Nise da Silveira

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Nise Magalhães da Silveira (Maceió, 15 de fevereiro de 1905 - Rio de Janeiro, 30 de outubro de 1999) foi uma psiquiatra brasileira. Nise da Silveira é reconhecida por suas contribuições na luta contra os métodos desumanos vigentes no paradigma da psiquiatria tradicional, como camisa de força, lobotomia, eletrochoque e outros.[1]

No Setor de Terapia Ocupacional (STO) do hospital psiquiátrico do Engenho de Dentro a psiquiatra revolucionou o tratamento dos pacientes psiquiátricos, ao utilizar técnicas humanizadas que estimulavam a liberdade, criatividade, prazer, expressividade, dignidade e afetividade, através de atividades recreativas, culturais, criativas e expressivas.[9]

Foi discípula de Carl Gustav Jung e fundou o Museu de Imagens do Inconsciente (MII), a Casa das Palmeiras e o Grupo de Estudos Carl Jung.[2]

A psiquiatra alagoana faleceu no Rio de Janeiro em outubro de 1999, aos 94 anos, por conta de uma insuficiência respiratória aguda. Nise da Silveira não chegou a constituir um movimento organizado em torno de seu nome, nenhuma escola ou doutrina foi proposta ao longo de seu projeto médico-científico. Entretanto, houve uma construção de pessoas, instituições e materialidades em torno de sua vida e obra, que persiste até os dias de hoje.[2]

Biografia[editar | editar código-fonte]

Formação[editar | editar código-fonte]

Nise da Silveira nasceu em Maceió, Alagoas, em 15 de fevereiro de 1905. Seu pai, Faustino Magalhães, era professor de matemática e jornalista, diretor do Jornal de Alagoas; e sua mãe, Lídia da Silveira, era pianista. Nise realizou seus primeiros estudos no Colégio Santíssimo Sacramento em Maceió, instituição que era coordenada por freiras e exclusiva para meninas. Em 1921, aos 16 anos, entrou para a Faculdade de Medicina da Bahia, onde concluiu o curso aos 21 anos, como única mulher entre os 157 homens da turma de 1926 e tendo como tese de monografia de final de curso o Ensaio sobre a criminalidade da mulher no Brasil (https://repositorio.ufba.br/ri/handle/ri/29508</nowiki>). Foi durante a época de formação que conheceu o médico sanitarista Mário Magalhães da Silveira, seu colega de turma na faculdade e, posteriormente, esposo, com quem viveu até seu falecimento em 1986.[1]

Já órfã de mãe e após enfrentar o falecimento do pai, Nise muda-se para o Rio de Janeiro em 1927, onde passou a ter contato com intelectuais de esquerda e com as atividades do Partido Comunista Brasileiro ao frequentar meios artísticos, políticos e literários. Em 1933, estagiou na clínica neurológica de Antônio Austregésilo e, no mesmo ano, foi aprovada em um concurso público para trabalhar como psiquiatra no Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental, no Hospital da Praia Vermelha.[2]

Prisão[editar | editar código-fonte]

Durante o Estado Novo, Nise da Silveira foi denunciada por uma enfermeira por possuir livros marxistas em seu ambiente de trabalho, além de ter ligações com membros do partido comunista e por ter participado da União Feminina do Brasil (entidade de defesa dos direitos das mulheres)[2].Em 1936, foi levada para o presídio Frei Caneca, onde ficou detida por 16 meses. Nesse período foi companheira de cela de Olga Benário, militante comunista alemã que na época era casada com Luís Carlos Prestes, além de conviver com outros perseguidos políticos. Na ocasião, também conheceu o escritor alagoano Graciliano Ramos, tornando-se posteriormente uma das personagens do livro “Memórias do Cárcere.[1] Essa experiência no cárcere exerceu um papel importante em sua vida e em sua concepção de liberdade, o que influenciaria o desenvolvimento de seu trabalho com os pacientes confinados no hospital posteriormente.[3]

Entre 1937 e 1944, embora livre da prisão, permaneceu com seu marido na semi-clandestinidade, afastada do serviço público no intuito de evitar novas perseguições. Durante seu afastamento se dedicou à leitura reflexiva das obras do filósofo Spinoza, material publicado em seu livro Cartas a Spinoza, em 1995.[1]

Nise da Silveira e o Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II[editar | editar código-fonte]

Nise retornou ao serviço público somente no ano de 1944, dando início ao seu trabalho no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no Engenho de Dentro. Nessa ocasião, a psiquiatra se depara com os métodos usados pela psiquiatria da época para tratar a doença mental: o choque cardiazólico, o coma insulínico, o eletrochoque e a lobotomia.[3]

Opondo-se fortemente às práticas biomédicas consideradas por ela como violentas, e recusando-se a aplicá-las nos pacientes, Nise da Silveira foi transferida para o trabalho com terapia ocupacional. Assim, em 1946 fundou naquela instituição o Setor de Terapia Ocupacional (STO), entendido, na época, como atividade essencialmente braçal, mas que foi substituído por atividades expressivas, como: modelagem, pintura, costura, sapataria, jardinagem, carpintaria, teatro e salão de beleza. Em vista do funcionamento precário e sem fundamentação, Nise organizou cursos de capacitação para os monitores e contratou o pintor e professor de arte, Almir Mavignier, para trabalhar com os pacientes. Mavignier organizou um ateliê de pintura, inaugurado em 1946.[3]

Em 1952, menos de dez anos após sua saída da prisão e de seu retorno ao hospital psiquiátrico, Nise e seus colaboradores fundaram o Museu do Inconsciente, que atualmente conta com um acervo de 350 mil obras, sendo ainda centro de pesquisa sobre o processo criativo e a loucura. O intuito de Nise era possibilitar aos doentes reatar seus vínculos com a realidade através da expressão simbólica e da criatividade, incentivando uma compreensão mais profunda do interior do esquizofrênico. A psiquiatra alagoana destacou o papel positivo do ambiente acolhedor, não repressor, livre, no lidar com esquizofrênicos. Fariam parte desse “ambiente” pessoas, animais e objetos, tudo e todos que fossem agentes catalisadores de afeto.[3]

