O seguinte verbete foi publicado originalmente na Enciclopédia Stanford de Filosofia, em: Goodman, Russell, "William James", The Stanford Encyclopedia of Philosophy (Winter 2017 Edition), Edward N. Zalta (ed.)<https://plato.stanford.edu/archives/win2017/entries/james/>. Esta tradução trata-se de uma versão arquivada do original, e não de sua versão mais recente.
William James foi um pensador nas disciplinas de fisiologia, psicologia e filosofia. Sua obra de 1200 páginas “The Principles Of Psychology” [Princípios de Psicologia] (1890), é uma rica mistura de fisiologia, psicologia e fisiologia e uma reflexão pessoal que nos deu conceitos como o “fluxo de pensamento” e a percepção infantil do mundo "como um grande florescer, confusão de zunidos” (p. 462). Contém as sementes do pragmatismo e da fenomenologia, e influenciou gerações de pensadores nos Estados Unidos e Europa, incluindo Edmund Husserl, Bertrand Russell, John Dewey, e Ludwig Wittgenstein. James estudou na Faculdade Científica Lawrence e na Escola de Medicina, ambas de Harvard, mas sua escrita desde o princípio era conectada tanto à filosofia quanto à ciência. “Some Remarks on Spencer’s Notion of Mind as Correspondence” [Algumas Observações na Noção de Spencer de Mente como Correspondência] (1878) e “The Sentiment of Rationality” [O Sentimento de Racionalidade] (1879, 1882) precedem seu futuro pragmatismo e pluralismo, e contém os primeiros indícios de sua visão de que as teorias filosóficas são reflexos do temperamento de um filósofo.
James sugere suas preocupações religiosas nos seus primeiros ensaios em “The Principles”, porém eles se tornam mais explícitos em “The Will to Believe and Other Essays in Popular Philosophy” (1897) [A Vontade de Acreditar e Outros Ensaios em Filosofia Popular], “Human Immortality: two supposed objections to the doctrine” [Imortalidade Humana: dois supostos objetos para a doutrina] (1898), “The Varieties of Religious Experience” [As Variedades da Experiência Religiosa] (1902) e “A Pluralistic Universe” [Um Universo Plural] (1909). James oscilava entre pensar que um “estudo da natureza humana” assim como em “Varieties” poderia contribuir para uma ciência da religião e a crença de que a experiência religiosa envolve uma experiência sobrenatural dominante, inacessível pela ciência, mas acessível para o sujeito individual.
James fez algumas das mais importantes contribuições filosóficas na última década de sua vida. Em uma explosão de escritos em 1904-5 (coletados em “Essays in Radical Empiricism” [Ensaios em Empirismo Radical] (1912) ele expôs uma visão metafísica mais conhecida como “monismo neutro”, corrente que aponta a existência de uma coisa fundamental que não é nem material, nem mental. Em “A Pluralistic Universe” [Um Universo Plural] ele defende uma visão mística e anti-pragmatista, na qual os conceitos distorcem em vez de revelar a realidade, e em seu influente “Pragmatism” [Pragmatismo] (1907), ele apresenta sistematicamente um conjunto de ideias sobre verdade, conhecimento, realidade, religião e filosofia que permeia seus escritos do final dos anos de 1870 em diante.
1. Cronologia da vida de James
- 1842. Nasce em Nova Iorque, o primeiro filho de Henry James e Mary Walsh James. Educado por tutores e em escolas privadas em Nova Iorque.
- 1843. Nascimento de seu irmão Henry.
- 1848. Nascimento de sua irmã Alice.
- 1855-8. A família se muda para a Europa. William frequenta uma escola em Genebra, Paris e, em Boulogne-sur-Mer; desenvolve interesse em pintura e ciência.
- 1858. A família instala-se em Newport, Rhode Island, onde James estudou pintura com William Hunt.
- 1859-60. A família instala-se em Genebra, onde William estudou ciência na Genebra Academy; depois retorna a Newport quando decide que deseja retomar seus estudos de pintura.
- 1861. William abandona a pintura e entra na Faculdade Científica Lawrence na Universidade de Harvard
- 1864. Entra na Faculdade de Medicina de Harvard. Junta-se a uma expedição na Amazônia, organizada por seu professor, Louis Agassiz, na qual contrai uma forma leve de varíola, se recupera e viaja pela Amazônia, coletando espécimes para o Museu de Zoologia de Harvard, de Agassiz.
- 1866. Retorna para a Faculdade de Medicina. Sofre de cansaço ocular, problemas nas costas, depressão e pensamentos suicidas no outono.
- 1867-8: Viaja para a Europa por motivos de saúde e educação: Dresden, Bad Teplitz, Berlin, Genebra, Paris. Estudou na Universidade de Berlin, lê sobre filosofia, fisiologia e psicologia (Wundt, Kant, Lessing, Goethe, Schiller, Renan, Renouvier).
- 1869. Recebe um diploma em M.D, mas nunca pratica. Depressão severa no outono.
- 1870-1. Continuidade do caso de depressão e saúde frágil.
- 1872. Aceita a oferta do Presidente de Harvard, Eliot, para ensinar um curso de graduação em fisiologia comparativa.
- 1873. Aceita uma nomeação para ensinar anatomia e fisiologia por um ano completo, mas adia lecionar para passar um ano viajando pela Europa.
- 1874-5. Começa a lecionar psicologia; estabelece o primeiro laboratório de psicologia americano.
- 1878. Casa-se com Alice Howe Gibbins. Publica “Some Remarks on Spencer’s Notion of Mind as Correspondence” [Algumas Observações na Noção de Spencer de Mente como Correspondência] no Journal of Speculative Philosophy.
- 1879. Publica “The Sentiment of Rationality” [O Sentimento de Racionalidade] na Mind.
- 1880. É nomeado professor assistente de filosofia em Harvard. Continua a lecionar psicologia.
- 1882. Viaja para a Europa. Conhece Ewald Hering, Carl Stumpf, Ernst Mach, Wilhelm Wundt, Joseph Delboeuf, Jean Charcot, George Croom Robertson, Shadworth Hodgson, Leslie Stephen.
