Este é um texto didático de autoria de André Elias Morelli Ribeiro (coordenador do projeto Portal História da Psicologia) para a disciplina História da Psicologia, do curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense em Rio das Ostras. Seu uso é livre, desde que citada a fonte.
Um longo passado, uma curta históriaEditar
A psicologia tem um longo passado, mas uma curta história. Esta é uma frase muito famosa no campo da história da psicologia, tendo sido consagrada por Hermann Ebbinghaus, um psicólogo alemão pioneiro no estudo da memória, ainda no século XIX. A frase é exemplar sobre como é difícil dizer quando a psicologia teve início. Retomemos ela em mais detalhes. A psicologia tem um longo passado, porque os temas que consideramos hoje como parte da psicologia aparecem muitas vezes na filosofia, na religião, em saberes tradicionais, entre muitos outros lugares. É difícil estabelecer qual o objeto de estudo da história da psicologia, assim como é difícil, ao longo da história, separar o que é psicologia daquilo que não é psicologia.
Esse longo passado pode remontar, por exemplo, à Antiguidade, com o tratado De Anima de Aristóteles, que escreveu muito antes de se imaginar o próprio conceito de ciência moderna e, menos ainda, de uma psicologia moderna. Outros podem colocar o lugar de início da psicologia em Descartes, que elaborou a máxima, também famosa, “penso, logo existo”. Isso mostra que os objetos de estudo da psicologia são historicamente construídos, ou seja, emergem a partir dos locais ou pessoas que atuaram na psicologia, como na medida das diferenças individuais, as dinâmicas de controle num laboratório, nas práticas de psicoterapia, entre muitas outras.
Se cada historiador localiza o passado da psicologia em lugares diferentes no tempo e no espaço, a história da psicologia, por seu lado, tem uma definição bem mais estável e curta. Nos anos 1980, os historiadores, reunidos num congresso nos EUA, definiram que a psicologia científica teria começado em 1879, quando Wilhelm Wundt fundou o primeiro laboratório de psicologia experimental na Universidade de Leipzig, na Alemanha. Essa definição está consagrada e é quase um consenso, porém, não foi tão simples estabelecê-la. Alguns advogavam pelo pioneirismo de outro alemão, Theodore Fechner, criador da chamada psicofísica, de onde vieram muitos dos experimentos e ideias de Wundt. Outros ainda queriam que William James, um filósofo e psicólogo americano, fosse reconhecido como fundador, pois seu laboratório de psicologia era ainda mais antigo que o de Wundt que, no final, venceu essa disputa.
Resumindo, a psicologia possui um “longo passado”, com raízes filosóficas e religiosas milenares e altamente diversas, e uma “curta história” como disciplina científica, cujo marco está situado em 1879, com a fundação do primeiro laboratório experimental por Wilhelm Wundt, na Alemanha.
PresentismoEditar
Mas o que seriam essas psicologias anteriores a essa psicologia científica? Para entender melhor essa história, é preciso refletir para superar, da melhor forma, um problema chamado “presentismo”, ou seja, julgar, entender, interpretar e analisar o passado com a visão do presente. Não é apenas uma questão de olhar para as pessoas do passado e superar o pensamento de que elas eram “ignorantes”, pois “não tinham o conhecimento que temos hoje”. É entender também que, no passado, haviam formas de conhecimentos diferentes, bem como visões de mundo diferentes da atual. Pensando em termos da psicologia, como elas seriam diferentes?
Um exemplo interessante é o conceito de atenção. Hoje, ela é um tema tão discutido e consensual que pouco se reflete sobre seu significado. Atualmente, seria algo como centralizar as faculdades mentais em um lugar específico. Pode-se ouvir as pessoas reclamando que “não conseguem prestar atenção”, ou que nunca “mantém a atenção”, e até mesmo existem medicamentos para resolver esse problema. Contudo, a palavra “atenção” nem sempre significou o que entendemos hoje. Para Santo Agostinho, atenção era apenas o ato de passar de um pensamento para outro. Descartes tinha um conceito mais parecido com o contemporâneo, onde a atenção era mobilizada de forma voluntária para fixar e reter na memória coisas raras e extraordinárias que o entendimento considerava úteis. Na obra de Locke, a atenção é mencionada apenas de passagem, como um mero mecanismo auxiliar da retenção de memórias. A partir do momento em que a ciência demonstrou que a percepção depende da estrutura física e biológica do corpo (com a psicofísica e a fisiologia sensorial), já no século XIX, a visão passou a ser encarada como intrinsecamente incompleta, instável e condicionada pelo tempo. Nesse contexto, a atenção foi utilizada como um substituto pragmático para garantir a coerência do mundo percebido. Autores do final do século XIX, como Théodule Ribot e Max Nordau, associaram os desvios ou a fraqueza da atenção a patologias psíquicas, comportamentos sociopáticos e teorias da “degeneração”. Para eles, uma atenção defeituosa deixava a mente à mercê de “associações caóticas”, gerando uma visão borrada e distorcida da realidade. Foi apenas na década de 1950 que a nossa compreensão contemporânea de atenção começou a se delinear, paralelamente aos estudos sobre os medicamentos desenvolvidos para tratar as suas disfunções.
Uma pessoa desavisada, que não está atenta às grandes diferenças entre as ideias e conceitos ao longo do tempo, poderia ler um trecho de Ribot e achar que a atenção do qual ele fala é a mesma coisa que entendemos hoje. O leitor estaria totalmente enganado, a ponto de não conseguir nem mesmo compreender o que Ribot queria dizer. Em outras palavras, o esforço para entender as psicologia do passado passa também pelo esforço de entender como se pensava no passado, qual a visão que se tinha nesse passado. Parte do esforço do historiador é trazer esses aspectos de volta ao presente.
O sujeito transcedental de KantEditar
A concepção de uma psicologia ocupada especificamente com a “mente” humana e suas operações começou a ganhar contornos modernos no século XVIII com o filósofo Christian Wolff. Ele dividiu a psicologia em Psicologia Empírica, num livro publicado em 1732 e baseada na introspecção; e em Psicologia Racional, numa obra de 1734, dedicada a deduzir a natureza e a essência da alma, como sua imortalidade e imaterialidade, de forma puramente lógica e racional, independentemente da experiência.
Contudo, o projeto de Wolff enfrentava um sério problema metodológico, a chamada observação interna ou introspecção. Quando se estuda um fenômeno natural, como a chuva, é necessário observar o que acontece, incluindo como as nuvens se formam, qual a umidade do ar, a intensidade dos raios solares, a direção dos ventos, entre muitos outros fatores, todos objetos externos do sujeito. Toda a ciência é feita dessa forma, observando, testando e analisando o mundo que está fora dos indivíduos. O problema está em estudar algo que é interno aos sujeitos. Não se pode observar diretamente o que se passa na cabeça de alguém, contudo, é possível analisar o que se passa nas nossas próprias cabeças. Isso seria a introspecção, ou seja, o processo pelo qual adquirimos conhecimento sobre nossos próprios estados ou processos mentais Apesar de ser uma ideia interessante, fazer introspecção não era considerado algo muito científico. Entendia-se que “observar a si mesmo” distorcia os eventos mentais, pois o sujeito que observa e o objeto observado são o mesmo, o que impediria a neutralidade exigida pelo modelo científico então vigente.
Até a segunda metade do século XVIII, as teorias do conhecimento, que incluíam o empirismo e o racionalismo, compartilhavam a premissa de que o conhecimento era determinado pelo objeto a ser conhecido. O objeto estava lá, esperando a melhor forma de ser conhecido. Kant, em sua obra Crítica da Razão Pura (1781), inverteu essa lógica de forma radical. Ele propôs que não é o conhecimento que se adequa aos objetos, mas são os objetos que são determinados pelo sujeito. O conhecimento passou a ser compreendido não como uma recepção passiva, mas como uma produção ativa do chamado sujeito transcendental, moldada por suas formas a priori.
O sujeito transcendental em Kant não se refere propriamente a um indivíduo empírico ou psicológico, ou seja, alguém com personalidade e história pessoal. Pense no sujeito transcendental não como “você” (André ou Maria), mas como o “sistema operacional” universal da mente humana. Assim como um software organiza os dados que chegam do teclado, o sujeito transcendental organiza os dados que chegam dos sentidos, como o tempo e o espaço, antes mesmo de termos consciência deles.