Foi seguindo essa perspectiva que Nise construiu e executou seus trabalhos posteriores em que, apesar das importantes mudanças que se inscreveram em sua trajetória até o momento, ela considerava que o número de egressos do hospital continuava alto. Dessa forma, em 1956, desenvolveu outro projeto: criou a Casa das Palmeiras, uma clínica voltada à reabilitação de antigos pacientes de instituições psiquiátricas[3]. A casa tinha como objetivo servir de ponte entre o hospital psiquiátrico e a sociedade[4], estimulando os pacientes por meio de atividades individuais e grupais, como tentativa de evitar as internações e reinternações[3]. Os pacientes eram enviados para lá às tardes e então participavam da terapia ocupacional. Aqueles que faziam acompanhamento externo continuavam sua medicação na Casa das Palmeiras, e os que não tinham acompanhamento externo eram medicados por psiquiatras voluntários que lá trabalhavam.[4]

Falecimento[editar | editar código-fonte]

A psiquiatra alagoana faleceu no Rio de Janeiro em outubro de 1999, aos 94 anos, por conta de uma insuficiência respiratória aguda. Nos anos anteriores a sua morte, Nise sofreu um acidente doméstico que a deixou em cadeira de rodas e que, posteriormente, se agravou com uma pneumonia contraída em seu último mês de vida. Durante todo esse período, porém, foi acompanhada de perto por uma pequena e sólida rede de amigos e colaboradores.[2]

Nise da Silveira não chegou a constituir um movimento organizado em torno de seu nome, nenhuma escola ou doutrina foi proposta ao longo de seu projeto médico-científico. Entretanto, houve uma construção de pessoas, instituições e materialidades em torno de sua vida e obra, que persiste até os dias de hoje, mesmo depois de sua morte.[2]

Contribuições[editar | editar código-fonte]

Combates aos métodos tradicionais[editar | editar código-fonte]

Ao reiniciar sua prática profissional, no Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro, em 1944, Nise se depara com as novidades científicas adotadas pelo campo da psiquiatria na década de 1940. Técnicas como choque cardiazólico, coma insulínico, psicofarmacoterapia, eletrochoque e lobotomia refletiam a noção organicista das doenças mentais presente na época.[3]

Contrariando seus colegas de profissão e as normas psiquiátricas vigentes, Nise se opôs fortemente ao uso de tais métodos. A psiquiatra enxergava nos procedimentos semelhanças com as torturas físicas que viu serem aplicadas na prisão, no período em que foi detida.[9]

Nise realizou um grande movimento de combate à lobotomia. Suas críticas à psicocirurgia residiam no fato de que o procedimento causava consequências devastadoras para o paciente ao acarretar efeitos colaterais irreversíveis. A psiquiatra realizou pesquisas acerca dos efeitos da psicocirurgia na potência criativa dos pacientes e concluiu que a personalidade era fortemente impactada. Assim, a lobotomia não promovia a cura ou melhoria dos sintomas apresentados pelos pacientes esquizofrênicos, apenas os tornavam mais passivos e controlados, oferecendo paz e segurança ao ambiente familiar e hospitalar.[9]

Da mesma forma, criticava o uso de psicofármacos como ferramenta única no tratamento. Entendia que a aplicação medicamentosa poderia ser utilizada em pacientes em momentos de surto, entretanto, sua utilização excessiva e contínua atrapalhava os pacientes.[3]

Ao se recusar a prescrever ou realizar tais procedimentos, e indignada com o modo de funcionamento dos hospitais psiquiátricos, Nise foi incumbida de dirigir um departamento sem recursos ou investimentos do Centro Psiquiátrico, o Setor de Terapêutica Ocupacional (STO). Menosprezado pelos médicos da instituição, os pacientes eram encaminhados ao setor para realizar atividades monótonas e braçais (como serviços de faxina e manutenção) que não possuíam nenhum compromisso com o tratamento terapêutico.[3]

Tratamento Humanizado no Setor de Terapia Ocupacional[editar | editar código-fonte]

Uma das maiores contribuições de Nise da Silveira para a psiquiatria brasileira e seu grande legado como profissional da saúde mental consiste no trabalho realizado da psiquiatra no Setor de Terapia Ocupacional (STO) do Centro Psiquiátrico do Engenho de Dentro, onde revolucionou as técnicas e os tratamentos terapêuticos direcionados aos internos, ao adotar uma postura humanizada e contrária aos métodos agressivos que eram o paradigma da época.[9]

Nise inicia seu trabalho no STO em 1946, abolindo as atividades até então proporcionadas aos internos, que possuíam pouca potência terapêutica[9]. Assim, incorporou ao departamento atividades recreativas, culturais, criativas e expressivas, como modelagem, gravura, escultura, música, dança, mímica, teatro,  costura, sapataria, jardinagem, carpintaria, salão de beleza e pintura[3]. Essas atividades proporcionavam a livre externalização das emoções, pensamentos e sentimentos não verbalizados por meio da simbolização.[9]

Seu objetivo inicial era compreender os processos psíquicos e as vivências dos pacientes que sofriam de esquizofrenia, o que lhe ajudaria a melhorar suas condições de vida[2]. Além disso, a psiquiatra pôde observar e refletir sobre como se dava a hospitalização e como o tratamento psiquiátrico era conduzido. Ela acreditava que o clima do hospital psiquiátrico favorecia a manutenção dos quadros clínicos, em vez de colaborar com a melhora dos sintomas. Em sua visão, o hospital deveria realizar esforços no sentido de restabelecer as relações do sujeito com o meio social, em vez de enclausurá-lo e colocá-lo à margem da sociedade. Para Nise, o objetivo final da instituição psiquiátrica não deveria ser a eliminação dos sintomas, mas sim a criação de condições para que o paciente pudesse voltar ao convívio social. [12]

No Setor de Terapia Ocupacional, era propiciado um ambiente de liberdade, criatividade, prazer, expressividade, dignidade e, principalmente, afetividade. Para Nise, um espaço acolhedor, diferenciado do ambiente hospitalar como um todo, era fundamental para que a intenção fosse capaz de conduzir qualquer atividade que possuísse valor terapêutico e de recuperação. Dessa forma, esse ambiente não repressor contava com recursos capazes de receber todos os tipos de expressões mobilizadas pelos afetos que emergiam dos pacientes.[12]

Entretanto, a intenção inicial de entrar em contato com os modos de existência e funcionamento dos internos revelou um potencial ainda maior. Mais do que apenas compreender o que se passava com as pessoas, os métodos empregados se mostraram terapêuticos em si, ou seja, as ocupações ofertadas no STO poderiam ser consideradas propriamente como modalidade de psicoterapia.[9]

