363
edições
(Várias modificações substanciais) |
(→A psicologia na Rússia: Várias modificações substanciais) |
||
| Linha 2: | Linha 2: | ||
Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte. | Este é um texto didático de autoria de [http://lattes.cnpq.br/7924410923493344 André Elias Morelli Ribeiro] (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do [https://psicologiaro.uff.br curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras]. Seu uso é livre, desde que citada a fonte. | ||
= Funcionalismo = | == Funcionalismo == | ||
O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um '''movimento''' amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às linhas de pensamento de lá. | O funcionalismo é um termo utilizado para abarcar um '''movimento''' amplo e diverso de pensadores e pesquisadores proeminentes da psicologia. Ele surgiu no final do século XIX, notavelmente nos Estados Unidos, como uma reação e alternativa ao [[estruturalismo]] (não confundir com o estruturalismo do século XX), ao [[atomismo]] e ao [[mecanicismo]]. O movimento migrou para a Europa ainda no mesmo século, com a circulação das ideias de [[William James]], [[James Angell]], [[James Baldwin]], [[John Dewey]], entre outros, no velho continente, e tem impacto significativo em pensadores europeus, que aplicam modificações e adaptações às linhas de pensamento de lá. | ||
| Linha 11: | Linha 11: | ||
Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, '''o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia'''. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada escola funcionalista. As teorias evolutivas têm relevância central, visto que a mente é o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza. | Se o estruturalismo, o mecanicismo e o atomismo funcionam a partir de uma perspectiva físico-química ou fisicalista, '''o funcionalismo assinala uma biologização da psicologia'''. Ela confere uma relevância acentuada tanto aos equipamentos biológicos humanos quanto ao contexto ambiental, cuja importância e dinâmica será determinada por cada escola funcionalista. As teorias evolutivas têm relevância central, visto que a mente é o órgão de sobrevivência mais complexo da natureza. | ||
= As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu = | == As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu == | ||
Como vimos na seção anterior, o funcionalismo como um movimento transatlântico se inicia nos EUA mas chega à Europa, onde se transforma e adquire características próprias, mas ambos compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças. | Como vimos na seção anterior, o funcionalismo como um movimento transatlântico se inicia nos EUA mas chega à Europa, onde se transforma e adquire características próprias, mas ambos compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças. | ||
| Linha 24: | Linha 24: | ||
Os europeus do continente também decidiram não seguir com a proposta dualista de [[Francis Galton|Galton]], conhecida como [[Debate natureza vs. cultura|natureza vs. cultura]]. É um debate que busca entender de onde vem a psicologia humana, ou seja, se nascemos com nossa psicologia ou se a adquirimos conforme envelhecemos. A proposição do funcionalismo europeu é o chamada '''[[interacionismo]]''', que entende que, na verdade, trata-se da mistura dos dois. Por um lado, nascemos com uma certa capacidade de desenvolvimento e de aprendizagem, definida pela espécie, mas que só ocorre conforme interagimos com o meio. | Os europeus do continente também decidiram não seguir com a proposta dualista de [[Francis Galton|Galton]], conhecida como [[Debate natureza vs. cultura|natureza vs. cultura]]. É um debate que busca entender de onde vem a psicologia humana, ou seja, se nascemos com nossa psicologia ou se a adquirimos conforme envelhecemos. A proposição do funcionalismo europeu é o chamada '''[[interacionismo]]''', que entende que, na verdade, trata-se da mistura dos dois. Por um lado, nascemos com uma certa capacidade de desenvolvimento e de aprendizagem, definida pela espécie, mas que só ocorre conforme interagimos com o meio. | ||
= Um passeio por psicologias europeias = | == Um passeio por psicologias europeias == | ||
Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. | Apesar do nome genérico “funcionalismo europeu”, que está correto por conta de suas muitas semelhanças entre os diferentes países do continente (principalmente a visão evolucionista), ele na verdade exclui a psicologia das ilhas britâncias, que seguiam um caminho próprio. Além disso, dentro da chamada Europa Continental, os diferentes países também têm histórias da psicologia próprias, com visões distintas e que refletem a cultura e a filosofia de cada um. Abaixo, são apresentadas as três psicologias europeias mais relevantes para a formação da psicologia brasileira, a saber, França, Alemanha e Rússia. | ||
