico-cultural. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. Pode-se dizer que esta é, atualmente, a linhagem dominante neste campo específico.
Outro nome importante é o de Sergei Rubinstein, conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um sujeito que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico.
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de Aleksei N. Leontiev e Aleksandr Luria, que desenvolveram a Teoria da Atividade ou Teoria da Atividade Sócio-Cultural. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias a ser desenvolvida e aplicada em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecida internacionalmente como uma importante contribuição da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador.
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky praticamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento.
A reflexologia em si teve pouca circulação no Brasil, porém Pavlov é um nome quase unanimemente citado em todos os cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Praticamente não existem estudantes de psicologia que jamais ouviram falar de seu nome, e a maioria dos estudantes das licenciaturas também conhecem ao menos fragmentos de sua história. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro.
A Escola de Genebra
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada “Escola de Genebra”, uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas que ocorreram na cidade de Genebra. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre por que o país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente diferentes, o que demanda um estudo por região, e não olhando o país como um todo.
Um exemplo é o que se poderia falar de Escola de Zurique, que estava próxima tanto da psicanálise junguiana quanto de um experimentalismo inspirado no de Wundt. Zurique desenvolveu importantes centros de estudo de psiquiatria e psicologia, o que atriu muitas das melhores mentes em ambas as áreas.
Na Basileia, uma cidade Suíça entre a fronteira com a Alemanha e a França, a psicologia trazia uma mistura de linha alemã com toques do pensamento francês. Lausanne e Neuchâtel, por seu lado, olhavam para o principal centro francófono da psicologia, Genebra, mantendo fortes vínculos com o epicentro da psicologia da região. Há poucas informações sobre a psicologia em outros cantões e cidades da Suíça.
Nesta seção, serão apresentadas informações sobre a formação da Suíça e a história da cidade e cantão de Genebra para, em seguida apresentar a história da Escola de Genebra. Instituições e autores específicos vinculados a esta Escola serão mais longamente trabalhados, bem como suas conexões que mantém com a formação da psicologia brasileira.
Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra
Genebra é uma cidade na Suíça, um pequeno país na Europa Central. Por séculos, foi uma cidade-estado próxima dos Alpes Suíços, cercada por quase todos os lados pela poderosa França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão. A Suíça é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria.
A união que configura a Suíça se deve a um motivo simples: sozinhas, as cidades são frágeis e cercadas por alguns dos maiores impérios da Europa. Unificadas, podem obter diferentes vantagens, incluindo proteção militar e desenvolvimento social e econômico mútuos. Contudo, esta união não é simples. Cada cidade-estado, agora chamadas de cantões, tem acentuadas peculiaridades históricas, políticas, econômicas, culturais e sociais, de modo que a construção do país se deu por meio de uma longa tradição de negociação política, com séculos de tradição. Hoje identificada por alguns de seus produtos, como chocolates, relógios, bancos e o turismo nos Alpes, a Suíça é, na verdade, uma complicada teia de relações entre pequenos e orgulhosos países unidos em torno de uma necessidade comum de desenvolvimento e segurança, cercada de potências militares e econômicas.
A cidade e o Cantão de Genebra certamente têm suas peculiaridades. Ela pertence à chamada Suíça Romanda, a parte da Suíça identificada culturalmente com a França e falante do idioma francês. Ademais, Genebra é uma cidade protestante, cujos líderes foram convertidos pelo próprio reformador João Calvino em 1536, quando expulsaram o bispo de Genebra e converteram a Catedral de Saint-Pierre em uma igreja calvinista. A Suíça é um país dividido entre católicos e protestantes, e Genebra é um dos epicentros globais do protestantismo, sendo um elemento central tanto de sua identidade cultural e política quanto filosófica.
A cidade ficou muito rica ao atrair banqueiros judeus de Veneza e Milão, que eram perseguidos pelo Papa e que haviam financiado grande parte dos empreendimentos vinculado à Rota da Seda. Com o desenvolvimento econômico, a cidade fortaleceu seu protestantismo e seu sentimento de destino, pois parte da doutrina calvinista indica que a prosperidade econômica é um sinal de Deus na vida do fiel.
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram um humanismo social, onde a ação direta de seus cidadãos deve ser direcionada para os pobres, doentes, desvalidos, entre outros. A cidade recebeu, em diferentes momentos, grupos minoritários perseguidos, doentes e vítimas de guerras, entre muitos migrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação da Cruz Vermelha, bem como do Direito Internacional Humanitário, que levou a diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, entre outras atitudes humanitárias internacionais que tiveram origem ou forte desenvolvimento na região. Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial.