- 1884. Conferências sobre "The Dilemma of Determinism” [O Dilema do Determinismo] e publica “On Some Omissions of Introspective Psychology” [Sobre Algumas Omissões da Psicologia Introspectiva] na Mind.
- 1885-92. Ensina filosofia e psicologia em Harvard: lógica, ética, filosofia empírica inglesa, pesquisa psicológica.
- 1890. Publica “The Principles of Psychology” [Princípios de Psicologia] com Henry Holt, de Boston, doze anos após concordar em escrever.
- 1892. Publica “Psychology: briefer course” [Psicologia: um curso breve] com Henry Holt.
- 1897 Publica “The Will to Believe and Other Essays in Popular Philosophy” (1897) [A Vontade de Acreditar e Outros Ensaios em Filosofia Popular], junto a Longmans, Green e Co. Conferências sobre "Human Immortality” [Imortalidade Humana] (publicada em 1898).
- 1898. Se identifica como um pragmatista em “Philosophical Conceptions and Practical Results” [Concepções Filosóficas e Resultados Práticos], ministrado na Universidade da Califórnia, Berkeley. Desenvolve problemas de coração.
- 1899 publica “Talks to Teachers on Psychology and to Students on Some of Life’s Ideals” [Conversas com Professores Sobre Psicologia e com Estudantes sobre Alguns Ideais de Vida] (incluindo “On a Certain Blindness in Human Beings” “On a Certain Blindness in Human Beings” [Sobre uma Certa Cegueira em Seres Humanos] e “What Makes Life Worth Living?” [O Que Faz a Vida Valer a Pena ser Vivida?]) com Henry Holt. Tornou-se um membro ativo da Anti-Imperialist League, oposição das políticas americanas nas Filipinas.
- 1901-2. Ministra na Gifford Lectures sobre “The Varieties of Religious Experience” [As Variedades da Experiência Religiosa], em Edinburgh (publicada em 1902)
- 1904-5. Publica “Does Consciousness Exist?” [A Consciência Existe?], “A World of Pure Experience” [Um Mundo de Pura Experiência], “How Two Minds Can Know the Same Thing” [Como Duas Mentes Podem Saber a Mesma Coisa?], “Is Radical Empiricism Solipsistic?” [O Empirismo Radical é Solipsista?] e “The Place of Affectional Facts in a World of Pure Experience” [O Lugar dos Fatos Afetivos em um Mundo de Pura Experiência], todos no Journal of Philosophy, Psychology and Scientific Methods. Todos foram republicados em “Essays in Radical Empiricism” [Ensaios sobre empirismo radical] (1912).
- 1907. Renuncia à carreira de professor em Harvard. Publica “Pragmatism: a new name for some old ways of thinking” [Pragmatismo: um novo nome para algumas formas antigas de pensar], com Longmans, Green & Co, baseado em palestras dadas em Boston e em Colúmbia.
- 1909. Publica “A Pluralistic Universe” [Um Universo Plural], com Longmans, Green e Co., baseado nas Hibbert Lectures ministradas na Inglaterra e em Harvard no ano anterior.
- 1910 Publica “A Pluralistic Mystic” [Uma Mística Pluralista] no Hibbert Journal. Abandona a tentativa de completar um sistema filosófico. (Seu manuscrito parcial foi publicado postumamente como "Some Problems of Philosophy" [Alguns Problemas da Filosofia]. Morreu de problemas no coração na casa de verão em Chocorua, New Hampshire.
2. Primeiros Escritos
2.1 Remarks on Spencer´s Definition of Mind as Correspondence (1878)
Embora ele fosse oficialmente um professor de psicologia quando publicou esta obra, a discussão de James sobre Herbert Spencer traz temas característicos de sua filosofia: a importância da religião e das paixões, a variedade de respostas humanas sobre a vida, e a ideia de que nós ajudamos a “criar” a verdade que “registramos” (E 21). Valendo-se do ponto de vista de Spencer, para quem o ajuste do organismo ao ambiente é uma característica básica da evolução mental, James acusa Spencer de projetar sua própria visão sobre o que deveria estar nos fenômenos que ele diz descrever. O filósofo assegura que a sobrevivência, é somente um dos inúmeros interesses dos seres humanos: “As afeições sociais, todas as variadas formas de jogo, as emocionantes insinuações das artes, os prazeres da contemplação filosófica, o resto da emoção religiosa, a alegria da autoaprovação moral, o encanto da fantasia e da sagacidade - alguns ou todos são requisitos para fazer a mera noção de existência tolerável;...” (E13). James sustenta que todos nós somos, na base, criaturas teleológicas, cada um com um conjunto de valores e categorias a priori. Spencer “apenas toma partido pelo telos que ele acaba preferindo” (E 18).
O empirismo característico de James se faz presente na sua acusação que valoriza e categoriza o combate no curso da experiência humana, e que seus conflitos “só podem ser resolvidos ambulando, e não por nenhuma definição a priori” A “fórmula que prova ter o destino mais massificado” ele conclui “será a verdadeira” (E17). Mesmo assim, James desejava defender seu senso de que qualquer formulação como essa será determinada como um ato livre da mente humana pelo mundo, uma posição que depois (em “Pragmatism”) ele chama de “humanismo”: “Pertence à mente, desde seu nascimento, uma espontaneidade, um voto. Está no jogo, e não um mero espectador; e seus juízos sobre o dever-ser, seus ideais, não podem ser arrancados do corpo do cogitandum como se fossem excrescências…” (E 21).
2.2 The Sentiment of Rationality (1879, 1882)
A substância desse ensaio foi publicada primeiramente na Mind em 1879 e na Princeton Review em 1882, e depois republicado em “The Will to Believe and Other Essays in Popular Philosophy” [A Vontade de Acreditar e Outros Ensaios em Filosofia Popular] em 1897. Mesmo que ele nunca tenha dito especificamente que a racionalidade é um sentimento, James aponta que o sentimento - melhor dizendo, um conjunto de sentimentos - é uma “marca” da racionalidade. O filósofo, James escreve, irá reconhecer a racionalidade de uma concepção “como ele reconhece todo o resto, por certas marcas subjetivas com aquilo que o afeta. Quando ele adquire a marca, ele poderá saber que tem a racionalidade”. Essas marcas incluem “um sentimento forte de facilidade, paz e descanso” (WB 57), e um “sentimento de suficiência do momento presente, de sua qualidade absoluta” (WB 58). Também existe a “paixão pela parcimônia” (WB 58) que é sentir-se na apreensão das unificações teóricas, bem como uma paixão por distinguir, uma “lealdade à clareza e integridade da percepção, um desgosto por contornos borrados, por identificações vagas” (WB 59). O filósofo ideal, James aponta, mistura essas duas paixões da racionalidade, e mesmo alguns grandes filósofos vão longe demais em uma ou em outra direção: a unidade de Spinoza de todas as coisas em uma substância é “estéril”, assim como a “frouxidão e separação de tudo” de Hume (WB 60).