Nise nomeou suas técnicas terapêuticas como “emoções de lidar”[12]. A psiquiatra e os monitores funcionavam como catalizadores de afeto, a fim de propiciar o desenvolvimento das criatividade e expressividade dos pacientes[12]. Para ela, os tratamentos deveriam lidar com as pessoas em sua totalidade, rejeitando a ideia de reduzir o paciente à doença. Nise buscava reconhecer e potencializar as singularidades e a humanidade dos internos.[9]

Como fruto de 28 anos como diretora do STO, Nise realizou inúmeras pesquisas a fim de registrar os resultados e comprovar os efeitos do tratamento, deixando documentado boa parte do seu enfrentamento contra práticas desumanas da psiquiatria de seu tempo. Como pode-se imaginar, as mudanças conduzidas por Nise da Silveira no ambiente hospitalar e no tratamento terapêutico dos internos não eram apoiadas por seus colegas de trabalho, profundamente comprometidos com as técnicas que a psiquiatra tanto combatia. Mesmo com incontáveis obstáculos, Nise da Silveira conseguiu produzir contribuições de caráter inovador no campo das artes, terapia ocupacional, psicologia, reabilitação psicossocial, e muitos outros.[9]

Museu de Imagens do Inconsciente[editar | editar código-fonte]

Apenas três meses depois de assumir a direção do STO, em 1946, uma exposição das produções artísticas dos pacientes foi promovida por Nise. Este foi o início de uma série de mostras que seriam realizadas no Brasil e no exterior.[3]

Como as produções do ateliê de pintura continuavam a pleno vapor e o acervo de obras aumentavam cada vez mais, foi inaugurado o Museu de Imagens do Inconsciente (MII), nas instalações do Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro (Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II), em 1952. O objetivo era organizar e catalogar o material. A partir disso, foi possível, também, empreender inúmeras pesquisas tendo como base as produções criativas dos pacientes[6]. Atualmente, o MII conta com um acervo de 350 mil obras[3], e funciona como centro de pesquisa sobre arte e loucura, além de realizar práticas educativas e museográficas.[2]

Mais uma vez, pode-se observar a inovação do trabalho de Nise da Silveira, ao realizar o ato inédito, tanto na psiquiatria quanto na cultura brasileira, de transformar pessoas com condições psiquiátricas em artistas reconhecidos.  A psiquiatra conseguiu, por meio do MII, fazer com que as produções realizadas no Setor de Terapia Ocupacional ultrapassasem o campo da clínica, chegando a um público muito mais amplo.[6]

Casa das Palmeiras[editar | editar código-fonte]

Mesmo com as intensas modificações proporcionadas por Nise no Centro Psiquiátrico do Engenho de Dentro, a partir da introdução das novas práticas  no Setor de Terapia Ocupacional, o número de pacientes que voltavam a ser internados era alto. Isso apontava para o fato de que o tratamento deveria contemplar, também, técnicas para preparar as pessoas para a vida social depois da alta institucional.[6]

Grupo de Estudos Carl Jung[editar | editar código-fonte]

Além do Museu de Imagens do Inconsciente (MII) e da Casa das Palmeiras, Nise fundou o Grupo de Estudos C. G. Jung e realizava reuniões de leitura e pesquisa abertas ao público, em sua própria residência.[2]

Assim, as ramificações do trabalho de Nise da Silveira compreendiam o Museu, que preservava as produções artísticas dos pacientes do Setor de Terapia Ocupacional, considerados material para pesquisa; a Casa das Palmeiras, onde se auxiliava a reintegração dos egressos do hospital na vida em sociedade, exercitando sua autonomia; e o Grupo de Estudos Carl G. Jung, destinado aos estudos.[2]

Aproximações entre o trabalho de Nise da Silveira e a Reforma Psiquiátrica no Brasil[editar | editar código-fonte]

A década de 1970 é reconhecida como o período de início da Reforma Psiquiátrica no Brasil. Entretanto, muitas das propostas articuladas nesse momento já haviam sido pensadas e experimentadas em certa medida, por autores anteriores a esse movimento. Nesse sentido, é interessante examinar as consonâncias entre a Reforma Psiquiátrica, bem como a Luta Antimanicomial, e o trabalho de Nise da Silveira no tratamento dos pacientes psiquiátricos.[7]

Tanto a psiquiatra  quanto o movimento da Reforma Psiquiátrica se colocam como críticos ao paradigma psiquiátrico tradicional, que possui como características marcantes a centralização do hospital como lugar de tratamento e confinamento dos pacientes e o foco na doença e não no sujeito. Ambos têm como objetivo compreender a pessoa em sua singularidade e totalidade, além de se posicionarem contrariamente aos métodos agressivos (como lobotomia, eletrochoque, camisa de força e coma insulínico) e defenderem a aplicação de métodos não agressivos.[7]

No Setor de Terapia Ocupacional, dirigido por Nise, os pacientes eram orientados por monitores, enfermeiros e pela psiquiatra, que ampliou os cuidados em saúde mental para outras categorias profissionais além da médica. A Reforma Psiquiátrica também defende o trabalho interdisciplinar. Com isso, ambos retiram das mãos do médico o controle absoluto da condução do tratamento. A ideia do médico como principal agente provedor de cuidados é uma forte marca do modelo manicomial, e foi questionada a partir desses movimentos.[7]

Uma das bandeiras levantadas pela Reforma Psiquiátrica é a desospitalização. A partir dela, foi implementada uma rede de serviços extra- hospitalares, como os Centros de Saúde e Ambulatórios, os Serviços Residenciais Terapêuticos (SRTs), leitos psiquiátricos em hospitais gerais, Centros de Convivência e Cooperativas (CECCOs) e os Centros de Atendimento Psicossocial. Semelhante a isso, é importante lembrar que Nise da Silveira fundou a Casa das Palmeiras, com o objetivo de evitar a reincidência de pacientes ou a internação de novos indivíduos, configurando-se, também, como um serviço extra-hospitalar.[7]