História da psicologia em Genebra
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um dos chamados sábios da cidade, Théodore Flournoy. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido um treinamento para aprender alguns dos experimentos de Helmholtz. Ele tinha algum conhecimento do que viria a ser inserido como parte da psicologia, como experimentos na psicofísica e na fisiologia. Apesar de praticante de algumas coisas e interessado no assunto, trata-se de uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos relacionados à psicofísica e à psicologia na Universidade de Genebra com seus alunos, ou mesmo no salão de sua casa, com convidados, sem grandes aspirações.
O cenário começa a mudar em 1889, quando Flournoy participa do Congresso de Psicologia em Paris e, com a experiência com o que viu na cidade, decide trazer a nova ciência para Genebra, colocando-a no mapa do nascimento da nova ciência. Seu modelo de laboratório foi o de Hugo Münsterberg, um psicólogo alemão que havia estudado com Wundt mas, por discordâncias, criou o próprio laboratório como um dissidente do mestre. Münsterberg fez todo tipo de indicação a Flournoy, desde quais os instrumentos mais importantes e onde comprá-los, os livros mais relevantes, entre outros. Além disso, Flournoy viaja para encontrar Münsterberg e aprender com o amigo, onde pega orientações prática e começa a desenhar o que seria o seu laboratório.
Inicialmente, o futuro psicólogo compra os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois são adquirido pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta.
O Instituto Jean-Jacques Rousseau
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra, mas o que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico Édouard Claparède, que decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”.
Claparède, embora conhecido na Suíça, ainda tinha um alcance limitado. Ele ganharia fama internacional apenas em 1909, quando publica Psicologia da Criança e Pedagogia Experimental. Na obra, Claparède defende que o modelo tradicional de educação desconsiderava as necessidades e características infantis, impondo conteúdos sem relação com os interesses da criança. Esta, na visão do pensador, era um ser ativo, curioso, em constante processo de adaptação ao seu meio, que precisava ser transformado e adaptado visando o seu desenvolvimento. Defende então que a educação precisa ser baseada no conhecimento sobre a criança que a psicologia poderia ajudar a proporcionar. A escola seria um laboratório de experiências, onde são testadas práticas pedagógicas fundamentadas na psicologia com eficácia comprovada.
O livro foi um sucesso imediato e colocou Claparède como um dos protagonistas do movimento da Escola Nova ou Escola Ativa, que pretendia utilizar métodos educacionais que não apenas ensinassem os conteúdos tradicionais, mas que também pudessem atuar no desenvolvimento intelectual, moral e social do aluno, colocando-o no centro do processo educativo. A proposta, inspirada, entre outros, no filósofo nascido em Genebra Jean-Jacques Rousseau (que dá nome à instituição), era dar protagonismo ao aluno, ao entender as peculiaridades e funcionalidades da mente infantil.
Usando de seu prestígio internacional e dentro da própria cidade, Claparède se alia a outro pensador da educação e da psicologia genebrina, Pierre Bovet, para criar o Instituto Jean-Jacques Rousseau. Após obter financiamento público e privado, o espaço é inaugurado em 1912, com cursos de psicologia experimental e pedagogia experimental. A instituição, composta como uma sociedade anônima para manter sua autonomia, adotou o lema Discat a puero magister (Que o mestre aprenda com a criança).
Para colocar a teoria desenvolvida no Instituto em prática, além de realizar e testar pesquisas, o Instituto criou escolas de aplicação. A mais famosa foi a Maison des Petits, uma escola do que seria equivalente ao primeiro ciclo, fundada em 1913. Ela tornou-se um laboratório vivo sob a direção de Mina Audemars e Louise Lafendel. Lá, as crianças tinham grande liberdade, utilizando materiais pedagógicos inovadores, inspirados em diferentes reformadores da educação, como Montessori e Decroly, mas adaptados pelo próprio Instituto. Outras escolas de aplicação construídas foram a Maison des Grands e a Escola Töpffer, que visavam estender os métodos ativos ao ensino secundário, mas dificuldades financeiras levaram ao encerramento do projeto entre 1920-1921. As escolas serviram amplamente para o estudo de técnicas educacionais e como laboratório de psicologia.