Para entender o sujeito transcedental, é preciso fazer um importante exercício de abstração, visando conseguir entender algo que está além da experiência existencial individual e entender aquilo que molda essa própria experiência. O sujeito transcedental de Kant é uma condição universal de possibilidade para qualquer conhecimento. Em outras palavras, é algo que todas as pessoas possuem e é a forma que o ser humano tem para saber as coisas. É a estrutura ativa da mente que organiza a experiência antes mesmo que possamos refletir sobre ela. Esse sujeito é o princípio unificador que garante a coerência dos dados sensoriais, transformando o caos de impressões oriundas dos órgãos dos sentidos em uma experiência significativa e estruturada. Através das formas a priori da sensibilidade (espaço e tempo) e das categorias do entendimento, o sujeito transcendental “constrói” o objeto conhecido. Ele é o “Eu penso” que deve poder acompanhar todas as nossas representações, conferindo unidade à consciência. Em suma, não conhecemos o mundo como ele é em si, mas como o sujeito transcendental o molda e o organiza para que se torne inteligível para nós.
Immanuel Kant revolucionou a teoria do conhecimento ao postular que a mente humana não funciona como um receptáculo passivo de impressões sensoriais, mas sim como um agente ativo dotado de estruturas constitutivas a priori que organizam, unificam e interpretam a matéria-prima da experiência.
O processo de constituição do conhecimento dos fenômenos que chegam para nossa mente a partir dos órgãos dos sentidos articula-se em três instâncias fundamentais. A primeira são as formas puras da sensibilidade, depois vem os conceitos puros do entendimento, ou seja, as categorias e, por fim, a unidade sintética da apercepção.
Nas formas puras da sensibilidade, antes mesmo que o intelecto possa aplicar qualquer conceito, o caos das sensações brutas é necessariamente ordenado no espaço e no tempo, que não são propriedades das coisas em si, mas intuições puras da sensibilidade que funcionam como os eixos coordenados onde os fenômenos são dados. Ou seja, as informações dos sentidos já chegam num espaço e num tempo para o resto do processo de constituição do conhecimento.
Uma vez colocados no espaço e estruturados numa sucessão e simultaneidade temporal, esses dados passam pelas doze categorias do entendimento puro. Essas categorias se dividem em quatro classes de tríades: quantidade, qualidade, relação e modalidade. As categorias representam as regras lógicas puras, fundamentais e necessárias para tornar qualquer objeto da experiência inteligível. Elas podem ser observadas de forma simplificada na tabela a seguir:
| Classe de Categorias | Categoria 1 (Tese) | Categoria 2 (Antítese) | Categoria 3 (Síntese) |
| 1. Quantidade | Unidade | Pluralidade | Totalidade |
| 2. Qualidade | Realidade | Negação | Limitação |
| 3. Relação | Substância e Acidente | Causa e Efeito | Ação Recíproca |
| 4. Modalidade | Possibilidade (Impossibilidade) | Existência (Não-existência) | Necessidade (Contingência) |
As categorias de quantidade dizem respeito à extensão em que aplicamos um conceito aos objetos, ou seja, “quantos” elementos estamos considerando no juízo. Na unidade, temos um único objeto. Na pluralidade, trazemos vários objetos do mesmo tipo para um conjunto. Já a totalidade surge quando pensamos a pluralidade como uma unidade completa.Vejamos um exemplo. Quando um observador vê uma maçã, aplica a categoria da unidade, ou seja, ele viu uma maçã. Ao ver várias maçãs espalhadas na mesa, apreende uma pluralidade, ou seja, ele tem um conceito de “maçãs” e as vê como um conjunto. Porém, ao formular uma lei universal, aplica-se a totalidade, que engloba toda a pluralidade possível sob uma única regra conceitual, ou seja, todas as maçãs são frutas e existem vários tipos de maçãs.
A qualidade trata da atribuição de um predicado, ou seja, se a experiência afirma algo, nega algo ou se situa num limite conceitual. Em outras palavras, é a forma da mente definir “como algo é”. A realidade é afirmação de que um predicado pertence a um ser, ou seja, ele é alguma coisa. A negação é a afirmação de que o predicado não pertence a algo, ou seja, um “não-ser”. A limitação é a síntese das duas anteriores. Atribui-se uma negação como se fosse uma realidade, excluindo aquilo de uma esfera, mas deixando infinita a esfera onde ele pode estar. Vamos a um exemplo. Dizer “O homem é mortal” aplica a categoria de realidade (afirma-se um atributo). Dizer “O homem não é mortal” aplica a negação. No entanto, dizer “A alma é não-mortal (imortal)” é um juízo infinito clássico de Kant que evoca a limitação. Não sabemos o que a alma é de fato, mas a limitamos removendo ela da esfera das coisas mortais, o que a situa num campo aberto e indeterminado de possibilidades.
Consideradas por muitos comentadores como o coração da epistemologia kantiana, as categorias de relação definem como os objetos se relacionam entre si e como permanecem ou mudam no tempo. Substância e Acidente referem-se àquilo que permanece através da mudança (substância) e as propriedades que são transitórias, ou seja, que mudam (acidentes). Um exemplo disso é a água de um lago que congela no inverno. Seu estado físico muda do líquido para o sólido, que é o acidente, mas a matéria da água em si, a substância, permanece inalterada. Sem a categoria de substância, nossa mente registraria apenas uma sucessão caótica de imagens, sem reconhecer que se trata da mesma “coisa” sofrendo alteração. A Causa e Efeito é a relação estritamente necessária onde um evento segue outro no tempo. O exemplo de Kant, em resposta ao filósofo David Hume, é sobre o sol que ilumina uma pedra, e a pedra esquenta. Hume diria que inferimos causalidade por mero hábito psicológico, ou seja, não há conexão necessária, apenas uma observação e uma intuição. Kant argumenta que o próprio fato de distinguirmos uma sucessão objetiva de eventos exige que a mente aplique a categoria a priori de Causalidade. A mente “dita” a regra estrutural de que o aquecimento necessariamente sucede a irradiação solar, colocando uma como causa da outra. Já na Ação Recíproca (Comunidade), tem-se a relação simultânea de mútua influência entre múltiplas substâncias no espaço como, por exemplo, a interação gravitacional entre a Terra e a Lua. Elas não são eventos sucessivos no tempo, mas existem simultaneamente e influenciam-se de modo contínuo e bidirecional.
Por fim, temos as categorias modais. Eles são os Postulados do Pensamento Empírico e não acrescentam nenhum atributo novo ao objeto em si, mas definem exclusivamente como esse objeto ou evento se relaciona com o sujeito cognitivo e suas faculdades. No caso da Possibilidade-Impossibilidade, é algo que concorda com as condições formais, que são as condições lógicas e puras da experiência. No binômio Existência-Não-existência, é algo que está dado materialmente na intuição empírica, ou seja, nos sentidos. Já na Necessidade-Contingência, é algo cuja conexão com a experiência empírica está determinada por condições universais. Vamos a um exemplo. Um dragão voador de escamas verdes ou um triângulo cujos ângulos somam 180 graus são conceitos logicamente possíveis, ou seja, não envolvem contradição formal. No entanto, apenas um objeto sensorialmente verificável, como a caneta sobre a sua mesa, tem a marca da existência. Já o fato de que um objeto massivo abandonado no ar cairá em direção ao solo é uma necessidade ditada pelas leis empíricas que o entendimento prescreve à natureza, ou seja, atribui a ele.
Acima dessas estruturas, Kant postulou a apercepção ou apercepção transcendental, que é o processo pelo qual a mente unifica de forma ativa diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Sem a apercepção, a mente seria apenas um amontoado de estímulos desconectados. Assim, a aperceção a base da própria consciência humana. Devido a essa complexa mediação ativa da mente, Kant estabeleceu uma distinção insuperável entre o mundo externo e a mente. Isso significa dizer que nós não temos acesso à “coisa em si”, ou noumenon, mas apenas a como as coisas nos aparecem, ou seja, na forma de fenômeno, já devidamente processadas pelo nosso aparato cognitivo. Neste sentido, É importante distinguir o “Eu empírico”, ou seja, aquilo que observamos em nós mesmos, como nossa personalidade ou o nosso humor, do “Eu transcendental”, a pura unidade lógica do “Eu penso”. Ademais, a apercepção transcendental não é uma faculdade psicológica de “prestar atenção”, mas uma exigência lógica. Para que uma experiência seja minha, o “Eu penso” deve poder acompanhar todas as minhas representações.
Os Vetos Kantianos à Psicologia CientíficaEditar
Apesar de ter colocado o sujeito cognoscente, ou seja, aquele que conhece, no centro do universo epistemológico, Kant foi muito crítico sobre a possibilidade de a psicologia se tornar uma ciência. Em sua obra Princípios metafísicos da ciência da natureza, de 1786, ele negou a possibilidade de uma psicologia científica, pois afirmou que uma disciplina só poderia Sê-lo se possuísse uma elaboração racional capaz de fornecer leis formuladas matematicamente, o que poderia ser chamado de veto matemático. A psicologia falhava nesse critério porque os eventos mentais possuem apenas a dimensão do tempo, sem nenhuma extensão espacial, o que impossibilitaria a sua matematização. Para Kant, assim como o espaço é a forma do sentido externo, o tempo é a forma pura do sentido interno. Como os estados mentais só se dão na sucessão do tempo (sem extensão espacial), eles não formam figuras nem podem ser medidos geometricamente, inviabilizando a matemática.