Desse modo, pode-se observar as grandes contribuições de Nise da Silveira na luta pela superação da lógica manicomial. Ao impedir que muitos pacientes sofressem com técnicas desumanas, Nise pôde oferecer um tratamento inovador, baseado na compreensão, liberdade, dignidade e afeto. Com isso, é interessante pensar que, mais do que melhorar a vida de inúmeras pessoas que foram diretamente beneficiadas por seu trabalho, Nise deixou um legado que encontrou ressonância décadas mais tarde, com o movimento de Reforma Psiquiátrica no Brasil. Além disso, deixou uma herança inestimável para os campos da Psiquiatria, Psicologia e Artes.[7] Dessa forma, Nise e colaboradores fundaram a Casa das Palmeiras, em 1956, que passou a funcionar como uma ponte entre o hospital psiquiátrico e o ambiente social externo a ele. O objetivo era auxiliar os indivíduos a fazer a transição de uma rotina hospitalar, isto é, desindividualizada, para a vida em sociedade, dotada de problemas de diversos tipos, inclusive em relação à difícil inclusão dessas pessoas. A psiquiatra buscou construir o senso de autonomia e liberdade dos pacientes[6]. Alguns indivíduos passavam a tarde na instituição, participando de diversas atividades dentro da proposta da terapia ocupacional. Aqueles que já haviam recebido alta frequentavam a casa para administrar suas medicações.[4]

Com isso, pode-se notar que o trabalho de Nise da Silveira foi importante no âmbito da reabilitação psicossocial dos pacientes, que, em sua concepção, deveriam ser enxergados simplesmente como pessoas. Com isso, seus esforços também eram voltados para modificar a visão negativa sobre os indivíduos com problemas psiquiátricos[9]. A Casa das Palmeiras demonstra, mais uma vez, o caráter revolucionário presente nas contribuições da psiquiatra. Anos antes do início do movimento da Reforma Psiquiátrica Brasileira, Nise foi capaz de reconhecer a necessidade da implementação de um serviço pioneiro, considerado precursor dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) existentes atualmente.[7]

Teoria[editar | editar código-fonte]

Em Nise da Silveira não é possível separar o aspecto coemergente de suas obras, uma vez que sua teoria está intrinsecamente relacionada a sua práxis. Dessa forma, seus trabalhos na Seção de Terapêutica Ocupacional, o Museu do Inconsciente, a Casa das Palmeiras e o Grupos de Estudos Carl Jung contam como um arsenal de práticas que formularam seus pensamentos ao longo dos anos [4].

Nise dividia suas atividades entre o Grupo, o Museu e a Casa das Palmeiras. O Grupo era reservado aos estudos e pesquisas, o Museu guardava o acervo iconográfico dos esquizofrênicos, que servia de material de pesquisa, e a Casa das Palmeiras era o local onde efetivamente lidava-se com o esquizofrênico e onde acontecia a práxis de Nise. Consequentemente, era neste local que convergia a experiência de Nise em terapia ocupacional, psiquiatria e psicologia Junguiana.[4]

O acompanhamento dos ateliês de pintura e modelagem proporcionou a Nise uma maior compreensão do dinamismo psíquico presente na esquizofrenia e, também, reflexões constantes sobre as condições do tratamento psiquiátrico e da hospitalização.[6]

Teoria sobre a metalinguagem[editar | editar código-fonte]

A tese central de Nise da Silveira sobre a Terapia Ocupacional era a metalinguagem[13] expressa pelos esquizofrênicos em suas pinturas[4]. Para ela, deve-se partir sempre do que o doente diz, escuta ou faz, visto que, quando o consciente está sufocado pelo inconsciente, a pessoa passa a se comunicar através da linguagem dos mitos, tal que ele não entende a linguagem do mundo externo [13]. Segundo a autora, todas as atividades são expressivas, a questão é saber observar como o indivíduo as executa[6]. O seu interesse era encontrar o doente, estabelecer com ele algum tipo de relação, abrir-lhe espaço para que ele pudesse dizer sua verdade. Dessa forma, a clínica da terapêutica ocupacional tinha como objetivo encontrar atividades que servissem aos doentes como meios de expressão partindo do nível não-verbal.[6]

Na concepção de Nise, a ocupação terapêutica pode ser considerada uma modalidade de psicoterapia,9 em que o próprio ato de pintar poderia adquirir, por si mesmo, qualidades terapêuticas[6]. A ocupação terapêutica ofereceria, a partir deste ponto de vista, atividades que conduzissem à satisfação libidinal de maneira aceita pela sociedade. As imagens plasmadas (ou pinturas) e a maneira como as diversas atividades eram desenvolvidas configurariam desejos inconscientes que não encontraram uma via de satisfação, produzindo sintomas. Contudo, através da sublimação em atividades plenamente aceitas pela sociedade, poderia rumar da fantasia à realidade. [9]  

Desse modo, a pintura revelava que o mundo interno do psicótico poderia tomar forma se encontrasse meios de expressão que o aproximassem cada vez mais do consciente, passando a ser vista como um instrumento a ser utilizado pelo paciente para reorganizar seu mundo interno e, ao mesmo tempo, reconstruir sua relação com a realidade exterior. [6]

Também em sua teoria sobre a metalinguagem, ela se opunha aos psicanalistas que afirmavam não haver transferência na esquizofrenia, insistia na tentativa do esquizofrênico em formar uma ponte afetiva com o mundo e mostrava como isto se exprimia nas pinturas e na relação com os animais. Segundo a médica, os esquizofrênicos frequentemente respondem ao apelo de se ocuparem com desenhos e pinturas. O psiquiatra, então, deveria se concentrar na metalinguagem do esquizofrênico e entender o significado dos seus símbolos.[4]


Nesse âmbito, Nise discordava da T.O. com propósitos econômicos, comerciais ou mesmo artísticos, pois, segundo ela, a T.O. não buscava fazer arte, mas dar ao paciente a liberdade para ele criar algo.[4]

Nise e a Teoria Junguiana[editar | editar código-fonte]

Nise acreditava ter comprovado a tese de Jung sobre os arquétipos e a mente esquizofrênica, dado que chamava atenção para as mandalas, símbolos que denotam a tendência inconsciente a compensar o caos interior e buscar um ponto central, na psique, como tentativa de reconstruir a personalidade dividida[6]. Sendo assim, Nise formulou  o conceito de psicoterapia não verbal e metalinguagem a partir do conceito de plexo solar de Jung. [4]

Ela defendia que o indivíduo, através da psicoterapia não verbal, expressava-se em uma linguagem mais arcaica, universal e coletiva a fim de mobilizar afetos profundamente depositados na primeira localização psíquica (plexo solar) e trazê-los à consciência. Traços mnêmicos de forte carga afetiva acumulados em centros psíquicos rudimentares não poderiam ser evocados a partir de instrumentos refinados como o dispositivo verbal. Desse modo, métodos mais simples como a dança, as representações mímicas, a pintura, a escultura, a música e afins eram mais eficazes na comunicação com os esquizofrênicos. Conforme Nise postulou: a ação terapêutica se insere a partir do momento em que o médico deseja se comunicar e compreender o seu doente, partindo assim do nível não verbal. [4]