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da Fundação Rockefeller permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, disseminando os ideais da Escola Ativa em nível global.
Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes necessidades, cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo. Assim, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria entender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. A questão pode ser compreendida, de forma geral, se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa.
Destes princípios advém o que Claparède chamou de Lei do interesse. Nessa lei, as necessidades precisam ser convertidas em condutas ou comportamentos para que a necessidade possa ser satisfeita, o que ocorre em nível psicológico. Dessa forma, o interesse é o princípio fundamental da atividade mental. Ele traduz a necessidade em um fim psicológico, colocando o indivíduo como agente ativo de sua própria conduta. O interesse expressa também a ligação de entre o indivíduo e o objeto que, em determinado momento, o interessa, ou seja, é significativo para ele. Não se trata de uma característica intrínseca das coisas, mas de uma relação que surge quando essas mesmas coisas se conectam a uma necessidade. Assim, algo só se torna interessante na medida em que pode orientar a conduta do sujeito na direção que lhe é relevante.
Conectadas necessidades, interesses e objetos, tem-se que o desenvolvimento da vida mental depende da distância entre as necessidades e os recursos disponíveis para atendê-las. Quando essa distância é inexistente, como acontece nos processos automáticos de respiração, reflexos pupilares, tosse, espirro, secreções, entre outros, não há esforço mental envolvido. As condutas necessárias para satisfazer essas necessidades acontecem de forma automática. Já quando a diferença entre o interesse e o objeto é grande, como acontece quando estamos com fome, por exemplo, ela impulsiona os indivíduos a criar coisas, como instrumentos de caça, a pesca e até a agricultura. Desse modo, a atividade mental se amplia de forma significativa. É o que Claparède chama de Lei da extensão da vida mental. Em outras palavras, o desenvolvimento da vida mental é proporcional à distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la. Quanto maior o desafio, maior a atividade mental.
A lei da extensão da vida mental traz como consequência a Lei da tomada de consciência, e ela está diretamente conectada à familiaridade dos problemas. Quanto menos familiar, mais rapidamente o indivíduo se dá conta dele e recorre à consciência para buscar uma solução. O contrário também é verdadeiro, ou seja, quanto mais conhecido for o problema e quanto mais sua solução depender de automatismos já adquiridos (como o respirar ou mesmo comportamentos já bem estabelecidos), menor será a necessidade de recorrer à consciência. Esse modelo também foi adotado pelos funcionalistas norte-americanos. Em outras palavras, problemas novos ou pouco familiares exigem consciência. Já problemas rotineiros podem ser resolvidos por automatismos.
Em suma, o funcionalismo de Claparède oferece uma perspectiva que prioriza a utilidade e a função dos fenômenos psicológicos na adaptação do organismo ao ambiente, destacando que toda atividade mental visa a satisfação de necessidades internas. Este arcabouço teórico se organiza em torno de três leis centrais: a Lei do interesse, que estabelece o interesse como a tradução psicológica das necessidades em condutas; a Lei da extensão da vida mental, que postula o desenvolvimento mental como proporcional ao desafio apresentado pela distância entre a necessidade e os meios disponíveis para satisfazê-la; e a Lei da tomada de consciência, que reserva a consciência para a resolução de problemas novos e não familiares, deixando os automatismos a cargo das questões rotineiras. Dessa forma, Claparède constrói um modelo dinâmico onde a mente é um agente ativo, impulsionado por suas necessidades e constantemente moldado por sua interação adaptativa com o mundo.
Claparède teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes.
O IJJR e o Brasil
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro Francisco Lins, que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos Alberto Alvares, Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que nesta visita o Brasil foi colocado como um destino possível de pessoas formadas em Genebra.
Um grupo de médicos brasileiros esteve no Instituto em 1928, incluindo Flávio Dias, Artur Fajardo da Silveira, Antônio Moniz de Aragão e Nilton Campos. Este último viria a ter um papel chave na criação da psicologia brasileira, depois que obteve a cátedra de Psicologia da Faculdade Nacional de Filosofia, em 1948, atuando no estabelecimento de uma psicologia científica no país. Empresta hoje nome ao prédio onde funciona o Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Outro nome de destaque é o de Laura Jacobina Lacombe, que esteve no Instituto em 1924. Era uma representante da Escola Nova no Rio de Janeiro, onde gerenciava uma escola e praticava muitas das ideias de seu mestre, Édouard Claparède. Destaca-se também Lourenço Filho, o célebre educador brasileiro com uma atuação nacional decisiva e relevante para o desenvolvimento da educação no nosso país. Além disso, Lourenço Filho também trabalhou para o desenvolvimento da psicologia no Brasil, escrevendo livros, dando cursos, publicando nos jornais e ocupando cargos importantes na administração pública, tanto federal como na época das então províncias, facilitando a conexão entre a psicologia e a educação e o desenvolvimento da própria psicologia brasileira.