Além disso, Kant apontou a impossibilidade de isolar diferentes pensamentos para a realização de experimentos controlados. Assim, como não podemos acessar o que seria o conteúdo da mente, cercá-la e analisá-la como ela é em seu estado bruto ou natural, qualquer experimentação seria impossível, o que poderia ser chamado de veto do objeto. Por fim, ele reforçou a crítica que já era direcionada a Wolff, aquele do começo dessa seção. A introspecção como método, segundo Kant, seria inviável porque a própria tentativa de observar um fenômeno interno altera o fenômeno, o veto metodológico. Se tento observar minha própria tristeza, por exemplo, o fenômeno original desaparece e se transforma em “tristeza-sendo-observada-por-mim”, misturando sujeito e objeto de tal maneira que corrompe a objetividade.
A impossibilidade de uma psicologia científica não significava, contudo, a impossibilidade de estudar a mente e o comportamento. Kant trabalhou e lecionou com o que chamou de Antropologia Pragmática. Enquanto a psicologia empírica tentava, em vão, segundo ele, ser uma ciência exata, a antropologia pragmática estudava “o que o homem, como ser livre, faz, ou pode e deve fazer de si mesmo”. Era um estudo prático do comportamento, das paixões, da memória e da cognição, focado na vida em sociedade. De certo modo, pode-se dizer que Kant fechou a porta para a psicologia mecanicista, ou ainda, uma psicologia como ciência exata, mas ajudou a abrir uma janela imensa para as ciências humanas e sociais.
A Emergência do Neokantismo Fisiológico e as Primeiras Aproximações para a Psicologia CientíficaEditar
A primeira metade do século XIX na Alemanha foi inicialmente dominada pelo Idealismo Pós-Kantiano (Hegel, Fichte, Schelling), que propunha sistemas metafísicos grandiosos onde a realidade era essencialmente racional e espiritual. Contudo, a partir da década de 1850, o forte avanço das ciências naturais, como a fisiologia e a química, gerou uma importante reação materialista, consolidados nas figuras de Feuerbach, Vogt, Büchner e outros, que passaram a ridicularizar a filosofia idealista como mera especulação vazia. A metafísica, vista como uma das glórias da filosofia e do pensamento humano, passou a ser vista cada vez mais como um discurso com pouco ou nenhum lastro na realidade. Essa mudança foi muito importante para a história da psicologia científica, pois foi devido a esse contexto que foram formulados os primeiros experimentos voltados para o que seria, no futuro, a psicologia.
Johannes Müller e a Teoria das Energias Nervosas EspecíficasEditar
Neste período, a fisiologia se estabeleceu como uma ciência rigorosa e extremamente respeita, liderada por figuras como Johannes Müller. Müller, professor na Universidade de Berlim, publicou seu Manual de Fisiologia Humana (1833-1840), que sistematizou o conhecimento fisiológico da época e transformou a compreensão da percepção. Até o final do século XVIII, ela era explicada pela Teoria da impressão da sensação, derivada da física newtoniana e do empirismo britânico. Esse modelo assumia que o sistema nervoso era um meio homogêneo e passivo que simplesmente “transportava” as qualidades dos objetos externos para a mente, como se a sensação fosse uma cópia exata do estímulo.
Johannes Müller revolucionou esse entendimento ao formular a Teoria das energias nervosas específicas (1826). Ele provou, através de experimentos, que a estimulação de um determinado nervo sensorial sempre provoca uma sensação característica e exclusiva daquele nervo, independentemente da natureza do estímulo físico externo. Em outras palavras, a qualidade da sensação não pertence ao objeto físico, mas sim à estrutura do próprio aparato sensorial humano. O mesmo estímulo pode produzir sensações completamente diferentes dependendo de qual via nervosa é ativada. Por exemplo, ao aplicar sal na pele, na língua e nos olhos, as sensações serão totalmente distintas, todas diretamente relacionadas às especificidades do aparelho sensorial que foi ativado. É importante entender que isso não acontece por conta da especificidade das características do estímulo, como o sal ser “salgado”. A pele produz apenas sensações táteis, ainda que o estímulo não seja tátil. Isso cria um problema de confiança naquilo que percebemos sensorialmente, pois mostra que os órgãos não enviam apenas propriedades dos objetos, mas antes operam apenas de modo específico.
Além disso, Müller, por meio de experimentos, mostrou que os objetos físicos projetam imagens invertidas na retina, mas nós os percebemos na posição correta. Ele mostrou também que, embora as imagens projetadas nas duas retinas sejam levemente diferentes, o cérebro as unifica em uma única imagem tridimensional.
Essas descobertas trouxeram Kant para o terreno da biologia, inclusive pelo próprio Müller que, apesar de não ser neokantiano, viu suas descobertas científicas influenciarem profundamente a primeira geração deles. O sistema nervoso não é um receptor passivo, antes, ele medeia, molda e traduz ativamente a realidade externa. A sensação deixou de ser vista como uma cópia do mundo e passou a ser um enigma, que pode ser analisado a partir da seguinte pergunta: “o que existe entre o estímulo físico e a sensação subjetiva?”. Este é o mundo do primeiro projeto de psicologia científica.
Hermann von Helmholtz e o Neokantismo PsicofisiológicoEditar
A ponte definitiva entre a epistemologia kantiana e a prática laboratorial foi construída por um antigo aluno de Johannes Müller, Hermann von Helmholtz (1821-1894). Ele colaborou no desenvolvimento do neokantismo psicofisiológico ou neokantismo fisiológico. Ele entendeu que as descobertas de seu professor forneciam a base material exata para a teoria do conhecimento de Kant.
Em 1855, Helmholtz argumentou que as estruturas a priori propostas por Kant como condições de possibilidade da experiência eram, na verdade, características da anatomia e da fisiologia do aparato perceptivo humano. Ao “naturalizar” a filosofia de Kant, Helmholtz formulou a sua teoria dos signos, que postula que nossas sensações e percepções não são cópias diretas da realidade, mas sim símbolos ou signos gerados pelo nosso sistema nervoso em resposta aos estímulos. Para explicar como construímos uma imagem coerente e espacial do mundo a partir desses signos neurológicos isolados, Helmholtz introduziu o conceito de inferências inconscientes.
Segundo essa teoria, a mente realiza uma série de ajustes e cálculos automáticos, baseados na experiência e na aprendizagem contínua, para interpretar os dados sensoriais. A percepção de profundidade, a posição espacial e a resolução de duas imagens retinianas em uma única visão estereoscópica não são inatas, como defendia o nativismo de Ewald Hering ou o próprio Müller, mas são aprendidas empiricamente através do movimento do corpo e da repetição das sensações. O espaço perceptivo atua como uma linguagem que a mente usa para interpretar os dados fisiológicos brutos.
Com isso, Helmholtz fundou o projeto de uma psicologia fisiológica autônoma, diferente da psicologia filosófica discutida na época. Ele concordou com Kant que a introspecção tradicional era um método falho, que podia conduzir a ilusões porque o observador só capta a superfície consciente do pensamento. A solução de Helmholtz foi submeter o sujeito da experiência a condições de laboratório rigorosamente controladas. Se as condições da percepção dependem de mecanismos fisiológicos, então a única forma de fazer epistemologia científica é através da experimentação fisiológica e da ótica. O sujeito do conhecimento tornou-se, assim, um objeto, que poderia ser manipulado e analisado em laboratório.
Suas contribuições não acabam por aí. Antes das pesquisas de Helmholtz, a comunidade científica acreditava que o impulso nervoso era instantâneo ou rápido demais para ser mensurado. Em 1850, estimulando um nervo motor na perna de uma rã e medindo o tempo da contração muscular, ele obteve o registro da velocidade de condução neural, que é de aproximadamente 27 metros por segundo, provando que havia “algo” entre o estímulo e a percepção que poderia ser analisado cientificamente.
Ele também mediu o tempo de reação de nervos sensoriais em humanos. Essa descoberta provou que o pensamento e o movimento corporal não ocorrem simultaneamente, mas são separados por um intervalo de tempo mensurável. Essa foi a base que abriu caminho para os experimentos de tempo de reação e cronometria mental que dominariam o laboratório de Wundt décadas depois.