Sentimentos de racionalidade operam não somente na lógica ou na ciência, mas na vida comum. Quando nós entramos pela primeira vez em um cômodo, por exemplo, “nós não sabemos quais correntes de ar podem soprar em nossas costas, quais portas podem se abrir, quais formas podem entrar, quais objetos interessantes podem ser achados nos cantos.” Essas incertezas menores agem como “irritações mentais” que desaparecem conforme nos familiarizamos com o quarto, e nos “sentimos em casa” (WB 67-8).
James começa a segunda parte deste ensaio considerando o caso em que “duas concepções são igualmente adequadas para satisfazer a demanda lógica” por fluência ou unificação. Nesse ponto, sustenta, deve considerar um componente “prático” da racionalidade. O conceito que “desperta o impulso ativo, ou satisfaz outra demanda estética melhor que a outra, será considerada como uma concepção mais racional, e irá permanecer merecidamente” (WB 66). James coloca este ponto tanto como de psicologia - uma previsão do que ocorrerá - como de julgamento, pois ele sustenta que irá prevalecer “merecidamente.”
Como no seu ensaio sobre Spencer, James explora as relações entre temperamentos e teorias filosóficas. O idealismo, assegura, “será escolhido por um homem de uma constituição emocional, o materialismo, por outro.” O idealismo oferece um senso de intimidade com o universo, o sentimento que enfim eu “sou tudo.” Mas materialistas acham no idealismo uma “atmosfera estreita, fechada e doente” e preferem conceber um incerto, um perigoso e selvagem universo que “não tem respeito pelo nosso ego”. Deixem "as marés fluírem", pensa o materialista, "ainda que fluam sobre nós" (BM 76). James simpatiza tanto com a ideia de que o universo é algo com o que se pode ser íntimo quanto com a ideia de que o universo é selvagem e imprevisível. Se ele critica o idealismo por seu “ar doente”, James critica formas reducionistas de materialismo por negar “nossos maiores poderes íntimos... toda a relevância nos casos universais” (WB 71). A intimidade e a selvageria retratadas nessas filosofias contrastantes respondem às paixões, propensões e poderes nos seres humanos, e a “contenda” dessas duas formas de “temperamento mental”, James prevê, sempre se verá na filosofia (WB 76). Certamente, ela sempre é vista na filosofia de William James.
3. The Principles of Psychology
Em 1878, James concordou em escrever um livro texto de psicologia para o editor americano Henry Holt, mas demorou doze anos para produzir o manuscrito e, quando pronto, o descreveu para Hold como “uma massa repugnante, distendida, intumescida, inchada e hidrópica, que atesta apenas dois fatos: 1º, que não existe ciência da psicologia, e 2º, que W. J. era um incapaz” (“The Letters of William James” [As Cartas de William James], ed. Henry James. Boston: Little, Brown, 1926, p. 393–4). Todavia, essas milhares de páginas de psicologia, fisiologia e filosofia provaram ser sua obra-prima, contendo posições de suas ideias filosóficas dominantes em capítulos ricos, com tópicos como “The Stream of Thought,” [O Fluxo de Pensamento], “The Consciousness of Self” [A Consciência de Si], “Emotion” [Emoção], “Will” [Vontade], entre muitos outros.
James nos diz que, em “The Principles”, ele seguirá o método psicológico da introspecção, que ele define como “olhar a nossa própria mente e reportar aquilo que nela descobrirmos” (PP 185). Na realidade, ele usa um certo número de diferentes abordagens metodológicas no livro. Inicialmente, ele inclui capítulos sobre “The Functions of the Brain” [As Funções do Cérebro] e “On Some General Conditions of Brain Activity” [Sobre Algumas Condições Gerais da Atividade Cerebral, que refletem seus anos lecionando anatomia e fisiologia em Harvard, e ele defende a tese reducionista e materialista de que o hábito é “no fundo, um princípio físico” (PP 110). Conforme o livro segue, ele se envolve em discussões com filósofos – como, por exemplo, Hume e Kant no seu capítulo de cem páginas sobre o self, e se encontra fazendo afirmações metafísicas que antecipam seu pragmatismo quando ele escreve: “não existe propriedade ABSOLUTAMENTE essencial para qualquer coisa. A mesma propriedade que figura como essencial de uma coisa em uma ocasião, torna-se uma característica bastante não essencial na outra” (PP 959).
Até mesmo “introspecção” cobre uma gama de relatos. James discute os experimentos que seus contemporâneos Wundt, Stumpf e Fechner conduziram em seus laboratórios, que os levaram para resultados como "os sons são menos delicadamente discriminados em intensidade do que as luzes" (PP 513). Porém, várias das observações mais importantes e memoráveis sobre introspecção vem de sua própria vida. Por exemplo:
O ritmo de uma última palavra pode estar lá sem um som para fechá-la… Todos devem conhecer o efeito tentador do ritmo vazio de algum verso esquecido, dançando sem descanso na mente, esforçando-se para ser preenchido com palavras (PP 244).
Nosso pai e mãe, filhos e esposa, são ossos de nossos ossos e carne da nossa carne. Quando eles morrem, uma parte de nós se vai. Se fazem algo errado, é nossa vergonha. Se insultados, nossa raiva surge tão rapidamente como se nós estivéssemos no lugar deles. (PP 280).
Existe uma excitação durante o ataque de choro que não é isenta de um prazer em si mesma; mas seria preciso um gênio de felicidade para descobrir qualquer pitada de qualidade redentora no sentimento de tristeza seca e encolhida (PP 1061).