| Linha 31: | Linha 31: | ||
A psicologia na '''Itália''' teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais '''portugueses''' e '''espanhois''' circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, '''ideias não eslavas do leste europeu''' e elementos da psicologia produzida nos '''países nórdicos''', devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções passageiras em livros e manuais importados da Europa e EUA. | A psicologia na '''Itália''' teve também relevância por um período específico na psicologia educacional de São Paulo, com [[Clemente Quaglio]] e [[Ugo Pizzoli]]. Ademais, muitas vezes manuais '''portugueses''' e '''espanhois''' circulavam no Brasil, geralmente traduzindo elementos dos três principais países europeus e acrescentando elementos pontuais. Infelizmente, '''ideias não eslavas do leste europeu''' e elementos da psicologia produzida nos '''países nórdicos''', devido a problemas no idioma e à distância cultural, praticamente não apareceram no país, exceto por menções passageiras em livros e manuais importados da Europa e EUA. | ||
== A psicologia na França == | === A psicologia na França === | ||
A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. | A psicologia floresceu na França de forma não linear e em grande diálogo com diferentes ciências e grupos profissionais. Isso ocorreu a partir de três linhagens mais ou menos simultâneas que, apesar de se comunicarem e até compartilharem nomes e conceitos, tinham diferenças importantes. | ||
| Linha 60: | Linha 60: | ||
Os franceses criaram seu '''primeiro laboratório em 1889''', quando '''[[Henri-Étienne Beaunis]]''', um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo '''[[Alfred Binet]]''' como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. | Os franceses criaram seu '''primeiro laboratório em 1889''', quando '''[[Henri-Étienne Beaunis]]''', um estudioso do movimento da psicofísica, se uniu a Ribot para pressionar as instituições que tinham cadeiras de psicologia colaborassem na criação de um laboratório. O projeto foi aprovado e Liard, catedrático da Sorbonne, enviou uma carta a Wundt pedindo instruções para a construção de um laboratório. Sob essas instruções e orientações, ele foi instalado na Escola Prática de Altos Estudos como parte da Sorbonne, sob a liderança do próprio Beaunis e tendo '''[[Alfred Binet]]''' como assistente. Posteriormente, Binet cria o primeiro teste de inteligência bem-sucedido da história, a [[Escala Binet-Simon]]. | ||
==== Influência francesa na psicologia brasileira ==== | |||
A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões, muitas vezes indiretas, mas significativas, com o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. Os personagens centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX. | A história da psicologia e da psiquiatria na França, conforme descrita no texto, possui conexões, muitas vezes indiretas, mas significativas, com o desenvolvimento dessas áreas no Brasil. Os personagens centrais das três linhagens francesas – Salpêtrière, Sorbonne e Collège de France – influenciaram a formação de pensamento e a prática clínica e o pensamento acadêmico brasileiro, especialmente no final do século XIX e no início do XX. | ||
| Linha 68: | Linha 69: | ||
Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de '''Pierre Janet''', que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud, sua relevância parece ser sido esquecida. | Outra figura influente para o pensamento psicológico e psiquiátrico brasileiro foi o de '''Pierre Janet''', que chegou a visitar o Brasil no começo do século XX. Ele era visto por muitos como a principal figura global da saúde mental e do estudo dos estados inconscientes, e seu modelo de psiquiatria tinha muitos seguidores por aqui. Infelizmente, graças à sua disputa com Freud, sua relevância parece ser sido esquecida. | ||
== A psicologia na Alemanha == | === A psicologia na Alemanha === | ||
As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceu na Alemanha, com as ideias de '''[[Christian Wolff]]'''. A tradição de interesse em psicologia alemã foi coroada por lá florescer o marco simbólico da criação da psicologia não só na Alemanha, mas no mundo, foi a fundação do laboratório de '''Wilhelm Wundt''' em Leipzig, em 1879, o que gerou avanços e debates pelo país. A primeira linha de psicologia aplicada do país é criada no exército. | As primeiras tentativas de criar uma psicologia científica aconteceu na Alemanha, com as ideias de '''[[Christian Wolff]]'''. A tradição de interesse em psicologia alemã foi coroada por lá florescer o marco simbólico da criação da psicologia não só na Alemanha, mas no mundo, foi a fundação do laboratório de '''Wilhelm Wundt''' em Leipzig, em 1879, o que gerou avanços e debates pelo país. A primeira linha de psicologia aplicada do país é criada no exército. | ||