O IJJR também enviou pessoas de outras nacionalidades que colaboraram para a formação da psicologia brasileira. Delas, a mais importante é Helena Antipoff, uma psicóloga e educadora de origem russa. Em 1929, Antipoff foi convidada pelo governo de Minas Gerais para implementar a Reforma de Ensino no estado. Ela se estabeleceu em Belo Horizonte, onde fundou a Escola de Aperfeiçoamento, além de uma escola rural, laboratórios, conduziu experimentos, escreveu materiais, livros e artigos e teve uma atuação prática articulada e decisiva com os seus mestres de Genebra. Seu acervo, hoje na Universidade Federal de Minas Gerais, é guardado pelo Centro de Documentação e Pesquisa Helena Antipoff, um dos primeiros grupos organizados do Brasil a estudar a história da psicologia no país.
Outro nome importante é o de Waclaw Radecki, um psicólogo polonês, ex-assistente de Claparède e colega de Piaget em Genebra. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu em 1924 a chefia do Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro, com recursos da Fundação Graffée Guinle. Seu laboratório era anexo à Colônia e os dados obtidos no contato clínico com os doentes era utilizado nas discussões dos casos do grupo de médicos e psiquiatras do local. Além disso, Radecki também tentou organizar o que pode ser o primeiro curso de psicologia do Brasil, visando formar assistentes para o seu laboratório, mas sem sucesso. Ele também produziu um sistema próprio, o discriminacionismo afetivo, que tomou forma final no Brasil e que pode ser uma das primeiras teorias psicológicas criadas no país. O laboratório que dirigiu, após algumas transformações, deu origem ao Instituto de Psicologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é Mariana Schryer. Psicóloga formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento da perseguição aos judeus. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história ainda é pouco conhecida.
Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra
A Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède, que o expande e funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa com uma perspectiva de aliança entre educação e psicologia. Contudo, o grande nome de Genebra, que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de Jean William Fritz Piaget.
Piaget nasceu em Neuchâtel, Suíça, em 1896 e obteve seu doutorado em zoologia em 1918, quando ainda contava com 21 anos de idade. Após um período de estudos em Zurique e em Paris, onde foi aluno de vários dos principais nomes da lógica, psiquiatria e psicologia franceses, ele foi convidado por Édouard Claparède a se integrar ao Instituto Jean-Jacques Rousseau, na condição de chefe do laboratório de psicologia, em 1922. Em 1923, publica A Linguagem e o Pensamento na Criança e, no ano seguinte, O Raciocínio na Criança, obras que o elevam à fama na Europa.
Com a publicação de A Representação do Mundo na Criança, de 1926, Piaget marca a formalização de seu método, chamado de método clínico que, depois e em parceria com Barbel Inhelder, evolui para o método clínico-crítico. As obras A Causalidade Física na Criança (1927) e O Juízo Moral na Criança (1932) marcam o desenvolvimento de seu método e o amadurecimento de sua teoria.
Sua rica obra atinge um novo patamar com a publicação de O Nascimento da Inteligência na Criança, de 1936, onde desenvolve técnicas de análise do desenvolvimento cognitico de bebês a partir de experimentos e observações que conduziu com seus próprios filhos. O livro marca o estabelecimento da Epistemologia Genética, onde afirma claramente que a inteligência é uma ferramenta de adaptação do sujeito ao meio e que a cognição é uma extensão do real. É nessa obra que ele amadurece a noção de esquema e a de estrutura, que caracterizarão sua teoria até o final de sua vida.
Em 1948, o Instituto Jean-Jacques Rousseau se torna Instituto de Ciências da Educação, mantendo uma interface entre a faculdade de Letras e a de Ciências. Este é um momento em que Piaget exerce imensa influência sobre a instituição, dando sua orientação e atuando diretamente na contratação de professores, na organização de currículos, entre outros. Foi nesse período, sob a liderança de Jean Piaget, que o prestígio da instituição explodiu globalmente, consolidando a Escola de Genebra como o epicentro da psicologia genética e do desenvolvimento, rivalizando com Harvard. Em 1975, a instituição se torna a Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação (FPSE), formato que tem até hoje.
