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== As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu == | == As diferenças entre o funcionalismo americano e o funcionalismo europeu == | ||
Ao migrar dos EUA a Europa, o funcionalismo se transforma e adquire características próprias. Contudo, ambas compartilham uma visão biologizante e evolutiva dos fenômenos e objetos psicológicos. Vamos analisar agora algumas das diferenças. | |||
No ''' | No [[Funcionalismo americano|'''funcionalismo americano''']], o foco recai sobre os '''processos adaptativos e comportamentais'''. Nele, os fenômenos mentais não são vistos como estruturas isoladas, mas como operações dinâmicas destinadas à sobrevivência. A consciência, portanto, deixa de ser uma "coisa em si" para se tornar um instrumento seletivo que auxilia o organismo em sua relação com o meio. Sob essa ótica, tanto as ações quanto os processos mentais são operações finalistas, ou seja, são vistas como objetivo de viés adaptativo. A consciência, por exemplo, atua diretamente na seleção e na autorregulação de estratégias comportamentais voltadas à adaptação. Compreender essa dinâmica exige identificar o interesse subjacente a cada ato, mapeamento que constitui o cerne da análise funcional dos processos psicológicos. | ||
Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o '''[[pragmatismo]]''', uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores. | Outro aspecto importante próprio do funcionalismo americano é o '''[[pragmatismo]]''', uma vertente filosófica desenvolvida nos EUA e que reflete em grande medida a própria cultura americana. Nessa perspectiva, a análise psicológica exige o estudo das funções em seu ambiente natural, pois é nesse contexto que os interesses se manifestam e revelam seus resultados adaptativos. Em outras palavras, é como dizer “o que, na prática, esse comportamento ou pensamento significam?”. Trata-se de uma visão que inaugura um olhar para a prática, diferente da psicologia altamente laboratorial e fechada de [[Willheim Wundt|Wundt]] e seus seguidores. | ||
Já o '''funcionalismo europeu''' | Já o '''funcionalismo europeu''' na verdade são '''três linhagens'''. Primeiro, o da '''[[etologia]]''', tem foco nos instintos e impulsos que visam à sobrevivência. Um segundo é o funcionalismo de '''[[Movimento psicanalítico|matriz psicanalítica]]''', que postula um organismo voltado para aliviar pulsões e tensões que causam desprazer, com foco no incosciente. A terceira linhagem, que será o foco deste texto, tem '''matriz genético-funcional''', ou seja, enxerga as funções como traços evolutivos humanos e a cognição a partir de uma perspectiva adaptativa. Nomes do funcionalismo europeu mais próximos à matriz genético-funcional incluem [[Édouard Claparède]], [[Jean Piaget]], [[Pierre Janet]], [[Henri Wallon]], [[William Stern]], [[Alfred Binet]], [[Karl Bühler]], entre outros. | ||
O funcionalismo europeu continental ( | O funcionalismo europeu continental (que exclui a Grã-Bretanha, mais próxima da visão dos EUA) postula uma perspectiva comum de desenvolvimento no pensamento que sugere que a mente, à semelhança dos organismos, possui '''estágios evolutivos'''. Assim como o desenvolvimento físico se inicia na gestação, prossegue após o nascimento e atinge seu ápice na vida adulta, a mente também passa por um processo desenvolvimentista. Existem, portanto, etapas de desenvolvimento cognitivo que se distinguem por características específicas que definem as possibilidades e limitações da cognição. Esse processo mental de desenvolvimento seria concluído após a infância, momento em que o desenvolvimento cognitivo estaria completo. | ||
O funcionalismo europeu continental também rejeitou a dicotomia dualista inaugurada por [[Francis Galton]] entre natureza e cultura ([[nature vs. nurture]]). Esse debate tradicional buscava determinar a gênese do psiquismo humano, questionando se nossas funções psicológicas são inatas ou adquiridas ao longo do desenvolvimento. Em contraposição a esse binarismo, a vertente europeia consolidou o [[interacionismo]], uma perspectiva que supera a mera soma ou "mistura" desses fatores. Sob essa ótica, embora o indivíduo nasça com um potencial de desenvolvimento e aprendizagem delimitado filogeneticamente pela espécie, esse aparato biológico só se atualiza e se estrutura a partir da interação contínua e ativa com o meio ambiente. | |||
== Um passeio por psicologias europeias == | == Um passeio por psicologias europeias == | ||