| Linha 77: | Linha 78: | ||
Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a '''influência americana''' começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. OS '''pensadores marxistas''', que também são numerosos e respeitados, também ganham relevância progressivamente. A psicologia tipicamente alemã, a da '''Gestalt''', havia imigrado para os EUA, onde teve uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã. '''Perspectivas fenomenológicas''' ganham força junto de abordagens mais holísticas e, apesar de sua relevância, a psicologia alemã ainda busca um retorno à glória de seu passado. | Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a '''influência americana''' começa a se fazer cada vez mais presente, com seus defensores acusando os partidários da psicologia tradicional alemã de conexões com o passado nazista. OS '''pensadores marxistas''', que também são numerosos e respeitados, também ganham relevância progressivamente. A psicologia tipicamente alemã, a da '''Gestalt''', havia imigrado para os EUA, onde teve uma certa continuidade, mas não teve forças para retornar ao país de origem, o que esvaziou a identidade da psicologia alemã. '''Perspectivas fenomenológicas''' ganham força junto de abordagens mais holísticas e, apesar de sua relevância, a psicologia alemã ainda busca um retorno à glória de seu passado. | ||
==== Influência alemã na psicologia brasileira ==== | |||
Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à '''psicanálise''', ironicamente com destaque para a linhagem [[Lacan|lacaniana]], que tem origem francesa. A distância entre Alemanha e o Brasil se devem às dificuldades do idioma e à distância cultural, que atrapalharam a circulação das ideias daquele país no Brasil. | Com exceção de alguns poucos praticantes da psicologia da Gestalt e de abordagens fenomenológicas, bem como alguns livros alemães traduzidos do francês, a influência da psicologia alemã no Brasil se resume principalmente à '''psicanálise''', ironicamente com destaque para a linhagem [[Lacan|lacaniana]], que tem origem francesa. A distância entre Alemanha e o Brasil se devem às dificuldades do idioma e à distância cultural, que atrapalharam a circulação das ideias daquele país no Brasil. | ||
== A psicologia na Rússia == | == A psicologia na Rússia == | ||
A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente alemã, e associou-se fortemente à fisiologia, na composição da sua própria teoria, a '''reflexologia'''. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi '''Séchenov''', um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo. | A psicologia na Rússia olhou frequentemente para a Europa continental como uma referência científica, principalmente alemã, e associou-se fortemente à fisiologia, na composição da sua própria teoria, a '''[[reflexologia]]'''. O primeiro a defender a ideia de que a vida psíquica tinha origem no arco reflexo foi [[Ivan Séchenov|'''Ivan''' '''Séchenov''']], um antigo aluno de Claude Bernard e entusiasta de Charles Darwin. Para os primeiros reflexólogos russos, a vida psíquica era uma função do sistema nervoso que seria composta principalmente de reflexos do arco reflexo. | ||
Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de '''Ivan Pavlov'''. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma '''teoria sobre reflexos condicionados'''. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra Bechterev. | Os psicólogos russos encontraram seu ápice com o trabalho de '''[[Ivan Pavlov]]'''. Especialista em fisiologia da Universidade de São Petersburgo, seus experimentos com salivação de cães o levaram a formular uma '''teoria sobre reflexos condicionados'''. O trabalho rendeu a Pavlov uma fama mundial imediata, coroada com um prêmio Nobel de fisiologia em 1904. Suas ideias fundamentaram parcialmente uma ciência do comportamento que floresceu nos EUA. Já na Rússia, a continuação do trabalho de Pavlov fortaleceu a reflexologia, que continuou com o médico psiquiatra Vladimir Bechterev. | ||
Antigo aluno de Wundt e Charcot, '''Bechterev''' aprofunda os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de '''reflexo associado''', uma versão | Antigo aluno de Wundt e Charcot, '''Bechterev''' aprofunda os estudos na linha de Séchenov e Pavlov para desenvolver o conceito de '''reflexo associado''', uma versão do reflexo condicionado de Pavlov, mas com ênfase no sistema motor, e não nos reflexos glandulares, como fizera seu par russo. Bechterev tentou associar diferentes reflexos motores, como retiniano e plantar, no estudo da psicologia. | ||
Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi '''Lev Semenovich Vygotsky''', um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua '''teoria histórico-cultural'''. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a '''Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)''', muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. Pode-se dizer que esta é, atualmente, a linhagem dominante neste campo específico. | Após a Revolução de 1917 e a instalação do regime soviético, a psicologia na Rússia passa a ser identificada com o marxismo. Um de seus expoentes foi '''[[Lev Vygotsky|Lev Semenovich Vygotsky]]''', um advogado de rica formação intelectual que produziu textos em diferentes assuntos. Vygotsky foi, ao mesmo tempo, um marxista e um interessado na psicanálise, mas foram suas ideias educacionais que lhe renderam fama, na sua '''[[teoria histórico-cultural]]'''. Nela, o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como o pensamento, a memória voluntária e a atenção, ocorre pela mediação de instrumentos culturais e signos, especialmente a linguagem. Entre seus conceitos mais influentes destaca-se a '''[[Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP)]]''', muito usada na educação e que pode ser definida como a distância entre o nível de desenvolvimento real da criança e o nível de desenvolvimento potencial, alcançado com o auxílio de um adulto ou de pares mais experientes. Esse conceito teve profundo impacto nas teorias educacionais e nas práticas pedagógicas contemporâneas brasileiras. Pode-se dizer que esta é, atualmente, a linhagem dominante neste campo específico. | ||
Outro nome importante é o de '''Sergei Rubinstein''', conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um sujeito que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico. | Outro nome importante é o de '''[[Sergei Rubinstein]]''', conhecido como verdadeiro fundador da psicologia marxista soviética. A proposta de Rubinstein baseava-se no princípio da unidade entre consciência e atividade. O ser humano não é apenas um receptor de estímulos, mas um sujeito que transforma o mundo por meio da atividade. Nesse processo de transformar a natureza externa, o sujeito transforma sua própria natureza e consciência. A psicologia deveria estudar a personalidade tomada como um todo e inserida em um contexto social e histórico. | ||
Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de Aleksei | Após a morte de Vygotsky e Rubinstein, a psicologia soviética continuou com as ideias de [[Aleksei Leontiev|'''Aleksei Leontiev''']] e [[Aleksandr Luria|'''Aleksandr Luria''']], que desenvolveram a '''Teoria da Atividade ou [[Teoria da Atividade Sócio-Cultural]]'''. Eles sofreram fortes críticas porque sua teoria não era considerada marxista o suficiente, além de se aproximar perigosamente do behaviorismo de matriz americana. Apesar das críticas, suas teorias a ser desenvolvida e aplicada em diversas áreas, como a educação e a ergonomia, sendo reconhecida internacionalmente como uma importante contribuição da psicologia soviética, influenciando, por exemplo, o design de interação humano-computador. | ||
==== Influência russa na psicologia brasileira ==== | |||
A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky praticamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento. | A psicologia russa tem uma presença marcante no Brasil. O nome que mais se destaca neste ponto é, de longe, o de Vygotsky. A partir dos anos 1990 e, principalmente, dos anos 2000, Vygotsky praticamente substituiu toda a influência do pensamento piagetiano na educação, passando a ser dominante em muitas faculdades de educação e ser uma presença constante em Departamentos de Psicologia. Seus conceitos são amplamente ensinados nos cursos de formação de professores e debatidos academicamente, tanto na educação quanto na psicologia. Traduções diretas do russo são cada vez mais comuns e existe um forte movimento do resgate de seu pensamento. | ||