Nise acreditava que, para acompanhar a produção criativa dos pacientes, era preciso ter paciência e tato, e não apressar as coisas. Em sua experiência, a psicologia junguiana, literatura, arte, e mitologia instrumentalizam-na para a compreensão das metamorfoses do ser e para a investigação da incansável trajetória do homem em busca do seu mito. Com esses estudos, Nise apresentou uma compreensão da psique como um sistema vivo, com um dinamismo próprio, que se auto-regula e se direciona para a cura e para a saúde. Além disso, criou, ainda, um método para a leitura das imagens que emergiam na produção artística dos pacientes que participavam dos ateliês de pintura e modelagem do Setor de Terapia Ocupacional do Engenho de Dentro.[6]


O desenvolvimento de um método de leitura de imagens introduziu uma novidade na forma como, até então, a psiquiatria e, mesmo, a psicanálise tinham tomado as produções de pacientes psicóticos. Nise afirmava que era forçoso reconhecer que a produção plástica dos psicóticos ia além das representações distorcidas e veladas dos conteúdos pessoais reprimidos. Esse método ultrapassa o registro de sintomas, entendendo que, ao pintar, o indivíduo não somente expressa a si mesmo, mas cria algo novo, produz um símbolo, e essa produção tem efeitos de transformação tanto na realidade psíquica como na realidade compartilhada. Nesse sentido,  o que Nise propõe, num percurso que vai do psíquico ao artístico, não é apenas uma leitura arquetípica das produções artísticas, embora ela seja predominante, mas também uma leitura do psíquico pelos mecanismos de constituição da arte. [6]

Animais Co-terapeutas[editar | editar código-fonte]

Uma característica singular da prática analítica de Nise era a presença de gatos e cães no setting. Eles ocupavam a sala onde ela atendia privadamente seus analisandos, a sala do grupo de estudos, o ambiente do Museu, ou onde fossem necessários[4]. Essa convivência pacífica fez com que Nise percebesse que a responsabilidade de cuidar de um animal e o desenvolvimento de laços afetivos podia contribuir para a reabilitação de doentes mentais, fazendo com que a mesma os incorporasse a seu trabalho. [5]

Os pacientes que inicialmente eram avessos aos animais, com a evolução da terapia, aproximavam-se deles, cuidando, afagando, restabelecendo suas energias afetivas. A relação entre paciente e animais é essencialmente não verbal, e era por esta via que Nise procurava captar as dificuldades de seus pacientes e mobilizar a partir daí as primeiras manifestações de cura.[4]

Nise costumava chamar os animais de co-terapeutas, comprovando que a afetividade não é anulada pela esquizofrenia. Ela descreveu parte deste processo em seu livro "Gatos, A Emoção de Lidar", publicado em 1998, quando já tinha a idade de 93 anos. [5]

Nise e o conceito de “afeto” de Spinoza[editar | editar código-fonte]

Podemos pensar, ainda, que o trabalho clínico e teórico realizado por Nise viria transformar, também, as concepções e práticas clínicas que passariam a abordar a ação e a criação como elementos constitutivos da experiência de estar vivo, independentemente do comprometimento psíquico e do tempo da “doença”. Sua atenção na construção de ambientes propícios à criação fez com que trabalhasse, também, sobre a organização dos espaços e tempos institucionais e, sobretudo, na formação dos profissionais que com ela acompanhavam pacientes. [6]

Para ela, para que qualquer atividade viesse a ter uma função terapêutica, era preciso que fosse desenvolvida num ambiente de ateliê acolhedor que, se diferenciando do ambiente hospitalar no qual estivesse inserido, transformava-se em espaço significativo, desencadeador de aproximações e contatos disruptores do processo de criação. Esses ateliês eram preparados pelos monitores, de forma a dar continência aos internos, acolhendo dores, silêncios, ritmos, e, ao mesmo tempo, estimulando a expressão. [6]

A presença constante de um monitor visava a oferta de um afeto catalisador que pudesse estimular a criatividade e que permitisse restaurar pontes de comunicação com o mundo no qual viviam. Nise utilizou o conceito de afeto de Spinoza, como um afeto que seria produzido por um bom encontro, e o associou à ideia de um disparador do processo de cura - utilizando-se do conceito de catalisador da química-física. Ela acreditava que o processo terapêutico deveria ser acompanhado de forma adequada, cuidadosa e atenta, com a presença e sensibilidade humana para perceber e observar as expressões e manifestações dos pacientes, fundamentais para dar continência às experiências, para não apressar as coisas e para estimular processos de criação, que só poderiam se desenvolver se, no ambiente em que o paciente vivesse, ele encontrasse o suporte do afeto. À vista disso, valorizava a pessoa humana do monitor, sua sensibilidade e intuição, que favoreceriam uma experiência artística potente. [6]

A reunião da concepção de terapia ocupacional de Nise da Silveira com a Psicologia Analítica resultou numa ampliação desta para o mundo do esquizofrênico, permitindo, pela primeira vez, através do contato com os animais, da espontaneidade do fazer e da metalinguagem, a possibilidade de acessar o ser recolhido em seu mundo inconsciente e infundir nele forças curativas mediadas por símbolos e afetos.[4]

Cronologia biográfica[editar | editar código-fonte]

1905:Em 15 de fevereiro de 1905  nasce Nise da Silveira.

1926:Aos 21 anos, Nise formou-se em medicina pela Faculdade de Medicina da Bahia.

1933:Foi aprovada em um concurso público para trabalhar como psiquiatra no Serviço de Assistência a Psicopatas e Profilaxia Mental, no Hospital da Praia Vermelha.

1936: Nise da Silveira é levada para o presídio Frei Caneca, onde ficou detida por 16 meses, acusada de envolvimento com o comunismo.

1937-44: Período em que Nise permanece na semi-clandestinidade com seu marido, afastada do serviço público no intuito de evitar novas perseguições.

1944: Nise retorna ao serviço público dando início ao seu trabalho no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no Engenho de Dentro.

1946: Nise da Silveira funda a Seção de Terapêutica Ocupacional (STO) no Centro Psiquiátrico Nacional de Engenho de Dentro, hoje Instituto Municipal Nise da Silveira.

1952: O Museu de Imagens do Inconsciente foi inaugurado em 20 de maio.