“Você vai ou não vai querer isso?" é a pergunta mais avaliadora que já nos é feita; perguntam-nos todas as horas do dia, e sobre as menores e maiores coisas, as mais teóricas e mais práticas. Nós respondemos com consentir ou não consentir, e não por meio de palavras. Que maravilha que essas respostas estúpidas pareçam nossos órgãos mais profundos de comunicação com a natureza das coisas! (PP 1182).
Nessa última citação, James analisa um problema filosófico por uma perspectiva psicológica. Embora ele se abstenha de responder à pergunta se essas “respostas” são, de fato, órgãos profundos de comunicação com a natureza das coisas – relatando apenas que elas nos parecem ser assim – em seus escritos posteriores, como “The Varieties of Religious Experience” [As Variedades da Experiência Religiosa] e “A Pluralistic Universe” [Um Universo Plural], ele confessa, e em algum grau defende sua crença de que a questão deve ser respondida afirmativamente.
No seu famoso capítulo “The Stream of Thought” [O Fluxo de Consciência], James se leva a oferecer um relato de experiência mais rico do que o de empiristas tradicionais como Hume. Ele acredita que as relações, os limites vagos e as tendências são experimentadas diretamente (um ponto de vista que ele posteriormente defende como parte de seu “empirismo radical”). James acredita na consciência como um fluxo, e não como uma sucessão de ideias. Suas águas se misturam, e nossa consciência individual – ou, como ele prefere denominar algumas vezes, nossa senciência - é “mergulhada e pintada” nas águas da senciência ou pensamento que a cerca. Nossa vida física possui um ritmo: é uma série de transições e locais de descanso, de “voos e poleiros” (PP 236). Nós descansamos quando lembramos o nome que estávamos procurando; e ligamos novamente quando ouvimos um som que pode ser um bebê acordando de seu sono.
O interesse - e seu parente próximo, a atenção - é um grande componente não só para a psicologia de James, mas para epistemologia e metafísica que emergem em suas discussões. A coisa, James assegura em “The Stream of Thought” [O Fluxo da Consciência] é um grupo de qualidades “que acontecem praticamente ou esteticamente para nos interessar, aos quais nós damos nomes substantivos...” (PP 274). E realidade “significa simplesmente relacionar-se com nossa vida ativa e emocional… qualquer coisa que estimula nosso interesse é real” (PP 924). Nossa capacidade de dar mais atenção a uma coisa do que a outra para James é o sinal de um “elemento ativo em toda a consciência... uma coisa espiritual… que parece sair para entrar em contato com essas qualidades e conteúdos, enquanto eles parecem sair para recebê-la” (PP 285). Diante da tensão entre determinismo científico e nossa crença em nossa própria autonomia e liberdade, James - falando não como psicólogo, mas como um filósofo que ele se tornou - argumenta que a ciência “deve ser um constantemente lembrada de que seus propósitos não são os únicos, e que a ordem de causalidade uniforme para a qual ela tem uso e, portanto, tem razão em postular, pode ser envolta em uma ordem mais ampla, sobre a qual ela não tem nenhuma pretensão" (PP 1179).
Em sua discussão sobre consciência, James parece ser um materialista, um dualista, um proto-fenomenologista, e um psicólogo neutro que não ousaria considerar perguntas filosóficas. Uma das camadas mais originais de “The Principles” está na busca de uma descrição “pura” do estado do fluxo de consciência que não pressupõe que seja mental ou material, uma busca que antecipa não somente seu futuro “empirismo radical”, mas a fenomenologia de Husserl. No capítulo “Sensation” [Sensação], por exemplo, James expressa dificuldade em negar que sensações estão “na mente” e depois “por um ato especial de nossa parte 'extraditado' ou 'projetado' para aparecer localizado em um mundo exterior" (PP 678). Ele argumenta que nossas experiências originais são objetivas, que “só quando o reflexo começa a se desenvolver nós começamos a ficar cientes do mundo interior” (PP 679). Entretanto, o mundo objetivo originalmente experimentado não é um mundo de relações espaciais que pensamos:
Certamente uma criança nascida em Boston, que recebe a sensação da chama de uma vela que ilumina o quarto, ou do prendedor de sua fralda não sente nenhum desses objetos situados na longitude 71W. e latitude 42N… A chama preenche seu próprio lugar, a dor preenche seu próprio lugar; mas até agora esses lugares não foram identificados, não foram discernidos de outros lugares. Isso vem depois. Os lugares conhecidos inicialmente pelos sentidos são elementos do espaço-mundo da criança que permanecem com ela por toda a sua vida. (PP 681-2).
O capítulo de James “Habit” [Hábito], no começo do livro, inicia com a ideia de hábito como uma característica física, mas termina considerando suas implicações éticas. James argumenta que as leis da natureza são, elas próprias, hábitos, “nada além de hábitos imutáveis que diferenciam classificações elementares de matérias seguindo suas ações e reações umas sobre as outras” (PP 109). No nosso cérebro, hábitos são caminhos de energia nervosa, como os rios e correntes são o caminho do fluxo da água. No âmbito da pele, até uma cicatriz é um tipo de hábito, “mais provável de ser abrasada, inflamada, sofrer frio e dor, do que as partes vizinhas” (PP 111). No nível psicológico também, “qualquer sequência de ações mentais que são frequentemente repetidas, tendem a se perpetuar…” (PP 116). Hábitos são úteis para diminuir a atenção que nós damos aos nossos atos, com isso nos permitindo desenvolver “nossos poderes superiores da mente” (PP 126). No nível social, o hábito “é o enorme volante da sociedade, o agente conservador mais precioso. Por si só é o que mantém todos no limite da ordem, e salva as crianças ricas das revoltas invejosas dos pobres” (PP 125). As “implicações éticas da lei do hábito” (PP124), como James as vê, referem-se a quais hábitos são escolhidos para serem desenvolvidos, e quando. Muitos hábitos devem começar cedo na vida: “Quase nunca uma língua aprendida depois dos vinte é falada sem sotaque estrangeiro” (PP 126). Nós deveríamos lutar para fazer com que nosso sistema “nervoso seja nosso aliado, não um inimigo”, formando a maior quantidade de bons hábitos possível, o mais cedo possível. Mesmo em idades mais avançadas, temos que manter nossa capacidade de resistência em forma para a cada dia fazer “algo que não tenha outro intuito além de ser uma coisa a qual você prefira não fazer” (PP 130).