A reflexologia em si teve pouca circulação no Brasil, porém Pavlov é um nome quase unanimemente citado em todos os cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Praticamente não existem estudantes de psicologia que jamais ouviram falar de seu nome, e a maioria dos estudantes das licenciaturas também conhecem ao menos fragmentos de sua história. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro. | A reflexologia em si teve pouca circulação no Brasil, porém Pavlov é um nome quase unanimemente citado em todos os cursos de psicologia por conta de sua relevância no desenvolvimento das ciências do comportamento de linha americana. Praticamente não existem estudantes de psicologia que jamais ouviram falar de seu nome, e a maioria dos estudantes das licenciaturas também conhecem ao menos fragmentos de sua história. Sua relevância para a composição do behaviorismo o coloca como um nome obrigatório para todo o campo da psicologia brasileiro. | ||
= A Escola de Genebra = | == A Escola de Genebra == | ||
De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada “Escola de Genebra”, uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas que ocorreram na cidade de Genebra. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre por que o país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente diferentes, o que demanda um estudo por região, e não olhando o país como um todo. | De todas as escolas funiconalistas europeias, a que teve maior impacto para a formação da psicologia brasileira é a chamada “Escola de Genebra”, uma denominação ampla que abrange décadas de desenvolvimento e aperfeiçoamento de técnicas e ideias psicológicas que ocorreram na cidade de Genebra. Observe que não se fala em “psicologia suíça”. Isso ocorre por que o país é, na verdade, uma comunidade de pequenos países, cada um com suas próprias características, por vezes semelhantes, outras completamente diferentes, o que demanda um estudo por região, e não olhando o país como um todo. | ||
| Linha 105: | Linha 108: | ||
Nesta seção, serão apresentadas informações sobre a formação da Suíça e a história da cidade e cantão de Genebra para, em seguida apresentar a história da Escola de Genebra. Instituições e autores específicos vinculados a esta Escola serão mais longamente trabalhados, bem como suas conexões que mantém com a formação da psicologia brasileira. | Nesta seção, serão apresentadas informações sobre a formação da Suíça e a história da cidade e cantão de Genebra para, em seguida apresentar a história da Escola de Genebra. Instituições e autores específicos vinculados a esta Escola serão mais longamente trabalhados, bem como suas conexões que mantém com a formação da psicologia brasileira. | ||
== Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra == | === Um pouco sobre a Suíça e sobre Genebra === | ||
Genebra é uma cidade na Suíça, um pequeno país na Europa Central. Por séculos, foi uma cidade-estado próxima dos Alpes Suíços, cercada por quase todos os lados pela poderosa França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão. A '''Suíça''' é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. | Genebra é uma cidade na Suíça, um pequeno país na Europa Central. Por séculos, foi uma cidade-estado próxima dos Alpes Suíços, cercada por quase todos os lados pela poderosa França. Ingressou na chamada Confederação Suíça ou Confederação Helvética em 1815, tornando-se o 22º cantão. A '''Suíça''' é um país bastante peculiar, pois sua formação não é o fruto de uma unificação de natureza étnica ou de uma tradição cultural ou política, mas sim a união de pequenas cidades-estado situadas entre a Alemanha, a Itália, a França e a Áustria. | ||
| Linha 116: | Linha 119: | ||
No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram um humanismo social, onde a ação direta de seus cidadãos deve ser direcionada para os pobres, doentes, desvalidos, entre outros. A cidade recebeu, em diferentes momentos, grupos minoritários perseguidos, doentes e vítimas de guerras, entre muitos migrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação da Cruz Vermelha, bem como do Direito Internacional Humanitário, que levou a diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, entre outras atitudes humanitárias internacionais que tiveram origem ou forte desenvolvimento na região. Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial. | No século XIX, os habitantes de Genebra desenvolveram um humanismo social, onde a ação direta de seus cidadãos deve ser direcionada para os pobres, doentes, desvalidos, entre outros. A cidade recebeu, em diferentes momentos, grupos minoritários perseguidos, doentes e vítimas de guerras, entre muitos migrantes que, por alguma razão, encontravam-se vulneráveis. Esta visão de mundo e do lugar da cidade perante a humanidade é o que levou à criação da Cruz Vermelha, bem como do Direito Internacional Humanitário, que levou a diferentes legislações internacionais de defesa dos direitos humanos, entre outras atitudes humanitárias internacionais que tiveram origem ou forte desenvolvimento na região. Estes são indicativos da tradição e da vocação humanista e internacionalista de uma pequena cidade com grande relevância política e social mundial. | ||