1954: Nise da Silveira escreve carta a Carl Gustav Jung, indagando sobre questões referentes ao simbolismo da mandala. Esse fato marcou a introdução da psicologia junguiana na América Latina.

1956: Fundação da Casa das Palmeiras, clínica pioneira em regime de externato hoje localizada no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro. Fundação do Grupo de Estudos C. G. Jung. Ao longo de sua existência publicou seis volumes da revista Quaternio.

1957: O encontro com Jung. O Museu apresenta a exposição "A Esquizofrenia em Imagens", por ocasião do II Congresso Internacional de Psiquiatria reunido em Zurique, Suíça.

1968:Nise funda o Grupo de Estudos do Museu de Imagens do Inconsciente. Publicação do livro “Jung: vida e obra”.

1975:Nise é aposentada compulsoriamente. No dia seguinte apresenta-se ao CPPII como a mais nova estagiária.

1981:Lançamento do livro ``Imagens do Inconsciente, de Nise da Silveira.

1992: Publicação do livro ``O Mundo das Imagens ``, de Nise da Silveira.

1998: Publicação do livro “Gatos, A Emoção de Lidar”, de Nise da Silveira.

1999: Nise da Silveira falece em 30 outubro de 1999, aos 94 anos, devido a insuficiência respiratória aguda.

2000: O Centro Psiquiátrico Pedro II é municipalizado, passando a integrar a Secretaria Municipal de Saúde. Em homenagem à fundadora do Museu, passa a se chamar Instituto Municipal Nise da Silveira.

Seguidores[editar | editar código-fonte]

Luiz Carlos Mello[editar | editar código-fonte]

Luiz Carlos Mello, conhecido como Lula, conheceu Nise da Silveira ao decorrer dos anos 1970, através do Grupo de Estudos realizados pela mesma. Na época em que conheceu a Doutora Nise, Mello era graduando em Engenharia na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Após entrar em contato com o trabalho realizado por Nise da Silveira em Engenho de Dentro, Mello decidiu trabalhar voluntariamente com a psiquiatra, deixando de dar continuidade a sua graduação.[2]

Mello é atualmente diretor e curador do Museu de Imagens do Inconsciente, onde é responsável pela Biblioteca Nise da Silveira e por atividades como organizar exposições em conjunto com a  equipe de museologia, por exemplo. Lula foi colaborador de Nise da Silveira desde que começou seu trabalho voluntário ao lado da mesma e, após sua morte, mantém viva a memória da Psiquiatra.[2]

O mesmo é autor da fotobiografia “Nise da Silveira: Caminhos de uma Psiquiatra Rebelde”, no qual conta a trajetória de Nise da Silveira, com a presença de documentos, textos, entrevistas, cartas, manuscritos e fotografias, boa parte retirada do acervo pessoal da médica psiquiatra. Além disso, o diretor destaca, em conferências, o papel e pioneirismo de Nise da Silveira na crítica à psiquiatria vigente na época, relacionando a médica também às origens da Reforma Psiquiátrica.[2]


Vitor Alexandre Pordeus da Silva[editar | editar código-fonte]

Vitor Alexandre Pordeus da Silva é médico imunologista, ator, psiquiatra cultural e pesquisador. Graduado pela Universidade Federal Fluminense, realizou sua residência em Israel no Instituto Weizmann e na Universidade de Tel Aviv. Teve início no doutorado na Universidade de São Paulo em Saúde Pública, porém não terminou a pós-graduação pois passou por um período de autoquestionamento levando-o a focar em atividades artísticas, ingressando no grupo de teatro de rua Tá Na Rua em 2006. Ficou conhecido por coordenar o projeto “Hotel da Loucura” em 2012. [2]

Vitor Pordeus se familiarizou com o trabalho da doutora Nise somente após assumir o Núcleo de Cultura, Ciência e Saúde do Rio de Janeiro em 2008. Ficou responsável pela coordenação desta pasta após ser convidado por Hans Dohmann seu antigo chefe no instituto Pró-cardíaco, uma vez que ele tinha assumido o cargo de secretário de saúde do município do Rio de Janeiro. Após assumir o cargo em 2009 conheceu o Museu Imagens do Inconsciente e, assim, passou a ser um grande admirador do trabalho de Nise da Silveira, se referindo à médica com “a melhor médica da história do Brasil”.[11]

Mesmo que Pordeus nunca tenha se filiado à instituição do Museu Imagens do Inconsciente ou aos seus gestores, foi dentro do complexo psiquiátrico que o Hotel da Loucura se deu início. O médico ator e seu grupo ocuparam duas enfermarias no último prédio deste gigantesco complexo, e fizeram daquele espaço o Hotel da Loucura a partir de ações como: pintar paredes, lavar banheiros, desenhar, cantar, pular. Ademais, seis coletivos foram situados nas enfermarias, o que levou os primeiros residentes para lá. O espaço contava ainda com uma cozinha, uma biblioteca e o hall de entrada, lugar que se tornou o principal espaço de reunião dos coletivos. [2]

Ainda que Vitor Pordeus compartilhasse o espaço do hospital psiquiátrico, o médico ator tinha diferenças metodológicas da Doutora Nise e seus seguidores. Pordeus pensou sua arteterapia na forma de um exercício teatral, utilizando de exercícios de improviso e espontaneidade dos atores. Por mais que Nise também tenha utilizado de obras teatrais em sua terapia, pinturas e modelagens são muito mais presentes em sua trajetória no Museu. Além da teatralidade, Pordeus também criou atividades de cunho educativo como o Curso de Psicopatologia do Hotel da Loucura. O trabalho do médico ator teve uma grande repercussão, tendo em vista que o jornal internacional, BBC Londres, registrou uma de suas atividades teatrais. Dessa forma, Vitor Pordeus por diversas vezes foi chamado de “o verdadeiro herdeiro da Nise” devido ao grande impacto de suas realizações. [2]

No ano de 2015 o médico ator ingressou em um programa de doutorado no Departamento de Psiquiatria Cultural da McGill University, em Montreal, Canadá. Apesar de não estar presente no cotidiano do projeto do Hotel da Loucura, sua comunicação com sua equipe continuava de forma constante, além de ir até o Rio de Janeiro de forma regular. Entretanto, em 2016, Vitor Pordeus foi exonerado do cargo com a justificativa de que não estava cumprindo sua carga horária, e sua não participação ativa no Hotel. Desde então, o Hotel da Loucura foi transformado no Espaço Travessia – Corpo e Movimento, com outro profissional substituindo Pordeus. [2]