Dois capítulos notáveis em “The Principles” são “The Emotions” [As Emoções] e “Will” [Vontade]. A primeira define a teoria - também enunciada pelo fisiologista dinamarquês Carl Lange - que emoções seguem, mais do que causas, sua expressão corporal: “O senso comum diz, nós perdemos nossa fortuna, nos arrependemos e choramos; nós encontramos um urso, ficamos apavorados e corremos; somos insultados por um rival, ficamos irritados e atacamos. As hipóteses aqui defendidas dizem que a ordem dessa sequência está incorreta… que nós nos arrependemos porque choramos, ficamos bravos porque atacamos, com medo porque trememos…” (PP 1065-6). O significado desse ponto de vista, de acordo com James, é que nossas emoções estão conectadas com nossa expressão corporal. O que, ele pergunta, seria o luto “sem suas lágrimas, seus soluços, a dor no coração, sua dor no esterno?” Não uma emoção, James responde, porque uma “uma emoção puramente separada do corpo não é uma entidade” (PP 1068).
No seu capítulo “Will” [Vontade], James opõe-se à teoria de seu contemporâneo Wilhelm Wundt, para quem existe um sentimento especial - um “sentimento de inervação” - presente em todas as ações intencionais. Em sua pesquisa sobre uma série de casos, James descobre que algumas atividades envolvem um ato de saída de energia nervosa, mas outros não. Por exemplo:
Eu me sento em uma mesa depois do jantar e me vejo de tempos em tempos pegando nozes ou passas do prato e as comendo. Meu jantar propriamente dito acabou, e no calor da conversa eu mal percebo o que faço; porém a percepção da fruta, e a ligeira percepção que eu talvez a coma, parecem fatalmente provocar o ato. Certamente não há vontade que impele a fazer [express fiat] isso… (PP 1131).
O capítulo “Will” [Vontade] também contém passagens marcantes que antecipam as preocupações de “The Varieties of Religious Experience” [As Variedades da Experiência Religiosa]: sobre humores, “mudanças no coração” e “despertar da consciência”. Esses, James observa, podem afetar “toda a escala de valores nossos motivos e impulsos” (PP 1140).
4. Ensaios sobre Filosofia Popular
A influente e popular obra “The Will to Believe and Other Essays in Popular Philosophy” [A Vontade de Acreditar e Outros Ensaios em Filosofia Popular], publicado em 1897, contém trabalhos dos dezenove anos anteriores, incluindo “The Sentiment of Rationality” [O Sentimento de Racionalidade], “The Dilemma of Determinism” [O Dilema do Determininsmo], “Great Men and Their Environment” [Grandes Homens e seus Ambientes] e “The Moral Philosopher and the Moral Life” [O Filósofo Moral e a Vida Moral]. O ensaio título - publicado dois anos antes - provou ser controverso por parecer recomendar crenças irresponsáveis ou irracionalmente sustentadas. Posteriormente, James escreveu que ele deveria ter chamado o estudo de “The Right to Belive” [O Direito de Acreditar], para indicar seu intuito de justificar a manutenção da crença em certas circunstâncias, não alegando que podemos (ou devemos) acreditar nas coisas simplesmente por um ato de vontade.
Na ciência, James aponta que podemos aguardar o resultado da investigação antes de chegar a uma conclusão, mas em outros casos somos “forçados” a confiar mesmo se nem todos os aspectos relevantes estão disponíveis. Se eu estou em uma trilha nas montanhas e me deparo com um trecho com gelo beirando um penhasco, e não sei se consigo passar, sou forçado a considerar se consigo ou devo acreditar que consigo atravessar. Essa questão não é só forçada, mas “momentânea”: se estou errado posso cair e morrer, e se acredito fielmente que sou capaz de atravessar, minha crença pode contribuir para meu sucesso. Nesse caso, James assegura, eu tenho o “direito de acreditar” - precisamente porque essa crença pode me ajudar. Este é um caso “onde um fato não pode ocorrer a menos que exista uma fé anterior” (WB, 25).
James aplica sua análise nas crenças religiosas, particularmente no caso em que a salvação do ser depende da crença em Deus, sem possuir nenhuma prova de que Deus exista. Nesse caso, a crença pode ser justificada pelo resultado ao qual a crença leva. Ele estende sua análise para além do campo religioso, numa ampla gama da vida secular humana:
Um organismo social de qualquer tipo é o que é pois, cada membro cumpre com o seu dever com a confiança de que os outros estão fazendo sua parte… Um governo, um exército, um sistema comercial, um navio, uma faculdade, um time esportivo, todos existem sob essa condição, sem isso nada seria obtido, pois nada nem mesmo seria tentado (WB 24).
Questões morais também são momentâneas e improváveis de serem sustentadas por “provas sensíveis”. Elas não são questões científicas, mas “o que Pascal chama de nosso coração” (WB 22). James defende nosso direito de acreditar em certas respostas para essas questões.
Outro trabalho da coleção, “Reflex Action and Theism” [Ação Reflexa e Teísmo], engloba uma reconciliação entre ciência e religião. A expressão “ação reflexa” de James faz alusão ao cenário biológico do organismo reagindo a sensações com uma série de ações. Em animais mais evoluídos, um estágio teórico ou de pensamento intervém entre sensação e ação, e nesse momento, em seres humanos, o pensamento de Deus surge. James assegura que esse pensamento é uma resposta humana natural ao universo, independentemente de qualquer prova de que Deus exista, e ele prevê que Deus será o “centro de todas as tentativas de resolver o enigma da vida” (WB, 116). Ele termina o ensaio defendendo um “teísmo” que postula “uma “uma opacidade nas coisas, uma dimensão do ser que escapa ao nosso controle teórico” (WB 143).
