O Funcionalismo na Europa e suas Conexões com o Brasil: mudanças entre as edições

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== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==
== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu ==
Como vimos na seção anterior, o funcionalismo como um movimento transatlântico se inicia nos EUA mas chega à Europa, onde se transforma e adquire características próprias, mas ambos compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças.


No '''[[funcionalismo americano]]''', o foco recai sobre os '''processos adaptativos comportamentais'''. Os fenômenos mentais e comportamentais são vistos como operações destinadas à sobrevivência. A consciência não é uma coisa por si, mas um órgão seletivo que ajuda o organismo a se adaptar ao meio. Comportamentos, tal qual fenômenos mentais como a consciência, não são meros movimentos, eles são operações. A consciência, por exemplo, é concebida como uma operação que atua na seleção e autorregulação das táticas comportamentais visando à adaptação. Para entender essas operações, é preciso identificar o interesse subjacente a elas. Essa identificação dos interesses constitui a análise funcional dos processos psicológicos e comportamentais.  
No [[Funcionalismo americano|'''funcionalismo americano''']], o foco recai sobre os '''processos adaptativos e comportamentais'''. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma "coisa em si" para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos.  


Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o '''[[pragmatismo]]''', uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o '''[[pragmatismo]]''', uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores.


Já o '''funcionalismo europeu''', apesar de compartilhar vários aspectos do seu colega americano, apresenta importantes diferenças. Em primeiro lugar, existem '''três linhagens''' do funcionalismo europeu. Primeiro, o da '''[[etologia]]''', com foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de '''matriz psicanalítica''', que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem '''matriz genético-funcional''', ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa.
Já o '''funcionalismo europeu''' na verdade são '''três linhagens'''. Primeiro, o da '''[[etologia]]''', tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de '''[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]''', que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem '''matriz genético-funcional''', ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros.


O funcionalismo europeu continental (excluindo a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui '''estágios evolutivos'''. O pensamento europeu, nesse sentido, compreende que, assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo análogo. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.
O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui '''estágios evolutivos'''. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo.


Os europeus do continente também decidiram não seguir com a proposta dualista de [[Francis Galton|Galton]], conhecida como [[Debate natureza vs. cultura|natureza vs. cultura]]. É um debate que busca entender de onde vem a psicologia humana, ou seja, se nascemos com nossa psicologia ou se a adquirimos conforme envelhecemos. A proposição do funcionalismo europeu é o chamada '''[[interacionismo]]''', que entende que, na verdade, trata-se da mistura dos dois. Por um lado, nascemos com uma certa capacidade de desenvolvimento e de aprendizagem, definida pela espécie, mas que ocorre conforme interagimos com o meio.  
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou "mistura" desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente.  


== Um passeio por psicologias europeias ==
== Um passeio por psicologias europeias ==