Em 1955, Piaget funda o Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG), um centro multidisciplinar de estudos que atraiu centenas de pesquisadores e algumas das mentes mais brilhantes do século XX. A grande inovação do CIEG era o seu método de trabalho. Todos os anos, Piaget selecionava um tema central como, por exemplo: "o tempo", "a causalidade" ou "a contradição", e convidava os maiores nomes do mundo para debatê-lo. A cada ano, Piaget e seus colaboradores escreviam relatórios sobre os debates conduzidos naquele período, sintetizando avançadas discussçoes interdisciplinares. O Centro funcionou até a morte de Piaget, em 1980.
No cerne da teoria piagetiana está o conceito de adaptação, composto por dois processos complementares: assimilação e acomodação. A assimilação refere-se à incorporação de novos estímulos ambientais aos esquemas cognitivos existentes, utilizando-os como ferramenta para interpretar a realidade. Já a acomodação ocorre quando o esquema é modificado para se ajustar a elementos novos do meio que resistem à assimilação, promovendo reorganização cognitiva. Esses mecanismos funcionam como funções biológicas primordiais, herdadas da evolução, que visam restaurar o equilíbrio cognitivo, estado em que o organismo atinge harmonia entre suas estruturas internas e as demandas externas. Para Piaget, o desenvolvimento não é mera acumulação de conhecimento, mas uma autorregulação funcional que permite ao sujeito interagir de forma eficaz com o mundo.
Ademais, Piaget adota uma abordagem genético-funcional, influenciada por funcionalistas americanos e europeus, que vê o conhecimento como resultado de funções biológicas aplicadas à epistemologia. Diferente do behaviorismo, que reduz o funcionalismo ao esquema estímulo-resposta, Piaget enfatiza funções internas (maturação) em relação complexa com extrnas (experiência social e física), construindo esquemas como conceitos práticos generalizáveis. Sua epistemologia genética afirma um sujeito ativo na construção do conhecimento, mas sempre orientado por funções adaptativas.
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo.
Piaget e o Brasil
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. Uma lista completa é praticamente impossível de elaborar, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira, uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e André Rey em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, Terezinha Rey, uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget.
Destaca-se também Zélia Ramozzi-Chiarottino. Professora da USP, estudou em Genebra e na França, participando de pesquisas, assistindo a aulas com Piaget e sendo convidada por Bärbel Inhelder para reuniões no Centro Internacional de Epistemologia Genética (CIEG). Ela fundou o primeiro laboratório de epistemologia genética do Brasil e formou gerações de psicólogos piagetianos na América Latina.
No sul do país, onde existe um importante núcleo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, se destaca o nome de Léa da Cruz Fagundes, que viajou a Genebra, onde discutiu sua dissertação com Bärbel Inhelder e conheceu Emília Ferreiro. Fernando Becker é outro nome relevante da região, ainda atuante na disseminação das ideias do mestre de Genebra.
Já Luci Banks-Leite é uma pesquisadora com formação em Genebra, teve seus experimentos usados pelo próprio Piaget, com quem manteve contato por muitos anos. O médico argentino Antonio Maria Battro, que fez doutorado na França, estagiou no Centro Internacional de Epistemologia Genética a convite do próprio Piaget, que se impressionou com seus estudos. Battro foi o principal responsável por fundar os Grupos de Estudos Cognitivos (GRECs) no Brasil a partir de 1973, e teve influência decisiva na difusão das ideias de Piaget no Brasil.
Por fim, destaca-se o casal Emília Ferreiro e Rolando Garcia. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. Ferreiro defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já Rolando Garcia foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser amigo pessoal de Piaget.
O BIE
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma instância internacional voltada para a educação e a infância. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha.
Como não conseguiram o apoio imediato e o financiamento da Liga das Nações para construir o projeto, os fundadores agiram estrategicamente, utilizando o próprio IJJR, alegando que, graças ao instituto, o BIE já existia “na prática”. Além disso, fizeram lobby em redes de solidariedade intelectual e diplomática, incluindo com brasileiros, buscando contatos informais com delegados internacionais, visando obter apoio junto aos governos de países do mundo todo.