“The Will to Believe” [A Vontade de Crer] também contempla o mais desenvolvido relato de moralidade de James, “The Moral Philosopher and the Moral Life” [O Filósofo Moral e a Vida Moral]. A moralidade para James repousa na senciência - sem ela não existem acusações ou obrigações morais. Porém, assim que a senciência existe, uma reivindicação é feita e a moralidade ganha “uma âncora no universo” (WB 198). Embora James insista que não existe uma essência comum para a moralidade, ele encontra um princípio que serve de guia para filosofias éticas em um princípio que nos “satisfazemos todas as vezes o máximo de demandas que pudermos” (WB 205). Essa satisfação é atingida trabalhando em direção a “um universo mais rico… o bem que parece mais organizado, que melhor encaixe para combinações complexas, mais apto para ser um membro de um todo mais inclusivo” (WB 210). Esse trabalho procede uma série de experimentos, por meio dos quais aprendemos a viver (em sua maioria) sem “poligamia e escravidão, guerra privada e liberdade para matar, tortura judicial e poder real arbitrário.” (WB 205). Entretanto, James assegura que “não há nada definitivo em qualquer equilíbrio dos ideais humanos, de modo que como nossas leis atuais e costumes lutaram e conquistaram outras passadas, por sua vez serão descartadas por qualquer nova descoberta que abafará questionamentos, sem produzir outros ainda mais fortes” (WB 206).
O ensaio de James, “On a Certain Blindness in Human Beings” [Sobre uma Certa Cegueira nos Seres Humanos], publicado em seu livro “Talks to Teachers on Psychology and to Students on Some of Life’s Ideals” [Conversas com Professores Sobre Psicologia e com Estudantes sobre Alguns Ideais de Vida] de 1899, ilustra outro elemento importante de sua visão moral. A cegueira a qual James se atenta é aquela de um humano para o outro, uma cegueira que ele ilustra com uma história de sua própria vida. Cavalgando nas montanhas da Carolina do Norte, ele se depara com uma paisagem devastada, sem árvores, cicatrizes na terra, um pouco de milho crescendo aqui e ali sob a luz do sol. Porém depois de conversar com os colonos que limparam a floresta para construir sua fazenda, James começou a olhar com os olhos deles (pelo menos temporariamente): não como um lugar devastado, mas uma manifestação de “dever, luta e sucesso”. E conclui: “Eu estava cego diante da peculiaridade de suas condições, assim como eles pela minha, e eles tiverem uma amostra de minhas estranhas maneiras acadêmicas vindas da vida em Cambridge” (TT 233-4). James retrata uma pluralidade de visões no ensaio, ao qual ele atribui uma importância metafísica, epistemológica e ética. Sobre essa pluralidade, ele escreve:
nos exige tolerar, respeitar e permitir naqueles em quem vemos um interesse e felicidade inofensivos à sua própria maneira, mesmo que pareça impossível, para nós, entender. Não interfira: nem a total verdade ou todo o bem é revelado a um único observador, embora cada observador ganhe uma superioridade parcial de uma visão clara da posição peculiar onde ele se encontra. Até mesmo prisioneiros e doentes acamados tem suas revelações especiais (TT 264).
Embora “On a Certain Blindness” seja sobre tolerar e apreciar diferentes pontos de vista, James estabelece seu próprio ponto de vista romântico na sua escolha de heróis em seu trabalho: Wordsworth e Shelley, Emerson, e W. H. Hudson, todos aqueles que se diz terem um senso do “significado limitado das coisas naturais” (TT 244). Mesmo na cidade, onde há "significado e importância insondáveis” (TT 254) nos eventos cotidianos nas ruas, rios e multidões. James louva Walt Whitman, um “velho vadio” por saber como lucrar com as oportunidades comuns da vida: depois de uma manhã escrevendo e um banho, Whitman anda de ônibus Broadway da 23rd Street até Bowling Green e vice-versa, somente pelo prazer de fazê-lo. “Quem sabe a maior das verdades?”, James pergunta, Whitman em seu ônibus, cheio de alegria que o inspira, ou você, cheio de desdém com a excitação fútil de sua ocupação?” (TT 252). O interesse de James na vida interior dos outros, e em escritores como Tolstoy com quem compartilha seu entendimento dos “fluxos e refluxos misteriosos” (TT 255), leva ele para o prolongado estudo da experiência religiosa humana, a qual ele apresenta na Gifford Lectures em 1901-2, publicadas em “The Varieties of Religious Experience” [As Variedades da Experiência Religiosa] em 1902.
5. The Varieties of Religious Experience
Assim como em “The Principles of Psychology” [Princípios de Psicologia], “Varieties” é um “estudo da natureza humana”, como o subtítulo demonstra. Porém, cerca de 500 páginas são apenas metade da dimensão de “The Principles of Psychology” [Princípios de Psicologia], condizente com seu escopo mais restrito, embora seja mais abrangente. Para os estudos de James, essa parte da natureza humana é, ou se relaciona com a experiência religiosa. Seu interesse não é em instituições religiosas, rituais ou até mesmo ideias religiosas, mas sim em “sentimentos, atos e experiências de indivíduos em sua solidão, até o momento em que eles se aprisionam em uma relação com qualquer coisa que possam considerar divina” (V 31).
James estabelece uma distinção central nos primeiros capítulos do livro em “The Religion of Healthy-Mindedness” [A Religião da Mente Saudável] e “The Sick Soul” [A Alma Doente]. Pessoas religiosas com a mente saudável – sendo Walt Whitman como um dos maiores exemplos - detém um profundo senso de bondade da vida (V 79) e uma alma “pintada de azul celestial” (V 80). Mentes saudáveis podem ser involuntárias, naturais a alguém, mas normalmente aparecem de maneiras mais intencionais. O cristianismo liberal, por exemplo, representa o triunfo de uma devoção de uma mente saudável, ao contrário de uma mórbida “velha teologia do fogo do inferno” (V 91). James também cita o “movimento de cura mental” de Mary Baker Eddy, para quem “o mal é simplesmente uma mentira, e qualquer um que o mencione é um mentiroso” (V 107). Em “The Sick Soul” [A Alma Doente], por outro lado, “o mal radical ganha um lugar” (V 163). Não importa quão seguros se sintam, a alma doente encontra naquilo “insuspeitadamente escondido no fundo de cada fonte de prazer, como um velho poeta disse, alguma mágoa antiga: um toque de náusea, uma queda morta prazer, um aroma de melancolia…” Esses estados não são simplesmente sensações desagradáveis, pois para eles trazem uma “sensação de virem de uma região mais profunda e regularmente tem terrível convencimento” (V 136). Os maiores exemplos de James são Minha Confissão, de Leo Tolstoy, a autobiografia de John Bunyan e um relatório de um terrível pavor - supostamente de um correspondente francês, mas na verdade de obra do próprio James. Algumas almas doentes nunca ficam bem, enquanto outras se recuperam ou até triunfam, esses são os “renascidos”. Nos capítulos “The Divided Self, and the Process of Its Unification” [O Eu Dividido e o Processo de sua Unificação] e em “Conversion” [Conversão], James discute Santo Agostinho, Henry Alline, Bunyan, Tolstoy, e uma gama de evangelistas populares, focando no que ele chama de “o estado de garantia” (V 247), que eles atingiram. No centro desse estado está “a perda de toda a preocupação, o senso de que tudo está bem, a paz, a harmonia, a vontade de ser, mesmo que as condições externas sigam as mesmas” (V 248).