F. A. Lange e o Projeto de uma “Psicologia Sem Alma”Editar
O segundo pilar desse “retorno a Kant”, também de matriz fisiológica, foi erguido pelo filósofo e sociólogo Friedrich Albert Lange (1828-1875). Lange foi uma figura central na “controvérsia materialista” que agitava a Alemanha. Ele rejeitava tanto os “delírios” dos sistemas idealistas metafísicos quanto o reducionismo ingênuo do materialismo científico de Vogt e Büchner. Em sua influente obra História do Materialismo, de 1866, Lange defendeu que a limitação proposta por Kant é absoluta, ou seja, não temos e nem nunca teremos acesso à essência última da realidade, às coisas em si. Nosso conhecimento se restringe aos efeitos das coisas, ou seja, os fenômenos, que nos aparecem totalmente moldados pela nossa organização mental e neurológica.
Contudo, Lange argumentou que a impossibilidade de conhecer a essência não impede o estudo científico rigoroso das “aparências”, ou seja, sobre como as coisas nos aparecem. Para viabilizar esse estudo, Lange atacou as psicologias filosóficas do passado, que versavam debates que ele ele entendia estéreis sobre a natureza, a imortalidade e a substancialidade da “alma”. Para Lange, a alma era um conceito vazio, um “mito antigo” que forçava a psicologia a operar sobre pressupostos metafísicos inverificáveis. Em resposta, ele propôs a criação de uma psicologia sem alma, ou, em outras palavras, uma psicologia sem metafísica.
Neste novo paradigma, o objeto de estudo da psicologia deveria ser reduzido aos dados empíricos observáveis, incluindo a sensação, a percepção, a ação e a linguagem, sempre buscando o seu correlato fisiológico. Lange rejeitou a introspecção puramente filosófica, pois a auto-observação isolada é privada, não pode ser repetida, não permite a presença de observadores externos e leva invariavelmente a ilusões verbais. Segundo ele, essa introspecção conduzia o pesquisador a substancializar conceitos como “vontade” ou “pensamento”, sem nenhum lastro empírico ou experimental.
A única saída para a psicologia tornar-se verdadeiramente científica era abraçar a metodologia das ciências naturais. Apoiando-se no trabalho de Helmholtz e nas medições pioneiras de psicofísicos como Ernst Weber e Gustav Fechner, Lange prescreveu que a psicologia deveria investigar as leis fisiológicas da percepção e medir a correlação exata entre estímulos físicos e respostas sensoriais, como nos tempos de reação e nos limiares diferenciais. A psicologia passava a ser entendida não como a ciência do espírito transcendente, mas como a ciência psicofisiológica que estuda experimentalmente as condições de possibilidade da experiência, trazendo o sujeito transcendente de Kant para uma fisiologia.
Fechner e a Fundação da PsicofísicaEditar
Gustav Theodor Fechner (1801–1887) foi um físico e metafísico alemão e antigo aluno de Weber. Apesar de não ser um neokantiano, ele tem uma importância fundamental para este momento da fundação da psicologia experimental, tendo sido citado e adotado por neokantianos. Ele assumiu a prestigiada e importante cadeira de física da Universidade de Leipzig em 1834, enquanto produzia sátiras sobre temas metafísicos e artísticos sob um pseudônimo. Após uma série de experimentos em que observava diretamente o Sol, feriu gravemente suas retinas, evento que o conduziu a um colapso físico e mental. Teve uma recuperação milagrosa em 1843, quando tentou observar flores em seu jardim e, por meio de uma experiência mística, observou que a natureza brilhava de dentro para fora, de onde concluiu que o universo era dotado de alma e consciência.
Esssa experiência decisiva levou-o a dedicar sua vida ao combate do materialismo científico, que ele denominava visão noturna, que via o mundo como uma matéria inerte e sem vida. Já a sua visão diurna entendia que a matéria era a manifestação da consciência universal divina, uma cosmovisão espiritualista que pode ser entendida como panpsiquista, ou seja, todos os corpos físicos possuem uma forma de alma.
Foi buscando provar sua visão que Fechner entendeu que poderia provar empiricamente a relação entre a mente (ou o espírito) e o corpo (ou a matéria) se encontrasse uma relação matemática constante entre a intensidade do estímulo físico e a magnitude da sensação psíquica correspondente. Isso porque Fechner percebeu que um aumento na intensidade do estímulo físico não gerava um aumento equivalente e proporcional na sensação subjetiva. A relação não era linear, mas sim proporcional, pois o estímulo físico aumentava em uma progressão geométrica, enquanto a sensação psíquica crescia em uma progressão aritmética. Por exemplo, acrescentar o som de um sino a outro que já está tocando gera um forte impacto perceptivo, pois é possível distinguir claramente que passou-se de um para dois sinos. Já acrescentar um sino a uma dezena deles produz uma alteração quase imperceptível. A sensação dependia, portanto, do nível de estimulação já existente no sistema.
Para dar sustentação empírica à sua teoria, Fechner apropriou-se dos trabalhos experimentais realizados por Weber, que havia formulado a teoria da diferença mínima perceptível, demonstrando que a sensibilidade humana não avaliava diferenças absolutas entre estímulos, mas sim relações relativas ou proporcionais. Weber observou que, ao levantar pesos, os sujeitos conseguiam detectar uma variação mínima correspondente a uma fração constante de aproximadamente 1:40 em relação ao peso padrão. Essa constância proporcional é descrita pela chamada Lei de Weber:
II=K
Onde I representa a intensidade do estímulo padrão (que aparecerá como R posteriormente), ΔI é o acréscimo mínimo necessário para produzir uma mudança perceptível na sensação e k é uma constante matemática específica para cada modalidade sensorial.
Fechner percebeu que essa fração constante (ΔI/I) correspondia à unidade de medida da sensação subjetiva (dS). Utilizando o cálculo infinitesimal, Fechner integrou matematicamente a equação de Weber, assumindo que todas as diferenças mínimas perceptíveis eram subjetivamente iguais entre si. Essa operação matemática resultou na célebre Lei de Fechner ou Lei de Weber-Fechner:
S = k Log R
Onde S representa a magnitude da sensação subjetiva (qualidade mental), R representa a intensidade física do estímulo (qualidade material) e K é uma constante experimental ajustada a cada sentido. Essa fórmula logarítmica foi construída para mostrar que, para a sensação aumentar linearmente, o estímulo físico precisava crescer exponencialmente, estabelecendo uma relação exata e mensurável entre o psíquico e o físico.
Para aplicar sua fórmula, Fechner sistematizou dois conceitos fundamentais que estruturam as medições psicofísicas. A primeira é o limiar absoluto, ou seja, o ponto de intensidade física mínima abaixo do qual o estímulo não é detectado pelo sujeito e acima do qual a sensação passa a ser percebida. Outro conceito é o de limiar diferencial, que é a quantidade mínima de alteração ou variação que deve ser aplicada a um estímulo para que o sujeito seja capaz de discriminar uma mudança na sensação.
Um desdobramento fascinante da Lei de Fechner ocorreu quando o estímulo físico apresentava valores abaixo do limiar absoluto (R<1), resultando em valores negativos para a sensação (S). Fechner definiu esses valores como sensações negativas ou subliminares, postulando a existência de processos mentais ativos abaixo do limiar da consciência desperta.
Para determinar com precisão científica os limiares absolutos e diferenciais, Fechner desenvolveu e padronizou três metodologias experimentais rigorosas, que se tornaram os pilares metodológicos de toda a psicologia experimental posterior. No Método do Erro Médio ou do Ajuste, o próprio sujeito experimental manipula ativamente um instrumento para ajustar um estímulo variável até que sinta que este se iguala a um estímulo padrão constante. A média dos desvios entre os ajustes do sujeito e o padrão real define o erro de observação.
Já no Método do Estímulo Constante ou dos Casos Corretos e Incorretos, o pesquisador apresenta de forma aleatória uma série de estímulos pré-determinados e constantes em comparação com um estímulo padrão. O sujeito deve julgar se o estímulo de comparação é maior, menor ou igual ao padrão, medindo-se a proporção estatística de acertos. Por fim, no Método dos Limites ou das Diferenças Mínimas Perceptíveis, dois estímulos são apresentados ao sujeito. Um deles é aumentado ou reduzido sistematicamente em passos discretos e graduais, e o sujeito relata o momento exato em que deixa de perceber ou passa a perceber a diferença entre ambos.
Em 1860, Fechner publicou seu livro monumental, Elementos de Psicofísica, que alguns entendem ser o primeiro sobre a psicologia científica experimental. Ao fornecer à psicologia técnicas de medição coerentes e precisas, Fechner provou de forma contundente que a mente humana era passível de investigação científica e experimental, sepultando em definitivo o antigo veto imposto por Immanuel Kant, em pleno momento de desenvolvimento do Neokantismo.