Em 1929, o BIE passou por uma transformação crucial ao se tornar uma organização intergovernamental, sendo a primeira desse tipo no campo da educação. Foi nesse período que Jean Piaget assumiu a direção, liderando a instituição por quatro décadas, de 1929 a 1968, junto de Pedro Rosselò, que administrava tudo na prática. Foram eles quem implementaram sua missão, que seria a "ascensão do individual ao universal". Essa máxima refletia a crença de que, através da observação científica, da coleta de dados comparativos e da colaboração recíproca entre nações, seria possível definir métodos pedagógicos universais que respeitassem a especificidade da criança e promovessem a paz.
As Conferências Internacionais sobre Educação Pública (ICPEs), organizadas anualmente a partir de 1934, tornaram-se o palco dessa busca, onde governos eram convidados a discutir e, idealmente, adotar recomendações comuns. A pressão dos dirigentes do BIE, suas visitas a países no mundo todo, entre outras ações, levaram várias nações a implementarem sistemas de educação públicos, ministérios da educação, divisões de pesquisa educacionais, entre outros. Mesmo no Brasil estas pressões surtiram efeito e, apesar de o país só integrar formalmente o BIE nos anos 1960, foi um participante ativo de várias de suas iniciativas e foi bastante influencido por suas políticas e propostas.
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na internacionalização do funcionalismo europeu, servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global.
Considerações finais
O funcionalismo, tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos.
A investigação do funcionalismo europeu nos levou a um "passeio" por importantes centros de produção psicológica no continente. Na França, a psicologia floresceu na Salpêtrière, na Sorbonne, e no Collège de France, com Ribot a cátedra de Psicologia Experimental e Comparada. A influência francesa, particularmente de Charcot, Binet e Pierre Janet, foi notável no Brasil, moldando a psiquiatria e servindo de modelo para o estabelecimento da psicologia experimental no início do século XX.
Na Alemanha, após o apogeu de Wilhelm Wundt, a psicologia viveu uma crise de fragmentação. O período nazista impôs uma unificação controversa em torno do diagnóstico caracterológico e da visão holística da personalidade (Ganzheit). Após a Segunda Guerra, a psicologia alemã foi marcada pela influência americana e marxista, bem como pela dificuldade de rearticulação de suas escolas, como a Gestalt. No Brasil, a influência alemã se concentrou principalmente na psicanálise e em alguns debates sobre a fenomenologia, mas as barreiras linguísticas e culturais limitaram a circulação de outras ideias.
A psicologia na Rússia associou-se fortemente à fisiologia, culminando na reflexologia, impulsionada por Séchenov e atingindo o auge com Pavlov. Após a Revolução de 1917, a psicologia soviética abraçou o marxismo, destacando-se Lev Semenovich Vygotsky com sua teoria histórico-cultural e com o conceito de Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), que teve um impacto transformador na educação brasileira a partir dos anos 1990. Sergei Rubinstein e, posteriormente, Leontiev e Luria, com a Teoria da Atividade, também consolidaram a contribuição russa marxista, embora estas vertentes tenham menor circulação no Brasil do que Vygotsky.
Finalmente, a Escola de Genebra tornou-se o epicentro da matriz genético-funcional. A fundação do Instituto Jean-Jacques Rousseau (IJJR) em 1912 marcou a consolidação dessa visão, abraçando a Escola Nova. O IJJR manteve uma conexão intensa com o Brasil, de onde recebeu e para onde enviou muitos educadores e psicólogos. O auge de Genebra veio com Jean Piaget, que criou o método clínico-crítico e estabeleceu a Epistemologia Genética. A influência de Piaget no Brasil foi monumental e diversificada, atraindo figuras diversas. O Bureau International d’Éducation teve um papel decisivo na educação global e na difusão das ideias do funcionalismo europeu.
Em suma, o funcionalismo europeu não foi um bloco homogêneo, mas uma tapeçaria rica de abordagens que, partindo da premissa da função adaptativa da mente, gerou escolas com profundas ramificações na psiquiatria, na psicologia experimental e, crucialmente, na educação, com a Escola de Genebra se tornando um farol de inovação. As conexões com o Brasil, seja pela importação de modelos, seja pela formação de lideranças, foram decisivas para a institucionalização e a definição da identidade da psicologia e da pedagogia brasileiras ao longo do século XX.
Links
Laboratório de Psicologia da Colônia de Psicopatas de Engenho de Dentro
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