O clássico capítulo de “Varieties” denominado “Mysticism” [Misticismo] oferece “quatro marcas, que quando presentes em uma experiência, a podem qualificar como mística…” (V 380). A primeira é ser inefável: “desafia a expressão… sua qualidade precisa ser diretamente experienciada; não pode ser transferida para outros.” A segunda é uma “qualidade noética”: estados místicos se apresentam como estados de conhecimento. Terceira, estados místicos são transitórios; e por fim os sujeitos são passivos em relação a eles: não podem controlar suas vindas e idas. Esses estados são, James termina o capítulo questionando, “janelas pelas quais a mente olha para um mundo mais extenso e inclusivo?” (V 428).
No capítulo intitulado “Philosophy” [Filosofia] - voltado em grande parte ao pragmatismo - e “Conclusions” [Conclusões], James acredita que a experiência religiosa é, em geral, útil, mesmo “dentre as mais importantes funções biológicas dos homens”, mas ele concede crédito à ideia de que isso não faz com que a experiência seja verdadeira. Todavia, James articula sua própria crença - a qual ele não pretende provar - que a experiência religiosa nos conecta com uma realidade melhor, ou mais distante, não acessível nas nossas relações cognitivas no mundo: “Os limites mais profundos do nosso ser, parece para mim, mergulham em uma dimensão diferente da existência sensível e meramente ‘compreensível’ do mundo” (V 515).
6. Escritos tardios
Pragmatism (1907)
O primeiro anúncio do comprometimento de James ao pragmatismo se deu em uma palestra em Berkeley em 1898, intitulada “Philosophical Conceptions and Practical Results” [Concepções Filosóficas e Resultados Práticos]. Fontes tardias de “Pragmatism” foram palestras na Wellesley College em 1905, no Instituto Lowell e na Columbia University, em 1906 e 1907. O pragmatismo emerge nos livros de James como seis aspectos: um temperamento filosófico, uma teoria da verdade, uma teoria do significado, uma compreensão holística do conhecimento, uma visão metafísica e um método de resolver disputas filosóficas.
O temperamento pragmatista aparece no capítulo de abertura do livro, onde (seguindo um método que ele determinou primeiramente em “Some Remarks on Spencer’s Definition of Mind as Correspondence” [Algumas Observações na Noção de Spencer de Mente como Correspondência]), James classifica filósofos de acordo com seu temperamento: nesse caso “cabeça dura” ou “mente terna”. O pragmatista é o mediador entre esses extremos, e alguém, como o próprio James, que tem “lealdade científica aos fatos”, mas também “a velha confiança nos valores humanos e espontaneidade relutante, tanto do tipo religioso quanto romântico” (P 17). O método de resolver disputas e a teoria de significado estão dispostos nas discussões de James acerca de um argumento baseado na história de um homem que persegue um esquilo ao redor de uma árvore, e que também dá a volta no esquilo. Considerando o significado como os “efeitos concebíveis de um tipo prático que o objeto pode envolver”, o filósofo pragmatista acredita que existem dois significados práticos de “envolver”: ou o homem vai a norte, leste, sul e oeste do esquilo, ou ele encara primeiramente a cabeça do esquilo, depois um lado, seu rabo e por fim seu outro lado. “Faça a distinção”, James escreve, “e não existe ocasião para futuras disputas.”
A teoria pragmática de verdade é o assunto do sexto (e em algum grau do segundo) capítulo. A verdade, James assegura, é uma “espécie de bom”, como saúde. Verdades são boas porque nós podemos embarcar nelas no caminho do futuro sem sermos surpreendidos de maneira desagradável. Elas “nos guiam a setores verbais e conceituais úteis ao mesmo tempo que nos levam a úteis e sensíveis termini. Elas levam a relações humanas consistentes, estáveis e fluidas. Elas se distanciam da excentricidade e do isolamento do pensamento frustrado e estéril” (103). Entretanto, James assegura que verdades são “construídas” (104) no curso da experiência humana, e que na maioria das vezes elas vivem em um “sistema de crédito” de uma maneira que elas não estão sempre sendo verificadas, ele também trabalha com o viés empirista que “crenças verificadas concretamente por alguém são os pilares de uma superestrutura” (P 100).
O capítulo “Pragmatism and Humanism” [Pragmatismo e Humanismo] define sua epistemologia voluntarista. “Nós esculpimos tudo”, James afirma, “assim como moldamos constelações para servir nossos propósitos humanos” (P, 100). Todavia, existem “fatores de resistência em toda a experiência de construção da verdade” (P, 117), incluindo não só suas sensações e experiências presentes, mas todo o corpo de nossas crenças prévias. James não acredita que criamos nossas verdades do nada, nem que a verdade é inteiramente desligada da humanidade. Ele abraça “o princípio humanista: você não pode se colocar à parte da contribuição humana” (P 122). Ele também defende um processo metafísico, afirmando que “para o pragmatismo a realidade ainda está sendo feita”, enquanto para “o racionalismo, a realidade é estática e completa para toda a eternidade” (P 123). O capítulo final de “Pragmatismo”, “Pragmatism and Religion” [Pragmatismo e Religião], segue a linha de James em “Varieties”, atacando o “absolutismo transcendental” por sua noção inverificável de Deus e na defesa de uma “religião moralista e pluralista” (144) baseada na experiência humana. “Nos princípios pragmáticos”, James escreve, “se a hipótese de Deus funciona de maneira satisfatória no mais amplo sentido da palavra, é verdadeira” (143).