Incomodados com as inclinações metafísicas e espiritualistas de Fechner, os psicólogos experimentais subsequentes, sob a liderança de Wilhelm Wundt, rejeitaram completamente o panpsiquismo entre outras ideias, apropriando-se exclusivamente de seus métodos quantitativos de laboratório para estabelecer a psicologia como uma ciência empírica e natural. Como bem observou o historiador Edwin G. Boring, Fechner agiu como um “Colombo que descobriu um Novo Mundo (a psicologia científica) enquanto procurava pelas antigas Índias (a prova de sua metafísica)”.
ResumindoEditar
A intersecção entre a epistemologia kantiana, a fisiologia de Müller e a reformulação promovida por Helmholtz e Lange constituiu o início daquilo que tornou possível a psicologia científica. Kant havia mostrado que o sujeito constrói ativamente a realidade, mas negou que esse sujeito pudesse ser estudado matematicamente ou experimentalmente. Müller transferiu a estrutura ativa da mente para os nervos sensoriais específicos. Helmholtz e Lange reinterpretaram as pesadas categorias transcendentais de Kant como mecanismos biológicos e perceptivos operando através de inferências inconscientes e leis fisiológicas.
Ao “naturalizar” a Crítica da Razão Pura, o Neokantismo Psicofisiológico resolveu o veto de Kant a uma psicologia científica. Se os limites e as formas do nosso conhecimento são determinados pelo nosso sistema nervoso e sensorial, então o estudo epistemológico da mente deve ser feito no laboratório de fisiologia, estudando principalmente a percepção. A exigência de matematização foi superada pelas leis da psicofísica de Fechner e Weber, e o problema da introspecção descontrolada foi resolvido pelo uso de instrumentos de precisão, como cronoscópios, além de métodos de medidas de limiar, controle de estímulos, erros médios, entre outros, que transformavam as respostas subjetivas em dados objetivos, replicáveis e mensuráveis.
Esse foi o cenário epistemológico e institucional que Wilhelm Wundt encontrou e ajudou a consolidar. Wundt não fundou a psicologia a partir do nada em 1879. Seu Instituto em Leipzig foi organização metodológica e teórica de décadas de esforços em que a filosofia foi obrigada a dialogar com os nervos, os músculos e os tempos de reação, transformando para sempre a especulação sobre a alma em uma rigorosa ciência da experiência imediata.
Ironicamente, escolas neokantianas posteriores, como a Escola de Marburgo, foram focos de resistência à psicologia experimental, alegando que o sujeito do conhecimento de Kant era de ordem puramente transcendental e lógica, e não empírica ou mensurável, ou seja, rejeitando a “biologização” do pensamento kantiano e a consequente criação da psicologia experimental.
Além disso, conforme mostra Gundlach, a criação de uma posição acadêmica e o laboratório de psicologia por Wundt não se deu por conta de um amplo reconhecimento da superioridade do pensamento wundtano, mas sim por conta de disputas políticas e institucionais nas universidades alemãs. De qualquer forma, Wundt conseguiu desenvolver bem sua teoria ao longo de sua vida e conseguiu estabelecer-se na proeminência da psicologia científica.
A Psicologia de WundtEditar
Wilhelm Maximilian Wundt é, na historiografia da psicologia, uma figura ao mesmo tempo onipresente e bastante malcompreendida. Freqüentemente reduzido ao título de “fundador do laboratório de Leipzig”, essa simplificação negligencia sua estatura como um dos últimos grandes arquitetos de sistemas do século XIX, cujo Systemgedanke (pensamento sistêmico) buscava integrar a psicologia como uma propedêutica fundamental para a filosofia.
Recuperar o Wundt original exige preencher uma vasta lacuna historiográfica vasta, a começar pela superação das distorções da tradução de E.B. Titchener para o contexto anglo-americano, que foi formulada para aproximar suas ideias e perspectivas daquelas de Wundt, visando uma “confirmação” de suas ideias. Em primeiro lugar, é necessário reejeitar a classificação de Wundt como um estruturalista ou associacionista clássico. O sistema wundtiano é essencialmente dinâmico e centrado no voluntarismo. Para Wundt, a vontade e os processos afetivos não são meros epifenômenos, ou seja, um fenômenos secundários ou acessórios que acompanhma um fenômeno principal, mas o eixo organizador da consciência ativa. Esta reconstrução crítica visa resgatar a autonomia epistemológica de uma ciência que define seu objeto não como uma substância, mas como a experiência em sua totalidade imediata.
Experiência Imediata, o Objeto de Estudo da PsicologiaEditar
Ao definir seu objeto, Wundt deu um passo decisivo para dar à psicologia autonomia perante as outras ciências naturais. Ele propõe que a experiência é uma unidade indivisível. Mas o que ele quer dizer por “experiência”? Uma definição poderia ser a totalidade dos processos conscientes, englobando sensações, sentimentos, representações e volições (vontades), apreendida da exata forma como se apresenta diretamente ao sujeito, sem qualquer abstração conceitual ou mediação de instrumentos externos. Ou seja, a experiência de Wundt seria como tudo o que se passa na mente, exatamente como ela aparece para uma pessoa.
Para ele, a experiência pode ser analisada a partir de duas perspectivas: a mediata e a imediata. A experiência ediata pertence ao domínio das Naturwissenschaften, ou ciências naturais, como a física e a química. Ela seria a a experiência objetiva, focada totalmente nos objetos do mundo externo que, se pensados de maneira isolada, são independentes do sujeito. Ela é chamada de mediata porque o acesso a essa realidade é indireto, ou seja, ela precisa de uma mediação. Essa mediação são conceitos teóricos e construções auxiliares e as características cognitivas e biológicas do próprio sujeito que interpreta os dados sensoriais brutos utilizando suas crenças, conhecimentos e expectativas. Isso não significa que a ciência natural esteja errada, mas sim que ela possui um recorte de interesse diferente do recorte da psicologia.
O domínio da psicologia seria a experiência imediata, subjetiva, que é a experiência em sua realidade concreta, direta e intuitiva, apreendida antes de qualquer conceituação, teorização ou abstração. Ou seja, é a experiência antes de ela adquirir qualquer camada de compreensão, que seriam mediadores, por isso é imediata, sem mediação. Ela envolve o processamento de elementos sensoriais simples, como cor, som, temperatura, e de sentimentos simples, como prazer e desprazer. Ela diz respeito ao modo puro de funcionamento mental.
Vamos a um exemplo, desta vez no campo do som. Na perspectiva mediata, o cientista natural abstrai o sujeito e estuda o som de forma indireta e conceitual. Ele utiliza aparelhos para medir as ondas sonoras e a sua propagação física pelo ar. O objeto físico “som” é, portanto, mediado e traduzido por conceitos de frequência, amplitude e decibéis. Já sob a perspectiva imediata, que é a da psicologia, o psicólogo estuda a sensação direta e em si mesma do tom no momento exato em que ele aparece na consciência. A análise está na vivência concreta do sujeito, que inclui a qualidade do tom, a sua intensidade subjetiva, a tonalidade afetiva de prazer ou desprazer que o acompanha e o processo ativo da atenção (apercepção, que será tratada mais adiante) que coloca aquele som no foco da consciência.
Se olharmos desta vez para as cores, na visão mediata, ciência natural estuda o azul abstraindo a experiência do sujeito. A física o descreverá de forma conceitual como uma radiação eletromagnética com determinado comprimento de onda atingindo a retina. Para a psicologia de Wundt, o azul é investigado como um dado imediato e real na consciência do sujeito no momento da percepção interna. O foco não está nas propriedades físicas do estímulo, mas sim na reação subjetiva e ativa do cérebro vivo a esse estímulo, que gera a qualidade imediata da cor na experiência.
Conduzindo seus estudos, Wundt também identificou aquilo que denominou causalidade psíquica. Ao nos lembrarmos de um fato triste, a fisiologia explicaria a tristeza de forma conceitual e indireta, por meio de correntes elétricas no córtex cerebral, liberação de hormônios ou atividade de sinapses nervosas. Já o psicólogo observa a conexão de processos internos como elas ocorrem diretamente na consciência do sujeito, como a ligação da lembrança triste a um sentimento de angústia. A causalidade psíquica é uma causalidade própria da mente e irredutível às leis físicas da natureza, ou seja, não pode ser comparada à causalidade científica como a conhecemos.