== História da psicologia em Genebra == | === História da psicologia em Genebra === | ||
A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um dos chamados sábios da cidade, '''Théodore Flournoy'''. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido um treinamento para aprender alguns dos experimentos de Helmholtz. Ele tinha algum conhecimento do que viria a ser inserido como parte da psicologia, como experimentos na psicofísica e na fisiologia. Apesar de praticante de algumas coisas e interessado no assunto, trata-se de uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos relacionados à psicofísica e à psicologia na Universidade de Genebra com seus alunos, ou mesmo no salão de sua casa, com convidados, sem grandes aspirações. | A história da psicologia em Genebra começa em 1882 com um dos chamados sábios da cidade, '''Théodore Flournoy'''. Ele era um médico que havia estudado na Alemanha e tinha recebido um treinamento para aprender alguns dos experimentos de Helmholtz. Ele tinha algum conhecimento do que viria a ser inserido como parte da psicologia, como experimentos na psicofísica e na fisiologia. Apesar de praticante de algumas coisas e interessado no assunto, trata-se de uma fase da psicologia ainda amadora. Ele conduzia alguns pequenos experimentos relacionados à psicofísica e à psicologia na Universidade de Genebra com seus alunos, ou mesmo no salão de sua casa, com convidados, sem grandes aspirações. | ||
| Linha 123: | Linha 126: | ||
Inicialmente, o futuro psicólogo compra os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois são adquirido pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta. | Inicialmente, o futuro psicólogo compra os equipamentos necessários com seus próprios recursos, que depois são adquirido pela Universidade de Genebra na ocasião da fundação oficial do laboratório, em 1891. Isso colocou Genebra não apenas no mapa dos locais com um laboratório de psicologia e cursos regulares sobre o tema, como também filiou a Universidade de Genebra à tradição psicológica inaugurada por Wundt e seu modelo de psicologia, ainda que por via indireta. | ||
== O Instituto Jean-Jacques Rousseau == | === O Instituto Jean-Jacques Rousseau === | ||
Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra, mas o que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico Édouard Claparède, que decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”. | Sete anos depois de sua fundação, em 1898, um incêndio destruiu a maior parte do laboratório de psicologia de Genebra, mas o que foi uma tragédia também se mostrou uma oportunidade. A tarefa de reconstrução do espaço foi dada ao primo de Flournoy, o médico Édouard Claparède, que decidiu dar uma nova orientação ao espaço, aliando a psicologia com a educação, visando seu projeto de “escola sob medida”. | ||
| Linha 136: | Linha 139: | ||
Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da Fundação Rockefeller permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, disseminando os ideais da Escola Ativa em nível global. | Com o tempo, o local ainda ganhou uma clínica médica e, mais tarde, um centro de orientação vocacional. A partir de 1925, o apoio financeiro da Fundação Rockefeller permitiu uma nova fase de expansão. O Instituto mudou-se para a Rua Charles Bonnet e, posteriormente, para a Rua dos Maraîchers. Durante este período, formou centenas de educadores de mais de 40 países, disseminando os ideais da Escola Ativa em nível global. | ||
== Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional == | === Édouard Claparède e a Teoria Genético-Funcional === | ||
Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes '''necessidades''', cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo. Assim, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria entender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. A questão pode ser compreendida, de forma geral, se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa. | Conforme o pensamento de Claparède, os seres humanos têm diferentes '''necessidades''', cuja origem são motivações internas do sujeito. Com isso, ele relativiza o pensamento comportamentalista, que propõe que o comportamento vem da resposta a estímulos externos do indivíduo. Assim, a melhor forma de entender os fenômenos psicológicos seria entender seu papel na satisfação dessas necessidades, ou seja, na sua utilidade na adaptação do organismo ao ambiente. A questão pode ser compreendida, de forma geral, se perguntando “para que serve” determinada função, como o sono, a infância, a vontade, entre outros. Todas as funções mentais respondem a uma necessidade, pois tem uma utilidade evolutiva e adaptativa. | ||