Obras[editar | editar código-fonte]

As principais obras publicadas pela Doutora Nise da Silveira estão listadas abaixo:

  • Jung: Vida e Obra. Rio de Janeiro, 1968.
  • Terapêutica Ocupacional: Teoria e Prática, 1979
  • Imagens do Inconsciente. Rio de janeiro, 1981
  • Casa das Palmeiras. A emoção de lidar. Uma experiência em psiquiatria. Rio de janeiro,  1986
  • O mundo das imagens. São Paulo, 1992
  • Cartas a Spinoza. Rio de Janeiro, 1995
  • Gatos – A Emoção de Lidar. Rio de Janeiro, 1998

Além dessas obras, Nise da Silveira possui artigos publicados em diversas Revistas e jornais, tais como:

  • Estado mental dos afásicos. Revista de Medicina, Cirurgia e Farmácia. Rio de Janeiro, 1944
  • Considerações teóricas sobre ocupação terapêutica. Revista de Medicina, Cirurgia e Farmácia. Rio de Janeiro,  1952.
  • Contribuição aos estudos dos efeitos da leucotomia sobre a atividade criadora. Revista de Medicina, Cirurgia e Farmácia. Rio de Janeiro, 1955.
  • C. G. Jung e a psiquiatria. Revista Brasileira de Saúde Mental, 1962.
  • 20 anos de Terapêutica Ocupacional em Engenho de Dentro (1946-1966). Revista Brasileira de Saúde Mental, 1966.
  • Perspectiva da Psicologia de C. G. Jung. Revista Tempo Brasileiro, 1970.
  • O Museu de Imagens do Inconsciente – história. In: Museu de Imagens do Inconsciente. Coleção Museus Brasileiros. Rio de Janeiro, 1980.
  • Retrospectiva de um trabalho vivido no Centro Psiquiátrico Pedro II. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, São Paulo, IX (1), p. 138-150, 2006. (trabalho original publicado nos Anais do XIV Congresso Nacional de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental. Maceió, 1979).
  • 40 anos do Museu de Imagens do Inconsciente. Jornal Brasileiro de Psiquiatria, 1992.

A tese de doutoramento da Nise, “Ensaio sobre a criminalidade da mulher no Brasil”, está disponível neste link (https://repositorio.ufba.br/ri/handle/ri/29508</nowiki>).

Prêmios e conquistas[editar | editar código-fonte]

Nise foi membro fundadora da Sociedade Internacional de Expressão Psicopatológica ("Societé Internationale de Psychopathologie de l'Expression"), com sede em Paris. Sua pesquisa em terapia ocupacional e o entendimento do processo psiquiátrico através das imagens do inconsciente deram origem a diversas exibições, filmes, documentários, audiovisuais, cursos, simpósios, publicações e conferências. Em reconhecimento a seu trabalho, Nise foi agraciada com diversas condecorações, títulos e prêmios em diferentes áreas do conhecimento, entre eles:

"Ordem do Rio Branco" no Grau de Oficial, pelo Ministério das Relações Exteriores (1987);

“O título de doutora Honoris Causa da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ)” em 1988;

"Prêmio Personalidade do Ano de 1992", da Associação Brasileira de Críticos de Arte;

"Medalha Chico Mendes", do grupo Tortura Nunca Mais (1993);

"Ordem Nacional do Mérito Educativo", pelo Ministério da Educação e do Desporto (1993).

Seu trabalho e idéias inspiraram a criação de museus, centros culturais e instituições terapêuticas em diversos estados do Brasil e no exterior, como:

o "Museu Bispo do Rosário", da Colônia Juliano Moreira (Rio de Janeiro)

o "Centro de Estudos Nise da Silveira" (Juiz de Fora,Minas Gerais)

o "Espaço Nise da Silveira" do Núcleo de Atenção Psicossocial (Recife)

o "Núcleo de Atividades Expressivas Nise da Silveira", do Hospital Psiquiátrico São Pedro (Porto Alegre-RS)

a "Associação de Convivência, Estudo e Pesquisa Nise da Silveira" (Salvador -Ba,)

o "Centro de Estudos Imagens do Inconsciente", da Universidade do Porto (Portugal)

a "Association Nise da Silveira - Images de L'Inconscient" (Paris- França)

o "Museo Attivo delle Forme Inconsapevoli" (Genova-Itália)

Relação com outros personagens[editar | editar código-fonte]

Carl Gustav Jung[editar | editar código-fonte]

As pesquisas de Nise foram aperfeiçoadas a partir do contato que travou com Carl Gustav Jung, um dos maiores e mais influentes pensadores do século XX. Fundador da escola analítica de psicologia, Jung inspirou os estudos da alagoana sobre o inconsciente e teve em Nise da Silveira sua maior discípula no Brasil. Foi  na Psicologia  Analítica, desenvolvida por Jung, que Nise identificou os fundamentos teóricos que a ajudariam a compor seu trabalho. O contato inicial ocorreu através da troca de correspondências, sendo aprofundado a partir da participação de Nise em um Congresso Internacional de Psiquiatria, realizado em 1957 em Zurique, na Suíça.[8]

Em 1949, Nise já descrevia o aparecimento de figuras circulares (mandalas) nos desenhos dos pacientes esquizofrênicos, sem conseguir, no entanto, aprofundar sua significação. Não compreendia o aparecimento de imagens “sadias” com outras que indicavam a “patologia” (cisão). Os estudos do psiquiatra suíço Carl Jung sobre as mandalas, atraíram a atenção de Nise da Silveira para suas teorias sobre o inconsciente. Em 1954, notando serem mandalas temas recorrentes nas pinturas de seus pacientes, ela escreveu uma carta endereçada a Jung indagando sobre questões referentes ao simbolismo da mandala. Sendo prontamente respondida, Jung lhe confirma o caráter compensatório dessas mandalas e seu potencial de ordem autocurativo[3]. Esse fato marcou a introdução da psicologia junguiana no Brasil.[4]

Nise da Silveira estudou no "Instituto Carl Gustav Jung" em dois períodos: de 1957 a 1958; e de 1961 a 1962[1]. No primeiro período, em 1957, Nise é convidada por Jung para passar um ano estudando com ele no Instituto Junguiano, na Suíça. Lá, foi estimulada pelo mestre a apresentar no II Congresso Internacional de Psiquiatria, em Zurique, no mesmo ano, uma exposição com as pinturas e modelagens de seus pacientes esquizofrênicos que ocupavam as sessões de terapia ocupacional no então Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro.[3]