A Pluralistic Universe (1909)
Originalmente apresentada em Oxford como um compilado de palestras “On the Present Situation in Philosophy” [Sobre a Situação Presente da Filosofia], James inicia seu livro, assim como em “Pragmatism”, com uma discussão da determinação temperamental de teorias filosóficas, as quais, James coloca que “são tantas visões, formas de sentir todo o impulso… forçado por alguém pelo seu caráter e pela experiência total e, no todo geral, preferido - não há outra palavra confiável - como a melhor atitude de trabalho de alguém” (PU 15). Mantendo que a “visão” de um filósofo é aquilo que é o importante sobre ele (PU 3), James condena o “excesso de tecnicismo e o consequente desânimo dos discípulos mais novos das universidades americanas…” (PU 13).
James passa de discussões críticas do idealismo de Josiah Royce e do “intelectualismo vicioso” de Hegel para filósofos aos quais a visão ele admira: Gustav Fechner e Henri Bergson. Ele celebra Fechner por assegurar que “todo o universo está em diferentes espaços e comprimentos de ondas, exclusões e desenvolvimentos, é em todo lugar vivo e consciente” (PU, 70) e ele busca refinar e justificar a ideia de Fechner de que consciências de seres humanos, animais e vegetais, separadas, se fundem em uma “consciência de amplitude ainda maior” (72). James emprega a crítica de Henri Bergson sobre o “intelectualismo” para argumentar que “pulsos concretos de experiência aparecem sem limites definidos aos quais nossos substitutos conceituais são confinados. Eles se entrecruzam continuamente e parecem ser interpenetráveis” (PU 127). James conclui adotando uma posição de que ele tinha estabelecido de maneira provisória em “The Varieties of Religious Experience” [As Variedades da Experiência Religiosa]: de que experiências religiosas “apontam com a probabilidade razoável à continuidade de consciência com um ambiente espiritual mais amplo a partir do qual um homem comum e prudente (que é o único homem que a psicologia científica toma conhecimento) está desconectado” (PU 135). Considerando que em “Pragmatism”, James submete o religioso dentro do pragmático (como mais uma maneira bem-sucedida de trilhar o caminho pelo mundo), em “A Pluralistic Universe” [Um Universo Pluralista], ele sugere que a religiosidade oferece uma relação superior com o universo.
Essays in Radical Empiricism (1912)
Essa coleção post-mortem inclui os trabalhos inovadores de James em “Pure Experience” [Pura Experiência], publicadas originalmente em 1904-5. A ideia fundamental de James é que a mente e a matéria são dois aspectos de, ou estruturas formadas por, uma coisa mais fundamental - experiência pura - que (apesar de ser chamada de experiência) não é nem mental ou física. A experiência pura, James explica, é “o fluxo imediato de vida que fornece o material para nossa reflexão tardia com suas categorias conceituais… um aquilo que ainda não é definido, embora pronto para ser todos os tipos de o que…” (ERE 46). Esses “o que’s” que podem ser a experiência pura são corpos e mentes, pessoas e objetos, mas isso depende não de uma diferença ontológica entre essas “experiências puras”, mas nas relações nas quais elas entram. Certas sequências de experiências puras constituem objetos, e outras constituem pessoas, mas outras, como por exemplo a percepção de uma cadeira, podem ser as duas, uma constituindo a cadeira e outra, a pessoa. De fato, uma experiência pura pode fazer parte de duas mentes distintas, como James explica em um capítulo denominado “How Two Minds Can Know One Thing” [Como Duas Mentes Podem Saber uma Mesma Coisa].
O “empirismo radical” de James é diferente de sua metafísica sobre “experiências puras”. Nunca foi definido precisamente em “Essays” e é melhor explicado em uma passagem em “The Meaning of Truth” [O Significado da Verdade], no qual James declara que o empirismo radical consiste em um postulado, uma declaração de um fato e uma conclusão. O postulado é de que “as únicas coisas que devem ser discutíveis entre filósofos são coisas definidas em termos obtidos pelas experiências”, o fato é que relações são tão experienciadas tão diretamente quanto as coisas com o que se relacionam, e a conclusão é que “as partes da experiência se mantêm fortemente por relações que são elas mesmas partes da experiência” (MT 6-7).
James ainda estava trabalhando nas objeções à sua doutrina da experiência pura, respondendo a críticas de “Pragmatism”, e escrevendo uma introdução a problemas filosóficos quando morreu em 1910. Seu legado se estende pela psicologia, estudo da religião e filosofia, não somente na tradição pragmatista que ele fundou (junto de Charles Peirce), mas em fenomenologia e filosofia analítica. Edmund Husserl incorporou as noções de James de “fringe” [fronteira] e “halo” [aureola] em seus estudos de fenomenologia. (Moran, p. 276-80), Bertrand Russell deve sua obra “The Analysis of Mind” [A Análise da Mente] à doutrina de James sobre “experiência pura” (Russell, 1921, pp. 22–6), Ludwig Wittgenstein aprendeu sobre “a ausência da força de vontade” pela obra de James “Psychology” [Psicologia] (Goodman, Wittgenstein e William James, p. 81), e as versões de “neopragmatismo” de Nelson Goodman, Richard Rorty and Hilary Putnam estão cheias das ideias de James. James é um dos mais atraentes e cativantes dos filósofos: por uma visão aberta e selvagem do universo que nunca é moldada por poderes humanos e por respostas a alguma necessidade, mas também, como Russell destacou em seu obituário, pela sua “grande tolerância e… humanidade” com a qual ele estabelece essas visões. (“The Nation”, 3 setembro 1910, p.793–4).
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Autoria
O verbete foi escrito originalmente em inglês por Russell Goodman, e traduzido para a língua portuguesa por Pietra Blankenheim Mainfeld. A tradução foi revisada por André Elias Morelli Ribeiro e Isabela Ventura Rodrigues.