Ao adotar a experiência como seu objeto, Wundt rompe com a psicologia da alma, filosófica e metafísica. Ele substitui a psicologia de substâncias, que postula uma entidade mental oculta, pela teoria da atualidade (Aktualitätstheorie), na qual o psiquismo é definido como um fluxo de processos em constante devir. Seu sistema está fundamentado em um monismo perspectivista. Em outras palavras, para ele, mente e corpo não são substâncias que interagem mecanicamente, mas perspectivas distintas sobre a mesma unidade da experiência (Erfahrung). A psicologia, portanto, não estuda um “mundo interno”, que está isolado do externo, ainda que em contato com ele, mas a totalidade da experiência humana sob o prisma da imediatidade. Essa transição do estatuto de substância “mente” ou algo semelhante para o de processo traz uma nova perspectiva, criando um objeto que pode ser alvo de experimentação científica, partindo de experimentos já criados pela psicofísica e ainda outros que seriam desenvolvidos.
Psicologia Individual e Völkerpsychologie: dois métodos para manifestações da experiênciaEditar
A arquitetura metodológica de Wundt responde ao desafio de investigar processos mentais que variam em complexidade. Ele estabelece que a psicologia deve ser compreendida como o fundamento das Geisteswissenschaften (ciências do espírito ou humanas). A Psicologia Individual foca nos processos elementares, que incluem sensação e percepção, que são passíveis de controle rigoroso em laboratório através da manipulação de estímulos externos e introspecção experimental.
Entretanto, Wundt reconhece a insuficiência do experimento para os processos mentais superiores, como o pensamento e a linguagem, que são historicamente condicionados. Para estes, ele propõe a Völkerpsychologie , ou Psicologia dos Povos, dedicada ao estudo dos produtos das geistige Gemeinschaften (comunidades espirituais ou coletividades). Wundt vai apontar a linguagem, o mito e os costumes (Sitten) não são apenas dados culturais, mas objetivações de leis psíquicas superiores inacessíveis à introspecção de laboratório. Eles seriam produtos da experiência humana nas suas formas mais avançadas e superiores e, por não serem passíveis de experimentação, exigem uma outra abordagem. Essas duas vertentes, experimental e histórico-cultural, não são divergentes, mas sim o projeto integrador que permite apreender a mente tanto em sua base sensório-motora quanto em suas manifestações espirituais complexas.
As investigações da psicologia dos povos focavam na alma do povo (Volksseele), definida como a realidade factual dos processos psíquicos que surgem em uma comunidade por meio da interação das energias mentais dos indivíduos. Essa “mente coletiva” se tornava um objeto tangível e investigável ao longo da história em três grandes produtos culturais. O primeiro é a linguagem (Die Sprache), ferramenta pela qual o pensamento é estruturado e externalizado. Já o mito e a religião são as formas como a imaginação e os sentimentos humanos coletivos projetam suas explicações sobre o cosmos e a existência. Os costumes (Sitten) e o direito, por sua vez, são as regras de conduta coletiva que nascem de atos voluntários e impulsos compartilhados, padronizando as interações sociais.
Como não podia realizar experimentos com culturas inteiras, Wundt operava por meio da pura observação retrospectiva e comparativa dos produtos mentais, ou seja, analisando os objetos já criados e usados ou em uso por diferentes povos e culturas, anotando suas diferenças e semelhanças. Wundt juntava, lia e analisava de forma exaustiva relatos históricos, estudos filológicos, dicionários, mitologias comparadas, códigos de leis e descrições etnológicas e antropológicas de povos ao redor do globo, ou seja, utilizava dos estudos de diferentes ciências humanas e sociais para extrair as leis psicológicas gerais do desenvolvimento mental humano por trás dessas manifestações.
Seu objetivo era mapear como a mente coletiva evoluía do simples para o complexo ao longo das eras, numa abordagem genética e desenvolvimentista e reconstruir, de forma retrospectiva, as forças dinâmicas, os afetos, os impulsos (Triebe) e os processos de síntese criadora (melhor discutida mais adiante) que estiveram ativos na mente das pessoas no momento de sua formação. Wundt dedicou os últimos 20 anos de sua vida (de 1900 a 1920) quase exclusivamente a esse empreendimento monumental, escrevendo dez volumes da sua obra Völkerpsychologie.
A ApercepçãoEditar
No contexto filosófico, como já visto, o conceito de apercepção remonta a Kant, que a definiu como o processo autônomo, ativo e prévio pelo qual a mente unifica diferentes estímulos sensoriais em uma experiência coerente e significativa. Wundt adotou essa noção kantiana para fundamentar sua teoria da consciência, definindo apercepção como o processo psicológico ativo pelo qual um conteúdo psíquico (ou representação) é trazido à clareza máxima e ao foco da consciência, vindo necessariamente acompanhado pelo estado de atenção voluntária.
Para explicar a dinâmica da consciência, Wundt utilizou uma famosa analogia com a visão para diferenciar apercepção e percepção. O campo visual da consciência (Blickfeld) corresponde à percepção, que é a simples entrada de uma representação na consciência de forma difusa, ampla e sem a presença focalizada da atenção. Já o ponto focal da consciência (Blickpunkt) corresponde à apercepção, que é a entrada de uma representação no ponto central de máxima clareza e foco estreito da atenção.
A apercepção, então, é uma manifestação primordial da vontade, funcionando como o princípio dinâmico que dá direção e estrutura tanto à experiência quanto ao movimento. Além disso, a apercepção pode ser ativa, que é quando o sujeito deliberadamente seleciona onde focará sua atenção, ou passiva, quando é o estímulo que se impõe no foco no sujeito. Por fim, a apercepção é o mecanismo central da operação da causalidade psíquica. É ela que unifica a mente em um sistema ativo, permitindo que a fusão de elementos resulte em sínteses criadoras com propriedades qualitativamente novas e imprevisíveis.
A Percepção Interna (innere Wahrnehmung) vs. Auto-observação (Selbstbeobachtung)Editar
Para garantir o rigor procedimental e responder ao “desafio kantiano”, Wundt rejeitou a Selbstbeobachtung, que pode ser entendida como a auto-observação tradicional ou introspecção casual. Trata-se do método introspectivo puramente filosófico e especulativo que, segundo Wundt e outros, seria fonte de auto-ilusões e onde o ato de observar altera o fenômeno observado.
A solução científica é a innere Wahrnehmung, ou percepção interna, que permite a criação de um método científico baseado na repetição de estímulos externos controlados. No laboratório, o psicólogo replica condições experimentais que permitem a observação do aparecimento imediato do processo psíquico sob condições estáveis e previsíveis. O laboratório funciona, portanto, como o estabilizador do objeto psicológico, permitindo que a percepção interna atinja a precisão necessária para decompor a consciência em seus elementos fundamentais.
Experimentos do Laboratório de WundtEditar
Vamos a alguns exemplos do que acontecia no laboratório de Wundt, para integrar melhor os conceitos já apresentados. O primeiro experimento foi concebido originalmente para descrever a “equação pessoal” que aparecia nas medições dos astrônomos. No caso, observava-se que astrônomos treinados, utilizando os mesmos equipamentos, discordavam de suas medições que, à época, eram feitas manualmente com ajuda de instrumentos. De alguma forma, estas diferenças nas medições pareciam ter um tipo de padrão. Neste experimento, Wundt utilizava um aparelho chamado medidor de pensamento (Gedankenmesser) e, posteriormente, o pêndulo de complicação (Complicationspendel). O dispositivo consistia em um grande relógio de pêndulo que possuía uma agulha cruzada, como uma agulha de tricô, capaz de golpear fisicamente um pequeno sino em um ponto exato do seu arco de oscilação. O sujeito do experimento deveria olhar para a escala do pêndulo e tentar determinar a posição exata do ponteiro no momento em que ouvia o sino tocar.
Neste experimento, Wundt descobriu que o sujeito sempre cometia um erro sistemático de registro, de aproximadamente um oitavo de segundo. Segundo ele, era impossível perceber visualmente a agulha e o som do sino ao mesmo tempo. Esse experimento seria uma prova laboratorial de que a consciência possui uma capacidade limitada e só consegue focar em uma única percepção por vez, como a diferença no marco da medição podia mostrar. A ilusão de simultaneidade devia-se apenas à rápida sucessão dos processos de atenção (apercepção).
Os experimentos de tempo de reação, nosso segundo exemplo, constituíam o verdadeiro coração do trabalho em Leipzig na década de 1880. Wundt adaptou o método de subtração (Subtractiemethode), do fisiologista holandês F. C. Donders, para medir a velocidade de processos mentais complexos.
Para entender o experimento de Wundt, é necessário compreender que, para ele, uma reação consciente envolvia:
1- transmissão da sensação ao cérebro;
2- entrada do estímulo no campo amplo da consciência (percepção);
3- entrada no foco ativo da atenção (apercepção);
4- ato de vontade para liberar a resposta;
5- execução motora.