| Linha 149: | Linha 152: | ||
Claparède teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. | Claparède teve vários de seus livros traduzidos para o português e publicados no Brasil, além de ter sido celebrado por psicólogos e educadores brasileiros. A conexão entre ele o país foi muito importante. Ele trocou cartas com frequência com Helena Antipoff, sua antiga aluna no Instituto Jean-Jacques Rousseau, e visitou o país duas vezes. | ||
== O IJJR e o Brasil == | === O IJJR e o Brasil === | ||
Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro '''Francisco Lins''', que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos '''Alberto Alvares''', Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que nesta visita o Brasil foi colocado como um destino possível de pessoas formadas em Genebra. | Várias figuras importantes da psicologia e educação brasileiras estiveram no Instituto, seja para estudos formais, seja apenas para visitas ou mesmo para inspirar iniciativas locais. O primeiro brasileiro a estar no instituto foi o educador mineiro '''Francisco Lins''', que esteve no no local já próximo de sua inauguração, em 1912. Ainda no âmbito mineiro, temos '''Alberto Alvares''', Diretor da Instrução Pública de Minas Gerais e que visitou o IJJR em 1927 para organizar a missão de educadores europeus que viria a atuar em Belo Horizonte. Especula-se que nesta visita o Brasil foi colocado como um destino possível de pessoas formadas em Genebra. | ||
| Linha 162: | Linha 165: | ||
Uma terceira figura dos princípios do IJJR é '''Mariana Schryer'''. Psicóloga formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento da perseguição aos judeus. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história ainda é pouco conhecida. | Uma terceira figura dos princípios do IJJR é '''Mariana Schryer'''. Psicóloga formada no Instituto, ela fugiu da Europa por conta do crescimento da perseguição aos judeus. No Brasil, criou uma clínica psicológica para crianças no Rio de Janeiro, sendo possivelmente a primeira pessoa a praticar as ideias de Piaget no país. Ela também ocupou cargos relevantes em revistas, periódicos e em instituições de ensino, porém, infelizmente, sua história ainda é pouco conhecida. | ||
== Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra == | === Jean Piaget e uma nova orientação para Genebra === | ||
A Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède, que o expande e funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa com uma perspectiva de aliança entre educação e psicologia. Contudo, o grande nome de Genebra, que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de Jean William Fritz Piaget. | A Escola de Genebra já estava consolidada. Iniciada com o laboratório de Flournoy que, após um incêndio, torna-se o laboratório de Claparède, que o expande e funda o Instituto Jean-Jacques Rousseau, colocando Genebra definitivamente no mapa com uma perspectiva de aliança entre educação e psicologia. Contudo, o grande nome de Genebra, que alterou a psicologia em nível global e transformou a visão científica sobre a infância é o de Jean William Fritz Piaget. | ||
| Linha 181: | Linha 184: | ||
Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo. | Este breve resumo conecta o pensamento de Piaget com o funcionalismo, mas sua teoria é, na verdade, altamente complexa. Ele escreveu milhares de páginas, além de ter conduzido ou orientado centenas de experimentos e colaborado com centenas de intelectuais. A influência de Piaget no pensamento psicológico e educacional é imensa e ainda objeto de estudos. Ele foi o segundo psicólogo mais citado do século XX e seu pensamento é utilizado por inúmeros psicólogos e educadores ao redor do mundo. | ||
== Piaget e o Brasil == | === Piaget e o Brasil === | ||
Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. Uma lista completa é praticamente impossível de elaborar, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, '''Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira''', uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e '''André Rey''' em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, '''Terezinha Rey''', uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget. | Muitos nomes importantes para a psicologia e educação brasileiros estiveram com Piaget ou colaboraram decisivamente para a disseminação de suas ideias em nosso país. Uma lista completa é praticamente impossível de elaborar, mas alguns nomes podem ser mencionados, sem prejuízo de outros também muito relevantes. Esta lista inclui, por exemplo, '''Maria Luiza de Almeida Cunha Ferreira''', uma ex-aluna de Helena Antipoff que conseguiu uma bolsa da UNESCO em 1959 para estudar na Europa, fazendo cursos diretamente com Piaget e '''André Rey''' em Genebra. Outro nome importante é o da esposa de André Rey, '''Terezinha Rey''', uma psicóloga mineira que acompanhou de perto os trabalhos do IJJR e de Piaget. | ||