Esta exposição ocupou cinco salas e chamou-se “A Esquizofrenia em Imagens</nowiki>, além de ter, na presença e entusiasmo de Jung, reconhecimento e prestígio. Jung documentava a linguagem simbólica do inconsciente coletivo, e nada mais eloquente que sua manifestação na arte espontânea e desengajada nascida dos esquizofrênicos. Ao mesmo tempo, Nise teve a oportunidade de encontrar uma explicação para aquelas figuras e temas tão recorrentes e, assim, ter acesso a uma metacomunicação que abria para ela segredos da esquizofrenia. Neste encontro em Zurique, Jung conheceu as teorias de Nise sobre a esquizofrenia e o tratamento realizado pela mesma através da terapêutica ocupacional.[4]

Foi ainda neste período que Nise iniciou sua análise com Marie Louise von Franz, também em Zurique, seguida de sua colaboradora, a psiquiatra Alice Marques dos Santos. Nise voltaria para Zurique novamente nos anos 1961-62 e depois em 1964, amparada por bolsa cedida  pela  OMS.[3]

Ao retornar do congresso, onde obteve reconhecimento pelo seu trabalho, Nise iniciou em sua residência o Grupo de Estudos C. G. Jung, no Rio de Janeiro, o qual presidiu até 1968 e tinha por objetivo divulgar o pensamento do psicólogo. A partir daí, o grupo seria muito ativo, promovendo seminários, publicações (a revista Quatérnio) e pesquisas[4]. Nesse mesmo ano, Nise publicou o livro  “Jung: vida e obra”, introduzindo a Psicologia Junguiana no Brasil. Ao compreender a importância das imagens mitológicas, do folclore, da religião, ela debruçou-se sobre a cultura nacional e publicou também alguns estudos sobre motivos do nosso folclore.[3]

Somente depois de ser aposentada compulsoriamente, aos setenta anos, organizou e publicou seus livros mais conhecidos, Imagens do inconsciente (1981), onde apresenta as histórias que depois se tornariam o filme de mesmo nome, de Leon Hirszman, e O mundo das imagens (1992).[3]

Referências[editar | editar código-fonte]

1 ARRUDA, Lauro.  Nise da Silveira: uma psiquiatra rebelde.  Hospital do Coração. Disponível em: <http://www.hospitaldocoracao.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=226:nise-da-silveira-uma-psiquiatra-rebelde&catid=48:nomes-da-medicina&Itemid=120</nowiki>>.

2 MAGALDI, Felipe. 2019. Das memórias de Nise da Silveira no hospital psiquiátrico do Engenho de Dentro. Mana, 25(3): 635-665. https://doi.org/10.1

3 CARVALHO, S. M. M.; AMPARO, P. H. M. Nise da Silveira: a mãe da humana-idade. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, São Paulo, v. 9, n. 1, p. 126-137, 2006.

4 CÂMARA, Fernando Portela. A contribuição de Nise da Silveira para a psicologia junguiana. Psychiatry On-line Brazil, Vol.9, Nº 3, Março, 2004. Disponível em: http://www.polbr.med.br/ano04/wal0304.php Acesso em: 21 set. 2020.

5  FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Nise da Silveira – uma psiquiatra rebelde. Templo Cultural Delfos, maio/2016. Disponível em: http://www.elfikurten.com.br/2016/05/nise-da-silveira.html?m=1 Acesso em: 21 set. 2020.

6 CASTRO, Eliane Dias de; LIMA, Elizabeth Maria Freire de Araújo. Resistência, inovação e clínica no pensar e no agir de Nise da Silveira. Interface (Botucatu), Botucatu, v. 11, n. 22, p. 365-376, Aug.  2007.  Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-32832007000200017&lng=en&nrm=iso.Acesso</nowiki> em: 30 out.  2020.  https://doi.org/10.1590/S1414-32832007000200017

7 JACÓ-VILELA, A. M., and OLIVEIRA, D. M., orgs. Clio-Psyché: discursos e práticas na história da psicologia (online). Rio de Janeiro: EDUERJ, 2018, 361 p. ISBN 978-85-7511-498-8 Disponível em: doi: 10.7476/9788575114988. Também disponível em:http://books.scielo.org/id/27bn3/epub/jaco-9788575114988.epub

8 LESSA, Fábio Lins. O dia em que a alagoana Nise da Silveira conheceu Carl Jung: mais um encontro de gênios. Cultura e Viagem, 2014. Disponível em: https://culturaeviagem.wordpress.com/2015/01/13/o-dia-em-que-a-alagoana-nise-da-silveira-conheceu-carl-jung-mais-um-encontro-de-genios/amp/ Acesso em: 24 set. 2020.

9 MELO, W. (2009b). Nise da Silveira e o campo da Saúde Mental (1944-1952): contribuições, embates e transformações. Mnemosine, 5, 30-52.      

10 _____. Museu de Imagens do Inconsciente: O Legado de uma Vida – Datas e Fatos. Nise da Silveira, Vida e Obra. Disponível em: http://www.ccms.saude.gov.br/nisedasilveira/datas-fatos.php Acesso em 24 set. 2020.

11 PORDEUS, Vitor. “Hotel da Loucura”: entrevista concedida a Vicente Lou. Leros, abr. 2014. Disponível em: https://pt.slideshare.net/grimbow/036-040-vitor-pordeus Acesso em: 20 out. 2020

12 SCHLEDER, Karoline Stoltz; HOLANDA, Adriano Furtado. Nise da Silveira e o enfoque fenomenológico. Ver. Abordagem gestalt., Goiânia, v. 21, n. 1, p. 49-61, jun.  2015.   Disponível em http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-68672015000100006&lng=pt&nrm=iso Acesso em 30 out.  2020.

13 SILVEIRA, Nise da. Entrevista Nise da Silveira. [Entrevista concedida a] LEAL, L. G. P. Psicol. Cienc. Prof. Brasília. Vol.14 no.1-3. Julho. 1992.

Autoria[editar | editar código-fonte]

Verbete criado inicialmente por: Bruno Stael, Carolina Silva, Danielle da Silva, Larissa Heckert, Maria Carolina, como exigência parcial para a disciplina de Estudos Avançados Em História da Psicologia da UFF de Rio das Ostras. Criado em 2020.2, publicado em 2021.1