Cada um dessas partes exigem um certo tempo, pois são processos não imediatos. A depender de como as etapas do experimento são organizadas, diferentes tempos indicariam o acionamento maior ou menor de cada um deles. No experimento, o sujeito era treinado para responder pressionando uma tecla telegráfica ao ver um estímulo luminoso simples, como um flash de luz. Em seguida, a tarefa mais difícil. Duas imagens eram apresentadas, um círculo branco sobre fundo preto ou vice-versa, e o sujeito só deveria reagir após identificar com clareza qual imagem havia aparecido. Ao subtrair o tempo da reação simples do tempo da reação complexa, Wundt calculava o “tempo de apercepção” ou discriminação. Na primeira tese de doutorado em psicologia experimental da história, Max Friedrich, que atuou no experimento, mostrou que o tempo de discriminação aumentava de acordo com a complexidade do estímulo visual. Por exemplo, o sujeito levava mais tempo para aperceber e discriminar uma sequência de seis dígitos do que de apenas um ou dois.
O assistente de Wundt, Ludwig Lange, também colaborou no estudo ao desenvolver um experimento crucial. Ele demonstrou que os tempos de reação variavam drasticamente dependendo da preparação atencional do sujeito. Se a atenção estivesse focada no movimento de resposta que o dedo faria (reação muscular), o tempo era curto (cerca de 125 ms), pois funcionava como um “reflexo cerebral” que pulava a apercepção. Se o foco estivesse direcionado ao estímulo sensorial que iria surgir (reação sensorial), o tempo era cerca de 100 ms mais longo, pois envolvia o circuito completo da mente consciente.
O terceiro experimento foi desenvolvido por Martin Trautscholdt, um dos estudantes de doutorado de Wundt. Ele estudava a associação de ideias. No seu estudo, o sujeito era instruído a pressionar uma tecla no momento exato em que uma ideia associada surgisse em sua consciência a partir de um estímulo visual ou auditivo. Ao subtrair o tempo que o sujeito levava para simplesmente reconhecer a palavra estimulante, Trautscholdt conseguiu quantificar o tempo gasto pela mente para realizar a conexão associativa propriamente dita que, segundo Trautscholdt, variava entre 706 e 874 ms. Wundt também adaptou a técnica de associação de palavras de Francis Galton, limitando a resposta do sujeito a apenas uma única palavra.
O quarto e último experimento que será apresentado é relacionado a acordes musicais. Nele, sujeitos ouviam tons isolados no piano, que seriam as sensações puras, e depois os mesmos tons tocados simultaneamente. Os participantes descreviam em detalhes a transição afetiva de como a fusão física das frequências dava origem a um produto inteiramente novo na consciência, que seria o sentimento estético de harmonia e prazer decorrente de uma síntese criadora. Wundt conduzia vários experimentos em estética experimental, tal qual seu colega Fechner.
Arquitetura da Mente: Elementos, Fusão e Síntese CriadoraEditar
Segundo Wundt, a experiência pode ser decomposta em elementos simples, que incluem as sensações e os sentimentos simples. Os sentimentos, por sua vez, são entendidos a partir da teoria tridimensional dos sentimentos, onde eles se distribuem em um espaço qualitativo entre os polos prazer/desprazer (Lust-Unlust), tensão/relaxamento (Spannung-Lösung) e excitação/depressão (Erregung-Beruhigung). A primeira é a mais evidente, se refere à avaliação afetiva primária da experiência. A segunda se relaciona ao esforço da atenção ou à preparação interna da mente. Já a terceira está relacionada ao nível de ativação biológica e psicológica do organismo.
Esses aspectos todos são organizados através do mecanismo de fusão (Verschmelzung), onde as qualidades elementares se fundem em complexos psíquicos. O conceito central aqui é o princípio da síntese criadora (schöpferische Synthese). Ao contrário do associacionismo britânico, Wundt afirma que o todo resultante possui propriedades que não estão contidas na mera soma das partes. Essa síntese não é um processo mecânico passivo, mas um ato aperceptivo ativo, vinculado à vontade. Na mente humana, a combinação de elementos gera um valor novo e qualitativamente superior, marcando a distinção fundamental entre a causalidade psíquica e a mecânica física.
Em termos simples, a síntese criadora estabelece que os complexos psíquicos, como representações, sentimentos compostos e afetos, embora formados pela união de elementos simples (sensações e sentimentos simples), possuem características qualitativas inteiramente novas que não pertencem a nenhum de seus elementos constituintes isolados.
A fusão é o processo ativo e primário de integração psíquica. É através dela que os elementos sensoriais e afetivos brutos são ativamente sintetizados pela mente para dar origem a uma nova unidade psicologicamente complexa. A fusão é a geradora da síntese criadora. Para Wundt, a síntese criadora é a prova cabal da causalidade psíquica. Ela monstra que os fenômenos mentais obedecem a leis de conexão e geração próprias que não se ajustam às leis da física ou da fisiologia mecânica.
Observemos isso com um exemplo já apresentado. Se você tocar no piano as notas Dó, Mi e Sol isoladamente, você terá apenas a experiência de três sensações auditivas distintas. No entanto, quando essas notas são tocadas simultaneamente, a fusão de seus elementos gera na consciência uma experiência qualitativamente nova, que seria um acorde musical. O sentimento de harmonia e a qualidade estética do acorde são um produto da síntese criadora, pois não existiam em nenhuma das notas isoladas e surgem puramente da atividade unificadora da mente sobre o estímulo físico.
Paralelismo Psicofísico e Causalidade PsíquicaEditar
O paralelismo psicofísico foi um dos conceitos mais importantes e debatidos no século XIX durante o processo de fundação da psicologia científica. Ele surgiu como uma alternativa teórica para solucionar o clássico problema mente-corpo. O conceito foi formulado de forma a tanto o dualismo substancial, que dividia o ser humano em duas substâncias isoladas cuja forma de interação era desconhecida, quanto o materialismo reducionista, que reduzia a mente a uma mera secreção cerebral ou processo físico ou fisiológico.
Para Fechner, o paralelismo era a manifestação de um monismo neutro, ou teoria de duplo aspecto. Ele defendia que a matéria (corpo) e o espírito (mente) não são substâncias diferentes, mas sim dois modos de aparência ou perspectivas distintas de uma única e mesma realidade subjacente, teoria sobre o qual fundamental grande parte de seu projeto científico.
Wilhelm Wundt também adotou o termo paralelismo psicofísico, mas realizou uma redefinição epistemológica radical do conceito, visando se afastar da metafísica. Ele rejeitava categoricamente qualquer tentativa de transformar o paralelismo em uma doutrina ontológica sobre a natureza última da realidade, transformando-o estritamente um postulado metodológico e heurístico indispensável para a investigação científica. Os processos mentais não sejam reduzidos a processos fisiológicos ou neurais, pois a consciência obedece a leis de conexão próprias, como a causalidade psíquica, que não podem ser explicadas pelas leis da mecânica cerebral.
O que Aconteceu Depois?Editar
No final de sua vida, Wilhelm Wundt era visto de forma ambivalente. Enquanto mantinha o prestígio de fundador da psicologia científica, uma nova geração de psicólogos que buscava se firmar, via como um “pai tribal”, cujo longo domínio de mais de quatro décadas estava desgastado. Ele se tornou o alvo de críticas severas e passou a ser tratado por muitos como o ícone de um passado superado e falido.
Durante a Primeira Guerra Mundial e nos anos que a sucederam, a reputação internacional de Wundt sofreu graves danos. Influenciado por seu filho Max, Wundt adotou posturas políticas ultranacionalistas, chegando a usar a Völkerpsychologie de maneira tendenciosa para criticar os inimigos da Alemanha. Essa postura inflamou um forte preconceito anti-alemão, especialmente nos Estados Unidos, onde ex-alunos e intelectuais americanos passaram a ver ele como uma mente maligna e autoritária, acelerando a rejeição de suas obras em solo estrangeiro.
A maior frustração de Wundt no fim da vida ocorreu no âmbito acadêmico alemão. Ele sempre defendeu que a psicologia era uma ciência propedêutica e uma aliada indispensável da filosofia, devendo permanecer integrada a esta. No entanto, os filósofos acadêmicos de sua época, especialmente os neokantianos e fenomenologistas, rejeitaram veementemente o que chamavam de “psicologismo de Wundt”, ou seja, a redução da lógica e da validade do conhecimento a fatos psicológicos. Em 1913, após a contratação de um psicólogo experimental para a cadeira de filosofia em Marburg, mais de cem professores de filosofia assinaram um protesto público exigindo que psicólogos fossem banidos dos departamentos de filosofia. Esse movimento resultou no progressivo divórcio institucional entre a psicologia e a filosofia, uma separação que Wundt lamentou e combateu até a sua morte em 1920.