| Linha 192: | Linha 195: | ||
Por fim, destaca-se o casal Emília Ferreiro e Rolando Garcia. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. '''Ferreiro''' defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já '''Rolando Garcia''' foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser amigo pessoal de Piaget. | Por fim, destaca-se o casal Emília Ferreiro e Rolando Garcia. Intelectuais argentinos que, exilados na Suíça, trabalharam em Genebra no Centro Internacional de Epistemologia Genética. '''Ferreiro''' defendeu sua tese de doutorado sob orientação de Piaget e, posteriormente, teve um impacto revolucionário na educação e alfabetização brasileiras por meio de sua teoria, o Construtivismo. Já '''Rolando Garcia''' foi o co-autor do último livro publicado por Piaget, que ele considerava a finalização de sua obra, além de ser amigo pessoal de Piaget. | ||
== O BIE == | === O BIE === | ||
A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma '''instância internacional voltada para a educação e a infância'''. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha. | A criação do Bureau International d’Éducation (BIE) está intrinsecamente ligada ao Institut Jean-Jacques Rousseau, em Genebra, com quem compartilha fundadores e colaboradores. Após a Primeira Guerra Mundial, sentiu-se uma lacuna importante no Tratado de Versalhes. Enquanto a Organização Internacional do Trabalho (OIT) cuidava das questões laborais, e outras organizações tratavam de drogas, armas, entre outros, não existia uma '''instância internacional voltada para a educação e a infância'''. O BIE surgiu, portanto, como uma tentativa da sociedade civil, especificamente de pacifistas, feministas e educadores, de suprir essa falha. | ||
| Linha 203: | Linha 206: | ||
Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na '''internacionalização do funcionalismo europeu''', servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global. | Piaget utilizou de sua influência na instituição para espalhar suas ideias pelo mundo. Assim, ele viajou a muitos países, disseminando suas ideias e promovendo debates sobre psicologia e educação. Ele esteve no Brasil em 1949, onde falou sobre suas teorias com vários brasileiros, especialmente Nilton Campos e Lourenço Filho. O BIE também teve um papel relevante na '''internacionalização do funcionalismo europeu''', servindo como ponte entre estes grupos de intelectuais e os diferentes governos e intelectuais de forma global. | ||
= Considerações finais = | == Considerações finais == | ||
O '''funcionalismo''', tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. | O '''funcionalismo''', tanto em sua vertente americana quanto europeia, representou um divisor de águas na história da psicologia, marcando a transição de uma visão mecanicista e atomista da mente para uma perspectiva que enfatiza a função adaptativa dos processos psicológicos. | ||
| Linha 239: | Linha 242: | ||
[[Zélia Ramozzi-Chiarottino]] | [[Zélia Ramozzi-Chiarottino]] | ||
= Referências = | == Referências == | ||
BANG, Vinh. La méthode clinique et la recherche em psychologie de l’enfant. Em : ____ '''Textes choisis'''. UniGe: Genebra, 1988. (originalmente publicado em 1966). | BANG, Vinh. La méthode clinique et la recherche em psychologie de l’enfant. Em : ____ '''Textes choisis'''. UniGe: Genebra, 1988. (originalmente publicado em 1966). | ||
| Linha 313: | Linha 316: | ||
YASNITSKY, Anton. Sergei Rubinstein as the founder of soviet marxist psychology: problems of psychology in the works of Karl Marx” (1934) and beyond. Em: _____. '''A history of marxist psychology'''. London: Routledge, 2020. Disponível em: <<nowiki>https://doi.org/10.4324/9780429323423</nowiki>>. | YASNITSKY, Anton. Sergei Rubinstein as the founder of soviet marxist psychology: problems of psychology in the works of Karl Marx” (1934) and beyond. Em: _____. '''A history of marxist psychology'''. London: Routledge, 2020. Disponível em: <<nowiki>https://doi.org/10.4324/9780429323423</nowiki>>. | ||
== Autoria == | |||
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia | |||
[[Categoria:Texto didático]] | [[Categoria:Texto didático]] | ||
[[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]] | [[Categoria:Epistemologia Genética no Brasil]] | ||