A partir da década de 1890, uma forte onda de positivismo, inspirada pela filosofia de Ernst Mach e Richard Avenarius, varreu a psicologia experimental. Jovens psicólogos, incluindo os assistentes do próprio Wundt, rejeitaram conceitos fundamentais do sistema de Leipzig, como a apercepção, a causalidade psíquica e a síntese criadora, tomando eles como metafísica, exatamente o oposto do que desejava seu formulador. Eles preferiam um modelo elementarista e reducionista, focado na descrição de relações funcionais.
Nos EUA, a influência da teoria da evolução de Darwin deslocou o interesse da estrutura da consciência para as suas funções de adaptação ao meio, o chamado funcionalismo. Com o surgimento e o fortalecimento do behaviorismo e a eliminação da mente como objeto de estudo, o voluntarismo de Wundt perdeu qualquer espaço. Na Europa, a própria psicologia da Gestalt ergueu-se combatendo o elementarismo que havia sido falsamente associado a Wundt.
O golpe final veio após a Primeira Guerra Mundial, quando a Alemanha mergulhou em colapso econômico. Diante da “crise da psicologia”, os pesquisadores precisaram provar a utilidade prática da ciência que praticavam para sobreviver, o que já acontecia nos EUA, voltando-se para a psicologia militar, industrial, educacional e clínica. Wundt, que sempre desprezou a psicologia aplicada, teria visto seu sistema dinâmico de laboratório perder todo o fôlego diante das pressões pragmáticas da época, ainda que mantivesse sua fama e sua alcunha maior.
A Psicologia Científica na InglaterraEditar
O surgimento da psicologia na Inglaterra seguiu um caminho bastante distinto do modelo laboratorial alemão, focado na introspecção e na busca de leis universais. A psicologia britânica formou-se na intersecção de duas grandes forças intelectuais, que são as filosofias empirista e associacionista, e a biologia evolutiva.
No empirismo, pensadores como John Locke postularam que a mente humana nasce como uma tabula rasa ou uma folha em branco, e que absolutamente todo o conhecimento deriva da experiência sensorial. No associacionismo, filósofos como David Hume, James Mill e John Stuart Mill afirmavam processos mentais complexos são formados pela associação contínua de ideias simples e sensações, governadas por leis lógicas. tais como similaridade, contiguidade e causa e efeito.
A despeito de sua rica tradição filosófica, o maior divisor de águas para a ciência britânica foi a publicação de A Origem das Espécies, em 1859. A teoria da evolução natural de Darwin, trouxe novas e profundas questões para o estudo da mente britânica. Se humanos e animais compartilham ancestrais comuns, argumentava-se que deveria haver uma continuidade não apenas física, mas também mental entre as espécies, conectando a psicologia ao estudo da zoologia, dando origem à Psicologia Comparada. Além disso, a mente e a consciência deixaram de ser vistas apenas como objetos metafísicos e passaram a ser estudadas como ferramentas biológicas de adaptação, que evoluíram porque ajudavam o organismo a sobreviver em seu ambiente, sendo fundamental para a criação do funcionalismo.
Com a validação da biologia evolutiva, o estudo da inteligência animal explodiu no Reino Unido, George Romanes foi um dos primeiros a tentar sistematizar o comportamento animal. Contudo, seu método anedótico foi duramente criticado por ser antropomórfico, ou seja, por atribuir pensamentos e emoções humanas complexas a animais. Seu colega Conwy Lloyd Morgan introduziu mais rigor científico à área através do que ficou mundialmente conhecido como o Cânone de Morgan, ou princípio da parcimônia. A regra dizia que um comportamento animal não deve ser interpretado como resultado de uma faculdade mental superior se puder ser explicado por um processo psicológico mais básico, como o instinto ou o aprendizado por tentativa e erro. Apesar de a perspectiva de ambos ter sido abandonada, a Psicologia Comparada se tornou um dos principais ramos da psicologia moderna.
Francis Galton e a Psicologia DiferencialEditar
Francis Galton (1822-1911) foi um cientista e polímata britânico de inteligência extraordinária, com um QI estimado por volta de 200, algo extremamente raro, além de ser primo de Charles Darwin. Galton é amplamente reconhecido como pioneiro ao incorporar o estudo sistemático das diferenças individuais e da herança mental na nova psicologia, uma área que era ignorada ou rejeitada por pioneiros experimentalistas como Wilhelm Wundt.
Galton interessou-se pela medição das variações da inteligência e das capacidades humanas. Ele fundou um laboratório antropométrico onde testou a acuidade sensorial, a força e os tempos de reação de milhares de pessoas. Além disso, baseando-se na premissa empirista de John Locke de que todo o conhecimento vem da percepção, Galton assumiu que os indivíduos mais inteligentes seriam aqueles com as capacidades sensoriais e motoras mais aguçadas. Ele foi o inventor do conceito de testes mentais, termo posteriormente cunhado por seu aluno dos EUA, James McKeen Cattell. Galton também desenvolveu o método experimental de associação de palavras, medindo o tempo de reação mental e demonstrando a enorme influência das experiências da infância e do inconsciente no pensamento adulto, um trabalho que impressionou profundamente Sigmund Freud.
Ele também foi um dos primeiros a fazer uso amplo do questionário psicológico para investigar imagens mentais, constatando para sua própria surpresa que a maioria dos cientistas relatava ausência de imagens mentais nítidas, em contraste com relatos muito mais detalhados fornecidos por mulheres e crianças.
Para conduzir medições em larga escala, ele inventou vários instrumentos clássicos e, para analisar suas enormes bases de dados, Galton desenvolveu conceitos estatísticos fundamentais, como a correlação. Essa tradição quantitativa foi depois aperfeiçoada por outros britânicos, como Charles Spearman, criador da análise fatorial e do conceito de fator g de inteligência geral, fundando a base da psicometria moderna. e influenciando de forma decisiva a psicologia dos testes nos EUA.
ConclusãoEditar
A história da psicologia é definida pelo paradoxo de ter um “longo passado” e uma “curta história”, podendo ir do De Anima de Aristóteles até a a fundação do laboratório de Wilhelm Wundt na Universidade de Leipzig, em 1879. A psicologia, assim, mostra que tem uma rica história, com muitos personagens, conceitos e acontecimentos importantes, de modo que qualquer narrativa sobre sua composição elegerá heróis e vilões, dará mais relevância para alguns, menos para outros e o esquecimento para a maioria.
O texto propõe que Immanuel Kant foi uma figura central na composição da psicologia científica. Ele propôs que a mente humana é um agente ativo que organiza o conhecimento através de estruturas a priori, tais como o tempo, o espaço e as categorias do entendimento. Assim, ele introduziu o conceito de “sujeito transcendental” como a estrutura universal que garante a unidade da consciência.
Contudo, Kant impôs um “veto” ao status científico da psicologia, defendendo a base na matematização. A superação desse veto ocorreu através da “naturalização” de Kant pela fisiologia. Johannes Müller, com a Teoria das Energias Nervosas Específicas, mostrou que a sensação é mediada pelo sistema nervoso, não sendo uma cópia fiel do mundo externo. Hermann von Helmholtz avançou essa ideia ao postular que as estruturas a priori de Kant seriam, na verdade, características da anatomia e fisiologia humanas. Ele propôs o conceito de “inferências inconscientes” para explicar como interpretamos dados sensoriais. Nesse contexto, Friedrich Albert Lange defendeu uma “psicologia sem alma”, rejeitando a metafísica e argumentando que o estudo científico deve focar apenas nas aparências e fenômenos observáveis, reduzindo o objeto da psicologia a dados empíricos e correlações fisiológicas.
Gustav Theodor Fechner foi crucial ao oferecer a base matemática e experimental que faltavam, por meio da Lei de Weber-Fechner. Ele também padronizou e melhorou métodos para o estudo dos limites e constantes sensoriais, que se tornaram a base metodológica da psicologia experimental.
Wilhelm Wundt não apenas fundou um laboratório, como também arquitetou um sistema complexo. Para Wundt, o objeto da psicologia é a experiência imediata, criando conceitos como voluntarismo, causalidade psíquica, apercepção, entre outros. Além disso, ele também criou a psicologia dos povos.
Diferente do foco laboratorial alemão, a psicologia britânica foi moldada pela filosofia empirista e, crucialmente, pela teoria da evolução de Charles Darwin. Neste contexto, Galton ganha destaque, por ter fundado o laboratório antropométrico, inventado o conceitos de “testes mentais”, pelo uso de estatísticas no estudo da psicologia e ter influenciado o desenvolvimento da psicometria e a análise fatorial (com Charles Spearman), consolidando uma tradição que focava mais na variabilidade genética e na inteligência do que na estrutura da consciência em si.
ReferênciasEditar
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AutoriaEditar
Este verbete foi escrito por André Elias Morelli Ribeiro e faz parte do projeto Materiais didáticos do Portal História da Psicologia